Há uma afirmação que percorre toda a filosofia judaica como uma coluna de sustentação: D'us é perfeito. Não perfeito por comparação — o melhor entre os que existem — mas perfeito por natureza, de modo que a própria categoria de "falha" não se aplica a Ele. A Torá fixa essa ideia numa única palavra: tamim, íntegro, completo, sem fissura.
Repare na estrutura do versículo. Ele não diz apenas que D'us é perfeito — diz que a Sua obra é perfeita. A perfeição do Criador transborda para a criação. Onde há ação divina, não há erro a corrigir, nem rascunho a refazer, nem arrependimento no sentido humano. Toda a discussão deste ensaio é, no fundo, um comentário a esta única frase.
O obstáculo: D'us "Se arrependeu"
Quem leva a sério a perfeição divina logo tropeça num versículo desconcertante. Diante da corrupção da geração do Dilúvio, a Torá afirma:
Lido ao pé da letra, o versículo parece dizer que D'us tomou uma decisão, observou o resultado, descobriu que havia sido um equívoco e lamentou. Isso seria devastador para a ideia de perfeição: implicaria um Criador que não previu o que faria a Sua própria obra, que aprendeu algo novo com o tempo, que reviu um plano. Um ser assim não seria tamim.
A solução não é forçar o texto, mas lê-lo corretamente. A Torá fala a linguagem dos homens. Quando ela atribui a D'us um "coração", um "braço estendido" ou olhos que veem, ninguém imagina que Ele tenha órgãos. São figuras — pontes entre a realidade divina, que nos é inacessível, e a linguagem humana, a única que possuímos. O mesmo vale para as emoções. "Arrependimento", "ira", "tristeza" não descrevem estados internos que se acendem e se apagam dentro de D'us; descrevem a mudança na relação entre Ele e o objeto da Sua ação.
O Rambam, no Guia dos Perplexos, é explícito: a Torá usa termos emocionais a respeito de D'us para descrever os efeitos que percebemos no mundo, não afetos que O atravessam. Quando um rei justo pune um súdito que se corrompeu, dizemos que ele "se voltou contra" aquele homem — mas o rei não mudou; mudou o homem, e com ele a relação. O vayinachem de Bereshit descreve precisamente isso: a humanidade se degradou a ponto de a relação com ela tomar a forma do juízo. O objeto mudou. D'us não.
A presciência resolve o paradoxo
Aqui entra o segundo pilar. Se "arrependimento" significasse que D'us descobriu algo, o problema permaneceria — pois um ser perfeito não pode adquirir conhecimento novo. Mas D'us é onisciente fora do tempo. Ele não previu a corrupção da geração do Dilúvio como quem antecipa um evento futuro; Ele a conhece com o mesmo conhecimento eterno e imutável com que conhece todas as coisas. O passado, o presente e o futuro não são, para Ele, três compartimentos sucessivos.
Isso desfaz por completo a aparência de erro. Um engano pressupõe surpresa: agir esperando um resultado e obter outro. Onde não há surpresa possível, não há engano possível. D'us criou o homem sabendo, desde sempre, tudo o que dele decorreria — inclusive a geração que provocaria o Dilúvio. O versículo não narra uma descoberta divina; narra, em linguagem humana, o ponto da história em que a relação assumiu a forma do juízo já previsto.
Decretos que "mudam": correção ou sistema?
Surge então uma objeção mais sutil. Se D'us decreta algo e a teshuvá (retorno) ou a tefilá (oração) o "mudam", não seria isso prova de que o decreto original estava errado, e que D'us o corrige? O Talmud, afinal, ensina que o arrependimento, a oração e a caridade revertem o rigor de uma sentença.
A resposta é que estamos confundindo correção com sistema. Imagine uma lei que diz: "quem agir de tal modo receberá tal consequência; quem se transformar receberá outra". Quando alguém se transforma e passa a receber a segunda consequência, a lei não foi corrigida — ela funcionou exatamente como foi escrita. A mudança não está na lei; está na pessoa, que migrou de uma cláusula para outra.
Os decretos divinos são condicionais por desenho. Eles se aplicam a uma pessoa enquanto ela for quem é. Quando alguém faz teshuvá genuína, não está pedindo a D'us que admita um equívoco e revogue uma decisão; está se tornando uma realidade diferente, à qual um decreto diferente — igualmente previsto desde sempre — já se aplicava. A oração e o arrependimento não dobram a vontade divina: eles transformam quem ora, e essa transformação o reposiciona dentro de uma ordem que já contemplava ambos os caminhos.
Por isso a perfeição permanece intacta. Um sistema que prevê a mudança da pessoa e responde a ela é mais perfeito, não menos, do que um decreto cego e fixo. A flexibilidade aparente é, na verdade, a marca de uma sabedoria que nada deixou de fora.
A perfeição da criação e os limites da nossa visão
Resta a objeção mais cotidiana: o mundo não parece perfeito. Há sofrimento, injustiça aparente, catástrofe. Como sustentar a perfeição da obra diante disso?
A Torá responde no primeiro capítulo, ao encerrar a criação:
O tov me'od — "muito bom" — não é um elogio sentimental ao mundo. É uma afirmação sobre a obra vista como um todo, do ponto de vista de quem a concebeu. Saadia Gaon, em sua análise da providência, insiste que aquilo que chamamos de mal é quase sempre um juízo parcial: avaliamos um fragmento isolado de uma trama cuja totalidade não enxergamos. O que parece falha na criação é, em rigor, a fronteira da nossa compreensão, não um defeito na coisa criada.
A tradição condensou essa postura numa expressão célebre: gam zu letová — "também isto é para o bem". Não como consolo ingênuo, mas como conclusão filosófica: se a obra de uma Causa perfeita nos parece imperfeita, a hipótese racionalmente mais sólida não é que a obra falhou, e sim que a nossa leitura é incompleta. O telespectador que entra no meio de uma história e a julga absurda erra não por falta de inteligência, mas por falta da trama inteira.
Isto não exige que se chame "bom" a tudo o que dói. Exige apenas reconhecer que o juízo de imperfeição sobre a obra divina é um juízo feito de dentro, com informação parcial — ao passo que a afirmação de perfeição é feita por Aquele que vê o conjunto.
A consequência: confiança na justiça de D'us
Tudo isso converge numa conclusão prática, não apenas teórica. Se D'us é perfeito, se não erra, se não Se surpreende nem revisa, então a Sua justiça é absoluta. Aquilo que vem d'Ele não pode ser injusto, ainda que nos pareça. O salmista o formula com força:
O ein avlá — "não há iniquidade" — fecha o círculo aberto em Devarim 32:4, onde o mesmo D'us é chamado tzaddik vayashar Hu, "justo e reto é Ele". A perfeição divina não é uma especulação distante; ela é o fundamento da confiança. Quem compreende que D'us não comete erros compreende também que não há, em parte alguma do Seu governo do mundo, um lapso a temer ou uma injustiça a denunciar.
Essa confiança não é resignação passiva, e muito menos a renúncia a perguntar. O judaísmo racionalista nunca proibiu a pergunta; ele apenas situa a pergunta dentro de um pressuposto firme. Investigamos, questionamos, exigimos compreender — mas a partir da certeza de que, na origem de tudo, há uma Rocha cuja obra é perfeita e cujos caminhos são justiça. O esforço intelectual de entender o mundo é, então, o esforço de aproximar a nossa visão parcial daquela visão íntegra que viu tudo e disse: muito bom.
Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides), de Saadia Gaon e dos grandes pensadores de Israel. As fontes clássicas (Torá — Devarim 32:4; Bereshit 6:6 e 1:31; Tehilim 92:16 —, Talmud, Rambam no Guia dos Perplexos e no Mishné Torá, e Saadia Gaon) são citadas ao longo do texto; a redação é original.