Filosofia Racionalista · Fundamentos

D'us Pode Fazer o Impossível?

D'us pode tudo — mas o que é, exatamente, "tudo"? A onipotência divina abrange toda a realidade possível. O autocontraditório não é uma coisa que Ele "não consegue" fazer: é simplesmente nada.

Ensaio na tradição racionalista da Torá Ensaio autoral · PT-BR

Mais cedo ou mais tarde, todo estudante de filosofia da Torá esbarra na pergunta capciosa: "Se D'us é onipotente, Ele pode criar uma pedra tão pesada que nem Ele consiga erguer?" Se responder que sim, então há algo que Ele não consegue erguer — logo, não é onipotente. Se responder que não, então há algo que Ele não consegue criar — logo, não é onipotente. A armadilha parece perfeita.

Ela não é. A pergunta soa profunda, mas, examinada com rigor, dissolve-se. E a chave para desfazê-la é uma das contribuições mais importantes da tradição racionalista do judaísmo: entender o que onipotência realmente significa.

O que "tudo" quer dizer

Quando dizemos que D'us é kol yachol — "todo-poderoso", literalmente "capaz de tudo" — o que entra nesse "tudo"? A resposta racionalista é precisa: a onipotência divina abrange tudo o que é genuinamente possível. E isso, longe de ser uma restrição imposta a D'us, é simplesmente a afirmação de que Ele pode realizar qualquer coisa que de fato seja uma coisa.

O ponto decisivo é perceber que o "logicamente impossível" não é uma coisa. Um círculo quadrado não é um objeto difícil de fabricar; não é objeto algum. As palavras "círculo quadrado" são apenas duas palavras coladas — um ruído verbal sem referente. Quando peço a alguém que desenhe um círculo quadrado, não estou descrevendo uma tarefa árdua: não estou descrevendo tarefa nenhuma. Não há, ali, nada a ser feito.

O mesmo vale para "fazer com que algo seja e não seja ao mesmo tempo e no mesmo sentido", ou para "fazer 2+2 ser igual a 5". Não são desafios extremos. São contradições — e uma contradição não nomeia um estado de coisas possível. É nada, vestido de gramática.

Eis a inversão crucial: dizer que D'us "não pode" fazer o autocontraditório não aponta uma fraqueza n'Ele, porque ali não existe ação alguma da qual Ele estivesse impedido. Não há nada a fazer. A onipotência é o poder sobre o real, e o autocontraditório está fora do real — não acima dele.

A pedra pesada demais

Voltemos à pedra. "Uma pedra tão pesada que o Onipotente não consiga erguê-la" descreve, na verdade, "um objeto que um ser de poder ilimitado é incapaz de mover". Isso é uma contradição embutida — equivale a pedir "um limite ao ilimitado". A frase tem a forma de uma pergunta, mas o seu conteúdo se autodestrói, exatamente como "círculo quadrado".

Por isso a resposta correta não é "sim" nem "não", mas: a pergunta é incoerente. Não estamos diante de uma falha de poder; estamos diante de uma sentença mal formada que apenas finge descrever algo. Não se desafia a onipotência divina mais do que se a desafia perguntando "que cheiro tem o número sete?". A gramática permite a frase; a realidade não lhe dá referente.

O Rambam e a tradição

Essa não é uma engenhosidade moderna. O Rambam (Maimônides), no Guia dos Perplexos (Moré Nevuchim, terceira parte), trata diretamente da questão. Ele ensina que aquilo que é impossível por sua própria natureza não está incluído no domínio do poder — e que afirmar isso em nada diminui a perfeição divina, assim como não a diminui o fato de D'us não ter corpo. O impossível-em-si não é "uma coisa que falta a D'us"; é uma não-entidade.

O Rambam é cuidadoso: ele distingue entre o que é impossível por sua natureza — e que portanto jamais pode existir, para ninguém — e o que apenas nos parece impossível por limitação do nosso conhecimento. D'us realiza tudo o que pertence à segunda categoria sem qualquer esforço; tudo o que é possível, por mais espantoso que seja para nós, Lhe é trivial. Apenas o autocontraditório em si fica de fora, e fica de fora porque é nada.

Antes dele, a tradição de Israel já caminhava nessa direção, ao insistir que D'us é fonte e garantia da ordem, não sua suspensão arbitrária. A razão — que é dom Seu — reflete a estrutura da realidade que Ele mesmo sustenta.

O que D'us "não pode" — e por quê

A mesma análise resolve outras perguntas clássicas. D'us pode "deixar de ser D'us"? Pode mentir contra a Sua própria natureza? Pode fazer com que o passado não tenha sido?

Em cada caso, a resposta é a mesma: não há ali nenhuma ação real da qual Ele estivesse incapacitado. "D'us deixar de ser D'us" é uma contradição direta — o ser necessário deixando de ser necessário. "Fazer o passado não ter sido" pede que aquilo que foi, ao mesmo tempo, não tenha sido: a velha contradição do ser-e-não-ser, agora aplicada ao tempo. Não é uma proeza grande demais; não é proeza nenhuma.

Quanto a mentir, a Torá é explícita ao ligar a veracidade à própria natureza de D'us:

לֹא אִישׁ אֵל וִיכַזֵּב וּבֶן־אָדָם וְיִתְנֶחָם "D'us não é homem, para que minta, nem filho de homem, para que se arrependa." Bamidbar 23:19

O versículo não descreve um limite externo imposto a D'us, como se houvesse uma mentira que Ele gostaria de proferir mas não consegue. Descreve a Sua natureza: a falsidade é tão alheia ao Seu ser quanto a escuridão é alheia à luz. "D'us mentir contra a Sua natureza" é, de novo, pedir que Ele seja e não seja ao mesmo tempo. Nada a fazer; nada que falte.

Por que isso protege o mundo

Pode parecer que tudo isso são distinções de lógico — mas o que está em jogo é gigantesco. Imagine, por um instante, um "deus" que pudesse de fato violar a lógica: que pudesse fazer 2+2=5, que um triângulo tivesse quatro lados, que algo fosse inteiramente verdadeiro e inteiramente falso ao mesmo tempo. Num mundo governado por tal poder, nenhum conhecimento seria possível.

Pois todo raciocínio depende da estabilidade da contradição: de que, se A é verdadeiro, não-A é falso. Se essa âncora pudesse ser arrancada a qualquer momento, nenhuma inferência valeria, nenhuma promessa significaria nada, nenhuma evidência conduziria a uma conclusão. A própria revelação seria inútil — pois "D'us disse X" não excluiria "D'us disse não-X". Um deus ilógico seria, ironicamente, um deus de quem nada se poderia saber e em quem nada se poderia confiar.

O D'us da Torá é o oposto disso. Ele é a garantia da inteligibilidade do mundo, não sua ameaça. Quando os Sábios falam de D'us como emet — verdade — afirmam justamente que a realidade tem uma textura confiável, sustentada por Ele. É por isso que a Torá nos convoca a conhecer, a investigar, a usar a razão: porque a razão é o instrumento adequado a um mundo coerente, criado por uma sabedoria coerente.

"Há algo maravilhoso demais para D'us?"

Quando os mensageiros anunciam a Avraham e Sará que terão um filho na velhice, e Sará ri de incredulidade, a Torá registra a pergunta que resume toda a questão:

הֲיִפָּלֵא מֵיְהוָה דָּבָר "Haverá algo maravilhoso (ou difícil) demais para o Eterno?" Bereshit 18:14

A resposta da tradição é um sonoro não — e é importante notar o que está sendo afirmado. A palavra-chave é davar: "coisa", "algo". A pergunta diz, com precisão filosófica, "haverá alguma coisa impossível para D'us?". Dar um filho a um casal idoso é improvável, espantoso, está muito além da expectativa humana — mas é uma coisa real, um estado de mundo genuinamente possível. E tudo o que é uma coisa, tudo o que é real, Lhe é possível.

O círculo quadrado, a pedra que vence o ilimitado, o passado desfeito, a mentira contra a própria essência — esses não são davar. Não são coisa alguma. Por isso a sua "impossibilidade para D'us" não conta como exceção à Sua onipotência: não há ali nada que pudesse ter sido feito e não foi.

D'us pode fazer o impossível? A resposta racionalista é serena e exata: D'us pode fazer tudo o que é real. E aquilo que chamamos de "logicamente impossível" não é uma realidade escondida que Lhe escapa — é apenas o eco vazio de palavras que, juntas, não dizem nada. Para tudo o que de fato existe ou pode existir, vale a antiga certeza: nada é maravilhoso demais para o Eterno.

Sobre este ensaio

Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides), de Saadia Gaon e dos grandes pensadores de Israel. As fontes clássicas (Torá, Talmud, Rambam) são citadas ao longo do texto; a redação é original.