"D'us está em toda parte." É uma das frases mais repetidas sobre o Criador — e uma das mais facilmente mal compreendidas. Imaginamos, quase sem perceber, algo como um fluido invisível que preenche cada canto do universo, um gás sutil presente em cada centímetro cúbico do espaço. Essa imagem é confortável, mas é falsa — e a tradição racionalista da Torá a rejeita com firmeza.
O problema é simples: ocupar lugar é uma propriedade dos corpos. Algo que está "espalhado" pelo espaço, preenchendo cada ponto, é por definição material — tem extensão, partes, posição. E D'us, ensina o Rambam (Maimônides), não é corpo nem força dentro de um corpo. Atribuir-Lhe localização física é tão equivocado quanto atribuir-Lhe peso ou cor.
D'us não ocupa lugar
Logo nas primeiras leis do Mishné Torá — em Hilchot Yesodei HaTorá, os fundamentos da Torá — o Rambam estabelece que o Criador não tem corpo nem forma corpórea, e que tudo o que a Escritura diz de Suas "mãos", "olhos" ou movimentos é linguagem figurada, ajustada à capacidade humana de compreender. No Guia dos Perplexos, dedica capítulos inteiros, logo na primeira parte, a demonstrar que termos como "lugar", "descer" e "estar perto", quando aplicados a D'us, jamais podem ser tomados em sentido espacial.
A razão é filosófica, não apenas devocional. Estar num lugar significa ser delimitado por aquilo que está ao redor; significa poder estar aqui e não ali; significa depender do espaço para existir. Tudo isso é próprio do que é criado e finito. D'us, sendo a causa de toda a existência, não pode depender de uma de Suas criaturas — o espaço — para estar onde está. Saadia Gaon já havia argumentado nessa direção: aquilo que criou o tempo e o espaço não está contido neles, da mesma forma que o autor de um livro não vive dentro de suas páginas.
Portanto, "onipresença" não pode significar que D'us esteja fisicamente distribuído pelo cosmos. Se não é isso, o que é?
O sentido correto: nada subsiste sem Ele
A presença de D'us "em toda parte" não é uma presença de localização, mas uma presença de relação causal. Em cada ponto do universo, em cada instante, tudo o que existe depende continuamente Dele para continuar existindo. Não apenas no momento da criação, mas agora, neste segundo: a estrela mais distante, o átomo mais próximo, o pensamento que você forma ao ler esta frase — nada disso se sustenta por si. Tudo é mantido na existência pela vontade contínua do Criador.
É nesse sentido — e somente nesse — que devemos entender a célebre expressão leit atar panui miné, "não há lugar vazio Dele". Lida materialmente, ela sugeriria que D'us preenche o espaço como matéria. Lida racionalmente, diz algo muito mais profundo: não existe nenhum ponto da realidade que esteja fora do alcance do Seu conhecimento, da Sua providência e do Seu poder sustentador. Não há recanto do ser que subsista por conta própria, independente Dele. Sua "presença" é a dependência total de tudo em relação à Sua causalidade.
Por isso o Salmista pode declarar que não há fuga possível:
O Salmo 139 inteiro não descreve um D'us espalhado pelo espaço, mas um D'us de cujo conhecimento e poder nada escapa — nos céus, no abismo, nas trevas e na luz. "Para onde fugir?" não é uma pergunta sobre geografia. É o reconhecimento de que nenhuma realidade existe fora da Sua sustentação. Fugir Dele seria fugir da própria existência.
"Makom": Ele é o Lugar do mundo
Os sábios captaram essa ideia com uma de suas inversões mais belas. Entre os nomes que deram ao Criador está Makom (מָקוֹם), que significa, literalmente, "Lugar". À primeira vista, parece o oposto de tudo o que dissemos — como chamar de "Lugar" Aquele que não tem lugar? Mas o Midrash explica precisamente o sentido (Bereshit Rabá 68):
A inversão é deliberada e exata. Não é o mundo que contém D'us, como um recipiente contém água; é D'us que "contém" o mundo, no sentido de que o mundo só existe porque repousa sobre Ele como sobre seu fundamento. Assim como um ponto no espaço precisa do espaço para estar onde está, toda a realidade precisa do Criador para ser o que é. Ele é o "lugar" de tudo — o solo metafísico sobre o qual a existência inteira se apoia — sem que nada O contenha ou O delimite. O nome "Makom" não localiza D'us; ao contrário, proclama que Ele é o fundamento de toda localização possível.
Então por que a Torá fala de D'us "descer" e "habitar"?
Aqui está o ponto que mais confunde. Se D'us não tem lugar, por que a Torá O descreve "descendo" sobre o Sinai, "habitando" no Templo, estando "perto" de quem O invoca? A resposta da tradição racionalista é que essa é a linguagem da relação e da revelação, não a linguagem da localização.
Quando a Escritura diz que D'us "habita" entre Israel ou "desce" a um lugar, não está informando uma coordenada. Está descrevendo um acontecimento de revelação e de relação: ali, naquele ponto e naquele momento, a Sua presença se torna reconhecível, a Sua providência se manifesta de modo mais claro, há quem O perceba e O busque. A "proximidade" de D'us é espiritual e relacional, jamais espacial. Ele não fica mais perto no sentido de reduzir uma distância física — pois não há distância física a reduzir. Fica "perto" no sentido de que a relação se intensifica.
Observe a condição final: "em verdade". A proximidade não depende de onde a pessoa está parada, mas de como ela se volta para o Criador. Quem O invoca com sinceridade e conhecimento O encontra "perto"; quem se afasta intelectual e moralmente O sente "distante" — embora, em ambos os casos, a dependência ontológica de cada um em relação a Ele seja exatamente a mesma. A distância de D'us é medida em entendimento e retidão, nunca em metros.
A santidade de um lugar e o que não muda
Disso decorre uma consequência importante sobre a santidade do Templo e de Jerusalém. Por que esses lugares são sagrados, se D'us não está "mais lá" do que em qualquer outro ponto? Justamente porque a santidade não significa uma concentração física da presença divina. O Templo é santo por ser o ponto de encontro designado — o foco a partir do qual o povo dirige sua mente e seu coração ao Criador, o centro da revelação e do serviço. Sua santidade está em ser ponto de convergência da relação humana com D'us, não num suposto acúmulo do "material divino" naquele lugar.
O profeta Yeshayahu ouviu os anjos proclamarem uma verdade que abrange toda a realidade:
"A glória" — Sua sabedoria, Seu poder, Sua providência — preenche toda a realidade, porque nada existe que não dependa Dele e não O manifeste. Não é que haja mais "D'us" no Templo e menos no deserto. É que a Sua glória sustenta e atravessa tudo igualmente, e em certos lugares e momentos o ser humano é convidado a reconhecê-la com mais clareza.
Compreender a onipresença assim — como dependência total de tudo em relação ao Criador, e não como difusão de uma substância pelo espaço — guarda intacta a verdade mais fundamental sobre D'us: que Ele é absolutamente não corpóreo, único, e a causa de toda existência. "Em toda parte" não O encolhe ao tamanho do universo. Ao contrário: é o universo inteiro que, a cada instante, repousa Nele.
Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides) e de Saadia Gaon. As fontes clássicas são citadas ao longo do texto: Tehilim (Salmos 139 e 145:18), Yeshayahu 6:3, o Midrash sobre D'us como "Makom" (Bereshit Rabá 68), e o Rambam (Mishné Torá, Hilchot Yesodei HaTorá; Guia dos Perplexos, parte I). A redação é original.