Existe uma ordem oculta na Torá, uma hierarquia silenciosa entre os mandamentos. Há aqueles que regulam a vida prática — o que comemos, como guardamos o Shabat, como tratamos o próximo. E há um, antes de todos, que é a raiz da qual os demais brotam. Esse mandamento não pede uma ação das mãos nem uma palavra dos lábios. Ele pede algo do intelecto: conhecer que D'us existe.
Não é por acaso que o Rambam (Maimônides) abre toda a sua grande codificação da lei judaica, a Mishné Torá, exatamente com esta afirmação. Antes de discutir uma única prática, ele estabelece o solo sobre o qual tudo o mais se ergue.
O fundamento dos fundamentos
As primeiras palavras das Leis dos Fundamentos da Torá (Hilchot Yesodei HaTorá 1:1) são deliberadas e medidas: o fundamento dos fundamentos e o pilar das sabedorias é saber que há um Primeiro Existente. Note-se o verbo escolhido. O Rambam não escreve "crer", mas lêda — saber, conhecer. A diferença não é estilística; é a chave de toda a sua filosofia.
Crer pode ser herdado, suposto, aceito por hábito. Saber exige um caminho percorrido pela razão. Quem diz "acredito porque meus pais acreditavam" cumpre o mandamento de forma incompleta, porque ainda não converteu a tradição recebida em conhecimento próprio. A fé madura, na visão racionalista da Torá, não é o oposto da razão — é o conhecimento que a razão alcançou e tornou inabalável.
Há uma frase da própria Torá que cristaliza essa exigência. Não basta sentir; é preciso saber e fixar o saber no coração.
A sequência do versículo é precisa: primeiro saberás, depois porás em teu coração. O conhecimento vem antes da emoção; o intelecto abre o caminho que o coração depois percorre.
O primeiro dos Dez Mandamentos
Quando D'us Se dirige a Israel no Sinai, a primeira palavra não é uma proibição nem uma ordem de ação. É uma declaração de existência e de relação:
O Rambam, em seu Livro dos Mandamentos (Sefer HaMitzvot), conta este versículo como o primeiro mandamento positivo: a obrigação de conhecer e reconhecer que existe uma Causa que faz existir tudo o que existe. O Decálogo não começa exigindo obediência — começa exigindo conhecimento. Tudo o que se segue só faz sentido a partir desse reconhecimento.
Conhecer é a raiz; amar e temer são os frutos
Por que o conhecimento ocupa esse lugar de honra? Porque dele nasce toda relação real com D'us. Ninguém ama o que não conhece, nem teme com seriedade aquilo cuja realidade lhe é vaga. O amor e o temor de que a Torá fala não são impulsos vagos — são respostas proporcionais a um conhecimento.
O Rambam descreve esse movimento: quando a pessoa contempla as obras de D'us e percebe nelas uma sabedoria sem medida, imediatamente ama, e ao perceber sua própria pequenez diante dessa grandeza, imediatamente teme. O amor e o temor não são pré-requisitos do conhecimento; são suas consequências. É por isso que o conhecimento é a raiz: sem ele, não há de onde a relação crescer.
O ápice da vida humana
Nos últimos capítulos do Guia dos Perplexos (III:51–54), o Rambam conduz o leitor ao cume de todo o seu pensamento. Ele pergunta: o que é, afinal, a verdadeira perfeição de um ser humano? E examina, uma a uma, as respostas comuns.
Não é a riqueza, que é externa e não pertence verdadeiramente a quem a possui. Não é a força do corpo, que temos em comum com os animais. Não é nem mesmo a perfeição moral isolada — virtude grandiosa, mas que serve à vida em sociedade e não constitui o fim último em si. A perfeição mais elevada, conclui o Rambam, é a perfeição intelectual: o conhecimento de D'us, na medida em que ao homem é possível alcançá-lo.
Para selar o argumento, ele invoca o profeta:
O Rambam ilustra a ideia com a célebre parábola do palácio. Imagine um rei em seu palácio, cercado de súditos. Há os que vagam fora dos muros, sem sequer voltar o rosto para a morada do rei. Há os que se aproximam das paredes, e os que entram no pátio. Outros chegam à antecâmara. E há, enfim, aqueles que penetram na sala interior e estão na presença do rei. O que determina a proximidade de cada um não é a posição social nem a riqueza — é o quanto cada um conhece o rei. Quem mais compreende a verdade sobre D'us está mais perto Dele.
Como se conhece o que é incognoscível?
Aqui surge o paradoxo que torna esse conhecimento singular. A essência de D'us é, por princípio, inacessível à mente humana. Não podemos saber o que Ele é. Como, então, conhecê-Lo?
O Rambam responde com a doutrina dos atributos negativos (Guia I:58). Não dizemos o que D'us é, mas o que Ele não é. Dizer que Ele é um significa que não há multiplicidade Nele; dizer que vive significa que não é inerte; dizer que é poderoso significa que nada Lhe é impossível. Cada negação afasta um erro e aproxima a mente da verdade, sem jamais pretender capturá-la. Conhecemos D'us como quem se aproxima de uma luz tão intensa que não pode ser fitada de frente — vemos o que ela ilumina, e por isso sabemos que ela existe.
O que sim podemos conhecer, e devemos: que Ele existe, que é absolutamente um, e que governa o mundo com providência. E o caminho para esse conhecimento é duplo — a razão, que demonstra a necessidade de um Primeiro Existente, e a contemplação das Suas obras, o universo que diante de nós testemunha uma sabedoria que o transcende.
O privilégio de toda mente humana
Poderia parecer que tal conhecimento fosse reservado a filósofos, a uma elite de intelectos raros. A tradição racionalista da Torá afirma o contrário. O versículo de Devarim diz e saberás — dirigido a todo o povo, não a uma academia. O mandamento de conhecer D'us recai sobre cada ser humano dotado de razão.
Não significa que todos alcançarão o mesmo grau — a parábola do palácio admite muitos níveis de proximidade. Significa que a porta está aberta a todos, e que toda vida séria tem nesse conhecimento o seu horizonte. Saadia Gaon, séculos antes do Rambam, já havia escrito em seu Livro das Crenças e Opiniões (Emunot veDeot) que a razão é um dom dado para que o homem confirme por si mesmo as verdades recebidas pela tradição — e que negligenciá-la é desperdiçar o instrumento mais nobre que recebemos.
Eis, então, o mandamento supremo. Não porque suprima os outros, mas porque os sustenta a todos. Conhecer D'us é a tarefa de uma vida inteira e, ao mesmo tempo, o seu maior privilégio: a possibilidade, oferecida a cada mente que pensa, de se aproximar daquilo que é a fonte de tudo o que existe.
Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides) e de Saadia Gaon. As fontes clássicas citadas ao longo do texto incluem a Torá (Shemot 20:2; Devarim 4:39), os Profetas (Yirmiyahu 9:23), o Rambam (Mishné Torá, Hilchot Yesodei HaTorá 1; Sefer HaMitzvot, mandamento positivo 1; Guia dos Perplexos I:58 e III:51–54) e Saadia Gaon (Emunot veDeot). A redação é original.