Filosofia Racionalista · Fundamentos

D'us Tem Emoções? A "Ira" e o "Ciúme"

A Torá diz que D'us "Se ira", "Se arrepende", "Se alegra" e é "ciumento". Mas o D'us perfeito e imutável não é arrastado por sentimentos que vão e vêm. Como entender, então, essa linguagem?

Ensaio na tradição racionalista da Torá Ensaio autoral · PT-BR

A Torá não tem o menor pudor em falar de D'us com palavras de sentimento. Ele "Se ira" contra a geração do deserto, "Se arrepende" de ter feito o homem, "Se alegra" com as Suas obras e Se declara Kel kaná — "D'us zeloso", "ciumento" — diante da idolatria. Para quem lê depressa, a impressão é a de um Soberano de temperamento volátil, que ora explode em fúria, ora se enternece.

O problema é que essa impressão colide frontalmente com tudo aquilo que a própria Torá nos ensina sobre a natureza de D'us. Já vimos que Ele é perfeito, simples e imutável. Ora, toda emoção, no sentido em que a vivemos, é exatamente o oposto disso: é mudança e é carência.

Por que emoção implica mudança e carência

Pense no que é sentir raiva. Você estava num estado — calmo — e algo o afetou, fazendo-o passar a outro estado — irado. A emoção é, por definição, uma alteração: alguém ou alguma coisa age sobre você e o modifica. Mais que isso, emoção é resposta a uma necessidade: nos enfurecemos porque algo que desejávamos foi contrariado, nos alegramos porque algo que nos faltava foi suprido. Sentir é ser afetado de fora e é ter o que completar.

O Rambam (Maimônides), no Guia dos Perplexos (I:35-36, 47-49), faz dessa observação um eixo. Se D'us fosse literalmente movido por paixões, seria mutável — passaria de não-irado a irado — e seria carente — precisaria de algo de fora para satisfazê-Lo. Mas o Primeiro Ser, que existe por Sua própria natureza e do qual tudo depende, não pode depender de nada, nem ser modificado por nada. Atribuir-Lhe emoções no sentido humano é, para o Rambam, tão grosseiro quanto atribuir-Lhe um corpo. É uma forma de idolatria conceitual.

דִּבְּרָה תוֹרָה כִּלְשׁוֹן בְּנֵי אָדָם "A Torá falou na linguagem dos filhos do homem." Berachot 31b

É aqui que entra o princípio talmúdico decisivo. A Torá fala "na linguagem dos filhos do homem" — usa as nossas palavras, as nossas categorias, os nossos modos de pensar, porque é a nós que ela se dirige. Quando diz que D'us "Se irou", não está descrevendo um estado interior que surgiu na essência divina; está descrevendo, em termos que a alma humana entende, aquilo que resultou da ação de D'us no mundo.

Atributos antropopáticos: a metáfora da ira

Saadia Gaon, no Emunot veDeot (tratado 2), já havia estabelecido que toda expressão sensível ou emocional aplicada a D'us nas Escrituras deve ser lida como acomodação à compreensão humana, e não em sentido literal. O Rambam sistematiza: esses são atributos antropopáticos — emoções humanas emprestadas a D'us como metáfora, do mesmo modo que "a mão de D'us" ou "os olhos de D'us" são metáforas físicas.

Tome a "ira". Quando um homem governa com justiça e pune o malfeitor, nós, ao vê-lo agir, dizemos: "ele está irado". A punição é o efeito que associamos à raiva. A Torá toma esse vínculo familiar e o usa: o castigo que sobrevém ao mal é chamado de "ira de D'us", não porque algo ferveu dentro Dele, mas porque, do nosso lado, a consequência se parece com o fruto da ira. D'us age com justiça constante; o que muda não é Ele, é a nossa situação — e por isso experimentamos a Sua ação ora como severidade, ora como graça.

O mesmo vale para o "arrependimento" e a "alegria". Quando o relato diz que D'us "Se arrependeu", descreve uma mudança no destino do homem — a passagem do favor à punição — em termos daquilo que, entre nós, leva alguém a mudar de rumo. A "alegria" é o bem que flui de D'us, descrito pela emoção que esse bem desperta em quem o recebe.

A ira de D'us não é uma tempestade dentro Dele; é o nome que damos ao que nos sobrevém quando nos afastamos do bem.

E o "ciúme"? A exclusividade da verdade

O atributo mais delicado é o kin'á, o "ciúme", proclamado nos Dez Mandamentos: Kel kaná (Shemot 20:5) e repetido em Devarim 4:24. O ciúme humano é talvez a mais carente das paixões — nasce do medo de perder, da insegurança, da posse ameaçada. Nada disso pode tocar Aquele que de nada precisa.

O "ciúme" de D'us contra a idolatria não é, portanto, despeito. É a afirmação inabalável de uma verdade: não há outro. A idolatria não fere os "sentimentos" de D'us — ela afasta o homem da realidade, prende-o a uma falsidade que o degrada. O que a Torá chama de "zelo" é a Sua exclusividade, a verdade de que toda existência depende de um só Princípio, e de que servir ao falso é renunciar ao bem. A linguagem do ciúme comunica a gravidade desse erro numa imagem que a alma humana sente na pele.

Atributos de ação, não de essência

O Rambam oferece a chave que organiza tudo isso (Guia dos Perplexos I:52-54). Nós não conhecemos D'us em Sua essência — essa nos é totalmente inacessível. Conhecemo-Lo apenas por meio das Suas ações. Quando dizemos que D'us é "misericordioso" ou "justo", não estamos descrevendo emoções internas; estamos nomeando padrões de ação que observamos no mundo e que, em nós, brotariam da misericórdia ou da justiça.

É exatamente isso que ensinam as treze midot, os treze atributos revelados a Moshé:

ה׳ ה׳ אֵל רַחוּם וְחַנּוּן אֶרֶךְ אַפַּיִם וְרַב חֶסֶד וֶאֱמֶת "Eterno, Eterno, D'us misericordioso e clemente, longânimo e grande em bondade e verdade." Shemot 34:6

Essas treze midot não são um inventário do "humor" de D'us. São uma descrição de como Ele age — e foram dadas, segundo a tradição, para que as imitemos. "Assim como Ele é misericordioso, sê tu misericordioso." É por isso que o Rambam, no Mishné Torá (Hilchot Deot 1:6), funda toda a ética do caráter sobre o imitar os caminhos de D'us. Não imitamos emoções que Ele não tem; imitamos os caminhos da Sua ação.

Então por que a Torá fala assim?

Se tudo isso é metáfora, por que a Torá não se exprime no vocabulário abstrato dos filósofos? Porque a Torá não foi dada a filósofos — foi dada a seres humanos, e o ser humano pensa, ama e teme em termos de relação. Uma proposição sobre a "constância da justiça divina como consequência necessária da ordem moral" não move ninguém. "D'us Se ira com a injustiça" toca a alma, educa o coração, gera reverência.

O Rambam é claro a respeito (Hilchot Yesodei HaTorá 1): a Torá usa imagens corpóreas e emocionais para que a verdade alcance todos — desde a criança até o sábio — e cabe ao estudante amadurecer e purificar essa imagem, sem nunca tomá-la por descrição literal de D'us.

Há aqui um equilíbrio que a tradição racionalista guarda com cuidado. De um lado, é preciso purificar a ideia de D'us de todo antropomorfismo grosseiro: Ele não tem corpo, não tem paixões, não muda. De outro, não se pode esvaziar a relação pessoal que a Torá deseja entre o homem e o Criador. A Torá quer que O amemos, que O sintamos próximo, que falemos com Ele. A linguagem emocional serve precisamente a isso — sem que precisemos imaginar um D'us que se irrita e se acalma como nós.

O fruto desse estudo não é um D'us mais frio, mas mais verdadeiro. Compreender que a "ira" é o nome da justiça e que o "ciúme" é o nome da verdade não nos afasta de D'us: liberta-nos de uma caricatura e nos aproxima Daquele que é, de fato, perfeito, imutável e bom — e cuja ação, percebamos nós como severa ou como doce, é sempre a mesma bondade constante.

Sobre este ensaio

Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides) e de Saadia Gaon. As fontes clássicas são citadas ao longo do texto: a Torá (Shemot 20:5; Shemot 34:6-7; Devarim 4:24), o Talmud (Berachot 31b), o Guia dos Perplexos (I:35-36, 47-54), o Mishné Torá (Hilchot Yesodei HaTorá 1; Hilchot Deot 1:6) e o Emunot veDeot de Saadia Gaon (tratado 2). A redação é original.