Filosofia Racionalista · Fundamentos

Por que D'us não pode "tornar-se homem"

A incorporeidade e a imutabilidade de D'us estão no coração do monoteísmo da Torá. Compreendê-las é compreender por que o Criador infinito não pode ser reduzido a uma forma, nem confundido com o finito.

Ensaio na tradição racionalista da Torá Ensaio autoral · PT-BR

No centro do judaísmo está uma afirmação de uma simplicidade desconcertante: D'us é Um. Não "um entre muitos", não "o maior de vários", não uma unidade composta de partes — mas Um no sentido mais absoluto e indivisível que a mente humana pode conceber. Dessa unidade decorre uma consequência que a tradição filosófica de Israel desenvolveu com extraordinário rigor: D'us não tem corpo, não tem forma, e não muda.

Esta não é uma especulação marginal. O Rambam (Maimônides), nas Hilchot Yesodei haTorá — as "Leis dos Fundamentos da Torá" — e nos seus treze princípios da fé, faz da incorporeidade de D'us um dos pilares sobre os quais todo o resto se apoia. Compreender por quê é compreender uma das ideias mais grandiosas que o pensamento humano já formulou.

D'us é Um — e por isso sem forma

O ponto de partida é a própria revelação. No Sinai, o que se ouviu foi uma voz; o que não se viu foi qualquer figura. A Torá insiste neste detalhe com uma precisão que não é acidental:

כִּי לֹא רְאִיתֶם כָּל־תְּמוּנָה בְּיוֹם דִּבֶּר יְהוָה אֲלֵיכֶם בְּחֹרֵב מִתּוֹךְ הָאֵשׁ "Pois não vistes forma alguma no dia em que o Eterno vos falou em Chorev, do meio do fogo." Devarim 4:15

E a conclusão que a Torá extrai dessa ausência de forma é o conhecimento fundamental:

אַתָּה הָרְאֵתָ לָדַעַת כִּי יְהוָה הוּא הָאֱלֹהִים אֵין עוֹד מִלְּבַדּוֹ "A ti foi mostrado para saberes que o Eterno é D'us; não há outro além d'Ele." Devarim 4:35

Não foi por acaso que a revelação se deu por meio da voz e não da imagem. A própria estrutura do evento ensina algo: o que se conhece de D'us conhece-se pela razão e pelo ouvido atento — pela compreensão de Suas palavras — não pelos olhos. Daí a proibição absoluta das imagens, que não é um tabu arbitrário, mas a consequência lógica de uma verdade. Quem faz uma imagem de D'us já errou antes mesmo de cinzelar a pedra, porque supôs que o Infinito pudesse ter contorno.

לֹא־תַעֲשֶׂה לְךָ פֶסֶל וְכָל־תְּמוּנָה "Não farás para ti escultura, nem forma alguma." Shemot 20:4

Por que um corpo é impossível para D'us

Aqui o argumento se torna estritamente filosófico, e é onde a tradição racionalista brilha. Pergunte-se: o que significa ter um corpo? Ter corpo é ocupar espaço — e o que ocupa espaço tem partes, um lado e outro, uma extremidade e outra. O que tem partes é divisível. O que é divisível é, em algum sentido, composto — e o que é composto depende de suas partes para ser o que é.

Mas D'us é absolutamente Um, sem partes e sem composição. Logo, não pode ter corpo. Saadia Gaon, no segundo tratado do Emunot veDeot, já demonstrava que atribuir corporeidade ao Criador é destruir a Sua unidade pela raiz, pois introduz multiplicidade onde só pode haver unidade pura.

Há mais. Um corpo é finito — tem limites no espaço. Um corpo está sujeito ao tempo, ao desgaste, à mudança. Um corpo é movido, agido sobre, afetado pelo que o cerca. Tudo isso é precisamente o oposto do que entendemos por Criador: a fonte infinita de toda existência, que não é limitada por nada porque tudo o que existe d'Ele depende. Atribuir-Lhe um corpo seria torná-Lo uma criatura entre as criaturas — exatamente o que Ele não é.

וְאֶל־מִי תְּדַמְּיוּנִי וְאֶשְׁוֶה יֹאמַר קָדוֹשׁ "A quem, pois, Me comparareis, para que Eu lhe seja semelhante? — diz o Santo." Yeshayá 40:25

A pergunta do profeta é retórica e devastadora: não há nada a que D'us se compare, porque toda comparação pressupõe um termo comum — e entre o Infinito e o finito não há termo comum algum. Comparar é igualar em alguma medida; e nada criado partilha de medida com o Criador.

D'us não muda

Da incorporeidade segue-se a imutabilidade, e ela merece atenção própria, porque é aqui que a ideia de uma divindade que "se torna" outra coisa se mostra impossível. A Torá é explícita:

אֲנִי יְהוָה לֹא שָׁנִיתִי "Eu, o Eterno, não mudo." Malachi 3:6

O raciocínio é límpido. Mudar é passar de um estado a outro: do que não se era para o que se passa a ser. Mas quem muda, ou melhora — e então não era perfeito antes — ou piora — e então deixa de ser perfeito agora. Em qualquer dos casos, a mudança implica imperfeição. D'us, sendo a perfeição absoluta, não tem para onde mudar: não Lhe falta nada que possa adquirir, nem possui nada que possa perder.

É por isso que a própria Torá, pela voz do profeta Bilam, formula o princípio de modo inesquecível:

לֹא אִישׁ אֵל וִיכַזֵּב וּבֶן־אָדָם וְיִתְנֶחָם "D'us não é homem para que minta, nem filho de homem para que se arrependa." Bemidbar 23:19

Reúnam-se agora as peças. Um ser que "se tornasse" homem teria de passar do infinito ao finito, do incorpóreo ao corpóreo, do imutável ao mutável. Mas cada um desses passos é uma mudança — e mudar é, para D'us, impossível por definição. Aquilo que muda já não é o imutável; aquilo que se faz finito já não é o infinito. A própria proposição se contradiz: para "tornar-se" homem, D'us teria de deixar de ser D'us. E o que deixou de ser D'us nunca foi D'us.

A perfeição não se torna outra coisa: não lhe falta nada a adquirir, nem possui nada a perder.

"A mão de D'us", "os olhos de D'us": a linguagem da Torá

Surge então uma pergunta honesta. Se D'us não tem corpo, por que a Torá fala da "mão forte" de D'us, dos "olhos do Eterno", da Sua "face"? O Rambam dedica boa parte do primeiro livro do Guia dos Perplexos precisamente a esta questão, e a resposta da tradição é antiga e clara: o Talmud ensina que a Torá fala na linguagem dos homens.

Isso significa que a Torá, para comunicar verdades a seres humanos, usa termos que seres humanos compreendem. "A mão de D'us" significa Sua ação no mundo; "os olhos de D'us", Sua providência e conhecimento; Sua "face", a proximidade de Sua presença. São metáforas — pontes de linguagem — e não descrições literais. Confundi-las com descrições físicas seria como concluir, ao ler que "o tempo voa", que o tempo possui asas.

O Rambam é categórico: quem lê literalmente os termos corpóreos da Escritura e imagina um D'us com forma comete um erro grave de compreensão — não porque seja malicioso, mas porque tomou a casca da palavra pelo seu núcleo. O trabalho do estudante de Torá é justamente atravessar a imagem para alcançar a ideia.

Por que isto importa: a pureza da relação

Tudo isto poderia parecer abstração distante, mas tem uma consequência viva e diária. O monoteísmo puro recusa qualquer intermediário divino, qualquer divindade composta, qualquer figura que se interponha entre o ser humano e o Criador. Quando rezamos, dirigimo-nos diretamente a D'us — ao Criador único — sem mediação, sem ponte, sem representante.

Esta é a grandeza silenciosa da ideia. Porque D'us não tem forma, Ele não pode ser capturado numa imagem, nem alojado num templo, nem reduzido ao humano. Não há tamanho que O contenha nem semelhança que O represente — Ele é infinitamente maior do que tudo o que a imaginação pode moldar. E justamente por isso a relação com Ele é a mais pura e a mais direta que existe: nada se interpõe.

E há um último ponto, que é talvez o mais belo. A Torá diz que o ser humano foi criado betzelem Elokim — à "imagem de D'us". Mas, à luz de tudo o que vimos, é evidente que essa "imagem" não pode ser física, pois D'us não tem forma a copiar. O tzelem Elokim é a faculdade que nos distingue: o intelecto, a alma racional, a capacidade de conhecer verdades e de reconhecer o Criador. É por aí que o ser humano se eleva em direção a D'us — não pelos olhos, que só veem formas, mas pela mente, que alcança o que não tem forma.

Um D'us sem forma exige, e ao mesmo tempo torna possível, um conhecimento que ultrapassa os sentidos. Não O encontramos olhando para fora, à procura de uma figura; encontramo-l'O pensando, estudando, compreendendo. É essa a dignidade que a incorporeidade nos confere: somos convidados a conhecer o Infinito pela parte de nós que mais se aproxima d'Ele — a mente.

Sobre este ensaio

Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides) e de Saadia Gaon. As fontes clássicas citadas ao longo do texto incluem a Torá (Devarim 4:12, 4:15, 4:35, 4:39; Shemot 20:4; Bemidbar 23:19), os Profetas (Yeshayá 40:18, 40:25; Malachi 3:6), o Talmud, o Mishné Torá (Hilchot Yesodei haTorá 1 e os treze princípios), o Guia dos Perplexos (livro I, sobre a incorporeidade e os antropomorfismos) e o Emunot veDeot de Saadia Gaon (tratado II). A redação é original.