Filosofia Racionalista · Fundamentos

D'us É Bom: O Sentido da Bondade Divina

Afirmar que "D'us é bom" não é um elogio sentimental. É uma das mais profundas verdades filosóficas sobre a natureza da realidade — e o fundamento de todo otimismo judaico.

Ensaio na tradição racionalista da Torá Ensaio autoral · PT-BR

Quando dizemos que "D'us é bom", o que estamos realmente afirmando? Para muitos, a frase soa como uma cortesia religiosa — um agradecimento educado, um adjetivo de louvor. Mas na tradição racionalista da Torá ela é algo radicalmente mais sério: uma proposição sobre a estrutura última da existência. Dizer que D'us é bom é dizer que a realidade, em sua raiz, é boa — que o ser tem um sentido, e que esse sentido é benevolente.

O salmista o expressa com uma amplitude que não admite exceções:

טוֹב ה׳ לַכֹּל וְרַחֲמָיו עַל כָּל מַעֲשָׂיו "Bom é o Eterno para com todos, e a Sua misericórdia sobre todas as Suas obras." Tehilim 145:9

Note a universalidade: para com todos, sobre todas as Suas obras. A bondade divina não é um favor reservado a alguns; é o princípio que perpassa toda a criação. Compreender o que isso significa — e o que não significa — é uma das tarefas centrais da filosofia da Torá.

A criação como transbordamento de bem

Comecemos por uma pergunta que a tradição racionalista enfrenta de frente: por que D'us criou o mundo? Se Ele é perfeito, autossuficiente, sem nenhuma carência, então a criação não pode ter suprido uma necessidade Sua. Um ser perfeito não cria para ganhar algo, porque nada lhe falta. Saadia Gaon, em Emunot veDeot, é claro neste ponto: o Criador não foi movido por proveito próprio.

A resposta da tradição é luminosa em sua simplicidade. A criação foi um ato de bondade gratuita — um transbordamento. É da própria natureza do bem difundir-se, dar-se, fazer existir o outro. D'us não criou porque precisava receber; criou porque é da natureza do bom fazer o bem. Esse é o princípio que a tradição chama de tov u-meitiv: Aquele que é bom e faz o bem. A existência mesma — o fato de haver algo em vez de nada — é o primeiro e maior presente.

É por isso que, ao final dos seis dias, a Torá não diz apenas que a obra estava terminada, mas emite um veredito sobre sua qualidade moral:

וַיַּרְא אֱלֹהִים אֶת כָּל אֲשֶׁר עָשָׂה וְהִנֵּה טוֹב מְאֹד "E viu D'us tudo o que fizera, e eis que era muito bom." Bereshit 1:31

Nada em vão, nada por capricho

Há uma tentação de imaginar D'us como uma vontade arbitrária — um poder que age por impulso, que poderia ter feito o mundo de qualquer maneira sem razão alguma. O Rambam (Maimônides) combate essa imagem com vigor. No Guia dos Perplexos (Parte III, capítulo 25), ele distingue cuidadosamente entre quatro tipos de ação: a ação fútil, a ação vã, a ação brincalhona e a ação dotada de propósito. E conclui que nenhuma obra de D'us pode ser classificada entre as três primeiras.

D'us não age em vão, nem por capricho, nem por brincadeira. Tudo o que faz, faz por sabedoria — cada elemento da criação tem um lugar, uma função, uma razão de ser, ainda que essa razão muitas vezes ultrapasse o nosso entendimento. Quando a Torá declara que a obra era "muito boa", não está oferecendo um elogio vago: está afirmando que a totalidade do real é ordenada, intencional e dirigida ao bem. Dizer que D'us é bom é, portanto, dizer que o universo é inteligível e propositado — não um acidente, não um jogo sem regras.

"É da natureza do bem difundir-se. D'us não criou para receber — criou porque é da natureza do bom fazer o bem."

E o mal? A bondade como base, o mal como falta

Se D'us é bom e tudo o que cria é bom, de onde vem o sofrimento? Esta questão merece — e recebeu — tratamento próprio em outros ensaios desta série. Aqui basta situá-la dentro da afirmação central.

O ponto decisivo da tradição racionalista é este: o mal não é uma "coisa" que D'us tenha produzido ao lado do bem, como se houvesse duas matérias-primas no mundo. O Rambam, no Guia, ensina que grande parte daquilo que chamamos de mal é, na verdade, privação — uma ausência, uma falta, não uma substância. A escuridão não é algo que se acrescente à luz; é a luz que falta. A doença não é uma criação positiva; é a saúde que se perdeu. O mal moral, por sua vez, é fruto do livre-arbítrio que o próprio bem concedeu ao homem — porque um mundo com seres livres e capazes de virtude é melhor do que um mundo de autômatos.

Assim, a bondade de D'us permanece como o fundamento; o mal é a exceção, a falha, a sombra projetada pela liberdade. Bachya ibn Pakuda, em Chovot HaLevavot (no Portão da Reflexão, o Shaar HaBechina), convida-nos a contemplar a criação com atenção: quem examina o mundo com olhos abertos vê que os benefícios são incontáveis e constantes, e que o bem é a regra avassaladora — enquanto o mal, por mais doloroso que seja, é o limite e não o centro.

Bondade que se conhece pelas obras

Mas como podemos sequer falar da "bondade" de D'us? A tradição racionalista é rigorosa ao recusar atribuir a D'us emoções humanas — Ele não "sente" bondade como nós sentimos afeto. A bondade divina, ensina o Rambam, é um atributo de ação, não de emoção. Conhecemos a bondade de D'us não por adivinhar Seus sentimentos, mas pelo bem que Ele efetivamente faz: a existência que nos sustenta, a vida que nos foi dada, a Torá que nos orienta, a providência que rege o mundo.

E aqui a filosofia se torna dever prático. Justamente porque a bondade de D'us é ação, ela pode — e deve — ser imitada. A Torá ordena:

וְהָלַכְתָּ בִּדְרָכָיו "E andarás nos Seus caminhos." Devarim 28:9

O Rambam, em Hilchot Deot (1:6), explica esse mandamento com precisão: assim como Ele é chamado misericordioso, sê tu misericordioso; assim como Ele é chamado bondoso, sê tu bondoso. Andar nos caminhos de D'us significa modelar nossas próprias ações segundo os atributos de bem que reconhecemos na obra divina. A bondade, antes de ser um sentimento, é uma escolha e uma prática.

O mundo construído sobre o chesed

Há, por fim, uma imagem que resume toda esta visão. O salmista declara que o mundo não foi apenas criado por bondade, mas edificado sobre ela, como uma casa sobre seu alicerce:

עוֹלָם חֶסֶד יִבָּנֶה "O mundo é construído sobre a bondade." Tehilim 89:3

O chesed — a bondade generosa, o bem que se doa — não é um ornamento da criação, e sim sua viga mestra. É por isso que os Salmos retornam incessantemente a esse refrão, como em Tehilim 136, onde cada versículo se encerra com ki le'olam chasdo, "porque eterna é a Sua bondade", ou em Tehilim 100, o salmo da gratidão. A repetição não é redundância: é a percepção de que a bondade não foi um único gesto no passado, mas a estrutura permanente que sustenta cada instante da existência.

Compreender o mundo como edificado sobre o chesed transforma a postura do ser humano. A gratidão deixa de ser uma reação ocasional diante de uma boa notícia e passa a ser o reconhecimento contínuo de que a própria existência — o ar, a luz, a consciência, o instante — é dom de uma bondade que não cessa.

O fundamento do otimismo judaico

Reunamos os fios. Afirmar que D'us é bom é afirmar, simultaneamente, várias coisas: que a criação foi um ato de bondade gratuita e não de necessidade; que tudo o que existe tem propósito e nada foi feito em vão; que o mal é falta e exceção, não a substância do real; que a bondade divina se manifesta em ação e nos convoca à imitação; e que o mundo, em seu próprio alicerce, é uma obra de chesed.

Isto é muito mais do que um sentimento devoto. É uma tese sobre a realidade última — e é a base do otimismo característico do judaísmo. Não um otimismo ingênuo que nega a dor, mas um otimismo fundado: a convicção racional de que, apesar das sombras, a estrutura profunda do ser é boa, tem sentido e caminha para o bem. Dizer "D'us é bom", em sua plenitude filosófica, é dizer que vale a pena existir — e que, por isso, vale a pena agradecer.

Sobre este ensaio

Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides), de Saadia Gaon e de Bachya ibn Pakuda. As fontes clássicas citadas ao longo do texto incluem a Torá (Bereshit 1:31; Devarim 28:9), os Salmos (Tehilim 145:9; 89:3 — "olam chesed yibaneh"; 100; 136 — "ki le'olam chasdo"), o Guia dos Perplexos (III:25) e o Mishné Torá (Hilchot Deot 1:6) do Rambam, Emunot veDeot de Saadia Gaon e Chovot HaLevavot (Shaar HaBechina) de Bachya ibn Pakuda. A redação é original.