Filosofia Racionalista · Fundamentos

O Big Bang e a Criação

Por milênios, o judaísmo afirmou algo que parecia filosoficamente audacioso: o universo não é eterno. Teve um começo. Uma reflexão racionalista sobre a doutrina da criação e a intuição de que tudo teve uma origem.

Ensaio na tradição racionalista da Torá Ensaio autoral · PT-BR

A primeira palavra da Torá não trata de leis, nem de povos, nem de moral. Trata de uma afirmação cosmológica ousada: o universo teve um começo. Não existiu sempre; não é eterno. Houve um princípio — um instante a partir do qual passou a haver céus e terra onde antes não havia coisa alguma.

בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ "No princípio criou D'us os céus e a terra." Bereshit 1:1

Para o ouvido moderno, isso pode soar como um truísmo. Mas é preciso lembrar quão radical era essa tese no mundo antigo. Para boa parte dos grandes filósofos da Antiguidade, o cosmos era eterno: matéria sem origem, movimento sem primeiro instante, um universo que sempre fora e sempre seria. Diante desse consenso intelectual, a Torá abre proclamando o oposto — que tudo o que existe começou a existir. Essa afirmação de um chidush haolam, a novidade radical do mundo, foi por milênios uma das posições filosóficas mais distintivas e corajosas do judaísmo.

Por que a eternidade do mundo importa tanto

A disputa não era acadêmica. Se o universo é eterno e necessário — se sempre existiu e não poderia ter sido de outro modo —, então não há lugar para um Criador que o tenha posto em existência por um ato livre. A matéria simplesmente seria, e as coisas seriam como são por necessidade cega, não por escolha.

Mas se o universo começou, a situação se inverte. Aquilo que começa a existir não estava obrigado a existir; poderia não ter sido. E o que poderia não ter sido, mas é, demanda uma explicação fora de si mesmo. Um começo aponta, por sua própria natureza, para um iniciador.

O Rambam (Maimônides), no Guia dos Perplexos, examina honestamente as duas posições e demonstra que a eternidade jamais foi provada: era uma hipótese, não uma demonstração. Sendo a questão filosoficamente aberta, a tradição da Torá tem todo o direito racional de sustentar o começo. Mais do que isso: é o começo, e não a eternidade, que se harmoniza com o que de fato observamos no mundo — a finitude, a composição, a mudança.

Os argumentos racionais para um começo

Saadia Gaon, séculos antes, já havia oferecido argumentos cuidadosos para a criação no tempo no primeiro tratado de sua obra Emunot veDeot. O raciocínio, em sua essência, é este: aquilo que é finito e composto não pode ser eterno.

Olhe para qualquer coisa no universo. Ela é composta de partes; é medida, tem tamanho, duração, limite. Ora, o que é composto depende daquilo que o compõe, e um corpo finito só pode conter uma força finita — força que não basta para sustentar uma existência sem começo nem fim. Tudo o que examinamos carrega as marcas da dependência e do limite; e o que é dependente e limitado não traz em si a razão de seu próprio existir.

Aquilo que é finito e composto não pode ser eterno; o que tem ordem e limite aponta, para além de si, para uma causa.

O Rambam, no início do Mishné Torá (Hilchot Yesodei haTorá, capítulo 1), formula o coração filosófico da questão: existe um Ser que existe por necessidade própria, e do qual tudo o mais depende para existir. Esse é o fundamento dos fundamentos. A cadeia das coisas que recebem sua existência de outra coisa não pode regredir ao infinito; em algum ponto é preciso chegar àquilo que não recebe sua existência de nada — a causa primeira não-causada. O começo do universo exige um iniciador que ele próprio não começou.

Quando a intuição bíblica e a cosmologia se encontram

É tentador, ao ouvir que a ciência hoje descreve um universo que se expande a partir de um estado inicial — uma origem de tudo o que vemos —, querer dizer: "está provado, a Torá estava certa". Convém resistir a esse impulso. A Torá não precisa ser validada pela ciência, e seria um erro tratá-la como manual de física a ser confirmado por cada descoberta. A ciência muda; os modelos se refinam e às vezes se substituem.

O que se pode dizer, com prudência, é mais modesto e mais belo: a intuição de um princípio — de que houve um instante a partir do qual o tempo, o espaço e a matéria passaram a existir — é profundamente bíblica. Durante milênios ela pareceu estranha ao pensamento dominante, que insistia na eternidade. Que a investigação da natureza tenha, por seus próprios caminhos, chegado à imagem de um cosmos com uma origem não prova a Torá; mas certamente não a contradiz, e é difícil não notar a ressonância. A Torá afirmou o começo quando afirmá-lo era nadar contra a corrente.

A pergunta que a ciência não responde

Aqui chegamos à fronteira. A cosmologia pode descrever, com precisão crescente, como o universo se desenvolveu a partir de seu estado inicial. Pode traçar a expansão, a formação das estruturas, as leis que governam a matéria. Mas há uma pergunta diante da qual a ciência, por sua própria natureza, se cala — e é a mais funda de todas: por que há algo em vez de nada?

Por que existe um universo, com estas leis e não outras? Por que a realidade é inteligível — por que pode ser compreendida, medida, expressa em ordem? A ordem não brota do caos por conta própria. A existência de leis, de estrutura, de uma racionalidade que a mente humana consegue decifrar, aponta para além da matéria — aponta para uma Mente. O universo é inteligível porque foi feito por uma Inteligência.

בִּדְבַר ה' שָׁמַיִם נַעֲשׂוּ וּבְרוּחַ פִּיו כָּל צְבָאָם "Pela palavra do Eterno foram feitos os céus, e pelo sopro de Sua boca todo o seu exército." Tehilim 33:6

O Salmo não descreve uma explosão de matéria sem causa, nem um acaso afortunado. Descreve uma palavra — isto é, vontade, intenção, sentido. O céu não surge de si; surge de um propósito. E o profeta Yeshayá convida o ser humano a levantar os olhos e contemplar essa ordem como assinatura de um Autor: "Levantai vossos olhos para o alto e vede quem criou estas coisas" (Yeshayá 40:26) — cada astro chamado por nome, nenhum faltando, numa regência que é o oposto do acaso.

Criação como bondade, não como acaso

A doutrina da criação não diz apenas que o universo começou; diz como e por quê em sentido último. A criação é apresentada como ato de vontade e de bondade. D'us não foi compelido a criar; criou por um ato livre, e o que criou foi sábio e bom. Por isso o Salmista, contemplando a natureza, irrompe em assombro:

מָה רַבּוּ מַעֲשֶׂיךָ ה' כֻּלָּם בְּחָכְמָה עָשִׂיתָ "Como são grandes as Tuas obras, ó Eterno! Todas com sabedoria fizeste." Tehilim 104:24

"Com sabedoria" — bechochmá. Não por acidente, não por necessidade cega, mas com inteligência e desígnio. É esta a chave da visão racionalista: a inteligibilidade do mundo não é um detalhe curioso, é um testemunho. Aquilo que pode ser compreendido pela mente foi posto em existência por uma Mente.

A humildade dupla diante do começo

Encerro com uma nota de equilíbrio, que é também uma nota de honestidade. A relação entre a Torá e a ciência diante da criação pede uma humildade que corre nas duas direções.

De um lado, a Torá não é um manual de cosmologia. Ela não nos diz, em detalhe físico, como o universo se desdobrou — quais os mecanismos, as durações, as etapas materiais. Não foi essa a sua finalidade. Quem espera da abertura de Bereshit uma descrição técnica do cosmos pede a ela algo que ela nunca prometeu dar. A Torá fala da verdade do princípio e de seu sentido, não da engenharia do processo.

De outro lado, a ciência — por mais que avance — não alcança o porquê último. Pode recuar até o estado inicial, mas não pode dizer por que houve um estado inicial em vez de nada, nem o que significa o "antes" de um tempo que ela própria descreve como tendo começado. Diante da origem absoluta, a medição encontra seu limite natural.

É justamente aí, nessa fronteira, que a fé e a razão deixam de competir e se encontram. Ambas, a seu modo, chegam ao mesmo lugar de assombro: diante do fato extraordinário de que um mundo, de que ele começou, e de que é compreensível à mente que o habita. O racionalista não vê nisso um conflito a vencer, mas uma única verdade vista por dois ângulos — e o espanto diante do começo é o início da sabedoria.

Sobre este ensaio

Texto autoral, na tradição da filosofia racionalista da Torá — a linha do Rambam (Maimônides) e de Saadia Gaon. Fontes clássicas evocadas ao longo do texto: Bereshit 1:1; Tehilim 33:6 e 104:24; Yeshayá 40:26; Rambam, Mishné Torá (Hilchot Yesodei haTorá, cap. 1) e Guia dos Perplexos (livro II, sobre criação versus eternidade do mundo); Saadia Gaon, Emunot veDeot (tratado I, sobre a criação no tempo). A redação é original.