Filosofia Racionalista · Fundamentos

"D'us Cria o Mal"? — Yeshayahu 45:7

"Formo a luz e crio a treva, faço a paz e crio o mal." À primeira vista, um verso perturbador. Lido com rigor, é exatamente o oposto: a derrubada do dualismo e a afirmação de um só Criador — sem fazer dEle a fonte do pecado.

Ensaio na tradição racionalista da Torá Ensaio autoral · PT-BR

Poucos versos da Escritura provocam tanto desconforto quanto este, dito pelo profeta Yeshayahu em nome do Eterno:

יוֹצֵר אוֹר וּבוֹרֵא חֹשֶׁךְ עֹשֶׂה שָׁלוֹם וּבוֹרֵא רָע אֲנִי ה׳ עֹשֶׂה כָל אֵלֶּה "Eu formo a luz e crio a treva, faço a paz e crio o mal; Eu, o Eterno, faço todas essas coisas." Yeshayahu 45:7

Como pode o D'us bom — Aquele que, ao contemplar a criação, declarou que "era muito bom" — dizer de Si mesmo que cria o mal? A resposta exige duas coisas: ler o verso em seu contexto e definir, com precisão filosófica, o que "mal" significa aqui. Feito isso, o verso deixa de ser um escândalo e se revela uma das declarações mais profundas do monoteísmo.

O contexto: uma polêmica contra os dois deuses

Yeshayahu não está fazendo metafísica abstrata. Ele fala a um povo cercado pela cosmovisão persa, na qual o universo é um campo de batalha entre dois princípios eternos e opostos: um deus da luz e do bem, e um deus rival da treva e do mal. O dualismo era a religião das nações ao redor — e era sedutor, porque parecia resolver de uma vez o problema do mal: se o mundo tem coisas boas e coisas más, é porque há um autor bom e um autor mau.

É contra essa ideia que o profeta dispara o verso. A estrutura é deliberada: luz e treva, paz e mal — os próprios pares que o dualismo atribuía a dois poderes rivais são reunidos sob uma única mão. "Eu, o Eterno, faço todas essas coisas." Não há dois reinos disputando o cosmos. Há um só Criador, e dEle procede a totalidade do real. O verso não é uma confissão de que D'us é mau; é a recusa categórica de que exista qualquer poder fora dEle.

O verso não atribui o mal a D'us — ele recusa a existência de um segundo deus a quem o mal pudesse ser atribuído.

Que "mal" é esse?

Resolvido o alvo da polêmica, resta a questão mais delicada: em que sentido D'us "cria o mal"? Os pensadores racionalistas fazem aqui uma distinção que muda tudo. Há dois sentidos completamente distintos da palavra ra', "mal", e confundi-los é a origem de quase toda a perplexidade.

O primeiro é o mal físico ou natural: a doença, a calamidade, a escassez, a morte. Quando uma cidade é abalada por um terremoto ou um homem adoece, falamos de "mal" no sentido de sofrimento e dano. Desse "mal" D'us é, sim, o autor — não porque deseje o sofrimento, mas porque é o autor de uma ordem natural dentro da qual tais coisas necessariamente ocorrem. Um mundo físico, feito de matéria que se gera e se corrompe, é por sua própria constituição um mundo em que há doença e fim. Quem cria a ordem é responsável por suas consequências; e é isso, e só isso, que o verso de Yeshayahu — falando logo após mencionar a "paz" e dirigido a um rei que traria guerra e libertação — afirma.

O segundo sentido é o mal moral: o pecado, a injustiça, a crueldade que um ser humano escolhe cometer. E aqui a tradição é inequívoca: desse mal D'us não é o autor. Ele não é criado por D'us, porque não é decretado por D'us — brota do livre-arbítrio humano. A Torá põe a escolha diante do homem com toda a clareza:

רְאֵה נָתַתִּי לְפָנֶיךָ הַיּוֹם אֶת הַחַיִּים וְאֶת הַטּוֹב וְאֶת הַמָּוֶת וְאֶת הָרָע "Vê, coloquei diante de ti hoje a vida e o bem, a morte e o mal." Devarim 30:15

Se o mal moral fosse "criado" por D'us no homem, "colocá-lo diante" dele seria uma farsa. O Rambam, em suas Leis do Arrependimento, faz desse ponto um pilar: o ser humano é genuinamente livre, ninguém o empurra ao pecado, e é precisamente por isso que faz sentido haver mandamento, mérito e responsabilidade. Quando o homem peca, o mal que ele produz é dele — não de seu Criador.

O mal como privação, não como criatura

Mas há um passo filosófico mais fundo, e é talvez a contribuição mais elegante do Rambam ao problema. No Guia dos Perplexos (parte III, capítulo 10), ele pergunta: o que é o mal, afinal, em si mesmo? E responde: o mal não é uma coisa, uma substância, uma realidade positiva que alguém tenha de fabricar. O mal é privação — ausência, falta, corrupção de um bem que deveria estar ali.

A analogia está no próprio verso. A treva não é uma substância que se cria ao lado da luz; é simplesmente a ausência de luz. Apague-se a vela e a treva "aparece" — mas ninguém precisou fabricá-la. Do mesmo modo, a doença é a falta da saúde; a cegueira, a ausência da visão; a morte, a cessação da vida. Nenhuma delas é uma criatura paralela que D'us tenha de produzir. Elas são limites e faltas do que existe.

Isto é decisivo. Se tudo o que D'us cria é positivamente bem — a existência, a forma, a ordem, a vida — então o "mal" não é um segundo objeto saído de Suas mãos, mas a sombra inevitável de um mundo finito, em que tudo o que tem ser também tem limite. Por isso o verso pode dizer "cria o mal" sem que isso transforme D'us no autor de uma realidade maligna: criar o mundo finito é, por consequência, abrir espaço a toda privação que a finitude acarreta. O bem é criado; o mal é o que falta a ele.

Por que a liturgia suaviza o verso

Aqui aparece um detalhe revelador. A bênção matinal que abençoa o Criador da luz toma este mesmo verso de Yeshayahu — mas o altera. Onde o profeta diz "faz a paz e cria o mal", a fórmula da bênção diz "faz a paz e cria tudo" (עֹשֶׂה שָׁלוֹם וּבוֹרֵא אֶת הַכֹּל). O Talmud, ao discutir a redação dessas bênçãos (Berachot 11b), preserva justamente essa formulação cuidadosa.

Por que a mudança? Não porque o verso esteja errado — ele é palavra profética e verdadeira. Mas porque a liturgia é dita por todos, todos os dias, sem o aparato filosófico que distingue os dois sentidos de "mal". Posto na boca do povo sem explicação, "D'us cria o mal" arrisca soar como se Ele fosse o autor do pecado. A bênção, então, eleva o olhar ao todo: D'us cria tudo — e o todo, no conjunto, é bom. É um reconhecimento embutido na própria tradição de que dizer "cria o mal" exige cuidado e contexto. Saadia Gaon, em sua obra Crenças e Opiniões, dedica páginas a essa mesma cautela: afirmar a unidade do Criador sem jamais sugerir que a injustiça proceda dEle.

Os males dentro de um todo bom

Resta a pergunta prática: por que há tanto sofrimento, se o mundo é bom? O Rambam (Guia III, 11–12) faz aqui uma observação serena e quase empírica. A imensa maioria dos males que afligem os homens, diz ele, não vem de catástrofes naturais nem de uma natureza hostil — vem dos próprios homens: das guerras que iniciam, das injustiças que cometem, dos excessos com que arruínam o corpo e a sociedade. Esses males são moral, não decreto divino. E os males verdadeiramente naturais, examinados sem pânico, são a fração menor.

O mundo, tomado em seu conjunto, é ordenado para o bem. A criação não termina com um lamento, mas com um veredicto:

וַיַּרְא אֱלֹהִים אֶת כָּל אֲשֶׁר עָשָׂה וְהִנֵּה טוֹב מְאֹד "E viu D'us tudo o que havia feito, e eis que era muito bom." Bereshit 1:31

"Muito bom" — não "perfeito sem qualquer falta", o que seria impossível para um mundo finito, mas bom como um todo, na harmonia de suas partes. As faltas e os limites existem; são o preço da finitude. Mas não constituem um segundo princípio rival do bem. São a sombra que acompanha a luz de tudo o que foi chamado à existência.

Conclusão

Lido com rigor, Yeshayahu 45:7 faz duas coisas ao mesmo tempo, e ambas fortalecem a fé em vez de abalá-la. Primeiro, destrói o dualismo: não há dois deuses, não há um reino do bem e outro do mal disputando o universo — tudo, sem exceção, procede de Um só. Segundo, ao ler "mal" como o limite, a privação e a ordem natural — e nunca como o pecado que o homem livremente escolhe —, o verso afirma a soberania total do Criador sem jamais fazer dEle a fonte da injustiça humana.

O D'us que "cria a treva" é o mesmo que "forma a luz": não dois poderes, mas um, autor da existência inteira. E o mal moral, esse, permanece onde a Torá o coloca — diante do homem, como escolha. A grandeza do verso está exatamente aí: ele não resolve o problema do mal dividindo D'us, mas afirmando que não há ninguém além dEle — e deixando intacta a liberdade que faz de nós responsáveis.

Sobre este ensaio

Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides) e de Saadia Gaon. As fontes clássicas são citadas ao longo do texto: Yeshayahu 45:7; Bereshit 1:31 e Devarim 30:15; o Talmud (Berachot 11b, sobre a bênção "yotzer or"); o Rambam no Guia dos Perplexos (III, 10–12) e nas Leis do Arrependimento (Hilchot Teshuvá, cap. 5); e Saadia Gaon, Crenças e Opiniões (Emunot veDeot). A redação é original.