Há uma escolha deliberada no modo como a Torá se apresenta ao mundo. Ela poderia ter começado pelo primeiro mandamento, ou pela aliança com Avraham, ou pela saída do Egito. Em vez disso, abre com a origem de tudo:
O verbo é bará — criar. E a tradição percebeu que essa palavra carrega um peso filosófico imenso. Não se trata de moldar, dispor ou organizar uma matéria que já estivesse ali. Trata-se de trazer à existência aquilo que não existia. A doutrina que daí emerge tem um nome: yesh me-ayin — algo a partir do nada.
Duas visões em conflito
Para entender o que está em jogo, é preciso recuperar um debate antigo. De um lado, a posição da Torá, articulada com rigor filosófico por Saadia Gaon: o mundo foi criado no tempo, teve um princípio absoluto, e antes dele havia somente D'us. De outro lado, a posição de Aristóteles e da tradição filosófica que o seguiu: o universo é eterno, sem começo, coexistente com a causa que o move.
A diferença não é um detalhe técnico. Para Aristóteles, o mundo emana de sua causa do modo como a luz emana do sol — necessariamente, eternamente, sem que jamais tenha havido um instante em que a luz não estivesse ali. Não há, nesse quadro, um momento de decisão. O universo é o que é porque não poderia ser de outro modo; brota da natureza de sua causa como uma consequência inevitável.
A Torá afirma o oposto. Houve um princípio. Houve um antes e um depois. E a passagem de um ao outro não foi automática: foi um ato.
O exame honesto do Rambam
É aqui que a grandeza intelectual do Rambam (Maimônides) se mostra. No Moré Nevuchim, o Guia dos Perplexos, ele não se contenta em repetir que a Torá ensina a criação e encerrar a questão. Ele faz algo mais corajoso: examina os argumentos de Aristóteles com seriedade, reconhece a força de muitos deles e pergunta, sem desonestidade, se a eternidade do mundo foi de fato demonstrada.
Sua conclusão é precisa e tem a marca de um pensador que não se permite trapacear. Aristóteles, diz o Rambam, descreveu com maestria como funciona o mundo tal como ele é agora, já constituído e em pleno funcionamento. Mas disso não se segue que o mundo sempre tenha existido. As leis que governam um universo já formado nada nos dizem, com necessidade lógica, sobre sua origem. A eternidade do mundo é uma hipótese — engenhosa, defensável — mas não uma prova.
Este é o ponto decisivo da postura racionalista do Rambam: ele não finge demonstrar a criação, nem aceita a alegação de que a eternidade foi demonstrada. Reconhece que nenhum dos lados possui uma prova conclusiva — e, justamente por isso, sustenta que a balança pende para o lado da Torá, que afirma a criação tanto por sua autoridade quanto por sua coerência racional.
Há uma lição profunda no método. O Rambam poderia ter alegado uma prova que não tinha; teria sido mais confortável. Em vez disso, ele expõe o limite real do conhecimento humano e mostra que, dentro desse limite, a posição da criação é a mais sólida. É a humildade da razão que não se rebaixa nem se infla — não pretende saber o que não pode saber, mas também não se curva diante de uma especulação disfarçada de certeza.
Por que a criação importa
Por que insistir tanto nisso? Porque desta questão depende quase tudo o mais. O Rambam o diz com clareza: se o mundo é eterno e necessário — se brota de sua causa como a luz do sol, sem decisão —, então não há lugar para uma vontade criadora. E sem vontade, desmoronam três pilares da Torá.
Primeiro, a providência. Um D'us que não escolheu criar tampouco escolhe envolver-se; um universo que existe por necessidade cega não comporta um Criador que se importa, que ouve, que responde. Segundo, o milagre. Se as leis da natureza são tão necessárias quanto a própria existência do mundo, nada pode alterá-las — o Mar não se abre, pois nada acima da natureza poderia agir sobre ela. Terceiro, o propósito. Aquilo que existe por necessidade não existe para nada; simplesmente é. Mas um mundo criado por vontade é um mundo intencionado — feito com um fim.
A criação, portanto, não é uma curiosidade sobre o passado remoto. É a condição que torna inteligível tudo aquilo que a Torá afirma sobre o presente e o futuro: que há um Criador atento, que a história tem direção, que a oração faz sentido, que o homem foi colocado no mundo para algo.
Um mundo criado por vontade
O que significa, então, dizer que o mundo foi criado por vontade? Significa que ele não é o resultado cego da necessidade, nem fruto do acaso. Foi escolhido. Poderia não ter sido — e, no entanto, foi. Entre o nada e o ser, houve uma decisão.
O profeta Yeshayahu capta essa intencionalidade quando descreve a criação não como acidente, mas como obra deliberada, formada para ser habitada:
"Não para ser caos, mas para ser habitada." A criação tem direção. Há um projeto, um destinatário, um sentido. Esta é a diferença abismal entre o universo da Torá e o universo da necessidade: um foi pensado; o outro apenas acontece.
Do nada: a contingência de tudo
Resta a expressão mais difícil e mais luminosa: criação a partir do nada. Em sua raiz, ela faz uma afirmação metafísica radical sobre a estrutura da realidade. Diz que somente D'us existe por necessidade — por sua própria natureza, sem depender de nada. Tudo o mais é contingente: poderia não existir, e existe apenas porque foi trazido à existência e é, a cada instante, sustentado por Ele.
Se houvesse uma matéria primordial coeterna a D'us — algo que sempre tivesse existido ao Seu lado, à espera de ser moldado —, então essa matéria também seria necessária, também independente, e D'us não seria a única realidade absoluta. A criação do nada elimina essa possibilidade. Não há nada coeterno. Não há nada que se imponha a Ele. O ser inteiro do universo é dom, é dependência, é recebido.
Daí a humildade que a doutrina inculca: nada do que existe se sustenta por si. As estrelas, as leis da física, o próprio tempo — tudo pende de uma vontade que não tinha de querer e quis. Reconhecer isso é o começo da sabedoria. É compreender que a existência não é um fato bruto, mas uma graça; não um acaso, mas um ato.
A Torá abre com a criação porque, sem ela, nada do que vem depois se sustenta. E o Rambam a defende não com bravatas, mas com a sobriedade do pensador que mede honestamente o que se pode e o que não se pode provar — e mostra que, medidas todas as coisas, é o relato da criação que melhor responde àquilo que a razão pergunta e àquilo que a alma sabe.
Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides), de Saadia Gaon e dos grandes pensadores de Israel. As fontes clássicas (Torá, Talmud, Rambam) são citadas ao longo do texto; a redação é original.