Filosofia Racionalista · Fundamentos

A Incorporeidade de D'us

D'us não é corpo, não tem forma, imagem, lugar nem dimensão. Quando a Torá fala da "mão" ou dos "olhos" do Criador, ela fala a linguagem dos homens — não descreve um ser físico. Eis o terceiro dos treze princípios, e a depuração do próprio conceito de D'us.

Ensaio na tradição racionalista da Torá Ensaio autoral · PT-BR

O terceiro dos treze princípios da fé, formulados pelo Rambam (Maimônides), afirma algo que a mente tende a resistir, mas que a razão não pode negar: D'us não é corpo, nem força residente num corpo. Não tem forma, nem imagem, nem dimensão, nem lugar. Não ocupa espaço, não se move, não tem em si nem direita nem esquerda, nem frente nem trás, nem alto nem baixo. Tudo aquilo que pertence aos corpos físicos está absolutamente ausente d'Ele.

Este princípio não é um detalhe técnico da teologia. É a fronteira que separa o conhecimento verdadeiro de D'us da idolatria — e, como veremos, é também uma exigência direta da própria unidade divina. Quem imagina D'us com forma não cometeu apenas um erro de imaginação: trocou o Criador por uma figura mental, por um ídolo invisível.

"Não vistes forma alguma"

A base escriturística do princípio é explícita e severa. Quando a Torá relembra a revelação no Sinai, ela insiste num ponto que à primeira vista poderia parecer secundário, mas que é, na verdade, o centro de tudo:

וְנִשְׁמַרְתֶּם מְאֹד לְנַפְשֹׁתֵיכֶם כִּי לֹא רְאִיתֶם כָּל תְּמוּנָה בְּיוֹם דִּבֶּר יְהוָה אֲלֵיכֶם בְּחֹרֵב מִתּוֹךְ הָאֵשׁ "Guardai, pois, com muito cuidado, as vossas almas — porque não vistes forma alguma no dia em que o Eterno vos falou em Chorev, do meio do fogo." Devarim 4:15

A Torá não diz apenas "não fizestes imagem". Ela diz que não havia o que ver. No momento mais elevado da história — quando uma nação inteira ouviu a voz do Criador — não houve nenhuma temunah, nenhuma figura, nenhum contorno. O verso prossegue advertindo precisamente contra o perigo que daí decorre: não corromper-se fazendo imagem de qualquer forma, de homem ou de animal. A ausência de forma no Sinai é apresentada como a própria razão da proibição de toda imagem.

O profeta leva o mesmo argumento ao seu limite lógico, perguntando o que seria absurdo perguntar de qualquer coisa que tivesse forma:

וְאֶל מִי תְּדַמְּיוּן אֵל וּמַה דְּמוּת תַּעַרְכוּ לוֹ "A quem, então, comparareis D'us? Que imagem lhe assemelhareis?" Yeshayahu 40:18

A pergunta é retórica porque não há resposta possível. Comparar pressupõe semelhança de gênero; mas D'us não pertence a gênero algum. Tudo o que tem forma pode ser comparado a outra coisa que tenha forma. D'us, por não ter forma, escapa por completo a toda comparação.

A Torá fala a linguagem dos homens

Surge então a dificuldade evidente. Se D'us não tem corpo, por que a Torá está repleta de expressões corpóreas? Fala-se da "mão forte" do Eterno, dos "olhos" que percorrem a terra, da "face" que se ilumina ou se oculta, dos "ouvidos" que escutam. D'us "desce" sobre o Sinai, "se assenta" nos céus, "passa" diante de Moshé. Como conciliar tudo isso com a incorporeidade absoluta?

A resposta dos Sábios é um princípio de leitura tão antigo quanto fundamental:

Dibrá Torá kilshon bnei adam — "A Torá falou na linguagem dos filhos do homem." A Escritura se exprime de maneira que a mente humana possa receber. Atribui a D'us mãos, olhos e face não porque Ele os possua, mas porque a linguagem humana não dispõe de outro modo de falar de ação, de conhecimento e de presença a quem só conhece o mundo através do corpo.

Toda língua humana nasceu da experiência física. Quando dizemos que alguém "agiu com mão firme" não pensamos literalmente na mão; entendemos a firmeza da ação. A "mão" de D'us significa a Sua ação no mundo; os "olhos", o Seu conhecimento e providência; a "face" iluminada, o favor e a proximidade; a "face" oculta, o afastamento e o juízo. D'us que "desce" significa que Sua ação se torna manifesta num lugar; D'us que "se assenta" significa a permanência e a constância de Seu domínio. Nenhuma dessas expressões descreve um corpo — todas descrevem relação, ato e vontade, na única linguagem que seres corpóreos sabem usar.

Onkelos, o tradutor que remove o corpo

Não se trata de uma interpretação tardia, inventada por filósofos para resolver um constrangimento. A tradição de ler os antropomorfismos como figuras é antiquíssima, e tem testemunha autorizada em Onkelos, cuja tradução aramaica da Torá foi sancionada pelos Sábios do Talmud e lida ao lado do texto sagrado por gerações.

O método de Onkelos é constante e revelador: onde o texto hebraico arrisca sugerir corporalidade, sua tradução a dissolve. Quando a Torá diz que D'us "desceu", Onkelos verte que se revelou ou que Sua glória se manifestou. Onde o texto diz "a mão de D'us", ele frequentemente traduz "o poder" ou "o golpe diante do Eterno". A "voz" que se ouve passa a ser o "verbo" — o Memra — do Eterno. Sistematicamente, ele interpõe termos como "a Glória" (Yekará) e "a Presença" (Shechiná) para que nunca se entenda que o próprio D'us se desloca, se localiza ou age com membros.

Onkelos não está reescrevendo a Torá. Está revelando como ela sempre quis ser lida: o sentido literal das palavras é veículo, não objeto. Quem se prende à letra corpórea perde justamente aquilo que a letra veio transmitir.

Por que um D'us corpóreo seria impossível

Até aqui falamos do testemunho da Torá. Mas o princípio também se sustenta pela razão pura, e o Rambam — seguindo a linha já presente em Saadia Gaon — insiste que devemos compreendê-lo, e não apenas recebê-lo. Todo corpo, por sua própria natureza, carrega três limitações fatais, e nenhuma delas pode ser atribuída ao Criador.

Primeiro, todo corpo é composto. Tem partes, extensão, dimensões; pode ser dividido ao menos em pensamento. Mas aquilo que é composto depende de suas partes para existir, e depende de algo que reúna essas partes. Um ser composto, portanto, não pode ser a causa primeira de tudo — ele mesmo exige uma causa anterior que o componha. D'us, sendo a raiz de toda existência, tem de ser absolutamente simples, sem partes. Isso, por si só, exclui qualquer corpo.

Segundo, todo corpo é limitado. Tem contornos, termina onde outro começa, ocupa este lugar e não aquele. Mas a perfeição de D'us é infinita, e o infinito não tem borda. Atribuir-Lhe forma é atribuir-Lhe fronteira; e atribuir-Lhe fronteira é negar Sua perfeição. Um D'us que estivesse "aqui" e não "ali" já não seria o D'us de quem se diz que toda a Sua glória enche a terra.

Terceiro, todo corpo é perecível e mutável. O que tem matéria está sujeito à mudança, à divisão, ao desgaste, à dissolução — é essa a marca de tudo o que é físico. Um D'us corpóreo seria, em princípio, sujeito à corrupção e à morte, o que é uma contradição em termos. O Eterno é chamado Eterno precisamente porque está acima da mudança.

A incorporeidade como purificação do conceito de D'us

Há, por fim, uma razão que une todas as anteriores: a corporalidade é incompatível com a unidade. Aquilo que tem corpo tem partes, e o que tem partes não é verdadeiramente um — é um conjunto. A unidade absoluta de D'us, declarada no Shemá, só faz sentido se Ele for inteiramente simples. Por isso o princípio da incorporeidade não é separado do princípio da unicidade: é a sua consequência necessária. Negar a forma de D'us é o que torna possível afirmá-Lo verdadeiramente Um.

Aqui reside o perigo espiritual contra o qual a Torá adverte com tanta veemência. Quem imagina D'us com rosto, com mãos, sentado num trono físico, já não está pensando em D'us — está pensando numa imagem, numa figura finita produzida pela própria mente. E essa imagem, embora invisível e interior, é tão idólatra quanto a estátua de pedra. A raiz de boa parte da idolatria humana foi exatamente esta: a incapacidade de conceber o que não tem forma, e a consequente substituição do Criador infinito por um objeto, uma figura, um corpo que a imaginação pudesse abarcar.

Por isso a incorporeidade não é uma negação fria, mas uma purificação. Cada vez que retiramos do conceito de D'us um traço físico — uma forma, um lugar, uma extensão — não O empobrecemos; aproximamo-nos d'Ele. O caminho do conhecimento verdadeiro de D'us passa, em grande parte, por aprender o que Ele não é. Despojar a ideia do Criador de toda corporalidade é remover o ídolo de dentro da própria mente, e deixar em seu lugar o conhecimento exato: o de um Ser que existe, que é Um, e que não se assemelha a nada do que os olhos podem ver nem a nada do que a imaginação pode formar.

Sobre este ensaio

Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides), de Saadia Gaon e dos grandes pensadores de Israel. As fontes clássicas (Torá, Talmud, Rambam) são citadas ao longo do texto; a redação é original.