Há uma pergunta que nenhuma pessoa honesta consegue desviar para sempre. Mais cedo ou mais tarde ela chega — diante de uma criança doente, de uma morte sem sentido, de um homem bom esmagado por uma desgraça que não pediu enquanto outro, cruel, atravessa a vida ileso. Por que o justo sofre e o ímpio prospera?
Antes de qualquer resposta, é preciso dizer algo: esta pergunta é legítima. Ela não é falta de fé, nem rebeldia, nem fraqueza espiritual. É, ao contrário, uma das perguntas mais sagradas que um ser humano pode fazer — e a Torá, longe de escondê-la, a coloca na boca dos seus maiores.
A Torá não tem medo da pergunta
Quando Moshé pede para conhecer a D'us, o que ele pede é precisamente isto — entender os caminhos da justiça divina:
O Talmud (Berachot 7a) lê este versículo como a grande pergunta: Moshé pede a D'us que lhe explique por que há justos a quem vai bem e justos a quem vai mal, ímpios que prosperam e ímpios que se arruínam. Não é uma pergunta de um cético — é a pergunta do maior dos profetas.
Séculos depois, Yirmiyá (Jeremias) leva a mesma queixa diante de D'us, sem rodeios:
E há um livro inteiro do Tanach dedicado a esta única ferida: o livro de Iyov (Jó). Um homem íntegro perde tudo — filhos, bens, saúde — sem ter feito nada para merecê-lo. O salmista Assaf confessa o mesmo abalo: ao ver a tranquilidade dos perversos, "quase me resvalaram os pés" (Tehilim 73). Kohelet também o vê e não disfarça: há justos a quem sucede conforme as obras dos ímpios, e ímpios a quem sucede conforme as obras dos justos.
A primeira coisa que a tradição nos ensina, portanto, não é uma resposta. É uma permissão. A pergunta é antiga, é honrada, e está escrita no coração das nossas Escrituras. Quem sofre e pergunta "por quê?" está em companhia de Moshé.
A recusa das respostas fáceis
Mas se a pergunta é sagrada, há uma resposta que a Torá rejeita com veemência — e é justamente a mais comum, a que primeiro nos vem aos lábios: "ele deve ter pecado".
O livro de Iyov é, em grande parte, a desmontagem dessa resposta. Os três amigos de Iyov chegam para consolá-lo e acabam fazendo o contrário: insistem, capítulo após capítulo, que se ele sofre é porque pecou — que a desgraça é prova da culpa. É a teologia mais tranquilizadora que existe, porque mantém o mundo arrumado e nos protege do medo: se o sofrimento é sempre castigo merecido, então os que não sofrem estão seguros.
E o veredito divino sobre essa teologia é demolidor. No fim, D'us não repreende Iyov — repreende os amigos:
É um dos momentos mais surpreendentes da Escritura. Iyov, que gritou, protestou e exigiu uma explicação, é declarado quem falou corretamente. Os amigos piedosos, que defenderam a justiça de D'us culpando a vítima, são os que erraram. A lição é severa e libertadora ao mesmo tempo: dizer a quem sofre "você sofre porque pecou" não é apenas cruel — é teologicamente falso.
A quem sofre não devemos uma explicação que o acuse. Devemos uma presença que não o abandone.
O que a razão pode honestamente afirmar
Recusar as respostas fáceis não significa recusar todo entendimento. A tradição racionalista — sobretudo o Rambam (Maimônides), no Guia dos Perplexos (Parte III), e Saadia Gaon, em Crenças e Opiniões (Tratado V) — oferece algumas verdades sóbrias que a razão pode sustentar, sem por isso pretender resolver tudo.
A primeira é que nem todo sofrimento é castigo individual. O Rambam observa que a maior parte do mal que aflige os homens não desce do céu como sentença decretada contra esta ou aquela pessoa. Vem de duas outras fontes. Há o mal que os seres humanos fazem uns aos outros — a violência, a injustiça, a guerra, a ganância: esse mal é fruto da liberdade humana, e responsabilizar D'us por ele seria culpá-Lo pelo dom que nos torna humanos. E há o mal que decorre de sermos criaturas físicas, mortais, num mundo material — corpos que adoecem, envelhecem e se quebram. Não somos anjos; somos feitos de matéria, e a matéria está sujeita à perda. Esse é o preço de existir, e não a marca de uma culpa.
A segunda verdade é que a providência divina opera de modos que não conseguimos ler de fora. Não temos acesso à contabilidade do universo. Quando olhamos um único episódio — esta dor, este injusto sucesso — vemos um fragmento arrancado de uma trama que não enxergamos inteira. Saadia Gaon insistia que parte do que chamamos de injustiça aparente se dissolve quando se considera o quadro completo, que inclui aquilo que não vemos: o que vem antes, o que vem depois, e o que vem além desta vida.
Os limites do que podemos saber
É aqui que o livro de Iyov entrega a sua resposta mais profunda — e o mais notável é que não é uma explicação. Quando D'us finalmente responde a Iyov, dos capítulos 38 a 41, não lhe diz por que sofreu. Em vez disso, abre diante dele a imensidão da criação:
Pergunta após pergunta, D'us conduz Iyov pelos limites do oceano, pelos caminhos da luz, pela ordem das estrelas, pelos instintos dos animais selvagens — tudo o que o homem não fez, não governa e mal compreende. A mensagem não é uma humilhação. É um redimensionamento. Há uma ordem no mundo, vasta e real, da qual só apreendemos uma fração mínima. E a partir desse fragmento exigimos julgar o todo.
Isto não é uma fuga. É a forma mais honesta de humildade que existe — a humildade epistemológica. Reconhecer que não temos a visão do conjunto não é abandonar a razão; é a razão chegando lucidamente ao seu próprio limite. O Rambam diria que muito do nosso tormento diante do mal nasce de exigirmos da Criação que ela se ajuste à medida da nossa compreensão, como se o universo nos devesse transparência. Iyov se aquieta no fim não porque foi convencido por um argumento, mas porque compreendeu de quem é a perspectiva que lhe falta.
Esta vida não é o balanço final
Há ainda uma afirmação que a tradição faz com firmeza, e sem a qual o problema se torna realmente insuportável: esta vida não é a soma total da existência. A crença na continuidade da alma e no olam habá — o mundo vindouro — não é um consolo inventado para tapar o buraco. É a convicção de que a balança que vemos aqui está incompleta. O justo que sofreu e morreu sem ver reparação, o ímpio que prosperou e nunca prestou contas — nenhum dos dois teve a última palavra dita sobre si nesta vida.
Saadia Gaon argumentava que a própria justiça de D'us exige essa continuidade: um mundo em que a virtude e a maldade terminassem igualadas no túmulo seria um mundo sem sentido moral. A injustiça aparente do presente é precisamente aparente — uma fração de um relato cujo fim ainda não foi lido. Devarim afirma sobre D'us:
Note-se: o versículo não diz "todos os Seus caminhos nos parecem justos". Diz que são justos — e deixa em aberto o espaço entre o que é e o que conseguimos enxergar. É nesse espaço que vive a fé.
O que fazer com a dor do inocente
Resta a parte mais importante, porque é a única que está em nossas mãos. Diante do sofrimento de um inocente, a tarefa não é explicá-lo — é responder a ele.
O erro dos amigos de Iyov foi transformar a dor de um homem num problema teológico a resolver. Tinham respostas; faltava-lhes compaixão. A Torá nos chama ao oposto. Diante de quem sofre, não somos enviados como advogados de defesa de D'us, munidos de fórmulas. Somos enviados para consolar, para amparar, para chorar junto, para combater a injustiça onde podemos desfazê-la, e para sustentar a fé de quem fraqueja sem nunca fingir que entendemos o que não entendemos.
A fé madura não é a que tem todas as respostas. É a que consegue olhar de frente para o sofrimento do inocente, sustentar a pergunta sem perder D'us, recusar tanto o clichê que acusa a vítima quanto o desespero que abandona o sentido — e, em vez de explicar a dor, sentar-se ao lado de quem a carrega.
Moshé pediu para conhecer os caminhos de D'us e não recebeu a explicação completa que pedia. Iyov exigiu um julgamento e recebeu, no lugar, a vastidão do céu. Talvez seja esta a forma judaica de habitar o mistério: não resolvê-lo, mas viver fiel diante dele. Continuar perguntando, como Moshé. Continuar protestando quando é justo, como Iyov — a quem D'us deu razão. E continuar amando o próximo que sofre, porque é aí, e não nas respostas, que a fé prova que é verdadeira.
Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides), de Saadia Gaon e dos grandes pensadores de Israel. As fontes clássicas (Torá — Shemot 33:13, Devarim 32:4; Iyov, em especial as respostas de D'us nos caps. 38–42 e a condenação dos amigos em 42:7; Yirmiyá 12:1; Tehilim 73; Kohelet; Talmud, Berachot 7a; Rambam, Guia dos Perplexos III; Saadia Gaon, Crenças e Opiniões V) são citadas ao longo do texto; a redação é original.