Poucas perguntas atravessam a história humana com tanta força quanto esta: por que o justo sofre? Não se trata de um quebra-cabeça abstrato para filósofos. É o grito de quem perdeu um filho, de quem adoeceu sem causa aparente, de quem viu pessoas honestas serem esmagadas enquanto os cruéis prosperavam. O judaísmo nunca tratou essa questão com leveza — e, na sua tradição racionalista, recusou-se tanto a negar o problema quanto a inventar respostas reconfortantes que não resistem ao exame.
A primeira coisa que a tradição racionalista nos pede é coragem intelectual: olhar para o sofrimento como ele realmente é, sem o disfarçar de bênção e sem fingir compreender o que está além de nós. A segunda é precisão. Antes de perguntar por que há mal, é preciso perguntar o que, de fato, é o mal — e de onde ele vem.
A bondade da criação e a natureza do mal
A teodiceia judaica parte de uma afirmação que pode parecer ousada: o mal, em sentido próprio, não é uma "coisa" criada por D'us ao lado das coisas boas. Seguindo a tradição filosófica que o Rambam (Maimônides) aprofunda no Moré Nevuchim (O Guia dos Perplexos), o mal é entendido como privação — a ausência de um bem, e não uma substância positiva. A escuridão não é uma coisa que combate a luz; é simplesmente onde a luz não está. A doença não é um ser; é a falta de saúde. A morte não é uma força; é a cessação da vida.
Isso tem uma consequência decisiva. D'us criou um mundo de seres físicos, e todo ser físico é, por definição, finito, mutável e perecível. A própria possibilidade de geração — de que algo venha a existir — implica a possibilidade de corrupção, de que algo deixe de existir. Não há matéria sem fragilidade. Quem pede um mundo material sem mortalidade pede, sem perceber, um mundo material que não seja material. A criação é boa precisamente por existir; a sua finitude não é um defeito acrescentado, mas o preço inevitável da existência física.
As três categorias do mal
É aqui que o Rambam oferece a sua análise mais poderosa. No Moré Nevuchim (3:12), ele observa que as pessoas, dominadas pela imaginação, supõem que o mal predomina sobre o bem no mundo — e que cada sofrimento é um decreto direto e arbitrário do Céu. Contra essa ilusão, ele divide todo o mal que afeta os seres humanos em três categorias precisas.
A primeira é o mal que decorre da nossa própria natureza física: a mortalidade, as doenças, as deformidades, os efeitos de terremotos, enchentes e tempestades. Esse mal é raro quando comparado com o bem contínuo da existência, e é a consequência necessária de sermos corpos sujeitos às leis da matéria. Não é um castigo; é o que significa ter um corpo num universo regido por leis estáveis.
A segunda é o mal que os seres humanos infligem uns aos outros: guerras, opressão, roubo, violência, tirania. Esse mal é mais frequente que o primeiro, e ele não vem do Céu — vem das mãos humanas. Atribuí-lo a D'us é desviar o olhar do verdadeiro responsável.
A terceira — e, segundo o Rambam, de longe a mais comum — é o mal que a pessoa inflige a si mesma. São os danos que nascem dos próprios apetites desmedidos, dos vícios, da ganância, da busca obsessiva por luxos e prazeres que arruínam o corpo, a alma e as relações. Esse mal abundante não é decreto divino algum: é a colheita das nossas escolhas.
O ponto do Rambam é demolidor na sua simplicidade: se somássemos com honestidade os males do mundo, descobriríamos que a esmagadora maioria não procede de um decreto celestial misterioso, mas da liberdade e da insensatez humanas. Boa parte do "problema do mal" é, na verdade, o problema das escolhas humanas.
O livre-arbítrio como condição da moral
Por que, então, D'us não impede simplesmente que os homens façam o mal? A resposta racionalista é que a própria possibilidade da virtude depende da possibilidade do vício. Um ser incapaz de escolher o mal seria também incapaz de escolher o bem — seria um mecanismo, não uma pessoa. O livre-arbítrio não é um detalhe da condição humana; é a sua dignidade.
A Torá afirma essa liberdade sem rodeios: "Eis que coloquei diante de ti hoje a vida e o bem, a morte e o mal" — e ordena, "escolherás a vida". Uma ordem assim só faz sentido para um ser genuinamente livre. Retirar a liberdade para suprimir o mal humano seria destruir aquilo que torna o ser humano capaz de mérito, de amor, de justiça. O preço da moralidade real é a possibilidade real do mal. D'us, por assim dizer, recua para que o homem seja homem.
A providência segundo a razão
Mas, se grande parte do mal se explica pela natureza e pela liberdade, resta a pergunta mais dolorosa: e quando o golpe parece cego, atingindo justos e indiferente aos malvados? Aqui o Rambam apresenta uma das suas teses mais audaciosas: a hashgachá, a providência divina sobre o indivíduo, não é uniforme nem automática. Ela acompanha o desenvolvimento intelectual e espiritual da pessoa — a medida em que ela aperfeiçoou a sua mente e a aproximou do conhecimento verdadeiro de D'us.
Isso não significa que D'us ame mais uns que outros, nem que o sofrimento de quem ainda não alcançou esse grau seja merecido. Significa que a conexão consciente com a realidade divina, cultivada pelo intelecto e pela conduta, transforma a relação da pessoa com o que lhe acontece. Quem vive imerso apenas no acaso da matéria está mais exposto às colisões cegas do mundo físico; quem eleva a mente participa de uma ordem que não se mede pela fortuna ou pela desgraça passageiras. A providência, nessa leitura, é menos um escudo mágico contra a dor e mais uma mudança no eixo de toda a existência.
Iyov: o tratado da Torá sobre o sofrimento
Nenhum texto encara o problema com mais honestidade do que o livro de Iyov (Jó). O Rambam o lê não como crônica histórica, mas como um tratado filosófico — uma encenação deliberada das grandes respostas ao sofrimento, postas à prova. Iyov é justo e, mesmo assim, perde tudo. Seus três amigos representam a resposta simplista que a tradição racionalista rejeita: todo sofrimento é castigo; se você sofre, é porque pecou. Iyov, no seu desespero íntegro, sabe que isso é falso — e a própria narrativa lhe dá razão contra eles.
Quando a resposta finalmente vem, ela não é uma explicação caso a caso. D'us responde a Iyov a partir da tempestade, não com um cálculo de méritos, mas com uma vasta exibição da ordem e da imensidão da criação — confrontando a pequenez da compreensão humana diante da estrutura do universo.
A lição não é que não há resposta, mas que o erro de Iyov — e dos seus amigos — foi supor que a justiça divina deveria caber dentro das categorias estreitas da recompensa e do castigo imediatos. A transformação de Iyov no fim não vem de receber uma fórmula; vem de alcançar um conhecimento mais verdadeiro de D'us, que reposiciona todo o seu sofrimento. Ele passa de uma fé baseada em ouvir falar para uma compreensão fundada no ver.
Honestidade diante do mistério
A tradição racionalista, portanto, oferece muito — e recusa-se a prometer mais do que pode. Ela explica que a maior parte do mal não desce de um trono caprichoso, mas brota da matéria finita e das escolhas livres dos homens. Ela defende o livre-arbítrio como o alicerce da própria moralidade. Ela vincula a providência ao aperfeiçoamento do intelecto. E, diante daquilo que ainda resta inexplicável no caso particular, ela faz algo raro entre as religiões: admite o limite.
Maimônides ensina que muitos dos atributos com que falamos de D'us são apenas analogias humanas, e que a Sua sabedoria e os Seus desígnios não estão sujeitos à medida da nossa mente. Dizer "não sei por que este justo sofreu" não é fraqueza de fé — é a maturidade de quem reconhece a distância entre o finito e o infinito. A resposta judaica racionalista ao problema do mal nunca foi um conforto barato. É um chamado a viver com retidão, a usar a liberdade para o bem, a cultivar o conhecimento — e a confiar na perfeição daquilo que, em parte, sempre nos excederá.
Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides), de Saadia Gaon e dos grandes pensadores de Israel. As fontes clássicas (Torá, Talmud, Rambam) são citadas ao longo do texto; a redação é original.