Quando a razão judaica se volta para uma outra tradição religiosa, ela não pergunta primeiro "em que diferimos?", mas sim "o que aqui é verdadeiro?". É um hábito antigo do pensamento racionalista da Torá: reconhecer a verdade onde quer que ela apareça, e dela aproximar-se com honestidade. Aplicado ao Islã, esse hábito produz uma das posições mais notáveis da nossa tradição — uma posição de respeito fundamentado, não de mera tolerância diplomática.
O presente ensaio não é uma análise do Islã por dentro. É uma exposição da posição judaica a seu respeito — como a halachá e a filosofia da Torá, sobretudo na obra do Rambam (Maimônides), avaliaram a fé daqueles a quem a tradição chama ishmaelim, os descendentes de Yishmael. O foco é o que nós dizemos, com cuidado e generosidade.
O ponto central: não são idólatras
A determinação mais importante do Rambam a respeito dos ishmaelim é também a mais clara: eles não são idólatras. Em suas decisões haláchicas e em sua Responsa, o Rambam estabelece que os muçulmanos professam a unidade absoluta de D'us, rejeitam imagens e afastam-se por completo do culto de ídolos. Não há entre eles, segundo essa avaliação, qualquer vestígio daquilo que a Torá combate sob o nome de avodá zará — o serviço prestado a algo que não é o Criador.
Essa distinção não é decorativa. Na estrutura do pensamento da Torá, a linha que separa o monoteísmo da idolatria é a linha mais decisiva de todas. De um lado está o reconhecimento de uma Causa única, transcendente, sem forma e sem semelhante; do outro, a atribuição de poder ou divindade ao que é parte do mundo. Ao colocar os ishmaelim firmemente do lado do monoteísmo, o Rambam os situa, aos olhos da razão judaica, num terreno fundamentalmente diferente do das religiões idólatras.
Para a halachá, isso tem consequências concretas. O modo como se pode relacionar-se, ensinar e conviver com quem afirma a unidade de D'us difere radicalmente do que se aplica ao culto idólatra. O monoteísmo estrito muda tudo.
O terreno comum: a unidade de D'us
O que a razão judaica reconhece no Islã é, antes de tudo, um terreno partilhado: o monoteísmo puro. A afirmação de que D'us é um e único; a rejeição de toda imagem e representação; a ênfase na transcendência absoluta do Criador, que não se confunde com nada do mundo criado. Esses não são pontos menores — são o coração daquilo que a Torá pede da humanidade desde Avraham.
E há mais do que uma afinidade de ideias. Há um laço que a própria Torá traça. Yishmael, filho de Avraham, não é apresentado como um estranho, mas como um filho amado, sobre quem repousa uma bênção explícita de D'us:
Mais adiante, quando Hagar e o menino são enviados ao deserto, a promessa é renovada — D'us garante que de Yishmael também sairá uma grande nação:
A tradição lê nesses versículos um reconhecimento permanente. Os filhos de Yishmael carregam uma bênção que parte de Avraham, o homem que primeiro proclamou ao mundo a unidade do Criador. Quando essa descendência professa, séculos depois, um monoteísmo estrito, a razão judaica não vê nisso uma coincidência, mas um eco daquela origem comum.
O reconhecimento do Criador
Por tudo isso, a tradição racionalista trata o muçulmano com respeito sincero. No mínimo, como um ben Noach — um filho de Noach que cumpre o que a Torá espera da humanidade: reconhecer o Criador e afastar-se da idolatria. Mas a tradição reconhece, na verdade, algo que vai além disso: alguém que não apenas evita o erro, mas professa positivamente o monoteísmo, afirmando a unidade de D'us como verdade central de sua vida.
Esse reconhecimento é precioso justamente porque é raro. A história humana esteve durante milênios mergulhada na multiplicação dos deuses e das imagens. Que uma vasta porção da humanidade afirme, com seriedade e devoção, que há um único Criador transcendente é, aos olhos da Torá, um avanço de imensa dignidade — um passo real na direção daquilo que a profecia sempre esperou para todas as nações.
Onde a fé judaica afirma a si mesma
Há, naturalmente, pontos em que a teologia judaica difere — e é parte do respeito expô-los com clareza, sem qualquer ataque. Discordar em questões de fé não exige desprezo; exige apenas honestidade sobre o que cada tradição sustenta a respeito de si mesma.
A fé judaica afirma duas coisas sobre si própria que lhe são essenciais. A primeira é a eternidade e a imutabilidade da Torá de Moshé: entre os treze princípios formulados pelo Rambam está a convicção de que esta Torá não será trocada nem substituída, mas permanece a aliança duradoura entre D'us e Israel. A segunda é a singularidade da profecia de Moshé — também um dos treze princípios —, a crença de que nenhum profeta atingiu ou atingirá o grau de clareza com que Moshé recebeu a revelação.
É importante compreender a natureza dessas afirmações. Elas não são juízos sobre os outros, e muito menos acusações. São declarações que a fé judaica faz sobre o seu próprio fundamento, sobre o significado da aliança que recebeu. Saadia Gaon, séculos antes, já articulara a confiança da razão judaica em que a verdade revelada e a verdade alcançada pelo intelecto não se contradizem. Sustentar com serenidade aquilo em que se crê é compatível com o mais profundo respeito por quem crê de modo diferente.
A esperança partilhada
O que une, ao fim, é maior do que o ensaio pode dizer em poucas linhas. Os profetas de Israel descreveram um futuro em que a humanidade inteira, falando enfim uma só linguagem espiritual, invoca o Nome do Criador:
É a mesma esperança que Yeshayá pinta como o fim de toda guerra entre as nações — o dia em que as espadas se tornam arados e nenhum povo ergue a espada contra outro:
Para a razão judaica, a difusão do monoteísmo entre as nações — e entre os filhos de Avraham em particular — não é um obstáculo a essa esperança, mas um caminho em sua direção. Cada afirmação sincera de que há um só Criador aproxima o mundo daquele dia em que todos, juntos, o invocarão.
A postura da razão e do respeito
A atitude que se desenha aqui é simples de enunciar e exigente de viver. Discordar em pontos de fé sem qualquer desprezo. Reconhecer, com alegria intelectual, o que há de verdadeiro e elevado no monoteísmo de outra tradição. E buscar, sempre, a convivência e a paz entre os que se reconhecem como filhos do mesmo pai, Avraham.
No fundo, essa postura repousa sobre o princípio que a Torá coloca já em sua primeira página: que todo ser humano é portador do tzelem Elokim, a imagem de D'us. É essa dignidade comum que torna possível olhar o outro não como adversário, mas como alguém que, à sua maneira, também volta o rosto para o Criador. Que dela nasça a paz entre os filhos de Avraham, e que se aproxime depressa o dia em que todos invoquem, juntos, o único Nome.
Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides) e de Saadia Gaon. As fontes clássicas citadas são a Torá (Bereshit 17:20; 21:13), os profetas (Tzefaniá 3:9; Yeshayá 2:4), e a obra haláchica e filosófica do Rambam (Mishné Torá, Hilchot Melachim; a determinação de que os ishmaelim não são idólatras; e os treze princípios sobre a imutabilidade da Torá e a profecia de Moshé). A redação é original; o tom busca o respeito e a exatidão.