A introdução à grande obra: conhecer os princípios da fé é fácil de um lado e difícil de outro; os sábios divergem quanto ao número deles; e por isso Albo se propõe a investigar, com rigor, quais são os princípios universais da religião divina — reduzindo-os, ao fim, a três raízes.
A introdução à grande obra: conhecer os princípios da fé é fácil de um lado e difícil de outro; os sábios divergem quanto ao número deles; e por isso Albo se propõe a investigar, com rigor, quais são os princípios universais da religião divina — reduzindo-os, ao fim, a três raízes.
1 O conhecimento dos princípios ikkarim e a compreensão dos fundamentos sobre os quais giram, em geral, os caminhos dos alicerces das religiões — é fácil de um lado e difícil de outro. A sua facilidade, é porque todos os homens conhecidos hoje no mundo são adeptos de uma religião, e não se concebe que um homem seja dos adeptos de uma religião, ou que a ela se atribua, se não conhecer os princípios daquela religião, ou não os conceber com uma compreensão representativa, de modo a crer neles — assim como não se chama "médico" quem não conhece os fundamentos da medicina, nem "engenheiro" quem não conhece os fundamentos da geometria com um conhecimento verdadeiro, ou pelo menos com um conhecimento representativo. E por isso está claro que cabe a todo adepto de uma religião conhecer os princípios daquela religião à qual se atribui com um conhecimento verdadeiro, conforme o decreta a natureza do assunto, ou compreendê-los com a compreensão representativa que vem no início do estudo da matéria.
יְדִיעַת הָעִקָּרִים וַהֲבָנַת הַהַתְחָלוֹת שֶׁעֲלֵיהֶם דַּרְכֵי יְסוֹדֵי הַדָּתוֹת בִּכְלָל סוֹבְבִים, קַלָּה מִצַּד וְקָשָׁה מִצַּד. אִם קַלּוּתָהּ – לְפִי שֶׁכָּל הָאֲנָשִׁים הַנּוֹדָעִים הַיּוֹם בָּעוֹלָם הֵם בַּעֲלֵי דָת, וְלֹא יְצֻיַּר שֶׁיִּהְיֶה אָדָם מִבַּעֲלֵי הַדָּת אִם לֹא יֵדַע עִקְּרֵי הַדָּת הַהִיא, כְּמוֹ שֶׁלֹּא יִקָּרֵא רוֹפֵא מִי שֶׁלֹּא יֵדַע הַתְחָלוֹת הָרְפוּאָה. וְעַל כֵּן רָאוּי לְכָל בַּעַל דָּת שֶׁיֵּדַע עִקְּרֵי הַדָּת הַהִיא יְדִיעָה אֲמִתִּית כְּפִי מַה שֶּׁיִּגְזֹר טֶבַע הָעִנְיָן.
2 E a sua dificuldade, é porque não achamos que a maioria dos sábios tenha falado nos princípios das religiões um discurso suficiente, nem que estejam de acordo quanto aos princípios nem quanto ao seu número; antes os achamos divergindo neles com uma divergência grande, e em particular nos princípios da Torá de Moisés — que, embora todos concordem que ela é divina, divergem no número dos seus princípios com uma divergência não pequena: pois há quem os ponha em treze princípios, e há quem os ponha em vinte e seis princípios, e há quem os ponha em seis princípios apenas; e nenhum deles aplicou o coração a explicar os princípios da religião divina em geral, sem os quais uma Torá divina não se conceberia, e a investigar se a religião divina deve ser uma só ou muitas, e, se forem muitas, se cabe que cada uma tenha princípios próprios pelos quais é divina e particular, ou não. E aquilo de que não há que duvidar é que cabe que a religião divina tenha princípios universais pelos quais é divina em geral — tais que, se um deles for anulado, não se conceberá que ela seja divina —, e princípios próprios e particulares — tais que, se um deles for anulado, cairá aquela religião particular, ainda que não caia a religião divina em geral.
וְאִם קָשְׁיָהּ – לְפִי שֶׁלֹּא מָצִינוּ לַהֲמוֹן הַחֲכָמִים שֶׁיְּדַבְּרוּ בְּעִקְּרֵי הַדָּתוֹת דִּבּוּר מַסְפִּיק, וְלֹא שֶׁיִּהְיוּ מַסְכִּימִים בָּעִקָּרִים וְלֹא בְּמִסְפָּרָם, אֲבָל נִמְצָאֵם מִתְחַלְּפִים בָּהֶם חִלּוּף רַב, וּבִיחוּד בְּעִקְּרֵי תּוֹרַת מֹשֶׁה. כִּי יֵשׁ מִי שֶׁשָּׂם אוֹתָם י״ג עִקָּרִים, וְיֵשׁ מִי שֶׁשָּׂם אוֹתָם כ״ו, וְיֵשׁ מִי שֶׁשָּׂם אוֹתָם שִׁשָּׁה בִּלְבַד. וּמַה שֶּׁאֵין לְסַפֵּק בּוֹ, שֶׁרָאוּי שֶׁיִּהְיוּ לַדָּת הָאֱלֹהִית עִקָּרִים כּוֹלְלִים – אִם יְבֻטַּל אֶחָד מֵהֶם לֹא יְצֻיַּר הֱיוֹתָהּ אֱלֹהִית – וְעִקָּרִים מְיֻחָדִים פְּרָטִיִּים – אִם יְבֻטַּל אֶחָד מֵהֶם תִּפֹּל הַדָּת הַהִיא.
3 E porque eu, o jovem Yosef Albo, que habito aqui na cidade de Soria — aquele que me moveu para cá foi o Motor Primeiro —, vi a grandeza da excelência desta investigação e a preciosidade do esplendor da sua grandeza, e a muita confusão e perplexidade que sobreveio aos que nela meditam, a saber que todos eles mergulharam em águas impetuosas e não tiraram nas mãos coisa digna de a ela se atentar, pois explicaram os princípios conforme a estimativa que sobe ao espírito no início do pensamento, sem voltar-se ao que cabe investigar para que a matéria se esclareça na sua verdade — apliquei o meu coração a investigar os princípios universais da religião divina com uma investigação suficiente, e compus este livro e chamei o seu nome Sefer HaIkkarim Livro dos Princípios, pois ele investiga os princípios das religiões em geral, e, em particular, os princípios da religião divina; e investiga se a religião divina deve ser uma só ou muitas, e, se forem muitas, em que se distingue uma da outra. E depois investiga os princípios da Torá de Moisés, que todos concordam ser divina, e explica que nela há princípios universais pelos quais é divina e princípios próprios pelos quais é particular. E explica que os princípios universais têm outros princípios particulares chamados raízes shorashim, pois entram sob os universais e deles se ramificam, e, com a remoção dos universais, removem-se os particulares. E explica que os princípios universais da Torá divina são três: a existência de D'us metziut haShem, a Torá vinda do Céu Torá min haShamayim e a recompensa e o castigo sachar va'onesh. E por causa disto dividimos este livro em quatro Discursos maamarim: o primeiro, para investigar os princípios em geral — quantos são e quais são; o segundo, para investigar o primeiro princípio, que é a existência de D'us, e as raízes que dele dependem; o terceiro, para investigar o segundo princípio, que é a Torá vinda do Céu, e as coisas que dele dependem; e o quarto, para investigar o terceiro princípio, que é a recompensa e o castigo, e as raízes que dele se ramificam e as coisas que dele dependem.
וּלְפִי שֶׁרָאִיתִי אֲנִי הַצָּעִיר יוֹסֵף אַלְבּוֹ הַיּוֹשֵׁב פֹּה הָעִיר שׁוֹרִיאָה גֹּדֶל מַעֲלַת זֶה הַדְּרוּשׁ, וְרֹב הַבִּלְבּוּל וְהַמְּבוּכָה אֲשֶׁר נָפַל לַמְעַיְּנִים בּוֹ, נָתַתִּי אֶת לִבִּי לַחְקֹר עַל הָעִקָּרִים הַכּוֹלְלִים לַדָּת הָאֱלֹהִית חֲקִירָה מַסְפֶּקֶת, וְחִבַּרְתִּי הַסֵּפֶר הַזֶּה וְקָרָאתִי שְׁמוֹ סֵפֶר הָעִקָּרִים. וִיבָאֵר שֶׁהָעִקָּרִים הַכּוֹלְלִים לַתּוֹרָה הָאֱלֹהִית הֵם ג׳: מְצִיאוּת הַשֵּׁם, וְתוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם, וְשָׂכָר וָעֹנֶשׁ. וּבַעֲבוּר זֶה חִלַּקְנוּ הַסֵּפֶר הַזֶּה לְאַרְבָּעָה מַאֲמָרִים.
4 E visto que está claro que, conforme a excelência da coisa cuja apreensão se busca, assim cabe que seja o esforço do homem e a sua diligência em apreendê-la — pois, quando a matéria é de grande valor, cabe que o homem se esforce com um esforço forte em apreendê-la, e, quando não é de grande valor, não cabe esforçar-se na sua apreensão com um esforço forte, mas com um esforço proporcional à coisa apreendida; pois não se louva quem fabrica instrumentos no valor de um talento de prata para fazer uma única agulha de ferro, tanto como se louva quem fabrica instrumentos no valor de dez mil talentos de prata para fazer agulhas sem fim, uma a uma, uma após a outra —
5 e sendo esta matéria, que é o conhecimento dos princípios das religiões, coisa de grande valor — muito mais, porque toda a perfeição dos homens está nisso, sendo eles adeptos de religiões, e sendo todos os homens adeptos de uma religião, ainda que sejam adeptos de religiões diferentes —, está claro que cabe esforçar-nos por investigar nisto com todas as forças do nosso poder, conforme a possibilidade e a capacidade, e conforme o que suporte a natureza da matéria.
וּמֵאֲשֶׁר הוּא מְבֹאָר כִּי כְּפִי מַעֲלַת הַדָּבָר הַמְבֻקָּשׁ הַשָּׂגָתוֹ כֵּן רָאוּי שֶׁיִּהְיֶה עֲמַל הָאָדָם וְהִשְׁתַּדְּלוּתוֹ לְהַשִּׂיגוֹ. כִּי לֹא יְשֻׁבַּח מִי שֶׁיַּעֲשֶׂה כֵּלִים שָׁוִים כִּכַּר כֶּסֶף לַעֲשׂוֹת מַחַט בַּרְזֶל אֶחָת, כְּמוֹ שֶׁיְּשֻׁבַּח מִי שֶׁיַּעֲשֶׂה כֵּלִים שָׁוִים עֲשֶׂרֶת אֲלָפִים כִּכַּר כֶּסֶף לַעֲשׂוֹת מְחָטִים בְּבִלְתִּי תַכְלִית.
וְהָיָה הַדְּרוּשׁ הַזֶּה, שֶׁהוּא יְדִיעַת עִקְּרֵי הַדָּתוֹת, דָּבָר גְּדוֹל הָעֵרֶךְ מְאֹד, לְפִי שֶׁכָּל שְׁלֵמוּת הָאֲנָשִׁים שֶׁהֵם בַּעֲלֵי דָתוֹת [תָּלוּי בּוֹ]. מְבֹאָר שֶׁרָאוּי שֶׁנִּשְׁתַּדֵּל לַחְקֹר בָּזֶה בְּכָל מַאֲמַצֵּי כֹחֵנוּ.
6 E por ser esta investigação de grande valor e muito preciosa, cabe que supliquemos ao Nome, que agracia o homem com saber e entendimento, a fim de que nos agracie com sabedoria, discernimento e intelecto, de modo que haja na nossa obra parte da delícia divina noam que se cola a todas as obras divinas — conforme as palavras de Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele, na sua oração, em que disse "e seja a delícia do Senhor, nosso D'us, sobre nós, e a obra das nossas mãos consolida sobre nós, e a obra das nossas mãos consolida-a" (Salmos 90:17).
7 E a sua explicação: que em toda obra cabe a delícia de dois modos — ou do lado da própria obra, a saber o ser ela perfeita no auge da perfeição conforme o que decreta a natureza da sua matéria; ou do lado do agente, quer dizer, o haver naquela obra uma delícia e uma perfeição particular do lado da sua atribuição ao agente, e do facto de aquela obra ser a obra daquele agente. E nas obras divinas cabe nelas a delícia e a perfeição por estes dois modos: ou do lado das próprias obras, quer dizer, o serem elas perfeitas no auge do que lhes é possível conforme o que decreta a natureza da sua matéria; e cabe também nelas uma delícia e um esplendor outro, que não está na natureza da sua matéria, vindo do lado de serem elas a obra de D'us, bendito seja.
וְלִהְיוֹת הַחֲקִירָה הַזֹּאת גְּדוֹלַת הָעֵרֶךְ, רָאוּי שֶׁנִּתְחַנֵּן לַשֵּׁם הַחוֹנֵן לְאָדָם דַּעַת וּתְבוּנָה שֶׁיָּחֹן אוֹתָנוּ דֵּעָה בִּינָה וְהַשְׂכֵּל, כְּמַאֲמַר מֹשֶׁה רַבֵּנוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם בִּתְפִלָּתוֹ ״וִיהִי נֹעַם ה׳ אֱלֹהֵינוּ עָלֵינוּ וּמַעֲשֵׂה יָדֵינוּ כּוֹנְנָה עָלֵינוּ״.
וּבֵאוּרוֹ: כִּי בְּכָל פֹּעַל יִפֹּל בּוֹ הַנְּעִימוּת מִשְּׁנֵי פָנִים – אִם מִצַּד הַפְּעֻלָּה בְּעַצְמָהּ הֱיוֹתָהּ שְׁלֵמָה בְּתַכְלִית, וְאִם מִצַּד הַפּוֹעֵל. וּבַפְּעֻלּוֹת הָאֱלֹהִיּוֹת יִפֹּל בָּהֶם הַנְּעִימוּת מִשְּׁתֵּי אֵלּוּ הַפָּנִים.
8 Como se dissesses que, embora não seja do feitio da abelha, conforme a natureza da sua matéria, que se ache nela o entendimento para construir aquelas casas favos da cera em que o mel está recolhido, na figura do hexágono — contudo, por ser o Agente o mais excelente dos agentes, pôs nela o entendimento de construí-las nesta figura, por ser semelhante ao círculo, que é a figura natural, e por ter vantagem sobre ele: que na figura do hexágono se preenche toda a superfície e o vão que há no corpo sólido com hexágonos contíguos uns aos outros, de modo que não fique lugar vazio e oco entre eles — o que não é assim no círculo, pois, se fizessem as casas redondas, à maneira de cilindros contíguos uns aos outros, restaria muito espaço entre eles, do qual não se tiraria proveito; por isso as construíram na figura do hexágono, e não as fizeram redondas; tampouco as construíram quadradas, pois, embora ao justapor casas quadradas umas às outras se preencha toda a superfície e o vão que há no sólido, contudo, por ser a figura do quadrado mais distante de assemelhar-se ao círculo — que é a figura natural — do que o hexágono, não as construíram dela. E tudo isto se acha na abelha do lado de ser ela obra de D'us, bendito seja, pois cabe que se ache nela uma vantagem deste lado sobre o que decreta a natureza da sua matéria; e esta é a delícia que vem do lado do agente, achada nas obras divinas.
כְּאִלּוּ תֹּאמַר, שֶׁאַף עַל פִּי שֶׁאֵין מִדֶּרֶךְ הַדְּבוֹרָה כְּפִי טֶבַע חָמְרָהּ שֶׁיִּמָּצֵא בָּהּ הַהֲבָנָה לִבְנוֹת הַבָּתִּים הָהֵם מֵהַשַּׁעֲוָה בִּתְמוּנַת הַשִּׁשִּׁיּוֹת, לִהְיוֹת הַפּוֹעֵל מִבְחַר הַפּוֹעֲלִים נָתַן בָּהּ הֲבָנָה לִבְנוֹתָם בַּתְּמוּנָה הַזֹּאת, לִהְיוֹתָהּ דּוֹמָה לָעֲגֻלָּה שֶׁהִיא הַתְּמוּנָה הַטִּבְעִית. וְכָל זֶה נִמְצָא לַדְּבוֹרָה מִצַּד הֱיוֹתָהּ פֹּעַל הָאֵל יִתְבָּרַךְ.
9 E por isso Moisés orava ao Nome — depois de dizer "apareça aos teus servos a tua obra, e a tua glória sobre os seus filhos" (Salmos 90:16) — pedindo que se achassem nas nossas obras os dois gêneros de delícia que há na obra divina; e disse "e seja a delícia do Senhor, nosso D'us, sobre nós"; e, para aludir à delícia e ao esplendor que vêm do lado do agente, disse "e a obra das nossas mãos consolida sobre nós", quer dizer, em conexão conosco; e, para aludir à delícia que vem do lado da própria obra, disse "e a obra das nossas mãos consolida-a".
10 E por isso eu suplico ao Nome, que é o Senhor do poder perfeito e da verdade perfeita, que me dê vigor e firmeza para completar a minha intenção, e me conduza pelo caminho da verdade, e me ensine as veredas da retidão — pois nele confiei e a ele esperei, conforme as palavras do salmista "conduze-me na tua verdade e ensina-me, pois tu és o D'us da minha salvação; a ti esperei todo o dia" (Salmos 25:5).
11 E com isto começarei, com a ajuda do Todo-Poderoso.
וְעַל כֵּן הָיָה מֹשֶׁה מִתְפַּלֵּל לַשֵּׁם שֶׁיִּמָּצְאוּ בִּפְעֻלּוֹתֵינוּ שְׁנֵי מִינֵי הַנְּעִימוּת אֲשֶׁר בַּפֹּעַל הָאֱלֹהִי, וְאָמַר ״וִיהִי נֹעַם ה׳ אֱלֹהֵינוּ עָלֵינוּ״.
וְעַל כֵּן אֲנִי מִתְחַנֵּן לַשֵּׁם שֶׁהוּא בַּעַל הַיְכֹלֶת הַגָּמוּר וְהָאֱמֶת הַגָּמוּר שֶׁיִּתֵּן לִי עֹז וְתַעֲצֻמוֹת לְהַשְׁלִים כַּוָּנָתִי וְיַנְחֵנִי בְּדֶרֶךְ אֱמֶת, כִּי בוֹ בָטַחְתִּי וְאֵלָיו קִוִּיתִי.
וְזֶה הַחִלִּי בְּעֶזְרַת שַׁדַּי׃
Albo abre com uma observação aguda: todo homem pertence a alguma religião, mas quase ninguém sabe definir os fundamentos da sua própria fé. É como chamar-se médico sem conhecer a medicina, ou engenheiro sem geometria. Saber crer não basta — é preciso saber em que se crê. Daí a obrigação, para todo crente, de conhecer os princípios-raiz da sua religião.
A dificuldade está em que os próprios mestres discordam: alguns contam treze princípios (Maimônides), outros vinte e seis (Crescas), outros apenas seis. Falta, diz Albo, uma investigação que distinga o princípio universal — sem o qual nenhuma religião pode ser chamada divina — do princípio particular, próprio de uma religião específica. É essa lacuna que o livro vem preencher.
Aqui Albo anuncia a arquitetura de toda a obra: os três princípios-raiz universais são a existência de D'us, a Torá vinda do Céu e a recompensa e o castigo. Deles brotam princípios secundários (shorashim, "raízes") e, abaixo destes, os ramos (anafim). Os quatro Maamarim do livro seguem exatamente esse plano: o primeiro trata dos princípios em geral, e cada um dos três seguintes desenvolve uma das raízes.
A bela parábola da abelha — que constrói os favos em hexágonos perfeitos, a forma que preenche todo o espaço sem desperdício — ilustra a tese de que a obra divina carrega uma "delícia" (noam) dupla: a perfeição da própria coisa e o esplendor de provir de D'us. Albo pede que a sua obra intelectual participe dessa mesma graça, encerrando a introdução com a prece de Moisés (Salmos 90:17) e a sua confiança no "D'us da minha salvação".
O capítulo de abertura: investigar os princípios da fé é "uma investigação muito perigosa", pois quem nega um princípio particular sai da sua religião. Albo ilustra o problema com o célebre caso de Rabi Hillel, que negava a vinda do Messias — e conclui que o Messias, embora crença obrigatória, não é um princípio-raiz da Torá de Moisés.
O capítulo de abertura: investigar os princípios da fé é "uma investigação muito perigosa", pois quem nega um princípio particular sai da sua religião. Albo ilustra o problema com o célebre caso de Rabi Hillel, que negava a vinda do Messias — e conclui que o Messias, embora crença obrigatória, não é um princípio-raiz da Torá de Moisés.
1 A investigação dos princípios ikkarim é uma investigação muito perigosa. Pois as religiões, ainda que concordem nos assuntos gerais — como a existência de D'us, a recompensa e o castigo e semelhantes —, eis que divergem nos assuntos particulares. E por isso é forçoso, necessariamente, que as religiões tenham princípios particulares, nos quais a única religião divina se distingue das demais. E na investigação dos assuntos particulares há um perigo imenso, pois todo o que nega um dos princípios particulares da religião — eis que sai do conjunto dos adeptos daquela religião; pois quem nega a profecia de Moisés e a sua missão — eis que é um herege contra a Torá de Moisés, sem dúvida, ainda que aquilo não seja um princípio geral comum a toda religião divina. E assim a vinda do Messias, que o Rambam, de abençoada memória, contou como um dos princípios da Torá de Moisés — conforme as suas palavras, será também aquele que o nega do conjunto dos que negam um dos princípios da Torá de Moisés, os quais saem do conjunto da religião e não têm parte no mundo vindouro; e assim o Rambam o contou, de abençoada memória, no Sefer HaMadá, no capítulo 3 das Leis do Arrependimento, no conjunto dos hereges. E esta é uma coisa muito espantosa, pois eis que achamos na Guemará de Sanhedrin, no capítulo Chelek, que Rabi Hillel, que é um dos sábios de Israel mencionados no Talmud, diz que não há Messias para Israel, pois já o consumiram nos dias de Chizkiyahu, rei de Judá; e, conforme as palavras do Rambam, aquele sábio estaria no conjunto dos hereges e dos que não têm parte no mundo vindouro. E há que perguntar: se assim, por que o mencionaram na Guemará, já que estava fora do conjunto de Israel e não cria nos princípios da sua religião? E, se disseres que trouxeram as suas palavras apenas para refutá-las — se assim, não lhes cabia mencioná-lo com o título "Rabi" e dizer uma tradição shemuá da sua boca em lugar algum.
הַחֲקִירָה מִן הָעִקָּרִים חֲקִירָה מְסֻכֶּנֶת מְאֹד. לְפִי שֶׁהַדָּתוֹת אַף אִם יַסְכִּימוּ בָּעִנְיָנִים הַכּוֹלְלִים כְּמוֹ מְצִיאוּת הַשֵּׁם וְשָׂכָר וָעֹנֶשׁ, הִנֵּה הֵם חוֹלְקוֹת בָּעִנְיָנִים הַחֶלְקִיִּים. וְכָל מִי שֶׁיַּכְחִישׁ אֶחָד מֵעִקְּרֵי הַדָּת הַחֶלְקִיִּים – הִנֵּה הוּא יוֹצֵא מִכְּלַל בַּעֲלֵי הַדָּת הַהִיא. וְכֵן בִּיאַת הַמָּשִׁיחַ, שֶׁהָרַמְבַּ״ם ז״ל מְנָאוֹ אֶחָד מֵעִקְּרֵי תּוֹרַת מֹשֶׁה. וְזֶה דָּבָר מַתְמִיהַּ, שֶׁהֲרֵי רַבִּי הִלֵּל אוֹמֵר שֶׁאֵין לָהֶם מָשִׁיחַ לְיִשְׂרָאֵל שֶׁכְּבָר אֲכָלוּהוּ בִּימֵי חִזְקִיָּה, וּלְפִי דִּבְרֵי הָרַמְבַּ״ם יִהְיֶה אוֹתוֹ חָכָם מִכְּלַל הַכּוֹפְרִים. וְיֵשׁ לִשְׁאֹל לָמָּה הִזְכִּירוּהוּ בַּגְּמָרָא בְּשֵׁם רַבִּי.
2 E há quem responda nisto e diga que Rabi Hillel não negava o princípio do Messias, D'us nos livre, mas a sua opinião era dizer que não há Messias para Israel decorrente da força necessária dos versículos; pois todas as passagens que se disseram em Yeshayahu sobre o Messias — como "e sairá um rebento do tronco de Yishai" e semelhantes — não se disseram senão sobre Chizkiyahu, rei de Judá, e aquelas profecias se cumpriram nos seus dias. E o que disse a Escritura "a raiz de Yishai, que está posta por estandarte dos povos, a ele as nações buscarão" — disse-se sobre Merodach-Baladan, filho de Baladan, rei da Babilônia, que enviou cartas e um presente a Chizkiyahu. E o que se disse "e o seu repouso será glória" — disse-se sobre ele também, pois é o caminho do herói ou do rei sair ao encontro das armas e combater os seus inimigos para salvar o seu povo e arriscar a sua vida por eles, e, quando se senta em repousos tranquilos nos recantos da morada, isso é um grande opróbrio para ele, a ponto de lhe ser preferível a morte a suportar aquele opróbrio — assim fez Saul, que, ainda sabendo que morreria na guerra, como lhe disse Shmuel "amanhã tu e os teus filhos estareis comigo", não se absteve de sair à guerra, a fim de escapar deste opróbrio.
3 E a Chizkiyahu o vituperava todo o mundo, por se ter fechado em Jerusalém e não sair à guerra; mas, quando viram o grande milagre que se fez para ele na morte de Sancheriv e dos seus exércitos, revelou-se que o motivo de não sair à guerra era por estar confiante no Nome de que Ele travaria as suas guerras, e por isso aquele repouso lhe foi uma grande glória, pois souberam todo o mundo que era justo perfeito e amado diante do Nome, e por isso lhe deu os desejos do seu coração e combateu por ele — o que não é assim nos demais reis, para quem o repouso não é glória. E, por causa da divulgação deste grande milagre, todo Israel que fora cativado para a Assíria ou que fugira para Cuxe, Egito, Patros e as demais terras — voltou à terra de Israel. E é isto o que se disse "e haverá uma estrada para o resto do seu povo", etc.; e por este caminho segue o curso de toda a passagem. E assim a explicou Rabi Moshe HaKohen, e Ben Bilam, e outros dentre os comentadores do sentido literal. E pareceria, conforme isto, dizer que a opinião de Rabi Hillel é que não há, dos versículos que vieram em Yeshayahu e nos Profetas, uma força probatória sobre a vinda do Messias; mas, do lado da tradição kabbalá, ele cria na vinda do Redentor, e por isso não saía do conjunto de Israel nem se contava no conjunto dos transgressores.
וְיֵשׁ מְשִׁיבִים: כִּי רַבִּי הִלֵּל לֹא הָיָה כּוֹפֵר בְּעִקַּר הַמָּשִׁיחַ חָלִילָה, אֲבָל דַּעְתּוֹ לוֹמַר שֶׁאֵין לָהֶם מָשִׁיחַ מֵהֶכְרֵחַ הַפְּסוּקִים, כִּי כָּל הַפָּרָשִׁיּוֹת שֶׁנֶּאֶמְרוּ בִּישַׁעְיָה עַל הַמָּשִׁיחַ לֹא נֶאֶמְרוּ אֶלָּא עַל חִזְקִיָּה, וְנִתְקַיְּמוּ בְּיָמָיו.
וְחִזְקִיָּה הָיוּ מְגַנִּים אוֹתוֹ עַל שֶׁנִּסְגַּר בִּירוּשָׁלַיִם, אֲבָל כְּשֶׁרָאוּ הַנֵּס הַגָּדוֹל בְּמִיתַת סַנְחֵרִיב נִתְגַּלָּה שֶׁהָיָה בּוֹטֵחַ בַּשֵּׁם, וְהָיְתָה הַמְּנוּחָה כָּבוֹד גָּדוֹל אֵלָיו. וְנִרְאֶה שֶׁדַּעַת רַבִּי הִלֵּל שֶׁאֵין מִן הַכְּתוּבִים הֶכְרֵחַ עַל בִּיאַת הַמָּשִׁיחַ, אֶלָּא שֶׁמִּצַּד הַקַּבָּלָה הָיָה מַאֲמִין בְּבִיאַת הַגּוֹאֵל.
4 Mas isto não está implícito no texto, pois, quando o refutaram na Guemará, disseram "perdoe-lhe o seu Senhor a Rabi Hillel" sharei lei marei, quer dizer, perdoe-lhe o Santo, bendito seja — donde se vê que o consideravam pecador pela sua opinião; e não o considerariam pecador por negar as provas dos versículos, se cresse assim conforme a tradição, como se explicará no Maamar IV. Mas, sem dúvida, Rabi Hillel não cria na vinda do Messias de modo algum, e, mesmo assim, não se contava no conjunto dos hereges, porque a vinda do Messias não é um princípio para a Torá de Moisés, como escreveu o Rambam, de abençoada memória, pois já se pode conceber a sua existência a da Torá sem ela. E, na verdade, ela é um princípio particular para a religião dos cristãos, tal que não se pode conceber a sua existência sem ela; e para nós é uma crença que cabe a todo adepto da religião judaica crer, assim como a criação do mundo a partir do nada é uma crença que cabe a todo adepto da religião divina crer, ainda que não seja um princípio para a religião divina. Pois quem crê que há uma matéria primeira eterna, da qual vieram a ser todos os existentes pela vontade do Criador — ainda que não seja um herege contra um princípio, conforme a opinião do Rambam, de abençoada memória, que não a contou a criação entre os princípios — de todo modo é um pecador. E assim Rabi Hillel era pecador, por não crer na vinda do Redentor, mas não era herege contra um princípio; e esta é a opinião dos posteriores, que não contaram a vinda do Messias nem a crença na criação entre os princípios.
5 E explica-se disto a grande apreensão que há na investigação dos princípios — a saber que o investigador se mete a si mesmo em perigo, de que talvez venha a negar uma coisa que é um princípio dos princípios da Torá; pois, eis que, conforme a opinião de quem contou a criação como um princípio dos princípios da Torá, então o Rambam, de abençoada memória, seria um herege contra um princípio dos princípios da Torá, D'us nos livre; e assim quem não contou a vinda do Messias como princípio será um herege contra um princípio dos princípios da Torá de Moisés, conforme a opinião do Rambam que a contou como princípio; e assim há que julgar quanto às demais coisas que ele contou, de abençoada memória, entre os princípios e não são princípios, como virá adiante. E por isso dissemos que há um perigo imenso na investigação dos princípios, pois com que se saberá, então, quais são as coisas tais que quem as nega e diz que não são princípio será chamado "herege contra um princípio".
אֲבָל אֵין זֶה בְּמַשְׁמָע, שֶׁהֲרֵי כְּשֶׁהֵשִׁיבוּ עָלָיו בַּגְּמָרָא אָמְרוּ ״שָׁרֵי לֵיהּ מָארֵיהּ לְרַבִּי הִלֵּל״, מִכְּלָל שֶׁהֶחְזִיקוּ אוֹתוֹ בְּחוֹטֵא עַל סְבָרָתוֹ. אֶלָּא שֶׁבְּלִי סָפֵק רַבִּי הִלֵּל לֹא הָיָה מַאֲמִין בְּבִיאַת הַמָּשִׁיחַ כְּלָל, וְאַף עַל פִּי כֵן לֹא הָיָה נִמְנֶה בִּכְלַל הַכּוֹפְרִים, לְפִי שֶׁאֵין בִּיאַת הַמָּשִׁיחַ עִקָּר לְתוֹרַת מֹשֶׁה. וְהִיא אֱמוּנָה רָאוּי לְכָל בַּעַל דָּת יְהוּדִית לְהַאֲמִינָהּ, כְּמוֹ שֶׁחִדּוּשׁ הָעוֹלָם יֵשׁ מֵאַיִן הִיא אֱמוּנָה רְאוּיָה, אַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ עִקָּר. וְזֶהוּ דַּעַת הָאַחֲרוֹנִים שֶׁלֹּא מָנוּ בִּיאַת הַמָּשִׁיחַ וְלֹא אֱמוּנַת הַחִדּוּשׁ בָּעִקָּרִים.
וְיִתְבָּאֵר מִזֶּה הַחֲשָׁשׁ הַגָּדוֹל שֶׁיֵּשׁ בַּחֲקִירָה מִן הָעִקָּרִים, שֶׁהוּא מַכְנִיס עַצְמוֹ בְּסַכָּנָה שֶׁמָּא יָבֹא לִכְפֹּר בְּדָבָר שֶׁהוּא עִקָּר מֵעִקְּרֵי הַתּוֹרָה. כִּי בַּמֶּה יִוָּדַע אֵיפֹה מָה הֵם הַדְּבָרִים שֶׁהַכּוֹפֵר בָּהֶם וְאוֹמֵר שֶׁאֵינָם עִקָּר יִקָּרֵא כּוֹפֵר בְּעִקָּר.
Albo abre a sua grande obra não com uma afirmação, mas com um problema: definir os princípios da fé é perigoso, porque um erro de classificação pode tornar herege até o maior dos sábios. O exemplo é deliberadamente provocador — Rabi Hillel, sábio talmúdico, afirmou que "Israel já teve o seu Messias nos dias de Ezequias" (Sanhedrin 99a). Pela lista de Maimônides, que conta a vinda do Messias entre os treze princípios, Rabi Hillel seria herege sem parte no mundo vindouro — o que é absurdo, pois o Talmud o cita com respeito.
A solução de Albo introduz a distinção que governará todo o livro: há três níveis. Um princípio-raiz (ikkar) é aquilo sem o que a religião não pode ser concebida — negá-lo é heresia. Uma crença obrigatória é verdade que todo judeu deve sustentar (como a vinda do Messias ou a criação ex nihilo), mas cuja negação faz do homem um pecador, não um herege — pois a Torá ainda pode ser concebida sem ela. A vinda do Messias, argumenta Albo, é princípio-raiz para o cristianismo (que não existe sem ela), mas apenas crença obrigatória para Israel.
O capítulo é uma crítica respeitosa mas firme a Maimônides: se classificarmos mal o que é raiz, podemos acabar condenando como hereges os próprios mestres — o Rambam (que não contou a criação entre os princípios) ou os que não contaram o Messias. Daí a urgência metodológica de toda a obra: estabelecer com rigor o que é verdadeiramente fundamental — os três ikkarim (existência de D'us, Torá do Céu, recompensa e castigo) —, que Albo desenvolverá nos quatro Maamarim seguintes.
Em defesa dos sábios de Israel: quem aceita a Torá e crê nos seus princípios, mas, ao investigar pela razão, se engana na interpretação de um deles — não é herege, mas um pecador involuntário que precisa de expiação. A distinção entre negar deliberadamente e errar de boa-fé.
Em defesa dos sábios de Israel: quem aceita a Torá e crê nos seus princípios, mas, ao investigar pela razão, se engana na interpretação de um deles — não é herege, mas um pecador involuntário que precisa de expiação. A distinção entre negar deliberadamente e errar de boa-fé.
1 E o que cabe dizer nisto, para defender o mérito dos sábios de Israel que falam nisto e em coisas semelhantes, é que todo homem de Israel é obrigado a crer que tudo o que veio na Torá é verdade absoluta, e quem nega qualquer coisa do que se acha na Torá, sabendo que aquilo é o sentido da Torá, é chamado herege kofer, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no capítulo Chelek, que todo o que diz que toda a Torá é da boca do Poderoso exceto um versículo, que Moisés disse de si mesmo — sobre ele se disse "porque a palavra do Senhor desprezou" (Números 15:31), e ele está no conjunto dos que dizem "não há Torá vinda do Céu". Mas aquele que sustenta a Torá de Moisés e crê nos seus princípios, e, quando vem a investigar isto do lado da razão e da compreensão dos versículos, o estudo o inclina a dizer que um dos princípios é de outra maneira, e não conforme o que se entende à primeira vista; ou o estudo o inclina a negar aquele princípio, por pensar que não é uma opinião sã a tal que a Torá obrigue a crê-la; ou pensa que aquilo que é um princípio não é um princípio, e crê nele como crê nas demais crenças que vieram na Torá e que não são princípios; ou crê em alguma crença num dos milagres da Torá, por pensar que não nega nisto nenhuma das crenças que se é obrigado a crer do lado da Torá — esse não é herege, mas está no conjunto dos sábios de Israel e dos seus piedosos, ainda que erre no seu raciocínio; e é um pecador involuntário choteh beshogeg e precisa de expiação.
וּמַה שֶּׁרָאוּי שֶׁנֹּאמַר בָּזֶה לְלַמֵּד זְכוּת עַל חַכְמֵי יִשְׂרָאֵל, הוּא כִּי כָּל אִישׁ יִשְׂרָאֵל חַיָּב לְהַאֲמִין שֶׁכָּל מַה שֶּׁבָּא בַתּוֹרָה הוּא אֱמֶת גָּמוּר, וּמִי שֶׁכּוֹפֵר בְּשׁוּם דָּבָר מִמַּה שֶּׁנִּמְצָא בַתּוֹרָה, עִם הֱיוֹתוֹ יוֹדֵעַ שֶׁזֶּהוּ דַּעַת הַתּוֹרָה, נִקְרָא כּוֹפֵר. אֲבָל מִי שֶׁהוּא מַחֲזִיק בְּתוֹרַת מֹשֶׁה וּמַאֲמִין בְּעִקָּרֶיהָ, וּכְשֶׁבָּא לַחְקֹר עַל זֶה מִצַּד הַשֵּׂכֶל הִטָּהוּ הָעִיּוּן לוֹמַר שֶׁאֶחָד מִן הָעִקָּרִים הוּא עַל דֶּרֶךְ אַחֶרֶת, אֵין זֶה כּוֹפֵר, אֲבָל הוּא בִּכְלַל חַכְמֵי יִשְׂרָאֵל וַחֲסִידֵיהֶם, אַף עַל פִּי שֶׁהוּא טוֹעֶה בְּעִיּוּנוֹ, וְהוּא חוֹטֵא בְּשׁוֹגֵג וְצָרִיךְ כַּפָּרָה.
2 E esta é a opinião de alguns dos primeiros sábios de Israel que dizem que havia uma ordem de tempos anterior a isto — como se dissessem que a Torá não obriga a crer que o tempo é criado mechudash. E assim Rabi Eliezer, o Grande, no que disse nos seus capítulos: "Os céus, de onde foram criados? E a terra, de onde foi criada?" etc. — pois, ainda que as suas palavras sejam entendidas conforme o seu sentido literal, e como delas parece à primeira vista, a saber que a sua opinião seria dizer que o mundo não foi criado a partir do nada yesh me'ayin, mas a partir de algo, quer dizer, a partir de uma matéria primeira eterna — não há reparo sobre ele nisto, pois a sua intenção é dizer que não há obrigação da Torá de crer na criação a partir do nada, mas não que a sua opinião fosse negar coisa alguma do que veio na Torá, D'us nos livre.
וְזֶהוּ דַּעַת קְצָת חַכְמֵי יִשְׂרָאֵל הָרִאשׁוֹנִים הָאוֹמְרִים שֶׁהָיָה סֵדֶר זְמַנִּים קֹדֶם לְכֵן, כְּאִלּוּ יֹאמְרוּ שֶׁאֵין הַתּוֹרָה מַכְרַחַת לְהַאֲמִין שֶׁהַזְּמַן מְחֻדָּשׁ. וְכֵן רַבִּי אֱלִיעֶזֶר הַגָּדוֹל בְּמַה שֶּׁאָמַר בְּפִרְקָיו ״שָׁמַיִם מֵהֵיכָן נִבְרְאוּ וְהָאָרֶץ מֵהֵיכָן נִבְרֵאת״, אֵין תְּפִיסָה עָלָיו בָּזֶה, כִּי כַּוָּנָתוֹ לוֹמַר שֶׁאֵין מֵהֶכְרֵחַ הַתּוֹרָה לְהַאֲמִין הַחִדּוּשׁ יֵשׁ מֵאַיִן.
3 E assim escreveu o Rav, o Guia Maimônides, de abençoada memória, no capítulo 25 da Segunda Parte: que o motivo de ele crer na criação a partir do nada não era da força necessária dos versículos, pois os versículos podem ser interpretados de outro modo; mas a sua crença na criação a partir do nada era por ser uma opinião verdadeira em si mesma, e cabe, então, interpretar os versículos de modo que concordem com isto. E como que explicou o Rav, de abençoada memória, nisto, que aquilo que é contra os versículos não cabe crê-lo de modo algum — contanto que aquilo que venha nos versículos não seja uma opinião falsa tal que não se conceba a sua existência diante do intelecto; pois aquilo que é uma opinião falsa, a Torá não obriga a crê-lo, já que a Torá não obriga a crer numa coisa que é contra os primeiros inteligíveis, nem numa opinião inventada tal que não se conceba a sua existência diante do intelecto. Mas uma coisa cuja existência se conceba diante do intelecto, ainda que seja impossível a sua existência diante da natureza — como a ressurreição dos mortos e todos os milagres que vieram na Torá —, cabe e é obrigatório crer neles. Mas uma opinião falsa tal que não se conceba a sua existência diante do intelecto, ainda que venha na Torá explicitamente — como "e circuncidareis o prepúcio do vosso coração" (Deuteronômio 10:16) —, não cabe crê-la conforme o seu sentido literal, e os versículos se interpretam de modo concordante com a verdade.
וְכֵן כָּתַב הָרַב הַמּוֹרֶה ז״ל בְּפֶרֶק כ״ה מִן הַחֵלֶק הַב׳, כִּי מַה שֶּׁהָיָה הוּא מַאֲמִין הַחִדּוּשׁ יֵשׁ מֵאַיִן לֹא הָיָה מֵהֶכְרֵחַ הַפְּסוּקִים, כִּי הַפְּסוּקִים אֶפְשָׁר שֶׁיְּפֹרְשׁוּ, אֲבָל הַאֲמָנָתוֹ הַחִדּוּשׁ הָיְתָה לְפִי שֶׁהוּא דַּעַת אֲמִתִּי בְּעַצְמוֹ. וְדָבָר שֶׁיְּצֻיַּר מְצִיאוּתוֹ אֵצֶל הַשֵּׂכֶל אַף עַל פִּי שֶׁאִי אֶפְשָׁר מְצִיאוּתוֹ אֵצֶל הַטֶּבַע, כִּתְחִיַּת הַמֵּתִים, רָאוּי וּמְחֻיָּב לְהַאֲמִין בָּהֶם.
4 E este é o caminho de Onkelos, o prosélito, e de Yonatan ben Uziel, e dos demais sábios de Israel, que interpretaram todos os versículos que vieram na Torá e nos Profetas que indicam corporeidade de modo concordante com a verdade, e os tiraram do seu sentido literal por serem os seus sentidos literais uma opinião falsa; e disseram "a Torá falou na linguagem dos homens" e "para abrandar o ouvido".
5 E este caminho que escrevemos é ele mesmo o caminho de alguns dos posteriores, que interpretaram a abertura da boca da jumenta de Balaão como coisa não concordante com a opinião dos nossos mestres, de abençoada memória — sendo a sua intenção dizer que não há obrigação dos caminhos da Torá de crer naquele milagre senão do modo como eles o entenderam. E assim diremos, conforme isto, que quem não alcançou o nível do seu estudo a ponto de crer nos versículos de modo concordante com a verdade, e crê neles conforme o seu sentido literal, e daí lhe veio às mãos uma opinião falsa por pensar que aquilo é o sentido da Torá — não sai com isto do conjunto dos adeptos da Torá, D'us nos livre, e não é permitido falar na sua difamação nem chamá-lo "dos que descobrem a face na Torá" megaleh panim baTorá, nem "herege", nem contá-lo no conjunto dos hereges minim, D'us nos livre.
וְזֶהוּ דֶּרֶךְ אֻנְקְלוֹס הַגֵּר וְיוֹנָתָן בֶּן עֻזִּיאֵל וּשְׁאָר חַכְמֵי יִשְׂרָאֵל שֶׁפֵּרְשׁוּ כָּל הַפְּסוּקִים שֶׁבָּאוּ בַתּוֹרָה וּבַנְּבִיאִים מוֹרִים עַל הַהַגְשָׁמָה בְּאֹפֶן מַסְכִּים אֶל הָאֱמֶת, וְאָמְרוּ ״דִּבְּרָה תוֹרָה כִּלְשׁוֹן בְּנֵי אָדָם״.
וְכֵן נֹאמַר כִּי מִי שֶׁלֹּא הִגִּיעָה מַדְרֵגַת עִיּוּנוֹ לְהַאֲמִין הַכְּתוּבִים בְּדֶרֶךְ מַסְכִּים אֶל הָאֱמֶת וּמַאֲמִין אוֹתָם כִּפְשָׁטָן, אֵינֶנּוּ יוֹצֵא בָזֶה מִכְּלַל בַּעֲלֵי הַתּוֹרָה חָלִילָה, וְלֹא הֻתַּר לְסַפֵּר בִּגְנוּתוֹ וְלִקְרוֹתוֹ כּוֹפֵר.
6 E coisa maior que esta escreveu o Raavad, de abençoada memória: que até quem compreende um dos princípios da Torá em desacordo com a verdade, por se enganar no seu raciocínio, não cabe chamá-lo herege. Pois assim escreveu no Livro das Objeções Hassagot sobre o que escreveu o Rambam, de abençoada memória, a saber que quem diz que o Nome, bendito seja, é um corpo é herege — e escreveu sobre ele o Raavad, de abençoada memória: "Disse Avraham: ainda que o princípio da fé seja assim, quanto a quem crê ser D'us um corpo por causa da sua apreensão das expressões dos versículos e dos midrashim conforme o seu sentido literal — não cabe chamá-lo herege"; até aqui as suas palavras.
וּגְדוֹלָה מִזּוֹ כָּתַב הָרַאֲבַ״ד ז״ל, שֶׁאֲפִלּוּ הַמֵּבִין עִקָּר מֵעִקְּרֵי הַתּוֹרָה בְּחִלּוּף הָאֱמֶת מִפְּנֵי שֶׁהוּא טוֹעֶה בְּעִיּוּנוֹ אֵין רָאוּי לִקְרוֹאוֹ מִין. שֶׁכָּךְ כָּתַב בְּסֵפֶר הַהַשָּׂגוֹת: ״אָמַר אַבְרָהָם, אַף עַל פִּי שֶׁעִקַּר הָאֱמוּנָה כֵּן הוּא, הַמַּאֲמִין הֱיוֹתוֹ גּוּף מִצַּד תְּפִיסָתוֹ לְשׁוֹנוֹת הַפְּסוּקִים כִּפְשָׁטָן, אֵין רָאוּי לִקְרוֹתוֹ מִין״.
7 E este caminho parece verdadeiro e correto a partir do que se acha dito pelos nossos mestres, de abençoada memória, sobre Elisha ben Avuya: "Voltai, filhos rebeldes" (Jeremias 3:14) — exceto Acher Elisha, que conhecia o seu Criador e tinha a intenção de rebelar-se contra ele. Eis que explicaram explicitamente que quem conhece a verdade e tem a intenção de negá-la é da casta dos ímpios, tais que não cabe recebê-los em arrependimento; mas quem não tem a intenção de rebelar-se, nem de desviar-se do caminho da verdade, nem de negar o que veio na Torá, nem de negar a tradição kabbalá, mas apenas de interpretar os versículos segundo a sua opinião — ainda que os interprete em desacordo com a verdade — não é herege nem kofer, D'us nos livre.
וְזֶה הַדֶּרֶךְ יֵרָאֶה אֲמִתִּי וְנָכוֹן מִמַּה שֶּׁנִּמְצָא לְרַבּוֹתֵינוּ ז״ל אוֹמְרִים עַל אֱלִישָׁע בֶּן אֲבוּיָה ״שׁוּבוּ בָנִים שׁוֹבָבִים חוּץ מֵאַחֵר שֶׁיּוֹדֵעַ בּוֹרְאוֹ וּמִתְכַּוֵּן לִמְרֹד בּוֹ״. הִנֵּה בֵּאֲרוּ כִּי מִי שֶׁיּוֹדֵעַ הָאֱמֶת וּמִתְכַּוֵּן לְהַכְחִישׁוֹ הוּא מִכַּת הָרְשָׁעִים, אֲבָל מִי שֶׁאֵינוֹ מִתְכַּוֵּן לִמְרֹד אֶלָּא לְפָרֵשׁ הַפְּסוּקִים לְפִי דַעְתּוֹ, אַף עַל פִּי שֶׁיְּפָרֵשׁ אוֹתָם בְּחִלּוּף הָאֱמֶת, אֵינוֹ מִין וְלֹא כוֹפֵר חָלִילָה.
8 E por causa disto, quem crê na ressurreição dos mortos de modo que os homens que reviverem não subsistirão para sempre em corpo e alma, mas voltarão ao seu pó — como é a opinião do Rambam, de abençoada memória, na Epístola sobre a Ressurreição dos Mortos —, ainda que isto esteja em desacordo com a verdade conforme o parecer do Ramban, de abençoada memória, não é herege contra o princípio da ressurreição dos mortos, D'us nos livre. E assim quem crê que o fundamento da retribuição no mundo vindouro é para o corpo e a alma juntos, e que a alma sozinha não tem retribuição sem o corpo — como é a opinião do Ramban, de abençoada memória, e de alguns sábios da Cabala —, ainda que isto esteja em desacordo com a verdade conforme a opinião do Rambam, de abençoada memória, não é herege contra a recompensa e o castigo espirituais, D'us nos livre.
וּבַעֲבוּר זֶה הַמַּאֲמִין בִּתְחִיַּת הַמֵּתִים שֶׁלֹּא יִתְקַיְּמוּ הָאֲנָשִׁים שֶׁיִּחְיוּ לְעוֹלָם בְּגוּף וָנֶפֶשׁ אֲבָל יַחְזְרוּ לַעֲפָרָם, כְּמוֹ שֶׁהוּא דַּעַת הָרַמְבַּ״ם ז״ל, אֵין זֶה כּוֹפֵר בְּעִקַּר תְּחִיַּת הַמֵּתִים חָלִילָה. וְכֵן הַמַּאֲמִין שֶׁעִקַּר הַגְּמוּל בָּעוֹלָם הַבָּא הוּא לַגּוּף וְלַנֶּפֶשׁ בְּיַחַד, כְּמוֹ שֶׁהוּא דַּעַת הָרַמְבַּ״ן ז״ל, אֵין זֶה כּוֹפֵר בַּשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ הָרוּחָנִי חָלִילָה.
9 E precisei escrever tudo isto porque vi alguns levianos do mundo, sábios aos seus próprios olhos, que alargam a boca e estendem a língua contra os grandes do mundo, sem saber e sem entendimento. E daqui se vê que é permitido a todo sábio de coração investigar os princípios da religião e interpretar os versículos de modo concordante com a verdade segundo a sua opinião; e, ainda que creia em algumas coisas que os primeiros puseram como princípios — como a vinda do Messias e a criação e coisas semelhantes — que não são princípios, mas crenças verdadeiras tais que aquele que crê na Torá é obrigado a crê-las, assim como crê na abertura da boca da terra na contenda de Coré, e na descida do fogo do Céu, e em coisas semelhantes dentre os milagres ou as promessas que se mencionaram na Torá, que são verdadeiras embora não sejam princípios da Torá — esse não é herege contra a Torá, D'us nos livre, nem contra os seus princípios; pois, se isto fosse heresia, o número dos princípios da Torá de Moisés seria como o número dos milagres e das promessas que vieram na Torá — e isto jamais subiu ao coração de homem algum.
וְהֻצְרַכְתִּי לִכְתֹּב כָּל זֶה לְפִי שֶׁרָאִיתִי קְצָת קַלֵּי עוֹלָם חֲכָמִים בְּעֵינֵיהֶם מַרְחִיבִים פֶּה כְּנֶגֶד גְּדוֹלֵי עוֹלָם בְּלֹא דַעַת. וּמִכָּאן הֻתַּר לְכָל חֲכַם לֵב לַחְקֹר בְּעִקְּרֵי הַדָּת וּלְפָרֵשׁ הַפְּסוּקִים בְּדֶרֶךְ מַסְכִּים אֶל הָאֱמֶת לְפִי דַעְתּוֹ. שֶׁאִם הָיָה זֶה כּוֹפֵר, הָיוּ מִסְפַּר הָעִקָּרִים לְתוֹרַת מֹשֶׁה כְּמִסְפַּר הַנִּסִּים וְהַיִּעוּדִים שֶׁבָּאוּ בַתּוֹרָה, וְזֶה לֹא עָלָה עַל לֵב אִישׁ מֵעוֹלָם.
O capítulo estabelece a distinção moral que sustenta toda a liberdade de investigação de Albo: o que define o herege (kofer) não é estar errado, mas negar conscientemente aquilo que sabe ser verdade da Torá. Quem aceita a Torá inteira e, ao raciocinar de boa-fé, se engana sobre o sentido de um princípio, é apenas um "pecador involuntário que precisa de expiação" — permanece entre os sábios e piedosos de Israel.
Albo invoca o Guia dos Perplexos (II, 25): os versículos podem ser reinterpretados quando o sentido literal contraria a razão — daí Onkelos traduzir as expressões "corpóreas" de D'us em termos abstratos. A regra é precisa: o que é logicamente impossível (uma "opinião falsa") nunca obriga, mesmo se escrito ao pé da letra ("circuncidai o prepúcio do coração"); mas o que é apenas naturalmente impossível, porém concebível — os milagres, a ressurreição — é de crença obrigatória.
O exemplo mais forte é o do Raavad contra Maimônides: o Rambam declarara herege quem cresse que D'us tem corpo; o Raavad responde que alguém que chega a esse erro de boa-fé, por má leitura dos versículos, "não deve ser chamado herege". Albo abraça essa generosidade — e contrasta-a com Elisha ben Avuya (Acher), o caso oposto: quem "conhece o seu Criador e quer rebelar-se" é que é verdadeiramente ímpio.
O capítulo fecha com a sua finalidade prática e quase pessoal: Albo escreve contra os "levianos, sábios aos próprios olhos", que difamam os grandes mestres por divergências de interpretação. Daí em diante, declara, está permitido a todo sábio investigar os fundamentos e reinterpretar os versículos — pois confundir crença obrigatória com princípio-raiz tornaria os princípios tão numerosos quanto os milagres da Torá, o que é absurdo. É a carta de alforria intelectual de toda a obra.
O que significa "princípio" (ikkar) — aquilo de que depende a existência de outra coisa, como a raiz da árvore. À luz dessa definição, Albo submete a exame as enumerações dos predecessores: os treze princípios de Maimônides, os vinte e seis, e os seis — mostrando as dificuldades de cada uma.
O que significa "princípio" (ikkar) — aquilo de que depende a existência de outra coisa, como a raiz da árvore. À luz dessa definição, Albo submete a exame as enumerações dos predecessores: os treze princípios de Maimônides, os vinte e seis, e os seis — mostrando as dificuldades de cada uma.
1 "Princípio" ikkar — é um nome posto sobre uma coisa tal que a subsistência de outra coisa e a sua permanência dependem dela, e esta outra não tem permanência sem ela; como a raiz, que é a coisa de que depende a permanência da árvore, e tal que não se concebe a existência da árvore e a sua permanência sem ela. E os nossos mestres, de abençoada memória, usaram muito esta expressão; disseram "uma coisa que tem raiz na Torá", ou "que não tem raiz". E deste lado recai este nome sobre as raízes e os fundamentos de que dependem a subsistência da religião e a sua permanência — como a existência de D'us, a respeito de cujo assunto está claro que é um princípio cuja crença é necessária a uma Torá divina, tal que é impossível conceber a existência de uma Torá divina sem ela. E conforme isto cabe que investiguemos quais são as coisas que cabe pôr como princípios na religião divina.
עִקָּר – שֵׁם הֻנַּח עַל דָּבָר שֶׁעֲמִידַת דָּבָר אַחֵר וְקִיּוּמוֹ תָּלוּי בּוֹ וְאֵין לוֹ קִיּוּם זוּלָתוֹ, כְּמוֹ שֶׁהָעִקָּר הוּא דָבָר שֶׁקִּיּוּם הָאִילָן תָּלוּי בּוֹ וְלֹא יְצֻיַּר מְצִיאוּת הָאִילָן זוּלָתוֹ. וּמִזֶּה הַצַּד יִפֹּל זֶה הַשֵּׁם עַל הַשָּׁרָשִׁים וְהַיְסוֹדוֹת שֶׁעֲמִידַת הַדָּת תְּלוּיָה בָּהֶם, כְּמוֹ מְצִיאוּת הַשֵּׁם שֶׁאִי אֶפְשָׁר לְצַיֵּר מְצִיאוּת תּוֹרָה אֱלֹהִית זוּלָתוֹ. וּלְפִי זֶה רָאוּי שֶׁנַּחְקֹר אֵי אֵלּוּ הַדְּבָרִים שֶׁרָאוּי שֶׁיֻּנְּחוּ עִקָּרִים בַּדָּת הָאֱלֹהִית.
2 E eis que o Rambam, de abençoada memória, pô-los como treze princípios, que são: a existência de D'us; e a unidade; e o afastamento da corporeidade; e que Ele é eterno; e que cabe servi-lo, e não a outro; e a profecia; e a profecia de Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele; e a Torá vinda do Céu; e que a Torá não se mudará; e o conhecimento que o Nome tem das coisas; e a recompensa e o castigo; e o Messias; e a ressurreição dos mortos. Estes são os princípios que o Rav, de abençoada memória, contou no capítulo Chelek do seu Comentário à Mishná.
וְהִנֵּה הָרַמְבַּ״ם ז״ל שָׂם אוֹתָם י״ג עִקָּרִים, שֶׁהֵם: מְצִיאוּת הַשֵּׁם, וְהָאַחְדוּת, וְהַרְחָקַת הַגַּשְׁמוּת, וְשֶׁהוּא קַדְמוֹן, וְשֶׁרָאוּי לְעָבְדוֹ וְלֹא לְזוּלָתוֹ, וְהַנְּבוּאָה, וּנְבוּאַת מֹשֶׁה רַבֵּנוּ, וְתוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם, וְשֶׁלֹּא תִשְׁתַּנֶּה הַתּוֹרָה, וִידִיעַת הַשֵּׁם, וְשָׂכָר וָעֹנֶשׁ, וּמָשִׁיחַ, וּתְחִיַּת הַמֵּתִים.
3 E perguntemos, primeiro, sobre estes princípios que o Rambam, de abençoada memória, estabeleceu: por que os pôs naquele número e disse que são treze? Pois, se foram postos naquele número conforme a verdadeira acepção do nome "princípio", eis que seria muito bom e muito agradável que se pusessem como princípios a existência de D'us, e a profecia, e a Torá vinda do Céu, e o conhecimento do Nome, bendito seja, e a providência para dar recompensa e castigo — porque estes são princípios necessários a uma Torá divina, tal que não se concebe a sua existência sem cada um deles. E não é remoto, conforme este caminho, que se ponham como princípios também a profecia de Moisés e a perpetuidade da Torá, visto que são princípios particulares necessários à Torá de Moisés, tal que não se concebe a sua subsistência sem eles — pois, se se concebesse a existência de um profeta maior que Moisés, já seria possível que a Torá de Moisés fosse anulada; e também, se não crêssemos na perpetuidade da Torá, já se conceberia a anulação da Torá de Moisés depois que Israel foi exilado da sua terra. Mas, de todo modo, já será difícil explicar por que Maimônides conta a unidade e o afastamento da corporeidade entre os princípios — pois, ainda que sejam crenças verdadeiras que cabe a todo adepto da Torá de Moisés crer, já será possível dizer que não cabe contá-las entre os princípios, pois a Torá divina, em geral, não cai se se crer o seu contrário. E coisa mais difícil que esta: que o Rav, de abençoada memória, contou como princípio que "cabe servi-lo, e não a outro"; pois, ainda que seja um mandamento dos mandamentos da Torá — como está escrito "não terás outros deuses diante de mim... não te prostrarás a eles nem os servirás" (Êxodo 20:3-5) —, de todo modo não é um princípio do qual penda a Torá em geral, pois quem crê que o Nome é verdade e a sua Torá é verdade, mas introduz um intermediário entre si e o Nome — eis que transgride "não terás outros deuses", mas não é um princípio tal que a Torá caia em geral; e por que o conta o Rav, de abençoada memória, como princípio? E assim também, quem crê na recompensa e no castigo, mas crê que a retribuição é para as almas e no mundo vindouro, e que não há ressurreição para os corpos após a morte — por que cairia a Torá em geral, de modo que se tenha de contar a ressurreição dos mortos como princípio dos princípios da Torá divina, como a existência de D'us?
וְנִשְׁאַל רִאשׁוֹנָה עַל אֵלּוּ הָעִקָּרִים לָמָּה שָׂם אוֹתָם בַּמִּסְפָּר הַהוּא. שֶׁאִם הֻנְּחוּ כְּפִי הוֹרָאַת שֵׁם עִקָּר, מַה טּוֹב שֶׁיֻּנְּחוּ עִקָּרִים מְצִיאוּת הַשֵּׁם וְהַנְּבוּאָה וְתוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם וִידִיעַת הַשֵּׁם וְהַהַשְׁגָּחָה. אֲבָל יִקְשֶׁה לָמָּה יִמְנֶה הָאַחְדוּת וְהַרְחָקַת הַגַּשְׁמוּת בָּעִקָּרִים, שֶׁאַף אִם הֵם אֱמוּנוֹת אֲמִתִּיּוֹת, לֹא תִפֹּל הַתּוֹרָה הָאֱלֹהִית בִּכְלָלָהּ אִם יְאֻמַּן חִלּוּפָם. וְיוֹתֵר קָשֶׁה מִזֶּה שֶׁמָּנָה ״שֶׁרָאוּי לְעָבְדוֹ וְלֹא לְזוּלָתוֹ״, כִּי אַף עַל פִּי שֶׁהוּא מִצְוָה, אֵינוֹ עִקָּר שֶׁתִּתְלֶה בּוֹ הַתּוֹרָה בִּכְלָלָהּ.
4 E, se dissermos que o Rav, de abençoada memória, não contou os princípios conforme a acepção do nome "princípio", mas contou entre os princípios as crenças verdadeiras que cabe a todo adepto da Torá de Moisés crer — se assim, por que não contou como princípio que a Presença Shechiná habita em Israel por meio da Torá, como se disse "e habitarei no meio dos filhos de Israel" (Êxodo 29:45)? E por que não contou a criação chidush, que é uma crença que cabe a todo adepto da religião divina crer — como ele mesmo explicou no capítulo 25 da Segunda Parte do Guia —, assim como contou a crença em que D'us é eterno? E por que não contou que cabe crer em todos os milagres que vieram na Torá conforme o seu sentido literal, e em outras crenças particulares que cabe a todo adepto da Torá de Moisés crer, assim como contou a crença na vinda do Messias?
5 E, se dissermos que contou apenas princípios e não crenças verdadeiras, por que não contou a tradição kabbalá — a saber que cabe ao homem seguir a tradição dos pais —, que é um princípio universal a todas as religiões divinas, tal que não se concebe a sua existência sem ela? E por que não contou o livre-arbítrio bechirá, que, embora seja uma crença verdadeira, é também um princípio — pois está claro, do seu assunto, que não se concebe a existência de religião alguma sem ele —; e mais, já que ele, de abençoada memória, escreveu no Sefer HaMadá, no capítulo 5 das Leis do Arrependimento: "A faculdade de escolha de todo homem lhe é dada: se quiser inclinar-se ao bom caminho e ser justo, a faculdade está na sua mão" etc., e escreveu depois disso "e este princípio é um grande princípio, e ele é a coluna da Torá e do mandamento, como se disse 'vê, pus diante de ti hoje a vida e o bem'" (Deuteronômio 30:15), e se estendeu naquele capítulo para explicar este princípio? E é um grande espanto por que não o contou entre os princípios no Comentário à Mishná, no capítulo Chelek, como contou os treze princípios. Em suma: este número que o Rav, de abençoada memória, estabeleceu nos princípios é muito forte em dúvidas.
וְאִם נֹאמַר שֶׁהָרַב מָנָה בָּעִקָּרִים הָאֱמוּנוֹת הָאֲמִתִּיּוֹת, אִם כֵּן לָמָּה לֹא מָנָה הַחִדּוּשׁ, שֶׁהוּא אֱמוּנָה שֶׁרָאוּי לְהַאֲמִין אוֹתָהּ כָּל בַּעַל דָּת אֱלֹהִית, כְּמוֹ שֶׁבֵּאֵר הוּא בְּעַצְמוֹ בְּפֶרֶק כ״ה מֵהַחֵלֶק הַב׳.
וְאִם נֹאמַר שֶׁמָּנָה עִקָּרִים בִּלְבַד, לָמָּה לֹא מָנָה הַבְּחִירָה, שֶׁהוּא עִקָּר, וְהוּא ז״ל כָּתַב בְּסֵפֶר הַמַּדָּע ״וְעִקָּר זֶה עִקָּר גָּדוֹל הוּא וְהוּא עַמּוּד הַתּוֹרָה וְהַמִּצְוָה״, וְהוּא תֵּימָהּ גָּדוֹל לָמָּה לֹא מָנָה אוֹתוֹ בָּעִקָּרִים. סוֹף דָּבָר זֶה הַמִּסְפָּר חֲזַק הַסְּפֵקוֹת מְאֹד.
6 E vi quem escreveu que o Rav, de abençoada memória, visou a este número porque é como o número das treze medidas de misericórdia do Santo, bendito seja, e correspondente às treze medidas hermenêuticas pelas quais a Torá se interpreta. E quão remotas estão estas palavras da razão — pretender que o Rav, de abençoada memória, deixou de contar o livre-arbítrio, que é um princípio conforme o que ele mesmo escreveu, a fim de que o número não subisse a mais de treze! E ainda, isso não resolve por que conta no conjunto dos treze aqueles que contou que não são princípios necessários, como escrevemos.
וְרָאִיתִי מִי שֶׁכָּתַב שֶׁהָרַב כִּוֵּן אֶל זֶה הַמִּסְפָּר לְפִי שֶׁהוּא כְּמִסְפַּר י״ג מִדּוֹתָיו שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא. וְכַמָּה רְחוֹקִים הַדְּבָרִים הַלָּלוּ מִן הַדַּעַת, שֶׁהִנִּיחַ הָרַב לִמְנוֹת הַבְּחִירָה שֶׁהוּא עִקָּר כְּדֵי שֶׁלֹּא יַעֲלֶה הַמִּסְפָּר לְיוֹתֵר מִי״ג.
7 E há quem disse que os princípios são vinte e seis, e contou neles todas as coisas que sobem ao seu espírito — como a eternidade, e a sabedoria, e a vida, e o poder, e a vontade, e outros, dentre os atributos que se atribuem ao Nome, bendito seja; e contou o Jardim do Éden como um princípio, e o Guehinom como um princípio, e outras coisas que multiplicam o vão; pois este homem não aplicou o coração a compreender a palavra "princípio" e sobre o que recai este nome.
וְיֵשׁ מִי שֶׁאָמַר שֶׁהָעִקָּרִים הֵם כ״ו, וּמָנָה בָּהֶם כָּל הַדְּבָרִים הָעוֹלִים עַל רוּחוֹ, כַּנִּצְחִיּוּת וְהַחָכְמָה וְהַחַיּוּת וְהַיְכֹלֶת וְהָרָצוֹן, וּמָנָה גַּן עֵדֶן עִקָּר אֶחָד וְגֵיהִנֹּם עִקָּר אֶחָד, כִּי זֶה הָאִישׁ לֹא שָׁת לִבּוֹ לְהָבִין מִלַּת עִקָּר.
8 E há, dentre os posteriores, quem foi minucioso na palavra "princípio" e acrescentou e subtraiu nos princípios do Rambam, de abençoada memória, e disse que os princípios da religião divina são seis: o conhecimento do Nome, e a providência, e o poder, e a profecia, e o livre-arbítrio, e a finalidade tachlit — além dos três sobre os quais o Rav, de abençoada memória, trouxe uma demonstração especulativa, que são a existência de D'us, e a sua unidade, e que não é corpo nem força num corpo. E diz que está claro, do assunto destes seis, que são necessários à religião divina, tal que não se concebe a sua existência sem eles; e, com os outros três sobre os quais veio a demonstração, completam-se os princípios da religião divina.
וְיֵשׁ מִן הָאַחֲרוֹנִים מִי שֶׁדִּקְדֵּק בְּמִלַּת עִקָּר, וְאָמַר שֶׁהָעִקָּרִים לַדָּת הָאֱלֹהִית הֵם שִׁשָּׁה: יְדִיעַת הַשֵּׁם, וְהַהַשְׁגָּחָה, וְהַיְכֹלֶת, וְהַנְּבוּאָה, וְהַבְּחִירָה, וְהַתַּכְלִית, מִלְּבַד הַג׳ שֶׁהֵבִיא הָרַב מוֹפֵת עִיּוּנִי עֲלֵיהֶם, שֶׁהֵם מְצִיאוּת הַשֵּׁם, וְאַחְדוּתוֹ, וְשֶׁאֵינוֹ גּוּף.
9 E há que ser minucioso sobre isto: que, ainda que estes sejam princípios universais da religião divina, tal que não se concebe a sua existência sem eles, caberia contar também com eles outros princípios particulares — assim como o Rambam, de abençoada memória, contou coisas que são princípios particulares à Torá de Moisés. Ou lhe caberia contar algum princípio universal pelo qual se reconheça a religião divina verdadeira distinguindo-a da falsificada que se assemelha à divina; pois eis que todas as religiões que se acham hoje no mundo confessam estes seis princípios, e seriam todas, conforme isto, divinas. E ainda há que ser minucioso sobre este número que ele contou: que, ainda que não se ache uma Torá divina sem eles, não é forçoso que, com a sua presença, se ache a Torá divina; e caberia que se juntasse a eles um princípio, que é a Torá vinda do Céu. Pois isto é como o dito de quem diz que, com a presença do ser que se nutre e do que sente, se acha o homem — porque, com a presença do homem, se acham o ser que se nutre e o que sente; o que, sem dúvida, não é correto. Pois, ainda que o homem não se ache sem eles, e eles sejam necessários à existência do homem, não é forçoso que, com a presença deles, se ache o homem — a não ser que se junte a isto o ser que fala medaber, e se diga que, com a presença do corpo que se nutre e que sente e que fala, se acha o homem. E também aqui caberia contar com eles a Torá vinda do Céu; pois, com a presença do conhecimento de D'us, e da providência, e do poder, e da profecia, e do livre-arbítrio, e da finalidade, não é forçoso que se ache uma Torá vinda do Céu — ainda que ela não se ache sem eles.
וְיֵשׁ לְדַקְדֵּק עַל זֶה, כִּי אַף אִם אֵלּוּ הֵם עִקָּרִים כּוֹלְלִים לַדָּת הָאֱלֹהִית, הָיָה רָאוּי לִמְנוֹת עִמָּהֶם עִקָּר אֶחָד שֶׁבּוֹ תֻּכַּר הַדָּת הָאֱלֹהִית הָאֲמִתִּית מִן הַמְזֻיֶּפֶת, שֶׁהֲרֵי כָּל הַדָּתוֹת מוֹדוֹת בְּשִׁשָּׁה הָעִקָּרִים הַלָּלוּ. וְעוֹד, שֶׁאַף אִם לֹא תִמָּצֵא תוֹרָה אֱלֹהִית זוּלָתָם, אֵינֶנּוּ מְחֻיָּב שֶׁבְּהִמָּצְאָם תִּמָּצֵא הַתּוֹרָה הָאֱלֹהִית, וְהָיָה רָאוּי שֶׁיְּצָרֵף עִמָּהֶם עִקָּר אֶחָד שֶׁהוּא תּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם.
10 E assim também o que contou o livre-arbítrio e a finalidade no conjunto dos princípios da religião divina não é assim; pois estes, ainda que sejam necessários a ela, não são princípios e fundamentos da religião divina enquanto é divina, mas são também fundamentos da religião convencional nimusit, como virá adiante. E também a finalidade última não é um fundamento da religião divina, mas uma finalidade particular. Para pôr fim às palavras: o conhecimento do número dos princípios necessários à religião divina é muito difícil; e coisa mais difícil é que não se ache pelos nossos mestres, de abençoada memória, nisto um discurso explícito — quando caberia que falassem nos princípios que são raízes e fundamentos da Torá divina, visto que o fundamento da felicidade humana e a retribuição das almas dependem deles, assim como falaram nos demais danos do homem e nas leis monetárias, que são apenas a condução do corpo, e dos quais depende a ordenação da convivência política.
וְכֵן מַה שֶּׁמָּנָה הַבְּחִירָה וְהַתַּכְלִית בִּכְלַל הָעִקָּרִים אֵינוֹ כֵן, כִּי אֵלּוּ אַף אִם הֵם הֶכְרֵחִיִּים אֵינָם עִקָּרִים לַדָּת הָאֱלֹהִית בְּמַה שֶּׁהִיא אֱלֹהִית, אֲבָל הֵם גַּם כֵּן הַתְחָלוֹת לַדָּת הַנִּמּוּסִית. קִנְצֵי לְמִלִּין, יְדִיעַת מִסְפַּר הָעִקָּרִים הַהֶכְרֵחִיִּים לַדָּת הָאֱלֹהִית קָשָׁה מְאֹד, וְיוֹתֵר קָשֶׁה מַה שֶּׁלֹּא נִמְצָא לְרַבּוֹתֵינוּ ז״ל בָּזֶה דִּבּוּר מְבֹאָר.
Antes de criticar qualquer lista, Albo fixa o sentido rigoroso de ikkar: princípio é aquilo de que a existência de outra coisa depende absolutamente — a raiz sem a qual a árvore não subsiste. Esse critério único é a lâmina com que ele dissecará todas as enumerações anteriores. Algo só é princípio se a religião deixar de ser concebível sem ele.
Albo não rejeita Maimônides — reverencia-o —, mas mostra que os Treze Princípios misturam categorias. Alguns (existência de D'us, profecia, Torá do Céu) são raízes genuínas; outros (a unidade, a incorporeidade, "servir só a Ele") são crenças verdadeiras e obrigatórias, mas a Torá permaneceria concebível sem elas — logo não são raízes. E há a célebre objeção: por que o livre-arbítrio, que o próprio Maimônides chamou "a coluna da Torá", ficou de fora da lista?
O capítulo é um panorama crítico das tentativas anteriores. A explicação de que "treze" corresponde às treze medidas de misericórdia, Albo descarta como longe da razão. A lista de vinte e seis (de Crescas e seus seguidores) ele acusa de confundir tudo — atributos divinos, Éden, Guehinom — por não ter pensado o que "princípio" significa. E a lista de seis falha por outro lado: esses seis são confessados por todas as religiões do mundo, logo não distinguem a verdadeira da falsa, e omitem a "Torá vinda do Céu".
A conclusão é a dificuldade honestamente confessada: determinar o número dos princípios é "muito difícil", e mais grave ainda é que os próprios sábios do Talmud não deixaram sobre isso um pronunciamento explícito — embora a felicidade eterna da alma dependa desses fundamentos mais do que das leis civis que eles discutiram em detalhe. É exatamente essa lacuna que Sefer HaIkkarim se propõe a preencher.
A tese central da obra: os princípios universais e necessários a toda religião divina são três — a existência de D'us, a providência com recompensa e castigo, e a Torá vinda do Céu. Albo mostra que esses três são "pais" dos quais derivam todos os demais, encontra-os nas três bênçãos de Rosh Hashaná, e reconcilia o seu esquema com os treze de Maimônides.
A tese central da obra: os princípios universais e necessários a toda religião divina são três — a existência de D'us, a providência com recompensa e castigo, e a Torá vinda do Céu. Albo mostra que esses três são "pais" dos quais derivam todos os demais, encontra-os nas três bênçãos de Rosh Hashaná, e reconcilia o seu esquema com os treze de Maimônides.
1 O caminho correto que me parece na enumeração dos princípios que são raízes e fundamentos da Torá divina é este: que os princípios universais e necessários à religião divina são três, e são a existência de D'us metziut haShem, e a providência hashgachá para a recompensa e o castigo, e a Torá vinda do Céu Torá min haShamayim. E estes três são pais avot de todos os princípios que pertencem às religiões divinas — como a Torá de Adão, e a Torá de Noé, e a Torá de Abraão, e a Torá de Moisés, e além destas dentre as Torás divinas, se for possível que se achem mais de uma num mesmo tempo ou uma após a outra. E sob cada um destes princípios há raízes e ramos que se entrelaçam e se ramificam daquele princípio; pois, sob a existência de D'us, está a raiz de ser ele eterno e perpétuo e semelhantes; e no conjunto da Torá vinda do Céu está o conhecimento do Nome e a profecia e semelhantes; e no conjunto da providência estão a recompensa e o castigo neste mundo para o corpo e no mundo vindouro para a alma.
הַדֶּרֶךְ הַנָּכוֹן שֶׁיֵּרָאֶה לִי בִּסְפִירַת הָעִקָּרִים הוּא, כִּי הָעִקָּרִים הַכּוֹלְלִים וְהַהֶכְרֵחִיִּים לַדָּת הָאֱלֹהִית הֵם שְׁלֹשָׁה: מְצִיאוּת הַשֵּׁם, וְהַהַשְׁגָּחָה לְשָׂכָר וְלָעֹנֶשׁ, וְתוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם. וְאֵלּוּ הַשְּׁלֹשָׁה הֵם אָבוֹת לְכָל הָעִקָּרִים אֲשֶׁר לַדָּתוֹת הָאֱלֹהִיּוֹת. וְתַחַת כָּל עִקָּר מֵאֵלּוּ שָׁרָשִׁים וּסְעִיפִים מִשְׁתָּרְגִים מִן הָעִקָּר הַהוּא.
2 E destes três princípios universais se entrelaçam ramos e galhos para as Torás divinas, ou para as que se assemelham às divinas, deste modo: pois, sob o princípio da existência de D'us, está o afastamento da corporeidade, que é um princípio particular à Torá de Moisés, e a unidade. E sob a Torá vinda do Céu está a raiz da profecia de Moisés e da sua missão. E sob a providência e a recompensa e o castigo está a vinda do Messias, que é um princípio particular à Torá de Moisés conforme a opinião do Rambam, de abençoada memória; mas, conforme a nossa opinião, a vinda do Messias não é um princípio, e, se é um princípio, não é particular à Torá de Moisés — pois também os cristãos fazem dela um princípio para refutar a Torá de Moisés, e é um princípio particular a eles tal que não se concebe a existência da sua religião sem ela. E estes e os semelhantes a eles, que são princípios das religiões particulares, todos se incluem nos três princípios que dissemos. Mas, se é possível achar-se uma Torá divina em mais de uma num mesmo tempo, ou em tempos diferentes, ainda se explicará no que vier, com a ajuda da Rocha.
וּמֵאֵלֶּה הַג׳ עִקָּרִים הַכּוֹלְלִים מִשְׁתָּרְגִים סְעִיפִים וַעֲנָפִים. כִּי תַּחַת עִקַּר מְצִיאוּת הַשֵּׁם הוּא הַרְחָקַת הַגַּשְׁמוּת וְהָאַחְדוּת. וְתַחַת תּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם הוּא שֹׁרֶשׁ נְבוּאַת מֹשֶׁה וּשְׁלִיחוּתוֹ. וְתַחַת הַהַשְׁגָּחָה הוּא בִּיאַת הַמָּשִׁיחַ. וְאֵלּוּ כֻּלָּם נִכְלָלִים בַּג׳ הָעִקָּרִים שֶׁאָמַרְנוּ.
3 E aquilo que indica serem estes três princípios raiz e fundamento da fé pela qual o homem alcança a sua felicidade verdadeira é o que nos instituíram os homens da Grande Assembleia na oração adicional Mussaf de Rosh Hashaná: três bênçãos, que são Malchuyot Reinados, Zichronot Lembranças e Shofarot Toques de Shofar, que estão correspondendo a estes três princípios — para despertar o coração do homem para que, na crença destes princípios, com os seus ramos e as suas raízes, conforme o que cabe, o homem seja absolvido no seu juízo diante do Nome.
וְהַמּוֹרֶה עַל הֱיוֹת ג׳ הָעִקָּרִים הַלָּלוּ שֹׁרֶשׁ וִיסוֹד לָאֱמוּנָה, הוּא מַה שֶּׁיִּסְּדוּ לָנוּ אַנְשֵׁי כְּנֶסֶת הַגְּדוֹלָה בִּתְפִלַּת מוּסָף שֶׁל רֹאשׁ הַשָּׁנָה ג׳ בְּרָכוֹת, שֶׁהֵם מַלְכֻיּוֹת זִכְרוֹנוֹת וְשׁוֹפָרוֹת, שֶׁהֵם כְּנֶגֶד ג׳ עִקָּרִים הַלָּלוּ.
4 Pois a bênção de Malchuyot Reinados está correspondendo ao princípio da existência de D'us; e indica isto o texto da bênção: "Por isso esperamos em ti, Senhor, nosso D'us, a fim de ver depressa o esplendor do teu poder, para remover os ídolos da terra, e os falsos deuses serão totalmente exterminados, para consertar o mundo no reino do Todo-Poderoso" etc.; "reconhecerão e saberão todos os habitantes do mundo que a ti se dobrará todo joelho, jurará toda língua, e receberão todos o jugo do teu reino".
5 E assim a bênção de Zichronot Lembranças indica a providência e a recompensa e o castigo; e assim indica o texto da bênção: "Tu te lembras da obra do mundo e visitas todas as criaturas dos primórdios; diante de ti se revelaram todos os ocultos" etc.
6 E a bênção de Shofarot Toques de Shofar é para aludir ao terceiro princípio, que é a Torá vinda do Céu; e por isso ela começa "Tu te revelaste na nuvem da tua glória sobre o teu povo santo para falar com eles; do Céu lhes fizeste ouvir a tua voz" etc. E porque a doação da Torá foi por meio de uma voz de shofar muito forte, tal que não houve outra semelhante no mundo, a bênção é chamada Shofarot; pois as vozes e os relâmpagos que ali estavam já houvera no mundo coisas semelhantes a eles ou da sua espécie, mas a voz do shofar sem shofar nunca houve, nem haverá assim até o tempo da redenção, que é a hora em que a Torá da verdade se divulgará diante de todo o mundo; e sobre aquela hora se disse "e o Senhor D'us tocará o shofar" (Zacarias 9:14), conforme a opinião de alguns dos sábios.
כִּי בִּרְכַּת מַלְכֻיּוֹת הִיא כְּנֶגֶד עִקַּר מְצִיאוּת הַשֵּׁם, וְיוֹרֶה עַל זֶה נֻסַּח הַבְּרָכָה ״עַל כֵּן נְקַוֶּה לְּךָ... לְתַקֵּן עוֹלָם בְּמַלְכוּת שַׁדַּי״.
וְכֵן בִּרְכַּת זִכְרוֹנוֹת תּוֹרֶה עַל הַהַשְׁגָּחָה וְהַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ, ״אַתָּה זוֹכֵר מַעֲשֵׂה עוֹלָם וּפוֹקֵד כָּל יְצוּרֵי קֶדֶם״.
וּבִרְכַּת שׁוֹפָרוֹת הִיא לִרְמֹז עַל הָעִקָּר הַשְּׁלִישִׁי שֶׁהוּא תּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם, ״אַתָּה נִגְלֵיתָ בַּעֲנַן כְּבוֹדֶךָ עַל עַם קָדְשְׁךָ לְדַבֵּר עִמָּם״. כִּי מַתַּן תּוֹרָה הָיָה בְּאֶמְצָעוּת קוֹל שׁוֹפָר חָזָק מְאֹד.
7 E já vi quem escreveu que os Shofarot são uma alusão à amarração de Isaac Akedat Yitzchak; e não é assim, pois, se a bênção de Shofarot fosse uma alusão à Akedá, caberia mencionar nela a amarração de Isaac — não em Zichronot, como lá foi mencionada. E o que os levou a isto foi o que acharam pelos nossos mestres, de abençoada memória, que o toque no shofar de carneiro é em memória do carneiro de Isaac. E isto não é nada, pois disseram que o toque no shofar de carneiro é em memória do carneiro de Isaac — mas não o toque em si como princípio, nem a bênção de Shofarot.
וּכְבָר רָאִיתִי מִי שֶׁכָּתַב שֶׁהַשּׁוֹפָרוֹת רֶמֶז לַעֲקֵדַת יִצְחָק, וְאֵינוֹ כֵן, שֶׁאִלּוּ הָיְתָה בִּרְכַּת הַשּׁוֹפָרוֹת רֶמֶז לָעֲקֵדָה, הָיָה רָאוּי לִזְכֹּר בָּהּ עֲקֵדַת יִצְחָק לֹא בַּזִּכְרוֹנוֹת כְּמוֹ שֶׁנִּזְכְּרָה.
8 E, para aludir a estes três princípios que são a causa da felicidade, Isaías os incluiu num só versículo, dizendo "porque o Senhor é o nosso juiz, o Senhor é o nosso legislador, o Senhor é o nosso rei; ele nos salvará" (Isaías 33:22). Disse "o Senhor é o nosso juiz" para aludir ao princípio da providência — à maneira de "perto está o que me justifica; quem contenderá comigo? Apresentemo-nos juntos" (Isaías 50:8), quer dizer: e deste lado cabe que sejamos absolvidos no juízo. E disse "o Senhor é o nosso legislador" mechokekenu para aludir à Torá vinda do Céu, que é o segundo princípio — pois "legislador" mechokek se chama o que dá a Torá, como "porque ali está reservada a porção do legislador" (Deuteronômio 33:21), que se disse sobre Moisés, por ter sido a Torá dada por sua mão. E disse isto à maneira de "ouvi-me, vós que conheceis a justiça, povo em cujo coração está a minha Torá; não temais a afronta do homem" (Isaías 51:7), quer dizer: ainda que não sejamos absolvidos no juízo do lado de Ele ser o nosso juiz — pois ao juiz é impossível transgredir a lei estabelecida por outrem —, eis que do lado de Ele ser o que dá a Torá e o que estabelece as leis, cabe que sejamos absolvidos no juízo. E disse "o Senhor é o nosso rei" para aludir ao terceiro princípio, que é a existência de D'us, que é rei sobre todo o mundo e se chama em particular "rei de Israel e seu redentor" (Isaías 44:6); e é para dizer que, ainda que do lado de Ele ser legislador não queira transgredir a lei, de todo modo, do lado de Ele ser o nosso rei, cabe que nos salve — pois o rei tem o poder em sua mão de transgredir a lei e fazer o que quiser a fim de salvar o seu povo. E por isso concluiu "ele nos salvará", quer dizer: visto que, a respeito destes três princípios — de cuja crença depende o fundamento da felicidade do homem — temos neles vantagem sobre todo o mundo, cabe que nos salve em particular sobre todos.
וְלִרְמֹז אֶל שְׁלֹשֶׁת הָעִקָּרִים הַלָּלוּ כְּלָלָם יְשַׁעְיָה בְּפָסוּק אֶחָד, ״כִּי ה׳ שֹׁפְטֵנוּ ה׳ מְחֹקְקֵנוּ ה׳ מַלְכֵּנוּ הוּא יוֹשִׁיעֵנוּ״. אָמַר ״ה׳ שֹׁפְטֵנוּ״ לִרְמֹז עַל עִקַּר הַהַשְׁגָּחָה, וְ״ה׳ מְחֹקְקֵנוּ״ לִרְמֹז עַל תּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם, וְ״ה׳ מַלְכֵּנוּ״ לִרְמֹז עַל מְצִיאוּת הַשֵּׁם.
9 E é possível que a opinião do Rambam quanto ao número dos princípios seja conforme este caminho que escrevemos, exceto que ele contou os três que dissemos serem pais junto com as raízes que deles se ramificam, e os chamou a todos princípios. E por isso contou a existência de D'us, que é o pai, como primeiro princípio, e contou com ele quatro outras raízes que dele se ramificam, como princípios — e são a unidade, e o afastamento da corporeidade, e ser ele, bendito seja, eterno, e que cabe servi-lo, e não a outro. E contou a Torá vinda do Céu, que é o pai, com três outras raízes como princípios, por se entrelaçarem dela — e são a profecia, e a profecia de Moisés, e que a religião não se mudará. E contou também o conhecimento do Nome e a providência para a recompensa e o castigo, que é o pai, com três outros princípios incluídos nele ou que dele se ramificam — e são a retribuição da alma, e o Messias, e a ressurreição dos mortos.
וְאֶפְשָׁר כִּי דַּעַת הָרַמְבַּ״ם בְּמִסְפַּר הָעִקָּרִים הוּא עַל זֶה הַדֶּרֶךְ שֶׁכָּתַבְנוּ, אֶלָּא שֶׁהוּא מָנָה הַג׳ שֶׁאָמַרְנוּ שֶׁהֵם אָבוֹת עִם הַשָּׁרָשִׁים הַמִּסְתַּעֲפִים מֵהֶם, וְקָרָא אוֹתָם כֻּלָּם עִקָּרִים.
10 E conforme este lado não será difícil explicar por que não contou a criação chidush — pois não a contou por não entrar sob um destes três que mencionamos. E não contou o livre-arbítrio e a finalidade, ainda que sejam necessários a uma Torá divina, porque estes não são necessários a ela enquanto é divina, como virá, com a ajuda do Nome. Mas ainda será difícil, conforme este caminho, explicar por que não contou a vida e o poder, nem outros atributos, sob o princípio da existência de D'us, como contou a eternidade e os demais atributos; e assim há que ser minucioso sobre tudo o que ele excluiu dos demais princípios — e tudo isto se explicará no conjunto das nossas palavras no que vier, com a ajuda do Nome. E voltemos a ser minuciosos nos princípios conforme o nosso caminho, pelo qual dissemos que são três, que são pais; e explicaremos primeiro os princípios das religiões convencionais nimusiot, e depois falaremos dos princípios da religião divina, com a ajuda de D'us, bendito seja.
וּלְפִי זֶה הַצַּד לֹא יִקְשֶׁה לָמָּה לֹא מָנָה הַחִדּוּשׁ, כִּי לֹא מְנָאוֹ לְפִי שֶׁאֵינוֹ נִכְנָס תַּחַת אֶחָד מֵאֵלּוּ הַג׳. וְנָשׁוּב לְדַקְדֵּק בָּעִקָּרִים לְפִי דַרְכֵּנוּ שֶׁאָמַרְנוּ שֶׁהֵם ג׳ שֶׁהֵם אָבוֹת, וּנְבָאֵר תְּחִלָּה עִקְּרֵי הַדָּתוֹת הַנִּמּוּסִיּוֹת, וְאַחַר כֵּן נְדַבֵּר עַל עִקְּרֵי הַדָּת הָאֱלֹהִית.
Este é o capítulo-chave de todo o livro. Depois de demolir as enumerações anteriores, Albo apresenta a sua: apenas três princípios verdadeiramente universais — a existência de D'us, a providência (recompensa e castigo) e a Torá vinda do Céu. Tudo o mais (unidade, incorporeidade, profecia de Moisés, Messias, ressurreição) são ramos que brotam dessas três raízes. A elegância do esquema está em sua economia: ele explica por que as outras crenças importam sem inflá-las à categoria de fundamento.
Albo chama os três de avot ("pais") porque são comuns a toda religião revelada — a de Adão, Noé, Abraão, Moisés. Cada religião particular acrescenta seus princípios próprios sob essas raízes. É uma estrutura notavelmente universalista: a Torá de Moisés é a religião divina perfeita, mas o esquema reconhece a categoria de "religião divina" como tal, definida pelos três pilares.
O argumento mais belo é o litúrgico: as três bênçãos centrais do Mussaf de Rosh Hashaná — Malchuyot (Reinados), Zichronot (Lembranças) e Shofarot — correspondem exatamente aos três princípios (existência de D'us como Rei, providência que tudo lembra e julga, e a revelação da Torá ao som do shofar no Sinai). Albo lê a estrutura da oração instituída pela Grande Assembleia como uma confirmação antiga da sua tese, e ainda a encontra condensada num único versículo de Isaías (33:22): "o Senhor é nosso juiz, nosso legislador, nosso rei".
O capítulo fecha reconciliando-se generosamente com Maimônides: talvez os Treze sejam, na verdade, os três pais somados aos seus ramos, todos chamados "princípios". Albo não quer derrubar o Rambam, mas reorganizar o seu legado sobre um fundamento conceitual mais firme — e assim prepara a transição para os capítulos seguintes, que distinguirão a lei natural, a convencional e a divina.
Os três modos de vida dos seres vivos e a natureza social do homem. Porque o homem é "político por natureza", precisa de uma ordem que mantenha a justiça e remova a iniquidade — a lei natural — e, acima dela, de uma convenção mais detalhada com um governante que a faça cumprir: a lei convencional.
Os três modos de vida dos seres vivos e a natureza social do homem. Porque o homem é "político por natureza", precisa de uma ordem que mantenha a justiça e remova a iniquidade — a lei natural — e, acima dela, de uma convenção mais detalhada com um governante que a faça cumprir: a lei convencional.
1 Todos os seres vivos têm a sua vida e a sua subsistência de três modos. Há dentre eles os que é impossível viverem e subsistirem juntos — como os animais de rapina, para os quais a reunião e a associação é má e prejudicial, pois, se muitos deles se reunirem num mesmo lugar, matarão uns aos outros pela presa. E há dentre eles o oposto destes, e são os seres vivos para os quais é impossível viver e subsistir sem companhia e reunião, e para os quais a associação é necessária à permanência da sua existência — como a espécie do homem; pois, pela sua delicadeza e o equilíbrio do seu temperamento, é afetado pelo frio e pelo calor e por cada um dos opostos, e por isso precisa de vestes para protegê-lo do calor e do frio, e de alimentos preparados com um preparo belo que se ajuste ao seu temperamento — o que é impossível que se complete senão na reunião e associação de muitos dos homens que se ajudem uns aos outros: um costura, e um tece, e um faz uma agulha, e assim cada ofício, até que cada um dos homens ache o que lhe é necessário para a sua vida e a sua subsistência, dentre alimentos e vestes. E há dentre os seres vivos outras espécies que são como que intermediárias entre estes dois extremos, pois para elas a reunião e a companhia não é prejudicial à sua existência, como é para os animais de rapina e as aves de rapina, nem necessária, como é para a espécie do homem; mas acha-se nelas a reunião e a associação do lado do que é melhor — como muitos dos animais que pastam e das aves que não são de rapina, que se associam e andam em bandos e grupos juntos, do lado da companhia e do prazer, não além disso, pois isto não lhes é necessário na sua existência e permanência, como é para a espécie do homem.
כָּל הַבַּעֲלֵי חַיִּים, חִיּוּתָם וְהִתְקַיְּמָם הוּא עַל ג׳ פָּנִים. יֵשׁ מֵהֶם שֶׁאִי אֶפְשָׁר לָהֶם לִחְיוֹת יַחַד, כַּחַיּוֹת הַטּוֹרְפוֹת. וְיֵשׁ מֵהֶם הֵפֶךְ אֵלּוּ, שֶׁאִי אֶפְשָׁר לָהֶם לִחְיוֹת בְּזוּלַת חֶבְרָה וְקִבּוּץ, כְּמוֹ מִין הָאָדָם, כִּי לְדַקּוּתוֹ וְשִׁוּוּי מִזְגּוֹ יִתְפַּעֵל מִן הַקֹּר וּמִן הַחֹם, וְלָזֶה יִצְטָרֵךְ אֶל מַלְבּוּשִׁים וְאֶל מְזוֹנוֹת מְתֻקָּנִים, מַה שֶּׁאִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּשְׁלַם אִם לֹא בְּקִבּוּץ וְהִתְחַבְּרוּת הַרְבֵּה מִן הָאֲנָשִׁים. וְיֵשׁ מִינִים אֲחֵרִים מְמֻצָּעִים בֵּין שְׁתֵּי אֵלֶּה הַקְּצָווֹת.
2 E por ser a reunião e a associação necessária à espécie do homem para a sua vida e a sua subsistência, é isto o que disseram os sábios: que "o homem é político por natureza" medini beteva — querendo dizer com isto que é quase necessário ao homem, do lado da sua natureza, que habite numa cidade com uma grande reunião de homens, a fim de que possa achar o que lhe é necessário para a sua vida e a sua subsistência. E por causa disto está claro que cabe achar-se, para toda a reunião que está na cidade, ou para o conjunto da reunião que está numa mesma região, ou num mesmo clima, ou para o conjunto dos homens que estão em todo o mundo, uma certa ordenação pela qual se conduzam a fim de guardar a justiça yosher e remover a iniquidade avel, de modo que os homens não se desavenham, ao se associarem juntos, por causa da ocupação e do comércio que há entre eles. E esta ordenação inclui a guarda contra o homicídio, e o furto, e o roubo, e semelhantes — e, em geral, tudo o que guarda a reunião política e a conserta, a fim de que os homens vivam de modo conveniente. E a esta ordenação os sábios chamaram pelo nome de "lei natural" dat tiv'it, quer dizer, que ela é necessária ao homem do lado da sua natureza — quer seja ordenada por um sábio, quer por um profeta.
וְלִהְיוֹת הַקִּבּוּץ מִצְטָרֵךְ לְמִין הָאָדָם, הוּא מַה שֶּׁאָמְרוּ הַחֲכָמִים שֶׁ״הָאָדָם מְדִינִי בְּטֶבַע״. וּבַעֲבוּר זֶה רָאוּי שֶׁיִּמָּצֵא לְכָל קִבּוּץ סִדּוּר מָה בּוֹ יִתְנַהֲגוּ לִשְׁמֹר הַיֹּשֶׁר וּלְהָסִיר הֶעָוֶל, וְהַסִּדּוּר הַזֶּה קְרָאוּהוּ הַחֲכָמִים בְּשֵׁם דָּת טִבְעִית, רוֹצֶה לוֹמַר שֶׁהִיא מִצְטָרֶכֶת אֶל הָאָדָם מִצַּד טִבְעוֹ.
3 E ainda esta lei natural não é suficiente para consertar as necessidades dos homens e a sua vida e a sua subsistência uns com os outros, se não se acrescentar a isto alguma ordenação ou convenção que abranja os assuntos dos homens uns com os outros em todas as suas ocupações e no comércio que há entre eles — como as leis de César de Roma, e as conduções das cidades, e as leis que legislam entre si os homens de uma mesma região ou de um mesmo reino, a fim de guardar a justiça convencional hayosher hahaskamai. E a esta ordenação se chama convenção nimus ou lei convencional dat nimusit. E esta ordenação, ou convenção, é impossível que subsista se não se achar um homem governante, ou juiz, ou rei sobre aquela reunião ou aquela cidade, que obrigue os homens à remoção da iniquidade e ao cumprimento da convenção, a fim de que se complete o conserto daquela reunião. E por isso o assunto do estabelecimento do rei, ou do condutor, ou do juiz é como que necessário à subsistência da espécie do homem, visto que o homem é político por natureza, como explicamos.
וַעֲדַיִן אֵין דָּת זוֹ מַסְפֶּקֶת, אִם לֹא יִתּוֹסֵף בָּזֶה אֵיזֶה סִדּוּר אוֹ הַסְכָּמָה כּוֹלֶלֶת עִנְיְנֵי הָאֲנָשִׁים, כְּדָתֵי קֵיסָרֵי רוֹמִי וְהַנְהָגוֹת הַמְּדִינוֹת. וְיִקָּרֵא הַסִּדּוּר הַזֶּה נִימוּס אוֹ דָּת נִימוּסִית. וְהַנִּימוּס הַזֶּה אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּתְקַיֵּם אִם לֹא בְּהִמָּצֵא אִישׁ אֶחָד מוֹשֵׁל אוֹ שׁוֹפֵט אוֹ מוֹלֵךְ עַל הַקִּבּוּץ הַהוּא, יַכְרִיחַ הָאֲנָשִׁים עַל הֲסָרַת הֶעָוֶל וְקִיּוּם הַנִּימוּס.
Albo constrói a sua filosofia da lei a partir da observação da natureza. Os seres vivos se dividem em três tipos quanto à convivência: os solitários (predadores, que se matam se reunidos), os necessariamente sociais (o homem) e os intermediários (rebanhos que se juntam por prazer, não por necessidade). O homem está no segundo grupo: frágil, sensível ao frio e ao calor, incapaz de prover sozinho vestes e alimento — só sobrevive na divisão do trabalho de uma sociedade.
Albo cita a máxima aristotélica (medini beteva) e dela deriva a primeira camada da lei: a lei natural (dat tiv'it) — a ordem mínima que qualquer agrupamento humano precisa para "guardar a justiça e remover a iniquidade": as proibições do homicídio, do furto, do roubo. É natural porque decorre da própria condição social do homem, independentemente de quem a formule.
Mas a lei natural, genérica, não basta para regular as transações concretas entre os homens. Daí a segunda camada: a lei convencional (dat nimusit) — os códigos positivos como "as leis de César de Roma", criados por acordo humano para detalhar a justiça. E como nenhuma convenção se sustenta sem força que a imponha, surge a necessidade do governante, do juiz, do rei. Este capítulo prepara o terreno para o argumento decisivo: nenhuma dessas leis humanas pode conduzir o homem à sua perfeição última — só a lei divina, tema dos capítulos seguintes, pode fazê-lo.
Se a providência divina cuida até das menores necessidades dos animais inferiores — coisas que nem sequer lhes são indispensáveis —, com mais razão proverá a perfeição da espécie mais nobre, o homem. Daí ser necessário um influxo divino sobre um homem escolhido, que se torna instrumento para conduzir toda a espécie à sua finalidade: essa orientação é a Torá divina.
Se a providência divina cuida até das menores necessidades dos animais inferiores — coisas que nem sequer lhes são indispensáveis —, com mais razão proverá a perfeição da espécie mais nobre, o homem. Daí ser necessário um influxo divino sobre um homem escolhido, que se torna instrumento para conduzir toda a espécie à sua finalidade: essa orientação é a Torá divina.
1 Quando observamos a formação dos seres vivos e a perfeição de todos os seus membros, achamos que o Criador velou na sua formação com uma providência admirável, a fim de consertar os seus assuntos e todos os pormenores das suas necessidades com um conserto admirável — não só o que lhes é necessário para a permanência da espécie ou do indivíduo apenas, mas também o que não lhes é necessário nem para a permanência da espécie nem para a permanência do indivíduo, mas se acha neles do lado do que é melhor; como a duplicação dos sentidos que se acha nos seres vivos, a fim de que os seus assuntos se ordenem de modo mais conveniente e mais perfeito, ainda que não lhes seja necessária para o conserto da sua vida.
כַּאֲשֶׁר עִיַּנּוּ בִּיצִירַת הַבַּעֲלֵי חַיִּים וּשְׁלֵמוּת כָּל אֵבָרֵיהֶם, מָצָאנוּ שֶׁהִשְׁגִּיחַ הַבּוֹרֵא בִּיצִירָתָם הַשְׁגָּחָה נִפְלָאָה לְתַקֵּן עִנְיְנֵיהֶם, לֹא מַה שֶּׁהוּא הֶכְרֵחִי לָהֶם לְקִיּוּם הַמִּין בִּלְבַד, אֲבָל גַּם מַה שֶּׁאֵינוֹ הֶכְרֵחִי אֶלָּא שֶׁנִּמְצָא לָהֶם עַל צַד הַיּוֹתֵר טוֹב, כְּמוֹ כְּפִילַת הַחוּשִׁים הַנִּמְצָא בְּבַעֲלֵי חַיִּים.
2 E, se se acha esta providência nos seres vivos inferiores, com muito mais razão cabe que Ele vele sobre a espécie mais nobre que eles, a fim de consertar o seu assunto conforme a perfeição da sua espécie, de modo que se ordenem todos os seus assuntos com uma ordenação suficiente para a obtenção da sua perfeição. E quem aprimorar a observação nisto achará que a presença de um influxo divino shefa elohi, por cujo meio se consertem os assuntos necessários ao conserto da espécie do homem para a obtenção da sua perfeição e da sua finalidade, é mais necessária que muitas coisas que se acham na formação dos seres vivos que não se acham neles senão do lado do que é melhor apenas, e tais que eles poderiam subsistir sem elas. E este influxo divino, ainda que não se ache senão num indivíduo particular, eis que ele segue o curso da perfeição para a espécie do homem.
וְאִם נִמְצָא הַהַשְׁגָּחָה הַזֹּאת בְּבַעֲלֵי חַיִּים הַפְּחוּתִים, כָּל שֶׁכֵּן שֶׁרָאוּי שֶׁיַּשְׁגִּיחַ בַּמִּין הַיּוֹתֵר נִכְבָּד מֵהֶם. וּמִי שֶׁיֵּיטִיב הָעִיּוּן יִמְצָא כִּי הִמָּצֵא שֶׁפַע אֱלֹהִי שֶׁבְּאֶמְצָעוּתוֹ יִתֻּקְּנוּ הָעִנְיָנִים הַמִּצְטָרְכִים לְמִין הָאָדָם לְהַשָּׂגַת שְׁלֵמוּתוֹ, הוּא יוֹתֵר הֶכְרֵחִי מִכַּמָּה דְבָרִים שֶׁנִּמְצְאוּ בִּיצִירַת הַבַּעֲלֵי חַיִּים עַל צַד הַיּוֹתֵר טוֹב בִּלְבַד.
3 E isto é assim porque, ainda que as espécies que estão sob os gêneros não sigam todas o curso da perfeição umas para as outras — quer dizer, ainda que se ache entre as espécies uma espécie particular que é a mais perfeita de todas, não é aquela espécie sozinha a perfeição e a finalidade daquele gênero, nem encaminha aquele gênero à finalidade da sua perfeição, pois em cada espécie em si mesma há uma finalidade e uma perfeição particular àquela espécie diferente das outras —, de todo modo, em cada espécie, ainda que se achem nela classes diferentes, uma mais nobre que a outra (como se dissesses que a classe dos chefes é mais perfeita, na perfeição humana, que a classe dos lavradores, e a classe dos sábios é mais perfeita que a classe dos chefes, e assim deste modo), em cada classe haverá um homem ou homens mais perfeitos que os outros daquela classe; e não é aquele homem, ou aqueles homens, ou aquela classe sozinha a finalidade da existência daquela espécie — antes aquele homem, ou aqueles homens, ou aquela classe são a causa de a finalidade daquela espécie se alcançar, do lado de seguirem o curso da perfeição para toda a espécie; quero dizer que são como um instrumento keli para fazer a espécie alcançar a sua finalidade e a sua perfeição, a perfeição igual em toda a espécie, ainda que haja nisto graus diferentes de uns para outros.
וְזֶה כִּי בְּכָל מִין וָמִין, אַף עַל פִּי שֶׁיִּמָּצְאוּ בּוֹ כִּתּוֹת מִתְחַלְּפוֹת הָאַחַת יוֹתֵר נִכְבֶּדֶת מִן הָאַחֶרֶת, יִהְיֶה בָּהּ אִישׁ אוֹ אֲנָשִׁים יוֹתֵר שְׁלֵמִים מִזּוּלָתָם, וְאֵין הָאִישׁ הַהוּא לְבַדּוֹ תַּכְלִית הַמְצֵא הַמִּין, אֲבָל הוּא סִבַּת הַגָּעַת תַּכְלִית הַמִּין מִצַּד שֶׁהוּא הוֹלֵךְ מַהֲלַךְ הַשְּׁלֵמוּת לְכָל הַמִּין, כְּמוֹ כְּלִי לְהַגִּיעַ הַמִּין אֶל תַּכְלִיתוֹ.
4 E isto é assim porque, assim como em cada indivíduo há nele muitos membros diferentes, todos necessários à permanência do ser vivo, e mesmo assim um é mais perfeito que o outro, e o outro que o outro, até que já se ache nele um membro que é o fundamento da permanência do ser vivo, e, com tudo isto, ele segue o curso da perfeição para o ser vivo — quero dizer que é um instrumento para fazer a perfeição da vida chegar ao ser vivo em geral, como se dissesses que o coração é o fundamento da permanência do ser vivo, e ele é um instrumento para fazer a vida chegar a todos os membros em geral e ao cérebro em particular, a fim de que, por meio da vida que chega do coração ao cérebro, chegue do cérebro a sensação e o movimento a todos os membros, e se complete com isto a permanência do vivente, com o que lhes chega do coração, seja por intermédio de outro, seja sem intermédio —, assim os homens, embora sejam todos iguais na humanidade, chega a alguns deles a perfeição humana por meio de alguns outros. Pois, assim como todos os membros são necessários à permanência do indivíduo, e mesmo assim alguns deles têm grau de chefia sobre os outros e a alguns chega a vida por meio de outros, assim deste modo a classe dos sábios tem grau de chefia sobre o resto, e chega do sábio aos homens uma ordenação que conserta o seu assunto para alcançar a perfeição humana; e a esta ordenação se chama convenção nimus.
וְזֶה, כְּמוֹ שֶׁבְּכָל אִישׁ יֵשׁ בּוֹ אֵבָרִים רַבִּים, וְיֵשׁ אֵבָר אֶחָד שֶׁהוּא עִקַּר קִיּוּם הַבַּעַל חַי, כְּאִלּוּ תֹּאמַר שֶׁהַלֵּב הוּא עִקַּר קִיּוּם הַבַּעַל חַי וְהוּא כְּלִי לְהַגִּיעַ הַחַיּוּת אֶל כָּל הָאֵבָרִים, כֵּן הָאֲנָשִׁים, עִם הֱיוֹתָם כֻּלָּם שָׁוִים בָּאֱנוֹשׁוּת, יַגִּיעַ לְקְצָתָם הַשְּׁלֵמוּת הָאֱנוֹשִׁי בְּאֶמְצָעוּת קְצָתָם, וְיֵשׁ לְכַת הַחֲכָמִים מַדְרֵגַת רֹאשִׁיּוּת, וְיַגִּיעַ מֵהֶחָכָם סִדּוּר מְתַקֵּן עִנְיָנָם, יִקָּרֵא הַסִּדּוּר הַזֶּה נִימוּס.
5 E conforme o que dissemos — que cabe à providência divina velar para fazer este proveito chegar à espécie do homem, assim como achamos que vela nos assuntos de pequeno valor que se acham no ser vivo —, eis que é forçoso que se derrame um influxo divino sobre algum homem da espécie humana, o mais preparado para isto, a fim de que seja um instrumento para fazer os homens chegarem à perfeição da sua finalidade: seja por sua mão, estando ele em vida, seja por intermédio de outro depois da sua morte — e isto pela mão dos sábios que o seguem, a fim de guiar os homens por meio do que receberam dele, ou do que compreenderam dos seus discursos que se acham nos seus livros, em todo tempo e em todo lugar. Pois não cabe que a mão do poder divino se encurte a ponto de medir escassamente este proveito que é necessário à espécie do homem, e de aperfeiçoá-la em todo tempo e em todo lugar — assim como não se encurta no aperfeiçoamento do proveito necessário aos seres vivos inferiores em todo lugar e em todo tempo. E a orientação que chega aos homens pela mão deste homem é a que se chama Torá divina Torá elohit; e o seu grau está em relação às demais Torás e convenções como o grau da arte suprema melachá rashit em relação às demais artes que a servem.
וּלְפִי מַה שֶּׁאָמַרְנוּ, הִנֵּה הוּא מְחֻיָּב שֶׁיֻּשְׁפַּע שֶׁפַע אֱלֹהִי עַל אֵיזֶה אִישׁ מִמִּין הָאָדָם הַיּוֹתֵר מוּכָן לָזֶה, כְּדֵי שֶׁיִּהְיֶה כְּלִי לְהַגִּיעַ הָאֲנָשִׁים אֶל שְׁלֵמוּת תַּכְלִיתָם, אִם עַל יָדוֹ בִּהְיוֹתוֹ בַּחַיִּים וְאִם עַל יְדֵי אֶמְצָעִי אַחַר מוֹתוֹ. וְהַהַיְשָׁרָה הַמַּגַּעַת לָאֲנָשִׁים עַל יְדֵי הָאִישׁ הַזֶּה הִיא הַנִּקְרֵאת תּוֹרָה אֱלֹהִית, וּמַדְרֵגָתָהּ מִשְּׁאָר הַתּוֹרוֹת וְהַנִּימוּסִים מַדְרֵגַת הַמְּלָאכָה הָרֹאשִׁית לִשְׁאָר הַמְּלָאכוֹת הַמְשָׁרְתוֹת לָהּ.
O capítulo prova a necessidade da Torá divina por um raciocínio do menor para o maior (kal vachomer). Albo observa que a providência divina equipou os animais até com o supérfluo — sentidos duplicados, refinamentos que vão além da mera sobrevivência. Ora, se D'us cuida tão minuciosamente das criaturas inferiores, é impensável que abandone a espécie mais nobre, o homem, sem prover-lhe o meio de alcançar a sua perfeição. Esse meio é o "influxo divino" (shefa elohi) — a revelação.
A perfeição não desce sobre cada indivíduo isoladamente, mas sobre um homem excepcionalmente preparado, que se torna o "instrumento" (keli) pelo qual a espécie inteira é elevada. A imagem orgânica é precisa: assim como o coração não vive para si, mas distribui a vida a todos os membros, o profeta não é um fim em si — é o órgão por onde a perfeição divina alcança toda a humanidade, na sua geração e nas seguintes, através dos sábios que transmitem e interpretam o que dele receberam.
A conclusão coroa a hierarquia das leis construída nos capítulos anteriores: acima da lei natural e da lei convencional está a Torá divina, que está para todas as outras leis como "a arte suprema" está para as artes subordinadas. As leis humanas ordenam o corpo e a convivência; só a lei divina conduz a alma à sua finalidade última — a verdadeira felicidade. Está assim demonstrado, a partir da própria providência (o segundo dos três princípios-raiz), por que a "Torá vinda do Céu" (o terceiro) é necessária.
O sentido da palavra "lei" (dat) e a definição das três espécies — natural, convencional e divina. Cada uma tem o seu fim: a natural afasta a iniquidade; a convencional afasta o torpe e aproxima o conveniente; mas só a divina conduz o homem à felicidade verdadeira — a felicidade da alma e a sobrevivência eterna.
O sentido da palavra "lei" (dat) e a definição das três espécies — natural, convencional e divina. Cada uma tem o seu fim: a natural afasta a iniquidade; a convencional afasta o torpe e aproxima o conveniente; mas só a divina conduz o homem à felicidade verdadeira — a felicidade da alma e a sobrevivência eterna.
1 O nome "lei" dat recai sobre toda orientação ou condução que abranja uma grande reunião de homens — quer abranja muitos preceitos, como "todos os que conhecem lei e direito" (Ester 1:13), quer um só preceito, como "e foi promulgada uma lei em Susã" (Ester 9:14); e quer seja divina, como "à sua direita um fogo: a lei para eles" (Deuteronômio 33:2), quer convencional, como "conforme as leis da Média e da Pérsia" (Ester 1:19).
שֵׁם דָּת יִפֹּל עַל כָּל הַיְשָׁרָה אוֹ הַנְהָגָה שֶׁתִּכְלֹל קִבּוּץ רַב מִן הָאֲנָשִׁים, הֵן שֶׁתִּהְיֶה כּוֹלֶלֶת צִוּוּיִים רַבִּים, כְּמוֹ ״כָּל יוֹדְעֵי דָת וָדִין״, אוֹ צִוּוּי אֶחָד, כְּמוֹ ״וְתִנָּתֵן דָּת בְּשׁוּשָׁן״; וְהֵן שֶׁתִּהְיֶה אֱלֹהִית, כְּמוֹ ״מִימִינוֹ אֵשׁ דָּת לָמוֹ״, אוֹ נִמּוּסִית, כְּדָתֵי מָדַי וּפָרָס.
2 E a lei é de três modos: ou natural, ou convencional, ou divina. E a natural tiv'it é igual em todo homem, e em todo tempo, e em todo lugar. E a convencional nimusit é a que se ordena por um sábio ou por sábios conforme o lugar e conforme o tempo, e conforme a natureza dos que por ela são conduzidos — como as leis e os estatutos que foram ordenados em algumas cidades entre os antigos adoradores de idolatria, ou os adoradores de D'us que o fizeram do lado da ordenação intelectual que a razão humana obriga, sem despertar divino. E a divina elohit é a que se ordena por D'us pela mão de um profeta — como Adão ou Noé, e como a condução e a lei que Abraão ensinava e habituava os homens a praticar, a servir a D'us, e os circuncidava por ordem de D'us —, ou a que se ordena por D'us pela mão de um enviado shaliach enviado por ele para que uma lei se dê por sua mão, como a Torá de Moisés.
וְהַדָּת עַל ג׳ פָּנִים: אִם טִבְעִית, וְאִם נִימוּסִית, וְאִם אֱלֹהִית. וְהַטִּבְעִית הִיא שָׁוָה בְּכָל אָדָם וּבְכָל זְמָן וּבְכָל מָקוֹם. וְהַנִּימוּסִית הִיא מַה שֶּׁתְּסֻדַּר מֵחָכָם אוֹ חֲכָמִים לְפִי הַמָּקוֹם וּלְפִי הַזְּמָן. וְהָאֱלֹהִית הִיא מַה שֶּׁתְּסֻדַּר מֵהַשֵּׁם עַל יַד נָבִיא כְּמוֹ אָדָם אוֹ נֹחַ, אוֹ מַה שֶּׁתְּסֻדַּר עַל יַד שָׁלִיחַ כְּתוֹרַת מֹשֶׁה.
3 E a intenção da lei natural é afastar a iniquidade e aproximar a justiça, a fim de que os homens se afastem do furto, do roubo e do homicídio, de modo que a sociedade entre os homens permaneça e subsista, e cada um esteja a salvo da mão do iníquo e do violento. E a intenção da lei convencional é afastar o torpe e aproximar o conveniente, a fim de que os homens se afastem do que é vergonhoso conforme o que é consagrado pela opinião, e nisto excede a natural — pois a convencional também conserta a condução dos homens e ordena os seus assuntos de modo conveniente, tanto como a natural, a fim de que se conserte a reunião política. E a intenção da divina é encaminhar os homens à obtenção da felicidade verdadeira, que é a felicidade da alma e a sobrevivência eterna hisharut nitzchi; e mostra-lhes os caminhos por que devem andar para a sua obtenção; e faz-lhes conhecer o bem verdadeiro, a fim de que se esforcem em obtê-lo; e faz-lhes conhecer também o mal verdadeiro, a fim de que se guardem dele; e habitua-os a abandonar as felicidades imaginárias, até que não as desejem nem se aflijam pela sua falta; e ela também estabelece os caminhos da justiça, a fim de que se conserte a reunião política de modo conveniente e perfeito, de sorte que a má ordenação das suas reuniões não os perturbe da obtenção da felicidade verdadeira, nem os impeça de esforçar-se na obtenção da felicidade e da finalidade última da espécie humana — para a qual se dirige o propósito da lei divina; e nisto excede a convencional.
וְכַוָּנַת הַדָּת הַטִּבְעִית לְהַרְחִיק הֶעָוֶל וּלְקָרֵב הַיֹּשֶׁר. וְכַוָּנַת הַדָּת הַנִּימוּסִית הִיא לְהַרְחִיק הַמְגֻנֶּה וּלְקָרֵב הַנָּאֶה, וּבָזֶה תַּעֲדִיף עַל הַטִּבְעִית. וְכַוָּנַת הָאֱלֹהִית הִיא לְהַיְשִׁיר הָאֲנָשִׁים אֶל הַשָּׂגַת הַהַצְלָחָה הָאֲמִתִּית שֶׁהִיא הַצְלָחַת הַנֶּפֶשׁ וְהַהִשָּׁאֲרוּת הַנִּצְחִי, וְתוֹדִיעַ לָהֶם הַטּוֹב הָאֲמִתִּי וְהָרַע הָאֲמִתִּי, וּבָזֶה תַּעֲדִיף עַל הַנִּימוּסִית.
Este breve capítulo é um dos mais influentes do livro. Albo organiza as três leis não por origem apenas, mas por finalidade, numa escala ascendente. A lei natural visa o mínimo: afastar a iniquidade (furto, roubo, homicídio) para que a sociedade subsista. A lei convencional vai além: afasta o "torpe" e promove o "conveniente" — refina a conduta segundo o decoro social. Mas ambas se ocupam apenas da vida terrena e do corpo.
A lei divina faz tudo o que as outras fazem — também ordena a justiça civil — mas acrescenta o que nenhuma lei humana alcança: conduzir o homem à "felicidade verdadeira, que é a felicidade da alma e a sobrevivência eterna". Ela ensina o bem e o mal verdadeiros (não apenas o socialmente útil), e educa o homem a desprezar as "felicidades imaginárias". A diferença não é de grau, mas de horizonte: as leis humanas miram esta vida; a divina, a eternidade.
Note-se a amplitude com que Albo define dat: o termo cobre desde um único decreto ("foi promulgada uma lei em Susã") até um sistema inteiro de preceitos, e abrange tanto a lei revelada ("um fogo: a lei para eles") quanto a legislação humana ("as leis da Média e da Pérsia"). Essa neutralidade do termo é deliberada — permite-lhe comparar as três espécies sob um mesmo conceito antes de demonstrar a superioridade absoluta da divina, tema que os capítulos seguintes aprofundam.
A lei convencional fica aquém da divina em muitos aspectos. Albo expõe seis deficiências da lei humana e as seis correspondentes superioridades da lei divina — e mostra que o salmista as enumerou todas no Salmo 19: "a Torá do Senhor é perfeita… o testemunho do Senhor é fiel… os preceitos do Senhor são retos…".
A lei convencional fica aquém da divina em muitos aspectos. Albo expõe seis deficiências da lei humana e as seis correspondentes superioridades da lei divina — e mostra que o salmista as enumerou todas no Salmo 19: "a Torá do Senhor é perfeita… o testemunho do Senhor é fiel… os preceitos do Senhor são retos…".
1 A lei convencional fica aquém da divina em muitos aspectos. O primeiro é o que dissemos: que a convencional conserta as ações dos homens de modo que se conserte a reunião política, mas não é suficiente para dar perfeição nas opiniões deot, como explicaremos no que vier, a fim de que a alma sobreviva após a morte; e por isso a alma não poderá voltar a habitar na terra dos viventes de onde foi tomada, porque ela a lei convencional não abrange senão o conveniente e o torpe apenas. E a lei divina é suficiente para isto, porque ela inclui as duas partes de que depende a perfeição humana, que são as virtudes midot e as opiniões deot: pois abrange o conveniente e o torpe, e discerne entre a verdade e a falsidade, que são as opiniões. E por isso David a descreveu como sendo perfeita, e disse "a Torá do Senhor é perfeita temimá, restauradora da alma" (Salmos 19:8) — quer dizer, a lei convencional não é perfeita, porque não abrange as opiniões verdadeiras; mas a lei divina é perfeita, porque inclui a perfeição das virtudes e a perfeição das opiniões, que são as duas partes de que depende a perfeição da alma; e por isso ela é restauradora da alma, trazendo-a de volta a D'us, que a deu, ao lugar onde estava a sua tenda no princípio.
הַדָּת הַנִּימוּסִית תִּקְצַר מִן הָאֱלֹהִית בְּפָנִים רַבִּים. הָא׳, כִּי הַנִּימוּסִית תְּתַקֵּן פְּעֻלּוֹת הָאֲנָשִׁים, אֲבָל לֹא תַסְפִּיק לָתֵת שְׁלֵמוּת בַּדֵּעוֹת. וְהַדָּת הָאֱלֹהִית תַּסְפִּיק לָזֶה, לְפִי שֶׁהִיא תִּכְלֹל הַשְּׁנֵי חֲלָקִים שֶׁהַשְּׁלֵמוּת הָאֱנוֹשִׁי תָּלוּי בָּהֶן, וְהֵן הַמִּדּוֹת וְהַדֵּעוֹת. וְלָזֶה אָמַר ״תּוֹרַת ה׳ תְּמִימָה מְשִׁיבַת נָפֶשׁ״.
2 Ainda, a lei convencional fica aquém da divina em que ela não pode separar o conveniente do torpe em todas as coisas; pois já será a coisa conveniente ou torpe junto a nós, e não será conveniente ou torpe em si mesma. Pois, assim como é impossível que o homem nasça, no princípio do seu estado, perfeito em todos os ofícios práticos — ainda que seja preparado por sua natureza para alguns deles —, assim é impossível que o homem nasça perfeito em todas as virtudes e perfeições e isento de todas as baixezas e deficiências; mas já será preparado para uma certa virtude ou uma certa perfeição mais que para outra; porém, que seja preparado para todas as virtudes, é impossível.
3 E explica-se disto que é impossível a qualquer ordenador de uma convenção humana que não se incline, por sua natureza, para alguma baixeza, e julgue do conveniente que é torpe e do torpe que é conveniente; e por isso o seu testemunho sobre o conveniente e o torpe não será verdade. Não vês que Platão errou nisto um grande erro, e disse do torpe que é conveniente? Pois disse que caberia que as mulheres na cidade fossem comuns aos que têm uma mesma chefia — como se dissesses que as mulheres dos príncipes seriam comuns a todos os príncipes, e as mulheres dos comerciantes a todos os comerciantes, e assim as mulheres dos membros de um mesmo ofício comuns a todos os membros daquele ofício; e isto é uma coisa que a Torá afastou — e até a Torá dos filhos de Noé —, pois eis que se disse a Abimélec "estás morto por causa da mulher que tomaste, e ela é casada com marido" (Gênesis 20:3), e ele se desculpou dizendo que não sabia que era mulher de outro homem. E já Aristóteles censurou a opinião de Platão nisto.
4 E esta é uma prova de que o intelecto de nenhum homem é suficiente para separar o conveniente, na verdade, do torpe; e por isso o seu testemunho sobre o conveniente e o torpe não será fiel. E com mais razão nas opiniões — pois é impossível ser o seu testemunho fiel nas investigações profundas, como a de se o mundo é criado ou eterno, já que o intelecto humano não é suficiente para saber isto na verdade. Mas o testemunho do Nome é fiel, e torna sábio o simples; pois ela testemunha sobre o mundo, se é criado ou eterno, e sobre as demais investigações nobres, e sobre o conveniente e o torpe, na verdade. Como se disse "o testemunho do Senhor é fiel neemaná, torna sábio o simples" (Salmos 19:8).
עוֹד הַדָּת הַנִּימוּסִית תִּקְצַר, בְּשֶׁהִיא לֹא תוּכַל לְהַפְרִיד הַנָּאֶה מִן הַמְגֻנֶּה בְּכָל הַדְּבָרִים. הֲלֹא תִרְאֶה כִּי אַפְּלָטוֹן טָעָה בָּזֶה טָעוּת גְּדוֹלָה וְאָמַר עַל הַמְגֻנֶּה שֶׁהוּא נָאֶה, שֶׁאָמַר שֶׁרָאוּי שֶׁיִּהְיוּ הַנָּשִׁים בַּמְּדִינָה מְשֻׁתָּפוֹת. וּכְבָר גִּנָּה אֲרִיסְטוֹ דַּעַת אַפְּלָטוֹן בָּזֶה. אֲבָל עֵדוּת הַשֵּׁם נֶאֱמָנָה מַחְכִּימַת פֶּתִי.
5 Ainda, a lei convencional fica aquém da divina, pois ela não pode alegrar o coração dos que se conduzem por ela; porque todo o que está em dúvida sobre uma coisa que faz, se é suficiente para chegar à finalidade visada, não se alegra na sua ação. E o que se conduz pela convenção, por estar em dúvida sobre se a justiça nela determinada é justiça na verdade, ou não é justiça senão conforme o que parece, não se alegra na sua ação. Mas o que se conduz pela lei divina, por saber que aquela justiça nela determinada é justiça na verdade, alegra-se na sua ação; e por isso os preceitos do Nome são retos yesharim, e alegram o coração (Salmos 19:9).
עוֹד, כִּי הִיא לֹא תוּכַל לְשַׂמֵּחַ לֵב הַמִּתְנַהֲגִים עַל פִּיהָ, לְפִי שֶׁכָּל מִי שֶׁהוּא מְסֻפָּק אִם פְּעֻלָּתוֹ מַסְפֶּקֶת לְהַגִּיעַ אֶל הַתַּכְלִית, אֵינֶנּוּ שָׂמֵחַ בָּהּ. אֲבָל הַמִּתְנַהֵג עַל פִּי הַדָּת הָאֱלֹהִית, לִהְיוֹתוֹ יוֹדֵעַ שֶׁהַיֹּשֶׁר הַהוּא הוּא יֹשֶׁר בֶּאֱמֶת, הוּא שָׂמֵחַ בִּפְעֻלָּתוֹ, וְלָזֶה ״פִּקּוּדֵי ה׳ יְשָׁרִים מְשַׂמְּחֵי לֵב״.
6 Ainda, a lei convencional fica aquém da divina, pois ela não pode determinar os pormenores das ações que cabe fazer em cada virtude, porque ela não faz conhecer senão os princípios gerais — assim como as definições não existem senão para as coisas gerais, já que o particular não tem definição —, assim também as ações particulares é impossível que a lei convencional as determine. E isto se vê em que Aristóteles, no Livro das Virtudes Ética, menciona sempre, em todas as virtudes, que cabe agir "como cabe, e no tempo que cabe, e no lugar que cabe", e não explica qual é o tempo que cabe nem o lugar que cabe; e esta medida, sem dúvida, não está entregue a todo homem. E achamo-lo dizendo em muitos lugares do Livro das Virtudes que as ações particulares cabe que sejam medidas, e ele não explicou a medida delas — parece que a sua opinião é dizer que esta medida é para outro que não ele.
7 E não há dúvida de que, se fosse da regra do homem, enquanto é homem, saber esta medida, Aristóteles teria falado nela sem dúvida; mas, porque não é da natureza do homem deter-se sobre isto por si mesmo, deixou-a para outro — e ela é a medida divina hahash'ará haelohit. E por isso achamo-lo falando nas virtudes de modo geral, pois ele diz do temor do pecado que é uma medida intermediária entre o deleite na comida, na bebida, na cópula e nos demais deleites, e a abstinência demasiada.
עוֹד, כִּי הִיא לֹא תוּכַל לְהַגְבִּיל פְּרָטֵי הַפְּעֻלּוֹת, לְפִי שֶׁהִיא לֹא תוֹדִיעַ אֶלָּא הַכּוֹלְלִים. וְזֶה כִּי אֲרִיסְטוֹ בְּסֵפֶר הַמִּדּוֹת יַזְכִּיר תָּמִיד שֶׁרָאוּי שֶׁיִּפָּעֲלוּ ״כְּמוֹ שֶׁרָאוּי וּבְעֵת הָרָאוּי וּבַמָּקוֹם הָרָאוּי״, וְלֹא יְבָאֵר אֵיזֶהוּ הָעֵת הָרָאוּי. וְהִיא הַהַשְׁעָרָה הָאֱלֹהִית.
8 E os mestres das convenções humanas dizem que se deve copular "conforme o que cabe, e com quem cabe, e no tempo que cabe", mas não está em sua mão explicar isto. E a lei divina explica que a cópula "conforme o que cabe" é a feita para suscitar descendência a fim de perpetuar a espécie; e "com quem cabe" é a mulher destinada a ele; e proíbe algumas mulheres que não é cabido destinar a ele; e que "o tempo que cabe" é quando a mulher esteja pura tehorá, e não na hora do seu período menstrual nem perto do seu período.
9 E assim a lei divina proíbe alguns alimentos e permite alguns, e proíbe beber vinho ao vir o sacerdote a realizar o serviço do Templo ou a orar; e explica que a abstinência demasiada não é cabida — como explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, sobre "e expiará por ele do que pecou contra a alma" (Números 6:11): e contra qual alma pecou o nazireu, senão por ter afligido a si mesmo abstendo-se do vinho?
וּבַעֲלֵי הַנִּימוּסִים הָאֱנוֹשִׁיִּים יֹאמְרוּ שֶׁיִּבְעַל כְּפִי מַה שֶּׁרָאוּי וְעִם מִי שֶׁרָאוּי וּבְעֵת הָרָאוּי, אֲבָל אֵין בְּיָדָם לְפָרֵשׁ זֶה. וְהַדָּת הָאֱלֹהִית תְּפָרֵשׁ. וְכֵן תֶּאֱסֹר קְצָת הַמַּאֲכָלִים וְתַתִּיר קְצָתָם, וּתְבָאֵר שֶׁהַפְּרִישׁוּת יוֹתֵר מִדַּאי אֵינוֹ רָאוּי, כְּמוֹ שֶׁבֵּאֲרוּ עַל ״וְכִפֶּר עָלָיו מֵאֲשֶׁר חָטָא עַל הַנָּפֶשׁ״.
10 E assim os mestres das convenções humanas louvam a coragem e dizem que não cabe ao homem entregar-se a perigos senão num tempo em que a morte lhe seja preferível à vida; e não está em sua mão determinar aquele tempo. E a Torá divina explica que aquele tempo é quando o Nome do Céu se santifica por sua mão, como Chananiá, Mishael e Azariá, ou quando se trata de combater os adoradores de idolatria a fim de exterminá-los e apagar o seu nome de debaixo dos céus.
11 E assim a misericórdia e a crueldade — a convenção humana não pode medir qual é cabida e qual é afastada; e a lei divina explica que a crueldade achzariut há de ser sobre os hereges, e os apóstatas, e os transgressores da religião, que cabe puni-los com açoites ou com morte, cada um conforme o que a Torá determinou da sua rebeldia; e que a misericórdia rachmanut cabe que seja sobre os crentes, e sobre os pobres e desventurados, mas de modos diversos: pois há quem caiba dar-lhe um donativo gratuito, e há quem caiba dar-lhe por via de empréstimo. E, para advertir que não cabe seguir apenas o único caminho, disse o salmista "bom é o homem que se compadece e empresta, conduz os seus assuntos com justiça" (Salmos 112:5): disse "se compadece" chonen sobre a caridade ao pobre que toma um donativo gratuito, e "empresta" malveh sobre quem não quer tomar senão por via de empréstimo, e disse que quem faz estas duas coisas "conduz os seus assuntos com justiça"; e disse sobre ele "pois para sempre não vacilará, em memória eterna estará o justo" (Salmos 112:6), porque ele beneficia a todos os homens — seja por via de compaixão e donativo, seja por via de empréstimo —, o que não está no poder da convenção humana medir em coisa alguma das ações particulares como estas; e por isso o que se conduz por ela anda nas trevas e não sabe quais são as ações particulares que cabe fazer, nem sabe por que caminho andará. Mas o mandamento do Nome é límpido como o sol e ilumina os olhos, a fim de iluminar aos que por ele se conduzem o caminho por que andarão e a obra que farão.
וְכֵן הַתּוֹרָה הָאֱלֹהִית תְּבָאֵר שֶׁהָעֵת לִמְסֹר עַצְמוֹ הוּא כְּשֶׁיִּתְקַדֵּשׁ שֵׁם שָׁמַיִם עַל יָדוֹ כַּחֲנַנְיָה מִישָׁאֵל וַעֲזַרְיָה. וְכֵן הָרַחְמָנוּת וְהָאַכְזָרִיּוּת, תְּבָאֵר שֶׁהָאַכְזָרִיּוּת תִּהְיֶה עַל הַכּוֹפְרִים, וְהָרַחְמָנוּת עַל הַמַּאֲמִינִים וְעַל הַדַּלִּים. אֲבָל מִצְוַת הַשֵּׁם הִיא בָּרָה כַּחַמָּה וּמְאִירַת עֵינַיִם.
12 Ainda, a lei convencional, por ser o seu ordenador um filho do homem, é impossível que ele meça o conveniente e o torpe em todos os tempos; pois é possível que o que é consagrado pela opinião se mude num certo tempo, e o conveniente torne-se torpe e o torpe conveniente — como se achou em Caim e Abel e nas primeiras gerações, para quem o casamento com a irmã não era torpe junto a eles, e até nos dias de Abraão, como disse a Abimélec ao desculpar-se dele "e também na verdade é minha irmã, filha de meu pai, mas não filha de minha mãe" (Gênesis 20:12); e depois tornou-se torpe. E por isso é impossível que o temor adquirido do torpe que vem na lei convencional seja eterno, pois se muda com a mudança dos tempos. Mas a lei divina, por ser medida pela sabedoria divina, explica o conveniente e o torpe em todos os tempos; e por isso o temor adquirido do torpe que vem nela não entrará nele mudança nem corrupção, pois ela é limpa de toda escória e imundície; e deste lado é possível que subsista para sempre, como a prata limpa de toda escória — conforme as palavras do salmista "as palavras do Senhor são palavras puras tehorot, prata refinada num forno aberto à terra, depurada sete vezes" (Salmos 12:7).
13 E a sua explicação: que a prata falsificada feita pela arte da alquimia — há dela a tal que, se for fundida uma vez, não se revelará a sua maldade, mas, se for fundida uma segunda vez, revelar-se-á a sua maldade; e há a tal que suporta duas fusões; e há a tal que suporta três, ou quatro, ou cinco, e ao fim revelar-se-á a sua maldade; e há a tal que não se revela a sua maldade quando for fundida num cadinho, mas, se for fundida na espessura da terra, revelar-se-á a sua maldade. E a prata refinada na espessura da terra, depurada muitas vezes, é limpa de toda falsificação e escória e imundície, tal que é impossível que se mude depois, ainda que seja fundida muitas vezes. E por isso David descreveu as palavras do Senhor como sendo puras, como a prata limpa, "refinada num forno aberto à terra" — que é num lugar descoberto na espessura da terra —, "depurada sete vezes", tal que não há nela apreensão de falsificação alguma. E assim o temor adquirido do torpe que vem na Torá é puro, e permanece para sempre, porque nela não cai a mudança e a corrupção que cai na convencional.
עוֹד הַדָּת הַנִּימוּסִית, לִהְיוֹת מְסַדְּרָהּ בֶּן אָדָם, אֶפְשָׁר שֶׁיִּשְׁתַּנֶּה הַמְפֻרְסָם וְיָשׁוּב הַנָּאֶה מְגֻנֶּה, כְּמוֹ שֶׁנִּמְצָא לְקַיִן וְהֶבֶל שֶׁנִּשּׂוּאֵי הָאָחוֹת לֹא הָיָה אֶצְלָם מְגֻנֶּה. אֲבָל הַדָּת הָאֱלֹהִית, לִהְיוֹתָהּ מְשֹׁעֶרֶת מִן הַחָכְמָה הָאֱלֹהִית, תְּבָאֵר הַנָּאֶה וְהַמְגֻנֶּה בְּכָל הַזְּמַנִּים, ״אִמְרוֹת ה׳ אֲמָרוֹת טְהֹרוֹת כֶּסֶף צָרוּף בַּעֲלִיל לָאָרֶץ מְזֻקָּק שִׁבְעָתָיִם״.
14 Ainda, a lei convencional não pode dar a cada homem conforme os seus caminhos, igual por igual, nem medir os castigos com medida e com peso — de modo que um seja açoitado, e um apedrejado, e um estrangulado, e um pague o dobro, e um pague o quádruplo e o quíntuplo —, a fim de que os castigos que chegam ao pecador sejam verdadeiros conforme a medida do pecado. Mas a lei divina retribui a cada um conforme a sua maldade, não menos nem mais. E, ainda que se ache no aparente um justo que perece na sua justiça e um ímpio que prolonga a vida na sua maldade, eis que isto é quando os castigos são examinados pelo exame dos bens deste mundo apenas; mas, quando se misturam juntos os bens deste mundo que chegam ao ímpio com os males e os castigos que lhe chegam no mundo vindouro, e assim os males que chegam ao justo neste mundo com os bens que lhe chegam no mundo vindouro, acha-se que as duas retribuições são justas juntas, ainda que não seja justa cada uma delas separada por si mesma. E é isto o que disse o salmista "os juízos do Senhor são verdade, juntos são justos" (Salmos 19:10): disse "verdade" sobre a medida dos castigos, e disse "juntos são justos" sobre os castigos deste mundo com os bens do mundo vindouro, ou o contrário.
15 E vi quem interpretou que, por se achar na Torá a mesma coisa proibida e permitida — como a mulher do irmão, que é proibida, e a cunhada em levirato, que é permitida; e a gordura do animal doméstico, proibida, e a gordura do animal selvagem, permitida; e a carne com leite, proibida, e o úbere, permitido; e semelhantes a isto, dentre o que leva o homem a pensar que é impossível que as duas partes de uma contradição sejam justas —, disse aquele intérprete que "os juízos do Senhor são verdade", e que são justos juntos a permissão e a proibição. E a expressão "verdade" não concorda com esta interpretação, pois a expressão "verdade" não recai sobre o estabelecimento dos juízos, mas sim a expressão "conveniente" ou "correto" ou "juízos retos"; mas sobre as retribuições recai a expressão "verdade" — disse a Escritura "juízo de verdade julgai" (Zacarias 7:9) —, pois o fundamento da retribuição se denomina sempre pela expressão "juízo": "conhecido é o Senhor, pelo juízo que fez; na obra das suas mãos se enredou o ímpio" (Salmos 9:17); "senão fazer juízo" (Miquéias 6:8). E assim a expressão "juntos" não se interpreta bem segundo aquela interpretação.
16 Eis que estas são as deficiências que há na lei convencional, e ainda se acrescentam a elas outras como estas e como estas. E dentre o seu conjunto está que a convenção humana é impossível que estabeleça castigos senão sobre o manifesto, e não sobre o oculto, pois "o homem vê para os olhos" (I Samuel 16:7); e a Torá divina estabelece castigos também sobre o oculto, pois "o Senhor vê para o coração". E é possível interpretar "os juízos do Senhor são verdade, juntos são justos" deste modo: sobre o manifesto e sobre o oculto. E não me cabe estender-me nisto, exceto que me pareceu enumerar estes seis que o salmista enumerou no salmo "os céus contam a glória de D'us" (Salmos 19), ao dizer: "a Torá do Senhor é perfeita; o testemunho do Senhor é fiel; os preceitos do Senhor são retos, alegram o coração; o mandamento do Senhor é límpido, ilumina os olhos; o temor do Senhor é puro, permanece para sempre; os juízos do Senhor são verdade, juntos são justos" (Salmos 19:8-10).
עוֹד, הַנִּימוּסִית לֹא תוּכַל לְשַׁעֵר הָעֳנָשִׁים בְּמִדָּה בְּמִשְׁקָל. אֲבָל הַדָּת הָאֱלֹהִית תָּשִׁיב גְּמוּל לְכָל אֶחָד כְּפִי רִשְׁעָתוֹ, וְאַף אִם יִמָּצֵא צַדִּיק אוֹבֵד בְּצִדְקוֹ וְרָשָׁע מַאֲרִיךְ בְּרִשְׁעָתוֹ, כְּשֶׁיְּעֹרְבוּ טוֹבוֹת הָעוֹלָם הַזֶּה עִם עֳנָשֵׁי הָעוֹלָם הַבָּא, נִמְצָא שְׁנֵי הַגְּמוּלִים צוֹדְקִים יַחַד. ״מִשְׁפְּטֵי ה׳ אֱמֶת צָדְקוּ יַחְדָּו״.
17 E, depois que o salmista explicou estas seis vantagens que há para a lei divina sobre a convencional, voltou ainda a explicar que a lei divina não só dá perfeição nas opiniões — que são a verdade e a falsidade — e no conveniente e no torpe — que é a perfeição das virtudes, do modo que escrevemos —, mas também dá perfeição em tudo o que se imagina ser uma perfeição. E porque o que se imagina ser perfeição, além da perfeição das virtudes e das opiniões, é o útil moil e o agradável arev, disse, ao modo da elegância da poesia, que nas palavras da Torá se acham o útil e o agradável; e é isto o que disse "mais desejáveis que o ouro e que muito ouro fino" (Salmos 19:11), para aludir ao útil; "e mais doces que o mel e que o licor dos favos", para aludir ao agradável — quer dizer, que a recompensa obtida por meio dos mandamentos é um galardão ekev grande, mais útil que o ouro e que muito ouro fino, e mais agradável que o licor dos favos; e isto é quando o homem é cuidadoso na sua prática; e por isso concluiu "também o teu servo é advertido por eles; em guardá-los há grande galardão" (Salmos 19:12).
וְאַחַר שֶׁבֵּאֵר הַמְשׁוֹרֵר אֵלּוּ הַשִּׁשָּׁה יִתְרוֹנוֹת, שָׁב לְבָאֵר שֶׁהַדָּת הָאֱלֹהִית גַּם תִּתֵּן שְׁלֵמוּת בְּכָל מַה שֶּׁיְּדֻמֶּה שֶׁהוּא שְׁלֵמוּת, וְהוּא הַמּוֹעִיל וְהֶעָרֵב, ״הַנֶּחֱמָדִים מִזָּהָב וּמִפַּז רָב וּמְתוּקִים מִדְּבַשׁ וְנֹפֶת צוּפִים״. וְלָזֶה סִיֵּם ״גַּם עַבְדְּךָ נִזְהָר בָּהֶם בְּשָׁמְרָם עֵקֶב רָב״.
Este é um dos capítulos mais engenhosos do livro. Albo lê os seis epítetos que o Salmo 19 aplica à Torá — perfeita, fiel, reta, límpida, pura, verdadeira — como o enunciado exato das seis superioridades da lei divina sobre a humana. O salmista, segundo Albo, não estava apenas louvando: estava filosofando. Cada palavra responde a uma deficiência estrutural da lei convencional.
(1) A lei humana só ordena condutas, não opiniões verdadeiras — logo não pode aperfeiçoar a alma para a eternidade (por isso a divina é "perfeita"). (2) Nenhum legislador humano está livre de inclinações que distorcem o seu juízo do bem e do mal — Albo cita o erro de Platão (a comunidade das mulheres), censurado por Aristóteles (por isso a divina é "fiel"). (3) Quem segue lei humana duvida se ela conduz ao fim verdadeiro, e a dúvida tira a alegria (por isso a divina "alegra o coração"). (4) A lei humana só formula princípios gerais — o próprio Aristóteles diz "no tempo devido, no lugar devido" sem nunca defini-los, deixando a "medida" para outro: a medida divina (por isso a divina "ilumina os olhos" nos pormenores).
(5) O que a opinião humana julga torpe muda com os tempos — o casamento entre irmãos era lícito nas primeiras gerações — logo o temor que ela inspira não é eterno; já a lei divina, medida pela sabedoria eterna, é "pura, permanece para sempre", como prata "depurada sete vezes" (imagem que Albo desenvolve com notável conhecimento da metalurgia). (6) A lei humana não consegue ajustar a pena exatamente ao crime, nem alcançar o oculto, nem resolver o escândalo do justo que sofre; só a lei divina, somando esta vida e a vindoura, faz com que "os juízos do Senhor sejam verdade, juntos justos".
O capítulo é um exemplo perfeito do método de Albo: a Ética de Aristóteles é invocada não como autoridade rival, mas como testemunha dos limites da razão humana — é o próprio Filósofo quem confessa que a "medida" das ações concretas escapa ao homem. Essa confissão, para Albo, é a prova racional de que se precisa de uma "medida divina". Ao final, ele acrescenta que a Torá oferece ainda o útil e o agradável (os dois últimos versos do salmo): não lhe falta nada do que se possa imaginar como bem.
O livre-arbítrio e a finalidade são fundamentos de toda lei — mas, propriamente, da lei convencional, não da divina enquanto divina. Tal como os primeiros inteligíveis, eles precedem necessariamente a lei divina sem serem seus princípios. E é por isso que a Torá precisou escrever "escolhe a vida": para refutar quem nega o arbítrio ou a finalidade.
O livre-arbítrio e a finalidade são fundamentos de toda lei — mas, propriamente, da lei convencional, não da divina enquanto divina. Tal como os primeiros inteligíveis, eles precedem necessariamente a lei divina sem serem seus princípios. E é por isso que a Torá precisou escrever "escolhe a vida": para refutar quem nega o arbítrio ou a finalidade.
1 Os fundamentos da lei convencional e as suas raízes são o livre-arbítrio bechirá e a finalidade tachlit. E isto é manifesto e claro: pois o que estabelece a convenção, por que estabeleceria castigos para os que transgridem as palavras da convenção, se o transgressor não tivesse em seu próprio poder fazer o que quiser? E assim o rei, ou o condutor da cidade, como poderiam obrigar os homens à prática das boas ações, se os homens não estivessem em seu próprio poder de fazer o mal ou o bem? E até os que negam a recompensa e o castigo da alma confessam ser o livre-arbítrio absoluto na mão do homem, e que não há nada que o constranja, e que por ele o homem pode escolher o que quiser e dirigir as suas ações a uma certa finalidade; e por isso dizem que é forçoso que se ordene uma convenção por um sábio ou por sábios, a fim de determinar o conveniente e o torpe, e a iniquidade e a justiça, entre os homens da cidade, e que se ponha sobre eles um magistrado, oficial e governante, a fim de obrigar o povo à continuidade da justiça entre os homens e à remoção da iniquidade, de modo que por sua mão se complete a reunião política de modo conveniente.
הַתְחָלוֹת הַדָּת הַנִּימוּסִית וְשָׁרָשֶׁיהָ הֵן הַבְּחִירָה וְהַתַּכְלִית, וְזֶה גָּלוּי וּמְבֹאָר. כִּי הַמַּנִּיחַ הַנִּימוּס, לָמָּה יַנִּיחַ הָעֳנָשִׁים לָעוֹבְרִים אִם אֵין הָעוֹבֵר בִּרְשׁוּת עַצְמוֹ. וְאַף הַמַּכְחִישִׁים הַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ הַנַּפְשִׁיִּי יוֹדוּ עַל הֱיוֹת הַבְּחִירָה מֻחְלֶטֶת בְּיַד הָאָדָם.
2 E por isso está claro que não visou bem quem pôs o livre-arbítrio e a finalidade como fundamentos da lei divina; pois, ainda que o livre-arbítrio a preceda necessariamente, não é um fundamento dela enquanto é divina, mas é um fundamento dela do lado de ser o arbítrio um fundamento de todas as ações e convenções humanas e das conduções convencionais pelas quais se conserta o estabelecimento político — aquilo sem o que isso é impossível. E, assim como não dizemos que os primeiros inteligíveis muskalot rishonot são um fundamento da lei divina — ainda que a precedam necessariamente, por precederem todo aprendizado e ensino e todo conhecimento —, assim o livre-arbítrio, ainda que seja necessariamente uma raiz da lei divina, não é um fundamento dela enquanto é divina; e por isso o Rambam, de abençoada memória, não o contou no conjunto dos princípios — apesar de dizer que é um princípio necessário a uma Torá divina, como escrevemos no capítulo 3 —, porque não se contaram entre os princípios senão aqueles que são princípios da lei divina enquanto é divina.
וְלָזֶה הוּא מְבֹאָר שֶׁלֹּא כִוֵּן יָפֶה מִי שֶׁשָּׂם הַבְּחִירָה וְהַתַּכְלִית הַתְחָלוֹת לַדָּת הָאֱלֹהִית, כִּי אַף עַל פִּי שֶׁהַבְּחִירָה קוֹדֶמֶת לָהּ בְּהֶכְרֵחַ, אֵינֶנָּה הַתְחָלָה אֵלֶיהָ בְּמַה שֶּׁהִיא אֱלֹהִית. וּכְמוֹ שֶׁלֹּא נֹאמַר שֶׁהַמּוּשְׂכָּלוֹת הָרִאשׁוֹנוֹת הַתְחָלָה לַדָּת הָאֱלֹהִית, כֵּן הַבְּחִירָה. וְלָזֶה לֹא מְנָאָהּ הָרַמְבַּ״ם בִּכְלַל הָעִקָּרִים.
3 E assim a finalidade última tachlit não é um fundamento da lei divina enquanto é divina, mas é um fundamento de todas as ações humanas praticadas por vontade, e deste lado é um fundamento da lei convencional. Pois, assim como todo o que faz alguma coisa por seu saber e por sua vontade só a faz do lado de visar uma certa finalidade — quer aquela finalidade seja boa em si mesma, quer uma coisa que se lhe afigure ser boa —, assim o que estabelece a convenção visa, no que estabelece dentre as ordens e as advertências, a fim de que os homens alcancem nas suas ações uma certa finalidade, que é o encaminhamento dos homens e o bem da sua vida no que com isso se completa a reunião política. E por isso está claro que a finalidade também é um fundamento da lei convencional, não da lei divina enquanto é divina. Mas, por ser a finalidade que chega do lado da Torá — que é a vida do mundo vindouro — diferente da finalidade que chega da lei convencional e de todas as demais finalidades, o Rambam, de abençoada memória, contou-a no conjunto dos princípios, ainda que não tenha contado o livre-arbítrio.
וְכֵן הַתַּכְלִית אֵינוֹ הַתְחָלָה לַדָּת הָאֱלֹהִית בְּמַה שֶּׁהִיא אֱלֹהִית, אֲבָל הוּא הַתְחָלָה לְכָל הַפְּעֻלּוֹת הָאֱנוֹשִׁיּוֹת. אֲבָל לִהְיוֹת הַתַּכְלִית הַמַּגִּיעַ מִצַּד הַתּוֹרָה, שֶׁהוּא חַיֵּי הָעוֹלָם הַבָּא, מִתְחַלֵּף לְשָׁאָר כָּל הַתַּכְלִיּוֹת, מָנָה אוֹתוֹ הָרַמְבַּ״ם בִּכְלַל הָעִקָּרִים אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא מָנָה הַבְּחִירָה.
4 E, se disseres: visto que o livre-arbítrio e a finalidade não são fundamentos da lei divina enquanto é divina, que significa isto que se disse na Torá "vê, pus diante de ti hoje a vida" etc., "e escolherás a vida" (Deuteronômio 30:15,19), para aludir ao livre-arbítrio e à finalidade, que é a vida eterna? — já dissemos que, ainda que o livre-arbítrio e a finalidade não sejam fundamentos da lei divina enquanto é divina, eis que a precedem necessariamente, assim como os primeiros inteligíveis precedem a lei divina, ainda que não sejam fundamentos dela enquanto é divina. E porque não há quem negue serem os primeiros inteligíveis existentes no homem — mas há quem negue ser o livre-arbítrio existente no homem, como é a opinião de alguns dos astrólogos hovrei shamayim; e há também quem negue a finalidade em todas as ações, como Epicuro e a sua corrente, que pensam que o mundo caiu por acaso e que não há finalidade para ação alguma das ações, mas tudo é por acaso absoluto; e até quem estabelece uma finalidade para todas as ações humanas não estabelece uma finalidade nobre como esta, que é a sobrevivência da alma na vida eterna —, por isso a lei divina foi forçada a escrever isto, a fim de anular aquelas opiniões, por serem corrompidas em si mesmas, já que elas anulam todas as ações humanas e a finalidade humana, além da anulação das leis em geral.
שֶׁאִם תֹּאמַר, אַחַר שֶׁאֵין הַבְּחִירָה וְהַתַּכְלִית הַתְחָלוֹת לַדָּת הָאֱלֹהִית, מַה זֶּה שֶּׁאָמַר בַּתּוֹרָה ״רְאֵה נָתַתִּי לְפָנֶיךָ הַיּוֹם אֶת הַחַיִּים... וּבָחַרְתָּ בַּחַיִּים״? לְפִי שֶׁיֵּשׁ מִי שֶׁיַּכְחִישׁ הֱיוֹת הַבְּחִירָה נִמְצֵאת בָּאָדָם, כְּדַעַת קְצָת הוֹבְרֵי שָׁמַיִם, וְיֵשׁ מִי שֶׁיַּכְחִישׁ הַתַּכְלִית, כְּאֶפִּיקוֹרוֹס וְסִיעָתוֹ, לְפִיכָךְ הֻכְרְחָה הַדָּת הָאֱלֹהִית לִכְתֹּב זֶה כְּדֵי לְבַטֵּל הַדֵּעוֹת הָהֵן.
Albo enfrenta aqui uma objeção delicada: o livre-arbítrio parece tão fundamental que o próprio Maimônides o chamou "a coluna da Torá" (cap. 3). Como, então, deixá-lo de fora da lista dos princípios? A resposta é uma distinção precisa: há coisas que precedem necessariamente a lei divina sem serem princípios dela enquanto divina. O arbítrio é pressuposto de qualquer lei — até os ateus que negam a vida eterna o admitem, pois sem ele não haveria sentido em punir ou recompensar.
A chave do argumento é uma analogia luminosa: os "primeiros inteligíveis" (os axiomas evidentes da razão, como "o todo é maior que a parte") precedem toda a lei divina — sem eles não há pensamento algum — e nem por isso são contados como princípios dela. Da mesma forma o livre-arbítrio e a finalidade: são condições prévias universais, não fundamentos específicos da religião revelada. Albo, assim, justifica a omissão de Maimônides como filosoficamente correta.
A última seção responde por que, apesar disso, a Torá enuncia explicitamente o arbítrio e a finalidade ("escolhe a vida"). A razão é polêmica, não fundacional: ao contrário dos primeiros inteligíveis, que ninguém nega, há quem negue o livre-arbítrio (os astrólogos deterministas) e quem negue toda finalidade (Epicuro e os que veem o mundo como puro acaso). A Torá precisou afirmá-los para refutar essas opiniões corruptas — que destroem não só a religião, mas toda ação humana com sentido. O capítulo conclui o tratamento dos fundamentos das leis e prepara a investigação propriamente dita dos princípios da lei divina.
Os três fundamentos da lei divina — existência de D'us, Torá vinda do Céu, recompensa e castigo — são tais que, removido qualquer um, cai toda a religião. E Albo mostra que os próprios sábios os apontaram na Mishná do capítulo Chelek, ao enumerar precisamente esses três como aqueles cuja negação exclui o homem do mundo vindouro.
Os três fundamentos da lei divina — existência de D'us, Torá vinda do Céu, recompensa e castigo — são tais que, removido qualquer um, cai toda a religião. E Albo mostra que os próprios sábios os apontaram na Mishná do capítulo Chelek, ao enumerar precisamente esses três como aqueles cuja negação exclui o homem do mundo vindouro.
1 Os fundamentos da lei divina, em geral, são três: o primeiro, a existência de D'us; o segundo, a Torá vinda do Céu; e o terceiro, a recompensa e o castigo sachar va'onesh. E quanto a estes três, não há que duvidar de que são fundamentos necessários à lei divina enquanto é divina, porque, se imaginarmos a remoção de um deles, cairá a religião em geral; e isto é claro do seu assunto. Pois, se não crermos na existência de D'us, que ordena a religião, não há religião divina; e, ainda que creiamos na existência de D'us, se não há Torá vinda do Céu, não há religião divina; e, se não há recompensa e castigo — corporal neste mundo e da alma no mundo vindouro —, por que seria ordenada uma religião divina? Se for para consertar a ordenação e a condução dos homens e os seus assuntos, a fim de que se complete o estabelecimento da reunião política, eis que a lei convencional é suficiente para isto; mas, sem dúvida, parece que a existência da lei divina é para fazer os homens chegarem a uma perfeição a tal que a mão da convenção humana fica aquém de fazer chegar — e esta é a perfeição humana que pende da perfeição da alma, como virá. E por isso está claro que a recompensa e o castigo da alma são fundamento e raiz da Torá divina, sem dúvida; e a recompensa corporal que chega de D'us, bendito seja, neste mundo, ao justo, pela observância do mandamento, é uma prova disso; e por isso a recompensa e o castigo estão no conjunto dos fundamentos necessários à lei divina.
הַתְחָלוֹת הַדָּת הָאֱלֹהִית בִּכְלָל הֵן ג׳: הָא׳ מְצִיאוּת הַשֵּׁם, וְהַב׳ תּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם, וְהַג׳ שָׂכָר וָעֹנֶשׁ. וְאֵלּוּ הַג׳ אֵין לְסַפֵּק בָּהֶן שֶׁהֵן הַתְחָלוֹת הֶכְרֵחִיּוֹת, לְפִי שֶׁאִם נְשַׁעֵר סִלּוּק אֶחָד מֵהֶן תִּפֹּל הַדָּת בִּכְלָלָהּ. וְלָזֶה הוּא מְבֹאָר שֶׁהַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ הַנַּפְשִׁיִּי עִקָּר וְשֹׁרֶשׁ אֶל הַתּוֹרָה הָאֱלֹהִית.
2 E por serem estes três princípios universais da lei divina, é que os contaram os nossos mestres, de abençoada memória, no capítulo Chelek, na Mishná, e disseram que aquele que nega um deles não está no conjunto dos adeptos da religião, e por isso não tem parte no mundo vindouro. Disseram: "Todo Israel tem parte no mundo vindouro, como se disse 'e o teu povo, todos justos, para sempre herdarão a terra' (Isaías 60:21); e estes são os que não têm parte no mundo vindouro: o que diz que não há ressurreição dos mortos proveniente da Torá" — quer dizer, aquele que nega a recompensa e o castigo divino aludidos na ressurreição dos mortos, que é um ato divino, seja dirigido às almas, seja aos corpos, a fim de incluir todos os gêneros da recompensa. E é isto o que se acha pelos nossos mestres, de abençoada memória, ali: palavras pelas quais indicam que "ressurreição dos mortos" é ali um nome dito por generalidade e por particularidade — seja sobre a ressurreição dos mortos em particular, seja sobre o mundo das almas e o mundo vindouro e o dia do juízo em geral; e também ali explicaram o assunto do Messias, que é uma recompensa corporal, usado para aludir a todos os gêneros da recompensa.
וְלִהְיוֹת אֵלּוּ הַג׳ הֵם עִקָּרִים כּוֹלְלִים, הוּא שֶׁמָּנוּ אוֹתָם רַבּוֹתֵינוּ ז״ל בְּפֶרֶק חֵלֶק בַּמִּשְׁנָה. אָמְרוּ ״כָּל יִשְׂרָאֵל יֵשׁ לָהֶם חֵלֶק לָעוֹלָם הַבָּא... וְאֵלּוּ שֶׁאֵין לָהֶם חֵלֶק לָעוֹלָם הַבָּא: הָאוֹמֵר אֵין תְּחִיַּת הַמֵּתִים מִן הַתּוֹרָה״, כְּלוֹמַר שֶׁמַּכְחִישׁ הַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ הָאֱלֹהִי הַנִּרְמָז בִּתְחִיַּת הַמֵּתִים.
3 E depois disso contaram "o que diz que não há Torá vinda do Céu", que é o outro princípio; e depois disso contaram "o epicurista" apikoros. E conforme o que se acha pelos primeiros a respeito do nome "Epicuro", ele era um homem que pensava que o mundo caiu por acaso, e negava a existência de D'us que é o agente; e os que seguem a sua opinião chamam-se "epicuristas". Eis que contaram estes três princípios e disseram que aquele que os nega não tem parte no mundo vindouro, pois sai do conjunto dos adeptos da religião.
וְאַחַר כֵּן מָנוּ ״הָאוֹמֵר אֵין תּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם״, וְהוּא הָעִקָּר הָאַחֵר. וְאַחַר כֵּן מָנוּ ״הָאֶפִּיקוֹרוֹס״, וְהוּא אִישׁ שֶׁהָיָה חוֹשֵׁב שֶׁהָעוֹלָם נָפַל בְּמִקְרֶה וְהָיָה מַכְחִישׁ מְצִיאוּת הַשֵּׁם. הֲרֵי שֶׁמָּנוּ אֵלּוּ הַג׳ עִקָּרִים וְאָמְרוּ שֶׁהַכּוֹפֵר בָּהֶן אֵין לוֹ חֵלֶק לָעוֹלָם הַבָּא.
4 E, ainda que ali, no capítulo Chelek, se diga que o epicurista é o que despreza os discípulos dos sábios talmidei chachamim, na verdade disseram assim porque nem todo homem é capaz de saber a existência de D'us por si mesmo, mas só a conhecemos seja por via da tradição, seja por via da demonstração, da boca dos sábios; e o que despreza os discípulos dos sábios, que divulgam a existência de D'us a todos os homens, não deixou para si um caminho por que a conhecêssemos, e eis que ele é como que alguém que nega a existência de D'us — por isso se chama epicurista. E, visto que não contaram na Mishná de Chelek senão estes dentre os hereges que não têm parte no mundo vindouro, parece que estes três são os princípios universais de uma Torá divina, tais que é obrigado a crer neles todo o que se atribui a uma religião divina. E, ainda que tenham contado ali, na Guemará, outros que não têm parte no mundo vindouro, na verdade contaram-nos por se ramificarem destes três princípios — não por serem princípios por si mesmos.
וְאַף עַל פִּי שֶׁשָּׁם נֶאֱמַר כִּי אֶפִּיקוֹרוֹס הוּא הַמְבַזֶּה תַּלְמִידֵי חֲכָמִים, אָמְנָם אָמְרוּ כֵן לְפִי שֶׁאֵין כָּל אָדָם מַסְפִּיק לָדַעַת מְצִיאוּת הַשֵּׁם מֵעַצְמוֹ. וְאַף עַל פִּי שֶׁמָּנוּ שָׁם בַּגְּמָרָא אֲחֵרִים שֶׁאֵין לָהֶם חֵלֶק לָעוֹלָם הַבָּא, אָמְנָם מָנוּ אוֹתָם לִהְיוֹתָם מִסְתַּעֲפִים מִן הַג׳ עִקָּרִים הַלָּלוּ, לֹא שֶׁהֵם עִקָּרִים בִּפְנֵי עַצְמָם.
Albo prova a necessidade dos três princípios por um teste de remoção: se subtrairmos qualquer um deles, "cai toda a religião". Sem a existência de D'us não há quem ordene a lei; com D'us mas sem revelação não há lei divina; e sem recompensa e castigo a lei divina seria supérflua — a lei convencional já bastaria para organizar a sociedade. Logo, o que justifica a existência da Torá é precisamente conduzir o homem a uma perfeição da alma que nenhuma lei humana alcança.
Tendo estabelecido os três por razão filosófica, Albo busca a sua confirmação na tradição. A Mishná de Sanhedrin (capítulo Chelek) enumera exatamente três categorias de quem "não tem parte no mundo vindouro": quem nega a ressurreição (= recompensa e castigo), quem nega a Torá do Céu, e o epicurista (= quem nega a existência de D'us). Para Albo, não é coincidência — os sábios apontaram, sem desenvolvê-los, os mesmos três fundamentos que a sua análise isolou.
Uma sutileza notável encerra o capítulo: o Talmud define "epicurista" como quem despreza os sábios — o que parece distante da negação de D'us. Albo reconcilia: como a maioria dos homens só conhece a existência de D'us pela transmissão dos sábios, desprezá-los é cortar a própria via pela qual esse conhecimento chega — equivalendo, na prática, a negar a D'us. E ele esclarece o método da Mishná: ela lista apenas os três princípios-raiz; as demais heresias mencionadas na Guemará são ramos que deles derivam, não fundamentos autônomos.
A Torá de Moisés, sobre cuja divindade todos concordam, serve de modelo e prova de toda religião divina. E Albo demonstra que a parashá de Bereshit foi composta em três partes, cada uma codificando um dos três princípios-raiz — e que até o "façamos o homem" encerra a unidade de D'us e a sobrevivência individual da alma.
A Torá de Moisés, sobre cuja divindade todos concordam, serve de modelo e prova de toda religião divina. E Albo demonstra que a parashá de Bereshit foi composta em três partes, cada uma codificando um dos três princípios-raiz — e que até o "façamos o homem" encerra a unidade de D'us e a sobrevivência individual da alma.
1 E "esta é a Torá que Moisés pôs diante dos filhos de Israel" (Deuteronômio 4:44): visto que todos concordam sobre ela ser divina, cabe que a ponhamos como raiz e pedra de toque das religiões divinas, e que dela se tome prova sobre elas. E isto é assim porque, assim como a partir de um único indivíduo se toma prova sobre todos os indivíduos da espécie, pelo conhecimento das coisas que são essenciais e necessárias à sua existência e à permanência da sua existência, assim cabe que se tome prova a partir das coisas que vieram na Torá de Moisés como necessárias à sua existência e à permanência da sua existência, sobre as coisas que cabe haver numa Torá divina que deem a sua existência e mantenham a sua existência também.
2 E, visto que achamos que a Torá de Moisés fundou no seu princípio os três fundamentos que mencionamos — que são a existência de D'us, e a Torá vinda do Céu, e a recompensa e o castigo —, parece que são fundamentos necessários a uma Torá divina; e por isso os fundou na parashá de Bereshit, para aludir a que estes são fundamentos de uma Torá divina. E isto é assim porque, assim como em toda ciência se estabelecem no seu princípio as coisas e os fundamentos sobre os quais gira aquela ciência, e que são raízes para confirmar todas as coisas que nela vierem, assim se escreveram na parashá de Bereshit três assuntos distintos um do outro, e se explica em cada um deles um destes princípios, para indicar que estes são raízes e fundamentos de uma Torá divina, sobre os quais gira ela e todos os seus assuntos.
וְזֹאת הַתּוֹרָה אֲשֶׁר שָׂם מֹשֶׁה לִפְנֵי בְּנֵי יִשְׂרָאֵל, אַחַר שֶׁהַכֹּל מַסְכִּימִים עָלֶיהָ הֱיוֹתָהּ אֱלֹהִית, רָאוּי שֶׁנָּשִׂים אוֹתָהּ שֹׁרֶשׁ וּמִבְחָן לַדָּתוֹת הָאֱלֹהִיּוֹת.
וְאַחַר שֶׁאֲנַחְנוּ נִמְצָא שֶׁיִּסְּדָה תּוֹרַת מֹשֶׁה בִּתְחִלָּתָהּ שְׁלֹשָׁה הַהַתְחָלוֹת שֶׁזָּכַרְנוּ, יִסְּדָה אוֹתָם בְּפָרָשַׁת בְּרֵאשִׁית לִרְמֹז שֶׁאֵלּוּ הֵן הַתְחָלוֹת לַתּוֹרָה הָאֱלֹהִית, וְנִכְתְּבוּ בָּהּ שְׁלֹשָׁה עִנְיָנִים חֲלוּקִים זֶה מִזֶּה.
3 Pois a passagem de "No princípio" até "estas são as gerações dos céus" (Gênesis 2:4) é um só assunto, escrito para indicar o primeiro princípio, que é a existência de D'us, bendito seja, o agente por vontade de todos os existentes — a fim de negar a opinião da casta dos epicuristas, que pensavam que o mundo caiu por acaso e que não tem uma causa eficiente. E sobre este princípio gira toda a narrativa que vai de "No princípio" até "estas são as gerações dos céus"; pois na ordem em que se acha escrito na parashá de Bereshit, quanto aos seres criados — partindo do grau da sua existência um sobre o outro, e a sua ordenação, e a existência das formas, como o vegetal e o vivente e o falante, em tempos diferentes —, tudo isto é do que indica a existência de um agente por vontade, como se explicará no Maamar II, com a ajuda do Nome.
כִּי מִ״בְּרֵאשִׁית״ עַד ״אֵלֶּה תוֹלְדוֹת הַשָּׁמַיִם״ הוּא עִנְיָן אֶחָד, נִכְתַּב לְהוֹרוֹת עַל הָעִקָּר הָרִאשׁוֹן שֶׁהוּא מְצִיאוּת הַשֵּׁם הַפּוֹעֵל בְּרָצוֹן, כְּדֵי לְהַכְחִישׁ סְבָרַת כַּת אֶפִּיקוֹרוֹס שֶׁהָיוּ חוֹשְׁבִים שֶׁהָעוֹלָם נָפַל בְּמִקְרֶה. כִּי הַסֵּדֶר שֶׁנִּמְצָא כָּתוּב לַנִּבְרָאִים מוֹרֶה עַל מְצִיאוּת פּוֹעֵל בְּרָצוֹן.
4 E explicou nesta parte que o mais escolhido de todos os existentes inferiores é a espécie do homem, e que ele é, sozinho, o fundamento da intenção da formação no mundo inferior; pois só ele segue o curso da forma e da perfeição para as demais formas, como o vegetal e o vivente. Assim como os ofícios que precedem a algum ofício são como preparações e matéria para ele, e ele é como forma para eles, assim todas as formas que precedem a forma humana são como preparações e matéria para ela, e ela é como forma para elas.
5 E por isso se atrasou a sua formação e esta se atribuiu ao Nome mais que toda a formação dos demais seres vivos, para aludir a que a finalidade da intenção do agente na formação das formas precedentes — do vegetal e do vivente — era apenas a existência da forma humana; pois só o homem, dentre os demais existentes inferiores, reconhece a existência do agente; e, quando se achou o homem, completou-se a formação, e então se disse "e foram concluídos os céus e a terra e todo o seu exército" (Gênesis 2:1), pois a finalidade em toda coisa é o fim da obra; e por isso o homem foi o fim das formações, assim como o ofício arquitetônico é o fim de todos os ofícios, e todos o precedem e existem por causa dele. E toda esta parte não se escreveu senão para indicar o primeiro princípio, que é a existência do agente de todos os existentes apenas; e por isso não se mencionou em toda esta parte — que vai de "No princípio" até "estas são as gerações dos céus" — senão o nome Elohim apenas, quer dizer, o Senhor do poder de fazer existir tudo, para indicar que a intenção em tudo o que se mencionou nesta parte não era senão indicar a existência do agente de todos os existentes apenas, que é o primeiro princípio.
וּבֵאֵר שֶׁמִּבְחַר כָּל הַנִּמְצָאוֹת הַשְּׁפָלוֹת הוּא מִין הָאָדָם, וְשֶׁהוּא לְבַדּוֹ עִקַּר כַּוָּנַת הַיְצִירָה. וְלָזֶה נִתְאַחֲרָה יְצִירָתוֹ, כִּי הָאָדָם לְבַדּוֹ מַכִּיר מְצִיאוּת הַפּוֹעֵל. וְכָל זֶה הַחֵלֶק לֹא נִכְתַּב אֶלָּא לְהוֹרוֹת עַל מְצִיאוּת הַפּוֹעֵל, וְלָזֶה לֹא נִזְכַּר בּוֹ אֶלָּא שֵׁם אֱלֹהִים בִּלְבַד.
6 E a passagem de "estas são as gerações dos céus" até "e o homem conheceu Eva, sua mulher" (Gênesis 4:1) é outro assunto, escrito para aludir ao segundo princípio, que é a existência da profecia e da Torá vinda do Céu; e por isso achas toda aquela narrativa girando sobre a Torá vinda do Céu. Pois o princípio da fala que D'us, bendito seja, falou com Adão foi "e ordenou o Senhor D'us ao homem, dizendo" etc. (Gênesis 2:16); e escreveu depois disto a razão por que se ordenou ao homem uma ordem divina mais que a todos os seres vivos, e disse "e formou o Senhor D'us da terra todo animal do campo e toda ave dos céus, e os trouxe ao homem para ver como os chamaria" etc. (Gênesis 2:19) — como que vindo a explicar que, por ser o homem inteligente e por conhecer as definições dos seres vivos mais que todos eles, estavam todos os existentes inferiores subjugados a ele e todos existiam por causa do homem; e a finalidade do homem é guardar o mandamento do seu Criador, e sobre isto foi posto no mundo, aludido no Jardim do Éden, a fim de que comesse da árvore da vida que está no meio do jardim, que alude à Torá — sobre a qual se disse "é árvore de vida para os que dela se seguram" (Provérbios 3:18) —; e, quando transgredisse o mandamento do seu Criador, seria expulso do Jardim do Éden.
7 E por causa disto se escreveu toda aquela narrativa que aconteceu ao homem com a serpente e Eva, a fim de que lhe fosse uma alusão ao que lhe aconteceria no mundo: que a serpente — chamada na língua dos nossos mestres, de abençoada memória, "Samael" — é a inclinação ao mal yetzer hara que perturba o homem, por meio da mulher, de alcançar a sua perfeição, e é ela a causa de ele ser expulso do Jardim do Éden. E por isso se escreveu em toda esta narrativa "Senhor D'us" Hashem Elohim, para indicar que não é suficiente para a obtenção da perfeição humana a crença na existência do agente apenas — aquilo que se obtém do lado da apreensão do agente que faz existir as coisas naturais, que é o aludido na palavra "Elohim" —, mas se precisa da crença na profecia e na Torá vinda do Céu, pois esta apreensão está acima da apreensão do agente que faz existir as coisas naturais; e deste lado, a saber que a ordem veio da parte do "Senhor D'us", é possível que o homem coma da árvore da vida e viva para sempre — não do lado do conhecimento e do reconhecimento primeiro, que é o conhecimento da existência do agente apenas, mas do lado da apreensão da profecia e da Torá divina, que ordena fazer as coisas desejadas junto ao Nome, bendito seja, ainda que o silogismo não as conclua — pois isto é um assunto acima das coisas naturais.
וּמֵ״אֵלֶּה תוֹלְדוֹת הַשָּׁמַיִם״ עַד ״וְהָאָדָם יָדַע אֶת חַוָּה״ הוּא עִנְיָן אַחֵר, נִכְתַּב לִרְמֹז עַל הָעִקָּר הַשֵּׁנִי שֶׁהוּא מְצִיאוּת הַנְּבוּאָה וְתוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם. וְהַגָּן רוֹמֵז אֶל הָעוֹלָם, וְעֵץ הַחַיִּים רוֹמֵז אֶל הַתּוֹרָה ״עֵץ חַיִּים הִיא לַמַּחֲזִיקִים בָּהּ״. וְלָזֶה נִכְתַּב בְּכָל הַסִּפּוּר הַזֶּה ה׳ אֱלֹהִים, לְהוֹרוֹת כִּי אֵין דַּי בְּהַאֲמָנַת מְצִיאוּת הַפּוֹעֵל בִּלְבַד, אֲבָל צָרִיךְ הַאֲמָנַת הַנְּבוּאָה וְתוֹרָה מִן הַשָּׁמָיִם.
8 E a fim de que não se imagine nisto dualidade alguma, D'us nos livre, disse na doação da Torá "e falou Elohim todas estas palavras, dizendo" (Êxodo 20:1), e começou com "eu sou o Senhor, teu D'us" (Êxodo 20:2), para explicar que o doador da Torá, que é o Nome glorioso, é ele mesmo o agente de todos os existentes, chamado "Elohim" na parashá de Bereshit. E por isso explicou Moisés no Mishné Torá Deuteronômio a respeito destas palavras "estas palavras falou o Senhor a toda a vossa assembleia" (Deuteronômio 5:19), para indicar que, ainda que se diga na doação da Torá "e falou Elohim todas estas palavras", o Nome glorioso, bendito seja, era o que falava. E por isso se escreveu em toda esta narrativa, que vai de "estas são as gerações dos céus" até "e o homem conheceu Eva, sua mulher", "Senhor D'us", para indicar este princípio, que é a existência da profecia e da Torá vinda do Céu; e todos os castigos que nela se mencionaram eram universais à espécie do homem, não particulares a Adão e Eva apenas.
וּכְדֵי שֶׁלֹּא יְדֻמֶּה בָּזֶה שׁוּם שְׁנִיּוּת חָלִילָה, אָמַר בְּמַתַּן תּוֹרָה ״וַיְדַבֵּר אֱלֹהִים אֵת כָּל הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה״, וּפָתַח בְּ״אָנֹכִי ה׳ אֱלֹהֶיךָ״, לְבָאֵר שֶׁנּוֹתֵן הַתּוֹרָה הוּא בְּעַצְמוֹ הַפּוֹעֵל לְכָל הַנִּמְצָאִים הַנִּקְרָא אֱלֹהִים בְּפָרָשַׁת בְּרֵאשִׁית.
9 E a passagem de "e o homem conheceu Eva, sua mulher" até "este é o livro das gerações de Adão" (Gênesis 5:1) é outro assunto, escrito para aludir ao terceiro princípio, que é a existência da recompensa e do castigo particular e da providência nos particulares que se renovam no mundo, dentre contendas e palavras de querela entre um homem e o seu companheiro — como aconteceu a Caim e Abel. E este é outro gênero de castigo diferente do castigo mencionado nas parashiyot precedentes, as de Adão e Eva; pois ali foi castigado Adão por transgredir o mandamento de D'us, para aludir ao conjunto da espécie — pois o fundamento do castigo é por transgredir o mandamento do Nome —, e não se escreveu do lado do assunto particular em si que aconteceu a Adão e Eva, e por isso todos os castigos mencionados em Adão e Eva eram universais a toda a espécie.
10 Mas nesta parashá Caim explicou a providência em assuntos particulares de cada homem: e é como D'us velou sobre Caim para castigá-lo por não ser a sua intenção desejável na oferta do sacrifício, e pela violência que fez a Abel — não só do lado de transgredir o mandamento de D'us. E isto para indicar que o Nome, bendito seja, vela sobre os que fazem o mal, para castigá-los pelo seu mau pensamento e pela violência que há nas suas mãos; e, ainda que lhes prolongue a paciência, como prolongou a Caim, ao fim eis que se vinga deles, como se vingou de Caim — na medida com que Caim mediu, Ele mediu-lhe: pois, assim como Caim matou Abel e causou a interrupção de toda a sua descendência, assim foi morto Caim e se apagaram todas as suas descendências no dilúvio, e não restou deles sobrevivente nem escapado, ainda que houvesse nas descendências de Caim homens grandes, sábios e entendidos, que inventaram os ofícios e as ciências, como está escrito "pai de todo o que forja o cobre e o ferro" (Gênesis 4:22), "pai do que habita em tenda e tem gado" (Gênesis 4:20), "pai de todo o que maneja a harpa e a flauta" (Gênesis 4:21); e o Nome não lhes mostrou parcialidade.
11 E esta foi a intenção de toda esta terceira parte; e por isso se escreveu nela o nome do Senhor apenas, para aludir a que a providência particular — que está em todas as coisas feitas no mundo, a fim de dar a cada homem conforme os seus caminhos e conforme o fruto das suas obras — não vem do lado da existência do agente que faz existir as coisas naturais, nem do lado da Torá vinda do Céu, mas do lado de que faz parte da perfeição do Nome e da sua excelência velar sobre os humildes e os privados de poder, a fim de salvá-los da mão dos seus saqueadores; disse o profeta, aludindo a isto: "no alto e santo habito, e com o contrito e humilde de espírito" (Isaías 57:15), quer dizer, que do lado da sua excelência e da sua elevação é que vela sobre os humildes, para mostrar a magnitude do seu poder ao vivificar o coração dos contritos.
וּמִ״וְהָאָדָם יָדַע״ עַד ״זֶה סֵפֶר תּוֹלְדוֹת אָדָם״ הוּא עִנְיָן אַחֵר, נִכְתַּב לִרְמֹז עַל הָעִקָּר הַשְּׁלִישִׁי שֶׁהוּא מְצִיאוּת הַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ הַפְּרָטִי וְהַהַשְׁגָּחָה בַּפְּרָטִים. וּבֵאֵר בְּקַיִן וְהֶבֶל אֵיךְ הִשְׁגִּיחַ הַשֵּׁם בְּקַיִן לְהַעֲנִישׁוֹ, וְנִפְרַע מִמֶּנּוּ בַּמִּדָּה שֶׁמָּדַד. וְלָזֶה נִכְתַּב בּוֹ שֵׁם ה׳ בִּלְבַד, לִרְמֹז כִּי הַהַשְׁגָּחָה הַפְּרָטִית הִיא מִצַּד מַעֲלָתוֹ לְהַשְׁגִּיחַ בַּשְּׁפָלִים.
12 E explicou nesta narrativa de Caim e Abel que a sua providência é na medida da misericórdia midat rachamim, a fim de abrir aos ímpios os caminhos do arrependimento — como abriu a Caim, a quem disse "porventura, se fizeres o bem, não haverá elevação?" etc. (Gênesis 4:7); e isto não é da medida do juízo estrito; e por isso não se mencionou nesta narrativa o nome "Elohim" de modo algum.
וּבֵאֵר בַּסִּפּוּר הַזֶּה שֶׁהַשְׁגָּחָתוֹ הִיא בְּמִדַּת רַחֲמִים לִפְתֹּחַ לָרְשָׁעִים דַּרְכֵי הַתְּשׁוּבָה, כְּמוֹ שֶׁפָּתַח לְקַיִן ״הֲלֹא אִם תֵּיטִיב שְׂאֵת״, וְאֵין זֶה מִמִּדַּת הַדִּין, וְלָזֶה לֹא נִזְכַּר בּוֹ שֵׁם אֱלֹהִים כְּלָל.
13 E, depois que terminou de explicar estes três princípios que são fundamentos da religião divina, voltou a começar a narrativa e a ordem das gerações como no princípio, e disse "este é o livro das gerações de Adão" — como que dizendo que daqui é o princípio do livro, pois tudo o que escreveu até aqui não é senão a ordenação dos princípios do livro, que não é parte do livro.
14 Mas, assim como todo autor de um livro diz no seu princípio "este livro fala de tal e tal", assim aqui diz que este livro, que é o livro de Bereshit, fala das gerações de Adão e de como o mundo se estendeu a partir dele; e vem a explicar que o que se escreveu até aqui não é parte do livro, mas princípios do livro — assim como em toda ciência se estabelecem os seus princípios no seu começo. E a partir disto, "o livro das gerações de Adão" é o princípio do livro da Torá, e o livro de Bereshit é a narrativa das gerações de Adão; e começou e disse "no dia em que D'us criou Adão, à semelhança de D'us o fez; macho e fêmea os criou" etc. (Gênesis 5:1-2). Ainda que, para a narrativa das gerações, fosse suficiente dizer "no dia em que D'us criou Adão, macho e fêmea os criou", na verdade estendeu-se a explicar "no dia em que D'us criou Adão, à semelhança de D'us o fez", para aludir a um grande assunto que é necessário à existência da Torá: que a recompensa e o castigo particular, que dissemos ser um dos princípios da Torá, na verdade é possível que chegue ao homem do lado da alma intelectiva nefesh hamaskelet que há nele, que é "à semelhança de D'us" — pois deste lado é possível que chegue ao homem a permanência individual kiyum ishi, e deste lado é cabido que receba castigo e recompensa particular, não do lado da permanência da espécie kiyum mini, que é comum a ele e aos demais seres vivos. E por isso escreveu neste versículo, que é o princípio da Torá, as duas permanências que há no homem: pois disse "à semelhança de D'us o fez", para aludir a que ele tem uma permanência individual como os seres superiores, do lado de ser "à semelhança de D'us", quer dizer, os anjos, que são permanentes no indivíduo; e disse "macho e fêmea os criou", para aludir à permanência da espécie que há nele, comum aos seres inferiores.
וְאַחַר שֶׁסִּיֵּם לְבָאֵר אֵלּוּ הַשְּׁלֹשָׁה עִקָּרִים, חָזַר לְהַתְחִיל הַסִּפּוּר ״זֶה סֵפֶר תּוֹלְדוֹת אָדָם״, כְּאִלּוּ אָמַר שֶׁמִּכָּאן הוּא הַתְחָלַת הַסֵּפֶר. וְאָמַר ״בְּיוֹם בְּרֹא אֱלֹהִים אָדָם בִּדְמוּת אֱלֹהִים עָשָׂה אוֹתוֹ״, לִרְמֹז שֶׁהַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ הַפְּרָטִי אֶפְשָׁר שֶׁיַּגִּיעַ לָאָדָם מִצַּד הַנֶּפֶשׁ הַמַּשְׂכֶּלֶת שֶׁבּוֹ שֶׁהִיא בִּדְמוּת אֱלֹהִים, וּמִזֶּה הַצַּד יֵשׁ לוֹ קִיּוּם אִישִׁי. וְאָמַר ״זָכָר וּנְקֵבָה בְּרָאָם״ לִרְמֹז עַל הַקִּיּוּם הַמִּינִיִּי.
15 E a isto aludiram os nossos mestres, de abençoada memória, no Bereshit Rabbá, ao dizerem sobre o versículo "façamos o homem à nossa imagem" etc. (Gênesis 1:26): "Com quem deliberou? Disse Rabi Yehoshua ben Levi: com a obra dos céus e da terra deliberou." E a sua explicação: que, porque até o sexto dia, antes de o homem ser criado, havia no mundo duas formações diferentes — os seres superiores, que são permanentes no indivíduo, e os inferiores, que são permanentes na espécie e não no indivíduo —, deliberou o Santo, bendito seja, com os seres superiores e os inferiores, e disse "façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança", quer dizer, que se conjuguem nele as duas potências juntas: permanência no indivíduo e permanência na espécie — permanência no indivíduo como os superiores, do lado da potência intelectiva que há nele, e permanência na espécie como os inferiores, do lado da potência material que há nele. E por isso disse "e criou D'us o homem à sua imagem; à imagem de D'us o criou" (Gênesis 1:27), em linguagem singular, para aludir à permanência individual que lhe deu além dos demais seres vivos; e depois disse "macho e fêmea os criou", em linguagem plural, para aludir à permanência da espécie, que vem do lado do macho e da fêmea juntos.
וְאֶל זֶה רָמְזוּ רַבּוֹתֵינוּ ז״ל בִּבְרֵאשִׁית רַבָּה, ״נַעֲשֶׂה אָדָם בְּמִי נִמְלַךְ, אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי בִּמְלֶאכֶת שָׁמַיִם וָאָרֶץ נִמְלַךְ״. כְּלוֹמַר שֶׁיִּתְחַבְּרוּ בּוֹ שְׁתֵּי הַכֹּחוֹת: קִיּוּם בָּאִישׁ כָּעֶלְיוֹנִים מִצַּד הַכֹּחַ הַשִּׂכְלִי, וְקִיּוּם בַּמִּין כַּתַּחְתּוֹנִים מִצַּד הַכֹּחַ הַחָמְרִי.
16 Exceto que há que objetar sobre isto a partir do que se acha ali no Bereshit Rabbá: "Na hora em que o Santo, bendito seja, disse a Moisés 'façamos o homem', disse diante dele: 'Senhor do mundo, por que dás pretexto pitchon peh aos hereges minim para errar?' Disse-lhe o Santo, bendito seja: 'Escreve, e o que quiser errar, erre'"; até aqui. E está claro que a coisa cuja existência é boa cabe que exista, e a coisa cuja existência é má não cabe que exista, e aquilo cuja existência é mista de bem e mal — se o bem é o que predomina, cabe que exista, e, se o mal é o que predomina, não cabe que exista. E esta expressão que disseram, a saber que o Santo, bendito seja, disse a Moisés "escreve, e o que quiser errar, erre", parece dela tratar-se de quem quer suportar um dano pequeno por causa do proveito grande que chega daquela expressão. E quem me dera saber qual é o bem grande que chega da expressão "façamos o homem": se for para ensinar ao grande que tome conselho do pequeno — assim como ele, bendito seja, deliberou com a obra dos céus e da terra, que são as suas criaturas, ainda que não o necessitasse —, este proveito não é tão grande a ponto de suportar por ele o dano que chega de dar pretexto aos hereges para errar. E, ainda que digamos que o proveito que chega disto é o que dissemos em nome de Rabi Yehoshua ben Levi — a fim de que saibamos que o homem tem nele uma potência intelectiva como os superiores e uma potência material como os existentes inferiores, e que esta potência intelectiva lhe dá permanência no indivíduo, quer dizer, sobrevivência da alma humana particular, e isto é uma coisa necessária à Torá, como dissemos —, eis que isto, ainda que sem dúvida seja um proveito grande pelo qual cabe suportar o dano do erro dos hereges, ainda cabe perguntar: qual é a necessidade que leva a escrever "façamos" em linguagem plural? Caberia dizer assim: "e disse D'us aos superiores e aos inferiores: farei o homem à vossa imagem", e chegariam disto os proveitos mencionados, e não haveria lugar para os hereges errarem.
אֶלָּא שֶׁיֵּשׁ לְהַקְשׁוֹת מִמַּה שֶּׁנִּמְצָא בִּבְרֵאשִׁית רַבָּה, שֶׁאָמַר מֹשֶׁה ״רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם מִפְּנֵי מָה אַתָּה נוֹתֵן פִּתְחוֹן פֶּה לַמִּינִים״, אָמַר לוֹ ״כְּתֹב וְהָרוֹצֶה לִטְעוֹת יִטְעֶה״. וְיֵשׁ לִשְׁאֹל מַה הַהֶכְרֵחַ לִכְתֹּב ״נַעֲשֶׂה״ בִּלְשׁוֹן רַבִּים, הָיָה לוֹ לוֹמַר ״אֶעֱשֶׂה אָדָם״.
17 E o que me parece nisto é que, embora este proveito chegasse também da expressão "farei o homem", escreveu "façamos" a fim de que se compreendesse dela também outro assunto, mais profundo e necessário que se escrevesse. E é que, porque a existência dos seres superiores, que são permanentes no indivíduo, indica serem eles existentes provenientes de um existente que tem força e poder de fazer subsistir os indivíduos — assim como estes são permanentes sempre no indivíduo —, e a existência dos inferiores indica que eles são existentes provenientes de um existente que tem força para guardar as espécies apenas e não os indivíduos, e isto é do que leva a errar e a pensar que há duas autoridades shtei reshuyot — como pensou Elisha Acher, conforme se menciona no Tratado Chaguigá —, por isso disse "façamos o homem à nossa imagem", como se as duas potências que fizeram existir os existentes diferentes — que são os superiores e os inferiores — dissessem "façamos o homem"; quer dizer, que concordam em fazer uma só formação, que é o homem, no qual se unam as duas potências, a potência universal que dá permanência na espécie e a potência particular que dá permanência no indivíduo. E a partir deste único existente se compreende que todos os existentes, superiores e inferiores, todos são influenciados mushpaim a partir de um único existente, que é o Senhor de todas as potências. E por isso disse "e disse Elohim: façamos o homem", quer dizer, Elohim, que é o Senhor de todas as potências — a universal e a particular —, concordou em ambas a fazer o homem, no qual se conjuguem os dois assuntos: a permanência universal e a permanência individual — a universal do lado da matéria e a individual do lado da alma; e isto indica um único existente em que todas as potências se unem com uma unidade absoluta, e que o agente das coisas permanentes no indivíduo e das permanentes na espécie é um só.
וּמַה שֶּׁנִּרְאֶה לִי הוּא, שֶׁכָּתַב ״נַעֲשֶׂה״ כְּדֵי שֶׁיּוּבַן מִמֶּנּוּ עִנְיָן עָמֹק, כִּי מְצִיאוּת הָעֶלְיוֹנִים הַקַּיָּמִים בָּאִישׁ וּמְצִיאוּת הַתַּחְתּוֹנִים הַקַּיָּמִים בַּמִּין מֵבִיא לִטְעוֹת שֶׁהֵם שְׁתֵּי רְשֻׁיּוֹת, כְּמוֹ שֶׁחָשַׁב אֱלִישָׁע אַחֵר. לָכֵן אָמַר ״נַעֲשֶׂה אָדָם״ — שֶׁהַכֹּל מֻשְׁפָּעִים מִנִּמְצָא אֶחָד שֶׁהוּא בַּעַל הַכֹּחוֹת כֻּלָּם.
18 E compreende-se disto também que o conhecimento do Nome abrange as coisas individuais e as coisas universais. E para indicar isto achas que, quando o Santo, bendito seja, se revela aos justos, menciona o seu nome duas vezes: "Abraão, Abraão" (Gênesis 22:11), "Jacó, Jacó" (Gênesis 46:2), "Moisés, Moisés" (Êxodo 3:4), "Samuel, Samuel" (I Samuel 3:10), para dizer que ele conhece o particular do lado da particularidade que há nele. E assim disse o Nome aos filhos de Noé "o que derrama o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado, pois à imagem de D'us fez Ele o homem" (Gênesis 9:6), para aludir a que o conhecimento particular está colado ao homem. Pois, se não houvesse nele senão um conhecimento universal, como há nos demais seres vivos, destinado a guardar a espécie apenas, que razão haveria para que o assassino fosse morto "porque à imagem de D'us fez Ele o homem"? Acaso quem mata um único homem mata toda a espécie? Mas diz que, porque o homem foi feito à imagem de D'us, eis que ele é permanente no indivíduo, e quem o mata é cabido de castigo, visto que o conhecimento divino particular está colado a ele do lado da potência intelectiva que há nele — como os seres superiores, que são permanentes no indivíduo e aos quais o conhecimento particular está colado do lado da potência intelectiva que há neles; e por isso o homem é cabido da recompensa e do castigo particular destinado na Torá.
וְיוּבַן מִזֶּה שֶׁיְּדִיעַת הַשֵּׁם מַקֶּפֶת בַּדְּבָרִים הָאִישִׁיִּים וּבַכְּלָלִיִּים. וּלְהוֹרוֹת עַל זֶה, כְּשֶׁהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא נִגְלֶה עַל הַצַּדִּיקִים מַזְכִּיר שְׁמָם שְׁתֵּי פְעָמִים, ״אַבְרָהָם אַבְרָהָם״, לוֹמַר שֶׁהוּא יוֹדֵעַ אֶת הַפְּרָטִי מִצַּד הַפְּרָטִיּוּת שֶׁבּוֹ.
19 E por serem estas duas coisas necessárias à existência da Torá — a primeira do lado do Nome agente, para indicar que não há ali duas autoridades, como diziam os hereges, a saber que o D'us dos céus não é o D'us da terra, mas tudo é um, pois esta é a fé da unidade yichud que Abraão divulgava no mundo, como disse "e far-te-ei jurar pelo Senhor, D'us dos céus e D'us da terra" (Gênesis 24:3); e a segunda do lado do homem, para indicar que o conhecimento do Nome, o universal e o particular, se conjugaram juntos na formação do homem, e por isso ele será cabido da recompensa e do castigo, do lado de que o Nome o conhece com um conhecimento particular, do lado de ser "à imagem de D'us" — e é isto que Abraão divulgava também, dizendo "o Senhor, D'us dos céus, que me tomou da casa de meu pai e da terra do meu nascimento" etc. (Gênesis 24:7), quer dizer, que, apesar de ser o D'us dos céus, conheceu-me com um conhecimento particular e falou comigo e jurou a mim — e por causa disto escreveu "façamos o homem". E disseram os nossos mestres, de abençoada memória, que o Santo, bendito seja, disse a Moisés "escreve, e o que quiser errar, erre" — quer dizer, que o proveito que decorre desta expressão é grande e necessário à Torá, para indicar que o agente dos particulares superiores e o que os conhece é ele mesmo o agente dos universais inferiores e o que os conhece, e que não há ali duas autoridades nem dois conhecimentos diferentes, mas que com um único conhecimento conhece tudo.
20 E a isto aludiu Rabi Ami, que disse no Bereshit Rabbá: "'Façamos o homem' — com quem deliberou? Disse Rabi Ami: com o seu próprio saber bedaato deliberou" — quer dizer, que não deliberou com outro, D'us nos livre, mas com o seu conhecimento universal e particular deliberou a fim de fazer um único existente em que se explicasse que tudo é um só conhecimento; e isto se dá em que nele se unam os dois conhecimentos, o universal e o particular — e ele é o homem: pois, do lado de ser "à imagem de D'us" como os superiores, indica que o conhecimento particular está colado a ele, e, do lado de ser "macho e fêmea", indica que o conhecimento da espécie está colado a ele também; e isto indica a unidade absoluta, e indica que o homem é cabido de recompensa e castigo particular do lado de ser "à semelhança de D'us". E para aludir a isto é que se escreveu neste versículo, que é o princípio da Torá como dissemos, "no dia em que D'us criou Adão, à semelhança de D'us o fez".
וְהַכֹּל לְהוֹרוֹת עַל הַיִּחוּד הַגָּמוּר וְעַל שֶׁהָאָדָם רָאוּי לְשָׂכָר וְעֹנֶשׁ פְּרָטִי. וְאֶל זֶה רָמַז רַבִּי אַמִּי שֶׁאָמַר ״נַעֲשֶׂה אָדָם בְּמִי נִמְלַךְ, בְּדַעְתּוֹ נִמְלַךְ״, כְּלוֹמַר שֶׁבִּידִיעָתוֹ הַכְּלָלִית וְהַפְּרָטִית נִמְלַךְ לַעֲשׂוֹת נִמְצָא אֶחָד שֶׁיִּתְבָּאֵר בּוֹ שֶׁהַכֹּל יְדִיעָה אַחַת. ״בְּיוֹם בְּרֹא אֱלֹהִים אָדָם בִּדְמוּת אֱלֹהִים עָשָׂה אוֹתוֹ״.
Este é o capítulo mais ambicioso do Maamar I. Albo lê os primeiros capítulos do Gênesis não como simples narrativa, mas como um prólogo filosófico que estabelece os três princípios-raiz antes de o "livro" propriamente começar. A Torá de Moisés, sendo a religião divina por excelência, funciona como a "amostra" a partir da qual se conhecem os traços essenciais de toda religião divina.
A chave exegética é a alternância dos Nomes divinos. (1) De "No princípio" a Gn 2:4 só aparece Elohim — o poder criador: indica a existência de D'us contra os epicuristas do acaso, culminando no homem como ápice e finalidade da criação. (2) De Gn 2:4 a 4:1 aparece Hashem Elohim — o jardim, a árvore da vida (= a Torá), o mandamento: indica a Torá vinda do Céu, apreensão que está acima do mero conhecer o Criador da natureza. (3) De Gn 4:1 a 5:1 (Caim e Abel) só aparece Hashem — a providência particular, que julga cada indivíduo "na medida com que mediu", exercida com misericórdia (daí a ausência de Elohim, o atributo de juízo estrito).
Só em "este é o livro das gerações de Adão" (Gn 5:1) começa, segundo Albo, o livro propriamente dito — o que veio antes eram os "princípios da ciência". E o primeiro versículo já encerra a doutrina decisiva para a Torá: o homem foi feito "à semelhança de D'us" (permanência individual, como os anjos, pela alma intelectiva) e "macho e fêmea" (permanência da espécie, como os animais, pela matéria). É a alma intelectiva que torna o indivíduo digno de recompensa e castigo eternos.
A longa discussão final enfrenta o verso que os hereges exploravam para defender "duas autoridades" (o erro de Elisha Acher): o plural "façamos". Albo inverte o sentido — o plural não aponta para uma divisão, mas para a unificação: as duas ordens de existência (a dos seres permanentes no indivíduo e a dos permanentes na espécie) convergem no homem, provando que ambas emanam de um único Existente, Senhor de todas as potências, cujo conhecimento único abrange tanto o universal quanto o particular. Por isso D'us chama os justos pelo nome em dobro ("Abraão, Abraão") — sinal de que conhece o indivíduo na sua particularidade. O plural que parecia dar "pretexto aos hereges" é, lido a fundo, a prova mais forte da unidade absoluta de D'us.
A crença na criação a partir do nada é obrigatória a todo adepto da religião divina — mas não é um princípio-raiz sem o qual a Torá não se conceba. Albo distingue a eternidade no sentido de Aristóteles (que é heresia, pois destrói todos os milagres) da crença numa matéria primeira eterna (que não destrói os milagres) — e conclui que o Gênesis começa para indicar a existência do agente, não a criação ex nihilo.
A crença na criação a partir do nada é obrigatória a todo adepto da religião divina — mas não é um princípio-raiz sem o qual a Torá não se conceba. Albo distingue a eternidade no sentido de Aristóteles (que é heresia, pois destrói todos os milagres) da crença numa matéria primeira eterna (que não destrói os milagres) — e conclui que o Gênesis começa para indicar a existência do agente, não a criação ex nihilo.
1 A crença na criação a partir do nada chidush yesh me'ayin, ainda que seja uma crença que todo adepto de uma religião divina precisa crer — assim como o crente na Torá de Moisés é obrigado a crer que a terra abriu a sua boca e engoliu Coré e a sua congregação, por se terem dividido contra Moisés —, não é, contudo, um princípio dos princípios da Torá divina tal que não se conceba a existência de uma Torá divina sem ela. E a Torá não começou na parashá de Bereshit para indicar a criação a partir do nada e pô-la como princípio da Torá, como pensaram muitos dos sábios. Pois, ainda que o crente na eternidade do mundo do modo como a crê Aristóteles — esse não descreverá o Nome como tendo poder de prolongar a asa da mosca, nem de criar uma formiga de quatro patas apenas; e, com muito mais razão, o que crê nisto negará todos os milagres da Torá, pois não crerá que Ele, bendito seja, tem poder de converter a vara em serpente num piscar de olhos, e a água em sangue, e o pó em piolhos; e não só isto, mas até a existência de Moisés e do Messias lhe será forçoso negar, pois o indivíduo que não existe senão com a existência, anterior a ele, de indivíduos sem fim é impossível que exista jamais, já que o que é sem fim não se completa nunca — e nisto cairia a Torá em geral, sem dúvida —; contudo, quem crê que há uma matéria primeira eterna chomer rishon kadum da qual o mundo foi criado e renovado no tempo em que o Nome quis e como quis, esta opinião não nega os milagres da Torá e os seus prodígios; pois todos os milagres e maravilhas que vieram na Torá, feitos na mudança da natureza e do costume do mundo, não eram uma formação a partir do nada, mas a partir de algo yesh miyesh — como a conversão da vara em serpente, e como as águas terem adquirido, sem decurso de tempo, embora simples, a forma de sangue. Ainda que o elemento simples seja impossível que se converta em sangue — pois por isso as águas não nutririam o ser vivo —, mesmo assim o Nome, bendito seja, fez adquirir, pela mão de Moisés, seu profeta, a uma parte das águas a forma de fogo, e a outra parte a forma de ar, e a outra parte a forma de pó, e as misturou juntas, e elas se temperaram e se converteram em sangue com uma conversão essencial, sem decurso de tempo, e não só à vista dos olhos; pois, se fosse só à vista dos olhos e não na essência, não morreria o peixe nem o rio cheiraria mal. E assim todos os milagres da Torá e dos Profetas que foram nas essências das coisas não houve neles uma formação a partir do nada, mas a partir de algo; e com muito mais razão os que foram nos acidentes, como a conversão da mão de Moisés em leprosa como a neve.
אֱמוּנַת הַחִדּוּשׁ יֵשׁ מֵאַיִן, אַף עַל פִּי שֶׁהִיא אֱמוּנָה צָרִיךְ כָּל בַּעַל דָּת אֱלֹהִית לְהַאֲמִינָהּ, אֵינֶנָּה עִקָּר שֶׁלֹּא יְצֻיַּר מְצִיאוּת תּוֹרָה אֱלֹהִית זוּלָתָהּ. כִּי הַמַּאֲמִין בַּקַּדְמוּת עַל דֶּרֶךְ אֲרִיסְטוֹ יַכְחִישׁ כָּל נִסֵּי הַתּוֹרָה; אֲבָל מִי שֶׁיַּאֲמִין שֶׁיֵּשׁ חֹמֶר רִאשׁוֹן קַדְמוֹן שֶׁמִּמֶּנּוּ נִבְרָא הָעוֹלָם בְּעֵת שֶׁרָצָה הַשֵּׁם, לֹא יַכְחִישׁ נִסֵּי הַתּוֹרָה, כִּי כֻּלָּם הָיוּ יֵשׁ מִיֵּשׁ, לֹא יֵשׁ מֵאַיִן.
2 E por isso, ainda que quem crê na eternidade do modo como a crê Aristóteles seja herege contra a Torá e contra todos os seus milagres, eis que quem a crê deste outro modo não é herege contra a Torá e os seus prodígios, pois não há necessidade, para a crença na Torá e nos seus milagres, de crer numa criação ou formação a partir do nada. E por isso dissemos no capítulo anterior a este que o fundamento da primeira parte da parashá de Bereshit é indicar a existência do agente apenas, que é o primeiro princípio necessário à existência da Torá divina, tal que não se conceba a existência da Torá divina sem ele. Mas a crença na criação a partir do nada, ainda que seja uma crença que todo adepto da Torá precisa crer — como precisa crer que Moisés fendeu a rocha e jorraram águas, e fez vir as codornizes, e fez descer o maná —, contudo, não é um princípio dos princípios da Torá divina. E por isso o Rambam, de abençoada memória, não a contou entre os princípios da Torá; e, ainda que tenha escrito no Sefer HaMadá, capítulo 3 das Leis do Arrependimento, que cinco são os que se chamam hereges minim, e um deles é o que diz que Ele não é o único primeiro e Rocha de tudo — e está claro que quem diz que há uma matéria primeira eterna eis que é como quem diz que Ele não é o único primeiro, pois a matéria primeira seria primeira como ele, conforme as suas palavras —, mesmo assim, embora tenha chamado herege quem não crê na criação a partir do nada, não a contou entre os princípios, porque não é um princípio tal que não se conceba uma Torá divina sem ele. Será, então, que o motivo de a Torá ter começado na parashá de Bereshit é indicar a existência do agente, que é um princípio primeiro e necessário a uma Torá divina, como explicamos.
וְלָזֶה אֵין מֵהֶכְרֵחַ הַאֲמָנַת הַתּוֹרָה לְהַאֲמִין בְּרִיאָה יֵשׁ מֵאַיִן. וְלָזֶה לֹא מְנָאוֹ הָרַמְבַּ״ם עִם עִקְּרֵי הַתּוֹרָה, וְאַף עַל פִּי שֶׁכָּתַב בְּסֵפֶר הַמַּדָּע שֶׁהַמַּכְחִישׁ הַחִדּוּשׁ נִקְרָא מִין, לֹא מְנָאוֹ בָּעִקָּרִים, לְפִי שֶׁאֵינֶנּוּ עִקָּר שֶׁלֹּא תְצֻיַּר תּוֹרָה אֱלֹהִית זוּלָתוֹ. וְיִהְיֶה מַה שֶּׁהִתְחִילָה הַתּוֹרָה בִּ״בְרֵאשִׁית״ לְהוֹרוֹת עַל מְצִיאוּת הַפּוֹעֵל.
O capítulo resolve um problema que ele mesmo criara: se o primeiro bloco do Gênesis indica apenas "a existência do agente" (cap. 11), o que fazer da leitura tradicional de que Bereshit ensina a criação ex nihilo? Albo responde com ousadia: a criação a partir do nada é crença obrigatória, mas não é princípio-raiz. A Torá ainda seria concebível sem essa doutrina específica — logo o Gênesis começa para afirmar o Criador, não a modalidade da criação.
O coração do capítulo é uma distinção precisa entre duas teses muitas vezes confundidas. A eternidade aristotélica — o mundo flui necessariamente de D'us desde sempre — é heresia plena: ela nega o poder divino sobre a natureza, anula todos os milagres e até torna impossível a existência de Moisés ou do Messias (pois exigiriam uma série infinita já completada de indivíduos anteriores). Mas a tese de uma matéria primeira eterna, a partir da qual D'us formou o mundo quando e como quis, preserva o poder divino e os milagres — e portanto não é heresia contra a Torá.
Notável é a explicação "científica" que Albo dá dos milagres: todos eles, afirma, são transformações de "algo em algo" (yesh miyesh), não criações do nada. A água do Nilo virou sangue real — não ilusão óptica — porque D'us conferiu a partes dela as formas de fogo, ar e terra e as combinou numa mistura essencial e instantânea (por isso os peixes morreram de fato). Os milagres mudam as formas da matéria existente; não precisam da criação ex nihilo. Com isso, Albo conclui sua defesa de que Maimônides agiu corretamente ao não listar a criação entre os princípios — encerrando o tratamento dos fundamentos e abrindo caminho para os capítulos sobre os ramos.
Crer nos três princípios não basta: é preciso crer também nas raízes (shorashim) que deles derivam. Quem nega uma raiz é como quem nega o próprio princípio do qual ela se ramifica — pois a unidade e a incorporeidade pendem da existência de D'us, a profecia da Torá do Céu, e a providência da recompensa e do castigo.
Crer nos três princípios não basta: é preciso crer também nas raízes (shorashim) que deles derivam. Quem nega uma raiz é como quem nega o próprio princípio do qual ela se ramifica — pois a unidade e a incorporeidade pendem da existência de D'us, a profecia da Torá do Céu, e a providência da recompensa e do castigo.
1 Não é que toda religião que sustenta estes três princípios que mencionamos — que são a existência de D'us, e a recompensa e o castigo, e a Torá vinda do Céu, que são princípios universais à religião divina, como dissemos — seja divina em todo caso, de modo que aquele que crê nela se chame crente numa Torá divina e tenha parte no mundo vindouro. Pois não é assim a coisa; antes o fundamento do assunto é que estes três princípios são princípios universais a uma religião divina, tais que todo o que nega um deles sai do conjunto dos adeptos da religião divina e não tem parte no mundo vindouro, por não confessar uma Torá divina como cabe; mas o que os confessa ainda não tem parte no mundo vindouro até que confesse a eles e às raízes que deles pendem e que deles se ramificam; e todo o que nega uma das raízes é como quem nega o princípio do qual aquela raiz se ramifica.
אֵין כָּל דָּת שֶׁמַּחֲזֶקֶת בִּשְׁלֹשֶׁת הָעִקָּרִים הַלָּלוּ הִיא אֱלֹהִית עַל כָּל פָּנִים, אֲבָל עִקַּר הָעִנְיָן הוּא כִּי שְׁלֹשֶׁת הָעִקָּרִים הֵם עִקָּרִים כּוֹלְלִים, שֶׁכָּל הַכּוֹפֵר בְּאֶחָד מֵהֶן יוֹצֵא מִכְּלַל בַּעֲלֵי הַדָּת. וְאוּלָם הַמּוֹדֶה בָּהֶם, עֲדַיִן אֵין לוֹ חֵלֶק לָעוֹלָם הַבָּא עַד שֶׁיּוֹדֶה בָּהֶם וּבַשָּׁרָשִׁים הַנִּתְלִים בָּהֶם, וְכָל הַכּוֹפֵר בְּאֶחָד מִן הַשָּׁרָשִׁים כְּאִלּוּ כּוֹפֵר בָּעִקָּר.
2 Pois o que crê no primeiro princípio, que é a existência de D'us, precisa também crer que ele é um e que não é corpo nem força num corpo, e semelhantes a estes, que são raízes que saem deste princípio ou que dele pendem. E assim quem crê na Torá vinda do Céu, que é o segundo princípio, precisa crer na existência da profecia e na missão do enviado. E o que crê no terceiro princípio, que é a recompensa e o castigo, precisa crer no conhecimento do Nome e na sua providência, e que há ali recompensa e castigo, seja da alma, seja corporal. E todo o que negar uma destas raízes que se ramificam dos princípios ou que deles pendem, é como quem nega o próprio princípio.
כִּי הַמַּאֲמִין בָּעִקָּר הָרִאשׁוֹן שֶׁהוּא מְצִיאוּת הַשֵּׁם צָרִיךְ שֶׁיַּאֲמִין שֶׁהוּא אֶחָד וְשֶׁאֵינוֹ גּוּף. וְכֵן מִי שֶׁיַּאֲמִין תּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם צָרִיךְ שֶׁיַּאֲמִין מְצִיאוּת הַנְּבוּאָה וּשְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ. וְהַמַּאֲמִין בַּשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ צָרִיךְ שֶׁיַּאֲמִין בִּידִיעַת ה׳ וְהַשְׁגָּחָתוֹ.
3 Pois, assim como quem nega a existência da profecia — que é uma raiz da Torá vinda do Céu — ou a missão do enviado por cuja mão ela foi dada, eis que é como quem nega o princípio da Torá vinda do Céu, assim quem crê que o Nome, bendito seja, é corpo, eis que é como quem nega o princípio que é a existência de D'us. Porque a sua crença na existência de D'us consiste em crer que há ali um existente necessário mechuyav hametziut, que faz existir todos os existentes, e que todos são influenciados a partir dele e precisam dele, e ele não precisa de coisa alguma fora dele; e, se o existente necessário fosse corpóreo, precisaria de outro, pois todo corpo é composto — como explicou o Rav, o Guia, na introdução 22 — e todo composto precisa de um compositor e de um agente que faça necessária a junção das suas partes; e não seria, então, existente necessário por si mesmo, mas por outro; e não se bastaria a si mesmo, mas precisaria de outro; e aquele outro, então, seria maior que ele e o seu agente; e não seria, então, existente necessário por si mesmo, mas por outro; e quem tem a sua existência dependente de outro é possível de existência efshari hametziut. E por isso é forçoso que quem diz que o Nome, bendito seja, é corpo ou força num corpo é como quem nega o princípio da existência de D'us — como se explicará isto com uma explicação completa no Maamar II, com a ajuda do Nome.
כִּי מִי שֶׁיַּחְשֹׁב שֶׁהַשֵּׁם גּוּף, כְּאִלּוּ כּוֹפֵר בְּעִקַּר מְצִיאוּת הַשֵּׁם, לְפִי שֶׁהַאֲמָנָתוֹ הִיא שֶׁיֵּשׁ נִמְצָא מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת מַמְצִיא כָּל הַנִּמְצָאִים. וְאִם הָיָה גֶּשֶׁם הָיָה מֻרְכָּב, וְכָל מֻרְכָּב צָרִיךְ אֶל מַרְכִּיב, וְלֹא יִהְיֶה אִם כֵּן מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת בְּעַצְמוֹ אֶלָּא בְּזוּלָתוֹ.
4 E assim quem nega a providência ou o conhecimento do Nome, ou quem diz que todas as coisas são por um decreto chamado em árabe al-qadā wa-l-qadar o fado e o destino, eis que é quem nega o princípio da recompensa e do castigo, ou quem atribui a D'us iniquidade e maldade, a saber que castiga o pecador sem haver violência nas suas mãos, visto que não estava em sua mão fazer o oposto do que fez — longe esteja de D'us a maldade, e do Todo-Poderoso a iniquidade (Jó 34:10). E assim, em todas as raízes que saem dos princípios, o que nega uma delas é como quem nega o princípio. E compreende isto muito bem, pois ele é o caminho da prova mivchan pelo qual cabe que se examinem todas as raízes que saem dos princípios com um exame verdadeiro no qual não há ignorância nem erro; e então o crente as confessará com uma confissão completa, e só então se chamará crente e confessante nos três princípios que mencionamos.
וְכֵן הַכּוֹפֵר בְּהַשְׁגָּחָה אוֹ בִּידִיעַת הַשֵּׁם, אוֹ שֶׁיֹּאמַר כִּי כָּל הַדְּבָרִים הֵם בִּגְזֵרָה, הִנֵּה הוּא כּוֹפֵר בְּעִקַּר הַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ, אוֹ מְיַחֵס לָאֵל עָוֶל, ״חָלִילָה לָאֵל מֵרֶשַׁע וְשַׁדַּי מֵעָוֶל״. וְהָבֵן זֶה מְאֹד, כִּי הוּא דֶּרֶךְ הַמִּבְחָן בְּמַה שֶּׁרָאוּי שֶׁיִּבָּחֲנוּ כָּל הַשָּׁרָשִׁים הַיּוֹצְאִים מִן הָעִקָּרִים.
Albo previne um mal-entendido: o seu esquema enxuto de "apenas três princípios" não significa que se possa crer vagamente neles ignorando tudo o mais. Cada um dos três princípios-raiz (ikkarim) carrega consigo raízes secundárias (shorashim) que dele derivam necessariamente — e negar uma destas equivale a negar o próprio princípio. A economia do sistema está na hierarquia, não na permissividade.
O capítulo traça o mapa: da existência de D'us derivam a unidade e a incorporeidade; da Torá do Céu, a profecia e a missão do profeta; da recompensa e castigo, o conhecimento divino e a providência. Quem nega a profecia nega, na prática, a Torá do Céu; quem nega a providência nega a retribuição. As crenças que Albo recusou chamar de "princípios" (cap. 3) reaparecem aqui — não rebaixadas, mas reposicionadas como raízes obrigatórias.
O argumento mais técnico mostra por que crer que D'us tem corpo equivale a negar a sua existência. Crer em D'us é crer num "existente necessário" (mechuyav hametziut) — auto-suficiente, do qual tudo depende. Mas todo corpo é composto, e todo composto precisa de um compositor que una suas partes — logo dependeria de outro, deixando de ser necessário e tornando-se "possível de existência". Assim, atribuir corpo a D'us destrói o próprio conceito de D'us. Albo apresenta este capítulo como a "pedra de toque" (mivchan) — o critério rigoroso pelo qual cada raiz deve ser examinada antes que o crente possa dizer-se verdadeiro confessante dos três princípios.
A regra para distinguir raízes de mandamentos: nenhum mandamento particular da Torá deve ser contado como princípio ou raiz, pois quem o transgride é pecador, não herege. Albo ilustra com Acabe — idólatra, mas não negador dos princípios — e mostra por que "servir só a Ele" e "não mudar a Torá" não são princípios, enquanto a unidade o é por um lado.
A regra para distinguir raízes de mandamentos: nenhum mandamento particular da Torá deve ser contado como princípio ou raiz, pois quem o transgride é pecador, não herege. Albo ilustra com Acabe — idólatra, mas não negador dos princípios — e mostra por que "servir só a Ele" e "não mudar a Torá" não são princípios, enquanto a unidade o é por um lado.
1 E cabe que expliquemos agora o caminho do conhecimento das raízes que se ramificam destes três princípios, a fim de que se conheça quem é o que nega o princípio ou quem o confessa. E digamos, primeiro, que não cabe contar como princípio nem como raiz nenhum mandamento dos mandamentos da Torá; pois o que transgride um mandamento dos mandamentos da Torá eis que está no conjunto dos transgressores de Israel e é cabido do castigo que se escreveu na Torá sobre aquele mandamento, mas não sai do conjunto dos adeptos da Torá a ponto de ser contado no conjunto dos que negam a Torá, que não têm parte no mundo vindouro — a não ser que transgrida o mandamento do lado de estar em dúvida sobre ele, se é mandamento do Nome ou se foi dado a Moisés no Sinai, pois isto está no conjunto do "que diz que não há Torá vinda do Céu", como explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, no capítulo Chelek; e todos os mandamentos da Torá são iguais nisto, até o de mandar embora a ave-mãe do ninho shiluach haken. E, se contares um mandamento entre os princípios deste lado, serão então os princípios como o número dos mandamentos da Torá. E, se disseres que os mandamentos chamados princípios ou raízes são os mandamentos que pendem dos três princípios que mencionamos, então estarão no número dos princípios todos os mandamentos que vieram nas Leis da Idolatria e nas Leis dos Fundamentos da Torá, já que todos pendem do primeiro princípio, que é a existência de D'us.
וְנֹאמַר רִאשׁוֹנָה שֶׁאֵין רָאוּי שֶׁיִּמָּנֶה בְּעִקָּר וְלֹא בְּשֹׁרֶשׁ שׁוּם מִצְוָה מִמִּצְוֹת הַתּוֹרָה, כִּי הָעוֹבֵר עַל מִצְוָה הִנֵּה הוּא בִּכְלַל פּוֹשְׁעֵי יִשְׂרָאֵל, אֲבָל אֵינוֹ יוֹצֵא מִכְּלַל בַּעֲלֵי הַתּוֹרָה, אֶלָּא אִם כֵּן הוּא עוֹבֵר מִצַּד הֱיוֹתוֹ מְפַקְפֵּק אִם הִיא מִצְוַת הַשֵּׁם, כִּי זֶה בִּכְלַל הָאוֹמֵר אֵין תּוֹרָה מִן הַשָּׁמָיִם.
2 Mas a verdade é que não cabe contar como princípio nem como raiz nenhum mandamento particular dos mandamentos da Torá. E por isso não era cabido contar entre as raízes nem entre os princípios "que cabe servi-lo, e não a outro", como escreveu o Rambam, de abençoada memória, porque é um mandamento por si mesmo, a saber "não terás outros deuses diante de mim, e não farás para ti escultura nem imagem alguma… não te prostrarás a eles nem os servirás" etc. (Êxodo 20:3-5); e o que o transgride não é negador de toda a Torá nem de todos os seus princípios, ainda que seja uma transgressão muito grave — a ponto de os nossos mestres, de abençoada memória, dizerem sobre ela que "todo o que confessa crê na idolatria é como ke- quem nega toda a Torá inteira": disseram "como quem nega", e não "quem nega". E eis que Acabe Achav era adorador de idolatria e não era negador dos princípios, pois bem cria em Elias e sabia que a chuva foi retida por causa dele, pelo seu juramento, como lhe disse "és tu este perturbador de Israel?" (I Reis 18:17); e errava na idolatria — seja por introduzir um intermediário entre si e o Nome, bendito seja, seja por pensar que o Nome, bendito seja, vela apenas sobre os bons e os apegados a ele, como Elias e outros dentre os justos, mas que os demais homens estão entregues ao acaso da constelação mikreh hama'arachet; e por isso fazia imagens e adorava idolatria, a fim de receber o influxo da constelação por meio delas.
וְלָזֶה לֹא הָיָה רָאוּי לִמְנוֹת ״שֶׁרָאוּי לְעָבְדוֹ וְלֹא לְזוּלָתוֹ״, לְפִי שֶׁהִיא מִצְוָה בִּפְנֵי עַצְמָהּ. וַהֲרֵי אַחְאָב עוֹבֵד עֲבוֹדַת אֱלִילִים הָיָה וְלֹא הָיָה כּוֹפֵר בָּעִקָּרִים, שֶׁהֲרֵי הָיָה מַאֲמִין לְאֵלִיָּהוּ, וְהָיָה טוֹעֶה בַּעֲבוֹדַת אֱלִילִים בְּהַכְנִיסוֹ אֶמְצָעִי בֵּינוֹ וּבֵין הַשֵּׁם.
3 E não há dúvida de que o castigo do que nega uma raiz ou um princípio não é igual ao do que transgride um mandamento dos mandamentos da Torá. Pois eis que os cuteus kutim, quando não conheciam a Torá e a negavam sem dúvida, os leões os dizimavam; e, quando lhes ensinaram a Torá, ainda que adorassem idolatria — como testemunhou a Escritura sobre isto —, escapavam dos leões. E coisa como esta há que dizer quanto aos castigos do mundo vindouro, pois "balança e pesos de juízo são do Senhor" (Provérbios 16:11), a fim de dar a cada um o castigo conforme a sua rebeldia; e os castigos deste mundo são prova sobre os castigos do mundo vindouro, como virá. Saberás isso, pois eis que os nossos mestres, de abençoada memória, contaram os praticantes da má língua lashon hara, e os que se separam dos caminhos da comunidade, e o que embranquece a face do seu companheiro em público, no conjunto daqueles que não têm parte no mundo vindouro, como os hereges, os epicuristas e os negadores; e não há dúvida de que o castigo do que embranquece a face do seu companheiro não é igual ao castigo do que nega a Torá; e assim o castigo do que transgride o mandamento não é igual ao do que nega uma raiz. E explica-se disto, então, que não cabe contar como raiz nem como princípio nenhum mandamento particular dos mandamentos da Torá.
וְאֵין סָפֵק שֶׁאֵין עֹנֶשׁ הַכּוֹפֵר בְּשֹׁרֶשׁ אוֹ בְּעִקָּר שָׁוֶה לָעוֹבֵר עַל מִצְוָה. שֶׁהֲרֵי הַכּוּתִים כְּשֶׁלֹּא הָיוּ יוֹדְעִים הַתּוֹרָה הָיוּ הָאֲרָיוֹת מְכַלִּים בָּהֶם, וּכְשֶׁלִּמְּדוּם הַתּוֹרָה אַף עַל פִּי שֶׁהָיוּ עוֹבְדִים עֲבוֹדַת אֱלִילִים הָיוּ נִצּוֹלִים. ״פֶּלֶס וּמֹאזְנֵי מִשְׁפָּט לַה׳״.
4 E por isso não se contou a tradição kabbalá como princípio ou raiz da Torá vinda do Céu — quer dizer, que cabe ao homem seguir a tradição dos pais e dos sábios da religião —, ainda que seja necessária a uma Torá divina, porque é um mandamento particular. E por isso não era cabido também contar como raiz nem como princípio que a Torá não se reformule nem se mude, se é um mandamento particular, como escreveu o Rambam, de abençoada memória; exceto que a verdade é que não é um mandamento, mas é uma opinião deá que decorre da raiz da missão do enviado, como se explicará no Maamar III, com a ajuda do Nome.
וְלָזֶה לֹא נִמְנֵית הַקַּבָּלָה עִקָּר אוֹ שֹׁרֶשׁ, אַף עַל פִּי שֶׁהִיא הֶכְרֵחִית, לְפִי שֶׁהִיא מִצְוָה פְּרָטִית. וְכֵן ״שֶׁלֹּא תִשְׁתַּנֶּה הַתּוֹרָה״, אֶלָּא שֶׁהָאֱמֶת הוּא שֶׁאֵינָהּ מִצְוָה, אֲבָל הוּא דֵעָה נִמְשֶׁכֶת לְשֹׁרֶשׁ שְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ.
5 E o motivo de a unidade achdut ser contada como raiz, ainda que seja um mandamento particular, é porque na crença da unidade há duas coisas: uma, que creiamos que o Nome, bendito seja, é um e não há um segundo igual nem semelhante a ele; e outra, que creiamos que o existente necessário, conquanto seja um sem nenhuma multiplicidade nem composição de modo algum, eis que ele é o nosso D'us, quer dizer, a causa de toda a multiplicidade existente. E de um lado é uma raiz que se ramifica do princípio da existência de D'us, e do outro lado é um mandamento particular sobre o qual fomos ordenados n'"ouve, Israel, o Senhor é nosso D'us, o Senhor é um" (Deuteronômio 6:4).
וּמַה שֶּׁנִּמְנֶה הָאַחְדוּת בְּשֹׁרֶשׁ, לְפִי שֶׁבְּהַאֲמָנַת הָאַחְדוּת שְׁנֵי דְבָרִים: אִם שֶׁנַּאֲמִין שֶׁהַשֵּׁם אֶחָד וְאֵין שֵׁנִי דּוֹמֶה לוֹ, וְאִם שֶׁנַּאֲמִין שֶׁהַמְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת הוּא אֱלֹהֵינוּ סִבַּת כָּל הָרִבּוּי. וּמִן הַצַּד הָאֶחָד הוּא שֹׁרֶשׁ, וּמִן הַצַּד הָאַחֵר הוּא מִצְוָה פְּרָטִית ״שְׁמַע יִשְׂרָאֵל ה׳ אֱלֹהֵינוּ ה׳ אֶחָד״.
6 E coisa de espanto é, conforme o caminho do Rambam, de abençoada memória, que conta os mandamentos entre os princípios e contou "eu sou o Senhor, teu D'us" como mandamento de crer que há um existente necessário: por que não foram contados os demais princípios entre os dez mandamentos? E conforme o nosso caminho isto não é do que é difícil, pois não se conta entre os princípios mandamento particular algum; e a fala "eu sou" Anochi é um mandamento particular e não um princípio, e ela é crer que o Nome, bendito seja, que nos tirou do Egito, da casa de servos, é o mesmo que nos deu a Torá no Monte Sinai. Ou será a fala "eu sou" como uma introdução ao que vem depois dela, que é "não terás outros deuses diante de mim", e vem dizer: visto que eu velei sobre ti e te tirei da terra do Egito, da casa de servos, "não terás outros deuses diante de mim" — quer dizer, não cabe que deixes o meu serviço pelo serviço de outro que não eu.
7 E assim é a opinião de muitos dos sábios, a saber que "eu sou" não está no conjunto dos dez mandamentos, mas é uma introdução às duas falas que vêm depois dela, que são "não terás" e "não farás para ti" — pois "não te prostrarás a eles nem os servirás" não é senão a explicação destas duas. E disseram que se escreveu a fala "eu sou" no princípio das falas para fortalecer o coração dos crentes na confissão da providência que decorre dele, bendito seja, a fim de dizer que ela decorre do lado da bondade chesed, ainda que o que a recebe não seja cabido disso — assim como velou sobre Israel estando eles no Egito como adoradores de idolatria, e os tirou da casa de servos pelo mérito dos pais; e por isso aquilo que concluiu foi "e faz bondade a milhares, aos que me amam e guardam os meus mandamentos" (Êxodo 20:6). E será, então, a regra em todas as raízes, a saber que não se conte entre elas nenhum mandamento particular de modo algum.
וּמִן הַתֵּימָהּ לְפִי דֶרֶךְ הָרַמְבַּ״ם שֶׁמָּנָה ״אָנֹכִי ה׳ אֱלֹהֶיךָ״ מִצְוָה, לָמָּה לֹא נִמְנוּ שְׁאָר הָעִקָּרִים בַּעֲשֶׂרֶת הַדִּבְּרוֹת. וּלְפִי דַרְכֵּנוּ אֵין זֶה קָשֶׁה, כִּי דִבּוּר ״אָנֹכִי״ הוּא מִצְוָה פְּרָטִית וְלֹא עִקָּר. וְכֵן דַּעַת הַרְבֵּה מִן הַחֲכָמִים שֶׁאֵין ״אָנֹכִי״ בִּכְלַל עֲשֶׂרֶת הַדִּבְּרוֹת, אֲבָל הִיא הַקְדָּמָה. וְהַכְּלָל בְּכָל הַשָּׁרָשִׁים שֶׁלֹּא יִמָּנֶה בָּהֶם שׁוּם מִצְוָה פְּרָטִית כְּלָל.
Albo formula aqui a regra que governa todo o seu sistema classificatório: nenhum mandamento particular pode ser um princípio ou raiz. A razão é a diferença de gravidade: quem transgride um mandamento é "pecador de Israel", sujeito à pena prevista, mas permanece dentro da Torá; só quem nega um princípio (ou duvida da origem divina do mandamento) sai dela e perde a parte no mundo vindouro. Se cada mandamento fosse princípio, haveria tantos princípios quantos mandamentos — o que esvaziaria o conceito.
O exemplo de Acabe é teologicamente ousado. Maior idólatra de Israel, ele contudo "não era negador dos princípios" — pois cria em Elias e reconhecia que o Nome retivera a chuva. Seu erro não era ateísmo, mas uma teologia distorcida: ou introduzia "intermediários", ou imaginava que a providência só alcança os justos, ficando o resto dos homens entregue ao "acaso das constelações". Idolatria gravíssima — mas pecado, não heresia nos fundamentos. Daí os sábios dizerem que o idólatra é "como quem nega a Torá", e não "quem nega".
O caso dos cuteus (samaritanos) reforça o ponto: enquanto ignoravam a Torá e a negavam, os leões os matavam; depois de instruídos, escaparam — mesmo continuando idólatras. A pena ajusta-se exatamente à culpa ("balança e pesos de juízo são do Senhor"), nesta vida e na vindoura. E embora a Mishná liste juntos hereges e ofensores (como o que humilha o próximo em público) entre os sem parte no mundo vindouro, suas penas obviamente diferem.
A parte mais sutil distingue duas faces de uma mesma crença. A unidade conta como raiz não enquanto mandamento ("Ouve, Israel"), mas enquanto verdade que deriva da existência de D'us (o Necessário é absolutamente uno e causa de toda multiplicidade). Já "Eu sou o Senhor" (Anochi) é mandamento particular — ou mesmo, segundo muitos sábios, um preâmbulo aos mandamentos seguintes, posto para lembrar que a providência age por bondade gratuita (Ele resgatou Israel do Egito mesmo quando ainda idólatra). Assim Albo resolve elegantemente por que os "princípios" não aparecem listados nos Dez Mandamentos: porque princípios não são mandamentos.
O capítulo final do Maamar I enumera as oito raízes que se ramificam dos três princípios: quatro da existência de D'us, três da Torá vinda do Céu, uma da recompensa e do castigo. Albo apresenta o cômputo total e justifica, item a item, por que cada coisa é princípio, raiz ou nenhum dos dois.
O capítulo final do Maamar I enumera as oito raízes que se ramificam dos três princípios: quatro da existência de D'us, três da Torá vinda do Céu, uma da recompensa e do castigo. Albo apresenta o cômputo total e justifica, item a item, por que cada coisa é princípio, raiz ou nenhum dos dois.
1 As raízes que pendem dos três princípios que mencionamos e que deles se ramificam são oito. Pois do primeiro princípio, que é a existência de D'us, ramificam-se dele quatro raízes que abrangem todas as coisas que pendem da existência de D'us, que é o existente necessário; e são: a unidade achdut, do modo que escrevemos; e que Ele não é corpo nem força num corpo; e que não tem dependência do tempo; e que ele, bendito seja, é removido das deficiências mesulak min hachesronot.
2 E cada uma destas quatro raízes é claro do seu assunto que é necessária ao princípio da existência de D'us. Pois, se ele, bendito seja, não for um sem nenhuma composição, não será existente necessário; e assim se for corpo ou força num corpo; e assim se tiver dependência do tempo — a saber que esteja como existente num tempo e não em outro tempo, de modo que o tempo seja anterior a ele ou posterior a ele, como virá —, não será, então, eterno nem perpétuo; e por isso contamos esta raiz, a de que não tem dependência do tempo, e não contamos a eternidade kadmut, como contou o Rambam, de abençoada memória, a fim de que se inclua nesta raiz a eternidade e a perpetuidade; pois, conforme as suas palavras, já que contou a eternidade como raiz por si mesma, lhe caberia contar a perpetuidade nitzchiut também como raiz por si mesma.
3 E assim contamos uma raiz, a de que ele, bendito seja, é removido das deficiências, para explicar que ao existente necessário não recaem o sono, e o esquecimento, e o cansaço, e semelhantes; e para incluir nisto que todos os atributos que é forçoso achar nele, bendito seja — como o poder e a vontade e os demais atributos, tais que, se não se achassem nele, Ele seria deficiente —, eis que se lhe atribuem, bendito seja, só do lado em que não decorra disto deficiência no seu respeito. Porém, de que lado é possível que se lhe atribuam estes atributos e outros, eis que isto é do que explicaremos no Maamar II, com a ajuda da Rocha.
הַשָּׁרָשִׁים הַנִּתְלִים בִּשְׁלֹשֶׁת הָעִקָּרִים הֵם שְׁמוֹנָה. כִּי מִן הָעִקָּר הָרִאשׁוֹן יִסְתָּעֲפוּ אַרְבָּעָה שָׁרָשִׁים: הָאַחְדוּת, וְשֶׁאֵינוֹ גּוּף וְלֹא כֹחַ בְּגוּף, וְשֶׁאֵין לוֹ הִתְלוּת בַּזְּמָן, וְשֶׁהוּא מְסֻלָּק מִן הַחֶסְרוֹנוֹת. וְלֹא מָנִינוּ הַקַּדְמוּת כְּמוֹ שֶׁמָּנָה הָרַמְבַּ״ם, כְּדֵי שֶׁיִּהְיֶה נִכְלָל בְּשֹׁרֶשׁ ״אֵין לוֹ הִתְלוּת בַּזְּמָן״ הַקַּדְמוּת וְהַנִּצְחִיּוּת.
4 E as raízes que pendem do segundo princípio, que é a Torá vinda do Céu, e que dele se ramificam, são três: que são o conhecimento do Nome yediat haShem, e a profecia nevuá, e a missão do enviado shlichut hashaliach. E também estas três é claro do seu assunto serem necessárias ao princípio da Torá vinda do Céu. E isto é assim porque, se o Nome não conhece os existentes inferiores, não haverá ali profecia da parte dele nem Torá vinda do Céu; e, ainda que conheça os existentes inferiores, não é forçoso que chegue uma Torá vinda do Céu, se não há ali profecia e saber que chega de D'us ao homem; e, ainda que haja ali profecia para dar a conhecer o futuro, ou para ordenar ao homem ordens particulares que ele faça, e os seus filhos e os de sua casa depois dele — como ordenou a Abraão o mandamento da circuncisão —, não serão os homens obrigados a obedecer-lhe se não se confirmar ser ele enviado de D'us a fim de ordenar aos homens ordens divinas. E por isso a confirmação da missão do enviado foi um princípio universal a todas as religiões divinas. Pois, quando se confirma a missão do enviado — quer o enviado seja muito maior no seu grau, quer não esteja naquele grau —, será possível que se dê por sua mão uma ordenação divina, universal e suficiente, a fim de fazer os homens chegarem à felicidade eterna; e é este o assunto da Torá vinda do Céu.
וְהַשָּׁרָשִׁים הַנִּתְלִים בָּעִקָּר הַשֵּׁנִי, תּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם, הֵם שְׁלֹשָׁה: יְדִיעַת הַשֵּׁם, וְהַנְּבוּאָה, וּשְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ. כִּי אִם אֵין הַשֵּׁם יוֹדֵעַ, לֹא תִהְיֶה נְבוּאָה; וְאַף אִם תִּהְיֶה נְבוּאָה, לֹא יִתְחַיְּבוּ הָאֲנָשִׁים לְהִשָּׁמַע אִם לֹא יִתְאַמֵּת הֱיוֹתוֹ שְׁלִיחַ הָאֵל.
5 E por isso não contamos a profecia de Moisés no conjunto dos princípios nem nas raízes, como fez o Rambam, de abençoada memória; pois não cabe contar como princípio senão aquilo tal que não se imagine uma Torá divina sem ele, nem como raiz senão o que é necessário ao princípio por força; e isto a profecia de Moisés não é necessário à missão do enviado por força, mas é um ramo que decorre dele; e, se se contasse, eis que é um princípio particular à Torá de Moisés. Mas, porque a confirmação da missão do enviado é particular a cada religião, e é um princípio particular a ela, e conforme a força da confirmação da missão do enviado será a força da crença naquela religião, não nos pareceu contar a profecia de Moisés como princípio particular à Torá de Moisés; pois, depois de confirmada a sua missão, não se precisa confirmar o grau da sua profecia. Porém, como será a confirmação da missão do enviado, a fim de que não recaia nele dúvida alguma, isto é do que se explicará no que vier, com a ajuda do Nome. E quanto a por que contamos a Torá vinda do Céu como princípio e a profecia como raiz que dela decorre, isto se explicará no Maamar III, com a ajuda do Nome.
וְלָזֶה לֹא מָנִינוּ נְבוּאַת מֹשֶׁה בִּכְלַל הָעִקָּרִים, כִּי אֵין רָאוּי לִמְנוֹת עִקָּר אֶלָּא מַה שֶּׁלֹּא יְדֻמֶּה תּוֹרָה אֱלֹהִית זוּלָתוֹ, וְלֹא שֹׁרֶשׁ אֶלָּא הַמִּתְחַיֵּב לְעִקָּר בְּהֶכְרֵחַ. אֲבָל לְפִי שֶׁהִתְאַמְּתוּת שְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ עִקָּר פְּרָטִי, אַחַר הִתְאַמֵּת שְׁלִיחוּתוֹ אֵין צָרִיךְ לְאַמֵּת מַדְרֵגַת נְבוּאָתוֹ.
6 E o terceiro princípio, que é a recompensa e o castigo — eis que a raiz que o precede e que lhe é necessária por força é a providência hashgachá. E isto é assim porque, ainda que já nos tenha precedido a raiz do conhecimento, e a de que D'us conhece a obra dos filhos do homem e ordena os seus assuntos na Torá vinda do Céu de modo que se mantenha a sua reunião e se conserte a sua vida, já seria possível dizer que, por ser o homem baixo e desprezível aos olhos do Nome, o indivíduo estaria abandonado e deixado e não retribuído pelas suas obras particulares que são entre ele e o seu Criador, exceto do lado de ser parte do conjunto — não no exame do indivíduo do lado de si mesmo. E por isso pusemos a providência como raiz anterior à recompensa e ao castigo, para despertar a noção de que a providência divina é sobre cada indivíduo, a fim de dar-lhe castigo e recompensa, até pelas coisas que são entre ele e o Nome — assim como não atentou a Caim e à sua oferta —, e com muito mais razão pelas coisas que são entre um homem e o seu companheiro, conforme as palavras do profeta "grande em conselho e poderoso em obra, cujos olhos estão abertos sobre todos os caminhos dos filhos do homem, a fim de dar a cada um conforme os seus caminhos e conforme o fruto das suas obras" (Jeremias 32:19).
וְהָעִקָּר הַשְּׁלִישִׁי, הַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ, הַשֹּׁרֶשׁ הַמִּתְחַיֵּב אֵלָיו הוּא הַהַשְׁגָּחָה. וְלָזֶה שַׂמְנוּ הַהַשְׁגָּחָה שֹׁרֶשׁ קוֹדֵם, לְהָעִיר שֶׁהַהַשְׁגָּחָה הִיא עַל כָּל פְּרָט וּפְרָט, ״אֲשֶׁר עֵינֶיךָ פְקֻחוֹת עַל כָּל דַּרְכֵי בְּנֵי אָדָם לָתֵת לְאִישׁ כִּדְרָכָיו״.
7 E a recompensa e o castigo são de dois gêneros: ou corporal, ou da alma; e o princípio da recompensa e do castigo inclui ambos como um só. Mas não nos pareceu contar o corporal como raiz por si mesmo e o da alma como raiz por si mesmo; pois o corporal não cabe contá-lo como raiz por si mesmo, conforme a minha opinião, já que eis que há dentre os nossos mestres, de abençoada memória, os que disseram "recompensa de mandamento, neste mundo, não há" sechar mitzvá behai alma leka. E por isso pusemos a recompensa e o castigo como um único princípio, em geral, a fim de incluir os dois gêneros da recompensa: seja o da alma, para os que pensam que o fundamento da recompensa é para a alma e não para o corpo; e, para os que dizem que há recompensa da alma e corporal, incluirá ambos como um só.
וְהַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ שְׁנֵי מִינִים, אִם גּוּפִיִּי וְאִם נַפְשִׁיִּי, וְעִקַּר הַשָּׂכָר יִכְלֹל שְׁנֵיהֶם כְּאֶחָד. כִּי הַגּוּפִיִּי אֵין רָאוּי לִמְנוֹתוֹ שֹׁרֶשׁ בִּפְנֵי עַצְמוֹ, שֶׁהֲרֵי יֵשׁ מֵרַבּוֹתֵינוּ שֶׁאָמְרוּ ״שְׂכַר מִצְוָה בְּהַאי עָלְמָא לֵיכָּא״.
8 E será o número dos princípios e das raízes da religião divina, em geral, conforme este caminho, onze. A existência de D'us e as quatro raízes que dela decorrem — que são a unidade, e que não é corpo nem força num corpo, e que não tem dependência do tempo, e que é removido das deficiências. E assim a Torá vinda do Céu e as três raízes que dela pendem — que são o conhecimento do Nome, e a profecia, e a missão do enviado. E a recompensa e o castigo e a raiz que dele pende, que é a providência. E, se contarmos o conhecimento e a providência como um único princípio — como os incluiu o Rambam, de abençoada memória, num único princípio —, será o número dos princípios e das raízes dez, e não mais.
וְיִהְיֶה מִנְיַן הָעִקָּרִים וְהַשָּׁרָשִׁים לַדָּת הָאֱלֹהִית לְפִי דֶרֶךְ זֶה י״א. וְאִם נִמְנֶה הַיְדִיעָה וְהַהַשְׁגָּחָה עִקָּר אֶחָד, יִהְיֶה מִנְיַן הָעִקָּרִים וְהַשָּׁרָשִׁים עֲשָׂרָה וְלֹא יוֹתֵר.
9 E está claro que não cabe chamá-los a todos "princípios", porque a sua necessidade à Torá divina não é igual. Pois quem crê na dualidade, ou que Ele é corpo ou força num corpo, ou que Ele tem dependência do tempo — não cai a Torá divina em geral por isto, exceto do lado de essas crenças penderem do princípio da existência de D'us, e de o que nega uma delas ser como quem nega o princípio, visto que não crê no princípio como cabe. E por isso não os contamos a todos como princípios em igualdade, como os pôs o Rambam, de abençoada memória.
וְהוּא מְבֹאָר שֶׁאֵין רָאוּי לִקְרֹאתָם כֻּלָּם עִקָּרִים, לְפִי שֶׁאֵין הֶכְרֵחִיּוּתָם לַתּוֹרָה הָאֱלֹהִית בְּשָׁוֶה. וְהַכּוֹפֵר בְּאֶחָד מֵהֶם כְּכוֹפֵר בָּעִקָּר, אַחַר שֶׁאֵינוֹ מַאֲמִין הָעִקָּר כְּמוֹ שֶׁרָאוּי.
10 E não contamos a profecia de Moisés nem que a Torá não se reformule como princípios nem como raízes, porque estes não são princípios nem raízes necessários à religião divina por força, mas são ramos e crenças que decorrem da missão do enviado; e, se fossem princípios ou raízes, eis que seriam princípios próprios à Torá de Moisés e não à religião divina em geral — assim como a vinda do Messias e a ressurreição dos mortos são princípios próprios à religião dos cristãos, tal que não se concebe a sua existência sem eles; mas quanto à profecia de Moisés e a que a Torá não se reformule, já se concebe a existência da Torá de Moisés sem eles, e por isso é mais cabido que digamos que são ramos e crenças que decorrem da missão do enviado, não princípios por si mesmos — assim como a ressurreição dos mortos e a vinda do Messias são ramos que se ramificam da recompensa e do castigo, não princípios nem raízes por si mesmos, nem universais à Torá divina nem próprios à Torá de Moisés. Também não contamos "que cabe servi-lo e não a outro", porque é um mandamento próprio, e não cabe contá-lo entre os princípios nem entre as raízes, pela razão que escrevemos no capítulo anterior a este. E contamos o conhecimento e a providência como duas raízes distintas, porque são assuntos diferentes, como escreveu o Rambam, de abençoada memória, no Guia, e como concordaram todos os posteriores, de abençoada memória — ainda que o Rambam os tenha incluído num único princípio.
11 E não contamos o livre-arbítrio e a finalidade universal no conjunto dos princípios nem nas raízes, ainda que sejam necessários a uma Torá divina tal que não se conceba a sua existência sem eles; pois, visto que não são necessários a ela enquanto é divina, como precedeu, não cabe contá-los como raízes dela. Mas a finalidade própria à Torá divina, que é a recompensa e o castigo da alma, já se contou no conjunto dos princípios, por ser necessária a uma Torá divina por força. Porém o livre-arbítrio, visto que não é necessário a ela enquanto é divina, não foi contado no conjunto dos princípios nem nas raízes; e, de todo modo, visto que é necessário a uma Torá divina e a precede por força, explicaremos o seu assunto no Maamar IV, com a ajuda do Nome. E é isto o que quisemos explicar no número dos princípios e das raízes. E bendito seja o que ajuda e o que decreta. Amém e amém.
וְלֹא מָנִינוּ נְבוּאַת מֹשֶׁה וְלֹא ״שֶׁלֹּא תְנֻסַּח הַתּוֹרָה״ עִקָּרִים, אֲבָל הֵם עֲנָפִים נִמְשָׁכִים לִשְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ, כְּמוֹ שֶׁתְּחִיַּת הַמֵּתִים וּבִיאַת הַמָּשִׁיחַ עֲנָפִים מִן הַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ. וְלֹא מָנִינוּ הַבְּחִירָה וְהַתַּכְלִית, אַחַר שֶׁאֵינָם הֶכְרֵחִיִּים לָהּ בְּמַה שֶּׁהִיא אֱלֹהִית. וְזֶהוּ מַה שֶּׁרָצִינוּ לְבָאֲרוֹ, וּבָרוּךְ הָעוֹזֵר וְהַגּוֹזֵר, אָמֵן וְאָמֵן.
Total: 3 princípios + 8 raízes = 11 fundamentos. Ramos (anafim) que dependem deles: profecia de Moisés, imutabilidade da Torá, Messias, ressurreição. O livre-arbítrio e a finalidade precedem a religião divina, mas não são fundamentos dela enquanto divina.
Este capítulo conclui o Maamar I dando a forma final ao edifício conceitual de Albo: três princípios-raiz (ikkarim), oito raízes derivadas (shorashim) e os ramos (anafim) que pendem mais abaixo. O número total — onze, ou dez se conhecimento e providência forem fundidos — contrasta deliberadamente com os treze de Maimônides, não por rivalidade, mas por rigor: cada item ocupa exatamente o nível que sua necessidade lógica determina.
Albo aprimora a lista do Rambam em vários pontos. Onde Maimônides contava "eternidade" como princípio isolado, Albo prefere "independência do tempo" — que engloba de uma vez a eternidade (sem começo) e a perpetuidade (sem fim). A "ausência de deficiências" é uma raiz sintética que recolhe todos os atributos positivos (poder, vontade) e negativos (sem sono, sem esquecimento) num só princípio. E a profecia de Moisés é rebaixada de princípio a ramo: uma vez confirmada a missão do profeta, não é preciso um artigo de fé separado sobre o grau da sua profecia.
A distinção mais fecunda do sistema reaparece no fecho: estes onze são os fundamentos da religião divina enquanto tal — comuns a toda revelação. O que é específico da Torá de Moisés (sua imutabilidade) ou do cristianismo (o Messias como raiz) são ramos particulares, não fundamentos universais. Assim Albo constrói uma gramática da fé que vale para além de uma única tradição, sem por isso relativizar a verdade da Torá.
Com o "amém e amém" que encerra o capítulo, fecha-se o Maamar I — o discurso sobre "os princípios em geral: quantos são e quais são". Albo deixa anunciado o plano dos três discursos seguintes: o Maamar II investigará a fundo o primeiro princípio (a existência de D'us e suas raízes); o Maamar III, o segundo (a Torá vinda do Céu, a profecia, a missão); e o Maamar IV, o terceiro (a recompensa e o castigo, a providência, e também o livre-arbítrio, que precede a religião sem ser seu fundamento). Está lançado o alicerce de toda a obra.
Contra os céticos antigos que negavam toda a possibilidade do conhecimento: os filósofos responderam que existem "primeiros inteligíveis" — verdades inatas que não vêm de outro conhecimento e fundam toda a ciência. Albo lê a resposta de D'us a Jó como o reconhecimento de que até essas potências cognitivas são dádivas da vontade divina.
Contra os céticos antigos que negavam toda a possibilidade do conhecimento: os filósofos responderam que existem "primeiros inteligíveis" — verdades inatas que não vêm de outro conhecimento e fundam toda a ciência. Albo lê a resposta de D'us a Jó como o reconhecimento de que até essas potências cognitivas são dádivas da vontade divina.
1 Há dentre os antigos quem negou o conhecimento e disse que é impossível ao homem alcançar saber uma coisa na sua verdade. E isto por dois modos: ou porque todo conhecimento não chega senão de um conhecimento anterior, e aquele conhecimento anterior já era buscado e chegou também de um conhecimento anterior a ele, e assim aquele anterior já era buscado e não chega senão de um conhecimento anterior a ele, e o assunto se encadeia ao sem-fim bilti tachlit, e no sem-fim não se abrange com conhecimento; ou porque a coisa que se sabe por silogismo não escapa de uma divisão: ou já era conhecida de antemão — e não se precisaria, então, do silogismo —, ou não era conhecida, e então de onde sabe o homem que a soube por meio do silogismo? E a partir destes dois modos anularam o conhecimento, e pensaram que é impossível chegar ao homem conhecimento em coisa alguma oculta.
יֵשׁ מִן הַקַּדְמוֹנִים מִי שֶׁהִכְחִישׁ הַיְדִיעָה, וְאָמַר שֶׁאִי אֶפְשָׁר לָאָדָם שֶׁיַּשִּׂיג לֵידַע דָּבָר עַל אֲמִתָּתוֹ. וְזֶה מִשְּׁנֵי פָנִים: אִם בַּעֲבוּר שֶׁכָּל יְדִיעָה לֹא תַגִּיעַ אֶלָּא מִידִיעָה קוֹדֶמֶת, וְיִשְׁתַּלְשֵׁל הָעִנְיָן אֶל בִּלְתִּי תַכְלִית; וְאִם בַּעֲבוּר שֶׁהַדָּבָר שֶׁיִּוָּדַע בְּהֶקֵּשׁ לֹא יִמָּלֵט מֵחֲלוּקָה.
2 Mas os que confirmam a verdade, dentre os filósofos, anularam os seus argumentos, ao dizerem que o primeiro argumento não é forçoso, pois a coisa não se encadeia ao sem-fim como pensaram, já que nem todo conhecimento chega sempre de um conhecimento que era buscado; pois já chega de um conhecimento não buscado e não obtido por silogismo, mas de um conhecimento que está no homem na fundamentalidade do intelecto — quer dizer, que é da natureza do intelecto achar-se nele um certo conhecimento que não chegou de outro conhecimento, mas foi criado com ele por natureza; e a este conhecimento que está no fundamento do intelecto chamaram primeiros inteligíveis muskalot rishonot, quer dizer, que são primeiros, tais que não chegaram de outro conhecimento, mas foram formados com ele por natureza; e aqueles inteligíveis são fundamentos da ciência, pois deles se encadeia o conhecimento.
3 E ao segundo argumento disseram que também não é forçoso que o que não era conhecido não seja conhecido jamais. Pois já se sabe por meio do silogismo, exceto que antes do silogismo a coisa era conhecida em potência nas premissas, e por meio do silogismo tornou-se conhecida em ato; e que o intelecto decreta que a chegada do conhecimento deste modo é uma chegada e um conhecimento completo. E estes dois caminhos pelos quais chega e se completa o conhecimento são os que se acham no intelecto humano desde a hora da formação, sem que o homem sinta e saiba como chegaram a ele.
אֲבָל הַמְאַמְּתִים מִן הַפִילוֹסוֹפִים בִּטְּלוּ טַעֲנוֹתֵיהֶם. שֶׁאֵין כָּל יְדִיעָה מַגַּעַת מִידִיעָה דְרוּשָׁה, כִּי כְּבָר תַּגִּיעַ מִידִיעָה שֶׁהִיא לָאָדָם בִּיסוֹדִיּוּת הַשֵּׂכֶל, וְקָרְאוּ אוֹתָהּ מוּשְׂכָּלוֹת רִאשׁוֹנוֹת, שֶׁהֵם יְסוֹדוֹת לַחָכְמָה. וְעַל יְדֵי הַהֶקֵּשׁ שָׁב הַדָּבָר יָדוּעַ בְּפֹעַל אַחַר שֶׁהָיָה יָדוּעַ בְּכֹחַ בַּהַקְדָּמוֹת.
4 E parece que este caminho é verdadeiro a partir do que se acha que o Nome, bendito seja, repreendeu a Jó, quando este clamava contra os caminhos do Nome e acusava o Nome de não ter ordenado a existência como cabe conforme a sua opinião, ao dizer "por que se dá luz ao que está em labor, e vida aos amargurados de alma?" (Jó 3:20), e semelhantes a isto. E o Nome, bendito seja, respondeu-lhe sobre isto e disse-lhe como o seu coração o encheu de ousadia para censurar a obra do Nome e o seu conhecimento, como se ele soubesse mais que ele — e por isso lhe subiu ao espírito dizer que a ordenação seria mais conveniente de outro modo; e eis que Jó não sabe dar as causas das coisas naturais que estão com ele e no seu corpo, e com muito mais razão não sabe falar nas coisas superiores; pois eis que aquela potência que está no homem pela qual alcança o conhecimento, o homem não sabe como chegou a ele e de onde lhe chegou — como poderá saber o conhecimento do Nome e a sua condução, como ela é? E é isto o que lhe disse o Nome na sua primeira resposta: "Quem pôs nas partes interiores a sabedoria, ou quem deu ao intelecto sechvi o discernimento?" (Jó 38:36). E parece-me que o bet de "tuchot" interiores é radical, como em "e os confiantes, aos que irritam D'us" (Jó 12:6); e "sechvi" é derivado da expressão "ve'istechi", que é o targum de "e olhou" (Gênesis 26:8); e o intelecto humano se chama "sechvi", e assim o interpretaram os grandes dos comentadores. E chamou "tuchot chochmá" aos primeiros inteligíveis que são fundamentos da sabedoria, porque por meio deles o homem fica confiante de que alcançará o conhecimento, e sem eles não seria possível que se alcançasse. E "sechvi" chamou ao intelecto humano que inventa o caminho do silogismo a fim de tirar a conclusão das premissas — o que se chama na nossa língua "biná" discernimento, como disseram "homem de discernimento navon é este que compreende uma coisa a partir de outra coisa".
וְזֶהוּ מַה שֶּׁתָּפַס הַשֵּׁם עַל אִיּוֹב, ״מִי שָׁת בַּטֻּחוֹת חָכְמָה אוֹ מִי נָתַן לַשֶּׂכְוִי בִינָה״. וְקָרָא ״בַּטֻּחוֹת חָכְמָה״ לַמּוּשְׂכָּלוֹת הָרִאשׁוֹנוֹת שֶׁהֵם יְסוֹדוֹת הַחָכְמָה, וְ״שֶׂכְוִי״ קָרָא אֶת הַשֵּׂכֶל הָאֱנוֹשִׁי הַמַּמְצִיא דֶּרֶךְ הַהֶקֵּשׁ לְהוֹצִיא הַתּוֹלָדָה מִן הַהַקְדָּמוֹת, שֶׁזֶּה נִקְרָא בִּינָה.
5 E a explicação do assunto é que o Nome, bendito seja, censurou a Jó ao dizer-lhe, bendito seja, que até os primeiros inteligíveis, que são "tuchot chochmá", pelos quais chega o conhecimento, Jó não sabe como é a sua chegada ao homem e de onde se acharam nele e como chegaram, exceto que se acham no homem assim, por vontade divina — conforme as palavras de David "eis que a verdade desejaste nas partes interiores tuchot" (Salmos 51:8); e é isto o seu dizer "quem pôs nas interiores a sabedoria", quer dizer, quem as pôs no homem no princípio, ou que natureza tornou forçoso que se achassem no homem mais que em todos os seres vivos. E assim o censurou por que, mesmo após acharem-se no homem os primeiros inteligíveis, Jó não sabe quem deu ao "sechvi" — que é o intelecto humano — discernimento biná a fim de compreender que a conclusão que sai das premissas é conhecimento; pois isto não está no homem senão por vontade divina. E é isto o que disse David, aludindo a ambas: "eis que a verdade desejaste nas interiores, e no oculto a sabedoria me fazes conhecer" (Salmos 51:8); disse "desejaste a verdade nas interiores", para aludir aos primeiros inteligíveis que estão no homem por vontade de D'us, e disse "e no oculto a sabedoria me fazes conhecer", para aludir a que o conhecimento que chega numa coisa oculta é também por vontade de D'us — conforme as palavras de Salomão "pois o Senhor dá sabedoria; da sua boca, conhecimento e discernimento" (Provérbios 2:6).
וּבֵאוּר הָעִנְיָן, כִּי הַשֵּׁם תָּפַס עַל אִיּוֹב שֶׁאֲפִלּוּ הַמּוּשְׂכָּלוֹת הָרִאשׁוֹנוֹת לֹא יָדַע הֵיאַךְ הִגִּיעוּ לָאָדָם, אֶלָּא שֶׁנִּמְצָאִים בִּרְצוֹן אֱלֹהִי. וְזֶהוּ ״הֵן אֱמֶת חָפַצְתָּ בַטֻּחוֹת וּבְסָתֻם חָכְמָה תוֹדִיעֵנִי״, כִּי שְׁנֵי אֵלּוּ נִמְצְאוּ בָאָדָם וְלֹא נֵדַע אֵיךְ, אֲבָל נַכִּיר שֶׁעַל צַד הַחֲנִינָה נִמְצְאוּ.
6 E por isso se instituiu a bênção "tu agracias o homem com conhecimento e ensinas ao mortal o discernimento" Atá chonen le'adam daat; pois os primeiros inteligíveis se chamam "conhecimento" daat sem mais. E disse "tu agracias o homem com conhecimento", pois este conhecimento é igual em todo homem, sem nenhum aprendizado, mas só do lado da graça chaniná. E disse "e ensinas ao mortal o discernimento", sobre o conhecimento de tirar a conclusão das premissas, o que se chama "biná" discernimento; e atrelou isto a um aprendizado natural, e atribuiu-o ao "mortal" enosh, pois nem todo homem usa o discernimento, senão poucos. E por isso o selo da bênção foi "que agracia com conhecimento", sobre a bondade universal a toda a espécie, que são os primeiros inteligíveis — não sobre a bondade particular; mas a prece cabe que seja sobre que o homem seja cuidadoso com o conhecimento e o discernimento, que é o entendimento haskel, pois o entendimento está nas coisas divinas, como se disse "entender e conhecer-me" (Jeremias 9:23). E por causa disto a prece foi abrangente de tudo, "e agracia-nos da tua parte com conhecimento, discernimento e entendimento" — quer dizer, que os primeiros inteligíveis sejam excelentes, a fim de que deles chegue o discernimento e o entendimento, conforme o que disseram "se não há conhecimento, não há discernimento" (Avot 3:17), quer dizer, que, se o conhecimento — que são os primeiros inteligíveis — não se achasse no homem, não se acharia o discernimento, que é tirar a conclusão das premissas; "e, se não há discernimento, não há conhecimento", quer dizer: e, se o homem não usa o discernimento a fim de compreender uma coisa a partir de outra coisa, para que chegue ao homem o conhecimento, em vão lhe deram os primeiros inteligíveis, que são o conhecimento.
וְעַל כֵּן נִתְקְנָה בִּרְכַּת ״אַתָּה חוֹנֵן לְאָדָם דַּעַת וּמְלַמֵּד לֶאֱנוֹשׁ בִּינָה״. כִּי הַדַּעַת שָׁוֶה בְּכָל אָדָם עַל צַד הַחֲנִינָה, וְהַבִּינָה תְּלוּיָה בְּלִמּוּד. וְהַחֲתִימָה ״חוֹנֵן הַדָּעַת״, עַל הַחֶסֶד הַכּוֹלֵל. ״אִם אֵין דַּעַת אֵין בִּינָה, אִם אֵין בִּינָה אֵין דָּעַת״.
7 E é isto o que disse Salomão "quando a sabedoria entrar no teu coração, e o conhecimento for agradável à tua alma, a discrição mezimá guardar-te-á" etc., "a fim de livrar-te do mau caminho" (Provérbios 2:10-12); quer dizer: quando a sabedoria entrar no teu coração, fundada sobre premissas verdadeiras, e o conhecimento for agradável à tua alma — quer dizer, que uses como cabe dos primeiros inteligíveis —, então "a discrição guardar-te-á, o discernimento tevuná preservar-te-á", a fim de que não tropeces nas opiniões corrompidas. E é isto o seu dizer "a fim de livrar-te do mau caminho, do homem que fala perversidades, dos que deixam as veredas da retidão" etc. (Provérbios 2:12-13); pois o discernimento do qual o homem usa como cabe, fundado sobre premissas verdadeiras, conduzirá o homem por um caminho reto no qual não tropeçará.
וְזֶהוּ שֶׁאָמַר שְׁלֹמֹה ״כִּי תָבוֹא חָכְמָה בְלִבֶּךָ וְדַעַת לְנַפְשְׁךָ יִנְעָם, מְזִמָּה תִּשְׁמֹר עָלֶיךָ תְּבוּנָה תִנְצְרֶכָּה, לְהַצִּילְךָ מִדֶּרֶךְ רָע״. כִּי הַבִּינָה הַמְיֻסֶּדֶת עַל הַקְדָּמוֹת אֲמִתִּיּוֹת תַּדְרִיךְ הָאָדָם בְּדֶרֶךְ יָשָׁר.
Aqui Albo abre a discussão sobre o conhecimento divino (raiz do segundo princípio) enfrentando primeiro um problema mais básico: é possível o conhecimento humano? Os céticos antigos diziam que não, por dois argumentos clássicos. O primeiro: todo saber depende de um saber anterior, gerando uma regressão infinita — e o infinito não pode ser percorrido. O segundo (o "paradoxo do Mênon"): a conclusão de um raciocínio ou já era conhecida (e então o raciocínio é supérfluo) ou não era (e então não se reconheceria como verdadeira).
A resposta dos filósofos é a doutrina dos primeiros inteligíveis (muskalot rishonot) — axiomas evidentes que a mente possui por natureza, não derivados de nenhum saber prévio. Eles quebram a regressão infinita (há um ponto de partida) e dissolvem o paradoxo do Mênon (a conclusão estava em potência nas premissas e o silogismo a torna atual). São o fundamento de toda a ciência — e o homem os possui sem saber como chegaram a ele.
O lance mais original é exegético. Albo lê a resposta de D'us a Jó — "quem pôs nas interiores (tuchot) a sabedoria, ou quem deu ao sechvi o discernimento?" (Jó 38:36) — como uma referência precisa às duas faculdades cognitivas: tuchot chochmá = os primeiros inteligíveis (o dado), sechvi = o intelecto raciocinante (a biná, capaz de tirar conclusões). O argumento contra Jó é humilhante e profundo: se nem sequer sabes como conheces — a própria origem da tua razão é um mistério dado por D'us —, como ousas julgar a sabedoria com que D'us governa o mundo?
Albo coroa o capítulo lendo a bênção Atá chonen (a quarta da Amidá) à luz dessa epistemologia: "conhecimento" (daat) = os primeiros inteligíveis, dados graciosamente a todo homem por igual; "discernimento" (biná) = a capacidade de raciocinar, que exige esforço e nem todos exercem. A máxima rabínica "se não há conhecimento não há discernimento, se não há discernimento não há conhecimento" (Avot 3:17) torna-se, em suas mãos, a formulação exata da interdependência entre os dados inatos da razão e o seu uso ativo. Toda a investigação racional, conclui, repousa sobre dons divinos.
Toda ciência toma suas premissas emprestadas de outra ciência. De onde, então, a lei divina toma os seus princípios — a profecia e a providência, que o filósofo não demonstra? A resposta de Albo: há quatro tipos de proposições indubitáveis, e D'us confirmou os fundamentos da Torá pelo quarto deles — a experiência (nissayon), nas revelações a Adão, Noé, Abraão e no Sinai —, tornando a Torá verdadeira e eterna.
Toda ciência toma suas premissas emprestadas de outra ciência. De onde, então, a lei divina toma os seus princípios — a profecia e a providência, que o filósofo não demonstra? A resposta de Albo: há quatro tipos de proposições indubitáveis, e D'us confirmou os fundamentos da Torá pelo quarto deles — a experiência (nissayon), nas revelações a Adão, Noé, Abraão e no Sinai —, tornando a Torá verdadeira e eterna.
1 Não há dúvida de que toda ciência tem princípios e postulados que não são claros por si mesmos, mas que se tomam, recebidos de outra ciência na qual aqueles princípios se explicaram; e sobre aqueles princípios se constroem todas as demonstrações daquela ciência. Como o geômetra recebe a existência da linha e do ponto do filósofo natural; e o aritmético, a existência da unidade; e o natural, a existência das substâncias e dos acidentes, do mestre da filosofia primeira metafísica; e o mestre da filosofia primeira recebe do natural a existência de um motor primeiro. E assim, em toda ciência especulativa, é da necessidade que se recebam, no princípio do seu aprendizado, princípios e postulados que se explicam fora daquela ciência, como se explicou no Livro da Demonstração de Aristóteles; e sobre aqueles princípios — ou sobre os primeiros inteligíveis — se constroem todas as demonstrações daquela ciência.
אֵין סָפֵק כִּי לְכָל חָכְמָה הַתְחָלוֹת וְהַנָּחוֹת אֵינָן מְבֹאָרוֹת בְּעַצְמָן, אֲבָל יִלָּקְחוּ מְקֻבָּלוֹת מֵחָכְמָה אַחֶרֶת. כְּמוֹ שֶׁיְּקַבֵּל הַמְהַנְדֵּס מְצִיאוּת הַקַּו וְהַנְּקֻדָּה מֵהַטִּבְעִיִּי, וְהַטִּבְעִי מְצִיאוּת הָעֲצָמִים מִבַּעַל הַפִילוֹסוֹפִיָּא הָרִאשׁוֹנָה.
2 E, se é assim, cabe que perguntemos e digamos: a Torá divina, de onde toma os seus princípios? Pois esta pergunta já recai sobre a Torá divina mais que sobre outra dentre as demais religiões convencionais. Porque os princípios da religião convencional — que são o livre-arbítrio e a finalidade, como dissemos — eis que se explicam junto ao filósofo na filosofia política. Mas a Torá divina, de onde toma os seus princípios? Pois, ainda que a existência do Nome, bendito seja, se explique junto ao filósofo a partir de premissas que se encadeiam dos primeiros inteligíveis, de todo modo o filósofo não crerá a profecia e a providência, que são também princípios e fundamentos da Torá divina; e onde se explicará a sua existência? Pois estes princípios não são claros por si mesmos, nem se explicam a partir de premissas tomadas dos primeiros inteligíveis, já que o filósofo não crerá a profecia e a providência do modo como as crê o adepto da Torá divina. E por isso cabe que expliquemos de onde a Torá toma os seus princípios.
וְאִם כֵּן, רָאוּי שֶׁנִּשְׁאַל: הַתּוֹרָה הָאֱלֹהִית מֵהֵיכָן תִּקַּח הַתְחָלוֹתֶיהָ? כִּי אַף עַל פִּי שֶׁמְּצִיאוּת הַשֵּׁם מִתְבָּאֵר אֵצֶל הַפִילוֹסוֹף, לֹא יַאֲמִין הַנְּבוּאָה וְהַהַשְׁגָּחָה שֶׁהֵם גַּם כֵּן הַתְחָלוֹת לַתּוֹרָה הָאֱלֹהִית.
3 E digamos que as coisas que se conhecem e que não se precisa de prova sobre a sua verdade são quatro: que são 1 os primeiros inteligíveis muskalot rishonot — como o nosso conhecimento de que o todo é maior que a parte, e de que as coisas iguais a uma mesma coisa são iguais entre si, e de que a afirmação e a negação não são verdadeiras juntas sobre uma mesma coisa de um mesmo lado; e 2 os sensíveis muchashot — como o nosso conhecimento de que o fogo aquece e a neve esfria, e assim de que o ópio esfria e a pimenta aquece, o que é uma coisa que se alcançou pelo sentido, pois, logo que comemos a pimenta, sentimos calor, e com o ópio sentimos frio; e 3 as experiências nissyonot — como o ímã calamita atrair o ferro, e a escamônea purgar o ventre, e semelhantes a estes, o que é uma coisa que achamos ser assim não do lado das naturezas dos elementos dos quais a coisa foi composta, mas do lado da forma específica que há neles; e 4 as coisas transmitidas nimshachot — como o nosso conhecimento de que Roma e Jerusalém e Babilônia eram cidades grandes e habitadas, ainda que não o sejam agora; e isto e o que se lhe assemelha, ainda que não o alcancemos pelo sentido, julgamos que é verdade como se os tivéssemos alcançado, pela multidão dos relatos transmitidos por muitos homens tais que não se achou homem que divirja deles até hoje.
וְנֹאמַר כִּי הַדְּבָרִים אֲשֶׁר יִוָּדְעוּ וְלֹא יִצְטָרֵךְ רְאָיָה עַל אֲמִתָּתָם הֵם ד׳: הַמּוּשְׂכָּלוֹת הָרִאשׁוֹנוֹת, וְהַמּוּחָשׁוֹת (כָּאֵשׁ תְּחַמֵּם), וְהַנִּסְיוֹנוֹת (כִּמְשֹׁךְ הַקָּלָמִיטָא הַבַּרְזֶל), וְהַנִּמְשָׁכוֹת (כְּיוֹדְעֵנוּ שֶׁרוֹמִי וִירוּשָׁלַיִם הָיוּ מְדִינוֹת גְּדוֹלוֹת).
4 E cada um destes quatro gêneros de premissas, não há dúvida de que sejam postos como princípio e raiz para a demonstração. Pois, assim como as demonstrações da geometria, que são todas construídas sobre os primeiros inteligíveis, e as demonstrações naturais, que são construídas sobre os sensíveis — são verdade na qual não há dúvida alguma, visto que a sua causa é conhecida e reconhecida —, assim as demonstrações construídas sobre as experiências, ainda que a sua causa esteja oculta, não há que duvidar delas de modo algum, visto que o sentido testemunhou a sua existência. Pois, assim como nunca se explicará que os ângulos do triângulo não são iguais a dois ângulos retos, e que a pimenta não aquece — porque a sua causa é conhecida e inteligível —, assim nunca se explicará que o ímã não atrai o ferro, ainda que a sua causa esteja oculta e seja não-conhecida; pois a coisa sobre a qual a experiência testemunhou é impossível que se explique o seu oposto jamais.
וְכָל אֶחָד מֵאֵלּוּ הָאַרְבַּע מִינִים אֵין סָפֵק שֶׁיּוּשְׂמוּ הַתְחָלָה לְמוֹפֵת. כִּי כְּמוֹ שֶׁלֹּא יִתְבָּאֵר לְעוֹלָם שֶׁזָּוִיּוֹת הַמְשֻׁלָּשׁ אֵינָן שָׁווֹת לִשְׁתֵּי נִצָּבוֹת, כֵּן לֹא יִתְבָּאֵר לְעוֹלָם שֶׁהַקָּלָמִיטָא לֹא יִמְשֹׁךְ הַבַּרְזֶל, אַף עַל פִּי שֶׁסִּבָּתוֹ נֶעֱלֶמֶת.
5 E por serem os princípios da Torá e os seus fundamentos não todos alcançados do lado dos primeiros inteligíveis, nem sensíveis em todo tempo — como o aquecer da pimenta e o esfriar do ópio —, mas por estar a sua causa não conhecida, por causa disto o Nome, bendito seja, foi sábio a fim de confirmar os princípios da Torá pela experiência nissayon, a fim de que não recaia neles a dúvida. Pois o que se confirmou pela experiência, como o ímã atrair o ferro, é impossível que recaia nele a dúvida, ainda que a sua causa esteja oculta — assim como não recai a dúvida nas coisas naturais alcançadas pelo sentido, cuja causa é conhecida.
וְלִהְיוֹת עִקְּרֵי הַתּוֹרָה אֵינָם מֻשָּׂגִים מִצַּד הַמּוּשְׂכָּלוֹת הָרִאשׁוֹנוֹת, וְאֵינָם מוּחָשׁוֹת בְּכָל עֵת, בַּעֲבוּר זֶה הִתְחַכֵּם הַשֵּׁם לְאַמֵּת הַתְחָלוֹת הַתּוֹרָה בְּנִסָּיוֹן, כְּדֵי שֶׁלֹּא יִפֹּל הַסָּפֵק בָּהֶם.
6 E isto se acha sempre em todas as religiões divinas. Pois na Torá a respeito da qual Adão foi ordenado, confirmou-se a ele a existência do Nome, que falava com ele, e a profecia, e a Torá vinda do Céu, e a recompensa e o castigo. E isto é assim porque o Nome se revelou a ele e falou com ele e o ordenou sobre a Torá, ao dizer "e ordenou o Senhor D'us ao homem, dizendo" etc. (Gênesis 2:16); e explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, que neste versículo se aludiram todos os mandamentos sobre os quais Adão foi ordenado; e confirmou-se a ele pela experiência também a recompensa e o castigo pela prática dos mandamentos, naquilo em que foi castigado por transgredir o mandamento do Nome e por se deixar seduzir pela serpente por meio de Eva; e já dissemos que os castigos deste mundo são prova sobre os castigos do mundo vindouro.
7 E assim a Noé confirmou-se a ele a profecia e a existência do Nome, que falava com ele, e a recompensa e o castigo no dilúvio — em que ele e os seus filhos foram salvos e os outros foram castigados; e por isso recebeu a permissão de comer carne, que fora proibida a Adão.
וְזֶה נִמְצָא תָּמִיד בְּכָל הַדָּתוֹת הָאֱלֹהִיּוֹת. כִּי לְאָדָם נִתְאַמֵּת מְצִיאוּת הַשֵּׁם שֶׁהָיָה מְדַבֵּר עִמּוֹ, וְהַנְּבוּאָה, וְהַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ בְּמַה שֶּׁנֶּעֱנַשׁ עַל עָבְרוֹ. וְכֵן לְנֹחַ נִתְאַמֵּת בַּמַּבּוּל שֶׁנִּצַּל הוּא וּבָנָיו וְנֶעֶנְשׁוּ הָאֲחֵרִים.
8 E assim a Abraão, quando foi ordenado na aliança da circuncisão, confirmou-se a ele a existência do Nome que falava com ele, e a profecia e a Torá vinda do Céu naquela ordem que lhe era ordenada. E assim, na doação da Torá, confirmaram-se a Israel os princípios universais, visto que alcançaram pela profecia o Nome a falar com eles e a ordenar-lhes a Torá; e confirmou-se a eles na saída do Egito a providência para a recompensa e o castigo. Se é assim, confirmaram-se pela experiência os princípios da Torá com uma confirmação na qual não há dúvida. E por isso a Torá é verdadeira e eterna sem dúvida — assim como o silogismo cujas premissas são verdadeiras, o juízo que sai delas, que é a conclusão, é verdadeiro sem dúvida, e não recebe mudança jamais, pois a verdade não se muda jamais.
וְכֵן לְאַבְרָהָם בִּבְרִית הַמִּילָה, וְכֵן בְּמַתַּן תּוֹרָה הִתְאַמְּתוּ לְיִשְׂרָאֵל הַהַתְחָלוֹת, אַחַר שֶׁהִשִּׂיגוּ בִּנְבוּאָה הַשֵּׁם מְדַבֵּר עִמָּהֶם, וְנִתְאַמֵּת לָהֶם בִּיצִיאַת מִצְרַיִם הַהַשְׁגָּחָה. וְלָזֶה תִּהְיֶה הַתּוֹרָה אֲמִתִּית וְנִצְחִית, כִּי הָאֱמֶת לֹא יִשְׁתַּנֶּה לְעוֹלָם.
9 E é isto o que disse a Escritura "o princípio rosh da tua palavra é verdade, e para sempre todo juízo da tua justiça" (Salmos 119:160); quer dizer: quando o princípio da tua palavra — que são as premissas das quais se fala primeiro para tirar delas a conclusão, que é o juízo buscado — são verdadeiras, por isso o juízo que sai delas será verdadeiro, e será conforme isto eterno, pois a verdade não recebe mudança jamais; e é isto o seu dizer "e para sempre todo juízo da tua justiça". E por isso a Torá, cujos princípios se explicaram pelo sentido, é verdadeira e eterna, e a tradição kabbalá que dela decorre é verdadeira, na qual não há que duvidar de modo algum.
וְזֶהוּ ״רֹאשׁ דְּבָרְךָ אֱמֶת וּלְעוֹלָם כָּל מִשְׁפַּט צִדְקֶךָ״. כְּלוֹמַר כַּאֲשֶׁר הַהַקְדָּמוֹת אֲמִתִּיּוֹת, הַמִּשְׁפָּט הַיּוֹצֵא מֵהֶן יִהְיֶה אֲמִתִּי וְנִצְחִי. וְלָזֶה הַתּוֹרָה שֶׁנִּתְבָּאֲרוּ הַתְחָלוֹתֶיהָ מִן הַחוּשׁ תִּהְיֶה אֲמִתִּית וְנִצְחִית.
10 E, a fim de que não se imagine que os princípios da Torá se explicam todos a nós hoje apenas pela tradição, explicou Asaf no salmo "escuta, meu povo, a minha Torá" (Salmos 78) que há deles os que se explicam por via da especulação, e deles dentre as coisas transmitidas — que são as coisas sobre as quais não há quem divirja de modo algum —, e deles dentre as coisas recebidas pela tradição apenas. E por isso disse "escuta, meu povo, a minha Torá; inclinai os vossos ouvidos às palavras da minha boca" etc., "proferirei enigmas vindos de outrora, que ouvimos e os conhecemos, e os nossos pais nos contaram" (Salmos 78:1-3). Disse "que ouvimos" shamanu, para aludir ao princípio da Torá vinda do Céu, que é das coisas transmitidas, ouvidas da boca de todas as nações, tais que não se achou no mundo quem divirja delas — como a notícia ouvida de que o Egito e a Babilônia existiram no mundo, coisa que é impossível negar, ainda que nós não a tenhamos visto. E aludiu primeiro ao princípio da Torá vinda do Céu, porque advertia sobre escutar a Torá em geral, como disse "escuta, meu povo, a minha Torá". E disse depois "e os conhecemos" venedaem, para aludir ao princípio da existência do Nome e às raízes que dele se ramificam, que é alcançado do lado do conhecimento investigativo fundado sobre os sensíveis a nós e os primeiros inteligíveis. E disse ainda "e os nossos pais nos contaram", para indicar o princípio da recompensa e do castigo da alma, que é alcançado a nós do lado da tradição apenas.
11 E, a fim de explicar a confirmação do princípio deste fundamento da recompensa, trouxe os milagres e as maravilhas e as providências particulares que se fizeram aos nossos pais, conforme o que recebemos deles, pois eles são sinal sobre a recompensa do mundo vindouro, como explicamos no capítulo 21 deste discurso. E explicou ainda que esta tradição cabe que decorra sempre de pai para filho, e por isso disse "não a ocultaremos dos seus filhos" etc. (Salmos 78:4); e explicou que a raiz da tradição e destes princípios foi alcançada a Israel pelo sentido, e dali veio a tradição decorrendo a nós; e é isto o que está escrito "e estabeleceu um testemunho em Jacó" etc. (Salmos 78:5) — quer dizer, que por meio do que eles alcançaram no testemunho do sentido se pôs uma Torá em Israel, decorrendo pela tradição sempre.
וּכְדֵי שֶׁלֹּא יְדֻמֶּה שֶׁהַתְחָלוֹת הַתּוֹרָה כֻּלָּם עַל פִּי הַקַּבָּלָה בִּלְבַד, בֵּאֵר אָסָף ״אֲשֶׁר שָׁמַעְנוּ וַנֵּדָעֵם וַאֲבוֹתֵינוּ סִפְּרוּ לָנוּ״: ״שָׁמַעְנוּ״ עַל תּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם (מִן הַנִּמְשָׁכוֹת), ״וַנֵּדָעֵם״ עַל מְצִיאוּת הַשֵּׁם (מִן הָעִיּוּן), ״וַאֲבוֹתֵינוּ סִפְּרוּ לָנוּ״ עַל הַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ הַנַּפְשִׁיִּי (מִן הַקַּבָּלָה).
Albo coloca uma questão epistemológica aguda: toda ciência demonstra suas conclusões a partir de premissas que não demonstra — recebe-as emprestadas de uma ciência superior (a geometria recebe o ponto da física, a física as substâncias da metafísica). Mas a Torá está no topo: de onde recebe ela os seus fundamentos? A existência de D'us o filósofo até demonstra — mas a profecia e a providência, não. Onde se ancoram?
A resposta começa por catalogar os quatro tipos de proposições que não precisam de prova: os primeiros inteligíveis (axiomas lógicos), os sensíveis (o fogo aquece), as experiências (nissyonot — o ímã atrai o ferro, cuja causa é oculta mas cujo fato é certo) e as transmissões (nimshachot — que Roma e Babilônia existiram, atestado por relato unânime). Notável é a defesa do conhecimento empírico de causa oculta: o fato de não sabermos por que o ímã atrai não torna o atrair menos certo.
O lance decisivo: já que os princípios da Torá não são axiomas lógicos nem fatos sempre observáveis, D'us os confirmou pela experiência (nissayon) — categoria à qual a certeza é tão firme quanto a do ímã. Cada revelação foi um "experimento" público que estabeleceu os princípios: Adão (a palavra divina e o castigo), Noé (o dilúvio), Abraão (a aliança), e sobretudo o Sinai e o Êxodo (a Torá do Céu e a providência). A Torá é, assim, um silogismo de premissas verdadeiras: sendo verdadeiras, a conclusão é verdadeira e eterna — "o princípio da tua palavra é verdade, e para sempre todo juízo da tua justiça".
Albo fecha mostrando que os três princípios chegam a nós por vias diferentes, conforme lê no salmo de Asaf: "que ouvimos" (a Torá do Céu, pela transmissão universal das nações), "e os conhecemos" (a existência de D'us, pela investigação racional), "e nossos pais nos contaram" (a recompensa da alma, pela tradição). Não tudo repousa sobre a mera tradição — cada fundamento tem o seu modo próprio de certeza, e a tradição de Israel remonta a um testemunho sensorial originário no Sinai, transmitido "de pai para filho" sem interrupção.
Havendo muitas religiões que se dizem divinas, como distinguir a verdadeira da falsificada? Por dois lados: pelo conteúdo (se não contradiz os princípios e raízes) e pelo enviado (se a sua missão se confirma de modo essencial). A célebre parábola dos boticários, a diferença entre profeta e enviado, e o Sinai como a única confirmação isenta de toda dúvida.
Havendo muitas religiões que se dizem divinas, como distinguir a verdadeira da falsificada? Por dois lados: pelo conteúdo (se não contradiz os princípios e raízes) e pelo enviado (se a sua missão se confirma de modo essencial). A célebre parábola dos boticários, a diferença entre profeta e enviado, e o Sinai como a única confirmação isenta de toda dúvida.
1 E cabe que perguntemos e digamos: visto que achamos muitas religiões chamadas divinas, e a tradição decorre em cada uma delas para os adeptos daquela religião, com que se conhece, então, a distinção entre a religião divina verdadeira e a religião falsificada que pretende ser divina, que se assemelha à divina e não é divina?
2 E digo que a confirmação de ser a Torá divina se dá por dois lados: do lado da própria religião, e do lado do enviado shaliach. O que é do lado da própria religião — eis que consiste em que se examinem os três princípios que escrevemos, com as raízes que deles se ramificam, do modo que escrevemos acima; e, se ela não divergir de nenhum princípio dos princípios, nem de nenhuma raiz das raízes que saem deles ou que neles pendem, eis que ela é divina; e, se não, eis que ela é falsificada e apenas se assemelha à divina. E o que é do lado do enviado — eis que consiste em que se confirme a chegada da profecia ao profeta e o ser ele enviado para que uma religião se dê por sua mão, com uma confirmação essencial amut atzmi. E isto é assim porque a confirmação da coisa se dá de dois modos: ou confirmação essencial, ou confirmação não essencial. A confirmação essencial é que a coisa se confirme, seja do lado das suas causas, seja do lado das suas propriedades essenciais. E a confirmação não essencial é que a coisa se confirme com uma confirmação acidental, não do lado das suas causas nem do lado das suas propriedades essenciais.
בְּמַה יִוָּדַע הַהֶבְדֵּל בֵּין הַדָּת הָאֱלֹהִית הָאֲמִתִּית וּבֵין הַמְזֻיֶּפֶת? וְאוֹמֵר כִּי הִתְאַמֵּת הֱיוֹת הַתּוֹרָה אֱלֹהִית הוּא מִשְּׁנֵי צְדָדִים: מִצַּד הַדָּת בְּעַצְמָהּ (שֶׁיִּבָּחֲנוּ הַשְּׁלֹשָׁה עִקָּרִים), וּמִצַּד הַשָּׁלִיחַ (שֶׁיִּתְאַמֵּת שְׁלִיחוּתוֹ אֲמוּת עַצְמִי). וְהָאֲמוּת הָעַצְמִי הוּא מִצַּד סִבּוֹתָיו אוֹ סְגֻלּוֹתָיו הָעַצְמִיּוֹת.
3 E o exemplo nisto são dois boticários que foram trazidos diante dos sábios da medicina a fim de fazer a confecção do grande teríaco teriac, antídoto universal. E disse um que ele confeccionaria o teríaco com uma confecção bela, que salva de todas as drogas mortais, quentes e frias, e de todos os gêneros de venenos — com a prova de que ele mostraria diante deles a carne da víbora e todas as drogas que cabem entrar no teríaco, e experimentaria as propriedades de todas as drogas simples e as suas forças, uma a uma, diante deles; e assim fez, pois experimentou diante deles todas as drogas, e todas se reconheceram tais que não há nelas apreensão de falsificação. Pois não há dúvida de que o teríaco feito deste modo não tem nele apreensão de falsificação, visto que aquele boticário lhe deu uma confirmação essencial pela causa. E assim, se disser que o teríaco que fizer é bom, com a prova de que ele curará todos os doentes de todos os gêneros de enfermidades e drogas mortais que cabe curar com o teríaco, e assim fez — não há dúvida também de que esta confirmação é boa, visto que confirmou ser o teríaco verdadeiro do lado das suas propriedades essenciais; e, ainda que esta confirmação não seja forte como a primeira, que confirmou a coisa do lado das suas causas, eis que ambas são confirmação essencial do teríaco, tal que é impossível que haja nele falsificação alguma.
4 E o segundo boticário disse que ele faria o teríaco proveitoso contra todas as drogas mortais, com a prova de que ele andaria pelo fogo e não se queimaria, ou andaria sobre a face das águas e não se afogaria. Pois, ainda que faça assim aos olhos dos povos e dos príncipes e diante de todos os sábios, isto não é uma prova essencial sobre ser o teríaco que fez ou que fará bom; pois já é possível que, ainda que tenha andado pelo fogo e não se queimado, o teríaco que fizer não tenha as propriedades do teríaco a fim de salvar de todas as drogas mortais — porque esta confirmação que fez ao teríaco é uma confirmação não essencial, e é possível que haja nele ainda apreensão de falsificação.
וְהַמָּשָׁל: שְׁנֵי רוֹקְחִים לַעֲשׂוֹת תִּרְיָאק. הָאֶחָד נִסָּה לִפְנֵיהֶם כָּל הַסַּמִּים הַנִּכְנָסִים בּוֹ, וְזֶהוּ אֲמוּת עַצְמִי. וְהַשֵּׁנִי אָמַר שֶׁיֵּלֵךְ בְּמוֹ אֵשׁ וְלֹא יִכָּוֶה — וְאֵין זוֹ רְאָיָה עַצְמִית עַל הֱיוֹת הַתִּרְיָאק טוֹב, אֶלָּא אֲמוּת בִּלְתִּי עַצְמִי.
5 E por este mesmo modo é a confirmação da profecia do profeta ou do enviado. Pois o profeta que dá um sinal sobre ser ele profeta, com a prova de que ele andará sobre a face das águas, ou fenderá o rio para passar por ele, ou andará pelo fogo e não se queimará, ou curará os doentes ou os leprosos — eis que isto é um sinal de que ele é um homem tal que cabe que se façam por sua mão milagres, sinais e prodígios; mas isto não é uma confirmação essencial à profecia, e com muito mais razão não é um sinal de que se dê uma Torá por sua mão. Pois já se acham sinais e prodígios feitos por encantamento e feitiçaria, ou feitos pela mão dos justos que não são profetas — como se menciona em Bava Metzia no assunto da controvérsia de Rabi Eliezer, em que uma alfarrobeira se arrancou do seu lugar, e a corrente de água voltou para trás, e além disso; e mesmo assim não fixaram a halachá conforme as suas palavras, porque não era acordado como vindo de um profeta.
וְעַל זֶה הַדֶּרֶךְ הוּא אֲמוּת נְבוּאַת הַנָּבִיא, כִּי הַנָּבִיא שֶׁיִּתֵּן אוֹת בִּרְאָיָה שֶׁיֵּלֵךְ עַל פְּנֵי הַמַּיִם אוֹ יְרַפֵּא חוֹלִים, אֵין זֶה אֲמוּת עַצְמִי לַנְּבוּאָה, כִּי כְּבָר יִמָּצְאוּ אוֹתוֹת נַעֲשִׂים בְּלַהַט וּכְשׁוּף אוֹ עַל יְדֵי הַצַּדִּיקִים שֶׁאֵינָם נְבִיאִים, כְּמַחֲלֻקְתּוֹ שֶׁל רַבִּי אֱלִיעֶזֶר.
6 E por isso achas que todos os sinais e prodígios que Moisés fez antes da doação da Torá eram sinais de que cabia que se fizessem por sua mão sinais e prodígios apenas — não de receber uma Torá por sua mão; e só por esta coisa era a crença de Israel nele, e por isso se conduziam por ele, por crerem que o Nome ouve o seu clamor e cumpre as suas palavras — como Moisés fez em Mará, "e o Senhor lhe mostrou uma árvore" (Êxodo 15:25), e assim na guerra de Amaleque; e fez descer o maná na sua oração, e fendeu o mar no seu clamor, pois disse a Escritura "por que clamas a mim?" (Êxodo 14:15). E sobre isto e sobre o que se lhe assemelha se disse, na fenda do Mar dos Juncos, "e creram no Senhor e em Moisés, seu servo" (Êxodo 14:31) — quer dizer, que creram que ele era servo do Senhor, tal que o Senhor faria por sua mão sinais e prodígios.
7 Mas, porque os sinais e prodígios que se fizeram pela mão de Moisés, nosso mestre — com a sua multidão e o exagero das suas maravilhas na mudança da natureza do mundo —, não eram um prodígio essencial à profecia, estavam os israelitas ainda em dúvida sobre a existência da profecia. Saberás isso, pois eis que, após a doação da Torá, disseram a Moisés "hoje vimos que D'us fala com o homem, e este vive" (Deuteronômio 5:21) — do que se vê que, até aquela estação do Sinai, estavam em dúvida sobre a existência da profecia, conquanto crendo em Moisés como servo do Senhor, tal que se fariam por sua mão sinais e prodígios.
וְכָל הָאוֹתוֹת שֶׁעָשָׂה מֹשֶׁה קֹדֶם מַתַּן תּוֹרָה הָיוּ אוֹתוֹת שֶׁרָאוּי שֶׁיֵּעָשׂוּ עַל יָדוֹ אוֹתוֹת בִּלְבַד, ״וַיַּאֲמִינוּ בַּה׳ וּבְמֹשֶׁה עַבְדּוֹ״. אֲבָל הָיוּ מְסֻפָּקִים עֲדַיִן בִּמְצִיאוּת הַנְּבוּאָה, ״הַיּוֹם הַזֶּה רָאִינוּ כִּי יְדַבֵּר אֱלֹהִים אֶת הָאָדָם וָחָי״.
8 E por isso achas que o Nome disse a Moisés no tempo da doação da Torá "eis que eu venho a ti na espessura da nuvem, a fim de que o povo ouça ao eu falar contigo, e também em ti creiam para sempre" (Êxodo 19:9) — quer dizer: eu quero confirmar a eles a existência da própria profecia com uma confirmação essencial, e também confirmar a eles que tu és enviado de mim a fim de dar a Torá por tua mão; e isto se dá em que eles mesmos alcancem o grau da profecia, e com isto se confirme a eles a existência da própria profecia; e ainda, que eles me ouçam falar contigo, quando eu quero dar a Torá por tua mão. E esta é uma confirmação essencial à profecia e à missão do enviado; e por isso é impossível que reste, após aquela estação gloriosa, dúvida alguma nem apreensão de falsificação alguma, visto que se confirmaram naquela estação as duas coisas que são necessárias a fim de confirmar a existência de uma Torá vinda do Céu: a primeira, a existência da profecia, pois todos eram profetas naquela hora e ouviram a voz do Senhor D'us a dizer-lhes os dez mandamentos; e a segunda, que ouviram a voz a dizer a Moisés "vai, dize-lhes: voltai às vossas tendas; e tu, fica aqui comigo, e eu falarei a ti todo o mandamento e os estatutos e os juízos que lhes ensinarás" (Deuteronômio 5:27-28); e com isto se confirmou a eles, com uma confirmação essencial, que Moisés era enviado a fim de dar-se uma Torá constante para as gerações por sua mão.
וְלָזֶה אָמַר הַשֵּׁם לְמֹשֶׁה ״הִנֵּה אָנֹכִי בָּא אֵלֶיךָ בְּעַב הֶעָנָן בַּעֲבוּר יִשְׁמַע הָעָם בְּדַבְּרִי עִמָּךְ וְגַם בְּךָ יַאֲמִינוּ לְעוֹלָם״. וְנִתְאַמְּתוּ בַּמַּעֲמָד שְׁנֵי דְבָרִים: מְצִיאוּת הַנְּבוּאָה (שֶׁכֻּלָּם הָיוּ נְבִיאִים), וּשְׁלִיחוּת מֹשֶׁה לָתֵת תּוֹרָה מַתְמֶדֶת לַדּוֹרוֹת.
9 E esta é a distinção entre o profeta navi e o enviado shaliach. Pois o profeta — a confirmação da sua profecia é seja pela predição do futuro, tal que não cai coisa alguma de todas as suas palavras por terra, seja pela feitura de sinais e prodígios; e o profeta cuja profecia se confirma deste modo, é um mandamento particular na Torá obedecer-lhe em tudo o que disser, e até transgredir as palavras da Torá como uma ordem temporária hora'at sha'á, como Elias no monte Carmelo — exceto a idolatria. Pois, depois que foi experimentado muitas vezes e se acharam todas as suas palavras verdadeiras, seja pela feitura de sinais e prodígios, seja pela predição do futuro, e não fez cair coisa alguma de todas as suas palavras por terra — eis que ele está na presunção de profeta, e é um mandamento obedecer-lhe; disse a Escritura "e não fez cair coisa alguma de todas as suas palavras por terra, e soube todo Israel, de Dã até Berseba, que Samuel era fiel como profeta do Senhor" (I Samuel 3:19-20). E eis que isto é como quem fez o teríaco duas ou três vezes e o experimentou, tal que é verdadeiro — pois este boticário está na presunção de ser verdadeiro, até que seja experimentado outra vez e se ache falsificado. E assim o profeta que prediz o futuro ou que faz um sinal ou prodígio sobre a sua profecia, é um mandamento obedecer-lhe enquanto não se achar falsidade nas suas palavras; disse a Escritura "aquilo que o profeta falar em nome do Senhor, e a coisa não for nem vier, esta é a coisa que o Senhor não falou" (Deuteronômio 18:22). Pois já é possível que o profeta seja profeta verdadeiro e minta em alguma vez por escolha de si mesmo, e não do lado da profecia — pois "não é homem D'us para que minta" (Números 23:19) —, como aconteceu a Hananiá ben Azur, que era profeta verdadeiro, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no Tratado Sanhedrin, e errou e mentiu na quebra do jugo de sobre o pescoço de Jeremias, e por isso foi castigado, como lhe disse Jeremias "não te enviou o Senhor, e tu fizeste este povo confiar na falsidade" (Jeremias 28:15), e está escrito "este ano tu morrerás, pois falaste rebeldia contra o Senhor" (Jeremias 28:16), e está escrito "e morreu Hananiá, o profeta, naquele ano, no sétimo mês" (Jeremias 28:17).
וְזֶהוּ הַהֶבְדֵּל בֵּין הַנָּבִיא וְהַשָּׁלִיחַ. כִּי הַנָּבִיא, אֲמוּת נְבוּאָתוֹ הוּא בְּהַגָּדַת הָעֲתִידוֹת אוֹ בַעֲשִׂיַּת אוֹתוֹת. וּמִצְוָה לִשְׁמֹעַ אֵלָיו כָּל עוֹד שֶׁלֹּא יִמָּצֵא שֶׁקֶר בִּדְבָרָיו. כִּי אֶפְשָׁר שֶׁהַנָּבִיא יְכַזֵּב בִּבְחִירַת עַצְמוֹ, כְּמוֹ שֶׁקָּרָה לַחֲנַנְיָה בֶּן עַזּוּר.
10 Mas o enviado — e ele é aquele que é enviado a fim de dar-se uma Torá por sua mão — é impossível que minta de modo algum. Pois não se chamará "enviado" se não se confirmar a sua missão com uma confirmação essencial; e isto se dá seja na confirmação da existência da profecia a todos os que recebem — como se confirmou a todo Israel na hora da doação da Torá —, seja na confirmação da missão do enviado — como se confirmou a missão de Moisés, nosso mestre; não pela confirmação na predição do futuro ou na feitura de sinais e prodígios, já que a predição do futuro é uma confirmação não essencial à missão do enviado a fim de dar uma Torá por sua mão, e é possível que minta em alguma vez, como aconteceu a Hananiá ben Azur, como dissemos.
11 E assim a feitura dos sinais e prodígios tem neles uma dúvida, a saber que é possível que se façam coisas como elas por alguma ciência ou ardil natural. Mas, quando se confirma a sua missão do modo como se confirmou a missão de Moisés, é impossível que nele entre a mentira de modo algum — nem do lado da escolha de si mesmo, nem de outro lado. Não do lado da escolha de si mesmo, pois o Nome, bendito seja, não lhe confirmaria a missão deste modo se ele estivesse por mentir no futuro; e não de outro lado, pois, depois que se confirmou a sua missão com uma confirmação essencial, removeu-se dele todo gênero de dúvida.
אֲבָל הַשָּׁלִיחַ, אִי אֶפְשָׁר שֶׁיְּכַזֵּב בְּשׁוּם פָּנִים. כִּי לֹא יִקָּרֵא שָׁלִיחַ אִם לֹא שֶׁיִּתְאַמֵּת שְׁלִיחוּתוֹ אֲמוּת עַצְמִי, כְּמוֹ שֶׁנִּתְאַמֵּת שְׁלִיחוּת מֹשֶׁה. וְאַחַר שֶׁנִּתְאַמֵּת אֲמוּת עַצְמִי, נִסְתַּלֵּק מִמֶּנּוּ כָּל מִין מֵהַסָּפֵק.
12 E é isto o que escreveu o Rambam, de abençoada memória, no Sefer HaMadá, no capítulo 8 das Leis dos Fundamentos da Torá: "Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele — não creram nele os israelitas pelos sinais que fez; pois os que creem com base nos sinais têm no coração uma falha, de que é possível que o sinal se faça por encantamento e feitiçaria" etc. "E com que creram nele? Com a estação do Monte Sinai, em que os nossos olhos viram, e não um estranho, e os nossos ouvidos ouviram, e não outro — o fogo, e as vozes, e as tochas; e Moisés se aproximou da nuvem espessa, e a voz a falar com ele, e nós ouvíamos 'Moisés, Moisés, vai dize-lhes' etc. E donde se sabe que foi só a estação do Monte Sinai a prova da sua profecia, tal que não há nela falha? Do que se disse 'eis que eu venho a ti na espessura da nuvem, a fim de que o povo ouça ao eu falar contigo, e também em ti creiam para sempre' — donde se deduz que, antes disto, não creram nele com uma fidelidade ne'emanut que permaneça para sempre, mas com uma fidelidade após a qual havia hesitação e reconsideração de pensamento"; até aqui as suas palavras.
וְזֶהוּ מַה שֶּׁכָּתַב הָרַמְבַּ״ם בְּהִלְכוֹת יְסוֹדֵי הַתּוֹרָה: ״מֹשֶׁה רַבֵּנוּ לֹא הֶאֱמִינוּ בּוֹ יִשְׂרָאֵל מִפְּנֵי הָאוֹתוֹת... וּבַמֶּה הֶאֱמִינוּ בּוֹ? בְּמַעֲמַד הַר סִינַי, שֶׁעֵינֵינוּ רָאוּ וְלֹא זָר וְאָזְנֵינוּ שָׁמְעוּ... וּמְשֶׁה נִגַּשׁ אֶל הָעֲרָפֶל וְהַקּוֹל מְדַבֵּר אֵלָיו״.
13 E a intenção das suas palavras é que os sinais que os profetas fazem — como o morto que Eliseu ressuscitou, e a cura da lepra de Naamã, e Hananiá, Mishael e Azariá, que não se queimaram na fornalha de fogo, e Daniel que se salvou dos leões, e Jonas que se salvou do ventre do peixe, e assim todos os sinais que se fizeram pela mão de cada profeta, ou a predição do futuro — não são provas essenciais à profecia. Pois já é possível a chegada do conhecimento do futuro pela mão dos astrólogos ou da necromante; e assim a feitura dos sinais — já é possível que se façam alguns deles aos justos ou pela mão dos piedosos, ainda que não sejam profetas, como Rabi Chanina ben Dosa e Rabi Pinchas ben Yair e os seus companheiros; ou por algum ardil natural, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, sobre Ezequias, rei de Judá, que Acaz, seu pai, o fez passar pelo fogo, e Ezequias se salvou porque a sua mãe o untou com óleo de salamandra; ou é possível que se façam por encantamento ou por feitiçaria, como faziam os magos do Egito; ou por meio de um Nome dentre os Nomes do Sagrado shemot hakodesh. Pois os Nomes são como instrumentos do ofício do Onipresente, já que há neles a força de que se façam por eles sinais e prodígios; e quem os usa pela vontade do Onipresente, como os profetas, ou para a honra do Onipresente, como os piedosos, é amado em cima e querido embaixo, e não morre na metade dos seus dias e não cai na mão dos seus inimigos — disse o Nome a Jeremias, a paz esteja sobre ele, "e combaterão contra ti, mas não te vencerão, pois eu estou contigo, diz o Senhor, para livrar-te" (Jeremias 1:19). Mas quem os usa por saber de si mesmo e não para a honra do Onipresente, é cortado na metade dos seus dias e cai na mão dos seus inimigos, e o seu fim é que selará a vida em mal; disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "e o que se serve da coroa taga passa perece"; e eis que isto é como quem roubou o anel, ou os utensílios, ou o selo do rei e os usa, que é culpado de morte. E até Isaías, que era profeta verdadeiro, porque mencionou um Nome dentre os Nomes para o seu próprio proveito — como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no Tratado Yevamot, que disse um Nome "e foi engolido no cedro" — foi castigado e caiu na mão dos seus inimigos, e o mataram, como se menciona ali.
וְכַוָּנַת דְּבָרָיו שֶׁהָאוֹתוֹת שֶׁיַּעֲשׂוּ הַנְּבִיאִים אֵינָן רְאָיוֹת עַצְמִיּוֹת לַנְּבוּאָה, כִּי אֶפְשָׁר עֲשִׂיָּתָן עַל יְדֵי הַחֲסִידִים, אוֹ בִּתְחְבּוּלָה טִבְעִית, אוֹ בִּלְהַט וּכְשׁוּף, אוֹ עַל יְדֵי שֵׁם מִשְּׁמוֹת הַקֹּדֶשׁ, שֶׁהֵם כִּכְלֵי אֻמָּנוּתוֹ שֶׁל מָקוֹם. וּמִי שֶׁמִּשְׁתַּמֵּשׁ בָּהֶם שֶׁלֹּא לִכְבוֹדוֹ שֶׁל מָקוֹם נִכְרָת בַּחֲצִי יָמָיו, ״וּדְאִשְׁתַּמֵּשׁ בְּתַגָּא חֲלָף״.
14 E compreende isto muito bem, pois nesta coisa se examina o que usa os Nomes não pela vontade do Onipresente — a saber que morrerá com uma morte estranha ou será cortado na metade dos seus dias. E esta coisa — muitos se perturbaram nela e não souberam como é possível que os ímpios peritzim usem os Nomes e o feito chegue por sua mão, visto que os profetas os usam, conforme o que se acha pelos antigos e está aludido no versículo "e partiu, e veio, e estendeu" (Êxodo 14:19-21) três versículos de setenta e duas letras. E a regra nisto é que tudo segue o selo final hakol holech achar hachatum. E por causa disto está claro que o sinal não é uma prova verdadeira sobre a profecia, e com muito mais razão sobre a missão do enviado; e por isso os sinais que se fizeram pela mão de Moisés antes da doação da Torá não eram sinais essenciais à profecia, e com muito mais razão a que se desse uma Torá por sua mão, até a estação do Monte Sinai. E é isto o que quisemos explicar neste capítulo.
וְהָבֵן זֶה מְאֹד. וְהַכְּלָל בָּזֶה כִּי הַכֹּל הוֹלֵךְ אַחַר הֶחָתוּם. וּבַעֲבוּר זֶה מְבֹאָר שֶׁאֵין הָאוֹת רְאָיָה אֲמִתִּית עַל הַנְּבוּאָה וְכָל שֶׁכֵּן עַל שְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ, וְלֹא הָיוּ הָאוֹתוֹת שֶׁעַל יְדֵי מֹשֶׁה אוֹתוֹת עַצְמִיִּים עַד מַעֲמַד הַר סִינַי.
Albo enfrenta aqui a pergunta inevitável de um pensador que viveu a Disputa de Tortosa: havendo várias religiões que se dizem reveladas, cada qual com sua tradição, como saber qual é a verdadeira? Sua resposta tem dois critérios. O conteúdo: a lei verdadeira não contradiz nenhum dos três princípios nem suas raízes. E o enviado: sua missão precisa ser confirmada de modo essencial, não acidental.
A distinção entre confirmação "essencial" e "acidental" é ilustrada por uma das parábolas mais elegantes do livro. Para provar que seu antídoto (teríaco) é genuíno, um boticário demonstra seus ingredientes corretos (prova pela causa) ou cura doentes reais (prova pela propriedade) — ambas essenciais. Mas um terceiro boticário caminha pelo fogo sem se queimar: por mais espetacular, isso nada prova sobre o antídoto. O prodígio é acidental à questão. Assim também os milagres: impressionam, mas não tocam a essência da profecia.
Daí a distinção central: o profeta (navi) é autenticado por predições cumpridas e milagres — autenticação provável mas falível (até um profeta verdadeiro pode mentir por escolha própria, como Hananiá ben Azur). O enviado (shaliach) que traz uma Torá, porém, exige confirmação essencial e infalível. Os milagres de Moisés antes do Sinai só provavam que ele era "servo de D'us" — não que traria uma lei eterna. Israel ainda duvidava da própria possibilidade da profecia ("hoje vimos que D'us fala com o homem e vive").
Só o Sinai forneceu a confirmação essencial: todo o povo tornou-se profeta (provando que a profecia existe) e ouviu D'us comissionar Moisés (provando sua missão). Por isso a fé de Israel é "para sempre", sem hesitação — como Maimônides ensina (Yesodei haTorá 8). A seção final enfrenta um problema difícil: se até ímpios podem operar prodígios (por feitiçaria, ardis naturais, ou manipulando os Nomes sagrados — "instrumentos do ofício divino"), então o milagre nunca prova nada por si. O destino é que distingue: quem usa os Nomes para a glória de D'us prospera; quem os usa para si "perece na metade dos dias" — pois "tudo segue o selo final".
O que é a fé (emuná): a representação tão firme de uma coisa na alma que ela não concebe a sua negação, ainda que não conheça o porquê. A fé aplica-se ao que não foi percebido pelos próprios sentidos, mas recebido por tradição — como a profecia de todo Israel no Sinai, transmitida fielmente de pai para filho.
O que é a fé (emuná): a representação tão firme de uma coisa na alma que ela não concebe a sua negação, ainda que não conheça o porquê. A fé aplica-se ao que não foi percebido pelos próprios sentidos, mas recebido por tradição — como a profecia de todo Israel no Sinai, transmitida fielmente de pai para filho.
1 A fé emuná numa coisa é a representação da coisa na alma com uma representação forte, até que a alma não conceba a sua negação de modo algum, ainda que não se conheça o caminho da confirmação nela — assim como a alma não concebe a negação dos primeiros inteligíveis, e das coisas nas quais o pensamento do homem predomina, ou que estão no homem do lado da sua natureza e ele não sabe como vieram a ele; ou assim como a alma não concebe a negação do que se alcançou pelo sentido e do que a experiência confirmou, ainda que não saiba a causa da confirmação nela.
הָאֱמוּנָה בְּדָבָר הוּא הִצְטַיֵּר הַדָּבָר בַּנֶּפֶשׁ צִיּוּר חָזָק עַד שֶׁלֹּא תְשַׁעֵר הַנֶּפֶשׁ בִּסְתִירָתוֹ בְּשׁוּם פָּנִים, אַף אִם לֹא יִוָּדַע דֶּרֶךְ הָאֲמוּת בּוֹ, כְּמוֹ שֶׁלֹּא תְשַׁעֵר הַנֶּפֶשׁ בִּסְתִירַת הַמּוּשְׂכָּלוֹת הָרִאשׁוֹנוֹת, אוֹ מַה שֶּׁהֻשַּׂג מִן הַחוּשׁ וְאִמֵּת אוֹתוֹ הַנִּסָּיוֹן.
2 E a fé recai sobre toda coisa que não se alcançou ao crente do lado do sentido, mas se alcançou a algum homem desejável e aceito, ou a muitos homens de grande divulgação — a saber que aquela coisa, ou o que se lhe assemelha, foi alcançada em algum tempo pelo sentido, e decorreu a tradição ao crente daquele homem ou daqueles homens, como uma tradição que decorre de pai para filho. E isto, sem dúvida, é cabido crer nele como próximo ao que o sentido testemunhou àquele crente, ainda que o intelecto não o confirme. Como o que se confirmou pela experiência de que o Nome, bendito seja, faz profetizar a quem quiser dos filhos do homem, sem que o precedam as preparações naturais que os nossos mestres, de abençoada memória, contaram serem necessárias acharem-se no profeta a fim de que a profecia recaia sobre ele — disseram em Nedarim, capítulo "Ein bein", que a profecia não recai senão sobre um sábio, herói, rico, de boa estatura etc.; e mesmo assim confirmou-se pela experiência, na hora da doação da Torá, que todo Israel — os seus sábios e os seus tolos, e os de baixa estatura com os de alta estatura, e os de coração mole com os heróis, e o rico e o pobre — todos chegaram ao grau da profecia e ouviram a voz do D'us vivo a falar do meio do fogo, como testemunhou a Escritura ao dizer "estas palavras falou o Senhor a toda a vossa assembleia no monte, do meio do fogo, da nuvem e da névoa, com voz grande, e não cessou" etc. (Deuteronômio 5:19).
וְהָאֱמוּנָה תִּפֹּל בְּכָל דָּבָר שֶׁלֹּא הֻשַּׂג לַמַּאֲמִין מִצַּד הַחוּשׁ, אֲבָל נִמְשְׁכָה הַקַּבָּלָה לוֹ מֵאָב לְבֵן. כְּמוֹ שֶׁנִּתְאַמֵּת בְּנִסָּיוֹן בְּשַׁעַת מַתַּן תּוֹרָה שֶׁכָּל יִשְׂרָאֵל הִגִּיעוּ לְמַעֲלַת הַנְּבוּאָה וְשָׁמְעוּ קוֹל אֱלֹהִים חַיִּים, ״אֶת הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה דִּבֶּר ה׳ אֶל כָּל קְהַלְכֶם״.
3 E disse Moisés, para despertar a atenção sobre esta maravilha, "porventura ouviu algum povo a voz de D'us a falar do meio do fogo, como tu ouviste, e viveu?" (Deuteronômio 4:33). E, ainda que o intelecto recuse isto, eis que é verdade absoluta, visto que a experiência o testemunhou e veio a tradição nisto, decorrendo de pai para filho — e por isso é impossível negá-lo; pois está claro que não há no mundo quem ame o homem mais que o seu pai, e por isso a tradição que vem decorrendo de pai para filho é cabido que aquela coisa se represente no coração do filho com uma representação forte, tal que não se imagine a sua remoção, como se ele mesmo tivesse alcançado isto pelo sentido — visto que está claro que o pai não quer legar aos seus filhos a falsidade. Conforme as palavras do salmista "ó D'us, com os nossos ouvidos ouvimos, os nossos pais nos contaram" etc., "tu, com tua mão, desapossaste as nações e os plantaste" etc., "pois não pela sua espada herdaram a terra" etc., "tu és o meu rei, ó D'us; ordena as salvações de Jacó" (Salmos 44:2-5). Quer dizer: visto que assim recebemos esta coisa — a saber que a vitória de Israel sobre as nações no tempo passado não era uma coisa natural, pois "não pela sua espada herdaram a terra, e o seu braço não os salvou" —, e esta tradição "os nossos pais nos contaram", é impossível hesitar nela e suspeitar deles de que nos legariam a falsidade; e, se é assim, visto que tu foste a causa do princípio da sua felicidade, também agora "ordena as salvações de Jacó", visto que "tu és o meu rei, ó D'us", tal que tens poder sobre isto — do que se vê de tudo isto que a tradição que decorre de pai para filho é cabido que seja recebida.
וְאַף עַל פִּי שֶׁהַשֵּׂכֶל יְמָאֵן זֶה, הִנֵּה הוּא אֱמֶת גָּמוּר, אַחַר שֶׁהֵעִיד עָלָיו הַנִּסָּיוֹן וּבָאָה הַקַּבָּלָה נִמְשֶׁכֶת מֵאָב אֶל בֵּן. כִּי אֵין בָּעוֹלָם מִי שֶׁיֶּאֱהַב אֶת הָאָדָם יוֹתֵר מֵאָבִיו, וְאֵין הָאָב רוֹצֶה לְהַנְחִיל אֶת בָּנָיו שֶׁקֶר. ״אֱלֹהִים בְּאָזְנֵינוּ שָׁמַעְנוּ אֲבוֹתֵינוּ סִפְּרוּ לָנוּ״.
4 E porque é impossível à religião divina subsistir sem ela a tradição, a Escritura ordenou sobre ela e disse "pergunta a teu pai, e ele te declarará; aos teus anciãos, e eles te dirão" (Deuteronômio 32:7); e impôs morte ao que transgride as palavras da tradição dos sábios — disse "não te desviarás da coisa que te declararem, nem para a direita nem para a esquerda", "e o homem que agir com soberba, a fim de não obedecer" etc., "e morrerá aquele homem" (Deuteronômio 17:11-12); e advertiu sobre a honra dos pais, e ordenou castigar o filho rebelde e contumaz ben sorer umoreh, porque a tradição do pai está próxima ao que se alcançou pelo sentido, tal que a fé nele é obrigatória, ainda que o intelecto o afaste. E por este modo recai a fé, em todo tempo, sobre as coisas que não se alcançaram então pelo sentido nem por uma confirmação intelectual, mas pela tradição que decorre.
וּלְפִי שֶׁאִי אֶפְשָׁר לַדָּת הָאֱלֹהִית לְהִתְקַיֵּם זוּלָתָהּ, צִוָּה עָלֶיהָ הַכָּתוּב ״שְׁאַל אָבִיךָ וְיַגֵּדְךָ זְקֵנֶיךָ וְיֹאמְרוּ לָךְ״, וְחִיְּבָה מִיתָה לָעוֹבֵר עַל דִּבְרֵי קַבָּלַת הַחֲכָמִים. כִּי קַבָּלַת הָאָב קְרוֹבָה לְמַה שֶּׁהֻשַּׂג בְּחוּשׁ.
Albo define emuná não como assentimento voluntário, mas como um estado da alma: a representação de algo tão firme que a mente já não consegue conceber o contrário. É a mesma certeza que temos dos axiomas lógicos, dos dados dos sentidos ou dos resultados da experiência — mesmo sem saber a causa da certeza. A fé religiosa, assim, não é inferior ao conhecimento: é da mesma natureza psicológica, apenas com outra fonte.
A fonte da fé é a tradição (kabbalá): aquilo que eu não percebi, mas que foi percebido pelos sentidos de testemunhas fidedignas e me chegou transmitido. Para tornar isso confiável, Albo invoca um argumento moral notável: ninguém ama o filho mais que o pai, e ninguém quer legar ao filho uma mentira. Uma tradição transmitida de pai para filho, geração após geração, sobre um evento público, carrega por isso uma certeza quase tão forte quanto a percepção direta.
O conteúdo central dessa fé é a profecia coletiva do Sinai. Os sábios ensinam que a profecia exige preparo extraordinário (sabedoria, força, riqueza — Nedarim 38a); contudo, "experimentalmente", no Sinai todo Israel profetizou — sábios e tolos, fortes e fracos, ricos e pobres. Esse evento sem paralelo ("ouviu algum povo a voz de D'us e viveu?") é, justamente por ser público e transmitido sem interrupção, imune à dúvida — ainda que o intelecto, sozinho, o recusasse.
O capítulo encerra com uma leitura funcional dos mandamentos: por que a Torá impõe seguir os anciãos ("pergunta a teu pai"), pune com morte quem desafia os sábios, e ordena honrar os pais e punir o "filho rebelde"? Porque a religião revelada só pode subsistir pela transmissão fiel. Esses mandamentos protegem o canal — a cadeia de pais e mestres — pelo qual a verdade do Sinai chega intacta a cada geração. A reverência à tradição não é conservadorismo: é a condição de possibilidade da própria fé.
Quanto mais ampla e pública a percepção de uma coisa, mais firme a fé nela. Por isso D'us quis que a Torá fosse dada com publicidade imensa — diante de seiscentos mil — e não em segredo aos patriarcas: para que nenhuma dúvida restasse aos receptores nem às gerações futuras. Só uma lei dada com tal publicidade pode ser divina.
Quanto mais ampla e pública a percepção de uma coisa, mais firme a fé nela. Por isso D'us quis que a Torá fosse dada com publicidade imensa — diante de seiscentos mil — e não em segredo aos patriarcas: para que nenhuma dúvida restasse aos receptores nem às gerações futuras. Só uma lei dada com tal publicidade pode ser divina.
1 Tudo o que se alcançou pelo sentido a algum homem desejável e aceito mais que a outros, tal que não se achou quem o contradiga, ou que se alcançou a homens perfeitos na apreensão mais que outros, ou a homens numerosos mais que outros — a sua crença será mais aceita e mais assentada no coração, e a fé nele recairá no auge da firmeza. E por causa disto o Nome, bendito seja, quis que a Torá fosse dada pela mão de Moisés com uma grande divulgação e uma multidão imensa, de seiscentos mil — número que, conforme a opinião dos sábios da Cabala, é um número que abrange todas as feições partzufim, e tal que é impossível achar uma divulgação maior que ele, ainda que o seu número seja maior.
כָּל מַה שֶּׁהֻשַּׂג בְּחוּשׁ לְאִישׁ מָה רָצוּי, אוֹ לַאֲנָשִׁים רַבֵּי הַמִּסְפָּר, תִּהְיֶה הַאֲמָנָתוֹ יוֹתֵר מִתְקַבֶּלֶת בַּלֵּב. וּבַעֲבוּר זֶה רָצָה הַשֵּׁם שֶׁתִּנָּתֵן הַתּוֹרָה בְּפַרְסוּם גָּדוֹל וְרִבּוּי עָצוּם מִשִּׁשִּׁים רִבּוֹא, וְאִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּמָּצֵא פִּרְסוּם יוֹתֵר גָּדוֹל מִמֶּנּוּ.
2 E, conforme a opinião dos nossos mestres, de abençoada memória, aquela divulgação foi a todo o mundo. Disseram: "'O Senhor veio do Sinai, e resplandeceu de Seir para eles, brilhou do monte Parã' (Deuteronômio 33:2) — que tinha o Senhor a fazer em Seir, e que a fazer em Parã? Mas isto ensina que o Santo, bendito seja, fez girar a Torá sobre todo o mundo, e não a receberam, até que vieram os israelitas e a receberam" etc. E a sua explicação é que, visto que havia no mundo setenta nações e a Escritura não mencionou delas senão Seir e Parã, sem dúvida não veio para indicar o monte Seir e o deserto de Parã, mas para aludir a todo o mundo. Quer dizer: porque o Santo, bendito seja, previu que estavam por se levantar no mundo fundadores de religiões em Seir — que é a nação de Edom e os que a ela se associam — e em Parã — que é a nação de Ismael e os que a ela se associam —, sendo estas duas nações que abrangem todo o mundo, e sendo elas da semente de Abraão, que foi o cabeça dos crentes —, por isso divulgou-lhes a doação da Torá a Israel, para indicar que a religião divina precisa que a sua doação se divulgue com uma grande divulgação; e toda religião cuja doação não se divulgar com uma grande divulgação como esta não é divina. E isto é assim porque a coisa que se ordena ao profeta entre ele e o Nome tem apreensão ou dúvida para outro naquela tradição — e até para os que estão naquela geração, e com muito mais razão para os que vêm depois deles; pois eis que Moisés, nosso mestre, não creram os israelitas na sua profecia com uma crença completa até o dia da doação da Torá, quando ouviram a voz a falar com ele, como escrevemos.
וּלְפִי דַעַת רַבּוֹתֵינוּ ז״ל הָיָה הַפִּרְסוּם הַהוּא לְכָל הָעוֹלָם, ״ה׳ מִסִּינַי בָּא וְזָרַח מִשֵּׂעִיר לָמוֹ הוֹפִיעַ מֵהַר פָּארָן... מְלַמֵּד שֶׁהֶחֱזִיר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת הַתּוֹרָה עַל כָּל הָעוֹלָם וְלֹא קִבְּלוּהָ עַד שֶׁבָּאוּ יִשְׂרָאֵל וְקִבְּלוּהָ״. וְכָל דָּת שֶׁלֹּא תִתְפַּרְסֵם נְתִינָתָהּ פִּרְסוּם גָּדוֹל כָּזֶה אֵינֶנָּה אֱלֹהִית.
3 E por causa disto não foi dada a Torá em sua completude a Abraão, ou a Isaque, ou a Jacó, para que a ordenasse a seus filhos e à sua casa depois dele, a fim de que guardassem o caminho do Senhor; pois, ainda que a tradição fosse deles decorrendo de pais para filhos, já seria possível que recaísse apreensão e dúvida no coração dos que decorrem depois deles nas gerações vindouras, por serem os receptores indivíduos isolados — o que não é assim numa coisa que se esclarece pelo sentido a homens muito numerosos, entre os quais havia homens sábios e entendidos e com muitas opiniões diferentes. E por isso foi dada a Torá pela mão de Moisés, nosso mestre, com uma grande divulgação como esta, como dissemos, a fim de que não reste apreensão e dúvida alguma no coração dos receptores e dos que a eles se associam, nem no coração dos que vêm depois deles de modo algum, e a fim de que a tradição seja correta e verdadeira no auge do que é possível.
וּבַעֲבוּר זֶה לֹא נִתְּנָה הַתּוֹרָה בִּשְׁלֵמוּת לְאַבְרָהָם אוֹ לְיִצְחָק אוֹ לְיַעֲקֹב, כִּי לִהְיוֹת הַמְקַבְּלִים יְחִידִים, הָיָה אֶפְשָׁר שֶׁיִּפֹּל סָפֵק בְּלֵב הַבָּאִים אַחֲרֵיהֶם. מַה שֶּׁאֵין כֵּן בְּדָבָר הַמִּתְבָּרֵר בְּחוּשׁ לַאֲנָשִׁים רַבֵּי הַמִּסְפָּר מְאֹד.
4 E é isto o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no Tratado Avodá Zará: "No porvir, o Santo, bendito seja, traz um rolo da Torá e o põe no seu seio, e diz: 'todo o que se ocupou nisto, venha e tome a sua recompensa'; imediatamente se reúnem todas as nações adoradoras de idolatria e entram diante dele em confusão, como se disse 'todas as nações se reuniram juntas, e os povos se ajuntaram; quem entre vós anunciará isto?' (Isaías 43:9), e 'isto' não é senão a Torá" etc. A sua intenção é dizer que, no porvir, o Nome trará todas as nações adoradoras de idolatria a juízo por não terem cumprido uma Torá divina; e é isto o que disseram, a saber que o Santo, bendito seja, lhes dirá "em que vos ocupastes?", e elas dirão que se ocuparam de coisas que são para o estabelecimento do mundo, como se menciona naquela hagadá com amplitude; e ao fim o Santo, bendito seja, lhes responde que tudo o que fizeram, não o fizeram pelo estabelecimento do mundo, mas para a necessidade de si mesmas; "acaso há entre vós quem anuncie isto?" etc. — quer dizer, acaso há entre vós quem diga que cumpriu uma Torá divina? E elas responderão e dirão diante dele que, assim como os israelitas têm de receber recompensa pelo cumprimento da sua Torá que cumpriram do lado da sua tradição, assim cabe a elas receber recompensa pelo cumprimento da sua Torá que cumpriram do lado da sua tradição. E o Nome lhes responderá "quem entre vós anunciará isto, e as coisas primeiras nos fará ouvir? Deem as suas testemunhas, e se justifiquem" (Isaías 43:9) — quer dizer: as nações que dizem que se apoiaram na sua tradição, "as coisas primeiras nos façam ouvir", quer dizer, cabe a elas que nos façam conhecer os princípios da sua religião, que receberam e nos quais se apoiaram, como se esclareceram; se se esclareceram pelo sentido e com grande divulgação, como se esclareceram os princípios da Torá de Moisés, "deem as suas testemunhas, e se justifiquem", e ouçam os receptores e digam "é verdade" — assim como darão as suas testemunhas os receptores da Torá de Moisés, cujos princípios da sua religião se divulgaram nos seiscentos mil que receberam a Torá. E é isto o que concluiu a Escritura "vós sois as minhas testemunhas, diz o Senhor" (Isaías 43:10) — quer dizer, todo Israel são testemunhas na doação da Torá vinda do Céu, pois eles ouviram a voz do Senhor D'us a falar-lhes os dez mandamentos; "e o meu servo a quem escolhi" alude a Moisés, que se chama servo do Senhor; e "todos vós sois testemunhas" de que a Torá é da parte do Senhor, vinda do Céu.
וְזֶהוּ מַה שֶּׁאָמְרוּ בְּמַסֶּכֶת עֲבוֹדָה זָרָה, ״לֶעָתִיד לָבֹא מֵבִיא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא סֵפֶר תּוֹרָה... מִי בָכֶם יַגִּיד זֹאת, וְאֵין זֹאת אֶלָּא תּוֹרָה״. וְהַשֵּׁם יָשִׁיב ״מִי בָכֶם יַגִּיד זֹאת וְרִאשֹׁנוֹת יַשְׁמִיעֻנוּ יִתְּנוּ עֵדֵיהֶם וְיִצְדָּקוּ״, ״אַתֶּם עֵדַי נְאֻם ה׳״ — כָּל יִשְׂרָאֵל עֵדִים בִּנְתִינַת הַתּוֹרָה.
5 Esta é uma interpretação admirável nestes versículos, conforme o modo como os entenderam os nossos mestres, de abençoada memória, a saber que a Escritura fala da recompensa da Torá em geral; e ela concorda com a verdade, pois, por serem os princípios da Torá esclarecidos com grande divulgação, é impossível que recaia dúvida na sua verdade. E por isso cabe que a fé na Torá de Moisés esteja no auge da firmeza — e com muito mais razão por serem os seus princípios esclarecidos com uma clareza na qual não há que duvidar, como explicamos nos capítulos 17 e 18 deste discurso.
זֶהוּ פֵּרוּשׁ נִפְלָא בְּאֵלּוּ הַפְּסוּקִים, וְהוּא מַסְכִּים לָאֱמֶת, כִּי לִהְיוֹת הַתְחָלוֹת הַתּוֹרָה מִתְבָּאֲרוֹת בְּפַרְסוּם גָּדוֹל, אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּפֹּל סָפֵק בַּאֲמִתָּתָן. וְלָזֶה רָאוּי שֶׁתִּהְיֶה הָאֱמוּנָה בְּתוֹרַת מֹשֶׁה בְּתַכְלִית הַחֹזֶק.
Albo desenvolve aqui um dos argumentos clássicos da apologética judaica: o que distingue a revelação do Sinai é a sua publicidade. Quanto mais ampla e diversa a testemunha de um evento, mais inabalável a fé nele. A Torá não foi confiada a um único profeta em segredo, mas dada diante de seiscentos mil — número que a Cabala vê como abrangendo "todas as feições" da alma de Israel, uma plenitude que torna impossível conluio ou engano.
Daí a resposta a uma pergunta natural: por que a Torá completa não foi dada a Abraão, Isaque ou Jacó, que a transmitiriam a seus descendentes? Porque eles eram indivíduos isolados — e uma tradição que nasce de um único receptor sempre deixa margem à dúvida nas gerações seguintes. Só um evento testemunhado por uma multidão imensa, incluindo sábios e céticos de toda sorte, gera uma cadeia de transmissão à prova de suspeita.
O midrash de que D'us "ofereceu a Torá a todo o mundo" antes de Israel aceitá-la, Albo lê com finura histórica: Seir (Edom/cristianismo) e Parã (Ismael/islã) são as duas religiões filhas de Abraão que viriam a abranger o mundo. A revelação foi divulgada a elas justamente para estabelecer o critério: toda lei que se diz divina mas não foi dada com publicidade comparável não é divina. É um critério que Albo, veterano da Disputa de Tortosa, maneja com intenção polêmica clara.
O capítulo culmina na leitura do drama escatológico de Avodá Zará 2b à luz de Isaías 43. No juízo futuro, as nações reivindicarão recompensa alegando ter cumprido suas tradições. A resposta divina é processual: "deem as suas testemunhas" — mostrem que os fundamentos da sua religião foram estabelecidos publicamente, pelo testemunho dos sentidos, como os de Israel. Só Israel pode responder "vós sois as minhas testemunhas", pois todo o povo ouviu a voz no Sinai. A publicidade da revelação não é só prova de fé — é título jurídico diante do tribunal da história.
A fé em D'us e na sua Torá é o que conduz o homem à felicidade eterna e ao apego da alma ao espiritual. A prova é a experiência: só os crentes — profetas e piedosos — alcançam o apego que muda a natureza e opera milagres. A fé está acima do conhecimento investigativo e acima da própria natureza; por ela "o justo vive".
A fé em D'us e na sua Torá é o que conduz o homem à felicidade eterna e ao apego da alma ao espiritual. A prova é a experiência: só os crentes — profetas e piedosos — alcançam o apego que muda a natureza e opera milagres. A fé está acima do conhecimento investigativo e acima da própria natureza; por ela "o justo vive".
1 A fé no Nome, bendito seja, e na sua Torá é a que traz o homem à felicidade eterna e ao apego devekut da alma à coisa espiritual; e esta é uma coisa que a experiência confirmou, conforme o que veio nela pela tradição que decorre. Pois jamais se achou a um dos filósofos nem a investigador algum que alcançasse o grau da profecia — que é o apego do espírito divino ao intelecto humano —, como se achou aos adeptos da Torá, cujo intelecto se apegou ao Nome com um apego forte, até que chegou, do seu apego, o poder de mudar a natureza da existência a fim de fazer o seu desejo e a sua vontade, e renovam no mundo sinais e prodígios muito mais poderosos contra a natureza da existência. Pois acha-se que os profetas decretam uma palavra e o Nome a cumpre conforme tudo o que sai da sua boca: achas Elias, que fez descer o fogo para baixo, o oposto da sua natureza — disse "e, se sou homem de D'us, desça fogo dos céus" (II Reis 1:10), e assim foi —, e fendeu as águas do Jordão; e Eliseu curou a lepra de Naamã e ressuscitou o morto em sua vida e até após a sua morte; e como estas, muitas houve com ele e com os demais profetas. E acha-se também a todos os crentes que os piedosos chassidim, ainda que não sejam profetas, mudam a natureza na sua oração ou esta se muda por causa deles — pois eis que Hananiá, Mishael e Azariá foram lançados ao fogo e não se queimaram, e Rabi Chanina ben Dosa e Rabi Pinchas ben Yair renovaram no mundo coisas na mudança da natureza e do costume do mundo. E isto é um sinal de que o crente no Nome e na sua Torá está acima da natureza e não é subjugado à natureza da existência, mas a natureza da existência está submissa e subjugada a ele, e ele pode mudá-la conforme o seu desejo e a sua vontade.
הָאֱמוּנָה בַּשֵּׁם וּבְתוֹרָתוֹ הִיא הַמְּבִיאָה אֶת הָאָדָם אֶל הַהַצְלָחָה הַנִּצְחִית וְאֶל דְּבֵקוּת הַנֶּפֶשׁ בַּדָּבָר הָרוּחָנִי. כִּי לֹא נִמְצָא לְשׁוּם פִילוֹסוֹף שֶׁיַּשִּׂיג לְמַעֲלַת הַנְּבוּאָה, כְּמוֹ שֶׁנִּמְצָא לְבַעֲלֵי הַתּוֹרָה. וְהַחֲסִידִים אַף עַל פִּי שֶׁאֵינָם נְבִיאִים יְשַׁנּוּ הַטֶּבַע בִּתְפִלָּתָם, כַּחֲנַנְיָה מִישָׁאֵל וַעֲזַרְיָה. וְזֶה אוֹת כִּי הַמַּאֲמִין בַּשֵּׁם הוּא לְמַעְלָה מִן הַטֶּבַע.
2 E isto é uma prova e um cadinho mivchan umetzaref de ser a Torá da parte do Senhor, vinda do Céu — visto que ele, bendito seja, é refúgio, abrigo e escudo para os que se refugiam nele e para os que guardam a sua aliança e os seus mandamentos. E é isto o que disse David "a palavra do Senhor é purificada; Ele é escudo para todos os que se refugiam nele" (Salmos 18:31) — quer dizer, que a prova de que a Torá do Senhor é purificada e limpa de toda escória e de toda deficiência e de todo gênero de suspeita é que ele, exaltado seja, é escudo para os que se refugiam nele, e faz a vontade dos que o temem, e ouve o seu clamor, e cumpre a palavra do seu servo e completa o conselho dos seus mensageiros.
וְזֶה מִבְחָן אֶל הֱיוֹת הַתּוֹרָה מֵאֵת ה׳ מִן הַשָּׁמַיִם, אַחֲרֵי שֶׁהוּא מַחֲסֶה וּמָגֵן לַחוֹסִים בּוֹ. וְזֶהוּ ״אִמְרַת ה׳ צְרוּפָה מָגֵן הוּא לְכֹל הַחוֹסִים בּוֹ״.
3 E esta é uma prova do apego da alma após a morte aos seres espirituais, pois o apego na vida é indicação do apego após a morte. E a isto aludiu Moisés ao dizer "e vós, os apegados ao Senhor, vosso D'us, estais vivos todos vós hoje" (Deuteronômio 4:4) — quer dizer: o filósofo crê no apego de um único homem perfeito aos seres espirituais, mas não de toda a congregação como um só; mas vós, todos vós estais apegados ao Nome. E também o filósofo crê que isto só será após a morte, na vida espiritual; mas vós alcançais este apego hoje, estando nesta vida corporal — e com muito mais razão o alcançareis após a morte. E trouxe prova de que este apego é alcançado em vida a partir da aceitação da oração — a saber que o Nome aceita a oração dos que oram diante dele, a fim de mudar a natureza da existência e o seu costume. E é isto o que ele juntou a isto: "pois que nação grande há que tenha um D'us próximo a ela como o Senhor, nosso D'us, em todo o nosso chamar a ele?" (Deuteronômio 4:7).
וְזוֹ הִיא רְאָיָה אֶל דְּבֵקוּת הַנֶּפֶשׁ אַחַר הַמָּוֶת, כִּי הַדְּבֵקוּת בַּחַיִּים הוֹרָאָה עַל הַדְּבֵקוּת אַחַר הַמָּוֶת. ״וְאַתֶּם הַדְּבֵקִים בַּה׳ אֱלֹהֵיכֶם חַיִּים כֻּלְּכֶם הַיּוֹם״, וְאַתֶּם מַשִּׂיגִים הַדְּבֵקוּת הַזֶּה הַיּוֹם בְּחַיִּים הַגַּשְׁמִיִּים.
4 E tudo isto é prova de que a fé no Nome e na sua Torá é a que dá perfeição à alma e apego aos seres superiores, até que a natureza se submeta a ela a fim de fazer a sua vontade — porque a sua alma se eleva, por meio da fé, a um grau que está acima das coisas naturais, e por isso domina sobre elas. E por causa disto foi louvado Abraão, nosso pai, a paz esteja sobre ele, pela fé — disse a Escritura "e creu no Senhor, e Ele lhe imputou isto como justiça" (Gênesis 15:6); e foram castigados Moisés e Aarão por não terem crido — disse a Escritura "visto que não crestes em mim, a fim de me santificar" etc., "por isso não fareis entrar" (Números 20:12); e disse-se "crede nos seus profetas, e prosperareis" (II Crônicas 20:20), o que indica que a fé é causa da prosperidade. E assim é causa da vida eterna, conforme as palavras de Habacuque "e o justo, pela sua fé, viverá" (Habacuque 2:4); e não quer com isto a vida corporal, pois o justo não vive nela mais que o ímpio, mas alude com isto à vida eterna, que é a vida da alma na qual os justos vivem, e eles confiam no Nome, bendito seja, de que a alcançarão; disse a Escritura "e há refúgio na sua morte para o justo" (Provérbios 14:32) — quer dizer, que o justo confia em que alcançará aquele bem na sua morte; mas o ímpio, na sua morte, perde a sua esperança — disse a Escritura "na morte do homem ímpio perece a esperança" etc. (Provérbios 11:7). Pois os ímpios não alcançarão aquela vida após a morte, e na sua vida não alcançam apego algum, e por isso são considerados sempre como mortos — como disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "Os justos, mesmo na sua morte, são chamados vivos; e os ímpios, mesmo na sua vida, são chamados mortos." E por isso achas os sinais e prodígios a serem feitos aos adeptos da fé, não aos adeptos do conhecimento investigativo, para indicar que a fé está acima do conhecimento investigativo e acima das coisas naturais; e por isso se alcança por meio dela o apego verdadeiro em vida e após a morte, como escrevemos — e a saber que isto é uma coisa acima das coisas naturais.
וְכָל זֶה רְאָיָה כִּי הָאֱמוּנָה הִיא הַנּוֹתֶנֶת שְׁלֵמוּת בַּנֶּפֶשׁ. וּבַעֲבוּר זֶה נִשְׁתַּבַּח אַבְרָהָם ״וְהֶאֱמִן בַּה׳ וַיַּחְשְׁבֶהָ לּוֹ צְדָקָה״. וְהִיא סִבַּת הַחַיִּים הַנִּצְחִיִּים, ״וְצַדִּיק בֶּאֱמוּנָתוֹ יִחְיֶה״ — חַיֵּי הַנֶּפֶשׁ. ״צַדִּיקִים אֲפִלּוּ בְּמִיתָתָן קְרוּיִין חַיִּים וּרְשָׁעִים אֲפִלּוּ בְּחַיֵּיהֶן קְרוּיִין מֵתִים״. וְהָאוֹתוֹת נַעֲשִׂים לְבַעֲלֵי הָאֱמוּנָה, לֹא לְבַעֲלֵי הַיְדִיעָה הַמַּחְקָרִית.
Depois de definir a fé como estado cognitivo (cap. 19), Albo revela aqui a sua dimensão mais alta: a fé é transformadora. Ela não apenas representa a verdade na alma — ela eleva a alma acima da natureza, a ponto de a natureza submeter-se a ela. O crente apegado a D'us (devekut) participa de uma ordem superior à física, e por isso pode mudá-la. É a base metafísica do milagre.
Coerente com a sua epistemologia da experiência (cap. 17), Albo apresenta uma prova observável: nunca um filósofo, por maior que fosse, alcançou a profecia ou operou prodígios — ao passo que os homens de fé o fizeram. Elias faz descer fogo, Eliseu ressuscita mortos; e até piedosos que não eram profetas (Hananiá-Mishael-Azariá nas chamas, Chanina ben Dosa) alteram a natureza pela oração. O milagre, aqui, não é argumento de autoridade externo — é demonstração de que a fé conecta a uma realidade acima da natureza.
A leitura de "vós, os apegados ao Senhor, estais vivos hoje" (Dt 4:4) marca a diferença entre o filósofo e a Torá. O filósofo concede que um sábio excepcional possa unir-se ao divino, e só após a morte. A Torá afirma que todo o povo já alcança esse apego em vida — provado pela oração atendida. E o apego presente é penhor do apego futuro: "o apego na vida é indicação do apego após a morte".
O capítulo culmina no versículo de Habacuque, que Albo lê não sobre a vida corporal (onde justo e ímpio morrem igualmente) mas sobre a vida eterna da alma. A fé é o que garante a felicidade após a morte — por isso Abraão foi louvado por crer, e Moisés e Aarão punidos por um momento de descrença. A máxima rabínica "os justos, mesmo mortos, são chamados vivos; os ímpios, mesmo vivos, são chamados mortos" sela a tese central do livro: a verdadeira felicidade — a sobrevivência da alma — pende da fé, e essa é a finalidade última que só a lei divina pode oferecer. (Albo refere este capítulo em vários pontos como a prova de que os milagres atestam a recompensa do mundo vindouro.)
Nem toda fé conduz à felicidade — só a fé no que é verdadeiro. Mas como saber se algo é verdadeiro em si, se o conhecimento racional não pode estar acima da fé? Albo resolve distinguindo dois tipos de impossível: o absoluto (a contradição lógica, sobre a qual nem D'us tem poder) e o impossível apenas para a natureza (o milagre, que cabe ao poder infinito).
Nem toda fé conduz à felicidade — só a fé no que é verdadeiro. Mas como saber se algo é verdadeiro em si, se o conhecimento racional não pode estar acima da fé? Albo resolve distinguindo dois tipos de impossível: o absoluto (a contradição lógica, sobre a qual nem D'us tem poder) e o impossível apenas para a natureza (o milagre, que cabe ao poder infinito).
1 Não é a fé em toda coisa que traz à felicidade, pois a fé nos absurdos impossíveis não é do que torna o homem feliz. E esta é uma coisa na qual nenhum homem duvidará: que a fé que cabe que torne o homem feliz é a fé na coisa verdadeira que é verdadeira apenas — não a fé no que não existe como se existisse, e no que existe como se não existisse. E, se é assim, cabe ao que pergunta que pergunte e diga: de onde se sabe se a coisa em que a fé recai é verdadeira em si mesma — a fim de que creiamos nela com uma fé completa — ou não é verdadeira — a fim de que afastemos a sua crença? E, se dissermos que isto se alcança do lado da especulação do intelecto, então será o conhecimento investigativo yediá mechkarit acima da fé — e isto é o oposto do que se estabeleceu acima no cap. 21; e esta é uma dúvida forte na qual cabe que nos esforcemos em resolvê-la.
אֵין הָאֱמוּנָה בְּכָל דָּבָר תָּבִיא אֶל הַהַצְלָחָה, כִּי הָאֱמוּנָה שֶׁרָאוּי שֶׁתָּשִׂים אֶת הָאָדָם מַצְלִיחַ הִיא הָאֱמוּנָה בַּדָּבָר הָאֲמִתִּי בִּלְבַד. וְאִם נֹאמַר שֶׁזֶּה יֻשַּׂג מִצַּד עִיּוּן הַשֵּׂכֶל, אִם כֵּן תִּהְיֶה הַיְדִיעָה הַמַּחְקָרִית לְמַעְלָה מִן הָאֱמוּנָה, וְזֶה סָפֵק חָזָק רָאוּי שֶׁנִּשְׁתַּדֵּל בְּהַתָּרָתוֹ.
2 E digamos que os absurdos impossíveis nimna'ot são de dois gêneros: ou impossíveis subsistentes em si mesmos, tais que o Nome não se descreve com poder sobre o seu oposto — como o de que o todo é maior que a parte, ou de que o diâmetro do quadrado é maior que o seu lado; pois o Nome não se descreve com poder sobre fazer que a parte seja igual ao todo, ou que o diâmetro do quadrado seja igual ao seu lado, ou que os ângulos do triângulo sejam mais que dois ângulos retos, ou que dois opostos se reúnam juntos num mesmo sujeito num mesmo tempo, ou que a afirmação e a negação sejam verdadeiras juntas sobre uma mesma coisa de um mesmo lado. E em coisas como estes impossíveis é impossível que venha a tradição a fim de crer na sua existência nem no que é da sua espécie, e é impossível supor que o sentido testemunhe jamais sobre a existência disto nem do que se lhe assemelha, visto que é impossível ao intelecto representar a sua existência. E por isso não é cabível que a fé venha sobre isto nem sobre o que se lhe assemelha — assim como é impossível que venha a tradição a fim de crer em que o Nome se descreva como podendo criar outro semelhante a ele de todo lado, pois forçosamente um seria causa e um efeito, e não seria, então, semelhante a ele de todo lado.
וְהַנִּמְנָעוֹת שְׁנֵי מִינִים. אִם נִמְנָעוֹת קַיָּמוֹת בְּעַצְמָם שֶׁלֹּא יְתֹאַר הַשֵּׁם בִּיכֹלֶת עַל חִלּוּפָן, כְּמוֹ שֶׁהַכֹּל גָּדוֹל מִן הַחֵלֶק, אוֹ שֶׁיִּתְקַבְּצוּ שְׁנֵי הַהֲפָכִים יַחַד, אוֹ שֶׁיִּהְיוּ הַחִיּוּב וְהַשְּׁלִילָה צוֹדְקִים יַחַד. וּבְאֵלּוּ אִי אֶפְשָׁר שֶׁתָּבֹא הָאֱמוּנָה, אַחַר שֶׁאִי אֶפְשָׁר לַשֵּׂכֶל לְצַיֵּר מְצִיאוּתָם.
3 E há outro gênero dos impossíveis tal que é possível que o Nome se descreva com poder sobre o seu oposto — e são os impossíveis junto à natureza apenas. Pois estes e os que se lhes assemelham, ainda que sejam impossíveis junto à natureza, não são impossíveis no respeito do Criador — como a ressurreição dos mortos, e o achar-se um homem que permanece quarenta dias e quarenta noites sem comer e beber, e o que se lhe assemelha dentre o gênero das maravilhas que são impossíveis junto à natureza. E neste segundo gênero dos impossíveis é possível que venha a fé nele, visto que é possível ao intelecto representar a sua existência. E por isso dizemos que tudo o que é possível que se represente a sua existência junto ao intelecto, ainda que seja impossível junto à natureza, é possível que venha a fé nele — a saber que isto já existiu no passado, ou que existe agora, ou que existirá no futuro; e com muito mais razão se a experiência testemunhou sobre isto, ainda que o intelecto negue a confirmação da sua existência por não saber a sua causa, pois é possível que venha a fé nele — como a atração do ímã magnes ao ferro, na qual o intelecto não pode dar a causa da sua existência, mas a nega; mas, visto que a experiência testemunhou sobre ela, e é uma coisa que se representa a sua existência no intelecto, ainda que o intelecto não saiba confirmar a causa da sua existência, é verdade sem dúvida. E assim o que o sentido testemunhou dentre os gêneros das maravilhas — como a ressurreição dos mortos pela mão de Eliseu em sua vida e em sua morte, e como a permanência de um homem nascido de mulher quarenta dias e quarenta noites sem comer e beber, como Moisés e Elias, e como a descida do fogo dos céus, e o habitar da Presença Shechiná em Israel, e o que se lhe assemelha dentre o gênero das maravilhas que o sentido testemunhou que foram em algum tempo, e que o intelecto pode representar a sua existência, ainda que não saiba confirmar a sua existência pela causa — tudo isto e o que se lhe assemelha é possível que venha a fé nele, e recai sob o poder sem fim hayecholet habilti baal tachlit.
וְיֵשׁ מִין אַחֵר מִן הַנִּמְנָעוֹת שֶׁאֶפְשָׁר שֶׁיְּתֹאַר הַשֵּׁם בִּיכֹלֶת עַל חִלּוּפָן, וְהֵן הַנִּמְנָעוֹת אֵצֶל הַטֶּבַע בִּלְבַד, כִּתְחִיַּת הַמֵּתִים. וְכָל מַה שֶּׁאֶפְשָׁר שֶׁיְּצֻיַּר מְצִיאוּתוֹ אֵצֶל הַשֵּׂכֶל, אַף עַל פִּי שֶׁיִּהְיֶה נִמְנָע אֵצֶל הַטֶּבַע, אֶפְשָׁר שֶׁתָּבֹא הָאֱמוּנָה בּוֹ, וְיִפֹּל תַּחַת הַיְכֹלֶת הַבִּלְתִּי בַעַל תַּכְלִית.
Albo enfrenta uma objeção que ele mesmo levanta com honestidade: se a fé está acima do conhecimento racional (cap. 21), mas só a fé no verdadeiro salva, então precisamos da razão para saber o que é verdadeiro — o que recolocaria a razão acima da fé. A "dúvida forte" ameaça toda a sua construção. A resposta está em delimitar com precisão o que a razão pode e não pode fazer.
Há um primeiro tipo de impossível: a contradição lógica — a parte ser igual ao todo, dois opostos coexistirem, afirmação e negação serem ambas verdadeiras. Sobre estes "nem D'us tem poder", não por limitação, mas porque não são sequer coisas — são não-sentidos que a mente não consegue representar. Aqui a razão é soberana: nenhuma tradição ou milagre pode fazer crer num quadrado redondo. (Belo exemplo: nem D'us pode criar outro ser idêntico a Ele "em todos os aspectos", pois um seria causa e o outro efeito — e já não seriam idênticos.)
Há um segundo tipo: o que é impossível para a natureza mas concebível pela razão — a ressurreição, o jejum de quarenta dias, o fogo do céu. Estes não contradizem a lógica; apenas excedem o curso natural. E é exatamente aqui que a fé opera legitimamente, ancorada no "poder sem fim" de D'us. A chave é o paralelo com o ímã: a razão não explica por que o ímã atrai o ferro, mas não pode negar o fato atestado pela experiência. O milagre é como o ímã — incompreensível na causa, mas certo no fato.
Assim Albo dissolve o paradoxo sem subordinar a fé à razão. A razão tem uma única função negativa: barrar a fé no logicamente impossível. Dentro do vasto campo do concebível-mas-supranatural, a fé reina soberana, sustentada pela tradição e pela experiência. A razão não valida os conteúdos da fé — apenas guarda a fronteira do absurdo. A felicidade vem da fé no verdadeiro; e "verdadeiro", aqui, significa tudo o que a mente pode conceber sem contradição, por mais que ultrapasse a natureza.
Há seis crenças que decorrem dos três princípios sem serem suas raízes — a Torá ainda se concebe sem elas, mas todo adepto da Torá de Moisés é obrigado a crê-las, e quem as nega é chamado herege e não tem parte no mundo vindouro: a criação, a supremacia da profecia de Moisés, a imutabilidade da Torá, a perfeição alcançável por um só mandamento, a ressurreição e a vinda do Messias.
Há seis crenças que decorrem dos três princípios sem serem suas raízes — a Torá ainda se concebe sem elas, mas todo adepto da Torá de Moisés é obrigado a crê-las, e quem as nega é chamado herege e não tem parte no mundo vindouro: a criação, a supremacia da profecia de Moisés, a imutabilidade da Torá, a perfeição alcançável por um só mandamento, a ressurreição e a vinda do Messias.
1 As crenças emunot que cabe crer a todo adepto da Torá de Moisés, que decorrem dos três princípios que estabelecemos — ainda que não sejam raízes deles — são seis.
הָאֱמוּנוֹת שֶׁרָאוּי לְהַאֲמִינָן כָּל בַּעַל תּוֹרַת מֹשֶׁה, שֶׁהֵן נִמְשָׁכוֹת לִשְׁלֹשָׁה עִקָּרִים שֶׁהִנַּחְנוּ, אַף עַל פִּי שֶׁאֵינָן שָׁרָשִׁים אֲלֵיהֶם, הֵן שֵׁשׁ.
2 A primeira delas é a criação do mundo a partir do nada chidush ha'olam yesh me'ayin; e isto é claro do seu assunto, a saber que é uma crença universal a uma Torá divina em geral e à Torá de Moisés em particular, ainda que não seja raiz dela nem princípio, pois já se concebe uma Torá divina em geral e a Torá de Moisés em particular sem a representação da criação a partir do nada, como explicamos no capítulo 12 deste discurso. Mas é um ramo que se ramifica do primeiro princípio, que é a existência de D'us. E isto é assim porque, depois que explicamos que ele, bendito seja, é removido das deficiências, se não pudesse criar a partir do nada, isto seria uma deficiência no seu respeito; pois não se pode dizer que não recaia sob o poder criar a partir do nada, mas só a partir de algo, já que, visto que se representa a sua existência junto ao intelecto, já é possível que venha a fé nela e recaia sob o poder sem fim. Pois eis que até os crentes na eternidade do mundo confessam que o Nome, bendito seja, conquanto sendo um intelecto simples, é a causa de tudo; e, se é assim, a matéria é um efeito dele, por meio do intelecto separado que é um efeito dele — e como seria o intelecto separado causa da existência da matéria se fosse impossível existir algo a partir do nada? Não há para ti criação a partir do nada maior que esta. E, se disseres que não se representa que Ele crie ou aja num tempo e não n'outro tempo, e por isso dirão que é forçoso que o mundo seja eterno — há que dizer que esta dúvida só é forçosa a um agente por via da necessidade chiyuv, mas não a um agente por via da vontade ratzon, pois a natureza da vontade assim impôs que Ele seja agente num tempo e não n'outro tempo, como explicou o Rav, o Guia, no capítulo 18 da Segunda Parte. E, depois que o Nome, bendito seja, por ser o mais escolhido dos agentes, cabe que seja agente por vontade e não por necessidade — como se explicará no Maamar II —, é forçoso, então, que caiba que faça existir o mundo num tempo e não n'outro, pois isto é uma coisa forçosa e decorrente da natureza da vontade.
הָאַחַת הִיא חִדּוּשׁ הָעוֹלָם יֵשׁ מֵאַיִן. וְהוּא עָנָף מִסְתָּעֵף מִן הָעִקָּר הָרִאשׁוֹן שֶׁהוּא מְצִיאוּת הַשֵּׁם, כִּי אַחַר שֶׁהוּא מְסֻלָּק מִן הַחֶסְרוֹנוֹת, אִם לֹא הָיָה יָכוֹל לִבְרֹא יֵשׁ מֵאַיִן יִהְיֶה זֶה חִסָּרוֹן. וְהַסָּפֵק שֶׁל קַדְמוּת יִתְחַיֵּב לְפוֹעֵל עַל צַד הַחִיּוּב, אֲבָל לֹא לְפוֹעֵל עַל צַד הָרָצוֹן.
3 E a segunda crença é o grau da profecia de Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele, que está acima do grau de todos os profetas que houve e que haverá. E isto é assim porque, ainda que não seja necessária a uma Torá divina em geral nem à Torá de Moisés em particular, de todo modo, depois que se mencionou na Torá explicitamente "e não se levantou outro profeta em Israel como Moisés" (Deuteronômio 34:10) — cuja explicação é que não se levantou nem se levantará, para indicar a excelência da Torá que foi dada por sua mão, como explicaremos no Maamar III —, eis que cabe que a creia todo adepto da Torá de Moisés; e é uma crença que se ramifica da Torá vinda do Céu.
4 E a terceira é a crença em que a Torá de Moisés não se reformulará nem se mudará nem se trocará por outra pela mão de profeta algum. E esta crença, ainda que não seja necessária a uma Torá divina em geral nem à Torá de Moisés em particular, como explicamos, eis que é um ramo que se ramifica da missão do enviado; e por isso cabe que a creia todo adepto da Torá de Moisés, do modo que explicaremos no Maamar III, com a ajuda do Nome.
וְהַשְּׁנִיָּה הִיא מַדְרֵגַת נְבוּאַת מֹשֶׁה רַבֵּנוּ שֶׁהִיא לְמַעְלָה מִכָּל הַנְּבִיאִים, ״וְלֹא קָם נָבִיא עוֹד בְּיִשְׂרָאֵל כְּמֹשֶׁה״, וְהִיא מִסְתָּעֶפֶת מִתּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם. וְהַשְּׁלִישִׁית הִיא שֶׁלֹּא תְנֻסַּח הַתּוֹרָה, וְהוּא עָנָף מִסְתָּעֵף מִשְּׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ.
5 E a quarta é a crença em que a perfeição humana se alcança por um único mandamento dos mandamentos da Torá de Moisés; pois, se não fosse assim, a Torá de Moisés afastaria o homem da obtenção da perfeição humana, que os nossos mestres, de abençoada memória, denominaram "a vida do mundo vindouro". E isto é assim porque, visto que pela Torá dos filhos de Noé os homens alcançavam algum grau dos graus do mundo vindouro — conforme o seu dizer, de abençoada memória, "os piedosos das nações do mundo têm parte no mundo vindouro", quer dizer, os que cumprem os sete mandamentos dos filhos de Noé têm parte no mundo vindouro —, se todo adepto da Torá de Moisés precisasse de toda a multidão dos mandamentos que vieram nela a fim de adquirir-lhe um grau dos graus da vida do mundo vindouro, a Torá de Moisés afastaria o homem da aquisição da perfeição mais do que o aproximaria dela — e isto é o oposto do que se visou dela, conforme o seu dizer, de abençoada memória, "quis o Santo, bendito seja, agraciar lezakot Israel; por isso lhes multiplicou Torá e mandamentos". E por isso o que parece é que esta crença é uma raiz particular à Torá de Moisés, como explicaremos no capítulo 29 do Maamar III, com a ajuda do Nome.
וְהָרְבִיעִית הִיא הָאֱמוּנָה בְּשֶׁהַשְּׁלֵמוּת הָאֱנוֹשִׁי יֻשַּׂג בְּמִצְוָה אַחַת מִמִּצְוֹת תּוֹרַת מֹשֶׁה, שֶׁאִם לֹא כֵן תִּהְיֶה תּוֹרַת מֹשֶׁה מְרַחֶקֶת אֶת הָאָדָם מֵהַשָּׂגַת הַשְּׁלֵמוּת. ״רָצָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְזַכּוֹת אֶת יִשְׂרָאֵל לְפִיכָךְ הִרְבָּה לָהֶם תּוֹרָה וּמִצְוֹת״.
6 E a quinta é a crença na ressurreição dos mortos techiyat hametim. E quanto a esta ressurreição, há dentre os nossos mestres os que dizem que ela não é senão para os justos perfeitos apenas; e, visto que não é um grau de recompensa destinado ao conjunto dos homens — pois é impossível a todos os homens serem justos perfeitos —, será o que a nega como quem nega um dos grandes milagres feitos aos justos que entram sob o poder divino, e será um ramo que se ramifica do primeiro princípio. E, se a ressurreição é universal, conforme a opinião de alguns dos sábios, será o que a nega um negador de uma parte da recompensa e do castigo destinada ao conjunto dos homens ou ao conjunto da nação, e será um ramo que se ramifica do terceiro princípio. Mas não é princípio nem raiz, nem para uma Torá divina em geral nem para a Torá de Moisés em particular, pois já se concebe a sua existência sem ela. Pois, visto que o crente confessa a recompensa e o castigo em geral — seja corporal e neste mundo, seja espiritual e no mundo vindouro —, não é o que a nega um negador de raiz nem de princípio da Torá de Moisés; mas ela é uma crença recebida na nação, tal que é obrigado a crê-la todo adepto da Torá de Moisés, como se explicará no Maamar IV, com a ajuda do Nome.
7 E assim a crença na vinda do Messias biat hamashiach é deste modo: pois é um ramo que se ramifica do terceiro princípio, que é a recompensa e o castigo; e é uma crença recebida na nação, tal que cabe que a creia todo adepto da Torá de Moisés, como se explicará no Maamar IV, com a ajuda do Nome; mas não é raiz nem princípio para a Torá de Moisés, pois já se concebe a Torá de Moisés, os seus princípios e as suas raízes, sem ela.
וְהַחֲמִישִׁית הִיא אֱמוּנַת תְּחִיַּת הַמֵּתִים. וְכֵן אֱמוּנַת בִּיאַת הַמָּשִׁיחַ, הוּא עָנָף מִסְתָּעֵף מִן הָעִקָּר הַשְּׁלִישִׁי שֶׁהוּא הַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ, וְהִיא אֱמוּנָה מְקֻבֶּלֶת בָּאֻמָּה, אֲבָל אֵינוֹ שֹׁרֶשׁ וְלֹא עִקָּר, כִּי כְּבָר תְּצֻיַּר תּוֹרַת מֹשֶׁה זוּלָתָהּ.
8 E não contamos no conjunto destas crenças as crenças que pendem de mandamentos particulares — como o arrependimento teshuvá e a oração tefilá e outras —, e como dizer que cabe crer que o Nome, bendito seja, ouve a oração dos que clamam diante dele, e assim que ele recebe em arrependimento os que retornam a ele, e outras semelhantes a estas crenças que dependem de mandamentos próprios — porque não cabe contar mandamento algum como crença mais que outro. Também não contamos a crença n'o habitar da Presença em Israel, e n'o descer do fogo dos céus sobre o altar do holocausto, e n'o ser o sacerdote respondido pelos Urim e Tumim, e semelhantes a elas — porque estas se incluem na crença nos milagres e maravilhas que houve na Torá em geral, e não cabe contar estas mais que os demais milagres, como a crença na fenda do Mar dos Juncos, ou a abertura da terra e o engolimento de Coré e a sua congregação, e o que entraram vivos ao Sheol; e, para indicar o exagero do milagre de que a terra fechou a sua boca sobre eles, como disse a Escritura "e a terra os cobriu" (Números 16:33) — não à maneira da fenda feita por um terremoto, que permanece assim fendida sempre —, pois tudo isto e o que se lhe assemelha está no conjunto da fé na Torá e em todos os milagres nela narrados. Porém as seis crenças que mencionamos, na verdade as contamos por serem crenças recebidas na nação, próprias para a manutenção dos princípios da Torá e das suas raízes sempre, e por depender delas a manutenção da Torá em todo tempo — ainda que não sejam raízes dela, pois já se concebe a sua existência sem elas, como explicamos. E o que as nega é chamado herege min, ainda que não seja negador da Torá, e não tem parte no mundo vindouro.
וְלֹא מָנִינוּ הָאֱמוּנוֹת הַנִּתְלוֹת בְּמִצְוֹת פְּרָטִיּוֹת, כְּמוֹ הַתְּשׁוּבָה וְהַתְּפִלָּה, לְפִי שֶׁאֵין רָאוּי לִמְנוֹת שׁוּם מִצְוָה יוֹתֵר מִזּוּלָתָהּ. וְהַשֵּׁשׁ אֱמוּנוֹת מָנִינוּ לִהְיוֹתָן מְקֻבָּלוֹת בָּאֻמָּה, וְהַכּוֹפֵר בָּהֶן יִקָּרֵא מִין וְאֵין לוֹ חֵלֶק לָעוֹלָם הַבָּא.
Albo completa aqui a sua arquitetura tripla. Acima estão os três princípios-raiz (cuja negação destrói a religião); depois as oito raízes (que derivam necessariamente dos princípios); e agora as seis crenças obrigatórias (emunot) — verdades que decorrem dos princípios mas não como raízes. A Torá ainda seria concebível sem cada uma delas; contudo, negá-las faz do homem um herege (min) sem parte no mundo vindouro. É uma categoria de gravidade intermediária, mas real.
Cada crença pende de um dos três princípios: a criação ex nihilo e (numa das interpretações) a ressurreição brotam da existência de D'us; a supremacia da profecia de Moisés e a imutabilidade da Torá, da Torá do Céu; a ressurreição (na outra leitura) e a vinda do Messias, da recompensa e castigo. A quarta — que um só mandamento basta para a perfeição — Albo trata como raiz particular da Torá de Moisés (a desenvolver no Maamar III).
Notável é o tratamento da criação. Por que crer que D'us cria do nada, e não só molda matéria preexistente? Porque negá-lo seria atribuir-Lhe uma deficiência de poder. Albo vira o argumento aristotélico contra si mesmo: até os defensores da eternidade admitem que a matéria deriva de D'us via intelecto separado — ora, isso já é uma criação do nada. E à objeção "por que D'us criaria num momento e não em outro?", responde com a distinção decisiva: um agente necessário age sempre igual, mas um agente voluntário age quando quer. Sendo D'us o supremo agente por vontade, criar "num tempo e não noutro" não é problema — é a própria natureza da vontade livre.
A seção final é metodologicamente reveladora. Por que estas seis e não outras? Albo exclui as crenças ligadas a mandamentos específicos (que D'us ouve a oração, aceita o arrependimento) — pois nenhum mandamento merece destaque sobre os outros. E exclui crenças em milagres particulares (Presença em Israel, fogo do altar, Urim veTumim) — pois estão todas contidas na fé geral nos milagres da Torá, sem privilégio sobre a abertura do Mar ou o engolimento de Coré. As seis foram escolhidas por um critério funcional: são as crenças recebidas pela nação que sustentam continuamente os princípios e a permanência da Torá no tempo. A bela máxima "quis D'us agraciar Israel, por isso multiplicou Torá e mandamentos" ancora a quarta crença: a abundância de mitzvot é generosidade, não fardo — pois cada uma, sozinha, já abre a porta da eternidade.
É lícito — ou obrigatório — ao adepto de uma religião investigar se os seus princípios são verdadeiros? O dilema parece insolúvel dos dois lados. Albo resolve-o: como todas as religiões concordam que a Torá de Moisés foi divina (divergindo só quanto a se já passou o seu tempo), cabe a todo crente investigar, pelos dois critérios de Maimônides — o conteúdo e o enviado.
É lícito — ou obrigatório — ao adepto de uma religião investigar se os seus princípios são verdadeiros? O dilema parece insolúvel dos dois lados. Albo resolve-o: como todas as religiões concordam que a Torá de Moisés foi divina (divergindo só quanto a se já passou o seu tempo), cabe a todo crente investigar, pelos dois critérios de Maimônides — o conteúdo e o enviado.
1 E cabe que despertemos aqui a atenção sobre uma dúvida que é possível levantar sobre a fé que recai nas religiões; e é esta: se o adepto de uma religião, do lado de ser adepto de uma religião, tem permissão ou é obrigado a investigar os princípios da sua religião e da sua fé — se são verdadeiros e concordantes com o que estabelecemos dos princípios da religião divina ou não —; e, se tem permissão de investigar, acaso a faculdade está dada em sua mão a fim de escolher a religião que lhe parecer mais verdadeira que outra, ou não? E eis que dos dois lados da contradição decorrem absurdos imensos.
וְרָאוּי שֶׁנָּעִיר כָּאן עַל סָפֵק אֶחָד, וְהוּא: אִם הַבַּעַל דָּת רַשַּׁאי אוֹ מְחֻיָּב לַחְקֹר עַל עִקְּרֵי דָתוֹ אִם הֵם אֲמִתִּיִּים, וְאִם הוּא רַשַּׁאי לִבְחֹר הַדָּת שֶׁיֵּרָאֶה לוֹ יוֹתֵר אֲמִתִּית. וְהִנֵּה יִתְחַיְּבוּ לִשְׁנֵי חֶלְקֵי הַסּוֹתֵר הַרְחָקוֹת עֲצוּמוֹת.
2 Primeiro: que, se dissermos que o adepto de uma religião é obrigado a investigar os princípios da sua religião, ou tem permissão de discernir entre os princípios da sua religião e os princípios de outra religião, é forçoso que nenhum adepto de uma religião seja firme na sua fé, e não será, então, cabido que receba recompensa pela fé, se não for firme nela e se for em dúvida sobre ela de algum modo — visto que não se chama "fé" senão quando a alma não concebe a sua negação, como explicamos; e, se investiga, eis que isto mostra que ele está em dúvida sobre ela. E, se estabelecermos que tem permissão de investigar, eis que, quando investigou e discerniu entre os princípios da sua religião e os princípios de outra religião e achou os princípios da outra religião mais verdadeiros, acaso tem permissão de trocar a sua religião por outra? E, se tem permissão, é forçoso que nenhum adepto de uma religião seja feliz nem salvo na sua fé. Pois, quando discernir entre os princípios da sua religião e os princípios da outra religião e os achar mais verdadeiros que os princípios da sua religião e trocar a sua religião pela outra religião, ainda lhe será impossível ser firme na fé daquela outra religião que escolheu como herança para si — pois é possível que, quando investigar e discernir entre aquela segunda religião e uma terceira religião outra, ache os seus princípios mais verdadeiros, e precise trocar a segunda pela terceira; e assim deste modo a terceira pela quarta, e a quarta pela quinta, e assim ao sem-fim. E não será, então, nenhum adepto de uma religião firme na sua fé até que se complete a sua investigação em todas as religiões do mundo e escolha uma delas sobre todas; e talvez haja outra religião nos confins do mundo habitado que não lhe seja conhecida, e ela seja a mais verdadeira de todas. E não será, conforme isto, nenhum adepto de uma religião salvo na sua fé, visto que lhe é impossível ser crente com uma fé completa até que investigue todas as religiões, e lhe é impossível investigar todas elas, como dissemos. E por isso é forçoso que nenhum adepto de uma religião tenha permissão de investigar os princípios da sua religião e da sua fé, a fim de que creia com uma fé não duvidosa.
שֶׁאִם נֹאמַר שֶׁהַבַּעַל דָּת מְחֻיָּב לַחְקֹר, יִתְחַיֵּב שֶׁלֹּא יִהְיֶה שׁוּם בַּעַל דָּת קַיָּם בֶּאֱמוּנָתוֹ. וְאִם נַנִּיחַ שֶׁהוּא רַשַּׁאי, כְּשֶׁמָּצָא דָּת אַחֶרֶת יוֹתֵר אֲמִתִּית וְהֵמִיר, אֶפְשָׁר שֶׁיִּמְצָא שְׁלִישִׁית, וְכֵן לְבִלְתִּי תַכְלִית, וְלֹא יִהְיֶה שׁוּם בַּעַל דָּת נוֹשָׁע בֶּאֱמוּנָתוֹ.
3 E, se dissermos que o adepto de uma religião não tem permissão de investigar os princípios da sua religião e da sua fé, decorre disto uma de duas coisas. Ou que todas as religiões trazem à felicidade humana, e não haverá vantagem para uma delas sobre a outra na recompensa e no castigo, visto que nenhum adepto de uma religião pode investigar os princípios da sua religião nem trocá-la por outra — e isto é muito vergonhoso, a saber que as religiões, que se dividem na verdade e na falsidade, na afirmação e na negação, na trindade shilush e na unidade, tragam à felicidade em igualdade. Ou, se dissermos que não trazem ambas à felicidade, mas só uma delas apenas, é forçoso um absurdo imenso: que D'us perverta o juízo a fim de castigar os adeptos da religião falsificada que se assemelha à divina — sendo que não há permissão na mão do que crê nela a fim de mover-se dela nem de trocá-la por outra nem de duvidar dela de modo algum; longe esteja de D'us a maldade, e do Todo-Poderoso a iniquidade. E esta é a dúvida que é possível levantar sobre todas as religiões chamadas divinas, e cabe que nos esforcemos em resolvê-la.
וְאִם נֹאמַר שֶׁלֹּא יִהְיֶה רַשַּׁאי לַחְקֹר, יִתְחַיֵּב אַחַד מִשְּׁנֵי דְבָרִים: אוֹ שֶׁיִּהְיוּ כָּל הַדָּתוֹת מְבִיאוֹת אֶל הַהַצְלָחָה בְּשָׁוֶה, וְזֶה מְגֻנֶּה; אוֹ שֶׁיִּהְיֶה הָאֵל מְעַוֵּת מִשְׁפָּט לְהַעֲנִישׁ בַּעֲלֵי הַדָּת הַמְזֻיֶּפֶת, חָלִילָה.
4 E digamos que, se todas as religiões conhecidas no mundo divergissem uma da outra de modo que cada uma dissesse sobre a outra que ela não é divina, esta dúvida seria muito forte e difícil de remover. Mas, visto que todas as religiões concordam sobre uma delas ser divina — exceto que divergem sobre ela ao dizerem que era temporária zemanit e já passou o seu tempo —, eis que dizemos que é cabido a todo adepto de uma religião investigar os princípios da sua religião e da sua fé.
וְנֹאמַר כִּי אַחַר הֱיוֹת כָּל הַדָּתוֹת מַסְכִּימוֹת בְּאַחַת מֵהֶן שֶׁהִיא אֱלֹהִית, אֶלָּא שֶׁחוֹלְקוֹת עָלֶיהָ בְּשֶׁיֹּאמְרוּ שֶׁהָיְתָה זְמַנִּית וּכְבָר עָבַר זְמַנָּהּ, הִנֵּה רָאוּי לְכָל בַּעַל דָּת לַחְקֹר עַל עִקְּרֵי דָתוֹ.
5 E isto — quanto às religiões que divergem da outra religião divina, isto é muito claro nelas, pois não é cabido a homem algum deixar-se seduzir a fim de crer numa coisa contra a religião sobre a qual há consenso de ser divina, senão depois de ter investigado aquela segunda ou terceira religião e os seus princípios, do modo que explicamos no capítulo 18 deste discurso.
6 E quanto à religião divina a Torá, também é cabido ao adepto daquela religião investigá-la — se ela é temporária ou eterna, e em que coisa dela é possível que venha a mudança, se se explicar que ela não é eterna.
וְזֶה בַּדָּתוֹת הַחוֹלְקוֹת עַל הַדָּת הָאֱלֹהִית, אֵין רָאוּי לְהִתְפַּתּוֹת לְהַאֲמִין דָּבָר כְּנֶגֶד הַדָּת הַמֻּסְכֶּמֶת אֶלָּא אַחֲרֵי חָקְרוֹ. וְאַף בַּדָּת הָאֱלֹהִית עַצְמָהּ רָאוּי לַחְקֹר אִם הִיא זְמַנִּית אוֹ נִצְחִית.
7 E por causa disto escreveu o Rambam, de abençoada memória, no capítulo 40 da Segunda Parte do Guia, que é cabido a todo adepto de uma religião investigar a sua religião; e disse ali que esta investigação é por dois lados. Ou do lado da própria religião — e isto se dá em que examine as suas ordens e advertências: se são apenas para remover a iniquidade e a violência e ordenar os assuntos da cidade, é cabido que saiba que esta religião é convencional e não divina; e, quando se achar aquela religião tal que, com o facto de visar também à remoção da iniquidade e da violência de entre os homens da cidade, visa ainda dar opiniões verdadeiras sobre o Nome, bendito seja, e sobre os anjos, e se esforça a fim de tornar sábios os filhos do homem e despertá-los para a natureza da verdade em toda a existência inteira — eis que isto é um sinal de ela ser divina. Ou do lado do estabelecedor da religião — e isto se dá em que examine aquele profeta ou enviado que se vangloria de que aquela Torá veio do Nome por sua mão, se foi assim, ou são ditos que tomou de outro; e o modo do seu exame é o exame da perfeição daquele homem e a investigação das suas virtudes e das suas ações; e o maior dentre os sinais é o abandono dos deleites corporais e o desprezo por eles — e com muito mais razão o sentido do tato, que é uma vergonha para nós, como disse Aristóteles. Este é o teor das suas palavras naquele capítulo.
וְכָתַב הָרַמְבַּ״ם בְּפֶרֶק מ׳ מֵחֵלֶק שֵׁנִי שֶׁהַחֲקִירָה מִשְּׁנֵי צְדָדִין: מִצַּד הַדָּת בְּעַצְמָהּ (אִם תְּכַוֵּן לָתֵת דֵּעוֹת אֲמִתִּיּוֹת בַּשֵּׁם וּבַמַּלְאָכִים, זֶה אוֹת הֱיוֹתָהּ אֱלֹהִית), וּמִצַּד מַנִּיחַ הַדָּת (בְּחִינַת שְׁלֵמוּת הָאִישׁ וּמִדּוֹתָיו, וְהַגָּדוֹל שֶׁבַּמּוֹפְתִים הַנָּחַת הַתַּעֲנוּגִים הַגּוּפִיִּים).
8 E, na verdade, o Rambam disse que se examine a religião do lado do exame da Torá em si mesma, quando visa dar opiniões verdadeiras sobre o Nome, bendito seja, etc. — para aludir à religião que atribui a D'us, bendito seja, a corporeidade e a trindade hagashmut vehashilush. E disse também que se faça o exame das virtudes do estabelecedor da religião daquele modo — para aludir ao homem que se vangloria da profecia para os ismaelitas, que estava muito imerso nos deleites corporais e na cópula, conforme o que está escrito junto aos ismaelitas das suas narrativas. Mas isto não é suficiente a fim de examinar a religião estabelecida pelo sábio que estabelece princípios verdadeiros como cabem a uma religião divina, e que ele mesmo é homem de boa conduta: com que se sabe se aquela religião é divina na verdade, ou humana e apenas se assemelhando à divina?
וְאָמַר ״לָתֵת דֵּעוֹת אֲמִתִּיּוֹת בַּשֵּׁם״ לִרְמֹז אֶל הַדָּת הַמְיַחֶסֶת לָאֵל הַגַּשְׁמוּת וְהַשִּׁלּוּשׁ. וּבְחִינַת מִדּוֹת מַנִּיחַ הַדָּת לִרְמֹז אֶל הַמִּתְפָּאֵר בִּנְבוּאָה לַיִּשְׁמְעֵאלִים. אֲבָל אֵין זֶה מַסְפִּיק לִבְחֹן דָּת שֶׁל חָכָם הַמַּנִּיחַ שָׁרָשִׁים אֲמִתִּיִּים וְהוּא בַּעַל הַנְהָגָה טוֹבָה.
9 E por isso eu digo que o exame da religião há de ser dos dois lados que escreveu o Rav, de abençoada memória, do modo que explicarei. E isto se dá em que se examinem primeiro os princípios daquela religião, se são concordantes com os princípios da religião divina que escrevemos, e que se examinem as raízes que se ramificam deles, do modo que explicamos no capítulo 15 deste discurso; e, se se achar aquela religião concordante ou não divergente daqueles princípios e raízes, e, com isto, se esforça a fim de remover a iniquidade de entre os homens da cidade e estabelecê-los sobre opiniões verdadeiras afastadas das opiniões imaginárias que se acham nas mulheres e nos rústicos, e os desperta para a perfeição humana — eis que isto é um sinal de ela ser divina.
וְעַל כֵּן אֲנִי אוֹמֵר כִּי בְּחִינַת הַדָּת תִּהְיֶה מֵהַשְּׁנֵי צְדָדִין: שֶׁיִּבָּחֲנוּ עִקְּרֵי הַדָּת אִם הֵם מַסְכִּימִים לְעִקְּרֵי הַדָּת הָאֱלֹהִית, וְעִם זֶה תִּשְׁתַּדֵּל לְהָסִיר הָעָוֶל וּלְהַעֲמִידָם עַל דֵּעוֹת אֲמִתִּיּוֹת, הִנֵּה זֶה אוֹת הֱיוֹתָהּ אֱלֹהִית.
10 E coisa como esta disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no Torat Cohanim: "'E amarás o teu próximo como a ti mesmo' (Levítico 19:18) — Rabi Akiva diz: este é um grande princípio na Torá; Ben Azai diz: 'este é o livro das gerações de Adão' (Gênesis 5:1) — este é um princípio maior que aquele." Eis que explicaram nisto que a Torá divina é cabido que inclua estes dois assuntos: ou a remoção da iniquidade e da violência de entre os homens da cidade, aludida em "e amarás o teu próximo como a ti mesmo"; ou o despertar dos homens para as opiniões verdadeiras e a perfeição humana, aludido no versículo "este é o livro das gerações de Adão", no qual está escrito "no dia em que D'us criou Adão, à semelhança de D'us o fez" (Gênesis 5:1) — que explicou que há no homem uma forma humana que é à semelhança de D'us, e por isso cabe que seja cuidadoso a fim de não a desprezar, nem em si mesmo nem no seu companheiro, e a fim de que se esforce na sua sobrevivência e no seu apego aos seres superiores, no lugar do qual foi talhada. E este assunto é cabido que a Torá divina o inclua.
וְכַיּוֹצֵא בָזֶה אָמְרוּ ״וְאָהַבְתָּ לְרֵעֲךָ כָּמוֹךָ, רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר זֶה כְּלָל גָּדוֹל בַּתּוֹרָה, בֶּן עַזַּאי אוֹמֵר זֶה סֵפֶר תּוֹלְדוֹת אָדָם זֶה כְּלָל גָּדוֹל מִזֶּה״. הַסָּרַת הֶעָוֶל נִרְמֶזֶת בְּ״וְאָהַבְתָּ״, וְהַעֲרָת הָאֲנָשִׁים אֶל הַשְּׁלֵמוּת בְּ״זֶה סֵפֶר תּוֹלְדוֹת אָדָם״.
11 Mas ainda é possível que ela a religião seja estabelecida por um sábio ou sábios, até que se examine do segundo lado. E isto se dá quando se examina o modo da confirmação pela qual se confirmou a missão do enviado a fim de que se desse a religião por sua mão: se se confirmou com uma confirmação essencial, como se explicou no capítulo 18 deste discurso — eis que ela é divina; e, se não, eis que ela é falsificada e apenas se assemelha à divina, ainda que confesse todos os princípios e as raízes — e com muito mais razão se divergir deles ou de algum deles.
אֲבָל עֲדַיִן אֶפְשָׁר שֶׁתִּהְיֶה מֻנַּחַת מֵחָכָם, עַד שֶׁתִּבָּחֵן מִן הַצַּד הַשֵּׁנִי, כְּשֶׁיִּבָּחֵן דֶּרֶךְ הָאֲמוּת שֶׁנִּתְאַמֵּת בּוֹ שְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ. אִם נִתְאַמֵּת אֲמוּת עַצְמִי הִנֵּה הִיא אֱלֹהִית, וְאִם לָאו הִנֵּה הִיא מְזֻיֶּפֶת, אַף אִם תּוֹדֶה בְּכָל הָעִקָּרִים.
Albo encerra a parte central do Maamar I retomando o tema com que o abriu (cap. 1): pode o crente investigar a sua própria fé? O dilema é genuíno. Permitir a investigação parece destruir a fé — pois fé é justamente a certeza que não concebe o contrário, e quem investiga já duvida; pior, levaria a uma regressão infinita (trocar de religião indefinidamente, sem nunca poder examinar todas). Proibir a investigação parece pior ainda — ou todas as religiões salvam igualmente (absurdo, pois afirmam coisas contraditórias), ou D'us puniria injustamente quem nasceu numa fé falsa sem poder sair dela ("longe de D'us a iniquidade").
A solução de Albo é histórica e brilhante. O dilema só seria insolúvel se cada religião negasse a divindade das outras. Mas, de facto, todas as religiões filhas (cristianismo, islã) concordam que a Torá de Moisés foi divina — divergem apenas ao alegar que ela era "temporária" e seu tempo passou. Há, portanto, um ponto de partida comum e firme: a revelação do Sinai. A investigação não parte do nada nem percorre infinitas religiões — parte da Torá, reconhecida por todos, e examina apenas a alegação de que teria sido superada.
Albo adota os dois testes de Maimônides (Guia II:40): o conteúdo da lei (uma lei meramente social é convencional; uma que ensina verdades sobre D'us aponta para o divino) e a pessoa do legislador (sua perfeição moral, o desprezo aos prazeres corporais). As alusões polêmicas são transparentes: a "corporeidade e trindade" visa o cristianismo; o legislador "imerso nos deleites e na sensualidade" visa Maomé. Mas Albo aponta a insuficiência desses testes: e se um sábio virtuoso estabelecesse princípios verdadeiros? Por isso acrescenta o seu critério decisivo: o exame dos princípios e raízes (cap. 15) e, sobretudo, a confirmação essencial da missão do enviado (cap. 18) — a única prova à prova de falsificação.
A leitura da célebre disputa do Sifra cristaliza o critério de conteúdo. Para Rabi Akiva, "ama o teu próximo" é o grande princípio (a dimensão social: remover a iniquidade entre os homens). Para Ben Azai, "este é o livro das gerações de Adão — feito à semelhança de D'us" é princípio maior (a dimensão metafísica: despertar o homem para as verdades e a perfeição da alma). Albo não escolhe entre eles — mostra que a lei verdadeiramente divina deve conter ambas: ordena a justiça terrena e eleva a alma à sua origem divina. É o selo do seu critério: só é divina a lei que cuida do corpo social e da eternidade da alma.
A lei divina deve ser uma só para todos os homens ou pode haver muitas? Do lado do Doador, único, ela deveria ser una; mas, do lado dos receptores — cujos temperamentos e terras diferem —, pode variar nos pormenores. Por isso a Torá de Noé e a Torá de Moisés coexistiram, ambas divinas, conduzindo cada povo à felicidade — concordando nos princípios, diferindo nos particulares.
A lei divina deve ser uma só para todos os homens ou pode haver muitas? Do lado do Doador, único, ela deveria ser una; mas, do lado dos receptores — cujos temperamentos e terras diferem —, pode variar nos pormenores. Por isso a Torá de Noé e a Torá de Moisés coexistiram, ambas divinas, conduzindo cada povo à felicidade — concordando nos princípios, diferindo nos particulares.
1 E coisa que cabe investigarmos aqui é se a religião divina é forçoso que seja uma para todos os homens, ou muitas. E digamos que eis que parece que é forçoso que seja uma, e isto seja do lado do Doador, seja do lado do receptor. Do lado do Doador, pois, visto que o ordenador, que é o Nome, bendito seja, é um de todo lado, cabe que a ordenação que dele decorre seja una de todo lado, já que ele, bendito seja, não tem uma relação diferente para com alguns homens em vez de alguns. E do lado do receptor, pois, visto que a espécie do homem é una na humanidade, eis que a ordenação que o encaminha à obtenção da sua perfeição humana cabe que seja una; e disto se vê que é cabido e forçoso na religião divina que seja uma para o conjunto dos homens.
וּמַה שֶּׁרָאוּי שֶׁנַּחְקֹר אִם הַדָּת הָאֱלֹהִית מְחֻיָּב שֶׁתִּהְיֶה אַחַת לְכָל הָאֲנָשִׁים אוֹ רַבּוֹת. מִצַּד הַנּוֹתֵן, אַחַר שֶׁהַשֵּׁם הוּא אֶחָד מִכָּל צַד, רָאוּי שֶׁיִּהְיֶה הַסִּדּוּר אֶחָד. וּמִצַּד הַמְקַבֵּל, אַחַר שֶׁמִּין הָאָדָם אֶחָד בָּאֱנוֹשׁוּת.
2 Exceto que, quando isto se examina bem, achamos que, ainda que confessemos que seja forçoso do lado do Doador, não é forçoso do lado do receptor. Porque está claro que os temperamentos mizgei dos homens diferem uns dos outros — seja do lado da diferença dos temperamentos dos pais, seja de outros lados —, até que é impossível que dois homens concordem num mesmo temperamento e disposição, como escreveu Avicena Ibn Sina no primeiro modo do primeiro livro do Cânone Kanun; a ponto de a diferença já chegar a tal que sejam quase opostos nas suas qualidades, até que se acha um homem cruel ao extremo, tal que chega da sua crueldade a matar o menor dos seus filhos, e se acha outro homem no extremo da brandura do coração, tal que se apieda de matar um rato ou uma formiga.
אֶלָּא שֶׁכַּאֲשֶׁר יְעֻיַּן זֶה, אַף עַל פִּי שֶׁמְּחֻיָּב מִצַּד הַנּוֹתֵן, אֵינֶנּוּ מְחֻיָּב מִצַּד הַמְקַבֵּל. כִּי מִזְגֵי הָאֲנָשִׁים מִתְחַלְּפִים, כְּמוֹ שֶׁכָּתַב אִבְּן סִינָא, עַד שֶׁיִּמָּצֵא אִישׁ אַכְזָרִי בְּתַכְלִית, וְאִישׁ אַחֵר בְּתַכְלִית רַכּוּת הַלֵּב.
3 E os homens diferem nisto também do lado da diferença dos lugares das suas habitações, pois as naturezas das terras diferem nas variações dos ares e dos montes e das águas e no que se lhe assemelha — até que achas uma terra cujos frutos são grossos e duros na sua natureza, e isto do lado de que o ar em que crescem não é límpido e puro, e achas outra terra cujos frutos são não agradáveis ou não sãos, do lado de que as águas sobre as quais crescem não são boas; e os seres vivos que se nutrem da quantidade destes frutos, forçosamente o seu temperamento se assemelhará ao alimento de que se nutrem; e outra terra cujos frutos se acham no oposto, e os seres vivos que deles se nutrem terão o seu temperamento oposto aos homens da outra terra. E deste lado se acham homens numa cidade ou numa região mais argutos e mais perspicazes que os homens de outra terra; e decorre disto que difiram os gêneros das convenções entre estas duas terras, pela diferença dos temperamentos dos que habitam nelas, e que cada uma delas precise de uma convenção diferente da convenção da outra num mesmo tempo. Exceto que, visto que esta variação é forçosa do lado do receptor e não do lado do Doador, cabe que a variação esteja nas coisas que são do lado dos receptores — e isto se dá nos pormenores das determinações e das convenções que há entre os homens conforme a diferença das terras, no conveniente e no torpe, pois já será o conveniente junto a alguns torpe junto a alguns; mas nos princípios universais e nas raízes que se ramificam deles — já que tudo isto é do lado das coisas que pendem do Doador —, é impossível que se represente nisto variação alguma.
וְיִתְחַלְּפוּ הָאֲנָשִׁים מִצַּד הִתְחַלְּפוּת מְקוֹמוֹתֵיהֶם, כִּי טִבְעֵי הָאֲרָצוֹת מִתְחַלְּפוֹת. וְרָאוּי שֶׁיִּהְיֶה הַשִּׁנּוּי בַּדְּבָרִים אֲשֶׁר מִצַּד הַמְקַבְּלִים, וְזֶה בִּפְרָטֵי הַהַנָּחוֹת. אֲבָל בָּעִקָּרִים הַכּוֹלְלִים וְהַשָּׁרָשִׁים, אִי אֶפְשָׁר שֶׁיְּצֻיַּר שׁוּם חִלּוּף.
4 E por isso achas que a Torá dos filhos de Noé e a Torá de Moisés, embora se dividam em assuntos particulares, como virá, eis que concordam nos assuntos universais que são do lado do Doador; e ambas se acharam num mesmo tempo, pois até no tempo em que se achava a Torá de Moisés para Israel, achava-se a Torá dos filhos de Noé para o conjunto das nações, e diferiam conforme a diferença das terras — quer dizer, a terra de Israel diferente do exterior da terra — e também conforme a diferença das nações uma da outra do lado dos pais. E não há dúvida de que as nações chegavam, por meio da Torá dos filhos de Noé — visto que é divina —, à felicidade humana, ainda que não estivesse no grau da felicidade alcançada a Israel do lado da sua Torá; disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "os piedosos das nações do mundo têm parte no mundo vindouro".
וְלָזֶה תִּמְצָא שֶׁתּוֹרַת בְּנֵי נֹחַ וְתוֹרַת מֹשֶׁה, עִם שֶׁהֵם חוֹלְקוֹת בְּעִנְיָנִים פְּרָטִיִּים, הֵם מַסְכִּימוֹת בָּעִנְיָנִים הַכּוֹלְלִים, וּשְׁתֵּיהֶן נִמְצְאוּ בִּזְמָן אֶחָד. ״חֲסִידֵי אֻמּוֹת הָעוֹלָם יֵשׁ לָהֶם חֵלֶק לָעוֹלָם הַבָּא״.
5 E isto é o que indica que é possível que se achem duas Torás divinas num mesmo tempo para nações diferentes, e que cada uma delas faça chegar os que se conduzem por ela à felicidade humana, ainda que difiram no grau da felicidade alcançada do lado das duas Torás. E esta diferença nas Torás é impossível que venha nos princípios nem nas raízes que se ramificam deles; e por isso o exame que é para a Torá do lado de si mesma permanece sempre sobre um mesmo estado. Porém o exame que é do lado do enviado, é possível que recaia nele alguma variação; e de todo modo é preciso que a confirmação seja uma confirmação essencial, ainda que difira a confirmação de uma religião da confirmação da outra religião. E, na verdade, se é possível que se mude a única religião em si mesma, sendo ela divina, para um mesmo povo e numa mesma terra, isto é do que investigaremos no Maamar III, com a ajuda de D'us, bendito seja.
וְזֶה מַה שֶּׁיּוֹרֶה שֶׁאֶפְשָׁר שֶׁיִּמָּצְאוּ שְׁתֵּי תוֹרוֹת אֱלֹהִיּוֹת בִּזְמָן אֶחָד לְאֻמּוֹת מִתְחַלְּפוֹת, וְכָל אַחַת מַגַּעַת אֶל הַהַצְלָחָה. וְהַהִתְחַלְּפוּת אִי אֶפְשָׁר שֶׁיָּבֹא בָּעִקָּרִים וְלֹא בַּשָּׁרָשִׁים. אִם אֶפְשָׁר שֶׁתִּשְׁתַּנֶּה הַדָּת בְּעַצְמָהּ, זֶה נַחְקֹר בְּמַאֲמָר הַג׳.
Albo enfrenta uma questão de surpreendente atualidade: a religião verdadeira tem de ser uma só para toda a humanidade? À primeira vista, sim — pois D'us é um (logo a lei que dele emana deveria ser una) e a humanidade é uma espécie (logo o caminho à sua perfeição deveria ser único). Mas Albo distingue: o argumento vale "do lado do Doador", não "do lado do receptor".
Os homens não são uniformes. Citando o Cânone de Avicena, Albo afirma que não há dois homens com o mesmo temperamento — alguns são cruéis a ponto de matar o próprio filho, outros tão brandos que se apiedam de uma formiga. E as terras também diferem: o ar, as águas, os frutos moldam o caráter dos povos, tornando uns mais argutos, outros mais lentos. Por isso povos diferentes precisam de convenções diferentes nos pormenores — o que é "conveniente" para um pode ser "torpe" para outro.
A chave do capítulo é uma linha divisória precisa: a variação é legítima apenas nas coisas que vêm "do lado dos receptores" — os pormenores legais, adaptados a temperamentos e terras. Mas nos princípios universais e suas raízes — que vêm "do lado do Doador" — nenhuma variação é concebível. A unidade de D'us garante a unidade dos fundamentos; a diversidade humana explica a diversidade dos detalhes.
A consequência é notável e generosa: duas leis divinas podem coexistir no mesmo tempo. A Torá de Noé (para as nações) e a Torá de Moisés (para Israel) vigoraram simultaneamente, ambas divinas, ambas conduzindo à felicidade — "os piedosos das nações têm parte no mundo vindouro" —, ainda que em graus distintos. É um pluralismo cuidadosamente delimitado: as religiões podem diferir no enviado e nos pormenores, jamais nos princípios-raiz. A pergunta seguinte — se uma mesma lei divina pode ser depois substituída (a alegação cristã e islâmica sobre a Torá) — Albo reserva para o Maamar III, fechando assim a investigação dos fundamentos.
O capítulo de encerramento do Maamar I recapitula todo o sistema: os três princípios, as oito raízes, o cômputo total de onze (ou dez, ou doze); mostra como as outras religiões erram ao pôr sob os princípios raízes que os contradizem; e anuncia os três discursos seguintes que desenvolverão cada princípio.
O capítulo de encerramento do Maamar I recapitula todo o sistema: os três princípios, as oito raízes, o cômputo total de onze (ou dez, ou doze); mostra como as outras religiões erram ao pôr sob os princípios raízes que os contradizem; e anuncia os três discursos seguintes que desenvolverão cada princípio.
1 O que se eleva como conclusão do que explicamos neste discurso é que o número dos princípios da religião divina é três, que são a existência de D'us, e a Torá vinda do Céu, e a recompensa e o castigo; pois sem estes três não se concebe uma Torá divina sem eles.
2 E que, sob estes três, há outras raízes que se ramificam deles, que estão, junto a estes princípios, no grau das espécies que entram sob os gêneros; pois, ao remover-se uma das raízes, não se remove o princípio, e, ao remover-se o princípio, removem-se as raízes, como explicamos.
הָעוֹלֶה מִמַּה שֶּׁבֵּאַרְנוּ בְּזֶה הַמַּאֲמָר הוּא, כִּי מִסְפַּר הָעִקָּרִים לַדָּת הָאֱלֹהִית שְׁלֹשָׁה, שֶׁהֵם מְצִיאוּת הַשֵּׁם וְתוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם וְשָׂכָר וָעֹנֶשׁ. וְשֶׁתַּחַת אֵלּוּ הַשְּׁלֹשָׁה שָׁרָשִׁים אֲחֵרִים מִסְתָּעֲפִים מֵהֶם, בְּמַדְרֵגַת הַמִּינִים הַנִּכְנָסִים תַּחַת הַסּוּגִים.
3 E as raízes que estão sob o princípio da existência de D'us, conforme o que a especulação obriga e conforme o que a Torá de Moisés decreta, são: a unidade, e o afastamento da corporeidade, e que ele, bendito seja, não tem relação com o tempo, e que é removido das deficiências. E sob a Torá vinda do Céu estão a profecia e a missão do enviado. E sob a recompensa e o castigo estão o conhecimento do Nome, e a providência para a recompensa e o castigo — seja neste mundo, seja no mundo vindouro, quer seja espiritual, quer seja corporal.
וְהַשָּׁרָשִׁים שֶׁתַּחַת עִקַּר מְצִיאוּת הַשֵּׁם הֵם: הָאַחְדוּת, וְסִלּוּק הַגַּשְׁמוּת, וְשֶׁאֵין לוֹ יַחַס עִם הַזְּמָן, וְשֶׁהוּא מְסֻלָּק מִן הַחֶסְרוֹנוֹת. וְתַחַת תּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם: הַנְּבוּאָה, וּשְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ. וְתַחַת הַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ: יְדִיעַת הַשֵּׁם, וְהַהַשְׁגָּחָה.
4 E não há necessidade para a Torá de Moisés de estabelecer princípio algum nem outra raiz que se ramifique destes além destes. Pois "que cabe servi-lo, e não a outro" — já explicamos que é um mandamento, e que não cabe contar mandamento algum como raiz nem como princípio; e que "a Torá não se reformulará" e a profecia de Moisés entram sob a confirmação da missão do enviado, como se explicará no Maamar III, com a ajuda do Nome; e a vinda do Messias e a ressurreição dos mortos, todos entram na crença da recompensa e do castigo, do modo que cabe que a creia todo adepto da Torá de Moisés.
וְאֵין הֶכְרֵחַ לְתוֹרַת מֹשֶׁה לְהַנִּיחַ שׁוּם עִקָּר וְלֹא שֹׁרֶשׁ אַחֵר זוּלַת אֵלּוּ. כִּי ״שֶׁרָאוּי לְעָבְדוֹ״ הוּא מִצְוָה, וְ״שֶׁלֹּא תְנֻסַּח הַתּוֹרָה״ וּנְבוּאַת מֹשֶׁה נִכְנָסִין תַּחַת אֲמוּת שְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ, וּבִיאַת הַמָּשִׁיחַ וּתְחִיַּת הַמֵּתִים בֶּאֱמוּנַת הַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ.
5 E assim é a opinião do meu mestre, o Rav Rabi Chasdai Crescas Chasdai Crescas, a saber que todos estes, e também a criação, são crenças verdadeiras tais que cabe que as creia todo adepto da religião de Moisés, mas não são raízes nem princípios dela, nem universais nem particulares. Porém o princípio particular a ela à Torá de Moisés é que um único mandamento dela, sozinho, é suficiente a fim de adquirir a perfeição e um grau dos graus do mundo vindouro, como explicamos no capítulo 23 deste discurso.
וְכֵן דַּעַת מוֹרִי הָרַב רַבִּי חַסְדַּאי קְרֶשְׂקַשׂ, שֶׁכָּל אֵלּוּ וְגַם הַחִדּוּשׁ אֱמוּנוֹת אֲמִתִּיּוֹת רָאוּי שֶׁיַּאֲמִינֵם כָּל בַּעַל דָּת מֹשֶׁה, אֲבָל אֵינָם שָׁרָשִׁים וְלֹא עִקָּרִים. וְהָעִקָּר הַפְּרָטִי אֵלֶיהָ הוּא שֶׁמִּצְוָה אַחַת מִמֶּנָּה לְבַדָּהּ תַּסְפִּיק לְהַקְנוֹת הַשְּׁלֵמוּת.
6 Porém as demais religiões chamadas divinas, eis que põem sob estes princípios outras raízes tais que, ao remover-se uma delas, anula-se a sua Torá. Pois os cristãos põem, sob a existência de D'us, a trindade shilush e a corporeidade gashmiut — e está claro que isto contradiz as raízes que se ramificam do princípio da existência de D'us; e, sob a recompensa e o castigo, põem a vinda do Messias e a ressurreição dos mortos, e está claro destes que não se concebe a existência da sua religião sem eles. E assim os ismaelitas põem o decreto e o poder predeterminado, chamado em árabe al-qadā wa-l-qadar, sob a providência — e está claro que, se isto fosse assim, removeria com isto o livre-arbítrio bechirá, e não haveria, então, lugar para a recompensa e o castigo de modo algum. E o motivo de não termos contado o livre-arbítrio no conjunto dos princípios da religião divina, apesar de ser necessário a ela, é porque não é princípio dela enquanto é divina, mas do lado de ser anterior, por força, a toda orientação e convenção, humana ou divina.
וּשְׁאָר הַדָּתוֹת יַנִּיחוּ תַּחַת אֵלּוּ הָעִקָּרִים שָׁרָשִׁים אֲחֵרִים שֶׁבְּהִסְתַּלֵּק אֶחָד מֵהֶם תִּבָּטֵל תּוֹרָתָם. כִּי הַנּוֹצְרִים יַנִּיחוּ תַּחַת מְצִיאוּת הַשֵּׁם הַשִּׁלּוּשׁ וְהַגַּשְׁמִיּוּת. וְהַיִּשְׁמְעֵאלִים יַנִּיחוּ הַגְּזֵרָה תַּחַת הַהַשְׁגָּחָה, שֶׁתִּסְתַּלֵּק בָּזֶה הַבְּחִירָה.
7 E será o número dos princípios e das raízes conforme isto onze: a existência de D'us, e a unidade, e o afastamento da corporeidade, e que ele, bendito seja, não tem dependência do tempo, e que ele, bendito seja, é removido das deficiências, e a existência da profecia, e a confirmação da missão do enviado, e a Torá vinda do Céu, e o conhecimento do Nome, e a providência, e a recompensa e o castigo. E, se contarmos o conhecimento do Nome e a providência como um único princípio, como os contou o Rambam, de abençoada memória, será o número dos princípios dez apenas. E, se contarmos o livre-arbítrio no conjunto dos princípios da religião divina — visto que é anterior a ela por força, ainda que não seja necessário a ela enquanto é divina —, será o número dos princípios doze ou onze. E não contamos a finalidade última tachlit como princípio da religião divina, ainda que seja anterior a toda ordenação e convenção humana — assim como o livre-arbítrio —, por ser a recompensa destinada na religião divina a finalidade própria a ela, a qual já se contou entre os princípios.
וְיִהְיֶה מִסְפַּר הָעִקָּרִים וְהַשָּׁרָשִׁים לְפִי זֶה י״א. וְאִם נִמְנֶה יְדִיעַת הַשֵּׁם וְהַהַשְׁגָּחָה עִקָּר אֶחָד, יִהְיֶה מִסְפָּרָם עֲשָׂרָה. וְאִם נִמְנֶה הַבְּחִירָה, יִהְיֶה י״ב אוֹ י״א. וְלֹא נִמְנֶה הַתַּכְלִית, לִהְיוֹת הַשָּׂכָר הוּא הַתַּכְלִית הַמְיֻחָד שֶׁכְּבָר נִמְנָה.
8 E aqui se completa o primeiro discurso, que investiga o número dos princípios e das raízes que se ramificam deles, e as coisas universais às religiões divinas. E o louvor seja a D'us, que até aqui nos ajudou; e até aqui chegou o que era a nossa intenção explicar do assunto dos princípios e das raízes que se ramificam deles nesta obra. Porém, a pedido dos meus amigos e companheiros dentre os crentes e os homens de especulação, que pediram de mim explicar-lhes a compreensão destes princípios e das suas raízes e das coisas que se ramificam deles e que se lhes associam, por um caminho correto e próximo da especulação conforme a Torá — engrandeci e acrescentei ainda os três outros discursos que decorrem deste; e por isso prometi no princípio do livro explicá-los. E só em D'us está a ajuda; bendito e exaltado seja sobre toda bênção e louvor. Amém.
וּבְכָאן נִשְׁלַם הַמַּאֲמָר הָרִאשׁוֹן הַחוֹקֵר עַל מִסְפַּר הָעִקָּרִים וְהַשָּׁרָשִׁים, וְעַל הַדְּבָרִים הַכּוֹלְלִים לַדָּתוֹת הָאֱלֹהִיּוֹת. וְהַשֶּׁבַח לָאֵל אֲשֶׁר עַד הֵנָּה עֲזָרָנוּ. וְהוֹסַפְתִּי עוֹד הַשְּׁלֹשָׁה מַאֲמָרִים הָאֲחֵרִים, וּבָאֵל לְבַדּוֹ הָעֵזֶר, יִתְבָּרַךְ וְיִתְרוֹמַם עַל כָּל בְּרָכָה וּתְהִלָּה אָמֵן.
Sistema: 3 princípios (existência de D'us · Torá do Céu · recompensa e castigo) + 8 raízes = 11 fundamentos. Próximos: Maamar II (existência de D'us), Maamar III (Torá do Céu), Maamar IV (recompensa e castigo).
Este capítulo recapitula com precisão de geômetra todo o edifício do primeiro discurso. Os três princípios-raiz (existência de D'us, Torá do Céu, recompensa e castigo) são aquilo sem o que "não se concebe uma Torá divina". Sob eles, as oito raízes funcionam "como as espécies sob os gêneros" — derivam dos princípios e caem com eles. O cômputo total, flexível conforme se agrupem ou não certos itens, é onze, ou dez, ou doze. A obsessão de Albo pela classificação rigorosa não é pedantismo: é a convicção de que saber o que é fundamental é a chave para distinguir a fé verdadeira da falsa.
Albo reconhece abertamente a sua dívida ao mestre, Chasdai Crescas (autor de Or Hashem): a tese de que criação, ressurreição, Messias e profecia de Moisés são "crenças verdadeiras obrigatórias, mas não princípios" vem dele. A contribuição própria de Albo é a sistematização tripla (princípios / raízes / crenças) e a doutrina do "princípio particular" da Torá de Moisés — que basta um único mandamento para abrir a porta da eternidade.
A aplicação polêmica do sistema é direta e serena. As outras religiões não erram por terem princípios, mas por porem sob os princípios verdadeiros raízes que os contradizem: o cristianismo coloca a trindade e a corporeidade sob a existência de D'us (negando assim a unidade e a incorporeidade, que são raízes desse princípio); o islã coloca o "decreto e destino" (al-qadā wa-l-qadar) sob a providência, abolindo o livre-arbítrio e, com ele, todo sentido de recompensa e castigo. O critério de Albo torna-se, assim, um instrumento de discernimento teológico.
O discurso se encerra com gratidão e um gesto autobiográfico tocante: Albo confessa que pretendia parar aqui — a investigação dos princípios estava completa. Mas, "a pedido dos amigos e companheiros, crentes e homens de especulação", expandiu a obra com os três discursos seguintes, que examinariam cada princípio em profundidade. É por isso que o Sefer HaIkkarim tem quatro Maamarim: o primeiro estabelece a estrutura; os demais a habitam. Encerra-se assim o alicerce — a investigação sobre "quantos são e quais são" os fundamentos da fé de Israel —, com o "Amém" que devolve a D'us toda a ajuda recebida.
Abertura do segundo discurso, sobre a existência de D'us. A sua essência é oculta no extremo da ocultação — nem Moisés a alcançou, nem os anjos. Como, então, pôr como fundamento da Torá algo cuja apreensão é vedada? A resposta: a existência de D'us não se estabelece como raiz do lado da sua essência, mas do lado de ser ele o agente de todos os existentes — conhecível pelas suas obras.
Abertura do segundo discurso, sobre a existência de D'us. A sua essência é oculta no extremo da ocultação — nem Moisés a alcançou, nem os anjos. Como, então, pôr como fundamento da Torá algo cuja apreensão é vedada? A resposta: a existência de D'us não se estabelece como raiz do lado da sua essência, mas do lado de ser ele o agente de todos os existentes — conhecível pelas suas obras.
1 O assunto da existência metziut, dito sobre cada existente dos existentes — divergiram nele os filósofos, se é um acidente que aconteceu ao existente ou se é um assunto essencial a ele. Mas o nome "existência" dito sobre ele, bendito seja, é impossível dizer que seja um acidente, pois ele, bendito seja, não é receptor de acidentes, como virá; e é impossível dizer também que seja essencial a ele e acrescentado à sua quididade mahut, pois, se fosse assim, a essência de D'us, bendito seja, seria composta de duas coisas, e isto não é possível, como se explicará. Se é assim, a existência dita sobre ele, bendito seja, não é coisa fora da quididade; e, visto que a sua quididade está oculta no extremo da ocultação — como escreveu o Rambam, de abençoada memória, a saber que esta foi a busca de Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele, ao dizer "mostra-me, por favor, a tua glória" (Êxodo 33:18), e veio-lhe a resposta sobre isto "não poderás ver a minha face, pois não me verá o homem, e continuará a viver" (Êxodo 33:20), e disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no Sifrei "e até os anjos do serviço, que são vivos" não veem, quer dizer, que a sua quididade não é conhecida a outro — se é assim, a sua existência está oculta no extremo da ocultação, tal que não é conhecida nem aos anjos do serviço. E conforme isto cabe ao que pergunta que pergunte e diga: como se estabelece como raiz para uma Torá divina uma coisa que está oculta da apreensão de existente algum fora de D'us?
שֵׁם הַמְּצִיאוּת הַנֶּאֱמָר עָלָיו יִתְבָּרַךְ אִי אֶפְשָׁר לוֹמַר שֶׁהוּא מִקְרֶה, וְאִי אֶפְשָׁר לוֹמַר שֶׁיִּהְיֶה עַצְמוּתִי לוֹ וְנוֹסָף עַל מַהוּתוֹ. אֵין הַמְּצִיאוּת זוּלַת הַמַּהוּת. וּמַהוּתוֹ נֶעְלָם תַּכְלִית הַהֶעְלֵם, ״לֹא תוּכַל לִרְאֹת אֶת פָּנַי״, וַאֲפִלּוּ מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת. וְאֵיךְ יֻנַּח שֹׁרֶשׁ לַתּוֹרָה דָּבָר שֶׁנֶּעְלָם הַשָּׂגָתוֹ.
2 E a resposta nisto é que não se estabelece a existência de D'us como raiz para a Torá do lado em que é impossível a sua apreensão — pois isto é do lado da sua essência, bendito seja —, mas do lado em que é possível a apreensão; e isto se dá do lado de serem os existentes influenciados a partir dele, e de ele ser causa deles e o seu agente; pois deste lado se examina a excelência do Nome, do lado de ser ele agente dos existentes no auge da perfeição e do esplendor. E este lado é o que é permitido ao homem falar nele e examinar a sua excelência; mas do lado da sua essência é impossível falar nele, pois isto não se abrange em discurso de modo algum. E a isto aludiu David no salmo "bendize, ó minha alma, ao Senhor" (Salmos 104); pois sobre o primeiro lado disse "Senhor, meu D'us, tu te engrandeceste muito" (Salmos 104:1) — quer dizer, do lado da tua quididade tu te engrandeceste muito além do que o homem possa falar em ti; e, com tudo isto, "de glória e esplendor te revestiste" — quer dizer, do lado em que é possível falar em ti, que é do lado das ações visíveis que decorrem de ti, pois elas indicam a tua glória e o teu esplendor; e por isso fez seguir a isto a narração das formações influenciadas a partir dele, bendito seja, que indicam a sua excelência e a sua perfeição do lado da perfeição visível nelas.
וְהַתְּשׁוּבָה, כִּי לֹא יֻנַּח מְצִיאוּת הָאֵל שֹׁרֶשׁ מִן הַצַּד שֶׁהוּא נִמְנַע הַהַשָּׂגָה, אֶלָּא מִן הַצַּד שֶׁהוּא אֶפְשַׁר הַהַשָּׂגָה, מִצַּד הֱיוֹת הַנִּמְצָאוֹת מֻשְׁפָּעוֹת מִמֶּנּוּ. וְזֶה רָמַז דָּוִד ״ה׳ אֱלֹהַי גָּדַלְתָּ מְּאֹד הוֹד וְהָדָר לָבָשְׁתָּ״.
3 E porque a excelência do artífice uman se reconhece na sua obra por dois modos — ou do lado de ser ele agente de uma obra maravilhosa e importante numa matéria nobre e excelente, tal que é reconhecido a todos que aquela obra nobre vem de um agente nobre e perfeito, como quem vê utensílios belos de ouro e pedra preciosa, pois estes utensílios, sem dúvida, indicam a grandeza da excelência do que os faz; ou do lado de ser ele quem faz utensílios belos, esculpidos com uma escultura maravilhosa, numa matéria vil — como se dissesses o ourives que fez utensílios belos, esculpidos com uma escultura bela, em ferro, pois isto, sem dúvida, indica a sabedoria do ourives e a sua perfeição, ao fazer no ferro, que é uma matéria distante de receber a escultura e o entalhe, uma escultura bela, entalhada com entalhes de selo; com muito mais razão isto é indicação de que, sendo a matéria preparada para receber a escultura, faz nela uma obra maravilhosa.
וּמַעֲלַת הָאוּמָן תֻּכַּר בִּפְעֻלָּתוֹ מִשְּׁנֵי פָנִים: אִם מִצַּד הֱיוֹתוֹ פּוֹעֵל פֹּעַל נִפְלָא בְּחֹמֶר נִכְבָּד (כִּכְלֵי זָהָב וְאֶבֶן יְקָרָה), וְאִם מִצַּד הֱיוֹתוֹ עוֹשֶׂה כֵּלִים נָאִים מְצֻיָּרִים בְּחֹמֶר גָּרוּעַ (כְּצוֹרֵף הָעוֹשֶׂה כֵּלִים נָאִים מְפֻתָּחִים בַּבַּרְזֶל).
4 Pois assim escreveu Aristóteles no tratado 11 do Livro dos Seres Vivos, ao censurar os sábios antigos por não terem querido falar na natureza dos seres vivos ínfimos nascidos da putrefação, pela sua vileza, exceto nos nascidos de macho e fêmea; e disse ali que é mais cabido falar nos seres vivos ínfimos nascidos da putrefação do que se fala nos demais seres vivos — e não do lado deles mesmos, visto que são muito ínfimos e feitos de matéria vil, já que são nascidos da putrefação, mas no exame da força divina koach elohi que está mesclada neles; pois isto, sem dúvida, indica a excelência do agente e a sua perfeição, ao dar a força da vida numa matéria vil como esta — tal que nasça da putrefação, sem a junção de macho e fêmea, um ser vivo semelhante ao nascido da junção de macho e fêmea; e isto é um grande louvor ao artífice.
שֶׁכֵּן כָּתַב אֲרִיסְטוֹ בְּסֵפֶר הַבַּעֲלֵי חַיִּים, שֶׁיּוֹתֵר רָאוּי לְדַבֵּר בַּבַּעֲלֵי חַיִּים הַפְּחוּתִים הַנּוֹלָדִים מִן הָעִפּוּשׁ, בִּבְחִינַת הַכֹּחַ הָאֱלֹהִי הַמְעֹרָב בָּהֶם, שֶׁזֶּה יוֹרֶה עַל מַעֲלַת הַפּוֹעֵל בְּתִתּוֹ כֹּחַ חַיּוּת בְּחֹמֶר גָּרוּעַ כָּזֶה.
5 E assim David louvou o Nome no exame das formações influenciadas a partir dele por estes dois modos, desses dois lados. Sobre o primeiro lado disse "envolvendo-se em luz como num manto" (Salmos 104:2), para aludir a ser ele quem faz existir o mundo dos intelectos separados, que a Escritura denomina pelo nome "luz", como explicaremos na homonímia da palavra "luz"; e depois aludiu ao mundo das esferas e disse "estendendo os céus como uma cortina" (Salmos 104:2). E narrou as formações permanentes e grandes e temíveis visíveis a todo olho — como a luz, e os céus, e o descobrimento da terra seca, e as formações que estão na terra; e narrou a ordem visível ao olho, a saber como o Nome ordenou toda a obra da criação de modo perfeito, a fim de que vivam e subsistam os seres vivos; e por isso disse "o que envia as fontes nos vales, e entre os montes andam, dão de beber a todo animal do campo" etc. (Salmos 104:10-11); e narrou a ordem da renovação da lua a cada mês e a ordem do dia e da noite, que é a causa da permanência da existência inferior e de todos os seres vivos, cada um conforme o seu grau — e isto é do que indica a sabedoria do Formador e a sua excelência, ao fazer "a lua para as estações; o sol conhece o seu poente" (Salmos 104:19).
וְכֵן דָּוִד שִׁבַּח הַשֵּׁם בִּבְחִינַת הַיְצִירוֹת מִשְּׁנֵי אֵלּוּ הַצְּדָדִים. עַל הַצַּד הָרִאשׁוֹן אָמַר ״עֹטֶה אוֹר כַּשַּׂלְמָה נוֹטֶה שָׁמַיִם כַּיְרִיעָה״, וְסִפֵּר הַיְצִירוֹת הַגְּדוֹלוֹת וְהַנּוֹרָאוֹת, וְהַסֵּדֶר ״עָשָׂה יָרֵחַ לְמוֹעֲדִים שֶׁמֶשׁ יָדַע מְבוֹאוֹ״.
6 E, depois que terminou de ordenar o louvor do Nome do lado das formações grandes e temíveis, voltou a louvar a D'us, bendito seja, do outro lado — quer dizer, do lado das formações ínfimas nascidas da putrefação —, e disse "quão muitas são as tuas obras, Senhor! Todas com sabedoria fizeste" etc., "este mar, grande e largo de mãos; ali há répteis sem número, seres vivos" etc. (Salmos 104:24-25). E mencionou as formações feitas no mar e nascidas da putrefação, sem que haja nelas força para perpetuar a sua espécie — como se vê do que está escrito no fim: "recolhes o seu espírito, expiram, e ao seu pó voltam; envias o teu espírito, são criados, e renovas a face da terra" (Salmos 104:29-30); e esta expressão não recai sobre os nascidos de macho e fêmea — a saber que "são criados" depois de voltarem ao seu pó —, mas sim sobre os nascidos da putrefação. E disse, ao começar a falar sobre isto, "quão muitas são as tuas obras, Senhor! Todas com sabedoria fizeste", para indicar que a excelência do agente e a sua sabedoria se reconhecem ao dar perfeição a uma matéria muito vil — como é a matéria dos seres vivos nascidos da putrefação, a quem deu a perfeição da vida; e isto é do que indica a sabedoria do agente. E por isso juntou a isto "seja a glória do Senhor para sempre; alegre-se o Senhor nas suas obras" (Salmos 104:31), para explicar que sobre estes existentes inferiores nascidos da putrefação já recai a alegria de que o Nome se alegre neles, por serem as suas obras, do lado em que a sua sabedoria se reconhece por meio deles.
וְאַחַר כָּךְ שָׁב לְשַׁבֵּחַ מִן הַצַּד הָאַחֵר, ״מָה רַבּוּ מַעֲשֶׂיךָ ה׳ כֻּלָּם בְּחָכְמָה עָשִׂיתָ״, ״זֶה הַיָּם גָּדוֹל וּרְחַב יָדָיִם״. לְהוֹרוֹת שֶׁמַּעֲלַת הַפּוֹעֵל נִכֶּרֶת בְּתִתּוֹ שְׁלֵמוּת אֶל חֹמֶר גָּרוּעַ. ״יְהִי כְבוֹד ה׳ לְעוֹלָם יִשְׂמַח ה׳ בְּמַעֲשָׂיו״.
7 E a isto aludiram os nossos mestres, de abençoada memória, no Perek Shirá, ao dizerem: "Os répteis, que dizem eles? 'Seja a glória do Senhor para sempre; alegre-se o Senhor nas suas obras'" — como se explicassem que, ainda que não seja do grau da excelência do Nome e da sua perfeição alegrar-se em existentes ínfimos como estes, já recai que se alegre neles do lado da transposição da linguagem ha'avará leshonit, do lado de serem as suas obras. E é esta a expressão "seja a glória do Senhor para sempre" etc. — quer dizer, a sua glória, no seu lugar, está posta para sempre, que é eterna; mas estes existentes nascidos da putrefação, ínfimos e corruptíveis, tais que não têm permanência nem na espécie nem no indivíduo — já é cabível que se alegre neles do lado em que a sua sabedoria se reconhece neles, por serem as suas obras, do modo que explicamos. Eis que louvou o Nome neste salmo do lado de ser ele agente dos existentes por dois gêneros de ação pelos quais se reconhece a excelência do agente; e deste lado é que apreendemos a existência do Nome, bendito seja — quer dizer, do lado de ser ele agente dos existentes, não do lado da sua essência de modo algum. E por causa disto começou a Torá na parashá de Bereshit, para indicar a existência do Nome agente dos existentes, como escrevemos no Maamar I; e só deste lado se estabeleceu a existência do Nome como raiz para a Torá, não de outro lado.
וְעַל זֶה רָמְזוּ בְּפֶרֶק שִׁירָה ״שְׁרָצִים מָה הֵם אוֹמְרִים, יְהִי כְבוֹד ה׳ לְעוֹלָם יִשְׂמַח ה׳ בְּמַעֲשָׂיו״. הֲרֵי שֶׁשִּׁבַּח הַשֵּׁם מִצַּד הֱיוֹתוֹ פּוֹעֵל הַנִּמְצָאוֹת, וּמִזֶּה הַצַּד נַשִּׂיג מְצִיאוּת הַשֵּׁם, לֹא מִצַּד מַהוּתוֹ. וּבַעֲבוּר זֶה הִתְחִילָה הַתּוֹרָה בְּ״בְרֵאשִׁית״.
O segundo discurso abre com um problema agudo. O primeiro princípio é a existência de D'us — mas Albo começa afirmando que a essência (mahut) de D'us é absolutamente inacessível: nem Moisés, que pediu "mostra-me a tua glória", a alcançou ("não me verá o homem e viverá"); nem os anjos a conhecem. E em D'us a existência não é nem acidente (Ele não recebe acidentes) nem algo acrescentado à essência (isso O tornaria composto) — logo existência e essência n'Ele coincidem. Como, então, fazer dela o fundamento da fé, se está oculta a toda apreensão?
A solução, herdada de Maimônides, é a distinção entre conhecer D'us em si (impossível) e conhecê-Lo como causa (possível). Não podemos falar da essência divina, mas podemos contemplar as obras que dele emanam — e nelas reconhecer a excelência do Agente. É por isso que o princípio é a "existência" e não a "essência" de D'us: estabelece-se pela via dos efeitos, a única aberta ao homem. E é por isso que a Torá abre com a Criação (Bereshit): apresenta D'us como agente do mundo, não como mistério metafísico.
A imagem central é a do artífice. Sua grandeza se mostra de dois modos: trabalhando matéria nobre (ouro, pedra preciosa) ou — mais admirável ainda — fazendo obra bela em matéria vil (esculpir o ferro). Albo invoca Aristóteles (nos tratados zoológicos), que defendia estudar até os seres "nascidos da putrefação": neles, justamente, a "força divina" brilha mais, pois dar vida à matéria mais baixa revela maior sabedoria que ordená-la na nobre.
Todo o capítulo é uma leitura do salmo Barchi nafshi (104) como tratado sobre o conhecimento de D'us. "Engrandeceste-te muito" aponta a essência inacessível; "de glória e esplendor te revestiste", as obras que a revelam. O salmo louva D'us pelos dois modos do artífice: as grandes criaturas (céus, luz, sol e lua "para as estações") e as ínfimas (os répteis do mar, nascidos da putrefação, que "expiram e voltam ao pó"). E o verso "alegre-se o Senhor nas suas obras" — que o Perek Shirá põe na boca dos répteis — ensina, por "transposição da linguagem", que mesmo na criatura mais baixa a sabedoria do Criador se faz reconhecer. Conhecer D'us, conclui Albo, é ler a assinatura do Artífice em tudo o que existe.
Há dois tipos de agente: o natural, que age sempre uma só coisa por necessidade (o fogo aquece), e o voluntário, que age por escolha. D'us não pode ser agente natural (seria deficiente e inseparável da ação); mas a ação voluntária parece implicar mudança, composição e carência — incompatíveis com Ele. E a saída da "vontade eterna" não resolve. Resta a pergunta: de que modo D'us é agente?
Há dois tipos de agente: o natural, que age sempre uma só coisa por necessidade (o fogo aquece), e o voluntário, que age por escolha. D'us não pode ser agente natural (seria deficiente e inseparável da ação); mas a ação voluntária parece implicar mudança, composição e carência — incompatíveis com Ele. E a saída da "vontade eterna" não resolve. Resta a pergunta: de que modo D'us é agente?
1 Os agentes são de dois gêneros. Um gênero não age, em essência e primariamente, senão uma só coisa — como o calor do fogo aquece e o frio da neve esfria; e este gênero se chama agente por natureza poel beteva, não por intenção e vontade. E outro gênero age ações opostas, e ele é o agente por escolha e vontade bevechirá veratzon: age uma coisa no tempo em que quer, e age o oposto no tempo em que quer.
הַפּוֹעֲלִים שְׁנֵי מִינִים. מִין לֹא יִפְעַל בְּעֶצֶם אֶלָּא דָּבָר אֶחָד, כְּחֹם הָאֵשׁ יְחַמֵּם, וְזֶה נִקְרָא פּוֹעֵל בְּטֶבַע. וּמִין יִפְעַל פְּעֻלּוֹת הֲפָכִיּוֹת, וְהוּא הַפּוֹעֵל בִּבְחִירָה וְרָצוֹן.
2 Mas a possibilidade de que a ação do Nome, bendito seja, decorra dele à maneira do primeiro gênero é coisa cuja nulidade é clara, porque o agente natural não se separa da ação — como a luz, que não se separa da lâmpada, e como o calor, que não se separa do fogo —, e D'us, bendito seja, é coisa separada da ação. E ainda, porque o agente natural é deficiente, pois não age coisa alguma com conhecimento e reconhecimento, mas é forçado na sua ação quando se acha o receptor preparado — pois o fogo queima se achar o receptor preparado para a queima; e o que é forçado diante do receptor preparado na sua ação, eis que é deficiente, visto que não há nele força para reter aquela ação nem para agir o oposto; e em D'us, bendito seja, não é cabido que se ache deficiência alguma — decorre disto que é impossível que a sua ação seja deste gênero.
שֶׁיִּהְיֶה פֹּעַל הַשֵּׁם נִמְשָׁךְ עַל דֶּרֶךְ הַמִּין הָרִאשׁוֹן הוּא מְבֹאַר הַבִּטּוּל, לְפִי שֶׁהַפּוֹעֵל הַטִּבְעִי לֹא יִפָּרֵד מִן הַפְּעֻלָּה. וְעוֹד כִּי הוּא חָסֵר, שֶׁהוּא הֶכְרֵחִי בִּפְעֻלָּתוֹ, וְאֵין בּוֹ כֹּחַ לַעֲצֹר הַפֹּעַל. וְהָאֵל אֵין רָאוּי שֶׁיִּמָּצֵא בּוֹ שׁוּם חִסָּרוֹן.
3 Mas a possibilidade de que a ação de D'us, bendito seja, decorra dele à maneira do segundo gênero — parece que é cabido que seja afastada dele, bendito seja. E isto é assim porque o nome "vontade" ratzon só se diz sobre ser o agente aquele que quer e faz alguma coisa em algum tempo que não queria antes disto, pois o nome "vontade" não recai sobre a coisa que se acha sempre de um mesmo modo; e decorre disto que o que tem vontade seja mutável de "não-querer" para "querer", e seja, então, afetado mitpa'el e receba mudança de outro — pois é impossível que a coisa una de todo lado seja agente e afetado juntos. E D'us, bendito seja, é impossível que se mude, nem que seja afetado, nem de outro nem de si mesmo também; pois, se fosse assim, seria composto de duas coisas — de uma coisa pela qual age e de uma coisa pela qual é afetado —, e o Nome, bendito seja, é impossível que haja nele composição harkavá de modo algum, como se explicará, e também é impossível que seja agente e afetado juntos; decorre disto que é impossível que a sua ação, bendito seja, seja por via da vontade, visto que lhe é impossível mudar-se. E ainda, porque todo o que quer, eis que é carente da coisa querida, e D'us, bendito seja, não lhe falta coisa que queira em algum tempo que não se achasse nele antes disso; e assim o que escolhe bocher, eis que escolhe uma de duas coisas por ser aquela coisa mais conveniente a ele que a outra, e ele é, então, carente daquela coisa escolhida antes de escolhê-la; e decorre de tudo isto que não é cabido que a ação de D'us, bendito seja, seja por escolha nem por vontade. E, visto que não é agente por escolha nem por vontade, nem como o agente natural, que é como o decorrer da luz a partir do sol, como explicamos — quem me dera saber de que modo se chama D'us, bendito seja, "agente"!
שֶׁשֵּׁם הָרָצוֹן יֵאָמֵר עַל הֱיוֹת הַפּוֹעֵל רוֹצֶה דָּבָר בְּעֵת מָה שֶׁלֹּא הָיָה רוֹצֶה אוֹתוֹ קֹדֶם, וְיִתְחַיֵּב שֶׁיִּהְיֶה מִשְׁתַּנֶּה וּמִתְפַּעֵל. וְכָל רוֹצֶה הוּא חָסֵר הַדָּבָר הַנִּרְצֶה. מִי יִתֵּן וְאֵדַע עַל אֵיזֶה צַד יִקָּרֵא הָאֵל פּוֹעֵל.
4 E vi quem escreveu que D'us, bendito seja, é agente por escolha e vontade, mas a escolha e a vontade não são renovadas nele como o são em nós, mas são nele eternas kedumim; e dizem deste modo que D'us, bendito seja, criou o mundo no tempo em que o criou e não antes disto, com uma vontade eterna que decretou que o mundo se achasse no tempo em que se achou. E acham-se pelos nossos mestres, de abençoada memória, ditos que indicam que a sua opinião está próxima desta opinião; disseram: "Uma condição condicionou o Santo, bendito seja, com a obra da criação — com o mar, que se fendesse, e com o fogo, que não queimasse Hananiá, Mishael e Azariá" etc.; do que se vê deste dito que, na verdade, disseram assim a fim de não atribuir a D'us uma vontade renovada no tempo em que o milagre se renovou, e por isso dizem que o milagre se renovou no tempo do seu renovar-se com uma vontade eterna que decretou que houvesse o milagre no tempo em que se achou.
וְרָאִיתִי מִי שֶׁכָּתַב שֶׁהָאֵל פּוֹעֵל בִּבְחִירָה וְרָצוֹן, אֲבָל אֵינָם מְחֻדָּשִׁים בּוֹ אֶלָּא קְדוּמִים, וְשֶׁבָּרָא הָעוֹלָם בְּרָצוֹן קָדוּם. וְנִמְצָא ״תְּנַאי הִתְנָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עִם מַעֲשֵׂה בְרֵאשִׁית עַל הַיָּם שֶׁיִּקָּרַע״, כְּדֵי שֶׁלֹּא לְיַחֵס לָאֵל רָצוֹן מְחֻדָּשׁ.
5 E esta opinião é muito distante de se conceber racionalmente; porque a expressão "vontade eterna", quando se compreende o seu sentido, é falsificada e indica a necessidade chiyuv e não a vontade. E isto é assim porque a pergunta volta como estava, e digamos: acaso, no tempo em que o mundo foi criado, ou o milagre se renovou, pela sua vontade eterna — estava em sua mão atrasá-lo daquele tempo, ou não estava em sua mão atrasá-lo? E, se estava em sua mão então atrasá-lo, anulou-se a vontade eterna, pois o motivo de que não o atrasou não foi por causa da vontade eterna, mas porque não quis, naquele tempo, atrasá-lo — e, se quisesse, atrasá-lo-ia. E, se disseres que não estava em sua mão então atrasá-lo daquele tempo, visto que assim decretou a vontade eterna — se é assim, anulou-se o nome "vontade", e a coisa voltou a ser ele agente por necessidade e não por vontade, visto que, se quisesse atrasá-lo daquele tempo, não poderia. E assim é forçoso dizer em todos os milagres e em toda ação que dele decorra em todo tempo: que decorre por via da necessidade, e que é impossível que a coisa não seja naquele tempo, visto que assim foi decretado pela sua vontade eterna e lhe é impossível mudá-lo. E, se a coisa é assim, será o homem mais perfeito nas suas ações que o Criador — visto que o homem tem poder para agir uma de duas coisas opostas em igualdade, como se dissesses enegrecer a tábua ou embranquecê-la conforme o seu desejo e a sua vontade em todo tempo que quiser, e D'us, bendito seja, não teria poder senão sobre uma de duas opostas apenas, a decretada pela vontade eterna — exalte-se D'us disto com uma grande exaltação.
וְזֶה הַדַּעַת רָחוֹק מְאֹד, כִּי מִלַּת ״רָצוֹן קָדוּם״ מְזֻיֶּפֶת וְתוֹרֶה עַל הַחִיּוּב. כִּי אִם הָיָה בְּיָדוֹ לְאַחֲרוֹ — נִתְבַּטֵּל הָרָצוֹן הַקָּדוּם; וְאִם לֹא הָיָה בְּיָדוֹ — שָׁב פּוֹעֵל בְּחִיּוּב. וְאִם כֵּן יִהְיֶה הָאָדָם יוֹתֵר שָׁלֵם בִּפְעֻלּוֹתָיו מֵהַבּוֹרֵא, יִתְעַלֶּה הָאֵל מִזֶּה.
Tendo estabelecido que conhecemos D'us como agente (cap. 1), Albo enfrenta agora a questão: que tipo de agente é Ele? A filosofia oferece dois moldes, e nenhum serve. O agente natural (o fogo que aquece) age sempre o mesmo, por necessidade, inseparável de seu efeito e sem conhecimento — atribuir isso a D'us seria torná-lo deficiente e preso à sua ação, o que é absurdo. Resta o agente voluntário.
Mas a vontade, tal como a conhecemos, também não cabe em D'us. "Querer" implica passar de "não-querer" a "querer" — logo mudança; e mudar é ser afetado, receber algo de fora, o que tornaria D'us composto (uma parte que age, outra que padece) e não pode haver composição n'Ele. Pior: quem quer ou escolhe é carente daquilo que deseja — e a D'us nada falta. Albo deixa o leitor diante de um impasse genuíno, encerrando com um suspiro filosófico: "quem me dera saber de que modo D'us se chama agente!"
A solução corrente — atribuir a D'us uma vontade eterna (Ele quis "desde sempre" que o mundo surgisse no momento exato em que surgiu, sem mudança nova) — Albo a desmonta com rigor. A pergunta apenas se desloca: no momento da criação, D'us podia tê-la adiado ou não? Se podia, então a "vontade eterna" não foi a causa real (foi um querer presente). Se não podia, então já não é vontade, mas necessidade disfarçada. A expressão "vontade eterna", conclui, "é falsificada e indica a necessidade, não a vontade".
O golpe final é uma reductio brilhante: se D'us estivesse preso a uma vontade eterna imutável, o homem seria mais perfeito que o Criador — pois o homem pode livremente enegrecer ou embranquecer uma tábua a cada instante, enquanto D'us só poderia o que o decreto eterno fixou. Isso é manifestamente blasfemo. Albo deixa o problema em aberto neste capítulo — a verdadeira solução (que a vontade de D'us é idêntica à sua essência e sabedoria, sem mudança nem carência) será construída nos capítulos seguintes do Maamar II. O capítulo é um modelo de honestidade filosófica: expõe a dificuldade em toda a sua força antes de resolvê-la.
A resolução da grande dificuldade: os filósofos negaram a vontade em D'us porque a vontade, em nós, implica mudança. Mas isso arranca todas as raízes da Torá. A verdade é que D'us age por vontade — só que a sua vontade não é do gênero da nossa: decorre da sua sabedoria, que é a sua própria essência, oculta. "Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos."
A resolução da grande dificuldade: os filósofos negaram a vontade em D'us porque a vontade, em nós, implica mudança. Mas isso arranca todas as raízes da Torá. A verdade é que D'us age por vontade — só que a sua vontade não é do gênero da nossa: decorre da sua sabedoria, que é a sua própria essência, oculta. "Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos."
1 E porque o assunto da vontade, junto a nós, se diz sobre o renovar-se de algo no agente que o leva a fazer o que não fazia antes do renovar-se da vontade, falaram os filósofos uma grande rebeldia contra o Nome e disseram que é impossível que a sua ação seja por vontade. E esta opinião, com o facto de arrancar todas as raízes da Torá por completo — pois, se Ele não age por via da vontade, é impossível que aja num tempo e não n'outro tempo, e isto leva à crença na eternidade absoluta do mundo e à extirpação de todos os milagres e maravilhas que vieram na Torá, e não aproveitaria a oração a D'us no tempo da angústia, nem a retidão da ação e o arrependimento e o demais que se menciona na Torá —, eis que é também contrária ao que decreta a especulação intelectual. E isto é assim porque é um primeiro inteligível que D'us, bendito seja, é cabido que se achem nele todos os gêneros das perfeições e se afastem dele todos os gêneros das deficiências; e por causa disto disse o profeta "tu, que és puro de olhos a ponto de não ver o mal, e não podes olhar para o sofrimento" (Habacuque 1:13) — pois, por ver que seria uma deficiência no seu respeito olhar para o sofrimento, disse que não pode fazer assim, como se explicasse que não é cabido que se lhe atribua coisa alguma que se imagine ser uma deficiência.
דִּבְּרוּ הַפִילוֹסוֹפִים סָרָה גְּדוֹלָה עַל הַשֵּׁם וְאָמְרוּ שֶׁאִי אֶפְשָׁר שֶׁתִּהְיֶה פְּעֻלָּתוֹ בְּרָצוֹן. וְזֶה הַדַּעַת עוֹקֵר כָּל שָׁרְשֵׁי הַתּוֹרָה, כִּי יָבִיא אֶל הַקַּדְמוּת וְאֶל עֲקִירַת כָּל הַנִּסִּים, וְלֹא תוֹעִיל הַתְּפִלָּה וְהַתְּשׁוּבָה. וְהוּא סוֹתֵר לָעִיּוּן הַשִּׂכְלִי, כִּי מוּשְׂכָּל רִאשׁוֹן שֶׁיִּסּוֹלְקוּ מִמֶּנּוּ כָּל מִינֵי הַחֶסְרוֹנוֹת.
2 E está claro que quem não age por vontade é deficiente, e não se lhe diz "agente" senão por transposição e alívio da linguagem. Pois, se dissermos que o fogo queima, e a espada mata, e a lâmpada ilumina, isto não se diz senão por transposição; já que a ação de matar feita pela espada e a iluminação da casa pela lâmpada não se atribuem, por via da verdade, senão ao agente por escolha — e ele é o homem, que matou pela espada e acendeu a lâmpada na casa. E assim quanto ao que lança uma veste no fogo e ela se queima, ainda que o fogo seja o que queima, não atribuímos a ação da queima senão ao homem que a lançou no fogo, e dizemos "fulano queimou a veste" — pois o homem é o agente por via da verdade, visto que age por escolha e vontade, e por isso a ele se atribui a ação. E os demais agentes — como a lâmpada, e a espada, e o fogo — são agentes deficientes, pois não está em sua mão agir ou não agir, senão conforme a vontade do homem que age por meio deles; e eles são como instrumentos para ele, como o machado e a serra, sobre os quais disse a Escritura "porventura se gloriará o machado contra o que corta com ele? Acaso se engrandecerá a serra contra o que a maneja?" etc. (Isaías 10:15). Quer dizer: não é cabido que se glorie o machado, que é o instrumento, a ponto de chamar-se "agente" contra o que corta com ele, pois o que corta com ele é o agente. E disse isto sobre o rei da Assíria, que pensava que ele era o agente e o que domina os povos com fúria conforme a sua vontade; e diz a Escritura que ele não é senão como um instrumento pelo qual o Nome age e o envia a fim de fazer juízo numa nação ímpia; e por isso disse no princípio do assunto "ai da Assíria, vara da minha ira" etc., "contra uma nação ímpia o envio, e contra o povo da minha fúria o ordeno" etc., "mas ele não pensa assim, e o seu coração não é assim que cogita" (Isaías 10:5-7).
וּמְבֹאָר שֶׁמִּי שֶׁלֹּא יִפְעַל בְּרָצוֹן הוּא חָסֵר, וְלֹא יֵאָמֵר לוֹ פּוֹעֵל אֶלָּא בְּהַעֲבָרָה. כִּי הָאֵשׁ הַשּׂוֹרֶפֶת אֵינָהּ פּוֹעֶלֶת בֶּאֱמֶת, אֶלָּא הָאָדָם הַמַּשְׁלִיךְ. ״הֲיִתְפָּאֵר הַגַּרְזֶן עַל הַחֹצֵב בּוֹ״, נֶאֱמַר עַל מֶלֶךְ אַשּׁוּר שֶׁאֵינוֹ אֶלָּא כִּכְלִי שֶׁהַשֵּׁם פּוֹעֵל עַל יָדוֹ.
3 Tudo isto indica que o instrumento não é agente por via da verdade, mas o agente é o que move o instrumento por vontade. E por isso, quando se diz sobre o Nome, bendito seja, que é agente dos existentes ou de alguma coisa, não é cabido que seja agente delas à maneira dos agentes deficientes, aqueles cuja ação não está em sua mão para fazer ou não fazer; pois, se fosse assim, seria o homem mais nobre que D'us, bendito seja, já que o homem tem poder de queimar a veste ou não queimá-la, e D'us, bendito seja, não teria poder sobre isto — e como é possível que aquele que tem um poder sem fim não seja capaz daquilo de que o homem é capaz? E por isso está claro que é forçoso que a ação de D'us, bendito seja, seja como a ação dos agentes perfeitos, e eles são os agentes por via da vontade e da escolha, que são, junto a nós, os agentes perfeitos.
וְלָזֶה כְּשֶׁיֵּאָמֵר עַל הַשֵּׁם שֶׁהוּא פּוֹעֵל, אֵין רָאוּי שֶׁיִּהְיֶה פּוֹעֵל כִּדְרֶךְ הַפּוֹעֲלִים הַחֲסֵרִים, שֶׁאִם כֵּן יִהְיֶה הָאָדָם יוֹתֵר נִכְבָּד מֵהָאֵל. וּמְבֹאָר שֶׁמְּחֻיָּב שֶׁיִּהְיֶה פֹּעַל הָאֵל כִּפְעֻלַּת הַפּוֹעֲלִים הַשְּׁלֵמִים, הַפּוֹעֲלִים עַל צַד הָרָצוֹן וְהַבְּחִירָה.
4 E, na verdade, a resolução da grande dúvida que decorre de que a sua ação, bendito seja, seja por via da vontade é deste modo. Pois, se a vontade e a escolha pelas quais ele age fossem do gênero da vontade e da escolha que há no homem, decorreria a dúvida que dissemos, a saber que renovariam uma mudança no agente; mas, visto que a sua vontade, bendito seja, não é do gênero da vontade que há em nós, não acontece disto nulidade alguma, pois a sua vontade decorre da sua sabedoria e do seu poder; e, assim como a sua sabedoria e o seu poder são sem fim e não são do gênero da nossa sabedoria e do nosso poder, assim a sua vontade não é do gênero da nossa vontade. E, assim como a sabedoria e o conhecimento nele, bendito seja, não são coisa acrescentada à essência — como virá —, mas são a própria essência, e, assim como a sua essência está oculta no extremo da ocultação, assim a sua sabedoria está oculta no extremo da ocultação, e não compreendemos do que lhe atribuímos a sabedoria senão o afastar dele a ignorância, que é o oposto.
וְהֶתֵּר הַסָּפֵק הוּא, כִּי אִם הָיוּ הָרָצוֹן וְהַבְּחִירָה מִמִּין שֶׁבָּאָדָם, הָיָה מִתְחַיֵּב הַסָּפֵק. אֲבָל אַחַר שֶׁאֵין רְצוֹנוֹ מִמִּין רְצוֹנֵנוּ, לֹא יִקְרֶה מִזֶּה בִּטּוּל, כִּי רְצוֹנוֹ נִמְשָׁךְ אַחַר חָכְמָתוֹ וְיָכְלְתּוֹ. וּכְמוֹ שֶׁחָכְמָתוֹ הִיא עֵין עַצְמוּתוֹ וְנֶעְלֶמֶת תַּכְלִית הַהֶעְלֵם, כֵּן רְצוֹנוֹ.
5 E assim dizemos que o motivo de atribuirmos a ele a vontade é a fim de que compreendamos disso o afastar de ele ser agente por via da necessidade, como os agentes deficientes de poder finito; pois a sua ação, bendito seja, é por um poder sem fim, e por isso é forçoso que decorra dele por via da vontade, como é nos agentes perfeitos — mas não a fim de que compreendamos a sua vontade como ela é, porque é essencial nele; e, assim como a sua essência está oculta no extremo da ocultação, assim a sua vontade está oculta no extremo da ocultação. E não dizemos sobre ele que é agente por vontade senão a fim de que compreendamos disso que não é agente por via da necessidade, sem intenção e vontade. E, se perguntares e disseres "como se muda Ele de não-querer para querer?", responder-te-emos: e como se muda de conhecer o homem antes de ele existir para conhecê-lo no tempo em que existe — que são, sem dúvida, conhecimentos diferentes?
וּמַה שֶּׁנְּיַחֵס אֵלָיו הָרָצוֹן הוּא כְּדֵי שֶׁנָּבִין מִמֶּנּוּ סִלּוּק הֱיוֹתוֹ פּוֹעֵל עַל צַד הַחִיּוּב. וְאִם תִּשְׁאַל הֵיאַךְ יִשְׁתַּנֶּה מִלֹּא רוֹצֶה אֶל רוֹצֶה, נְשִׁיבְךָ הֵיאַךְ יִשְׁתַּנֶּה מֵהֱיוֹתוֹ יוֹדֵעַ אֶת הָאָדָם קֹדֶם הֱיוֹתוֹ אֶל הֱיוֹתוֹ יוֹדֵעַ אוֹתוֹ בְּעֵת הֱיוֹתוֹ.
6 E não há caminho para escapar disto senão ou quando disseres que o seu conhecimento não é do gênero do nosso conhecimento, tal que renove nele mudança da maneira como ela renova em nós; ou que venhas a uma grande heresia, a fim de atribuir-lhe o atributo da ignorância, e digas que ele não conhece coisa alguma de tudo o que se renova no mundo senão os universais, e não conheceu Moisés no tempo em que existia mais do que o conhecia antes de existir ou depois de existir, e que não conhece os opostos a fim de que não haja nele conhecimentos mutáveis. E o mais cabido é que digamos que o seu conhecimento decorre da sua sabedoria; e, assim como a sua sabedoria é a própria essência e não é coisa acrescentada à essência e está oculta no extremo da ocultação, assim o seu conhecimento e a sua vontade e o seu poder, que decorrem da sua sabedoria, estão ocultos no extremo da ocultação, e não compreendemos deles senão que ele age a sua ação do modo como a age o agente mais escolhido. E, visto que achamos que o agente mais louvado é o agente por poder e intenção e vontade, dizemos sobre ele, bendito seja, que é agente por poder e intenção e vontade; e, ainda que não haja em nós força para alcançar aquela intenção e vontade tal como são, contudo sabemos que aquela vontade não renova nele mudança, visto que sabemos que a mudança seria uma deficiência no seu respeito.
וְהַיּוֹתֵר רָאוּי שֶׁנֹּאמַר כִּי יְדִיעָתוֹ נִמְשֶׁכֶת אַחַר חָכְמָתוֹ, וּכְמוֹ שֶׁחָכְמָתוֹ הִיא עֵין עַצְמוּתוֹ, כֵּן יְדִיעָתוֹ וּרְצוֹנוֹ וְיָכְלְתּוֹ נֶעְלָמִים תַּכְלִית הַהֶעְלֵם. וְנֵדַע שֶׁהָרָצוֹן הַהוּא אֵינוֹ מְחַדֵּשׁ בּוֹ שִׁנּוּי, אַחַר שֶׁהַשִּׁנּוּי הָיָה חִסָּרוֹן בְּחֻקּוֹ.
7 E por cair esta dúvida na vontade à primeira vista — quero dizer, a de que o que tem vontade seja mutável de não-querer para querer —, achas os profetas resolvendo esta dúvida do modo que escrevemos. Disse Isaías "buscai o Senhor enquanto se deixa achar, chamai-o enquanto está perto; deixe o ímpio o seu caminho, e o homem de iniquidade os seus pensamentos, e volte ao Senhor, que dele se compadecerá, e ao nosso D'us, pois Ele é grande em perdoar" (Isaías 55:6-7); e juntou a isto "pois os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor; pois como os céus são mais altos que a terra, assim são mais altos os meus caminhos que os vossos caminhos, e os meus pensamentos que os vossos pensamentos" (Isaías 55:8-9).
8 E a sua explicação: que, porque os filhos da sua geração duvidavam dele e diziam "como é possível que, se foi decretado sobre o ímpio que morra, acontecesse que, se fizer arrependimento, se anule o seu decreto? Se é assim, será D'us mutável de 'querente' para 'não-querente', e é impossível que o Nome se mude de querer castigar o ímpio para querer não o castigar" — e por causa disto decidiam absolutamente o juízo e diziam que o arrependimento não aproveita ao ímpio. E Isaías resolveu esta dúvida ao dizer "pois os meus pensamentos não são os vossos pensamentos" etc.; quer dizer: porque à primeira vista sobe à mente que há mudança de vontade nele, bendito seja, disse "pois os meus pensamentos não são os vossos pensamentos nem os vossos caminhos os meus caminhos"; pois, assim como há diferença entre o seu conhecimento e o nosso conhecimento, tal que não são de um mesmo gênero de modo algum, assim há diferença entre a sua vontade e a nossa vontade, e entre os seus caminhos e os nossos caminhos, até que não recai entre eles semelhança alguma.
אָמַר יְשַׁעְיָה ״דִּרְשׁוּ ה׳ בְּהִמָּצְאוֹ... וְיָשֹׁב אֶל ה׳ וִירַחֲמֵהוּ״, וְסָמַךְ ״כִּי לֹא מַחְשְׁבוֹתַי מַחְשְׁבוֹתֵיכֶם״. כִּי הָיוּ מְסַפְּקִים אֵיךְ תּוֹעִיל הַתְּשׁוּבָה לָרָשָׁע אִם נִגְזַר עָלָיו, וְהֵשִׁיב כִּי כְּמוֹ שֶׁיֵּשׁ הֶבְדֵּל בֵּין יְדִיעָתוֹ לִידִיעָתֵנוּ, כֵּן בֵּין רְצוֹנוֹ לִרְצוֹנֵנוּ.
9 E, para indicar isto, disse "pois como os céus são mais altos que a terra, assim são mais altos os meus caminhos que os vossos caminhos"; pois é coisa sabida que é impossível dizer sobre duas coisas que uma é mais alta que a outra senão quando ambas são altas e uma é mais alta que a outra, diferindo apenas em menos e mais — como dizemos que o fogo é mais alto que o ar, pois sobre ambos recai o nome da altura, a saber que são altos, exceto que o fogo é mais alto que o ar. Mas, se uma é alta no extremo da altura, como os céus, e a outra é baixa no extremo da baixeza, como a terra, tal que não recai sobre ela o nome da altura de modo algum, nem pouco nem muito — não se diz que esta é mais alta que aquela; mas, se dizemos sobre elas que uma é mais alta que a outra, queremos dizer que não há entre elas relação e semelhança de modo algum, visto que sobre uma, que são os céus, recai o nome da altura, e sobre a outra, que é a terra, não recai o nome da altura de modo algum, por estar no extremo da baixeza.
״כִּי גָבְהוּ שָׁמַיִם מֵאָרֶץ כֵּן גָּבְהוּ דְרָכַי מִדַּרְכֵיכֶם״. כִּי כְּשֶׁהָאֶחָד גָּבוֹהַּ בְּתַכְלִית כַּשָּׁמַיִם וְהָאַחֵר שָׁפֵל בְּתַכְלִית כָּאָרֶץ, אִם נֹאמַר שֶׁהָאֶחָד גָּבוֹהַּ מִן הָאַחֵר, נִרְצֶה שֶׁאֵין בֵּינֵיהֶם יַחַס וְדִמְיוֹן כְּלָל.
10 E assim diz a Escritura que são os seus pensamentos e os seus caminhos em relação aos nossos pensamentos e aos nossos caminhos: que, assim como aos céus e à terra não os abrange o nome da altura de modo algum — antes sobre os céus recai o nome da altura absolutamente, e sobre a terra não recai o nome da altura de modo algum —, assim são os seus pensamentos e os seus caminhos e o seu conhecimento em relação aos nossos pensamentos e aos nossos caminhos e ao nosso conhecimento; quer dizer, que não há entre eles relação de modo algum, nem os abrange um mesmo gênero — pois o seu conhecimento se chama conhecimento absolutamente, e o nosso conhecimento não se chama conhecimento de modo algum no mesmo sentido. E por isso não recai o nome do conhecimento sobre ambos como um só senão por transposição. E por isso não se deve inferir comparando a nossa vontade com a sua vontade, assim como não se deve inferir comparando o nosso conhecimento com o seu conhecimento; pois, ainda que a vontade que há em nós obrigue uma mudança em nós, eis que a sua vontade, bendito seja, não obriga nenhuma mudança nele. E por isso fez seguir a isto e disse "pois, assim como desce a chuva e a neve" etc., "assim será a minha palavra que sai da minha boca: não voltará a mim vazia, mas fará o que desejei" (Isaías 55:10-11) — quer dizer, que o desejo divino não é semelhante ao desejo humano, que às vezes não sai para o ato, pois o desejo divino sai para o ato em todo caso, e não há quem impeça em sua mão de fazer a sua vontade. E disto se vê que Isaías veio explicar o assunto da vontade e dizer que o seu desejo e a sua vontade não são do gênero do nosso desejo e da nossa vontade, e por isso não obrigam mudança no seu respeito de modo algum, ainda que obriguem mudança no nosso respeito. E eleva-se a nós disto que a ação divina se faz por via do desejo e da vontade; e, mesmo assim, isto não obriga mudança no seu respeito, bendito seja, nem deficiência alguma; e por isso recai sobre ele o nome do agente por intenção e vontade, que é o agente mais louvado. E é isto o que quisemos explicar.
שֶׁאֵין בֵּין יְדִיעָתוֹ וּרְצוֹנוֹ לְשֶׁלָּנוּ יַחַס כְּלָל, וְלֹא יִכְלְלֵם סוּג אֶחָד, כְּשֵׁם הַגֹּבַהּ הַנֶּאֱמָר עַל הַשָּׁמַיִם וְהָאָרֶץ. ״כֵּן יִהְיֶה דְבָרִי... לֹא יָשׁוּב אֵלַי רֵיקָם״, כִּי הַחֵפֶץ הָאֱלֹהִי יוֹצֵא אֶל הַפֹּעַל עַל כָּל פָּנִים. וְיִפֹּל עָלָיו שֵׁם הַפּוֹעֵל בְּכַוָּנָה וְרָצוֹן שֶׁהוּא הַפּוֹעֵל הַיּוֹתֵר מְשֻׁבָּח.
Este capítulo resolve a aporia do anterior. Albo primeiro mostra a gravidade do erro filosófico: negar a vontade em D'us "arranca todas as raízes da Torá" — aboliria a criação no tempo, os milagres, a eficácia da oração e do arrependimento. E é também filosoficamente falso, pois é axioma que D'us não tem deficiência alguma — e não agir por vontade é uma deficiência.
O argumento decisivo inverte a posição filosófica. Dizemos que "o fogo queima" ou "a espada mata", mas isso é só modo de falar (ha'avará): o verdadeiro agente é o homem que lança a veste ao fogo ou empunha a espada. O fogo e a espada são meros instrumentos — "deficientes", sem poder de agir ou não agir. Isaías já dissera: o machado não se gloria contra quem corta com ele (e o próprio rei da Assíria é só um instrumento na mão de D'us). Ora — conclui Albo — se só o agente voluntário é agente verdadeiro, seria absurdo que D'us fosse agente menos perfeito que o homem. Logo D'us age por vontade, na forma mais alta do agir.
Como, então, escapar à objeção de que querer implica mudar? A chave: a vontade de D'us não é do mesmo gênero que a nossa. Ela "decorre da sua sabedoria", e a sabedoria de D'us é a sua própria essência — oculta no extremo da ocultação. Atribuir-Lhe "vontade" não descreve um estado psicológico; apenas nega que Ele aja por necessidade cega. O paralelo é o conhecimento divino: Ele conhece o homem antes e depois de existir sem que isso O mude — porque o Seu conhecer não é do gênero do nosso. Quem rejeita isso só tem duas saídas, ambas heréticas: negar que D'us conheça os particulares, ou atribuir-Lhe ignorância.
A peça-mestra é a leitura de Isaías 55. Quando o profeta diz "os meus pensamentos não são os vossos... como os céus são mais altos que a terra", Albo extrai uma lição lógica precisa: normalmente "mais alto" compara coisas do mesmo gênero (o fogo é mais alto que o ar). Mas céu e terra não diferem em grau de altura — a terra não tem altura alguma. Dizer que o céu é "mais alto" que a terra significa, na verdade, que não há relação entre eles. Assim é a vontade e o conhecimento de D'us frente aos nossos: não diferem em grau, mas em gênero — o mesmo nome só se aplica a ambos "por transposição". Por isso o arrependimento pode "anular um decreto" sem que D'us mude: a Sua vontade, eterna e idêntica à Sua sabedoria, já contém a resposta ao retorno do pecador. E o desejo divino, ao contrário do humano, "sai sempre para o ato — não volta vazio".
A Torá começa com a criação para indicar a existência do Agente: a passagem das coisas do potencial ao ato prova que há quem as faça passar. E daí Albo constrói uma demonstração racional — tudo o que passa do potencial ao ato precisa de um motor externo; a cadeia não vai ao infinito; logo há um existente necessário, separado, único, sem relação com o tempo e sem deficiências.
A Torá começa com a criação para indicar a existência do Agente: a passagem das coisas do potencial ao ato prova que há quem as faça passar. E daí Albo constrói uma demonstração racional — tudo o que passa do potencial ao ato precisa de um motor externo; a cadeia não vai ao infinito; logo há um existente necessário, separado, único, sem relação com o tempo e sem deficiências.
1 Já explicamos no Maamar I que o motivo de a Torá começar na parashá de Bereshit foi indicar a existência do Agente. E isto é assim porque, do que ali se mencionou da saída das coisas do potencial koach ao ato poal, há uma prova sobre a existência do Agente que as faz sair ao ato. E do que se mencionou da sua saída ao ato em tempos diferentes — que são os seis dias da criação — há uma prova sobre a existência de um agente por intenção e vontade, que age as coisas em tempos diferentes conforme o que decretou a sua sabedoria, ainda que fosse possível que se achassem num só tempo; e, na verdade, se acharam em tempos diferentes para indicar a intenção e a vontade, pois com isto subsiste a Torá em geral e a recompensa e o castigo nela mencionados, como escrevemos acima. E é isto o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "E porventura não poderia ser criado o mundo num só enunciado? Mas foi assim a fim de fazer pagar os ímpios" etc. "e dar boa recompensa aos justos" etc. E também a ordem em que se acharam, em tempos diferentes, indica a anterioridade natural que há de algumas formações sobre outras, e indica que cada uma delas se achou no tempo cabido e conveniente a ela conforme a sua natureza, a fim de que se achasse no auge da sua perfeição que é possível que se ache nela, conforme o que decretou a sabedoria do Agente e a sua vontade; e por isso se disse em cada uma das obras da criação "e viu D'us que era bom", para indicar este assunto.
מִמַּה שֶּׁנִּזְכַּר בִּפְרָשַׁת בְּרֵאשִׁית מִיצִיאַת הַדְּבָרִים מִן הַכֹּחַ אֶל הַפֹּעַל יֵשׁ רְאָיָה עַל מְצִיאוּת הַפּוֹעֵל, וּמִיצִיאָתָם בְּזְמַנִּים מִתְחַלְּפִים יֵשׁ רְאָיָה עַל פּוֹעֵל בְּכַוָּנָה וְרָצוֹן. ״וַהֲלֹא בְּמַאֲמָר אֶחָד הָיָה יָכוֹל לְהִבָּרְאוֹת, אֶלָּא כְּדֵי לְהִפָּרַע מִן הָרְשָׁעִים״.
2 E do que o sentido testemunha sobre isto, da saída das coisas do potencial ao ato, podemos trazer uma demonstração especulativa sobre a existência de D'us, bendito seja, deste modo. Nós vemos que há aqui assuntos que estão em potencial e saem ao ato; e tudo o que sai do potencial ao ato tem, por força, algo que o faz sair, fora dele. Pois, se o que o faz sair estivesse nele e não houvesse ali nenhum impedimento, a coisa não se acharia em potencial em tempo algum, mas estaria em ato sempre. E, se o que o faz sair estivesse nele e a coisa tivesse um impedimento a fim de que não se achasse sempre em ato, e esse impedimento foi removido — eis que o que removeu o impedimento é o que fez a coisa sair do potencial ao ato; e aquele que faz sair, que estava fazendo sair em potencial e tornou-se fazendo sair em ato, foi ou por um impedimento vindo de si mesmo, ou por uma relação que estava ausente entre o agente e o afetado, e, quando se achou aquela relação, a coisa saiu ao ato; e cada um destes dois casos obriga a existência de algo que remove o impedimento ou que traz a relação. E assim se diz daquele que remove ou que traz; e isto não vai ao sem-fim bilti tachlit. E por isso é impossível escapar de que se chegue a um que faz sair do potencial ao ato tal que não há nele potencialidade alguma; pois, se houvesse nele potencialidade, haveria nele possibilidade, e o que tem nele possibilidade é possível que se ache e é possível que não se ache, e precisaria de outro que o fizesse sair do potencial ao ato a fim de forçar um dos dois possíveis sobre o outro; e esse outro será o que faz sair tal que não há nele potencialidade nem impedimento de modo algum, mas pela sua vontade simples faz o que quiser — e ele é o existente necessário mechuyav hametziut.
אֲנַחְנוּ נִרְאֶה שֶׁיֵּשׁ עִנְיָנִים בְּכֹחַ וְיֵצְאוּ אֶל הַפֹּעַל, וְכָל מַה שֶּׁיָּצָא מִן הַכֹּחַ אֶל הַפֹּעַל יֵשׁ לוֹ מוֹצִיא חוּצָה לוֹ בְּהֶכְרֵחַ. וְזֶה לֹא יֵלֵךְ אֶל בִּלְתִּי תַכְלִית. וְלָזֶה אִי אֶפְשָׁר מִבִּלְתִּי שֶׁיַּגִּיעַ אֶל מוֹצִיא שֶׁאֵין בּוֹ כֹּחָנִיּוּת כְּלָל, וְהוּא מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת.
3 E é falso que o existente necessário seja dotado de matéria baal chomer, pois todo dotado de matéria tem nele possibilidade e não será existente necessário; e por isso está claro que ele é separado nivdal. E o separado tal que não há nele possibilidade alguma e que é o que faz sair as coisas do potencial ao ato é D'us, bendito seja. E explicou-se que não é corpo. E explica-se também disto que ele é um echad, pois n'o que é separado não se concebe número, exceto se um for causa e o outro efeito; e o separado tal que não há nele possibilidade alguma é causa por força e não é efeito, pois o efeito é possível de existência, visto que a sua existência está dependente de outro — e decorre disto que ele é um. E também se explica que não tem dependência do tempo, pois, se tivesse dependência do tempo, achar-se-ia num tempo e não n'outro tempo, e haveria nele possibilidade. E explica-se também que é removido das deficiências, pois, se fosse deficiente, seria impossível que a sua ação fosse perfeita no auge da perfeição; e nós vemos todas as suas ações perfeitas no auge da perfeição, como se disse "a Rocha — perfeita é a sua obra" (Deuteronômio 32:4) — explica-se, então, que é removido das deficiências.
וּמִן הַשֶּׁקֶר שֶׁיִּהְיֶה בַּעַל חֹמֶר, כִּי כָּל בַּעַל חֹמֶר יֵשׁ בּוֹ אֶפְשָׁרוּת. וְלָזֶה הוּא מְבֹאָר שֶׁהוּא נִבְדָּל, וְשֶׁאֵינוֹ גּוּף, וְשֶׁהוּא אֶחָד, וְשֶׁאֵין לוֹ הִתְלוּת בַּזְּמָן, וְשֶׁהוּא מְסֻלָּק מִן הַחֶסְרוֹנוֹת, ״הַצּוּר תָּמִים פָּעֳלוֹ״.
4 E esta demonstração sobre a existência do Nome — a sua força é a força da quarta demonstração que trouxe o Rav, de abençoada memória, no Sefer HaMoreh Guia, na explicação da existência do Nome e das raízes que se ramificam dele; e é uma demonstração conforme a Torá moftet torani, concordante com a especulação, já que veio sobre ela a alusão na parashá de Bereshit, como escrevemos.
וְזֶה הַמּוֹפֵת עַל מְצִיאוּת הַשֵּׁם כֹּחוֹ כֹּחַ הַמּוֹפֵת הָרְבִיעִי שֶׁהֵבִיא הָרַב בְּסֵפֶר הַמּוֹרֶה, וְהוּא מוֹפֵת תּוֹרָנִי מַסְכִּים עִם הָעִיּוּן, שֶׁבָּא עָלָיו הָרֶמֶז בִּפְרָשַׁת בְּרֵאשִׁית.
Albo costura aqui a revelação e a razão. O relato da criação não é só narrativa: o facto de as coisas "saírem do potencial ao ato" (passarem de poder-ser a ser) é, em si, um argumento — toda atualização exige um atualizador. E o facto de a criação ter ocorrido em seis dias, em etapas, prova mais: prova um agente voluntário, que escolheu os tempos por sabedoria. (Tudo poderia ter sido criado "num só enunciado" — a sequência é deliberada, para fundar a recompensa e o castigo, e para que cada criatura surgisse no momento ótimo: "e viu D'us que era bom".)
O coração do capítulo é uma versão da prova cosmológica (a "quarta demonstração" de Maimônides). O raciocínio: tudo o que passa do potencial ao ato precisa de uma causa externa que o atualize — pois, se a causa lhe fosse interna e sem impedimento, a coisa estaria sempre em ato. Cada atualizador, por sua vez, precisou ser atualizado. Mas a cadeia não pode regredir ao infinito. Logo, deve existir um primeiro atualizador "no qual não há potencialidade alguma" — pura atualidade, que age "pela sua vontade simples": o existente necessário (mechuyav hametziut).
Elegantemente, todas as raízes do primeiro princípio (cap. 15 do Maamar I) decorrem desta única demonstração. O existente necessário não pode ter matéria (matéria implica possibilidade) — logo é separado e incorpóreo. Deve ser um (entre seres separados não há número, a menos que um seja causa do outro — mas o necessário é só causa). Não pode ter relação com o tempo (estar num tempo e não noutro seria possibilidade). E é livre de deficiências (suas obras são perfeitas — "a Rocha, perfeita é a sua obra"). A unidade, a incorporeidade, a independência do tempo e a perfeição não são axiomas avulsos: são consequências necessárias de Ele ser a Causa pura de toda atualização. Razão e Torá, conclui Albo, apontam para o mesmo D'us.
Albo examina as quatro demonstrações de Maimônides sobre a existência de D'us: a primeira (do movimento eterno) ele rejeita, pois apoia-se na eternidade do mundo que os crentes negam; a segunda é fraca, baseada numa premissa não provada; a terceira — do existente necessário versus o possível — é fortíssima, "sem refutação"; e a quarta concorda com a Torá.
Albo examina as quatro demonstrações de Maimônides sobre a existência de D'us: a primeira (do movimento eterno) ele rejeita, pois apoia-se na eternidade do mundo que os crentes negam; a segunda é fraca, baseada numa premissa não provada; a terceira — do existente necessário versus o possível — é fortíssima, "sem refutação"; e a quarta concorda com a Torá.
1 Este princípio, que é a existência do Nome, tem sobre ele outras demonstrações especulativas que trouxe o Rambam, de abençoada memória, no princípio da Segunda Parte do Sefer HaMoreh; mencioná-las-ei em resumo, a fim de despertar a atenção do que medita sobre o justo dentre elas em distinção do não-justo. E a primeira demonstração delas que fez o Rav, de abençoada memória, é construída sobre a existência de um movimento eterno e contínuo, como estabelece o filósofo; e isto é do que não confessam todos os adeptos da religião divina que creem na criação chidush, e o sentido tampouco pode testemunhar sobre isto; e por isso não nos ocupamos de trazer aquela demonstração.
הָעִקָּר הַזֶּה יֵשׁ עָלָיו מוֹפְתִים אֲחֵרִים שֶׁהֵבִיא הָרַמְבַּ״ם בְּסֵפֶר הַמּוֹרֶה. וְהַמּוֹפֵת הָרִאשׁוֹן בָּנוּי עַל מְצִיאוּת תְּנוּעָה נִצְחִית, וְזֶה מִמַּה שֶּׁלֹּא יוֹדוּ אוֹתוֹ בַּעֲלֵי הַדָּת הַמַּאֲמִינִים בַּחִדּוּשׁ, וְלֹא הִתְעַסַּקְנוּ בּוֹ.
2 E a segunda demonstração que trouxe o Rav, de abençoada memória, é muito fraca, porque é construída sobre uma premissa que ele apresentou em nome de Aristóteles cuja verdade não se explicou. Disse a premissa: que, quando se acha uma coisa composta de duas coisas, e se acha uma delas por si mesma fora daquela coisa composta, decorreu por força a existência da outra também por si mesma fora daquela coisa composta; pois, se a sua existência obrigasse a que não se achassem senão juntas — como a matéria e a forma natural —, não se acharia uma delas sem a outra de modo algum; será, então, a existência de uma delas por si mesma indicação da ausência da tal obrigação, e eis que se achará a outra por força. E o exemplo nisto: quando se acha o oximel sekanguebin, xarope que é composto do vinagre e do mel, e se acha o mel sozinho, decorre por força a existência do vinagre sozinho.
3 E após esta premissa disse: nós achamos muitas coisas compostas de um motor e de um movido — quero dizer, que movem outro e são movidas por outro no tempo em que movem; e achamos um movido que não move de modo algum, e ele é o movido último; decorre por força que se ache um motor que não é movido de modo algum, e ele é o motor primeiro.
4 E esta demonstração é construída sobre aquela premissa que ele apresentou em nome de Aristóteles, e ela não é verdadeira; pois não é forçoso que, quando se acha uma coisa composta de duas coisas e se acha uma sozinha, se ache a outra sozinha. Pois já se acha o homem, que é composto de animal vivente e de ser falante, e acha-se o vivente sozinho sem o falante, e não se acha o falante sem o vivente — a não ser que digamos que o anjo é falante sozinho, quero dizer, intelecto em ato sem ser corpo nutrido e sensível, que é a definição do vivente. E, ainda que haja como responder sobre isto... a premissa fica em dúvida; e por isso o Rav não se apoiou nesta demonstração e trouxe outra, terceira, especulativa, forte, tal que é impossível divergir dela, conforme o que escreveu, de abençoada memória, ali.
וְהַמּוֹפֵת הַשֵּׁנִי חָלוּשׁ מְאֹד, בָּנוּי עַל הַקְדָּמָה בְּשֵׁם אֲרִיסְטוֹ שֶׁלֹּא נִתְבָּאֲרָה אֲמִתָּתָהּ: שֶׁכְּשֶׁיִּמָּצֵא דָּבָר מֻרְכָּב וְיִמָּצֵא אֶחָד לְבַדּוֹ, יִמָּצֵא הָאַחֵר לְבַדּוֹ. וְאֵינָהּ אֲמִתִּית, כִּי הָאָדָם מֻרְכָּב מֵחַי וּמְדַבֵּר, וְיִמָּצֵא הַחַי לְבַדּוֹ וְלֹא הַמְדַבֵּר לְבַדּוֹ.
5 Disse o Rav: os existentes — o assunto neles não escapa de três partes: ou que sejam todos não-gerados e não-corruptíveis, ou todos gerados e corruptíveis, ou alguns gerados e corruptíveis e alguns não-gerados e não-corruptíveis; e esta divisão é necessária exaustiva.
6 E é falso que sejam todos não-gerados e não-corruptíveis, pois alcançamos pelo sentido muitos existentes gerados e corruptíveis. E é falso que sejam todos gerados e corruptíveis, porque, se todo existente caísse sob a geração e a corrupção, seriam todos os existentes possíveis de existência, e caberia que se corrompessem todos, e não haveria ali quem os fizesse sair e forçasse a sua existência sobre a sua inexistência, e não se acharia, então, coisa alguma dos existentes, visto que não haveria ali quem os fizesse sair nem quem os mantivesse a fim de forçar a sua existência sobre a sua inexistência — e nós os vemos existentes; decorre por força que se ache um existente não-gerado e não-corruptível tal que não há possibilidade de corrupção nele de modo algum, e ele é o que força a existência das coisas geradas e corruptíveis sobre a sua inexistência, e ele é o existente necessário mechuyav hametziut e não o possível de existência. Pois este existente não escapa de ser necessário no exame de si mesmo ou no exame da sua causa; e, se é no exame de si mesmo, então ele é o D'us; e, se é no exame da sua causa, então a sua causa seria necessária de existência no exame de si mesma — e ela é o D'us, bendito seja —, e ele é o que faz existir todas as coisas geradas e corruptíveis, e sem ele não seria possível que se achasse coisa alguma; e ele não é gerado nem corruptível.
הַנִּמְצָאוֹת לֹא יִמָּלֵט מִשְּׁלֹשָׁה חֲלָקִים: כֻּלָּן בִּלְתִּי הֹוּוֹת, אוֹ כֻּלָּן הֹוּוֹת נִפְסָדוֹת, אוֹ קְצָתָם וּקְצָתָם. וְשֶׁקֶר שֶׁיִּהְיוּ כֻּלָּן הֹוּוֹת נִפְסָדוֹת, כִּי הָיוּ כֻּלָּם אֶפְשְׁרֵי הַמְּצִיאוּת וְרָאוּי שֶׁיִּפָּסְדוּ כֻּלָּם. יִתְחַיֵּב שֶׁיִּמָּצֵא מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת, וְהוּא הָאֱלוֹהַּ.
7 E esta demonstração é muito forte nesta investigação, pois explica-se dela a existência do Nome por uma divisão necessária, e não do lado de as coisas existentes precisarem de um agente, como a primeira demonstração que escrevemos; e por isso disse o Rav sobre ela que não há nela rejeição nem controvérsia, senão para quem não conhece os caminhos da demonstração. E disse ainda que disto decorre que não é corpo, pois já explicamos que o D'us é o necessário de existência no exame de si mesmo, e tudo o que é necessário de existência no exame de si mesmo não é corpo, porque todo corpo é composto de dois assuntos, e em todo composto a composição é causa da sua existência, e não será, então, necessário de existência por si mesmo, pois a sua existência está dependente da existência das suas partes e da sua composição; e por isso está claro que não é corpo nem força num corpo. E disto se explica facilmente que ele é um, pois é falso que se ache em dois a necessidade de existência em igualdade sem nenhuma composição, pois forçosamente haveria em cada um deles o assunto da necessidade de existência e um assunto pelo qual se distingue do outro, e seria, então, o necessário de existência composto de dois assuntos — e já explicamos que o necessário de existência é impossível que haja nele composição de modo algum. E explica-se também que não cai sob o tempo, por ser todo o que cai sob o tempo mutável, e todo mutável tem quem o mude, e o necessário de existência no exame de si mesmo não tem outra causa que o mude, nem é ele também quem muda e o mutável juntos, pois, se fosse assim, haveria nele dois assuntos, um assunto pelo qual muda e um assunto pelo qual é mudado, e seria composto. E explica-se também que é removido das deficiências, pois, se houvesse nele deficiência, precisaria de outro que preenchesse a sua deficiência, e não seria, então, necessário de existência por si mesmo, mas por outro.
וְזֶה הַמּוֹפֵת חָזָק מְאֹד, שֶׁיִּתְבָּאֵר מִמֶּנּוּ מְצִיאוּת הַשֵּׁם בַּחֲלוּקָה הֶכְרֵחִית. וְאָמַר הָרַב שֶׁאֵין בּוֹ דְּחִיָּה אֶלָּא לְמִי שֶׁלֹּא יָדַע דַּרְכֵי הַמּוֹפֵת. וּמִזֶּה יִתְחַיֵּב שֶׁאֵינוֹ גּוּף, וְשֶׁהוּא אֶחָד, וְשֶׁאֵינוֹ נוֹפֵל תַּחַת הַזְּמָן, וְשֶׁהוּא מְסֻלָּק מִן הַחֶסְרוֹנוֹת.
8 E esta demonstração terceira, ainda que seja verdadeira e cabível apoiar-se nela como escrevemos, contudo o Rav, de abençoada memória, trouxe uma quarta demonstração, que é a primeira demonstração que escrevemos no capítulo anterior a este, porque ela concorda com o que se mencionou na Torá na parashá de Bereshit; e por isso a escrevemos nós primeiro, por ser conforme a Torá torani e também concordante com a especulação; e achamos que se apoiou nela Ibn Rushd Averróis na quarta questão do Livro da Destruição da Destruição Tahafut al-Tahafut. E escrevemos depois dela esta segunda demonstração a do existente necessário, por ser especulativa, aquela em que se apoiou o Rambam, de abençoada memória, e disse sobre ela que não há nela rejeição nem controvérsia. E explicou-se, então, o princípio da existência do Nome por duas demonstrações verdadeiras.
וְהַמּוֹפֵת הַזֶּה אַף אִם הוּא אֲמִתִּי, הֵבִיא הָרַב מוֹפֵת רְבִיעִי שֶׁהוּא מַסְכִּים עִם הַתּוֹרָה, וְעַל כֵּן כְּתַבְנוּהוּ אֲנַחְנוּ רִאשׁוֹן. וְנִתְבָּאֵר עִקַּר מְצִיאוּת הַשֵּׁם בִּשְׁנֵי מוֹפְתִים אֲמִתִּיִּים.
Este capítulo revela o Albo crítico — não um mero compilador de Maimônides, mas um avaliador rigoroso. Ele percorre as quatro demonstrações do Guia (II, introdução) separando "o justo do não-justo". O critério é duplo: uma prova vale mais se não depender de premissas que a fé rejeita, e se for logicamente inatacável.
A primeira prova de Maimônides parte do "movimento eterno e contínuo" das esferas — uma premissa aristotélica que pressupõe a eternidade do mundo. Albo a descarta sem rodeios: os crentes na criação não a admitem, e o próprio sentido não pode atestá-la. Uma prova de D'us não deveria repousar sobre uma tese que contradiz a Torá.
A segunda prova depende de uma premissa atribuída a Aristóteles: se um composto (A+B) existe, e A existe isolado, então B também deve existir isolado (como mel e vinagre no oximel). Albo a refuta com um contraexemplo elegante: o homem é "vivente + falante"; o vivente existe isolado (os animais), mas o "falante" não existe isolado — a não ser que se diga que o anjo é "intelecto puro". A premissa, portanto, não é universal, e a prova que sobre ela se ergue é frágil. Pelo próprio reconhecimento de Maimônides, foi por isso que ele acrescentou uma terceira.
A demonstração forte é a famosa prova da contingência. Os existentes ou são todos eternos, ou todos corruptíveis, ou mistos. Nem todos eternos (vemos coisas perecerem). Nem todos corruptíveis (se tudo fosse "possível de existência", tudo já teria perecido, e nada existiria agora — mas as coisas existem). Logo deve haver um existente necessário (mechuyav hametziut) que sustenta os contingentes. Maimônides diz dela que "não tem refutação, exceto para quem ignora os caminhos da demonstração". E dela fluem, como no capítulo anterior, todas as raízes: incorporeidade, unidade, independência do tempo, ausência de deficiências. Albo conclui com equilíbrio característico: prefere apresentar primeiro a prova "conforme a Torá" (do potencial ao ato, ligada a Bereshit, usada também por Averróis), e depois a prova puramente racional do existente necessário — duas demonstrações verdadeiras, uma ancorada na revelação, outra na razão pura.
O que todo crente deve crer neste princípio: que há no mundo um existente necessário por si mesmo, sem causa e sem semelhante, causa de todos os existentes. "Existente", dito d'Ele e das criaturas, não é um gênero comum — só a Ele a existência é verdadeira. E deste princípio decorrem as quatro raízes: unidade, incorporeidade, independência do tempo, ausência de deficiências.
O que todo crente deve crer neste princípio: que há no mundo um existente necessário por si mesmo, sem causa e sem semelhante, causa de todos os existentes. "Existente", dito d'Ele e das criaturas, não é um gênero comum — só a Ele a existência é verdadeira. E deste princípio decorrem as quatro raízes: unidade, incorporeidade, independência do tempo, ausência de deficiências.
1 Aquilo que cabe que o creia todo adepto de uma religião neste princípio, que é a existência do Nome, conforme o que se explicou na demonstração, é que há no mundo um existente necessário de existência por si mesmo mechuyav hametziut be'atzmo tal que não tem causa nem semelhante a ele, e ele é causa de todos os existentes, e nele está a permanência da sua existência, e a permanência da sua existência não está dependente deles nem de outro; e ele é o D'us, bendito seja.
מַה שֶּׁרָאוּי שֶׁיַּאֲמִינֵהוּ כָּל בַּעַל דָּת בָּעִקָּר הַזֶּה הוּא שֶׁיֵּשׁ בָּעוֹלָם נִמְצָא מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת בְּעַצְמוֹ שֶׁאֵין לוֹ עִלָּה וְלֹא דּוֹמֶה לוֹ, וְהוּא עִלַּת כָּל הַנִּמְצָאִים, וְהוּא הָאֱלוֹהַּ.
2 E este assunto dá uma compreensão representativa ao que se confirmou na demonstração nos capítulos passados. E o que cabe que se compreenda deste princípio é que, assim como a definição ou o sinal descritivo dá uma compreensão representativa daquilo que tem definição ou sinal, assim a palavra "existente" nimtza, neste lugar, é como um gênero sug que abrange todos os existentes; e o que dissemos, "necessário de existência por si mesmo", é a diferença essencial hevdel atzmi que há entre ele e os outros dentre os existentes. E as coisas que decorrem disto — que são a de que não tem causa, nem coisa semelhante a ele, e as demais coisas — não são senão a explicação da necessidade de existência por si mesmo, a fim de que se complete a compreensão representativa daquilo que é possível que se represente da sua existência, bendito seja.
3 Mas, conforme a verdade, isto não é definição nem sinal, pois ele, bendito seja, não tem definição, já que a definição é composta de gênero e diferença, e a palavra "existente" não é um gênero tal que se diga sobre todos os seus sujeitos por concordância behaskamá, como é o feitio do gênero ser assim; pois não há no mundo um gênero que o abranja com outro, já que não se diz "existente" sobre o D'us, bendito seja, e sobre outro por concordância — pois a existência verdadeira é dele, bendito seja, e a existência dos demais existentes é adquirida da sua existência. E, visto que "existente" não é um gênero que o abranja, bendito seja, e ao seu outro, ele não tem diferença. E por causa disto aquilo que se diz sobre ele, bendito seja, a saber que não há semelhante a ele nem igual a ele, são palavras que indicam apenas a alteridade hazulatiyut — quer dizer, que ele, bendito seja, é outro que os existentes, já que todos adquiriram a existência dele e não têm existência sem ele, e a sua existência não está dependente da existência deles.
מִלַּת ״נִמְצָא״ הוּא כְּסוּג שֶׁכּוֹלֵל כָּל הַנִּמְצָאִים, וְ״מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת בְּעַצְמוֹ״ הוּא הַהֶבְדֵּל. אֲבָל לְפִי הָאֱמֶת אֵין לוֹ גֶּדֶר, כִּי ״נִמְצָא״ אֵינוֹ סוּג שֶׁיֵּאָמֵר עַל הָאֵל וְעַל זוּלָתוֹ בְּהַסְכָּמָה, כִּי הַמְּצִיאוּת הָאֲמִתִּי הוּא אֵלָיו, וּמְצִיאוּת זוּלָתוֹ קָנוּי מִמֶּנּוּ.
4 E deste princípio se ramificam as quatro raízes que contamos no Maamar I, tais que todo o que nega uma delas é como quem nega o princípio; e são a unidade, e o afastamento da corporeidade, e que não tem dependência do tempo, e que ele, bendito seja, é removido das deficiências.
5 Quanto à unidade achdut, é claro do seu assunto que é necessária ao princípio da existência do Nome e se ramifica dele, do modo que explicamos nas demonstrações; pois, se não fosse um, mas dois ou mais, haveria em cada um deles por força dois assuntos — o assunto da necessidade de existência e o assunto pelo qual se distingue do outro —, e seria, então, composto, e a sua composição seria causa da sua existência, e não seria, então, necessário de existência por si mesmo.
וּמִן הָעִקָּר הַזֶּה יִסְתָּעֲפוּ הַד׳ שָׁרָשִׁים. הָאַחְדוּת מְבֹאָר שֶׁאִם לֹא הָיָה אֶחָד אֶלָּא שְׁנַיִם, הָיָה בְּכָל אֶחָד שְׁנֵי עִנְיָנִים, וְיִהְיֶה מֻרְכָּב, וְלֹא יִהְיֶה מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת בְּעַצְמוֹ.
6 E quanto a que não é corpo nem força num corpo, é claro também ser necessário ao princípio da existência do Nome e ramificar-se dele deste modo também. E isto é assim porque todo corpo é composto de matéria e forma, e em todo composto a sua composição é causa da sua existência, e a questão volta à demonstração da unidade. E, ainda que digamos que nem todo corpo, do lado de ser corpo, é composto de matéria e forma por força — mas que o corpo, do lado de ser corpo, não tem nele composição alguma e é um na definição, e a verdade é como era a opinião dos antigos nisto, e também Ibn Rushd Averróis escreveu no tratado 11 da Metafísica que esta é a opinião de Aristóteles, e que a composição não é necessária em todos os corpos, e diz que o corpo celeste é um de todo modo sem nenhuma composição, e disse ali também que a composição que sentimos nos corpos não é senão do lado da forma específica tzurá minit que reside no corpo; e conforme isto seria possível dizer que o D'us fosse corpo, conquanto sendo um —, mesmo assim, se fosse corpo, decorreria que fosse finito baal tachlit por força, e teria semelhante, pois seria semelhante nisto aos demais corpos, e a sua força seria finita; e ele, bendito seja, não tem semelhante, como dissemos. E ainda, porque o corpo não move um corpo senão movendo-se ele também quando o move; e, se é movido, precisa de outro motor fora dele tal que não seja corpo, e esse motor seria o necessário de existência, e não o corpo.
וְשֶׁאֵינוֹ גּוּף, כִּי כָּל גֶּשֶׁם מֻרְכָּב מֵחֹמֶר וְצוּרָה. וְאַף אִם נֹאמַר כְּדַעַת אֲרִיסְטוֹ שֶׁאֵין הַהַרְכָּבָה הֶכְרֵחִית בְּכָל הַגְּשָׁמִים, מִכָּל מָקוֹם אִם הָיָה גּוּף יִתְחַיֵּב שֶׁיִּהְיֶה בַּעַל תַּכְלִית וְיִהְיֶה לוֹ דּוֹמֶה, וְהוּא אֵין לוֹ דּוֹמֶה. וְעוֹד שֶׁהַגּוּף לֹא יָנִיעַ אֶלָּא בְּשֶׁיִּתְנוֹעֵעַ הוּא גַם כֵּן.
7 E quanto a que não tem dependência do tempo, é claro também que é necessário ao princípio da existência do Nome e se ramifica dele. E isto é assim porque, se caísse sob o tempo, não seria, então, causa de todos os existentes, pois o tempo seria anterior a ele, e seria um existente depois de não ter sido, e precisaria de quem o fizesse sair, e não seria, então, causa de tudo. E, se fosse existente com o tempo sempre, eis que não seria necessário de existência por si mesmo, mas por outro, que é o tempo — a não ser que o tempo seja a duração não-medida hemshech bilti meshu'ar tal que é impossível sem ela a eternidade. E assim, se não fosse eterno, haveria nele possibilidade de inexistência, e o que é possível de inexistência não é necessário de existência. E, em geral, se tivesse dependência do tempo, a sua existência estaria dependente da existência do tempo e não seria necessário de existência por si mesmo.
8 E explica-se também facilmente que o ser ele, bendito seja, removido das deficiências é necessário ao princípio da existência do Nome, porque, se fosse deficiente, precisaria de outro, e não seria, então, necessário de existência por si mesmo, mas por outro.
וְשֶׁאֵין לוֹ הִתְלוּת בַּזְּמָן, שֶׁאִם נָפַל תַּחַת הַזְּמָן לֹא יִהְיֶה עִלַּת הַכֹּל, כִּי הַזְּמָן הָיָה קוֹדֵם לוֹ. וּמְבֹאָר גַּם כֵּן שֶׁהוּא מְסֻלָּק מִן הַחֶסְרוֹנוֹת, שֶׁאִם הָיָה חָסֵר הָיָה מִצְטָרֵךְ אֶל זוּלָתוֹ, וְלֹא יִהְיֶה מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת בְּעַצְמוֹ.
Tendo demonstrado a existência de D'us (caps. 4–5), Albo agora destila o resultado numa fórmula de fé acessível: D'us é "o existente necessário por si mesmo, sem causa e sem semelhante, causa de todos os existentes". Esta frase dá uma "compreensão representativa" — não a essência (inacessível), mas uma descrição que o crente pode segurar.
O ponto mais sutil e filosoficamente profundo: parece que poderíamos definir D'us dizendo que o "gênero" é existente e a "diferença" é necessário por si. Mas Albo corrige — D'us não tem definição alguma, pois a palavra "existente" não é um gênero verdadeiro. Um gênero aplica-se a seus membros "por concordância" (no mesmo sentido); mas "existente" não se diz de D'us e das criaturas no mesmo sentido: só a D'us a existência é verdadeira e própria; as criaturas têm existência adquirida dele. É a doutrina da analogia do ser. Consequência: quando dizemos "não há semelhante a Ele", isso não é uma diferença dentro de um gênero — é pura alteridade, a afirmação de que Ele é radicalmente Outro, fonte de todo existir.
A segunda metade demonstra que as quatro raízes do primeiro princípio não são acréscimos, mas corolários da necessidade de existência. Unidade: dois necessários teriam de diferir em algo, logo seriam compostos, logo não necessários. Incorporeidade: corpo é composto (e mesmo concedendo, com Averróis, que nem todo corpo seja composto, um corpo seria finito, teria semelhante, e — movendo — teria de ser movido por outro). Independência do tempo: estar no tempo é depender dele, ou ter começado, ou poder não-existir — tudo incompatível com a necessidade. Ausência de deficiências: o deficiente precisa de outro para se completar. Tudo flui da mesma fonte: ser necessário por si exclui qualquer dependência, composição ou limite. O capítulo demonstra a coerência interna de todo o sistema — o primeiro princípio e suas raízes formam um único bloco lógico inquebrantável.
Das quatro raízes do primeiro princípio decorrem muitos ramos. Da unidade: remover de D'us os atributos acrescentados. Da incorporeidade: remover os afetos corporais (ira, tristeza, vingança). Da independência do tempo: o poder infinito e a incomparabilidade. Da ausência de deficiências: remover ignorância e fadiga. E só estas quatro raízes bastam — todo o mais nelas se inclui.
Das quatro raízes do primeiro princípio decorrem muitos ramos. Da unidade: remover de D'us os atributos acrescentados. Da incorporeidade: remover os afetos corporais (ira, tristeza, vingança). Da independência do tempo: o poder infinito e a incomparabilidade. Da ausência de deficiências: remover ignorância e fadiga. E só estas quatro raízes bastam — todo o mais nelas se inclui.
1 Das quatro raízes que dissemos serem ramificadas do primeiro princípio, que é a existência do Nome, decorrem muitos ramos. Pois da primeira raiz, que é a unidade achdut, é forçoso afastar dele, bendito seja, os atributos toarim — como a sabedoria, e a força, e a generosidade e os que se lhe assemelham —, porque todos são atributos acrescentados à essência; e, visto que ele, bendito seja, é um de todo modo, é impossível que tenha atributos essenciais nem acidentais, porque todos obrigam multiplicidade e removem a unidade.
מִן הָאַחְדוּת יְחֻיַּב לְסַלֵּק מִמֶּנּוּ הַתְּאָרִים כְּחָכְמָה וְהַגְּבוּרָה וְהַנְּדִיבוּת, לְפִי שֶׁכֻּלָּם תְּאָרִים נוֹסָפִים עַל הָעַצְמוּת, וְאַחַר שֶׁהוּא אֶחָד מִכָּל אֹפֶן אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּהְיוּ לוֹ תְּאָרִים, כִּי כֻּלָּם מְחַיְּבִים רִבּוּי.
2 E da segunda raiz, que é a de que não é corpo nem força num corpo, é forçoso afastar dele, bendito seja, todos os afetos corporais hitpaaliyot gashmiyim — como a ira, e a tristeza, e a alegria, e a vingança, e o rancor —, já que todos estes são afetos corporais que decorrem de um corpo ou de uma força num corpo.
וּמֵהַשֹּׁרֶשׁ הַב׳ שֶׁאֵינוֹ גּוּף יְחֻיַּב לְסַלֵּק מִמֶּנּוּ הַהִתְפַּעֲלִיּוֹת הַגַּשְׁמִיִּים, כְּמוֹ הֶחָרוֹן וְהָעֶצֶב וְהַשִּׂמְחָה וְהַנְּקִימָה וְהַנְּטִירָה, שֶׁכָּל אֵלּוּ נִמְשָׁכִים לְגוּף.
3 E da terceira raiz, que é a de que não tem dependência do tempo, é forçoso que o seu poder seja sem fim, e que se ache nele um poder sem fim e uma perfeição sem fim; e por isso é impossível que recaia nele igualdade nem semelhança a coisa alguma dos existentes. Pois, visto que todos são influenciados a partir dele, por força o seu poder deles é finito, e, visto que o seu poder é finito, têm dependência do tempo; e D'us, bendito seja, que os faz existir, visto que os renova, é eterno e sem fim. E é isto o que disse a Escritura "eu sou o primeiro e eu sou o último, e além de mim não há D'us" (Isaías 44:6) — quer dizer, visto que eu sou eterno, não há D'us que se iguale a mim; e assim disse a Escritura "e a quem me comparareis, a quem me igualarei? — diz o Santo; levantai aos altos os vossos olhos e vede: quem criou estes?" (Isaías 40:25-26).
וּמֵהַשֹּׁרֶשׁ הַשְּׁלִישִׁי שֶׁאֵין לוֹ הִתְלוּת בַּזְּמָן יְחֻיַּב שֶׁיִּהְיֶה כֹּחוֹ בִּלְתִּי בַעַל תַּכְלִית, וְאִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּפֹּל בּוֹ הַשִּׁוּוּי וְלֹא הַדִּמְיוֹן. ״אֲנִי רִאשׁוֹן וַאֲנִי אַחֲרוֹן וּמִבַּלְעָדַי אֵין אֱלֹהִים״.
4 E da quarta raiz, que é a de que ele, bendito seja, é removido das deficiências, é forçoso afastar dele toda coisa que se imagine nele ser uma deficiência — como a ignorância sichlut, e a fadiga leiut e os que se lhe assemelham.
וּמִן הַשֹּׁרֶשׁ הַד׳ שֶׁהוּא מְסֻלָּק מִן הַחֶסְרוֹנוֹת יְחֻיַּב לְסַלֵּק מִמֶּנּוּ כָּל דָּבָר שֶׁיְּדֻמֶּה בּוֹ שֶׁהוּא חִסָּרוֹן, כְּמוֹ הַסִּכְלוּת וְהַלֵּאוּת.
5 E agora não é cabido que se te dificulte por que contamos estas quatro raízes ramificadas do primeiro princípio e não contamos também o ser ele sábio, e querente, e capaz, e vivo e os que se lhe assemelham como raízes, assim como contamos que é um; e por que não contamos que ele, bendito seja, não tem gênero nem diferença nem semelhante nem oposto, e que não se muda e coisas como estas, assim como contamos que não é corpo nem força num corpo; e por que não contamos que ele, bendito seja, é perfeito com uma perfeição sem fim, e que é verdade, e que é bendito, assim como contamos que não tem dependência do tempo. Pois a resposta nisto é clara do que escrevemos, a saber que todos estes são ramos que saem das raízes que escrevemos. Pois o ser ele, bendito seja, sábio, e vivo, e querente, e capaz e os que se lhe assemelham se incluem na quarta raiz, que é a de que ele, bendito seja, é removido das deficiências; e assim o que é justo, e reto, e fiel, e piedoso, e herói, e misericordioso, e clemente e coisas como estas dentre as coisas que se imaginam serem perfeição. E o que ele, bendito seja, não tem gênero nem espécie nem acidente, e que não está num lugar e os que se lhe assemelham, todos se incluem n'o que não é corpo nem força num corpo. E o que ele, bendito seja, não se muda, e que tem perfeição sem fim e os que se lhe assemelham, todos se incluem n'o que ele, bendito seja, não tem dependência do tempo, pois tudo o que cai sob o tempo se muda e é finito. E o que ele, bendito seja, não tem semelhante nem igual e os que se lhe assemelham, todos se incluem na raiz da unidade. E o que ele, bendito seja, é verdade emet se inclui no primeiro princípio, que é a existência do Nome, pois "verdade" não é coisa fora de ser a sua existência dependente de si mesmo e não de outro, como virá na explicação do nome "Verdade"; e assim o ser ele bendito baruch não é coisa fora de ser ele quem influencia todos os existentes no auge da perfeição, como virá, com a ajuda do Nome. E, em geral, destas quatro raízes se entrelaçam todos os assuntos que pendem de D'us, bendito seja, e que se lhe atribuem, e os assuntos que cabe afastar dele. E voltemos a explicar cada uma destas quatro raízes por si mesma; e expliquemos primeiro o assunto dos atributos toarim que se atribuem a D'us, bendito seja, de que modo é possível que se lhe atribuam.
וְאֵין רָאוּי שֶׁיִּקְשֶׁה לָמָּה לֹא מָנִינוּ הֱיוֹתוֹ חָכָם וְרוֹצֶה וְיָכוֹל וְחַי שָׁרָשִׁים. כִּי כֻּלָּם עֲנָפִים יוֹצְאִים מִן הַשָּׁרָשִׁים: חָכָם וְחַי וְרוֹצֶה נִכְלָלִים בְּ״מְסֻלָּק מִן הַחֶסְרוֹנוֹת״; שֶׁאֵין לוֹ סוּג וְלֹא מָקוֹם נִכְלָל בְּ״אֵינוֹ גּוּף״; שֶׁאֵינוֹ מִשְׁתַּנֶּה נִכְלָל בְּ״אֵין לוֹ הִתְלוּת בַּזְּמָן״; שֶׁאֵין לוֹ דּוֹמֶה נִכְלָל בָּאַחְדוּת. וּנְבָאֵר תְּחִלָּה עִנְיַן הַתְּאָרִים.
Este capítulo é a contrapartida, no segundo discurso, da defesa que Albo fez no primeiro: por que apenas estas quatro raízes? A resposta segue o mesmo princípio de elegância — as quatro raízes são geradoras: delas brotam todos os "ramos" (anafim), todas as demais afirmações e negações que fazemos sobre D'us. Não se contam separadamente porque já estão contidas.
Albo organiza toda a teologia negativa e positiva sob quatro cabeças. Da unidade deriva a remoção de todos os atributos acrescentados (sabedoria, força, generosidade como "coisas" distintas da essência) — pois atributo implica multiplicidade. Da incorporeidade, a remoção dos afetos (ira, tristeza, alegria, vingança, rancor) — que são reações de um corpo. Da independência do tempo, o poder infinito e a incomparabilidade ("a quem me comparareis?"). Da ausência de deficiências, a remoção da ignorância e da fadiga.
A segunda metade é um exercício de classificação que revela a arquitetura. Ser D'us sábio, vivo, querente, capaz, justo, misericordioso — tudo cabe sob "removido das deficiências" (pois faltar-lhe qualquer perfeição seria deficiência). Não ter gênero, lugar, acidente — sob "não é corpo". Não mudar, ter perfeição infinita — sob "independência do tempo". Não ter semelhante — sob "unidade". E dois nomes recebem tratamento especial: ser Verdade (emet) não acrescenta nada — é apenas ter existência dependente de si mesmo (o próprio primeiro princípio); ser Bendito (baruch) é apenas ser a fonte que tudo faz fluir em perfeição. A teologia inteira reduz-se assim a um punhado de raízes — e o capítulo abre a transição para o grande tema seguinte do Maamar II: como, então, a Escritura pode atribuir atributos a D'us?
Um atributo que descreve algo por suas ações não obriga multiplicidade na essência do agente — pois de um único agente podem decorrer muitas ações diversas. O fogo, por um só poder (o calor), faz coisas opostas; a alma humana, una, produz ações naturais e voluntárias. Assim D'us pode ser descrito por muitos atributos sem que isso quebre a sua unidade.
Um atributo que descreve algo por suas ações não obriga multiplicidade na essência do agente — pois de um único agente podem decorrer muitas ações diversas. O fogo, por um só poder (o calor), faz coisas opostas; a alma humana, una, produz ações naturais e voluntárias. Assim D'us pode ser descrito por muitos atributos sem que isso quebre a sua unidade.
1 Do que é claro com pouca especulação é que o atributo toar pelo qual a coisa se descreve do lado das suas ações não obriga multiplicidade na essência do agente de modo algum, pois já é possível que decorram de um único agente muitas ações diferentes; e isto é claro nos dois gêneros dos agentes, seja no agente por natureza, seja no agente por vontade.
הַתֹּאַר שֶׁיְּתֹאַר בּוֹ הַדָּבָר מִצַּד פְּעֻלּוֹתָיו לֹא יְחַיֵּב רִבּוּי בְּעַצְמוּת הַפּוֹעֵל כְּלָל, כִּי אֶפְשָׁר שֶׁיִּמָּשְׁכוּ מִן הַפּוֹעֵל הָאֶחָד פְּעֻלּוֹת רַבּוֹת מִתְחַלְּפוֹת, בִּשְׁנֵי מִינֵי הַפּוֹעֲלִים.
2 No agente por natureza, como o fogo: pois ele derrete algumas coisas e coagula algumas, e cozinha, e queima, e enegrece, e embranquece; e quem não conhece a natureza do fogo pensará que há nele seis forças diferentes, das quais saíram estes seis assuntos diferentes que dissemos — pois acha nele um assunto pelo qual cozinha, e um assunto pelo qual queima, e um assunto pelo qual enegrece, e um assunto pelo qual age o oposto do enegrecer, que é embranquecer a coisa; e acha nele um assunto pelo qual derrete, e outro assunto pelo qual age o oposto e coagula — pois dirá que é impossível que se achem os opostos a partir de um único agente. Mas quem conhece a natureza do fogo compreenderá que, por uma única força que há nele — que é o calor chom —, o fogo age todas estas coisas, e as ações diferem do lado da diferença dos receptores mekablim, sem que isto obrigue multiplicidade na essência do fogo.
בְּפוֹעֵל בְּטֶבַע כְּמוֹ הָאֵשׁ, כִּי הִיא תַּתִּיךְ קְצָת הַדְּבָרִים וְתַקְפִּיא קְצָתָם וּתְבַשֵּׁל וְתִשְׂרֹף וְתַשְׁחִיר וְתַלְבִּין. וּמִי שֶׁיֵּדַע טֶבַע הָאֵשׁ יָבִין כִּי בְּכֹחַ אֶחָד שֶׁהוּא הַחֹם יִפְעַל כָּל אֵלּוּ, וְיִתְחַלְּפוּ הַפְּעֻלּוֹת מִצַּד הַמְקַבְּלִים.
3 E coisa como ela mesma se acha no agente por vontade; pois a força falante koach hamedaber que há no homem, aquela que age por vontade, conquanto sendo una, age ações diferentes: pois por ela o homem adquire as ciências e os ofícios, e conduz as cidades, e rasga e cose, e destrói e constrói, e coisas como estas, muitas, dentre ações opostas ou diferentes — conquanto sendo ela una e simples, pois não há quem diga que a força falante que há no homem seja composta. E assim a alma humana em geral: decorrem dela ações naturais diferentes — como a nutrição, e o crescimento, e a sensação — e ações voluntárias — como as ações da força motriz e da força falante; e não se achou dentre os filósofos quem dissesse que a alma humana é composta. Mas, porque se acha a ação do crescimento por si mesma no vegetal, e a ação da sensação no animal vivente, e a ação da intelecção por si mesma nos intelectos separados, isto leva a pensar que a alma humana é composta — como escreveram alguns dos médicos, a saber que no homem há três almas; e não é assim, pois a alma humana é una, e decorrem dela ações diferentes.
וּבְעַצְמוֹ יִמָּצֵא בְּפוֹעֵל בְּרָצוֹן, כִּי הַכֹּחַ הַמְדַבֵּר שֶׁבָּאָדָם עִם הֱיוֹתוֹ אֶחָד יִפְעַל פְּעֻלּוֹת מִתְחַלְּפוֹת, כִּי בּוֹ יִקְנֶה הַחָכְמוֹת וְיַנְהִיג הַמְּדִינוֹת וְיִקְרַע וְיִתְפֹּר. וְהַנֶּפֶשׁ הָאֱנוֹשִׁית אַחַת, יִמָּשְׁכוּ מִמֶּנָּה פְּעֻלּוֹת מִתְחַלְּפוֹת.
4 E esta coisa explicou-a o Rambam, de abençoada memória, na abertura do Comentário a Pirkei Avot, e trouxe um exemplo a isto de três lugares escuros: num acendeu-se a lâmpada e iluminou, e num brilhou a luz da lua e iluminou, e num brilhou o sol e iluminou; a saber que, ainda que em cada um destes lugares se ache a luz, que é a coisa que faz sair a visão do potencial ao ato, e que o nome "luz" se diz sobre eles por concordância e sem anterioridade nem posterioridade — de todo modo, visto que as suas causas não são iguais, são diferentes no exame das suas causas. E assim a força do crescimento e da sensação que se acham no homem não é a força do crescimento e da sensação que se acham no animal vivente e no vegetal; mas da alma do homem decorrem aquelas ações, como decorrem da alma do jumento e da alma da águia, conquanto as suas causas sejam diferentes. E disse ainda ali que não há um assunto que as reúna senão a homonímia do nome shituf hashem apenas; e disse ainda no fim das suas palavras: "E compreende este assunto, que é muito maravilhoso, no qual tropeçam muitos dos que filosofam, e decorrem dele conclusões afastadas e opiniões não verdadeiras"; até aqui as suas palavras ali.
וְזֶה בֵּאֵר הָרַמְבַּ״ם בִּפְתִיחַת פֵּרוּשׁ אָבוֹת, וְהֵבִיא מָשָׁל מִשְּׁלֹשָׁה מְקוֹמוֹת אֲפֵלִים: בְּאֶחָד הֻדְלַק הַנֵּר, וּבְאֶחָד זָרַח אוֹר הַיָּרֵחַ, וּבְאֶחָד זָרַח הַשֶּׁמֶשׁ. וְאָמַר שֶׁאֵין עִנְיָן יְקַבְּצֵם אֶלָּא שִׁתּוּף הַשֵּׁם בִּלְבַד.
5 E vê-se das suas palavras que já é possível que se ache um único existente do qual decorram dele muitas ações diferentes, algumas naturais e algumas voluntárias; e quem não compreende o assunto da alma humana que há no homem pensará que as muitas ações só decorrem de muitas forças diferentes; e quem medita o assunto da força falante e entende que, conquanto sendo una e simples e não havendo multiplicidade nela, dizemos sobre o homem que ele construiu tal casa e tal cidade e a destruiu, e conquistou tal cidade, e inventou tal ciência, e tudo isto não obriga multiplicidade na essência da força falante de modo algum — compreenderá como decorrem de um único agente muitas ações diferentes. E, se isto se acha nos agentes sensíveis fracos que estão junto a nós, com muito mais razão se acha isto no respeito do Agente Primeiro, que é a causa de todas as ações naturais e voluntárias; e por isso dizemos que, ainda que alcancemos que decorrem dele, bendito seja, muitas ações diferentes, isto não é do que obrigue multiplicidade nele, bendito seja.
וְנִרְאֶה שֶׁאֶפְשָׁר שֶׁיִּמָּצֵא נִמְצָא אֶחָד יִמָּשְׁכוּ מִמֶּנּוּ פְּעֻלּוֹת רַבּוֹת מִתְחַלְּפוֹת. וְאִם נִמְצָא זֶה בַּפּוֹעֲלִים הַחֲלוּשִׁים, כָּל שֶׁכֵּן בְּחֹק הַפּוֹעֵל הָרִאשׁוֹן. וְאֵין זֶה מְחַיֵּב רִבּוּי בּוֹ יִתְבָּרַךְ.
6 E por isso o que é mais correto junto aos que meditam é descrever o Nome por estes atributos diferentes do lado das ações diferentes — seja em receptores diferentes, como a força do crescimento no vegetal e a força da vida no animal vivente, seja num único receptor, como ser Ele clemente e misericordioso numa vez e vingador e rancoroso noutra vez a um mesmo homem ou a um mesmo povo —, e coisas como estes atributos que indicam as ações que decorrem dele. E por causa disto dizemos que, ainda que o descrevamos em si mesmo com algum atributo do lado da ação que vimos decorrer dele, isto não é do que obrigue multiplicidade nele. Pois, quando o descrevemos como sendo vivo chai no exame da ação que decorre dele — que é a vida a todos os viventes —, isto não obriga multiplicidade na sua essência, bendito seja, pois a intenção é dizer que, porque vemos a vida decorrer dele, julgamos que com ele está a fonte da vida a fim de fazer decorrer a vida a todos os viventes, e por isso o descrevemos como sendo vivo, conforme as palavras da Escritura "pois contigo está a fonte da vida" (Salmos 36:10).
7 E assim também julgamos que a luz or está com ele, do lado em que vemos que "na sua luz vemos a luz" (Salmos 36:10), pois ele é o que dá a força para ver a luz e é o que faz sair a visão do potencial ao ato; e assim em todas as perfeições, julgamos que estão junto a ele do lado de serem elas decorrentes dele — à maneira do que disse o salmista "aquele que planta o ouvido, porventura não ouvirá? Aquele que forma o olho, porventura não enxergará?" (Salmos 94:9).
וּכְשֶׁתֵּאַרְנוּ אוֹתוֹ בְּשֶׁהוּא חַי, הַכַּוָּנָה כִּי לְפִי שֶׁאָנוּ רוֹאִים הַחַיִּים נִמְשָׁכִים מִמֶּנּוּ, נִשְׁפֹּט שֶׁעִמּוֹ מְקוֹר חַיִּים, ״כִּי עִמְּךָ מְקוֹר חַיִּים״. וְכֵן ״בְּאוֹרְךָ נִרְאֶה אוֹר״. ״הֲנֹטַע אֹזֶן הֲלֹא יִשְׁמָע אִם יֹצֵר עַיִן הֲלֹא יַבִּיט״.
8 E por este caminho já o descrevemos como sendo sábio chacham no exame das ações que vemos decorrerem dele com uma sabedoria maravilhosa e uma grande ordenação, o que indica o achar-se junto a ele a sabedoria. E conforme isto já se descreve com atributos diferentes do lado de todas as ações diferentes que vemos decorrerem dele, sem que isto obrigue multiplicidade na sua essência. E assim já se descreve com atributos diferentes do lado de relações diferentes yechasim e adições diferentes — como dizemos que o Nome está perto do homem ou longe dele; disse a Escritura "perto está o Senhor dos quebrantados de coração" (Salmos 34:19), "longe está o Senhor dos ímpios" (Provérbios 15:29), já que a proximidade e o afastamento não são senão do lado do homem, que se aproxima do Nome ou se afasta dele — como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "'o Senhor, o Senhor' (Êxodo 34:6): eu sou ele antes de o homem pecar, e eu sou ele depois de o homem pecar", quer dizer, que a mudança não está nele, bendito seja, senão no homem; pois antes de pecar tem uma relação para com o Nome, e depois de pecar tem outra relação, já que se afasta dele — como a árvore, que está perto de Rúben numa vez e longe dele noutra, e a leste de Rúben numa vez e a oeste dele noutra, e a mudança não está na árvore, senão em Rúben. Ou que digamos que o Nome, bendito seja, é Formador, e Agente, e Rei, e Senhor e coisas como estes, pois isto é do que não obriga multiplicidade nem mudança na sua essência — assim como não obriga multiplicidade em Rúben o dizermos sobre ele que é filho de Jacó, e irmão de Simeão, e pai de Enoque, e sócio de Naftali, e dono do boi, e dono da cova: pois todos estes, sem dúvida, são atributos que não obrigam multiplicidade em Rúben — já que a multiplicidade não está na própria essência de Rúben, mas são atributos do lado das coisas a que se atribui ou a que se relaciona.
וְכֵן יְתֹאַר בִּתְאָרִים מִתְחַלְּפִים מִצַּד יְחָסִים מִתְחַלְּפִים, ״קָרוֹב ה׳ לְנִשְׁבְּרֵי לֵב, רָחוֹק ה׳ מֵרְשָׁעִים״, שֶׁאֵין הַשִּׁנּוּי בּוֹ אֶלָּא בָּאָדָם. כְּמוֹ הָאִילָן הַקָּרוֹב לִרְאוּבֵן פַּעַם וְרָחוֹק מִמֶּנּוּ פַּעַם, וְאֵין הַשִּׁנּוּי בָּאִילָן אֶלָּא בִּרְאוּבֵן.
9 E assim se descreve com atributos diferentes por considerações diferentes bechinot — como o nosso dizer sobre D'us, bendito seja, que é querente, ou sábio, ou capaz: a saber que a intenção não é dizer que há nele um atributo pelo qual pode criar, e outro atributo pelo qual quis, e outro atributo pelo qual criou, e outro atributo pelo qual conheceu o que criou — assim como não dizemos que há nele um atributo pelo qual criou os elementos, e outro atributo pelo qual criou as esferas, e um atributo pelo qual criou os anjos, e outro atributo pelo qual criou os homens, já que todas estas são ações diferentes que decorrem de um único agente, como dissemos. Mas, porque todo agente perfeito é impossível que aja alguma ação se não puder agir, e não souber agir, e não quiser agir, dizemos que ele é querente e capaz e sabedor; e estas são considerações diferentes no agente que não obrigam multiplicidade nele.
10 E por estes caminhos é que o Nome se descreve com atributos diferentes — seja do lado das ações diferentes do lado dos receptores, seja do lado das ações diferentes em si mesmas, ou do lado das relações e das adições a que se relaciona, ou do lado das considerações diferentes; pois todos estes não obrigam multiplicidade nele, bendito seja, e todos são permitidos no seu respeito. E é este o caminho da Torá e dos Profetas nos atributos que se lhe atribuem, bendito seja. Mas, se é possível que se descreva o Nome com atributos diferentes do lado de si mesmo mitzad atzmo, eis que isto é do que investigaremos, com a ajuda do Nome, bendito seja.
וְכֵן יְתֹאַר בִּבְחִינוֹת מִתְחַלְּפוֹת, כִּי כָּל פּוֹעֵל שָׁלֵם אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּפְעַל אִם לֹא יוּכַל וְיֵדַע וְיִרְצֶה, וְאֵלּוּ בְּחִינוֹת שֶׁלֹּא יְחַיְּבוּ רִבּוּי. וְזֶהוּ דֶּרֶךְ הַתּוֹרָה וְהַנְּבִיאִים בַּתְּאָרִים. אֲבָל אִם אֶפְשָׁר שֶׁיְּתֹאַר מִצַּד עַצְמוֹ, זֶה נַחְקֹר עָלָיו.
Eis o coração da teologia filosófica medieval. Se D'us é absolutamente um (cap. 6–7), como a Torá pode chamá-lo sábio, vivo, poderoso, misericordioso, vingador? Cada atributo parece acrescentar algo à essência, quebrando a unidade. A solução de Albo — herdada de Maimônides — distingue atributos que descrevem a essência (problemáticos) dos que descrevem a ação (inofensivos): "um atributo pela ação não obriga multiplicidade no agente".
As duas analogias são luminosas. O fogo, por uma única força (o calor), derrete e coagula, enegrece e embranquece — efeitos opostos! Quem não conhece sua natureza imagina seis forças distintas; quem a conhece vê que a diversidade vem dos receptores, não do fogo. A alma humana, una e simples, nutre, sente, raciocína, constrói cidades e inventa ciências — e ninguém a chama composta. Maimônides (intro a Avot) ilustra com três quartos escuros iluminados por vela, lua e sol: a "luz" é a mesma palavra, mas as causas diferem — só a homonímia (shituf hashem) os une.
O argumento é a fortiori: se até agentes fracos e sensíveis produzem multiplicidade de efeitos sem multiplicidade interna, quanto mais o Agente Primeiro, causa de toda ação. Chamá-lo "vivo" significa apenas que d'Ele flui a vida ("contigo está a fonte da vida"); "sábio", que d'Ele flui a ordem maravilhosa do mundo; "que vê", porque "quem forma o olho não enxergaria?". Os atributos descrevem o que emana de D'us, não partes d'Ele.
Albo sistematiza em quatro os modos pelos quais a Escritura atribui sem comprometer a unidade: (1) ações diversas pela diversidade dos receptores (crescimento no vegetal, vida no animal); (2) ações diversas em si a um mesmo objeto (clemente e vingador ao mesmo povo); (3) relações — "perto dos quebrantados, longe dos ímpios": a mudança está no homem que se aproxima ou afasta, como a árvore "perto" ou "longe" de Rúben (belíssima a leitura de "Eu sou o mesmo antes e depois de o homem pecar"); e como "Rúben" é filho, irmão, pai, sócio, dono — muitos títulos, um só Rúben; (4) considerações — querente, capaz, sabedor são aspectos sob os quais vemos um único ato. Estes quatro são "o caminho da Torá e dos Profetas". Fica em aberto, para os capítulos seguintes, a pergunta mais difícil: e os atributos que descrevem D'us em si mesmo?
O atributo, em geral, não é a essência do descrito, mas algo que se acrescenta a ela — e é ou essencial ou acidental. O essencial (a definição) não acrescenta multiplicidade, mas D'us não pode ter dois assuntos essenciais (seria composto). O acidental é de todo impossível (o acidente precisa de sujeito). Resta a pergunta: como, então, D'us é chamado "um"?
O atributo, em geral, não é a essência do descrito, mas algo que se acrescenta a ela — e é ou essencial ou acidental. O essencial (a definição) não acrescenta multiplicidade, mas D'us não pode ter dois assuntos essenciais (seria composto). O acidental é de todo impossível (o acidente precisa de sujeito). Resta a pergunta: como, então, D'us é chamado "um"?
1 O atributo toar pelo qual a coisa se descreve não é a essência do descrito, mas é outro assunto que se acrescenta à essência. E isto é assim porque o atributo não escapa de ser ou um assunto essencial atzmi ou um assunto acidental mikri. E, se for um assunto essencial — como o teu dizer "o homem é animal vivente falante" —, isto não é um atributo acrescentado à essência, mas é como o teu dizer "o homem é homem", pois o homem não é coisa fora da vida e da fala, e isto não é senão a explicação do nome be'ur shem, já que o atributo é a essência do descrito e não é outro assunto que se acrescente à essência. E não é remoto que se descreva o Nome com um atributo como este, visto que não é coisa acrescentada à essência; pois a multiplicidade das palavras não indica por força a multiplicidade dos assuntos, mas são a explicação da compreensão da essência — assim como dissemos "corpo nutrido sensível", palavras que não acrescentam multiplicidade à compreensão da palavra "animal vivente".
הַתֹּאַר אֵינוֹ עֶצֶם הַמְתֹאָר, אֲבָל הוּא עִנְיָן אַחֵר מַגִּיעַ לָעֶצֶם. וְאִם הָיָה עִנְיָן עַצְמִי, כְּאָמְרְךָ הָאָדָם חַי מְדַבֵּר, אֵין זֶה תֹּאַר נוֹסָף, אֶלָּא בֵּאוּר שֵׁם. וְלֹא יִרֻחַק שֶׁיְּתֹאַר הַשֵּׁם בְּתֹאַר כָּזֶה, אַחַר שֶׁאֵינוֹ דָּבָר נוֹסָף עַל הָעַצְמוּת.
2 Mas cabe que saibas que é impossível que se descreva o Nome, bendito seja, com duas coisas tais que sejam nele essência — como a vida e a fala no homem —, nem com uma coisa tal que seja nele parte de essência; pois, se fosse assim, seria o Nome, bendito seja, composto de duas coisas, e já explicamos que ele, bendito seja, é simples no extremo da simplicidade. Mas já se descreve com algum atributo de modo tal que aquele atributo seja explicação ao nome pelo qual se chama; e isto não vem senão quando o atributo for um assunto essencial que explica a essência do descrito — como dizemos que o Primeiro que faz existir é o necessário de existência e é a verdade absoluta, já que tudo isto é explicação do nome "necessário de existência", como virá na explicação do nome "Verdade".
אֲבָל אִי אֶפְשָׁר שֶׁיְּתֹאַר בִּשְׁנֵי דְבָרִים עַל שֶׁהֵם בּוֹ עֶצֶם, כַּחַיּוּת וְהַדִּבּוּר בָּאָדָם, שֶׁאִם כֵּן הָיָה מֻרְכָּב. אֲבָל יְתֹאַר בְּאֵיזֶה תֹּאַר עַל דֶּרֶךְ שֶׁיִּהְיֶה בֵּאוּר לַשֵּׁם, כְּמוֹ ״מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת״ וְ״הָאֱמֶת הַגָּמוּר״.
3 E, se o atributo for um assunto acidental, é claro que é impossível que se descreva por ele, bendito seja. E isto é assim porque o acidente precisa de um sujeito nose, pois o acidente não subsiste por si mesmo; e seria, conforme isto, o Nome, bendito seja, uma substância que é sujeito dos acidentes. E, se a permanência da substância e a necessidade da sua essência é sem os acidentes, eis que o acidente é possível que se ache e é possível que não se ache, e a substância é necessária de existência; será, então, o Nome, bendito seja, composto de duas coisas — de necessidade de existência e de possibilidade de existência —, e seria, do lado de ser necessário de existência, causa, e do lado de ser possível de existência, efeito; e seria causa e efeito juntos conquanto sendo uma substância que subsiste por si mesma — esta é uma diferença contradição impossível. E, se a sua permanência e a necessidade da sua essência não é sem o acidente, eis que o acidente, então, é necessário de existência, e a substância que o porta é necessária de existência; e seriam, então, dois existentes necessários de existência, ou um único existente composto de dois assuntos, que são a substância e o acidente — e tudo isto é do que se explicou a sua nulidade. E por isso está claro que é impossível que se descreva o Nome, bendito seja, com atributo algum, nem essencial nem acidental; e isto é do que obriga o afastamento dos atributos do Nome, bendito seja — exceto os que sejam por via da explicação da necessidade da sua existência, como dissemos.
וְאִם הָיָה הַתֹּאַר עִנְיָן מִקְרִי, מְבֹאָר שֶׁנִּמְנָע שֶׁיְּתֹאַר בּוֹ, כִּי הַמִּקְרֶה יִצְטָרֵךְ אֶל נוֹשֵׂא, וְיִהְיֶה הַשֵּׁם עֶצֶם נוֹשֵׂא הַמִּקְרִים, מֻרְכָּב מֵחִיּוּב הַמְּצִיאוּת וְאֶפְשָׁרוּת הַמְּצִיאוּת. וּמְבֹאָר שֶׁאִי אֶפְשָׁר שֶׁיְּתֹאַר בְּשׁוּם תֹּאַר לֹא עַצְמִי וְלֹא מִקְרִיִּי.
4 Porém, o facto de que é forçoso que se achem nele alguns atributos, eis que isto se explicará a sua verdade deste modo. E isto é assim porque é sabido, conforme as demonstrações que escrevemos, que, por ser ele, bendito seja, necessário de existência, é cabido que seja um — pois, se não for assim, não será necessário de existência; e é claro que a unidade achdut, em toda coisa, é um atributo acrescentado à essência, pois, se Rúben fosse um no sentido do que é homem, não seria possível que se descrevesse o cavalo e a árvore com a unidade, visto que a unidade seria a quididade de Rúben; e não seria possível que se descrevesse a brancura como sendo una, nem a sabedoria como sendo una. Mas, sem dúvida, a unidade é um assunto acrescentado à essência. E, visto que a unidade é coisa acrescentada à essência, e o Nome, bendito seja, não se descreve com atributo algum, como explicamos, senão com o que é explicação do nome apenas — precisamos explicar de que modo se diz sobre ele, bendito seja, que é um; pois o assunto da unidade dito sobre ele, bendito seja, não é como os demais atributos atribuídos a ele, bendito seja, do lado das suas ações. E, depois que explicarmos isto na unidade, falaremos sobre os demais atributos, de que modo é possível que se atribuam a ele, bendito seja.
וְאוּלָם שֶׁמְּחֻיָּב שֶׁיִּמָּצְאוּ לוֹ תְּאָרִים מָה, יִתְבָּאֵר כִּי לִהְיוֹתוֹ מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת רָאוּי שֶׁיִּהְיֶה אֶחָד, וְהָאַחְדוּת תֹּאַר נוֹסָף עַל הָעַצְמוּת. וְצָרִיךְ שֶׁנְּבָאֵר עַל אֵיזֶה צַד יֵאָמֵר עָלָיו שֶׁהוּא אֶחָד.
Tendo mostrado (cap. 8) que atributos de ação não comprometem a unidade divina, Albo enfrenta agora os atributos essenciais — os que pretendem descrever D'us em si mesmo. A análise é estritamente lógica: todo atributo é ou essencial (parte da definição) ou acidental (algo que sobrevém ao sujeito). E examina cada caso.
O atributo essencial parece inofensivo: dizer "o homem é animal racional" não acrescenta nada — é apenas explicitar o que "homem" já significa, como "o homem é homem". As muitas palavras da definição não criam multiplicidade real; são "explicação do nome" (be'ur shem). Por isso, em princípio, D'us poderia receber tal atributo — como "necessário de existência" ou "verdade absoluta", que apenas desdobram o sentido do próprio conceito de D'us. Porém — e aqui está o limite — D'us não pode ter dois assuntos essenciais distintos (como o homem tem "vida" e "fala"), pois isso O tornaria composto, contra a simplicidade absoluta.
O atributo acidental é categoricamente excluído por um argumento cerrado. Um acidente não subsiste sozinho — precisa de um sujeito que o porte. Se D'us portasse acidentes, ou eles seriam dispensáveis à sua essência (e então Ele seria composto de "necessário" + "possível", causa e efeito ao mesmo tempo — contradição), ou seriam indispensáveis (e então haveria dois necessários, ou um composto) — tudo absurdo. Conclusão: nenhum atributo, essencial ou acidental, pode realmente ser predicado de D'us, salvo os que apenas explicam a sua necessidade de existência.
O capítulo termina com um problema agudo que abre o seguinte. As demonstrações exigem que D'us seja um. Mas a "unidade", em geral, é um atributo acrescentado à essência — prova-o o facto de que cavalo, árvore, brancura e sabedoria também são "um" (logo a unidade não é a essência de nenhum deles em particular). Ora, se D'us não admite atributos acrescentados, e a unidade parece ser um, como dizê-lo "um"? A unidade divina não pode ser do mesmo tipo dos atributos de ação (cap. 8). Albo deixa a questão formulada — a sua resolução (que a unidade de D'us significa apenas a negação da multiplicidade, não uma propriedade positiva acrescentada) será o tema dos capítulos seguintes do Maamar II.
O que significa "um"? Albo percorre uma escala ascendente de unidade — de um povo, à carne, ao elemento, à superfície, à linha, ao ponto, ao número —, mostrando que nenhuma é unidade verdadeira. Só a D'us pertence a unidade absoluta: aquela que distingue um existente de tudo o mais, tal que nada se lhe iguala. E por isso "um", dito de D'us, é um atributo negativo — não acrescenta multiplicidade.
O que significa "um"? Albo percorre uma escala ascendente de unidade — de um povo, à carne, ao elemento, à superfície, à linha, ao ponto, ao número —, mostrando que nenhuma é unidade verdadeira. Só a D'us pertence a unidade absoluta: aquela que distingue um existente de tudo o mais, tal que nada se lhe iguala. E por isso "um", dito de D'us, é um atributo negativo — não acrescenta multiplicidade.
1 O nome "um" echad só se diz sobre a coisa que dá unicidade e distinção a um existente diferenciando-o de outro. E por isso recai o nome "um" sobre muitos indivíduos diferentes, por estarem concordes num assunto que os unifica e pelo qual se distinguem, naquele assunto, de outros. Seja aquele assunto acidental — como "um só povo e uma só língua", pois, por estarem concordes numa mesma coisa acidental, como a religião nos ismaelitas e a negrura nos cuxitas, dizemos sobre eles que são "uma só nação", por participarem de um assunto acidental que os distingue de outros. Seja aquele assunto essencial — como dizemos que Rúben e Simeão são um na humanidade, e o homem e o cavalo são um na animalidade vivente, pois se diz sobre eles o nome "um" por haver neles um assunto essencial que os distingue de outros. E quanto mais aquele assunto unificador o distinguir de outro, mais a coisa será verdadeira no nome "um". E por isso o assunto do "um" será mais verdadeiro sobre Rúben — conquanto sendo composto de muitos membros diferentes em espécie, visíveis ao sentido — do que é sobre "um só povo".
שֵׁם הָאֶחָד יֵאָמֵר עַל הַדָּבָר שֶׁהוּא נוֹתֵן יִחוּד וְהַבְדָּלָה לְנִמְצָא מִזּוּלָתוֹ. וְיִפֹּל עַל אִישִׁים רַבִּים מִתְחַלְּפִים, הֵן בְּעִנְיָן מִקְרִי (כְּעַם אֶחָד וְשָׂפָה אַחַת), הֵן עַצְמוּתִי (כִּרְאוּבֵן וְשִׁמְעוֹן אֶחָד בָּאֱנוֹשׁוּת).
2 E mais verdadeiro que este é o "um" dito sobre a carne, ou sobre o osso, ou sobre o membro único de partes homogêneas — ainda que seja composto de elementos diferentes —, porque a sua separação é difícil e não são alcançados pelo sentido separadamente, logo o nome "um" se aplica a eles mais verdadeiramente.
3 E mais verdadeiro que este, no nome "um", é o elemento simples yesod pashut, que é impossível dividi-lo na matéria e na forma das quais foi composto senão pelo intelecto, e nenhuma delas é alcançada pelo sentido separadamente. E o mais verdadeiro no nome "um" é a superfície shetach; e mais verdadeiro que este é a linha kav, que é uma só distância apenas, e não é composta de coisas que se dividam nelas, nem em ato nem no pensamento, como o elemento simples se divide na matéria e na forma, e como a superfície se divide no comprimento e na largura, mas é uma só distância simples, e distingue-se nisto de todos os existentes, e não participa com ele nisto outro algum; mas, de todo modo, a unidade da linha não é uma unidade absoluta, porque já se divide em linha curva e linha reta, e toda linha que apontes se divide em partes pequenas tais que cada uma delas se chama "linha". E mais verdadeiro que ela no nome "um" é o ponto nekudá, que não se divide nem em ato nem no pensamento, e é distinta dos outros existentes, e não participam com ela em coisa alguma exceto no facto de que é dotada de posição baalat matzav; e por causa disto isto não é uma unidade absoluta, visto que participam com ela na posição outros existentes. E mais verdadeiro no nome "um" é o "um" numérico echad mispari, que não é dotado de posição, e não participa com ele nisto outro dos existentes; exceto que a sua existência não é uma existência verdadeira em ato, mas só no pensamento, e por isso já alcança o pensamento uma grande reunião destes "uns" numéricos — pois esta é a definição do número, que é uma reunião dos "uns"; e por isso está claro que também este não é uma unidade absoluta, visto que não dá unicidade e distinção a algum existente em ato diferenciando-o de outro dos existentes, e é possível que se concebam muitos "uns" dele.
וְיוֹתֵר אֲמִתִּי הַיְסוֹד הַפָּשׁוּט, וְהַשֶּׁטַח, וְהַקַּו (מֶרְחָק אֶחָד), אֶלָּא שֶׁכְּבָר יֵחָלֵק. וְהַנְּקֻדָּה שֶׁלֹּא תֵחָלֵק, אֶלָּא שֶׁהִיא בַּעֲלַת מַצָּב. וְהָאֶחָד הַמִּסְפָּרִי, אֶלָּא שֶׁאֵין מְצִיאוּתוֹ בְּפֹעַל אֶלָּא בְּמַחֲשָׁבָה. וְאֵין אֵלֶּה אַחְדוּת גְּמוּרָה.
4 E a unidade absoluta achdut gemurá é a que dá unicidade e distinção, de tudo o que é fora dele, a um existente que é existente em ato, tal que é impossível que se conceba com ele outro semelhante a ele. E, visto que não há nos existentes um existente tal que não participe com ele outro em alguma coisa, e tal que nada se lhe iguale, exceto o Nome, bendito seja — está claro que não há no mundo quem sobre o qual recaia o nome "um", no sentido de ser distinto de tudo o que é fora dele na verdade, senão o D'us, bendito seja; porque só ele é necessário de existência, e todos os existentes fora dele são possíveis de existência e participam um com o outro na possibilidade de existência; e não há quem participe com ele na necessidade de existência nem em coisa alguma das coisas, nem mesmo no nome "existente" apenas, pois já explicamos que é impossível que haja dois necessários de existência, e que é impossível ao intelecto representá-los iguais de todo modo, e que a existência se diz sobre ele, bendito seja, e sobre outro por homonímia do nome shituf hashem. E, se é assim, a sua unidade, bendito seja, é uma unidade absoluta, tal que não participa com ele existente algum nem se iguala a ele em coisa alguma.
וְהָאַחְדוּת הַגְּמוּרָה הִיא אֲשֶׁר נוֹתֶנֶת יִחוּד וְהַבְדָּלָה מִכָּל מַה שֶּׁזּוּלָתוֹ, שֶׁאִי אֶפְשָׁר שֶׁיֻּשְׂכַּל עִמּוֹ זוּלָתוֹ דּוֹמֶה לוֹ. וְאֵין זֶה אֶלָּא הָאֱלוֹהַּ, כִּי הוּא לְבַדּוֹ מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת, וְהַמְּצִיאוּת יֵאָמֵר עָלָיו וְעַל זוּלָתוֹ בְּשִׁתּוּף הַשֵּׁם.
5 E, depois que se explicou que o "um" na verdade se diz sobre o existente tal que nada se lhe iguala nem se lhe assemelha, e se explicou que o necessário de existência — cuja existência se confirmou na demonstração — não tem semelhante a ele nem participa com ele existente algum em assunto algum, está claro que o atributo "um" dito sobre ele, bendito seja, é como que um assunto negativo inyan sholeli e não um assunto positivo inyan chiyuvi; e por isso não obriga multiplicidade na sua essência, bendito seja. E é isto o que se explicou na Torá explicitamente: "Ouve, Israel, o Senhor é nosso D'us, o Senhor é um" (Deuteronômio 6:4) — quer dizer, que, assim como no exame de ser ele nosso D'us, quer dizer, aquele que faz existir todos os existentes — e é esta a primeira demonstração que escrevemos —, decorre que há um necessário de existência que é só ele a causa de tudo e não tem semelhante nisto, como disse a Escritura "e a quem me comparareis, a quem me igualarei?" (Isaías 40:25), pois todos são efeitos fora dele; assim do lado de si mesmo ele é um, e não há um segundo semelhante a ele, e não há fora dele necessário de existência — e aludiu à segunda demonstração que escrevemos. E como que se explicou nisto que o assunto da unidade dito sobre ele, bendito seja, é um assunto negativo, não um assunto positivo; e por isso não obriga multiplicidade na sua essência, visto que não é um atributo acrescentado à essência.
הוּא מְבֹאָר שֶׁתֹּאַר הָאֶחָד הַנֶּאֱמָר עָלָיו כְּאִלּוּ הוּא עִנְיָן שׁוֹלְלִי וְלֹא עִנְיָן חִיּוּבִי, וְלָזֶה לֹא יְחַיֵּב רִבּוּי בְּעַצְמוּתוֹ. ״שְׁמַע יִשְׂרָאֵל ה׳ אֱלֹהֵינוּ ה׳ אֶחָד״ — מִצַּד עַצְמוֹ הוּא אֶחָד וְאֵין שֵׁנִי דּוֹמֶה לוֹ.
Para resolver o enigma deixado no capítulo anterior (como dizer D'us "um" se "unidade" é atributo acrescentado?), Albo primeiro analisa o que "um" significa. Ele constrói uma escala ascendente de unidades, da mais frágil à mais pura: um povo (unido por algo acidental, como língua ou cor), um indivíduo como Rúben (unido por algo essencial, e mais "um" que um povo, apesar de ter muitos membros), a carne/osso (cujos elementos não se separam ao sentido), o elemento simples (divisível só pelo intelecto), a superfície, a linha (uma só dimensão — mas divisível em curva/reta), o ponto (indivisível — mas com posição, partilhada por outros), e o um numérico (sem posição — mas existindo só no pensamento e multiplicável).
Cada degrau corrige uma imperfeição do anterior, mas nenhum atinge a unidade absoluta. Sempre resta algo: a linha se divide, o ponto tem posição comum a outros pontos, o número é mental e se multiplica. A "unidade absoluta" (achdut gemurá) exigiria um existente real que se distinguisse de tudo, sem que nada se lhe assemelhasse ou partilhasse coisa alguma com ele.
E isso só se realiza em D'us. Todas as criaturas partilham entre si pelo menos a "possibilidade de existência"; só D'us é "necessário de existência", e nem sequer o nome "existente" se aplica a Ele e às criaturas no mesmo sentido (é homonímia — shituf hashem, cap. 6). Logo, a unidade verdadeira, no rigor do termo, pertence exclusivamente a D'us. Os "uns" do mundo são unidades por aproximação; a d'Ele é a única real.
Aqui está a solução do enigma. Se "um", no sentido pleno, significa "nada se lhe iguala", então dizer "D'us é um" não acrescenta uma propriedade à sua essência — é uma afirmação negativa (sholeli): nega que haja semelhante, segundo, ou composição. Por isso não compromete a simplicidade. E Albo lê o Shemá como contendo as duas demonstrações da existência de D'us: "o Senhor é nosso D'us" (= causa de tudo, a prova pela criação) e "o Senhor é um" (= sem semelhante, a prova pela necessidade). A confissão diária da unidade de Israel é, para Albo, a própria conclusão da metafísica — formulada não como elogio, mas como a mais rigorosa das negações.
Se D'us é absolutamente um e simples, como surge dele a imensa multiplicidade dos existentes? Albo expõe o esquema dos dez intelectos e esferas — cada efeito gerando o seguinte —, culminando no "intelecto agente". E acrescenta a leitura cabalística que identifica os efeitos às sefirot e ao Shabat, e o intelecto adquirido pela Torá.
Se D'us é absolutamente um e simples, como surge dele a imensa multiplicidade dos existentes? Albo expõe o esquema dos dez intelectos e esferas — cada efeito gerando o seguinte —, culminando no "intelecto agente". E acrescenta a leitura cabalística que identifica os efeitos às sefirot e ao Shabat, e o intelecto adquirido pela Torá.
1 Os existentes se dividem com uma primeira divisão em duas partes: em existentes que subsistem por si mesmos omdim be'atzmam e em existentes que subsistem em outro. E os que subsistem em outro são como os acidentes que subsistem nos corpos, e as formas cuja existência está nas matérias. E os que subsistem por si mesmos são de três partes: a primeira parte, os corpos, e ela é a mais ínfima deles; a segunda parte, os intelectos separados sechalim nivdalim, que não têm dependência dos corpos; e a terceira parte, as almas nefashot, que são uma parte intermediária entre estas duas, pois estão dependentes dos corpos com algum gênero de dependência — já que recebem impressão e afecção dos intelectos separados, e agem e fazem impressão nos corpos —, e são como que intermediárias no grau entre os corpos e os intelectos separados.
הַנִּמְצָאִים יֵחָלְקוּ אֶל עוֹמְדִים בְּעַצְמָם וְאֶל עוֹמְדִים בְּזוּלָתָם. וְהָעוֹמְדִים בְּעַצְמָם ג׳ חֲלָקִים: הַגְּשָׁמִים (הַיּוֹתֵר פָּחוּת), וְהַשְּׂכָלִים הַנִּבְדָּלִים, וְהַנְּפָשׁוֹת שֶׁהֵן מְמֻצָּעוֹת בֵּין שְׁנֵיהֶם.
2 E, visto que a multiplicidade nos existentes é inteligível e sensível, cabe que expliquemos como é possível que se ache a multiplicidade a partir da Causa Primeira, conquanto sendo ela una no extremo da simplicidade. E o modo pelo qual se acha a multiplicidade a partir dela é deste modo: visto que achamos as espécies dos corpos serem dez, ou nove por força — e os nove deles são celestes, e o décimo é a matéria que está dentro do côncavo da esfera da lua; e os nove celestes são vivos e têm corpos e almas que agem e fazem impressão na existência, com a prova de que eles, com os seus movimentos e as suas inclinações ao norte e ao sul, ordenam os assuntos dos seres vivos e consertam a sua vida de modo conveniente à permanência da sua espécie, e não ordena os assuntos do vivente quem não é vivo — e por isso dizemos que eles são vivos, intelectivos, que apreendem as coisas ordenadas por eles.
3 E esta multiplicidade é impossível que se ache a partir do Uno simples, exceto se dissermos que o Princípio Primeiro fez fluir da sua existência simples no extremo da simplicidade um só intelecto, que é o primeiro efeito alul rishon, que é um existente que subsiste por si mesmo e não é corpo nem impresso num corpo; e ele é o princípio da multiplicidade, porque neste efeito se concebe multiplicidade de algum modo, já que há nele dois gêneros de intelecção — pois intelige a si mesmo e à sua origem; e no que intelige da sua origem, que é simples, faz-se fluir dele um só intelecto; e no que intelige de si mesmo, a saber que há nele dois assuntos por força — um, ser ele intelecto que intelige, que é um intelecto simples, e o segundo, ser ele tal que é possível de existência na sua essência, visto que a sua existência está dependente de outro —, faz-se fluir dele a alma da esfera e o seu corpo: pois no que intelige de si mesmo que é um intelecto simples — que é um inteligível importante — faz-se fluir dele a alma da esfera, e no que intelige que é possível de existência faz-se fluir dele o corpo da esfera, a parte que move o movimento diário.
וְהָרִבּוּי אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּמָּצֵא מִן הָאֶחָד הַפָּשׁוּט, אֶלָּא שֶׁהַהַתְחָלָה הָרִאשׁוֹנָה הִשְׁפִּיעָה שֵׂכֶל אֶחָד שֶׁהוּא הָעָלוּל הָרִאשׁוֹן. וּבוֹ יֻשְׂכַּל רִבּוּי, כִּי יַשְׂכִּיל אֶת עַצְמוֹ וְאֶת הַתְחָלָתוֹ. וּבְמַה שֶּׁיַּשְׂכִּיל מֵהַתְחָלָתוֹ יֻשְׁפַּע שֵׂכֶל, וּבְמַה שֶּׁיַּשְׂכִּיל מֵעַצְמוֹ יֻשְׁפַּע נֶפֶשׁ הַגַּלְגַּל וְגַרְמוֹ.
4 E assim a partir do segundo intelecto se faz fluir dele um terceiro intelecto e a alma da esfera das estrelas fixas e o corpo da esfera, deste modo. E assim a partir do terceiro se faz fluir um quarto intelecto e a alma da esfera de Saturno e o seu corpo; e a partir do quarto, um quinto intelecto e a alma da esfera de Júpiter e o seu corpo; e a partir do quinto intelecto, um sexto intelecto e a alma da esfera de Marte e o seu corpo; e a partir do sexto, um sétimo intelecto e a alma da esfera do Sol e o seu corpo; e a partir do sétimo, um oitavo intelecto e a alma da esfera de Vênus e o seu corpo; e a partir do oitavo, um nono intelecto e a alma da esfera de Mercúrio e o seu corpo; e a partir do nono, um décimo intelecto e a alma da esfera que é a esfera da lua e o seu corpo; e a partir do décimo se faz fluir a matéria de tudo o que está sob a esfera da lua e todas as almas que estão ali. E este décimo intelecto é o que o chamam "intelecto agente" sechel hapoel.
וְכֵן מִן הַשֵּׂכֶל הַשֵּׁנִי יֻשְׁפַּע שֵׂכֶל שְׁלִישִׁי וְנֶפֶשׁ גַּלְגַּל הַכּוֹכָבִים הַקַּיָּמִים, וְכֵן עַד הָעֲשִׂירִי. וּמִן הָעֲשִׂירִי יֻשְׁפַּע חֹמֶר כָּל מַה שֶּׁתַּחַת גַּלְגַּל הַיָּרֵחַ וְכָל הַנְּפָשׁוֹת. וְהַשֵּׂכֶל הָעֲשִׂירִי הוּא שֶׁיִּקְרָאוּהוּ שֵׂכֶל הַפּוֹעֵל.
5 E é claro que todos estes corpos são diferentes em espécie por força, por serem as suas causas diferentes, como difere o efeito da causa; e, assim como se diferencia a matéria de tudo o que está sob a esfera da lua da matéria da esfera da lua — por serem as suas causas diferentes, já que uma é causa e uma é efeito —, assim se diferenciam todas as esferas, uma da outra, e não participam em coisa alguma exceto na figura esférica e no movimento circular. E, visto que o que está acima da esfera da lua é permanente no indivíduo e não-corruptível, e o que está abaixo é corruptível e não permanente no indivíduo senão na espécie, por isso a luz na lua é crescente e minguante, para indicar que ela é como intermediária entre as coisas geradas e corruptíveis e as coisas permanentes no indivíduo, não-corruptíveis.
6 E porque é impossível que este assunto se encadeie em causa e efeito ao sem-fim, parou o encadeamento no décimo intelecto, que é o que age na matéria de tudo o que está sob a esfera da lua; e por isso se chama "intelecto agente", e se chama na língua dos nossos mestres, de abençoada memória, "príncipe do mundo" sar ha'olam.
וְכָל אֵלּוּ הַגְּרָמִים מִתְחַלְּפִים בְּמִין, וְלֹא יִשְׁתַּתְּפוּ אֶלָּא בַּתְּמוּנָה הַכַּדּוּרִית וְהַתְּנוּעָה הַסִּבּוּבִית. וְעָמַד הַהִשְׁתַּלְשְׁלוּת בַּשֵּׂכֶל הָעֲשִׂירִי שֶׁהוּא הַפּוֹעֵל, וְנִקְרָא בִּלְשׁוֹן רַבּוֹתֵינוּ ״שַׂר הָעוֹלָם״.
7 E porque, conforme o caminho e a ordem destes efeitos que dissemos — a saber que se faz fluir de cada um deles um efeito que é um intelecto que subsiste por si mesmo e a alma de uma esfera —, e porque do décimo intelecto, que é o intelecto agente, não se fez fluir outro efeito que fosse um intelecto que subsistisse por si mesmo, mas só uma alma cuja permanência está numa matéria, como a alma da esfera, e ele restou, conforme isto, como uma fêmea, que é influenciada mushpaat e não influencia — é isto o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "Disse o Shabat diante do Santo, bendito seja: 'Senhor do mundo, a todos deste um par, e a mim não deste um par'; disse-lhe: 'Minha filha, a Assembleia de Israel Knesset Israel será o teu par.'" Eis que, ao dizerem "disse o Shabat" em linguagem feminina, indicam que aludiram a uma medida midá que é influenciada e não influencia, e ela é o décimo intelecto; e chamaram-no "Shabat" porque os sábios da Cabala atribuíram cada dia dos dias da criação a um efeito dos sete últimos intelectos, e chamam os efeitos "sefirot" sefirot, e dizem que os três primeiros são coisa espiritual e os chamam "luz não apreensível", e os sete últimos atribuíram cada um deles a um dia dos sete dias da criação, e chamaram o décimo "Shabat", por ser ele o último dos efeitos e nele ter cessado shavat o encadeamento. E dizem que o último intelecto — que é o décimo, e é o intelecto agente, e é a décima sefirá que chamaram "Shabat" — reclamou diante do Nome por que cessou nele o encadeamento e não teve um par, quer dizer, outro existente que fosse um intelecto que subsistisse por si mesmo influenciado por ela, até que ela restou como uma fêmea influenciada e não influenciadora; e disseram que o Nome, bendito seja, respondeu "a Assembleia de Israel será o teu par", quer dizer, que o intelecto adquirido sechel haniknê por meio da Torá será um intelecto separado, que subsiste por si mesmo, permanente, e dominará sobre todas as coisas materiais — assim como os profetas e os piedosos renovavam, por meio do intelecto adquirido pela mão da Torá, sinais e prodígios, e é como que um intelecto separado, efeito do intelecto agente, ou da sefirá chamada "Shabat".
וְהַשֵּׂכֶל הָעֲשִׂירִי נִשְׁאַר כִּנְקֵבָה מֻשְׁפַּעַת וְאֵינוֹ מַשְׁפִּיעַ. הוּא שֶׁאָמְרוּ ״אָמְרָה שַׁבָּת לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, לְכֹל נָתַתָּ בֶּן זוּג וְלִי לֹא נָתַתָּ, אָמַר לָהּ כְּנֶסֶת יִשְׂרָאֵל תְּהֵא בֶּן זוּגֵךְ״. וְקָרְאוּ הָעֲלוּלִים סְפִירוֹת. וְהַשֵּׂכֶל הַנִּקְנֶה בְּאֶמְצָעוּת הַתּוֹרָה יִהְיֶה שֵׂכֶל נִבְדָּל קַיָּם.
8 E conforme as palavras de alguns dos sábios da Cabala que disseram que a sefirá Yesod se chama "Shabat" — porque contaram o início dos dias a partir da terceira sefirá, que é Biná —, será a reclamação a de que não há poder na mão do intelecto agente, que é Malchut, que é a décima sefirá e é efeito de Yesod, a fim de renovar outro intelecto separado, como há na mão de todos os intelectos separados que se renovam das sefirot; e, se é assim, ela é como par bat zug, parceira de Shabat, quer dizer, influenciada, e não par ben zug influenciador semelhante aos demais.
9 E para aludir a este assunto que escrevemos, disseram "todos concordam que no Shabat foi dada a Torá a Israel" — quer dizer, que por isso foi dada no Shabat, para indicar que por ela o homem adquire um intelecto efeito da medida chamada "Shabat", que é uma coisa permanente por si mesma; e esta é a alma adicional neshamá yeterá que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, que é dada ao homem no Shabat e na saída do Shabat é tomada dele, como se disse "no sétimo dia cessou e descansou shavat vayinafash" (Êxodo 31:17) — "ai! vai, perdeu-se a alma nefesh".
וּלְרְמֹז עַל זֶה אָמְרוּ ״הַכֹּל מוֹדִים כִּי בְּשַׁבָּת נִתְּנָה תּוֹרָה לְיִשְׂרָאֵל״, שֶׁעַל יָדָהּ יִקְנֶה הָאָדָם שֵׂכֶל קַיָּם. וְזוֹ הִיא הַנְּשָׁמָה הַיְתֵרָה הַנִּתֶּנֶת בַּשַּׁבָּת, ״שָׁבַת וַיִּנָּפַשׁ — וַי אָבְדָה נָפֶשׁ״.
10 E por causa disto o Shabat foi uma aliança e um sinal eterno entre o Nome e Israel; disse a Escritura "e guardarão os filhos de Israel o Shabat" etc., "entre mim e os filhos de Israel é um sinal para sempre" etc. (Êxodo 31:16-17) — quer dizer, que o Shabat é um sinal sobre o facto de que resta na nação alguma coisa do laço divino kesher elohi ligado a ela, tal que é impossível negá-lo, e que por meio daquele laço a nação alcança a felicidade eterna para a alma e o apego ao Nome — até que os seus piedosos que guardam o Shabat mudam a natureza; e é este o sinal da aliança.
11 Eis que esta é a opinião sobre o encadeamento das coisas a partir da Causa Primeira conforme a opinião de Avicena Ibn Sina e do Rambam, de abençoada memória, e de alguns dos sábios ismaelitas. Mas Ibn Rushd Averróis tem outra opinião nisto, e ela é a opinião dos primeiros filósofos; escrevê-la-ei depois de escrever a existência dos anjos, a fim de dar uma representação verdadeira ao crente de como se encadeiam as coisas e a multiplicidade dos existentes diferentes a partir da Causa Primeira, conquanto sendo ela una e simples no extremo da simplicidade.
וּבַעֲבוּר זֶה הָיְתָה שַׁבָּת בְּרִית וְאוֹת עוֹלָם, ״בֵּינִי וּבֵין בְּנֵי יִשְׂרָאֵל אוֹת הִיא לְעוֹלָם״. הִנֵּה זֶהוּ הַדַּעַת כְּפִי אִבְּן סִינָא וְהָרַמְבַּ״ם. וְאוּלָם יֵשׁ לְאִבְּן רֻשְׁד דַּעַת אַחֶרֶת, וְהִיא דַּעַת קַדְמוֹנֵי הַפִילוֹסוֹפִים.
Eis a questão clássica do neoplatonismo medieval: se a Causa Primeira é absolutamente una e simples, como dela procede a vasta multiplicidade do cosmos? Pois "do uno só procede o uno" (princípio aristotélico). Albo expõe a solução padrão da filosofia árabe-judaica (Alfarabi, Avicena, Maimônides): a emanação escalonada.
Do Primeiro emana um único primeiro intelecto. Este já contém uma dualidade: ao inteligir a sua causa, gera o intelecto seguinte; ao inteligir a si mesmo (como necessário-por-outro e como simples), gera a alma e o corpo da primeira esfera. Repetindo-se, a cadeia produz dez intelectos e nove esferas celestes (estrelas fixas, Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio, Lua), até o intelecto agente (sechel hapoel) — o décimo, que governa o mundo sublunar e é chamado pelos sábios "príncipe do mundo" (sar ha'olam). Assim a multiplicidade brota gradualmente, sem comprometer a simplicidade da Fonte.
O lance característico de Albo é fundir esse esquema filosófico com a Cabala: os dez efeitos são as dez sefirot — as três primeiras sendo "luz não apreensível", as sete últimas correspondendo aos sete dias da criação. O décimo (Malchut), último da cadeia, "onde cessou (shavat) o encadeamento", é o Shabat. E o belo midrash — o Shabat reclama de não ter "par", e D'us responde "a Assembleia de Israel será o teu par" — recebe leitura metafísica: enquanto os outros intelectos geram, o último apenas recebe ("como fêmea"); seu "par" é o intelecto adquirido pela Torá, que torna o homem capaz de um intelecto separado e permanente, pelo qual profetas e piedosos "mudam a natureza".
Daí a riqueza das aplicações: "todos concordam que a Torá foi dada no Shabat" — pois é pela Torá que o homem adquire a alma permanente, ligada à medida-Shabat; a "alma adicional" (neshamá yeterá) do Shabat, perdida em sua saída ("vai, perdeu-se a alma"); o Shabat como "sinal eterno" do laço divino (kesher elohi) que garante a Israel a felicidade da alma. Albo encerra com honestidade acadêmica: este é o esquema de Avicena e Maimônides, mas Averróis e os filósofos antigos pensam diferente — e ele promete expor essa alternativa adiante. Um capítulo que mostra Albo tecendo filosofia grega, falsafa árabe e Cabala num único tapete.
Todos confessam a existência dos anjos, mas divergem sobre o seu número. Os filósofos limitam-nos a dez (intelectos das esferas, distintos só como causa e efeito). Albo, fiel à Torá — que fala de anjos inumeráveis, reais e enviados aos homens —, propõe que os intelectos separados se distinguem pelas suas apreensões, o que permite uma multidão sem fim, sem causa-efeito.
Todos confessam a existência dos anjos, mas divergem sobre o seu número. Os filósofos limitam-nos a dez (intelectos das esferas, distintos só como causa e efeito). Albo, fiel à Torá — que fala de anjos inumeráveis, reais e enviados aos homens —, propõe que os intelectos separados se distinguem pelas suas apreensões, o que permite uma multidão sem fim, sem causa-efeito.
1 Na existência dos anjos malachim há controvérsia entre os filósofos e os sábios da Torá. E isto é assim porque, conquanto todos confessem a sua existência, eis que divergem na sua quididade mahut. Pois os filósofos dizem que, visto que a sua essência é um intelecto simples, é impossível que se conceba a multiplicidade neles, pois não se acha a multiplicidade nas coisas concordes na forma a não ser do lado da matéria hiyuli — já que a multiplicidade em toda coisa é do lado da matéria, e a unidade é do lado da forma, e por isso a unidade é mais nobre que a dualidade; e, porque os anjos, que são os intelectos separados, não são dotados de matéria, não se concebe de modo algum em que haveria a diferença entre eles, exceto se um for causa e um efeito. E conforme isto dizem que o número dos intelectos separados é dez, como o número das esferas, que são nove, ou dez com a matéria de tudo o que está sob a esfera lunar, como dissemos no capítulo anterior.
בִּמְצִיאוּת הַמַּלְאָכִים יֵשׁ מַחֲלֹקֶת. הַפִילוֹסוֹפִים יֹאמְרוּ כִּי אַחַר שֶׁעַצְמוּתָם שֵׂכֶל פָּשׁוּט אִי אֶפְשָׁר שֶׁיְּצֻיַּר הָרִבּוּי בָּהֶם, כִּי הָרִבּוּי מִצַּד הַחֹמֶר וְהָאַחְדוּת מִצַּד הַצּוּרָה. וְלֹא יְצֻיַּר בָּהֶם חִלּוּף אֶלָּא כְּשֶׁיִּהְיֶה הָאֶחָד עִלָּה וְהָאֶחָד עָלוּל.
2 E uma casta dos adeptos da Torá que seguiram esta opinião dizem que o número dos anjos é como o número das esferas que se movem com movimentos diferentes, pois cada uma delas tem um motor intelectivo particular que a move no seu movimento particular; e, porque o número das esferas que é necessário estabelecer a fim de que por elas se completem todos os movimentos visíveis dos astros são quarenta e nove ou cinquenta, será o número dos anjos quarenta e nove ou cinquenta, como o número dos motores. E dizem que esta é a opinião dos nossos mestres, de abençoada memória, que disseram "cinquenta portões do discernimento chamishim shaarei biná foram criados no mundo, e todos foram entregues a Moisés exceto um, como se disse 'e o fizeste pouco menor que D'us' (Salmos 8:6)"; e chamam-nos "portões do discernimento" porque cada um deles é uma apreensão particular por si mesma.
וְכַת מִבַּעֲלֵי הַתּוֹרָה יֹאמְרוּ כִּי מִסְפַּר הַמַּלְאָכִים כְּמִסְפַּר הַגַּלְגַּלִּים, שֶׁהֵם מ״ט אוֹ נ׳ כְּמִסְפַּר הַמְּנִיעִים. ״חֲמִשִּׁים שַׁעֲרֵי בִינָה נִבְרְאוּ בָּעוֹלָם וְכֻלָּם נִמְסְרוּ לְמֹשֶׁה חוּץ מֵאַחַת״.
3 E tudo isto diverge da opinião da Torá, pois precisariam dizer que os anjos enviados aos filhos do homem são assuntos imaginários, não coisas verdadeiras em si mesmas; e a Escritura diz que há uma multiplicidade de anjos existentes em si mesmos, sem que necessariamente sejam enviados aos filhos do homem — como explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, sobre o versículo "a carruagem de D'us são duas miríades, milhares de anjos" (Salmos 68:18), e sobre o versículo "mil milhares o serviam" (Daniel 7:10); e diz que há anjos existentes que são enviados aos filhos do homem, como se disse "pois os seus anjos ordenará a teu respeito, a fim de guardar-te em todos os teus caminhos" (Salmos 91:11), e "e o homem Gabriel, que eu vira na visão no princípio, vindo em voo rápido, tocou-me cerca da hora da oferta da tarde" (Daniel 9:21), e ali está escrito "e não há nenhum que se fortaleça comigo nestas coisas senão Miguel, vosso príncipe" (Daniel 10:21) — tudo o que indica que há anjos existentes em si mesmos e enviados aos filhos do homem; e esta opinião é acordada por todos os adeptos das religiões.
וְכָל זֶה חוֹלֵק עַל דַּעַת הַתּוֹרָה, כִּי הַכָּתוּב אוֹמֵר שֶׁיֵּשׁ רִבּוּי מַלְאָכִים נִמְצָאִים בְּעַצְמָם, ״רֶכֶב אֱלֹהִים רִבֹּתַיִם אַלְפֵי שִׁנְאָן״, ״אֶלֶף אַלְפִין יְשַׁמְּשׁוּנֵיהּ״, וְשֶׁמִּשְׁתַּלְּחִים לִבְנֵי אָדָם, ״כִּי מַלְאָכָיו יְצַוֶּה לָּךְ״.
4 E por isso parece que a diferença entre os intelectos separados é do lado da diferença dos seus inteligíveis muskeleihem, conforme o que apreendem dos atributos da perfeição que há nele, bendito seja, sem que um seja causa e um efeito; e haveria ali "intelecto" como que sendo um gênero que abrange todos eles, e a diferença de cada um deles conforme a apreensão ou as apreensões que apreende. E isto não é do que obrigue multiplicidade na essência de algum deles. Pois as coisas — há dentre elas as que são compostas de gênero e diferença na existência, como o homem, que é composto de animalidade vivente e de fala, que são gênero e diferença existentes assim na existência, e por isso ele é composto por força; e há dentre elas as que são compostas de gênero e diferença só no enunciado bemaamar e não na existência, como a negrura, que é uma cor que condensa a visão — e a "cor" é o gênero, e o "condensar a visão" a sua diferença —, e isto não é do que obrigue multiplicidade na essência da negrura de modo algum, pois a negrura não é composta na existência de duas coisas de modo algum, senão só no enunciado.
וְעַל כֵּן נִרְאֶה שֶׁיִּהְיֶה הַהִתְחַלְּפוּת בֵּין הַשְּׂכָלִים מִצַּד הִתְחַלְּפוּת מֻשְׂכְּלֵיהֶם, כְּפִי מַה שֶּׁיַּשִּׂיגוּ מִתָּאֳרֵי הַשְּׁלֵמוּת אֲשֶׁר בּוֹ, מִזּוּלַת שֶׁיִּהְיֶה הָאֶחָד עִלָּה. וְיֵשׁ דְּבָרִים מֻרְכָּבִים מִסּוּג וְהֶבְדֵּל בְּמַאֲמָר בִּלְבַד וְלֹא בִּמְצִיאוּת, כַּשַּׁחֲרוּת.
5 E assim é o assunto nos intelectos separados, a saber que, ainda que sejam compostos no enunciado, isto não é do que obrigue multiplicidade na sua essência. Pois, assim como os adeptos daquela opinião confessam que já recai diferença entre os intelectos separados do lado da diferença das suas ações no mover as suas esferas com movimentos diferentes, ainda que não seja um causa e um efeito — assim diferem do lado da sua apreensão; pois todo o que apreende dos atributos da perfeição que há nele, bendito seja, um ou dois, difere daquele que apreende mais que isto, ou daquele que apreende outros inteligíveis dele, bendito seja, sem que isto obrigue multiplicidade alguma na essência de cada um deles de modo algum. E conforme a diferença dos seus inteligíveis, assim difere o seu poder e a sua ação no mundo; pois, assim como o chefe na cidade nomeia homens sobre alguma chefia conforme a sua perfeição e a sua apreensão, e outros sobre uma chefia maior conforme a grandeza da sua perfeição e da sua apreensão, assim o Nome, bendito seja, nomeia cada um dos anjos sobre um assunto particular conforme a sua apreensão e o seu poder; e por causa disto é que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "um só anjo não faz duas missões" — do que se vê que cada anjo tem uma missão e um poder particular conforme a sua apreensão; e assim dizem "o príncipe do fogo" e "o príncipe da água".
וְכֵן בַּשְּׂכָלִים הַנִּבְדָּלִים, אַף עַל פִּי שֶׁהֵם מֻרְכָּבִים בְּמַאֲמָר אֵין זֶה מְחַיֵּב רִבּוּי. וּכְפִי הִתְחַלֵּף מֻשְׂכְּלֵיהֶם כֵּן יִתְחַלֵּף כֹּחָם וּפְעֻלָּתָם. ״אֵין מַלְאָךְ אֶחָד עוֹשֶׂה שְׁתֵּי שְׁלִיחֻיּוֹת״, וְכֵן ״שַׂר שֶׁל אֵשׁ וְשַׂר שֶׁל מַיִם״.
6 E, visto que os atributos da perfeição que há nele, bendito seja, são muitos ou sem fim, como virá, foi forçoso que se achasse uma grande multiplicidade dos intelectos separados, conforme a diferença da sua apreensão dele, bendito seja, e conforme a diferença do poder dado a eles dele, bendito seja, a fim de agir com ele — sem que um seja causa e um efeito, conquanto sendo eles simples no extremo da simplicidade e conquanto sendo ele, bendito seja, um no extremo da unidade. E esta é uma opinião correta e verdadeira, concordante com a Torá e com a especulação, do modo que explicaremos no capítulo que vem depois deste.
וְאַחַר שֶׁהָיוּ תָּאֳרֵי הַשְּׁלֵמוּת אֲשֶׁר בּוֹ רַבִּים אוֹ בִּלְתִּי בַעֲלֵי תַכְלִית, חֻיַּב שֶׁיִּמָּצֵא רִבּוּי גָּדוֹל מֵהַשְּׂכָלִים הַנִּבְדָּלִים, מִזּוּלַת שֶׁיִּהְיֶה הָאֶחָד עִלָּה וְהָאֶחָד עָלוּל. וְזֶה דַּעַת נָכוֹן וַאֲמִתִּי מַסְכִּים לַתּוֹרָה וְלָעִיּוּן.
Albo expõe um conflito real. Os filósofos raciocinam: os anjos são intelectos puros, sem matéria; ora, a multiplicidade só vem da matéria (a unidade é da forma); logo, intelectos imateriais só podem diferir como causa e efeito. Daí concluem que há apenas dez intelectos (os das esferas). Alguns sábios judeus seguiram-nos, contando 49 ou 50 anjos (os motores de todas as esferas), e identificando-os aos "cinquenta portões do discernimento" do Talmud.
Mas isso colide com a Torá, observa Albo. A Escritura fala de anjos inumeráveis ("duas miríades, milhares", "mil milhares o serviam") e reais, enviados a homens (Gabriel a Daniel, Miguel "vosso príncipe", "os seus anjos ordenará a teu respeito"). Reduzir os anjos a dez forçaria a dizer que os anjos das narrativas bíblicas são "imaginários" — o que toda religião rejeita. A filosofia, neste ponto, não pode ditar a teologia.
A saída engenhosa: os intelectos separados diferem não como causa e efeito, mas pela apreensão (hasagá) — cada um capta um ou outro dos atributos de perfeição de D'us. "Intelecto" funciona como um gênero; a diferença de cada anjo é o que ele apreende. E — eis a sutileza — essa composição "gênero + diferença" é apenas conceitual (no enunciado), não real: como a "negrura" é "cor que condensa a visão" sem por isso ser composta de duas coisas reais. Assim os anjos diferem sem deixarem de ser simples.
A consequência é rica: como os atributos divinos são "muitos ou infinitos", pode haver uma multidão de anjos, cada um conforme o que capta de D'us — sem causa-efeito, mantendo intacta a unidade divina. E o poder de cada anjo corresponde à sua apreensão, como um governante nomeia funcionários conforme a competência de cada um. Daí os ditos rabínicos: "um anjo não faz duas missões", "o príncipe do fogo", "o príncipe da água". Albo conclui que esta é a posição "correta e verdadeira, concordante com a Torá e com a especulação" — mais um exemplo do seu método: aproveitar a filosofia onde ela ajuda, corrigi-la onde contradiz a revelação.
As três causas da diversidade — forças, matérias, instrumentos — todas faltam em D'us, que é uno e simples. Logo a multiplicidade procede dele pelos intermediários. Albo discute a solução de Avicena, a crítica de al-Ghazali, refuta o dualismo de Mani (bem e mal de dois princípios), mostra que bem e mal vêm de um só princípio, e conclui — com Averróis — que tudo subsiste por ordem e vontade, prova da criação.
As três causas da diversidade — forças, matérias, instrumentos — todas faltam em D'us, que é uno e simples. Logo a multiplicidade procede dele pelos intermediários. Albo discute a solução de Avicena, a crítica de al-Ghazali, refuta o dualismo de Mani (bem e mal de dois princípios), mostra que bem e mal vêm de um só princípio, e conclui — com Averróis — que tudo subsiste por ordem e vontade, prova da criação.
1 A diferença das ações e a sua multiplicidade se dá por uma de três causas: ou pela causa da diferença das forças que agem — como agimos com a força do desejo taavá o oposto do que agimos com a força da ira kaas; ou pela causa da diferença das matérias — como o fogo derrete o piche e endurece o sal; ou pela causa da diferença dos instrumentos — como o alfaiate cose com a agulha e corta com a tesoura. E a ação de D'us, bendito seja, é impossível que se multiplique por uma destas três causas, pois ele, bendito seja, é um e simples tal que não há nele multiplicidade de forças, e não há com ele matérias diferentes, nem multiplicidade de instrumentos, a fim de que se achasse a multiplicidade a partir dele. E não resta outra possibilidade senão que a multiplicidade decorra por outra coisa fora destas — e ela é por causa do intermediário ha'emtzai: e isto se dá quando se ordena dele primeiro um só, e daquele um outro, e daquele outro se acha um terceiro — do modo que escrevemos no capítulo 11 — até que se multipliquem os intermediários e se ache a multiplicidade por meio deles. E, se não for deste modo, dirão que não se concebe que se ache a multiplicidade na existência a partir do Nome, conquanto sendo ele um e simples, pois do Uno só se acha a partir dele uma só coisa.
הִתְחַלְּפוּת הַפְּעֻלּוֹת יִהְיֶה לְאַחַת מִשָּׁלֹשׁ סִבּוֹת: הִתְחַלֵּף הַכֹּחוֹת, אוֹ הַחֳמָרִים, אוֹ הַכֵּלִים. וּפֹעַל הָאֵל אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּתְרַבֶּה לְאַחַת מֵאֵלּוּ, כִּי הוּא אֶחָד פָּשׁוּט. וְלֹא יִשָּׁאֵר אֶלָּא שֶׁיִּמָּצֵא הָרִבּוּי מִפְּנֵי הָאֶמְצָעִי, שֶׁיְּסֻדַּר מִמֶּנּוּ אֶחָד, וּמֵאוֹתוֹ אַחֵר.
2 Mas já há dificuldade conforme este caminho, pois decorre que não se ache no mundo coisa alguma composta de partes separadas, mas que todos os existentes sejam "uns", e cada um deles efeito do outro que está acima dele, que é sua causa. E, visto que achamos no mundo o corpo, que é composto de matéria e forma, e o homem, composto de alma e corpo, e a existência de um deles não é causa do outro — pois, se fosse assim, não se acharia um deles sem o outro, mas a existência de ambos vem de outra causa fora deles —, fica anulado que a multiplicidade se ache deste modo apenas.
אֲבָל יִקְשֶׁה, כִּי יִתְחַיֵּב שֶׁלֹּא יִמָּצֵא דָּבָר מֻרְכָּב מִנִּפְרָדִים. וְאַחַר שֶׁאֲנַחְנוּ מוֹצְאִים הַגֶּשֶׁם מֻרְכָּב מֵחֹמֶר וְצוּרָה, וְהָאָדָם מִנֶּפֶשׁ וְגֶשֶׁם, וְאֵין מְצִיאוּת אֶחָד מֵהֶם סִבָּה לָאַחֵר, בֻּטַּל שֶׁיִּמָּצֵא הָרִבּוּי עַל זֶה הַדֶּרֶךְ.
3 Mas Avicena Ibn Sina e os posteriores dentre os filósofos ismaelitas abriram um caminho pelo qual se acha a multiplicidade a partir dos intermediários do modo que dissemos, ao dizerem que em cada um dos efeitos se acha alguma multiplicidade. E isto é assim porque a sua intelecção de si mesmo é diferente da sua intelecção da sua causa, e a sua intelecção de si mesmo e da sua causa é diferente do seu inteligir que é possível de existência no exame de si mesmo, visto que a sua existência está dependente de outro; e deste lado dizem que é possível que venha a multiplicidade — do modo que escrevemos no capítulo 11.
4 E já bateu Abu Hamid al-Ghazali sobre o alto desta opinião, e disse que estas não são senão considerações intelectuais bechinot sichliyot, não assuntos separados tais que decorram deles existentes separados; e, se do lado destas considerações fosse possível que se achasse a multiplicidade, não se precisaria de muitos efeitos, pois já se conceberia que se achasse a multiplicidade a partir da Causa Primeira sem eles — já que o assunto de ser ela aquela que conhece a si mesma é diferente da necessidade de existência que há nela, e diferente de ser ela a que sabe que é princípio para outro; e, assim como estas considerações estão nela de modo tal que não obrigam multiplicidade, que impede que não estejam assim nos efeitos a partir dela? E volta a pergunta no seu mesmo ser: de onde veio a multiplicidade?
וְאַבְּן סִינָא חָתַר דֶּרֶךְ שֶׁבְּכָל אֶחָד מִן הָעֲלוּלִים יִמָּצֵא רִבּוּי מָה, מִצַּד הַשְׂכָּלָתוֹ אֶת עַצְמוֹ וְאֶת עִלָּתוֹ. וְהִכָּה אַבּוּחָמֵד עַל קָדְקֹד זֹאת הַסְּבָרָא, וְאָמַר כִּי אֵינָם אֶלָּא בְּחִינוֹת שִׂכְלִיּוֹת. וְתָשׁוּב הַשְּׁאֵלָה בְּעֵינָהּ מֵאַיִן בָּא הָרִבּוּי.
5 Mas a verdade é que estas considerações não obrigam multiplicidade de modo algum, nem no Princípio Primeiro nem nos efeitos que dele decorrem, a fim de que se influenciem deles os existentes diferentes. E, se é assim, como, então, se acha a multiplicidade a partir do Uno simples? E por causa disto houve dentre os antigos quem pensou que os princípios primeiros são dois, um para o bem e um para o mal, pois diziam "Acaso da boca do Altíssimo não saem as más coisas e o bem?" (Lamentações 3:38), quer dizer, que é impossível que os princípios dos opostos sejam um só; e, porque os opostos universais que abrangem todos os gêneros dos opostos são o bem e o mal, dizem que os princípios são dois — um, o princípio do bem, e um, o princípio do mal. E esta era a opinião de um homem cujo nome era Mani Mani, e por isso se chamaram os que seguiram a sua opinião "hereges" minim — assim como se chamaram os que seguiram a opinião do filósofo Epicuro, que pensava que o mundo não tem condutor e nega a existência de D'us, "epicuristas".
וְהָיָה בַּקַּדְמוֹנִים מִי שֶׁחָשַׁב שֶׁהַהַתְחָלוֹת שְׁתַּיִם, אַחַת לַטּוֹב וְאַחַת לָרַע, ״מִפִּי עֶלְיוֹן לֹא תֵצֵא הָרָעוֹת וְהַטּוֹב״. וְזֶה הָיָה דַּעַת אִישׁ אֶחָד שְׁמוֹ מָאנִי, וְעַל כֵּן נִקְרְאוּ הַנִּמְשָׁכִים אַחֲרָיו מִינִים.
6 E já divergiram os sábios desta opinião por muitos lados, e o mais próprio e mais claro deles, conforme a intenção deste livro, é que, quando se examinam os existentes, vemos que todos eles, no seu conjunto, chegam a um só fim — que é a ordenação que se acha no mundo, como a ordenação que se acha num acampamento por causa do general do exército, e a ordenação que se acha nas cidades por causa dos condutores das cidades; pois, com o facto de a multiplicidade achar-se neles por muitos lados — de muitos ofícios e muitas ações diferentes e muitas chefias diferentes —, visto que todos tendem a um só fim, que é a permanência e a ordenação da cidade ou do acampamento de modo unificado, assim dizemos que, na verdade, o mundo se acha nesta descrição — na existência do bem e do mal — por causa da existência do bem em toda a existência no seu conjunto, e o mal não é visado com uma intenção primeira, mas, na verdade, se renova por acidente bemikreh, como o castigo ou a correção que chega do pai ao filho, pois é um mal que chega por causa do bem, não com a intenção primeira. E isto é assim porque, visto que há na existência coisas boas, é impossível que se achem sem que se ache nelas um mal pouco misturado — como a existência do homem, que é composto de uma alma falante e de uma alma animal, que são a inclinação ao bem yetzer tov e a inclinação ao mal yetzer hara; e foi posta nele a inclinação ao bem para a sobrevivência do indivíduo no que é possível, que é a sobrevivência da alma, e a inclinação ao mal foi posta para a sobrevivência da espécie, tal que é impossível que se ache o homem sem ela; decretou a sabedoria suprema que é cabido que se ache o bem que é muito, ainda que se misture nele mal que é pouco — pois a razão concede que a existência do bem muito com o mal pouco é mais escolhida que a privação do bem muito por causa do mal pouco.
וְהַיּוֹתֵר מְבֹאָר, שֶׁכְּשֶׁיְּעֻיְּנוּ הַנִּמְצָאוֹת נִרְאֶה שֶׁכֻּלָּם יַגִּיעוּ לְתַכְלִית אַחַת, וְהָרַע אֵינוֹ מְכֻוָּן כַּוָּנָה רִאשׁוֹנָה אֲבָל יִתְחַדֵּשׁ בְּמִקְרֶה. כְּמוֹ הָאָדָם הַמֻּרְכָּב מִיֵּצֶר טוֹב וְיֵצֶר הָרַע, וְגָזְרָה הַחָכְמָה שֶׁמְּצִיאוּת הַטּוֹב הָרַב עִם הָרַע הַמּוּעָט יוֹתֵר נִבְחָר.
7 E por isso não decorre, da existência do bem e do mal, que sejam de princípios diferentes; pois já se acha, de um só princípio, o bem do lado de si mesmo e o mal por acidente — como o fogo, do qual decorre o bem a toda a existência inferior na geração de todas as gerações, e já chega dele o mal às vezes, a saber que queima a veste do homem piedoso por acidente.
8 E assim há coisas que, ainda que sejam más em si mesmas, são postas por causa do bem que é possível que decorra delas — como os castigos que põem os que estabelecem as boas convenções, pois, ainda que sejam males em si mesmos, foram postos por causa do bem universal que decorre para o conjunto da nação ou da cidade, a fim de que se encaminhem os homens em direção à felicidade e se unam uns aos outros com uma união completa, e se complete a reunião política nas espécies dos homens diferentes — como o corpo único, em que se acham membros diferentes e partes dotadas de chefias diferentes e qualidades opostas umas às outras, e todas tendem a um só fim, que é a permanência do corpo e a sua união; e acham-se nele coisas prejudiciais ao corpo, por causa da necessidade da matéria, tais que é impossível sem elas.
וְלָזֶה לֹא יִתְחַיֵּב מִמְּצִיאוּת הַטּוֹב וְהָרַע שֶׁיִּהְיוּ מֵהַתְחָלוֹת מִתְחַלְּפוֹת, כִּי כְּבָר יִמָּצֵא מֵהַתְחָלָה אַחַת הַטּוֹב מִצַּד עַצְמוֹ וְהָרַע בְּמִקְרֶה, כְּמוֹ הָאֵשׁ. וְכֵן הָעֳנָשִׁים, אַף עַל פִּי שֶׁהֵם רָעוֹת בְּעַצְמָן, הֻנְּחוּ בַּעֲבוּר הַטּוֹב הַכּוֹלֵל.
9 E por isso concordaram os primeiros filósofos, como diz Ibn Rushd Averróis, que o Princípio é um, com unidade absoluta, e que dele se ordenaram, com uma primeira ordenação, todos os existentes mutáveis e diferentes, para um só fim — que é a permanência de toda a existência e a sua conexão, uns aos outros, até que se una a existência com uma união absoluta; como o chefe na cidade nomeia alguns homens a fim de fazer algum ofício e não outro, para que aquele ofício seja mais perfeito, e nomeia outros a fim de fazer outro ofício e não outro, e assim em todos os ofícios diferentes — e deste modo faz alguns costureiros, e alguns tecelões, e alguns construtores, e completam-se deste modo todos os ofícios necessários à cidade, até que se complete com isto o conserto da cidade; e é toda a multiplicidade dos ofícios influenciada do primeiro chefe, conquanto sendo ele um com unidade absoluta.
10 Assim D'us, bendito seja, conquanto sendo um com unidade absoluta, decorre dele a multiplicidade, e isto não obriga multiplicidade na sua essência. E dizem que a premissa que diz que "do uno só se ordena um" é erística nitzuchit, dialética, e na verdade só é verdadeira no agente particular examinado, mas no Nome, bendito seja, que é o agente universal absoluto — até que o nome "agente" se diz sobre ele e sobre outro por homonímia do nome, pois ele não se particulariza numa ação em vez de outra ação, já que a sua relação para com todas as ações é igual —, diz-se que, na verdade, ele age a multiplicidade das ações particulares diferentes por causa da unidade absoluta, e isto a fim de que se conectem todas as partes da existência umas às outras e que tudo seja um, e a fim de que se achem todos os existentes muitos para um só fim apenas, que é a permanência da existência — como a alma falante que há no homem, conquanto sendo una, age ações diferentes para um só fim, que é a permanência do homem. E deste modo não se ordena dele, bendito seja, senão uma só ação, que é a ordenação universal, e acham-se nela muitos assuntos a fim de conectar todas as partes da existência uma à outra.
וְהִסְכִּימוּ קַדְמוֹנֵי הַפִילוֹסוֹפִים שֶׁהַהַתְחָלָה אַחַת אַחְדוּת גְּמוּרָה, וּמִמֶּנָּה סֻדְּרוּ כָּל הַנִּמְצָאוֹת לְתַכְלִית אַחַת. וְהַהַקְדָּמָה ״מֵאֶחָד לֹא יְסֻדַּר אֶלָּא אֶחָד״ הִיא נִצּוּחִית. וְלֹא יְסֻדַּר מִמֶּנּוּ אֶלָּא פֹּעַל אֶחָד שֶׁהוּא הַסִּדּוּר הַכּוֹלֵל.
11 E dizem que, ainda que os existentes simples tais que não têm dependência da matéria sejam todos causa uns dos outros e subam a uma só causa simples, eis que a multiplicidade dos corpos, na verdade, se acha a partir da multiplicidade destes princípios, a fim de conectar todas as partes da existência uma à outra; pois, se não se achasse esta multiplicidade, a existência seria deficiente e não chegaria dela o fim único e perfeito que dela chega agora; e por causa disto se acha nas esferas a diferença dos movimentos por causa da diferença dos seus princípios, e acha-se em todas o movimento que abrange tudo, que é o movimento diário, para indicar que o seu princípio é um, e que todas sobem a uma só causa, e que toda a diferença dos seus movimentos é para um só fim.
12 Disse Ibn Rushd Averróis que D'us ordenou aos princípios que ordenassem às esferas que se movessem com estes movimentos, e que, pela ordem do Ordenador, subsistiram os céus e a terra — como, pela ordem do primeiro rei na cidade, subsistiram os comandados ordenados por aquele que o rei pôs governante sobre algum assunto dos assuntos da cidade e sobre os que estão nela das espécies dos homens. E esta ordem e crença é a raiz shoresh na ordem e na crença que se impuseram sobre o homem por ser animal vivente falante; este é o teor das palavras de Ibn Rushd nisto, no Livro da Destruição da Destruição.
13 E eis que vês que, após todas estas palavras, Averróis foi forçado a confessar que a permanência dos céus e da terra é por via da ordem e da advertência tzivui ve'azhará, não por via da necessidade; pois nunca se concebeu a existência da coisa material a partir do intelecto limpo de matéria, simples no extremo da simplicidade, por via da necessidade, senão por via da ordem; e isto indica a criação chidush por força — quer dizer, que o mundo se acha e subsiste pela vontade de um querente, como escrevemos no capítulo 3 deste discurso; e é como se a natureza da verdade o forçasse a confessar isto.
אָמַר אַבְּן רֻשְׁד שֶׁהָאֵל צִוָּה אֶל הַהַתְחָלוֹת שֶׁיְּצַוּוּ אֶל הַגַּלְגַּלִּים, וּבְמִצְוַת הַמְצַוֶּה עָמְדוּ הַשָּׁמַיִם וְהָאָרֶץ. וְהֻצְרַךְ לְהוֹדוֹת כִּי קִיּוּם הַשָּׁמַיִם הוּא עַל צַד הַמִּצְוָה לֹא עַל צַד הַחִיּוּב, וְזֶה יוֹרֶה עַל הַחִדּוּשׁ בְּהֶכְרֵחַ.
14 E o que se eleva a nós é — seja conforme a opinião de Avicena e do Rambam, de abençoada memória, seja conforme a opinião de Ibn Rushd que escreveu em nome dos primeiros filósofos — que a multiplicidade das coisas que se acham no mundo é do lado dos intermediários, não do lado de que se ache multiplicidade no Princípio Primeiro de modo algum, pois a sua unidade é uma unidade simples no extremo da simplicidade. E por isso é que nos ordenou na Escritura "Ouve, Israel, o Senhor é nosso D'us, o Senhor é um" (Deuteronômio 6:4) — quer dizer, que creiamos que, com o facto de ele ser nosso D'us, quer dizer, a causa da multiplicidade, eis que ele é um com unidade absoluta. E isto basta na compreensão da raiz da unidade e do que dela pende, dos assuntos, de modo que não obriguem multiplicidade na essência de D'us, bendito seja. E comecemos agora a falar na segunda raiz, que é a de que não é corpo nem força num corpo.
וְהָעוֹלֶה בְּיָדֵינוּ, שֶׁרִבּוּי הַדְּבָרִים הוּא מִצַּד הָאֶמְצָעִיִּים, לֹא מִצַּד שֶׁיִּמָּצֵא רִבּוּי בְּהַתְחָלָה רִאשׁוֹנָה. וְלָזֶה צִוָּנוּ ״שְׁמַע יִשְׂרָאֵל ה׳ אֱלֹהֵינוּ ה׳ אֶחָד״. וְנַתְחִיל עַתָּה לְדַבֵּר בַּשֹּׁרֶשׁ הַשֵּׁנִי שֶׁהוּא שֶׁאֵינוֹ גּוּף.
Albo retoma o problema dos caps. 11–12 e o leva à conclusão. A diversidade das ações tem três causas possíveis — variedade de forças, de matérias, de instrumentos — e nenhuma cabe em D'us, que é simples. Resta a explicação pelos intermediários: a cadeia de efeitos que multiplica gradualmente. Mas há uma objeção séria: no mundo existem compostos (corpo = matéria + forma; homem = alma + corpo) cujas partes não são causa uma da outra — o que o mero esquema de emanação linear não explica.
Albo arbitra o grande debate islâmico. Avicena tenta gerar a multiplicidade pondo no primeiro efeito uma tríplice "consideração" (inteligir-se, inteligir a causa, saber-se possível). Al-Ghazali (Abu Hamid) demole isso: são meras distinções mentais, não realidades que gerem seres — e, se bastassem, a própria Causa Primeira já teria multiplicidade, e a pergunta "de onde vem o múltiplo?" recomeça. Albo concorda: as considerações não geram multiplicidade real.
Esse impasse levou alguns à heresia dualista — dois princípios, um do bem e um do mal (a doutrina de Mani, donde "maniqueus"/minim, como "epicuristas" de Epicuro), apoiada numa leitura de Lamentações 3:38. Albo refuta: todos os existentes convergem para um só fim (a ordem do cosmos), como um exército sob um general. O mal não tem princípio próprio — é acidental (bemikreh), efeito colateral do bem, como o fogo que aquece o mundo mas queima a veste do justo, ou o castigo paterno que é mal a serviço do bem. "A sabedoria suprema decretou que o muito bem com pouco mal é preferível à ausência do bem por causa do pouco mal."
A síntese vem de Averróis: o Princípio é absolutamente um, e dele tudo se ordena para um só fim, como um governante distribui ofícios sem deixar de ser um. A máxima "do uno só procede o uno" é erística — vale para agentes particulares, não para o Agente universal. Mas o lance decisivo é o que Albo extrai contra o próprio Averróis: este foi forçado a admitir que os céus subsistem "por ordem e advertência" (tzivui), não por necessidade — pois jamais o material procede do imaterial por pura necessidade. Ora, isso é confessar a criação (chidush): o mundo subsiste pela vontade de D'us (cap. 3). "Como se a natureza da verdade o forçasse a confessar." Assim Albo encerra a raiz da unidade — toda a multiplicidade vem dos intermediários, jamais da Fonte — e o Shemá sela: Ele é causa do múltiplo e absolutamente Um.
A segunda raiz: D'us não é corpo nem força num corpo — logo todos os afetos corporais e órgãos que os profetas lhe atribuem (ciúme, ira, vingança, tristeza, mão, olho) devem ser compreendidos de outro modo. Os profetas falam "na linguagem dos homens", para que o povo entenda. A única "majestade" (gaavá) que cabe a D'us, e o castigo dos soberbos.
A segunda raiz: D'us não é corpo nem força num corpo — logo todos os afetos corporais e órgãos que os profetas lhe atribuem (ciúme, ira, vingança, tristeza, mão, olho) devem ser compreendidos de outro modo. Os profetas falam "na linguagem dos homens", para que o povo entenda. A única "majestade" (gaavá) que cabe a D'us, e o castigo dos soberbos.
1 Já se confirmou na demonstração que o Nome, bendito seja, não é corpo nem força num corpo, e por isso é forçoso afastar dele, bendito seja, todos os acidentes do corpo e os afetos corporais hitpaaliyot gashmiyot. E conforme isto se precisa de uma razão para o que se acha nas palavras de todos os profetas, a saber que o Nome, bendito seja, é D'us zeloso kanô e dotado de fúria, e vingador e rancoroso; disse Naum "D'us zeloso e vingador é o Senhor; vingador é o Senhor e dotado de fúria; vingador é o Senhor contra os seus adversários, e rancoroso ele é contra os seus inimigos" (Naum 1:2) — e todos estes são afetos corporais; e, além disso, são qualidades torpes midot megunot tais que cabe não as atribuir a homem perfeito algum, quanto mais a D'us, exaltado e bendito seja. E acha-se a Escritura a atribuir-lhe a soberba gaavá, "o Senhor reina, de majestade se vestiu" (Salmos 93:1); e assim acha-se que lhe atribui o ferver da compaixão, disse "juntamente ferveram as minhas consolações" (Oseias 11:8); e atribui-lhe a tristeza, "e entristeceu-se ao seu coração" (Gênesis 6:6); e atribui-lhe a impaciência da alma, "e impacientou-se a sua alma com o labor de Israel" (Juízes 10:16).
כְּבָר נִתְאַמֵּת שֶׁהַשֵּׁם אֵינוֹ גּוּף, וְלָזֶה יְחֻיַּב לְסַלֵּק מִמֶּנּוּ כָּל מִקְרֵי הַגּוּף וְהַהִתְפַּעֲלִיּוֹת. וְצָרִיךְ טַעַם לְמַה שֶּׁנִּמְצָא ״אֵל קַנּוֹא וְנֹקֵם ה׳״, וְאֵלּוּ הֵם הִתְפַּעֲלִיּוֹת גַּשְׁמִיּוֹת וּמִדּוֹת מְגֻנּוֹת.
2 E digamos que, porque todos os profetas visam encaminhar o conjunto dos homens ao serviço do Nome e ao seu amor, e o povo hamon não se submete ao serviço senão pelo temor do castigo, falam com uma linguagem compreensível ao conjunto do povo; e, porque na linguagem dos filhos do homem, quando o rei faz justiça nos que se rebelam contra ele e dão o reino a outro, se diz sobre ele que é zeloso e vingador e dotado de fúria — assim dizem os profetas sobre o Nome, bendito seja, quando faz juízo nos que transgridem a sua vontade, que é D'us zeloso e vingador e dotado de fúria, por ser a ação que decorre dele sobre os que transgridem a sua vontade a ação do vingador, e do rancoroso, e do zeloso.
וְנֹאמַר כִּי לְמַה שֶּׁהַנְּבִיאִים יְכַוְּנוּ לְהַיְשִׁיר כְּלַל הָאֲנָשִׁים, וְהֶהָמוֹן אֵינָם נִכְנָעִים אֶלָּא מִיִּרְאַת הָעֹנֶשׁ, יְדַבְּרוּ בְּלָשׁוֹן מוּבָן לְכֻלָּם. כְּמוֹ הַמֶּלֶךְ הָעוֹשֶׂה מִשְׁפָּט בַּמּוֹרְדִים שֶׁיֵּאָמֵר עָלָיו שֶׁהוּא נוֹקֵם וּבַעַל חֵמָה.
3 E assim lhe atribui a tristeza deste modo, pois, como os filhos do homem estão tristes quando a necessidade leva a que as obras das suas mãos sejam destruídas, assim disse a Escritura "e entristeceu-se ao seu coração", e juntou a isto "e disse o Senhor: apagarei o homem que criei" etc., "pois me arrependi de tê-los feito" (Gênesis 6:7) — porque Ele fazia a ação de quem se arrepende do que fez e quer destruí-lo; e, como o homem, quando a necessidade leva a destruir a obra das suas mãos pela exigência do juízo, busca um caminho a fim de não destruir tudo, assim o Nome, bendito seja, buscou um caminho a fim de não destruir tudo, e por isso concluiu "e Noé achou graça aos olhos do Senhor" (Gênesis 6:8) — quer dizer, que o Nome, bendito seja, fez com que o mundo subsistisse por meio de Noé e seus filhos.
4 E por este modo é o que disse a Escritura "e impacientou-se a sua alma com o labor de Israel" — a saber que fez a ação como a do homem que está aflito e cuja alma está impaciente com o labor do seu companheiro e que se mete em aperto a fim de salvá-lo; assim o Nome, bendito seja, ainda que Israel tenha pecado e não fosse cabido naquela hora daquela grande salvação, salvou-os do lado de si mesmo, como se fosse afetado pela sua angústia e pelo seu labor — à maneira de "ver, vi a aflição do meu povo que está no Egito... e desci para livrá-lo da mão do Egito" (Êxodo 3:7-8); e assim "juntamente ferveram as minhas consolações".
וְכֵן יְיַחֵס אֵלָיו הָעֶצֶב, ״וַיִּתְעַצֵּב אֶל לִבּוֹ״, וְסִיֵּם ״וְנֹחַ מָצָא חֵן״. וְ״תִּקְצַר נַפְשׁוֹ בַּעֲמַל יִשְׂרָאֵל״, כְּאָדָם הַמִּצְטַעֵר וְנַפְשׁוֹ קְצָרָה בַּעֲמַל חֲבֵרוֹ, כְּמוֹ ״רָאֹה רָאִיתִי אֶת עֳנִי עַמִּי״.
5 E os demais afetos corporais é cabido que se compreendam deste modo: que são postos para dar compreensão aos filhos do homem a respeito da ação que decorre dele, a fim de "abrandar o ouvido". Como se acha a Escritura a dizer explicitamente "e guardareis muito as vossas almas, pois não vistes figura alguma" (Deuteronômio 4:15), e mesmo assim lhe atribui os instrumentos corporais: disse a Escritura sobre as Tábuas "escritas pelo dedo de D'us" (Êxodo 31:18), "quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos" (Salmos 8:4); e assim "a tua direita, Senhor, é majestosa em poder" (Êxodo 15:6), "as tuas mãos me fizeram e me firmaram" (Salmos 119:73), e assim muitos; pois, por ser a escrita, no homem, feita pelo dedo, atribuiu-lhe o dedo, e por ser o poder, no homem, decorrente da mão direita, atribuiu-lhe a direita, e por serem as ações humanas feitas com as mãos e os dedos, atribuiu-lhe as mãos e os dedos, e por ser a recepção das coisas, no homem, decorrente da audição dos ouvidos, disse "estejam os teus ouvidos atentos" (Salmos 130:2).
וּשְׁאָר הַהִתְפַּעֲלִיּוֹת רָאוּי שֶׁיּוּבְנוּ עַל זֶה הַדֶּרֶךְ, לָתֵת הֲבָנָה כְּדֵי לְשַׁכֵּךְ אֶת הָאֹזֶן. ״כָּתוּב בְּאֶצְבַּע אֱלֹהִים״, ״יְמִינְךָ ה׳ נֶאְדָּרִי בַכֹּחַ״. כִּי הַכְּתִיבָה נַעֲשֵׂית בְּאֶצְבַּע, וְהַגְּבוּרָה מִן הַיָּמִין, יִיחֵס אֵלָיו אֵלֶּה.
6 E por este modo é o que disse o Nome "e estarão os meus olhos e o meu coração ali todos os dias" (I Reis 9:3), que se disse sobre o Templo — quer dizer, a minha providência e a minha vontade, o que é uma indicação de ele querer a sua permanência. E assim o facto de os profetas descreverem o Nome como um rei sentado no trono, ao dizer "e vi o Senhor sentado sobre o trono" (Isaías 6:1), e ali se disse "pois o rei, o Senhor dos exércitos, viram os meus olhos" (Isaías 6:5); e descrevem-no como herói, "o Senhor como herói sairá" (Isaías 42:13), "o Senhor é herói de guerra" (Êxodo 15:3) — tudo isto é para dar compreensão aos homens a respeito da magnitude da sua glória e do seu esplendor; e é isto o que disse David "a glória do teu reino dirão" etc., "a fim de fazer conhecer aos filhos do homem as suas façanhas e a glória do esplendor do seu reino" (Salmos 145:11-12) — quer dizer, eles não te descrevem com isso senão a fim de fazer conhecer aos filhos do homem, mas não a fim de que o teu reino se assemelhe ao reino de carne e sangue, pois o teu reino é eterno, já que é "reino de todos os mundos" (Salmos 145:13).
וְכֵן מַה שֶּׁתֵּאֲרוּ הַנְּבִיאִים אֶת הַשֵּׁם כְּמֶלֶךְ יוֹשֵׁב עַל כִּסֵּא וּכְגִבּוֹר, הַכֹּל לָתֵת הֲבָנָה אֶל הָאֲנָשִׁים מֵעֹצֶם כְּבוֹדוֹ. ״לְהוֹדִיעַ לִבְנֵי הָאָדָם גְּבוּרֹתָיו״, אֲבָל לֹא שֶׁיִּדְמֶה מַלְכוּתְךָ לְמַלְכוּת בָּשָׂר וָדָם.
7 E, na verdade, o facto de que se acha a Escritura a atribuir-lhe a soberba gaavá, com o facto de ela ser uma qualidade torpe no homem — como disse a Escritura "abominação do Senhor é todo soberbo de coração" (Provérbios 16:5) —, a razão nisto é que não é cabido ao homem ensoberbecer-se com perfeição alguma nem com excelência alguma, pois tudo vem do Nome, e não é cabido ao homem ensoberbecer-se com o que não é seu. Sobre a sabedoria disse a Escritura "pois o Senhor dá sabedoria" (Provérbios 2:6), e disse "Ele faz voltar atrás os sábios e enlouquece o seu conhecimento" (Isaías 44:25) — eis que explicou que a sabedoria do homem não é nada, e que a sabedoria vem do Nome e não de outro. E assim a riqueza, não é cabido ao homem ensoberbecer-se com ela, pois não é sua; disse David "pois de ti vem tudo, e da tua mão te demos" (I Crônicas 29:14).
8 E assim o reino e toda elevação e excelência é dele, bendito seja; disse a Escritura "teu, Senhor, é o reino, e tu és o que se eleva como cabeça sobre tudo" (I Crônicas 29:11), e disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "e até o cabeça de uma vala reish gargota, posto ínfimo do céu o nomeiam"; e concluiu as suas palavras "e a riqueza e a honra vêm de diante de ti, e tu dominas sobre tudo" (I Crônicas 29:12) — quer dizer, visto que tudo vem dele, bendito seja, e não há na mão do homem coisa alguma senão do lado do Nome e pela sua vontade, já que está em sua mão engrandecer e fortalecer a todos, não é cabido que se ensoberbeça com o que não é seu e não está em sua mão; e por isso a soberba não convém senão ao Nome, já que tudo vem dele e não de outro; e por isso a Escritura a atribuiu a ele e disse "o Senhor reina, de majestade se vestiu", e disse Moisés "cantarei ao Senhor, pois soberbamente se exaltou" (Êxodo 15:1), e traduziu Onkelos "pois se exaltou sobre os soberbos, e a soberba é dele".
וּמַה שֶּׁיְּיַחֵס אֵלָיו הַגַּאֲוָה, הַטַּעַם כִּי אֵין רָאוּי לָאָדָם לְהִתְגָּאוֹת בְּמַה שֶּׁאֵינוֹ שֶׁלּוֹ, כִּי הַכֹּל בָּא מֵהַשֵּׁם. וְעַל כֵּן הַגַּאֲוָה לֹא תֵאוֹת אֶלָּא לַשֵּׁם. ״ה׳ מָלָךְ גֵּאוּת לָבֵשׁ״.
9 E por isso o que se ensoberbece com o que não é seu é cabido que se lhe retire aquela excelência, para indicar que a honra e a excelência não são dele do lado de si mesmo, mas do Nome e pela sua vontade. E assim se acha a Escritura a dizer sobre Nabucodonosor, que se ensoberbecia com a honra e o reino: "e, quando se elevou o seu coração e o seu espírito se fortaleceu para agir soberbamente, foi deposto do trono do seu reino, e a honra foi tirada dele" (Daniel 5:20), e disse-se "até que saibas que domina o Altíssimo no reino dos homens, e a quem quiser o dá, e o mais baixo dos homens levanta sobre ele" (Daniel 5:21).
10 E assim quanto ao príncipe de Tiro, por se ensoberbecer a ponto de dizer que era deus, disse a Escritura "porque se elevou o teu coração e disseste: deus sou eu" etc., "porventura, a ponto de dizer dirás 'deus sou eu' diante do que te mata? E tu és homem, e não deus, na mão dos que te ferem" (Ezequiel 28:2,9) — do que se vê disto que o Nome pune os que se ensoberbecem com o que não é seu: pois os que se ensoberbecem com o reino do Nome, Ele tira deles o reino e o dá ao mais baixo dos homens, a fim de que se reconheça a todos que o reino não é do homem nem está em sua mão; e assim o que se ensoberbece com a divindade, que faz de si mesmo um deus, o Nome o pune a fim de entregá-lo na mão de quem o mata — pois esta é a retribuição verdadeira ao que se ensoberbece de ser deus, a fim de mostrar a sua vergonha, a saber que não há nele poder para salvar a si mesmo; pois é do feitio de D'us vivificar os mortos e salvar os tomados para a morte, e ser eterno — e isto é o oposto: a saber que o Nome o entrega na mão de quem o mata, para indicar que não é deus, visto que o homem tem poder sobre ele para matá-lo e não há em seu poder salvar a si mesmo.
וְעַל כֵּן הַמִּתְגָּאֶה בְּמַה שֶּׁאֵינוֹ שֶׁלּוֹ רָאוּי שֶׁתּוּסַר מִמֶּנּוּ אוֹתָהּ מַעֲלָה. כִּנְבוּכַדְנֶצַּר ״הָנְחַת מִן כָּרְסֵא מַלְכוּתֵהּ״, וּכְנְגִיד צוֹר ״הֲאָמֹר תֹּאמַר אֱלֹהִים אָנִי לִפְנֵי הֹרְגֶךָ״.
11 E isto é assim porque o esplendor do rei está na multidão do povo, a fim de que a sua honra se multiplique; e o Nome, bendito seja, por ser rei sobre a glória melech hakavod, o seu reino não se eleva por outro nem se muda com a mudança dos súditos e com a sua diminuição. Disse o salmista "a voz do Senhor faz parir as corças e desnuda as florestas, e no seu palácio, tudo n'ele diz 'glória'" (Salmos 29:9) — quer dizer, que, mesmo quando o Santo, bendito seja, faz juízo e destrói as florestas e os seres vivos, o seu reino e a sua glória não se diminuem com isto, pois "no seu palácio", quer dizer, no seu grau, tudo é glória; e trouxe prova a isto: "o Senhor ao dilúvio se assentou, e assentou-se o Senhor como rei para sempre" (Salmos 29:10) — quer dizer, que o Nome existia no tempo do dilúvio, quando o mundo estava cheio, antes do dilúvio, de homens e seres vivos, e tudo foi destruído e não restou senão Noé e os que estavam com ele na arca, e mesmo assim o seu reino não se mudou do que era; e é isto "e assentou-se o Senhor como rei para sempre". E disse "assentou-se" vayeshev e não disse "foi" vayehi, por ser o atributo do assentar-se yeshivá mais permanente, como explicou o Rambam, de abençoada memória, na homonímia da palavra "assentar-se"; e por isso o profeta lhe atribuiu o atributo do assentar-se mais que os demais atributos, disse "e vi o Senhor sentado sobre um trono alto e elevado" (Isaías 6:1) — pois, por ser o atributo do assentar-se o que indica o atributo mais permanente sem mudança, atribuíram-no a ele, bendito seja, ainda que não recaia sobre ele nem o estar de pé nem o assentar-se; disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no Tratado Chaguigá, que não há em cima nem estar de pé nem assentar-se. E por este modo é cabido que se compreendam todos os afetos corporais que vêm nos versículos atribuídos a ele, bendito seja — que, na verdade, se dizem a fim de dar a compreensão do assunto aos homens, não a fim de que o assunto seja assim na verdade; e uma grande regra disseram os nossos mestres, de abençoada memória, nisto: "a Torá falou na linguagem dos filhos do homem" dibrá Torá kilshon benei adam.
כִּי הַשֵּׁם מֶלֶךְ עַל הַכָּבוֹד, אֵין מַלְכוּתוֹ מִתְעַלָּה בְּזוּלָתוֹ. ״ה׳ לַמַּבּוּל יָשָׁב וַיֵּשֶׁב ה׳ מֶלֶךְ לְעוֹלָם״. וְכָל הַהִתְפַּעֲלִיּוֹת נֶאֱמָרִים לָתֵת הֲבָנָה אֶל הָאֲנָשִׁים, וּכְלָל גָּדוֹל ״דִּבְּרָה תוֹרָה כִּלְשׁוֹן בְּנֵי אָדָם״.
A segunda raiz — a incorporeidade — gera um problema agudo: se D'us não tem corpo nem é afetado por nada, por que a Escritura o chama "zeloso", "iracundo", "vingador", "triste", "arrependido", e lhe dá mão, dedo, olho, ouvido? Pior: ira e ciúme são qualidades torpes, indignas até de um homem perfeito. Albo enfrenta o problema de frente.
A chave é o destinatário. Os profetas querem conduzir o povo (hamon) ao serviço de D'us, e a maioria só se submete pelo temor do castigo. Por isso falam em linguagem acessível: quando um rei humano pune rebeldes, dizemos que é "zeloso e iracundo"; assim os profetas descrevem a ação punitiva de D'us com esse vocabulário — não porque Ele sinta ira, mas porque a ação que dele procede é a de um vingador. O afeto descreve o efeito, nunca um estado interno de D'us.
Albo aplica o princípio a cada caso. "Entristeceu-se ao seu coração" (antes do dilúvio) = Ele agiu como quem, a contragosto, destrói sua obra, mas busca preservá-la (por Noé). "Impacientou-se com o labor de Israel" = salvou-os como quem se aflige pelo sofrimento alheio. Os órgãos (dedo que escreve, direita que vence, ouvido que atende) traduzem em termos humanos as ações divinas — pois é assim que o homem escreve, vence, ouve. E descrevê-Lo como rei entronizado ou herói de guerra serve "para fazer conhecer aos filhos do homem a sua glória" — jamais para igualá-Lo a um rei de carne e osso.
O caso mais sutil é a gaavá (soberba/majestade), torpe no homem mas atribuída a D'us. A razão é profunda: a soberba é vício no homem porque ele se gaba do que não é seu — sabedoria, riqueza, poder, tudo vem de D'us. Mas a D'us, de quem tudo procede, a majestade é a única qualidade que de direito lhe pertence ("o Senhor reina, de majestade se vestiu"). Daí o castigo dos soberbos humanos — Nabucodonosor deposto, o príncipe de Tiro que se diz "deus" entregue à morte ("és homem, e não deus, na mão dos que te ferem"): D'us retira a quem se gaba do alheio. E como "rei da glória", seu reino não cresce com súditos nem mingua com o dilúvio — "assentou-se rei para sempre". Tudo se resume na grande regra: "a Torá falou na linguagem dos homens" — a chave hermenêutica de toda a teologia negativa de Albo.
A alegria atribuída a D'us: como a tristeza, dita por transposição — Ele "se alegra" no sentido de querer a permanência das suas obras. Mais fundo, os filósofos dizem que D'us se alegra na sua própria essência, autossuficiente. E os que O buscam têm uma alegria que nunca cessa e sempre cresce — pois Ele é infinito. O salmo "contigo está a fonte da vida".
A alegria atribuída a D'us: como a tristeza, dita por transposição — Ele "se alegra" no sentido de querer a permanência das suas obras. Mais fundo, os filósofos dizem que D'us se alegra na sua própria essência, autossuficiente. E os que O buscam têm uma alegria que nunca cessa e sempre cresce — pois Ele é infinito. O salmo "contigo está a fonte da vida".
1 A alegria simchá é a obtenção do agrado da coisa conveniente, e ela é um afeto sem dúvida; e acha-se a Escritura a atribuí-la a ele, bendito seja: disse "alegre-se o Senhor nas suas obras" (Salmos 104:31), e os homens da Grande Assembleia instituíram no formato das bênçãos a fórmula "que a alegria está na sua morada" shehasimchá bime'ono. E parece que a alegria se lhe atribui no oposto do assunto pelo qual se lhe atribui a tristeza; pois, se se lhe atribui a tristeza, que é o atributo da baixeza, com muito mais razão é cabido que se lhe atribua a alegria, que é o atributo importante, já que o conhecimento dos opostos é um só. E, assim como a tristeza se diz, na linguagem dos filhos do homem, sobre o afeto que chega da coisa feita ao oposto da vontade, assim a alegria se diz sobre o agrado da satisfação da vontade do homem e a conclusão da sua intenção na permanência das suas obras; e por este modo se diz, por transposição, sobre o Senhor, a alegria — no oposto do assunto pelo qual se diz sobre ele a tristeza, como explicamos acima. E disse a Escritura "alegre-se o Senhor nas suas obras", quer dizer, que quis a sua permanência; e assim a fórmula "que a alegria está na sua morada" quer dizer que o fundamento da permanência está nos seres superiores, que são permanentes no indivíduo, não nos inferiores, que não são permanentes senão na espécie; e por isso a dizem na hora da união conjugal, pois a alegria, em toda coisa, se dá do lado da continuidade e da permanência, e a tristeza, da corrupção e da privação.
הַשִּׂמְחָה הִיא הַשָּׂגַת עֲרֵבוּת הַדָּבָר הַנָּאוֹת, וְהִיא הִתְפַּעֲלוּת. ״יִשְׂמַח ה׳ בְּמַעֲשָׂיו״ — שֶׁרָצָה בְּקִיּוּמָם. וְ״שֶׁהַשִּׂמְחָה בִּמְעוֹנוֹ״ — שֶׁעִקַּר הַקִּיּוּם בָּעֶלְיוֹנִים הַקַּיָּמִים בָּאִישׁ.
2 E já é possível que digamos que a fórmula "que a alegria está na sua morada" aluda a um assunto mais profundo que este — e é à maneira do que escreveram os filósofos, a saber que o Nome, bendito seja, se alegra na sua própria essência, no que tem de beleza, e esplendor, e perfeição em si mesmo, tal que não precisa de outro, e no facto de que todos são influenciados a partir dele e precisam dele e não têm permanência senão nele. E a explicação disto é que a sua alegria, bendito seja, não está dependente do que é fora dele dentre os existentes — nem os corruptíveis nem os permanentes —, mas a sua alegria é na sua própria essência apenas; e é isto a fórmula "que a alegria está na sua morada" bime'ono, como "força e alegria no seu lugar" (I Crônicas 16:27) — que quer dizer no seu grau, ou na sua essência, como "bendita seja a glória do Senhor do seu lugar" (Ezequiel 3:12), como virá.
3 E isto é assim porque, como o sábio tem alegria no que sente em si mesmo da perfeição da sabedoria — até que todos os demais sábios precisam dele e são influenciados a partir dele, e ele não precisa deles —, assim o Nome, bendito seja, exulta e se alegra no facto de que ele tem a sua existência não dependente de outro e de que a existência de tudo está dependente dele; com o facto de não haver relação entre os dois agrados de modo algum — pois o agrado do sábio é do lado do que apreende de outro, quer dizer, do Nome e dos demais existentes influenciados a partir dele, e ele, bendito seja, tem a sua alegria na sua essência sem olhar para o outro; e assim o agrado do sábio é finito por força, já que a sua apreensão é finita, e por isso a sua alegria e o seu agrado serão limitados, ainda que se acrescente sempre; porque todo o que busca alguma coisa, conforme o valor daquela coisa buscada e o seu grau será o anseio por ela e a alegria na sua obtenção; e, quando a coisa ansiada ou buscada for finita, esgota-se o anseio quando a obtém, e para a alegria ou se interrompe; mas, quando a coisa ansiada ou buscada for sem fim, é impossível que se esgote o anseio nem que se interrompa a apreensão, e por isso continua a alegria, ainda que ela seja sempre limitada, como a apreensão é sempre limitada.
שֶׁהַשֵּׁם יִשְׂמַח בְּעַצְמוּתוֹ בְּמַה שֶּׁיֵּשׁ לוֹ מֵהַיֹּפִי וְהַשְּׁלֵמוּת בְּעַצְמוֹ. כְּמוֹ הֶחָכָם שֶׁיֵּשׁ לוֹ שִׂמְחָה בְּמַה שֶּׁהוּא מַרְגִּישׁ מִשְּׁלֵמוּת הַחָכְמָה. אֲבָל שִׂמְחַת הַשֵּׁם בְּעַצְמוּתוֹ מִבְּלִי הַבָּטָה אֶל הַזּוּלָת.
4 E por causa disto disse a Escritura "alegre-se o coração dos que buscam o Senhor" (Salmos 105:3); pois, por ser o Nome, bendito seja, e a sua perfeição sem fim, todo o que busca o Senhor — ainda que apreenda o que apreender dele sempre — resta o desejo e continua a alegria, e não se interrompe, mas cresce sempre quando cresce a apreensão. E por causa disto disse o salmista "buscai o Senhor e o seu poder, procurai a sua face sempre" (Salmos 105:4) — quer dizer, que a alegria no que apreenderdes dele não se interromperá mais, pois sempre acrescentareis alegria do lado de ser ele, bendito seja, sem fim; e tudo o que se apreender dele como algum grau, achar-se-á nele um objeto buscado e ansiado ainda não apreendido; e é isto o que aludiu ao dizer "e o seu poder". E por este modo se interpreta "exultem e se alegrem em ti todos os que te buscam" (Salmos 40:17) — quer dizer, que do lado de ser ele, bendito seja, sem fim, a alegria será contínua e sempre crescente; e é isto o que disse "e digam sempre: engrandeça-se o Senhor" (Salmos 40:17), quer dizer, que tudo o que apreenderem mais, mais reconhecerão que ele é maior, e sempre reconhecerão que ele é sem fim, e sempre dirão "engrandeça-se o Senhor", e crescerá a alegria mais — ainda que o que apreendam sempre seja coisa limitada.
״יִשְׂמַח לֵב מְבַקְשֵׁי ה׳״, כִּי לִהְיוֹתוֹ בִּלְתִּי בַעַל תַּכְלִית, כָּל מְבַקֵּשׁ ה׳ תִּשָּׁאֵר הַתְּשׁוּקָה וְתִתְמִיד הַשִּׂמְחָה. ״דִּרְשׁוּ ה׳ וְעֻזּוֹ בַּקְּשׁוּ פָנָיו תָּמִיד״. ״יָשִׂישׂוּ וְיִשְׂמְחוּ בְּךָ כָּל מְבַקְשֶׁיךָ... יֹאמְרוּ תָמִיד יִגְדַּל ה׳״.
5 Mas a sua alegria, bendito seja, na sua essência é ilimitada e contínua, por ser toda perfeição que ele mede de si mesmo sem fim, e por haver na sua essência perfeições sem fim, permanentes, não mutáveis, que não são do gênero de perfeição alguma das perfeições apreendidas junto a nós; mas, com uma bondade divina, o homem apreende algum grau da sua excelência. E é isto o que disse a Escritura "quão precioso é o teu amor chasdechá, ó D'us! E os filhos do homem à sombra das tuas asas se refugiam" (Salmos 36:8) — quer dizer, quão grande e precioso é o teu amor, tal que é impossível que se apreenda o seu grau; e, com esta preciosidade e importância, é das maravilhas o facto de que os filhos do homem se refugiam à sombra das tuas asas; e "asa" kanaf, neste lugar, indica o ocultamento e a ocultação, como explicou o Rambam, de abençoada memória, na homonímia da palavra "asa", de "e não mais se ocultará yikanef o teu Mestre" (Isaías 30:20); e será a sua interpretação que a coisa que é sem fim é impossível que se apreenda o seu grau, mas ela está oculta e encoberta, e, com tudo isto, os filhos do homem se refugiam à sombra daquela ocultação, que é o segredo da sua essência e do seu amor e dos demais atributos que decorrem dele. E disse que, da apreensão que apreendem da sombra daquela ocultação — que é uma apreensão de que todos os existentes se encadeiam a partir dele, e a apreensão das ações que decorrem do seu amor e dos demais atributos que se lhe atribuem — eles se deleitam com um deleite maravilhoso e se saciam dele, e isto é no mundo das almas olam haneshamot; e é isto o que disse, em linguagem futura, "saciar-se-ão da gordura da tua casa, e do ribeiro dos teus deleites os farás beber" (Salmos 36:9) — quer dizer, que no que apreenderem dos demais existentes que se encadeiam a partir de ti, chamados "costas" achorayim, aludidos no que se disse a Moisés "e verás as minhas costas" (Êxodo 33:23), e que se chamam "a gordura da tua casa", serão fartos e viçosos e saciados de todo bem; mas "o ribeiro dos teus deleites" nachal adanecha, quer dizer, daquele ribeiro que decorre do que tu te deleitas e te comprazes nele — que é a tua essência e os atributos e as perfeições sem fim que há em ti, com que tu te deleitas —, não têm caminho nem entrada a fim de apreender e beber dele por si mesmos, quer dizer, do lado da sua própria apreensão, a não ser que tu os faças beber dele por via de bondade chesed; e por isso disse "os farás beber" e não disse "beberão", porque não são apreendidas pelo homem senão por via de bondade; e chamou-os "os teus deleites" adanecha em linguagem plural, por serem as perfeições que há nele, bendito seja, muitas ou sem fim, como virá.
״מַה יָּקָר חַסְדְּךָ אֱלֹהִים וּבְנֵי אָדָם בְּצֵל כְּנָפֶיךָ יֶחֱסָיוּן״, ״כָּנָף״ מוֹרֶה עַל הַהֶסְתֵּר. ״יִרְוְיֻן מִדֶּשֶׁן בֵּיתֶךָ וְנַחַל עֲדָנֶיךָ תַשְׁקֵם״ — מֵהָאֲחוֹרַיִם יִרְווּ, אֲבָל נַחַל עֲדָנֶיךָ אֵין לָהֶם דֶּרֶךְ לְהַשִּׂיג אֶלָּא דֶּרֶךְ חֶסֶד.
6 E disse "pois contigo está a fonte da vida; na tua luz veremos a luz" (Salmos 36:10), para explicar que não há ali impedimento a fim de apreender este deleite maravilhoso do lado de que aqueles atributos e perfeições são eternos e os homens não são eternos — pois "contigo está a fonte da vida", e está em tua mão dar-lhes vida eterna chayim nitzchiyim; também não há impedimento do lado de que não haja em seu poder receber a magnitude daquele deleite, pois o teu grande poder pode dar-lhes preparação e força a fim de recebê-lo, já que "na tua luz veremos a luz" — quer dizer, que até as apreensões sensíveis não as apreendemos nem chegam a nós senão do lado da bondade que decorre de ti; e isto é assim porque a luz, não há em nós força para apreendê-la, mas ela enfraquece a nossa visão, se não for do lado da luz divina que dá em nós força para apreender uma parte dela e faz sair a nossa visão do potencial ao ato; e é isto o seu dizer "veremos a luz" e não disse "a luz", pois uma parte dela apreendemos, e não toda.
״כִּי עִמְּךָ מְקוֹר חַיִּים בְּאוֹרְךָ נִרְאֶה אוֹר״, שֶׁאֵין מוֹנֵעַ מֵהַשִּׂיג זֶה הַתַּעֲנוּג, כִּי בְיָדְךָ לָתֵת חַיִּים נִצְחִיִּים וְכֹחַ לְקַבְּלוֹ. כִּי הָאוֹר אֵין בָּנוּ כֹחַ לְהַשִּׂיגוֹ אֶלָּא מִצַּד הָאוֹר הָאֱלֹהִי.
7 E é possível que "na tua luz veremos a luz" aluda à apreensão intelectual, a fim de dizer que, do lado do intelecto influenciado de ti, que é a tua luz, apreendemos alguma apreensão nele, que é luz para luz na luz das vidas eternas. E por causa disto é que pedimos de ti que decorra da fonte das perfeições que há em ti algum deleite a nós por via de bondade. E o que disse "estende o teu amor aos que te conhecem" (Salmos 36:11) é para explicar que a bondade daquelas apreensões é cabido que decorra aos que te conhecem yodecha mais que a outros; mas aos retos de coração yishrei lev, que são o conjunto dos crentes, é cabido que decorra a eles a recompensa destinada do lado da Torá por via de justiça tzedaká; e é isto o seu dizer "e a tua justiça aos retos de coração" (Salmos 36:11) — pois a justiça divina decretará que os crentes alcancem o grau das vidas eternas destinado do lado da Torá, do lado de serem eles confiantes no Nome e crentes na sua Torá, ainda que não cheguem a apreender uma apreensão intelectual; conforme as palavras do profeta "e o justo, pela sua fé, viverá" (Habacuque 2:4) — eis que Habacuque mede a apreensão das vidas eternas do lado da fé; pois não alude com isto às vidas corporais, já que os justos crentes não vivem nelas mais que os ímpios não-crentes, mas o profeta alude com isto às vidas eternas, como virá, com a ajuda do Nome.
״מְשֹׁךְ חַסְדְּךָ לְיֹדְעֶיךָ וְצִדְקָתְךָ לְיִשְׁרֵי לֵב״. כִּי הַחֶסֶד לַיֹּדְעִים, אֲבָל לְיִשְׁרֵי לֵב הֵם הֲמוֹן הַמַּאֲמִינִים יִמָּשֵׁךְ הַשָּׂכָר דֶּרֶךְ צְדָקָה, ״וְצַדִּיק בֶּאֱמוּנָתוֹ יִחְיֶה״ — חַיֵּי הַנֶּצַח.
Aplicando o método do capítulo anterior, Albo trata da "alegria" de D'us. No nível simples, é transposição: como a "tristeza" descreve o desfazer da obra, a "alegria" descreve o querer a permanência da obra ("alegre-se o Senhor nas suas obras" = quis que durassem). Mas a fórmula litúrgica "shehasimchá bime'ono" abre algo mais profundo.
No nível filosófico, D'us "alegra-se na sua própria essência" — na sua beleza, esplendor e perfeição, sem depender de nada exterior. Como o sábio se compraz na sua sabedoria (da qual outros dependem), mas com uma diferença abissal: a alegria do sábio é finita e vem do que ele apreende de fora; a de D'us é infinita e está nele mesmo. "A alegria está na sua morada" = no seu próprio grau, sem olhar para outro.
Daí a passagem mais bela do capítulo: a alegria dos que buscam D'us. Toda alegria de obter algo finito acaba quando se obtém o objeto. Mas D'us é infinito — logo "alegre-se o coração dos que buscam o Senhor" descreve uma alegria que nunca se esgota e sempre cresce: cada grau apreendido revela um novo "objeto ansiado ainda não apreendido" ("buscai a sua face sempre"; "digam sempre: engrandeça-se o Senhor"). É a definição da bem-aventurança eterna: progresso sem fim numa apreensão sempre maior, embora sempre limitada.
O Salmo 36 fornece a imagem culminante. À "sombra das asas" (= a ocultação da essência divina) os homens se refugiam: apreendem as "costas" (achorayim) — os existentes e ações que emanam de D'us, "a gordura da tua casa" — mas o "ribeiro dos teus deleites" (a essência infinita) só se bebe se D'us "os fizer beber" por bondade (chesed). E nada impede essa bem-aventurança: "contigo está a fonte da vida" (Ele pode dar vida eterna) e "na tua luz veremos a luz" (Ele dá a própria capacidade de apreender, como a luz divina abre o olho à luz). Albo encerra com a distinção que percorre todo o livro: aos "que te conhecem" (os sábios) a recompensa vem por via de apreensão e bondade; aos "retos de coração" (o conjunto dos crentes) vem por via de justiça — pois "o justo, pela sua fé, viverá", e essa vida é a eterna. O filósofo e o crente simples chegam ambos à mesma fonte, por caminhos diferentes.
O "riso" (sechok) é um nome homônimo: diz-se da alegria (como Abraão "riu" = alegrou-se) e do escárnio (como "o que habita nos céus rirá"). Atribui-se a D'us no segundo sentido, quando os homens dizem o que não cabe ao homem dizer — uma rebeldia tão absurda que merece escárnio.
O "riso" (sechok) é um nome homônimo: diz-se da alegria (como Abraão "riu" = alegrou-se) e do escárnio (como "o que habita nos céus rirá"). Atribui-se a D'us no segundo sentido, quando os homens dizem o que não cabe ao homem dizer — uma rebeldia tão absurda que merece escárnio.
1 O "riso" sechok é um nome homônimo shem meshutaf: diz-se da alegria, como "e caiu Abraão sobre a sua face e riu" (Gênesis 17:17), cuja interpretação é "e alegrou-se", como traduziu Onkelos "e exultou".
2 E diz-se do escárnio laag, como "objeto de riso para o meu companheiro eu sou" (Jó 12:4); e às vezes vêm o riso e o escárnio juntos sobre uma mesma coisa, e o seu assunto é o assunto dos nomes sinônimos, como "o que habita nos céus rirá; o Senhor escarnecerá deles" (Salmos 2:4) — pois o riso decorre ao homem por via de escárnio daquilo de que é cabido escarnecer; e isto se dá quando um homem mede em outro alguma deficiência nas suas palavras ou nas suas obras, e vê ou sente em si mesmo uma vantagem em que ele não tropeça naquilo em que tropeçou o seu companheiro na ação ou na fala, e por isso se renova o riso, por via de escárnio, quando vê o seu companheiro a não fazer ou não dizer o que é cabido conforme a regra humana ou conforme o seu grau.
הַשְּׂחוֹק שֵׁם מְשֻׁתָּף: יֵאָמֵר עַל הַשִּׂמְחָה, כְּמוֹ ״וַיִּצְחָק״ שֶׁתִּרְגֵּם אֻנְקְלוֹס ״וַחֲדִי״; וְיֵאָמֵר עַל הַלַּעַג, ״יוֹשֵׁב בַּשָּׁמַיִם יִשְׂחָק ה׳ יִלְעַג לָמוֹ״. כִּי הַשְּׂחוֹק יִמָּשֵׁךְ עַל צַד הַלַּעַג מִמַּה שֶּׁרָאוּי לְהַלְעִיג עָלָיו.
3 E por causa disto se atribui a ele, bendito seja, o riso e o escárnio, conforme o seu dizer "o que habita nos céus rirá; o Senhor escarnecerá deles" — e isto é porque os vê a dizer "rompamos as suas cadeias" etc. (Salmos 2:3), que são coisas que não é da regra do homem dizê-las, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "Por que se justapôs a parashá de Absalão à parashá de Gog e Magog? Que, se te disser um homem 'porventura há um servo que se rebela contra o seu senhor?', dize-lhe: 'porventura há um filho que se rebela contra o seu pai? Mas houve — isto também houve.'" Do que se vê das suas palavras que esta é uma coisa estranha na regra do homem, até que é cabido escarnecer do que a diz; e por este modo se atribui o riso ao Nome ou ao homem.
וּבַעֲבוּר זֶה יְיֻחַס אֵלָיו הַשְּׂחוֹק וְהַלַּעַג, ״יוֹשֵׁב בַּשָּׁמַיִם יִשְׂחָק״, לְפִי שֶׁרוֹאֶה אוֹתָם אוֹמְרִים ״נְנַתְּקָה אֶת מוֹסְרוֹתֵימוֹ״, שֶׁהֵם דְּבָרִים שֶׁאֵין מֵחֹק הָאָדָם לְאָמְרָם.
4 E às vezes acontece ao homem o riso quando engana o seu companheiro numa coisa em que cabia ao companheiro acautelar-se e não se acautelou; e conforme isto será a causa do riso, em todo lugar, por causa de o homem que ri medir em si mesmo uma vantagem de conhecimento sobre o outro, ao ver o seu companheiro a tropeçar em alguma coisa de ignorância, ou de estultície, ou de falta de conhecimento. E o que disseram os sábios da investigação, a saber que o homem ri por uma propriedade segulá — quer dizer, que a causa do riso não é conhecida —, a intenção é dizer que a causa dos movimentos que o homem faz na hora do riso está oculta — por que decorrem ao riso e à alegria quando o homem ri aqueles movimentos; e assim por que decorre o riso ao tocar nas axilas e ao apalpar lugares particulares do corpo. Mas a causa do riso que vem ao homem por via de escárnio já é conhecida, do modo que explicamos no "o que habita nos céus rirá".
וּפְעָמִים יִקְרֶה הַשְּׂחוֹק כְּשֶׁמְּרַמֶּה אֶת חֲבֵרוֹ. וְסִבַּת הַשְּׂחוֹק מִפְּנֵי הֱיוֹת הַשּׂוֹחֵק מְשַׁעֵר בְּעַצְמוֹ יִתְרוֹן דַּעַת עַל הָאַחֵר. וּמַה שֶּׁאָמְרוּ שֶׁאָדָם שׂוֹחֵק בִּסְגֻלָּה, הַכַּוָּנָה שֶׁסִּבַּת הַתְּנוּעוֹת נֶעֱלֶמֶת, אֲבָל סִבַּת הַשְּׂחוֹק עַל צַד הַלַּעַג יְדוּעָה.
Breve mas elegante, este capítulo aplica o método dos anteriores a um caso específico: o "riso" atribuído a D'us ("o que habita nos céus rirá", Sl 2:4). A chave é que sechok é homônimo — tem dois sentidos distintos: alegria (Abraão "riu", isto é, alegrou-se, ao ouvir a promessa de Isaque — daí o nome Yitzchak) e escárnio (Jó "objeto de riso").
Quando atribuído a D'us, é no sentido de escárnio — e Albo analisa o que torna algo risível: alguém ri quando percebe no outro uma deficiência, um tropeço, uma falha que ele próprio não cometeria. D'us "ri" dos reis que dizem "rompamos as suas cadeias" porque essa rebeldia contra o Criador é tão absurda quanto um filho rebelar-se contra o pai (o midrash sobre Absalão e Gog-Magog). É o riso diante do contra-senso de a criatura desafiar o seu Fazedor.
O toque final é curiosamente científico. Albo distingue dois aspectos do riso. A causa psicológica do riso de escárnio é conhecida: a percepção de uma "vantagem de conhecimento" sobre quem tropeça em ignorância. Mas a causa fisiológica — por que certos movimentos corporais acompanham o riso, ou por que rimos ao sermos tocados nas axilas (as cócegas!) — essa permanece "oculta", uma "propriedade" (segulá) inexplicada. Albo, fiel ao seu rigor, separa o que a razão alcança do que ela ainda não explica — mesmo num detalhe tão humano. E o ponto teológico permanece: o "riso" de D'us, como toda emoção que se lhe atribui, descreve a Sua relação com o absurdo humano, não um afeto real n'Ele.
"Lugar" diz-se daquilo que circunda e delimita os corpos — logo não se aplica a D'us nem aos intelectos separados, que não são corpos. Albo examina os vários sentidos de "lugar" (makom) na Escritura, e debate se se pode atribuir a D'us uma "direção", entrando na disputa filosófica sobre a própria natureza do lugar.
"Lugar" diz-se daquilo que circunda e delimita os corpos — logo não se aplica a D'us nem aos intelectos separados, que não são corpos. Albo examina os vários sentidos de "lugar" (makom) na Escritura, e debate se se pode atribuir a D'us uma "direção", entrando na disputa filosófica sobre a própria natureza do lugar.
1 "Lugar" makom é um nome dito sobre a coisa que circunda os corpos e os delimita; e aquilo que não é corpo não se diz sobre ele que está num lugar, pois o nome "lugar" não recai senão sobre uma coisa que se preenche de outro corpo dotado de distâncias que entra nela e que é circundado por ela; e por isso é impossível que digamos sobre o Senhor, nem sobre os intelectos separados, que estão num lugar, porque não são um corpo dotado de distâncias que o lugar circunde.
2 Disse a Escritura, explicando isto: "eis que os céus e os céus dos céus não te contêm" (I Reis 8:27) — quer dizer, que tu não precisas de um lugar em que estejas. E o que disse a Escritura "e habitarei no meio dos filhos de Israel" (Êxodo 29:45), e assim "e será o lugar que o Senhor, vosso D'us, escolher para fazer habitar ali o seu nome" (Deuteronômio 12:11) — não é que Ele precise de um lugar em que habite, mas, porque a visão da glória kavod se dá por meio de um corpo visível ao sentido — como o fogo ou a coluna de nuvem —, disse a Escritura "e a aparência da glória do Senhor era como fogo devorador no cume do monte" (Êxodo 24:17), e "e eis que a glória do Senhor apareceu na nuvem" (Êxodo 16:10), e "e apareceu-lhe o anjo do Senhor numa chama de fogo do meio da sarça" (Êxodo 3:2) — pois a visão da coluna de nuvem de repente, ou da chama de fogo do meio da sarça sem que a sarça se consuma, é indicação de que a glória do Nome, não visível ao sentido, está ali; por isso a Escritura atribuiu à habitação da glória shechinat hakavod um lugar particular — não que a glória precise de um lugar nem de um corpo em que esteja. E, porque o lugar faz subsistir a coisa e a mantém, chamou-se D'us "morada" ma'on; disse Moisés "Senhor, uma morada tu foste para nós" (Salmos 90:1) — quer dizer, que tu fazes subsistir o mundo e o manténs, como o lugar que faz subsistir a coisa e a mantém; e por causa disto chamaram-no os nossos mestres, de abençoada memória, "o Lugar" HaMakom: "bendito seja o Lugar HaMakom, que deu a Torá a Israel."
״מָקוֹם״ נֶאֱמַר עַל הַדָּבָר הַמַּקִּיף בַּגְּשָׁמִים וּמַגְבִּיל אוֹתָם, וְלֹא יֵאָמֵר עַל הַשֵּׁם וְלֹא עַל הַשְּׂכָלִים הַנִּבְדָּלִים. ״הִנֵּה הַשָּׁמַיִם וּשְׁמֵי הַשָּׁמַיִם לֹא יְכַלְכְּלוּךָ״. וּלְפִי שֶׁהַמָּקוֹם מַעֲמִיד הַדָּבָר נִקְרָא הָאֵל ״מָעוֹן״, וּקְרָאוּהוּ ״הַמָּקוֹם״.
3 E chama-se a própria essência da coisa "lugar", como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "do seu lugar mimekomo é decidido" = por si mesmo; e assim "bendita seja a glória do Senhor do seu lugar" (Ezequiel 3:12) — quer dizer, que a glória do Nome, bendito seja, que se mostra aos profetas, é influenciada da sua própria essência, bendito seja, sem nenhum intermediário; não que haja um lugar para a glória, D'us nos livre.
וְנִקְרָא עֶצֶם הַדָּבָר ״מָקוֹם״, ״מִמְּקוֹמוֹ הוּא מֻכְרָע״, וְכֵן ״בָּרוּךְ כְּבוֹד ה׳ מִמְּקוֹמוֹ״ — מֻשְׁפָּע מֵעַצְמוּתוֹ בְּלִי שׁוּם אֶמְצָעִי.
4 Mas aquilo em que há lugar para especulação é se é possível atribuir-lhe a direção tzad. Pois, ainda que ele, bendito seja, não esteja num lugar, já é possível que se lhe atribua uma direção particular, como a direção do alto; disse a Escritura "pois D'us está nos céus, e tu sobre a terra" (Eclesiastes 5:1), e todos os sábios concordam que os céus são morada dos seres espirituais, ainda que não precisem de lugar; e vê-se disto que, ainda que não seja corpo, já é possível atribuir-lhe a direção, e isto não obriga ser ele corpo — como dizemos sobre a alma nefesh que, ainda que não seja corpo, está numa direção particular, como se dissesses no corpo; pois, visto que não está fora dele, ainda que não esteja num lugar, particulariza-se num lugar delimitado. E assim dizemos sobre a alma do ímpio, que é julgada no Guehinom, que, ainda que não seja corpo tal que esteja num lugar, já a delimitará o lugar e ela se achará nele a fim de receber o seu castigo — à maneira de que se acha no corpo a fim de pecar, ainda que não seja corpo. E por este modo é possível que digamos sobre o Nome, bendito seja, que, ainda que não esteja num lugar, está na direção do alto, ou do baixo, ou numa direção particular.
אֲבָל מָקוֹם עִיּוּן הוּא אִם אֶפְשָׁר לְיַחֵס אֵלָיו הַצַּד. ״כִּי הָאֱלֹהִים בַּשָּׁמַיִם וְאַתָּה עַל הָאָרֶץ״. כְּמוֹ הַנֶּפֶשׁ, שֶׁאַף עַל פִּי שֶׁאֵינָהּ גּוּף הִיא בְּצַד מְיֻחָד.
5 E é possível divergir disto e dizer que a subsistência da direção obriga o lugar por força, pois a direção é ou o alto ou o baixo, e o alto e o baixo são lugar, sem dúvida. E há como responder sobre isto e dizer que o alto absoluto ma'alá bemuchlat não é lugar, pois eis que a esfera superior é o alto absoluto, e explicou-se que ela não está num lugar — já que não há fora dela outro corpo que a circunde —, e por isso é possível atribuir-lhe a direção do alto, visto que não é lugar. Exceto que isto é construído sobre a opinião de Aristóteles que diz que o lugar é a extremidade superfície que circunda o corpo por fora hatachlit hamakif; e por causa disto diz que o conjunto do mundo não está num lugar, por não haver fora dele outra coisa que o circunde.
6 E esta opinião é de clara nulidade, pois decorre dela dizer que o lugar da parte e do todo são diferentes — já que as partes do fogo não têm uma extremidade que as circunde por fora senão outras partes de fogo ou de ar, e o lugar natural do elemento fogo é o côncavo da esfera da lua, e esse difere do lugar das partes do fogo, e assim nos demais elementos. E ainda decorre a Aristóteles dizer que os elementos estão forçados muchrachim no seu lugar, pois o lugar natural do elemento fogo é o côncavo da esfera da lua, que é o alto, e seriam, conforme isto, todas as partes do fogo forçadas, exceto as que estão junto à superfície da esfera; e assim decorre isto nos demais elementos. E, se o lugar do elemento terra é a superfície do elemento água que a circunda por fora, não será o lugar da terra o baixo absoluto, como ele estabeleceu, pois o baixo absoluto é o centro merkaz. E ainda decorre a ele dizer que o lugar da parte seja maior que o lugar do todo, pois um corpo esférico, quando se toma dele parte do que está dentro, precisa de uma superfície maior que o circunde por dentro e por fora. E assim decorre a ele dizer que o mesmo corpo único tenha muitos lugares diferentes em tamanho e pequenez, pois o corpo único, quando se divide, as suas partes precisam de um lugar maior que o do princípio... e isto é o oposto do que estabeleceu Euclides no Livro dos Pesos e das Levezas, que disse que os corpos iguais preenchem lugares iguais — e isto é falso conforme esta posição de Aristóteles.
זֶה בָּנוּי עַל דַּעַת אֲרִיסְטוֹ שֶׁהַמָּקוֹם הוּא הַתַּכְלִית הַמַּקִּיף בַּגֶּשֶׁם מִחוּץ. וְזֶה הַדַּעַת מְבֹאָר הַהֶפְסֵד, כִּי יִתְחַיֵּב שֶׁמְּקוֹם הַחֵלֶק וְהַכֹּל מִתְחַלְּפִים, וְשֶׁיִּהְיֶה מְקוֹם הַחֵלֶק גָּדוֹל מִמְּקוֹם הַכֹּל.
7 E todas estas nulidades decorrem àquele que diz que o lugar é a superfície que circunda por fora. Mas, se o lugar fosse o vão e o vazio hapanui vehareikut em que o corpo entra, não decorreria nenhuma destas nulidades. E o que disse Aristóteles, a saber que ao dito do que diz que há ali distâncias rechakim subsistentes por si mesmas, e que as distâncias são o lugar, decorrem duas falsidades — a primeira, que a mesma coisa única tenha muitos lugares juntos, sem fim, e a segunda, que os lugares se movam, e que o lugar que está na bacia da água precise de um lugar —, eis que isto, na verdade, decorreria se as distâncias se movessem; mas, se dissermos que elas não se movem, e que o corpo e as suas partes são os que se movem de distâncias a distâncias, não decorre disto nulidade alguma; pois a bacia e a água, cada uma está em distâncias particulares que não se trocam ao moverem-se juntas. E conforme esta opinião, será a esfera superior e todo o mundo estarão num lugar; e é impossível conforme isto atribuir a ele, bendito seja, a direção, assim como não lhe atribuímos o lugar.
אֲבָל אִם הָיָה הַמָּקוֹם הוּא הַפָּנוּי וְהָרֵיקוּת שֶׁיִּכָּנֵס בּוֹ הַגֶּשֶׁם, לֹא יִתְחַיֵּב דָּבָר מֵאֵלּוּ. וּלְפִי דַעַת זֶה יִהְיֶה הַגַּלְגַּל הָעֶלְיוֹן וְכָל הָעוֹלָם בְּמָקוֹם, וְאִי אֶפְשָׁר לְיַחֵס אֵלָיו הַצַּד כְּמוֹ שֶׁלֹּא נְיַחֵס אֵלָיו הַמָּקוֹם.
8 E o que a Escritura lhe atribuiu a direção do alto, ao dizer "ó tu que habitas nos céus" (Salmos 123:1), "o que habita nos céus rirá" (Salmos 2:4), e os que se lhe assemelham — é possível que seja porque a força divina koach elohi se mostra mais no movimento das esferas, pela força e continuidade dos seus movimentos, e porque elas são de uma matéria mais nobre que os demais corpos, e porque a direção do alto é mais nobre; por isso dizem que elas são morada dos seres espirituais. E talvez seja que a Escritura lhe atribuiu a direção à maneira como lhe atribuiu o lugar e os demais atributos corporais, por via de que "a Torá falou na linguagem dos filhos do homem". E interrompamos a fala na raiz de que não é corpo nem força num corpo, pois, do que dissemos, tomar-se-á prova sobre o que se lhe assemelha.
וּמַה שֶּׁיִּחֵס אֵלָיו הַכָּתוּב צַד הַמַּעֲלָה, ״הַיֹּשְׁבִי בַּשָּׁמַיִם״, אֶפְשָׁר כִּי הַכֹּחַ הָאֱלֹהִי יֵרָאֶה יוֹתֵר בִּתְנוּעַת הַגַּלְגַּלִּים. וְאוּלַי כִּי יִחֵס אֵלָיו הַצַּד כְּדֶרֶךְ ״דִּבְּרָה תוֹרָה כִּלְשׁוֹן בְּנֵי אָדָם״.
Continuando a raiz da incorporeidade, Albo trata de "lugar" (makom). Lugar, propriamente, é o que circunda e delimita um corpo — logo nem D'us nem os intelectos separados, sendo incorpóreos, podem estar "num lugar". A Escritura confirma: "os céus dos céus não te contêm". As expressões de habitação divina ("habitarei no meio de Israel", "o lugar que o Senhor escolher") referem-se à manifestação visível da glória (a nuvem, o fogo da sarça) — sinais de que a glória invisível ali está, não que D'us precise de espaço.
Albo levanta os usos do termo. D'us é chamado "morada" (ma'on) porque sustenta o mundo como o lugar sustenta o que contém — daí os sábios o chamarem "HaMakom" ("o Lugar"): não que Ele esteja num lugar, mas que Ele é o lugar de tudo. E "lugar" pode significar a própria essência ("bendita a glória do Senhor do seu lugar" = emanada da sua essência, sem intermediário).
A parte especulativa pergunta: pode-se atribuir a D'us uma direção (o "alto"), já que a Escritura o põe "nos céus"? A resposta depende da natureza do lugar — e aqui Albo entra num debate físico fascinante. Para Aristóteles, lugar é a "superfície que circunda o corpo por fora"; daí o todo do mundo não teria lugar (nada o circunda), e o "alto absoluto" (a esfera suprema) não seria lugar — permitindo atribuir a D'us a "direção do alto". Mas Albo demole a definição aristotélica com uma bateria de absurdos: o lugar da parte e do todo divergiriam; os elementos estariam "forçados" no seu lugar; o lugar da parte seria maior que o do todo; o mesmo corpo teria lugares de tamanhos diferentes ao dividir-se — contra o axioma de Euclides de que corpos iguais ocupam lugares iguais.
A definição alternativa — lugar como o vão/extensão (panui) que o corpo ocupa — escapa de todos esses absurdos (a objeção de Aristóteles só valeria se as distâncias se movessem, mas é o corpo que se move através delas). Mas, nessa visão, todo o mundo está num lugar — e então não se pode atribuir direção a D'us, assim como não se atribui lugar. Albo não força a questão física; conclui pragmaticamente: a Escritura põe D'us "no alto" ou porque é ali (nas esferas) que a força divina mais se manifesta e a direção superior é a mais nobre, ou — mais simplesmente — porque "a Torá falou na linguagem dos homens". Mais um antropomorfismo dissolvido, encerrando a raiz da incorporeidade.
A terceira raiz: D'us existe antes do tempo e depois do tempo, logo o seu poder é sem fim. "Eterno" (kadmon) e "perpétuo" (nitzchi), ditos d'Ele, são atributos negativos — nada o precede nem o sucede. Albo distingue dois sentidos de "tempo" (o medido pelo movimento das esferas e a duração imaginada) e conclui com "eu sou o primeiro e o último".
A terceira raiz: D'us existe antes do tempo e depois do tempo, logo o seu poder é sem fim. "Eterno" (kadmon) e "perpétuo" (nitzchi), ditos d'Ele, são atributos negativos — nada o precede nem o sucede. Albo distingue dois sentidos de "tempo" (o medido pelo movimento das esferas e a duração imaginada) e conclui com "eu sou o primeiro e o último".
1 A terceira raiz, a de que não tem dependência do tempo. E a sua explicação é que ele existe antes da existência do tempo e depois da existência do tempo, e por isso o seu poder é sem fim; pois todo o que tem dependência do tempo, o seu poder será finito por força, no fim daquele tempo; e, visto que ele, bendito seja, não tem dependência do tempo, o seu poder é sem fim. E por isso é cabido que se compreenda que, quando se diz sobre ele que é eterno kadmon, na verdade se diz por transposição e alívio da linguagem; pois "eterno" se diz sobre toda coisa em relação a outra coisa — como dizemos que Noé é anterior kadmon a David, e Enoque a Elias, por ter um existido num tempo anterior ao tempo em que o outro existiu; e é claro que o nome "eterno" dito sobre ele, bendito seja, não se diz em relação a outra coisa — quer dizer, que Ele foi anterior a alguma coisa por algum tempo, pois o tempo, conforme isto, delimitaria a sua existência, e, se o tempo delimita a sua existência, o tempo seria anterior a ele por força, e Ele seria existente num tempo e não em outro tempo, e a privação o precederia; e tudo o que a privação precede é possível de existência e não necessário de existência, como explicamos — com o facto de a Escritura dizer "quem me precedeu, para que eu lhe pague?" (Jó 41:3), quer dizer, que ele é anterior a todos os existentes e não o precedeu coisa alguma. E por isso é cabido que se compreenda o assunto da eternidade dito sobre ele, bendito seja, como um assunto negativo inyan sholeli — e ele é que não o precedeu coisa alguma nem privação, mas existe sempre sobre um mesmo atributo permanente, sem mudança.
הַשֹּׁרֶשׁ הַשְּׁלִישִׁי שֶׁאֵין לוֹ הִתְלוּת בַּזְּמָן. כְּשֶׁיֵּאָמֵר עָלָיו ״קַדְמוֹן״ נֶאֱמַר בְּהַעֲבָרָה, כִּי קַדְמוֹן יֵאָמֵר בְּצֵרוּף. וְ״מִי הִקְדִּימַנִי וַאֲשַׁלֵּם״. וְעִנְיַן הַקַּדְמוּת עִנְיָן שׁוֹלְלִי, שֶׁלֹּא קָדַם לוֹ דָּבָר וְלֹא הֶעְדֵּר.
2 E assim o nome "perpétuo" nitzchi dito sobre ele, bendito seja, quer dizer que não o sucede coisa alguma; pois, assim como é impossível que o tempo o preceda, como explicamos, assim é impossível que o suceda coisa alguma, nem que o tempo o exceda do lado do fim, como não o precede do lado do princípio — pois, se o tempo o excedesse do lado do fim, Ele seria existente num tempo e não em outro tempo, e não seria, então, necessário de existência, como explicamos no "eterno"; e por isso o assunto da eternidade e da perpetuidade dito sobre ele, bendito seja, volta a um assunto negativo — e ele é a negação da privação do lado do princípio e do lado do fim.
וְכֵן ״נִצְחִי״ רוֹצֶה לוֹמַר שֶׁלֹּא יִתְאַחֵר אֵלָיו דָּבָר. וְעִנְיַן הַקַּדְמוּת וְהַנִּצְחִיּוּת שָׁב אֶל עִנְיָן שׁוֹלְלִי, וְהוּא שְׁלִילַת הַהֶעְדֵּר מִצַּד הַהַתְחָלָה וּמִצַּד הַתַּכְלִית.
3 E isto vale mesmo se o tempo for a duração não-medida imaginada no pensamento hemshech habilti meshu'ar hamedume, que existe sempre antes da criação do mundo e depois da sua privação, exceto que não havia naquela duração a ordem visível do lado do movimento da esfera, visto que a esfera não se movia nem existia. E esta é a opinião dos nossos mestres, de abençoada memória, a saber que a duração é o tempo no sentido amplo; pois eles chamam o tempo medido ou contado pelo movimento da esfera "ordem de tempos" seder zmanim, não "tempo" sem mais. E será o tempo, conforme isto, de dois gêneros: um, contado e medido pelo movimento da esfera, e nele recai o anterior e o posterior e o igual e o desigual; e um, não contado nem medido — e ele é a duração que havia antes da existência da esfera, tal que não recai sobre ele o igual e o desigual —, e é ele o que o Rambam, de abençoada memória, chamou "semelhança de tempo" demut zman no capítulo 13 da Segunda Parte; e este gênero é possível que seja perpétuo; e o que se gera ou se renova é a ordem do tempo, não o tempo. E por este caminho se removem todas as dúvidas e perplexidades que há na essência do tempo — se ele é gerado no tempo ou não —, pois, ainda que o tempo não se renove nem se gere, de todo modo a ordem do tempo já se dá no tempo.
וְהַזְּמָן שְׁנֵי מִינִים: נִסְפָּר וּמְשֹׁעָר בִּתְנוּעַת הַגַּלְגַּל, וְיִפֹּל בּוֹ הַקּוֹדֵם וְהַמִּתְאַחֵר; וּבִלְתִּי נִסְפָּר, וְהוּא הַמֶּשֶׁךְ שֶׁהָיָה קֹדֶם מְצִיאוּת הַגַּלְגַּל, שֶׁקְּרָאוֹ הָרַמְבַּ״ם ״דְּמוּת זְמָן״. וְהַמִּתְחַדֵּשׁ הוּא סֵדֶר הַזְּמָן לֹא הַזְּמָן.
4 E também o que duvidaram sobre o "agora" ata, ao dizerem que o "agora" é o que divide entre o tempo anterior e o posterior, e que já haveria um tempo anterior ao primeiro "agora", e decorre que o tempo e a esfera sejam perpétuos — não é do que seja difícil conforme este caminho; pois o tempo que tem nele movimento tem nele anterior e posterior, mas o tempo que não tem nele movimento não tem nele anterior e posterior, e não há ali tempo medido, já que não recai a medida no tempo sem movimento; e não se diz nele "anterior" e "posterior" senão por transposição e alívio da linguagem — como se diz que fora do mundo não há nem vazio nem cheio, e, se há ali um "fora" por força, há ali vazio ou cheio, exceto que a palavra "fora" se diz por transposição e alívio da linguagem; e assim "anterior" e "posterior" ditos sobre a duração imaginada antes da criação do mundo.
וְהָעֵתָּה אֲשֶׁר יַחְלֹק בֵּין הַזְּמָן הַקּוֹדֵם וְהַמִּתְאַחֵר, אֵינוֹ קָשֶׁה, כִּי הַזְּמָן שֶׁאֵין בּוֹ תְּנוּעָה אֵין בּוֹ קוֹדֵם וּמִתְאַחֵר, וְלֹא יֵאָמֵר אֶלָּא בְּהַעֲבָרָה, כְּמוֹ שֶׁיֵּאָמֵר ״חוּץ לָעוֹלָם״.
5 E, por ser difícil a compreensão desta coisa — como se concebe que o mundo termine numa coisa que não é nem vazio nem cheio, e assim como se concebe uma duração antes da criação do mundo sem anterior e posterior como há na ordem do tempo que se acha hoje —, por isso disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "não pergunte o homem o que há em cima, o que há embaixo, o que há antes, o que há depois" (Chaguigá 11b); pois "o que há em cima e o que há embaixo" alude ao que está fora do mundo, e "o que há antes e o que há depois" alude à duração que é anterior à criação do mundo e posterior à sua privação; e diz que não se pergunte se recai nela anterior e posterior ou não.
וּלְפִי שֶׁקָּשֶׁה הֲבָנַת זֶה, אָמְרוּ ״לֹא יִשְׁאַל אָדָם מַה לְּמַעְלָה מַה לְּמַטָּה מַה לְּפָנִים מַה לְּאָחוֹר״. ״מַה לְּפָנִים וּמַה לְּאָחוֹר״ יִרְמֹז עַל הַמֶּשֶׁךְ שֶׁקֹּדֶם בְּרִיאַת הָעוֹלָם.
6 E não me dificultes com o dito de Rabi Yehudá filho de Rabi Simon, que disse "'e foi tarde e foi manhã, dia um' (Gênesis 1:5) — ensina que havia uma ordem de tempos seder zmanim antes disto", do que se vê das suas palavras ou que a sua opinião era que a esfera é eterna, como a opinião de Aristóteles, ou que a duração não-medida se chama "ordem de tempos" — pois não é assim a coisa. Mas, porque o que se compreende dos versículos é que a ordem do dia e da noite não existia até o quarto dia, em que se penduraram os luzeiros, Rabi Yehudá disse que desde o primeiro dia, em que foi criada a esfera, ela se movia e existia a ordem do dia e da noite antes do quarto dia, e a aparência da tarde e da manhã que se disse é verdade; e não se mencionou a suspensão dos luzeiros e das estrelas no quarto dia senão para explicar que a sua existência a mover-se com movimentos diferentes, até que fossem por sinais e por estações e por dias e anos, é a fim de que decorra deles um influxo no mundo inferior com a mudança da posição dos seus raios em relação à terra; e é isto o que explicou "e os pôs D'us no firmamento dos céus, para iluminar sobre a terra" (Gênesis 1:17). E explica-se conforme isto, das palavras de Rabi Yehudá filho de Rabi Simon, que o tempo medido pelo movimento da esfera se chama "ordem de tempos", não "tempo" no sentido amplo; pois a duração é o tempo no sentido amplo, tal que não há nele anterior e posterior nem ordem de tempos, visto que não há nele movimento.
וְאַל תַּקְשֶׁה מֵרַבִּי יְהוּדָה בְּרַבִּי סִימוֹן ״מְלַמֵּד שֶׁהָיָה סֵדֶר זְמַנִּים קֹדֶם לְכֵן״, אֶלָּא שֶׁמִּיּוֹם רִאשׁוֹן הָיָה הַגַּלְגַּל מִתְנוֹעֵעַ. וְהַזְּמָן הַמְשֹׁעָר נִקְרָא ״סֵדֶר זְמַנִּים״, לֹא זְמָן בְּשִׁלּוּחַ.
7 Mas, se o tempo não é a duração imaginada, mas o medido pelo movimento da esfera, como é a opinião de Aristóteles, será o assunto da eternidade e da perpetuidade a saber que ele é anterior a todos os existentes e ao tempo contado pelo movimento da esfera; e serão a eternidade e a perpetuidade, conquanto sendo diferentes, com um assunto que é um só — e ele é que ele existe antes do tempo e depois do tempo, sempre sobre um mesmo assunto.
8 E por isso pusemos como raiz a de que não tem dependência do tempo, a fim de incluir a eternidade e a perpetuidade como um só — seja o tempo a duração imaginada, como a opinião dos nossos mestres, de abençoada memória, seja o contado pelo movimento da esfera, como a opinião de Aristóteles. E assim se acha a Escritura, em todo lugar em que descreve o Nome, bendito seja, como sendo primeiro, a descrevê-lo como sendo último, para aludir a que ele tem um só atributo que indica ambos — e ele é que não tem dependência com o tempo; disse Isaías "assim disse o Senhor, rei de Israel e seu redentor, o Senhor dos exércitos: eu sou o primeiro e eu sou o último, e além de mim não há D'us" (Isaías 44:6) — quer dizer, que não há em todos os existentes quem se descreva como sendo primeiro e sendo último senão eu, pois todos os existentes além de mim, o tempo os precede ou os sucede, e por isso são possíveis de existência; mas eu, visto que não tenho dependência do tempo, não sou possível de existência, mas necessário de existência; e por isso concluiu "e além de mim não há D'us", quer dizer, não há em todos os existentes quem seja necessário de existência — quer dizer, capaz sobre tudo — senão eu, pois não há entre eles quem sobre quem recaia o nome "primeiro" e "último" além de mim; e por causa disto se explica que eu, somente eu, sou D'us — quer dizer, necessário de existência.
וְלָזֶה שַׂמְנוּ שֹׁרֶשׁ שֶׁאֵין לוֹ הִתְלוּת בַּזְּמָן, לִכְלֹל הַקַּדְמוּת וְהַנִּצְחִיּוּת כְּאֶחָד. ״אֲנִי רִאשׁוֹן וַאֲנִי אַחֲרוֹן וּמִבַּלְעָדַי אֵין אֱלֹהִים״ — אֵין מִי שֶׁיִּתֹאַר רִאשׁוֹן וְאַחֲרוֹן זוּלָתִי, כִּי אֲנִי מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת.
A terceira raiz: D'us "não tem dependência do tempo". Albo mostra que mesmo "eterno" (kadmon) e "perpétuo" (nitzchi) são, no rigor, atributos negativos. "Eterno" no uso comum é relativo — Noé é "anterior" a David. Mas dizer D'us "eterno" não pode significar que existiu "antes" de algo num tempo, pois então o tempo o delimitaria e o precederia, e o que tem privação antes de si é "possível", não "necessário". Logo "eterno" = negação de que algo o preceda; "perpétuo" = negação de que algo o suceda. Ambos reduzem-se a: Ele existe sempre, imutável, fora do antes-e-depois.
A peça filosófica central distingue dois sentidos de "tempo". Há o tempo medido pelo movimento das esferas (com anterior, posterior, igual, desigual) — que os sábios chamam "ordem de tempos" (seder zmanim). E há a duração não-medida (hemshech), a "semelhança de tempo" de Maimônides (Guia II:13), que existiria mesmo sem esferas. Distinção que dissolve velhas aporias: o que "se renova" na criação é a ordem do tempo, não o tempo. E o paradoxo do "agora" (todo agora divide um antes de um depois, sugerindo tempo infinito) cai por terra: sem movimento, não há "antes" e "depois" reais — só por analogia, como dizer "fora do mundo" onde não há nem vazio nem cheio.
Por isso os sábios advertiram: "não pergunte o que há em cima, embaixo, antes, depois" (Chaguigá) — o "antes" e o "depois" referem-se justamente a essa duração anterior à criação, que a mente não consegue representar com as categorias do tempo medido. E Albo reconcilia o midrash de R. Yehudá b. Simon ("havia ordem de tempos antes" do quarto dia): não que a esfera seja eterna (Aristóteles) nem que a duração se chame "ordem de tempos", mas que a esfera já girava desde o primeiro dia — os luzeiros só foram "pendurados" no quarto dia para regular o influxo sobre a terra.
A conclusão unifica tudo: Albo preferiu formular a raiz como "sem dependência do tempo" (e não "eternidade", como Maimônides) justamente para abranger de uma vez a eternidade (sem começo) e a perpetuidade (sem fim), valendo em qualquer teoria do tempo. E lê Isaías 44:6 como sua prova: "eu sou o primeiro e o último, e além de mim não há D'us" — só D'us pode ser ao mesmo tempo primeiro e último, porque só Ele não é precedido nem sucedido pelo tempo; todos os demais são "possíveis", precedidos ou seguidos pelo tempo. Ser "primeiro e último" é, em última análise, ser o necessário de existência — e nisso consiste ser D'us.
Visto que D'us não cai sob o tempo, todo atributo que se lhe atribui deve ser eterno e perpétuo como Ele — pois um atributo "novo" o tornaria composto de coisas geradas, logo gerado. Por isso D'us não muda. Até os intelectos separados caem sob o tempo e têm "idade"; só D'us é imutável, e só Ele diz de si "Eu, eu sou Ele".
Visto que D'us não cai sob o tempo, todo atributo que se lhe atribui deve ser eterno e perpétuo como Ele — pois um atributo "novo" o tornaria composto de coisas geradas, logo gerado. Por isso D'us não muda. Até os intelectos separados caem sob o tempo e têm "idade"; só D'us é imutável, e só Ele diz de si "Eu, eu sou Ele".
1 E do que explicamos, a saber que ele, exaltado seja, não cai sob o tempo, explica-se que todo atributo que se lhe atribui — seja positivo ou negativo — é cabido que seja eterno e perpétuo como ele, quer dizer, que é sem fim pelos dois lados, seja do lado anterior, seja do lado posterior; pois é impossível que se ache nele algum atributo depois de que não estava nele, pois, se fosse assim, ele, bendito seja, seria composto dos atributos gerados, e todo composto de gerados é gerado, e não seria, então, eterno no sentido amplo. E assim é impossível que haja nele um atributo num tempo e não em outro tempo, pois, se fosse assim, Ele seria mutável, e ele, bendito seja, é impossível que mude, pois a mudança é movimento e saída do potencial ao ato, e todo movimento está no tempo, e ele, bendito seja, seria, então, carente do tempo a fim de mudar nele; e, se mudasse, seria gerado e não eterno — e já se explicou que ele é eterno em absoluto; e por isso se explica que é impossível que recaia sobre ele mudança alguma.
כָּל תֹּאַר שֶׁיְּתֹאַר בּוֹ, הֵן חִיּוּבִי הֵן שׁוֹלְלִי, רָאוּי שֶׁיִּהְיֶה קַדְמוֹן וְנִצְחִי כָּמוֹהוּ. כִּי אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּמָּצֵא בּוֹ שׁוּם תֹּאַר אַחַר שֶׁלֹּא הָיָה, שֶׁאִם כֵּן יִהְיֶה מֻרְכָּב מִן הַמְחֻדָּשִׁים, וְכָל הַמֻּרְכָּב מִן הַמְחֻדָּשִׁים מְחֻדָּשׁ. וְהַשִּׁנּוּי תְּנוּעָה וִיצִיאָה מִן הַכֹּחַ אֶל הַפֹּעַל.
2 Mas o que é fora dele dentre os existentes cai sob o tempo, e por isso o tempo os muda. E isto é assim porque até os intelectos separados, ainda que não sejam compostos de opostos a fim de que mudem — pois os opostos são causa da mudança —, com tudo isto já se concebe neles mudança do lado do tempo; pois o primeiro efeito, por exemplo, visto que é gerado, eis que nos dias de Abraão tinha dois mil anos de que foi criado, e hoje tem cinco mil anos e mais; e assim tudo o que é criado por força tem hoje mais tempo do que tinha nos dias de David, e por isso cai sob o tempo. Mas o Nome, bendito seja, é impossível que se diga sobre ele que tem hoje mais tempo do que tinha nos dias de David e do que tinha quando criou o mundo, porque ele é permanente sempre sobre um mesmo assunto, antes de o mundo ser criado e depois de o mundo se acabar, e os tempos não o mudam.
אֲבָל מַה שֶּׁזּוּלָתוֹ יִפֹּל תַּחַת הַזְּמָן, כִּי אֲפִלּוּ הַשְּׂכָלִים הַנִּבְדָּלִים כְּבָר יְצֻיַּר בָּהֶם שִׁנּוּי מִצַּד הַזְּמָן. כִּי הָעָלוּל הָרִאשׁוֹן, אַחַר שֶׁהוּא מְחֻדָּשׁ, הַיּוֹם יֵשׁ לוֹ יוֹתֵר זְמָן מִמַּה שֶּׁהָיָה לוֹ. אֲבָל הַשֵּׁם קַיָּם תָּמִיד עַל עִנְיָן אֶחָד.
3 E é isto o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no Tratado Yevamot, sobre o versículo "jovem fui, também envelheci" (Salmos 37:25): "Quem o disse? Se disseres David — acaso era tão velho assim?" — quer dizer, que os setenta anos que viveu David não são suficientes para fazer uma premissa universal tal que se diga "e não vi justo abandonado" etc. (Salmos 37:25) — "mas o Santo, bendito seja — acaso há velhice diante dele? Mas este versículo o príncipe do mundo sar ha'olam o disse." Eis que explicaram explicitamente que o Nome, bendito seja, não se descreve com velhice. Mas o intelecto agente sechel hapoel, que é o príncipe do mundo, se descreve com juventude e velhice, pois, por ser criado, cai sob o tempo, e recai sobre ele juventude e velhice do lado do tempo — ainda que não recaia sobre ele isto do lado da força e da fraqueza; pois por força lhe contam um número de dias e anos do lado de ser criado, o que não recai assim sobre o Nome, bendito seja, pois, por ser anterior ao tempo, o tempo não o muda. E por isso não há existente algum, fora dele, que possa dizer sobre si mesmo "eu, eu sou Ele" ani ani hu duas vezes, senão o D'us, bendito seja, por ser sempre permanente num só atributo; e por isso disse a Escritura "vede agora que eu, eu sou Ele" (Deuteronômio 32:39) com duas vezes, "eu, eu sou o Senhor, e além de mim não há salvador" (Isaías 43:11) — quer dizer, que, visto que eu estou num só atributo, permanente sempre sem mudança, eu posso salvar; mas todo existente além de mim, visto que muda, não pode salvar.
״נַעַר הָיִיתִי גַּם זָקַנְתִּי... אֶלָּא פָּסוּק זֶה שַׂר הָעוֹלָם אֲמָרוֹ״ — הֲרֵי שֶׁהַשֵּׁם לֹא יִתֹאַר בְּזִקְנָה. אֲבָל הַשֵּׂכֶל הַפּוֹעֵל יִתֹאַר בְּנַעֲרוּת וְזִקְנָה. ״רְאוּ עַתָּה כִּי אֲנִי אֲנִי הוּא״, ״אָנֹכִי אָנֹכִי ה׳ וְאֵין מִבַּלְעָדַי מוֹשִׁיעַ״.
Breve mas decisivo, este capítulo extrai da terceira raiz (a independência do tempo) a imutabilidade absoluta de D'us. O argumento é cerrado: todo atributo de D'us tem de ser tão eterno quanto Ele — pois um atributo novo, que antes não estava nele, o tornaria "composto de coisas geradas", e o composto de gerados é ele próprio gerado, contradizendo a sua eternidade. E mudar é "sair do potencial ao ato", um movimento que exige tempo — mas D'us está fora do tempo. Logo, n'Ele "é impossível que recaia mudança alguma".
O contraste com as criaturas é iluminador. Mesmo os intelectos separados (os anjos), que não têm opostos internos para mudar, ainda assim "caem sob o tempo": o primeiro efeito tinha dois mil anos nos dias de Abraão e tem mais de cinco mil hoje. Ter idade — acumular tempo — já é uma forma de mudança. Só D'us "não tem hoje mais tempo do que quando criou o mundo": está sempre no mesmo estado, antes da criação e após o fim do mundo.
Albo sela com uma bela leitura talmúdica (Yevamot). O versículo "jovem fui, também envelheci" (Sl 37:25) não pode ser de David (70 anos não bastam para uma máxima universal sobre toda a história), nem de D'us ("acaso há velhice diante d'Ele?") — logo foi dito pelo "príncipe do mundo" (o intelecto agente), que, sendo criado, pode ser descrito com juventude e velhice (não por força ou fraqueza, mas por acumular dias). A conclusão é teologicamente densa: só D'us pode dizer "ani ani hu" ("eu, eu sou Ele", em dobro) — a repetição que afirma a identidade permanente e idêntica a si mesma através de todo o tempo. E é justamente por ser imutável que só Ele "pode salvar": quem muda está sujeito ao tempo e não tem poder garantido; quem é sempre o mesmo é o único Salvador seguro.
Um capítulo lexical: a palavra "kol" (todo/tudo) tem muitos sentidos na Escritura — o conjunto, cada uma das partes, a maioria, uma parte grande, e até uma parte pequena ("kol" = "de todo"). Compreender isto resolve muitas dúvidas nas profecias e na atribuição de "todo" a D'us.
Um capítulo lexical: a palavra "kol" (todo/tudo) tem muitos sentidos na Escritura — o conjunto, cada uma das partes, a maioria, uma parte grande, e até uma parte pequena ("kol" = "de todo"). Compreender isto resolve muitas dúvidas nas profecias e na atribuição de "todo" a D'us.
1 A palavra "todo" kol — a sua acepção primeira é sobre a totalidade da coisa kelalut, como "tudo kol o Senhor fez para o seu propósito" (Provérbios 16:4), e "e viu D'us tudo kol o que fez, e eis que era muito bom" (Gênesis 1:31) — cuja interpretação é que no conjunto dos existentes o bem é dominante e prepondera neles.
2 E diz-se sobre todas as partes que estão sob o conjunto, como "toda kol alma dos que saíram da coxa de Jacó, setenta almas" (Êxodo 1:5), que se disse sobre cada uma das partes, sem dúvida; e assim "e tomou Abraão Ismael, seu filho, e todos kol os nascidos da sua casa" etc., "e circuncidou todo kol" etc. (Gênesis 17:23).
3 E às vezes vem sobre a maioria da coisa rov: "habitarei na casa do Senhor todos kol os dias da minha vida" (Salmos 23:6); "e levantou toda kol a congregação e deram a sua voz" (Números 14:1); "e disseram toda kol a congregação a fim de apedrejá-los com pedras" (Números 14:10); e muitos assim.
מִלַּת ״כֹּל״ הַנָּחָתָהּ הָרִאשׁוֹנָה עַל כְּלָלוּת הַדָּבָר, ״כֹּל פָּעַל ה׳ לַמַּעֲנֵהוּ״. וְיֵאָמֵר עַל כָּל הַפְּרָטִים, ״כָּל נֶפֶשׁ יֹצְאֵי יֶרֶךְ יַעֲקֹב״. וּפְעָמִים עַל רֹב הַדָּבָר, ״שִׁבְתִּי בְּבֵית ה׳ כָּל יְמֵי חַיַּי״.
4 E às vezes vem esta expressão sobre uma parte do conjunto, ainda que não seja a maioria do conjunto, mas que é uma parte grande. Disse Isaías "porque há ira do Senhor sobre todas kol as nações, e fúria sobre todo kol o seu exército" (Isaías 34:2), e não disse isto senão sobre uma parte pequena das nações, como explicou no fim do assunto "pois há um sacrifício ao Senhor em Botsra, e uma grande matança na terra de Edom" (Isaías 34:6), e sobre ela disse "de geração em geração estará destruída, pelos séculos dos séculos não haverá quem passe nela" (Isaías 34:10). E assim disse Jeremias "uma desolação será toda kol a terra" (Jeremias 4:27), sobre a destruição de Jerusalém. E assim Sofonias disse "pois um fim, sim, repentino, fará a todos kol os habitantes da terra" etc., "e no fogo do seu zelo será devorada toda kol a terra" (Sofonias 1:18) — tudo isto se disse sobre a terra de Israel apenas. E assim Zacarias disse "e será o Senhor como rei sobre toda kol a terra" (Zacarias 14:9) — pois, já que no Primeiro Templo eram os israelitas adoradores de idolatria e não reconheciam o seu reino, bendito seja, em toda a terra de Israel, diz que no Segundo Templo será como rei sobre "toda a terra", quer dizer, que reconhecerão o seu reino em toda a terra de Israel; e a prova disto é que disse depois "girará toda kol a terra como a Aravá, de Geba a Rimon" (Zacarias 14:10), que sem dúvida se disse sobre Jerusalém e sobre uma parte pequena da terra de Judá.
וּפְעָמִים עַל חֵלֶק גָּדוֹל מֵהַכְּלָל, ״כִּי קֶצֶף לַה׳ עַל כָּל הַגּוֹיִם״ — וְלֹא נֶאֱמַר אֶלָּא עַל חֵלֶק מוּעָט. ״שְׁמָמָה תִהְיֶה כָל הָאָרֶץ״ עַל חֻרְבַּן יְרוּשָׁלַיִם. ״וְהָיָה ה׳ לְמֶלֶךְ עַל כָּל הָאָרֶץ״ — בְּכָל אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל.
5 E às vezes vem a palavra "todo" kol sobre uma parte pequena do conjunto, e a interpretação de "todo" é "de todo" mikol, como "e toda kol a terra veio ao Egito" (Gênesis 41:57), cuja interpretação é "e de toda a terra vieram" — pois no princípio disse "e houve fome em todas as terras" (Gênesis 41:54), sobre uma parte do mundo, que são as terras próximas à terra do Egito, e sobre uma parte pequena daquelas terras disse "e toda a terra veio ao Egito". E assim "e toda kol a terra buscava a face de Salomão" (I Reis 10:24), como "e de toda a terra"; e assim "todas kol as nações o servirão" (Salmos 72:11), que se disse sobre Salomão, e alude a uma parte pequena da terra e das nações. E por este último modo é cabido que se compreenda o que se disse sobre o Nome, bendito seja, "para que eu conte todo kol o teu louvor" (Salmos 9:15) — não que se diga que há poder no homem a fim de contar todo louvor dos louvores do Nome, D'us nos livre, mas diz que contará uma parte pequena dos louvores do Senhor; pois assim é o feitio da Escritura, a saber omitir o mem de serventia a partícula "de" da escrita — como "o teu trono, ó D'us Elohim, pelos séculos dos séculos" (Salmos 45:7), cuja interpretação é "o teu trono vem de D'us me-Elohim pelos séculos dos séculos" ...; e assim "e todo kol o bem do seu senhor na sua mão" (Gênesis 24:10), como "e de todo o bem do seu senhor na sua mão"; e assim disse a Escritura sobre Hazael, quando foi ao encontro de Eliseu, "e todo kol o bem de Damasco na sua mão" (II Reis 8:9), cuja interpretação é "e de todo o bem de Damasco na sua mão".
וּפְעָמִים עַל חֵלֶק מוּעָט, וְיִהְיֶה פֵּרוּשׁ ״כֹּל״ ״מִכֹּל״, כְּמוֹ ״וְכָל הָאָרֶץ בָּאוּ מִצְרַיְמָה״ — ״וּמִכָּל הָאָרֶץ בָּאוּ״. וְעַל זֶה הַדֶּרֶךְ ״לְמַעַן אֲסַפְּרָה כָּל תְּהִלָּתֶךָ״ — חֵלֶק מוּעָט מִתְּהִלּוֹת ה׳, כִּי דֶּרֶךְ הַכָּתוּב לְחַסֵּר מֵ״ם הַשִּׁמּוּשׁ.
6 E já se acha "todo" kol cuja interpretação não é "de todo" mikol, e mesmo assim alude a uma parte pequena do conjunto, como "derramarei o meu espírito sobre toda kol carne" (Joel 3:1), que se disse em Joel, e alude a uma parte pequena do conjunto de Israel, não sobre todos eles nem sobre as demais nações, sem dúvida; e será a interpretação de "sobre toda carne" "sobre algum eizeh de toda carne", ainda que seja não-preparado para a profecia; e além disto há muitos exemplos.
7 E compreende este caminho nesta palavra, pois é muito maravilhoso; resolvem-se com ele muitas dúvidas que se geram em algumas profecias, a respeito de se são universais ou não — como "pois seis meses habitou ali Joab e todo kol Israel, até exterminar todo kol macho em Edom" (I Reis 11:16), e depois, nos dias dos reis de Judá, achou-se um rei de Edom; e assim se compreendem algumas profecias, a respeito de se foram no passado ou são futuras por força.
וּכְבָר נִמְצָא ״כֹּל״ שֶׁאֵין פֵּרוּשׁוֹ ״מִכֹּל״, וְעִם כָּל זֶה יִרְמֹז עַל חֵלֶק מוּעָט, ״אֶשְׁפּוֹךְ אֶת רוּחִי עַל כָּל בָּשָׂר״. וְהָבֵן זֶה הַדֶּרֶךְ כִּי הוּא נִפְלָא מְאֹד, יֻתְּרוּ בּוֹ סְפֵקוֹת רַבּוֹת בְּקְצָת נְבוּאוֹת אִם הֵם כְּלָלִיּוֹת אִם לָאו.
Este capítulo destoa do tom metafísico do Maamar II — é um estudo lexicográfico da palavra kol ("todo/tudo"). Por que aqui? Porque a discussão dos atributos divinos esbarra constantemente em versículos com "todo" (como "para que eu conte todo o teu louvor"), e interpretá-los ao pé da letra geraria absurdos teológicos (nenhum homem pode contar todo o louvor de D'us). Albo precisa, portanto, mapear os sentidos do termo.
Ele identifica uma gradação descendente notável: (1) o conjunto como um todo ("tudo o que D'us fez"); (2) cada uma das partes ("toda alma — setenta almas"); (3) a maioria ("toda a congregação levantou a voz"); (4) uma parte grande mas não majoritária ("toda a terra" = a terra de Israel, ou só Edom); (5) "todo" no sentido de "de todo" (mikol) — uma parte pequena ("toda a terra veio ao Egito" = de toda a terra alguns vieram); (6) "todo" como "algum" ("sobre toda carne" = sobre alguns de toda carne).
O ponto gramatical mais fino é a tese de que a Escritura frequentemente omite o mem de serventia (a preposição "de"): "todo o teu louvor" = "de todo o teu louvor"; "o teu trono, ó D'us" = "o teu trono vem de D'us". Albo reúne paralelos (o bem de Damasco na mão de Hazael, etc.) para mostrar que essa elipse é um padrão estilístico hebraico reconhecível.
O valor prático, anunciado no fim, é exegético e até apologético: dominar os sentidos de "kol" "resolve muitas dúvidas" sobre se uma profecia é universal ou parcial, e sobre se já se cumpriu ou ainda é futura. O exemplo de Edom é preciso: a Escritura diz que Joab "exterminou todo macho em Edom" (I Reis 11:16), mas mais tarde Edom ainda tem rei — prova de que "todo" ali significava "uma parte". Albo arma assim o leitor contra leituras literalistas que gerariam contradições nas Escrituras — uma ferramenta que servirá especialmente quando, nos Maamarim seguintes, ele tratar das profecias messiânicas e da polêmica com outras religiões.
A quarta raiz: D'us é removido das deficiências. Daí decorre, paradoxalmente, que muitos atributos positivos devem ser-lhe atribuídos — não só pelas ações, mas em si mesmo: pois, não podendo ter deficiência, deve ter o lado da perfeição. Albo mostra como atribuí-los pelo lado da perfeição, não da deficiência — até a "audição" e a "visão", mas não o paladar nem o tato.
A quarta raiz: D'us é removido das deficiências. Daí decorre, paradoxalmente, que muitos atributos positivos devem ser-lhe atribuídos — não só pelas ações, mas em si mesmo: pois, não podendo ter deficiência, deve ter o lado da perfeição. Albo mostra como atribuí-los pelo lado da perfeição, não da deficiência — até a "audição" e a "visão", mas não o paladar nem o tato.
1 Na explicação da quarta raiz, que dissemos ser a de que ele, bendito seja, é removido das deficiências. Quando examinamos os atributos com um exame muito fino e mais profundo, achamos que é da necessidade que se descreva o Nome, bendito seja, com muitos atributos — e não só do lado das suas ações apenas, pela razão que mencionamos no capítulo 8 deste discurso, mas também do lado de si mesmo, bendito seja.
2 E isto é assim porque a afirmação e a negação dividem o verdadeiro e o falso sempre em todas as coisas. E é claro que, no possível, o assunto não escapa de uma divisão: ou que ele, bendito seja, é sábio ou não-sábio, e assim capaz ou não-capaz, e querente ou não-querente; e é impossível que se verifique sobre ele que é não-sábio ou não-capaz, pois ele, bendito seja, é impossível que se ache nele deficiência alguma; e por isso é forçoso que se verifique sobre ele a outra parte, e que seja sábio, e capaz, e querente, e piedoso, e reto, e fiel; e assim é forçoso em todos os gêneros das perfeições que é cabido que se ache nele o lado da perfeição, visto que é impossível que se ache nele o lado da deficiência. E este é um assunto necessário em si mesmo, sem voltar-se às ações que decorrem dele, bendito seja — quando dizemos que é vivo porque a vida é influenciada dele, e sábio porque a sabedoria é influenciada dele, e assim nos demais atributos do cap. 8; mas aqui ele é vivo e sábio porque é impossível que seja morto nem ignorante. E, visto que os gêneros das perfeições são diferentes — pois o conhecimento é diferente do poder, e o poder diferente da vida, e a vida diferente da vontade e diferente da sabedoria —, é forçoso, então, que se achem nele muitos atributos diferentes; e, visto que deste lado é forçoso que se achem nele muitos atributos, e do que explicamos no capítulo 10 deste discurso é forçoso que não se ache nele atributo algum fora da sua essência — quem me dera saber de que modo se acham nele muitos atributos tais que não obriguem multiplicidade na sua essência!
הַחִיּוּב וְהַשְּׁלִילָה חוֹלְקִין הָאֱמֶת וְהַשֶּׁקֶר. וְאִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּצְדַּק עָלָיו בִּלְתִּי חָכָם אוֹ בִּלְתִּי יָכוֹל, כִּי אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּמָּצֵא בּוֹ חִסָּרוֹן. וּמְחֻיָּב שֶׁיִּהְיֶה חָכָם וְיָכוֹל וְרוֹצֶה. וְאַחַר שֶׁמִּינֵי הַשְּׁלֵמֻיּוֹת מִתְחַלְּפִים, יְחֻיַּב שֶׁיִּמָּצְאוּ בּוֹ תְּאָרִים רַבִּים.
3 E digamos que os atributos que se atribuem a ele, bendito seja, são de dois gêneros: um gênero se lhe atribui do lado de ser ele necessário de existência e causa de todos os existentes — tal que é impossível que se conceba ser ele necessário de existência e causa de todos os existentes se não se acharem nele estes atributos —, como ser ele um, e eterno, e perpétuo, e sábio, e querente, e capaz, e além disto dos atributos que é da necessidade que se achem nele, bendito seja, por ser Ele quem faz existir todos os existentes; e outro gênero se lhe atribui do lado de que se imagina nele ser aquilo uma perfeição — como, se lhe atribuímos a riqueza, porque imaginamos nela ser uma perfeição para ele, como é uma perfeição para nós, do lado de que o oposto é uma deficiência; e como a audição e a visão, que lhe atribuímos porque são uma perfeição em nós, ainda que não se alcancem a nós senão por instrumentos corporais.
הַתְּאָרִים שְׁנֵי מִינִים: מִין יְיֻחַס מִצַּד הֱיוֹתוֹ מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת וְעִלַּת כָּל הַנִּמְצָאִים (כְּמוֹ אֶחָד, חָכָם, רוֹצֶה, יָכוֹל); וּמִין מִצַּד שֶׁנִּדְמֶה בּוֹ הֱיוֹתוֹ שְׁלֵמוּת (כְּמוֹ הַשְּׁמִיעָה וְהָרְאוּת).
4 E todo atributo pelo qual se descreve algum descrito tem nele duas considerações: a primeira, do lado da perfeição que há naquele atributo; e a segunda, do lado da deficiência que é necessária àquele atributo; e é como se o atributo, conforme isto, fosse composto de dois assuntos com uma composição intelectual — o assunto um é perfeição e o outro é deficiência. Pois a sabedoria, quando a afirmamos do sujeito, eis que ela do lado de si mesma é perfeição para o sujeito; e do lado de ser ela adquirida ao sujeito e de ser acidental nele, decorre disto uma deficiência ao sujeito, a saber que ela é não-essencial a ele e obriga multiplicidade nele.
5 E, quando atribuímos a sabedoria a ele, bendito seja, eis que a atribuímos a ele do lado em que é perfeição, não do lado em que há nela deficiência; pois a deficiência que se acha naquela perfeição é quando examinamos a sabedoria em relação a nós, a saber que ela é adquirida a nós das conclusões tiradas das premissas, uma conclusão após outra conclusão, e por isso é uma coisa renovada em nós e um atributo acrescentado à nossa essência; e, quando lhe atribuímos o conhecimento, não o atribuímos a ele no sentido de que é adquirido das premissas, nem no sentido de que é renovado nele do modo como é renovado em nós, mas no sentido de que se acha nele do lado de si mesmo — do modo como os primeiros inteligíveis se acham no homem, sem aprendizado e ensino, e de modo mais perfeito. E a intenção, quando lhe atribuímos a sabedoria, é dizer que aquela perfeição se acha nele sem nenhuma deficiência, exceto que nós não medimos o modo da apreensão da sabedoria senão como o modo pelo qual o homem a apreende. E assim dizemos no atributo do poder e no atributo da vontade e além disto dos atributos — que, na verdade, se lhe atribuem do lado da perfeição ligada àquele atributo, não do lado da deficiência ligada àquele atributo.
כָּל תֹּאַר יֵשׁ בּוֹ שְׁתֵּי בְּחִינוֹת: מִצַּד הַשְּׁלֵמוּת, וּמִצַּד הַחִסָּרוֹן. וּכְשֶׁנְּיַחֵס הַחָכְמָה אֵלָיו, נְיַחֲסֶנָּה מִן הַצַּד שֶׁהִיא שְׁלֵמוּת, לֹא מִן הַצַּד שֶׁיֵּשׁ בָּהּ מִן הַחִסָּרוֹן, שֶׁהִיא נִקְנֵית. אֲבָל בּוֹ נִמְצֵאת מִצַּד עַצְמוֹ, כְּמוֹ הַמּוּשְׂכָּלוֹת הָרִאשׁוֹנוֹת.
6 E por este modo podemos atribuir a ele até os atributos que são do segundo gênero, que são apreensões corporais — como atribuímos a ele o "cheirar" harachá, que é uma apreensão sensível, conforme o seu dizer "e cheirou o Senhor o aroma agradável" (Gênesis 8:21); e não a atribuímos a ele, sem dúvida, do lado de que é uma apreensão corporal, mas do lado da perfeição ligada a ela, que é a aceitação do sacrifício com vontade da parte do que o oferece com a intenção cabida — não a recepção do prazer, que é o lado da deficiência.
7 E é este o dito do profeta "pois não falei com os vossos pais nem os ordenei, no dia em que os tirei da terra do Egito, sobre assuntos de holocausto e sacrifício; mas esta coisa lhes ordenei, dizendo: ouvi a minha voz" (Jeremias 7:22-23) — eis que explicou que a intenção da ordem da feitura do sacrifício era a fim de que se submetesse o coração do pecador a fim de retornar ao Nome e ouvir a sua voz, e não do lado do prazer sensível que lhe chega, D'us nos livre, conforme as palavras da Escritura "acaso como carne de touros, e sangue de bodes beberei? Sacrifica a D'us louvor" etc., "e invoca-me no dia da angústia" etc. (Salmos 50:13-15) — tudo isto é prova de que a intenção da ordem da feitura dos sacrifícios era dirigir o coração do pecador ao serviço do Nome apenas.
וּכְמוֹ שֶׁנְּיַחֵס אֵלָיו הָהֲרָחָה, ״וַיָּרַח ה׳ אֶת רֵיחַ הַנִּיחֹחַ״, מִצַּד הַשְּׁלֵמוּת — קַבָּלַת הַקָּרְבָּן בְּרָצוֹן. ״כִּי לֹא דִבַּרְתִּי... עַל דִּבְרֵי עוֹלָה וָזֶבַח״, אֶלָּא לְהַכְנִיעַ לֵב הַחוֹטֵא.
8 E por isso não lhe atribuímos o sentido do paladar e o sentido do tato — pois, ainda que sejam uma perfeição para nós do lado de que somos seres vivos corporais, a fim de aproximar o prazeroso e afastar o prejudicial, não há neles nenhuma perfeição espiritual que lhe atribuamos. E por isso a Escritura lhe atribuiu a audição, ao dizer "estejam os teus ouvidos atentos" etc. (Salmos 130:2), e lhe atribuiu a visão, "eis que o olho do Senhor está sobre os que o temem" (Salmos 33:18), "os olhos do Senhor percorrem toda a terra" (Zacarias 4:10) — porque o povo imagina que estes são uma perfeição espiritual; e por isso os atribuiu a ele, bendito seja, com o facto de não lhe atribuir o paladar e o tato; e esta é uma prova de que os atributos, na verdade, se lhe atribuem do lado da perfeição que há neles, não do lado da deficiência que há neles. E por isso dizemos que os atributos que se lhe atribuem, ainda que se achem em nós separados, é cabido que se compreendam nele, bendito seja, unificados mitachadim; pois nós, por apreendê-los ou adquiri-los um após o outro, compreendemo-los separados, e assim, por adquiri-los depois de que não estavam em nós, compreendemo-los como atributos acrescentados; mas nele, bendito seja, é cabido que os compreendamos unificados e não-adquiridos, de modo que não obriguem multiplicidade na sua essência e que isto seja uma deficiência para ele.
וְלָזֶה לֹא נְיַחֵס אֵלָיו חוּשׁ הַטַּעַם וְהַמִּשּׁוּשׁ, שֶׁאֵין בָּהֶם שְׁלֵמוּת רוּחָנִי. וְיִיחֵס אֵלָיו הַשְּׁמִיעָה וְהָרְאוּת. וְהַתְּאָרִים, אַף עַל פִּי שֶׁנִּמְצְאוּ בָּנוּ נִפְרָדִים, רָאוּי שֶׁיּוּבְנוּ בּוֹ מִתְאַחֲדִים.
9 E já explicamos que os atributos, na verdade, se lhe atribuem do lado da perfeição que há neles, não do lado da deficiência ligada a eles, por ser ele, bendito seja, removido das deficiências; e por causa disto pusemos a quarta raiz, a de que é removido das deficiências, a fim de afastar dele todos os atributos das deficiências — como a ignorância, e a pobreza, e o sono, e a fadiga e os que se lhe assemelham —, e a fim de incluir nela que todos os atributos das perfeições que se lhe atribuem ou que se acham nele, na verdade se atribuem ou se acham n'Ele do lado em que há neles perfeição, não do lado da deficiência que há neles ou que lhes decorre — como multiplicidade ou mudança, que são deficiência nele —, por ser ele, bendito seja, permanente sempre sobre um só modo e não-mutável.
10 E é isto o que disse o salmista "ó D'us, não haja silêncio para ti; não te cales e não te aquietes, ó D'us" (Salmos 83:2) — quer dizer, visto que não há silêncio para ti, nem do lado do sono, nem do lado da ignorância, nem do lado da fadiga, pois não há em ti deficiência alguma nem recebes mudança alguma — se é assim, por que olhas para os traidores, e te calas enquanto o ímpio engole o mais justo que ele (Habacuque 1:13)? "Não te cales e não te aquietes, ó D'us." E pelo modo que explicamos é possível que se verifiquem nele, bendito seja, atributos positivos — aqueles tais que não há escapatória senão atribuí-los a ele, como vivo, e sábio, e querente, e capaz e os que se lhe assemelham —, pelo lado em que não obrigam nele deficiência alguma. E compreende isto muito bem, pois é um caminho reto e correto que escolheu a casta dos sábios da Torá, os primeiros e os posteriores; e é cabido apoiar-se nele — toma-o, e os teus olhos põe sobre ele.
וּבַעֲבוּר זֶה שַׂמְנוּ הַשֹּׁרֶשׁ הָרְבִיעִי שֶׁהוּא מְסֻלָּק מִן הַחֶסְרוֹנוֹת, לְסַלֵּק כָּל תָּאֳרֵי הַחֶסְרוֹנוֹת וְלִכְלֹל בּוֹ שֶׁכָּל תָּאֳרֵי הַשְּׁלֵמֻיּוֹת אָמְנָם יִמָּצְאוּ עַל צַד הַשְּׁלֵמוּת. וְהָבֵן זֶה מְאֹד, כִּי הוּא דֶּרֶךְ יָשָׁר וְנָכוֹן, קָחֶנּוּ וְעֵינֶיךָ שִׂים עָלָיו.
Aqui Albo dá o passo mais ousado da sua teologia. Maimônides tendia a reduzir todos os atributos a negações ou a ações. Albo discorda: a quarta raiz — D'us "removido das deficiências" — exige atributos positivos, e em si mesmo, não só nas ações. O argumento é lógico: pela lei do terceiro excluído, D'us é "sábio ou não-sábio". Ora, "não-sábio" seria deficiência, impossível n'Ele. Logo Ele é sábio — positivamente. E o mesmo para vivo, capaz, querente. Como esses são realmente distintos entre si (saber ≠ poder ≠ viver), parece haver multiplicidade — recolocando o velho problema.
A chave é a análise de cada atributo em duas faces: uma de perfeição, outra de deficiência. A sabedoria, em nós, é perfeição — mas adquirida (do raciocínio, conclusão após conclusão), acrescentada à essência, logo portadora de deficiência (multiplicidade, mutação). Quando atribuímos sabedoria a D'us, tomamos só a face da perfeição, despojada da deficiência: não como algo adquirido ou acrescentado, mas como inerente à sua essência — análogo a como os "primeiros inteligíveis" estão na mente sem aprendizado, só que infinitamente mais perfeito. Nós só não sabemos como é esse conhecer; concebemo-lo à nossa maneira.
O capítulo aplica isto com finura aos atributos "corporais". O "cheirar" de D'us ao sacrifício (Gn 8:21) não é prazer sensorial (face de deficiência) mas aceitação da oferta sincera (face de perfeição) — e Jeremias confirma que o propósito do sacrifício era submeter o coração do pecador, não dar prazer a D'us. E o critério explica por que a Escritura atribui a D'us audição e visão, mas nunca paladar e tato: estes dois últimos servem só ao corpo (aproximar o agradável, afastar o nocivo), sem nenhuma "perfeição espiritual" que se possa transferir a D'us; já ouvir e ver têm uma face espiritual (conhecer, supervisionar). A seletividade da própria Escritura prova a tese de Albo: os atributos são tomados pela face da perfeição.
A conclusão resolve a multiplicidade: os atributos que em nós são separados (porque os adquirimos um a um, no tempo) estão em D'us unificados (mitachadim) — uma só realidade simples que a nossa mente fragmentada só consegue apreender em pedaços. Assim a quarta raiz cumpre dupla função: remove os atributos de deficiência (ignorância, pobreza, sono, fadiga — "não há silêncio para ti", Sl 83) e inclui os de perfeição, tomados pela sua melhor face. Albo encerra recomendando esta via com calor incomum — "um caminho reto e correto, escolhido pelos sábios da Torá... toma-o, e põe nele os teus olhos" — sinal de que a vê como a sua contribuição própria, um meio-termo entre a via negativa de Maimônides e o antropomorfismo ingênuo.
A posição de Maimônides e dos filósofos: nenhum atributo positivo cabe a D'us em si mesmo, só atributos negativos ou de ação. Chama-se D'us sábio, misericordioso, generoso — tudo do lado das ações. Albo expõe a natureza da verdadeira generosidade, as treze medidas de misericórdia, e por que se pode louvá-lo com os atributos de ação, mas não com os da essência.
A posição de Maimônides e dos filósofos: nenhum atributo positivo cabe a D'us em si mesmo, só atributos negativos ou de ação. Chama-se D'us sábio, misericordioso, generoso — tudo do lado das ações. Albo expõe a natureza da verdadeira generosidade, as treze medidas de misericórdia, e por que se pode louvá-lo com os atributos de ação, mas não com os da essência.
1 Todos os adeptos da especulação filosófica pensam que é impossível atribuir ao Nome, bendito seja, atributo algum — nem essencial nem acidental — do lado de si mesmo, de modo algum, senão do lado das suas ações apenas, pela razão que explicamos no capítulo 9 deste discurso; e assim é a opinião de todos os sábios da Torá que seguiram as opiniões dos filósofos — a ponto de o Rambam, de abençoada memória, escrever que aquele que diz que o Nome, bendito seja, tem atributos essenciais e que eles são não-obrigantes de multiplicidade na sua essência, eis que é como quem reúne a remoção e a afirmação e não percebe nisto a contradição. E por isso tomou para si outro caminho nisto e disse que é impossível atribuir ao Senhor atributo algum positivo, mas só negativo, e que todos os atributos negativos se verificam sobre ele, e é impossível que se verifique sobre ele atributo algum positivo senão do lado das suas ações. E por isso diz que, assim como se chama causa, ou origem, ou princípio — por ser causa e origem de todos os existentes e princípio para eles, e todos serem efeitos dele —, e se chama Formador, ou Agente, Criador e Fazedor e Renovador — por fazer existir todos os existentes pela sua vontade simples sem necessidade —, assim se chama sábio, por fazer existir todos os existentes com uma grande sabedoria visível na sua formação; e assim se chama misericordioso, e clemente, e piedoso, por conduzir todos os existentes e se apiedar e ser clemente sobre eles do lado da bondade, e da compaixão, e da graça, não do lado da retribuição, conforme as palavras da Escritura "quem me precedeu, para que eu lhe pague?" (Jó 41:3); e assim se chama generoso nadiv ou aquele que faz caridades, por influenciar o bem e a perfeição a todos os existentes sem esperança de retribuição alguma e recompensa que lhe chegue disto, como é do feitio do generoso fazer assim — pois a generosidade se completa em duas coisas: uma do lado do que recebe, e uma do lado do que dá.
כָּל בַּעֲלֵי הָעִיּוּן חוֹשְׁבִים שֶׁאִי אֶפְשָׁר לְיַחֵס לַשֵּׁם שׁוּם תֹּאַר מִצַּד עַצְמוֹ, אֶלָּא מִצַּד פְּעֻלּוֹתָיו. וְהָרַמְבַּ״ם לָקַח דֶּרֶךְ שֶׁאִי אֶפְשָׁר לְיַחֵס לַשֵּׁם שׁוּם תֹּאַר חִיּוּבִי אֶלָּא שׁוֹלְלִי, וְכָל הַתְּאָרִים הַשּׁוֹלְלִים צוֹדְקִים עָלָיו.
2 Aquilo que é do lado do que recebe é que dê ao que recebe uma coisa da qual receba proveito; pois quem dá a espada ao menino, e o livro à mulher, e o fuso ao homem, isto não é generosidade — dar a coisa a quem não recebe proveito no dom; pois o cabido é dar o fuso à mulher, e a espada ao homem, e o livro ao menino, a fim de que aprenda com ele. E aquilo que é do lado do que dá é que o generoso não esteja carente da ação da generosidade a fim de se completar com ela; pois, se o generoso estivesse carente da ação da generosidade, não seria generoso, mas comerciante, que dá uma coisa a fim de receber em troca dela prata, ou o que vale prata, ou honra; e, ainda que dê na coisa o dobro do seu valor, isto não é generosidade, pois dá isto porque avalia em tanto a sua necessidade daquela coisa, e eis que é como comerciante que compra a coisa por mais que o seu valor conforme a sua necessidade dela. E também é cabido que o generoso não esteja carente de que se louve ou se elogie por aquela ação; pois quem faz uma coisa a fim de ser elogiado, ou louvado, ou de que se engrandeça o seu nome, ou de que se salve de alguma vergonha, eis que é carente daquele elogio e recebe alguma recompensa, ainda que não esteja no grau do primeiro.
הַנְּדִיבוּת מִצַּד הַמְקַבֵּל שֶׁיִּתֵּן דָּבָר שֶׁיְּקַבֵּל בּוֹ תּוֹעֶלֶת. וּמִצַּד הַנּוֹתֵן שֶׁלֹּא יִהְיֶה צָרִיךְ אֶל פֹּעַל הַנְּדִיבוּת, שֶׁאִם לֹא כֵן יִהְיֶה סוֹחֵר, וְשֶׁלֹּא יִהְיֶה צָרִיךְ שֶׁיְּשֻׁבַּח.
3 E ele, bendito seja, adquiriu a todos os existentes a perfeição cabida e conveniente e proveitosa a eles, como disseram, de abençoada memória, "todas as obras da criação maaseh bereshit foram criadas conforme o seu consentimento ledaatan, foram criadas na sua plena feição, foram criadas na sua plena estatura" — quer dizer, que, quando o Santo, bendito seja, criou os seres criados, agraciou-lhes a beleza e a estatura e a perfeição n'o que é bom e conveniente a eles, e é isto "na sua feição e na sua estatura"; tais que, se fossem perguntados, por exemplo, se quereriam existir naquele atributo — quer dizer, com esta beleza e estatura e perfeição que se acha neles —, consentiriam ser criados, e é isto "conforme o seu consentimento foram criados". E não fez nem fabricou o Santo, bendito seja, estes existentes para receber recompensa nem para se salvar da vergonha; e por isso está claro que ele é o Generoso verdadeiro. E, porque o fundamento da generosidade sem esperança de retribuição é a feitura da caridade tzedaká, chama-se o Nome, bendito seja, "aquele que faz caridades", que é a ação mais nobre que decorre da generosidade; e não se chama assim sobre o que fez no tempo da criação, mas sobre o que Ele continua a fazer, a saber manter os existentes e influenciar deles sempre um influxo que mantém a sua existência — que é a generosidade verdadeira, quer dizer, a continuidade do bem.
וְהוּא הִקְנָה לְכָל הַנִּמְצָאוֹת הַשְּׁלֵמוּת הָרָאוּי, ״כָּל מַעֲשֵׂה בְרֵאשִׁית לְדַעְתָּן נִבְרְאוּ בְּצִבְיוֹנָן נִבְרְאוּ בְּקוֹמָתָן נִבְרְאוּ״. וְהוּא הַנָּדִיב הָאֲמִתִּי, וְנִקְרָא ״עוֹשֶׂה צְדָקוֹת״ עַל הַתְמָדַת הַטּוֹב.
4 E é isto o que disse a Escritura "louvai o Senhor, pois é bom" (Salmos 118:1), e concluiu que o fundamento dos bens é "pois para sempre é o seu amor chasdo", quer dizer, a continuidade do amor; e sobre isto se chama o Nome, bendito seja, "aquele que faz caridades em todo tempo", disse a Escritura "felizes os que guardam o juízo, aquele que faz caridade em todo tempo" (Salmos 106:3) — eis que, visto que está escrito "faz" oseh em linguagem singular, e não disse "fazem" osei em linguagem plural como "guardam", parece que "faz" volta ao Nome; e diz: felizes os que guardam o juízo do Nome, que ele faz caridade em todo tempo, e que façam como ele — como disseram, de abençoada memória, "'e andarás nos seus caminhos' (Deuteronômio 28:9): como ele é misericordioso, também tu sê misericordioso; como ele é clemente, também tu sê clemente" etc. E assim se chama "longânimo, e grande em amor, e que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos", do lado das ações que decorrem dele a fim de conduzir por elas as criaturas; e estes atributos e os que se lhe assemelham são permitidos no seu respeito, ainda que haja neles atributos opostos — como misericordioso e que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos.
״הוֹדוּ לַה׳ כִּי טוֹב כִּי לְעוֹלָם חַסְדּוֹ״ — הַתְמָדַת הַחֶסֶד. ״אַשְׁרֵי שֹׁמְרֵי מִשְׁפָּט עֹשֵׂה צְדָקָה בְכָל עֵת״. ״מַה הוּא רַחוּם אַף אַתָּה רַחוּם״.
5 E é isto o que se aludiu a Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele, quando disse "faze-me conhecer, por favor, os teus caminhos" (Êxodo 33:13), a saber que pediu dele como é possível que o homem peça de diante do Nome a fim de fazer ações opostas, conquanto sendo ele um e simples com simplicidade absoluta e afastado dos afetos corporais; e mostrou-lhe o Nome, bendito seja, que é com as treze medidas shelosh esreh midot que conduz as suas criaturas, e que com elas é cabido pedir de diante dele; e como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, sobre "e passou o Senhor diante da sua face" etc. (Êxodo 34:6): disse Rabi Yochanan: "se não fosse um versículo escrito, seria impossível dizê-lo — ensina que o Santo, bendito seja, se envolveu como um oficiante sheliach tzibur e mostrou a Moisés, e disse-lhe: todo tempo em que Israel pecar, façam diante de mim conforme esta ordem, e eu lhes perdoo" — quer dizer, que o Santo, bendito seja, mostrou a Moisés, nas visões da profecia, que é com estas treze medidas que é cabido orar diante dele, já que são atributos atribuídos a ele do lado dos caminhos pelos quais conduz as suas criaturas; e os atributos que são do lado das suas ações, como estes, conforme a opinião do Rambam, é permitido louvá-lo com eles e pedir de diante dele com eles.
וְזֶהוּ שֶׁנִּרְמַז לְמֹשֶׁה ״הוֹדִיעֵנִי נָא אֶת דְּרָכֶךָ״, וְהֶרְאָהוּ שֶׁבְּי״ג מִדּוֹת הוּא מַנְהִיג בְּרִיּוֹתָיו. ״נִתְעַטֵּף הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא כִּשְׁלִיחַ צִבּוּר... כָּל זְמַן שֶׁיִּשְׂרָאֵל חוֹטְאִין יַעֲשׂוּ לְפָנַי כַּסֵּדֶר הַזֶּה וַאֲנִי מוֹחֵל לָהֶם״.
6 Mas os atributos que são do lado de si mesmo não é permitido louvá-lo com eles nem orar diante dele com eles. E é isto o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, sobre "o D'us grande, o poderoso e o temível" (Deuteronômio 10:17): ainda que os tenha dito Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele, não nos permitiríamos orar com eles — por se assemelharem a atributos do lado de si mesmo e não do lado das suas ações —, até que vieram os homens da Grande Assembleia e explicaram que também estes são atributos do lado dos caminhos pelos quais conduz as suas criaturas, tais que é permitido louvá-lo com eles; como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no Tratado Yomá: "Por que se chamou o seu nome 'homens da Grande Assembleia'? Porque restituíram a coroa ao seu estado antigo. Disseram: esta é a sua força gevurá — que dá longanimidade aos que transgridem a sua vontade; e esta é a sua qualidade de temível nora — pois, se não fossem os seus temores, como poderia uma nação única subsistir entre as nações?" E assim em todos eles explicaram ali que são atributos do lado das medidas pelas quais Ele se conduz com as criaturas; e por isso é cabido dizê-los na oração, como as treze medidas que se disseram a Moisés a fim de que orássemos diante dele com elas, por serem atributos do lado das suas ações.
אֲבָל הַתְּאָרִים שֶׁהֵם מִצַּד עַצְמוֹ לֹא הֻתַּר לְהַלְלוֹ בָּהֶם. ״הָאֵל הַגָּדוֹל הַגִּבּוֹר וְהַנּוֹרָא״, עַד שֶׁבָּאוּ אַנְשֵׁי כְּנֶסֶת הַגְּדוֹלָה וּבֵאֲרוּ שֶׁאַף אֵלֶּה תְּאָרִים מִצַּד הַדְּרָכִים שֶׁמַּנְהִיג. ״זוֹ הִיא גְּבוּרָתוֹ שֶׁנּוֹתֵן אֹרֶךְ אַפַּיִם לְעוֹבְרֵי רְצוֹנוֹ״.
7 E até nos atributos que se lhe atribuem do lado das suas ações é cabido que os compreendamos do lado em que há neles perfeição, não do lado em que há neles deficiência; pois, ainda que estes atributos obriguem afeto no nosso respeito e a mudança de um oposto para o outro, não obrigam mudança e afeto no seu respeito, bendito seja, pois "não são os seus caminhos os nossos caminhos, nem os seus pensamentos os nossos pensamentos" (cf. Isaías 55:8).
וְאַף בַּתְּאָרִים שֶׁמִּצַּד פְּעֻלּוֹתָיו רָאוּי שֶׁנָּבִין אוֹתָם עַל הַצַּד שֶׁיֵּשׁ בָּהֶם מִן הַשְּׁלֵמוּת, כִּי ״לֹא דְרָכָיו דְּרָכֵינוּ וְלֹא מַחְשְׁבוֹתָיו מַחְשְׁבוֹתֵינוּ״.
Tendo apresentado no cap. 21 a sua própria doutrina (atributos positivos tomados pela face da perfeição), Albo agora expõe a posição clássica — a de Maimônides e dos filósofos — com a qual dialoga. Para eles, nenhum atributo positivo cabe a D'us em si mesmo: só atributos negativos (dizer o que Ele não é) ou atributos de ação (descrevê-lo pelo que faz). Maimônides chega a dizer que afirmar atributos essenciais sem multiplicidade é "reunir a negação e a afirmação" — uma contradição não percebida.
O coração positivo do capítulo é a bela análise da generosidade (nedivut), que exige duas condições. Do lado de quem recebe: dar algo de que o recebedor tire proveito (dar a espada ao homem, não à criança). Do lado de quem dá: não precisar do ato — quem dá esperando troca é "comerciante", não generoso; e quem dá para ser louvado também recebe um pagamento (o elogio). Só D'us preenche perfeitamente ambas: criou tudo conferindo a cada ser "a sua plena feição e estatura" (o belo midrash "conforme o seu consentimento foram criados"), sem nada esperar — nem recompensa nem elogio. Ele é o único Generoso absoluto, e por isso "faz caridade em todo tempo" — não só na criação, mas na contínua manutenção do mundo.
Os atributos de ação fundam a vida religiosa. Quando Moisés pede "faze-me conhecer os teus caminhos", D'us lhe revela as treze medidas de misericórdia — e o midrash arrojado de R. Yochanan o mostra "envolvendo-se como um oficiante" e ensinando: "sempre que Israel pecar, façam isto, e eu perdoo". Esses atributos são imitáveis: "como Ele é misericordioso, sê tu misericordioso". E por descreverem os caminhos de D'us (não a essência), é lícito usá-los na oração.
O capítulo culmina num episódio teológico-histórico notável (Yomá 69b). "Grande, poderoso e temível" (do Shemoná Esrê) parecia descrever a essência de D'us — e, mesmo dito por Moisés, os sábios hesitaram em usá-lo em oração. Foram os homens da Grande Assembleia que "restituíram a coroa ao seu estado antigo", reinterpretando esses termos como atributos de ação: a "força" (gevurá) de D'us é a longanimidade com que tolera os que O desafiam; o "temível" (nora) é o milagre da sobrevivência de Israel único entre as nações. Assim mesmo os atributos aparentemente essenciais foram reancorados nas ações — e Albo encerra lembrando que até estes devem ser tomados pela face da perfeição, sem implicar mudança em D'us, "pois os seus caminhos não são os nossos caminhos".
Conforme a via filosófica, os atributos da essência (um, eterno, verdade) só podem ser atribuídos por negação; afirmá-los positivamente não seria louvor, mas vergonha. A parábola de Rabi Chanina, os dois louvores de David no "Bendize, minha alma", e a conclusão: o louvor mais próprio a D'us é o silêncio.
Conforme a via filosófica, os atributos da essência (um, eterno, verdade) só podem ser atribuídos por negação; afirmá-los positivamente não seria louvor, mas vergonha. A parábola de Rabi Chanina, os dois louvores de David no "Bendize, minha alma", e a conclusão: o louvor mais próprio a D'us é o silêncio.
1 Os atributos pelos quais ele, bendito seja, se descreve e não do lado das suas ações — como um, e eterno, e verdade e os que se lhe assemelham — é impossível que se lhe atribuam, conforme este caminho filosófico, senão por via negativa, como explicamos no "um" e no "eterno"; e assim a "verdade" emet, a sua interpretação é o existente que não tem a sua existência dependente fora de si mesmo, como virá. Mas não é cabido que se lhe atribuam por via de afirmação de modo algum, pois os atributos pelos quais se descreve do lado de si mesmo e por via de afirmação — não só não são louvores, mas são vergonha no seu respeito, e não são do gênero dos louvores que convêm a ele, bendito seja, como diz o Rambam, de abençoada memória.
הַתְּאָרִים שֶׁמִּצַּד עַצְמוֹ, כְּמוֹ אֶחָד וְקַדְמוֹן וֶאֱמֶת, אִי אֶפְשָׁר שֶׁיְּיֻחֲסוּ אֵלָיו אֶלָּא בְּדֶרֶךְ שׁוֹלְלִי. אֲבָל אֵין רָאוּי שֶׁיְּיֻחֲסוּ עַל צַד הַחִיּוּב, כִּי לֹא דַי שֶׁאֵינָם שְׁבָחִים אֲבָל הֵם גְּנוּת בְּחֻקּוֹ.
2 E trouxe prova a isto das palavras de Rabi Chanina, que disse sobre quem multiplicava os atributos toarim: "É um exemplo de um rei que tinha mil milhares de dinares de ouro, e o elogiam com mil milhares de dinares de prata — porventura não é vergonha para ele?"
3 Eis que, visto que não disse "e o elogiam com mil dinares de ouro" — o que indicaria que a vergonha era do lado do menos e do mais —, mas disse "e o elogiam com os de prata", vê-se que a vergonha é do lado de que o elogio não é do gênero do louvor que há nele; como a prata, com o facto de ser uma coisa importante e louvada, de todo modo não é do gênero do ouro.
״מָשָׁל לְמֶלֶךְ שֶׁהָיוּ לוֹ אֶלֶף אַלְפֵי דִּינְרֵי זָהָב וּמְקַלְּסִין אוֹתוֹ בְּאֶלֶף אַלְפֵי דִּינְרֵי כֶסֶף, וַהֲלֹא גְּנַאי הוּא לוֹ״. שֶׁהַגְּנוּת מִצַּד שֶׁהַקִּלּוּס אֵינוֹ מִמִּין הַשֶּׁבַח, כְּמוֹ שֶׁהַכֶּסֶף אֵינוֹ מִמִּין הַזָּהָב.
4 E por causa disto diz o Rav que todos os atributos pelos quais se louva ou se descreve ele, bendito seja, que não são do lado das suas ações, é cabido que se compreendam negativos, não positivos de modo algum, como explicamos no capítulo 10 deste discurso no atributo "um"; e por causa disto é cabido a nós que nos calemos de descrevê-lo por nós mesmos com atributo algum, senão o que se acha por Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele, ou pelos profetas, com que o descreveram; e até estes é cabido que compreendamos que, na verdade, os disseram positivos por via da amplitude da linguagem e a fim de "abrandar o ouvido", mas, por via da verdade, é cabido que se compreendam negativos.
וּבַעֲבוּר זֶה רָאוּי שֶׁנִּשְׁתֹּק מִלְּתָאֵר אוֹתוֹ מֵעַצְמֵנוּ בְּשׁוּם תֹּאַר אֶלָּא מַה שֶּׁנִּמְצָא לְמֹשֶׁה אוֹ לַנְּבִיאִים, וְאַף הֵם רָאוּי שֶׁנָּבִין שֶׁאֲמָרוּם חִיּוּבִיִּים עַל צַד הַהַרְחָבָה הַלְּשׁוֹנִית, אֲבָל בֶּאֱמֶת שׁוֹלְלִים.
5 E serão, conforme isto, os atributos pelos quais ele, bendito seja, se descreve por dois lados: ou que se descreva por eles do lado de si mesmo — e este lado está oculto no extremo da ocultação, até aos sábios, e por isso é impossível falar neles por via afirmativa, e com muito mais razão estender-se neles; ou que se descreva do lado das ações que decorrem dele sempre — pois este lado é reconhecido a todos, e até aos tolos; disse o salmista "compreendei, brutos do povo, e estultos, quando sereis sábios? Aquele que planta o ouvido, porventura não ouvirá? Aquele que forma o olho, porventura não enxergará?" (Salmos 94:8-9); e assim os caminhos pelos quais conduz as suas criaturas; e nestes lados é permitido ao homem estender-se.
הַתְּאָרִים עַל ב׳ פָּנִים: מִצַּד עַצְמוֹ — נֶעְלָם תַּכְלִית הַהֶעְלֵם אַף לַחֲכָמִים; וּמִצַּד הַפְּעֻלּוֹת — נִכָּר לַכֹּל וַאֲפִלּוּ לַסְּכָלִים, ״הֲנֹטַע אֹזֶן הֲלֹא יִשְׁמָע״, וְאֵלּוּ הַצְּדָדִין רַשַּׁאי אָדָם לְהַאֲרִיךְ בָּהֶם.
6 E a estes dois gêneros de louvor aludiu David no salmo "bendize, ó minha alma, ao Senhor" (Salmos 103); pois disse duas vezes "bendize, ó minha alma, ao Senhor", correspondendo aos dois gêneros de louvor que dissemos. Correspondendo ao louvor que é do lado de si mesmo disse "bendize, ó minha alma, ao Senhor, e todas as minhas entranhas ao seu santo nome" (Salmos 103:1) — quer dizer, bendize, ó minha alma, ao Senhor com o aquém da plenitude do louvor cabido a ele conforme a excelência da sua natureza e no exame do seu santo nome, que é no exame de si mesmo, no qual não é permitido ao homem estender-se, e mesmo a pronunciar com os seus lábios não pode, se não se compreenderem aqueles atributos como negativos; e por isso não se estendeu nele nem explicou nele coisa alguma, mas disse "e todas as minhas entranhas ao seu santo nome", quer dizer, o louvor cabido a ele conforme a excelência do seu santo nome, o que a boca não pode falar.
7 E correspondendo ao segundo louvor, que é no exame das suas ações e do bem recebido dele e dos caminhos pelos quais conduz as suas criaturas, disse uma segunda vez "bendize, ó minha alma, ao Senhor" (Salmos 103:2), e explicou que este louvor é do lado das suas ações, e por isso concluiu "e não esqueças todos os seus benefícios" (Salmos 103:2), e estendeu-se nisto a fim de narrar os bens recebidos dele, e disse "aquele que perdoa toda a tua iniquidade" etc., "aquele que redime" etc. (Salmos 103:3-4), e os demais bens que narrou naquele salmo; e no seu conjunto mencionou "fez conhecer os seus caminhos a Moisés" (Salmos 103:7), para aludir às medidas pelas quais conduz as criaturas — já que as treze medidas que se disseram a Moisés são atributos do lado das ações que decorrem do Nome a fim de conduzir por elas as suas criaturas, como se mencionou no capítulo anterior a este, e elas são medidas de misericórdia.
וְאֶל ב׳ מִינֵי הַשֶּׁבַח רָמַז דָּוִד ״בָּרְכִי נַפְשִׁי״ פַּעֲמַיִם. כְּנֶגֶד הַשֶּׁבַח מִצַּד עַצְמוֹ ״אֶת שֵׁם קָדְשׁוֹ״, שֶׁאֵין רַשַּׁאי לְהַאֲרִיךְ. וּכְנֶגֶד הַשֵּׁנִי ״וְאַל תִּשְׁכְּחִי כָּל גְּמוּלָיו... יוֹדִיעַ דְּרָכָיו לְמֹשֶׁה״.
8 E assim achamos Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele, a descrever o Senhor com estes dois gêneros de atributos que dissemos e a louvá-lo com eles do modo que escrevemos: e sobre os atributos que são do lado de si mesmo disse que estava temeroso de louvá-lo com eles, mas nos atributos que são do lado das suas ações ampliou a fala neles e estendeu-se a falar naquele lado. E por causa disto disse duas vezes "quem é como tu entre os poderosos?" (Êxodo 15:11), correspondendo a estes dois gêneros de louvor: e sobre o primeiro disse "temível em louvores" nora tehilot, e sobre o segundo disse "que faz maravilha" oseh fele; e estendeu-se no segundo gênero e disse "estendeste a tua direita" etc., "guiaste com a tua força" etc. (Êxodo 15:12-13).
9 E, a fim de que não se compreenda que aqueles atributos com que o homem tem permissão de falar e de louvá-lo do lado das suas ações se dizem sobre ele do modo como se dizem sobre o homem, disse no princípio das suas palavras "cantarei ao Senhor" (Êxodo 15:1) — quer dizer, todos os louvores que eu mencionar são por via da fala poética shiri, que é toda imaginações não verdadeiras, e por este lado é que eu descrevo o Senhor com atributos a fim de abrandar o ouvido; por isso disse "o Senhor é homem de guerra" (Êxodo 15:3), "e na grandeza da tua majestade" (Êxodo 15:7), "e no sopro das tuas narinas" (Êxodo 15:8), "envias o teu ardor" (Êxodo 15:7), "a tua direita, Senhor, despedaça o inimigo" (Êxodo 15:6).
וְכֵן מֹשֶׁה אָמַר ״מִי כָמֹכָה בָּאֵלִים״ פַּעֲמַיִם: עַל הָרִאשׁוֹן ״נוֹרָא תְהִלֹּת״, וְעַל הַשֵּׁנִי ״עֹשֵׂה פֶלֶא״. וְאָמַר ״אָשִׁירָה לַה׳״ — עַל צַד הַדִּבּוּר הַשִּׁירִיִּי לְשַׁכֵּךְ אֶת הָאֹזֶן.
10 Mas por via da verdade é impossível descrevê-lo com atributo algum, mesmo do lado das suas ações, do modo como se descreve com eles o homem; "pois soberbamente se exaltou gaoh gaá" (Êxodo 15:1) — quer dizer, por via da narração poética falarei nele, mas por via da verdade "soberbamente se exaltou" e se elevou sobre todos os gêneros do louvor que é possível falar nele. Por isso o louvor mais cabido no seu respeito, bendito seja, é o silêncio shtiká, conforme as palavras de David "a ti convém o silêncio, que é louvor" (Salmos 65:2), e do modo como o compreenderam os nossos mestres, de abençoada memória, que disseram "a poção de tudo é o silêncio samá dechola shtiká, como se disse 'a ti convém o silêncio, que é louvor'" — quer dizer, o silêncio é o louvor a ti; e por isso Moisés o chamou "temível em louvores" nora tehilot = temível demais para os louvores.
אֲבָל בֶּאֱמֶת אִי אֶפְשָׁר לְתָאֲרוֹ בְּשׁוּם תֹּאַר. עַל כֵּן הַשֶּׁבַח הַיּוֹתֵר רָאוּי בְּחֻקּוֹ הַשְּׁתִיקָה, ״לְךָ דֻמִיָּה תְהִלָּה״, ״סַמָּא דְכֹלָּה מַשְׁתּוֹקָא״, וְעַל כֵּן קְרָאוֹ מֹשֶׁה ״נוֹרָא תְהִלּוֹת״.
Continuando a exposição da via de Maimônides, Albo chega ao ponto mais radical: os atributos da essência (um, eterno, verdade) não só não devem ser afirmados positivamente — afirmá-los seria vergonha, não louvor. A bela parábola de Rabi Chanina explica o porquê: louvar um rei que possui "mil milhares de dinares de ouro" oferecendo-lhe "dinares de prata" é insultá-lo. Note a precisão de Albo: o problema não é a quantidade (prata a menos), mas o gênero — a prata não é da espécie do ouro. Assim, qualquer atributo positivo da essência divina é simplesmente da espécie errada: nossos conceitos não alcançam o que Ele é.
A consequência prática é a contenção: não devemos descrever D'us "por nós mesmos" com atributo algum — apenas usar os que Moisés e os profetas usaram. E mesmo estes, embora pareçam afirmações, devem ser entendidos como negações, ditas "para abrandar o ouvido". A teologia de Maimônides impõe uma disciplina da linguagem: a reverência manifesta-se na recusa de inventar louvores.
Albo encontra essa distinção codificada na própria Escritura. No Salmo 103, David diz duas vezes "bendize, minha alma": a primeira, sobre o "santo nome" (a essência) — sem desenvolvimento, pois "a boca não pode falar"; a segunda, sobre os "benefícios" (as ações) — longamente detalhada (perdoa, redime, "fez conhecer seus caminhos a Moisés"). Igualmente no Cântico do Mar, Moisés diz duas vezes "quem é como tu?": "temível em louvores" (essência) e "que faz maravilha" (ação, desenvolvida). E ao abrir com "cantarei" (ashirá), Moisés avisa que tudo o que segue é fala poética — "imaginações não verdadeiras" —, pois "homem de guerra", "narinas", "direita" são licenças para o ouvido, jamais descrições literais.
A conclusão é uma das mais belas do livro. Já que nenhum atributo — nem mesmo de ação — descreve D'us como Ele verdadeiramente é ("soberbamente se exaltou sobre todo louvor possível"), o louvor mais perfeito é o silêncio. Albo lê Salmos 65:2 ("lechá dumiá tehilá") não como "a ti convém o louvor após o silêncio", mas como "o silêncio é o teu louvor" — em consonância com o dito talmúdico "a poção de tudo é o silêncio". E reinterpreta o "nora tehilot" de Moisés: D'us é "temível demais para os louvores" — tão acima de toda palavra que a melhor reverência é o emudecer diante do mistério. Onde a linguagem se esgota, começa a verdadeira adoração.
Há atributos cujo lado é duvidoso — bom, sábio, querente, capaz, vivo: dizem-se tanto pela ação quanto pela essência. Albo explica como compreender cada um pelos dois lados; e mostra que os quatro atributos — vivo, sábio, querente, capaz — reduzem-se, do lado da essência, a um único sentido negativo: que d'Ele flui o bem por conhecimento, vontade e poder, não por necessidade natural.
Há atributos cujo lado é duvidoso — bom, sábio, querente, capaz, vivo: dizem-se tanto pela ação quanto pela essência. Albo explica como compreender cada um pelos dois lados; e mostra que os quatro atributos — vivo, sábio, querente, capaz — reduzem-se, do lado da essência, a um único sentido negativo: que d'Ele flui o bem por conhecimento, vontade e poder, não por necessidade natural.
1 Estes dois gêneros de atributos que dissemos com que se descreve o Nome, bendito seja — que são os atributos que são do lado de si mesmo e os atributos que são do lado das suas ações —, eis que em cada um destes gêneros há atributos cujo assunto é manifesto, a saber que se descreve com eles do lado das suas ações, como misericordioso, e clemente, longânimo e grande em amor; e há atributos cujo assunto é manifesto, a saber que se descreve com eles do lado de si mesmo, como um e eterno — e nestes é impossível que se descreva com eles por via da verdade, senão que se compreendam negativos, como dissemos.
2 E há atributos cujo assunto é duvidoso, a saber se se descreve com eles do lado de si mesmo ou do lado das ações que decorrem dele; e por isso se precisa explicar o caminho na compreensão destes atributos. E explicaremos isto em alguns deles, a fim de que se tome deles prova para os outros.
יֵשׁ תְּאָרִים שֶׁהָעִנְיָן נִגְלֶה שֶׁיְּתֹאַר בָּהֶם מִצַּד פְּעֻלּוֹתָיו (רַחוּם וְחַנּוּן), וְיֵשׁ שֶׁמִּצַּד עַצְמוֹ (אֶחָד וְקַדְמוֹן). וְיֵשׁ תְּאָרִים שֶׁהָעִנְיָן מְסֻפָּק בָּהֶם, וְצָרִיךְ לְבָאֵר הַדֶּרֶךְ בַּהֲבָנָתָם.
3 E digamos que, quando se diz sobre ele, bendito seja, que é bom tov, é cabido que se examine isto pelos dois lados que dissemos. E isto é assim porque, do lado das suas ações, na verdade se diz sobre ele que é bom do lado de que todos os bens decorrem dele, e é impossível que o bem decorra senão de quem é bom; disse a Escritura "bom é o Senhor para com todos" (Salmos 145:9). Mas, quando se descreve do lado de si mesmo, é cabido que se compreenda o assunto como negativo, pois se chama "bom" porque a sua essência é limpa da deficiência, visto que não há nele possibilidade, como explicamos, e por isso não o alcança mudança alguma nem privação, já que toda privação é mal.
4 E acha-se na Escritura que o descreve como sendo bom por estes dois lados: disse "bom és tu e aquele que faz o bem; ensina-me os teus estatutos" (Salmos 119:68) — disse "bom és tu" no exame de que é bom do lado de si mesmo, e disse "aquele que faz o bem" meitiv no exame dos bens que decorrem dele.
כְּשֶׁיֵּאָמֵר שֶׁהוּא ״טוֹב״: מִצַּד פְּעֻלּוֹתָיו — שֶׁכָּל הַטּוֹבוֹת נִמְשָׁכוֹת מִמֶּנּוּ, ״טוֹב ה׳ לַכֹּל״; וּמִצַּד עַצְמוֹ — שׁוֹלְלִי, שֶׁעַצְמוּתוֹ נְקִי מִן הַחִסָּרוֹן. ״טוֹב אַתָּה וּמֵטִיב״.
5 E, quando se diz sobre ele que é sábio chacham: se é do lado das suas ações, a intenção é dizer que, visto que fez existir a existência com perfeição e ordenação maravilhosa, isso indica a sabedoria do que faz existir e o ser ele aquele que apreende tudo o que fez existir, conforme as palavras da Escritura "aquele que planta o ouvido, porventura não ouvirá?" etc., "aquele que corrige as nações, porventura não repreenderá? Aquele que ensina ao homem o conhecimento?" (Salmos 94:9-10) — eis que tomou prova do ser ele aquele que apreende e conhece do lado de que as apreensões e os conhecimentos são influenciados dele. Mas, quando se diz sobre ele isto do lado de si mesmo, é cabido que se compreenda como negativo — e ele é que a intenção é dizer que não há coisa oculta dele; e isto é assim porque, visto que ele, bendito seja, é um intelecto limpo e separado da matéria, como explicamos na demonstração, não se lhe oculta coisa alguma.
6 Pois a matéria chomer é o que impede e perturba a alma de apreender os sensíveis e os inteligíveis — com a prova de que as águas que escorrem no olho ou as demais doenças do olho impedem de ver o que o vivente deseja ver, e assim as doenças do nariz e do ouvido, e, em geral, que a matéria impede de apreender todos os sensíveis na verdade; e assim os vapores que sobem do estômago confundem as forças do cérebro a fim de apreender os seus apreensíveis, como acontece isto aos embriagados; e assim a umidade supérflua impede das apreensões intelectuais, como se vê isto nos jovens, pois no tempo do seu crescimento, em que a umidade é muita neles, não apreendem o extremo da apreensão do que está no poder do seu intelecto apreender. E por isso se explicou que quem é um intelecto simples se chama sábio, porque não se lhe oculta coisa alguma e não se lhe nega nenhuma discrição — quer dizer, que não é ignorante em coisa alguma que esteja no seu poder apreender, pois não há nele as causas que perturbam a apreensão.
כְּשֶׁיֵּאָמֵר ״חָכָם״: מִצַּד פְּעֻלּוֹתָיו — ״הֲנֹטַע אֹזֶן הֲלֹא יִשְׁמָע... הַמְלַמֵּד אָדָם דָּעַת״; וּמִצַּד עַצְמוֹ — שׁוֹלְלִי, שֶׁאֵין דָּבָר נֶעְלָם מִמֶּנּוּ, כִּי הוּא שֵׂכֶל נָקִי וְנִבְדָּל מִן הַחֹמֶר, וְהַחֹמֶר הוּא הַמּוֹנֵעַ מֵהַשִּׂיג.
7 E, quando se diz sobre ele que é querente rotzeh: se é do lado das suas ações, a intenção é dizer que tudo o que se faz nos céus e na terra se faz pela sua vontade simples, como o seu dizer "tudo o que o Senhor desejou fez, nos céus e na terra" (Salmos 135:6); e vem esta expressão sempre sobre o Senhor quando vemos a ação que decorre dele, semelhante à ação por escolha, chegar e completar-se: dizemos que o agente quis isto sem dúvida, pois, se não fosse assim, não se completaria; disse a Escritura "desejou o Senhor salvar-me" (Isaías 38:20), "pois deseja o Senhor o seu povo, adorna os humildes na salvação" (Salmos 149:4) — quer dizer, que a chegada da salvação indica a vontade; como diz o profeta "entender e conhecer-me, que eu sou o Senhor, que faz amor, juízo e justiça na terra, pois nestes desejei, diz o Senhor" (Jeremias 9:23) — eis que tomou prova do ser ele quem os deseja do lado de que é ele quem os faz e os pratica, pois a feitura da coisa, para o dotado de intelecto, indica o ser ele quem quer fazê-la.
8 E explica-se disto que, por vermos ações que decorrem do Nome, bendito seja, semelhantes às ações que decorrem do dotado de desejo, por causa disto o chamamos desejante e querente — ainda que não meçamos de que lado é o desejo e a vontade nele, bendito seja, de modo que não renove mudança e afeto, pois isto é uma coisa oculta, como o seu conhecimento está oculto de nós quanto a como é, e nós o atribuímos a ele por ser uma perfeição tal que é impossível que se imagine ser ele, bendito seja, sem ela; assim é o assunto da vontade, como explicamos no capítulo 3 deste discurso.
9 E, quando quisermos explicar este atributo como um assunto negativo, a intenção nele será que não despreza, nem abandona, nem esquece de influenciar o bem e a perfeição — como disse a Escritura "desejaste, Senhor, a tua terra; restauraste o cativeiro de Jacó" (Salmos 85:2), já que a intenção da vontade neste lugar é que não desprezou nem abandonou a eles nem esqueceu de se apiedar deles — o oposto de "e acender-se-á a minha ira nele naquele dia, e abandoná-los-ei e esconderei a minha face deles, e será para ser devorado" (Deuteronômio 31:17); e é isto o que disse "recolheste toda a tua fúria, fizeste voltar do ardor da tua ira" (Salmos 85:4).
כְּשֶׁיֵּאָמֵר ״רוֹצֶה״: מִצַּד פְּעֻלּוֹתָיו — ״כֹּל אֲשֶׁר חָפֵץ ה׳ עָשָׂה״; וּמִצַּד עַצְמוֹ שׁוֹלְלִי — שֶׁאֵינוֹ מוֹאֵס וְלֹא עוֹזֵב וְלֹא שׁוֹכֵחַ מֵהַשְׁפִּיעַ הַטּוֹב. ״רָצִיתָ ה׳ אַרְצֶךָ״.
10 E, quando se diz sobre ele, bendito seja, que é capaz yachol ou herói gibor: se é do lado das suas ações, a intenção é dizer que pode fazer a sua vontade em todos os existentes e não há quem o impeça em sua mão, como o herói que faz o que o seu coração deseja; e, se é do lado de si mesmo, é cabido que se compreenda como negativo — e ele é que é não-cansado bilti laeh de fazer o que quer; e por causa disto é forçoso que se ache nele um poder sem fim, pois, se fosse finito, haveria nele algum cansaço; e, quando se descreve como capaz, a intenção é dizer que não há nele cansaço de modo algum.
כְּשֶׁיֵּאָמֵר ״יָכוֹל״ אוֹ ״גִּבּוֹר״: מִצַּד פְּעֻלּוֹתָיו — שֶׁיָּכוֹל לַעֲשׂוֹת רְצוֹנוֹ וְאֵין מְעַכֵּב; וּמִצַּד עַצְמוֹ שׁוֹלְלִי — שֶׁהוּא בִּלְתִּי לָאֶה, וְיֵשׁ לוֹ יְכֹלֶת בִּלְתִּי בַעַל תַּכְלִית.
11 E, quando se diz sobre ele que é vivo chai: se é do lado das suas ações, a intenção é dizer que a vida decorre dele, e por isso é vivo por força, pois a vida não decorre dele se não for vivo. Mas, no exame de si mesmo, é cabido que se compreenda como negativo — e ele é que nós o descrevemos como sendo vivo para indicar que o que se influencia dele não se influencia à maneira de como se influencia a luz da lâmpada e o calor do fogo, que se influencia deles isto sem conhecimento e vontade no que influenciam; pois ele, exaltado seja, na verdade influencia do modo mais escolhido dos gêneros dos que influenciam — a saber que ele, bendito seja, influencia com conhecimento e vontade, que é o vivo; e assim ele conhece o que influencia, e pode influenciar, e quer influenciar, pois, se não fosse assim, não seria influenciado; e a intenção é que o que se influencia dele é por conhecimento e vontade e poder, como o que se influencia do vivo.
12 E este é um assunto muito fino, e a fala nele é limitada insuficiente, e a intenção nele é a compreensão do assunto — e ele é que tem um poder sem fim, quer dizer, que não é cansado de influenciar; e quer influenciar, quer dizer, que não despreza, nem abandona, nem esquece de influenciar; e conhece o que influencia, quer dizer, que não é ignorante tal que se lhe oculte o que influencia, nem é não-conhecedor do que se influencia dele. E por causa disto dizemos que é vivo, pois o vivo apreende o que faz e o quer; e a intenção nele é que não age por natureza, como o calor que decorre do fogo.
כְּשֶׁיֵּאָמֵר ״חַי״: מִצַּד פְּעֻלּוֹתָיו — שֶׁהַחַיִּים נִמְשָׁכִים מִמֶּנּוּ; וּמִצַּד עַצְמוֹ שׁוֹלְלִי — שֶׁמַּה שֶּׁיּוּשְׁפַּע מִמֶּנּוּ הוּא בִּידִיעָה וְרָצוֹן וִיכֹלֶת, וְלֹא בְּטֶבַע כְּחֹם הַנִּמְשָׁךְ מִן הָאֵשׁ.
13 E voltam estes quatro atributos — que são vivo, sábio, querente e capaz — a uma única intenção negativa, como explicamos. E por este modo é cabido que se compreendam todos os atributos com que se descreve, bendito seja, do lado de si mesmo — que, na verdade, se precisa que se compreendam como assunto negativo, sejam os atributos quantos forem; pois todos os atributos negativos se verificam sobre ele, e não há dano se contares deles mais do que mencionamos, ou disseres que são sem fim — depois que os compreenderes como negativos, de modo que não decorra deles deficiência alguma para ele, bendito seja. E por isso pusemos esta quarta raiz, a de que ele, bendito seja, é removido das deficiências, para aludir a este assunto que escrevemos conforme a opinião do Rambam, de abençoada memória — quer dizer, que os atributos positivos são impossíveis no seu respeito, e é cabido que se afastem dele por serem eles uma deficiência para ele.
וְיָשׁוּבוּ אֵלּוּ הָאַרְבָּעָה תְּאָרִים — חַי חָכָם רוֹצֶה וְיָכוֹל — אֶל כַּוָּנָה אַחַת שׁוֹלְלִית. וְעַל זֶה הַדֶּרֶךְ כָּל הַתְּאָרִים שֶׁמִּצַּד עַצְמוֹ צָרִיךְ שֶׁיּוּבְנוּ שׁוֹלְלִיִּים, כִּי כָּל הַתְּאָרִים הַשּׁוֹלְלִים צוֹדְקִים עָלָיו. וְלָזֶה שַׂמְנוּ הַשֹּׁרֶשׁ הָרְבִיעִי שֶׁהוּא מְסֻלָּק מִן הַחֶסְרוֹנוֹת.
Albo completa a doutrina dos atributos enfrentando os casos ambíguos. Alguns atributos são claramente de ação (misericordioso), outros claramente de essência (um, eterno). Mas vários — bom, sábio, querente, capaz, vivo — podem ser lidos de ambos os modos, e por isso exigem um método de interpretação dupla, que Albo aplica caso a caso como modelo.
Cada atributo recebe duas interpretações. Pela ação: "bom" = todo bem flui d'Ele; "sábio" = a ordem maravilhosa da criação revela a sabedoria do Autor; "querente" = tudo se faz pela sua vontade (a salvação que se cumpre prova que Ele a quis); "capaz" = nada O impede; "vivo" = a vida emana d'Ele. Pela essência (sempre negativa): "bom" = sua essência é limpa de toda deficiência; "sábio" = nada lhe é oculto; "querente" = não despreza, abandona nem esquece de influenciar o bem; "capaz" = não tem cansaço, donde poder infinito; "vivo" = o que d'Ele emana procede por conhecimento e vontade, não por necessidade cega.
Notável é o argumento fisiológico sobre "sábio". A matéria é o que impede o conhecimento: as doenças do olho impedem a visão, os vapores do estômago confundem a mente do ébrio, a umidade excessiva embota o intelecto dos jovens. Ora, D'us é "intelecto limpo e separado da matéria" — logo nenhuma dessas barreiras existe n'Ele, e nada se lhe oculta. Sua onisciência não é uma propriedade acrescentada, mas a ausência de todo obstáculo material ao conhecer. O mesmo padrão se vê em "capaz" = ausência de cansaço, e "vivo" = ausência de ação puramente natural.
A síntese é elegante: vivo, sábio, querente e capaz convergem, do lado da essência, num único sentido negativo — o que de D'us emana procede por conhecimento, vontade e poder (como do vivo), não cegamente "como o calor que decorre do fogo". E essa é a regra para todos os atributos essenciais: tomados como negações, podem ser quantos se queira ("sem fim"), pois toda negação é verdadeira d'Ele e nenhuma lhe imputa deficiência. Albo encerra confirmando que a quarta raiz — "removido das deficiências" — foi formulada justamente para abrigar esta doutrina maimonidiana, que ele expôs lealmente ao lado da sua própria (cap. 21). O leitor fica com as duas vias: a de Maimônides (tudo negação) e a de Albo (a face da perfeição) — encerrando-se assim a grande investigação dos atributos divinos do Maamar II.
Todo atributo de D'us é sem fim por três modos: sem fim no tempo (eterno como Ele), sem fim na excelência (sua sabedoria, poder e bondade são ilimitados), e sem fim no número (as suas perfeições são incontáveis). Albo lê o Salmo 139 como expressão dos três, e mostra por que a Cabala o chama "Ein Sof" — o Sem-Fim.
Todo atributo de D'us é sem fim por três modos: sem fim no tempo (eterno como Ele), sem fim na excelência (sua sabedoria, poder e bondade são ilimitados), e sem fim no número (as suas perfeições são incontáveis). Albo lê o Salmo 139 como expressão dos três, e mostra por que a Cabala o chama "Ein Sof" — o Sem-Fim.
1 Dentre as coisas que decorrem desta quarta raiz, que é o ser ele, bendito seja, removido das deficiências — seja conforme esta opinião filosófica, seja conforme a opinião da Torá mencionada no capítulo 2 deste discurso — eis que é que, quando descrevemos o Nome, bendito seja, com algum atributo — seja negativo ou positivo, dentre os atributos com que é possível que se descreva o Nome —, é cabido que se compreenda aquele atributo nele como sem fim bilti baal tachlit por dois lados: ou sem fim no tempo, ou sem fim na perfeição e na importância. E isto é assim porque, depois que explicamos que o Nome, bendito seja, é eterno e perpétuo — quer dizer, que existe um tempo sem fim, seja do lado anterior, seja do lado posterior —, eis que é forçoso que qualquer atributo com que se descreva, bendito seja, seja eterno e perpétuo como ele; pois, assim como ele, bendito seja, existia e existirá um tempo sem fim, assim os atributos se acham nele por um tempo sem fim, já que é impossível que sejam renovados nele ou existentes n'um tempo e não n'outro tempo, como explicamos tudo isto.
2 E o meu dizer "um tempo sem fim" é por via do alívio da linguagem, pois ele, bendito seja, não é cabido que digamos sobre ele que existe um tempo sem fim, visto que é anterior ao tempo — a não ser que a duração hemshech seja o tempo; mas a intenção é dizer que não tem extremidade nem do lado anterior nem do lado posterior; e por isso é cada um dos atributos que há nele sem fim no tempo.
כְּשֶׁתֵּאַרְנוּ הַשֵּׁם בְּשׁוּם תֹּאַר, רָאוּי שֶׁיּוּבַן בְּלִתִּי בַעַל תַּכְלִית מִשְּׁנֵי צְדָדִין: בִּזְמָן וּבַחֲשִׁיבוּת. כִּי אַחַר שֶׁהוּא קַדְמוֹן וְנִצְחִי, יְחֻיַּב שֶׁיִּהְיֶה כָּל תֹּאַר קַדְמוֹן וְנִצְחִי כָּמוֹהוּ.
3 E o facto de que qualquer atributo que há nele é sem fim na importância se explica deste lado: não há dúvida de que, quando se descreve o Nome, bendito seja, como sendo sábio, é cabido que se compreenda disto que a sua sabedoria é sem fim na perfeição; pois, visto que a sua essência é sem fim na perfeição, é cabido que seja aquele que conhece a si mesmo, e é impossível que conheça o sem-fim na perfeição se não for com um conhecimento sem fim na perfeição, pois o finito não pode abranger o sem-fim. E assim, quando dizemos sobre ele, bendito seja, que é capaz, é cabido que se compreenda também que o seu poder é sem fim; pois, se fosse finito, já seria possível que se imaginasse um poder maior que ele, e Ele seria, então, cansado, visto que não haveria nele aquele maior poder imaginado; e assim, quando dizemos sobre ele, bendito seja, que é bom, é cabido que se compreenda que é sem fim em bondade por força, pois, se o bem fosse limitado, seria possível que houvesse um bem maior que ele, e Ele não seria, então, bem absoluto.
4 E por este modo é cabido que se compreenda em cada atributo dos atributos que se acha nele, bendito seja, que é sem fim na importância e que não há nele lado algum de deficiência — como a existência com que se descreve, bendito seja, é cabido que se compreenda que aquela existência é dele de si mesmo e não é adquirida de outro, e, quando se diz a existência sobre outro, é impossível que seja sem fim na importância, visto que a sua existência lhe é adquirida de outro; e não há existente algum tal que qualquer atributo dito sobre ele seja importante e sem fim, senão ele, bendito seja; pois, assim como cada atributo por si mesmo é sem fim no tempo, como explicamos, assim é sem fim na importância e na delícia ne'imut; e é isto o que disse a Escritura "delícias na tua direita perpetuamente" (Salmos 16:11), como se explicará no capítulo 30 deste discurso.
וְשֶׁכָּל תֹּאַר בִּלְתִּי בַעַל תַּכְלִית בַּחֲשִׁיבוּת: ״חָכָם״ — חָכְמָתוֹ בִּלְתִּי בַעֲלַת תַּכְלִית, כִּי הַבַּעַל תַּכְלִית לֹא יוּכַל לְהַקִּיף הַבִּלְתִּי בַעַל תַּכְלִית. ״יָכוֹל״ — יְכֹלֶת בִּלְתִּי בַעַל תַּכְלִית. ״טוֹב״ — בִּלְתִּי בַעַל תַּכְלִית בְּטוֹבִיּוּת.
5 E também é cabido que se compreenda que as perfeições que se acham nele, bendito seja, são não-limitadas no número, quer dizer, que são sem fim do lado da sua multiplicidade; e isto é assim porque, depois que é cabido que se achem nele todos os gêneros das perfeições que é possível que se imaginem, e que se afastem dele todos os gêneros das deficiências, e é possível que se imaginem perfeições sem fim existentes nele, é cabido que seja assim conforme a verdade; pois, se não fosse assim, não estaria no extremo da perfeição, visto que seria possível que se achassem nele perfeições mais numerosas que as existentes nele. E por isso está claro que é cabido que se achem nele perfeições sem fim, tais que a boca não pode falar nem o ouvido pode ouvir.
6 E por isso o nome "Tzevaot" Tzevaot, exércitos foi dos nomes que não se apagam, para aludir a este gênero de perfeição. E a este gênero de perfeição aludiu o perfeito Rabi Chanina quando disse ao que multiplicou os atributos diante dele "concluíste todos os louvores do teu Senhor?" — quer dizer, visto que são sem fim, não é cabido a ti limitá-los com número algum e dizer que há um número que conclua contá-los, pois isto seria uma deficiência no seu respeito, e ele, bendito seja, é removido das deficiências.
וְהַשְּׁלֵמֻיּוֹת בִּלְתִּי בַעֲלֵי תַּכְלִית מִצַּד רִבּוּיָם. וְעַל כֵּן ״צְבָאוֹת״ מִן הַשֵּׁמוֹת שֶׁאֵינָם נִמְחָקִים. ״סִיֵּמְתִּינְהוּ לְכֻלְּהוּ שְׁבָחֵיהּ דְּמָרָךְ?״ — אֵין רָאוּי לְהַגְבִּילָם בְּמִסְפָּר.
7 E a estes três gêneros do sem-fim aludiu David no salmo "Senhor, tu me sondaste e conheceste" (Salmos 139); pois começou a louvar o conhecimento do Nome e a dizer como é sem fim, tal que abrangia todos os pormenores dos seus movimentos e das suas ações, com o exagero da sua multiplicidade, em qualquer lugar que estivessem. E disse "Senhor, tu me sondaste e conheceste" (139:1), para explicar que o conhecimento do Nome não é do gênero do conhecimento do homem, pois o homem sonda e não apreende, mas ele, bendito seja, sonda o coração e prova os rins, e apreende e conhece os pensamentos; e é isto "compreendeste o meu pensamento re'i de longe" (139:2), pois "re'i" é derivado de "raayon" pensamento; e estendeu-se a explicar isto a partir do atributo da formação, e disse "pois tu adquiriste os meus rins, teceste-me no ventre de minha mãe" (139:13), e concluiu nisto ao dizer "o meu embrião viram os teus olhos" etc. (139:16) — quer dizer, que não foi depois de que se formou que chegou o conhecimento divino nele, mas, mesmo quando era um embrião golem sem forma, o conhecimento divino abrangia-o; e é isto "o meu embrião viram os teus olhos"; e não só o meu embrião, já que sou rei e importante como um conjunto, mas também todos os embriões, pequeno e grande, todos são escritos sobre o teu livro, e conhecidos diante de ti os dias em que se influenciarão neles as formas e serão formados neles, e mesmo antes de que algum deles exista; e é isto o seu dizer "dias serão formados, e não um lo/lo deles" (139:16) — conforme o escrito ketiv, que está escrito com álef "não há", e conforme a tradição keri, que está com vav "dele/d'Ele": vem dizer que, com a multiplicação dos conhecidos, não se multiplica nele o conhecimento, mas a ele, bendito seja, pertence a unidade do conhecimento neles. E depois disto disse "e para mim, quão preciosos são os teus pensamentos re'echa, ó D'us! Quão poderosos os seus cabeços!" (139:17) — quer dizer, tu compreendeste o meu pensamento de longe, mas eu não posso apreender os teus pensamentos, quer dizer, o teu conhecimento e os teus pensamentos, pois eles são muito preciosos para mim, tal que é impossível a mim apreendê-los do lado da preciosidade da sua excelência.
״ה׳ חֲקַרְתַּנִי וַתֵּדָע״, שֶׁאֵין יְדִיעַת הַשֵּׁם מִמִּין יְדִיעַת הָאָדָם. ״גָּלְמִי רָאוּ עֵינֶיךָ... יָמִים יֻצָּרוּ ולא [וְלוֹ] אֶחָד בָּהֶם״. ״וְלִי מַה יָּקְרוּ רֵעֶיךָ אֵל מֶה עָצְמוּ רָאשֵׁיהֶם״.
8 E ainda porque são sem fim no tempo, e é isto "quão poderosos os seus cabeços" rasheihem — os dois "cabeços"/extremos do tempo.
9 E ainda porque são conhecimentos sem fim, e é isto "se os contasse, mais que a areia se multiplicariam" (139:18); e, com tudo isto, eles se unificam em ti com uma unidade absoluta, como disse "e a Ele/não há um deles" (139:16), e não são coisa acrescentada à tua essência, pois, quando despertei do meu recolhimento meditativo nisto, achei que "ainda estou contigo" odi imach (139:18) — e não são coisa fora de ti.
וְעוֹד שֶׁהֵם בִּלְתִּי בַעֲלֵי תַּכְלִית בִּזְמָן, ״מֶה עָצְמוּ רָאשֵׁיהֶם״. וְעוֹד שֶׁהֵם יְדִיעוֹת בִּלְתִּי בַעֲלוֹת תַּכְלִית, ״אֶסְפְּרֵם מֵחוֹל יִרְבּוּן״, וְעִם כָּל זֶה מִתְאַחֲדִים בְּךָ, ״הֱקִיצוֹתִי וְעוֹדִי עִמָּךְ״.
10 E é possível que digamos que na palavra "os teus pensamentos" re'echa David alude aos atributos das perfeições que há nele, bendito seja; e chamou-os "os teus pensamentos/companheiros" para indicar que, assim como ele, bendito seja, é sem fim na importância e sem fim no tempo, assim cada um dos atributos é sem fim na importância e no tempo.
11 E disse depois disto "se os contasse, mais que a areia se multiplicariam", para aludir a que os atributos da perfeição que há nele são sem fim; e veio explicar que não há que se admirar como, com a multiplicação dos conhecidos, não se multiplica o conhecimento — pois eis que os atributos que há nele, bendito seja, são sem fim pelos três lados que dissemos, e mesmo assim não se multiplica a sua essência por eles de modo algum.
12 E chamou os atributos essenciais "os teus pensamentos/companheiros", para aludir ao que dissemos no princípio do capítulo, a saber que os atributos que se acham nele são eternos como ele por força; e disse "quão preciosos" para indicar o ser cada um sem fim na importância e na preciosidade; e disse "quão poderosos os seus cabeços" para indicar o serem eles existentes nele por um tempo sem fim, antes de que o mundo exista e após o fim do mundo, que são os dois cabeços que há para o tempo — um do lado do princípio e o outro do lado do fim; e é isto a expressão "os seus cabeços", quer dizer, os dois cabeços que são as duas extremidades que o tempo tem.
וּבְמִלַּת ״רֵעֶיךָ״ יִרְמֹז אֶל תָּאֳרֵי הַשְּׁלֵמֻיּוֹת. ״מַה יָּקְרוּ״ — בִּלְתִּי בַעַל תַּכְלִית בַּחֲשִׁיבוּת; ״מֶה עָצְמוּ רָאשֵׁיהֶם״ — בַּזְּמָן, הַשְּׁנֵי קְצָווֹת שֶׁל זְמָן. ״אֶסְפְּרֵם מֵחוֹל יִרְבּוּן״ — בְּמִסְפָּר.
13 E depois voltou a mencionar o louvor que é do lado da sua multiplicidade — quer dizer, o serem as perfeições nele, bendito seja, sem fim, tais que número algum as limita —, e sobre isto disse "se os contasse, mais que a areia se multiplicariam"; e, a fim de que não se imagine que há nele, bendito seja, multiplicidade do lado da multiplicidade dos atributos, disse depois disto "despertei, e ainda estou contigo" — quer dizer, quando medito nos atributos e os acho muitos por força, do lado de serem perfeições diferentes (pois do conhecimento se compreende uma coisa diferente do poder e diferente da vontade por força, e o que se compreende de todos estes e os que se lhe assemelham é uma coisa fora da quididade), e neste exame já se pensaria que os atributos obrigam alguma multiplicidade na tua essência — por isso disse "despertei, e ainda estou contigo", quer dizer, quando desperto daquela meditação em que medito na multiplicidade dos atributos, vejo que todos aqueles atributos não são senão considerações intelectuais bechinot sichliyot da indicação de que aquelas perfeições se acham na tua essência, mas, por via da verdade, não são coisa fora de ti mesmo; e é isto a expressão "e ainda estou contigo", quer dizer, que não são coisa fora de ti e não obrigam multiplicidade na tua essência. Pois, assim como o atributo da unidade não é coisa acrescentada à quididade, mas é uma consideração intelectual da ausência da multiplicidade nele, assim a sabedoria e o conhecimento não são coisa fora da quididade, e são uma consideração intelectual da ausência da ignorância nele.
14 E assim dizemos em todos os atributos sem fim que se acham nele — que são considerações intelectuais do ser ele, bendito seja, removido das deficiências, não além disto. E a isto aludiram os sábios da Cabala ao chamarem o Nome, bendito seja, "Sem-Fim" Ein Sof, para aludir ao serem as perfeições que se acham nele, bendito seja, sem fim pelos três lados que escrevemos.
״הֱקִיצוֹתִי וְעוֹדִי עִמָּךְ״ — שֶׁהַתְּאָרִים אֵינָם אֶלָּא בְּחִינוֹת שִׂכְלִיּוֹת מֵהֱיוֹתוֹ מְסֻלָּק מִן הַחֶסְרוֹנוֹת. וְאֶל זֶה רָמְזוּ חַכְמֵי הַקַּבָּלָה בְּקָרְאָם הַשֵּׁם ״אֵין סוֹף״, לִרְמֹז עַל הַשְּׁלֵמֻיּוֹת בִּלְתִּי בַעֲלֵי תַכְלִית מִן הַשְּׁלֹשָׁה צְדָדִין.
Este capítulo coroa a teoria dos atributos com a dimensão da infinitude. Todo atributo de D'us é "sem fim" (bilti baal tachlit) por três modos distintos: no tempo (cada atributo é eterno como Ele — nada novo entra n'Ele); na excelência (a sabedoria, o poder e a bondade são ilimitados em grau); e no número (as suas perfeições são incontáveis). É um avanço sobre Maimônides: não basta dizer o que D'us não é — é preciso afirmar que tudo o que se diz d'Ele transborda toda medida.
Os argumentos são elegantes. A sabedoria de D'us deve ser infinita porque Ele conhece a si mesmo, e "o finito não pode abranger o infinito" — conhecer uma essência infinita exige um conhecer infinito. O poder deve ser infinito, pois um poder finito sempre admitiria um maior, deixando D'us "cansado" por não tê-lo. A bondade deve ser infinita, pois um bem limitado admitiria um bem maior, e D'us não seria "o bem absoluto". E o número das perfeições é infinito porque, se houvesse mais perfeições possíveis do que as que Ele tem, Ele não estaria "no extremo da perfeição".
Albo lê o "Senhor, tu me sondaste" (Sl 139) como expressão poética dos três infinitos. O conhecimento divino abrange o homem desde o embrião sem forma ("o meu embrião viram os teus olhos") e todos os embriões futuros — sem que a multiplicação dos conhecidos multiplique o conhecedor. A palavra re'echa ("teus pensamentos/companheiros") aponta os atributos: "quão preciosos" (infinitos na excelência), "quão poderosos os seus cabeços" (os dois extremos do tempo — infinitos na duração), "mais que a areia se multiplicariam" (infinitos no número). Notável a leitura do ketiv/keri de 139:16 (lo com álef = "não há" / com vav = "a Ele"): a multiplicidade dos conhecidos resolve-se na unidade do conhecimento d'Ele.
O fecho é a reconciliação final entre multiplicidade e simplicidade. Ao meditar, David vê os atributos como muitos (saber ≠ poder ≠ vontade); mas, "ao despertar" da meditação, percebe que são apenas considerações intelectuais (bechinot sichliyot) da nossa mente — sinais de que as perfeições estão na essência, sem nada acrescentar a ela. "Ainda estou contigo" = nada disso é exterior a Ti nem Te divide. Assim como "um" não acrescenta nada (é a negação da multiplicidade), "sábio" não acrescenta nada (é a negação da ignorância). E Albo sela com a ponte para a Cabala: é precisamente isto que os cabalistas querem dizer ao chamar D'us Ein Sof ("Sem-Fim") — as perfeições infinitas pelos três modos, unidas na simplicidade absoluta. Filosofia e mística convergem no mesmo Nome.
"Baruch" (bendito) é homônimo: diz-se do que recebe o bem e do que o dá. A bênção é o acréscimo e a multiplicação do bem. Por isso a palavra louva D'us — indica que toda prosperidade (riqueza, filhos, saúde, honra, sabedoria) flui de um agente vivo, sábio, querente e capaz. O Salmo 145 e por que se louva D'us pelas obras, não pela essência.
"Baruch" (bendito) é homônimo: diz-se do que recebe o bem e do que o dá. A bênção é o acréscimo e a multiplicação do bem. Por isso a palavra louva D'us — indica que toda prosperidade (riqueza, filhos, saúde, honra, sabedoria) flui de um agente vivo, sábio, querente e capaz. O Salmo 145 e por que se louva D'us pelas obras, não pela essência.
1 "Bendito" baruch é um nome homônimo: diz-se do que recebe o bem e o influxo de outro, como "não amaldiçoarás o povo, pois bendito ele é" (Números 22:12), "bendito serás tu na cidade e bendito serás tu no campo" (Deuteronômio 28:3), e muitos assim. E diz-se do que dá o bem e o influxo a outro, como "bendito é o Senhor, minha rocha, que ensina as minhas mãos para a batalha" (Salmos 144:1), "bendito é o Senhor, pois fez maravilhoso o seu amor para comigo numa cidade fortificada" (Salmos 31:22), "bendito és tu, Senhor, ensina-me os teus estatutos" (Salmos 119:12), "bendito é o Senhor que vos livrou" (Êxodo 18:10).
2 E isto é assim porque "bênção" berachá é um nome dito sobre a multiplicação e o acréscimo do bem e do influxo. E, quando se diz sobre o que recebe, "baruch" será particípio passivo pa'ul, pois, depois que achamos "e abençoou: 'bendito sois'" (cf.), que é uma fonte do verbo leve kal, construímos dele toda a construção, e "baruch" será passivo, quer dizer, influenciado pela multiplicação do bem. E, quando se diz sobre o que dá, "baruch" será nome de atributo shem toar, como "misericordioso" e "clemente", que são nomes de atributo com que se chama o Nome, bendito seja, por ser a ação que chega dele uma bênção, que é o acréscimo de influxo e a multiplicação do bem; pois, assim como a expressão "maldição" me'erá é a diminuição do bem conforme a concordância de todos os comentadores, assim "bênção" é o acréscimo do bem; e por isso "baruch" será atributo do que influencia a multiplicação do bem.
״בָּרוּךְ״ שֵׁם מְשֻׁתָּף: יֵאָמֵר עַל מְקַבֵּל הַטּוֹב (״כִּי בָרוּךְ הוּא״), וְעַל נוֹתֵן הַטּוֹב (״בָּרוּךְ ה׳ צוּרִי״). כִּי בְּרָכָה נֶאֱמַר עַל רִבּוּי וְתוֹסֶפֶת טוֹב. וְעַל הַנּוֹתֵן ״בָּרוּךְ״ שֵׁם תֹּאַר, כְּמוֹ רַחוּם וְחַנּוּן.
3 E acha-se a expressão "bênção" sobre a multiplicação das prosperidades diferentes: pois achamo-la sobre a riqueza de modos diferentes, "e havia a bênção do Senhor em tudo o que ele tinha, na casa e no campo" (cf. Gênesis 39:5); e disse Salomão "a bênção do Senhor é a que enriquece, e Ele não acrescenta tristeza com ela" (Provérbios 10:22) — porque é do feitio da riqueza que, quando vem em muitas espécies diferentes, isto é causa da tristeza e do grande labor, como disseram "quem multiplica posses, multiplica preocupação" (Avot 2:7); disse Salomão que a riqueza que vem na bênção do Senhor, ainda que venha em muitas espécies diferentes, o Nome, bendito seja, não acrescenta com aquela riqueza a tristeza que, pelo seu feitio, decorre à riqueza.
4 E acha-se a expressão "bênção" também sobre a prosperidade dos filhos, "bendito é o fruto do teu ventre" (Deuteronômio 28:4), "e apareceu D'us a Jacó ainda ao vir de Padã-Aram, e o abençoou" (Gênesis 35:9); e achamo-la sobre a prosperidade da saúde, "e abençoará o teu pão e as tuas águas, e removerei a doença do teu meio" (Êxodo 23:25) — pois, ao haver a bênção do Senhor nos alimentos, o homem não adoecerá, mesmo das doenças naturais costumeiras de ser conforme a natureza do homem, e é isto "e removerei a doença do teu meio", e com muito mais razão que não adoecerá das doenças não-naturais, e é isto "não haverá mulher que aborte nem estéril na tua terra" (Êxodo 23:26), e que o homem não morrerá fora do seu tempo, e é isto "o número dos teus dias completarei" (Êxodo 23:26). E acha-se a expressão "bênção" também sobre a prosperidade da honra, disse David "e agora, dignai-vos abençoar a casa do teu servo, para ser para sempre diante de ti" (II Samuel 7:29); e achamo-la também sobre a prosperidade da sabedoria, "bendito és tu, Senhor, ensina-me os teus estatutos" (Salmos 119:12).
נִמְצָא ״בְּרָכָה״ עַל הָעֹשֶׁר, ״בִּרְכַּת ה׳ הִיא תַעֲשִׁיר וְלֹא יוֹסִף עֶצֶב עִמָּהּ״. וְעַל הַבָּנִים, ״בָּרוּךְ פְּרִי בִטְנְךָ״. וְעַל הַבְּרִיאוּת, ״וּבֵרַךְ אֶת לַחְמְךָ... וַהֲסִרֹתִי מַחֲלָה מִקִּרְבֶּךָ״. וְעַל הַכָּבוֹד וְעַל הַחָכְמָה.
5 E toda multiplicação de influxo e acréscimo de bem em espécies diferentes de prosperidades é impossível que venha senão de um agente, e vivo, e querente, e sábio, e capaz; porque o agente por natureza — como a luz que decorre da lâmpada e como o calor que decorre do fogo — não acrescenta o agente único a sua luz numa vez e a diminui noutra, mas está sempre sobre um mesmo assunto do lado do agente; o que não é assim no agente por vontade, pois o agente acrescenta a ação e a diminui conforme a sua vontade; e todo agente por vontade é vivo por força, pois não se concebe vontade senão do vivo, e é aquele que conhece o que influencia e pode influenciar; se é assim, aquele que influencia bênção e acréscimo de bem é, por força, vivo, e sábio, e querente, e capaz; e por isso é que se escolheu a expressão "bendito" baruch a fim de louvar com ela o Nome, bendito seja, porque é um nome dito sobre todas as prosperidades e indica o serem elas chegadas de um agente vivo, e sábio, e querente, e capaz — como se a palavra "baruch" fosse um nome que abrange todos os gêneros das perfeições; e por isso indica a quarta raiz, que é o ser ele, bendito seja, removido das deficiências, visto que a expressão "bênção" é o oposto da "maldição", que é a diminuição do bem, como dissemos. E acha-se a expressão "bênção" sobre o louvor e o elogio em geral, disse a Escritura "bendirei avarechá o Senhor em todo tempo" (Salmos 34:2), que é como "louvarei", e é isto o que concluiu "sempre o seu louvor na minha boca".
כָּל רִבּוּי שֶׁפַע אִי אֶפְשָׁר שֶׁיָּבֹא אֶלָּא מִפּוֹעֵל חַי וְרוֹצֶה וְחָכָם וְיָכוֹל, כִּי הַפּוֹעֵל בְּטֶבַע לֹא יוֹסִיף וְיַחְסִיר. וְלָזֶה נִבְחַר לְשׁוֹן ״בָּרוּךְ״, שֶׁהוּא שֵׁם כּוֹלֵל לְכָל מִינֵי הַשְּׁלֵמֻיּוֹת, וְיוֹרֶה עַל הַשֹּׁרֶשׁ הָרְבִיעִי.
6 E por isso instituíram os homens da Grande Assembleia esta expressão de "bendito" a fim de louvar com ela o Nome sobre todos os gêneros dos bens que o homem recebe do Nome, bendito seja — seja no corpo, de qualquer espécie que seja, seja na alma: no corpo, como a bênção dos prazeres birkat hanehenin; e na alma, como a bênção da Torá e a bênção dos mandamentos e as demais bênçãos, como a bênção do louvor — para indicar que o Nome, bendito seja, é a fonte das bênçãos, e que todos os bens e prosperidades, de qualquer espécie que sejam, são influenciados dele.
7 E por isso disseram "quatro precisam dar graças" etc.; e, a fim de que não se pense que o D'us, bendito seja, é o agente dos bens e que há outra autoridade reshut acheret que age os males, disseram "assim como se bendiz sobre o bem, assim se bendiz sobre o mal", para indicar que tudo vem dele, bendito seja. E por ser este nome de "bendito" abrangente do louvor sobre todos os gêneros dos bens e prosperidades incluídos na expressão "bênção", como dissemos, achamos que David disse no salmo "Louvor de David" Tehilá leDavid, Salmos 145 "e bendirá toda carne o seu santo nome pelos séculos dos séculos" (145:21) — quer dizer, todo recebedor das espécies dos bens, de qualquer espécie que seja, pois o nome "bendito" indica o louvor sobre todos eles, quer dizer, sobre todos os gêneros das perfeições; e por isso começou no seu início "exaltar-te-ei, meu D'us, ó Rei" (145:1), e disse que a exaltação será "e bendirei o teu nome pelos séculos dos séculos" — quer dizer, que o louvará; e por isso, quando voltou a dizer "em cada dia te bendirei" (145:2), disse "e louvarei o teu nome pelos séculos dos séculos" no lugar de "e bendirei o teu nome" que disse no início; e sobre tudo disse "grande é o Senhor e mui louvado" (145:3) — quer dizer, do lado de si mesmo —, pois o louvor propriamente é impossível que seja senão do lado das obras, e é isto o que disse logo "de geração em geração louvará as tuas obras" (145:4).
וְעַל כֵּן תִּקְּנוּ אַנְשֵׁי כְּנֶסֶת הַגְּדוֹלָה לְשׁוֹן ״בָּרוּךְ״. ״כְּשֵׁם שֶׁמְּבָרְכִין עַל הַטּוֹבָה כָּךְ מְבָרְכִין עַל הָרָעָה״, לְהוֹרוֹת שֶׁהַכֹּל בָּא מֵאִתּוֹ. ״וִיבָרֵךְ כָּל בָּשָׂר שֵׁם קָדְשׁוֹ״.
8 E a sua explicação é que o louvor e o elogio com que é possível a nós louvá-lo é impossível que seja no exame de si mesmo, pois isto é impossível por três lados: ou do lado de que a vida do homem é finita, e num tempo finito é impossível louvar o louvor cabido que dure um tempo sem fim; ou do lado de que os seus louvores são sem fim do lado da sua multiplicidade, como explicamos no capítulo anterior a este; ou do lado de que cada louvor deles é sem fim na importância. E por isso começou e disse "exaltar-te-ei, meu D'us, ó Rei, e bendirei o teu nome pelos séculos dos séculos" — e não é a sua intenção dizer que o homem seria capaz de louvar o Senhor pelos séculos dos séculos, que é um tempo sem fim, pois isto é uma coisa impossível no respeito do homem; mas quer dizer que, mesmo se a vida do homem fosse sem fim, e eu estivesse a exaltar o teu nome pelos séculos dos séculos, e que este louvor fosse em cada dia, de modo que não houvesse ali impedimento do lado do tempo e da continuidade do louvor — e por isso repetiu "em cada dia te bendirei" e "louvarei o teu nome pelos séculos dos séculos" —, disse que, com tudo isto, não seria capaz de louvá-lo, pois dos outros dois lados isto se impede: pois do lado da multiplicidade das perfeições que há nele, "grande é o Senhor e mui louvado" — mais do que um homem possa contar os seus louvores; e também do lado de que cada perfeição que há nele é sem fim na importância, isto é impossível, pois "à sua grandeza não há investigação" (145:3) — quer dizer, que é sem fim na importância, e por isso é impossível que aquele louvor se limite n'um discurso finito; e por isso o louvor ou o elogio a ti, do lado de si mesmo, é impossível por estes três lados que mencionamos.
הַשֶּׁבַח מִצַּד עַצְמוֹ נִמְנָע מִג׳ צְדָדִין: מִצַּד שֶׁחַיֵּי הָאָדָם בַּעֲלֵי תַכְלִית; וּמִצַּד שֶׁשְּׁבָחָיו בִּלְתִּי בַעֲלֵי תַכְלִית בְּרִבּוּי; וּמִצַּד שֶׁכָּל שֶׁבַח בִּלְתִּי בַעַל תַּכְלִית בַּחֲשִׁיבוּת. ״גָּדוֹל ה׳ וּמְהֻלָּל מְאֹד וְלִגְדֻלָּתוֹ אֵין חֵקֶר״.
9 Mas o caminho do louvor cabido é do lado das ações e das obras que decorrem de ti, pois elas indicam o seres tu sábio, e querente, e capaz; e é isto o que disse "de geração em geração louvará as tuas obras" etc. (145:4), pois a ordenação das obras e a sua perfeição indicam o serem elas decorrentes de um agente sábio; e disse "e o vigor das tuas obras temíveis dirão" etc. (145:6), para aludir ao poder; e "a memória da abundância da tua bondade proferirão" (145:7), para indicar a vontade, como escrevemos acima, pois a multiplicação dos bens indica a vontade.
10 E por este modo gira todo aquele louvor que há naquele salmo. E, porque nem todo homem sabe discernir a excelência do Nome e a sua perfeição, senão os sábios e os piedosos — pois eles reconhecem o pouquinho me'at miz'er da sua excelência —, disse "render-te-ão graças, Senhor, todas as tuas obras" (145:10), quer dizer, todas as tuas obras te renderão graças por via geral, mas "os teus piedosos" chasidecha — e estes são os sábios crentes, pois a sabedoria traz à piedade, e eles são os que reconhecem algo da tua grandeza — não te renderão graças por via geral apenas, mas "te bendirão" yevarchucha com a expressão de bênção, que é o louvor mais cabido, por ser a expressão de bênção a que indica, como explicamos, o ser ele abrangente de todos os gêneros das perfeições, e que os influencia, e o ser ele removido das deficiências.
אֲבָל דֶּרֶךְ הַהִלּוּל הָרָאוּי מִצַּד הַפְּעֻלּוֹת, ״דּוֹר לְדוֹר יְשַׁבַּח מַעֲשֶׂיךָ״. ״יוֹדוּךָ ה׳ כָּל מַעֲשֶׂיךָ וַחֲסִידֶיךָ יְבָרְכוּכָה״ — הַחֲכָמִים הַמַּכִּירִים מִגְּדֻלָּתְךָ יְבָרְכוּךָ בִּלְשׁוֹן בְּרָכָה שֶׁהוּא הַשֶּׁבַח הַיּוֹתֵר רָאוּי.
Por que toda a liturgia judaica começa com "baruch" (bendito)? Albo responde com uma análise lexical que se torna teologia. "Baruch" é homônimo: aplica-se a quem recebe o bem (o povo "bendito") e a quem o dá (D'us "bendito"). Gramaticalmente, no primeiro caso é particípio passivo ("influenciado de bem"); no segundo, nome de atributo (como "misericordioso"). A raiz comum é berachá = acréscimo e multiplicação do bem — exatamente o oposto de me'erá (maldição = diminuição do bem).
Albo mostra que "bênção" cobre todas as formas de prosperidade: riqueza ("a bênção do Senhor enriquece, e não acrescenta tristeza" — a riqueza abençoada vem sem a angústia que normalmente a acompanha), filhos, saúde ("removerei a doença"), honra e sabedoria. É um termo guarda-chuva para todo bem que se possa receber.
O argumento central: toda multiplicação de bens em espécies diferentes só pode vir de um agente vivo, sábio, querente e capaz — nunca de um agente natural. O fogo dá sempre o mesmo calor; mas quem aumenta e varia o bem conforme a vontade tem de querer (logo, viver), saber e poder. Por isso "baruch" é o termo perfeito para louvar D'us: ele implica que toda prosperidade flui de um Agente voluntário e perfeito, removido de toda deficiência (a quarta raiz). Daí a Grande Assembleia tê-lo escolhido para todas as bênçãos — do corpo (prazeres) e da alma (Torá, mandamentos) —, e o ensino "como se bendiz sobre o bem, assim sobre o mal": tudo vem de D'us, não de "outra autoridade" (contra o dualismo do cap. 13).
O capítulo culmina lendo o Ashrei (Sl 145). David quer louvar "pelos séculos dos séculos", mas reconhece a impossibilidade tripla (a vida humana é finita; os louvores são infinitos em número; cada um é infinito em grau — "à sua grandeza não há investigação"). Logo, o louvor possível é só pelas obras: "de geração em geração louvará as tuas obras" (que revelam a sabedoria), "o vigor das tuas temíveis" (o poder), "a abundância da tua bondade" (a vontade). E o verso final distingue dois níveis: "todas as tuas obras te rendem graças" (louvor geral, ao alcance de todos), mas "os teus piedosos te bendizem" — pois só os sábios-piedosos (a sabedoria leva à piedade) reconhecem "o pouquinho" da grandeza divina e merecem usar o termo pleno, baruch, que abrange todas as perfeições. Mais um capítulo em que Albo transforma a análise de uma única palavra litúrgica numa síntese de toda a sua teologia.
"Verdade" (emet) é o acordo entre o dito, o pensado e o real. Só sobre D'us o nome "existente" se verifica na verdade — pois só Ele existe sempre e por si mesmo. "O selo de D'us é a Verdade"; o nome "Ehyeh Asher Ehyeh"; e por que "Verdade" é o atributo mais próprio de D'us, abrangendo a primeira, a média e a última das letras.
"Verdade" (emet) é o acordo entre o dito, o pensado e o real. Só sobre D'us o nome "existente" se verifica na verdade — pois só Ele existe sempre e por si mesmo. "O selo de D'us é a Verdade"; o nome "Ehyeh Asher Ehyeh"; e por que "Verdade" é o atributo mais próprio de D'us, abrangendo a primeira, a média e a última das letras.
1 "Verdade" emet é um nome que se diz sobre a coisa quando o dito pela boca concorda com o que está na alma e com o que está fora da alma. E, quando o dito pela boca difere do que está fora da alma, ainda que concorde com o que está no coração, isto se chama "falso" sheker — como Rúben, que viu Levi matar a pessoa e pensou que este Levi era Simeão, e por causa disto testemunhou que Simeão matou a pessoa; eis que isto é falso, ainda que a boca não minta ao que está no coração, pois a sua boca e o seu coração são iguais. E, se testemunhou que Levi matou a pessoa, conquanto pensando que Simeão era o que matou, ainda que não minta — pois eis que o assunto foi assim —, eis que é mentiroso mechazev, pois a sua boca e o seu coração não são iguais, e a boca mente ao pensamento do coração. E a regra é que "mentira" kazav se chama só do lado do que diz, quando a boca e o coração não concordam juntos; e "falso" sheker se chama do lado do próprio assunto, quando não concordam o dito pela boca e o que está fora da alma juntos; e, se o dito pela boca diferir do que está na alma e do que está fora da alma, isto se chama falso e mentira; e, quando concordar de todos os lados, isto se chama verdade.
״אֱמֶת״ יֵאָמֵר כְּשֶׁיַּסְכִּים הַנֶּאֱמָר בַּפֶּה עִם מַה שֶּׁבַּנֶּפֶשׁ וְעִם מַה שֶּׁחוּץ לַנֶּפֶשׁ. ״כָּזָב״ מִצַּד הָאוֹמֵר (כְּשֶׁאֵין הַפֶּה וְהַלֵּב שָׁוִים), ״שֶׁקֶר״ מִצַּד הָעִנְיָן (כְּשֶׁאֵין הַנֶּאֱמָר מַסְכִּים עִם מַה שֶּׁחוּץ לַנֶּפֶשׁ).
2 E por isso está claro que o nome "existente" nimtza é impossível que se verifique sobre algum existente dos existentes na verdade senão sobre o Senhor; pois aquilo que é fora dele dentre os existentes é impossível que se verifique sobre ele o nome "existente" na verdade em todos os tempos, senão enquanto está existente apenas, não depois disso nem antes disso; mas ele, bendito seja, por ser permanente sempre sobre um só modo, será a sua existência uma existência verdadeira, e concordará sempre o compreendido do nome "existente" na alma com o que está fora da alma e com o dito pela boca; e por isso recai sobre ele o nome "existente" na verdade mais que sobre tudo o que é fora dele dentre os existentes.
3 E assim recai o nome "existente" na verdade sobre quem não tem a sua existência dependente de outro, mas da sua própria essência, pois não há nele possibilidade alguma, visto que a sua existência está dependente da sua essência; pois, se dissermos sobre os céus que se movem sempre, eis que isto será verdade quando se achar o motor que os mova, mas, se faltar o seu motor, isto não será verdade; assim nos intelectos separados, se se disser sobre eles que são existentes, isto será verdade ao achar-se o que os faz existir e o que mantém a sua existência, mas no exame de si mesmos a sua existência não é uma existência absoluta, visto que estão dependentes de outro e a existência não lhes é necessária senão no exame da sua causa; e por isso não há em todos os existentes quem sobre o qual recaia o nome "existente" na verdade senão o Nome, bendito seja, que é o existente cuja existência está dependente da sua própria essência e não de outro de modo algum, e por isso a sua existência será uma existência verdadeira.
שֵׁם ״נִמְצָא״ אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּצְדַּק עַל שׁוּם נִמְצָא בֶּאֱמֶת אֶלָּא עַל הַשֵּׁם, כִּי הוּא קַיָּם תָּמִיד עַל אֹפֶן אֶחָד, וּמְצִיאוּתוֹ תְּלוּיָה בְּעַצְמוּתוֹ וְלֹא בְּזוּלָתוֹ. אֲבָל הַשְּׂכָלִים הַנִּבְדָּלִים נִתְלִים בְּזוּלָתָם.
4 E por causa disto é que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "o selo do Santo, bendito seja, é Verdade emet" — porque não há nos existentes quem sobre o qual recaia o nome "existente" na verdade em todos os tempos e em todos os exames — quer dizer, no exame de si mesmo ou de outro — senão ele, bendito seja.
5 E é isto o que se aludiu a Moisés na sarça, quando perguntou e disse "e se me disserem: qual é o seu nome? Que lhes direi?" (Êxodo 3:13); pois Moisés pensou que talvez o que se lhe mostrava fosse um dos intelectos separados, cuja existência está dependente de outro, e por isso receava que talvez não alcançasse o seu intento, visto que toda a existência e a força deste "outro" está dependente de outro, e, se aquele "outro" quisesse anular a sua vontade, ela se anularia sem dúvida e não sairia ao ato coisa alguma do que ele deseja; e por isso respondeu-lhe o Nome, bendito seja, que o seu nome é "Serei o que serei" Ehyeh Asher Ehyeh (Êxodo 3:14) — quer dizer, o existente cuja existência está dependente da sua própria essência e não de outro, e por isso Moisés ficaria garantido de que fará o seu desejo e a sua vontade em tudo o que quiser; e é esta a expressão "que serei" asher ehyeh, que é uma expressão do que fala por si mesmo — quer dizer, eu existo do lado de que eu existo, não do lado de que outro existe, pois a minha existência e a minha força não estão dependentes de outro de modo algum, como é o assunto nos demais existentes; pois aquilo que é fora de mim dentre os existentes não recai sobre ele este nome tal que possa dizer sobre si mesmo "serei o que serei" Ehyeh Asher Ehyeh, mas o que recai sobre ele é a expressão "serei o que será" Ehyeh Asher Yihyeh — pois a palavra "será" yihyeh não indica o que fala por si, mas um outro existente oculto que é a sua causa; e quer dizer "serei o que será", a saber eu existo do lado de que outro existe — e ele é a Causa Primeira, na qual a existência de todos os existentes está dependente; e ele, bendito seja, tem a sua existência dependente de si mesmo e não de outra causa, e por isso se verifica sobre ele apenas, diferentemente de outro dentre os existentes, o nome "Serei o que serei" — quer dizer, eu existo e me acho do lado de que eu existo, não do lado de que outro existe; e por isso a sua existência é uma existência verdadeira, visto que não precisa de outro.
״חוֹתָמוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֱמֶת״. וְזֶהוּ שֶׁנִּרְמַז לְמֹשֶׁה ״אֶהְיֶה אֲשֶׁר אֶהְיֶה״ — הַנִּמְצָא שֶׁמְּצִיאוּתוֹ תָּלוּי בְּעַצְמוּתוֹ. וְזוּלָתוֹ יִפֹּל עָלָיו ״אֶהְיֶה אֲשֶׁר יִהְיֶה״, אֲנִי הֹוֶה מִצַּד שֶׁזּוּלָתִי הֹוֶה.
6 E recai sobre ele o nome "Verdade" mais que sobre outro dentre os existentes, a ponto de ser possível que digamos que não há em todos os atributos um atributo que se verifique sobre ele de todos os lados senão o nome "Verdade"; pois não acrescenta coisa sobre a essência, mas é a explicação do nome "necessário de existência"; pois, assim como dissemos que o homem é animal vivente falante, e a vida e a fala são a explicação do nome "homem" e não são coisa fora do homem, assim o nome "Verdade" é a explicação do nome "necessário de existência", não além disso; pois a palavra "necessário de existência" não é coisa fora de um existente cuja existência é verdade absoluta, tal que não há nele possibilidade nem dependência de outro; e por isso este atributo era permitido no seu respeito, bendito seja, mais que todos os atributos e mais que todos os nomes.
וְיִפֹּל עָלָיו שֵׁם הָאֱמֶת יוֹתֵר, עַד שֶׁאֶפְשָׁר שֶׁאֵין תֹּאַר שֶׁיִּצְדַּק עָלָיו מִכָּל הַצְּדָדִין אֶלָּא שֵׁם הָאֱמֶת, כִּי לֹא יוֹסִיף עַל הָעַצְמוּת, אֲבָל הוּא בֵּאוּר שֵׁם ״מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת״.
7 E é isto o que se acha que o profeta descreve o Nome, bendito seja, com o atributo da Verdade num assunto particular diferente de tudo o que é fora dele dentre os nomes e os atributos; disse "e o Senhor D'us é Verdade; ele é D'us vivo e Rei do mundo" (Jeremias 10:10) — explicou nisto a diferença que há entre quando se descreve com verdade e quando se descreve como sendo vivo, ou rei, ou com os demais atributos.
8 E isto é assim porque já se explicou no Quarto Livro da Metafísica que aquilo sobre o que se diz "ele" hu já se imagina nele alteridade zulatiyut de algum modo — como "ele hu é Assuero, aquele que reina de Hodu até Cuxe" (Ester 1:1), "ele hem, eles são Datã e Abirão, os convocados da congregação, que" etc. (Números 26:9), "ele hu é Aarão e Moisés" etc. (Êxodo 6:26) — pois em todos estes já se pensaria que são outros homens diferentes daqueles que a Escritura explicou depois; e assim "ele hu é o Senhor, nosso D'us; em toda a terra estão os seus juízos" (Salmos 105:7), porque já seria possível que se imaginasse que o D'us de Israel tem um domínio particular como os demais príncipes do alto destinados a cada nação; por isso explicou que não é assim, mas ele, bendito seja, que é nosso D'us, em toda a terra estão os seus juízos — quer dizer, que tem um domínio que abrange toda a terra; e assim em todo lugar em que se diz "ele" hu, vem explicar que não há nele alteridade como seria possível que se imaginasse. Mas, porque na expressão "verdade" é impossível que se imagine nele alteridade alguma, foi minucioso o profeta na sua linguagem: pois, quando descreveu o Nome, bendito seja, como sendo verdade, não disse a expressão "ele" hu, mas "e o Senhor D'us é Verdade"; mas, quando o descreveu com a vida ou com o reino, disse "ele hu é D'us vivo e Rei do mundo" — para indicar que, ainda que do lado da compreensão da vida e do reino se imagine alguma alteridade entre ele e eles (ainda que não seja assim por via da verdade, como explicamos), de todo modo no nome "Verdade" não há nele alteridade alguma; e por isso não disse nele "e o Senhor D'us, ele hu é Verdade". E por causa da alteridade compreendida dos demais atributos é que dissemos ser cabido que se compreendam todos os atributos negativos, a fim de que não obriguem multiplicidade alguma na sua essência de modo algum.
״וַה׳ אֱלֹהִים אֱמֶת הוּא אֱלֹהִים חַיִּים וּמֶלֶךְ עוֹלָם״. כְּשֶׁתֵּאֲרוֹ בֶּאֱמֶת לֹא אָמַר ״הוּא״, אֲבָל בַּחַיּוּת אָמַר ״הוּא אֱלֹהִים חַיִּים״, כִּי בֶּ״אֱמֶת״ אֵין בּוֹ זוּלָתִיּוּת כְּלָל.
9 E, por ser a compreensão deste atributo um assunto mais profundo que a compreensão dos demais atributos, disse Daniel na sua oração "e não suplicamos a face do Senhor, nosso D'us, a fim de voltar das nossas iniquidades e de discernir na tua verdade la-haskil ba-amitecha" (Daniel 9:13) — pois o discernir na sua verdade não é coisa fora da compreensão da necessidade da sua existência. E por ser o nome "Verdade" o que indica com uma indicação completa o necessário de existência, mais que os demais atributos, houve dentre os antigos estabelecedores das convenções quem disse que a Verdade é o D'us.
10 E é cabido que o nome "Verdade" seja próprio dele, bendito seja, diferentemente de tudo o que é fora dele dentre os existentes, por incluir a primeira das letras álef e a última tav, e o mem que está no meio delas — para indicar que ele, bendito seja, é primeiro, e último, e do meio, aquele que sustenta sempre tudo com a sua força. E o motivo de não termos contado a "Verdade" como uma raiz das raízes que se ramificam do princípio da existência de D'us, como contamos a unidade, é porque se explicou que a Verdade não é coisa fora da explicação do nome "necessário de existência", e seria, conforme isto, uma repetição e um excesso, pois o nosso dizer "o Nome é Verdade" não é coisa fora do nosso dizer "a existência do Nome é uma existência verdadeira", e isto é a explicação do nome "necessário de existência", não além disso de modo algum.
״לְהַשְׂכִּיל בַּאֲמִתֶּךָ״. וְשֵׁם הָאֱמֶת כּוֹלֵל תְּחִלַּת הָאוֹתִיּוֹת [א] וְסוֹפָן [ת] וְהַמֵּ״ם שֶׁבָּאֶמְצַע, לְהוֹרוֹת שֶׁהוּא רִאשׁוֹן וְאַחֲרוֹן וְאֶמְצָעִי. וְלֹא מָנִינוּ אוֹתוֹ שֹׁרֶשׁ, כִּי הוּא בֵּאוּר שֵׁם ״מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת״.
Albo abre com uma análise lógica precisa de três termos. A verdade (emet) é a tripla concordância: o dito = o pensado = o real. A mentira (kazav) é defeito do falante — quando boca e coração discordam (mesmo que o fato seja verdadeiro). O falso (sheker) é defeito do conteúdo — quando o dito não corresponde ao real (mesmo que sincero). O exemplo de Rúben confundindo Levi com Simeão ilustra cada caso com rigor jurídico.
A aplicação é metafísica: o nome "existente" só se verifica na verdade em D'us. Toda criatura "existe" apenas enquanto existe — antes não era, depois não será —, e mesmo agora a sua existência depende de outro (os céus se movem só enquanto há motor; os anjos existem só enquanto sustentados). Só D'us existe sempre e por si mesmo. Daí "o selo do Santo é Verdade" (Shabat 55a): só sobre Ele "existente" é verdade em todos os tempos e exames.
A leitura de Ehyeh Asher Ehyeh (Êx 3:14) é o coração do capítulo. Moisés temia que o ser que lhe aparecia fosse um intelecto subordinado, incapaz de garantir a redenção (pois dependeria de outro). D'us responde com um nome que é uma declaração de auto-suficiência absoluta: "Serei o que serei" — eu existo porque eu existo, não porque outro existe. Albo contrasta genialmente com o que não se pode dizer de nenhuma criatura: "Ehyeh Asher Yihyeh" ("serei o que ele será") — pois "yihyeh" (3ª pessoa) aponta para uma causa exterior. Só D'us pode usar a 1ª pessoa em ambos os lados: existência radicalmente independente, que garante o cumprimento de toda promessa.
A sutileza gramatical final é deslumbrante. Albo nota (citando a Metafísica) que a palavra "ele" (hu) sempre insinua alteridade — "ele é Assuero", "ele é Aarão e Moisés" sugerem identificar com outro. Por isso Jeremias 10:10 diz "o Senhor D'us é Verdade" (sem "hu"), mas "hu é D'us vivo e Rei" (com "hu") — pois "vivo" e "rei" admitem alteridade, mas "Verdade" não admite nenhuma. E o nome emet é o mais próprio de D'us porque suas letras são a primeira (א), a do meio (מ) e a última (ת) do alfabeto — sinal de que Ele é primeiro, médio e último, sustentando tudo. Albo encerra explicando por que não contou "Verdade" entre as raízes: ela não acrescenta nada — é apenas a explicação do que significa "necessário de existência", o próprio coração do primeiro princípio.
O Nome de quatro letras é o "Nome inefável" (Shem haMeforash) — exclusivo de D'us, pois indica a necessidade da sua existência, ao contrário dos demais nomes (de ação). Mas é aplicado por empréstimo a anjos, à arca e a lugares — pois o anjo fala em nome do seu Enviador. Daí: adorar um anjo por si é idolatria; e a grave advertência contra usar a Cabala sem tradição.
O Nome de quatro letras é o "Nome inefável" (Shem haMeforash) — exclusivo de D'us, pois indica a necessidade da sua existência, ao contrário dos demais nomes (de ação). Mas é aplicado por empréstimo a anjos, à arca e a lugares — pois o anjo fala em nome do seu Enviador. Daí: adorar um anjo por si é idolatria; e a grave advertência contra usar a Cabala sem tradição.
1 O Nome escrito com yod-he-vav-he é o que se chama "Nome inefável" Shem haMeforash, e quer dizer "o Nome separado" nivdal; e esta expressão é usual nas palavras dos nossos mestres, de abençoada memória, a fim de dizer sobre a coisa separada de outra coisa "que se separa" poresh — disseram "carne que se separa do vivente", "o que se separa do prepúcio"; e os homens que são separados nivdalim de outros em excelência e piedade, dizem sobre eles que são "separados" perushim.
2 E no Talmud tratado Sotá disseram: "'Assim abençoareis' (Números 6:23) — com o Nome inefável. Dizes que é com o Nome inefável, ou não é senão com o seu substituto kinui? Diz a Escritura 'e porão o meu nome sobre os filhos de Israel' (Números 6:27) — o meu nome próprio a mim." Eis que explicaram que a interpretação de "Nome inefável" é que é separado e próprio a ele, bendito seja, diferentemente de tudo o que é fora dele dentre os nomes; e isto é assim porque os demais nomes são nomes ditos sobre ele, bendito seja, e sobre outro, por serem nomes postos a ele do lado das ações ou do lado de alguma outra consideração fora da necessidade da sua existência — como "Elohim", que indica o poder, e por isso se diz sobre ele e sobre outro, pois "Elohim" se diz sobre os anjos e os juízes; e assim "Adonai", que indica o senhorio, se diz sobre ele e sobre outro; e assim nos demais nomes há os que são deste modo, quer dizer, que já é possível que se digam sobre ele e sobre outro, seja por homonímia completa, seja por anterioridade e posterioridade. Mas o Nome de quatro letras é impossível que se verifique sobre outro de modo algum, porque é um nome que se diz sobre ele, bendito seja, do lado da necessidade da sua existência; e assim escreveu o Rambam, de abençoada memória, no capítulo 61 da Primeira Parte do Guia; e isto é uma coisa na qual não participa outro dentre os existentes de modo algum, e por isso se chama "Nome inefável".
שֵׁם הַנִּכְתָּב בְּיוֹד הֵא וָו הֵא הוּא הַנִּקְרָא ״שֵׁם הַמְפֹרָשׁ״, רוֹצֶה לוֹמַר הַנִּבְדָּל. ״כֹּה תְבָרְכוּ בְּשֵׁם הַמְפֹרָשׁ... שְׁמִי הַמְיֻחָד לִי״. כִּי שְׁאָר הַשֵּׁמוֹת נֶאֱמָרִים עָלָיו וְעַל זוּלָתוֹ (כְּאֱלֹהִים עַל הַמַּלְאָכִים וְהַדַּיָּנִים), אֲבָל שֵׁם בֶּן אַרְבַּע אוֹתִיּוֹת מִצַּד חִיּוּב מְצִיאוּתוֹ.
3 E, com tudo isto, já se acha que este Nome se empresta a outro dentre os existentes por via de empréstimo hash'alá; pois eis que a Escritura diz "e o Senhor Hashem ia diante deles de dia numa coluna de nuvem a fim de guiá-los no caminho" etc. (Êxodo 13:21), e está escrito depois disso "e moveu-se o anjo de D'us que ia diante do acampamento de Israel" etc. (Êxodo 14:19). E isto é porque os nomes se emprestam aos seres a que se aplicam por dois lados: ou do lado de que se assemelham a eles em alguma coisa — ainda que não se assemelhem de modo algum senão com uma semelhança remota —; ou do lado de que indicam sobre eles com uma indicação remota, como a indicação do instrumento sobre o dono do instrumento. Pois a Escritura diz sobre o Messias "e servirão ao Senhor, seu D'us, e a David, seu rei, que eu lhes levantarei" (Jeremias 30:9), por se assemelhar o rei Messias, no seu reino, a David, e por ser o Messias da semente de David, e a fim de indicar que o reino de David é permanente. E assim a Escritura chama a arca aron pelo Nome do Senhor, com o facto de ser ela um instrumento feito por ofício, por indicar o Nome que dá a Torá que está na arca; disse a Escritura "e era, ao mover-se a arca, que dizia Moisés: levanta-te, Senhor" (Números 10:35); e assim Josué disse sobre a arca "eis que a arca da aliança do Senhor de toda a terra passa diante de vós no Jordão" (Josué 3:11) — e a arca não é o Senhor de toda a terra, mas a chama assim por se achar ela do lado do Senhor de toda a terra; pois assim é o feitio da língua derech halashon, chamar a coisa pelo nome do dono da coisa, ou daquele de quem a coisa decorre, ou atribuir a ação do dono da coisa à coisa por cuja mão se faz aquela ação — como, na linguagem dos filhos do homem, se atribui a ação do agente ao instrumento por cuja mão chega aquela ação, já que dizemos que o olho vê e o ouvido ouve, e a visão e a audição não são senão da alma, e o olho e o ouvido são instrumentos por cujo meio chega aquela ação.
וּכְבָר יֻשְׁאַל זֶה הַשֵּׁם לְזוּלָתוֹ עַל צַד הַהַשְׁאָלָה. ״וַה׳ הֹלֵךְ לִפְנֵיהֶם״, וְאַחַר כָּךְ ״וַיִּסַּע מַלְאַךְ הָאֱלֹהִים״. וְכֵן יִקְרָא הָאָרוֹן בְּשֵׁם הַשֵּׁם, כִּי דֶּרֶךְ הַלָּשׁוֹן לִקְרֹא הַדָּבָר בְּשֵׁם בַּעַל הַדָּבָר, כְּמוֹ שֶׁהָעַיִן רוֹאָה וְהָאֹזֶן שׁוֹמַעַת.
4 E por estas duas coisas como uma só chamou Moisés o nome do altar "o Senhor é o meu estandarte" Hashem nissi (Êxodo 17:15), por ser o altar um instrumento a fim de que se façam por sua mão milagres, e por indicar também o Nome que é aquele que faz os milagres. E a Escritura chama o nome do Messias "o Senhor é a nossa justiça" Hashem tzidkenu (Jeremias 23:6), por ser ele o intermediário a fim de que alcancemos a justiça do Senhor por sua mão, e por isso o chama pelo Nome do Senhor. E assim chama Jerusalém "o Senhor está ali" Hashem shamá (Ezequiel 48:35), por ser o lugar em que se viu e se revelou ali a glória do Senhor com mais continuidade que em todos os lugares; e os nossos mestres, de abençoada memória, que disseram "não leias 'o Senhor está ali' Hashem shamá, mas 'o Senhor é o seu nome' Hashem shemá" — a saber que o nome de Jerusalém é "o Senhor" —, foi por esta razão também. E assim achamos que Abraão chamou o nome do lugar "o Senhor verá" Hashem yireh (Gênesis 22:14), por se ter visto nele uma ação que indica que o Senhor vê e vela.
קָרָא מֹשֶׁה שֵׁם הַמִּזְבֵּחַ ״ה׳ נִסִּי״, וְהַכָּתוּב שֵׁם הַמָּשִׁיחַ ״ה׳ צִדְקֵנוּ״, וִירוּשָׁלַיִם ״ה׳ שָׁמָּה״, וְאַבְרָהָם ״ה׳ יִרְאֶה״.
5 E por este modo é que a Escritura chama a Presença Shechiná, ou a glória vista ou apreendida na visão da profecia, "o Senhor": "e viu o Senhor que se desviava para ver" etc. (Êxodo 3:4), "e disse o Senhor: ver, vi a aflição do meu povo que está no Egito" (Êxodo 3:7), "e vi o Senhor sentado sobre um trono alto e elevado" (Isaías 6:1); e a chama também "D'us de Israel", "e viram o D'us de Israel" (Êxodo 24:10); e a chama "D'us", "e contemplaram a D'us" (Êxodo 24:11) — pois a Escritura chama a Presença ou a glória vista "o Senhor" e "D'us" e "D'us de Israel", ainda que ele, bendito seja, não seja alcançado por nenhum criado fora dele, como está escrito "pois não me verá o homem, e continuará a viver" (Êxodo 33:20). E assim a Escritura chama "o Senhor" ao anjo: disse sobre o anjo que se mostrou a Gideão "e voltou-se a ele o Senhor e disse: vai com esta tua força" etc. (Juízes 6:14), "e disse-lhe o Senhor: porque eu estarei contigo" etc. (Juízes 6:16); e em toda aquela narrativa a Escritura chama o anjo pelo Nome do Senhor.
וְכֵן יִקְרָא הַכָּתוּב לַשְּׁכִינָה אוֹ לַכָּבוֹד הַנִּרְאֶה ״ה׳״, אַף עַל פִּי שֶׁהוּא לֹא יַשִּׂיגֵהוּ שׁוּם נִבְרָא, ״כִּי לֹא יִרְאַנִי הָאָדָם וָחָי״. וְכֵן יִקְרָא ״ה׳״ לַמַּלְאָךְ, כְּמוֹ שֶׁנִּרְאָה לְגִדְעוֹן.
6 E assim acha-se que a Escritura aplica o nome "glória" kavod a existentes diferentes: pois o diz sobre a face do Senhor não-alcançada, como achamos que, quando Moisés pediu do Nome, bendito seja, e lhe disse "mostra-me, por favor, a tua glória" (Êxodo 33:18), respondeu o Nome, bendito seja, "não poderás ver a minha face" (Êxodo 33:20) — eis que o nome "glória" se diz sobre a face do Senhor. E acha-se que a Escritura o aplica à coisa alcançada pelo sentido: disse "e apareceu a glória do Senhor a todo o povo" (Levítico 9:23), "e a aparência da glória do Senhor era como fogo devorador no cume do monte" (Êxodo 24:17), "e de manhã vereis a glória do Senhor" (Êxodo 16:7). E isto é por ser a coisa alcançada pelo sentido a que indica a coisa oculta não-alcançada chamada "face do Senhor" e "glória do Senhor". E daqui permitiram os profetas a si mesmos denominar a coisa que se lhes mostra pelo nome da coisa oculta não-vista, que é o Senhor, a ponto de falarem com o anjo ou a glória que se lhes mostra como se falassem com o Senhor, bendito seja; pois Elias falava com o anjo que se lhe mostrava ou que lhe falava, diretamente, como se fosse o Senhor — disse "pois abandonaram a tua aliança os filhos de Israel" etc. (I Reis 19:10), e veio-lhe a resposta sobre isto "sai e fica no monte diante do Senhor" etc. (I Reis 19:11), e então ouviu a voz do meio do silêncio tênue a falar com ele e a dizer "que fazes aqui, Elias?" (I Reis 19:13).
7 E o que se admiraram sobre Moisés e disseram "'sobe ao Senhor' (Êxodo 24:1) — 'sobe a mim' deveria dizer", e não se admiraram sobre Elias "'e fica no monte diante do Senhor' — 'diante de mim' deveria dizer" — é porque em Elias não era estranho junto a eles que o que falava com ele fosse um intermediário, mas em Moisés, após a doação da Torá, em que alcançou o grau de "face a face", admiraram-se sobre isto, como diz "sobe ao Senhor" — o que indica que o que falava com ele era um intermediário fora do Senhor; e responderam que aquele intermediário era Metatron, cujo nome é como o nome do seu Senhor, e ele é o "príncipe da face" sar hapanim. E os profetas permitiram a si mesmos falar com eles como se falassem com o Senhor, por serem intermediários a fim de fazer chegar por sua mão a profecia do Senhor a eles; e a isto aludiram os nossos mestres, de abençoada memória, ao dizerem "grande é a força dos profetas, que assemelham a forma tzurá ao seu Formador" — quer dizer, grande é a sua força, já que permitem a si mesmos fazer uma coisa grande como esta; pois o homem tem o feitio de dizer sobre a ordem que sai da boca do enviado do rei "o rei ordenou assim", e falar com ele com honra como se falasse com o rei.
הִתִּירוּ הַנְּבִיאִים לְעַצְמָם לְכַנּוֹת הַנִּרְאֶה אֲלֵיהֶם בְּשֵׁם הַשֵּׁם. ״עֲלֵה אֶל ה׳״, וְהֵשִׁיבוּ שֶׁהָאֶמְצָעִי הָיָה מֶטַטְרוֹן שֶׁשְּׁמוֹ כְּשֵׁם רַבּוֹ. ״גָּדוֹל כֹּחָן שֶׁל נְבִיאִים שֶׁמְּדַמִּין הַצּוּרָה לְיוֹצְרָהּ״.
8 E sabe que os anjos, por serem separados da matéria e por ser impossível que os alcancem os acidentes que decorrem n'os dotados de matéria — como ciúme, e ódio, e rivalidade —, pois são limpos de todo mal e não há neles soberba nem escolha pelo mal e pelo pecado de modo algum, mas a sua escolha é sempre pelo bem e pelo reto aos olhos de D'us — por isso lhes foi permitido, quando são enviados aos filhos do homem, falar na linguagem do seu Enviador, como achamos isto explícito em muitos lugares, a saber que o que se mostra é um anjo e fala em nome do seu Enviador: disse o anjo a Hagar "multiplicar multiplicarei a tua semente" (Gênesis 16:10), e a Abraão disse "voltar voltarei a ti como ao tempo da vida" (Gênesis 18:10), na missão do Onipresente, como explicou Rashi, pois não achamos que o anjo volte a ele; e assim Jacó disse "e disse-me o anjo de D'us no sonho: Jacó! E eu disse: eis-me aqui" (Gênesis 31:11), e no fim do sonho se lhe disse "eu sou o D'us de Bet-El, onde ungiste uma estela, onde me fizeste um voto" etc. (Gênesis 31:13) — e Jacó não fez um voto ao anjo, mas ao Senhor; e assim disse o anjo a Abraão "agora sei que és temente a D'us, e não retiveste o teu filho, o teu único, de mim" (Gênesis 22:12) — e Abraão não amarrava Isaque, seu filho, senão para o Senhor, bendito seja; e assim Gideão, disse-lhe o anjo "porque eu estarei contigo" (Juízes 6:16); e assim a Moisés, no princípio da sua profecia, na sarça, disse a Escritura "e apareceu o anjo do Senhor a ele" (Êxodo 3:2), e no princípio da fala se lhe disse "eu sou o D'us de teu pai... ver, vi a aflição do meu povo que está no Egito" etc. (Êxodo 3:6-7); e isto é um sinal de que o anjo fala em nome do seu Enviador.
9 E a razão em tudo isto é que o anjo não desobedece à boca do Senhor a fim de mudar a sua missão nem de tomar autoridade para si — porque o anjo não se chama "anjo" malach por ser um intelecto separado, mas por vir numa missão malachut do Senhor; e, se mudasse a sua missão, não seria então anjo; e assim não tem permissão de fazer, na hora da missão, nenhuma coisa ou ação a respeito da qual não foi ordenado pelo Senhor; e por isso o anjo enviado na missão do Senhor não quer revelar o seu nome que tem do lado de si mesmo e da sua força particular a ele, fora da missão na qual foi enviado: disse o anjo a Jacó, quando este lhe disse "dize, por favor, o teu nome", "por que isto me perguntas pelo meu nome?" (Gênesis 32:30); e assim disse o anjo a Manoah "por que isto me perguntas pelo meu nome, já que é maravilhoso peli?" (Juízes 13:18), e disse-lhe também "se me detiveres, não comerei do teu pão; e, se fizeres holocausto, ao Senhor o oferecerás" (Juízes 13:16) — quer dizer, se ofereceres holocausto a mim, não o aceitarei e não te aproveitará coisa alguma, pois eu não me mostro a ti do lado de mim mesmo e da força que tenho de mim mesmo.
הַמַּלְאָכִים נְקִיִּים מִכָּל רַע, וּבְחִירָתָם תָּמִיד אֶל הַטּוֹב, וְלָכֵן הֻתַּר לָהֶם לְדַבֵּר בִּלְשׁוֹן שׁוֹלְחָם. וְאֵין הַמַּלְאָךְ רוֹצֶה לְגַלּוֹת שְׁמוֹ מִצַּד עַצְמוֹ, ״לָמָּה זֶּה תִּשְׁאַל לִשְׁמִי״.
10 E por causa disto, o que se prostra ao anjo do lado de si mesmo e da sua força é aquele que corta as plantações mekatzetz banetiot, herege e adora idolatria, sobre a qual foi advertido na fala "não terás outros deuses diante de mim" (Êxodo 20:3), como explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, na Mechilta, e como se explicará no capítulo 18 do Maamar III. Mas o que se prostra a ele do lado de que é enviado do Senhor, isso é permitido — como o que se prostra ao oficial do rei do lado de si mesmo e da sua força e o recebe como senhor, e não do lado da força que tem do rei, é aquele que se rebela contra o reino; e o que se prostra a ele do lado de que é enviado do rei, isso é honra para o rei. E por causa disto era permitido a Josué prostrar-se ao anjo, quando se lhe mostrou em Jericó e lhe disse "eu sou o príncipe do exército do Senhor; agora vim" (Josué 5:14), "e caiu Josué sobre a sua face, à terra, e prostrou-se" etc. — com o facto de ser a prostração uma das quatro formas de serviço avodot que é proibido fazer mesmo aos anjos do serviço, como sacrificar, e queimar incenso, e libar; mas, porque aquela prostração era para a honra do Senhor, por ser este apenas o seu enviado, era permitida. Mas o que ora ao anjo ou se prostra a ele do lado de si mesmo e da sua força particular a ele, e do lado do que indica o seu nome, é o que se advertiu na fala "não terás outros deuses diante de mim"; e assim escreveu o Ramban, de abençoada memória.
הַמִּשְׁתַּחֲוֶה לַמַּלְאָךְ מִצַּד עַצְמוֹ הוּא עוֹבֵד עֲבוֹדָה זָרָה. אֲבָל הַמִּשְׁתַּחֲוֶה לוֹ מִצַּד שֶׁהוּא שְׁלִיחַ ה׳ הוּא מֻתָּר, כְּמוֹ יְהוֹשֻׁעַ לְשַׂר צְבָא ה׳, שֶׁהָיְתָה לִכְבוֹד הַשֵּׁם.
11 E daqui se explicou o erro dos que mencionam na sua oração os nomes dos anjos; pois os nomes dos anjos, na verdade, são deles do lado da força que têm em si mesmos, e é isto o que se advertiu na fala "não terás" como escrevemos. E, na verdade, caiu o erro nisto porque acharam algumas orações atribuídas aos antigos nas quais se mencionaram nomes particulares, e pensaram, a partir disso, que é permitido introduzir na oração todos os nomes — e não é assim; pois não foi permitido mencionar nome algum dos nomes na oração senão os nomes próprios a ele, bendito seja, e não um outro nome de modo algum. E por isso aquela sabedoria se chama "Cabala" kabbalá, tradição/recepção, porque é impossível usá-la senão por via de tradição kabbalá; pois, se não for assim, é possível que o homem venha a errar e adore um deus além do Senhor.
12 E, para que o que medita entenda e saiba, darei um exemplo nisto: eis que se acha nas orações dos antigos o nome "Matzpatz", e aquele que vê pensará que é um nome de um dos anjos — e não é assim, mas é um substituto kinui do Nome de quatro letras pela troca das letras no alfabeto "at-bash" a primeira por a última, etc.. E assim "Kuzu Bemuchsaz" é um substituto de "Hashem Elohenu Hashem" pela troca de cada letra pela letra que vem depois dela no alfabeto, pois trocam yod por kaf, e he por vav, e assim o resto. E por causa disto está claro que nenhum homem tem permissão de usar coisa alguma das palavras dos sábios da Cabala a partir do seu próprio raciocínio, a não ser que seja recebido da boca de um sábio possuidor da tradição nela; pois o raciocínio próprio naquela sabedoria é proibido, exceto para o que é recebido da boca de um sábio, e é impossível chegar à verdade nela a partir da escrita de modo algum — pois por isso se chama "Cabala", que é conforme o seu nome = "o que se recebe".
13 E precisei escrever isto porque vi homens que se confundem nisto e leem no livro do Zohar e em outros livros dos sábios da Cabala sem tradição, mas a partir do seu próprio raciocínio, a fim de mostrar que têm uma grande sabedoria, e entram para dentro da sua própria cerca lifnim mimechitzatam a fim de cogitar pensamentos numa coisa na qual o pensar é proibido. E já advertiu sobre isto o grande dos sábios posteriores, os cabalistas, nosso mestre o Ramban, de abençoada memória, e disse que as palavras dos sábios da Cabala não se alcançam nem se conhecem de modo algum com nenhum intelecto e discernimento, senão da boca de um sábio cabalista transmitida a um ouvido que recebe e que entende, e o raciocínio nela é uma tolice de muitos danos; estas são as suas palavras na explicação da Torá. E, como regra, digo-te: guarda-te e guarda muito a tua alma, para que não tropeces atrás deles e te enredes na sua armadilha; pois eles deixam as veredas da retidão a fim de andar nos caminhos da treva, já que não sabem nem entendem; na escuridão andam os que se ocupam da Cabala a partir do seu próprio saber, sem tradição da boca de um sábio cabalista.
טָעוּת הַמַּזְכִּירִים בִּתְפִלָּתָם שְׁמוֹת הַמַּלְאָכִים. ״מַצְפַּץ״ הוּא כִּנּוּי לַשֵּׁם בְּחִלּוּף אוֹתִיּוֹת אַ״ת בַּ״שׁ, וְ״כּוּזוּ בְּמוּכְסַז״ כִּנּוּי לְ״ה׳ אֱלֹהֵינוּ ה׳״. וְאֵין אָדָם רַשַּׁאי לְהִשְׁתַּמֵּשׁ בְּדִבְרֵי חַכְמֵי הַקַּבָּלָה מִסְּבָרַת עַצְמוֹ, אֶלָּא מְקֻבָּל מִפִּי חָכָם. וְהִזְהִיר עַל זֶה הָרַמְבַּ״ן ז״ל.
Albo distingue o Tetragrama (YHVH) de todos os outros nomes divinos. "Inefável" (meforash) significa separado, exclusivo: enquanto "Elohim" (poder) ou "Adonai" (senhorio) também se aplicam a anjos e juízes, o Nome de quatro letras designa D'us pela necessidade da sua existência — e nada mais o partilha. É o nome do "Eu sou o que sou" do capítulo anterior, cristalizado em quatro letras.
Mas a Escritura aplica esse Nome a outros — à coluna que é "o anjo de D'us", à arca ("o Senhor de toda a terra"), a lugares ("o Senhor verá", "o Senhor está ali", o altar "o Senhor é meu estandarte"), ao próprio Messias ("o Senhor é nossa justiça"). Albo explica pelo empréstimo (hash'alá): chama-se o instrumento pelo nome de quem age através dele — "como dizemos que o olho vê, mas a visão é da alma; o olho é instrumento". A arca, o anjo, o lugar são "instrumentos" que indicam D'us.
Daí a ousadia profética: Elias, Gideão, Hagar, Jacó, Moisés na sarça — todos dialogam com um anjo como se fosse o próprio D'us, e o anjo fala em primeira pessoa divina ("eu sou o D'us de teu pai"). Por que é lícito? Porque o anjo é puro mensageiro: sem matéria, sem ciúme nem escolha do mal, ele jamais altera a missão ou toma autoridade própria — "não se chama anjo (malach) por ser intelecto separado, mas por trazer uma missão (malachut)". Por isso recusa revelar o "próprio nome" (a Jacó, a Manoah): não quer ser honrado por si. Os sábios chamam isso "assemelhar a forma ao Formador".
O critério decisivo: prostrar-se ao anjo como mensageiro de D'us é honra (Josué ao "príncipe do exército"); prostrar-se a ele por si mesmo e por sua força é idolatria plena — "não terás outros deuses". Daí Albo lança uma advertência notavelmente franca contra invocar nomes de anjos na oração: os nomes próprios dos anjos exprimem o seu poder autônomo, e usá-los beira a idolatria. Os "nomes" das orações antigas que parecem angélicos são, na verdade, cifras do Nome divino — "Matzpatz" é YHVH em atbash; "Kuzu Bemuchsaz" é "Hashem Elohenu Hashem" deslocado uma letra. E o capítulo culmina num alerta severíssimo, ecoando o Ramban: a Cabala só se transmite "de boca a ouvido", jamais se deduz de livros pelo raciocínio próprio — quem lê o Zohar "para mostrar grande sabedoria", sem tradição de um mestre, "anda na treva" e arrisca-se a "adorar um deus além do Senhor". Um raro momento em que Albo, ele mesmo dado a leituras cabalísticas, traça com firmeza os limites do uso legítimo da mística.
"Luz" (or), em seu sentido próprio a luz sensível, é emprestada à orientação, ao deleite, à vontade, à alma, à sabedoria e ao ser separado da matéria — e a D'us. Pois, como a luz, D'us é inegável, incorpóreo, faz sair do potencial ao ato, e nele há deleite inefável; mas o intelecto preso à matéria só o vislumbra um pouco, como o morcego diante do sol.
"Luz" (or), em seu sentido próprio a luz sensível, é emprestada à orientação, ao deleite, à vontade, à alma, à sabedoria e ao ser separado da matéria — e a D'us. Pois, como a luz, D'us é inegável, incorpóreo, faz sair do potencial ao ato, e nele há deleite inefável; mas o intelecto preso à matéria só o vislumbra um pouco, como o morcego diante do sol.
1 "Luz" or — a sua acepção primeira é sobre a luz sensível, como "Ele dá o sol para luz do dia" (Jeremias 31:35), "a manhã clareou" (Gênesis 44:3). E, por ser a luz aquela que mostra ao homem o caminho por que andar, emprestou-se este nome ao encaminhamento e à condução, como "e andarão nações à tua luz" (Isaías 60:3), cuja interpretação é que viverão no encaminhamento que lhes chegará de ti; e diz-se também sobre o encaminhamento divino, "vinde, e andemos na luz do Senhor" (Isaías 2:5); e sobre isto se chama a Torá "luz", pois "candeia é o mandamento, e a Torá é luz" (Provérbios 6:23), por ser encaminhamento e condução à felicidade eterna.
2 E, por se deleitar a alma na luz, como disse a Escritura "e doce é a luz" (Eclesiastes 11:7), emprestou-se o nome "luz" ao deleite corporal, disse a Escritura "para os judeus houve luz orá" (Ester 8:16), e ao deleite da alma, "luz está semeada para o justo, e para os retos de coração, alegria" (Salmos 97:11). E empresta-se à vontade, "na luz da face do rei há vida" (Provérbios 16:15), "e a luz da tua face, pois os aceitaste" (Salmos 44:4), "faze brilhar a tua face, e seremos salvos" (Salmos 80:4). E empresta-se à alma, "a luz dos justos se alegra, e a candeia dos ímpios se apaga" (Provérbios 13:9). E empresta-se à compreensão da sabedoria, "a sabedoria do homem ilumina a sua face" (Eclesiastes 8:1); e daí se chama a ignorância "treva", "e o tolo anda na treva" (Eclesiastes 2:14). E empresta-se à coisa separada da matéria, "e a terra brilhou da sua glória" (Ezequiel 43:2). E empresta-se ao Nome, bendito seja, "e será a luz de Israel para fogo, e o seu Santo para chama" (Isaías 10:17).
״אוֹר״ הַנָּחָתוֹ הָרִאשׁוֹנָה עַל הָאוֹר הַמּוּחָשׁ. וְהֻשְׁאַל עַל הַהַיְשָׁרָה (״וְהָלְכוּ גוֹיִם לְאוֹרֵךְ״), וְעַל הַתּוֹרָה (״תּוֹרָה אוֹר״), וְעַל הַתַּעֲנוּג, וְעַל הָרָצוֹן, וְעַל הַנֶּפֶשׁ, וְעַל הַחָכְמָה, וְעַל הַנִּבְדָּל, וְעַל הַשֵּׁם (״וְהָיָה אוֹר יִשְׂרָאֵל לְאֵשׁ״).
3 E isto é assim porque, assim como a luz é impossível negar a sua existência, e não é corpo, e é aquela que faz sair a potência que vê e as cores visíveis do potencial ao ato, e nela se deleita a alma, e é impossível medir as cores e as aparências, nem o agrado da luz e a sua doçura, a quem não viu luminares em seus dias — e mesmo quem viu luminares se cansará de apreender a luz quando ela é forte, e, se fitar nela mais do que está no seu poder ver, escurecer-se-ão os seus olhos e não verá nem o que é do seu feitio ver —, assim o Nome, bendito seja, é impossível negar a sua existência, e não é corpo, e faz sair as coisas do potencial ao ato, e há na apreensão do que se apreende dele um deleite maravilhoso, e é impossível medir aquele deleite a quem não brilhou sobre ele a luz do intelecto em seus dias; e até os sábios mergulhados na sabedoria, se fitarem naquela apreensão demais, escurecer-se-ão os seus olhos e se confundirá o seu intelecto na sua apreensão — como disseram "Ben Azai fitou e foi golpeado". E por isso é que a Escritura comparou o D'us, bendito seja, à luz, para aludir a que, ainda que a sua existência, bendito seja, seja uma coisa tal que é impossível negá-la, como a luz, de todo modo, por ser o intelecto humano carregado na matéria, é impossível apreender da sua essência, bendito seja, com a apreensão dos seres separados, senão um vislumbre pequeno; e naquela apreensão há um deleite maravilhoso, não corporal, tal que é impossível ao homem medi-lo. Mas o que se apreende dele é semelhante ao que apreende o morcego atalef da luz do sol; pois, pela força da sua luz, escurecem-se-lhe os olhos de olhar para ele, e não pode deleitar-se na luz do sol como se deleitam os demais seres vivos, ainda que a represente com alguma representação, já que se beneficia da luz fraca, como a luz da lua, e a luz da candeia, e a luz que resta nas nuvens após o poente do sol, e não pode andar senão na pupila da noite e na escuridão, e foge da luz do sol; e isto é do que indica que ele se deleita em parte dela da luz fraca e se cansa e foge da luz clara e se aflige nela — o oposto do que acontece à águia nesher, pois, pela força do seu sentido da vista, deleita-se na luz e deseja alçar voo a fim de aproximar-se dela. E todas estas coisas que se acham na luz são fortes em semelhança à coisa separada da matéria mais que tudo o que é possível com que a comparem; e por isso a Escritura a denomina com "luz", a fim de aproximar a sua compreensão do conhecimento.
כְּמוֹ שֶׁהָאוֹר אִי אֶפְשָׁר לְהַכְחִישׁ מְצִיאוּתוֹ וְאֵינוֹ גֶּשֶׁם וּמוֹצִיא מִן הַכֹּחַ אֶל הַפֹּעַל, כֵּן הַשֵּׁם. אֲבָל הַשָּׂגָתוֹ כְּמוֹ הָעֲטַלֵּף מֵאוֹר הַשֶּׁמֶשׁ, שֶׁיִּכְהוּ עֵינָיו, הֵפֶךְ הַנֶּשֶׁר שֶׁמִּתְעַנֵּג בָּאוֹר.
4 Mas, a fim de que o homem não erre a dizer que a luz intelectual é uma coisa decorrente do corpo como a luz sensível, disse Habacuque, quando narrava o assunto da revelação da Presença na doação da Torá e aquela apreensão: "D'us vem de Temã, e o Santo do monte Parã, sela; cobriu os céus o seu esplendor, e do seu brilho a terra se encheu; e um resplendor como a luz kaor será" (Habacuque 3:3-4) — quer dizer, que o resplendor nogah que então se viu era como a luz, mas não era luz propriamente como a luz sensível, pois a luz sensível decorre do corpo, e aquele resplendor não decorria de coisa corporal; e por isso disse "como a luz" kaor, com o kaf da comparação, e não disse "luz" sem mais. E explicou ainda naquela apreensão e disse que aquele resplendor que houve na hora da doação da Torá não era do lado da força de algum intermediário tal que os raios da luz e do influxo lhe viessem de outro, mas do Nome, bendito seja; e por isso disse "raios karnayim da sua mão lhe há" (Habacuque 3:4) — quer dizer, que os raios daquela luz espiritual eram dele de si mesmo e não de outro; e isto indica que não era efeito, pois todos os efeitos têm a luz e o resplendor e o brilho adquiridos de outro, que é o Nome, bendito seja, que é a causa de tudo; mas ele, bendito seja, tem o resplendor e o brilho e o esplendor — quer dizer, os atributos e as perfeições que tem — dele de si mesmo e não de outro, pois não adquire perfeição alguma de outro.
5 E, por ser este assunto muito oculto — como se acham nele todos os atributos das perfeições imaginadas sem que obriguem multiplicidade na sua essência, e como cada um deles é sem fim na importância —, disse "e ali está o esconderijo do seu poder" vesham chevyon uzo (Habacuque 3:4), quer dizer, que aqueles atributos comparados aos raios que decorrem da sua mão a ele, neles está o esconder e a ocultação do poder que ele tem; pois, do lado de que o seu poder e a sua capacidade são sem fim, eles estão ocultos de que se apreendam, pois o finito é impossível que aprenda do sem-fim senão a natureza universal, que é sem fim, mas não os particulares que há nele do lado de que são particulares — como dizemos que o homem apreende a natureza universal de todos os homens que houve e que haverá por via geral, mas é impossível que apreenda a natureza particular que há em cada homem.
״וְנֹגַהּ כָּאוֹר תִּהְיֶה״, עִם כַּ״ף הַדִּמְיוֹן, כִּי לֹא הָיָה אוֹר מַמָּשׁ, שֶׁאֵינוֹ נִמְשָׁךְ מִגֶּשֶׁם. ״קַרְנַיִם מִיָּדוֹ לוֹ״ — שֶׁהָיוּ לוֹ מֵעַצְמוֹ. ״וְשָׁם חֶבְיוֹן עֻזּוֹ״ — שֶׁעֻזּוֹ בִּלְתִּי בַעַל תַּכְלִית וְנִסְתָּר.
6 E por isso está claro que o facto de a Escritura comparar o D'us, bendito seja, à luz não é senão do lado da amplitude da linguagem, a fim de aproximá-lo do conhecimento, não além disso. E por este modo, quando Ezequiel descreveu a glória que se lhe mostrou como um resplendor, disse "como a aparência do arco keshet, arco-íris que há na nuvem no dia da chuva, assim era a aparência do resplendor ao redor; ela é a aparência da semelhança da glória do Senhor" (Ezequiel 1:28); pois a comparou à aparência do arco-íris — não por ser semelhante a ele nas cores, mas por serem as cores que se veem no arco-íris não assim na sua essência, ainda que se vejam assim à vista dos olhos, pela mistura dos vapores diferentes; e a prova disto é que a umidade que há nos olhos às vezes cria no ar, à vista dos olhos, um círculo à semelhança das cores que se veem no arco-íris, ainda que ali não haja cores, sem dúvida.
וּכְשֶׁתֵּאֵר יְחֶזְקֵאל הַכָּבוֹד כְּנֹגַהּ, אָמַר ״כְּמַרְאֵה הַקֶּשֶׁת... כֵּן מַרְאֵה הַנֹּגַהּ סָבִיב הוּא מַרְאֵה דְּמוּת כְּבוֹד ה׳״. כִּי הַגְּוָנִים הַנִּרְאִים בַּקֶּשֶׁת אֵינָם כֵּן בְּעַצְמוּתָם, אֶלָּא מֵהִתְעָרְבוּת הָאֵדִים.
7 Disse Avicena Ibn Sina: "Do arco-íris conheço assuntos e assuntos não conheço; mas as cores não conheço o seu assunto na verdade, nem conheço a sua causa, e não me satisfaz o que disseram nele, pois tudo é mentira e tolice"; até aqui as suas palavras. Vê-se das suas palavras que não há razão física para aquelas cores que se veem, mas que se veem assim à vista dos olhos, ainda que não sejam coisa existente assim na sua essência; e é isto o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "aquele que olha fixamente para o arco-íris, os seus olhos se escurecem" — quer dizer, que o que fita naquelas cores que se veem no arco-íris achará que os seus olhos se escurecem, pois veem uma coisa que não é assim. E por causa disto comparou o profeta a aparência do resplendor da glória que se lhe mostrou àquelas cores, para aludir a que os atributos com que o Nome se mostrava aos profetas não são assim na sua essência, como a aparência do arco-íris que se vê não é assim na sua essência; e sobre isto disse "e caí sobre a minha face" (Ezequiel 1:28), pois, quando mediu que o assunto da luz e do resplendor que se lhe mostrava aos olhos não era assim por via da verdade, disse "ela é a aparência da semelhança demut da glória do Senhor" — e não disse "a aparência da glória do Senhor", mas "a semelhança", pois a coisa separada da matéria não a alcançam os sentidos, já que os sentidos não apreendem da coisa senão os acidentes, e o intelecto separado não tem nele acidentes; e, depois que disse que viu aparências como a aparência do arco-íris, foi forçado a dizer que era "a aparência da semelhança da glória do Senhor" e não "a aparência da glória" mesma, que não tem nela aparência; e por isso caiu sobre a sua face e não quis fitar naquelas aparências, a fim de que não viesse a pensar que aquelas cores eram assim por via da verdade, e que o Nome, bendito seja, fosse um corpo portador dos acidentes.
אָמַר אִבְּן סִינָא: ״הַקֶּשֶׁת אֵדַע מִמֶּנּוּ עִנְיָנִים, אֲבָל הַגְּוָנִים לֹא אֵדַע סִבָּתָם״. ״הַמִּסְתַּכֵּל בַּקֶּשֶׁת עֵינָיו כֵּהוֹת״. וְלָזֶה אָמַר ״הוּא מַרְאֵה דְּמוּת כְּבוֹד ה׳״, וְלֹא ״מַרְאֵה כְּבוֹד ה׳״, כִּי הַנִּבְדָּל אֵין בּוֹ מִקְרִים.
8 E por este modo mesmo é o que fez Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele, na visão da sarça; pois no princípio, quando pensou que o que se mostrava era uma coisa corporal, disse "desviar-me-ei e verei esta grande visão" (Êxodo 3:3), e, quando se lhe disse "eu sou o D'us de teu pai" (Êxodo 3:6) e soube que não era uma coisa corporal, esclareceu-se-lhe que aquelas cores que se viam na chama de fogo na sarça não eram assim por via da verdade; e por causa disto escondeu a sua face, "pois temeu de olhar" (Êxodo 3:6), e o temor era porque os sentidos não só não ajudam à apreensão dos seres espirituais, mas perturbam a apreensão da verdade, já que não apreendem da coisa senão os acidentes — como as cores, e o comprimento, e a largura e os que se lhe assemelham —, e isto leva o homem a pensar que a coisa separada da matéria é alcançada pelos acidentes; e por isso Moisés escondeu a sua face, para indicar que os sentidos não têm ocupação nesta apreensão de modo algum, por não haver nela acidentes. E por isso louvaram os nossos mestres, de abençoada memória, este esconder, e disseram "pelo mérito de 'e escondeu' vayaster mereceu ver a feição klaster da face divina." E por causa disto que dissemos da comparação da coisa espiritual à luz, é que a Escritura denomina o mundo dos intelectos separados com "luz", conforme o que compreenderam os nossos mestres, de abençoada memória.
9 Disseram no Bereshit Rabbá: "'E viu D'us a luz que era boa, e separou' etc. (Gênesis 1:4) — disse Rabi Yehudá filho de Rabi Simon: separou o Santo, bendito seja, a luz para si; disse: nenhuma criatura pode usar dela senão eu; é isto o que está escrito 'e a luz com ele habita' (Daniel 2:22). Disse Rabi Avin, o Levita: tomou-a o Santo, bendito seja, e se envolveu nela como num manto e fez resplandecer o seu mundo do seu brilho; é isto o que está escrito 'envolvendo-se em luz como num manto' (Salmos 104:2). E os rabinos dizem: guardou-a para os justos no porvir; é um exemplo de um rei que viu uma porção bela e disse: esta é para o meu filho; é isto o que está escrito 'luz está semeada para o justo' (Salmos 97:11)." Eis que estes sábios todos concordam que esta luz não é a luz sensível, mas alude com isto à luz espiritual, que é o mundo dos intelectos separados; e disse Rabi Yehudá filho de Rabi Simon que é impossível ao intelecto humano apreendê-los, e que não foram criados senão a fim de reconhecer a grandeza do Santo, bendito seja, e dizer cântico e louvor diante dele apenas; e Rabi Avin, o Levita, diz que esta luz é anterior na causa aos demais existentes, e que foram criados a fim de serem como instrumento do ofício do Onipresente, conforme o dito do filósofo a saber que D'us contemplou o mundo dos intelectos separados e influenciou deles a existência; e os rabinos dizem que, ainda que seja impossível ao intelecto humano apreender os intelectos separados com uma apreensão completa, eis que no que os justos apreenderem deles é possível que se complete a eles a sobrevivência da alma, e é isto o seu dizer "e guardou-a para os justos no porvir".
וְכֵן מֹשֶׁה בַּסְּנֶה הִסְתִּיר פָּנָיו ״כִּי יָרֵא מֵהַבִּיט״. ״בִּזְכוּת וַיַּסְתֵּר זָכָה לִקְלַסְתֵּר״. וְהַכָּתוּב יְכַנֶּה עוֹלַם הַשְּׂכָלִים הַנִּבְדָּלִים בְּ״אוֹר״, ״וַיַּבְדֵּל אֱלֹהִים אֶת הָאוֹר... וּגְנָזוֹ לַצַּדִּיקִים לֶעָתִיד לָבֹא, אוֹר זָרֻעַ לַצַּדִּיק״.
Albo encerra a série dos nomes divinos com "luz" (or) — talvez a metáfora mais densa. Do sentido próprio (a luz física) ela se estende, por empréstimo, a quase tudo o que importa: a orientação ("andarão à tua luz"), a Torá ("a Torá é luz"), o deleite ("doce é a luz"), a vontade ("a luz da tua face"), a alma, a sabedoria ("a sabedoria ilumina a face" — e a ignorância é "treva"), o ser imaterial, e D'us mesmo ("a luz de Israel").
O paralelo é exato em cada traço: a luz é inegável mas incorpórea; atualiza a visão e as cores (faz sair do potencial ao ato); produz deleite indescritível a quem nunca a viu; e cega quem a fita forte demais. Assim D'us: existência inegável, incorpórea, fonte de toda atualização, deleite inefável — e perigoso ao intelecto que fita além de sua medida ("Ben Azai fitou e foi golpeado"). A imagem zoológica é inesquecível: o intelecto humano preso à matéria é como o morcego diante do sol — só suporta a luz fraca (lua, vela), foge da luz plena; o oposto da águia, que se deleita e voa para o sol. Vislumbramos a D'us como o morcego vislumbra o dia.
Para evitar que se materialize a luz divina, Albo lê Habacuque com precisão gramatical: "como a luz será" (kaor, com o kaf de comparação) — não "luz", pois a luz física vem de um corpo, e o resplendor do Sinai não vinha de coisa alguma corpórea. "Raios da sua mão lhe há" = os atributos brilham d'Ele por si mesmos, não adquiridos de outro (prova de que não é efeito). E "ali está o esconderijo do seu poder" = justamente porque infinito, esse poder permanece oculto — o finito não pode abranger o infinito em seus particulares.
A analogia do arco-íris de Ezequiel é filosoficamente afiada: as cores do arco não existem "na essência" das coisas — são efeito da mistura de vapores (Albo cita Avicena dizendo que sua causa é desconhecida, e o dito rabínico de que fitá-lo escurece os olhos). Por isso o profeta diz "a aparência da semelhança da glória" (não "a glória"), e cai sobre a face: como Moisés que esconde o rosto na sarça — sinal de que os sentidos não apreendem o separado (só captam acidentes), e fiar-se neles levaria a imaginar D'us corpóreo. "Pelo mérito de esconder o rosto, mereceu ver a feição divina." Albo fecha com o belo midrash da luz oculta (or haganuz) da criação — que não é luz física mas o mundo dos intelectos separados —, lendo as três opiniões do Bereshit Rabbá como três posições filosóficas sobre esse mundo espiritual: incognoscível e só para louvar D'us (R. Yehudá); instrumento da criação (R. Avin, ecoando os filósofos); ou fonte da sobrevivência da alma dos justos ("guardada para os justos no porvir"). Assim a luz, que abriu a criação, fecha a teologia do Maamar II.
Assim como os seres veem a luz em graus (o morcego, a águia), os justos diferem nos graus do deleite da alma, conforme apreendem mais ou menos dos atributos de D'us. Os dois modos de negar atributos; os deleites eternos e crescentes; e a conclusão sublime: "o cúmulo do que conhecemos de Ti é que não Te conhecemos".
Assim como os seres veem a luz em graus (o morcego, a águia), os justos diferem nos graus do deleite da alma, conforme apreendem mais ou menos dos atributos de D'us. Os dois modos de negar atributos; os deleites eternos e crescentes; e a conclusão sublime: "o cúmulo do que conhecemos de Ti é que não Te conhecemos".
1 Assim como diferem os homens ou os seres vivos na apreensão da luz — pois há entre eles fracos de vista, que se deleitam na luz fraca e se afligem na luz forte, como o morcego, e há entre eles fortes de vista, que se deleitam na apreensão da luz forte, como a águia —, assim diferem os graus dos justos na apreensão do deleite da alma, que os nossos mestres, de abençoada memória, denominaram pelo nome "luz", como dissemos; e a diferença dos graus dos justos, e dos sábios, e dos perfeitos, naquele deleite, será conforme a diferença do grau da sua apreensão dos atributos da perfeição que há nele, bendito seja, como diferem os graus dos anjos um do outro na medida desta apreensão, como explicamos no capítulo 12 deste discurso.
2 Porém, se a apreensão daqueles atributos é do modo que escrevemos no capítulo 21 deste discurso a via de Albo, os atributos positivos pela face da perfeição, já é possível que se compreenda que há graus diferentes, sem fim, entre os sábios, conforme a apreensão de cada um deles de alguma parte dos atributos da perfeição sem fim que há nele, bendito seja. Mas, se a apreensão dos atributos da perfeição que há nele não é senão por via de negação, e conforme a opinião do Rambam, de abençoada memória, que escrevemos no capítulo 22 deste discurso, eis que recai aqui uma questão: em que estaria a diferença entre os sábios e os que meditam, uns dos outros? Pois, depois que o homem sabe que não se verifica sobre ele atributo positivo de modo algum, e que todas as negações se verificam sobre ele, bendito seja, como dissemos ali, já sabe tudo o que é possível que se apreenda dele, bendito seja; e, conforme isto, que diferença de grau haveria entre o que começa o estudo e Salomão, a paz esteja sobre ele, sobre o qual se disse "e foi mais sábio que todo homem" (I Reis 5:11)? E é falso dizer que o grau de ambos seja igual, e que não haja diferença entre os profetas, uns dos outros, nem entre Moisés e Josué, seu servo — pois eis que a Escritura diz "e te conheço pelo nome, e também achaste graça aos meus olhos" (Êxodo 33:17), depois de Moisés ter apreendido tudo o que apreendeu na doação da Torá, o que mostra que o que sabe mais acha mais graça aos olhos do Senhor; e acha-se pelos nossos mestres, de abençoada memória, que disseram "a face de Moisés era como a face do sol, a face de Josué como a face da lua", quer dizer, que na apreensão da luz espiritual há diferença de graus como há entre a luz do sol e a luz da lua; e assim disseram "ensina que cada justo tem uma morada por si mesmo, e cada um se queima do dossel do seu companheiro" etc. — o que tudo indica que há diferença de graus entre os sábios e os justos; e isto é uma coisa que precisa de explicação. E já se estendeu o Rav, o Guia, na explicação disto no capítulo 59 da Primeira Parte, e ainda as suas palavras não são suficientes nisto.
כְּמוֹ שֶׁיִּתְחַלְּפוּ בְּהַשָּׂגַת הָאוֹר (הָעֲטַלֵּף וְהַנֶּשֶׁר), כֵּן יִתְחַלְּפוּ מַדְרֵגוֹת הַצַּדִּיקִים בַּתַּעֲנוּג הַנַּפְשִׁיִּי כְּפִי הַשָּׂגָתָם בְּתָאֳרֵי הַשְּׁלֵמוּת. ״פְּנֵי מֹשֶׁה כִּפְנֵי חַמָּה פְּנֵי יְהוֹשֻׁעַ כִּפְנֵי לְבָנָה״. וְאִם הַהַשָּׂגָה דֶּרֶךְ שְׁלִילָה, אֵיזֶה הֶבְדֵּל יִהְיֶה בֵּין הַחֲכָמִים?
3 E o fundamento da compreensão deste assunto é deste modo: que todos os dois opostos — como vivo e morto, e sábio e ignorante e os que se lhes assemelham — não se negam dele, bendito seja, de um só modo; pois, se fosse assim, compreender-se-ia disto que ele é privado ne'edar, visto que não é morto nem vivo. Mas é cabido que digamos que o nosso dizer sobre ele "não é morto" nega dele o assunto da morte com uma negação verdadeira, porque o oposto — que é a vida — se acha nele; e assim o nosso dizer sobre ele "não é ignorante" nega dele a ignorância com uma negação verdadeira, porque o oposto — que é a sabedoria — se acha nele, pois a morte e a ignorância são deficiência. Mas o nosso dizer sobre ele "não é vivo, não é sábio" — que é a negação do outro oposto, visto que o compreendido junto a nós de "vivo" e "sábio" são perfeições — não se nega d'Ele do primeiro modo, tal que compreendamos deles que não é vivo mas morto, que não é sábio mas ignorante; mas a nossa intenção é dizer que não é vivo como a vida do homem ou como a vida apreendida junto a nós, e assim a nossa intenção em "não é sábio" é que não se descreve com sabedoria do modo como se descreve com ela o homem — que é um atributo acidental acrescentado à sua essência —, mas a sabedoria nele é essencial e não é coisa acrescentada à essência. E assim nos demais atributos que negamos dele, é cabido que se compreenda que há diferença entre a negação de um oposto e a negação do outro oposto. E nisto haverá vantagem dos sábios um sobre o outro, no conhecimento dos modos das negações a saber como são, visto que nem todas as negações se dizem dele, bendito seja, de um só modo; pois, ainda que todas as negações se verifiquem sobre ele, bendito seja, é impossível a sábio algum negar dele uma coisa até que conheça e compreenda o atributo positivo a saber como recai sobre o descrito, e o lado da perfeição que há naquele atributo, e o lado da deficiência que há nele; e, se aquele atributo for deficiência, negar-se-á dele de um só modo; e, se aquele atributo for perfeição no descrito por ele, negar-se-á dele de outro modo — quer dizer, do lado da deficiência que há nele; não é que a negação de toda coisa, sem conhecimento e discernimento, seja uma perfeição no seu respeito, bendito seja.
כָּל שְׁנֵי הֲפָכִים לֹא יִשּׁוֹלְלוּ מִמֶּנּוּ עַל אֹפֶן אֶחָד. ״אֵינוֹ מֵת״ — שֶׁהַחַיּוּת נִמְצָא לוֹ. ״אֵינוֹ חַי״ — שֶׁאֵינוֹ חַי כְּחַיֵּי הָאָדָם. וּבָזֶה יִהְיֶה יִתְרוֹן הַחֲכָמִים בִּידִיעַת אָפְנֵי הַשְּׁלִילוֹת.
4 Senão que todos os atributos que são junto a nós deficiência — como morto, cansado, ignorante, pobre, mau e os que se lhes assemelham —, na verdade negamo-los dele com uma negação completa, quer dizer, que não se acha nele este atributo que é deficiência de modo algum, mas se acha nele o oposto que é a perfeição. E, quando negamos dele o outro oposto, aquele cujo compreendido junto a nós é perfeição — como vivo, capaz, sábio, rico, bom —, não é a intenção dizer que não se acha nele isto e que se acha nele o oposto que é deficiência, pois esta negação não só não seria perfeição, mas seria afronta e injúria; e, na verdade, a intenção é dizer que aquela perfeição compreendida junto a nós — como vivo, ou capaz, ou sábio e os que se lhe assemelham — não se acha nele, bendito seja, do lado em que se acha em nós, mas se acha nele de um lado mais nobre e mais elevado, até que não há relação entre aquela perfeição que há junto a nós, ou o apreendido e compreendido dela junto a nós, e aquela perfeição quando a atribuímos a ele — até que aquela perfeição, ou aquelas perfeições, se dizem nele, bendito seja, e no homem por homonímia do nome, no exame da diferença imensa que há entre eles.
5 E não é a nossa intenção dizer que se dizem por homonímia do nome no sentido de que se compreenda do atributo um assunto quando o atribuímos ao homem e se compreenda o oposto quando o atribuímos ao Senhor, bendito seja — de modo que, quando atribuímos a sabedoria ao homem, o compreendido dela seja perfeição, e que o compreendido dela, quando a atribuímos ao Senhor, bendito seja, seja a ignorância, por exemplo, que é deficiência e é o oposto da sabedoria —, pois não é assim a coisa; pois, se isto fosse assim, quando voltássemos a negar dele a ignorância, seria a negação da palavra apenas, não a negação do assunto; e não há dúvida de que, quando negamos dele a ignorância, a nossa intenção é negar o assunto, não a palavra apenas; e por isso, quando negamos dele a sabedoria, a nossa intenção é negá-la dele do lado em que há nela deficiência, não do lado em que há nela perfeição; e, a fim de que não compreendamos de modo algum que aquela perfeição, ou aquelas perfeições, se dizem nele, bendito seja, do lado em que se dizem em nós, não permitimos atribuí-las a ele senão por via de negação apenas.
הַתְּאָרִים שֶׁהֵם חִסָּרוֹן (מֵת, סָכָל) נִשְׁלֹל שְׁלִילָה גְּמוּרָה. אֲבָל ״חַי, חָכָם״ — שֶׁאֵינָם בּוֹ עַל הַצַּד שֶׁבָּנוּ, אֶלָּא בְּצַד יוֹתֵר נִכְבָּד, עַד שֶׁנֶּאֱמָרִים בּוֹ וּבָאָדָם בְּשִׁתּוּף הַשֵּׁם.
6 E explicar-se-á a ti a verdade do que escrevemos do assunto da existência dita sobre o Nome, bendito seja: que não há dúvida de que, quando dissemos sobre ele, bendito seja, que é existente — ainda que a existência se diga por homonímia do nome sobre ele e sobre todos os existentes, já que todos adquiriram a existência dele, e a sua existência deles é fora da sua quididade, e ele, bendito seja, tem a sua existência e a sua quididade um só em si mesmo, e, assim como a sua quididade está oculta no extremo da ocultação, assim a sua existência está oculta no extremo da ocultação, e a existência de outro está dependente da sua existência —, de todo modo não há dúvida de que a palavra "existência" dita sobre ele, exaltado seja, não é o oposto da existência dita sobre cada existente dos existentes fora dele de todo em todo, até que a palavra "existência" dita sobre ele indique a privação que é o oposto da existência dita sobre nós; pois por força compreendemos da palavra "existência", em todo lugar, o oposto da privação; mas, a fim de distinguir entre os dois gêneros das existências e dizer que uma é existência verdadeira e uma é existência não-verdadeira, semelhante à privação, dizemos que a palavra "existência" se diz sobre ele e sobre nós por homonímia completa, a fim de distinguir entre os dois gêneros das existências e indicar que a sua existência, bendito seja, está oculta no extremo da ocultação como a sua essência está oculta, e que a existência dita sobre cada existente fora dele é como que a indicar a privação em relação à existência dita sobre ele.
7 E explica-se disto que é impossível atribuir a ele, bendito seja, mesmo com atributos negativos, se não for depois de que compreendamos os atributos positivos — de que modo se descreve junto a nós o descrito por eles, e o lado em que há naquele atributo perfeição, e o lado em que há nele deficiência —, e só então permitimos a nós mesmos negá-los dele; pois com isto se compreende o caminho da negação a saber como ela é, já que nem todas as negações se dizem sobre ele de um só modo, como dissemos. E nisto recai a diferença entre os sábios e os que meditam, uns dos outros, pois diferem os graus conforme a diferença da apreensão que apreendem dos atributos da perfeição atribuídos a ele, de que modo se descreve com eles.
שֵׁם הַמְּצִיאוּת נֶאֱמָר עָלָיו וְעָלֵינוּ בְּשִׁתּוּף, לְהַבְדִּיל בֵּין שְׁנֵי מִינֵי הַמְּצִיאוּת. וְאִי אֶפְשָׁר לְתָאֲרוֹ אֲפִלּוּ בְּשׁוֹלְלִים אִם לֹא אַחַר שֶׁנָּבִין הַחִיּוּבִיִּים. וּבָזֶה יִפֹּל הַהֶבְדֵּל בֵּין הַחֲכָמִים.
8 E assim disseram no Vayikrá Rabbá: "Disse Rabi Eleazar filho de Rabi Menachem: 'do ribeiro dos teus deleites adanecha os farás beber' (Salmos 36:9) — não está escrito aqui 'do teu deleite edenchá', mas 'dos teus deleites adanecha'; daqui se aprende que cada justo tem um Éden eden por si mesmo." E isto alude à apreensão que cada um apreende dos atributos das perfeições que há nele, bendito seja, como explicamos no capítulo 15 deste discurso; e se chama "Éden" deleite porque o agrado, e a alegria, e o deleite verdadeiro não estão senão na apreensão apenas — porque os demais agrados todos cessam e se acabam, e cessa por força a alegria que há neles; e ainda, porque na multiplicação do seu bem está a causa da sua corrupção, pois quem se deleita na comida ou na bebida, quando multiplica o comer ou o beber, aflige-se e enjoa deles sem dúvida, e assim em todos os demais deleites corporais; e não há deleite e alegria contínua senão na apreensão da coisa espiritual, e com muito mais razão quando aquela coisa for sem fim, pois, tudo o que crescer a apreensão, acrescentar-se-á a alegria e se multiplicará o deleite e não cessará; e, por serem os atributos da perfeição que há nele, bendito seja, sem fim, eis que se acham nele, conforme isto, apreensões sem fim, e por isso é forçoso que decorram àquelas apreensões alegrias sem fim; e é isto o que disse a Escritura "saciedade de alegrias sova semachot há na tua face" (Salmos 16:11) — quer dizer, multiplicação de alegrias conforme a multiplicação das apreensões que há em ti. E, por serem todas as apreensões que há nele, bendito seja, sem fim na importância e na delícia, e por serem eternas, como explicamos no capítulo 25 deste discurso, por isso concluiu "delícias na tua direita perpetuamente" (Salmos 16:11). E, por ser impossível ao homem que o seu conhecimento abranja a coisa sem fim, foi forçoso que ache a sua perfeição em alguma apreensão dele, bendito seja; e por isso disse "far-me-ás conhecer o caminho orach da vida" (Salmos 16:11) — pois não disse "o caminho" derech mas "a vereda" orach, quer dizer, uma só trilha, para aludir a que mesmo numa só apreensão dos atributos da perfeição que há nele há nela uma vereda e um caminho às vidas eternas; e conforme a multiplicação da apreensão do homem nos atributos da perfeição que há nele, bendito seja, assim crescerá o grau do deleite naquelas vidas eternas e se acrescentará a sua alegria e o seu agrado.
״כָּל צַדִּיק וְצַדִּיק יֵשׁ לוֹ עֵדֶן בִּפְנֵי עַצְמוֹ״. אֵין תַּעֲנוּג מַתְמִיד אֶלָּא בְּהַשָּׂגַת הַדָּבָר הָרוּחָנִי הַבִּלְתִּי בַעַל תַּכְלִית. ״שֹׂבַע שְׂמָחוֹת אֶת פָּנֶיךָ נְעִמוֹת בִּימִינְךָ נֶצַח״. ״תּוֹדִיעֵנִי אֹרַח חַיִּים״ — שֶׁאֲפִלּוּ הַשָּׂגָה אַחַת יֵשׁ בָּהּ אֹרַח לַחַיִּים הַנִּצְחִיִּים.
9 E com isto avaliamos a grandeza da alegria e do agrado que há junto a ele, bendito seja, na apreensão da sua própria essência, já que há nela perfeições sem fim, e cada uma delas é eterna, sem fim na importância; e por isso é impossível que apreenda a sua essência existente algum fora dele, como disse o sábio, quando lhe perguntaram se conhecia a quididade de D'us, e respondeu: "Se eu o conhecesse, eu o seria" ilu yedativ hayitiv — quer dizer, que não há quem apreenda a sua essência senão ele, bendito seja —, com o facto de a sua existência ser manifesta do lado das suas obras no extremo da manifestação. Louvado seja aquele que nos venceu nitzchanu com a sua perfeição, e que se nos oculta com a força da sua auto-revelação — como se oculta dos fracos de vista a apreensão da luz do sol e o seu agrado, e a deficiência da sua apreensão não indica a privação da sua existência. E o cúmulo do que apreendemos dele, bendito seja, é que é impossível apreendê-lo — conforme o dito do sábio: "O cúmulo do que sabemos de ti é que não te conhecemos" tachlit mah sheneda becha shelo nedaecha.
״אִלּוּ יְדַעְתִּיו הָיִיתִיו״ — שֶׁאֵין מִי שֶׁיַּשִּׂיג עַצְמוּתוֹ אֶלָּא הוּא. יִשְׁתַּבַּח מִי שֶׁנִּצְּחָנוּ בִּשְׁלֵמוּתוֹ וְנֶעְלַם מִמֶּנּוּ עִם חֹזֶק הֵרָאוֹתוֹ. ״תַּכְלִית מַה שֶּׁנֵּדַע בְּךָ שֶׁלֹּא נֵדָעֲךָ״.
Albo enfrenta uma objeção que ameaça a sua própria teologia. Se conhecer D'us se reduz a negar atributos (a via de Maimônides), então qualquer iniciante que saiba "D'us não é corpo, não é morto, não é ignorante" já sabe tudo — e não haveria diferença entre ele e Salomão, entre Josué e Moisés. Mas a tradição afirma graus: "a face de Moisés como o sol, a de Josué como a lua"; "cada justo tem uma morada própria". Como conciliar?
A solução é sutil. Negar dois opostos do mesmo modo tornaria D'us um vazio (nem vivo nem morto = inexistente). Logo a negação é assimétrica: negar "morto" é negação plena (porque o oposto, a vida, está n'Ele); mas negar "vivo" não significa que Ele seja morto — significa que Ele não é vivo do modo como nós o somos (a vida n'Ele é essencial, não acidental). Negar a deficiência é total; negar a perfeição é negar apenas a forma limitada que conhecemos. E aqui está a resposta: saber negar corretamente exige primeiro compreender o atributo positivo — distinguir nele a face de perfeição da face de deficiência. Quanto mais profunda essa compreensão, mais alto o grau. Por isso Salomão difere do iniciante: não na quantidade de negações, mas na profundidade com que entende o que nega.
Albo reforça (cap. 6, 27) que "existência" se diz de D'us e das criaturas por homonímia — não para sugerir que a existência divina seja "privação" (ela é a existência verdadeira), mas para marcar o abismo: a existência das criaturas é "como que privação" diante da d'Ele. A mesma lógica vale para todo atributo: dizem-se de D'us e do homem só por equivocidade, dada a "diferença imensa" entre eles.
O capítulo culmina na escatologia da bem-aventurança. Cada justo tem "um Éden próprio" — adanecha no plural (Sl 36:9): graus diversos de apreensão, logo de deleite. E só o deleite espiritual é eterno e crescente: os prazeres do corpo cessam e enjoam ("quem come demais se enjoa"), mas a apreensão do infinito sempre cresce — "saciedade de alegrias", "delícias na tua direita perpetuamente". Basta uma apreensão verdadeira (a "vereda", orach, não a estrada larga) para abrir o caminho à vida eterna. E o fecho é uma das frases mais sublimes da filosofia judaica, citando "o sábio" (a tradição filosófica): perguntado se conhecia a essência de D'us, respondeu "se eu O conhecesse, eu O seria" — só D'us conhece a Si mesmo. "Louvado quem nos venceu com a sua perfeição e se nos oculta pela força da sua revelação" (como o sol cega o olho fraco). E a douta ignorância: "o cúmulo do que sabemos de Ti é que não Te conhecemos" — o ponto mais alto do conhecimento de D'us é reconhecer que Ele é inconhecível. Assim se fecha, em êxtase intelectual, a grande investigação do Maamar II.
O existente divide-se em três mundos — o inferior (geração e corrupção), o das esferas e o dos anjos — distintos ao extremo, mas agindo uns sobre os outros e mantidos em ordem por uma só Força que tudo une e conduz: D'us, separado deles ao extremo. Tudo isto foi insinuado a Elias no monte Horeb: o vento, o terremoto, o fogo, e a voz de fina quietude. Assim se conclui o Maamar II.
O existente divide-se em três mundos — o inferior (geração e corrupção), o das esferas e o dos anjos — distintos ao extremo, mas agindo uns sobre os outros e mantidos em ordem por uma só Força que tudo une e conduz: D'us, separado deles ao extremo. Tudo isto foi insinuado a Elias no monte Horeb: o vento, o terremoto, o fogo, e a voz de fina quietude. Assim se conclui o Maamar II.
1 Quando examinamos o existente no seu conjunto, achamo-lo dividido em três partes cuja existência é impossível negar: a primeira parte, o mundo inferior, que é o mundo dos elementos e da geração e da corrupção; a segunda parte, o mundo das esferas; e a terceira parte, o mundo dos anjos.
2 E estas três partes estão separadas uma da outra no extremo da separação. Pois achamos o mundo inferior, que é o mundo da geração e da corrupção, com todos os seus indivíduos corruptíveis, sem terem permanência no indivíduo de modo algum; e o mundo das esferas, com todos os seus indivíduos permanentes no indivíduo e incorruptíveis — mas eles são corpo, e atingem-nos os acidentes do corpo, a saber que têm figura e forma, e preenchem lugar, e são quantidade, e são compostos de partes.
נִמְצָא הַמְּצִיאוּת מִתְחַלֵּק לִשְׁלֹשָׁה חֲלָקִים: הָעוֹלָם הַתַּחְתּוֹן (הַהֲוָיָה וְהַהֶפְסֵד), עוֹלַם הַגַּלְגַּלִּים, וְעוֹלַם הַמַּלְאָכִים. וְהֵם נִבְדָּלִים זֶה מִזֶּה תַּכְלִית הַהֶבְדֵּל.
3 E estas duas partes, com o facto de estarem separadas uma da outra, achamo-las agindo uma sobre a outra e sofrendo a ação uma da outra. Pois, do movimento das esferas e da mudança das suas posições, renovam-se nos elementos movimentos e mudanças: já que uma vez prevalece o elemento húmido e outra vez prevalece o seu oposto, que é o seco, e uma vez o frio e outra vez o quente; e renova-se disto a mistura dos elementos uns com os outros, e renovam-se desta mistura os minerais segundo as suas espécies; e depois eleva-se esta mistura e se mescla numa mescla mais nobre e adquire a forma das plantas segundo as suas espécies; e depois eleva-se esta mescla e se purifica mais e se mescla de tal modo que se disponha a adquirir a forma do vivente. E esta aquisição não a outorgam as esferas enquanto são corpos mortos, mas, sem dúvida, enquanto há nelas força para dar a vida aos existentes compostos quando estão dispostos para isso pelo lado do movimento das esferas; e àquela força que dá a vida chamamo-la a alma da esfera.
מִתְּנוּעַת הַגַּלְגַּלִּים יִתְחַדְּשׁוּ בַּיְּסוֹדוֹת תְּנוּעוֹת, וְיִתְעַלֶּה הַהִתְעָרְבוּת עַד צוּרַת הַצְּמָחִים וְהַחַי. וְאוֹתוֹ הַכֹּחַ הַנּוֹתֵן הַחִיּוּת נִקְרָאֵהוּ נֶפֶשׁ הַגַּלְגַּל.
4 E, porque vemos a esfera mover-se sempre com um movimento contínuo e circular, e vemos cada esfera diferir no seu movimento da outra esfera — quer porque uma se move para o oriente e a outra para o ocidente, quer porque uma é rápida e a outra demorada —, julgamos por força que há para cada uma e uma delas uma causa exterior a ela, fora da sua alma, que lhe determina o movimento; e aquela causa própria a cada esfera determina-lhe um movimento próprio; e aqueles que determinam os movimentos das esferas são os que as movem; e aqueles motores chamam-se inteligências separadas, porque estão separados da matéria, como se explicou na ciência natural; e chamam-se na língua da Torá anjos.
5 E achamos, conforme isto, que há no existente, por força, uma terceira parte, e chama-se mundo dos anjos. E esta parte, com o facto de estar separada no extremo da separação das outras duas partes que mencionámos, eis que age no mundo das esferas, como dissemos, ao moverem elas as esferas com movimentos diferentes no extremo da diferença — esta para o oriente e esta para o ocidente, e uma inclinando-se para o norte e uma para o sul, e mesmo num só lado também o movimento de uma não concorda com o movimento da outra. E, vendo nestes movimentos diferentes que as partes do existente se unificam e se ligam umas às outras e que a ordem se conserva sempre no mundo das esferas e no mundo da geração e da corrupção, julgamos por força que é impossível que não haja para estas três partes uma só força que conduz e unifica e liga umas às outras.
הַמְּנִיעִים אֶת הַגַּלְגַּלִּים נִקְרָאִים שְׂכָלִים נִבְדָּלִים, וּבִלְשׁוֹן הַתּוֹרָה מַלְאָכִים. וּלְפִי שֶׁנִּשְׁמָר הַסֵּדֶר תָּמִיד, נִשְׁפֹּט בְּהֶכְרֵחַ שֶׁיֵּשׁ לִשְׁלָשְׁתָּם כֹּחַ אֶחָד מַנְהִיג וּמְאַחֵד וּמְקַשֵּׁר.
6 E, assim como achamos nos viventes três forças separadas umas das outras — a saber a alma nutritiva, que está no fígado, e a alma vital, que está no coração, e a alma sensitiva, que está no cérebro —, e estas três forças ou almas estão separadas umas das outras nas suas ações: pois a alma nutritiva, que está no fígado, assemelha-se ao mundo da geração e da corrupção, já que ali se transforma o alimento da sua forma e se muda para a forma do sangue, e se transmuda para a alma vital, que está no coração; pois a alma vital, que está no coração, assemelha-se ao mundo das esferas — já que, assim como dos movimentos das esferas decorre a vida ao conjunto do mundo inferior, que é o mundo das mudanças e da geração e da corrupção, e já que, se a esfera repousasse por um abrir e fechar de olhos do seu movimento, corromper-se-ia o mundo conforme a ordem natural, assim do movimento do coração decorre a vida ao conjunto do corpo, e, se o coração repousasse do seu movimento por um instante, morreria o vivente. E a alma sensitiva, que está no cérebro, assemelha-se ao mundo dos anjos, já que dela saem as forças dos cinco sentidos e as demais forças anímicas — como a força formativa e a imaginativa —, e as forças que não são corpóreas nem são apreendidas pelo sentido, mas são apreendidas pelo lado das suas ações que decorrem delas, assim como se apreendem as inteligências separadas pelo lado das suas ações também.
בַּבַּעַל חַי ג׳ כֹּחוֹת: הַזָּן (כָּבֵד) כְּעוֹלַם הַהֲוָיָה, הַחִיּוּנִי (לֵב) כְּעוֹלַם הַגַּלְגַּלִּים, הַמַּרְגִּישׁ (מֹחַ) כְּעוֹלַם הַמַּלְאָכִים — שֶׁמּוּשָּׂגִים מִצַּד פְּעֻלּוֹתֵיהֶן אַף שֶׁאֵין הָעַיִן שׁוֹלֶטֶת בָּהֶם.
7 E, assim como há para estas três forças que estão no corpo do vivente uma só força que unifica, chamada a força que conduz o corpo — e ela liga todas as partes do corpo e as suas forças umas às outras, e chama-se entre os médicos a "natureza" —, assim há no mundo no seu conjunto uma só força que liga todas as partes do existente e as suas forças umas às outras e as conduz.
8 E não é o meu intento agora falar apenas da força racional que está no homem, pela qual o homem se chama "pequeno mundo" olam katan, por haver nele uma força intelectual que inteligencia e tira as coisas que estão no seu intelecto da potência ao ato conforme a sua vontade — assim como há para o mundo um princípio intelectual que fez existir todos os existentes pela sua grande força e pela sua vontade simples, o que não se dá nos demais viventes, nos quais não há força agente por vontade que possa fazer ações opostas, mas apenas força natural, como se explicou no seu lugar no Livro da Alma. Mas o meu intento aqui é sobre a força que conduz o corpo do vivente em geral, a saber esta força que se acha em cada um dos viventes — ainda que haja vantagem nela nuns sobre noutros; de todo modo, desta força no seu conjunto se tira prova, como escreveu o Rambam, de abençoada memória, da existência de um existente que conduz e liga todos os particulares do existente e as suas partes umas às outras; e da força racional que está no homem se tira prova de que aquele existente é coisa intelectual que age por vontade — assim como no homem há uma força intelectual que age por vontade, razão pela qual lhe foram ordenadas ordens divinas.
כְּמוֹ שֶׁיֵּשׁ לַגּוּף כֹּחַ אֶחָד מְקַשֵּׁר (הַטֶּבַע אֵצֶל הָרוֹפְאִים), כֵּן יֵשׁ בָּעוֹלָם כֹּחַ אֶחָד מַנְהִיג. וּמִן הַכֹּחַ הַדִּבְרִי שֶׁבָּאָדָם יִלָּקַח רְאָיָה שֶׁהַנִּמְצָא הַהוּא דָּבָר שִׂכְלִי פּוֹעֵל בְּרָצוֹן.
9 E não há diferença nesta semelhança entre as forças do corpo e o conjunto do existente, senão esta: que nas forças do corpo cada força delas dá influxo e recebe influxo da sua companheira influenciada por ela — pois o coração dá a força da vida ao fígado e aos demais membros, e o fígado dá a força nutritiva ao coração, e o cérebro dá o sentido e o movimento ao coração e ao fígado e recebe deles a vida e a nutrição. Mas no mundo no seu conjunto a coisa não é assim, mas o que dá o influxo não recebe influxo algum do influenciado por ele; pois o influxo se derrama dos superiores sobre os inferiores apenas pelo lado da generosidade e da beneficência, não para receber proveito algum deles.
בְּכֹחוֹת הַגּוּף כָּל כֹּחַ נוֹתֵן שֶׁפַע וּמְקַבֵּל. אֲבָל בָּעוֹלָם הַנּוֹתֵן הַשֶּׁפַע לֹא יְקַבֵּל שׁוּם שֶׁפַע — שֶׁיּוּשְׁפַּע מֵהָעֶלְיוֹנִים עַל הַתַּחְתּוֹנִים עַל צַד הַנְּדִיבוּת וְהַהֲטָבָה לְבַד.
10 E todo este assunto que escrevemos neste capítulo — da divisão do existente nestas três partes e do achar-se um existente que conduz o todo, separado deles no extremo da separação — foi insinuado a Elias de um modo mais nobre e mais perfeito naquela visão que viu no monte Horeb, quando lhe foi dito "que tens tu aqui, Elias?" (I Reis 19:9), quando ele fugia de diante de Jezabel e se afligia por ser perseguido por ela e disse "zelei zelosamente pelo Senhor dos Exércitos, D'us de Israel, porque os filhos de Israel abandonaram a tua aliança" etc. "e procuram a minha vida para a tirar" (I Reis 19:10). E foi-lhe dito "sai e fica no monte diante do Senhor"; "e eis que o Senhor passava, e eis um vento grande e forte que fendia os montes e quebrava as rochas diante do Senhor — mas não no vento estava o Senhor" (I Reis 19:11). E isto é para insinuar a força que conduz o mundo da geração e da corrupção, que é o que fende os montes e quebra as rochas; e disse a respeito dela que ela está "diante do Senhor", porque ele a supervisiona para fazer a sua vontade, e ela não é senão como o machado na mão do que corta com ele; e disse "não no vento estava o Senhor", para insinuar que a natureza — que é o vento que fende os montes e quebra as rochas — não é o condutor do mundo da geração e da corrupção em si mesma, mas instrumento.
״צֵא וְעָמַדְתָּ בָהָר לִפְנֵי ה׳, וְהִנֵּה ה׳ עֹבֵר וְרוּחַ גְּדוֹלָה וְחָזָק מְפָרֵק הָרִים... לֹא בָרוּחַ ה׳״ — לִרְמֹז עַל הַכֹּחַ הַמַּנְהִיג עוֹלַם הַהֲוָיָה, וְאֵין הַטֶּבַע עַצְמוֹ הַמַּנְהִיג אֶלָּא כְּגַרְזֶן בְּיַד הַחוֹצֵב.
11 E disse ainda "e depois do vento um terremoto — mas não no terremoto estava o Senhor" (I Reis 19:11), para insinuar o mundo das esferas, acerca das quais se disse "e os ofanim e os seres santos com um grande estrondo ra'ash se elevavam" (Ezequiel 3:13), o que alude às esferas, que se chamam "seres santos", como escreveu o Rambam, de abençoada memória, no capítulo terceiro da Terceira Parte; e disse "não no terremoto estava o Senhor", para ensinar que o Senhor, bendito seja, não é a alma da esfera, como pensaram os antigos.
12 E disse ainda "e depois do terremoto um fogo" (I Reis 19:12), para insinuar o mundo dos anjos, aos quais a Escritura chamou "fogo", conforme se disse "os seus ministros um fogo abrasador" (Salmos 104:4); e se chamaram "fogo" para insinuar que, assim como ao elemento do fogo o homem não pode apreendê-lo pelo sentido da visão — pois o fogo elementar, o olho não o domina, e, ainda assim, ele é apreendido pelo lado das suas ações —, assim os anjos são apreendidos pelo lado das suas ações, ainda que o olho não os domine. E por este mesmo lado a Escritura assemelha o Senhor ao fogo, pois disse "porque o Senhor, teu D'us, é um fogo consumidor" (Deuteronômio 4:24) — quer dizer, que ele é apreendido pelo lado das suas ações, ainda que não seja apreendido pelo sentido; e por causa disto a Escritura chama o mundo dos anjos "fogo" nesta visão.
״רַעַשׁ — לֹא בָרַעַשׁ ה׳״ לִרְמֹז עַל עוֹלַם הַגַּלְגַּלִּים, שֶׁאֵין הַשֵּׁם נֶפֶשׁ הַגַּלְגַּל. ״אֵשׁ״ לִרְמֹז עַל עוֹלַם הַמַּלְאָכִים שֶׁנִּקְרְאוּ אֵשׁ — מוּשָּׂגִים מִצַּד פְּעֻלּוֹתֵיהֶן אַף שֶׁאֵין הָעַיִן שׁוֹלֶטֶת.
13 E assim achamos que os nossos mestres, de abençoada memória, chamam os anjos "fogo": disseram no tratado Chaguigá "que é chashmal? Seres de fogo que falam" chayot esh memalelot — quer dizer, seres de fogo que não são apreendidos pelo sentido como o fogo; mas os "seres santos", que são as esferas apreendidas pelo sentido, não se chamam "seres de fogo", senão que os anjos se chamam "seres de fogo"; e o seu dizer "que falam", quer dizer que eles são apreendidos pelo lado das suas ações, que é o seu falar. E, a fim de que não se confunda alguém a pensar que se diz "seres de fogo" sobre as esferas, e que as chame "que falam" à maneira de "os céus contam a glória de D'us" (Salmos 19:2), trouxe o autor do Talmud a baraita que explica o significado da palavra chashmal de outro modo, que indica os anjos por força, como disse Rabi Iehudá; e não há entre eles senão o significado dos que interpretam.
14 E disseram na baraita: "Ensinou-se: por vezes estão caladas chashot, por vezes falam memalelot — na hora em que a palavra sai da boca do Santo, bendito seja, estão caladas, e na hora em que a palavra não sai da boca do Santo, bendito seja, falam." E a intenção da baraita é explicar aqui uma especulação filosófica muito sutil, a saber: que o causado inteligencia algo da sua causa e inteligencia a sua própria essência; e naquilo em que inteligencia a sua causa — que é o inteligido mais importante — emana dele um anjo, quer dizer, uma inteligência separada; e naquilo em que inteligencia da sua própria essência emana dele uma esfera, como se explicou tudo isto no capítulo 11 deste discurso. E por isso disse o autor da baraita "na hora em que a palavra sai da boca do Santo, bendito seja, estão caladas" — pois, na consideração daquilo que o primeiro causado apreende, por exemplo, do Senhor, bendito seja, emana dele uma inteligência separada, não apreendida pelo sentido, e isto é "caladas"; e "na hora em que a palavra não sai da boca do Santo, bendito seja, falam" — isto é na consideração daquilo que o causado inteligencia da sua própria essência, donde emana dele uma esfera apreendida pelo sentido, e disse "falam" à maneira de "os céus contam a glória de D'us". Eis que está explicado das suas palavras que eles chamam às inteligências "seres de fogo"; e assim em muitos lugares chamam-nos os nossos mestres, de abençoada memória, "serafins de fogo".
בְּחֲגִיגָה: ״מַאי חַשְׁמַל — חַיּוֹת אֵשׁ מְמַלְּלוֹת״. הָעָלוּל מַשְׂכִּיל עִלָּתוֹ — יוּשְׁפַּע שֵׂכֶל נִבְדָּל; מַשְׂכִּיל עַצְמוֹ — יוּשְׁפַּע גַּלְגַּל. הֲרֵי שֶׁקּוֹרִין לַשְּׂכָלִים חַיּוֹת אֵשׁ.
15 E disse a Escritura "não no fogo estava o Senhor" (I Reis 19:12) — quer dizer, que o Senhor, bendito seja, está separado da existência dos anjos; pois os anjos são causados e possíveis na existência, e ele, bendito seja, é causa e necessário da existência. E, porque a sua essência, bendito seja, está oculta no extremo da ocultação e é simples no extremo da simplicidade do que a boca não pode falar, disse a Escritura depois disto "e depois do fogo uma voz de fina quietude" kol demamá daká (I Reis 19:12), para insinuar a impossibilidade de apreender a sua essência, bendito seja, até que é impossível que se exprima dele, nem dos atributos das perfeições que há nele, senão por negações — que são a "voz de fina quietude". E disse "fina quietude", para insinuar o que escrevemos no capítulo anterior a este, do assunto da sutileza que há na compreensão das negações que se dizem sobre ele, bendito seja.
״לֹא בָאֵשׁ ה׳״ — שֶׁהַשֵּׁם נִבְדָּל מִמְּצִיאוּת הַמַּלְאָכִים, שֶׁהֵם עֲלוּלִים וְהוּא עִלָּה וּמְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת. ״וְאַחַר הָאֵשׁ קוֹל דְּמָמָה דַּקָּה״ — לִרְמֹז שֶׁאִי אֶפְשָׁר שֶׁיּוּלַץ מִמֶּנּוּ אֶלָּא בִּשְׁלִילוֹת.
16 E foi-lhe dito naquela estação "vai, volta pelo teu caminho para o deserto de Damasco; e quando chegares, ungirás Hazael por rei sobre Aram, e Jeú filho de Nimsi ungirás por rei sobre Israel, e Eliseu filho de Safate, de Abel-Meolá, ungirás por profeta em teu lugar" (I Reis 19:15-16). E explicou-lhe com isto que estes três mundos que mencionou acima são conduzidos pelo Senhor, bendito seja. E isto, a saber: que no mundo da geração e da corrupção — em que o costume do vivente é prevalecer um sobre o seu companheiro ou sobre o homem e matá-lo, como Hazael, que prevaleceu sobre o rei de Aram e o matou — não foi isto por acaso, senão por providência do Senhor, para recompensar e punir os indivíduos do homem e as suas facções e fazer por meio dele juízo nos que transgridem a sua vontade, como disse "e será que o que escapar da espada de Hazael, matá-lo-á Jeú" (I Reis 19:17).
17 E disse "e Jeú filho de Nimsi ungirás por rei sobre Israel", para ensinar que a providência do Senhor está sobre a indicação da constelação ma'arachá para anulá-la e fazer o seu desejo e a sua vontade; e isto, já que é do costume da indicação da constelação indicar sobre o ímpio o bem e sobre o justo o mal às vezes — e por mão de Jeú foram mortos apenas todos os ímpios adoradores de Baal, e escaparam todos os justos adoradores do Senhor, e isto é do que indica que aquele juízo foi feito por providência do Senhor, não por indicação da constelação. E disse depois disso "e Eliseu filho de Safate, de Abel-Meolá, ungirás por profeta", para ensinar que o influxo profético que chega aos profetas vindo do mundo dos anjos não chega senão pela vontade do Senhor e por sua ordem.
״וּמָשַׁחְתָּ אֶת חֲזָאֵל... וְאֶת יֵהוּא... וְאֶת אֱלִישָׁע״ — שֶׁשְּׁלֹשֶׁת הָעוֹלָמוֹת מֻנְהָגִים מֵהַשֵּׁם: הַהֲוָיָה (חֲזָאֵל) בְּהַשְׁגָּחָה, בִּטּוּל הַמַּעֲרֶכֶת (יֵהוּא), וְהַשֶּׁפַע הַנְּבוּאִי (אֱלִישָׁע) בִּרְצוֹן הַשֵּׁם.
18 E o que nos resulta disto é que, nesta grande visão, foi insinuada a Elias a divisão do existente em três mundos — que são o mundo da geração e da corrupção, e o mundo das esferas, e o mundo dos anjos —, e que há sobre eles um existente que liga todas as partes do existente uma à outra e as conduz e supervisiona em tudo o que se faz por meio delas no mundo inferior, para fazer o seu desejo e a sua vontade — e ele é o D'us, bendito seja; e que aquele existente está separado deles no extremo da separação, pois a sua essência está oculta no extremo da ocultação, até que é impossível que se exprima dele senão pelos atributos negativos, chamados "voz de fina quietude", pela razão que mencionámos. E esta foi a intenção deste capítulo.
19 E aqui se completa o Maamar Segundo, na explicação do primeiro princípio, que é a existência do Senhor e os fundamentos que dele se ramificam. E o louvor seja a D'us, bendito seja, o Único, e não há segundo a ele; e ele é primeiro e ele é último, e fora dele não há D'us.
בְּזֹאת הַמַּרְאָה נִרְמַז הִתְחַלֵּק הַמְּצִיאוּת לְג׳ עוֹלָמוֹת, וְשֶׁיֵּשׁ עֲלֵיהֶם נִמְצָא אֶחָד מְקַשֵּׁר וּמַנְהִיג וּמַשְׁגִּיחַ, הוּא הָאֱלוֹהַּ. וּבְכָאן נִשְׁלַם הַמַּאֲמָר הַשֵּׁנִי. וְהַשֶּׁבַח לָאֵל הָאֶחָד, רִאשׁוֹן וְאַחֲרוֹן, וּמִבַּלְעָדָיו אֵין אֱלֹהִים.
Albo fecha o Maamar II — todo dedicado ao primeiro princípio, a existência de D'us — com uma grande síntese aristotélico-maimonidiana. O cosmos divide-se em três "mundos": o sublunar (elementos, geração e corrupção — tudo perece), o das esferas (corpos permanentes mas materiais) e o das inteligências separadas (os anjos, motores imateriais). Os mundos são radicalmente distintos, mas agem uns sobre os outros em ordem perfeita: as esferas movem os elementos, as inteligências movem as esferas. Ora — argumenta Albo, seguindo o Rambam — uma ordem que une partes tão diversas exige uma Força única que tudo coordene. Essa é a prova da existência de D'us pela condução (hanhagá) do mundo.
O elo é o célebre paralelo micro/macrocosmo. No corpo do vivente há três almas — nutritiva (fígado ≈ mundo sublunar), vital (coração ≈ esferas, cujo cessar mata o organismo como o parar da esfera corromperia o mundo) e sensitiva (cérebro ≈ anjos, forças apreendidas só pelos seus efeitos). E todas são unidas por uma força reguladora — o que os médicos chamam "a natureza". Por analogia, o mundo tem o seu Condutor. Duas finezas de Albo: (a) da força racional humana (que age por vontade) infere-se que o Condutor é um agente intelectual e voluntário, não uma causa cega — base do conceito de mandamento divino; (b) a analogia tem um limite crucial: no corpo os órgãos trocam influxo mutuamente, mas D'us dá sem nunca receber — "puro dom e beneficência, sem proveito algum".
A leitura mais bela do capítulo: Albo decifra a visão de Elias (I Reis 19) como cifra de toda a sua cosmologia. O vento que fende montes = a força que rege a geração e corrupção (a "natureza", mero machado na mão de quem corta — "não no vento o Senhor"). O terremoto (ra'ash) = as esferas (os "seres santos" de Ezequiel — "não no terremoto o Senhor": D'us não é a alma da esfera, contra os antigos). O fogo = os anjos (chamados "fogo" porque, como o fogo elementar, são invisíveis mas conhecidos por seus efeitos — "não no fogo o Senhor"). E enfim a voz de fina quietude (kol demamá daká) = o próprio D'us, separado de tudo, cuja essência só se exprime por negações — a "sutileza" das negações estudada no capítulo anterior. A teofania nega D'us de cada andar do cosmos para situá-lo além de todos.
A missão final dada a Elias confirma que os três mundos são governados, não autônomos: Hazael (uma morte no mundo sublunar) não é acaso mas providência punitiva; Jeú (que mata só os idólatras) mostra D'us anulando a constelação astral, que indicaria outro destino; Eliseu (a profecia) mostra que o influxo do mundo angélico só desce pela vontade divina. Assim Albo amarra existência, unidade, incorporeidade e providência num só fecho — e encerra o Maamar com a doxologia "louvor ao D'us Único… primeiro e último, e fora d'Ele não há D'us". Está concluído o segundo dos quatro Maamarim.
O Maamar III abre tratando da Torá vinda do Céu. Mas primeiro Albo demonstra a nobreza do homem: refuta a tese antiga de que o homem é a criatura mais carente, mostrando que ele é o termo de toda a criação — porque o seu intelecto e os seus instrumentos são universais, ao passo que os dos animais são particulares. E o Perek Shirá ensina o homem a colher de cada criatura uma virtude.
O Maamar III abre tratando da Torá vinda do Céu. Mas primeiro Albo demonstra a nobreza do homem: refuta a tese antiga de que o homem é a criatura mais carente, mostrando que ele é o termo de toda a criação — porque o seu intelecto e os seus instrumentos são universais, ao passo que os dos animais são particulares. E o Perek Shirá ensina o homem a colher de cada criatura uma virtude.
1 Visto que o homem é equilibrado na têmpera e apreende pelo pensamento e pela especulação mais do que todos os demais viventes, eis que ele é o mais nobre da criação e o mais perfeito deles. Quanto ao equilíbrio da sua têmpera, vê-se pelo facto de que ele é afetado pelos opostos igualmente; e quanto à sua apreensão pelo pensamento e pela especulação, vê-se pelo facto de ser ele o que faz existir as artes e as ciências.
2 E não é cabido que se pense que, por serem os demais viventes aqueles que não precisam de sombra contra o calor nem de abrigo contra a chuva, e não precisam fazer nenhum preparo para o alimento a fim de que sejam nutridos por ele — pois o seu alimento se acha pronto tal como está, e acham-se para eles também alguns ardis, como se acham para os animais de presa e para as aves de rapina astúcias e ardis para caçar e obter o seu sustento —, que por causa disto fossem eles mais perfeitos da criação do que a espécie do homem; como houve nos antigos quem pensou isto, e dizia que o homem é o mais carente da criação em relação aos demais viventes: pois eles não precisam de animais para cavalgá-los a fim de ir de lugar a lugar, já que são, eles mesmos, leves de movimento mais do que a espécie do homem; e assim não precisam preparar para si armas de guerra para combater os seus inimigos, já que as suas armas de guerra são criadas com eles por natureza — como os chifres ao boi, e os caninos ao javali, e os espinhos ao ouriço, e a couraça ao caracol, e os que se lhes assemelham; e assim não precisam fazer nenhuma vestimenta, já que a sua vestimenta é criada com eles por natureza; e tampouco precisam de nenhum preparo para o alimento, já que o seu alimento se acha sempre pronto tal como está; e o homem é carente de tudo isto, pois precisa de vestimentas fora do seu corpo e de construções que lhe sejam abrigo e esconderijo contra a chuva e contra o aguaceiro, e precisa fazer muitos preparos para o alimento a fim de que ele seja apto a que o homem se nutra dele — e outras como estas, muitas, como veio isto no Maamar 14 do livro Dos Viventes.
הָאָדָם שָׁוֶה הַמֶּזֶג וּמַשִּׂיג בְּמַחֲשָׁבָה וְעִיּוּן — נִכְבַּד הַיְּצִירָה וְשָׁלֵם מִכֻּלָּם. וְהָיָה בַּקַּדְמוֹנִים מִי שֶׁחָשַׁב שֶׁהָאָדָם חֲסַר הַיְּצִירָה, שֶׁאֵין לוֹ כְּלֵי מִלְחָמָה וּמַלְבּוּשׁ בְּטֶבַע כִּשְׁאָר בַּעֲלֵי חַיִּים.
3 Pois esta opinião, quando se examina nela, acha-se corrompida com uma corrupção completa. E isto é: que nós, quando investigámos o assunto das formas que se acham nas matérias em todos os existentes inferiores que se geram, achámo-las todas seguindo o caminho da perfeição umas em direção às outras — quer dizer, que a forma posterior é mais nobre do que a que a precede; e é como que a matéria se move sempre, na recepção das formas, do grau da deficiência ao grau da perfeição: pois recebe primeiro a forma mais inferior, e depois a forma mais nobre, e sobe grau após grau da existência deficiente à mais perfeita. Pois eis que a matéria recebe primeiro as formas dos elementos, e depois sobe ao grau dos minerais — e os elementos estão no grau de matéria-prima hiuli para eles —, e depois sobe ao grau das plantas — e os minerais estão no grau de matéria-prima para elas —, e depois sobe ao grau dos viventes — e as plantas estão no grau de matéria-prima para eles —, e depois eleva-se ao grau da espécie do homem — e os viventes estão no grau de matéria-prima para a espécie do homem —, e nela se detém a criação. E, assim como num só movimento cada parte existe em razão da parte que vem depois dela, assim se vê que seria o assunto nos seres que se geram inferiores: que cada parte existe em razão da parte que vem depois dela; e também, assim como o movimento termina num fim que foi a causa de todos os movimentos parciais, assim a geração sobe grau após grau até elevar-se por fim à forma humana e deter-se nela, porque ela é o fim de todas as gerações inferiores.
הַחֹמֶר מִתְנוֹעֵעַ תָּמִיד מִן הַמְּצִיאוּת הֶחָסֵר אֶל הַשָּׁלֵם: יְסוֹדוֹת, מַחְצָבִים, צְמָחִים, בַּעֲלֵי חַיִּים, וּמִין הָאָדָם — וּבוֹ תַּעֲמֹד הַיְּצִירָה, כִּי הוּא תַּכְלִית כָּל הַהֲוָיוֹת הַשְּׁפָלוֹת.
4 E o que indica que a matéria se move sempre da existência deficiente à existência perfeita conforme se eleva a mescla é o que se acha no coral, que é como um intermediário entre o inerte e o vegetal; e o que se acha na esponja marinha, que não tem senão o sentido do tato apenas, e ela é como o intermediário entre o vegetal e o vivente; e o que se acha no macaco, que é como um intermediário entre as espécies do vivente e a espécie do homem; e na espécie do homem se detém a geração. Se é assim, é impossível que não seja o homem — que é o fim das criações inferiores — mais nobre e perfeito do que todas elas, depois de se reunirem nele todas as formas precedentes, e elas são como matéria-prima para ele; e por isso foi ele grande sobre todas elas, e subjuga todos os viventes sob si e domina sobre eles. Porque as suas apreensões são todas universais, e as apreensões de todos os viventes são particulares, pois não apreendem assuntos universais; e por isso acham-se para eles instrumentos particulares e ardis particulares conforme as suas apreensões particulares — pois acham-se para eles instrumentos particulares para combater com eles uma espécie das espécies de combate, como os caninos ao javali e os chifres ao boi e os espinhos na pele do ouriço e a couraça ao caracol para protegê-lo. Mas o homem, por ser ele o fim de todas as gerações inferiores e por se terem reunido nele todas as perfeições particulares que se acham em todos os demais viventes, foram as suas apreensões universais e o seu intelecto universal — quer dizer, que ele apreende as apreensões de todos os viventes e apreende também os universais das coisas e não uma coisa particular determinada; e por isso foram os seus instrumentos universais, como as mãos, que são em potência todos os instrumentos de guerra para combater com todos os viventes em todas as espécies de combate e subjugá-los sob si — pois toma com elas a lança no lugar dos chifres nos animais com chifres, e a espada no lugar dos caninos no javali, e toma o escudo na sua mão ou veste a couraça para protegê-lo no lugar da couraça no caracol; e não foram criadas com ele todas as armas de guerra como se dá nos viventes, a fim de que não lhe fossem um fardo pesado de carregar sobre si sempre.
הַשְׂגוֹתָיו כֻּלָּן כּוֹלְלוֹת, וְכֵלָיו כְּלָלִיִּים — הַיָּדַיִם בְּכֹחַ כָּל כְּלֵי הַמִּלְחָמָה. הָאַלְמֹג בֵּין הַדּוֹמֵם וְהַצּוֹמֵחַ, הָאִסְפֹּג בֵּין הַצּוֹמֵחַ וְהַחַי, הַקּוֹף בֵּין הַחַי וְהָאָדָם — וּבָאָדָם תַּעֲמֹד הַהֲוָיָה.
5 E por isto foi sábio o Criador na sua criação d'ele, ao fazer-lhe instrumentos universais que são em potência todos os instrumentos de guerra; e deu-lhe um intelecto universal, no que apreende os universais das coisas e não a sua particularidade; e assim no que pode apreender por ele o conjunto de todas as apreensões particulares que há em todos os viventes; e para que use daqueles instrumentos de modos diversos no tempo da necessidade e os ponha de lado quando não precisar deles, e não lhe sejam um fardo pesado. E assim as vestimentas são coisa fora do seu corpo, a fim de que tome delas as que lhe são necessárias no tempo do inverno e as alivie de sobre si no tempo do verão, e não lhe pese como a lã às ovelhas, que lhes pesa e precisam de tosquiadores. E deu-lhe sabedoria e entendimento para construir construções fortes a fim de esconder-se ali do sentir dos obreiros da iniquidade, no lugar dos buracos de terra e das fendas que há para os viventes.
הִתְחַכֵּם הַבּוֹרֵא לַעֲשׂוֹת לוֹ כֵּלִים כְּלָלִיִּים וְשֵׂכֶל כְּלָלִי, וְהַמַּלְבּוּשִׁים דָּבָר חוּץ מִגּוּפוֹ, וְחָכְמָה לִבְנוֹת בִּנְיָנִים חֲזָקִים לְמַחְסֶה.
6 E assim pode apreender, com o intelecto universal que há nele, todos os ardis particulares que há em cada um dos viventes e todas as apreensões e qualidades particulares que há para eles, conforme o dito de Jó "o que nos ensina das bestas da terra e das aves dos céus nos faz sábios" (Jó 35:11). E não é o seu desejo dizer que as bestas e as aves sejam mais sábias e entendidas do que a espécie do homem a tal ponto que precise o homem aprender delas — pois o sentido desmente isto, por ser ele o que domina sobre todas elas e o que as governa —, mas diz que o homem, pelo lado em que o seu intelecto e os seus instrumentos são universais, aprende de todos os viventes todos os ardis e as apreensões particulares que há para eles, e reúnem-se todos nele e tornam-se nele universais. Conforme o dito dos nossos sábios, de abençoada memória: "Disse Rabi Chiá: que é o que está escrito 'que nos ensina das bestas da terra'? Esta é a mula, que se agacha e urina longe da vista; 'e das aves dos céus nos faz sábios' — este é o galo, que apazigua e só depois copula. Disse Rabi Iochanan: se a Torá não tivesse sido dada a Israel, aprenderíamos o recato do gato, e a aversão ao roubo da formiga, e a fidelidade conjugal da pomba." E isto é explicado no caminho que escrevemos: que as qualidades particulares que há nos viventes é cabido que o homem as aprenda pelo lado do seu intelecto, e reúnam-se todas nele e tornem-se nele universais. Pois, assim como pelo lado do seu intelecto e dos seus instrumentos é como que se criassem com ele todas as armas de guerra e como que se criassem com ele as vestimentas no lugar da lã nas ovelhas, e assim como sabe preparar o seu alimento de modo conveniente à sua têmpera, combinando os manjares uns com os outros de modo que seja agradável e saudável à sua têmpera, assim é cabido que aprenda todas as boas qualidades particulares que há em cada um dos viventes e as reúna a fim de que se achem todas nele, e faça existir com isto as artes e as ciências.
״מַלְּפֵנוּ מִבַּהֲמוֹת אָרֶץ וּמֵעוֹף הַשָּׁמַיִם יְחַכְּמֵנוּ״. ״אִלְמָלֵא לֹא נִתְּנָה תּוֹרָה לְמַדְנוּ צְנִיעוּת מֵחָתוּל וְגָזֵל מִנְּמָלָה וַעֲרָיוֹת מִיּוֹנָה״. הָאָדָם לוֹמֵד הַמִּדּוֹת הַפְּרָטִיּוֹת וּמְקַבְּצָן בּוֹ כְּלָלִיּוֹת.
7 E sobre esta intenção se fundou o Perek Shirá, acerca do qual disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "Todo o que diz o Perek Shirá capítulo do cântico cada dia, garantido lhe está que é filho do mundo vindouro." E não é a intenção sobre o murmurar e o gorjear pela boca, senão sobre o pensamento do coração — como "disse eu no meu coração" (Eclesiastes 2:1); e o pensamento é que o homem contemple que de cada um dos seres criados visíveis ao olho há para tomar prova sobre alguma qualidade boa, ou disciplina da inteligência, ou coisa da sabedoria do entendimento. Como disseram ali: "Os céus, que é o que dizem? 'Os céus contam a glória de D'us'" etc. (Salmos 19:2); e o "dizem" e o "diz" mencionados ali em todo o Perek Shirá são para insinuar a indicação hora'á, como o seu dito, de abençoada memória, "esta diz a saber, indica" — e quer dizer que do movimento dos céus há para tomar prova sobre o achar-se um que os move sem ele próprio mover-se, e ele está no cúmulo do poder e da força, já que move corpos terríveis como estes — e ele é o D'us, bendito seja; e isto é coisa da sabedoria do entendimento, como se explicou no seu lugar.
״כָּל הָאוֹמֵר פֶּרֶק שִׁירָה בְּכָל יוֹם מֻבְטָח לוֹ שֶׁהוּא בֶּן הָעוֹלָם הַבָּא״ — לֹא עַל הַהֶגֶה בַּפֶּה אֶלָּא עַל מַחֲשֶׁבֶת הַלֵּב, שֶׁמִּכָּל נִבְרָא יֵשׁ לִקַּח רְאָיָה עַל מִדָּה טוֹבָה אוֹ מוּסַר הַשְׂכֵּל.
8 E assim disseram ali: "Os cães, que é o que dizem? 'Vinde, prostremo-nos e inclinemo-nos, ajoelhemo-nos diante do Senhor, que nos fez'" (Salmos 95:6). E quer dizer que, do que o cão reconhece o seu dono e o que lhe faz bem, e do estar ele sempre submisso diante dele e de lhe ser grato com toda a sua força no que está na sua mão fazer, há para tomar disto disciplina da inteligência: agradecer a D'us por todo o bem que ele nos faz, e por nutrir e sustentar a nós, e prostrarmo-nos diante dele e fazer o seu serviço no que alcançar a nossa mão, como sobre tudo o que ele retribui aos obrigados com bens; e que não sejamos ingratos.
9 E assim disseram: "A formiga, que é o que diz? 'Dá pão a toda a carne, porque para sempre é a sua bondade'" (Salmos 136:25). E quer dizer que, quando o homem contempla a formiga — que é criatura pequena e prepara no verão o seu pão e ajunta na ceifa o seu alimento —, aprende a qualidade da diligência charitsut, e entende que o Senhor dá pão a toda a carne e prepara alimento para todas as suas criaturas que criou, ao pôr nelas uma natureza para buscar o seu sustento no tempo apropriado e do lugar apropriado; e por isso o homem, depois que D'us pôs nele saber e inteligência, precisa esforçar-se na sua obtenção e não ser indolente nisto — pois a bênção do Senhor, ela enriquece os que se preparam a recebê-la, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "'a fim de que te abençoe o Senhor, teu D'us' (Deuteronômio 14:29) — seria possível pensar que mesmo quem fica sentado e ocioso seria abençoado? Por isso diz a Escritura 'em toda obra da tua mão que fizeres'."
הַכֶּלֶב — ״בֹּאוּ נִשְׁתַּחֲוֶה״: לְהוֹדוֹת לָאֵל וְלֹא לִהְיוֹת כְּפוּיֵי טוֹבָה. הַנְּמָלָה — ״נֹתֵן לֶחֶם לְכָל בָּשָׂר״: מִדַּת הַחֲרִיצוּת, וּבִרְכַּת ה׳ תַּעֲשִׁיר לַמְּכִינִים עַצְמָם.
10 E, a fim de que não diga o homem "visto que a coisa está dependente do meu esforço, roubarei, ou furtarei, ou explorarei conforme alcançar a minha mão", disseram "aprendemos o não-roubo da formiga" — pois ela jamais furta nem rouba nem toma coisa daquilo que outra sua companheira adquiriu; à maneira do que experimentaram os que experimentam muitas vezes ao tomar um grão de trigo de uma delas e pô-lo diante das outras, e, ao passarem sobre ele, farejam-no e percebem que é de outra da sua espécie e deixam-no ali — pois não tomam coisa que não lhes é devida. E sobre isto disse Salomão "vai à formiga, ó preguiçoso, vê os seus caminhos e fica sábio; a qual não tem chefe, oficial nem governador" (Provérbios 6:6-7) — quer dizer, que não tem chefe, oficial nem governador que a force a abster-se do roubo, e, ainda assim, acautela-se dele e esforça-se por preparar no verão o seu pão sem roubo.
״לָמַדְנוּ גָּזֵל מִנְּמָלָה״ — שֶׁלֹּא תִּקַּח דָּבָר שֶׁזָּכְתָה בּוֹ חֲבֶרְתָּהּ. ״לֵךְ אֶל נְמָלָה עָצֵל... אֲשֶׁר אֵין לָהּ קָצִין שֹׁטֵר וּמֹשֵׁל״ — וְאַף עַל פִּי כֵן תִּזָּהֵר מִן הַגָּזֵל.
11 E assim o que disseram "A pomba, que é o que diz? 'Minha pomba, que estás nas fendas da rocha'" etc. (Cântico 2:14) — quer dizer que por isso foram comparados Israel à pomba, a fim de aprender dos seus caminhos, como disseram no Midrash Chazit: "assim como esta pomba é recatada, assim Israel são recatados; assim como esta pomba, desde a hora em que reconhece o seu par, não o troca por outro, assim Israel, desde a hora em que reconheceram ao Santo, bendito seja, não o trocaram por outro" — e isto é do gênero do que disseram "aprendemos a fidelidade da pomba"; e ali no Midrash Chazit há muitas comparações que comparam Israel à pomba.
12 E assim o que disseram ali no Perek Shirá: "A macieira, que é o que diz? 'Como a macieira entre as árvores do bosque, assim é o meu amado entre os filhos; à sua sombra desejei estar e ali me sentei, e o seu fruto é doce ao meu paladar'" (Cântico 2:3) — deste modo se explica: que por isso foi comparado o Santo, bendito seja, à macieira, como disseram no Midrash Chazit, para dizer-te que, ainda que da macieira o homem não goza da sua sombra, por não ter ela uma sombra grande como as demais árvores, de todo modo, pela esperança do bem do fruto e do seu aroma e da sua doçura e do seu agrado ao paladar, anseia o homem por sentar-se naquela sombra escassa. Assim, ainda que tribulações venham sobre o homem que serve o Senhor, e que não prospere neste mundo, ao habitar ele no esconderijo do Altíssimo e à sombra do Todo-Poderoso se abrigar, é cabido para ele não abandonar a sua integridade, na medida em que está esperando a recompensa futura por vir e a sua doçura e o seu agrado para os que o reconhecem. E assim disse no Midrash Chazit: "assim como a esta macieira todos fogem dela na hora do calor abrasador, por não ter ela sombra, assim fugiram as nações do mundo de habitar à sombra do Santo, bendito seja, no dia da doação da Torá; seria possível pensar que também Israel assim? Por isso diz a Escritura 'à sua sombra desejei estar e ali me sentei'." E deste modo se explica todo aquele capítulo. E ensinaram nele que de todos os existentes sensíveis, um a um, há para o homem tomar prova sobre o que lhe é cabido fazer e como conduzir-se nele, pois o seu intelecto é universal, e é cabido que se reúnam nele todos aqueles assuntos particulares. E por isso se vê que ele é o mais nobre da criação e o mais perfeito de todos os viventes, por se reunirem nele todas as coisas particulares — o que não se acha assim em nenhuma espécie das espécies dos viventes —, e por ser ele o que domina sobre todos eles pela sua sabedoria e os subjuga sob si, conforme o dito da Escritura "fizeste-o dominar sobre as obras das tuas mãos, tudo puseste debaixo dos seus pés" (Salmos 8:7).
הַיּוֹנָה — צְנִיעוּת וְשֶׁאֵינָהּ מְמִירָה בֶּן זוּגָהּ. הַתַּפּוּחַ — ״בְּצִלּוֹ חִמַּדְתִּי וְיָשַׁבְתִּי״: לֹא יַעֲזֹב תֻּמּוֹ אַף בַּיִּסּוּרִין, מְקַוֶּה הַשָּׂכָר הֶעָתִיד. ״תַּמְשִׁילֵהוּ בְּמַעֲשֵׂי יָדֶיךָ כֹּל שַׁתָּה תַחַת רַגְלָיו״.
O Maamar III trata do segundo grande princípio — a Torá vinda do Céu (Torá min haShamayim). Mas Albo não começa pela revelação; começa pelo destinatário. Para mostrar que o homem precisa de uma Torá e é capaz de recebê-la, demonstra primeiro a sua singular nobreza. O capítulo é, na prática, uma antropologia filosófica que serve de pórtico a toda a doutrina da Lei divina.
Albo enfrenta uma tese antiga (que remonta a debates greco-árabes sobre o De Animalibus de Aristóteles): o homem seria a criatura mais desamparada — nasce nu, sem garras, sem pelo, incapaz de se alimentar sem cozinhar. Os animais já trazem da natureza arma, roupa e comida. A resposta de Albo inverte o argumento: aquilo que parece carência é, na verdade, superioridade. O animal tem instrumentos particulares (o chifre serve só para marrar); o homem tem instrumentos e intelecto universais — a mão é potencialmente toda arma, a razão capta o universal das coisas. Não carregar arma e roupa fixas é vantagem: ele as toma e larga conforme a necessidade, sem o fardo. A nudez é liberdade.
O fundamento metafísico é a ideia aristotélica da matéria que ascende: cada forma é matéria-prima (hiuli) para a seguinte — elementos → minerais → plantas → animais → homem. A geração é teleológica: tudo existe "em razão do que vem depois", e o homem é o fim em que a criação inferior se detém. Albo até cita os "elos intermediários" da cadeia do ser — o coral (entre inerte e vegetal), a esponja (entre vegetal e animal), o macaco (entre animal e homem) — antecipando de modo notável a noção de uma scala naturae contínua.
A consequência prática é luminosa. Sendo o intelecto humano universal, o homem pode recolher de cada criatura a sua virtude particular e torná-la sua. É a chave com que Albo lê o Perek Shirá — não como recitação vocal, mas como meditação do coração: cada ser visível é uma lição. O cão ensina a gratidão; a formiga, a diligência e a honestidade (não toca no grão alheio, embora não tenha "chefe nem governador"); a pomba, a fidelidade e o recato; a macieira (sombra escassa mas fruto doce), a perseverança do justo que sofre neste mundo esperando a recompensa futura. E o célebre dito de Rabi Iochanan — "se a Torá não tivesse sido dada, aprenderíamos o pudor do gato, a honestidade da formiga, a fidelidade da pomba" — confirma a tese: a natureza é um livro de ética, e o homem, coroa da criação ("tudo puseste debaixo dos seus pés"), é quem sabe lê-lo. Está aberto, assim, o caminho para a pergunta do Maamar III: dado este ser capaz de virtude universal, que Lei o conduz à sua perfeição última?
Cada espécie tem um fim próprio que a distingue. O do homem não pode ser a nutrição ou a sensação — senão o porco lhe seria igual —, mas a faculdade intelectual, e nela a parte especulativa mais que a prática. Daí a primazia da visão e da audição; a distinção entre perfeição primeira e última; e por que, só na criação do homem, a Escritura não disse "que era bom".
Cada espécie tem um fim próprio que a distingue. O do homem não pode ser a nutrição ou a sensação — senão o porco lhe seria igual —, mas a faculdade intelectual, e nela a parte especulativa mais que a prática. Daí a primazia da visão e da audição; a distinção entre perfeição primeira e última; e por que, só na criação do homem, a Escritura não disse "que era bom".
1 Visto que todo existente natural tem, na verdade, na sua forma específica uma propriedade segulá e um fim tachlit pelo qual se distingue das demais espécies — e aquele fim que se acha em cada espécie é a causa da sua existência naquela forma que individua aquela espécie —, e visto que o homem é do conjunto dos existentes naturais e o mais nobre e perfeito da criação dentre eles, como explicámos, é cabido, se é assim, que se ache para ele um fim próprio atribuído à sua forma específica que não está na força da nutrição e da sensação — pois, se fosse assim, seria a perfeição e o fim do jumento e do porco igual à perfeição do homem e ao seu fim; e por isso é manifesto que esta perfeição é cabido que esteja naquilo que se acha nele com que é superior aos viventes.
כָּל נִמְצָא טִבְעִי יֵשׁ לְצוּרָתוֹ הַמִּינִית סְגֻלָּה וְתַכְלִית בָּהּ יִבָּדֵל. וְהָאָדָם, הַנִּכְבָּד וְהַשָּׁלֵם, רָאוּי שֶׁיִּמָּצֵא לוֹ תַּכְלִית מְיֻחָד שֶׁאֵינוֹ בְּכֹחַ הַהֲזָנָה וְהַהֶרְגֵּשׁ — שֶׁאִם כֵּן יִהְיֶה שְׁלֵמוּת הַחֲזִיר שָׁוֶה לִשְׁלֵמוּת הָאָדָם.
2 E, porque nós vemos que há nele potencialidade e disposição para a recepção dos inteligíveis e para a invenção das ciências e a sua extração da potência ao ato mais do que em todos os demais viventes, é cabido que a perfeição humana esteja dependente desta força intelectual. E, visto que esta força se divide em parte especulativa e parte prática, é cabido que a sua perfeição esteja dependente da parte especulativa dela mais do que do que depende da prática, porque ela se relaciona com a sua natureza própria.
יֵשׁ בּוֹ הֲכָנָה עַל קִבּוּל הַמּוּשְׂכָּלוֹת יוֹתֵר מִכָּל בַּעֲלֵי חַיִּים — רָאוּי שֶׁיִּהְיֶה הַשְּׁלֵמוּת הָאֱנוֹשִׁי נִתְלֶה בַּכֹּחַ הַשִּׂכְלִי, וּבַחֵלֶק הָעִיּוּנִי יוֹתֵר מִן הַמַּעֲשִׂי.
3 Pois não é de dizer que o fundamento do achar-se este intelecto no homem seja em razão da ação apenas — quero dizer, a fim de fazer existir as artes práticas e os ofícios —, pois já se explicou na Epístola dos Viventes que compuseram os Irmãos da Pureza Ichván al-Tsafá que no conjunto dos viventes se acha a perfeição das artes e dos ofícios mais do que se acha na espécie do homem. E ainda, que se fosse assim — visto que todo fim é mais nobre do que o que vem antes do fim — seriam as artes práticas mais nobres do que as especulativas, e seriam então as artes especulativas, que não são dirigidas para o lado da ação de modo algum, vãs e coisa nula; e isto é o contrário daquilo sobre o que fomos criados e o contrário da opinião de todos — pois todos os homens concordam em que há vantagem das artes especulativas sobre as práticas. E ainda, que a alegria em toda coisa, na verdade, está no fim e naquilo que se aproxima do fim mais do que naquilo que se afasta dele; e nós achamos a alegria e o agrado no pouco apreendido das coisas especulativas maior, sem medida, do que toda a alegria das práticas — e isto é prova de que o fundamento do fim humano está dependente da parte especulativa da força intelectual.
אִם הָיוּ הַמְּלָאכוֹת הַמַּעֲשִׂיּוֹת תַּכְלִית, הָיוּ נִכְבָּדוֹת מִן הָעִיּוּנִיּוֹת — וְזֶה חִלּוּף דַּעַת הַכֹּל. וְהַשִּׂמְחָה בִּמְעַט הַמּוּשָּׂג מִן הָעִיּוּנִי גְּדוֹלָה לְאֵין שִׁעוּר מִכָּל שִׂמְחַת הַמַּעֲשִׂיּוֹת.
4 E por isso achas que o homem é ansioso pelos sensíveis da visão e da audição mais do que pelos sensíveis do olfato e do gosto, pois a natureza pôs o nosso anseio por estes mais forte, por se relacionarem mais com o facto de adquirirmos por eles as coisas especulativas — nas quais está dependente a perfeição humana, que é o fim da perfeição do homem —, ao passo que os demais sensíveis se relacionam mais com as sensações e os apetites corporais, que estão muito distantes da perfeição específica do homem, e não estão nele senão para sustentar o corpo apenas, como se dá nos demais viventes. E, porque todo existente anseia mais por seguir a coisa que se relaciona com a sua forma específica e com o seu fim próprio a ele, ele deseja mais as forças e os instrumentos que conduzem àquele fim; e por isso o homem é ansioso mais por estes dois sensíveis do que pelos demais, por serem eles os que fazem chegar o homem ao seu fim mais do que os demais.
הָאָדָם כּוֹסֵף אֶל מוּחְשֵׁי הָרְאוּת וְהַשֵּׁמַע יוֹתֵר מֵהָרֵיחַ וְהַטַּעַם, לְפִי שֶׁבָּהֶם נִקְנוּ הַדְּבָרִים הָעִיּוּנִיִּים שֶׁבָּהֶם נִתְלֶה הַשְּׁלֵמוּת הָאֱנוֹשִׁי.
5 E por isso atribuiu a Escritura a criação destes dois sentidos ao Senhor mais do que a dos demais; disse Salomão "ouvido que ouve e olho que vê — o Senhor fez ambos" (Provérbios 20:12). Mas, por ser o aprendizado que chega do mestre mais permanente na alma, explicou Salomão num outro versículo que há vantagem da audição sobre a visão, e disse "ouvido que escuta a repreensão da vida, no meio dos sábios pernoitará" (Provérbios 15:31). E pela excelência destes dois sentidos sobre os demais — por serem eles instrumentos para que se apreenda a perfeição humana por meio deles —, disse Salomão no livro do Cântico dos Cânticos, aludindo a ambos: "minha pomba, que estás nas fendas da rocha, no esconderijo da escarpa, mostra-me o teu aspecto, faze-me ouvir a tua voz, pois a tua voz é suave e o teu aspecto formoso" (Cântico 2:14). Pois ele, a modo de cântico, falava com a sua alma e a descrevia como pomba; e disse sobre ela "minha pomba, que estás nas fendas da rocha, no esconderijo da escarpa", para insinuar que ela habita no esconderijo do corpo e não se conhece onde está o seu lugar; e disse "mostra-me o teu aspecto" — dois aspectos, para insinuar o aspecto das letras que há no livro e o aspecto dos sensíveis, por meio de ambos os quais se apreende o aprendizado, pois cada um deles é "formoso"; disse "faze-me ouvir a tua voz", quer dizer: ainda que a voz da pomba não seja suave, eis que tu, minha pomba, minha perfeita, a tua voz é suave — quer dizer, a voz com que apreendes nela os inteligíveis vindos do mestre é suave para mim em muito; e por isso "faze-me ouvir a tua voz" que recebeste do mestre, "pois a tua voz é suave e o teu aspecto formoso" — porque por meio destes dois sentidos sai a potencialidade que há no homem da potência ao ato, e o homem chega ao fim da sua perfeição ao estar ele a usar destes dois sentidos conforme o que é cabido.
״אֹזֶן שֹׁמַעַת וְעַיִן רֹאָה ה׳ עָשָׂה גַּם שְׁנֵיהֶם״. וְיֵשׁ יִתְרוֹן לַשֵּׁמַע: ״אֹזֶן שֹׁמַעַת תּוֹכַחַת חַיִּים בְּקֶרֶב חֲכָמִים תָּלִין״. ״הַרְאִינִי אֶת מַרְאַיִךְ הַשְׁמִיעִינִי אֶת קוֹלֵךְ כִּי קוֹלֵךְ עָרֵב וּמַרְאֵךְ נָאוֶה״.
6 E, se o homem não usa deles senão nas vaidades do mundo, eis que o homem é como que surdo e cego. E assim chamou o profeta aos que se ocupam das vaidades do mundo "surdos e cegos", como disse "ó surdos, ouvi; e ó cegos, olhai para ver" (Isaías 42:18). E isto é porque não se ocupam deles conforme o que lhes é cabido — que é extrair a perfeição que está em potência ao ato; e é impossível que o homem chegue à perfeição do seu fim senão pela extração da potencialidade que há nele ao ato.
וְאִם לֹא יִשְׁתַּמֵּשׁ בָּהֶם רַק בְּהַבְלֵי הָעוֹלָם, הָאָדָם כְּאִלּוּ הוּא חֵרֵשׁ וְעִוֵּר. ״הַחֵרְשִׁים שְׁמָעוּ וְהַעִוְרִים הַבִּיטוּ לִרְאוֹת״.
7 E isto é: que as perfeições são de duas espécies — perfeição primeira e perfeição última. Perfeição primeira é a perfeição que chega à coisa logo ao estar ela existente em ato, imediatamente ao existir, e chama-se perfeição da existência; e perfeição última é a perfeição que não chega à coisa com a sua existência imediatamente, mas está nela em potência na hora da existência daquela coisa, e só chega àquela perfeição quando sai a potencialidade ao ato, e chama-se perfeição do fim. E esta espécie de perfeição é a visada no homem. Pois a cadeira, por exemplo, a sua perfeição primeira chega com a sua existência imediatamente, logo ao completar-se a sua feitura, e a sua perfeição última — que é a perfeição do fim — não chega senão com o sentar-se sobre ela. E, porque não há nos viventes outra perfeição esperada deles senão a perfeição da existência apenas, disse-se na sua criação "e viu D'us que era bom" (Gênesis 1:21,25), para insinuar que, com a sua existência, imediatamente chegou e se completou a bondade que é possível que esteja neles — que é a perfeição da existência —, e não se espera deles outra perfeição além desta. Mas na criação do homem não se disse "que era bom", e isto parece coisa de admirar — pois acaso não seria cabido que se dissesse sobre a criação do homem "que era bom" como sobre a criação dos demais viventes? Senão que o facto de não se ter dito sobre ele "que era bom" é para ensinar que a bondade visada no homem não é a bondade visada nos demais viventes, que é a perfeição da existência apenas, mas se espera que chegue dele uma bondade outra, mais nobre, que não chega com a sua existência imediatamente, mas só depois que ele extrair a potencialidade que há nele da potência ao ato; e, todo o tempo em que o seu intelecto não sair da potência ao ato, não chega a sua perfeição visada nele, que é a perfeição do fim.
שְׁלֵמוּת רִאשׁוֹן (שְׁלֵמוּת הַמְּצִיאוּת) וּשְׁלֵמוּת אַחֲרוֹן (שְׁלֵמוּת הַתַּכְלִית). הַכִּסֵּא — שְׁלֵמוּתוֹ הָאַחֲרוֹן בַּיְשִׁיבָה עָלָיו. בַּבַּעֲלֵי חַיִּים נֶאֱמַר ״כִּי טוֹב״; בָּאָדָם לֹא נֶאֱמַר — שֶׁהַטּוֹב הַמְכֻוָּן בּוֹ בָּא רַק אַחַר שֶׁיּוֹצִיא הַכֹּחַ אֶל הַפֹּעַל.
8 E por isso disse Salomão "melhor é o bom nome do que o bom óleo, e o dia da morte do que o dia do seu nascimento" (Eclesiastes 7:1) — quer dizer: o bom nome adquirido pelo lado das boas qualidades é melhor do que o bom óleo, pois o bom nome se ouve até os confins da terra mais do que o aroma do bom óleo; mas este não é bem essencial à alma. E por isso o dia da morte — pois então já chegou o homem à perfeição dos conhecimentos — é melhor do que o dia do seu nascimento, porque no dia da morte já extraiu o que estava em potência no seu intelecto ao ato, o que não se dá no dia do seu nascimento, no qual ele está em potência completa, e a perfeição anímica não tem existência senão em potência, ainda que a perfeição corporal se ache então em ato.
״טוֹב שֵׁם מִשֶּׁמֶן טוֹב וְיוֹם הַמָּוֶת מִיּוֹם הִוָּלְדוֹ״ — שֶׁבְּיוֹם הַמָּוֶת כְּבָר הוֹצִיא מַה שֶּׁבְּכֹחַ שִׂכְלוֹ אֶל הַפֹּעַל.
9 E, para insinuar a diferença que há entre a criação do homem e a criação dos viventes, e que os fins destas duas criações são diferentes, achas que, na criação dos viventes, mencionou a Escritura "segundo a sua espécie, segundo a sua espécie", e disse "e fez D'us o animal da terra segundo a sua espécie, e a besta segundo a sua espécie, e todo réptil do solo segundo a sua espécie" (Gênesis 1:25), para ensinar que nos viventes não há diferença entre o fim de uma espécie e o fim de outra espécie, nem entre a criação do macho e a criação da fêmea, pois o visado em todos é um fim apenas, universal — que é a permanência da espécie, a saber a perfeição da existência —, e este é o fim igual em todas as espécies e no macho e na fêmea, pois não há vantagem nela do macho sobre a fêmea. Mas no homem — visto que a intenção na sua criação não é a permanência da espécie apenas, mas a permanência do indivíduo — não se disse na sua criação "segundo a sua espécie", e não foi criada a fêmea com ele imediatamente, para ensinar a diferença imensa que há entre estas duas criações: pois a intenção naquelas é a permanência da espécie, na qual a fêmea e o macho são iguais, e a intenção nesta é a permanência no indivíduo, na qual a fêmea não é igual ao macho — mas foi criada para ajudá-lo, a fim de que ele chegue à sua perfeição visada nele, que se acha nele no tempo da criação em potência e precisa extraí-la da potência ao ato.
בַּבַּעֲלֵי חַיִּים נֶאֱמַר ״לְמִינָהּ לְמִינֵהוּ״ — שֶׁהַמְכֻוָּן קִיּוּם הַמִּין (שְׁלֵמוּת הַמְּצִיאוּת). בָּאָדָם לֹא נֶאֱמַר ״לְמִינֵהוּ״, וְלֹא נִבְרְאָה הַנְּקֵבָה עִמּוֹ מִיָּד — שֶׁהַמְכֻוָּן קִיּוּם הָאִישׁ.
10 E, porque a existência desta perfeição no homem é em potência, e a existência que está em potência é como que um intermediário entre a existência e a privação, chamou-a a Escritura "nada" áin; disse Salomão "e a vantagem do homem sobre a besta é nada, porque tudo é vaidade" (Eclesiastes 3:19) — quer dizer: esta vantagem sobre a besta é coisa cuja existência é débil. E, se tivesse dito "e não há vantagem para o homem sobre a besta", o seu sentido seria um juízo negativo completo; mas, depois que disse "e a vantagem do homem sobre a besta é nada", o seu sentido é um juízo afirmativo, como que dissesse que há para ele vantagem sobre a besta, mas aquela vantagem é "nada" — quer dizer, coisa cuja existência é débil, por não ser senão potencialidade apenas. E isto é manifesto para os possuidores da lógica, pois este juízo, a sua força é força de juízo afirmativo, não de juízo negativo. E sobre esta potência disse Jó "e a sabedoria, de onde me-áin se acha?" (Jó 28:12) — quer dizer: a existência da sabedoria vem da potencialidade que se acha no homem chamada "nada" áin, pois, quando se achar em ato, chegará o fim da perfeição do homem, e não antes disto. E o caminho do chegar esta potência à sabedoria é pelo lado da resposta na pergunta "qual é" a coisa, a fim de conhecer as definições das coisas; e isto é o seu dito "e qual é o lugar do entendimento?" (Jó 28:12).
״וּמוֹתַר הָאָדָם מִן הַבְּהֵמָה אָיִן כִּי הַכֹּל הָבֶל״ — מִשְׁפָּט חִיּוּבִי: יֵשׁ לוֹ מוֹתָר, אֲבָל מְצִיאוּתוֹ חַלּוּשׁ (כֹּחַ בִּלְבַד). ״וְהַחָכְמָה מֵאַיִן תִּמָּצֵא״ — מִן הַכֹּחַ הַנִּקְרָא אָיִן.
Albo aplica ao homem o princípio aristotélico do telos: cada espécie natural existe em vista de um fim próprio (tachlit) inscrito na sua forma. O fim do homem não pode coincidir com o dos animais — nutrição, sensação, reprodução —, pois então "o porco lhe seria igual". Tem de estar naquilo que o distingue: o intelecto. E, dentro do intelecto, na sua parte especulativa (a contemplação da verdade), não na prática (as artes e ofícios).
Albo argumenta com rigor escolástico: (1) os animais superam o homem em certas artes práticas (a aranha tece melhor que qualquer tecelão) — logo o fim humano não está aí; (2) o fim é sempre mais nobre que o meio — se o prático fosse o fim, a ciência teórica seria "vã", contra o consenso universal de que ela é superior; (3) a alegria mede a proximidade do fim, e o gozo de uma só verdade contemplada excede sem comparação todo prazer prático. Daí também a hierarquia dos sentidos: visão e audição (os sentidos do saber — leem-se letras, ouve-se o mestre) são mais nobres que olfato, paladar e tato (sentidos do corpo). Por isso só deles diz a Escritura "o Senhor fez ambos", e a audição supera ainda a visão, pois o ensino do mestre fixa-se melhor na alma.
A leitura alegórica de Cântico 2:14 é típica de Albo: o rei fala "com a sua própria alma", a pomba escondida "nas fendas da rocha" (o corpo, cujo lugar não se conhece). "Mostra-me os teus aspectos" — os dois aspectos da visão: as letras do livro e os objetos sensíveis; "faze-me ouvir a tua voz" — o saber recebido do mestre pelo ouvido. Pelos dois sentidos a potência intelectual sai ao ato. Quem os usa só para "vaidades" é o "surdo e cego" de Isaías.
O ponto culminante é a distinção entre perfeição primeira (a coisa pronta ao existir — a cadeira acabada) e perfeição última (o fim que só se realiza no uso — sentar-se nela). Os animais têm apenas a primeira: cumprida ao nascer, "e viu D'us que era bom". Do homem a Torá omite o "que era bom" — sinal de que a sua bondade própria ainda não existe ao nascer; está só em potência, e só se realiza quando ele atualiza o intelecto. Disso derivam três belas leituras: "melhor o dia da morte que o do nascimento" (na morte o intelecto já se atualizou); "segundo a sua espécie" dito só dos animais (cujo fim é a espécie, não o indivíduo — por isso a mulher não foi criada junto, mas como auxílio para a perfeição individual do homem); e a perfeição-em-potência chamada áin, "nada" — não negação, mas existência débil, "a vantagem do homem sobre a besta é áin", e "a sabedoria, de onde (me-áin) se acha?": justamente dessa potência latente que aguarda ser extraída ao ato. Fica assim posta a questão central do Maamar III: como o homem atinge essa perfeição última — e que papel tem nisso a Torá divina.
Os filósofos disseram que a perfeição última e a imortalidade da alma estão na apreensão dos inteligíveis e na conjunção com o Intelecto Agente. Albo refuta: tal fim, ou é impossível, ou só o alcançam um sábio por geração — e então a existência da maioria da espécie seria em vão, justo o que queriam evitar. Só a Torá oferece um fim acessível a toda a espécie ou à sua maioria.
Os filósofos disseram que a perfeição última e a imortalidade da alma estão na apreensão dos inteligíveis e na conjunção com o Intelecto Agente. Albo refuta: tal fim, ou é impossível, ou só o alcançam um sábio por geração — e então a existência da maioria da espécie seria em vão, justo o que queriam evitar. Só a Torá oferece um fim acessível a toda a espécie ou à sua maioria.
1 Toda coisa que está em potência precisa sair da potência ao ato; e tudo o que não sai da potência ao ato, eis que a sua existência naquela potencialidade é em vão e como que não foi. E por isso é manifesto que a perfeição do homem e o seu fim último, que dissemos estar nele em potência, se não se acharem em ato, será a existência da espécie do homem em vão, pois não terá vantagem sobre as demais espécies dos viventes; e por isso precisamos explicar este fim, o que é ele, a fim de que o homem se oriente a alcançá-lo.
כָּל מַה שֶּׁלֹּא יֵצֵא מִן הַכֹּחַ אֶל הַפֹּעַל, מְצִיאוּתוֹ לְבַטָּלָה. וְאִם לֹא יִמָּצֵא שְׁלֵמוּת הָאָדָם בְּפֹעַל, יִהְיֶה מְצִיאוּת הַמִּין לְבַטָּלָה — צָרִיךְ אֵפוֹא לְבָאֵר מַה הוּא הַתַּכְלִית.
2 E eis que esta perfeição e este fim, conforme aquilo em que concordaram os filósofos, é a apreensão dos inteligíveis. E disseram que aquele intelecto adquirido por meio deles é o que permanece após a morte; e isto é quando se essencializam como um só o intelecto e o inteligente e o inteligido, e quando tornam-se uma só coisa nela mesma com os inteligíveis que estão no Intelecto Agente sechel hapoel. E disseram que isto é o seu fim último e a sua felicidade anímica; e disseram também que, se não for por este caminho, não se concebe nenhuma permanência para a alma, e seria a existência da espécie do homem em vão, e não haveria então vantagem da espécie do homem sobre o vivente, e anular-se-ia a perfeição específica que dissemos no capítulo anterior a este. Esta é a opinião dos filósofos quanto à perfeição humana, e assim é a opinião de muitos dos possuidores da Torá, como escreveram nas suas obras. E seguiram após esta opinião por pensarem que esta é a opinião da Torá, já que acharam que Moisés, nosso mestre, disse "e que eu te conheça, a fim de que ache graça aos teus olhos" (Êxodo 33:13) — do que se vê que o que conhece é o que acha graça aos seus olhos, bendito seja, e não outro. E este versículo não obriga senão a que haja para o que conhece uma vantagem de grau sobre o que não conhece, não mais do que isto — pois "e que eu te conheça" indica o conhecer a ele, bendito seja, e não há quem o conheça senão ele. E é cabido que investiguemos agora esta opinião em brevidade, conforme o que basta para dar uma compreensão figurativa ao crente, conforme a nossa intenção nesta obra.
הַשְּׁלֵמוּת לְפִי הַפִילוֹסוֹפִים הוּא הַשָּׂגַת הַמּוּשְׂכָּלוֹת, וְהַשֵּׂכֶל הַנִּקְנֶה הוּא הַנִּשְׁאָר אַחַר הַמָּוֶת — בְּהִתְעַצֵּם הַשֵּׂכֶל וְהַמַּשְׂכִּיל וְהַמּוּשְׂכָּל וְהִתְאַחֲדוֹ עִם הַשֵּׂכֶל הַפּוֹעֵל.
3 E dizemos que, quando se examina esta opinião, achamo-la nula por si mesma e não concordante com a opinião da Torá divina, porque eles não se livram, de modo algum, de que a existência do homem seja em vão, e caíram naquilo de que fugiram. E isto é: que este fim não se livra de que seja possível de apreensão ou impossível de apreensão. E, se é impossível de apreensão, será a existência da espécie do homem em vão, e não terá ela vantagem sobre a espécie do jumento e do porco; e, se é possível de apreensão, eis que não há dúvida de que isto não se alcançará ao conjunto dos homens, nem à sua maioria, senão a um homem entre mil, ou a um único indivíduo na geração — como se disseras Sócrates e Platão e os que se lhes assemelham; mas os demais homens, que não inteligenciaram como eles e não chegaram ao seu grau, estarão junto a eles no grau do jumento e do porco, já que não chegaram, conforme a opinião deles, ao fim humano, e será a existência de todos eles em vão, fora daquele homem que é único na geração. E, se se achar uma geração na qual não haja homem perfeito como Sócrates, por exemplo, será então a existência de toda a espécie em vão naquele tempo; e eis que caíram naquilo de que fugiram, pois será, conforme isto, toda a ação divina em algum tempo, e a sua maioria em todos os tempos, a não chegar ao seu fim, e a ser impossível para ela alcançá-lo de modo algum; e isto é do que não é cabido que se atribua a nenhum agente perfeito, quanto mais à Causa das causas, exaltado seja, que excede disto com grande excelência.
הַתַּכְלִית אוֹ נִמְנָע הַהַשָּׂגָה (וְאָז לְבַטָּלָה), אוֹ אֶפְשָׁרִי — אַךְ לֹא יֻשַּׂג אֶלָּא לְאֶחָד מֵאֶלֶף אוֹ לְיָחִיד בַּדּוֹר (כְּסוֹקְרָאט וַאֲפְלָטוֹן). וְאָז שְׁאָר הָאֲנָשִׁים בְּמַדְרֵגַת הַחֲמוֹר — וְנָפְלוּ בְּמַה שֶּׁבָּרְחוּ מִמֶּנּוּ.
4 E ainda, que mesmo conforme as suas palavras, aqueles inteligíveis que inteligencia aquele sábio ou o único indivíduo na geração, é possível que não o façam chegar ao seu fim e à sua perfeição humana. Pois a inteligência acerca dos elementos e acerca das coisas naturais não é do que dá perfeição à alma essencialmente, mesmo conforme a opinião dos filósofos; quanto mais a inteligência acerca das coisas matemáticas limudiim! Pois que perfeição chega à alma por ter inteligenciado que os ângulos do triângulo são iguais a dois ângulos retos, e que o ângulo que sai do triângulo é igual aos dois ângulos internos opostos a ele, ou que, quando se junta o lado do polígono de dez lados com o lado do polígono de seis lados, aquela linha se divide na proporção de médio e dois extremos? Pois todos estes dão perfeição à alma pelo lado em que são entrada e caminho e escada para inteligenciar as coisas celestes e as causas de que as coisas naturais dependem, e não porque eles deem perfeição à alma por si mesmos de modo algum. E por isso é impossível para ela permanecer eterna pelo lado desta inteligência.
הַהַשְׂכָּלָה בַּיְּסוֹדוֹת וּבַטִּבְעִיִּים, וְכָל שֶׁכֵּן בַּלִּמּוּדִיִּים (הַגֵּאוֹמֶטְרִיָּה), אֵינָהּ נוֹתֶנֶת שְׁלֵמוּת לַנֶּפֶשׁ מִצַּד עַצְמָהּ — אֶלָּא הֵן מָבוֹא וְסֻלָּם בִּלְבַד.
5 E assim achas que Davi desperta a atenção sobre isto no salmo "os céus contam a glória de D'us" (Salmos 19:2). Disse nele que o que é possível que se apreenda pelo lado da investigação humana do movimento das esferas não é senão o que se vê: que os céus se movem sempre; e, pelo lado de que todo o que se move precisa de um motor, indicam a existência do Senhor que os move; e, pelo lado de que são corpos grandes e terríveis em muito, indicam também a força imensa que há para o que os move — pois tudo isto indica a sua glória e o seu poder; e por causa disto disse "a glória de D'us kevod El", para insinuar o poder, como "há poder na minha mão" (Gênesis 31:29). E assim o firmamento — que é a parte do ar na qual a chuva e a neve e o granizo e os trovões e os relâmpagos se geram — indica também a imensidade da obra das suas mãos. E é possível que aluda na palavra "firmamento" rakía à esfera diurna, que assim a chamou Ezequiel "firmamento", ao dizer "e havia uma semelhança sobre as cabeças do ser um firmamento, como o aspecto do gelo terrível, estendido sobre as suas cabeças" etc. (Ezequiel 1:22). E estendeu-se Davi a explicar como os céus e o firmamento contam a glória de D'us e a obra das suas mãos; e diz "dia a dia profere fala" (Salmos 19:3) — quer dizer: pelo lado do movimento diurno que se vê neles em cada dia e dia, e da mudança com que um dia se muda de outro dia, é isso o "proferir" em que eles "contam" nele a glória de D'us. E assim "noite a noite revela conhecimento" (Salmos 19:3), pois, em verdade, não há ali "fala" ómer — quer dizer, uma proposição decisória, como "o mundo é criado" —, nem "palavras" devarim — quer dizer, as palavras separadas, a escrita "o mundo" ou "criado" —, e tampouco a articulação vocal nem mesmo de uma só letra, pois "sem se ouvir a sua voz" (Salmos 19:4); e a intenção é que não há para os céus um destes; mas "por toda a terra saiu a sua linha, e até o fim do mundo as suas palavras" (Salmos 19:5), pelo lado do movimento que se vê neles por meio do sol, "ao qual pôs uma tenda nos céus" (Salmos 19:5), e por meio dele se reconhecem o dia e a noite e os demais movimentos celestes, pelos quais se renovam as gerações que indicam a obra das mãos do Senhor no mundo inferior. E disse ainda "e ele é como um noivo que sai do seu dossel" etc. (Salmos 19:6) — quer dizer que o sol, neste seu movimento diurno, está forçado pelo lado da esfera diurna, como um noivo que sai do seu dossel, que não quer sair dali senão pelo lado da força forçado, conforme o dito do profeta "saia o noivo do seu aposento, e a noiva do seu dossel" (Joel 2:16); e, com tudo isso, "alegra-se como um herói para correr o caminho" (Salmos 19:6), a fim de fazer a vontade do seu Possuidor. E explica a causa de por que se diz que ele está forçado no seu movimento diurno: porque vemos para ele um outro movimento próprio, pelo lado de que sai do extremo dos céus e circunda os seus extremos — quer dizer, para o lado do norte e para o lado do sul, já que não nasce hoje no lugar em que nasceu ontem; e deste modo aquece o lado sul uma vez e o lado norte uma vez, "e nada há oculto do seu calor" (Salmos 19:7). E esta é a apreensão que é possível que se apreenda pelo lado dos céus e dos seus movimentos; mas isto não é do que dá perfeição à alma tal que se conjunte com os superiores e que volte ao lugar da sua fonte. Mas a Torá do Senhor, somente ela, é perfeita o bastante para restituir a alma ao lugar em que estava ali a sua tenda no princípio; e isto é o que Davi juntou a isto: "a Torá do Senhor é perfeita, restitui a alma" (Salmos 19:8). E prosseguiu nisto com as vantagens da religião divina sobre as demais religiões, como se explicou no capítulo oitavo do primeiro Maamar.
״הַשָּׁמַיִם מְסַפְּרִים כְּבוֹד אֵל״ — מוֹרִים עַל הַמֵּנִיעַ וְעַל עָצְמַת כֹּחוֹ, אַךְ אֵין זֶה נוֹתֵן שְׁלֵמוּת לַנֶּפֶשׁ. ״תּוֹרַת ה׳ תְּמִימָה מְשִׁיבַת נָפֶשׁ״ — לְבַדָּהּ תְּשִׁיב הַנֶּפֶשׁ אֶל מְקוֹם מַחְצַבְתָּהּ.
6 E explica-se de tudo isto que, pelo lado do saber acerca do movimento das esferas e pelo lado do saber acerca das coisas naturais que se geram no firmamento dos céus, não chega a alma à sua perfeição; e, contudo, se se concebe que chegue alguma perfeição à alma, eis que ela vem pelo lado do saber acerca das coisas divinas; mas isto não será se não for o inteligido verdadeiro — a saber que concorde o que está na alma com o que está fora da alma —, e então é possível que se una a alma com o Intelecto Agente; e a união não será se não houver concordância de todo lado, e isto não se concebe. Pois não se concebe que se ache um sábio cujos inteligíveis concordem de todo lado com os inteligíveis que estão no Intelecto Agente; e por causa disto houve entre os filósofos quem negou a permanência anímica de todo em todo, porque o que o homem inteligencia das coisas divinas é impossível que seja verdade completa e concordante de todo lado com os inteligíveis que estão no Intelecto Agente — pois a inteligência da alma acerca das coisas separadas das suas matérias são conjeturas e estimativas, e é possível que a coisa seja o oposto do que foi inteligenciado.
הַהִתְאַחֲדוּת לֹא תִּהְיֶה אֶלָּא בְּהַסְכָּמָה מִכָּל צַד — וְזֶה לֹא יְצֻיַּר. וּבַעֲבוּר זֶה הָיָה מִי שֶׁהִכְחִישׁ הַהִשָּׁאֲרוּת מִכֹּל וָכֹל, כִּי הַשְׂכָּלַת הַנֶּפֶשׁ בַּנִּבְדָּלִים הַשְׁעָרוֹת וְאֻמְדּוֹת.
7 E o exemplo disto é aquilo em que caiu a controvérsia entre os filósofos primeiros e os posteriores sobre se o Primeiro Motor é causado pela Causa Primeira ou não. Pois Aven Siná Avicena, e Abunatsar Alfarabi, e Rabi Moisés HaLevi Abu-l-Barakat veem que o Primeiro Motor é causado pela Causa Primeira; e Aven Rochd Averróis vê que a Causa Primeira é ela própria a que move a esfera, e atribuiu esta opinião a Aristóteles. E, se a coisa é como as palavras de Avicena, eis que Aristóteles não inteligenciou a verdade desta questão, que é a mais seleta dos inteligíveis divinos, mas inteligenciou-a de modo contrário ao que ela é; e, se é assim, foi toda a existência da espécie do homem que viveu desde o tempo de Aristóteles até o tempo de Avicena em vão, já que inteligenciaram a mais seleta dos inteligíveis de modo contrário ao que ela é; e eis que caíram naquilo de que fugiram.
הַמַּחֲלֹקֶת אִם הַמֵּנִיעַ הָרִאשׁוֹן עָלוּל מֵהַסִּבָּה הָרִאשׁוֹנָה: אִבְּן סִינָא וְאַבּוּנְצַר מוּל אִבְּן רֻשְׁד. וְאִם כִּדְבָרָיו, הָיָה כָּל מְצִיאוּת הָאָדָם מֵאֲרִיסְטוֹ עַד אִבְּן סִינָא לְבַטָּלָה.
8 E ainda, que mesmo se lhes concedermos que o fundamento da perfeição do homem está dependente da apreensão dos inteligíveis, e que isto é coisa possível de ser apreendida por toda a espécie ou pela sua maioria, eis que é impossível para eles negar que há diferença entre os que inteligenciam — coisa que o sentido testemunha; e, se é assim, então quem dera que eu soubesse: se, quando inteligenciou Rúben alguns inteligíveis e apreendeu Simeão um outro inteligível mais do que ele, que diferença haverá entre eles quando se essencializarem juntos no Intelecto Agente? E, se disseres que não se essencializa no Intelecto Agente senão quem inteligenciou todos os inteligíveis que estão nele, a fim de que ambos sejam uma só coisa nela mesma, eis que isto é coisa que homem algum jamais alcançou; e anula-se, conforme isto, a permanência que inventaram do seu coração os sábios aos seus próprios olhos, aqueles que seguem após a teimosia do seu coração mau, e mergulharam em águas impetuosas e tiraram caco na sua mão.
אִי אֶפְשָׁר לְהַכְחִישׁ שֶׁיֵּשׁ חִלּוּף בֵּין הַמַּשְׂכִּילִים. וְאִם לֹא יִתְעַצֵּם אֶלָּא מִי שֶׁהִשְׂכִּיל כָּל הַמּוּשְׂכָּלוֹת — דָּבָר שֶׁלֹּא הִשִּׂיגוֹ אָדָם מֵעוֹלָם, וְיִתְבַּטֵּל הַהִשָּׁאֲרוּת שֶׁבָּדוּ מִלִּבָּם.
9 E sobre isto disse Davi "os pensamentos divididos se'afim odeio, e a tua Torá amo" (Salmos 119:113) — quer dizer: os pensamentos filosóficos odeio, e a tua Torá amo, pois por ela chega o homem à perfeição anímica que é comum a toda a espécie ou à sua maioria. E isto é: que é cabido que o fim visado na espécie se ache em toda a espécie ou na sua maioria; assim como a força que há na escamônea para purgar a bile vermelha, ou no ruibarbo ravend para curar a má têmpera que se acha no fígado, é cabido que se ache em todos os indivíduos da espécie — ainda que difiram em força e fraqueza —, mas que não se ache aquela força em toda a espécie ou na sua maioria, isto é impossível, porque então não se verificaria sobre este a definição do ruibarbo nem sobre este a definição da escamônea. E por isso é manifesto que todos os homens sobre os quais se verifica a definição do homem, é cabido que o fim humano seja possível de se achar em todos eles ou na sua maioria, se não o impedir disto a má escolha da sua livre-escolha; e, ainda que isto não se ache em todos os tempos, é cabido que se ache na sua maioria — pois, se não for assim, será a existência da espécie do homem em vão. E é do falso que haja aqui uma forma própria para alguma espécie das espécies e que não se ordenem dela as ações e o fim que é cabido que se ordene dela. E por isso achas que escreveu Aristóteles que "por força é que virá um tempo no qual todos os homens seguirão após a verdade, e se esforçarão por conhecer o Senhor conforme o que é possível no estatuto do homem" — até aqui as suas palavras. E, na verdade, disse isto pelo que estimou que, se não fosse assim, seria a existência da espécie do homem em vão. E, depois que a apreensão dos inteligíveis, do modo que explicámos, é muito distante no estatuto de todos os homens, é cabido que expliquemos qual é o caminho pelo qual, por meio dele, se alcança a perfeição humana que seja comum a toda a espécie ou à sua maioria, e que seja possível de apreensão para o conjunto da espécie ou para a sua maioria.
״סֵעֲפִים שָׂנֵאתִי וְתוֹרָתְךָ אָהָבְתִּי״ — בָּהּ יַגִּיעַ הָאָדָם אֶל הַשְּׁלֵמוּת הַכּוֹלֵל כָּל הַמִּין אוֹ רֻבּוֹ. רָאוּי שֶׁהַתַּכְלִית הַמְכֻוָּן בַּמִּין יִמָּצֵא לְכֻלָּם אוֹ לְרֻבָּם, אִם לֹא יִמְנַע זֶה רֹעַ בְּחִירָתָם.
Este é um dos capítulos mais ousados do Sefer HaIkkarim: Albo enfrenta de peito aberto a tese central da filosofia judaico-árabe (Alfarabi, Avicena, Averróis, e em parte o próprio Maimônides) de que a perfeição última do homem e a imortalidade da alma consistem na aquisição de inteligíveis e na conjunção (devekut intelectual) com o Intelecto Agente — a décima inteligência separada. Albo concede o ponto do capítulo anterior (o fim do homem está no intelecto) mas nega radicalmente esta versão dele.
A refutação é um dilema elegante. Se a perfeição é essa conjunção intelectual: ou é impossível (e então o homem é em vão), ou é possível mas só a um Sócrates ou Platão por geração. Neste segundo caso, toda a humanidade comum fica "no grau do jumento e do porco" — e basta uma geração sem um gênio para que a espécie inteira exista em vão naquele tempo. Os filósofos caem exatamente no abismo de que fugiam. O princípio que Albo opõe é naturalista: o telos de uma espécie tem de realizar-se em todos os seus indivíduos ou na maioria — como a virtude purgativa do ruibarbo está em todo ruibarbo. Um fim que só um em mil atinge não pode ser o fim da espécie humana.
Albo reforça: (1) as ciências (física, e ainda mais a matemática — ele cita o teorema dos ângulos do triângulo e a divisão áurea do pentágono/hexágono) não dão perfeição por si; são só "escada" para o divino. (2) A conjunção exigiria que os inteligíveis da alma coincidissem totalmente com os do Intelecto Agente — mas o conhecimento humano do divino é "conjetura e estimativa", podendo estar errado. Prova flagrante: a disputa entre Avicena e Averróis sobre se o Primeiro Motor é causado pela Causa Primeira — se um está certo, todos os filósofos da era oposta erraram "o mais seleto dos inteligíveis", e sua existência foi em vão. (3) A diferença óbvia entre os sábios (Rúben sabe menos que Simeão) torna incoerente a ideia de todos se "unirem como um" no Intelecto Agente; e exigir que se saiba tudo é exigir o que ninguém jamais alcançou.
A alternativa positiva já se anuncia na leitura do Salmo 19. Os céus "contam a glória de D'us" — provam o Motor e o seu poder — mas isso não "restitui a alma à sua fonte". Só "a Torá do Senhor, perfeita, restitui a alma". O versículo de Davi "os pensamentos divididos (se'afim) odeio, e a tua Torá amo" torna-se lema: contra a filosofia elitista e incerta, a Torá oferece um caminho de perfeição aberto a toda a espécie ou à sua maioria — desde que a má livre-escolha não o impeça. Notável: Albo recruta o próprio Aristóteles (a previsão de que virá um tempo em que todos buscarão conhecer D'us) para confirmar que o fim humano precisa ser universal. Posto o problema e demolida a resposta filosófica, o capítulo fecha anunciando a tarefa dos capítulos seguintes: mostrar qual é esse caminho universal — a Lei divina.
Cada ser alcança a perfeição própria conforme o seu grau — uns sem esforço, outros com muito. Os seres incorpóreos a têm em ato sempre; as esferas, por terem matéria, só pelo movimento; e quanto mais distante uma esfera da nobreza, mais movimentos precisa. O homem, de matéria mais densa, precisa de muitas obras. E a perfeição da alma vem só do composto de ação física com concepção intelectual.
Cada ser alcança a perfeição própria conforme o seu grau — uns sem esforço, outros com muito. Os seres incorpóreos a têm em ato sempre; as esferas, por terem matéria, só pelo movimento; e quanto mais distante uma esfera da nobreza, mais movimentos precisa. O homem, de matéria mais densa, precisa de muitas obras. E a perfeição da alma vem só do composto de ação física com concepção intelectual.
1 Todo existente, conforme o grau da sua natureza, mais lhe é fácil adquirir a excelência e a perfeição que lhe é cabida, seja de qual espécie for. E isto é manifesto e patente na investigação das espécies das perfeições próprias da espécie do homem.
2 Pois nós vemos que os homens que são perfeitos da criação e fortes de natureza alcançam a perfeição da saúde sem nenhum trabalho e nenhuma ação, mas a saúde se acha entrelaçada neles em ato sempre. E há homens nos quais a saúde se entrelaça com um entrelaçamento forte, mas precisam fazer alguma ação ou algum passeio a fim de que se conserve neles a saúde. E há homens nos quais a saúde não se entrelaça com um entrelaçamento forte, e precisam fazer muitas ações e um esforço forte a fim de que se conserve neles a saúde — mas, com o esforço forte, já chega neles a saúde perfeita. E há homens que são tão maus de têmpera que, mesmo se se esforçarem com todo o esforço do mundo, é impossível para eles alcançar a saúde perfeita — mas já alcançam coisa semelhante à saúde com uma só ação ou com poucas ações; e isto é que já alcançam conservar-se, com a sua má têmpera, com poucas ações, de modo que a doença não aumente neles, não mais do que isto. E assim se acha este assunto na diversidade dos graus na perfeição da sabedoria ou na perfeição da riqueza: pois há quem adquire a sabedoria ou a riqueza com pouco trabalho, e há quem as adquire com grande trabalho, e há quem não as adquire com todo o trabalho do mundo — mas já alcança, com o trabalho, algum grau nelas.
כָּל נִמְצָא כְּפִי מַדְרֵגַת טִבְעוֹ יֵקַל עָלָיו לִקְנוֹת הַשְּׁלֵמוּת הָרָאוּי לוֹ. יֵשׁ מִי שֶׁיִּקְנֶה הַבְּרִיאוּת אוֹ הַחָכְמָה בְּעָמָל מוּעָט, וְיֵשׁ בְּעָמָל גָּדוֹל, וְיֵשׁ שֶׁלֹּא יִקְנֵם עִם כָּל עָמָל שֶׁבָּעוֹלָם.
3 E deste modo se acha o assunto em todos os existentes, na perfeição própria de cada um deles conforme a sua natureza. E isto é: que a Causa Primeira, por ser ela suficiente em si mesma para que se ache nela sempre em ato a perfeição que se individuou nela conforme o seu grau, não precisa fazer nenhuma ação, nem em si mesma nem em outro, a fim de adquirir por meio dela nenhuma perfeição. E as inteligências separadas, por serem limpas de matéria, acha-se nelas a perfeição que se individuou nelas conforme a sua natureza em ato sempre, e não precisam fazer nenhuma ação em si mesmas a fim de alcançar a sua perfeição, senão a moção com que movem a outro — quero dizer, as esferas. Mas as esferas, com o facto de serem possuidoras de alma intelectiva conforme o consenso de todos os sábios, eis que, por serem possuidoras de matéria, não lhes bastou adquirir a perfeição própria delas conforme a sua natureza se não quando fazem elas alguma ação em si mesmas; e esta ação é o movimento, pois é na ação do mover-se em geral que alcança a sua alma intelectiva a sua perfeição — já que, por ser a sua morada num corpo, ela precisa de uma ação corporal a fim de alcançar a perfeição que se individuou nela conforme a sua natureza. E, com tudo isto, já diferem as esferas umas das outras naquela ação: pois o que é, dentre as esferas, mais nobre e mais perfeito no grau — como a esfera diurna —, basta-lhe uma só ação simples para a obtenção do grau que se individuou nela conforme a sua natureza, e esta ação é o movimento diurno, que é um movimento simples; e a esfera das estrelas, por estar distante do grau e da aquisição da perfeição da esfera diurna, não lhe basta um só movimento, e precisou de dois movimentos — que são o movimento diurno e o movimento próprio dela; e as demais esferas, cada uma e uma, conforme a sua distância do grau, precisa de uma multiplicidade de ações a fim de alcançar a sua perfeição própria; e por causa disto acham-se as esferas diferentes nos movimentos, e acham-se para uma delas uma multiplicidade de movimentos mais do que para outra, conforme a sua distância da obtenção da perfeição — até que se acha que a alguns planetas, e em especial à lua, se acham para ela muitos movimentos diferentes; e isto é que, pela grande distância dela do grau, precisou dela de uma multiplicidade de ações mais do que das demais esferas, a fim de que, por meio da multiplicidade dos movimentos, adquira a lua a perfeição que se individuou nela conforme a sua natureza. E isto é coisa com que concordou o Filósofo no capítulo terceiro do segundo Maamar do livro Dos Céus e do Mundo.
הַסִּבָּה הָרִאשׁוֹנָה — מַסְפֶּקֶת בְּעַצְמָהּ. הַשְּׂכָלִים הַנִּבְדָּלִים — שְׁלֵמוּתָם בְּפֹעַל תָּמִיד. הַגַּלְגַּלִּים, בַּעֲלֵי חֹמֶר, לֹא יַשִּׂיגוּ שְׁלֵמוּתָם אֶלָּא בַּתְּנוּעָה; וְכָל שֶׁרָחוֹק מֵהַמַּעֲלָה (כְּמוֹ הַיָּרֵחַ) יִצְטָרֵךְ רִבּוּי תְּנוּעוֹת.
4 E isto é do que indica que nenhum possuidor de matéria alcança a sua perfeição própria à sua alma conforme a sua natureza senão na feitura de ações corporais realizadas por meio do corpo. E por isso é de necessidade das esferas que se movam, a fim de alcançarem a sua perfeição própria às suas almas por serem elas força num corpo. E decorre disto que o homem, por ser possuidor de matéria mais espessa e mais turva do que a matéria das esferas, precisa por força de uma multiplicidade de ações mais do que elas, a fim de que, por meio da multiplicidade das ações, se alcance a perfeição que se individuou nele conforme a sua natureza — que é a perfeição da sua alma intelectiva. Pois, se fosse possível que a alcançasse pela inteligência apenas, sem as ações, com muito mais razão seriam mais cabidas nisto as esferas, e não precisariam mover-se e fazer ação corporal para adquirir a sua perfeição; senão que é impossível a nenhum possuidor de matéria alcançar nenhuma perfeição sem ação corporal.
אֵין שׁוּם בַּעַל חֹמֶר מַשִּׂיג שְׁלֵמוּתוֹ זוּלָתִי בִּפְעוּלוֹת גַּשְׁמִיּוֹת. וְהָאָדָם, בַּעַל חֹמֶר עָב יוֹתֵר מֵהַגַּלְגַּלִּים, יִצְטָרֵךְ בְּהֶכְרֵחַ אֶל רִבּוּי הַפְּעוּלוֹת יוֹתֵר מֵהֶם.
5 E, contudo, os viventes não-racionais, por estarem eles muito mais distantes do grau próprio dos possuidores de alma intelectiva, e porque não era possível para eles, conforme a sua natureza, adquirir a permanência individual, por serem privados de intelecto — foi posto para eles algum tipo de permanência semelhante à permanência dos demais possuidores de alma, que é a permanência específica, e alcança-se isto com uma só ação ou com poucas ações, por ser aquela perfeição muito distante da perfeição que há nos demais possuidores de alma, que é a permanência individual. Mas o homem, porque lhe era possível a permanência no indivíduo pelo lado da sua alma intelectiva, como se dá nas esferas, e porque estava muito distante do grau delas, foram-lhe postas a multiplicidade das ações diferentes, a fim de que, por meio da multiplicidade das ações, repare o que lhe falta e alcance um grau do gênero do grau que alcançam as esferas com uma só ação ou com poucas ações.
הַבַּעֲלֵי חַיִּים — קִיּוּם מִינִי בִּפְעֻלָּה מוּעֶטֶת. הָאָדָם, שֶׁאֶפְשָׁר לוֹ הַקִּיּוּם הָאִישִׁי מִצַּד נַפְשׁוֹ הַמַּשְׂכֶּלֶת, הוּשְׂמוּ לוֹ רִבּוּי הַפְּעוּלוֹת לְתַקֵּן מַה שֶּׁחָסֵר לוֹ.
6 E é manifesto que nem todas as ações dão perfeição à alma, senão aquelas que são conforme o que é cabido; e também é impossível que sejam aquelas ações as que dão perfeição à alma pelo lado de serem ações corporais apenas — pois, se fosse assim, todos os corpos que são possuidores de alma vital alcançariam aquela perfeição. E, por ser o homem possuidor de matéria, é impossível que alcance a perfeição humana pelo lado da inteligência apenas, sem ato, como explicámos isto a respeito das esferas — pois, por serem elas possuidoras de matéria, foi necessário que se achasse para elas alguma ação corporal, que é o movimento, a fim de que, por meio daquela ação, alcancem a perfeição anímica que se individuou nelas conforme a sua natureza.
7 E por isso decorre que a coisa que dá a perfeição a todo possuidor de matéria e possuidor de alma intelectiva seja um assunto composto de ação corporal e inteligência anímica. Pois a ação prática não dá a perfeição pelo lado de ser ela ação corporal apenas, mas pelo lado da inteligência anímica com que se inteligencia na sua feitura, como explicámos. E a ação feita sobre esta descrição — que é composta de ação corporal e inteligência anímica — é a que dá perfeição à alma; e elas são as ações que dissemos serem decorrentes da sua forma intelectual e influenciadas por ela — não a inteligência dos inteligíveis apenas, como pensaram nisto os que seguem após o Filósofo.
הַדָּבָר הַנּוֹתֵן הַשְּׁלֵמוּת הוּא עִנְיָן מֻרְכָּב מִפֹּעַל גּוּפִיִּי וְהַשְׂכָּלָה נַפְשִׁיִּית — לֹא הַשְׂכָּלַת הַמּוּשְׂכָּלוֹת בִּלְבַד כְּמוֹ שֶׁחָשְׁבוּ הַנִּמְשָׁכִים אַחֲרֵי הַפִילוֹסוֹף.
Tendo derrubado no capítulo anterior a tese de que a perfeição é pura contemplação, Albo constrói aqui a alternativa positiva por meio de uma analogia cosmológica notável. A tese: todo possuidor de matéria só alcança a sua perfeição por meio de ação corporal. A prova vem da hierarquia do ser. A Causa Primeira é autossuficiente — não age para se aperfeiçoar. As inteligências separadas (imateriais) já têm a perfeição em ato. Mas as esferas celestes, embora dotadas de alma intelectiva, têm matéria — e por isso só atingem a sua perfeição movendo-se. O movimento é o "ato corporal" pelo qual a alma da esfera se realiza.
A graduação é o coração do argumento: a esfera mais nobre (a diurna) basta-se com um movimento simples; a das estrelas precisa de dois; e cada esfera, conforme a sua distância da nobreza, precisa de mais movimentos — até a Lua, a mais baixa e distante, que requer múltiplos movimentos complexos. Albo invoca aqui a astronomia de seu tempo (e cita o De Caelo de Aristóteles): a multiplicidade dos movimentos lunares prova que maior distância da perfeição exige mais atos. Ora — conclui — o homem tem matéria ainda "mais espessa e turva" que a das esferas. Logo precisa, por força, de muitas ações para alcançar a perfeição da sua alma intelectiva. Se a contemplação pura bastasse, as esferas — bem mais nobres — não precisariam mover-se.
Albo retoma a distinção do cap. 2: os animais, incapazes de permanência individual (não têm intelecto), recebem só a permanência da espécie, que se garante com poucas ações (procriar). O homem, porém, é capaz de permanência individual da alma — como as esferas — mas está muito abaixo do grau delas; por isso lhe foi dada "a multiplicidade das ações diferentes" para reparar essa distância. Eis a justificação metafísica dos mandamentos: as muitas mitzvot são os "muitos movimentos" pelos quais o homem material atinge o que a esfera atinge com um só.
O fecho corrige tanto o filósofo quanto um possível mal-entendido. Não é a ação enquanto corporal que aperfeiçoa (senão todo animal vivo se aperfeiçoaria); nem é a contemplação sem ação (impossível para um ser material). A perfeição vem do composto: ação corporal informada por concepção intelectual — o ato feito com entendimento do seu sentido. São as obras "decorrentes da forma intelectual e por ela influenciadas". É exatamente a definição do mandamento bem cumprido: o gesto físico (acender, comer matzá, vestir tefilin) carregado da intenção e do conhecimento que lhe dão valor anímico. Contra "os que seguem o Filósofo", Albo estabelece que o caminho universal à perfeição — acessível a toda a espécie, como o cap. 3 exigia — é a Torá como sistema de ação-com-intelecto, e não o saber teórico de poucos.
A "concepção anímica" que dá perfeição à ação não é a apreensão de inteligíveis, mas a intenção de servir a D'us no ato — fazê-lo por ser reto aos olhos de D'us, sem proveito próprio. As esferas e os anjos movem-se só para cumprir a vontade divina; deleitar-se no Shabat com intenção é ato intelectual; "teme a D'us e guarda os mandamentos, pois isto é todo o homem"; e a ação feita assim chama-se conhecer a D'us.
A "concepção anímica" que dá perfeição à ação não é a apreensão de inteligíveis, mas a intenção de servir a D'us no ato — fazê-lo por ser reto aos olhos de D'us, sem proveito próprio. As esferas e os anjos movem-se só para cumprir a vontade divina; deleitar-se no Shabat com intenção é ato intelectual; "teme a D'us e guarda os mandamentos, pois isto é todo o homem"; e a ação feita assim chama-se conhecer a D'us.
1 A concepção anímica hhaskalá nafshit que dissemos que dá a perfeição anímica ao se juntar às ações não é a apreensão dos inteligíveis, mas é que o que faz aquela ação corporal intente servir a D'us na sua feitura — e isto é quando a faz com a intenção de fazer o bom e o reto aos olhos de D'us, não para o seu próprio proveito nem para nenhuma outra intenção de modo algum.
הַהַשְׂכָּלָה הַנַּפְשִׁית אֵינָהּ הַשָּׂגַת הַמּוּשְׂכָּלוֹת, אֶלָּא שֶׁיְּכַוֵּן הָעוֹשֶׂה הַפְּעוּלָה לַעֲבֹד הַשֵּׁם בַּעֲשִׂיָּתָהּ — לַעֲשׂוֹת הַטּוֹב וְהַיָּשָׁר בְּעֵינֵי הַשֵּׁם, לֹא לַהֲנָאַת עַצְמוֹ.
2 E isto é coisa da qual se toma prova das esferas, que são possuidoras de corpo e de alma intelectiva como o é a espécie do homem, e cuja perfeição lhes é alcançada pelo lado de estarem elas a mover-se sempre em ato para cumprir a vontade do Senhor, que decretou sobre elas mover-se a fim de que se conserve a existência. Como explicou isto o salmista quando falava do louvor que é cabido que as criaturas louvem a D'us pela bondade e pelo bem que lhes retribuiu, e começou pela alma do homem e disse "bendize, minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de todos os seus benefícios" (Salmos 103:2); e depois, quando falou sobre as estrelas e as constelações, disse sobre elas "bendizei ao Senhor, todas as suas hostes, seus ministros, fazedores da sua vontade" (Salmos 103:21) — quer dizer que o fim da sua intenção no seu movimento não é para nenhum outro fim senão fazer a sua vontade; e este é o fim da perfeição do serviço que é possível que sirva algum existente ao Senhor, bendito seja. Pois também a respeito das inteligências separadas explicou a Escritura que a sua intenção no moverem as esferas não é senão cumprir o decreto do Senhor e a sua palavra, que decretou sobre elas movê-las, não mais do que isto. Disse a Escritura "bendizei ao Senhor, seus anjos, fortes de força, fazedores da sua palavra, para ouvir a voz da sua palavra" (Salmos 103:20) — chamou aos anjos, que são as inteligências separadas, "fortes de força", por serem elas as que movem as esferas sempre com grande força e com mão forte; e disse que, nesta moção, não intentam nenhum outro fim senão fazer a palavra do Senhor e o seu decreto, que decretou sobre elas movê-las — e isto é "ouvir a voz da sua palavra", quer dizer: elas as movem por serem elas obedientes à voz da sua palavra, que é o fim mais grande que é possível para elas alcançar; e não as movem para receber nenhum prêmio nem para alcançar nenhum outro fim, como vi haver quem explicou que "ouvir a voz da sua palavra" quer dizer que elas movem as esferas a fim de ouvirem mais a palavra do Senhor — quer dizer, a fim de alcançar uma perfeição maior do que a alcançada por elas, pois imaginam que com isto se lhes influi um influxo maior e alcançam um grau maior.
״בָּרְכוּ ה׳ כָּל צְבָאָיו מְשָׁרְתָיו עֹשֵׂי רְצוֹנוֹ״. ״בָּרְכוּ ה׳ מַלְאָכָיו גִּבֹּרֵי כֹחַ עֹשֵׂי דְבָרוֹ לִשְׁמֹעַ בְּקוֹל דְּבָרוֹ״ — אֵין כַּוָּנָתָם בַּהֲנָעָה אֶלָּא לַעֲשׂוֹת רְצוֹן הַשֵּׁם וּגְזֵרָתוֹ.
3 E isto não está correto, pois este versículo fala dos anjos que movem, não das esferas; e a perfeição dos anjos está em ato sempre, e não têm coisa em potência, e a sua perfeição é a continuidade da apreensão, não mais do que isto. E, com tudo isto, explica a Escritura que não há a perfeição para eles pelo lado de inteligenciarem os inteligíveis apenas, mas pelo lado da moção com que movem as esferas em ato, junto com a concepção, a fim de obedecer à palavra do Senhor que decretou sobre eles movê-las. E assim as esferas e as estrelas, a sua perfeição está pelo lado do movimento com que se movem em ato para fazer a vontade do Senhor, como escrevemos; e não pelo lado do que entenderam os que filosofam — que a esfera se move sempre pelo lado de que pensa adquirir alguma perfeição e apreensão na mudança das posições e na extração da posição que está em potência para ser posição em ato. E isto é uma confusão manifesta, pois, conforme as suas palavras, seria o movimento da esfera tolice e loucura, como o homem que enlouquece e gira em volta de uma coluna, pensando alcançar alguma perfeição na sua mudança das posições — uma vez em direção ao oriente e uma vez em direção ao ocidente, ou norte, ou sul — e no seu pôr as posições que estão em potência como posições em ato; e isto é coisa de manifesta corrupção, pois, depois que concordam em que as esferas são vivas, racionais, possuidoras de alma intelectiva, como seria o seu movimento deste modo? Senão que a verdade é como escrevemos: que o fim da intenção das inteligências separadas na moção, ou das esferas no movimento, não é senão a fim de fazer a vontade do Senhor e o seu decreto, que decretou sobre elas que se movessem; e este é o fim do seu anseio e da sua perfeição, não mais do que isto.
לֹא כְּמוֹ שֶׁהֵבִינוּ הַמִּתְפַּלְסְפִים, שֶׁהַגַּלְגַּל מִתְנוֹעֵעַ לִקְנוֹת שְׁלֵמוּת בְּחִלּוּף הַמַּצָּבִים — שֶׁאָז תִּהְיֶה תְּנוּעָתוֹ שְׁטוּת, כְּאָדָם הַמִּשְׁתַּגֵּעַ וְסוֹבֵב סְבִיב עַמּוּד. אֶלָּא הָאֱמֶת שֶׁכַּוָּנָתָם לַעֲשׂוֹת רְצוֹן הַשֵּׁם.
4 E o exemplo disto é como aquele que ama algum rei dos reis e vem diante dele, e o rei o recebe para o seu serviço — pois este, sem dúvida, é o fim da sua felicidade, e todo o seu bem e o seu esplendor estão em ser ele servo recebido diante do rei; e por isso fará o seu serviço com grande diligência, não para nenhum outro fim senão fazer a sua vontade. E assim concordaram os verdadeiros dentre os filósofos antigos, como escreveu Aven Rochd Averróis na questão terceira do livro A Refutação da Refutação Tahafut al-Tahafut, e estas são as suas palavras: "E a opinião dos homens antigos é que há aqui princípios para os corpos celestes, separados das matérias, que são os que movem os corpos celestes; e movem-se eles pelo lado da fé e do amor a eles e da aceitação dos seus mandamentos, com movimento e compreensão deles — já que as esferas, na verdade, foram criadas para o movimento. E isto é: que, depois que se verificou que os princípios que movem os corpos celestes são separados das matérias e que não são corpos, não resta modo pelo qual movam os corpos senão pelo lado de que o que se move é ordenado a estar em movimento; e por isso foi necessário junto a eles que os corpos celestes fossem vivos, racionais, que inteligenciam a sua própria essência e inteligenciam os seus princípios que os movem pelo lado do que lhes ordena neles" — até aqui as suas palavras.
מָשָׁל לְמִי שֶׁיַּחֲשֹׁק מֶלֶךְ וְקִבְּלוֹ לַעֲבוֹדָתוֹ — תַּכְלִית הַצְלָחָתוֹ. וְכֵן כָּתַב אִבְּן רֻשְׁד: שֶׁהַגַּרְמִים הַשְּׁמֵימִיִּים יִתְנוֹעְעוּ עַל צַד הָאֱמוּנָה וְהָאַהֲבָה וְהַקַּבָּלָה לְצַוָּאתָם.
5 E assim achamos que os homens da Grande Assembleia concordam nisto: que o movimento das esferas é a fim de fazer a vontade do Senhor; e isto se vê do que instituíram na bênção da lua, na qual se diz "por cuja palavra foram criados os céus, e pelo sopro da sua boca toda a sua hoste" etc., "alegres e contentes em fazer a vontade do seu Possuidor" etc. E tudo isto é do que indica que a ação corporal feita com concepção a fim de fazer a vontade do Senhor e o seu mandamento dá a perfeição aos possuidores de alma intelectiva. E testemunha sobre isto o que se acha que o profeta promete recompensa boa ao que faz do Shabat um deleite oneg; disse "se desviares do Shabat o teu pé" etc., "e chamares ao Shabat 'deleite'" etc., "então te deleitarás sobre o Senhor" (Isaías 58:13-14). E achamos que os nossos mestres, de abençoada memória, exageram na recompensa do que faz do Shabat e das festas um deleite, com o facto de o deleite ser coisa corporal e ação corporal que chega ao homem pelo lado de que ele é vivente, não pelo lado de que ele é homem — senão que, se o deleite fosse uma ação feita sem intenção, seria sem dúvida uma ação bestial; mas, quando se faz com a intenção de servir ao Senhor e cumprir o seu mandamento, ela é, sem dúvida, uma ação intelectual semelhante à ação do movimento das esferas; e nesta ação e nas que se lhe assemelham se alcança o fim, não mais do que isto, como dissemos.
״שָׂשִׂים וּשְׂמֵחִים לַעֲשׂוֹת רְצוֹן קוֹנָם״. ״וְקָרָאתָ לַשַּׁבָּת עֹנֶג... אָז תִּתְעַנַּג עַל ה׳״ — הָעֹנֶג, כְּשֶׁנַּעֲשֶׂה בְּכַוָּנָה לַעֲבֹד אֶת ה׳, פֹּעַל שִׂכְלִי הוּא, וּבוֹ יֻשַּׂג הַתַּכְלִית.
6 E assim disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "Parábola de dois homens que assaram os seus cordeiros pascais; um comeu-o para o nome da mitzvá do Pessach, e um comeu-o para o nome de uma comida grosseira achilá gassá. Este, que o comeu para o nome do Pessach, sobre ele diz a Escritura 'pois retos são os caminhos do Senhor, e os justos andarão por eles' (Oséias 14:10); este, que o comeu para o nome de uma comida grosseira, sobre ele diz a Escritura 'e os transgressores tropeçarão neles'." E é cabido que a coisa seja assim, porque deste modo é possível que se alcance a perfeição humana ao conjunto da espécie ou à sua maioria, ainda que haja vantagem de grau ao que conhece sobre o que não conhece. Mas, se a perfeição humana estivesse dependente da apreensão dos inteligíveis apenas, não seria possível que se alcançasse aquele fim ao conjunto daquela espécie ou à sua maioria.
״אֶחָד אֲכָלוֹ לְשֵׁם פֶּסַח וְאֶחָד לְשֵׁם אֲכִילָה גַסָּה״ — ״כִּי יְשָׁרִים דַּרְכֵי ה׳ וְצַדִּיקִים יֵלְכוּ בָם וּפֹשְׁעִים יִכָּשְׁלוּ בָם״. בָּזֶה יֻשַּׂג הַשְּׁלֵמוּת לְכָל הַמִּין אוֹ רֻבּוֹ.
7 E indica sobre isto também o que se acha que disse Salomão no livro Eclesiastes, quando investigava o fim humano, o que é ele, como disse "e dei o meu coração a conhecer a sabedoria" etc. (Eclesiastes 1:17), "disse eu no meu coração: vem agora, que eu te provarei com a alegria" etc. (Eclesiastes 2:1), "busquei no meu coração atrair com vinho a minha carne" etc. (Eclesiastes 2:3), "até que eu visse qual é o bem para os filhos do homem que fariam debaixo dos céus no número dos dias da sua vida" (Eclesiastes 2:3) — quer dizer, se é a apreensão dos inteligíveis, ou a perfeição da riqueza, ou a perfeição da honra, ou os deleites corporais. E disse no fim das suas palavras, depois que investigou sobre cada um deles por si mesmo e mostrou as faces para as duas partes da contradição: "o fim da coisa, tudo está ouvido: teme a D'us e guarda os seus mandamentos, pois isto é todo o homem" (Eclesiastes 12:13) — quer dizer: já foram ouvidos todos os argumentos, e de que serve a perfeição da riqueza, e de que serve a perfeição da sabedoria e as demais perfeições, e não há nelas uma perfeição que abranja toda a espécie ou a sua maioria, senão a feitura do mandamento com a intenção do temor do Senhor; e por isso "teme a D'us e guarda os seus mandamentos", pois esta perfeição tem uma vantagem sobre as demais perfeições, já que "isto é todo o homem" — quer dizer, já que esta perfeição abrange toda a espécie do homem; e por isso é cabido que seja ela, dentre as demais perfeições, a perfeição verdadeira.
״סוֹף דָּבָר הַכֹּל נִשְׁמָע אֶת הָאֱלֹהִים יְרָא וְאֶת מִצְוֹתָיו שְׁמוֹר כִּי זֶה כָּל הָאָדָם״ — שֶׁהַשְּׁלֵמוּת הַזֶּה לְבַדּוֹ יִכְלֹל כָּל מִין הָאָדָם, וְלָכֵן הוּא הַשְּׁלֵמוּת הָאֲמִתִּי.
8 E do que indica também que este caminho na obtenção da perfeição é verdadeiro é o que se acha que o Senhor, bendito seja, censura os possuidores das perfeições por pensarem eles que a perfeição humana se acha neles; e disse que a perfeição humana não se acha em nenhum deles se não se lhe juntar a obra em ato com a intenção cabida. E isto é o que está escrito "assim diz o Senhor: não se glorie o sábio na sua sabedoria, e não se glorie o forte na sua força, e não se glorie o rico na sua riqueza" (Jeremias 9:22). A glória em toda coisa não é senão pelo lado do fim — pois o cavalo se louva porque é ligeiro de movimento, pelo lado de que o seu fim é correr sobre ele; e, se se louva pelo lado da cor ou da figura, eis que é pelo lado de que elas são uma indicação de ser ele ligeiro de movimento, que é o fim; e assim o médico se louva pelo lado de ser ele sábio na arte da medicina, não pelo lado de ser ele geômetra ou astrônomo. E por isso incluiu o profeta aqui as três espécies da perfeição abrangente que é possível que se imagine que a perfeição humana esteja dependente delas — e elas são a sabedoria e a força e a riqueza —, e disse que não é cabido que se glorie o sábio na sua sabedoria pelo lado de que pense que chegou com isto ao fim humano, nem o forte na sua força, nem o rico na sua riqueza, pois não há a glória em toda coisa senão pelo lado do chegar ao fim; e não chega nenhum destes ao fim humano se não se lhe juntar, a cada um deles, a obra — quero dizer, que ele influa daquela perfeição que tem sobre outro. E isto é o que está escrito "não se glorie o sábio na sua sabedoria, e não se glorie o forte na sua força e o rico na sua riqueza" — quer dizer, que não tem ele com que gloriar-se quando a sabedoria for própria a ele só, e assim a riqueza, e assim a força, senão quando influa dela a outro; e não fará isto na esperança de nenhuma recompensa, senão a fim de que a perfeição chegue a outro, como o Senhor, bendito seja, faz, que influi as perfeições deste modo. E isto é "mas nisto se glorie o que se gloria: entender e conhecer-me, de que eu sou o Senhor, que faz bondade, juízo e justiça na terra" (Jeremias 9:23) — quer dizer, que entenda e saiba que, depois que eu faço bondade pelo lado da minha sabedoria, e juízo pelo lado da minha força, e justiça pelo lado da minha riqueza, ainda que eu não precise disso, disto se vê que estas coisas são aceitas diante de mim, e é cabido que vos esforceis por fazer o que eu desejo, e entendais e compreendais que "nestas coisas me agrado, diz o Senhor" (Jeremias 9:23).
״אַל יִתְהַלֵּל חָכָם בְּחָכְמָתוֹ... כִּי אִם בְּזֹאת יִתְהַלֵּל... הַשְׂכֵּל וְיָדֹעַ אוֹתִי כִּי אֲנִי ה׳ עֹשֶׂה חֶסֶד מִשְׁפָּט וּצְדָקָה בָּאָרֶץ״ — שֶׁיַּשְׁפִּיעַ מֵחָכְמָתוֹ וּמִגְּבוּרָתוֹ וּמֵעָשְׁרוֹ עַל זוּלָתוֹ.
9 E é cabido que o homem intente nas suas ações este fim — quero dizer, fazer a vontade do Senhor, não mais do que isto, e não na esperança de nenhuma recompensa, como ele, bendito seja, faz bem e agracia a outro sem esperança de nenhuma recompensa —, pois as ações e as obras feitas sobre esta descrição são aceitas diante dele, bendito seja. Pois o sábio, ainda que a sabedoria esteja nele essencial e primariamente para aperfeiçoar a si mesmo, de todo modo, pelo lado da bondade, é cabido que influa dela sobre outro; e por isso descreveu o que se influi do sábio como "bondade" chesed. E, contudo, o forte, com o facto de a força se achar nele essencial e primariamente para repelir o que prejudica e guardar a si mesmo, de todo modo, a força excedente que há nele mais do que nos demais homens, sem dúvida não lhe foi dada para proteger com ela a si mesmo apenas, mas a fim de salvar a outro e livrar o oprimido da mão do seu opressor; e por isso se chama o que decorre do forte para proteger a outro "juízo" mishpat. E, contudo, a riqueza, porque foi dada ao homem primeiro para suprir todas as suas necessidades e em segundo lugar para fazer bem a outro, como que é um assunto intermediário entre a bondade e o juízo, chama-se "justiça" tsedaká.
10 E o conjunto das palavras do profeta é que todas as ações que o homem faz — sejam elas do gênero da bondade, ou do gênero do juízo, ou do gênero da justiça — é cabido que as faça porque são ações ou obras nas quais o Senhor, bendito seja, se agrada na sua feitura; e isto é o que concluiu "pois nestas coisas me agrado, diz o Senhor". E vê-se disto que a vontade divina está nas ações feitas em ato quando se junta àquela ação a concepção a fim de fazer o que o Senhor deseja, como está escrito "entender e conhecer-me, de que eu sou o Senhor, que faz bondade", "pois nestas coisas me agrado, diz o Senhor" — mas não está na parte teórica apenas, sem que se lhe junte a obra; e, quando se lhe junta a obra, então se chama "conhecimento", e não antes disto. Disse Jeremias "teu pai, acaso não comeu e bebeu, e fez juízo e justiça?" etc., "julgou a causa do pobre e do necessitado; então foi bem para ele; acaso não é isto o conhecer-me, diz o Senhor?" (Jeremias 22:15-16). Eis que revelou explicitamente que não há grandeza grande para o forte, que é o rei, senão na feitura do juízo em ato, e que isto se chama "conhecimento do Senhor".
חֶסֶד (חָכְמָה), מִשְׁפָּט (גְּבוּרָה), צְדָקָה (עֹשֶׁר). ״הֲלוֹא הוּא אָכַל וְשָׁתָה וְעָשָׂה מִשְׁפָּט וּצְדָקָה... דָּן דִּין עָנִי וְאֶבְיוֹן אָז טוֹב הֲלוֹא הִיא הַדַּעַת אֹתִי נְאֻם ה׳״ — הַמַּעֲשֶׂה בְּכַוָּנָה נִקְרָא ״יְדִיעָה״.
11 E é manifesto que não há fim mais nobre para o homem a fim de alcançar a perfeição humana do que o conhecimento do Senhor; e chamou a obra feita sobre esta descrição que mencionámos "conhecimento", para explicar que na obra feita sobre esta descrição — quero dizer, com a intenção de fazer a vontade do Senhor — se alcança o fim humano, que é a permanência da alma no mundo vindouro. E assim achas que o anjo, em nome do Senhor, promete a Josué filho de Jeozadaque, o sumo sacerdote, a permanência para a sua alma no mundo vindouro pela guarda dos mandamentos e pela feitura de ações com a intenção do serviço do Senhor; disse "assim diz o Senhor dos Exércitos: se andares nos meus caminhos, e se guardares a minha guarda, e também tu julgares a minha casa, e também guardares os meus átrios, então te darei livre trânsito entre estes que estão aqui" (Zacarias 3:7) — e traduziu Jônatas filho de Uziel "entre estes serafim". Eis que lhe prometeu a permanência da alma e o estar ela a transitar entre os anjos que estão diante dele sempre, em recompensa porque julgará a sua casa e guardará os seus átrios. E isto é o que quisemos explicar.
אֵין תַּכְלִית נִכְבָּד יוֹתֵר מִידִיעַת הַשֵּׁם, וְקָרָא לַמַּעֲשֶׂה ״יְדִיעָה״. ״אִם בִּדְרָכַי תֵּלֵךְ... וְנָתַתִּי לְךָ מַהְלְכִים בֵּין הָעֹמְדִים הָאֵלֶּה״ — קִיּוּם הַנֶּפֶשׁ וְהִתְהַלְּכוּתָהּ בֵּין הַמַּלְאָכִים.
Este capítulo entrega a peça que faltava. No cap. 4 Albo estabeleceu que a perfeição vem do "composto de ação corporal e concepção anímica". Mas que concepção é essa? Aqui ele responde frontalmente, contra toda a tradição filosófica: não é a apreensão de inteligíveis (saber metafísica), e sim a intenção (kavaná) de servir a D'us — fazer o ato "porque é reto aos olhos de D'us", desinteressadamente. É o deslocamento do centro de gravidade do intelecto para a vontade dirigida, que torna a perfeição acessível a todos.
A prova maior vem do céu. As esferas e os anjos têm corpo/alma intelectiva (esferas) ou são puro intelecto (anjos), e atingem a perfeição movendo-se para cumprir a vontade de D'us — "fazedores da Sua vontade", "fazedores da Sua palavra para ouvir a voz da Sua palavra" (Sl 103). Albo rejeita energicamente a explicação dos "que filosofam" de que a esfera se move para adquirir novas posições/perfeições: isso, diz ele, tornaria o movimento celeste uma "loucura, como um homem que gira em volta de uma coluna". Notavelmente, recruta o próprio Averróis (Tahafut al-Tahafut) como testemunha de que os antigos verdadeiros viam as esferas movendo-se "por fé, amor e aceitação do mandamento" — serviço, não autointeresse. O modelo do serviço perfeito é o cortesão que serve o rei só por amor de servir, sem buscar prêmio.
Daí a tese mais bela e prática: até um prazer físico torna-se ato espiritual quando feito com intenção. O oneg Shabat (deleitar-se no Shabat — comer, descansar) é, por natureza, ato "que chega ao homem enquanto animal". Mas feito para cumprir a mitzvá, vira "ação intelectual semelhante ao movimento das esferas", e por ela se ganha o mundo vindouro. A mesma lógica na parábola dos dois que comem o cordeiro pascal: o mesmo gesto físico salva um ("para o nome do Pessach") e faz tropeçar o outro ("para comer grosseiramente") — "retos são os caminhos do Senhor, os justos andam por eles e os transgressores tropeçam neles". A diferença é só a kavaná.
Albo sela com três provas escriturísticas. (1) Eclesiastes: depois de testar todas as candidatas a fim último (sabedoria, riqueza, honra, prazer), Salomão conclui "teme a D'us e guarda os mandamentos, pois isto é todo o homem" — "todo o homem", isto é, o único fim que abrange a espécie inteira. (2) Jeremias 9: "não se glorie o sábio na sabedoria, o forte na força, o rico na riqueza" — porque a glória está em atualizar esses dons em bondade (chesed, da sabedoria), juízo (mishpat, da força) e justiça (tsedaká, da riqueza), à imitação de D'us que os exerce "embora não precise". O dom só vale quando influído ao próximo, sem esperar recompensa. (3) Jeremias 22: o rei Josias "fez juízo e justiça… acaso não é isto conhecer-me?" — a Escritura chama a ação justa de "conhecimento de D'us". É a inversão definitiva do intelectualismo: o conhecimento supremo não é teoria contemplada, mas mandamento cumprido com intenção. E é por ele — confirma a promessa a Josué, o sumo sacerdote (Zacarias 3) — que a alma ganha lugar "entre os que estão diante d'Ele", os anjos: a imortalidade aberta a todo aquele que serve.
Nem toda ação conduz à perfeição: umas aproximam, outras afastam. Mas como distingui-las, se a essência da alma nos é desconhecida? Albo dá um critério interior: a alma, sendo divina, alegra-se nas ações boas (semelhantes à sua natureza) e angustia-se nas más (estranhas a ela). O sinal não é o impulso anterior ao ato, mas a paz ou o remorso que ficam depois de realizá-lo.
Nem toda ação conduz à perfeição: umas aproximam, outras afastam. Mas como distingui-las, se a essência da alma nos é desconhecida? Albo dá um critério interior: a alma, sendo divina, alegra-se nas ações boas (semelhantes à sua natureza) e angustia-se nas más (estranhas a ela). O sinal não é o impulso anterior ao ato, mas a paz ou o remorso que ficam depois de realizá-lo.
1 As ações humanas não se livram de serem uma de três partes: ou que todas elas conduzam o homem à sua perfeição e ao seu fim, ou que nenhuma delas o conduza ao fim humano, ou que algumas delas o conduzam e algumas não o conduzam. E é impossível que todas elas conduzam o homem à sua perfeição e ao seu fim, pois as ações da violência e do roubo e as que se lhes assemelham — dentre as ações que são desprezíveis aos olhos de todo homem —, ou as ações do mergulho shtifá no adultério e na voracidade, que são das ações dos viventes não-racionais, é impossível que conduzam ao fim humano, pois se fosse assim seria a perfeição do porco e do jumento igual à perfeição do homem. E é falso que nenhuma delas conduza ao fim, pois já explicámos que a perfeição do homem está dependente das ações humanas por força, a fim de ser esta coisa comum a toda a espécie ou à sua maioria. E por isso é impossível que não sejam algumas delas as que o conduzem ao fim humano e algumas as que não o conduzem, mas o afastam dele.
הַפְּעוּלוֹת הָאֱנוֹשִׁיּוֹת: אוֹ כֻּלָּן מְבִיאוֹת אֶל הַתַּכְלִית, אוֹ אֵין אַחַת מֵהֶן, אוֹ קְצָתָן. וְהָאֱמֶת — קְצָתָן מְבִיאוֹת וּקְצָתָן מַרְחִיקוֹת.
2 E eis que o saber das ações que conduzem o homem ao fim humano — que é a perfeição da alma — e a sua delimitação é muito difícil, porque a coisa cuja essência se ignora é impossível que se conheçam as coisas que lhe são proveitosas ou que lhe são prejudiciais. Pois, se ignorámos a têmpera do homem, por exemplo, é impossível para nós que conheçamos as coisas com que o atrairemos para o seu equilíbrio a fim de que nele permaneça, ou com que o restituiremos a ele se sair dele; mas é cabido que o concebamos primeiro e apreendamos a sua verdade conforme a nossa força, e só depois conheçamos as coisas convenientes a ele ou opostas a ele. E, se é assim, a respeito da alma do homem — cuja verdade é impossível para nós, pelo lado da investigação humana, conhecer, e não conhecemos dela senão que ela é coisa influenciada por um princípio intelectual separado da matéria —, não poderemos saber, pelo lado da nossa investigação, as coisas opostas ou convenientes a ela. E sobre isto disse um sábio "filho meu, conhece a tua alma e conhecerás o teu Criador da nafshechá vetedá borecha". E, se é assim, então com que se conhecerão as ações proveitosas a ela pelo lado da investigação humana, a fim de que por meio delas adquira a alma a sua perfeição? Pois não há dúvida de que é cabido que se ache este teste na raiz da criação humana. E, se dissermos que iremos nisto após aquilo em que a maioria dos homens concorda, seriam as ações dos profetas e dos piedosos chassidim cabidas de afastar-se delas, porque a maioria dos homens se conduz de modo oposto às suas obras. E não há dúvida de que, depois que o homem foi criado único, é cabido que haja nele, na raiz da sua criação, um caminho para discernir entre as ações louváveis — nas quais está dependente a perfeição da alma — e as demais.
הַדָּבָר שֶׁיּוּסְכַּל עַצְמוּתוֹ אִי אֶפְשָׁר שֶׁיֵּדְעוּ הַמּוֹעִילִים אֵלָיו. וְהַנֶּפֶשׁ — אִי אֶפְשָׁר מִצַּד הַמֶּחְקָר לַעֲמֹד עַל אֲמִתָּתָהּ. ״בְּנִי דַּע נַפְשְׁךָ וְתֵדַע בּוֹרַאֲךָ״.
3 E dizemos que, depois que nós achamos ações com as quais concordam todos os homens de que são boas — como o afastar-se da iniquidade e a feitura da retidão e as que se lhes assemelham —, e ações com as quais concordam todos os homens de que são más — como a iniquidade e a violência e as que se lhes assemelham —, e depois que nós vemos que a alma se alegra e exulta nas ações boas e se aflige e se entristece nas ações más, e que toda coisa se alegra no seu semelhante e se entristece no seu oposto, eis que se vê que a alma, por ser ela divina elohit, exulta e se alegra nas ações boas, semelhantes à sua natureza, por serem todas as ações divinas boas; e se entristece nas ações más, por estarem elas fora da sua natureza e opostas a ela. E por este lado podemos dizer que já se toma prova de serem as ações más ou boas a partir da alegria da alma ou da sua angústia: pois as ações com as quais regozija e se alegra a alma sempre, antes da sua feitura e depois da sua feitura, eis que elas são boas; e as ações com as quais se aflige a alma e se entristece sobre elas depois da sua feitura, eis que elas são más.
הַנֶּפֶשׁ, לִהְיוֹתָהּ אֱלֹהִית, תָּגִיל בַּפְּעוּלוֹת הַטּוֹבוֹת הַדּוֹמוֹת לְטִבְעָהּ, וְתִתְעַצֵּב בָּרָעוֹת. הַפְּעוּלוֹת שֶׁתִּשְׂמַח בָּהֶן אַחַר עֲשִׂיָּתָן — טוֹבוֹת; שֶׁתִּצְטַעֵר בָּהֶן — רָעוֹת.
4 E isto é: que mesmo o ímpio, que é ansioso e ávido sempre pelo mal — conforme o dito de Salomão "a alma do ímpio deseja o mal" (Provérbios 21:10) —, eis que isto será antes da transgressão, pelo lado da força da má inclinação yetzer, que o anima a fazê-la; mas, depois que fez a transgressão e descansou e se aquietou a força da inclinação, eis que a sua alma se fortalece e se entristece e se aflige sobre a ação má que fez — como aquele que veio sobre a relação proibida, pois antes da relação, pelo lado do mergulho do apetite, não discerne aquela ação a saber se é boa ou se é má; mas, depois que fez a transgressão e se esfriou do mergulho da inclinação, eis que a sua alma discerne aquela ação e reconhece o mal que há nela e se aflige e se entristece sobre ela.
אֲפִלּוּ הָרָשָׁע — קֹדֶם הָעֲבֵרָה מִצַּד תְּקִיפַת הַיֵּצֶר, אֲבָל אַחַר שֶׁעָשָׂה וְנָחָה תְּקִיפַת הַיֵּצֶר, נַפְשׁוֹ תִּתְעַצֵּב וְתָדִיג עַל הַפֹּעַל הָרָע.
5 E achamos que Jeremias, o profeta, a paz esteja sobre ele, dá este teste para as ações más em nome do Senhor, bendito seja, à Congregação de Israel, e diz-lhes que têm como reconhecer que as ações que fazem são más pelo lado de que a alma se aflige e se entristece naquelas ações. Disse à Congregação de Israel "disciplinar-te-á a tua maldade, e as tuas apostasias te repreenderão; sabe, pois, e vê que é mau e amargo o teu abandono ao Senhor, teu D'us, e que não está o meu temor sobre ti, diz o Senhor D'us dos Exércitos" (Jeremias 2:19) — quer dizer: eis que é cabido que te discipline a ação má que fazes, e a própria apostasia te repreenda; e isto é ao fixarem elas na alma aflição e tristeza depois de serem feitas; e disto tens como reconhecer e saber que é mau e amargo o teu abandono ao Senhor, teu D'us, e que não está o meu temor sobre ti — quer dizer: não te digo isto pelo lado do temor do meu castigo e do meu pavor lançado sobre ti, mas que, pelo lado da natureza das próprias transgressões — que legam à alma tristeza e aflição depois da sua feitura —, reconhecerás e saberás que são más e que é mau e amargo o teu abandono ao Senhor, teu D'us, e não pelo lado do meu pavor sobre ti. E assim o oposto: pois, pelo lado da alegria e do regozijo que fixa a ação boa na alma, se conhece que ela é boa. E isto é o que disse o salmista "pensei nos meus caminhos, e tornei os meus pés para os teus testemunhos" (Salmos 119:59) — quer dizer: quando eu penso nos meus caminhos para saber qual é boa e qual é má, tornei os meus pés para os teus testemunhos, que é o caminho da ação boa; e isto é como ele mesmo explicou a razão: porque se alegrava nelas com uma alegria não-finita, como disse "no caminho dos teus testemunhos regozijei-me como sobre toda a riqueza" (Salmos 119:14) — quer dizer, uma alegria grande, não-finita, como a alegria com que o homem se alegra quando alcança toda a riqueza, que é uma riqueza não-finita. E deste modo pode o homem discernir as ações boas e as ações más a partir da aflição ou a partir da alegria que decorre à alma depois da sua feitura.
״תְּיַסְּרֵךְ רָעָתֵךְ וּמְשֻׁבוֹתַיִךְ תּוֹכִחֻךְ״ — לֹא מִצַּד פַּחַד הָעֹנֶשׁ, אֶלָּא מִטֶּבַע הָעֲבֵרוֹת שֶׁמּוֹרִישׁוֹת צַעַר. ״בְּדֶרֶךְ עֵדְוֹתֶיךָ שַׂשְׂתִּי כְּעַל כָּל הוֹן״.
Os capítulos anteriores estabeleceram que a perfeição vem de ações feitas com intenção. Surge então a pergunta prática urgente: quais ações? Albo abre com uma divisão lógica exaustiva — ou todas as ações aperfeiçoam, ou nenhuma, ou só algumas — e elimina as duas primeiras: a violência e a luxúria obviamente não elevam (senão "o porco igualaria o homem"), mas algumas ações têm de elevar, ou a tese se desfaz. Logo, só algumas conduzem; o resto afasta.
Aqui Albo é filosoficamente agudo. Para saber o que faz bem a algo, é preciso conhecer a essência desse algo — como o médico precisa conhecer a têmpera do corpo antes de prescrever. Mas a essência da alma nos escapa: a investigação humana só apura que ela é "algo influenciado por um princípio intelectual separado da matéria". Então como saber o que a aperfeiçoa? E o critério do consenso popular não serve — a maioria vive de modo oposto aos profetas e aos piedosos, que seriam, por esse padrão, os errados. Tem de haver, conclui Albo, um critério inscrito "na raiz da criação humana", já que o homem foi criado "único" (capaz de discernir por si).
A solução é elegante e introspectiva: a própria resposta afetiva da alma é o instrumento. Partindo de ações cujo valor é universalmente reconhecido (a retidão é boa, a violência é má) e observando que a alma se alegra nas boas e se angustia nas más, Albo infere o princípio "tudo se alegra no seu semelhante e sofre no seu oposto": a alma, sendo divina, exulta no que é semelhante a ela (o bem, pois "toda ação divina é boa") e se contrai diante do que lhe é estranho (o mal). A alegria e o remorso tornam-se, assim, um sensor moral — a marca da origem divina da alma operando como discernimento.
A precisão crucial: o impulso anterior ao ato engana — até o ímpio "deseja o mal", e quem cobiça não distingue o bem do mal no calor do apetite. O teste verdadeiro é o estado da alma depois, quando "a força da inclinação se aquietou": aí o transgressor sente a aflição que denuncia o ato como mau, e o justo sente a paz que confirma o ato como bom. Albo ancora isto em Jeremias 2:19 — "a tua maldade te disciplinará" — lido com finura: D'us diz que não é pelo medo do castigo que Israel deve reconhecer o pecado, mas pela própria natureza da transgressão, "que lega tristeza à alma". A moral não se funda no temor externo, mas na evidência interior. E o reverso, em Salmos 119: "pensei nos meus caminhos e voltei os pés aos teus testemunhos" — porque neles havia uma alegria "infinita, como sobre toda a riqueza". A consciência (a alegria/remorso pós-ato) é a voz da alma divina apontando o caminho da perfeição — um critério acessível, de novo, a todo ser humano, fiel ao programa universalista do Maamar.
O critério interior do capítulo anterior não basta: as têmperas diferem, e a virtude é um "meio-termo" — um ponto indelimitável. Pior: a razão não pode saber o que agrada a D'us, cuja essência é oculta. Logo a Sabedoria suprema teve de prover um caminho — o influxo profético sobre um eleito (a Torá). Os sete mandamentos de Adão; a oferenda de Caim; e os dois tipos de ação que o intelecto conhece por natureza.
O critério interior do capítulo anterior não basta: as têmperas diferem, e a virtude é um "meio-termo" — um ponto indelimitável. Pior: a razão não pode saber o que agrada a D'us, cuja essência é oculta. Logo a Sabedoria suprema teve de prover um caminho — o influxo profético sobre um eleito (a Torá). Os sete mandamentos de Adão; a oferenda de Caim; e os dois tipos de ação que o intelecto conhece por natureza.
1 O caminho deste teste que dissemos — aquele com que se testam as ações boas e as ações más — não é suficiente para conhecer todas as ações boas convenientes à natureza da alma. Pois, pela diversidade das têmperas dos homens, decorre por força que se diversifiquem as suas qualidades midot: pois o homem cuja têmpera do coração é quente e fervente louva a coragem e se alegra nela, e quem tem a sua têmpera ao contrário louva a quietude e se alegra nela. E é impossível, conforme isto, delimitar o conveniente e o desprezível do modo que dissemos, se não for por meio de um homem equilibrado de têmpera, coisa que é impossível que se ache; e, ainda que fosse posto que se acha, eis que na delimitação das qualidades boas particulares há uma dificuldade imensa pelo lado das próprias ações. Pois, porque eram as ações louváveis e as qualidades boas um meio-termo entre dois extremos — dos quais um extremo é excesso e o outro extremo é falta, como a generosidade, que é um meio-termo entre a avareza e a prodigalidade, e a coragem, que é um meio-termo entre o entregar-se aos perigos e a moleza do coração —, e porque o meio entre cada dois extremos é impossível que se delimite, já que não é senão um só ponto — assim como não se delimita o morno verdadeiro, que seja um meio verdadeiro entre o quente e o frio, nem o meio da verdade entre o negro e o branco de modo que se possa apontar para ele pelo sentido —, assim é impossível que se reconheçam em ato, ou que se delimitem, as ações que são um meio-termo entre dois extremos; e por isso é manifesto que é coisa muito difícil delimitar as ações pelo lado do saber investigativo.
הַמַּדּוֹת הַטּוֹבוֹת מִצּוּעַ בֵּין שְׁתֵּי קְצָווֹת (כְּהַנְּדִיבוּת בֵּין הַכִּילוּת וְהַפִּזּוּר), וְהָאֶמְצָעִי אֵינוֹ אֶלָּא נְקֻדָּה אַחַת — אִי אֶפְשָׁר לְהַגְבִּילוֹ מִצַּד הַמֶּחְקָר.
2 E ainda, que mesmo se bastasse o saber investigativo para delimitar as ações boas conforme a natureza humana, eis que é impossível que baste para conhecer as coisas agradáveis junto ao Senhor. E já explicámos no capítulo quinto deste Maamar que a perfeição humana está dependente da feitura das coisas agradáveis junto ao Senhor, bendito seja; e as coisas agradáveis junto ao Senhor, bendito seja, é impossível que se conheçam pelo lado do saber investigativo. Porque, se ignorámos a excelência de um príncipe, e o seu caminho, e os seus costumes, ou a sua perfeição e a essência do seu domínio e o seu grau, não conheceremos as coisas com que se acende a sua ira ou as coisas que são boas aos seus olhos; e, por estar o Senhor, bendito seja, oculto no extremo da ocultação, é impossível para nós conhecer todas as coisas que são boas aos seus olhos, dentre todas as ações que é possível que o homem as faça, ou as coisas que são não-boas. E o que é possível que se conheça delas é pelo lado da generalidade — como que o mal é desprezível aos olhos do Senhor, conforme disse a Escritura "puro de olhos demais para ver o mal, e olhar para a aflição não podes" (Habacuc 1:13), e que o bem é agradável diante dele de modo geral; mas não conheceremos os particulares das ações boas que são agradáveis junto ao Senhor, bendito seja.
הַשְּׁלֵמוּת נִתְלֶה בַּדְּבָרִים הַנִּרְצִים אֵצֶל הַשֵּׁם, וְהֵם אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּוָּדְעוּ מִצַּד הַמֶּחְקָר — לִהְיוֹתוֹ נֶעְלָם. נֵדַע רַק בִּכְלָל שֶׁהָרַע נִמְאָס וְהַטּוֹב נִרְצֶה.
3 E, porque é do caminho de todo agente sábio que aja com sabedoria e abra um caminho pelo qual chegue da sua ação o fim visado nela, a fim de que a sua ação não seja uma ação vã ao não chegar dela o fim visado, a Sabedoria suprema tornou necessário à Sabedoria suprema fazer existir um caminho pelo qual se conheçam as coisas agradáveis junto ao Senhor e as não-agradáveis a ele, a fim de que, por meio deste caminho, chegue o homem à obtenção da sua perfeição humana e do seu fim, depois que não há força na mão do saber investigativo para delimitar isto sobre a perfeição. E este caminho é influir um influxo profético sobre um homem escolhido da espécie do homem, a fim de que por meio dele se conheçam aos homens as coisas agradáveis junto ao Senhor, bendito seja, distintas das não-agradáveis. E por causa disto é que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, que no princípio da criação, imediatamente, foi ordenado a Adão sobre sete mandamentos, como explicaram isto no tratado Sanhedrin, capítulo "Quatro tipos de pena de morte", e apoiaram-nos no versículo "e ordenou o Senhor D'us ao homem, dizendo: de toda árvore do jardim comerás" (Gênesis 2:16); e é como que explicaram com isto que, sem uma ordem divina, é impossível que se conheçam as coisas agradáveis junto ao Senhor ou as não-agradáveis. E explicaram que Caim não foi punido pela morte de Abel senão porque transgrediu o mandamento do Senhor; e assim a geração do dilúvio foi punida pela violência que havia nas suas mãos, e os homens de Sodoma pelo seu pecado, e Faraó pela questão de Sarai, mulher de Abrão, porque todos eles transgrediam o que foi ordenado a Adão, o primeiro; mas, sem isto, conforme o que se vê das suas palavras, não seriam punidos. Este é o caminho dos nossos sábios, de abençoada memória, nisto.
חִיְּבָה הַחָכְמָה הָעֶלְיוֹנָה לְהַמְצִיא דֶּרֶךְ — לְהַשְׁפִּיעַ שֶׁפַע נְבוּאִיִּי עַל אִישׁ נִבְחָר. ״וַיְצַו ה׳ אֱלֹהִים עַל הָאָדָם״ — שֶׁבְּזוּלַת צִוּוּי אֱלֹהִי אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּוָּדְעוּ הַדְּבָרִים הַנִּרְצִים.
4 E, contudo, já se dificulta, conforme este caminho, a questão de por que o Senhor, bendito seja, não atentou para Caim e para a sua oferenda — pois eis que não pecou em nada dos sete mandamentos sobre os quais foi ordenado Adão —, a não ser que digamos que pecou na sua intenção, numa questão que tendia para o lado da idolatria, o que não se vê ser assim pelo sentido simples dos versículos.
יִקְשֶׁה לָמָּה לֹא שָׁעָה ה׳ אֶל קַיִן וְאֶל מִנְחָתוֹ, שֶׁהֲרֵי לֹא חָטָא בְּשֶׁבַע מִצְוֹת — אֶלָּא אִם נֹאמַר שֶׁחָטָא בְּכַוָּנָתוֹ.
5 E é mais cabido que digamos nisto o seguinte: que há aqui duas espécies de ações que é cabido que se achem no intelecto do homem por natureza. A espécie primeira é o afastamento da iniquidade e a continuidade da retidão entre os homens, a fim de que se conserve a espécie humana; e sobre isto foi punido Caim pela morte de Abel, e a geração do dilúvio pela violência, e Faraó e Abimelec. E esta espécie de ações, ainda que o que transgride seja cabido de sofrer castigo, de todo modo não há na sua guarda a aquisição de nenhuma perfeição para a alma; pois, se o homem habitar único no deserto sem ser parte de uma cidade, não precisará desta perfeição social.
הַמִּין הָאֶחָד: הַרְחָקַת הָעָוֶל וְהַתְמָדַת הַיֹּשֶׁר, כְּדֵי שֶׁיִּתְקַיֵּם הַמִּין. אַף שֶׁהָעוֹבֵר רָאוּי לְעֹנֶשׁ, אֵין בִּשְׁמִירָתָם הַקְנָאַת שְׁלֵמוּת — שֶׁהַיּוֹשֵׁב יְחִידִי בַּמִּדְבָּר לֹא יִצְטָרֵךְ אֵלָיו.
6 E a espécie segunda é uma espécie de ações que é cabido que se achem no homem na raiz da sua criação por natureza também, e elas são as que dão perfeição à alma do homem; e isto é como a submissão ao Senhor e a fazer o que o intelecto humano decreta de modo geral que é bom aos olhos do Senhor — pois estas são coisas conhecidas ao homem por natureza. Como disse o profeta quando repreendia Israel por não reconhecerem os caminhos do Senhor e os seus juízos, disse "mas são pobres, e tornaram-se loucos, pois não conheceram o caminho do Senhor, o juízo do seu D'us" (Jeremias 5:4); e disse noutro lugar "também a cegonha nos céus conhece os seus tempos marcados, e a rola e a andorinha e o grou guardam o tempo da sua vinda, mas o meu povo não conheceu o juízo do Senhor" (Jeremias 8:7). E não disse tudo isto sobre os caminhos da Torá e os seus juízos, pois estes não são conhecidos ao homem por natureza, como o conhecimento da cegonha dos seus tempos e da rola e do grou do tempo da sua vinda; mas disse isto sobre o conhecimento do caminho do Senhor, reconhecido por natureza a todos — como ele sustenta o mundo e agracia e dá alimento a todas as criaturas e as conserva sempre, e que é cabido reconhecer que tudo vem dele; e isto é "o caminho do Senhor". E "o juízo do seu D'us" é o conhecimento do juízo do grau do Criador em relação às suas criaturas — a saber que é cabido submeter-se sempre diante dele como um servo diante do senhor, e não desdenhar a sua honra a ponto de igualar o valor do nobre ao do vil; pois todas estas são coisas que a natureza do intelecto humano decreta sem ensino e sem aprendizado.
הַמִּין הַשֵּׁנִי: הַהִכָּנַע אֶל הַשֵּׁם וְלַעֲשׂוֹת מַה שֶּׁיִּגְזֹר הַשֵּׂכֶל שֶׁהוּא טוֹב — נוֹדָע בְּטֶבַע. ״גַּם חֲסִידָה בַשָּׁמַיִם יָדְעָה מוֹעֲדֶיהָ... וְעַמִּי לֹא יָדְעוּ אֵת מִשְׁפַּט ה׳״.
7 E por isto não atentou o Senhor para Caim e para a sua oferenda: porque o reconhecimento da bondade divina não foi feito com a intenção cabida conforme o que decreta a natureza do intelecto. Pois o intelecto humano decreta que é cabido reconhecer a bondade do que faz bem a alguém sobre tudo o que lhe retribuiu, e que não é cabido oferecer ao senhor uma oferta inferior, de espécie ruim, podendo ele trazer de espécie importante — pois isto é um desdém à honra do senhor. E por isso não era cabido a Caim trazer do fruto do solo, como semente de linho, ou as favas e as sementes e as que se lhes assemelham, mas do fruto da árvore, como figos e uvas e romãs, que é uma espécie importante; e porque não fez assim, pecou, e foi cabido de sofrer castigo, ainda que não tivesse sido ordenado sobre isso.
קַיִן הֵבִיא מִפְּרִי הָאֲדָמָה (זֶרַע פִּשְׁתָּן וּפוֹלִים) וְלֹא מִמִּין חָשׁוּב כְּתֵאֵנִים וַעֲנָבִים — זִלְזוּל בִּכְבוֹד הָאָדוֹן; וּבַעֲבוּר זֶה חָטָא, אַף שֶׁלֹּא נִצְטַוָּה.
8 E, contudo, mesmo que se conheçam pelo lado do intelecto humano os universais destas duas espécies que dissemos, de todo modo, depois que o intelecto não é suficiente para conhecer a sua particularidade e todas as coisas agradáveis junto ao Senhor, bendito seja, é cabido que se ache um influxo divino pelo qual, por meio dele, se complete o conhecimento das opiniões e das crenças verdadeiras e dos particulares de todas as ações agradáveis junto ao Senhor, bendito seja, pelas quais, por meio delas, se alcança o fim humano. Pois não é cabido que a mão da providência divina seja curta nesta coisa, que é quase necessária à espécie do homem para a aquisição da perfeição humana — assim como a providência não foi curta na aquisição de muitas coisas aos viventes que não são necessárias a eles na sua existência, como o duplicar dos sentidos e as que se lhes assemelham; e como muitos particulares de providências que se acham em muitas espécies diferentes dos viventes pelo lado do que é melhor, e não pelo lado da necessidade, como já explicámos isto no capítulo sexto do primeiro Maamar.
אַף שֶׁיִּוָּדְעוּ כּוֹלְלֵי שְׁנֵי הַמִּינִים, אֵינוֹ מַסְפִּיק לִפְרָטֵיהֶם — רָאוּי שֶׁיִּמָּצֵא שֶׁפַע אֱלֹהִי שֶׁיַּשְׁלִים יְדִיעַת הַדֵּעוֹת וְהָאֱמוּנוֹת וּפְרָטֵי הַפְּעוּלוֹת הַנִּרְצוֹת.
Tendo proposto no cap. 6 a "bússola interior" (alegria/remorso) como critério das boas ações, Albo agora desmonta a suficiência desse mesmo critério — e de toda a ética puramente racional. Dois golpes: (1) as têmperas humanas diferem (o colérico louva a coragem, o fleumático a calma), de modo que não há um "homem equilibrado" que sirva de padrão; (2) a virtude, sendo aristotelicamente um meio-termo entre excesso e falta (generosidade entre avareza e prodigalidade), é um ponto matemático — tão indelimitável quanto o "morno exato" entre quente e frio, ou o cinza exato entre preto e branco. A razão aponta a direção geral, mas não consegue fixar a medida precisa do ato bom.
O golpe mais forte é o do cap. 5 reativado: a perfeição depende de fazer "o que agrada a D'us". Mas a razão não pode saber o que agrada a D'us, cuja essência é "oculta ao extremo" — como não se podem adivinhar os gostos de um príncipe que não se conhece. Sabe-se só o universal ("o mal desagrada, o bem agrada"), nunca os particulares. Daí a conclusão necessária: um agente sábio não deixa a sua obra falhar; logo a Sabedoria suprema teve de prover um canal — o influxo profético sobre um eleito. É a dedução da necessidade da profecia e da Torá a partir da insuficiência da razão. Albo ancora-a na tradição: os sete mandamentos noáquidas já dados a Adão ("e ordenou o Senhor ao homem") — sinal de que, "sem ordem divina, é impossível conhecer o que agrada a D'us"; e os castigos de Caim, do dilúvio, de Sodoma e do Faraó pressupõem mandamento prévio.
Albo refina então a relação entre razão e revelação distinguindo duas classes de ações que o intelecto conhece por si: (1) as sociais — afastar a injustiça, manter a retidão — necessárias à sobrevivência da espécie, mas que "não dão perfeição à alma" (o eremita solitário não precisa delas); (2) as religiosas — submeter-se a D'us, reconhecer-se criatura diante do Criador, agradecer a quem nos sustenta — que sim aperfeiçoam a alma e são igualmente "conhecidas por natureza" (Jeremias: até a cegonha e o grou conhecem os seus tempos, "mas o meu povo não conheceu o juízo do Senhor"). É com esta segunda classe que Albo resolve o enigma da oferenda de Caim: ele não violou nenhum dos sete mandamentos, mas a razão natural dita que não se honra o Benfeitor com uma oferta vil (sementes, linho) podendo trazer fruto nobre (figos, uvas, romãs). Caim pecou contra a lei natural do reconhecimento — e por isso foi punido "embora não tivesse sido ordenado".
O equilíbrio final é caracteristicamente alboniano: a razão natural fornece os universais de ambas as classes, mas é impotente nos particulares e na vasta gama de "opiniões e crenças verdadeiras" e de "ações agradáveis a D'us" pelas quais se atinge o fim. Por isso a providência deve suprir o influxo divino que completa esse conhecimento — pois seria absurdo que D'us, generoso ao ponto de dar aos animais órgãos sequer necessários, fosse "de mão curta" justamente na coisa de que depende a perfeição última do homem. Assim o capítulo conclui a longa argumentação dos caps. 1–7: o homem precisa da Torá — e Albo está pronto, nos capítulos seguintes, a definir o que é a Lei divina e a distingui-la das leis humanas (nómicas).
O influxo profético não está no poder do homem alcançá-lo por si: só vem pela vontade divina. As nações, crendo isto impossível, recorreram ao kessem, aos ídolos, ao ov e ao yidoni — tudo do espírito de impureza, que a Torá proíbe. "Íntegro serás com o Senhor teu D'us": Israel terá profetas. A profecia define-se como influxo de D'us sobre a faculdade racional; e os seus graus sobem até Moisés, que profetizou sem intermediário.
O influxo profético não está no poder do homem alcançá-lo por si: só vem pela vontade divina. As nações, crendo isto impossível, recorreram ao kessem, aos ídolos, ao ov e ao yidoni — tudo do espírito de impureza, que a Torá proíbe. "Íntegro serás com o Senhor teu D'us": Israel terá profetas. A profecia define-se como influxo de D'us sobre a faculdade racional; e os seus graus sobem até Moisés, que profetizou sem intermediário.
1 Este influxo divino que dissemos que é necessário que se ache, a fim de que por meio dele se conheçam as coisas agradáveis junto ao Senhor, bendito seja, distintas das não-agradáveis, não está no estatuto do homem que alcance aquele influxo por si mesmo, sem a vontade divina; pois não é do caminho da natureza que paire o espírito do intelecto separado da matéria sobre a coisa material. E por causa disto, todos os antigos afastavam a ideia de que pairasse o espírito de D'us sobre o homem e que profetizasse por uma força superior e anunciasse os futuros; e por isso as nações antigas faziam figuras e incensos e orações às estrelas, para fazer descer a espiritualidade de alguma estrela sobre alguma figura, a fim de que por meio dela pairasse o espírito daquela estrela — que está sustentado no corpo da estrela — sobre o homem, que é material, e anunciasse os futuros pela força do espírito daquela estrela que flui sobre aquele homem; e este é o assunto da adivinhação kessem.
אֵין בְּחֵק הָאָדָם שֶׁיַּשִּׂיג הַשֶּׁפַע מֵעַצְמוֹ זוּלָת רָצוֹן אֱלֹהִי, כִּי אֵין מִדֶּרֶךְ הַטֶּבַע שֶׁתָּחוּל רוּחַ הַשֵּׂכֶל הַנִּבְדָּל עַל הַדָּבָר הַחָמְרִי. וְזֶה עִנְיַן הַקֶּסֶם.
2 E, por serem todos os homens ansiosos por saber o futuro que está para renovar-se sobre eles de dia em dia em todos os particulares dos seus assuntos, eram os antigos arrastados após os adivinhos e o saber dos juízos das estrelas astrologia; e algumas das nações faziam feitiçarias e serviam os demônios shedim conforme a diversidade dos seus graus — estes serviam os demônios do fogo e faziam passar os seus filhos e as suas filhas pelo fogo, e estes serviam os demônios do ar, pois assim escreveu nosso mestre Hai Gaon numa responsa: que há demônios do elemento do fogo e há demônios do elemento do ar; e tudo isto faziam a fim de que pairasse sobre eles um espírito de impureza dos demônios para anunciar os seus futuros. E havia os que faziam fumigações e incensos para se unir aos mortos, e pernoitavam no cemitério a fim de que pairasse sobre eles um espírito de impureza vindo dos mortos — até que enterravam os seus mortos nas suas casas de idolatria, e ali se reuniam os homens e as mulheres juntos e ficavam de pé sobre os túmulos e oravam ali, e disso pairava o espírito de impureza dos mortos sobre eles ou sobre os seus sacerdotes, e estes lhes anunciavam os futuros próximos de virem sobre eles. Como escreveu o Ramban, de abençoada memória, na sua derashá, que recebeu dos conhecedores da arte do ov: que aquela coisa se fazia por meio de um homem e uma mulher que ficavam de pé sobre o túmulo, este à sua cabeça e este aos seus pés, e tinham um pequeno chocalho no meio, e diziam encantamentos e chocalhavam aquele chocalho, e a mulher via e o homem perguntava, e os mortos lhes diziam o futuro que estava para vir sobre eles em breve — como era o assunto com Saul e a mulher possuidora de ov; e disse ali que esta consulta é a mais clara dos que consultam os demônios. E disse ainda que daqui restou aos cristãos enterrar os seus mortos na sua casa de oração e orar juntos os homens e as mulheres, e chocalhar um chocalho na hora do enterro dos seus mortos — porque aquelas nações, quando se voltaram para a religião dos cristãos, deixaram o costume dos seus pais nas suas mãos; assim como restou nas suas mãos também o costume dos adoradores do fogo: fazer grandes fogueiras numa certa noite no tempo em que entra o sol no signo de Câncer, dos signos verdadeiros possuidores das figuras, em cada ano e ano, e dançar e bater palmas em volta da fogueira e circundá-la e saltar sobre ela.
הָאֻמּוֹת עָשׂוּ כְּשָׁפִים וְעָבְדוּ שֵׁדִים (מִיְּסוֹד הָאֵשׁ אוֹ הָאֲוִיר), וְהִתְחַבְּרוּ עִם הַמֵּתִים — כְּדֵי שֶׁתָּחוּל עֲלֵיהֶם רוּחַ טֻמְאָה לְהַגִּיד עֲתִידוֹת, כְּמַעֲשֵׂה הָאוֹב בְּשָׁאוּל.
3 E todos estes caminhos, porque são serviço aos demônios e vêm do lado do espírito de impureza, afastou-os a Torá e disse "não se achará em ti quem faça passar o seu filho e a sua filha pelo fogo, nem adivinhador de adivinhações, nem agoureiro, nem encantador, nem feiticeiro, nem lançador de feitiços, nem consultor de ov e yidoni, nem inquiridor dos mortos" (Deuteronômio 18:10-11). E explicou a razão nisto: "pois é abominação do Senhor teu D'us todo o que faz estas coisas" etc. (Deuteronômio 18:12) — quer dizer: porque ele, bendito seja, é santo e os seus ministros são santos e puros, é cabido que vos afasteis de todas estas coisas, que vêm do lado do espírito de impureza; e por isso advertiu sobre as impurezas e tornou obrigatório o karet ao impuro que entra no Templo, pois o espírito de impureza será causa de que se retire o espírito de santidade do Templo.
״לֹא יִמָּצֵא בְךָ מַעֲבִיר בְּנוֹ וּבִתּוֹ בָּאֵשׁ קֹסֵם קְסָמִים... וְשֹׁאֵל אוֹב וְיִדְּעֹנִי וְדֹרֵשׁ אֶל הַמֵּתִים״ — ״כִּי תוֹעֲבַת ה׳ אֱלֹהֶיךָ כָּל עֹשֵׂה אֵלֶּה״. רוּחַ הַטֻּמְאָה תְּסַלֵּק רוּחַ הַקֹּדֶשׁ.
4 E voltou a explicar que a causa da feitura, pelas nações, de todas estas coisas é a fim de saber por meio delas os futuros, por pensarem elas que é impossível que se conheçam por nenhum outro lado e que é impossível que paire o espírito divino santo sobre o homem; e isto é o que disse "pois estas nações que tu desapossas, a agoureiros e a adivinhadores escutam" (Deuteronômio 18:14) — quer dizer: porque não há outro lado de que escutar, conforme a opinião delas; "mas tu, não é assim que o Senhor teu D'us te concedeu" — quer dizer: a coisa não é como elas pensaram, mas o Senhor levantará para ti um profeta do teu meio, dentre os teus irmãos, como eu (Deuteronômio 18:15,18), sobre quem pairará o espírito divino santo, e dele escutarás os futuros; e não te aflijas a dizer que não terás caminho para saber os futuros como têm as demais nações e que serás carente desta perfeição — pois não é assim, "mas íntegro tamim serás com o Senhor teu D'us" (Deuteronômio 18:13). Pois, além de seres íntegro tam — quer dizer, perfeito na perfeição humana, que é o fundamental —, serás também perfeito tamim nesta perfeição de conhecer o futuro; e por isso duplicou o "mem", quer dizer: não te faltará nada do seu povo, pois ele te dará a conhecer os futuros também por meio dos seus profetas; e por isso não precisarás de ir após os adivinhos, nem após o serviço dos demônios, nem de consultar ov e yidoni para saber os futuros. Pois todas estas coisas, ainda que anunciem os futuros, porque vêm do lado do espírito de impureza, afastam o homem da sua perfeição, e é impossível que o homem seja por meio delas íntegro e perfeito na perfeição humana, porque é impossível que se conheçam por meio delas as coisas agradáveis junto ao Senhor distintas das não-agradáveis; e por isso disse "íntegro serás com o Senhor teu D'us", para insinuar que as nações não são íntegras na perfeição humana, mas tu serás íntegro com o Senhor teu D'us nas duas perfeições, por meio do profeta que profetiza com o espírito de santidade e por uma vontade divina, já que saberás por meio dele as coisas agradáveis junto a D'us. E disse "com o Senhor teu D'us", para explicar que o fundamento da existência da profecia nos profetas é para este fim apenas — quer dizer, para advertir sobre o cumprimento da Torá e sobre o serviço do Senhor e a feitura das coisas agradáveis a ele, bendito seja, para ser o homem íntegro com o Senhor — e não para a anunciação dos futuros, como se explicará isto no capítulo 12 deste Maamar.
״כִּי הַגּוֹיִם הָאֵלֶּה... אֶל מְעֹנְנִים וְאֶל קֹסְמִים יִשְׁמָעוּ וְאַתָּה לֹא כֵן נָתַן לְךָ ה׳... נָבִיא מִקִּרְבְּךָ... יָקִים לְךָ ה׳״. ״תָּמִים תִּהְיֶה עִם ה׳ אֱלֹהֶיךָ״ — בִּשְׁנֵי הַשְּׁלֵמֻיּוֹת.
5 Senão que também isto a anunciação do futuro se achava nos profetas, mas na intenção segunda, para indicar a verdade da sua profecia a fim de que se cressem as suas palavras; e por isso achas que todos os profetas advertem sempre sobre a guarda da Torá e a feitura dos seus mandamentos, pois esta era a intenção divina fundamental de influir um influxo divino sobre os profetas — a fim de que por meio deles chegue o homem à sua perfeição humana ao fazer ele as coisas agradáveis junto a D'us —, não para dar a conhecer por meio deles os futuros, como é o assunto nos adivinhos. Pois a anunciação dos futuros que se acha neles é por meio de ações que fazem para fortalecer a força imaginativa, e pelo lado da natureza, não pelo lado do espírito divino como é nos profetas — a não ser que digamos que a profecia é também um assunto imaginativo que chega à força imaginativa, como imaginaram alguns dos nossos sábios que seguem após o Filósofo: que o assunto da profecia é coisa natural que decorre da força imaginativa apenas, como os sonhos, até o ponto de dizerem que ela é como as maravilhas — no sentido de que o homem não profetizaria a não ser sendo ele sábio e preparado para a profecia, quer dizer, ao estar a sua força imaginativa preparada para isto.
הַגָּדַת הָעֲתִידוֹת בַּנְּבִיאִים — בְּכַוָּנָה שְׁנִיָּה, לְהוֹרוֹת עַל אֲמִתַּת נְבוּאָתָם. עִקַּר הַכַּוָּנָה הָאֱלֹהִית — לְהַגִּיעַ הָאָדָם אֶל שְׁלֵמוּתוֹ בְּמַעֲשֵׂה הַנִּרְצֶה.
6 E esta coisa, desmentem-na o sentido e o intelecto. Quanto ao sentido: pois jamais se achou profecia em nenhum homem dentre os filósofos, com o facto de serem eles sábios no saber investigativo; e acha-se disto muito mais na nação israelita; e isto é do que indica que isto não é coisa natural que decorra do saber investigativo — pois, se fosse assim, por que seria impedido este bem das demais nações a ponto de não se influir um influxo profético sobre os perfeitos delas, seja no saber investigativo seja na preparação da força imaginativa, depois de ser a coisa natural a ele? Senão que, sem dúvida, o assunto da profecia é um influxo que flui por uma vontade divina sobre a força racional, seja por meio da força imaginativa seja sem ela, como se explicará.
הַחוּשׁ יַכְחִישׁ: לֹא נִמְצְאָה נְבוּאָה בַּפִילוֹסוֹפִים, וְנִמְצְאָה בָּאֻמָּה הַיִּשְׂרְאֵלִית — אוֹת שֶׁאֵין זֶה טִבְעִי, אֶלָּא שֶׁפַע בְּרָצוֹן אֱלֹהִי עַל הַכֹּחַ הַדִּבְרִי.
7 E quanto ao intelecto: porque os adivinhos e os adoradores das imagens e os possuidores de ov e yidoni e os que fazem ações outras que estas para fortalecer a força imaginativa a fim de anunciar os futuros, é impossível para eles delimitar as coisas agradáveis junto ao Senhor, bendito seja, já que não têm caminho para saber isto, pois é coisa acima da natureza, e acima do espírito de impureza, e acima das forças das esferas, das quais todas as suas ações decorrem; e por causa disto é impossível para eles que acertem sempre na sua anunciação dos futuros. E isto é de dois lados: seja pelo lado de que a força imaginativa tem do seu caminho o mentir por força, pois nem todo imaginado é possível, como é sabido isto a quem conhece a natureza daquela força; seja pelo lado de que o Senhor, bendito seja, pode subjugar a força da constelação ma'arachá e ordenar o oposto do decretado por elas — e por isso mentem os videntes das estrelas por força. E isto é o que disse a Escritura "que estejam de pé, pois, e te salvem os repartidores dos céus, os videntes das estrelas, os que dão a conhecer nas luas novas as coisas de que virão sobre ti" (Isaías 47:13); e disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "'de que' me-asher e não 'tudo o que' kol asher" — quer dizer, que é impossível para eles dar a conhecer todo o decretado com verdade, pois por força mentirão dos dois lados que dissemos: seja pelo lado da natureza da força, seja pelo lado de que o Senhor, bendito seja, anula o decretado pela constelação conforme a sua vontade.
הַחוֹזִים בַּכּוֹכָבִים יְכַזְּבוּ בְּהֶכְרֵחַ: אִם מִצַּד טֶבַע הַכֹּחַ הַמְדַמֶּה, וְאִם מִצַּד שֶׁהַשֵּׁם יְשַׁדֵּד הַמַּעֲרֶכֶת. ״מַּגִּידִים לֶחֳדָשִׁים מֵאֲשֶׁר יָבֹאוּ עָלָיִךְ״ — ״מֵאֲשֶׁר וְלֹא כָּל אֲשֶׁר״.
8 E o profeta é ao contrário: pois, porque o influxo que flui sobre ele é do lado do Senhor, bendito seja, e por sua vontade, e não do lado das forças das esferas, e porque é influído sobre a força racional essencial e primariamente, é impossível nele que minta de nenhum lado. E isto é o que testemunhou a Escritura sobre Samuel, e disse "e soube todo Israel, de Dã a Beer-Sheva, que era fiel Samuel por profeta ao Senhor" (I Samuel 3:20), "e não deixou cair coisa de todas as suas palavras por terra" (I Samuel 3:19) — quer dizer que nisto se conheceu a verdade da sua profecia, porque não deixava cair de todas as suas palavras por terra, o que não se dá nos adivinhos e nos agoureiros. E isto é o que disse Balaão a Balaque "pois não há agouro em Jacó, nem adivinhação em Israel; no seu tempo se dirá a Jacó e a Israel o que D'us fez" (Números 23:23) — quer dizer: não penses que o bem prometido a Israel é possível que se anule de algum lado, como se anula a coisa decretada do lado da constelação, pois isto é impossível, já que não se faz conhecer a eles a coisa decretada do lado do agouro e da adivinhação, mas pelo lado da profecia se faz conhecer a eles "o que D'us fez" — quer dizer, o que decretou que se fizesse; e por isso não é cabido que se anule de nenhum lado, pois ele, bendito seja, é forte para subjugar a constelação e a ação dos adivinhos e dos feiticeiros e o conhecido pela sua sabedoria — pois eis que ele, bendito seja, é D'us que os tira do Egito "como as alturas do búfalo são para ele" (Números 23:22); "e a ele se voltou o povo do Egito", ainda que seja expressão no singular, como "e disse o Egito: fujamos de diante de Israel" (Êxodo 14:25), a saber "será o Egito como mulheres" (Isaías 19:16); e quer dizer que, com o facto de o povo do Egito ter saber nas adivinhações e nas feitiçarias e uma força grande, "como as alturas do búfalo são para ele", do lado da constelação, D'us os tirou de debaixo da sua mão e fez juízos nos seus deuses.
״נֶאֱמָן שְׁמוּאֵל לְנָבִיא לַה׳ וְלֹא הִפִּיל מִכָּל דְּבָרָיו אָרְצָה״. ״כִּי לֹא נַחַשׁ בְּיַעֲקֹב וְלֹא קֶסֶם בְּיִשְׂרָאֵל... מַה פָּעַל אֵל״ — שֶׁאִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּתְבַּטֵּל.
9 E explica-se de tudo isto que as coisas agradáveis junto ao Senhor, bendito seja, é impossível que se conheçam todas elas por nenhum lado se não for por uma vontade divina, num influxo próprio influído dele para esta coisa apenas. E por isso foi a definição da profecia, conforme este caminho, que ela é um influxo que flui do Senhor, bendito seja, sobre a força racional que há no homem, seja por meio da força imaginativa seja sem ela, que lhe dá a conhecer, por meio de um anjo ou sem ele, coisas ou assuntos que não estão na natureza do homem que os conheça por si mesmo. E isto é seja para o seu encaminhamento, seja para o encaminhamento de outro em direção à felicidade, a fim de fazer chegar os homens ao fim humano.
גֶּדֶר הַנְּבוּאָה: שֶׁפַע שׁוֹפֵעַ מֵהַשֵּׁם עַל הַכֹּחַ הַדִּבְרִי אֲשֶׁר בָּאָדָם, אִם בְּאֶמְצָעוּת הַכֹּחַ הַמְדַמֶּה אִם בְּזוּלָתוֹ, מוֹדִיעַ דְּבָרִים שֶׁאֵין בְּטֶבַע הָאָדָם שֶׁיֵּדָעֵם מֵעַצְמוֹ.
10 E, na verdade, dissemos na definição da profecia que ela é "por meio da força imaginativa ou sem ela" para incluir todos os graus da profecia. E isto é: que há dentre os profetas aqueles a quem chega a profecia no princípio da sua profecia por meio da força imaginativa, e por isso veem figuras terríveis na visão profética conforme a pequenez do seu grau nela — pois há quem veja figuras de mulheres, como disse Zacarias "e eis duas mulheres saindo, e havia vento nas suas asas, e tinham asas como asas da cegonha" etc. (Zacarias 5:9); e há os que veem como que os anjos têm corpos grandes e terríveis, como disse Daniel "e o seu corpo era como o tarsis, e a sua face como o aspecto do relâmpago, e os seus olhos como tochas de fogo" etc. (Daniel 10:6); e além disto, outras das imaginações que vieram nas palavras dos profetas quando o influxo fluía sobre a força racional que havia neles por meio da força imaginativa.
11 E há dentre os profetas quem a sua profecia se detém sempre naquele grau, e há aquele cuja profecia se eleva daquele grau a um grau maior do que ele — até o ponto de haver quem o seu grau se eleva a que a sua profecia seja sem intermediário, quer dizer, que o influxo que flui sobre a força racional que há no homem seja sem que se junte a isto a ação da força imaginativa de modo algum. E este era o grau de Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele, em todo tempo após o princípio, em que se lhe apareceu o anjo do Senhor na chama de fogo do meio da sarça; mas dali em diante disse a Escritura "boca a boca falo com ele" (Números 12:8) — quer dizer, sem intermediário; e por isso não vêm nas suas palavras enigma de modo algum, mas todas são conforme o seu sentido simples. E este era o grau de todo Israel na hora da doação da Torá; disse a Escritura "face a face falou o Senhor convosco no monte, do meio do fogo" (Deuteronômio 5:4). E isto é: porque, porque o Senhor, bendito seja, quis dar a Torá por meio de Moisés, limpa de toda dúvida, quis que se elevasse o seu grau de modo que não houvesse para a força imaginativa entrada nela, a fim de que não entrasse nela nenhuma suspeita e dúvida; e assim se elevou o grau de Israel, os que recebem a Torá, ao grau de "face a face" naquela ocasião, por esta razão.
יֵשׁ נְבִיאִים בְּאֶמְצָעוּת הַכֹּחַ הַמְדַמֶּה (זְכַרְיָה, דָּנִיֵּאל), וְיֵשׁ שֶׁתַּעֲלֶה לְבִלְתִּי אֶמְצָעִי — מַדְרֵגַת מֹשֶׁה: ״פֶּה אֶל פֶּה אֲדַבֶּר בּוֹ״, וְכֵן יִשְׂרָאֵל בְּמַתַּן תּוֹרָה ״פָּנִים בְּפָנִים״.
O cap. 7 concluiu que o homem precisa de um influxo divino para conhecer o que agrada a D'us. Mas como esse influxo chega? Albo abre estabelecendo um princípio: ele não está ao alcance natural do homem — "não é da natureza que o espírito do intelecto separado paire sobre o material". Por isso os antigos negavam a profecia genuína e buscaram substitutos: a astrologia (kessem), os ídolos que captariam a "espiritualidade" de uma estrela, a feitiçaria, o culto aos demônios (shedim) do fogo e do ar, a necromancia (ov). Toda essa fenomenologia da adivinhação é tratada por Albo como real porém impura — vem do "espírito de impureza".
Notável é o longo relato que Albo recolhe da derashá de Nachmânides sobre a mecânica do ov: o casal junto ao túmulo (um à cabeça, outro aos pés), o pequeno chocalho, os encantamentos, a mulher que "vê" e o homem que "pergunta" — exatamente o episódio de Saul com a necromante de En-Dor. E a observação polêmica de que certos costumes funerários e festivos teriam descendido dessas práticas pagãs. Para Albo, tudo isso é precisamente o que a Torá proíbe em bloco (Dt 18: "não se achará em ti adivinhador… consultor de ov e yidoni"), com a razão dada na própria Escritura: "é abominação ao Senhor" — porque D'us e os seus ministros são santos, e o espírito de impureza expulsa o de santidade (daí o karet ao impuro que entra no Templo).
O coração teológico está na leitura de Dt 18:13-15. As nações recorrem a agoureiros "porque não têm outro caminho"; mas a Israel D'us dá o profeta. E a Israel diz "tamim (íntegro) serás com o Senhor teu D'us" — Albo lê o "mem" duplicado de tamim como dupla integridade: perfeito na perfeição humana e não carente sequer do conhecimento do futuro. Crucial: a profecia existe para um fim primário — "advertir sobre a Torá e o serviço de D'us", para tornar o homem "íntegro com D'us" — e não para prever o futuro. A previsão é só sinal secundário, para autenticar o profeta; por isso "todos os profetas advertem sempre sobre a guarda da Torá".
Albo refuta vigorosamente a tese (de "alguns dos nossos sábios que seguem o Filósofo" — alusão à posição naturalista próxima de Maimônides/Alfarabi) de que a profecia seria um fenômeno natural da força imaginativa, como os sonhos, dependente só do preparo intelectual. Dois argumentos: (1) pelo sentido — jamais houve profecia entre os filósofos (sábios na investigação), e houve abundante em Israel; se fosse natural, não faltaria às outras nações; (2) pelo intelecto — adivinhos e astrólogos erram necessariamente, por dois motivos: a imaginação "mente por natureza" (nem todo imaginável é possível) e D'us pode anular a constelação. Daí "dão a conhecer de que virá sobre ti" (Is 47) — "de que, e não tudo o que" (Talmud): os astrólogos nunca acertam tudo. O profeta, ao contrário, recebe o influxo diretamente de D'us sobre a faculdade racional e por isso "não deixa cair palavra por terra" (Samuel); e "não há agouro em Jacó" (Balaão) — o bem prometido a Israel é irrevogável porque vem da vontade divina, não da constelação anulável.
O capítulo entrega então a definição formal: a profecia é "um influxo que flui de D'us sobre a faculdade racional do homem — por meio da imaginação ou sem ela —, dando-lhe a conhecer, por um anjo ou sem ele, coisas que a natureza humana não conheceria por si", para encaminhá-lo (ou a outros) à felicidade. A cláusula "com ou sem a imaginação" é deliberada: cobre toda a escala profética. Nos graus inferiores, o influxo passa pela imaginação — daí as visões figurativas (as mulheres aladas de Zacarias, o anjo flamejante de Daniel). Nos graus superiores, dispensa-a. O ápice é Moisés: "boca a boca falo com ele" — sem intermediário, sem enigma, tudo literal. E foi também o grau de todo Israel em Sinai, "face a face" — porque D'us quis dar a Torá "limpa de toda dúvida", sem a margem de incerteza que a imaginação introduziria. Assim Albo ancora a autoridade incontestável da Torá na natureza supra-imaginativa da revelação que a entregou.
Se a profecia vem de um só agente — D'us — e visa um só fim, por que os profetas O veem em formas tão diversas? Albo responde: um agente único produz efeitos variados conforme os receptores e os intermediários (o fogo derrete a cera e endurece o sal). E expõe a célebre parábola dos espelhos de Rabi Meir: a forma vista no espelho varia, mas a coisa refletida não muda; a forma profética não existe de fato — só o sentido que ela revela é verdadeiro.
Se a profecia vem de um só agente — D'us — e visa um só fim, por que os profetas O veem em formas tão diversas? Albo responde: um agente único produz efeitos variados conforme os receptores e os intermediários (o fogo derrete a cera e endurece o sal). E expõe a célebre parábola dos espelhos de Rabi Meir: a forma vista no espelho varia, mas a coisa refletida não muda; a forma profética não existe de fato — só o sentido que ela revela é verdadeiro.
1 E é cabido que pergunte um que pergunta: depois que a profecia é de um só agente — que é o Senhor, bendito seja — e o seu fim é um só fim — que é o encaminhamento dos homens à felicidade —, por que isto é que se diferenciam as palavras dos profetas umas das outras num só assunto, e as visões da profecia uma da outra, até que vê um profeta o Senhor numa figura e um outro profeta numa outra figura?
אַחַר שֶׁהַנְּבוּאָה מִפּוֹעֵל אֶחָד וְתַכְלִית אֶחָד, לָמָּה יִתְחַלְּפוּ מַרְאוֹת הַנְּבוּאָה, עַד שֶׁיִּרְאֶה נָבִיא אֶחָד אֶת הַשֵּׁם בִּתְמוּנָה אַחַת וְנָבִיא אַחֵר בִּתְמוּנָה אַחֶרֶת?
2 E dizemos que a diferença e a variação das visões vistas aos profetas, umas das outras, e a variação das suas palavras umas das outras, não é do que obriga a que a profecia não seja de um só agente, nem do que obriga variação no estatuto do agente ou no estatuto do fim. Pois de um só agente já decorrem ações diferentes conforme a preparação dos receptores: pois do fogo, que é um só em si mesmo, derrete-se a cera e endurece-se o sal. E assim a alma, com o facto de ser ela uma só em si mesma e indivisível conforme o consenso dos filósofos, decorrem dela ações diferentes no corpo conforme a variação dos lugares pelos quais se vê a sua ação: pois decorre dela ao corpo, ao estar ela no cérebro, uma ação própria; e, ao estar no fígado, uma ação própria; e no coração, uma ação própria; e tudo é para um só fim, que é a conservação do corpo. E assim se vê na carne com uma descrição própria — quero dizer, com sensação — e no osso com uma descrição própria — quer dizer, sem sensação; e assim nos demais membros se diferencia a sua força neles. E isto é do que indica que o agente único em si mesmo mostra a sua força em modos diferentes nos lugares diferentes, e decorrem dele ações diferentes para um só fim em si mesmo — e isto é seja pelo lado dos intermediários pelos quais se mostra a sua força, seja pelo lado dos lugares nos quais se mostra a sua força.
מִפּוֹעֵל אֶחָד יִמָּשְׁכוּ פְּעֻלּוֹת מִתְחַלְּפוֹת כְּפִי הֲכָנַת הַמְקַבְּלִים: מִן הָאֵשׁ תֻּתַּךְ הַשַּׁעֲוָה וְיִתְקַשֶּׁה הַמֶּלַח. וְכֵן הַנֶּפֶשׁ — פְּעֻלּוֹת מִתְחַלְּפוֹת בַּמֹּחַ וּבַכָּבֵד וּבַלֵּב, וְהַכֹּל לְתַכְלִית אֶחָד.
3 E assim, deste modo, se diferenciam as visões dos profetas, seja pelo lado dos intermediários pelos quais vem a profecia, seja pelo lado dos receptores. E isto se vê manifesto da fala do Senhor a Aarão e a Miriam, que eram profetas; e disse "se houver um profeta vosso, eu, o Senhor, numa visão a ele me darei a conhecer, em sonho falarei com ele; não assim o meu servo Moisés, em toda a minha casa é fiel ele; boca a boca falo com ele, e numa visão e não em enigmas" etc. (Números 12:6-8). Eis que explicou-lhes que ele, bendito seja, é o que se mostra na visão e o que fala no sonho — como indica sobre isto a expressão "me darei a conhecer" e "falarei" —, e também ele é o que fala em enigmas e parábolas, e ele é o que fala a Moisés boca a boca, e numa visão e não em enigmas. E veio a Escritura a ensinar que o influxo profético, em qualquer grau que seja, flui do Senhor, bendito seja, como dissemos na definição da profecia; e, ainda assim, ele se diferencia conforme a preparação dos receptores e conforme os intermediários pelos quais chega nele a profecia. E, conforme isto, não há que admirar-se se um profeta diz que viu o Senhor sentado sobre um trono alto e elevado (Isaías 6:1), e um diz que o viu como um ancião, "a sua veste como neve branca e o cabelo da sua cabeça como lã pura" (Daniel 7:9), e um o viu como um homem de guerra (Êxodo 15:3), e um envolto como um enviado da comunidade chazan. E também os intermediários, que são os anjos enviados aos profetas — um profeta diz que viu o anjo, "o seu corpo como o tarsis e a sua face como o aspecto do relâmpago" (Daniel 10:6), e um outro o viu como um homem vestido de linho (Ezequiel 9:2), e um outro vê na carruagem merkavá cavalos vermelhos, baios e brancos (Zacarias 1:8); e tudo isto se diferencia dos dois lados que dissemos — quero dizer, seja pelo lado do receptor, seja pelo lado do intermediário.
״אִם יִהְיֶה נְבִיאֲכֶם ה׳ בַּמַּרְאָה אֵלָיו אֶתְוַדָּע בַּחֲלוֹם אֲדַבֶּר בּוֹ. לֹא כֵן עַבְדִּי מֹשֶׁה... פֶּה אֶל פֶּה אֲדַבֶּר בּוֹ וּמַרְאֶה וְלֹא בְחִידֹת״.
4 E já explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, este assunto no Bereshit Rabbá. Disseram ali: perguntou um cuteu samaritano a Rabi Meir: "é possível que aquele de quem está escrito 'acaso não encho eu os céus e a terra? — diz o Senhor' (Jeremias 23:24) falasse com Moisés do meio das varas da arca?" Disse-lhe: "traze-me espelhos grandes"; e o cuteu trouxe-lhe. Disse-lhe: "vê a tua imagem"; olhou e viu-as grandes. Disse-lhe: "traze-me espelhos pequenos"; e trouxe-lhe. Disse-lhe: "vê a tua imagem"; olhou e viu-as pequenas. Disse-lhe: "e se tu, que és carne e sangue, mudas a ti mesmo em quantas cores quiseres a cada hora, aquele que disse e foi o mundo — quanto mais, mais!"
שָׁאַל כּוּתִי אֶת רַבִּי מֵאִיר... אָמַר לוֹ הָבֵא לִי מַרְאוֹת גְּדוֹלוֹת... רָאָה אוֹתָן גְּדוֹלוֹת; מַרְאוֹת קְטַנּוֹת... רָאָה אוֹתָן קְטַנּוֹת. ״וּמָה אַתָּה בָּשָׂר וָדָם מְשַׁנֶּה עַצְמְךָ... מִי שֶׁאָמַר וְהָיָה הָעוֹלָם עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה״.
5 Vê-se que a opinião deste cuteu era negar de que fosse a existência da profecia um influxo que flui do Senhor, mas pensava que era uma ação da força imaginativa, conforme a opinião dos filósofos e dos que seguem após eles. E isto era seja pelo lado de que é impossível que, com o facto de ser ele um só, se mostre ao profeta em muitas figuras diferentes — pois eis que isto leva a pensar, se é de D'us, que obrigaria a multiplicidade ou variação no estatuto do agente —, seja pelo lado de que o intelecto separado é impossível que se mostre a um possuidor de matéria.
דַּעַת הַכּוּתִי הָיְתָה לְהַכְחִישׁ שֶׁהַנְּבוּאָה שֶׁפַע מֵהַשֵּׁם — אִם מִצַּד שֶׁאִי אֶפְשָׁר שֶׁיֵּרָאֶה בִּתְמוּנוֹת רַבּוֹת, וְאִם מִצַּד שֶׁהַשֵּׂכֶל הַנִּבְדָּל אִי אֶפְשָׁר שֶׁיֵּרָאֶה לְבַעַל חֹמֶר.
6 E isto refutou-o Rabi Meir pela parábola dos espelhos. Quanto ao primeiro argumento: pois, assim como a coisa se vê em figuras diferentes — grandes ou pequenas, ou retas ou tortas, ou claras ou turvas — conforme a variação dos espelhos nos quais se vê, pelo lado da sua grandeza e da sua pequenez, ou do serem retos ou tortos, ou límpidos ou turvos, e, ainda que a coisa vista neles não se mude em si mesma, assim o Senhor, bendito seja, se mostra aos profetas em muitas figuras e em figuras diferentes conforme a limpidez e a claridade dos intermediários, e, ainda que ele, bendito seja, não se multiplique em si mesmo nem se mude — pois a variação e a multiplicidade vêm do lado dos intermediários, como se dá na parábola dos espelhos. E assim também se muda a coisa vista pelo lado da variação dos que veem: pois, se o homem que vê a coisa vista no espelho é límpido de vista, verá a coisa vista com uma descrição única; e, se é fraco de vista ou escuro de vista, verá a coisa vista com uma descrição outra — com o facto de a coisa vista e o espelho serem, eles mesmos, os que são vistos ao límpido de vista com uma descrição única.
כְּמוֹ שֶׁהַדָּבָר יֵרָאֶה בִּתְמוּנוֹת מִתְחַלְּפוֹת כְּפִי חִלּוּף הַמַּרְאוֹת, אַף שֶׁאֵינוֹ מִשְׁתַּנֶּה בְּעַצְמוֹ — כֵּן הַשֵּׁם יֵרָאֶה לַנְּבִיאִים כְּפִי זַכּוּת הָאֶמְצָעִיִּים, וְהוּא אֵינוֹ מִתְרַבֶּה וְלֹא מִשְׁתַּנֶּה.
7 E quanto ao segundo argumento: pois, assim como o homem ou a coisa vista no espelho está separado do espelho no qual se vê, e a sua existência não está dependente da existência dele, e, ainda assim, vê-se a sua figura nele — com o facto de não haver no espelho uma figura que esteja assim, em verdade, nele, mas que ela se vê assim para a visão dos olhos —, assim o Senhor, bendito seja, ainda que ele esteja separado e seja impossível que se apreenda, eis que ele se mostra ao profeta nalguma figura, e o profeta vê que a figura fala com ele, ainda que não esteja a figura assim na existência, conforme a verdade, mas a voz apenas, que é ouvida ao profeta, é a intenção da visão conforme a verdade, e não mais do que isto.
כְּמוֹ שֶׁהַנִּרְאֶה בַּמַּרְאָה נִבְדָּל מִמֶּנָּה וְאֵין תְּמוּנָה כֵן בָּהּ בֶּאֱמֶת — כֵּן הַשֵּׁם, אַף שֶׁנִּבְדָּל, נִרְאֶה לַנָּבִיא בִּתְמוּנָה, וְהַקּוֹל הַנִּשְׁמָע הוּא הַכַּוָּנָה לֶאֱמֶת.
8 E, se perguntares e disseres: como é possível que o homem veja o que não é assim na existência e que seja o conhecido por meio dele verdade? A tua resposta é: quando o homem vê no sonho verídico que algum homem fala com ele, eis que não é o assunto assim na existência, e, ainda assim, imagina o que sonha que é assim, e ouve uma voz que fala com ele, e não é assim na existência; e é a chegada daquele conhecimento ao homem por meio daquele sonho verídico algo verdadeiro. Assim, deste modo, do assunto do sonho ou da visão na qual o homem vê nela a sua figura ou ouve uma voz de palavras, entende o profeta o assunto da chegada da profecia a ele. Pois, assim como na visão na qual o homem vê a sua figura nela, não está aquela figura que o homem vê no espelho assim na existência nele como a vê que está no espelho, assim a figura vista ao profeta — sabe o profeta que não está assim na existência, ainda que se veja a ele assim, e que não há a intenção na figura vista a ele senão a chegada da voz a ele ou o conhecimento do assunto que a visão indica, que é verdade. Como na visão espelho — ainda que não esteja a figura vista no espelho presente nele conforme a verdade, de todo modo, o assunto que a figura no espelho indica é verdade em si mesmo, porque indica a coisa vista nele, que é verdade —, assim também na visão da profecia, o assunto insinuado na visão é verdade, ainda que não esteja a figura vista a ele como verdade em si mesma. E é possível que a expressão "numa visão a ele me darei a conhecer", mencionada no versículo, aluda ao assunto da visão especular que dissemos.
כְּשֶׁיִּרְאֶה אָדָם בַּחֲלוֹם הַצּוֹדֵק שֶׁאִישׁ מְדַבֵּר עִמּוֹ — אֵין הָעִנְיָן כֵּן בִּמְצִיאוּת, וְהַהוֹדָעָה אֲמִתִּית. כֵּן הָעִנְיָן הַנִּרְמָז בְּמַרְאֵה הַנְּבוּאָה אֱמֶת, אַף שֶׁאֵין הַתְּמוּנָה אֱמֶת בְּעַצְמָהּ.
9 E deste modo também é o que disse "em sonho falarei com ele" (Números 12:6). Pois, com o facto de haver uma diferença grande entre o sonho e a profecia — já que não há sonho sem coisas vãs, e a profecia é toda um assunto verídico e verdadeiro, como dissemos —, porque é impossível que o homem conceba uma voz que fala com ele sem instrumentos corporais a não ser quando contempla o assunto do sonho, disse "em sonho falarei com ele", para dizer que, assim como no sonho o homem ouve uma voz que fala com ele e vê um homem que fala e não é assim conforme a verdade, assim o assunto da profecia, a verdade que há nela é a chegada daquele conhecimento ao profeta, e ela é a intenção na sua existência vinda de D'us — com o facto de não ser a voz ouvida a ele por instrumentos corporais algo verdadeiro que esteja assim na existência. E sobre isto é que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "o sonho é um de sessenta na profecia".
״בַּחֲלוֹם אֲדַבֶּר בּוֹ״ — אַף שֶׁיֵּשׁ הֶבְדֵּל גָּדוֹל, כִּי אֵין חֲלוֹם בְּלֹא דְבָרִים בְּטֵלִים וְהַנְּבוּאָה כֻּלָּהּ צוֹדֵק. ״חֲלוֹם אֶחָד מִשִּׁשִּׁים בַּנְּבוּאָה״.
10 E explicou-se desta parábola que trouxe Rabi Meir dos espelhos que a diferença das figuras vistas aos profetas, nem a sua multiplicidade, são do que obrigam multiplicidade e variação no seu estatuto, bendito seja — assim como não são a multiplicidade dos espelhos e a sua variação, nem a multiplicidade dos que veem e a sua variação, aquilo que obriga multiplicidade nem variação à coisa vista no espelho. E explica-se disto também que a variação que se acha nas palavras dos profetas, uma da outra, não é do que obriga variação nem no estatuto do agente nem no estatuto do fim. E isto é: que, ainda que se variem as palavras pelo lado dos que falam, eis que o assunto é um só em si mesmo por força, depois de ser ele de um só agente; e por isso se intenta nelas ao um só fim por força. E isto é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "um só estilo signon sobe a vários profetas" — quer dizer, um só assunto —, "mas não há dois profetas que profetizam num mesmo estilo" — quer dizer, com palavras idênticas. E isto é o que quisemos explicar neste capítulo.
״סִגְנוֹן אֶחָד עוֹלֶה לְכַמָּה נְבִיאִים״ — עִנְיָן אֶחָד, ״וְאֵין שְׁנֵי נְבִיאִים מִתְנַבְּאִים בְּסִגְנוֹן אֶחָד״ — בִּדְבָרִים אֲחָדִים. הָעִנְיָן אֶחָד, אַף שֶׁהַדְּבָרִים מִתְחַלְּפִים.
Definida a profecia no cap. 8 como influxo único vindo de D'us, surge uma objeção natural: se a fonte é uma só e o fim é um só, por que os profetas O "veem" de modos tão diferentes — Isaías num trono elevado, Daniel como ancião de cabelos brancos, o Cântico como "homem de guerra"? A diversidade das visões parece ameaçar a unidade da fonte. Albo dedica o capítulo a dissolver essa ameaça.
A chave é um axioma da física aristotélica: de um agente único decorrem efeitos diversos conforme a disposição do receptor. O mesmo fogo "derrete a cera e endurece o sal" — a diferença está no recebido, não no agente. A própria alma, "una e indivisível", produz funções distintas conforme o órgão (pensar no cérebro, vitalidade no coração, nutrição no fígado), todas para o mesmo fim, a vida do corpo; e dá sensação à carne mas não ao osso. Logo a variedade das visões prova só a diversidade dos receptores (o nível do profeta) e dos intermediários (os anjos), não uma mudança em D'us. Albo ancora isto em Números 12: o mesmo "Eu" divino "me dou a conhecer na visão", "falo em sonho", "falo em enigmas", "falo boca a boca com Moisés" — graus diversos de um único emissor.
O centro do capítulo é o célebre midrash de Rabi Meir e o samaritano. À pergunta cética — como pode o D'us que "enche céus e terra" falar do espaço estreito entre as varas da arca? — Rabi Meir responde com espelhos: o grande mostra o rosto grande, o pequeno o mostra pequeno; "se tu, carne e sangue, mudas a tua imagem conforme o espelho, quanto mais o Criador". Albo extrai daí uma teoria da percepção profética com dupla refutação. Contra a 1ª objeção (a multiplicidade das formas implicaria multiplicidade em D'us): a imagem varia conforme o espelho (limpo/turvo, reto/torto) e conforme o observador (vista clara/fraca), mas a coisa refletida não muda — assim D'us se mostra diversamente conforme a limpidez dos intermediários, sem em nada se multiplicar. Contra a 2ª objeção (o incorpóreo não pode aparecer a um ser material): a imagem no espelho não existe realmente nele — é só aparência ótica — e mesmo assim refere algo real; assim a "figura" que o profeta vê não existe de fato, mas a voz/sentido que ela veicula é verdadeiro.
A questão filosófica mais funda — como algo irreal pode transmitir verdade? — Albo resolve pela analogia do sonho verídico: no sonho ouve-se uma voz e vê-se um interlocutor que "não existem na realidade", e contudo o aviso recebido é verdadeiro. O profeta sabe que a forma vista não tem existência própria; ela é só o veículo, e a verdade está no conteúdo revelado. Por isso "em sonho falarei com ele": embora haja "diferença grande" (o sonho mistura "coisas vãs", a profecia é toda verídica), a estrutura é análoga — o aparato sensório-imaginativo é a embalagem, o conhecimento é a substância. Daí o dito "o sonho é um sessenta da profecia". A conclusão sela tudo com outra máxima rabínica: "um só estilo sobe a vários profetas, mas não há dois profetas que profetizem no mesmo estilo" — o conteúdo (signon como assunto) é uno porque vem de um só agente; as palavras variam porque passam por receptores diversos. Unidade da fonte, pluralidade da expressão: a Torá e os profetas falam com uma só voz divina em muitas vozes humanas.
Para conceber a profecia, Albo traça a escala ascendente das apreensões humanas — dos cinco sentidos à ciência abstrata —, e mostra que acima delas se abre o "espírito de santidade" e depois os quatro graus da profecia, conforme a força racional supera a imaginativa, culminando em Moisés, que profetizava desperto, sem intermediário. E expõe o devekut pelo qual os justos governam a natureza e os milagres dos profetas.
Para conceber a profecia, Albo traça a escala ascendente das apreensões humanas — dos cinco sentidos à ciência abstrata —, e mostra que acima delas se abre o "espírito de santidade" e depois os quatro graus da profecia, conforme a força racional supera a imaginativa, culminando em Moisés, que profetizava desperto, sem intermediário. E expõe o devekut pelo qual os justos governam a natureza e os milagres dos profetas.
1 E é cabido que expliquemos agora a representação da existência da profecia e a diferença dos seus graus, a fim de que se torne fácil a compreensão da sua existência e a representação da diferença dos seus graus aos crentes. E dizemos que nós achamos o homem, no princípio da sua criação, vazio de todas as apreensões; e o primeiro do que se cria nele são os cinco sentidos visíveis, que são o tato e o gosto e o olfato e a audição e a visão. E estas apreensões não chegam ao homem de uma só vez, mas uma após a outra. Pois, no princípio do seu sair ao ar do mundo, não apreende senão com o mais espesso deles, que é a apreensão do tato, e apreende com ele um gênero dos existentes, como o quente e o frio e o húmido e o seco e a maciez e a dureza e o áspero e o liso e além disto. E, quando se afasta um pouco do tempo do seu sair do ventre, apreende um outro gênero dos existentes mais sutil e mais nobre, que é o gênero dos sabores, como o doce e o amargo e o ácido e o adstringente e o picante e além deles. E, quando se afasta mais do tempo da sua criação, apreende um outro gênero dos existentes mais sutil, como o aroma agradável e o fétido e além disto dos olores. E, quando se afasta mais, apreende com o sentido da audição um outro gênero mais sutil e a uma distância maior do que o sentido do olfato, e isto é como as vozes e as melodias e as suas diferenças e além disto. E, quando se afasta mais do tempo do seu sair do útero da sua mãe, apreende com o sentido da visão um outro gênero dos existentes mais sutil e a uma distância maior do que todos, e isto é como os aspectos e as figuras e as suas diferenças e além disto. E cada uma destas cinco apreensões tem a sua mão curta de apreender as apreensões da sua companheira — pois a visão não apreende as vozes e as melodias e os olores, nem o sentido do olfato e do gosto apreende os aspectos e as vozes.
הָאָדָם בִּתְחִלָּתוֹ רֵיקָן מִכָּל הַשָּׂגוֹת; הַחֲמִשָּׁה חוּשִׁים בָּאִים זֶה אַחַר זֶה — מֵהַגַּס (מִשּׁוּשׁ) אֶל הַדַּק (רְאוּת), כָּל אֶחָד יוֹתֵר סוּג נִכְבָּד וּמֵרָחוֹק יוֹתֵר.
2 E, quando se afasta mais do tempo da sua criação e se imergem nele estas apreensões e se habitua a elas, sobe a um outro grau mais nobre do que o primeiro, que era a apreensão dos sensíveis, e apreende a apreensão do reconhecimento hakará depois de se ocultar a coisa do sentido — pois reconhece a coisa que apreendeu pelo sentido quando a vê outra vez; e, ainda que se lhe oculte, recorda aquele reconhecimento quando se grava na sua imaginação, e reconhece-a. E esta apreensão chega-lhe por meio da apreensão primeira.
3 E, quando cresce mais em anos, sobe a um outro grau por meio das apreensões primeiras, e abre-se-lhe um outro portão, e apreende uma apreensão mais intelectual: que é abstrair do sensível os assuntos particulares e tomar o seu intelecto deles o assunto universal — como toma a vivência e a fala do homem e julga que isto é coisa comum a toda a espécie, não as coisas particulares que se diferenciam nos indivíduos.
4 E, quando vem mais em anos e se habitua ao estudo, abre-se-lhe um outro portão em que não havia entrado antes disto: que é distinguir entre a substância e o acidente, e entre o necessário e o possível e o impossível, e tomar os inteligíveis que não foram apreendidos do sentido e compor uns aos outros, e apreender por isso, por meio disso, todas as ciências e tudo o que não está na força das apreensões primeiras para apreender. E estes quatro graus são aqueles sobre os quais se detém o intelecto humano e não passa deles; mas há quem é curto deles e se detém napenas dois ou três deles. E só estas apreensões são as apreendidas ao conjunto dos homens.
(2) הַכָּרָה — לְהַכִּיר הַדָּבָר אַחַר שֶׁנֶּעְלַם. (3) הַפְשָׁטַת הַכּוֹלֵל מִן הַפְּרָטִי. (4) הַבְדָּלָה בֵּין עֶצֶם וּמִקְרֶה, וְהַרְכָּבַת הַמּוּשְׂכָּלוֹת — וּבָזֶה כָּל הַחָכְמוֹת. אַרְבַּע מַדְרֵגוֹת — וְעָלֶיהָ יַעֲמֹד הַשֵּׂכֶל הָאֱנוֹשִׁי.
5 E, contudo, já é possível que, depois destas apreensões, se abra ao homem um outro portão e um grau que o homem não estima poder existir. Pois, assim como quem não viu luminares em todos os seus dias, se lhe for narrado o assunto dos luminares e dos aspectos, não poderá estimá-los de modo algum nem entender as diferenças das cores, e como o eunuco não estima o assunto do deleite da relação sexual — assim é possível que, ainda que não se ache para o homem, pelo lado do caminho e do costume da natureza, um grau maior, já se conceba junto ao intelecto, e o sentido testemunha sobre isto, que depois destes quatro graus se abre a algum homem um outro portão que o homem não estima pelo lado da sua natureza, e fala palavras de sabedoria ou palavras de poema e de louvor ao Senhor, bendito seja, numa língua clara e rápida com a qual não era do seu caminho falar ou saber isto; e admira-se todo o que o ouve dos assuntos do seu saber e da ordenação das suas palavras, e ele mesmo não sabe de onde lhe veio aquela força — como o jovem aprende a fala e não sabe de onde lhe vem aquela força. E, na verdade, já se divulga e se reconhece a todos a vantagem do seu grau nisto, e este grau chama-se "espírito de santidade" ruach hakódesh.
אַחַר אַרְבַּע הַמַּדְרֵגוֹת יִפָּתַח לְאִישׁ מָה שַׁעַר אַחֵר שֶׁלֹּא יְשַׁעֵר בּוֹ מִצַּד טִבְעוֹ — וִידַבֵּר חָכְמָה אוֹ שִׁיר וְשֶׁבַח לַשֵּׁם, וְהוּא עַצְמוֹ לֹא יֵדַע מֵהֵיכָן בָּא לוֹ. וְהַמַּדְרֵגָה הַזֹּאת תִּקָּרֵא רוּחַ הַקֹּדֶשׁ.
6 E, assim como o intelecto humano se detém junto àqueles quatro graus primeiros e não passa deles, assim há quem se detém no grau do espírito de santidade e não passa dele. E há dentre os homens quem a sua força imaginativa é forte — seja pelo lado da sua natureza, seja pelo lado de alguma ação que fazem para fortalecer a força imaginativa, como as ações que fazem os adivinhos e a mulher possuidora de ov —, e disso imagina imaginações, e há quem sonhe sonhos verídicos, como os sonhos de Faraó e de Nabucodonosor e do chefe dos copeiros e do chefe dos padeiros; e por causa disto há os que imaginam na sua alma que são profetas. E estes são os que chamou o profeta "os que profetizam do seu próprio coração" — pois, ainda que haja entre eles coisas verídicas, é impossível que não mintam às vezes; disse Ezequiel "ai dos profetas vis que andam após o seu próprio espírito" etc., "viram falsidade e adivinhação mentirosa, os que dizem 'declaração do Senhor', e o Senhor não os enviou, e ainda esperam confirmar a palavra" (Ezequiel 13:3,6) — quer dizer, o que é impossível, pois, ainda que acertem as suas palavras em parte, é impossível que não mintam em parte, já que assim é a natureza desta força, que é a possuidora dos sonhos. E disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "assim como é impossível haver trigo sem palha, assim é impossível haver sonho sem coisas vãs."
הַמִּתְנַבְּאִים מִלִּבָּם — מִכֹּחַ הַמְדַמֶּה, אִי אֶפְשָׁר שֶׁלֹּא יְכַזְּבוּ. ״כְּשֵׁם שֶׁאִי אֶפְשָׁר לְבַר בְּלֹא תֶבֶן, כָּךְ אִי אֶפְשָׁר לַחֲלוֹם בְּלֹא דְּבָרִים בְּטֵלִים״.
7 E, contudo, quando a força racional vence a força imaginativa, eis que então vê sonhos verídicos sem coisas vãs de modo algum. Disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "Rava levantou uma contradição: está escrito 'e sonhos da falsidade falam' (Zacarias 10:2), e está escrito 'em sonho falarei com ele' (Números 12:6) — não há dificuldade: aqui é por meio de um anjo, aqui é por meio de um demônio" — quer dizer, por meio da força racional ou por meio da força imaginativa. Pois, quando a força racional vence a força imaginativa, vê o homem sonhos verídicos ou visões com que apreende o que não apreendeu antes disto; e conforme a medida do vencimento da força intelectual sobre a força imaginativa, assim será a preparação do homem para a profecia.
״כָּאן עַל יְדֵי מַלְאָךְ כָּאן עַל יְדֵי שֵׁד״ — עַל יְדֵי הַכֹּחַ הַדִּבְרִי אוֹ הַמְדַמֶּה. כְּפִי שִׁעוּר הִתְגַּבְּרוּת הַשֵּׂכֶל עַל הַמְדַמֶּה — כֵּן הֲכָנַת הָאִישׁ לִנְבוּאָה.
8 Pois há dentre os homens aquele em que a força racional vence a força imaginativa, mas, porque o vencimento não é forte, resta a força imaginativa no seu vigor; e, ainda que a força racional esteja preparada para receber o influxo profético, eis que, pelo lado do vencimento da força imaginativa e da sua oposição à força racional, não paira sobre ele aquele influxo senão com tremor e com aflição, e estremecem os seus membros e se dissolvem as suas juntas e o acha um pavor grande com o qual quase sai a sua alma; e depois de toda esta aflição paira o influxo profético sobre a força racional num sonho da visão noturna, e sonha aquele homem sonhos proféticos com que apreende o que não apreendeu antes disto — seja dos inteligíveis das coisas separadas, seja de assuntos particulares, ou dos assuntos universais da existência e o que se assemelha a isto. E este é o primeiro dos graus da profecia.
הַמַּדְרֵגָה הָרִאשׁוֹנָה: כְּשֶׁהַהִתְגַּבְּרוּת אֵינוֹ חָזָק — לֹא יָחוּל הַשֶּׁפַע אֶלָּא בִּרְתֵת וּבְצַעַר, וְאַחַר כָּךְ בַּחֲלוֹם חֶזְיוֹן לַיְלָה.
9 E há quem não se detém neste grau, mas se lhe abre um outro portão e um grau maior do que este — e às vezes vem este antes do grau primeiro e às vezes depois dele; e isto é quando o vencimento das duas forças é igual, e então sobe a um grau em que paira sobre ele o espírito profético sem tremor e sem estremecimento, mas num cochilo sobre o leito ou num sono profundo que cai sobre ele de dia; e este grau chama-se "visão" maré ou "contemplação" machaze, em que vê, por meio da força imaginativa, figuras não-verdadeiras em si mesmas — como as mulheres e os cavalos que viu Zacarias, e o cesto de frutas de verão que viu Amós (Amós 8:1) e as que se lhes assemelham, que não eram verdadeiras em si mesmas; mas, pelo vencimento da força racional sobre a força imaginativa, põe os assuntos que aquelas figuras indicam como verdadeiros em si mesmos, ainda que aquelas figuras não sejam verdadeiras. E este é o segundo grau dos graus da profecia.
הַמַּדְרֵגָה הַשְּׁנִיָּה: כְּשֶׁשְּׁנֵי הַכֹּחוֹת שָׁוִים — ״מַרְאֶה״ אוֹ ״מַחֲזֶה״, בְּלֹא רְתֵת, בִּתְנוּמָה אוֹ תַּרְדֵּמָה. הַצּוּרוֹת בִּלְתִּי אֲמִתִּיּוֹת אַךְ הָעִנְיָנִים אֲמִתִּיִּים.
10 E há dentre os homens quem não se detém neste grau, mas se lhe abre um outro portão e um grau maior; e isto é quando a força racional vence a força imaginativa com vencimento grande e forte, até que a subjuga sob si e não a deixa imaginar figuras não-verdadeiras, mas o que imagina ou vê na visão da profecia são assuntos verdadeiros — como as visões de Ezequiel, que eram todas assuntos verdadeiros dos segredos da existência e assuntos divinos dos segredos da Merkavá; e vê ou ouve um anjo que fala com ele e lhe dá a conhecer também algum assunto particular para a sua necessidade ou para a necessidade de outro, ou um assunto universal, e lhe dá a conhecer o futuro que está para vir nos assuntos dos homens — sejam assuntos parciais para algum homem ou universais para uma nação ou nações ou para o conjunto dos homens. E este é o terceiro grau dos graus da profecia. E às vezes vem este grau depois dos primeiros, e às vezes vem ele como o primeiro, conforme a preparação do receptor — como era o assunto com Samuel, pois no princípio da sua profecia ouviu uma voz que falava com ele sem tremor e estremecimento e sem ver figura diante dos seus olhos; mas, de todo modo, isto não era em vigília real, mas era no tempo do despertar numa visão ou numa contemplação — pois toda visão e contemplação no tempo do despertar é que cai sobre ele a mão do Senhor, como escreveu o Rambam, de abençoada memória, no capítulo 41 da Segunda Parte. E assim disse a Escritura "e a lâmpada de D'us ainda não se apagara, e Samuel estava deitado no templo do Senhor, onde estava ali a arca de D'us" (I Samuel 3:3); e a correta ordenação do versículo é assim: "e a lâmpada de D'us ainda não se apagara no templo do Senhor, e Samuel estava deitado" — quer dizer, no seu quarto no pátio —, "e chamou o Senhor a Samuel" (I Samuel 3:4), quer dizer, numa visão. E até aqui chegam os graus de todos os profetas, todos eles; e em todos eles não paira o influxo divino profético, mesmo se o homem estiver preparado, senão por uma vontade divina — até que às vezes se detém o profeta por muito tempo, depois de que lhe veio a profecia, sem profetizar; e às vezes precisa fazer alguma preparação natural a fim de que lhe chegue a profecia, como Eliseu, que disse "e agora trazei-me um tocador; e foi que, ao tocar o tocador, veio sobre ele a mão do Senhor" (II Reis 3:15).
הַמַּדְרֵגָה הַשְּׁלִישִׁית: כְּשֶׁמִּתְגַּבֵּר הַשֵּׂכֶל תַּגְבֹּרֶת גָּדוֹל — עִנְיָנִים אֲמִתִּיִּים (מַרְאוֹת יְחֶזְקֵאל), וְיִשְׁמַע מַלְאָךְ מְדַבֵּר. וְעַד הֵנָּה מַדְרֵגוֹת כָּל הַנְּבִיאִים.
11 E há quem não se detém nestes graus, mas sobe a um grau maior do que estes, em que não há entrada para a força imaginativa de modo algum, e não vê nem imagina nenhuma figura, e, sem ver um anjo nem uma figura diante dos seus olhos, ouve uma voz que fala com ele e que lhe dá a conhecer assuntos universais para uma nação ou nações, e uma condução ou conduções para a espécie humana ou para alguns deles, no que se alcança a perfeição humana; e isto é sem visão e sem contemplação, mas ao estar ele desperto de dia; e assim em todo tempo em que dirige o seu pensamento e estima a resposta a uma pergunta, vem-lhe imediatamente a resposta em vigília — e não a tempos distantes, mas em todo tempo em que quiser. E este grau, quando o homem chega a ele, não é cabido que se chame "homem" senão "anjo"; e não há junto a nós quem chegou a este grau senão Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele, cuja profecia se distinguiu de todos os demais profetas em quatro diferenças que contou o Rambam, de abençoada memória, na explicação do capítulo "Chelek".
12 E eles são os quatro graus que contámos na profecia, e eles são os que foram insinuados na Escritura que disse "e falava o Senhor a Moisés face a face, como fala um homem ao seu companheiro" (Êxodo 33:11). Pois, depois que disse "face a face", insinua que a sua profecia não era por meio de um anjo nem de nenhum intermediário, como o terceiro grau. E ao dizer "como fala um homem", insinua que não era nas visões da noite ou num sono profundo que caía sobre ele, como o segundo grau; mas Moisés ficava desperto e ouvia a voz que falava com ele, e não lhe chegava tremor nem aflição, como o primeiro grau; mas "como fala um homem ao seu companheiro", sem nenhuma aflição, e em todo tempo em que queria vir à tenda do encontro ouvia a voz que falava com ele. Disse a Escritura "e ao vir Moisés à tenda do encontro, ouvia a voz que falava com ele de sobre a tampa da arca, do meio dos dois querubins" (Números 7:89); e assim testemunhou a Escritura, que disse "esperai, e ouvirei o que o Senhor vos ordenará" (Números 9:8), e imediatamente lhe veio a resposta sobre isto, "se algum homem for impuro por contato com um morto" etc. (Números 9:10); e assim nas filhas de Tselofchad, "e levou Moisés o seu juízo diante do Senhor" (Números 27:5), e veio-lhe a resposta, "certo ken é o que as filhas de Tselofchad falam" (Números 27:7).
הַמַּדְרֵגָה הָרְבִיעִית: בְּלֹא מְבוֹא לַכֹּחַ הַמְדַמֶּה כְּלָל, עֵר בַּיּוֹם, וּבְכָל עֵת שֶׁיִּרְצֶה — וְזֶה מֹשֶׁה רַבֵּנוּ, ״פָּנִים אֶל פָּנִים כַּאֲשֶׁר יְדַבֵּר אִישׁ אֶל רֵעֵהוּ״.
13 E, na verdade, é impossível que o homem chegue a nenhum grau dos graus da profecia de modo algum se não lhe precederem aqueles quatro graus primeiros naturais que contámos. Como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "não repousa a profecia senão sobre um sábio, forte, rico e de boa estatura" — pois, sem que lhe preceda a aquisição da sabedoria com as demais excelências naturais, é impossível que paire sobre ele a profecia de modo algum. E por isso é o que disseram sobre Jacó, nosso pai: "quantos degraus havia na escada? Quatro" — para insinuar que não o precedeu o grau do espírito de santidade, que é anterior às vezes à profecia, mas a excelência da sabedoria é que precedeu à sua profecia, porque ele se ocultou na casa de Éver catorze anos; pois, sem isto, não lhe chegaria a profecia, e mesmo em sonho, que é o início dos graus da profecia.
אֵין הַנְּבוּאָה שׁוֹרָה אֶלָּא עַל חָכָם גִּבּוֹר וְעָשִׁיר וּבַעַל קוֹמָה. ״כַּמָּה מַעֲלוֹת הָיָה בַּסֻּלָּם — אַרְבָּעָה״ — מַעֲלַת הַחָכְמָה קָדְמָה לִנְבוּאָתוֹ.
14 E é cabido que saibas que se diferenciaram os profetas uns dos outros, e os justos e os piedosos, no assunto da adesão devekut ao Senhor, bendito seja. Pois há quem a sua alma adere aos seres superiores com uma adesão forte, até o ponto de obedecerem a ele as forças superiores para agir na matéria-prima do mundo conforme a sua vontade — seja para a sua salvação, seja para a salvação de outro: faz descer a chuva pela sua oração, e cura os doentes, e gera as estéreis, e faz descer o fogo de cima, e ressuscita os mortos, como Elias e Eliseu. Até que, assim como se acha nas coisas naturais que, quando o homem estima alguma coisa que é perfumada de sabor, ou quando vê o seu companheiro comendo uvas verdes, desperta-se por si a força que faz sair a saliva e se dissolvem as suas gengivas por si, ou quando estima a relação sexual desperta-se a força que faz sair o sêmen para fazê-lo sair e se estende o órgão — assim, aesta alma pura obedecem as forças naturais que há no mundo, e se renova no mundo, pela sua vontade, orvalho ou chuva ou vento de tempestades. Pois, assim como as forças corporais foram criadas para servir as forças anímicas, e logo que decreta a força anímica sobre alguma coisa se despertam as forças corporais e os membros para completá-la em ato, assim, do mesmo modo, as forças naturais que há no mundo servem as almas puras — porque toda a existência inteira é como um só homem; e por isso obedecem a elas, até que, quando representa esta alma pura no renovar-se um orvalho e uma chuva, ou um vento grande e forte, ou um terremoto, ou uma fenda da terra e coisas semelhantes a isto, desperta-se a força que conduz o mundo da geração e da corrupção imediatamente para completá-la.
הַנֶּפֶשׁ הַזַּכָּה — יִשְׁמְעוּ אֵלֶיהָ הַכֹּחוֹת הַטִּבְעִיִּים, כִּי כָּל הַמְּצִיאוּת כְּאִישׁ אֶחָד. תּוֹרִיד גֶּשֶׁם בִּתְפִלָּתָהּ, תְּרַפֵּא חוֹלִים, תְּחַיֶּה מֵתִים — כְּאֵלִיָּהוּ וֶאֱלִישָׁע.
15 E é possível que passe o grau do profeta ou do piedoso para mais do que esta medida, até que lhe obedeçam as forças superiores para fazer a sua vontade — para fazer descer fogo de cima e ressuscitar os mortos e além disto —, por estarem todas as coisas submetidas e sujeitas a ele, seja ele profeta ou não-profeta; e isto se diferencia nos justos e nos piedosos e nos profetas conforme a diferença dos seus graus nesta adesão. E deste modo domina o profeta ou o piedoso sobre a natureza e renova no mundo sinais e maravilhas conforme a medida do seu grau na adesão.
16 E nisto se diferenciam os piedosos uns dos outros: pois há dentre os piedosos os que chegam a um grau da adesão com que podem renovar no mundo sinais e maravilhas — como Choni HaMe'agel, e Rabi Pinchas ben Yair, e Rabi Chanina ben Dossa e além deles —, ainda que não tenham chegado ao grau da profecia de modo algum; e há dentre os profetas quem não faz sinal ou maravilha nos seus dias de modo algum, como Jeremias, ou Ageu, Zacarias e Malaquias; e há quem faz um sinal, como Samuel, que fez descer a chuva pela sua oração nos dias da ceifa do trigo; e há quem faz dois ou três, como Isaías — a queda de Senaqueribe, e a cura de Ezequias, e o retorno da sombra dos degraus; e há quem faz mais, como Elias e Eliseu.
הַחֲסִידִים שֶׁעוֹשִׂים מוֹפְתִים אַף שֶׁאֵינָם נְבִיאִים: חוֹנִי הַמְעַגֵּל, רַבִּי פִּנְחָס בֶּן יָאִיר, רַבִּי חֲנִינָא בֶּן דּוֹסָא. וְיֵשׁ נָבִיא שֶׁלֹּא יַעֲשֶׂה מוֹפֵת — כְּיִרְמְיָה.
17 E, contudo, todos os milagres que vieram por meio dos profetas, todos eles partilham de que não eram contínuos por muito tempo nem eram divulgados a todos ou a um povo grande; mas todos os sinais e as maravilhas que fez Moisés ou que vieram por meio de Moisés — com o facto de serem muitos, mais do que todos os que vieram por meio de todos os profetas — elevaram-se acima deles porque eram divulgados e contínuos por muito tempo, como o que perdurou quarenta anos: a coluna de nuvem de dia e a coluna de fogo de noite.
18 E por isso o facto de se terem mencionado estas diferenças no fim da Torá, entre os milagres de Moisés e os milagres de outro que não ele. Pois, depois que a Torá insinuou as diferenças que há entre a sua profecia e a profecia de outro ao dizer "e não se levantou mais um profeta em Israel como Moisés, a quem conheceu o Senhor face a face" (Deuteronômio 34:10) — e do modo que explicámos, que insinuou as diferenças que há entre a profecia de Moisés e a profecia de outro —, voltou a explicar as diferenças também que há entre os milagres de Moisés e os milagres de outro, e disse "com todos os sinais e as maravilhas que o enviou o Senhor" (Deuteronômio 34:11), para indicar a sua multiplicidade; e disse "a fazer na terra do Egito, a Faraó e a todos os seus servos e a toda a sua terra", para indicar a sua divulgação aos olhos dos que o contradiziam; e, para indicar a sua continuidade, disse "e por todo o temor grande que fez Moisés aos olhos de todo Israel" (Deuteronômio 34:12) — e isto alude ao que dissemos da continuidade da coluna de nuvem de dia e da coluna de fogo de noite por todos os quarenta anos em que estiveram no deserto, como disse a Escritura "pois a nuvem do Senhor estava sobre o tabernáculo de dia, e fogo havia de noite nele, aos olhos de toda a casa de Israel, em todas as suas jornadas" (Êxodo 40:38). Este é o caminho na compreensão da representação da profecia e a diferença dos seus graus, conforme o que os julga a divisão, e a diferença entre a profecia de Moisés e a de outro, e entre os milagres de Moisés e os de outro dos demais profetas. E isto é o que quisemos explicar.
נִסֵּי הַנְּבִיאִים — לֹא מַתְמִידִים וְלֹא מְפֻרְסָמִים. נִסֵּי מֹשֶׁה — מְפֻרְסָמִים וּמַתְמִידִים (עַמּוּד עָנָן וְאֵשׁ אַרְבָּעִים שָׁנָה). ״וְלֹא קָם נָבִיא עוֹד בְּיִשְׂרָאֵל כְּמֹשֶׁה״.
Este capítulo — o mais longo e sistemático do Maamar sobre profecia — constrói uma verdadeira fenomenologia da mente que culmina na revelação. Albo parte do recém-nascido "vazio de toda apreensão" e mostra a consciência subindo degrau a degrau: primeiro os cinco sentidos, na ordem do mais grosseiro (tato) ao mais sutil e de maior alcance (visão); depois quatro faculdades do intelecto — (1) o reconhecimento/memória (reconhecer o ausente), (2) a abstração do universal a partir do particular, (3) a ciência demonstrativa que distingue substância de acidente e compõe os inteligíveis. Nestes quatro graus "se detém o intelecto humano" — e muitos param antes, em dois ou três.
O passo genial é mostrar que acima do natural pode abrir-se mais. Albo usa o argumento da incomensurabilidade: como o cego de nascença não consegue conceber as cores, nem o eunuco o prazer da união, há graus que a natureza não antecipa mas o intelecto admite e "o sentido testemunha". O primeiro deles é o ruach hakódesh (espírito de santidade): a pessoa fala sabedoria ou poesia sublime "sem saber de onde lhe vem a força" — como a criança que aprende a falar. Acima dele, a profecia propriamente dita.
Albo organiza os graus proféticos por um único princípio: a razão das proporções entre a força racional e a imaginativa. A imaginação, deixada livre, "mente por natureza" ("não há sonho sem coisas vãs", "não há trigo sem palha") — daí os falsos profetas que "profetizam do próprio coração". Quando o racional começa a vencer mas a imaginação resiste, vem o 1º grau: profecia em sonho, precedida de tremor e angústia. Quando as forças se igualam, o 2º grau: a "visão" (maré/machaze) sem tremor, com figuras simbólicas irreais (as mulheres de Zacarias, o cesto de Amós) mas cujo sentido é verdadeiro. Quando o racional domina fortemente, o 3º grau: visões de conteúdo verdadeiro (a Merkavá de Ezequiel) e o anjo que fala — o teto de "todos os profetas". E mesmo aí, o influxo só vem pela vontade divina (o profeta pode ficar anos sem profetizar; Eliseu precisa do músico).
O 4º grau é singular: a imaginação não participa de modo algum; sem sonho, sem figura, sem anjo, desperto e de dia, e sempre que quer — a resposta vem na hora. Quem chega aqui "não deve ser chamado homem, mas anjo". Só Moisés o atingiu. Albo lê com precisão "face a face, como um homem fala ao seu companheiro" (Êx 33:11) como cifrando as quatro diferenças: "face a face" (≠ 3º grau, sem intermediário), "como fala um homem" (≠ 2º grau, não em visão noturna, mas desperto), "ao seu companheiro" (≠ 1º grau, sem tremor) e a disponibilidade permanente (Moisés ouve a voz sempre que entra na Tenda — as filhas de Tselofchad, o impuro no Pessach). É a base filosófica da autoridade incomparável da Torá mosaica.
A segunda metade abre uma dimensão mística notável: o devekut (adesão a D'us) pelo qual a "alma pura" governa a natureza. A analogia é fisiológica e ousada — assim como o pensamento de um sabor faz salivar e o corpo obedece à alma, as forças da natureza obedecem à alma santa, "porque toda a existência inteira é como um só homem". Daí milagres: chuva, cura, ressurreição (Elias, Eliseu). E Albo dissocia milagre de profecia: há piedosos não-profetas que fazem maravilhas (Choni HaMe'agel, Chanina ben Dossa) e profetas que nenhum milagre fazem (Jeremias, Ageu, Zacarias). O capítulo fecha distinguindo os milagres de Moisés de todos os outros — não pela quantidade apenas, mas por serem públicos (diante do Egito inteiro) e duradouros (a coluna de nuvem e fogo, quarenta anos) — exatamente o que a própria Torá assinala no seu epílogo ("não se levantou mais profeta como Moisés"). Assim a profecia, longe de fenômeno arbitrário, é integrada numa hierarquia inteligível do ser, e a Torá de Moisés coroada como revelação de grau insuperável.
Os graus do capítulo anterior valem quando não há profeta a servir de canal. Mas quando há um profeta perfeito, a profecia pode chegar mesmo ao não-preparado, sem essas etapas: assim em Sinai todo Israel alcançou o grau "face a face"; assim Josué por Moisés, os setenta anciãos, Eliseu por Elias. Albo explica o mecanismo pela analogia do raio de sol refletido, e o papel da Arca e das Tábuas na profecia de Israel.
Os graus do capítulo anterior valem quando não há profeta a servir de canal. Mas quando há um profeta perfeito, a profecia pode chegar mesmo ao não-preparado, sem essas etapas: assim em Sinai todo Israel alcançou o grau "face a face"; assim Josué por Moisés, os setenta anciãos, Eliseu por Elias. Albo explica o mecanismo pela analogia do raio de sol refletido, e o papel da Arca e das Tábuas na profecia de Israel.
1 A profecia paira sobre o homem pelos graus que escrevemos quando não há ali um profeta que seja instrumento para a chegada da profecia sobre o não-preparado; mas, quando há ali um profeta, já chega a profecia sobre o não-preparado sem estes graus. E isto é coisa cuja existência se verificou na hora da doação da Torá, quando chegaram todos Israel, os tolos com os seus sábios, à excelência da profecia; disse a Escritura "estas palavras falou o Senhor a toda a vossa congregação no monte, do meio do fogo" (Deuteronômio 5:19). E não só à excelência da profecia, mas ao grau de "face a face" panim befanim, que é o grau último dos graus da profecia, ao qual é impossível que o homem chegue senão por uma graça divina, e ele era o grau de Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele — disse a Escritura sobre ele "e falava o Senhor a Moisés face a face" (Êxodo 33:11), e foi dito também a respeito do grau de todo Israel na hora da doação da Torá "face a face falou o Senhor convosco no monte, do meio do fogo" (Deuteronômio 5:4).
כְּשֶׁיֵּשׁ נָבִיא — תַּגִּיעַ הַנְּבוּאָה עַל הַבִּלְתִּי מוּכָן בְּזוּלַת הַהַדְרָגוֹת. בְּמַתַּן תּוֹרָה הִגִּיעוּ כָּל יִשְׂרָאֵל לְ״פָנִים בְּפָנִים״ — הַמַּדְרֵגָה הָאַחֲרוֹנָה.
2 E é manifesto que os seiscentos mil homens de pé que saíram do Egito, habituados a um trabalho duro em barro e em tijolos, não eram cabidos de um grau grande como este; e, ainda assim, chegaram a ele por meio de Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele. Disse-lhe o Senhor "eis que eu venho a ti na espessura da nuvem, a fim de que ouça o povo no meu falar contigo" (Êxodo 19:9) — quer dizer: eu quero vir a ti e revelar-me a ti no grau grande, que é o grau de "face a face", ainda que tu estejas na espessura e na turvação da matéria, chamada "espessura da nuvem", e não sejas cabido a ele; e tudo isto eu faço a fim de que ouça o povo no meu falar contigo. E este é o grau mais elevado que é possível, e ele é que ouça o homem em vigília uma voz que fala com ele sem ver nenhuma figura; disse a Escritura "uma voz de palavras vós ouvíeis, e uma figura não víeis" (Deuteronômio 4:12).
שֵׁשׁ מֵאוֹת אֶלֶף שֶׁיָּצְאוּ מִמִּצְרַיִם לֹא הָיוּ רְאוּיִם — וְהִגִּיעוּ בְּאֶמְצָעוּת מֹשֶׁה. ״הִנֵּה אָנֹכִי בָּא אֵלֶיךָ בְּעַב הֶעָנָן בַּעֲבוּר יִשְׁמַע הָעָם״. ״קוֹל דְּבָרִים אַתֶּם שֹׁמְעִים וּתְמוּנָה אֵינְכֶם רֹאִים״.
3 E chegaram a ele por uma graça divina e por meio de Moisés; e isto foi a fim de que se retirasse do seu coração a dúvida com que duvidavam da possibilidade da chegada da profecia ao homem — pois sobre isto se admiravam após a doação da Torá e diziam "pois quem é toda carne, que ouviu a voz do D'us vivo" etc. (Deuteronômio 5:23), do que se vê que Israel duvidava da possibilidade da chegada da profecia ao homem até aquele dia; mas Moisés não se admirava da chegada da profecia a um só homem, senão da sua chegada ao povo no seu conjunto, e por isso disse "acaso ouviu um povo a voz" etc. (Deuteronômio 4:33). E depois daquela estação reconheceram a possibilidade da sua chegada; disse a Escritura "neste dia vimos que fala D'us com o homem, e este vive" (Deuteronômio 5:21), do que se vê que naquela estação se retirou do seu coração esta dúvida.
כְּדֵי שֶׁיִּסְתַּלֵּק הַסָּפֵק שֶׁהָיוּ מְסֻפָּקִין בְּאֶפְשָׁרוּת הַנְּבוּאָה. ״הַיּוֹם הַזֶּה רָאִינוּ כִּי יְדַבֵּר אֱלֹהִים אֶת הָאָדָם וָחָי״.
4 E assim chegou a profecia de Elias a Eliseu sem estes graus: pois não havia em todos os filhos dos profetas quem não tivesse precedido a Eliseu no servir a Elias e no aprender dele, antes que Eliseu viesse a servir Elias; pois eis que, quando o Senhor quis tomar Elias, foi-lhe dito no Horeb "e a Eliseu filho de Safate, de Abel-Meolá, ungirás por profeta em teu lugar" (I Reis 19:16); e por meio de Elias chegou Eliseu a um grau maior do que todos eles.
5 E assim Josué chegou ao grau a que chegou por meio de Moisés, até o ponto de que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, na explicação deste assunto: "a face de Moisés era como a face do sol, e a face de Josué como a face da lua; os anciãos daquela geração disseram: ai daquela vergonha, ai daquela humilhação" — quer dizer: Josué, pelo lado de si mesmo, não era cabido que chegasse ao grau a que chegou, senão que por meio de Moisés é que apreendeu o que apreendeu; e por isso era Moisés no grau do sol, que reparte a luz à lua, e Josué no grau da lua, que recebe a luz do sol e não tem luz de si mesma; e por isso disseram "ai daquela vergonha, ai daquela humilhação", pois Josué não era cabido da profecia de si mesmo, mas pelo lado de Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele.
אֱלִישָׁע מֵאֵלִיָּהוּ. יְהוֹשֻׁעַ מִמֹּשֶׁה: ״פְּנֵי מֹשֶׁה כִּפְנֵי חַמָּה וּפְנֵי יְהוֹשֻׁעַ כִּפְנֵי לְבָנָה״ — הַחַמָּה חוֹלֶקֶת אוֹר וְהַלְּבָנָה מְקַבֶּלֶת.
6 E deste modo foi o pairar da profecia, por meio de Moisés, sobre os setenta anciãos, ainda que não fossem cabidos a ela pelo lado de si mesmos; disse a Escritura "e descerei e falarei contigo ali, e tirarei do espírito que está sobre ti e porei sobre eles" (Números 11:17) — quer dizer, ainda que não fossem cabidos a isto pelo lado de si mesmos. E por isso achas que, quando disse Josué a Moisés "Eldad e Medad estão profetizando no acampamento" (Números 11:27), respondeu Moisés "acaso tens tu ciúme por mim?" (Números 11:29) — quer dizer: não é cabido para ti ter ciúme nisto de modo algum por minha causa, pois esta profecia, toda ela, paira sobre eles pelo lado do meu espírito e por meu intermédio; e quem dera que todo o povo do Senhor fossem profetas pelo lado de si mesmos, e cabidos da profecia sem mim, "que desse o Senhor o seu espírito sobre eles" (Números 11:29) — e não por meu intermédio, mas que eles, pelo lado de si mesmos, fossem cabidos de pairar sobre eles o espírito divino sem intermediário.
שִׁבְעִים הַזְּקֵנִים — ״וְאָצַלְתִּי מִן הָרוּחַ אֲשֶׁר עָלֶיךָ״. ״הַמְקַנֵּא אַתָּה לִי, וּמִי יִתֵּן כָּל עַם ה׳ נְבִיאִים״ — מֵעַצְמָם, בְּזוּלָתִי.
7 E o assunto da necessidade do intermediário nesta coisa é deste modo: que, assim como da batida do raio do sol num corpo límpido e claro, como o espelho polido, se reverte o raio sobre um lugar escuro, e ilumina aquele lugar por meio daquele revertimento o que ele não iluminava antes disto, assim o influxo divino, quando desce sobre o profeta perfeito, se reverte dele sobre o não-cabido, e isto é causa de que paire o espírito profético sobre o não-perfeito ou o não-preparado para isso, e ele profetize; e, ainda neste revertimento, será o espírito que paira sobre o mais preparado maior do que o que paira sobre quem não é preparado.
כְּמוֹ שֶׁמֵּהַכָּאַת נִיצוֹץ הַשֶּׁמֶשׁ בְּגוּף זַךְ (כְּמַרְאָה מְלֻטֶּשֶׁת) יִתְהַפֵּךְ הַנִּיצוֹץ עַל מָקוֹם חָשׁוּךְ וְיָאִיר — כָּךְ הַשֶּׁפַע יִתְהַפֵּךְ מֵהַנָּבִיא הַשָּׁלֵם עַל הַבִּלְתִּי רָאוּי.
8 E, conforme a minha opinião, esta era a causa pela qual se acha a profecia na nação de Israel mais do que nas demais nações, e na terra de Israel mais do que nas demais terras. E isto é: que pelo lado da Arca e das Tábuas, sobre as quais a Shechiná repousava sobre ela, se revertia o espírito divino à semelhança do raio do sol que se reverte, e repousava o espírito profético sobre o homem no qual se achasse nele alguma preparação à semelhança do que há na Arca — e ele é o homem no qual se achem nele as opiniões da Torá escritas nas Tábuas da Aliança de verdade. Como era isto na profecia de Samuel, que estava deitado no seu quarto que tinha, e veio-lhe a voz da profecia de sobre a tampa que estava sobre a Arca, que estava então ali em Shiló; e ele mesmo não sabia quem era o que chamava, já que não estimava em si mesmo o ser ele cabido da profecia a ponto de ouvir uma voz no tempo do despertar na visão da profecia; e por isso se levantava da sua cama para ir a Eli, até que Eli entendeu isto por si mesmo, como disse a Escritura "e entendeu Eli que o Senhor estava chamando o jovem" (I Samuel 3:8).
מִצַּד הָאָרוֹן וְהַלּוּחוֹת שֶׁהַשְּׁכִינָה שׁוֹרָה עָלָיו הָיָה מִתְהַפֵּךְ הָרוּחַ — וְשׁוֹרֶה עַל מִי שֶׁבּוֹ דֵּעוֹת הַתּוֹרָה. כְּנְבוּאַת שְׁמוּאֵל מֵעַל הַכַּפֹּרֶת בְּשִׁלֹה.
9 E, contudo, este influxo que vem deste modo, sem um profeta que seja intermediário, precisa de uma preparação no receptor — quer dizer, que ele seja, pelo lado de si mesmo, preparado em parte. Pois não paira este influxo divino senão ao estar o receptor num grau conhecido da preparação; e conforme a sua preparação será o grau do influxo que paira sobre ele. Mas a profecia que chega por meio de um profeta chega mesmo sobre quem não é cabido da profecia — como chegou a Israel na hora da doação da Torá —, ou sobre quem não é preparado a ela — como chegou a Aarão e a Miriam por meio de Moisés, ainda que não fossem preparados a ela naquela hora; e por causa disto chamou o Senhor a Moisés com Aarão e Miriam, a fim de que pairasse por meio de Moisés o espírito profético sobre eles — pois, ainda que fossem cabidos da profecia, não eram preparados a ela naquela hora. E entende isto, pois é coisa com que se confundiram muitos dos sábios: por que chamou o Senhor a Moisés com Aarão e Miriam.
הַשֶּׁפַע בְּזוּלַת נָבִיא צָרִיךְ הֲכָנָה בַּמְקַבֵּל. אֲבָל הַבָּאָה בְּאֶמְצָעוּת נָבִיא תַּגִּיעַ אַף עַל הַבִּלְתִּי רָאוּי (יִשְׂרָאֵל) אוֹ הַבִּלְתִּי מוּכָן (אַהֲרֹן וּמִרְיָם).
10 E é cabido que saibas que a existência da profecia, por meio de um profeta, sobre o não-cabido ou o não-preparado, não é suficiente para influir daquele receptor sobre outro a não ser na existência da Arca e das Tábuas na nação; e também, depois que se ausentou a Arca, não era possível que se achasse a profecia, mesmo por meio de um profeta, sobre o não-preparado. E por isso não chegou a profecia a Baruque filho de Nerias por meio de Jeremias, porque não era preparado a ela e já se ocultara a Arca; e chegou a Ageu, Zacarias e Malaquias, porque viram a Jeremias e a Ezequiel e eram preparados a ela mais do que Baruque. Mas não chegou deles a outro, porque não estavam no tempo da Arca, e o influxo que chegou a eles não era suficiente para passar deles a outro, depois que não havia ali Arca. E a prova para a coisa é que no Segundo Templo havia piedosos e homens de ação e cabidos da profecia mais do que no Primeiro Templo, e, ainda assim, não havia ali profecia, porque não havia ali Arca. E o facto de ter chegado a profecia a Ezequiel fora da Terra de Israel é porque já lhe chegara na Terra de Israel; disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "'foi, foi hayó hayá a palavra do Senhor a Ezequiel filho de Buzi, o sacerdote, na terra dos caldeus, sobre o rio Quebar' (Ezequiel 1:3) — que é 'foi, foi'? Que já fora antes."
בְּלֹא אָרוֹן לֹא תִּמָּצֵא נְבוּאָה אֲפִלּוּ עַל יְדֵי נָבִיא. בְּבַיִת שֵׁנִי הָיוּ חֲסִידִים רְאוּיִם, וְלֹא הָיְתָה נְבוּאָה — לְפִי שֶׁלֹּא הָיָה אָרוֹן. ״הָיֹה הָיָה... שֶׁכְּבָר הָיָה״.
O cap. 10 traçou a via "natural" da profecia — a subida gradual em que o próprio mérito do indivíduo (sabedoria, domínio da imaginação) o prepara para receber o influxo. Este capítulo abre uma segunda via, decisiva para a teologia de Albo: a profecia transmitida por intermédio de um profeta, que pode alcançar até o totalmente não-preparado, saltando todos os graus. É o que explica o evento fundador de Israel.
O caso supremo é a revelação no Sinai: "seiscentos mil habituados ao barro e aos tijolos", incultos, atingiram não só a profecia mas o grau supremo — "face a face", o nível exclusivo de Moisés —, e isto por intermédio de Moisés ("eis que venho a ti… para que o povo ouça"). Albo lê com finura: o objetivo divino era dissipar a dúvida sobre a própria possibilidade da profecia humana. Por isso o povo, antes incrédulo ("quem é toda carne que ouviu a voz do D'us vivo?"), declara após o evento "neste dia vimos que D'us fala com o homem e este vive". Note-se a observação fina: Moisés não duvidava da profecia individual — só se admirava de ela alcançar um povo inteiro.
Albo multiplica os exemplos da via mediada. Eliseu, que (ao contrário dos outros discípulos) não aprendera longamente com Elias, recebeu por intermédio dele um grau superior a todos. Josué é o caso paradigmático: o midrash "a face de Moisés como o sol, a de Josué como a lua" significa que Josué não merecia a profecia por si — recebeu-a como a lua recebe a luz do sol, sem ter luz própria; daí o lamento dos anciãos "ai dessa vergonha". E os setenta anciãos receberam "do espírito que estava sobre Moisés", sem mérito próprio — o que ilumina a resposta de Moisés a Josué sobre Eldad e Medad: "tens ciúme por mim? Quem dera todos profetas" — isto é, que profetizassem por si mesmos, sem precisar de mim como canal.
O mecanismo é dado por uma bela analogia ótica: como um raio de sol que bate num espelho polido e reflete-se para iluminar um lugar escuro que antes não recebia luz direta, assim o influxo divino que desce sobre o profeta perfeito reverte-se sobre os não-preparados. (E mesmo no reflexo, quem é mais preparado recebe mais — a graduação persiste.) É a mesma lógica do espelho do cap. 9, agora aplicada à transmissão e não à diversidade das visões.
A tese mais original do capítulo: Albo propõe ("conforme a minha opinião") que a razão de a profecia florescer em Israel e na Terra de Israel mais que alhures é a Arca e as Tábuas sobre as quais repousava a Shechiná — funcionando como o "espelho refletor" nacional. O espírito divino refletia-se delas para quem tivesse "alguma preparação semelhante ao que há na Arca", isto é, quem portasse "as opiniões da Torá escritas nas Tábuas" — daí a profecia de Samuel vinda "de sobre a tampa da Arca" em Shiló. Disto Albo extrai uma explicação histórica forte: a via mediada (de profeta a profeta) só funciona enquanto existe a Arca. Por isso, ocultada a Arca, a profecia se extinguiu — e no Segundo Templo, "embora houvesse piedosos mais dignos que no Primeiro", não houve profecia, porque não havia Arca. Os últimos profetas (Ageu, Zacarias, Malaquias) ainda profetizaram por terem visto Jeremias e Ezequiel; mas não puderam transmiti-la adiante, faltando a Arca. Assim Albo integra a fenomenologia da profecia numa explicação coerente da sua geografia, do seu povo e do seu fim histórico.
O fim da profecia não é anunciar o futuro nem fazer milagres particulares, mas conduzir a nação inteira à perfeição. Por isso Moisés recebeu a profecia "em razão de Israel" — e perderia a grandeza se Israel pecasse. Daí Albo explica por que "Torá do Céu" é princípio (ikkar) e a profecia apenas raiz derivada, embora a profecia preceda no tempo: porque o fim antecede as causas na intenção do agente.
O fim da profecia não é anunciar o futuro nem fazer milagres particulares, mas conduzir a nação inteira à perfeição. Por isso Moisés recebeu a profecia "em razão de Israel" — e perderia a grandeza se Israel pecasse. Daí Albo explica por que "Torá do Céu" é princípio (ikkar) e a profecia apenas raiz derivada, embora a profecia preceda no tempo: porque o fim antecede as causas na intenção do agente.
1 O fundamento da existência da profecia na espécie do homem não é a fim de anunciar os futuros e ordenar assuntos particulares individuais, como se sabe isto por meio dos adivinhos e dos videntes das estrelas, mas a fim de fazer chegar a nação no seu conjunto, ou a espécie, à perfeição humana.
עִקַּר מְצִיאוּת הַנְּבוּאָה אֵינָהּ כְּדֵי לְהַגִּיד הָעֲתִידוֹת, אֶלָּא כְּדֵי לְהַגִּיעַ הָאֻמָּה בִּכְלָלָהּ אוֹ הַמִּין אֶל הַשְּׁלֵמוּת הָאֱנוֹשִׁי.
2 E isto é coisa que explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, no capítulo "Os que não ficam de pé" Ein Omdin, no tratado Berachot. Disseram: "'E disse o Senhor a Moisés: vai, desce, pois corrompeu-se o teu povo' (Êxodo 32:7) — disse o Santo, bendito seja, a Moisés: desce da tua grandeza! Acaso te dei eu grandeza senão em razão de Israel? Agora que Israel pecou, tu, para que me serves?" Eis que explicaram explicitamente que o facto de Moisés ter chegado àquele grau não era senão em razão de Israel, a fim de que recebessem a Torá e a cumprissem. E assim disseram no Torat Cohanim: está escrito "estes são os mandamentos que ordenou o Senhor a Moisés aos filhos de Israel" (Levítico 27:34) — o mérito de Israel o causou a ele.
״רֵד מִגְּדֻלָּתְךָ, כְּלוּם נָתַתִּי לְךָ גְּדֻלָּה אֶלָּא בִּשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל, עַכְשָׁו שֶׁיִּשְׂרָאֵל חָטְאוּ אַתָּה לָמָּה לִי״. ״זְכוּת יִשְׂרָאֵל גָּרְמָה לוֹ״.
3 E por causa disto disseram alguns dos sábios que o início da chegada da profecia a Moisés não foi pelos graus que escrevemos no capítulo 10, mas foi um assunto miraculoso que pairou sobre ele de repente por uma vontade divina, com o facto de ele estar não-preparado e não-cabido àquele grau grande — a fim de fazer chegar a espécie humana ou a nação no seu conjunto ao fim humano; e por isso disse-lhe o Senhor "agora que Israel pecou, tu, para que me serves?" — quer dizer: se este fim não chega, não há necessidade na chegada da profecia ao profeta. E por isso achas que, quando disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Nedarim, "não repousa a profecia senão sobre um sábio, forte, rico e de boa estatura", provaram-no de Moisés — pois, porque a chegada da profecia ao profeta não é senão para a perfeição da nação, é cabido que se achem nele os atributos que se acharam em Moisés, já que a sua profecia era para este fim; e por isso era ele também de boa estatura, a fim de que fosse aceito e honrado aos olhos da nação; e, se não se acharem para o profeta estes atributos, que são para o proveito da nação, não há proveito na chegada da profecia a ele. E disto se te explica a razão pela qual contámos a "Torá do Céu" Torá min haShamayim como princípio e a profecia como raiz que dela se ramifica — pois já seria cabido que o assunto fosse ao contrário, a saber que o princípio fosse a profecia e a "Torá do Céu" uma raiz que dela se ramifica.
תְּחִלַּת נְבוּאַת מֹשֶׁה הָיְתָה נִסִּית, פִּתְאֹם בְּרָצוֹן אֱלֹהִי. ״אֵין הַנְּבוּאָה שׁוֹרָה אֶלָּא עַל חָכָם גִּבּוֹר וְעָשִׁיר וּבַעַל קוֹמָה״ — לְתוֹעֶלֶת הָאֻמָּה.
4 Senão que, se a chegada da profecia à espécie humana fosse a fim de que por meio dela soubessem os homens as coisas individuais que se renovam no mundo, ou a fim de que se renovassem por meio dela sinais e maravilhas sobre um assunto particular — como se pensa no início do pensamento —, isto seria do que se dificultaria; mas, depois que explicámos que a necessidade que conduz à existência da profecia é a fim de encaminhar os homens em direção à felicidade eterna, a fim de que se conheçam por meio dela as coisas agradáveis junto ao Senhor, bendito seja, distintas das não-agradáveis, e que alcance o homem o fim humano na feitura daquelas ações, isto não é do que se dificulta. Pois, depois que o fim da existência da profecia é a fim de que chegue por meio dela um encaminhamento divino à espécie do homem — que é a "Torá do Céu" —, é cabido que se conte a "Torá do Céu" como princípio, porque ela é a necessidade que conduz à existência da profecia. E por isso pusemos a profecia como raiz que se ramifica para a "Torá do Céu". E por esta mesma razão é que contámos a providência como raiz que se ramifica do prêmio e do castigo, ainda que se visse que o assunto é ao contrário — a saber que, depois que a providência precede ao prêmio e ao castigo, seria cabido que o prêmio e o castigo se ramificassem dela.
תַּכְלִית הַנְּבוּאָה — שֶׁתַּגִּיעַ הַיְשָׁרָה אֱלֹהִית, שֶׁהִיא תּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם. וְלָכֵן תּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם עִקָּר, וְהַנְּבוּאָה שֹׁרֶשׁ מִסְתַּעֵף.
5 Senão que, se a providência fosse nos particulares dos homens do modo com que ela é nos demais viventes — a saber para guardar a sua espécie —, seria cabido que se contasse o prêmio e o castigo como raiz que dela se ramifica; mas, porque não era a providência contada nos princípios ou nas raízes do modo da providência que há nas espécies dos viventes para guardar a espécie apenas, mas para dar ao homem conforme os seus caminhos e conforme o fruto das suas ações em todos os particulares das suas obras, neste mundo e no vindouro, conforme o que decreta a Sabedoria suprema — por isso contámos o prêmio e o castigo como princípio e a providência como raiz que dela se ramifica, porque a espécie de providência que é para o prêmio e para o castigo não é como a espécie de providência que existe nas espécies dos viventes, que é para guardar a espécie apenas.
הַשְׁגָּחָה לְשָׂכָר וָעֹנֶשׁ — לָתֵת לָאִישׁ כִּדְרָכָיו, אֵינָהּ כְּהַשְׁגָּחַת מִינֵי הַבַּעֲלֵי חַיִּים. לָכֵן הַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ עִקָּר, וְהַהַשְׁגָּחָה שֹׁרֶשׁ מִסְתַּעֵף.
6 E deste modo entenderás em todas as raízes que se ramificam dos princípios a razão por que foram contadas como raízes, com o facto de serem elas anteriores aos princípios — como a profecia, que é anterior por natureza à "Torá do Céu" e é anterior também no tempo, já que precedeu a profecia dos patriarcas à entrega da Torá por meio de Moisés; e, ainda assim, contámo-la como raiz para a "Torá do Céu", porque todas as profecias que houve antes da doação da Torá, todas elas eram para o fim da entrega da Torá, e assim todas as profecias que se acharam aos profetas depois que foi dada a Torá eram para o fim do cumprimento da Torá. E, porque o fim é anterior junto ao agente às demais causas por força, disseram os nossos mestres, de abençoada memória, que a Torá precedeu ao mundo dois mil anos — porque ela é o fim em razão do qual se acha a espécie humana, que é a mais seleta dos existentes que há no mundo da geração e da corrupção, e todos se acham em razão dele, e ele é em razão do cumprimento da Torá. E deduz sobre isto em todas as raízes que dissemos que se ramificam dos princípios.
הַתַּכְלִית קוֹדֵם אֵצֶל הַפּוֹעֵל. ״הַתּוֹרָה קָדְמָה לָעוֹלָם אַלְפַּיִם שָׁנָה״ — שֶׁהִיא הַתַּכְלִית שֶׁבַּעֲבוּרוֹ נִמְצָא הַמִּין הָאֱנוֹשִׁי וְכָל הַנִּמְצָאוֹת.
Este capítulo curto resolve uma questão estrutural do livro e, ao fazê-lo, define o sentido último da profecia. A tese: a profecia não existe para satisfazer a curiosidade humana sobre o futuro nem para produzir prodígios pontuais — tudo isso é o que adivinhos e astrólogos pretendem fazer. A profecia existe para um fim coletivo: conduzir a nação inteira (ou a espécie) à perfeição. O profeta é instrumento de um projeto nacional, não um oráculo privado.
Albo prova-o com dois midrashim contundentes. O primeiro (Berachot, sobre o Bezerro de Ouro): D'us diz a Moisés "desce da tua grandeza — só te dei grandeza em razão de Israel; agora que pecaram, para que me serves tu?". A grandeza profética de Moisés era funcional, dependente do seu papel para com o povo. O segundo (Torat Cohanim): "o mérito de Israel o causou". Disso "alguns sábios" inferem que a própria profecia de Moisés começou por milagre — pairou sobre ele de repente, ainda despreparado, justamente porque o que importava era o destinatário (a nação), não o mérito prévio do profeta. E daí a leitura do dito de Nedarim ("a profecia só repousa sobre sábio, forte, rico e de boa estatura"): esses atributos — inclusive a estatura física — existem para que o profeta seja aceito e honrado pela nação; sem proveito para o povo, não há razão para a profecia.
O capítulo serve, sobretudo, para justificar a arquitetura dos ikkarim de Albo. Seu sistema põe três princípios (existência de D'us, Torá do Céu, prêmio e castigo) e, sob eles, "raízes" derivadas. Mas surge uma objeção lógica: a profecia é contada como raiz derivada da "Torá do Céu" — quando, na ordem natural e temporal, a profecia vem antes (sem profecia não há entrega da Torá; e os patriarcas profetizaram antes do Sinai). Como pode o anterior ser "ramo" do posterior?
A resposta é um princípio aristotélico de causalidade final: o fim, embora último na execução, é primeiro na intenção do agente. A Torá é o propósito de toda profecia — as profecias antes do Sinai visavam à entrega da Torá; as posteriores, ao seu cumprimento. Logo a "Torá do Céu" é o princípio (a causa final, o porquê), e a profecia é o meio (a raiz instrumental), mesmo precedendo no tempo. Albo aplica a mesma lógica ao outro par: a providência, embora preceda o prêmio e o castigo, é contada como raiz derivada deles — porque a providência relevante aqui não é a genérica (que preserva as espécies, como nos animais), mas a retributiva e individual ("dar a cada um conforme os seus caminhos"), cujo propósito é justamente o prêmio e o castigo. O capítulo culmina na máxima rabínica "a Torá precedeu o mundo dois mil anos": precedência não cronológica mas de finalidade — a Torá é o fim em vista do qual o homem, "a mais seleta das criaturas", e com ele todo o mundo, foram criados. Assim Albo funda a coerência do seu sistema na primazia da causa final: tudo existe em razão do cumprimento da Torá.
Pode uma mesma Lei divina mudar para um mesmo povo com o passar dos tempos? Por três lados — o Doador, o receptor e a própria Lei — parece impossível. Mas, examinando, pelo lado do receptor a mudança é possível: como o médico que altera o regime quando o doente se fortalece, ou o mestre que gradua o aluno do fácil ao profundo — sem que isso seja defeito no Doador, mas plano previsto desde o início.
Pode uma mesma Lei divina mudar para um mesmo povo com o passar dos tempos? Por três lados — o Doador, o receptor e a própria Lei — parece impossível. Mas, examinando, pelo lado do receptor a mudança é possível: como o médico que altera o regime quando o doente se fortalece, ou o mestre que gradua o aluno do fácil ao profundo — sem que isso seja defeito no Doador, mas plano previsto desde o início.
1 E do que é cabido que investiguemos aqui é: se a religião divina, uma e a mesma em si mesma, é possível que se mude para uma e a mesma nação em si mesma com a mudança dos tempos, ou se é impossível para ela que se mude, mas se torna necessário para ela que seja eterna.
אִם הַדָּת הָאֱלֹהִית הָאַחַת בְּעַצְמָהּ אֶפְשָׁר שֶׁתִּתְחַלֵּף לְאֻמָּה אַחַת בְּעַצְמָהּ בְּהִתְחַלֵּף הַזְּמַנִּים, אוֹ אִי אֶפְשָׁר — אֶלָּא תִּהְיֶה נִצְחִית.
2 E já se vê que é impossível à religião divina que se mude; e isto é seja pelo lado do Doador, seja pelo lado do receptor, seja pelo lado da própria religião. Pelo lado do Doador: pois as coisas agradáveis junto ao Senhor, bendito seja, que é o Doador, não se concebe que queira uma vez uma coisa e que se mude a sua vontade a ponto de que seja o seu oposto agradável diante dele numa outra vez; pois é impossível que queira o Senhor, bendito seja, a retidão numa vez e que seja agradável diante dele a iniquidade numa outra vez; e, se é assim, por que mudaria D'us a religião divina por uma outra que ela?
מִצַּד הַנּוֹתֵן: הַדְּבָרִים הַנִּרְצִים אֵצֶל הַשֵּׁם לֹא יְצֻיַּר שֶׁיִּרְצֶה פַּעַם דָּבָר וְיִשְׁתַּנֶּה רְצוֹנוֹ אֶל הֶפְכּוֹ — אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּרְצֶה הַיֹּשֶׁר פַּעַם וְהֶעָוֶל פַּעַם.
3 E pelo lado do receptor: pois, depois que a nação que recebe é uma e a mesma em si mesma, por que isto é que se mudaria no decorrer do tempo? Pois é impossível que se diga que, assim como a condução da saúde no menino é diferente da condução do jovem, e a condução do jovem da condução do velho, conforme a mudança dos tempos da infância à juventude e à velhice, assim é cabido que se mude a condução religiosa conforme a mudança dos tempos. Pois, ainda que isto se verifique num só homem — a saber que se mude a sua condução conforme a mudança dos seus tempos por força —, não se verifica isto num agrupamento político kibbutz medini, pois não se concebe nele esta mudança de que se mude da infância à juventude e à velhice, já que o consenso religioso haskamá datit torna todos os seus tempos iguais; não se concebe que a religião receba mudança pelo lado do receptor nisto.
מִצַּד הַמְקַבֵּל: הָאֻמָּה אַחַת — אֵין בָּהּ הִשְׁתַּנּוּת מִיַּלְדוּת לְבַחֲרוּת וּזְקֵנָה כְּמוֹ בְּאִישׁ אֶחָד, כִּי הַקִּבּוּץ הַמְּדִינִי תָּשִׂים כָּל עִתּוֹתָיו שָׁוִים.
4 E pelo lado da própria religião: pois, depois que o visado na Lei divina é dar a conhecer aos filhos do homem a representação de assuntos intelectuais e opiniões verdadeiras, isto não é do que se conceba a sua mudança em nenhum tempo, pois as opiniões verdadeiras é impossível que caia nelas mudança de modo algum — já que é impossível que seja a unidade verdade numa vez e a dualidade ou a trindade verdade numa outra vez, assim como é impossível, no que já saiu à existência e se acha em ato, que digamos que não foi e que não se achou assim. E por isso é manifesto que é impossível que caia mudança na religião divina, nem pelo lado da própria religião, nem pelo lado do Doador, nem pelo lado do receptor.
מִצַּד הַדָּת בְּעַצְמָהּ: הַדֵּעוֹת הָאֲמִתִּיּוֹת אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּפֹּל בָּהֶם שִׁנּוּי — אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּהְיֶה הָאַחְדוּת אֱמֶת פַּעַם וְהַשְּׁנִיּוּת אֱמֶת פַּעַם אַחֶרֶת.
5 Senão que, quando se examina esta opinião, acha-se que não é necessário que não se mude a religião divina para um e o mesmo povo. E isto é: que, ainda que não se mudem as opiniões em si mesmas nem o Doador, já é possível que caia nela mudança pelo lado do receptor; porque é da perfeição de todo agente que faça a sua ação conforme a preparação dos receptores, e, conforme a mudança da preparação do receptor, se muda a ação do agente sem dúvida — e isto não obriga mudança no estatuto do agente. Pois, assim como o médico dá um regime ao doente até um tempo estimado junto a ele que não revela ao doente, e, quando chega aquele tempo em que já se fortaleceu o doente da sua doença, muda o médico o seu regime e permite o que proibira e proíbe o que permitira — e não é cabido ao doente admirar-se disto, pois isto não é do que obriga mudança no estatuto da intenção primeira do médico, nem do que obriga deficiência no estatuto do médico a ponto de dizer que não deu no início um regime suficiente para todos os tempos; pois o médico, quando deu o regime primeiro, já sabia o tempo que era cabido que o doente se conduzisse por ele, e, ainda que não o revelasse ao doente, sabia o tempo cabido em que se mudaria aquele regime, conforme o que estimou da natureza do doente do tempo de que ele precisa a fim de que se mude da doença para a saúde; e no regime primeiro era a sua intenção corrigir a natureza do doente até que fosse cabido e preparado a receber o regime segundo, cabido de vir depois da preparação que preparou o regime primeiro, e, ao chegar aquele tempo, mudá-lo-ia para um outro regime que estava intencionado e sabido junto a ele no início.
מִצַּד הַמְקַבֵּל אֶפְשָׁר שֶׁיִּפֹּל שִׁנּוּי, כִּי הַפּוֹעֵל יִפְעַל כְּפִי הֲכָנַת הַמְקַבְּלִים. כְּהָרוֹפֵא שֶׁמְּשַׁנֶּה הַנְהָגָתוֹ כְּשֶׁיִּתְחַזֵּק הַחוֹלֶה — וְאֵין זֶה חִסָּרוֹן, שֶׁכָּךְ הָיָה מְכֻוָּן מִתְּחִלָּה.
6 Assim, deste modo, não é deficiência no estatuto do Senhor, bendito seja, se não deu no início uma Torá e um regime suficientes para todos os tempos. E isto é: que ele, quando deu a Torá, sabia que aquele regime bastaria até o tempo que estimou a sua sabedoria que bastaria para preparar os receptores e corrigir a sua natureza até que recebessem o regime segundo — ainda que não o revelasse ao homem; e, ao chegar o tempo, ordenaria o regime segundo; e, mesmo se há nele coisas opostas ao regime primeiro, assim estava ordenado junto a ele no início. E, assim como seria deficiência no estatuto do médico se ordenasse dar os alimentos fortes — como o pão e a carne e o vinho — aos que se levantam da doença, e aos meninos e aos que mamam dos peitos, antes que cresçam ou que se fortaleça a sua natureza para suportar os alimentos fortes, assim seria deficiência no estatuto do Doador da Torá se desse uma condução só, igual em todos os tempos, aos principiantes e aos habituados; mas é cabido que a mude conforme a mudança da preparação dos receptores, e, depois que se habituarem a uma condução sutil, elevá-los-á a uma condução mais forte, conveniente a eles conforme a sua natureza — como o pão e a carne e o vinho e os alimentos fortes, que, ainda que não sejam cabidos aos pequenos, são alimento cabido e conveniente aos grandes conforme a sua natureza; e, depois que se habituaram a ele pouco a pouco, é cabido mudar os pequenos para eles depois que crescerem — como faz o mestre melamed com o aluno, que o habitua no início na coisa fácil de entender, até que se habitue ao estudo pouco a pouco, e depois o transfere para um grau forte e profundo ao qual não era cabido no início do seu estudo e antes que se habituasse.
כְּמוֹ שֶׁהַחֹלֶה הַקָּם וְהַיּוֹנֵק אֵינָם רְאוּיִם לַמְּזוֹנוֹת הַחֲזָקִים (לֶחֶם, בָּשָׂר, יַיִן), כָּךְ יְשַׁנֶּה הַנּוֹתֵן הַהַנְהָגָה כְּפִי הֲכָנַת הַמְקַבְּלִים — כַּמְלַמֵּד הַמַּרְגִּיל הַתַּלְמִיד מִן הַקַּל אֶל הֶעָמֹק.
7 E, se disser um que diz que não é cabido que a mão do Senhor seja curta a ponto de não dar uma condução universal a todos os homens, do menino até o velho, igual em todos os tempos — eis que isto se assemelha à pergunta do que pergunta por que não criou o Senhor todos os homens justos, que anseiam servir o seu serviço, sem haver neles nada torto e perverso, já que isto seria uma perfeição maior junto a ele; pois isto não é assim, como escreveu o Rambam sobre isto e coisa semelhante a isto no capítulo trinta e dois do Maamar terceiro. E, assim como não dizemos que seria perfeição ao Senhor, bendito seja, criar todos os viventes possuidores de intelecto para louvar o Senhor, já que isto contradiz a natureza da existência, assim não é cabido dizer que seria louvor ao Senhor que corressem todas as coisas por via de milagre e não conforme o costume natural; pois a coisa com a qual concordam todos os sábios da Torá tora'niyim é que a natureza é preciosa aos olhos do Senhor, e que não a muda senão por uma grande necessidade da qual é impossível outra coisa senão ela. E nós, as nossas palavras aqui não são senão conforme o que o obriga o raciocínio conforme o que o dá a especulação religiosa; e o que quiser discordar e dizer que D'us renova milagres e maravilhas contínuos que contradizem a natureza da existência — a permissão está na sua mão. E os nossos mestres, de abençoada memória, que disseram que a Torá é um remédio perfeito sam tam e que ela é um remédio de vida para todos, na verdade quiseram com isto "para todos os membros do corpo", pois assim disseram "as palavras da Torá são colírio para o olho, emplastro para o coração, poção de raízes para os intestinos" etc., conforme se disse "e para toda a sua carne é cura" (Provérbios 4:22); mas não disseram que ela seria igual para todos os homens, e para as mulheres, e para as crianças, nem em todos os tempos. E a verdade das nossas palavras se explicará no capítulo que vem depois deste.
הַטֶּבַע יָקָר בְּעֵינֵי הַשֵּׁם וְלֹא יְשַׁנֵּהוּ אֶלָּא לְהֶכְרֵחַ גָּדוֹל. ״דִּבְרֵי תוֹרָה קִילוֹרִית לָעַיִן... וּלְכָל בְּשָׂרוֹ מַרְפֵּא״ — לְכָל הָאֵבָרִים, לֹא שָׁוֶה לְכָל הָאֲנָשִׁים וּבְכָל הַזְּמַנִּים.
Sob a questão aparentemente abstrata — "pode a Lei divina mudar?" — pulsa a grande polêmica medieval entre judaísmo, cristianismo e islã: cada uma das religiões posteriores alegava ter substituído ou revogado a anterior por uma nova revelação. Albo precisa, portanto, de uma teoria rigorosa da mutabilidade da Lei: o que pode e o que não pode mudar, e por quê. Este capítulo monta o aparato; o seguinte aplicará as conclusões à eternidade da Torá de Moisés.
Albo primeiro constrói, com honestidade, o caso contra a mudança, por três ângulos. (1) Pelo Doador: a vontade de D'us não oscila — Ele não pode querer a retidão hoje e o seu oposto amanhã; logo não trocaria a Lei. (2) Pelo receptor: embora um indivíduo mude (a saúde do menino, do jovem e do velho exige regimes diversos), um coletivo não envelhece — "o consenso religioso torna todos os seus tempos iguais"; a nação, como entidade, não passa da infância à velhice. (3) Pela própria Lei: o conteúdo essencial da Torá são verdades intelectuais, e a verdade não muda — "a unidade não pode ser verdadeira numa época e a trindade noutra". Por estes três lados, a Lei pareceria necessariamente eterna e imutável.
Mas Albo então reabre a questão com precisão cirúrgica. As verdades não mudam, o Doador não muda — concedido. Porém há um quarto fator: a preparação do receptor pode mudar, e "é da perfeição de todo agente agir conforme a disposição de quem recebe". Mudar a ação conforme o receptor não implica mudança no agente. Crucial: isto contorna o argumento (2), porque a mudança não seria do "envelhecer" do coletivo, mas da sua maturação pedagógica sob a própria Lei.
Três analogias luminosas concretizam a tese. O médico prescreve um regime ao doente até um prazo que já conhecia mas não revelou; quando o doente se fortalece, muda o regime — "permite o que proibira, proíbe o que permitira". Isso não é incoerência nem defeito: a mudança estava planejada desde o início, e o primeiro regime visava justamente preparar para o segundo. O alimento: seria defeito do médico dar pão, carne e vinho a recém-curados e a lactentes — alimentos fortes que só convêm a quem cresceu; assim seria defeito do Doador dar um único regime "igual para principiantes e habituados". O mestre gradua o aluno do fácil ao profundo. Em todos, a sequência não é improviso, mas plano: o estágio inicial existe para capacitar o seguinte.
Mas Albo fecha com uma cautela que será decisiva. À objeção "não poderia D'us dar de uma vez uma Lei perfeita para todos os tempos e idades?", responde, com Maimônides (Guia III:32), que isso equivale a perguntar por que D'us não criou todos os homens já justos, ou todos os animais racionais — pediria a suspensão da natureza. E "todos os sábios da Torá concordam que a natureza é preciosa aos olhos de D'us, que não a altera senão por grande necessidade". A revelação trabalha com a natureza humana e o seu desenvolvimento gradual, não contra ela. Note-se a ressalva metodológica honesta: "as nossas palavras aqui seguem o que o raciocínio obriga segundo a especulação religiosa" — quem quiser sustentar milagres contínuos contra a natureza "tem a permissão". Por fim, relê o dito rabínico de que a Torá é "remédio perfeito para todos": "todos" significa todos os membros do corpo (colírio para o olho, emplastro para o coração), não que seja idêntica "para todos os homens e em todos os tempos". Fica assim estabelecido o princípio — a Lei pode comportar mudança graduada conforme a maturação do receptor, dentro do respeito à natureza — cuja aplicação à Torá de Israel virá no capítulo seguinte.
A história mostra que as Leis divinas mudaram — de Adão a Noé, a Abraão, a Moisés —, do proibido ao permitido e vice-versa, conforme os tempos. Maimônides pôs por princípio que a Torá nunca muda, apoiando-se no "não acrescentarás nem diminuirás". Albo examina criticamente essa prova: o versículo proíbe que nós alteremos, mas não impede que o próprio D'us mude, quando a Sua sabedoria o decretar.
A história mostra que as Leis divinas mudaram — de Adão a Noé, a Abraão, a Moisés —, do proibido ao permitido e vice-versa, conforme os tempos. Maimônides pôs por princípio que a Torá nunca muda, apoiando-se no "não acrescentarás nem diminuirás". Albo examina criticamente essa prova: o versículo proíbe que nós alteremos, mas não impede que o próprio D'us mude, quando a Sua sabedoria o decretar.
1 Quando investigámos o assunto das religiões divinas que houve no mundo, achamo-las conduzindo-se por este caminho: que se mudavam do proibido ao permitido e do permitido ao proibido. E isto é: que no início foi ordenado Adão, o primeiro, com alguns mandamentos com os quais se conduziram os homens, conforme a tradição dos nossos mestres, de abençoada memória, até Noé; e a Noé permitiu a comida dos viventes, que era proibida a Adão, o primeiro — pois no início não permitiu a Adão a comida dos viventes, senão a comida dos vegetais apenas; disse a Escritura "eis que vos dei toda erva que semeia semente, que está sobre a face de toda a terra, e toda árvore em que há fruto de árvore que semeia semente; para vós será por comida" (Gênesis 1:29); e depois permitiu a comida dos viventes a Noé, disse "todo réptil que está vivo, para vós será por comida; como a erva verde vos dei tudo" (Gênesis 9:3), e acrescentou-lhe o mandamento do membro tirado do vivente éver min hachái. E a Abraão acrescentou o mandamento da circuncisão. E a Moisés acrescentou outros mandamentos, muitos, e proibiu algumas relações proibidas que eram permitidas aos filhos de Noé, e permitiu-lhes coisas que foram proibidas aos filhos de Noé — pois o animal, depois de abatido, é permitido a Israel, ainda que ainda esteja se contorcendo, e o filho de Noé é morto por causa dela, por comer membro tirado do vivente, até que morra o animal; e assim o filho de Noé é morto pelo roubo, e até por menos do que o valor de uma perutá, o que não se dá em Israel; e o filho de Noé que vê o seu companheiro roubando e não o impede é morto por isso — e por causa disto foram condenados todos os homens de Shechem à morte, porque viram Shechem roubando e não fizeram nele juízo, conforme o que escreveu o Rambam, de abençoada memória, no Livro dos Juízes; e assim o filho de Noé que veio sobre a sua irmã por parte do seu pai está isento, e o israelita é morto por causa dela.
הַדָּתוֹת הָיוּ מִשְׁתַּנּוֹת מֵהָאָסוּר אֶל הַהֶתֵּר וּמִן הַהֶתֵּר אֶל הָאָסוּר. לְאָדָם — צְמָחִים בִּלְבַד; לְנֹחַ — בָּשָׂר וְאֵבֶר מִן הַחַי; לְאַבְרָהָם — מִילָה; לְמֹשֶׁה — מִצְוֹת רַבּוֹת.
2 E coisa maior do que esta disseram no Sifrei sobre "e não levantarás para ti uma estela matsevá, que odeia o Senhor teu D'us" (Deuteronômio 16:22): "ainda que ela fosse amada nos dias dos patriarcas" — quer dizer, e mesmo nos dias de Moisés, pois, na hora da doação da Torá, construiu Moisés um altar debaixo do monte e levantou doze estelas para as doze tribos de Israel (Êxodo 24:4), e isto foi proibido nas planícies de Moav no ano quarenta; e a Jacó disse-lhe o Senhor "eu sou o D'us de Bet-El, onde ungiste ali uma estela" (Gênesis 31:13). Eis que está explícito que mesmo uma coisa que era do caminho dos adoradores do Senhor fazer para a honra do Senhor, e era permitida completamente nos dias de Moisés no monte Sinai, foi proibida a eles nas planícies de Moav, conforme a opinião dos nossos mestres, de abençoada memória. E eis que algumas das relações proibidas que foram permitidas aos filhos de Noé, acha-se a Escritura explicitamente proibindo-as. E tudo isto é do que indica que a religião divina se mudava do proibido ao permitido e do permitido ao proibido conforme a mudança dos tempos; e assim se conduzia este assunto em Adão, e Noé, e Abraão, até que veio Moisés; e desde que veio Moisés até aqui não se mudou.
״וְלֹא תָקִים לְךָ מַצֵּבָה אֲשֶׁר שָׂנֵא ה׳״ — ״אַף עַל פִּי שֶׁהָיְתָה אֲהוּבָה בִּימֵי הָאָבוֹת״. וְכֵן בִּימֵי מֹשֶׁה הֵקִים שְׁתֵּים עֶשְׂרֵה מַצֵּבוֹת, וְנֶאֱסַר בְּעַרְבוֹת מוֹאָב.
3 E a opinião do Rambam, de abençoada memória, é que a Torá não se mudará jamais, nem toda ela nem uma parte dela; por isso pôs como um dos princípios que a Torá não será substituída tenusach e não será mudada. E, depois que achámos as religiões divinas que houve até Moisés a se mudarem do proibido ao permitido e do permitido ao proibido, será isto um princípio particular da Torá de Moisés apenas. E apoiou o Rav este princípio no que se mencionou na Torá "não acrescentarás a ele e não diminuirás dele" (Deuteronômio 13:1); e explicou a razão no livro do Guia: porque a coisa equilibrada e perfeita é impossível que se acrescente a ela ou que se diminua dela sem que se corrompa aquele equilíbrio e aquela perfeição; e, porque a Torá era perfeita temimá, como testemunhou sobre ela a Escritura ao dizer "a Torá do Senhor é perfeita" (Salmos 19:8), é impossível que se mude em nenhum tempo. Este é o resumo das suas palavras neste assunto em muitos lugares.
דַּעַת הָרַמְבַּ״ם: לֹא תִּשְׁתַּנֶּה לְעוֹלָם. סָמַךְ הָעִקָּר אֶל ״לֹא תֹסֵף עָלָיו וְלֹא תִגְרַע מִמֶּנּוּ״ — שֶׁהַדָּבָר הַשָּׁלֵם אִי אֶפְשָׁר לְהוֹסִיף אוֹ לִגְרֹעַ. ״תּוֹרַת ה׳ תְּמִימָה״.
4 E as suas palavras nisto precisam de um exame grande, de onde saiu para nosso mestre, de abençoada memória, esta raiz. Pois, ainda que esta raiz seja preciosa de valor em muito — se é tradição, recebê-la-emos de bom semblante, e, se é por raciocínio, há o que responder. Pois o que se diz na Torá "não acrescentarás a ele e não diminuirás dele" não veio a advertir sobre o conjunto dos mandamentos da Torá, mas sobre o modo da sua feitura apenas; e veio a advertir a que não inventemos coisa do nosso coração nem aprendamos dos adoradores de idolatria a fazer acréscimo ou diminuição na descrição da feitura do mandamento, estando nós a pensar que isto é uma glorificação ao Senhor, bendito seja. E o sentido dos versículos comprova que sobre isto foi dito: na parashá "Re'ê" diz a Escritura, advertindo sobre o assunto do serviço dos ídolos, "quando o Senhor teu D'us cortar as nações para as quais tu vens ali a desapossá-las de diante de ti" (Deuteronômio 12:29), "guarda-te, não sejas enlaçado após elas depois de serem destruídas de diante de ti, e não busques acerca dos seus deuses a dizer: como serviam estas nações os seus deuses? e farei assim também eu" (Deuteronômio 12:30), "não farás assim ao Senhor teu D'us, pois toda abominação do Senhor que ele odeia fizeram para os seus deuses" etc. (Deuteronômio 12:31), "toda a coisa que eu vos ordeno, a ela guardareis a fazer; não acrescentarás a ela e não diminuirás dela" (Deuteronômio 13:1). E o sentido simples dos versículos é coisa muito de admirar: como diz "guarda-te, não sejas enlaçado após elas depois de serem destruídas de diante de ti" — acaso porque as veja destruídas de diante de si se enlaçaria após elas? E por que vinculou a busca dos seus deuses ao "depois de serem destruídas de diante de ti"?
״לֹא תֹסֵף״ לֹא בָא לְהַזְהִיר עַל כְּלַל הַמִּצְוֹת אֶלָּא עַל תְּכוּנַת עֲשִׂיָּתָן — שֶׁלֹּא נִלְמַד מֵעוֹבְדֵי עֲבוֹדָה זָרָה לְהוֹסִיף בְּתֹאַר הָעֲבוֹדָה.
5 Mas a explicação do versículo é assim: porque receou a Escritura que não se seduzisse o homem após os caminhos do serviço dos ídolos de nenhum modo, disse que talvez venha o homem a errar e dizer que o que o Senhor, bendito seja, ordenou a destruir os adoradores de idolatria foi porque a serviam com os serviços nobres cabidos ao Senhor, bendito seja; e, se é assim, depois que tu destruíres os adoradores de idolatria, talvez busques os caminhos daqueles serviços com os quais serviam os seus deuses e penses em fazer assim e servir o Senhor com aqueles serviços, estando tu a pensar que isto é uma glorificação ao Senhor. E isto é o que disse "e não busques acerca dos seus deuses a dizer: como serviam estas nações os seus deuses? e farei assim também eu" — quer dizer, ao Senhor —, "não farás assim ao Senhor teu D'us"; e explicou a razão "pois toda abominação do Senhor que ele odeia fizeram para os seus deuses" — quer dizer: não penses que o facto de o Senhor, bendito seja, ter proibido aqueles serviços foi porque teve ciúme deles, de que não os fizessem a outro que não ele, mas porque eles são desprezíveis aos seus olhos e abominação diante dele; e a prova para isto é que "também os seus filhos e as suas filhas queimam no fogo para os seus deuses" — e eles pensam que isto é uma glorificação ao Senhor, e no entanto são abominação diante dele, pois não deseja o Senhor a destruição do mundo nem ordena o matar dos homens, longe disso! Como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Taanit, capítulo primeiro, sobre o que disse Jeremias "e construíram os altos do Tófet a queimar os seus filhos e as suas filhas no fogo, o que não ordenei e não falei e não subiu ao meu coração" (Jeremias 7:31): "'que não ordenei' — este é o filho de Mesha, rei de Moav, de quem está escrito 'e tomou o seu filho primogênito, que reinaria em seu lugar, e o ofereceu por holocausto sobre o muro' (II Reis 3:27); 'e não falei' — esta é a filha de Jefté, o gileadita; 'e não subiu ao meu coração' — este é Isaque, filho de Abraão."
״אֵיכָה יַעַבְדוּ... וְאֶעֱשֶׂה כֵּן גַּם אָנִי — לֹא תַעֲשֶׂה כֵן לַה׳״. ״לֹא צִוִּיתִי״ — בֶּן מֵישַׁע; ״וְלֹא דִבַּרְתִּי״ — בַּת יִפְתָּח; ״וְלֹא עָלְתָה עַל לִבִּי״ — יִצְחָק.
6 E a explicação disto é: que a Mesha, rei de Moav, não se ordenou de modo algum acerca de sacrifícios como se ordenou a Israel, e sobre isto disse a seu respeito a expressão "não ordenei"; e a Jefté, o gileadita, que era do conjunto de Israel, a quem se era ordenado acerca de sacrifícios, disse a seu respeito "e não falei" — quer dizer, que não lhe falou o Senhor a que fizesse holocausto da sua filha de modo algum; e a Abraão, ainda que se o ordenasse a fazer sacrifícios e lhe falasse a elevar Isaque, seu filho, por holocausto, de todo modo não era a sua intenção, bendito seja, que o oferecesse em ato, e por isso disseram "'não subiu ao meu coração' — este é Isaque, filho de Abraão".
7 Eis que explicaram os nossos pais, de abençoada memória, que a feitura dos sacrifícios não é da coisa agradável a ele, bendito seja. E por isso diz a Escritura: não penses em engrandecer o Senhor ao fazeres diante dele aqueles serviços que fazem os adoradores de idolatria aos seus deuses, pois aqueles serviços não só não são agradáveis diante dele, mas são abominação diante dele — "pois toda abominação do Senhor que ele odeia fizeram para os seus deuses, já que também os seus filhos e as suas filhas queimam no fogo para os seus deuses". E concluiu o assunto a explicar como será o serviço diante dele, bendito seja, e disse "toda a coisa que eu vos ordeno, a ela guardareis a fazer; não acrescentarás a ela e não diminuirás dela" — quer dizer: não só não fará serviços com os quais não foi ordenado, mas também na descrição dos serviços não lhe é lícito acrescentar.
הַקָּרְבָּנוֹת אֵינָם מֵהַדָּבָר הַנִּרְצֶה. ״אֶת כָּל הַדָּבָר אֲשֶׁר אָנֹכִי מְצַוֶּה... לֹא תֹסֵף עָלָיו״ — אַף בְּתֹאַר הָעֲבוֹדָה אֵינוֹ רַשַּׁאי לְהוֹסִיף.
8 E assim a explicou o Ramban, de abençoada memória, na parashá "Re'ê"; e assim está ensinada no Sifrei: "daqui disseram: os sangues dados com uma só aspersão que se misturaram com os dados com uma só aspersão, serão dados com uma só aspersão" etc. E ainda aprenderam daqui no Sifrei para todos os mandamentos da Torá; juntaram "uma outra coisa: de onde se sabe que não se acrescenta sobre o lulav e sobre os tsitsit? Por isso diz a Escritura 'não acrescentarás a ele'; de onde se sabe que não se diminui deles? Por isso diz a Escritura 'e não diminuirás dele'; de onde se sabe que aquele que abriu a abençoar a bênção dos sacerdotes não diz 'visto que abri a abençoar, direi: o D'us dos vossos pais acrescente sobre vós' (cf. Deuteronômio 1:11)? Por isso diz a Escritura 'a coisa' — mesmo uma coisa só, não acrescentarás sobre ela." E isto está explícito como escrevemos. E Rashi, de abençoada memória, escreveu na parashá "Vaetchanan" sobre "não acrescentareis sobre a coisa que eu vos ordeno" (Deuteronômio 4:2): como cinco compartimentos de tefilin em vez de quatro; e assim "não diminuireis dele". E, se é assim, não há daqui prova para o que escreveu o Rambam, de abençoada memória.
הָרַמְבַּ״ן וְהַסִּפְרֵי: ״אֵין מוֹסִיפִין עַל הַלּוּלָב וְעַל הַצִּיצִית״. רַשִׁ״י: ״כְּגוֹן חָמֵשׁ טוֹטָפוֹת בִּתְפִלִּין״ — אֵין מִכָּאן רְאָיָה לְדִבְרֵי הָרַמְבַּ״ם.
9 E ainda se dificulta às suas palavras: que, se a Escritura advertisse a não acrescentar sobre o número dos mandamentos e a não diminuir deles, como disseram "o tribunal estipula a arrancar uma coisa da Torá por meio de 'senta e não faças'"? Acaso o tribunal transgride o "e não diminuirás dele"? E assim Salomão, que instituiu os eruvin e a impureza das mãos — transgrediu o "não acrescentarás a ele"? Em suma da coisa: não vejo nenhuma prova dos versículos que trouxe o Rambam, de abençoada memória, de que isto seja uma raiz para a Torá de Moisés de modo algum, como escreveu ele, de abençoada memória.
בֵּית דִּין מַתְנִין לַעֲקֹר דָּבָר מִן הַתּוֹרָה בְּשֵׁב וְאַל תַּעֲשֶׂה. שְׁלֹמֹה תִּקֵּן עֵרוּבִין וְיָדַיִם — אֵין רְאָיָה מִן הַפְּסוּקִים.
10 E digo ainda que, mesmo se a compreensão dos versículos for como escreveu ele, de abençoada memória, não há de lá prova para as suas palavras de modo algum de que a Torá não será substituída nem se mudará jamais. Pois a Escritura não adverte senão a que nós não acrescentemos e não diminuamos, do nosso próprio parecer, sobre os mandamentos; mas o que impede que não seja ele, bendito seja, a acrescentar ou diminuir, quando o decretar a sua sabedoria, bendito seja? E, se é porque a coisa equilibrada não há o que acrescentar a ela nem o que diminuir dela jamais — eis que isto, na verdade, se verifica no equilíbrio verdadeiro; mas o equilíbrio relativo hekeshi já é possível que se mude conforme a preparação dos receptores, pois o alimento equilibrado para a criança é o leite, e o equilibrado para o jovem é o pão e a carne e o vinho.
הַכָּתוּב מַזְהִיר שֶׁאֲנַחְנוּ לֹא נוֹסִיף מִדַּעְתֵּנוּ, אֲבָל מַה הַמּוֹנֵעַ שֶׁהוּא יִתְבָּרַךְ יוֹסִיף כְּשֶׁתִּגְזֹר חָכְמָתוֹ. הַשִּׁוּוּי הַהֶקֵּשִׁי יִשְׁתַּנֶּה כְּפִי הַכָנַת הַמְקַבְּלִים.
11 E assim se mudam os mandamentos divinos com a mudança dos tempos, como se mudou a proibição da carne, que foi proibida a Adão e permitida a Noé e seus filhos por causa da corrupção das opiniões que sucedeu a Caim e à sua descendência, como explicaremos — não como as palavras de quem escreveu que por isso foi proibida a carne a Adão, porque o mundo era novo, e, se se permitisse a Adão a comida da carne, seria possível que se acabassem muitas espécies dos viventes; e isto não é assim, pois, se a coisa fosse assim, seria cabido que não a permitisse a Noé e seus filhos, já que também naqueles dias os viventes eram poucos, e estavam ali Noé e os seus três filhos e as suas mulheres, que eram mais do que Adão e Eva, que estavam sós no tempo em que foi ordenado Adão sobre a comida da carne; e seria cabido conforme as suas palavras também que não voltasse a proibir alguns deles a Israel. Senão que daqui há uma prova de que as religiões divinas, mesmo se não se substituem em toda coisa, já se mudam na alternância do proibido ao permitido e do permitido ao proibido conforme a mudança das preparações dos receptores.
הַבָּשָׂר נֶאֱסַר לְאָדָם וְהֻתַּר לְנֹחַ — מִפְּנֵי קִלְקוּל הַדֵּעוֹת שֶׁל קַיִן. הַדָּתוֹת הָאֱלֹהִיּוֹת יִשְׁתַּנּוּ מֵהָאָסוּר אֶל הַהֶתֵּר כְּפִי הֲכָנַת הַמְקַבְּלִים.
O cap. 13 estabeleceu em princípio que a Lei divina pode mudar pelo lado do receptor. Este capítulo traz a prova empírica: a história das próprias Leis divinas. Albo traça a sucessão — Adão (só vegetais), Noé (carne permitida, mas proibido o membro de animal vivo), Abraão (circuncisão acrescentada), Moisés (muitos mandamentos novos, com inversões: o que era permitido aos noáquidas torna-se proibido a Israel e vice-versa). O exemplo mais forte é a matsevá (estela): "amada nos dias dos patriarcas", usada pelo próprio Moisés no Sinai (doze estelas), e proibida nas planícies de Moav no ano quarenta — uma mudança de permitido a proibido dentro da própria vida de Moisés. As Leis divinas, portanto, demonstravelmente mudaram.
Contra isso, Maimônides pôs como princípio de fé (um dos seus treze) que a Torá de Moisés nunca será substituída nem alterada — nem no todo nem em parte. Sua base escriturística é "não acrescentarás a ela nem diminuirás dela" (Dt 13:1), e o raciocínio: a Torá é "perfeita" (temimá, Sl 19), e ao perfeito/equilibrado nada se pode acrescentar ou tirar sem corrompê-lo. Note-se a concessão de Albo: as mudanças que ele documentou tornariam a imutabilidade, no máximo, um "princípio particular da Torá de Moisés", não uma lei geral das religiões divinas.
Albo então submete a prova de Maimônides a um exame rigoroso — com a célebre fórmula de respeito e independência: "se é tradição, recebê-la-emos de bom grado; se é raciocínio, há o que responder". Seu argumento: "não acrescentarás" não trata do número dos mandamentos, mas do modo de cumpri-los — proíbe importar dos cultos pagãos formas de "engrandecer a D'us". O contexto (Dt 12:29-13:1) confirma: o aviso vem logo após a ordem de destruir a idolatria, contra a tentação de pensar "como serviam estas nações os seus deuses? farei assim a D'us". E a leitura tradicional concorda: o Sifrei aplica "não acrescentar" ao lulav, aos tsitsit, à bênção sacerdotal; Rashi a "cinco compartimentos no tefilin" (em vez de quatro). Nenhum trata de revogar a Torá inteira.
Embutida está uma tese teológica ousada, herdada de Maimônides mas radicalizada: os sacrifícios não são intrinsecamente agradáveis a D'us. Albo lê o midrash de Taanit sobre Jeremias 7 com finura tripla: "não ordenei" (o sacrifício humano de Mesha — nunca mandado), "não falei" (a filha de Jefté — não dito a um israelita), "não subiu ao meu coração" (Isaque — Abraão foi mandado oferecer, mas nunca consumar). "D'us não deseja a destruição do mundo nem ordena matar homens." O culto sacrificial é concessão, não fim — o que reforça que a forma do serviço pode mudar.
O golpe final é duplo. Primeiro, objeções internas à leitura de Maimônides: se o versículo proibisse mexer no número dos mandamentos, como poderia o tribunal "arrancar uma lei da Torá por inação" (shev ve'al ta'asse), ou Salomão instituir os eruvin? Segundo — e mais profundo —, mesmo concedendo a leitura de Maimônides: o versículo proíbe que nós acrescentemos "do nosso próprio parecer"; nada impede que o próprio D'us acrescente ou mude "quando a Sua sabedoria o decretar". E o argumento do "equilíbrio perfeito" só vale para o equilíbrio absoluto; o equilíbrio relativo (hekeshi) muda com o receptor — o leite é o alimento equilibrado do bebê, o pão e a carne, do adulto. O capítulo fecha aplicando isso ao caso da carne (proibida a Adão, permitida a Noé — não por escassez de animais, mas, antecipa Albo, pela "corrupção das opiniões de Caim"). A conclusão é cuidadosamente calibrada: as Leis divinas de fato mudaram conforme a maturação dos receptores — preparando o terreno para Albo afirmar, nos capítulos seguintes, em que sentido preciso a Torá de Moisés é eterna, sem comprometer a soberania divina sobre ela.
Por que a carne foi proibida a Adão, permitida a Noé e parte dela de novo proibida a Israel? Albo dá a sua célebre leitura: comer carne gera "espessura" na alma, e era proibida por isso. Mas surgiu a opinião de Caim — o homem não é superior aos animais — que corrompeu o mundo. Para arrancá-la, D'us permitiu a carne a Noé. As três opiniões de Caim, Abel e Set, e as três seitas da humanidade.
Por que a carne foi proibida a Adão, permitida a Noé e parte dela de novo proibida a Israel? Albo dá a sua célebre leitura: comer carne gera "espessura" na alma, e era proibida por isso. Mas surgiu a opinião de Caim — o homem não é superior aos animais — que corrompeu o mundo. Para arrancá-la, D'us permitiu a carne a Noé. As três opiniões de Caim, Abel e Set, e as três seitas da humanidade.
1 E é cabido que expliquemos a razão desta mudança que achámos — que o que foi proibido a Adão foi permitido a Noé, e que o que foi permitido a Noé foi proibido em parte a Israel. E, a fim de que isto se explique com uma explicação bela, perguntaremos: que pecou Caim ao trazer do fruto do solo uma oferenda ao Senhor, tal que não atentou o Senhor para ele e para a sua oferenda? E, se foi porque não trouxe da parte seleta do rebanho e dos carneiros de Nevaiot, como trouxe Abel — que pecou nisto, se se ocupou no serviço do solo e prosperou nele e trouxe do seu fruto uma oferenda ao Senhor para agradecer diante dele sobre tudo o que lhe retribuiu o Senhor? Por que não atentou o Senhor para ele e para a sua oferenda? Pois o intelecto dá a entender que todo o que recebe um bem de outro, no que o alimentou e lhe deu de beber, é cabido que lhe pague agradecimentos do gênero do bem que recebeu dele, e não é obrigado a agradecer diante dele como se o vestira e o enriquecera e fizera com ele o que não fez; mas é cabido que o agradecimento seja do gênero da recepção do bem, e, se o agradecimento não for mais do que isso, não há sobre ele nisto reclamação nem iniquidade da qual pecou.
מַה חָטָא קַיִן בַּהֲבִיאוֹ מִפְּרִי הָאֲדָמָה מִנְחָה? וְאִם עַל שֶׁלֹּא הֵבִיא מִבְחַר הַצֹּאן, מַה חָטָא אִם הֵבִיא תּוֹדָה מֵעֵין הַטּוֹבָה שֶׁקִּבֵּל?
2 E, se foi porque não trouxe do fruto da árvore, mas apenas do fruto do solo, como escrevemos acima, não era cabido de um castigo grande tal que se escrevesse sobre ele "acaso não, se fizeres bem, haverá elevação? e, se não fizeres bem, à porta o pecado jaz" etc. (Gênesis 4:7). E assim há o que perguntar: depois que atentou o Senhor para Abel e para a sua oferenda, por que Abel foi morto? E como não acampou o anjo do Senhor ao redor dos que o temem para salvar da morte a sua alma? E assim, por que se disse a respeito de Set "e gerou Adão à sua semelhança, conforme a sua imagem" (Gênesis 5:3), e não se disse assim a respeito de Abel, para quem atentou o Senhor na sua oferenda?
אַחַר שֶׁשָּׁעָה הַשֵּׁם אֶל הֶבֶל, לָמָּה נֶהֱרַג? וְלָמָּה נֶאֱמַר בְּשֵׁת ״וַיּוֹלֶד בִּדְמוּתוֹ כְּצַלְמוֹ״ וְלֹא בְּהֶבֶל?
3 E a explicação de tudo isto, conforme o que penso, é deste modo: que, além do que há no matar dos viventes de crueldade da ira e de ímpeto de fúria e do aprendizado de uma disposição má ao homem a derramar sangue em vão, ainda gera a comida da carne de alguns viventes espessura e turvação e obtusidade na alma, como explicou a Escritura isto quando proibiu a Israel alguns viventes, disse no fim "e não tornareis abomináveis as vossas almas" etc. (Levítico 11:43), "e não vos tornareis impuros por eles e vos tornareis embotados venitmetem por eles" — escrito sem o álef, para indicar que eles geram espessura e obtusidade no coração; e assim disseram os nossos mestres, de abençoada memória, sobre este versículo: "a transgressão embota metamtemet a alma do homem, conforme se disse 'venitmetem bam' — não leias 'venitmetem' vos contaminais mas 'venitamtem' vos embotais." E por causa disto, ainda que a carne de alguns viventes seja alimento bom e conveniente ao homem, quis o Senhor retirar dele este bem escasso que há na comida da carne, em razão do mal e do dano abundante que é possível que decorra disto a ele; e por isso proibiu a comida dos viventes a Adão, e corrigiu o que faltava nisto de alimentos convenientes ao designar ao homem nos vegetais alimentos convenientes e bons — como o trigo e a cevada e toda coisa em que há semente cabida de semear, e toda árvore em que há fruto de árvore que semeia semente; e aos demais viventes deu-lhes por comida toda erva verde em que não há semente cabida de semear; e isto é para despertar a atenção sobre a vantagem que há entre a espécie do homem e os demais viventes.
אֲכִילַת בָּשָׂר תּוֹלִיד עֹבִי וַעֲכִירוּת בַּנֶּפֶשׁ. ״וְנִטְמֵתֶם בָּם״ חָסֵר אל״ף — ״עֲבֵרָה מְטַמְטֶמֶת נַפְשׁוֹ שֶׁל אָדָם״. לָכֵן נֶאֱסַר הַבָּשָׂר לְאָדָם.
4 E, quando nasceram Caim e Abel e viram Adão, seu pai, a labutar no serviço do solo e a semear trigo e cevada e grãos de uva e a comer e a se nutrir dos vegetais, pensou cada um deles um caminho para si, e a intenção de cada um deles era reconhecível de dentro das suas ações. Pois Caim tomou para si o ofício de servir o solo, porque pensava que não há vantagem para o homem sobre os viventes senão nisto — em ser ele o que sabe servir o solo a fim de se nutrir dos vegetais mais seletos; pois, depois que viu o homem a se nutrir dos vegetais como os demais viventes, pensou que há um só espírito para todos, e que, como a morte deste, assim a morte daquele kemot ze ken mot ze; e por isso trouxe uma oferenda do fruto do solo para louvar o Senhor sobre a vantagem que lhe deu sobre os vegetais, e não trouxe sacrifício dos viventes, já que não considerava a vantagem que tem sobre eles uma vantagem grande tal que fosse cabido trazer sacrifício sobre ela; senão que, porque lhe era cabido trazer do fruto da árvore, que é o mais seleto dos vegetais, e não trouxe senão do fruto do solo — quer dizer, das hortaliças —, pecou, como dissemos acima; mas o fundamento do pecado foi porque não considerava a vantagem que tem o homem sobre os viventes como nada, e considerava também o ser ele proibido no matar dos viventes, depois de ser igual a eles conforme a sua opinião — pois, como a morte deste, assim a morte daquele —, e pensava que o fundamento do seu fim era comer e beber, depois de se nutrir dos vegetais como os viventes.
קַיִן חָשַׁב שֶׁאֵין יִתְרוֹן לָאָדָם עַל הַבַּעֲלֵי חַיִּים — ״כְּמוֹת זֶה כֵּן מוֹת זֶה״ — וְהֵבִיא מִפְּרִי הָאֲדָמָה, וְחָשַׁב שֶׁעִקַּר תַּכְלִיתוֹ לֶאֱכֹל וְלִשְׁתּוֹת.
5 E Abel pensava que há para o homem vantagem sobre os viventes, mas pensava que esta vantagem é que ele tenha domínio sobre eles e os subjugue sob si para fazer o seu trabalho, mas não que lhe seja permitido matá-los, pois não considerava que houvesse para o homem vantagem sobre os viventes nisto; e por isso disse a Escritura "e Abel trouxe também ele dos primogênitos" (Gênesis 4:4) — quer dizer, também ele estava sobre a intenção de Caim, e pensava que o homem seria proibido no matar dos viventes a não ser para uma necessidade superior tsórech gavôah e a fazer deles sacrifício diante dele, para indicar que ele, bendito seja, é o que tem vantagem sobre o homem e sobre o animal — pois todos perecem e ele permanece —, mas o homem não tem vantagem sobre eles senão em ser ele o que os apascenta e conduz as cidades e coisas semelhantes a isto; e por isso foi morto Abel, por ser esta opinião muito próxima da opinião de Caim e mais preparada para que errem nela os homens e se arrastem após ela.
הֶבֶל חָשַׁב שֶׁיֵּשׁ לָאָדָם מֶמְשָׁלָה אֲבָל לֹא לְהָרְגָם, אֶלָּא לְצֹרֶךְ גָּבוֹהַּ. ״גַּם הוּא״ — עַל כַּוָּנַת קַיִן, וּלְפִי שֶׁקְּרוֹבָה לְדַעַת קַיִן נֶהֱרַג.
6 Mas, porque a opinião de Abel era que há para o homem vantagem sobre os viventes e domínio sobre eles e que pode matá-los para uma necessidade superior, e ela está próxima de que se reconheça por meio dela a vantagem do homem sobre os viventes, e reconheceu a excelência do Senhor ao trazer dos primogênitos do seu rebanho e das suas gorduras, atentou o Senhor para Abel e para a sua oferenda, por estar ele próximo da perfeição mais do que a opinião de Caim; e não atentou para Caim e para a sua oferenda, por estar ele muito distante da verdade, depois de pensar que não há para o homem vantagem sobre os viventes, e também porque não reconheceu a excelência do Senhor, depois de trazer do fruto do solo e não do fruto da árvore, como dissemos. E disse-lhe o Senhor, bendito seja, "por que se acendeu a ira para ti, e por que caiu o teu rosto? acaso não, se fizeres bem, haverá elevação?" (Gênesis 4:6-7) — quer dizer: verdade é como as tuas palavras, que "como um jumento selvagem o homem nasce" (Jó 11:12), e não tem vantagem e exaltação sobre os viventes em ato no tempo do seu sair ao ar do mundo, mas tem sobre eles vantagem em potência para fazer bem nas suas ações e extrair o que está em sua potência ao ato e reconhecer a excelência do Senhor; e, se fizer bem as suas ações, terá exaltação sobre eles — e isto é "acaso não, se fizeres bem, haverá elevação". E por causa disto entrou o ciúme no coração de Caim e matou Abel, estando ele arrastado após a sua intenção primeira de que não há para o homem vantagem sobre os viventes; e disse no seu coração que, depois que o Senhor, bendito seja, atentou para Abel e para a sua oferenda, parece que é permitido matar os viventes, e pensou que não há no matar de Abel proibição mais do que no matar de um dos viventes; e, porque ainda não era a intenção de Abel cabida de todo em todo, não foi alcançado a ser salvo da palma do iníquo e violento.
שָׁעָה הַשֵּׁם אֶל הֶבֶל לִהְיוֹתוֹ קָרוֹב אֶל הַשְּׁלֵמוּת. ״הֲלוֹא אִם תֵּיטִיב שְׂאֵת״ — יֵשׁ לָאָדָם יִתְרוֹן בְּכֹחַ לְהוֹצִיא מַעֲשָׂיו אֶל הַפֹּעַל.
7 E, quando se revelou o Senhor, bendito seja, a Caim e lhe destinou o castigo sobre isso, não pensou por causa disto que o derramamento do sangue do homem fosse mais grave do que o derramamento do sangue dos demais viventes, mas pensava que, assim como era castigado pelo derramamento do sangue do homem, assim seria castigado pelo derramamento do sangue dos viventes, depois de não lhe ter sido permitido ao homem matá-los — pois pensava que o espírito do homem e o espírito do animal eram iguais, e que como a morte deste, assim a morte daquele. E restou esta opinião corrompida em Caim e na sua descendência, até que nasceu Set, que reconheceu a vantagem que tem o homem sobre os viventes, como reconheceu isto Adão, seu pai; e por isso se disse a seu respeito "e gerou Adão à sua semelhança, conforme a sua imagem" — pois só ele estava na imagem de D'us como o estava Adão, mas os primeiros não reconheceram a excelência da forma humana que há neles, que está na imagem de D'us.
נִשְׁאַר הַדַּעַת הַנִּפְסָד בְּקַיִן וּבְתוֹלְדוֹתָיו עַד שֶׁנּוֹלַד שֵׁת, שֶׁהִכִּיר הַיִּתְרוֹן — ״וַיּוֹלֶד בִּדְמוּתוֹ כְּצַלְמוֹ״, שֶׁהָיָה בְּצֶלֶם אֱלֹהִים.
8 E sobre estas três opiniões — de Caim e Abel e Set — achas que todos os homens se dividem em três seitas. Uma seita se arrasta após a opinião de Caim, e considera o serviço do solo como fundamental, e tem ciúme dos condutores das cidades e pensa em matá-los, como matou Caim a Abel. E uma seita se arrasta após a opinião de Abel, e considera as conduções das cidades como fundamentais, e arriscam a sua alma sobre isto como Abel, e pensam que isto é o fundamento da perfeição do homem — como se narra isto sobre alguns dos condutores de Roma, e assim arriscam os reis a si mesmos por causa do domínio, e é como que isto é natural para eles, depois de Abel, que era o pastor e o condutor primeiro, e foi morto. E uma seita se arrasta após a opinião de Set, e considera o serviço do Senhor, bendito seja, como fundamental, e despreza o domínio e as demais felicidades. E, porque a opinião de Set era não-apreendida no início do pensamento, não se arrastavam após ela senão indivíduos seletos; mas a opinião de Caim se espalhava muito na sua descendência, e por causa disto se encheu a terra de violência de diante deles, pois não pensavam que houvesse para o homem vantagem sobre os viventes, mas que todo o que é forte prevalece kol de'alim gavar; e por isso corrompiam o seu caminho como os viventes, e por causa disto foi decretado um decreto a apagar o seu nome da terra nos dias do dilúvio.
שָׁלֹשׁ כִּתּוֹת: כַּת קַיִן (עֲבוֹדַת הָאֲדָמָה עִקָּר), כַּת הֶבֶל (הַנְהָגַת הַמְּדִינוֹת עִקָּר), כַּת שֵׁת (עֲבוֹדַת הַשֵּׁם עִקָּר). דַּעַת קַיִן הִתְפַּשְּׁטָה, וּמָלְאָה הָאָרֶץ חָמָס.
9 E, quando foram todos apagados e restou apenas Noé e os que estavam com ele na arca, quis o Senhor, bendito seja, extirpar esta opinião e arrancá-la do mundo. E, quando saiu Noé da arca, ofereceu um sacrifício ao Senhor dos viventes, partindo do seu saber de que o homem tem uma vantagem de força intelectual para reconhecer e servir o seu Criador mais do que eles, e para agradecer ao Senhor sobre isto; por isso foi recebido o seu sacrifício com benevolência, como está escrito "e cheirou o Senhor o aroma agradável" (Gênesis 8:21). E, porque receou que esta opinião, se não for corrigida, seja possível que pendam eles para a opinião de Abel, e pensem os filhos de Noé que o facto de o Senhor, bendito seja, ter recebido o sacrifício do seu pai foi como quando recebeu o sacrifício de Abel, e voltem à sua corrupção primeira — por isso, depois do sacrifício, imediatamente apressou-se a permitir-lhes a comida dos viventes e o matá-los, e disse-lhes "como a erva verde vos dei tudo" (Gênesis 9:3) — quer dizer: como, no que mesmo Caim reconheceu que há para o homem vantagem sobre os vegetais, por serem eles criados para a necessidade do homem, assim todos os viventes existem para a necessidade do homem, e tem o homem vantagem sobre eles, de modo que não há um só espírito para todos; e por isso proibiu o derramamento do sangue do homem, e deu a razão nisto de que o seu espírito não é como o espírito dos viventes, pois "na imagem de D'us fez o homem" (Gênesis 9:6) — quer dizer, que há nele uma forma intelectual mais nobre do que o espírito dos viventes; e seria cabido, conforme isto, que lhes permitisse todos os viventes e não pusesse para um deles vantagem sobre o outro — e por isso permitiu-os todos, a fim de arrancar a opinião precedente e apagar a sua memória do mundo.
רָצָה הַשֵּׁם לְשָׁרֵשׁ דַּעַת קַיִן, וְהִתִּיר לְנֹחַ הַבָּשָׂר: ״כְּיֶרֶק עֵשֶׂב נָתַתִּי לָכֶם אֶת כֹּל״ — שֶׁהַבַּעֲלֵי חַיִּים לְצֹרֶךְ הָאָדָם. ״בְּצֶלֶם אֱלֹהִים עָשָׂה אֶת הָאָדָם״.
10 E, quando foi dada a Torá a Israel, quando já se apagara esta opinião do mundo, proibiu-lhes alguns viventes que geram espessura e turvação na alma; e mesmo o que lhes permitiu deles, não falou a Torá senão em face da má inclinação yétzer hará, como lhes permitiu a mulher de belo aspecto yefat tóar deste modo. E assim disseram os nossos mestres, de abençoada memória, sobre "quando desejar a tua alma comer carne" (Deuteronômio 12:20): "ensinou a Torá a boa conduta derech érets, que não coma o homem carne senão por desejo letiavón" — eis que revelaram explicitamente que a comida da carne não foi permitida senão pelo lado da necessidade hechrach, e por isso foi proibida no início da criação, com o facto de ser ela alimento bom, pela razão que mencionámos no início do capítulo; como o vinho, que, ainda que seja alimento bom e permitido ao homem, chama a Escritura "santo" kadosh ao nazireu que se aparta dele. E explicou-se de tudo isto que já é possível que seja a coisa una permitida depois de ter sido proibida, e proibida depois de ter sido permitida; e, se é assim, já é possível que digamos que venham na Lei divina coisas cuja proibição se estenda por algum tempo conforme o que decrete a Sabedoria divina, e depois as permita conforme o que decrete a sua sabedoria, bendito seja; e não há nos versículos prova do oposto disto. E, na verdade, quais são as coisas em que é possível que venha nelas a anulação, ainda se explicará neste Maamar, com a ajuda do Senhor, bendito seja.
״כִּי תְאַוֶּה נַפְשְׁךָ לֶאֱכֹל בָּשָׂר... לֹא יֹאכַל אָדָם בָּשָׂר אֶלָּא לְתֵאָבוֹן״ — לֹא הֻתַּר אֶלָּא עַל צַד הַהֶכְרֵחַ. אֶפְשָׁר שֶׁיִּהְיֶה דָּבָר מֻתָּר אַחַר שֶׁנֶּאֱסַר וְאָסוּר אַחַר שֶׁהֻתַּר.
Este é um dos capítulos mais originais e admirados do Sefer HaIkkarim. Albo transforma a obscura narrativa de Caim e Abel numa filosofia da história das ideias religiosas, e com ela resolve o enigma do estatuto cambiante da carne — caso-teste da mutabilidade da Lei levantado no capítulo anterior. A pergunta condutora é dupla e aguda: que pecou Caim (a gratidão "do gênero do bem recebido" parece legítima)? E por que Abel, aceito, foi morto e não protegido?
Albo apresenta primeiro a sua tese sobre por que a carne foi proibida a Adão: além da crueldade que o abate ensina ("derramar sangue em vão"), comer carne "gera espessura, turvação e obtusidade na alma". A prova é um trocadilho talmúdico sobre Levítico 11:43 — venitmetem ("e vos contaminareis"), escrito sem álef, lê-se venitamtem ("e vos embotareis"): "a transgressão embota (metamtemet) a alma". Por isso D'us retirou esse "bem escasso" e deu ao homem alimentos vegetais nobres (grãos, frutos), reservando aos animais a "erva verde" — marcando a própria diferença entre o homem e os brutos.
O coração do capítulo é a leitura das três figuras como três teses antropológicas, legíveis nas suas ações:
Caim — vendo Adão comer vegetais como os animais, conclui que "há um só espírito para todos, como a morte deste, assim a do outro" (Ecl 3:19): o homem não é superior aos animais. Sua oferenda vegetal expressa que ele só se julga acima das plantas; e, negando a superioridade humana sobre os animais, julga proibido matá-los. O fundo do seu pecado não é a oferta inferior (embora trazer hortaliças em vez de frutos já fosse falha), mas o materialismo que reduz o fim humano a "comer e beber".
Abel — reconhece a superioridade humana, mas só como domínio (pastoreio, governo), não como direito de matar; mata animais apenas para "necessidade superior" (sacrifício). Sua posição é mais elevada — e por isso aceita —, mas perigosamente próxima da de Caim, e por isso ele "não foi salvo": sua intenção "ainda não era plenamente correta". Albo lê "também ele trouxe" (gam hu) como sinal de que Abel ainda partilhava em parte a premissa de Caim.
Set — só dele se diz "à imagem de D'us" (Gn 5:3), porque só ele reconheceu plenamente a forma intelectual que distingue o homem; sua tese é que o fim humano é o serviço de D'us, acima do trabalho e do poder.
Bela é a leitura de Gn 4:7. D'us concede a Caim metade da razão: "verdade, 'como jumento selvagem o homem nasce' — em ato ele não nasce superior aos animais". Mas corrige: a superioridade é em potência — "se fizeres bem, haverá elevação". O homem não nasce acima dos brutos; torna-se, atualizando o intelecto e reconhecendo o Criador. É a mesma doutrina dos caps. 2-3 (a perfeição como potência a atualizar) projetada no mito das origens.
Albo universaliza: toda a humanidade divide-se nas três seitas — os "caimitas" (trabalho/materialismo, invejosos dos governantes), os "abelitas" (poder político como fim supremo — e cita os líderes de Roma e os reis que arriscam a vida pelo domínio) e os "setitas" (serviço de D'us — sempre poucos). A opinião de Caim espalhou-se, "encheu a terra de violência" (a lei do mais forte, kol de'alim gavar), e causou o Dilúvio. Aqui Albo entrega a solução do problema da carne: D'us permitiu a carne a Noé justamente para erradicar a tese de Caim — comer animais proclama que o homem lhes é superior, "não há um só espírito para todos", o sangue humano é inviolável "porque na imagem de D'us fez o homem". A permissão foi um remédio histórico, não uma mudança de valor. E quando, gerações depois, a tese caimita já estava extinta, a Torá pôde reproibir certos animais (os que "embotam a alma") — e mesmo a carne permitida é só "concessão à inclinação" ("a Torá ensinou que não se coma carne senão por desejo"; cf. a yefat tóar e o nazireu "santo" por abster-se do vinho). A conclusão fecha o arco dos caps. 13-15: uma mesma coisa pode ser permitida após proibida e proibida após permitida, conforme a Sabedoria divina e a maturação dos receptores — logo a Lei divina pode conter preceitos temporários, e nada nos versículos prova o contrário. Resta saber (próximos capítulos) quais preceitos comportam revogação.
Alguns provam a eternidade da Torá pelas expressões "estatuto eterno", "para vossas gerações", "sinal para sempre". Albo refuta: "olam" e seus afins designam, na Escritura, tempo limitado, não infinito; e os Sábios disseram que as festas serão anuladas no futuro. Como prova de que a Lei pode mudar por ordem de D'us, traz a mudança da escrita hebraica para a assíria e da contagem dos meses, após a segunda redenção.
Alguns provam a eternidade da Torá pelas expressões "estatuto eterno", "para vossas gerações", "sinal para sempre". Albo refuta: "olam" e seus afins designam, na Escritura, tempo limitado, não infinito; e os Sábios disseram que as festas serão anuladas no futuro. Como prova de que a Lei pode mudar por ordem de D'us, traz a mudança da escrita hebraica para a assíria e da contagem dos meses, após a segunda redenção.
1 Há quem pensou trazer prova para a eternidade da Torá de Moisés do que se acha na Escritura que, em alguns mandamentos, menciona a expressão "estatuto eterno" chukat olam, e em alguns "por vossas gerações" ledorotechem, e em alguns "sinal é ela para sempre" ot hi le'olam — como no Dia da Expiação e na proibição do grão novo chadash, acerca dos quais se disse "estatuto eterno, por vossas gerações, em todas as vossas habitações" (Levítico 23:14,31); e no Shabat se disse "entre mim e os filhos de Israel sinal é ela para sempre" (Êxodo 31:17); e no Pessach se disse "por estatuto a ti e aos teus filhos até a eternidade" (Êxodo 12:24); e além destes dos mandamentos em que se disse neles "estatuto eterno" ou "por vossas gerações" ou "em todas as vossas habitações".
2 E isto não é prova, pois há para o adversário o que discordar e dizer que de lá há uma prova de que os demais mandamentos estão no futuro a anular-se, depois de ter sido cuidadoso a respeito destes apenas. E ainda, explicitamente dizemos no tratado Kidushin: "'habitações' que escreveu o Misericordioso a respeito da gordura chélev e do sangue, para que serve? Subiria à mente dizer: visto que no assunto dos sacrifícios está escrito, no tempo em que há sacrifício seja proibido, e onde não há sacrifício não seja proibido; por isso nos faz saber que sempre é proibido." E assim explicou ali a razão de por que se mencionou "estatuto eterno" no Dia da Expiação e na proibição da comida do grão novo mais do que nos demais mandamentos — do que se vê das suas palavras que por isso se escreveu nestes, porque era possível que subisse à mente que não se conduzissem estes mandamentos mesmo no tempo em que os demais mandamentos se conduzem; mas não vieram estas expressões a indicar a eternidade da Torá de modo algum, pois é possível dizer que, ao se anularem os demais mandamentos, se anulem estes também.
״חֻקַּת עוֹלָם״, ״לְדֹרֹתֵיכֶם״, ״אוֹת הִיא לְעוֹלָם״ — אֵינָהּ רְאָיָה. ״מוֹשָׁבוֹת דִּכְתַב רַחֲמָנָא גַּבֵּי חֵלֶב וָדָם״ — לֹא בָּאוּ לְהוֹרוֹת עַל נִצְחִיּוּת.
3 E da expressão "olam" ou "ad olam" ou "chukat olam" ou "le'olam" não há prova, pois já se acham estas expressões e as que se lhes assemelham referindo-se a um tempo delimitado, não a um tempo não-finito. "Olam" é como "não recues o limite eterno olam que fizeram os teus pais" (Provérbios 22:28), que quer dizer um limite antigo, de um tempo delimitado, vindo dos teus pais; e assim "pois desde a eternidade me'olam quebrei o teu jugo" (Jeremias 2:20); e "e será agradável ao Senhor a oferenda de Judá e de Jerusalém como nos dias da eternidade olam" (Malaquias 3:4). E assim "olamim" se diz referindo-se a um tempo determinado: "habitarei na tua tenda por eternidades olamim" (Salmos 61:5); "Israel é salvo pelo Senhor com salvação de eternidades olamim" (Isaías 45:17), que se disse sobre a salvação de Senaqueribe; e assim "já houve nas eternidades olamim que foram antes de nós" (Eclesiastes 1:10), que quer dizer tempos longos. E assim "le'olam" se diz referindo-se a um tempo curto, delimitado, como "e servi-lo-á para sempre le'olam" (Êxodo 21:6), que vai até o ano do jubileu. E assim "ad olam": disse Ana "e o trarei, e veremos a face do Senhor, e ele ficará ali até a eternidade ad olam" (I Samuel 1:22), que são os cinquenta anos, que é a eternidade a vida útil do levita, conforme se disse "e de com cinquenta anos voltará do serviço do trabalho, e não trabalhará mais" (Números 8:25); e acha-se "ad olam" referindo-se a um tempo curto, finito, mas desconhecido junto aos filhos do homem, conhecido apenas junto ao Senhor, bendito seja: disse Isaías "pois o palácio foi abandonado, a multidão da cidade deixada; a colina e a torre serviram de cavernas até a eternidade ad olam" (Isaías 32:14), e está escrito depois disso "até que se derrame sobre nós um espírito do alto" (Isaías 32:15). E assim "todos os dias da eternidade kol yemei olam" se diz referindo-se a um tempo curto, delimitado: disse Isaías "e os ergueu e os carregou todos os dias da eternidade" (Isaías 63:9), e está escrito depois disso "e eles se rebelaram e entristeceram o espírito da sua santidade, e ele se tornou para eles um inimigo, e ele combateu contra eles" (Isaías 63:10).
״אַל תַּסֵּג גְּבוּל עוֹלָם״ — מִזְּמַן מֻגְבָּל. ״וַעֲבָדוֹ לְעֹלָם״ — עַד הַיּוֹבֵל. ״עַד עוֹלָם״ — חֲמִשִּׁים שָׁנָה, עוֹלָמוֹ שֶׁל לֵוִי. כָּל אֵלּוּ עַל זְמַן בַּעַל תַּכְלִית.
4 E em geral digo que não há expressão em todas estas expressões e nas que se lhes assemelham que indique a eternidade ou um tempo não-finito por força, mas cada uma se explica conforme o seu assunto, conforme o seu lugar. Pois eis que a expressão "lanétzach" para sempre, cujo sentido é expressão de eternidade, achamo-la referindo-se a um tempo curto, finito: disse a Escritura sobre o repouso da Glória Shechiná no monte Sinai "o monte que D'us desejou para a sua habitação, também o Senhor habitará para sempre lanétzach" (Salmos 68:17) — e não habitou a Glória para sempre no monte Sinai, pois eis que, quando se fez a tenda do encontro, retirou-se a Glória do monte Sinai e habitou na tenda do encontro. E assim "chukat olam" não indica por força que perdure por um tempo não-finito, pois eis que a respeito da menorá se disse nela "estatuto eterno por vossas gerações" (Êxodo 27:21; Levítico 24:3), e ela tem cessação desde que se destruiu a Casa do Templo até agora. E eis que o Pessach e a festa de Sucot, acerca dos quais se disse em cada um deles "estatuto eterno", e, ainda assim, disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no Vayikrá Rabbá, que todas as festas estão no futuro a anular-se exceto Purim e o Dia da Expiação — vê-se que a sua intenção nisto é que a explicação de "estatuto eterno" é que não os anulemos por nós mesmos, mas por ordem do Senhor já é possível que se anulem.
״לָנֶצַח״ נֶאֱמַר עַל הַר סִינַי, וְלֹא שָׁכַן לָנֶצַח. ״חֻקַּת עוֹלָם״ בַּמְּנוֹרָה — וְיֵשׁ לָהּ הֶפְסֵק. ״כָּל הַמּוֹעֲדוֹת עֲתִידִין לִיבָּטֵל חוּץ מִפּוּרִים וְיוֹם הַכִּפּוּרִים״.
5 E assim achamos que nos dias de Esdras anularam a contagem dos meses desde Nissan, que a contavam assim conforme os juízos da Torá, porque está escrito "este mês é para vós cabeça de meses; primeiro é ele para vós para os meses do ano" (Êxodo 12:2) — e ela é o mandamento primeiro com que foram ordenados Israel. Pois, ainda que Tishrei seja cabeça do ano para a contagem dos anos do mundo — como disse a Escritura "e a festa da colheita na volta do ano" (Êxodo 34:22), "e a festa da colheita na saída do ano" (Êxodo 23:16), e dele se conta para as shemitot e para os jubileus —, ordenou a Torá a contar a contagem dos meses desde Nissan em todas as suas contagens, porque então saíram Israel do Egito e foi o início do brotar da nação; e assim a Escritura conta ela também todas as suas contagens desde Nissan: "e foi, no ano segundo, no mês segundo, no dia vinte do mês" (Números 10:11), "no mês terceiro" etc. (Êxodo 19:1), "e no mês sétimo no primeiro do mês" (Números 29:1), "e no dia dez deste mês sétimo é o Dia da Expiação" (Levítico 23:27); e não há para os meses nomes nos juízos da Torá, mas é cabido que o seu nome seja "segundo", "terceiro", "quarto", "quinto", "sexto", "sétimo" a Nissan, em memória da saída do Egito — e isto é o que disse a Escritura "primeiro é ele para vós para os meses do ano", quer dizer: para a contagem dos meses contareis desde Nissan, ainda que para a contagem dos anos seja cabido contar desde Tishrei, como dissemos.
״הַחֹדֶשׁ הַזֶּה לָכֶם רֹאשׁ חֳדָשִׁים״ — לִמְנוֹת מִנִּיסָן זֵכֶר לִיצִיאַת מִצְרַיִם. וְאֵין לֶחֳדָשִׁים שֵׁמוֹת בְּמִשְׁפְּטֵי הַתּוֹרָה, אֶלָּא שֵׁנִי שְׁלִישִׁי לְנִיסָן.
6 E, quando subiram da Babilônia, viram por bem fazer uma memória para a redenção segunda, e fizeram isto com duas coisas: a primeira, que abandonaram a escrita hebraica ktav ivri e escolheram para si a escrita assíria ktav ashurit, em memória de que foram exilados para a Assíria e foram redimidos de lá. E assim disseram os nossos mestres, de abençoada memória, na Tossefta do tratado Sanhedrin: "por que se chamou o seu nome 'ashurit'? Porque subiu com eles da Assíria. Rabi diz: nesta escrita foi dada a Torá a Israel etc., e por que se chamou o seu nome 'ashurit'? Porque é formosa me'usheret na escrita." E, conforme o que se vê da discussão da Guemará no início do capítulo "Kol Kitvei", a escrita que está em nossas mãos hoje, com que os livros se escrevem, não é a escrita hebraica, sem dúvida; e, se é assim, há o que dizer que Rabi não discorda senão para dizer que, depois que as Tábuas foram escritas com ela, não se chamou o seu nome "ashurit" porque subiu com eles da Assíria — mas reconhecerá que a escrita usada na nação antigamente, que era escrita hebraica, se mudou; e, mesmo se disseres que ele discorda nisto, é sabido que não valem as palavras de Rabi, que é indivíduo, no lugar das palavras dos sábios coisa alguma.
7 E ainda, pois na Guemará de Sanhedrin, capítulo "Cohen Gadol", explicaram os amoraítas as palavras dos sábios; pois assim disseram ali: "disse Rav Chisda em nome de Mar Ukva: no início foi dada a Torá a Israel em escrita hebraica e língua sagrada; quando subiram os filhos do exílio nos dias de Esdras, escolheram para si a escrita assíria e a língua sagrada, e deixaram para os leigos hediotot a escrita hebraica" — quer dizer, para os cuteus samaritanos que habitavam então na terra de Israel, antes de eles subirem a deixaram para eles a escrita hebraica e a língua aramaica. Eis que os amoraítas concordam em que a escrita que está em nossas mãos hoje não é a escrita hebraica.
הִנִּיחוּ כְּתָב עִבְרִי וּבָחֲרוּ כְּתָב אַשּׁוּרִי, זֵכֶר לַגְּאֻלָּה הַשְּׁנִיָּה. ״בִּתְּחִלָּה נִתְּנָה תּוֹרָה בִּכְתָב עִבְרִי... בִּימֵי עֶזְרָא בֵּרְרוּ לָהֶם כְּתָב אַשּׁוּרִי״.
8 E assim testemunhou o Ramban, de abençoada memória, que, quando subiu à terra de Israel, achou ali em Aco uma moeda antiga de prata em que estava gravado nela um jarro do maná e a vara de Aarão, e que estava escrito ao seu redor com uma escrita que ele não sabia lê-la, até que a mostraram aos cuteus, porque ela é a escrita hebraica antiga que restou junto aos cuteus, e leram aquela escrita, e estava escrito nela "shékel hashekalim". E estas são as coisas que ele anotou no fim do seu comentário, e as que enviou da terra de Israel; e explica-se delas que a escrita que está em nossas mãos hoje não é a escrita hebraica.
9 E o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, que o mem e o samech finais que estavam nas Tábuas por milagre se sustentavam — é possível que disseram assim conforme a opinião de Rabi, que sustenta que as Tábuas estavam escritas em escrita assíria; ou porque a sua opinião deles é também que as Tábuas estavam escritas em escrita assíria, ainda que a escrita usada na nação então fosse hebraica. E talvez não disseram assim sobre o mem e o samech que estão em nossas mãos hoje, mas porque na escrita hebraica com que as Tábuas estavam escritas eram o mem e o samech fechados, ou havia outras letras semelhantes ao mem e ao samech como estão na escrita assíria que está em nossas mãos hoje, disseram assim. Sabe que eis que Rav Chisda, que disse que o mem e o samech das Tábuas por milagre se sustentavam, ele mesmo disse que se mudou a escrita; e talvez o que disseram "e escolheram para si a escrita assíria" não foi sobre toda a escrita que proibiram assim, mas sobre uma parte dela — que tomaram dela e deixaram dela, e restaram o mem e o samech fechados como eram nas Tábuas, e tomaram uma parte da escrita assíria em memória da redenção segunda — ainda que isto não se veja assim.
הָרַמְבַּ״ן מָצָא בְּעַכּוֹ מַטְבֵּעַ קָדוּם, וְהַכּוּתִים קְרָאוּהוּ ״שֶׁקֶל הַשְּׁקָלִים״. מֵ״ם וְסָמֶ״ךְ שֶׁבַּלּוּחוֹת בְּנֵס הָיוּ עוֹמְדִין.
10 E, de todo modo, explica-se do que escrevemos que mudaram toda a escrita ou uma parte dela em memória da redenção segunda. E assim fizeram uma outra coisa em memória da redenção segunda: que deixaram de contar a contagem dos meses desde Nissan como se habituavam a contar em memória da saída do Egito, e voltaram a contar uma outra contagem para os meses. E isto é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, que os nomes dos meses subiram com eles da Assíria — quer dizer, que contavam os meses com os seus nomes Tishrei, Marcheshvan, Kislev como os contavam na Assíria, em memória da redenção segunda, e não "segundo", "terceiro", "quarto" como no início; e assim escreveu o Ramban, de abençoada memória, na parashá "Bo el Paró".
11 E vê-se disto que eles entenderam que o mandamento da contagem dos meses era temporário zemani — quer dizer, por todo o tempo enquanto perdurasse aquela redenção; mas, depois que foram exilados uma segunda vez e foram redimidos de lá, e foram ordenados por meio de Jeremias que não se diga mais "vive o Senhor que fez subir os filhos de Israel da terra do Egito" senão "vive o Senhor que fez subir e que trouxe a semente da casa de Israel da terra do norte" etc. (Jeremias 23:7-8), viram por bem deixar a contagem primeira que era em memória da saída do Egito, e voltaram a contar uma outra contagem desde Tishrei para os anos do mundo, e deixaram os nomes dos meses que subiram com eles da Assíria em memória da redenção segunda — pois entenderam que o mandamento da contagem dos meses desde Nissan era temporário e não um mandamento eterno, ainda que não se mencionasse nele um tempo.
שְׁמוֹת הֶחֳדָשִׁים עָלוּ עִמָּהֶם מֵאַשּׁוּר. הֵבִינוּ שֶׁצִּוּוּי מִנְיַן הֶחֳדָשִׁים מִנִּיסָן הָיָה זְמַנִּי — אַף שֶׁלֹּא נִזְכַּר בּוֹ זְמַן.
12 E também nós dizemos: que é o que impede que não digamos que venha uma religião divina a permitir alguns proibidos — como a gordura e o sangue e os abatidos fora do Templo shechutei chuts, que foram proibidos no início, quando saíram do Egito, porque estavam imersos no serviço dos demônios e comiam sobre o sangue e comiam a gordura e o sangue, como disse a Escritura a respeito dos abatidos fora "e não sacrificarão mais os seus sacrifícios aos bodes demônios, após os quais eles se prostituem" (Levítico 17:7) — e, depois que se esqueceu o assunto daquele serviço do mundo e voltaram todos a servir o Senhor, bendito seja, e se anulou a razão da proibição, é possível dizer que Ele volte e o permita? E assim é a opinião de alguns dos nossos mestres, de abençoada memória, que disseram no midrash Yelamdenu "'o Senhor solta os presos' (Salmos 146:7) — solta os proibidos matir issurim".
13 Para pôr fim às palavras: não vejo nenhuma prova nem nenhuma necessidade de que haja uma raiz por si mesma para a religião divina em geral, nem para a Torá de Moisés em particular, de que a Torá não será substituída e de que não se mudará — partindo das provas que escreveu o Rambam, de abençoada memória. E assim escreveu o meu mestre, o Rav, Rabi Chasdai Crescas, de abençoada memória, que isto não é raiz nem princípio para a Torá de Moisés; mas disse que é uma crença que é cabido que a creia todo possuidor da Torá de Moisés, e explicou a razão: porque, quando se investigam todas as partes da Torá de Moisés, achamo-las abrangendo todas as qualidades e opiniões que é possível que deem perfeição à alma por algum lado; e esta razão está próxima da razão que escrevemos acima, que escreveu o Rambam, de abençoada memória, no livro do Guia. E voltaremos nós a investigar sobre isto por um outro lado: se é possível a mudança na Torá de Moisés como é nas demais religiões divinas, ou não; e prefaciaremos a isto algumas premissas.
״ה׳ מַתִּיר אֲסוּרִים״ — מַתִּיר אִסּוּרִין. אֵינִי רוֹאֶה רְאָיָה שֶׁיִּהְיֶה שֹׁרֶשׁ בִּפְנֵי עַצְמוֹ שֶׁלֹּא תִּשְׁתַּנֶּה הַתּוֹרָה. וְכֵן דַּעַת מוֹרִי הָרַב רַבִּי חַסְדַּאי — שֶׁאֵינוֹ עִקָּר אֶלָּא אֱמוּנָה.
Este capítulo conclui a longa investigação dos caps. 13-16 sobre a mutabilidade da Lei, desarmando o último e mais intuitivo argumento da imutabilidade: a própria linguagem da Torá. Se mandamentos são chamados "estatuto eterno" (chukat olam), "para sempre" (le'olam), "sinal perpétuo", "por todas as vossas gerações" — não estaria escrito que nunca mudam? Albo responde com um trabalho filológico minucioso e ousado.
Primeiro, o argumento prova demais: se essas expressões garantem eternidade só de alguns mandamentos, isso sugeriria que os demais (sem a expressão) podem ser anulados. E o Talmud (Kidushin) explica que "estatuto eterno" foi acrescentado a casos específicos (Yom Kipur, chadash, chélev) por razões locais — para impedir conclusões erradas —, não para proclamar eternidade. Depois, o golpe central: Albo demonstra com uma cascata de versículos que olam e seus derivados designam, no hebraico bíblico, tempo limitado: "o limite olam dos teus pais" (antigo, não infinito); "servi-lo-á le'olam" (até o jubileu); "ficará ali ad olam" (os cinquenta anos do levita); a "salvação de olamim" de Isaías (a derrota de Senaqueribe). Até lanétzach ("para sempre"), dito da Shechiná no Sinai, durou só até a Tenda do Encontro ser erguida; até chukat olam da menorá cessou com a destruição do Templo. E os Sábios (Vayikrá Rabbá) afirmam que "todas as festas serão anuladas no futuro exceto Purim e Yom Kipur" — logo "estatuto eterno" significa "não as anulemos por nós mesmos"; D'us pode anulá-las.
A parte mais notável é a prova de que de fato mudaram preceitos por iniciativa autorizada, após a segunda redenção (volta da Babilônia). Albo aduz dois casos eruditos: (1) A escrita. Apoiado no Talmud (Sanhedrin) e no testemunho ocular de Nachmânides (a moeda antiga de Aco, legível só pelos samaritanos, gravada "shékel hashekalim" em paleo-hebraico), Albo conclui que a escrita atual ("assíria"/ashurit, o "quadrado") não é a escrita original hebraica — a nação a adotou em Esdras "em memória da redenção". (2) A contagem dos meses. A Torá ordenou contar os meses a partir de Nissan ("este mês é para vós cabeça de meses") em memória do Êxodo — e os meses não tinham nomes, só números ("segundo", "terceiro"). Após o retorno da Babilônia, adotaram os nomes babilônicos (Tishrei, Kislev...) e a contagem a partir de Tishrei, porque entenderam que aquele mandamento era temporário — ligado à centralidade do Êxodo, que Jeremias previu ser superada por uma redenção maior ("não se dirá mais 'vive o Senhor que tirou Israel do Egito', mas 'que os trouxe da terra do norte'").
Daqui Albo extrai a conclusão dogmática do bloco: a imutabilidade da Torá não é um ikkar (princípio fundamental) nem da religião divina em geral nem da Torá de Moisés em particular — contra Maimônides, cujas provas ele considera todas refutadas. Cita o seu mestre Chasdai Crescas em apoio: é "uma crença que todo judeu deve ter", mas não um princípio cuja negação destrua a fé — e a razão de crê-la é que a Torá já abrange tudo o que pode aperfeiçoar a alma (logo não precisa de substituta). Há até a citação audaciosa do Yelamdenu — "D'us solta os presos (matir assurim)" lido como "permite os proibidos" — e a hipótese de que proibições motivadas por circunstâncias (chélev, sangue, abate fora do Templo, ligadas ao antigo culto dos demônios) poderiam ser levantadas quando a razão delas se extinguisse. O capítulo é, assim, profundamente polêmico: sem negar a permanência prática da Torá, Albo recusa torná-la um dogma absoluto, reservando a D'us a soberania de modificar a Lei — posição que o distingue nitidamente de Maimônides e que ele anuncia investigar ainda mais a fundo nos capítulos seguintes.
Embora todas as palavras dos profetas sejam verdadeiras, a clareza e a verdade literal dependem do grau do profeta — como a vista forte apreende a cor exata e a fraca só o gênero. Moisés profetiza pelo "espelho que ilumina", e as suas palavras são verdadeiras ao pé da letra; Isaías, pelo "espelho que não ilumina", fala em enigmas. Por isso "vi o Senhor" de Isaías não contradiz "não me verá o homem" de Moisés: o profeta menor explica-se conforme o maior.
Embora todas as palavras dos profetas sejam verdadeiras, a clareza e a verdade literal dependem do grau do profeta — como a vista forte apreende a cor exata e a fraca só o gênero. Moisés profetiza pelo "espelho que ilumina", e as suas palavras são verdadeiras ao pé da letra; Isaías, pelo "espelho que não ilumina", fala em enigmas. Por isso "vi o Senhor" de Isaías não contradiz "não me verá o homem" de Moisés: o profeta menor explica-se conforme o maior.
1 Ainda que todas as palavras dos profetas sejam verdadeiras sem dúvida, de todo modo, conforme a grandeza da excelência do profeta e do seu grau na profecia será a força da verdade que vem nas suas palavras. Pois vários profetas, pela fraqueza da sua apreensão, não apreendem as coisas explicadas como é cabido — porque acontece à apreensão dos profetas o que acontece à apreensão dos sentidos: pois quem é são e forte neles apreende os sensíveis na sua verdade, e quem é fraco neles não os apreende na sua verdade, mas apreende o seu gênero ou a sua classe e não sabe distinguir de qual espécie eles são. Pois quem é forte de vista apreende a cor que apreende conforme o que ela é — como se dirás, vermelha ou verde —, e apreende também em que grau ela está da vermelhidão ou da verdura. Mas o fraco de vista não apreende senão a classe — quer dizer, que é uma cor, e não mais —, e, mesmo se apreende a espécie — quero dizer, que é vermelha ou verde —, não apreende em que grau ela está da vermelhidão ou da verdura; e assim é o assunto na audição e nos demais sensíveis.
כָּל דִּבְרֵי הַנְּבִיאִים אֲמִתִּיִּים, אַךְ כְּפִי מַדְרֵגַת הַנָּבִיא חֹזֶק הָאֲמִתּוּת. כְּמִי שֶׁחָזָק הָרְאוּת — מַשִּׂיג הַמַּרְאֶה עַל אֲמִתּוֹ, וְהֶחָלוּשׁ — רַק הַסּוּג.
2 E como isto mesmo acontece aos profetas na sua apreensão: pois quem é forte de apreensão apreende a coisa conforme o que ela é, sem imaginação, e vêm as suas palavras explicadas e não-obscuras, e por isso se entendem como verdadeiras conforme o seu sentido simples; e o profeta que está abaixo dele no grau, vêm as suas palavras obscuras e em enigmas e em parábolas e não-explicadas, e por isso não são verdadeiras conforme o seu sentido simples, mas conforme o assunto insinuado nelas apenas, e conforme o seu sentido simples se entende delas um assunto que não é o assunto visado nelas. E por isso achas que Ezequiel — por serem as suas profecias depois do exílio — falava em parábolas e enigmas não-verdadeiros conforme o seu sentido simples, até que se queixou disto ao Senhor, bendito seja, e disse "eles dizem de mim: acaso não é um proferidor de parábolas ele?" (Ezequiel 21:5); e assim Zacarias — porque estava no fim da profecia — eram todas as suas profecias em visões que não são verdadeiras conforme o seu sentido simples, mas conforme o insinuado nelas apenas: disse Zacarias que viu cavalos e mulheres e uma menorá de ouro e duas oliveiras sobre ela (Zacarias 4:2-3), já que o assunto da menorá e das oliveiras não era verdadeiro em si mesmo, mas o assunto insinuado neles apenas.
הֶחָזָק — דְּבָרָיו מְבֹאָרִים, אֲמִתִּיִּים כִּפְשׁוּטָן. הַקָּטָן — סְתוּמִים, בְּחִידוֹת וּמְשָׁלִים. יְחֶזְקֵאל וּזְכַרְיָה — מַרְאוֹת שֶׁאֵינָן אֲמִתִּיּוֹת כִּפְשׁוּטָן.
3 E Jeremias, que era antes da destruição, eram todas as suas profecias explicadas com uma explicação bela. E já explicou o Senhor, bendito seja, esta diferença entre a profecia de Moisés e a de outro; disse a respeito da profecia de Moisés "boca a boca falo com ele, e numa visão e não em enigmas" (Números 12:8) — do conjunto do que se infere que os demais profetas, fora Moisés, falam em enigmas não-explicados e em visões não-verdadeiras; e por isso é cabido que se explanem de modo que concordem com as palavras de Moisés; e assim se explanarão sempre as palavras do profeta pequeno no grau de modo que sejam concordantes com as palavras do grande e não-discordantes dele. E a explicação disto: eis que achamos Isaías a dizer "e vi o Senhor sentado sobre um trono alto e elevado" etc. (Isaías 6:1), e Moisés disse "pois não me verá o homem e viverá" (Êxodo 33:20); e, se não soubéssemos o grau de cada um deles, pensaríamos que as palavras de Isaías são verídicas, e diríamos que, pela grandeza do seu grau, apreendeu do Senhor o que é possível que se apreenda dele, e por isso disse "e vi o Senhor", e Moisés, porque não chegou ao grau de Isaías e não apreendeu do Senhor senão uma coisa escassa, disse "não me verá o homem e viverá", pela pequenez da sua apreensão e do seu grau na profecia. Mas, depois que soubemos o ser Moisés o mestre dos profetas — pois se disse a seu respeito "e falava o Senhor a Moisés face a face, como fala um homem ao seu companheiro" (Êxodo 33:11), e se disse também "se houver um profeta vosso, eu, o Senhor, numa visão a ele me darei a conhecer, em sonho falarei com ele; não assim o meu servo Moisés" etc., "boca a boca falo com ele, e numa visão e não em enigmas" (Números 12:6-8) —, soubemos que as palavras de Moisés são verdadeiras conforme o seu sentido simples sem dúvida, e que as palavras de Isaías, que está abaixo dele no grau, não são verídicas literalmente; e pela pequenez do seu grau disse "e vi o Senhor", pois pensou que viu o Senhor, e não é assim — pois isto era um efeito da força imaginativa; mas Moisés, porque não havia para a força imaginativa entrada na sua profecia de modo algum, já que a sua profecia era na força racional que havia nele, abstraída das demais forças corporais, disse "pois não me verá o homem e viverá", que é a verdade.
״וָאֶרְאֶה אֶת ה׳ יֹשֵׁב עַל כִּסֵּא רָם וְנִשָּׂא״ (יְשַׁעְיָה) מוּל ״כִּי לֹא יִרְאַנִי הָאָדָם וָחָי״ (מֹשֶׁה). דִּבְרֵי מֹשֶׁה אֲמֶת, וְדִבְרֵי יְשַׁעְיָה הַקָּטָן מִמֶּנּוּ אֵינָם צוֹדְקִים כִּפְשׁוּטָן.
4 Mas Isaías, porque usava na sua profecia também por meio da força imaginativa, a que chamaram os nossos mestres, de abençoada memória, "o espelho que não ilumina" aspaklária she'einá me'irá, levou-o isto a errar e a imaginar na força imaginativa que viu o Senhor; e ele mesmo explicou que esta sua apreensão era por erro e por meio da força imaginativa, e explicou que a causa nisto era que a sua matéria não era purificada como a matéria de Moisés, nosso mestre — e isto é o que disse "pois um homem de lábios impuros sou eu" (Isaías 6:5); e também as suas qualidades midot não eram como é cabido — e isto é o que disse "e no meio de um povo de lábios impuros eu habito", pois a habitação entre os homens maus de qualidades corrompe as qualidades do homem bom. E por causa disto se lamentava e disse "ai de mim, pois me silenciei nidmeti" (Isaías 6:5) — quer dizer, que fui afetado pela força imaginativa nidmeiti, e não está a minha profecia no espelho que ilumina como a profecia de Moisés, que ouvia a voz que falava com ele sem que visse uma figura diante dos seus olhos; mas eu, por estar a minha profecia no espelho que não ilumina, que é por meio da força imaginativa, não pude conceber a apreensão da fala sem ver uma forma que fala, e isto me causou o ser eu um homem de lábios impuros e o estar eu habitando no meio de um povo de lábios impuros; e por isso eu me lamento e digo "ai de mim, pois fui afetado pela imaginação", porque "o Rei, o Senhor dos Exércitos, viram os meus olhos" (Isaías 6:5), e sei eu que isto é um efeito da força imaginativa, pois a ele, bendito seja, é impossível, sem dúvida, atribuir-lhe nenhum atributo nem nenhuma figura, mesmo na visão da profecia, mesmo ao que profetiza no espelho que ilumina.
יְשַׁעְיָה הִשְׁתַּמֵּשׁ בְּ״אַסְפַּקְלַרְיָא שֶׁאֵינָהּ מְאִירָה״ (הַכֹּחַ הַמְדַמֶּה). ״אִישׁ טְמֵא שְׂפָתַיִם אָנֹכִי... אוֹי לִי כִּי נִדְמֵיתִי״ — שֶׁנִּתְפַּעַלְתִּי מֵהַכֹּחַ הַמְדַמֶּה.
5 E isto é o que disseram os nossos sábios, de abençoada memória: "Menashé matou Isaías"; e disseram "julgou-o com um juízo e o matou" — disse-lhe: "Moisés, teu mestre, disse 'pois não me verá o homem e viverá', e tu disseste 'e vi o Senhor'." E disseram que Isaías podia responder a isto e não respondeu, porque sabia que Menashé não receberia a sua resposta. E o que ele podia responder é que mesmo a respeito daqueles que estavam de pé na geração de Moisés se disse a seu respeito "e viram o D'us de Israel" (Êxodo 24:10), porque a sua apreensão não era no espelho que ilumina.
״מְנַשֶּׁה הָרַג אֶת יְשַׁעְיָה״ — ״מֹשֶׁה רַבְּךָ אָמַר 'כִּי לֹא יִרְאַנִי הָאָדָם' וְאַתָּה אָמַרְתָּ 'וָאֶרְאֶה אֶת ה׳'״. וְהָיָה יָכוֹל לְהָשִׁיב מִ״וַיִּרְאוּ אֵת אֱלֹהֵי יִשְׂרָאֵל״.
6 E explica-se de tudo isto que o profeta que está num grau abaixo de um outro profeta é impossível para ele discordar das palavras do grande, mas se explanam as suas palavras de modo que não discordem das palavras do grande. E, depois que se explicou na Torá o ser a profecia de Moisés num grau grande acima de todos os profetas, daqui em diante é impossível escutar a nenhum profeta que discorde dele e anule as suas palavras. E, contudo, se é possível a algum profeta explicar as palavras de Moisés e dizer que, ainda que se tenham mencionado coisas gerais setamiyot, há nelas uma condição ou um tempo vinculado a elas, ainda que não tenha sido explicado — isto se explicará no que vier, com a ajuda do Senhor.
הַנָּבִיא הַקָּטָן אִי אֶפְשָׁר לוֹ לַחֲלֹק עַל הַגָּדוֹל. וְאַחַר שֶׁנְּבוּאַת מֹשֶׁה גְּדוֹלָה מִכֻּלָּם, אִי אֶפְשָׁר לִשְׁמֹעַ לְנָבִיא הַחוֹלֵק עָלָיו וּמְבַטֵּל דְּבָרָיו.
Este capítulo prepara o terreno para a questão da imutabilidade da Torá ao estabelecer um princípio hermenêutico decisivo: nem toda profecia tem o mesmo peso de literalidade. Todas são verdadeiras — mas a clareza e a verdade ao pé da letra variam conforme o grau do profeta. A analogia governante é a dos sentidos: a vista forte apreende a cor exata e o seu grau preciso; a fraca apreende só "que é uma cor" ou no máximo "que é vermelha", sem o tom. Assim a apreensão profética: o profeta forte capta "a coisa conforme o que ela é, sem imaginação", e suas palavras são claras e literalmente verdadeiras; o profeta menor recebe através da imaginação, e fala por enigmas e parábolas cujo sentido literal não corresponde à realidade — só o conteúdo simbolizado é verdadeiro.
Albo lê a história profética como um declínio de clareza: Jeremias (antes da destruição) profetiza "com explicação bela"; Ezequiel (após o exílio) já fala tanto em parábola que se queixa "dizem de mim: não é ele um proferidor de parábolas?"; Zacarias (no fim da profecia) só vê visões simbólicas (cavalos, a menorá, as oliveiras) que "não são verdadeiras em si mesmas". A clareza da palavra é índice do grau — e o grau decai com o afastamento da fonte.
O coração do capítulo é a aparente contradição entre Isaías 6:1 ("vi o Senhor sentado num trono") e Êxodo 33:20 ("não me verá o homem e viverá"). Albo é ousado: se não soubéssemos os graus, suporíamos que Isaías, por ser maior, viu mais, e Moisés, por ser menor, viu pouco. Mas a Torá estabelece que Moisés é o mestre dos profetas (Nm 12: "boca a boca… e não em enigmas"). Logo a inferência se inverte: Moisés fala a verdade literal — D'us não pode ser "visto" —, e a "visão" de Isaías foi efeito da imaginação. Isaías profetizou pelo "espelho que não ilumina" (aspaklária she'einá me'irá), Moisés pelo "que ilumina" (me'irá) — a célebre distinção talmúdica. Notavelmente, Albo mostra que o próprio Isaías confessa isso: "homem de lábios impuros sou eu… ai de mim, pois nidmeiti" — lido não como "estou perdido" mas como "fui afetado pela imaginação" (da raiz dimyon). Isaías reconhece que a sua matéria não era purificada como a de Moisés, que as más companhias corromperam suas qualidades, e que "o Rei eu vi com os olhos" foi obra da imaginação — pois a D'us "é impossível atribuir qualquer figura, mesmo na visão profética".
A conclusão é o princípio que sustentará os capítulos finais sobre a eternidade da Torá: o profeta menor jamais contradiz o maior — suas palavras devem ser explanadas para concordar com as do superior. E como a Torá fixou Moisés acima de todos, nenhum profeta posterior pode contradizê-lo ou anular as suas palavras. Isto desarma de antemão qualquer pretensão de uma revelação posterior "corrigir" ou "revogar" a Torá mosaica — o alvo polêmico contra cristianismo e islã. Mas Albo deixa, com precisão, uma porta entreaberta, que explorará a seguir: um profeta posterior não pode contradizer Moisés, mas pode, eventualmente, interpretar as suas palavras — mostrar que um preceito enunciado de modo geral trazia implícita uma condição ou um prazo não explicitado. A distinção entre contradizer (vedado) e interpretar (possível) é a chave fina com que Albo conciliará a autoridade suprema de Moisés com a sua tese de que a Lei pode, em certos limites e só por iniciativa divina, comportar mudança.
Há diferença grande entre o que o profeta recebe diretamente de D'us — irrevogável — e o que recebe por meio de outro profeta. Por isso Israel ouviu da própria boca de D'us os dois primeiros Mandamentos: para que nenhum profeta possa anulá-los. Albo mostra que "Eu sou" e "Não terás" vieram refutar a opinião filosófica que nega a providência e os cultos idólatras que punham intermediários entre o homem e D'us.
Há diferença grande entre o que o profeta recebe diretamente de D'us — irrevogável — e o que recebe por meio de outro profeta. Por isso Israel ouviu da própria boca de D'us os dois primeiros Mandamentos: para que nenhum profeta possa anulá-los. Albo mostra que "Eu sou" e "Não terás" vieram refutar a opinião filosófica que nega a providência e os cultos idólatras que punham intermediários entre o homem e D'us.
1 Uma diferença grande há entre a coisa apreendida ao profeta da boca do Senhor e a coisa que lhe é dita por meio de um profeta. Pois o que o profeta ouve da boca do Senhor é impossível que se anule de modo algum, a não ser quando lhe chegue uma fala do Senhor oposta à primeira — como se disse a Abraão "toma agora o teu filho, o teu único, a quem amaste, Isaque, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali por holocausto" (Gênesis 22:2), e depois se lhe disse "não estendas a tua mão sobre o jovem e não lhe faças coisa alguma" (Gênesis 22:12). E por causa disto foi punido o profeta Idó, a quem o leão o matou, porque escutou ao profeta velho que estava em Bet-El a voltar a Bet-El e a comer ali pão, pois isto era o oposto do que lhe ordenou o Senhor da sua própria boca, não por meio de um profeta. Mas o dito ao homem por meio de um profeta já é possível que lhe venha por meio de um profeta uma ordem oposta à primeira. E por isso quis o Senhor, bendito seja, que ouvissem todos Israel da sua boca os dez Mandamentos, a fim de que não houvesse força na mão de nenhum profeta para anulá-los, nem todos nem uma parte deles, como testemunhou a Escritura sobre isto explicitamente e disse "estas palavras falou o Senhor a toda a vossa congregação no monte" etc., "e as escreveu sobre duas tábuas de pedra e deu-as a mim" (Deuteronômio 5:19).
מַה שֶּׁהַנָּבִיא שׁוֹמֵעַ מִפִּי הַשֵּׁם אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּתְבַּטֵּל. וְלָכֵן רָצָה הַשֵּׁם שֶׁיִּשְׁמְעוּ כָּל יִשְׂרָאֵל מִפִּיו עֲשֶׂרֶת הַדִּבְּרוֹת, שֶׁלֹּא יִהְיֶה כֹּחַ בְּיַד נָבִיא לְבַטְּלָם.
2 Mas o que precisa de exame nisto é o que se acha nos nossos mestres, de abençoada memória, no fim do tratado Makot, que disseram "'Eu sou' Anochi e 'Não terás' Lo yihyeh lecha da boca da Força Gevurá as ouviram"; e é coisa de admiração, pois eis que a Escritura diz "e deu o Senhor a mim as duas tábuas de pedra escritas com o dedo de D'us, e sobre elas conforme todas as palavras que falou o Senhor convosco no monte, do meio do fogo, no dia da assembleia" (Deuteronômio 9:10), e está escrito também "e escreveu sobre as tábuas conforme a escrita primeira, as dez palavras que falou o Senhor a vós no monte, do meio do fogo, no dia da assembleia, e deu-as o Senhor a mim" (Deuteronômio 10:4) — do que parece de tudo isto explícito que todos os dez Mandamentos que foram escritos nas tábuas foram ditos ao conjunto de Israel; e como dizem eles que "Eu sou" e "Não terás" os ouviram da boca da Força, e não os demais dos Mandamentos?
״אָנֹכִי וְלֹא יִהְיֶה לְךָ מִפִּי הַגְּבוּרָה שְׁמָעוּם״ — וְהוּא תֵּמַהּ, שֶׁהֲרֵי כָּל עֲשֶׂרֶת הַדִּבְּרוֹת נֶאֶמְרוּ לְכָל יִשְׂרָאֵל.
3 E o Rambam, de abençoada memória, escreveu no livro do Guia que a explicação de "da boca da Força as ouviram" quer dizer "da boca da força da demonstração" mofét; e isto é: que o dito "Eu sou" — disse o Rambam que veio a advertir sobre a crer na existência do Senhor, e "Não terás" sobre a crer na unidade, e estas duas raízes se explicam por uma demonstração intelectual; e disse que tudo o que se sabe por demonstração, o estatuto do profeta e o de quem o sabe são iguais, e por isso, ainda que os ouvissem da boca do Senhor, não é cabido que se contem no conjunto dos mandamentos; mas os demais Mandamentos são da classe das coisas recebidas por tradição ou das divulgadas, e por isso era necessário que os ouvissem da boca do Senhor, e por isso não disseram a respeito deles que os ouviram da boca da Força. Estas são as suas palavras nisto.
4 E, depois que ele concorda em que todos os dez Mandamentos ouviram Israel da boca do Senhor, eis que as suas palavras nisto precisam de exame: pois, se a coisa é assim — que "Eu sou" e "Não terás" vieram a indicar sobre a existência do Senhor e a sua unidade —, por que era necessário fazê-los ouvir estes dois Mandamentos a fim de que se lhes verificassem por via de profecia? Eis que a especulação humana basta para verificar isto, e não há homem que negue isto a tal ponto que não o forcemos com provas intelectuais a reconhecê-lo; e mais necessário era verificar-lhes por via de profecia as coisas que não as decreta a especulação humana. E mais se dificulta sobre ele o facto de que ele, de abençoada memória, escreveu no Livro do Conhecimento, no capítulo 1 das Leis da Idolatria, que a opinião dos adoradores de idolatria era que diziam: visto que D'us criou estrelas e esferas para conduzir o mundo e os pôs no alto e repartiu-lhes honra, e eles são servidores que servem diante dele sempre, é cabido louvá-los e glorificá-los e repartir-lhes honra, e isto é a vontade de D'us, a engrandecer e honrar quem o engrandeceu e honrou — como o rei quer honrar os seus servos que estão de pé diante dele —, e por isso ofereciam-lhes sacrifícios e os louvavam e glorificavam e se prostravam diante deles, a fim de alcançar a vontade de D'us na sua opinião má. E escreveu ainda no capítulo segundo das Leis da Idolatria que não é cabido servi-los como corretor entre o homem e o Criador. E, conforme estas suas palavras, depois que o raciocínio dá a entender que se deveriam servir as estrelas e as esferas ou as constelações por estes dois lados, seria cabido que o Mandamento primeiro fosse advertindo sobre isto, não sobre a sua existência e a sua unidade, que não negavam mesmo os adoradores de idolatria conforme a sua opinião.
הָרַמְבַּ״ם: ״מִפִּי הַגְּבוּרָה״ — מִפִּי גְּבוּרַת הַמּוֹפֵת, שֶׁמְּצִיאוּת הַשֵּׁם וְאַחְדוּתוֹ מִתְבָּאֲרִים בְּמוֹפֵת. וְקָשֶׁה: לָמָּה הֻצְרְכוּ לְשָׁמְעָם בִּנְבוּאָה?
5 E o que me parece nisto é que os adoradores de idolatria erravam após ela com intenções diferentes. Há os que erravam pelo lado de que negavam a existência do Senhor e a sua unidade, e criam que o Senhor, bendito seja, é uma força num corpo e é a alma da esfera, como Epicuro e a sua companhia — e estes não é necessário responder contra eles por via de profecia, pois o intelecto os força com provas claras. E há os que erravam após as forças das esferas pelos dois lados que dissemos que mencionou o Rav, de abençoada memória, como Achav e outros além dele dentre os reis de Israel e de Judá; e também Salomão errou nisto, conforme o que se vê do sentido simples dos versículos, pois, com o facto de crerem na existência do Senhor e na sua unidade e na existência da profecia e da Torá do Céu, erravam nisto — seja porque pensavam em engrandecer o Senhor com isto, seja porque pensavam em fazer um corretor e intermediários entre eles e o Senhor, bendito seja, como escreveu o Rav, de abençoada memória.
6 E há uma outra seita que erra após a idolatria por um outro lado mais profundo; e isto é: que eles opinam como as palavras de alguns dos filósofos que dizem "abandonou o Senhor a terra" (Ezequiel 8:12), e, com o facto de crerem na existência do Senhor e na sua unidade e que não é corpo nem força num corpo, creem que não há para com o Senhor uma providência hashgachá no mundo inferior de modo algum, e pensam que isto é uma elevação no estatuto do Senhor — a saber que não supervisione a espécie do homem, por ser o homem inferior, desprezível e abominável aos seus olhos —, e pensam que isto é uma excelência ao Senhor e uma elevação no seu estatuto — a saber que não supervisione a coisa inferior, pois dizem que a ignorância das coisas inferiores é melhor do que a sua apreensão; e Jó pendia para esta opinião ao dizer "que é o homem, que o engrandeces, e que pões a ele o teu coração?" (Jó 7:17), e por isso atribuía a condução do mundo inferior às esferas. E coisa semelhante a isto disse Davi "aqueles que te invocam para o mal limezimá" (Salmos 139:20) — quer dizer: eles te elevam e exaltam, e a elevação que atribuem a ti é para mal, a dizer que não supervisionas os particulares; e pensam que o facto de ele, bendito seja, supervisionar os particulares seria uma deficiência no seu estatuto, porque isto leva a que se agrade numa vez e se irrite numa vez — e a coisas semelhantes a estas, que são mudança no nosso estatuto; e atribuem uma deficiência ao seu estatuto, bendito seja, a saber que se mude da vontade à ira, e dizem que a condução do mundo inferior é influenciada pelas esferas e que não há para o Senhor saber dela de modo algum.
כַּת אַחַת מַכְחֶשֶׁת מְצִיאוּת הַשֵּׁם (אֶפִּיקוֹרוֹס). כַּת שְׁנִיָּה עוֹבֶדֶת הַכּוֹכָבִים לְרוֹמֵם אוֹ לְאֶמְצָעִי. כַּת שְׁלִישִׁית מַכְחֶשֶׁת הַהַשְׁגָּחָה — ״עָזַב ה׳ אֶת הָאָרֶץ״.
7 E dizem que, depois que o Senhor, bendito seja, criou estrelas e constelações e anjos para dominar no mundo inferior e repartiu-lhes domínio sobre as nações — conforme o dito da Escritura "as quais repartiu o Senhor teu D'us a todos os povos debaixo de todos os céus" (Deuteronômio 4:19) —, e o influxo vem por meio deles, é cabido que preparemos a nós mesmos para receber este influxo deles e que os sirvamos, depois de serem eles os que nos conduzem e influenciam sobre nós; e esta era a opinião das mulheres malditas que disseram a Jeremias "e desde o tempo em que cessámos de queimar incenso à rainha dos céus e de derramar-lhe libações, nos faltou tudo e o bem não vimos" (Jeremias 44:18); e dizem que cada um dos sete metais é próprio a um a um dos sete planetas — o ouro ao sol, e a prata à lua, e o chumbo a Saturno, e assim todos —, e creem que a figura feita de algum dos metais numa hora conhecida e numa posição conhecida das demais estrelas com aquela estrela, desce sobre ela a espiritualidade daquela estrela e chega o influxo da estrela por meio do serviço daquela figura — e daqui saiu o serviço das figuras servidas pelos adoradores de idolatria. E assim, deste modo, dizem que é possível que se prepare a descida da gota do sêmen do homem no útero numa posição conhecida das estrelas, e seja criado dela um homem sobre o qual paire a espiritualidade de alguma estrela das estrelas, e seja aquele homem um adivinho ou um anunciador de futuros pela força da espiritualidade daquela estrela — até que é possível que chegue o seu grau a que seja servido como as demais figuras que faziam os antigos; e este era o erro de Faraó e de Hiram, rei de Tiro, que faziam de si mesmos divindades, e o erro de Nabucodonosor, que fez de Daniel idolatria — disse a Escritura "e a Daniel prostrou-se, e uma oferenda e oblações disse a derramar-lhe" (Daniel 2:46); e tudo isto é porque não creem que o Senhor supervisione a espécie do homem de modo algum.
הַשְׁפָּעָה בָּאָה עַל יְדֵי הַכּוֹכָבִים — ״מֵאָז חָדַלְנוּ לְקַטֵּר לִמְלֶכֶת הַשָּׁמַיִם... חָסַרְנוּ כֹל״. הַצּוּרוֹת וְהַטֶּלֶסְמִים — וְכֹל זֶה לְפִי שֶׁאֵין מַאֲמִינִים בְּהַשְׁגָּחָה.
8 E, por ser esta opinião concordante pelo lado da especulação e estar espalhada em muito no tempo da entrega da Torá, receou-a o Senhor, bendito seja, e quis extirpá-la e arrancá-la de todo em todo. E não era possível que se arrancasse esta opinião por meio de um profeta, pois o que nega a providência e a Torá do Céu nega a profecia vinda do Senhor do modo com que a crê todo possuidor de religião, sem dúvida; e por isso quis o Senhor, bendito seja, verificar com verificação forte a anulação desta opinião, junto com a opinião dos que dizem que isto é engrandecimento ao Senhor e com a anulação da opinião dos que os fazem intermediários entre eles e o Senhor — e isto ao explicar-lhes a existência da profecia e que há uma Torá do Céu para encaminhar os filhos do homem no caminho reto; e isto é impossível a não ser estando ele, bendito seja, a supervisionar os filhos do homem.
9 E explicou-se-lhes isto quando lhes chegou dele, por via de profecia, face a face, estes dois Mandamentos, que são "Eu sou" e "Não terás". Pois o dito "Eu sou o Senhor teu D'us" quer dizer que o Senhor, bendito seja, é o que nos supervisiona e nos conduz, e isto é a expressão "teu D'us Elohecha", quer dizer "o que te conduz"; e concluiu "que te tirei da terra do Egito", quer dizer: eu sou o que supervisionei a ti para tirar-te da terra do Egito; e mencionou "da casa de servos" mibet avadim para indicar a providência, pois a constelação indicava o seres tu servo, e eu tirei-te de lá com grande força — e isto é a expressão "da casa de servos". E no que viste com os teus olhos na saída do Egito se verificou a providência, e no que tu me ouves a falar contigo se verifica a ti a existência da profecia; e com este Mandamento se anulou a opinião filosófica que escrevemos.
״אָנֹכִי ה׳ אֱלֹהֶיךָ״ — שֶׁהַשֵּׁם מַשְׁגִּיחַ וּמַנְהִיג. ״אֲשֶׁר הוֹצֵאתִיךָ מֵאֶרֶץ מִצְרַיִם מִבֵּית עֲבָדִים״ — הַהַשְׁגָּחָה, וּבְמַה שֶּׁשּׁוֹמֵעַ קוֹלִי — מְצִיאוּת הַנְּבוּאָה.
10 Mas, porque ainda é possível que restem as outras opiniões — a saber que sejam intermediários os anjos ou as estrelas ou as constelações entre o homem e o Senhor, ou que os sirva estando ele a pensar em elevar o Senhor e em fazer a sua vontade, depois de ele lhes ter repartido honra —, por isso juntou a isto o Mandamento segundo, que é "não terás outros deuses diante de mim" al panai, que é para advertir a não servir as inteligências separadas, que são os anjos — pois, conforme o que explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, na Mechilta, eles são os chamados "outros deuses" em todo lugar, como escreveu o Ramban, de abençoada memória, na parashá "Vaishma Yitró"; e disse "diante de mim", quer dizer: mesmo com a crença na minha providência sobre ti, não terás outros deuses para introduzi-los como intermediários entre mim e ti, ou para que penses em elevar-me com o seu serviço, e com muito mais razão a fim de que alcances por meio deles algum influxo sem o meu conhecimento; e depois disso disse "não farás para ti escultura nem nenhuma figura" (Êxodo 20:4), para advertir sobre as figuras feitas para receber por meio delas o influxo astral, e elas são as chamadas "deuses de fundição" elohei massechá em todo lugar; e concluiu "pois eu sou o Senhor teu D'us, um D'us zeloso" (Êxodo 20:5), quer dizer: não penses em elevar-me com o seu serviço, pois a coisa é ao contrário, a saber que eu tenho ciúme deles.
11 E com isto se anularam todas as opiniões que é possível que tragam a servir idolatria e a servir uma divindade fora do Senhor. Mas não se preocupou a Torá em negar a opinião de Epicuro, que nega a existência do Senhor e a sua unidade e pensa que o Senhor, bendito seja, é a alma da esfera, pois com provas intelectuais claras podemos forçá-lo; e, contudo, as demais opiniões precisavam de anulação, como escrevemos.
״לֹא יִהְיֶה לְךָ אֱלֹהִים אֲחֵרִים עַל פָּנָי״ — שֶׁלֹּא לַעֲבֹד הַשְּׂכָלִים הַנִּבְדָּלִים כְּאֶמְצָעִיִּים. ״כִּי אָנֹכִי ה׳ אֱלֹהֶיךָ אֵל קַנָּא״.
12 E indica sobre o que dissemos — que "Eu sou" e "Não terás" vieram a anular a opinião filosófica — o que se disse a Moisés depois da entrega da Torá imediatamente: "assim dirás aos filhos de Israel: vós vistes que dos céus falei convosco; não fareis comigo deuses de prata e deuses de ouro" etc. (Êxodo 20:19-20). E isto é coisa de admirar: por que voltou a advertir sobre a idolatria imediatamente após os dez Mandamentos, se eis que já advertira sobre ela no Mandamento "não terás" etc. e "não farás para ti escultura" etc.? Mas a explicação do assunto é assim: que voltou a explicar-lhes que aquela opinião corrompida que pensavam os filósofos — de que o Senhor, bendito seja, por ser ele elevado em grau e por habitar nos céus, que está no extremo da elevação e do grau acima de se juntar com as coisas corporais, não supervisiona a espécie do homem, por ser ele inferior e desprezível aos seus olhos e abominável e não-cabido de um grau grande como este; ou que pensavam que se precisa de figuras ou de algum intermediário entre nós e ele para a descida da espiritualidade, opinião esta que era o erro de Israel no caso do bezerro — por isso disse "vós vistes que dos céus falei convosco", quer dizer: já vistes que, com o facto de eu ser elevado nos céus, baixei o meu grau e não me impedi de falar convosco, com o facto de serdes vós todos, fora Moisés, não-preparados para um grau grande como este; e isto vos será por sinal de que, mesmo se a espécie do homem for inferior e desprezível e não-cabida de que eu a supervisione, eu a supervisiono, mesmo se ela for não-cabida disso; e, se é assim, "não fareis comigo deuses de prata e deuses de ouro" — quer dizer, a fim de que façais descer por meio deles a espiritualidade —, pois com coisa mais fácil do que esta se alcança o meu influxo, e isto é "um altar de terra farás para mim" (Êxodo 20:21); pois "no alto e no santo habito, e também com o contrito e o humilde de espírito" (Isaías 57:15) — ou com coisa mais fácil ainda do que esta, que é a oração; e isto é o que disse "em todo lugar em que eu fizer recordar o meu nome, virei a ti e te abençoarei" (Êxodo 20:21), quer dizer, influirei a minha bênção sobre ti.
״אַתֶּם רְאִיתֶם כִּי מִן הַשָּׁמַיִם דִּבַּרְתִּי עִמָּכֶם״ — אַף שֶׁאֲנִי מְרוֹמָם, הִשְׁפַּלְתִּי מַעֲלָתִי וְהִשְׁגַּחְתִּי. ״בְּכָל הַמָּקוֹם אֲשֶׁר אַזְכִּיר אֶת שְׁמִי אָבוֹא אֵלֶיךָ וּבֵרַכְתִּיךָ״.
13 E, contudo, já bastaria para isto os dois primeiros Mandamentos, que são "Eu sou" e "Não terás"; mas, porque era possível que se dissesse que na audição destes dois Mandamentos não há prova sobre a providência particular nos assuntos dos homens — porque não são senão por causa dele mesmo, bendito seja, e para não abandonar o seu serviço no serviço de outro, e isto não indica sobre a providência particular mas sobre a providência específica, depois de não falarem eles em nada da condução dos homens uns com os outros, coisa que indica sobre a providência particular —, por isso foi necessário fazê-los ouvir naquela assembleia outros Mandamentos que são necessários para indicar sobre a Torá do Céu e sobre a providência, como se explicará, com a ajuda do Senhor.
אֶפְשָׁר לוֹמַר שֶׁשְּׁתֵּי הַדִּבְּרוֹת אֵינָן מוֹרוֹת עַל הַהַשְׁגָּחָה הַפְּרָטִית אֶלָּא הַמִּינִית — לָכֵן הֻצְרְכוּ דִּבְּרוֹת אֲחֵרוֹת.
14 E, na verdade, a diferença que há entre "Eu sou" e "Não terás" e os demais Mandamentos é que "Eu sou" e "Não terás" os ouviram Israel da boca do Senhor sem a intermediação de Moisés, e por isso vieram todos em expressão de primeira pessoa, o que fala por si: "Eu sou o Senhor teu D'us", "não terás outros deuses diante de mim", "pois eu sou o Senhor teu D'us, um D'us zeloso", "aos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos". Mas, do Mandamento "não tomarás" em diante, tudo veio em expressão de terceira pessoa, o oculto, em todas as coisas que Moisés falava a eles da boca do Senhor: disse "não tomarás o nome do Senhor teu D'us em vão, pois não inocentará o Senhor aquele que tomar o seu nome em vão" (Êxodo 20:7) — e não disse "e não inocentarei" e "que tomar o meu nome"; e assim disse "pois em seis dias fez o Senhor" etc., "e descansou no dia sétimo; por isso abençoou o Senhor o dia do Shabat" (Êxodo 20:11) — e não disse "fiz", "abençoei", "santifiquei", e assim todos eles. E isto indica sobre a diferença que há entre "Eu sou" e "Não terás" e os demais Mandamentos: pois "Eu sou" e "Não terás" os ouviram da boca do Senhor sem a intermediação de Moisés, e os demais Mandamentos ouviam a voz a dizê-los a Moisés, e Moisés voltava e os explicava a eles, e por isso vieram em expressão do oculto como dissemos.
15 E por isso disseram "'Eu sou' e 'Não terás' da boca da Força as ouviram" — quer dizer: estes dois Mandamentos, depois de os ter dito o Senhor, bendito seja, ele mesmo a Israel face a face, sem a intermediação de Moisés, não há força na mão de nenhum profeta para dizer coisa contra eles nem para enfraquecê-los em nenhum assunto, e mesmo a título de indicação temporária hora'at sha'á; e por isso disseram "da boca da Força as ouviram" e não disseram "da boca do Santo, bendito seja, as ouviram" — é como que explicaram que o dito por meio de um profeta há força na mão de um profeta para anulá-lo, seja a título de indicação temporária, seja conforme o que a coisa der a entender — como Jeremias, que anulou a contagem dos meses desde Nissan —; mas o dito ao homem por meio do Senhor sem a intermediação de um profeta, não há força na mão de um profeta para anulá-lo e mesmo a título de indicação temporária; e isto é o que disseram que o profeta que diz para servir idolatria, mesmo por uma hora, não se lhe escuta. Mas, se disser que profanemos o Shabat ou que transgridamos um dos mandamentos a título de indicação temporária ou num assunto que não destrua as raízes da religião, é cabido que lhe escutemos, porque se disse "a ele escutareis" (Deuteronômio 18:15); e, se disser "o Senhor me ordenou que oreis a tal estrela ou a tal anjo para ser intermediário entre ele e vós", não lhe aquiesceremos nem lhe escutaremos, porque isto é contra "Eu sou" e "Não terás", que os ouvimos da boca da Força; e é impossível a nenhum profeta escutar a outro profeta para anular o que ele mesmo ouviu da boca do Senhor, como explicámos no início deste capítulo.
״אָנֹכִי וְלֹא יִהְיֶה לְךָ״ בִּלְשׁוֹן מְדַבֵּר בְּעַד עַצְמוֹ; מִ״לֹא תִשָּׂא״ וְאֵילָךְ בִּלְשׁוֹן נִסְתָּר. נָבִיא הָאוֹמֵר לַעֲבֹד עֲבוֹדָה זָרָה אֲפִלּוּ לְשָׁעָה — אֵין שׁוֹמְעִין לוֹ.
Este capítulo aplica a hermenêutica dos graus proféticos (cap. 17) à questão da revogabilidade. O princípio: o que o profeta recebe diretamente de D'us é irrevogável — só pode ser anulado por nova ordem direta de D'us (Abraão: "oferece Isaque" → "não estendas a mão"); e Idó foi morto por obedecer a outro profeta contra uma ordem que recebera diretamente. Já o que vem por intermédio de um profeta pode ser modificado por outra ordem mediada. Por isso D'us quis que todo Israel ouvisse os Dez Mandamentos da Sua própria boca — para blindá-los contra qualquer profeta futuro.
Surge a dificuldade: o Talmud (Makot) diz que só "Eu sou" e "Não terás" foram ouvidos "da boca da Gevurá", embora os versículos afirmem que todos os dez foram dados a Israel. Maimônides (Guia) lê "da boca da Gevurá" como "pela força da demonstração": esses dois (existência e unidade de D'us) são demonstráveis pela razão, logo profeta e filósofo os sabem igualmente; os outros oito são "recebidos/divulgados" e precisavam ser ouvidos. Albo objeta com agudeza: se são racionalmente demonstráveis, por que então precisariam ser ouvidos proféticamente? E mais grave: o próprio Maimônides ensina (Mishné Torá, Hilchot Avodá Zará) que os idólatras não negavam a existência de D'us — serviam os astros como "ministros" para honrar a D'us ou como intermediários. Logo o primeiro Mandamento deveria atacar isso, não a existência divina que ninguém negava.
A contribuição original do capítulo é uma tipologia dos erros idólatras: (1) os que negam a existência/unidade de D'us (Epicuro, "D'us é a alma da esfera") — refutáveis pela razão, não precisam de revelação; (2) os que servem astros como honra a D'us ou como intermediários (Achav, e mesmo Salomão); (3) — o mais profundo — os que, crendo num D'us uno e incorpóreo, negam a providência sobre o mundo inferior, julgando "elevação" de D'us que Ele não se ocupe do homem "inferior e desprezível" (a posição de certos filósofos, "abandonou D'us a terra"; Jó inclinava-se a ela). Esta terceira opinião é a chave: ela é filosoficamente sedutora e estava "espalhada no tempo da Torá" — e não pode ser refutada por profecia, porque quem nega a providência já nega a profecia. Só restava um caminho: demonstrar a providência pelo próprio ato da revelação.
Daí a releitura brilhante. "Eu sou o Senhor teu D'us" — "Elohecha" = "que te conduz/supervisiona"; "que te tirei do Egito, da casa de servos" — o Êxodo é a prova empírica da providência (D'us subjugou a constelação que fazia de Israel escravo). E o próprio falar de D'us a Israel prova a profecia. Assim o primeiro Mandamento refuta a opinião filosófica demonstrando, pelo evento, que D'us supervisiona e se comunica. "Não terás outros deuses diante de mim" então fecha as outras brechas: proíbe os anjos/astros como intermediários ("diante de mim" = mesmo crendo na minha providência) e as figuras feitas para captar o influxo astral. E "vós vistes que dos céus falei" (Êx 20) reforça: "embora eu seja elevado, baixei o meu grau e falei convosco — sinal de que supervisiono o homem mesmo quando indigno; logo não precisais de ídolos de prata para atrair a espiritualidade — basta um altar de terra, ou a própria oração: 'em todo lugar onde eu fizer recordar o meu nome, virei a ti e te abençoarei'".
O fecho extrai a lição jurídica que governará o resto do Maamar. A marca gramatical confirma a tese: "Eu sou" e "Não terás" estão em primeira pessoa ("eu", "diante de mim") — ouvidos direto de D'us; do terceiro Mandamento em diante, terceira pessoa ("não inocentará o Senhor", "abençoou o Senhor") — transmitidos por Moisés. Por isso "da boca da Gevurá" (não "da boca do Santo"): o que vem por profeta um profeta pode anular (Jeremias mudou a contagem dos meses); o que veio direto de D'us, nenhum profeta pode tocar, "nem a título de hora'at sha'á". Daí a halachá: um profeta que mande profanar o Shabat temporariamente ou transgredir um preceito por necessidade pode ser ouvido ("a ele escutareis") — mas um profeta que mande servir idolatria, mesmo por uma hora, jamais é ouvido, pois isso contradiz o que Israel ouviu da própria boca de D'us. Estabelece-se assim, com precisão, o que na Torá é absolutamente imutável (a recusa da idolatria e o reconhecimento da providência) e o que comporta, em tese e só por autoridade divina, flexibilidade — afinando a posição que distingue Albo de Maimônides.
Os três princípios universais não mudam. Quanto aos demais preceitos, um profeta só poderia alterá-los se a sua autoridade igualasse a de Moisés — por ser maior que ele (que a Torá declara impossível) ou por uma missão confirmada diante de todo Israel como a de Moisés. O sinal e o milagre não provam a missão. Por isso nenhum profeta futuro pode anular a Torá — o cerne da resposta de Albo aos adversários.
Os três princípios universais não mudam. Quanto aos demais preceitos, um profeta só poderia alterá-los se a sua autoridade igualasse a de Moisés — por ser maior que ele (que a Torá declara impossível) ou por uma missão confirmada diante de todo Israel como a de Moisés. O sinal e o milagre não provam a missão. Por isso nenhum profeta futuro pode anular a Torá — o cerne da resposta de Albo aos adversários.
1 Do conjunto do que dissemos explica-se que é impossível que se mude a Torá divina nos três princípios universais que escrevemos. E isto é: que na audição de "Eu sou" e "Não terás" da boca da Força se verificou a eles a existência da Torá do Céu junto com a existência do Senhor que ordena, e que ele é o que supervisiona e pune os que transgridem a sua vontade e paga boa recompensa aos que o temem, para tirá-los da servidão à liberdade — como viram no que fez aos egípcios para puni-los e no que lhes fez para tirá-los; e isto é "que te tirei da terra do Egito, da casa de servos", do que se explicou a eles disto a imensidão da providência, até que não é cabido servir a outro que não ele, e mesmo por via de intermediários — e tudo isto está incluído na expressão "não terás outros deuses diante de mim", como escrevemos. E se esclareceu, então, o que escrevemos no capítulo vinte e cinco do primeiro Maamar: que a mudança entre as religiões divinas não vem nos princípios universais. E, contudo, o que precisa de explicação é se os demais mandamentos que vieram na Torá de Moisés é possível que se mudem por meio de um profeta, ou não.
אִי אֶפְשָׁר שֶׁתִּשְׁתַּנֶּה הַתּוֹרָה בִּשְׁלֹשָׁה הָעִקָּרִים הַכּוֹלְלִים. הַשְׁנוּי בֵּין הַדָּתוֹת לֹא יָבֹא בָּעִקָּרִים. וְצָרִיךְ בֵּאוּר אִם שְׁאָר הַמִּצְוֹת אֶפְשָׁר שֶׁיִּשְׁתַּנּוּ.
2 E isto é: que, assim como dissemos que há diferença entre "Eu sou" e "Não terás" e os demais Mandamentos — porque estes foram ditos da boca do Senhor sem a intermediação de Moisés, e estes, ainda que os ouvissem da boca do Senhor, se explicaram por meio de Moisés —, assim há o que dizer que há diferença entre os dez Mandamentos e os demais dos mandamentos, depois que os dez Mandamentos os ouviram da boca do Senhor e os demais dos mandamentos foram ordenados neles por meio de Moisés; e, depois que no que restou dos dez Mandamentos, fora "Eu sou" e "Não terás", o profeta é autorizado a mudá-los a título de indicação temporária como dissemos, assim é possível que o profeta seja autorizado a mudar os demais mandamentos mesmo não a título de indicação temporária; e por esta razão é que anularam no Segundo Templo a contagem dos meses desde Nissan por ordem de Jeremias, como escrevemos.
אֶפְשָׁר שֶׁהַנָּבִיא רַשַּׁאי לְשַׁנּוֹת שְׁאָר הַמִּצְוֹת אֲפִלּוּ שֶׁלֹּא בְּהוֹרָאַת שָׁעָה — וּמִזֶּה בִּטְּלוּ מִנְיַן הֶחֳדָשִׁים מִנִּיסָן עַל פִּי יִרְמְיָה.
3 Senão que, se a coisa fosse assim — que a permissão fosse dada na mão de todo profeta ou de quem se gaba de profecia para mudar todos os mandamentos que vieram na Torá divina, fora os dez Mandamentos, e para dizer que chegou o seu tempo de mudar-se —, cairia a Torá no seu conjunto e não haveria lugar para a sua subsistência de modo algum. E se dissermos que não há permissão na mão de nenhum profeta para mudar os mandamentos que vieram na religião divina por meio de outro profeta — é coisa muito difícil; pois, se é assim, por que creram Israel em Moisés a mudar coisa da Torá dos filhos de Noé, que era recebida nas suas mãos por tradição contínua dos seus pais, que eram profetas?
4 E não veio a mudança por meio de Moisés nos particulares dos consensos e das convenções e nas coisas que são apenas pelo lado dos receptores, e nas coisas em que é possível que caia a diferença entre as nações, das coisas em que é possível que se mudem as religiões divinas uma da outra, como explicámos no primeiro Maamar; mas também nas coisas em que não há para o consenso humano entrada, como a vaca vermelha pará adumá e a semeadura de sementes mistas kil'aim e a permissão do animal depois do abate, antes que morra, e as demais coisas que foram permitidas a Israel das coisas que foram proibidas aos filhos de Noé, que se mencionaram no capítulo "Quatro tipos de pena de morte" — como um gentio que descansa no Shabat é culpado de morte e coisas semelhantes a isto; pois isto é do que indica que o dito por meio de um profeta numa religião divina já é possível que se mude por meio de outro profeta; e, se é assim, como saberemos a coisa que é possível que se mude por meio de um profeta ou que se anule?
אִם כָּל נָבִיא רַשַּׁאי לְשַׁנּוֹת — תִּפֹּל הַתּוֹרָה. וְאִם אֵין רְשׁוּת כְּלָל — לָמָּה הֶאֱמִינוּ יִשְׂרָאֵל בְּמֹשֶׁה לְשַׁנּוֹת תּוֹרַת בְּנֵי נֹחַ?
5 E por isso dizemos que o que se vê nisto, conforme o que o dá a especulação religiosa, é que nenhum homem é autorizado a mover-se da sua tradição kabalá e da sua crença, na qual é recebido por tradição contínua e que foi dita primeiro por meio de um profeta — depois de se lhe ter esclarecido o serem os princípios e as raízes que há nela verdadeiros, do modo que escrevemos no primeiro Maamar —, a não ser que se lhe esclareça com um esclarecimento completo que o Senhor quer anular as palavras do profeta primeiro de que decorreu a tradição.
אֵין שׁוּם אָדָם רַשַּׁאי לָזוּז מִקַּבָּלָתוֹ, אֶלָּא אִם כֵּן יִתְבָּרֵר לוֹ בֵּרוּר גָּמוּר שֶׁהַשֵּׁם רוֹצֶה לְבַטֵּל דִּבְרֵי הַנָּבִיא הָרִאשׁוֹן.
6 E, contudo, o caminho deste esclarecimento é que se verifique a todos a missão shlichut deste segundo enviado com uma verificação completa; e esta verificação é impossível que seja pelo lado da feitura de sinais e maravilhas, depois de se acharem homens muitos, fora os profetas, que fazem um sinal ou maravilha — seja por arte de ilusão láhat, seja por feitiçaria como os magos do Egito, ou por algum outro saber; e ainda, pois, depois de se acharem os profetas que não são enviados a dar uma Torá por meio deles a fazerem sinais e maravilhas, quem dirá que o sinal ou a maravilha feita por meio deste homem é para indicar a sua missão de se dar uma religião por meio dele? Talvez não se lhe deu este sinal senão para indicar a sua profecia apenas. E por isso é manifesto que não é o sinal ou a maravilha prova sobre a missão do enviado, como se explicou isto no capítulo dezoito do primeiro Maamar. E, contudo, a prova sobre a missão do enviado é cabido que se tome a partir da Torá de Moisés, pela razão que escrevemos no capítulo 11 do primeiro Maamar; e, conforme isto, se se verificar a missão do enviado do modo com que se verificou a missão de Moisés, é cabido escutar as palavras do profeta segundo que vem a anular as palavras do profeta primeiro.
אֵין הָאוֹת אוֹ הַמּוֹפֵת רְאָיָה עַל שְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ, שֶׁהֲרֵי גַּם הַחַרְטֻמִּים עוֹשִׂים. הָרְאָיָה תֻּלָּקַח מִתּוֹרַת מֹשֶׁה.
7 E por causa disto creram Israel nas palavras de Moisés, ainda que viessem nas suas palavras coisas que discordam da Torá dos filhos de Noé, como escrevemos, com o facto de serem eles recebidos de que ela é divina. E isto é porque se lhes esclareceu com um esclarecimento verdadeiro que o Senhor quer dar uma Torá por meio de Moisés — pois, se não fosse assim, não seriam Israel autorizados a mover-se da sua tradição e da Torá que receberam de Adão e de Noé por meio dos seus pais por tradição contínua. E este esclarecimento foi por dois caminhos: seja porque se verificou a eles que o profeta posterior que muda é maior no grau do que o primeiro; seja porque se verificou a eles a missão do enviado posterior com uma verificação forte como a do primeiro — pois estas duas espécies se verificaram na profecia de Moisés e na sua missão com verificação completa.
8 Quanto a o profeta ser ele maior no grau do que os primeiros — porque se fizeram por meio dele sinais e maravilhas grandes e terríveis que nunca se fizeram até aquele dia como eles. E já explicou a Escritura isto explicitamente, disse "e apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó como El-Shaddai, e pelo meu nome Y-H-V-H não me dei a conhecer a eles" (Êxodo 6:3) — quer dizer, que se revelou a Moisés com o seu nome grande, com que podia renovar por meio dele sinais e maravilhas manifestos e divulgados com mudança do costume do mundo, o que não se fizeram aos primeiros como eles jamais, senão milagres ocultos para redimi-los da fome da morte e da guerra da mão da espada. E, contudo, a verificação da missão do enviado foi que todo Israel ouviu a voz a falar com Moisés, como diz a Escritura "a fim de que ouça o povo no meu falar contigo" (Êxodo 19:9), a saber que eu quero dar uma Torá por meio de ti, e disso crerão nas tuas palavras; e por causa disto eram Israel obrigados a crer nas suas palavras, e ainda que contradiga todas as palavras dos profetas primeiros, depois de se verificar a sua missão do modo que escrevemos no capítulo dezoito do primeiro Maamar, e de se elevar o grau da sua profecia como escrevemos no capítulo décimo deste Maamar.
בִּשְׁנֵי דְּרָכִים: שֶׁהוּא גָּדוֹל בְּמַדְרֵגָה, וְשֶׁנִּתְאַמֵּת שְׁלִיחוּתוֹ. ״בַּעֲבוּר יִשְׁמַע הָעָם בְּדַבְּרִי עִמָּךְ״ — וְעַל יְדֵי זֶה הֶאֱמִינוּ.
9 E, contudo, se é possível que venha no futuro um outro profeta que contradiga as palavras de Moisés e de que se seja obrigado a crer nele — eis que não é possível, conforme isto, a não ser por um de dois lados: seja porque se verifique o ser aquele profeta maior no grau do que Moisés, seja porque se verifique a sua missão como se verificou a missão de Moisés. Quanto a que se ache um profeta maior do que Moisés — já explicou a Escritura o impedimento disto, disse "se houver um profeta vosso, eu, o Senhor, numa visão a ele me darei a conhecer" etc., "não assim o meu servo Moisés, em toda a minha casa" etc., "boca a boca falo com ele" (Números 12:6-8); eis que explicou que se elevou a profecia de Moisés acima do que é possível no estatuto de todo profeta, como explicou no fim da Torá que não se levantará jamais um outro profeta como ele, a quem o Senhor o conheça face a face — pois este grau foi o que pediu Moisés do Senhor, bendito seja, e lhe foi dado, como se escreveu no fim da Torá "e não se levantou um profeta mais em Israel como Moisés, a quem conheceu o Senhor face a face" (Deuteronômio 34:10).
10 E, conforme isto, se vier algum profeta ou quem se gaba de profecia e disser que chegou a um grau maior do que Moisés — o que é impossível —, e disser que é cabido escutar a ele para contradizer coisa das palavras de Moisés não a título de indicação temporária, não lhe aquiesceremos nem lhe escutaremos. Pois nós lhe diremos que é necessário que verifique o ser ele maior no grau do que Moisés e do que todos os profetas que vieram depois dele, que foram os seus discípulos — e isto seria quando fizesse sinais e maravilhas grandes e terríveis acima de tudo o que se fizeram por meio de Moisés e de todos os profetas, e quando afundasse todos os que discordam dele como fez Moisés a Coré e à sua congregação, e quando vencesse todos os sábios da geração e se sobrepujasse sobre eles e abaixasse todos os que se levantam contra ele como fez Moisés a Faraó e a todos os magos do Egito e a todos os seus sábios, e quando fossem os sinais e as maravilhas que fizesse manifestos e divulgados a todos como eram os milagres de Moisés aos olhos de Faraó e aos olhos de todo Israel, e quando fossem milagres contínuos como quando conduziu Moisés a coluna de nuvem de dia e a coluna de fogo de noite diante do povo e fez descer o maná quarenta anos sem cessação, exceto no dia do Shabat em que não descia, para indicar sobre a santidade do Shabat e a verdade das suas palavras — e outras como estas, muitas, com ele; mas sem isto é impossível.
״לֹא קָם נָבִיא עוֹד בְּיִשְׂרָאֵל כְּמֹשֶׁה אֲשֶׁר יְדָעוֹ ה׳ פָּנִים אֶל פָּנִים״. וְאִם יָבֹא מִי שֶׁיֹּאמַר שֶׁהוּא גָּדוֹל מִמֹּשֶׁה — לֹא נֹאבֶה לוֹ, כִּי אִי אֶפְשָׁר.
11 E o facto de terem Israel escutado a Jeremias para anular a contagem dos meses desde Nissan, como dissemos — é possível que fizeram assim porque acharam um versículo e o interpretaram drash, como escreveram os Tossafot no capítulo primeiro de Meguilá: que o facto de Esdras ter mudado a escrita quando subiu do exílio foi porque achou um versículo e o interpretou — "e escreverá para si o duplicado mishné desta Torá" (Deuteronômio 17:18), a escrita que está no futuro a mudar-se; ou porque não era aquele mandamento um dos dez Mandamentos, e também porque não era a intenção nele a anular as palavras de Moisés, mas a fazer uma memória para a redenção segunda como fizeram uma memória para a redenção primeira — pois assim eram recebidos por tradição de que era cabido fazer-lhe uma memória, contanto que não se arrancasse a saída do Egito do seu lugar, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "não que se arranque a saída do Egito do seu lugar" etc.
יִרְמְיָה — ״מִשּׁוּם דְּאַשְׁכַּח קְרָא וְדָרֵשׁ״, וְלֹא הָיְתָה הַכַּוָּנָה לְבַטֵּל דִּבְרֵי מֹשֶׁה אֶלָּא לַעֲשׂוֹת זֵכֶר לַגְּאֻלָּה הַשְּׁנִיָּה.
12 E, contudo, se vier um outro profeta ou quem se gaba de profecia e disser que ele é enviado do Senhor para dar-se uma religião por meio dele e para anular as palavras de Moisés não a título de indicação temporária — eis que não é cabido que se creia nele nos dez Mandamentos, depois de os ter ouvido Israel da boca do Senhor; e nos demais mandamentos, fora os dez Mandamentos, também é impossível, a não ser que se verifique a sua missão como se verificou a missão de Moisés — que todo Israel ouviu a voz a dizer a Moisés "vai, dize-lhes: voltai para vós às vossas tendas; e tu, fica aqui comigo, e te falarei toda a ordem mitzvá e os estatutos e os juízos que lhes ensinarás" (Deuteronômio 5:27-28).
13 E por causa disto se revelou o Senhor, bendito seja, a todo Israel para falar com eles face a face, a fim de que se verificasse a eles a missão de Moisés com uma verificação essencial; e isto é o que disse o Senhor a Moisés "eis que eu venho a ti na espessura da nuvem, a fim de que ouça o povo no meu falar contigo, e também em ti creiam para sempre" (Êxodo 19:9). E a sua explicação é: que disse o Senhor, bendito seja, a Moisés que ele queria revelar-se a ele no grau de face a face, com o facto de ele estar na espessura da nuvem — quer dizer, na espessura da turvação da matéria, e não-cabido àquele grau. E isto, na verdade, se faz para dois proveitos: o primeiro, para aquela hora — e isto é "para que ouça o povo no meu falar contigo", e por isso lhe escutarão em tudo o que os ordenar, mesmo se for contra a Torá dos filhos de Noé —; e o segundo, no futuro — que creiam em Moisés para sempre de que ele é enviado do Senhor.
אֵין לְהַאֲמִין לְשׁוּם נָבִיא לִסְתֹּר דִּבְרֵי מֹשֶׁה עַד שֶׁתִּתְאַמֵּת שְׁלִיחוּתוֹ בְּפֻמְבֵּי גָּדוֹל כְּמַעֲמַד שִׁשִּׁים רִבּוֹא. ״וְגַם בְּךָ יַאֲמִינוּ לְעוֹלָם״.
14 E por isso não se escutará a nenhum profeta que venha a contradizer as palavras de Moisés se não se ouvir da boca do Senhor que ele é enviado para isto; pois aquele que escuta a um profeta para transgredir as palavras de Moisés não a título de indicação temporária, eis que este é como aquele que escuta a um profeta para transgredir o que ele mesmo ouviu da boca do Senhor, bendito seja — o que não é cabido escutar a um profeta sobre isso; pois sobre esta coisa foi punido Idó, o profeta, a quem o matou o leão, porque escutou a outro profeta para transgredir o que ele mesmo ouviu da boca do Senhor, bendito seja. E por isso é manifesto que é impossível crer a nenhum homem — seja ele profeta ou quem se gaba de profecia — que diga que ele é enviado do Senhor para contradizer as palavras de Moisés e para dizer que elas são temporárias e que chegou o seu tempo de anular-se, até que se verifique a nós a sua missão numa divulgação grande pumbei gadol como se verificou a nós a missão de Moisés na assembleia de seiscentos mil shishim ribó.
הַשּׁוֹמֵעַ לְנָבִיא לַעֲבֹר עַל דִּבְרֵי מֹשֶׁה — כְּמִי שֶׁשּׁוֹמֵעַ לְנָבִיא לַעֲבֹר עַל מַה שֶּׁשָּׁמַע הוּא מִפִּי הַשֵּׁם, וְעַל זֶה נֶעֱנַשׁ עִדּוֹ הַנָּבִיא.
15 E, contudo, se é possível que se ache no futuro uma divulgação grande como a primeira, em que todo Israel ouça a voz do Senhor D'us a falar com eles do meio do fogo — a opinião dos nossos mestres, de abençoada memória, é que está no futuro a achar-se; pois assim está escrito no Midrash Chazit sobre o versículo "beije-me ele dos beijos da sua boca" (Cântico 1:2): "disse Rabi Iehudá: na hora em que ouviram Israel 'Eu sou' e 'Não terás', se fincou o estudo da Torá no seu coração e a estudavam e não a esqueciam; vieram a Moisés e disseram-lhe: Moisés, nosso mestre, faze-te tu um mediador peruzbion" — quer dizer, um enviado entre nós —, "conforme se disse 'fala tu connosco e ouviremos' (Êxodo 20:16); voltaram a estudar e a esquecer; disseram: assim como Moisés, carne e sangue, passa, assim o seu estudo passa — quer dizer, se esquece; voltaram e vieram a Moisés e disseram-lhe: Moisés, quem dera que se nos revele uma segunda vez! quem dera que me beije dos beijos da sua boca! disse-lhes: não é isto agora, mas no futuro por vir — conforme se disse 'dei a minha Torá no seu interior' (Jeremias 31:32)." Eis-te explícito que a sua opinião, de abençoada memória, é que já se achará a todo Israel no futuro um estudo segundo como o primeiro, da boca do Santo, bendito seja, sem a intermediação de modo algum.
16 E, conforme a minha opinião, é que, depois que isto não é forçoso na explicação dos versículos, é mais cabido que digamos que esta coisa está dependente da vontade de D'us; mas isto não é obrigatório que se ache, nem impossível que se ache, conforme a especulação religiosa. E nós, hoje, estamos nisto no grau do profeta que ouviu uma coisa da boca do Senhor, bendito seja — que é impossível para ele escutar a outro profeta para fazer o oposto do que se lhe ordenou ele mesmo do Senhor, bendito seja, até que ouça assim ele mesmo da boca do Senhor, bendito seja; e, mesmo se se verificar a missão do enviado como se verificou a missão de Moisés, não lhe aquiesceremos nem lhe escutaremos para anular coisa dos dez Mandamentos, que os ouvimos nós da boca do Senhor, bendito seja.
17 E deste modo se responde aos que discordam de nós e dizem que o que está escrito na Torá "um profeta vos levantarei do meio dos seus irmãos como tu, e porei as minhas palavras na sua boca, e ele falar-lhes-á tudo o que eu o ordenar" (Deuteronômio 18:18) quer dizer um profeta por meio do qual se dê uma Torá como se deu por meio de Moisés, e que "do meio dos seus irmãos" quer dizer dos irmãos de Israel e não deles próprios. Também nós lhes diremos que, mesmo conforme o seu caminho — de que dizem que a Escritura diz que no futuro está a levantar-se um profeta por meio do qual se dê uma Torá como foi isto em Moisés —, de todo modo, depois que disse "um profeta vos levantarei como tu", é cabido que o seu levantamento e a verdade da sua profecia — que é a verdade da missão do enviado, que é princípio para a Torá divina, como dissemos — seja do modo com que se verificou a profecia de Moisés na assembleia de seiscentos mil, sem dúvida e sem nenhuma suspeita.
״נָבִיא אָקִים לָהֶם מִקֶּרֶב אֲחֵיהֶם כָּמוֹךָ״ — ״כָּמוֹךָ״: שֶׁתִּתְאַמֵּת נְבוּאָתוֹ בְּמַעֲמַד שִׁשִּׁים רִבּוֹא בְּלִי שׁוּם חֲשָׁד.
Este capítulo é o ápice de toda a investigação dos caps. 13-19 e o coração da polêmica de Albo contra as religiões que alegam ter recebido uma revelação que substitui a Torá (cristianismo e islã). Tendo admitido honestamente que a Lei divina pode mudar em princípio (caps. 13-16) e que de fato mudou na história (Adão→Noé→Moisés), Albo precisa agora mostrar por que, apesar disso, a Torá de Moisés não pode ser revogada — sem cair nem na rigidez absoluta de Maimônides nem na vulnerabilidade total.
Primeiro, Albo isola o núcleo intocável: os três princípios universais (existência de D'us, providência/Torá do Céu, recompensa e castigo), todos contidos no que Israel ouviu diretamente em "Eu sou" e "Não terás". Estes nunca mudam em religião divina alguma. A questão real é: e os demais preceitos?
Albo formula o dilema com rigor: se qualquer profeta pudesse revogar mandamentos, "cairia toda a Torá"; mas se nenhum profeta pudesse, como Israel aceitou Moisés mudar a tradição noáquida recebida dos patriarcas (que eram profetas)? E nota que Moisés mudou não só convenções sociais, mas preceitos sem base na razão humana (pará adumá, kil'aim, o abate). A resolução é a regra hermenêutica: ninguém pode abandonar a tradição recebida — a não ser por prova cabal de que D'us quer revogá-la, e essa prova exige a verificação da missão (shlichut) do novo enviado no mesmo nível em que se verificou a de Moisés.
Crucial e antimilagroso: sinais e maravilhas não provam a missão. Magos (os chartumim do Egito), feiticeiros e ilusionistas fazem prodígios; e mesmo profetas autênticos que não trazem nova Torá fazem milagres — logo um milagre prova, no máximo, profecia, não autoridade legislativa. A prova da missão tem de vir de outra fonte. Israel creu em Moisés por dois fundamentos conjugados: (1) ele era maior que todos os profetas (revelado pelo Nome inefável, milagres públicos e duradouros sem precedente); (2) sua missão foi verificada perante todo o povo — "para que o povo ouça quando falo contigo, e creia em ti para sempre" (Êx 19:9).
Daí, um profeta futuro só poderia revogar a Torá por uma de duas vias: ser maior que Moisés — e a Torá fecha esta porta explicitamente: "não se levantou nem se levantará profeta como Moisés, a quem o Senhor conheceu face a face" (Dt 34:10; Nm 12) —; ou ter a missão verificada como a de Moisés, isto é, perante seiscentos mil (shishim ribó), sem sombra de dúvida. Albo é mordaz: se alguém alegar ser maior que Moisés, exigiremos que faça milagres maiores que todos os de Moisés, derrote todos os sábios, afunde os opositores como Coré, com prodígios públicos e contínuos como a coluna de nuvem e o maná de quarenta anos — "mas sem isto, é impossível". E o caso de Jeremias (a mudança da contagem dos meses) é reenquadrado: não foi revogação de Moisés, mas exegese de um versículo (drash) e mera "memória da segunda redenção", preservando o Êxodo no seu lugar.
O fecho confronta diretamente o argumento cristão/islâmico que lê "um profeta como tu levantarei do meio dos seus irmãos" (Dt 18:18) como anúncio de um futuro legislador que substituiria Moisés. Albo concede o terreno e vira o argumento: ainda que assim fosse, o texto diz "como tu" — portanto a autenticação desse profeta teria de igualar a de Moisés: perante seiscentos mil, sem dúvida e sem suspeita. Como nenhuma religião posterior pode alegar tal verificação pública e massiva da sua missão, nenhuma pode revogar a Torá. Albo registra ainda a opinião dos Sábios (Midrash Chazit) de que haverá no futuro uma segunda revelação coletiva como a do Sinai ("dei a minha Torá no seu interior"), mas, com cautela característica, a deixa dependente da vontade de D'us — e conclui: até lá, "estamos no grau do profeta que ouviu de D'us", incapazes de aceitar qualquer voz que contradiga o que nós mesmos ouvimos da boca de D'us nos Dez Mandamentos. A eternidade prática da Torá fica assim fundada não num dogma de imutabilidade, mas na insuperável autoridade da revelação sinaítica.
Um adversário pode objetar: "não se levantou profeta como Moisés" não garante que nunca surgirá um igual ou maior. Albo responde: a singularidade de Moisés não se prova só por esse versículo, mas pelo pedido que Moisés fez — e D'us concedeu — de distinguir Israel e a si mesmo na profecia: "far-me-ás conhecer pelo nome". Daí a profecia de Moisés é milagre permanente e prova da eternidade da Torá. E a crítica final a Maimônides.
Um adversário pode objetar: "não se levantou profeta como Moisés" não garante que nunca surgirá um igual ou maior. Albo responde: a singularidade de Moisés não se prova só por esse versículo, mas pelo pedido que Moisés fez — e D'us concedeu — de distinguir Israel e a si mesmo na profecia: "far-me-ás conhecer pelo nome". Daí a profecia de Moisés é milagre permanente e prova da eternidade da Torá. E a crítica final a Maimônides.
1 Há para o adversário o que discordar e dizer que isto que se disse na Torá "se houver um profeta vosso, eu, o Senhor, numa visão a ele me darei a conhecer, em sonho falarei com ele; não assim o meu servo Moisés" etc. (Números 12:6-7) não foi dito senão sobre Aarão e Miriam, mas já é possível no futuro que se ache um profeta como Moisés ou maior do que ele; e assim "e não se levantou profeta mais em Israel como Moisés" (Deuteronômio 34:10) não indica que não se ache jamais como ele ou maior do que ele, pois já se acha esta expressão referindo-se a coisa que se acha como ela no futuro. E isto é: pois eis que disse a Escritura sobre Ezequias "e depois dele não houve como ele em todos os reis de Judá, e nos que foram antes dele" (II Reis 18:5), e assim se disse sobre Josias "e como ele não houve antes dele um rei que se voltou ao Senhor" etc., "e depois dele não se levantou como ele" (II Reis 23:25), e é impossível que não se levante como ele jamais ou maior do que ele, pois eis que o rei Messias será como ele ou maior do que ele; mas a explicação de "não se levantou como ele" não é que não se levante como ele jamais, mas que não se levantou como ele nalgum atributo individual, ou que em todo aquele período em que se estenderam os reis até o exílio, quando cessou a realeza da semente de Davi, não se levantou como ele de todo modo — não que não se levante como ele jamais. E, se é assim, o que impede que não digamos assim aqui: que o que disse a Escritura "e não se levantou profeta mais em Israel como Moisés" quer dizer que, em todo aquele tempo em que se estenderam os profetas após ele até que cessou a profecia deles, não se levantou como ele, mas no futuro já se achará como ele ou maior do que ele? E, se é por causa da palavra "mais" od mencionada em Moisés a mais — não indica a expressão "od" senão sobre um tempo escasso, como "beberá e esquecerá a sua pobreza, e o seu sofrimento não recordará mais od" (Provérbios 31:7), cuja explicação é por todo o tempo enquanto não sair dele o vinho; e assim "e não aprenderão mais od a guerra" (Isaías 2:4), que quer dizer naquela geração; e assim "não se chamará mais od ao vil 'nobre'" etc. (Isaías 32:5).
״לֹא קָם נָבִיא עוֹד בְּיִשְׂרָאֵל כְּמֹשֶׁה״ — אֶפְשָׁר שֶׁאֵינוֹ מוֹרֶה עַל הֶעָתִיד, כְּמוֹ ״וְאַחֲרָיו לֹא הָיָה כָמֹהוּ״ עַל חִזְקִיָּהוּ וְיֹאשִׁיָּהוּ. וּ״עוֹד״ מוֹרֶה עַל זְמַן מוּעָט.
2 E a resposta nisto é que não há a necessidade do grau da profecia de Moisés apenas dos versículos que dissemos; pois, se fosse assim, já seria possível ao adversário discordar e dizer que em Israel não se levantou, mas nas nações do mundo se levantou. Mas o fundamento da necessidade vem do que se acha na Torá de que pediu Moisés, nosso mestre, do Senhor que se elevasse o grau de todo Israel e o seu grau na profecia acima de todas as demais nações; e isto é o que pediu Moisés, nosso mestre, do Senhor, bendito seja, quando lhe disse "e seremos distinguidos veniflinu, eu e o teu povo, de todo o povo que está sobre a face da terra" (Êxodo 33:16). Pois pediu-lhe duas coisas: a primeira, que não se iguale nenhuma nação a Israel — e isto é que não repouse a Glória Shechiná sobre as nações do mundo a tal ponto que se ache profecia nelas; e assim disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "pediu Moisés, nosso mestre, que não repousasse a Glória sobre as nações do mundo, e lhe foi dado." E a segunda: pediu-lhe que não se iguale a ele nenhum homem na profecia — e isto é o seu dito "eu e o teu povo"; pois, assim como pediu que não se iguale nenhuma nação a Israel no repouso da Glória sobre eles, como explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, assim se vê que pediu na palavra "eu" que não se iguale nenhum homem a ele no grau da profecia.
״וְנִפְלִינוּ אֲנִי וְעַמְּךָ מִכָּל הָעָם״ — בִּקֵּשׁ מֹשֶׁה שְׁנֵי דְבָרִים: שֶׁלֹּא תִּשְׁרֶה שְׁכִינָה עַל אֻמּוֹת הָעוֹלָם, וְשֶׁלֹּא יִשְׁוֶה לוֹ שׁוּם אָדָם בִּנְבוּאָה.
3 E se lhe disse em resposta a isto "também esta coisa que falaste farei, pois achaste graça aos meus olhos, e te conheço pelo nome va'edaacha beshem" (Êxodo 33:17) — eis que lhe concordou o Senhor, bendito seja, naquela elevação que lhe pediu; e por causa disto é o que testemunhou sobre ele a Escritura no fim da Torá de que não se levantará profeta mais em Israel como Moisés — quer dizer, mesmo em Israel, que é a nação escolhida para a profecia, não se levantará como ele jamais, como lhe foi prometido sobre isso, e com muito mais razão nas demais nações, que não são cabidas de que paire sobre elas a profecia. E o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "'e não se levantou profeta mais em Israel como Moisés' — em Israel é que não se levantou, mas nas nações do mundo se levantou, e contaram Balaão" — na verdade disseram isto para indicar que, assim como o grau de Moisés na profecia era em razão de Israel, como explicámos no capítulo 12 deste Maamar, assim Balaão não chegou àquele grau que apreendeu na profecia — com o facto de ser ele um adivinho — senão em razão de Israel, a fim de que os abençoasse; mas não que se iguale o grau de Balaão ao grau de Moisés, longe disso! pois já se lhe disse "também esta coisa que falaste farei" etc., "e te conheço pelo nome", com o que concordou-lhe o Senhor, bendito seja, que não se iguale o grau de nenhum profeta ao seu grau e que não paire profecia sobre as nações do mundo.
״גַּם אֶת הַדָּבָר הַזֶּה אֲשֶׁר דִּבַּרְתָּ אֶעֱשֶׂה... וָאֵדָעֲךָ בְּשֵׁם״. בִּלְעָם הִגִּיעַ לְמַדְרֵגָתוֹ בִּשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל, וְלֹא שֶׁתִּשְׁוֶה לְמֹשֶׁה.
4 E, porque viu Moisés que lhe concordou o Senhor, bendito seja, na sua petição que pediu, entendeu dele duas coisas. A primeira, que a profecia não paira sobre o homem por natureza, mas por uma vontade divina, e por isso lhe concordou que não paire a profecia sobre as nações do mundo — pois, se pairasse por natureza, não seria o Senhor, bendito seja, a reter um bem dos seus possuidores a ponto de que não pairasse a profecia sobre as nações do mundo. E a segunda: entendeu dele que a sua profecia seria um assunto miraculoso e uma coisa que está acima do grau do intelecto humano para apreender por via de profecia, mesmo pelo lado da Torá, e mesmo se ele for preparado a ela. Pois, se estivesse no estatuto do intelecto humano que o apreendesse, como o prometeu o Senhor, bendito seja, "e te conheço pelo nome" e que não se levantaria em Israel um profeta como Moisés? Eis que o Senhor, bendito seja, não é cabido que retenha um bem dos seus possuidores — pois, se houver um homem de Israel, que é a nação escolhida para pairar sobre ela a profecia, preparado àquele grau, não seria possível que não o influísse sobre ele na sua vontade. Mas, sem dúvida, por ser a sua profecia um assunto miraculoso, numa graça abundante que não é do estatuto do homem que a apreenda, prometeu-lhe que não faria aquela graça a outro.
הֵבִין מֹשֶׁה שְׁנֵי דְבָרִים: שֶׁהַנְּבוּאָה בְּרָצוֹן אֱלֹהִי לֹא בְּטֶבַע, וְשֶׁנְּבוּאָתוֹ עִנְיָן נִסִּיִּי לְמַעְלָה מֵחֵק הַשֵּׂכֶל הָאֱנוֹשִׁי.
5 E, porque sentiu Moisés que era uma hora de boa vontade para fazer com ele uma graça gratuita, juntou a isto uma outra petição e disse "mostra-me, por favor, a tua glória" (Êxodo 33:18); pois pensou que, depois de lhe ter concordado o Senhor, bendito seja, fazer com ele uma graça gratuita que nenhum homem é cabido de alcançá-la, também a visão ou a apreensão da sua glória — ainda que não esteja no estatuto do homem que a apreenda — poderia mostrar-lha pelo lado da graça. E veio-lhe a resposta sobre isto "não poderás ver a minha face, pois não me verá o homem e viverá" (Êxodo 33:20); e explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, "mesmo os anjos do serviço, que são vivos". E será a explicação da resposta, conforme isto: não penses que esta apreensão que eu retenho de ti é porque não está no estatuto do homem que a apreenda, mas porque não está também isto no estatuto dos anjos do serviço, que são vivos sempre, que a apreendam; e por isso é impossível que apreendas tu este grau, pois basta-te que apreendas como a apreensão dos anjos do serviço, mas apreender mais do que eles é impossível. E por isso não lhe reteve a apreensão das "costas" achoraim, que é o conhecimento da qualidade do encadeamento dos existentes vindos dele, mas reteve-lhe a apreensão da sua face panav, que é a apreensão de algo da sua essência, que não a apreende outro fora dele.
״הַרְאֵנִי נָא אֶת כְּבֹדֶךָ״ — ״לֹא תוּכַל לִרְאוֹת אֶת פָּנָי כִּי לֹא יִרְאַנִי הָאָדָם וָחָי״, אֲפִלּוּ מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת. הָאֲחוֹרַיִם הִשִּׂיג, אֲבָל הַפָּנִים — מֵעַצְמוּתוֹ — לֹא.
6 E, conforme estas palavras, depois de lhe ter concordado o Senhor, bendito seja, a sua petição como se disse "e te conheço pelo nome", é cabido que entendamos que o versículo "e não se levantou profeta mais em Israel como Moisés" é um milagre permanente que indica sobre a grandeza do grau de Moisés na profecia acima de todos os profetas que vêm depois dele; e por isso não será nenhum profeta autorizado a discordar das suas palavras.
7 E seria cabido, conforme isto, que se contasse a profecia de Moisés como uma raiz particular por si mesma para a Torá de Moisés, porque ela indica sobre a eternidade desta Torá; mas, porque é possível ao adversário discordar do comentário que dissemos e dizer que é verdade que não se levantará jamais em Israel como Moisés nem maior do que ele, mas nas nações do mundo é possível que se levante — como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, sobre "ele se erguerá e se elevará e se exaltará em muito" (Isaías 52:13): "se erguerá mais de Abraão, e se exaltará mais de Moisés" etc., do que se vê que é possível que se levante maior do que Moisés —, por isso contámo-la como um ramo que se ramifica da missão do enviado e não como uma raiz por si mesma, para dizer que, mesmo se reconhecermos que seja o comentário dos versículos conforme as suas palavras e que seja possível que se levante no futuro um outro profeta grande como Moisés, eis que é impossível dizer que se creia em nenhum profeta ou quem se gaba de profecia a discordar das palavras de Moisés se não for depois de se nos explicar a missão do enviado — e isto é que se verifique que ele é enviado do Senhor para dar uma Torá por meio dele na assembleia de seiscentos mil, como se verificou a missão de Moisés, como dissemos.
״לֹא קָם נָבִיא עוֹד״ — נֵס מַתְמִיד. ״יָרוּם מֵאַבְרָהָם וְגָבַהּ מִמֹּשֶׁה״ — לָכֵן מָנִינוּ נְבוּאַת מֹשֶׁה עָנָף לִשְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ, לֹא שֹׁרֶשׁ.
8 E, contudo, se é possível que se verifique isto no futuro, quando ouça todo o povo como se fosse um só a voz do Senhor D'us a falar do meio do fogo como foi isto em Moisés — não há para nós ocupação com as coisas ocultas nistarot, pois isto é coisa dependente da sabedoria do Senhor apenas; e por todo o tempo enquanto não se verificar a missão do enviado deste modo, não se escutará a nenhum homem que venha a anular as palavras de Moisés não a título de indicação temporária.
אֵין לָנוּ עֵסֶק בַּנִּסְתָּרוֹת, כִּי זֶה תָּלוּי בְּחָכְמַת הַשֵּׁם. וְכָל עוֹד שֶׁלֹּא יִתְאַמֵּת שְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ — לֹא נִשְׁמַע לְבַטֵּל דִּבְרֵי מֹשֶׁה.
9 E há o que admirar no Rambam, de abençoada memória, que, com o facto de ter feito a profecia de Moisés um princípio dos princípios e ter explicado as diferenças que há entre a profecia de Moisés e a de outro, e ter dito que todos os profetas que o precedem antes dele e os que vêm depois dele, todos eles estão abaixo do seu grau — voltou a fazer um princípio de que a Torá não será substituída e não se mudará. E se vê que a sua opinião é dizer que, não fora este princípio, já seria possível escutar a um profeta a anular as palavras de Moisés; e é admiração: como escutaríamos a um profeta pequeno no grau a anular as palavras de Moisés, que é maior do que todos os profetas que vêm depois dele, conforme o que escreveu ele, de abençoada memória? A não ser que digas que a sua opinião é dizer que a explicação de "e não se levantou profeta mais em Israel como Moisés" quer dizer por todos os dias do período dos profetas, mas é possível no futuro que se levante um outro profeta como ele, e por isso foi necessário que ele fizesse um outro princípio de que a Torá não será substituída. E já explicámos nós que é impossível que se levante um outro profeta maior do que Moisés em nenhum tempo nem como ele, e que não é cabido escutar a um profeta pequeno em nenhum tempo a anular as palavras de quem é maior do que ele; mas, porque há para o teimoso o que discordar e dizer que é possível que se levante no futuro nas nações um outro profeta como Moisés ou maior do que ele, não contámos a profecia de Moisés como raiz, mas como ramo que se estende para a missão do enviado, para dizer que é impossível anular as palavras de Moisés em nenhum tempo não a título de indicação temporária se não for depois de se nos esclarecer a verdade da sua missão como se esclareceu a missão de Moisés; e com isto não precisaremos de fazer uma raiz nem um princípio de que a Torá não será substituída como fez o Rambam, de abençoada memória — pois já explicámos que é coisa que não tem prova da Torá e não é princípio por si mesmo, mas é uma crença verdadeira e uma coisa que se estende para a missão do enviado, como explicámos. E assim se vê da expressão dos nossos mestres, de abençoada memória, no Torat Cohanim; disseram "'estes são os mandamentos' (Levítico 27:34) — ensina que não é um profeta autorizado a inovar coisa daqui em diante; 'que ordenou o Senhor a Moisés' — digno é o enviado do seu enviante kedái hashaliach lesholcho." Eis que vincularam a eternidade da Torá e dos mandamentos à missão do enviado; e isto é o que quisemos explicar.
״אֵלֶּה הַמִּצְוֹת — שֶׁאֵין נָבִיא רַשַּׁאי לְחַדֵּשׁ דָּבָר מֵעַתָּה; אֲשֶׁר צִוָּה ה׳ אֶת מֹשֶׁה — כְּדַאי הַשָּׁלִיחַ לְשׁוֹלְחוֹ״ — תָּלוּ נִצְחִיּוּת הַתּוֹרָה בִּשְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ.
Fiel ao seu método dialético, Albo dá voz à objeção mais forte contra a tese do capítulo anterior. "Não se levantou profeta como Moisés" (Dt 34:10) — argumenta o adversário — não prova que nunca surgirá um igual. A própria Bíblia diz de Ezequias e de Josias "não houve como ele antes nem depois", e contudo o Messias será igual ou maior; logo a fórmula significa apenas "não houve como ele num certo respeito" ou "naquele período". E até a palavra "od" ("mais") designa tempo limitado ("não recordará mais a pobreza" = enquanto está embriagado). Pela letra do versículo, então, um Moisés futuro não estaria excluído — e com ele a possibilidade de revogar a Torá.
A virada de Albo é elegante: a singularidade insuperável de Moisés não repousa sobre aquele versículo isolado (que de fato seria ambíguo, e poderia até admitir "em Israel não, mas nas nações sim"). Repousa sobre um pedido que Moisés fez e D'us concedeu. Em Êxodo 33:16, "seremos distinguidos (veniflinu), eu e o teu povo, de todo povo", Moisés pediu duas coisas: que nenhuma nação se iguale a Israel (a Shechiná não repousará sobre os gentios — confirmado pelos Sábios) e que nenhum indivíduo se iguale a ele ("eu"). E a resposta — "também esta coisa que falaste farei… e te conheço pelo nome (va'edaacha beshem)" — é a concessão divina explícita dessa dupla singularidade. Não é uma constatação histórica que o futuro pode desmentir; é uma promessa. Daí o caso de Balaão (que os Sábios dizem ter sido "profeta entre as nações como Moisés") se resolve: Balaão alcançou seu grau, como Moisés o seu, "em razão de Israel" — mas isso não iguala os dois, pois a promessa "te conheço pelo nome" garante que ninguém iguala Moisés.
Da concessão divina, Moisés (e Albo) extrai duas verdades: (1) a profecia não é natural, mas dom da vontade divina — senão D'us não poderia "reter o bem" das nações dignas; (2) a profecia de Moisés é milagre, acima do que o intelecto humano pode alcançar mesmo bem preparado — senão D'us, que "não retém o bem dos dignos", teria de concedê-la a qualquer israelita apto. É porque era graça sobrenatural que pôde ser prometida como exclusiva. E o capítulo aprofunda com o pedido seguinte de Moisés — "mostra-me a tua glória" — e a resposta "não me verá o homem e viverá" (nem mesmo os anjos): Moisés alcançou as "costas" (o conhecimento de como os seres emanam de D'us), mas não a "face" (a essência), que só D'us conhece de Si.
Albo confessa que seria coerente fazer da profecia de Moisés um princípio próprio, pois ela funda a eternidade da Torá. Mas, com a honestidade dialética de sempre, reconhece que um adversário teimoso ainda poderia alegar (apoiado no midrash "se erguerá mais que Abraão, se exaltará mais que Moisés") que um profeta maior que Moisés poderia surgir entre as nações. Por isso classifica a profecia de Moisés como ramo derivado da "verdade da missão do enviado" (shlichut), não raiz autônoma: mesmo concedendo a hipótese, nenhum profeta pode revogar Moisés sem que sua missão seja verificada como a de Moisés — perante seiscentos mil. Sobre o futuro coletivo, "não nos cabe o oculto". A crítica final a Maimônides fecha todo o bloco: é "admiração" que o Rambam, tendo já estabelecido Moisés como superior a todos os profetas, ainda precise de um princípio separado de imutabilidade — pois um profeta menor jamais poderia anular um maior, e a imutabilidade "não tem prova da Torá e não é princípio próprio". A solução de Albo é mais econômica e elegante: a permanência da Torá deriva inteiramente da autoridade insuperável da missão de Moisés, exatamente como ensina o Torat Cohanim — "não é o profeta autorizado a inovar daqui em diante… digno é o enviado do seu enviante". A eternidade da Lei é, assim, corolário da revelação sinaítica, não axioma adicional.
A Torá é chamada "testemunho" (edut). Assim como um testemunho deve ser entendido ao pé da letra — não se reinterpreta para salvar as testemunhas da refutação —, os mandamentos devem ser entendidos no seu sentido simples, sem inventar-lhes condições ou prazos não escritos. Contra os que alegorizam os preceitos alegando que só a fé do coração importa: o sentido literal e o alegórico coexistem, mas o segundo nunca cancela o primeiro.
A Torá é chamada "testemunho" (edut). Assim como um testemunho deve ser entendido ao pé da letra — não se reinterpreta para salvar as testemunhas da refutação —, os mandamentos devem ser entendidos no seu sentido simples, sem inventar-lhes condições ou prazos não escritos. Contra os que alegorizam os preceitos alegando que só a fé do coração importa: o sentido literal e o alegórico coexistem, mas o segundo nunca cancela o primeiro.
1 A Torá é chamada "testemunho" edut, como disse a Escritura "e na arca porás o testemunho" (Êxodo 25:16), "se guardarem os teus filhos a minha aliança e o meu testemunho, este que lhes ensinarei" (Salmos 132:12) — para dizer que, assim como o testemunho é impossível que não se entenda conforme o seu sentido simples, e não se diz "mudemos o tempo" ou "façamos-lhe uma explicação ou uma figura" de modo que não se tornem refutados zomemin ou desmentidas as testemunhas — e, se testemunharam que Rúben matou Simeão no primeiro dia da semana e foram refutados, não se diz "expliquemos o testemunho de modo que não sejam refutados", a saber que dizemos que "no primeiro dia da semana" quer dizer "no primeiro ano da shemitá", ou que dizemos que o que disseram de que o matou é porque não lhe deu esmola para mantê-lo vivo, ou porque não lhe ensinou Torá para trazê-lo à vida do mundo vindouro, porque o testemunho é cabido que se entenda conforme o seu sentido simples, e, se foram refutadas as testemunhas, são mortas, e não se explicam as suas palavras a fim de que não sejam mortas — assim a Torá do Senhor é chamada "testemunho" porque é cabido que se entendam os mandamentos conforme o seu sentido simples, e não lhes façamos figuras e explicações a dizer que há neles uma condição ou um tempo delimitado que não foi mencionado neles.
נִקְרֵאת הַתּוֹרָה עֵדוּת — ״וְאֶל הָאָרוֹן תִּתֵּן אֶת הָעֵדֻת״. כְּמוֹ שֶׁהָעֵדוּת אִי אֶפְשָׁר שֶׁלֹּא יוּבַן כִּפְשׁוּטוֹ, כֵּן הַמִּצְוֹת יוּבְנוּ כִּפְשָׁטָן, וְלֹא נַעֲשֶׂה לָהֶם תְּנַאי אוֹ זְמַן שֶׁלֹּא נִזְכַּר.
2 E sobre isto disse Davi "o testemunho do Senhor é fiel" (Salmos 19:8) — quer dizer, que ele é verdadeiro conforme o seu sentido simples; e aquele que vem a explicar e a mudar e a fazer figuras e a dizer que a proibição do porco era temporária, ou que foi dita em referência à má inclinação yétzer hará e coisas semelhantes a isto, e que o fundamento de toda a Torá está dependente da crença do coração e não da feitura dos mandamentos — sobre ele recai a obrigação de trazer prova, pois não está na sua mão anular o sentido simples dos mandamentos e dizer que há neles uma condição ou um tempo que não foi mencionado. E a isto aludiu o salmista ao dizer "cavaram para mim os arrogantes covas shichot, o que não é conforme a tua Torá" (Salmos 119:85); e explicou que as "covas" shichot são as conversas, sichot dos que dizem que todos os teus mandamentos são crença apenas, e que já passou o seu tempo, e que não há necessidade da feitura dos mandamentos de modo algum; e "com esta falsidade me perseguiram, e por isso ajuda-me", pois "eu preciso da tua ajuda, já que, se não for assim, quase me consumiram na terra, e, com tudo isto, eu não abandonei os teus preceitos"; e selou as suas palavras "conforme a tua bondade vivifica-me, e guardarei o testemunho da tua boca" (Salmos 119:88) — quer dizer, que eles quase me consumiram, e tu, na tua bondade, vivifica-me, e guardarei os mandamentos conforme o seu sentido simples, que são "o testemunho da tua boca" — quer dizer, como um testemunho que se entende conforme o seu sentido simples, e não há força na mão de nenhum homem para explicar e anular o sentido simples dos mandamentos.
״עֵדוּת ה׳ נֶאֱמָנָה״ — אֲמִתִּית כִּפְשׁוּטָהּ. הַבָּא לוֹמַר שֶׁאִסּוּר הַחֲזִיר זְמַנִּי אוֹ עַל יֵצֶר הָרָע — עָלָיו לְהָבִיא רְאָיָה. ״כָּרוּ לִי זֵדִים שִׁיחוֹת אֲשֶׁר לֹא כְתוֹרָתֶךָ״.
3 E isto é: que, ainda que se achem na Torá coisas muitas com as quais concordaram todos os sábios de que aludem a assuntos nobres e elevados, assuntos intelectuais — como a narração do jardim do Éden e os quatro rios e outros além deles —, não por causa disto negaram a sua existência e disseram que não sejam verdade conforme o seu sentido simples; mas dizem que, com o facto de aquelas coisas se acharem assim na existência, há nelas uma alusão a assuntos mais nobres e elevados — como a obra do Tabernáculo mishkán se acha assim na existência e é uma alusão a assuntos elevados e nobres; e assim, na natureza da formação humana, acham-se nela a língua e os dentes e os lábios como necessidade da comida, como se acham nos viventes, e, com tudo isto, eles estão no homem para um fim mais nobre — pois são instrumentos para a fala e a expressão a fim de louvar o Senhor e contar os seus louvores, que é um fim mais nobre do que o fim para o qual se acharam nos viventes; e assim no mundo se acham coisas pelo lado da natureza da formação — como os quatro rios e outros além deles — que aludem a assuntos mais nobres do que eles; e deste modo é que disseram que a Jerusalém de baixo é uma parábola da Jerusalém de cima, e não disseram assim para negar a existência da Jerusalém de baixo, que é para um assunto nobre por si mesma — quer dizer, de que seja morada para a Glória —, assim como não negamos a existência de Ezequiel e o ser ele, por si mesmo, para um fim nobre como a existência de um dos justos, porque disse a Escritura "e será Ezequiel para vós por sinal mofet" (Ezequiel 24:24); e assim entenderemos que há na Torá coisas que aludem a outros assuntos nobres e a alusões elevadas, e elas, com isto, são verdadeiras conforme o seu sentido simples; e com muito mais razão os mandamentos, que, com o facto de haver neles uma alusão a assuntos nobres e elevados, há neles também um fim nobre por si mesmos e pelo lado da ação que há neles; e por causa disto é chamada a Torá "testemunho", como dissemos, para dizer que eles são verdadeiros conforme o seu sentido simples, e não lhes faremos figura a fim de anular o sentido simples.
אַף שֶׁיֵּשׁ בַּתּוֹרָה דְּבָרִים הָרוֹמְזִים לְעִנְיָנִים נִכְבָּדִים (גַּן עֵדֶן, אַרְבָּעָה נְהָרוֹת), אֵינָם מַכְחִישִׁים מְצִיאוּתָם. כְּמַעֲשֵׂה הַמִּשְׁכָּן — אֲמִתִּי וְרוֹמֵז כְּאֶחָד. וְכָל שֶׁכֵּן הַמִּצְוֹת.
Este capítulo breve mas incisivo fecha a defesa da permanência da Torá com um argumento hermenêutico, atacando a estratégia mais sutil dos adversários: não negar a Torá, mas alegorizá-la até esvaziá-la. Albo apoia-se no nome que a própria Escritura dá à Torá — edut, "testemunho" ("na arca porás o testemunho"). E explora a analogia jurídica com rigor talmúdico: um testemunho, na lei, deve ser entendido literalmente. Se duas testemunhas afirmam "Rúben matou Simeão no domingo" e são refutadas (provou-se que estavam noutro lugar — edim zomemin), o tribunal não reinterpreta o depoimento para salvá-las: não dirá "'domingo' significa 'primeiro ano da shemitá'" nem "'matou' significa 'deixou de dar-lhe esmola ou de ensinar-lhe Torá'". O testemunho vale pelo seu sentido simples, e as testemunhas falsas são punidas. Assim a Torá-testemunho: os mandamentos valem pelo peshat, e ninguém pode inventar-lhes "condições ou prazos não escritos".
O alvo polêmico é explícito e contemporâneo de Albo (a apologética cristã, que lia os preceitos rituais como figuras já "cumpridas" e portanto caducas): "quem vem dizer que a proibição do porco era temporária, ou que foi dita só em referência à má inclinação… e que o fundamento de toda a Torá está na fé do coração e não na prática dos mandamentos — sobre ele recai o ônus da prova". O versículo "o testemunho do Senhor é fiel" (Sl 19:8) torna-se lema da literalidade. E o Salmo 119:85 é lido com um belo trocadilho: "cavaram-me covas (shichot) que não são conforme a tua Torá" — shichot como sichot, as "conversas" dos que dizem "teus mandamentos são só fé, o seu tempo passou, não há mais necessidade de praticá-los". Contra eles, o salmista (e Albo): "guardarei o testemunho da tua boca" — os mandamentos no seu sentido simples, que homem nenhum tem poder de anular.
O fecho é teologicamente equilibrado e evita o fundamentalismo ingênuo. Albo não nega a dimensão alegórica — reconhece que os Sábios concordam que muitas passagens (o Jardim do Éden, os quatro rios) aludem a "assuntos intelectuais elevados". Mas o ponto crucial é: o sentido alegórico não cancela o literal; os dois coexistem. O modelo é o Tabernáculo — realmente construído e símbolo de realidades supernas; ou a língua, os dentes e os lábios, que servem à alimentação (como nos animais) e, no homem, a um fim mais nobre, a fala que louva a D'us. A Jerusalém terrena é figura da celeste sem deixar de ser real morada da Shechiná; Ezequiel é "sinal" (mofet) sem deixar de ser um homem real. Assim, "com muito mais razão os mandamentos": embora apontem para sentidos elevados, têm "um fim nobre por si mesmos e pela ação que neles há". A alegoria acrescenta camadas; não substitui a obrigação. É a defesa precisa contra a hermenêutica que, sob pretexto de espiritualizar, dissolve a Lei — selando, com a imagem da Torá-testemunho, todo o argumento de Albo sobre por que a prática dos mandamentos permanece vinculante.
A Torá que temos hoje, pela cadeia de tradição de pais a filhos, é a mesma dada a Moisés no Sinai, sem mudança alguma. Albo mostra por que ela não pôde ser alterada no Primeiro Templo, no exílio babilônico nem por Esdras; a fidelidade meticulosa dos soferim; e que o "tikun soferim" e os pontos sobre certas palavras não são alterações, mas marcas de reverência e ensino.
A Torá que temos hoje, pela cadeia de tradição de pais a filhos, é a mesma dada a Moisés no Sinai, sem mudança alguma. Albo mostra por que ela não pôde ser alterada no Primeiro Templo, no exílio babilônico nem por Esdras; a fidelidade meticulosa dos soferim; e que o "tikun soferim" e os pontos sobre certas palavras não são alterações, mas marcas de reverência e ensino.
1 A Torá que está em nossas mãos hoje, conforme o decorrer da tradição kabalá de pais a filhos, é a que foi dada a Moisés no Sinai sem mudança alguma. E isto é: que no tempo do Primeiro Templo, em que os sacerdotes e os mestres da Torá estavam na Casa do Templo e a Torá estava divulgada na boca de todos, era impossível para ela que recebesse mudança; e, ainda que houvesse entre eles reis que serviam idolatria, assim também se achavam com eles profetas por todos aqueles dias até a destruição, e advertiam Israel sobre a guarda da Torá. E o que achamos a respeito de Josias, que se assustou com grande susto pelo livro da Torá que achou Hilquias, o sacerdote, na Casa do Senhor (II Reis 22:8-11), não é que não se achasse nas suas mãos um livro de Torá ou uma cópia da escrita da Lei — pois eis que Jeremias, o profeta, estava vivo —, mas porque Amon e Menashé eram adoradores de idolatria e provocavam o Senhor, até que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, que Menashé raspava as menções do nome divino e escrevia o nome da idolatria debaixo delas; por isso receou um dos sacerdotes de que, se viesse à mão do rei o livro da Torá que escreveu Moisés, este rei ímpio raspasse as menções do nome divino que havia nele, e por causa disto o ocultou entre as fileiras da construção. E depois, nos dias de Josias, que se voltou ao Senhor com todo o seu coração e com toda a sua alma e com todo o seu poder, conforme toda a Torá de Moisés, buscaram por este livro e não o acharam; e, quando reforçaram o reparo da Casa, achou-o Hilquias entre as fileiras da construção, e era aos seus olhos como quem acha grande despojo, e enviou ao rei a dizer "o livro da Torá achei" (II Reis 22:8) — quer dizer, o livro da Torá conhecido que fez Moisés —, e não disse "um livro de Torá achei". E o facto de o rei Josias ter-se assustado por isso e ter rasgado as suas vestes quando ouviu as palavras do livro, já explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, no Talmud Jerusalmi a razão desta coisa: porque o livro de Torá que fez Moisés está no seu começo enrolado, e naquela hora acharam-no enrolado no versículo "levará o Senhor a ti e ao teu rei que levantares sobre ti" etc. (Deuteronômio 28:36); e por isso se assustou o rei com aquele susto que se assustou, não porque a Torá estivesse esquecida deles, longe disso!
הַתּוֹרָה שֶׁבְּיָדֵינוּ הַיּוֹם הִיא שֶׁנִּתְּנָה לְמֹשֶׁה בְּסִינַי בְּלִי שִׁנּוּי. בַּבַּיִת רִאשׁוֹן הָיוּ נְבִיאִים מַזְהִירִין. סֵפֶר יֹאשִׁיָּהוּ נִמְצָא נִגְלָל בְּ״יוֹלֵךְ ה׳ אֹתְךָ״.
2 E assim, quando foram exilados para a Babilônia, era impossível que se mudasse, porque no início do exílio de Joaquim, antes de se destruir a Casa, foram exilados o artesão e o ferreiro charash umasger e os grandes dos sábios de Israel — pois eis que estava entre eles Daniel e estava ali Ezequiel, o profeta; disse a Escritura "veio a mim o fugitivo de Jerusalém a dizer: feriu-se a cidade" (Ezequiel 33:21). E em todo o exílio de Israel, que estavam espalhados em toda a terra da Assíria, se achava nas suas mãos uma cópia da escrita da Lei — pois eis que mesmo junto aos cuteus samaritanos, que assentou o rei da Assíria nas cidades de Samaria, se achava a Torá; e, quando se destruiu a Casa, já estava a Torá espalhada na Babilônia, e era impossível para ela que recebesse mudança por causa da destruição da Casa.
בְּגָלוּת בָּבֶל אִי אֶפְשָׁר שֶׁתִּשְׁתַּנֶּה — שֶׁגָּלוּ הֶחָרָשׁ וְהַמַּסְגֵּר וּגְדוֹלֵי הַחֲכָמִים (דָּנִיֵּאל, יְחֶזְקֵאל), וְהַתּוֹרָה כְּבָר מִתְפַּשֶּׁטֶת.
3 E, quando subiu Esdras da Babilônia, não subiram com ele senão poucos metei mispar, e os grandes de Israel e os sábios e os de boa linhagem dentre eles, todos eles restaram na Babilônia. Disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "não subiu Esdras da Babilônia até que a tornou como farinha pura solet nekiá, e então subiu" — quer dizer, que deixou os puros de linhagem e subiu com ele todos os impuros de linhagem, porque na terra de Israel teria ele força na mão para impedir de que se misturassem com eles. Sabe disto, pois eis que não subiram com ele pessoas da tribo de Levi de modo algum; disse a Escritura "e examinei o povo e os sacerdotes, e dos filhos de Levi não achei ali" (Esdras 8:15), até que enviou por eles à Babilônia, e enviaram-lhe dos filhos de Machli dezoito. E, depois que restaram ali todos os grandes e os que sabem a Torá, não era ele autorizado a mudar coisa na Torá, pois não seria a sua Torá concordante com a Torá de todos os que restaram na Babilônia e os que se acham nas cidades de Samaria e na terra da Assíria e noutros lugares, que não concordaram em subir com ele.
עֶזְרָא לֹא עָלוּ עִמּוֹ אֶלָּא מְתֵי מִסְפָּר, וְהַגְּדוֹלִים נִשְׁאֲרוּ בְּבָבֶל — לֹא הָיָה רַשַּׁאי לְשַׁנּוֹת דָּבָר, שֶׁלֹּא תַּסְכִּים תּוֹרָתוֹ עִם הַנִּשְׁאָרִים.
4 E, ainda que se tenha mudado a escrita como dissemos acima, em memória da redenção segunda, de todo modo não era ele autorizado a mudar coisa na Torá. E o facto de ter mudado a contagem dos meses de Nissan para Tishrei, como dissemos, não considerou isto como uma mudança, depois de que já nos juízos da Torá contavam para as shemitot e para os jubileus desde Tishrei; e talvez assim eram eles recebidos por tradição de Jeremias, que tinha uma tradição na sua mão dos profetas até Moisés de que era cabido fazer uma memória para a redenção segunda, depois de ter restado o mandamento do Pessach, que é uma memória para a saída do Egito, no seu lugar; mas não mudou coisa do que está escrito na Torá de modo algum. E, se se acha a Torá noutras nações numa forma diferente do texto que está em nossas mãos ou com alguma mudança em algumas coisas, eis que aquela mudança caiu pelo lado dos que copiaram para aquelas nações, que não eram peritos nela; pois os judeus são meticulosos na Torá e nas suas letras no escrito pleno e no defectivo malé vechaser, e se gloriam no conhecimento da contagem das letras e dos versículos dos acentos, até que eles escrevem isto nas margens dos seus livros e o chamam "massorá" — o que não fazem assim as demais nações; e assim disseram "por que se chamou o seu nome 'soferim' contadores/escribas? Porque contavam todas as letras que há na Torá" — e isto é sinal de que ela está guardada nas suas mãos como foi dada a Moisés sem mudança; e a prova é que ela se acha hoje na mão de todo Israel, que estão espalhados em todo o mundo, do confim do oriente até o fim do ocidente, num só texto sem mudança.
שִׁנָּה הַכְּתָב, אֲבָל לֹא שִׁנָּה דָּבָר מִן הַתּוֹרָה. ״לָמָּה נִקְרָא שְׁמָם סוֹפְרִים — שֶׁהָיוּ סוֹפְרִים כָּל אוֹתִיּוֹת שֶׁבַּתּוֹרָה״. נִמְצֵאת בְּיַד כָּל יִשְׂרָאֵל עַל נֻסָּח אֶחָד.
5 E o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, sobre algumas palavras que há na Torá "é correção dos escribas tikun soferim isto" — é o seguinte: como o que disseram "'e Abraão ainda estava de pé diante do Senhor' (Gênesis 18:22) — 'era para dizer e o Senhor ainda estava de pé diante de Abraão' que lhe era cabido dizer, senão que é correção dos escribas isto"; e assim "que eu não veja em meu mal be'ra'ati" (Números 11:15) — "'em teu mal' be'ra'atecha lhe era cabido dizer, senão que é correção dos escribas isto"; e assim além disto, do que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, que é correção dos escribas — não é a intenção a dizer que mudou algum homem coisa do que está na Torá, longe disso! pois não há homem no mundo que falsifique um livro e diga "eu falsifiquei" ou "corrigi assim e assim"; e como diriam eles "é correção dos escribas isto"? Mas a intenção é dizer que, conforme o assunto do decorrer da passagem, era cabido que se dissesse "e em teu mal não veja"; e o facto de a Escritura ter mudado e dito "e em meu mal não veja" não foi senão como um escriba que corrige as suas palavras a modo de honra para com o Alto — pois Moisés não falava sobre si mesmo, mas com referência ao Alto falava, e corrigiu Moisés a linguagem vinda da boca do Senhor como um escriba que corrige a escrita a modo de honra; e assim com tudo o que é semelhante a isto. E assim os pontos sobre a palavra "e Aarão" ve'Aharon no versículo "todos os contados dos levitas que contou Moisés e Aarão" (Números 3:39), e sobre "para nós e para os nossos filhos" lanu ulevaneinu (Deuteronômio 29:28), e coisas semelhantes a eles — a razão nisto é que o ponto sobre a palavra, com o facto de ela restar escrita, eis que ele está no meio entre a escrita da palavra e a sua ausência, como que dirá que, ainda que esteja escrito "que contou Moisés e Aarão", o que contava era Moisés, e Aarão era secundário a ele — senão que foi escrito a modo de honra, pois Moisés somente era o principal; e assim "para nós e para os nossos filhos" é para indicar que não há a obrigação dos filhos por conta dos pais tanto quanto a obrigação dos pais sobre si mesmos, ainda que os filhos se obriguem por conta dos pais; e assim todos eles, deste modo.
״תִּקּוּן סוֹפְרִים״ אֵינוֹ שֶׁשִּׁנָּה אָדָם — אֶלָּא שֶׁהַכָּתוּב שִׁנָּה דֶּרֶךְ כָּבוֹד כְּלַפֵּי מַעְלָה (״וְאַל אֶרְאֶה בְּרָעָתִי״). וְהַנְּקֻדּוֹת — בֵּין כְּתִיבַת הַתֵּבָה לְהֶעְדֵּרָהּ.
Os capítulos anteriores estabeleceram que nenhum profeta pode revogar a Torá. Mas resta uma objeção empírica que os adversários (especialmente a polêmica cristã e a caraíta) levantavam: e se o texto da Torá tiver sido corrompido ao longo dos séculos — exílios, perseguições, cópias? Albo dedica este capítulo a provar a integridade textual: a Torá que temos é, letra por letra, a de Moisés no Sinai. Sem essa garantia, toda a argumentação sobre a autoridade do peshat (cap. 21) ruiria.
Albo percorre os momentos em que o texto poderia ter sido alterado e mostra a impossibilidade em cada um. (1) Primeiro Templo: sacerdotes, mestres e profetas (até a destruição) tornavam a Torá pública demais para ser falsificada. O episódio do "rolo achado por Josias" — que parece sugerir que a Torá se perdera — é reexplicado com finura: Jeremias estava vivo e havia cópias; Hilquias escondera aquele rolo específico (o autógrafo de Moisés) para protegê-lo de Menashé, que "raspava o Nome divino"; e o susto de Josias não foi por esquecimento da Torá, mas porque o rolo se abriu (segundo o Talmud Jerusalmi) exatamente no versículo da maldição "levará o Senhor a ti e ao teu rei ao exílio" — um mau presságio. (2) Exílio babilônico: a elite intelectual (Daniel, Ezequiel, "o artesão e o ferreiro") foi exilada antes da destruição, e a Torá já estava difundida — até entre os samaritanos. (3) Esdras: o argumento mais agudo — Esdras subiu com "poucos", deixando na Babilônia "todos os grandes e sábios" (nem levitas subiram, até mandar buscá-los); logo ele não podia alterar nada, pois sua versão teria de concordar com a dos que ficaram, espalhados pela Assíria e Samaria.
Albo distingue cuidadosamente o que de fato mudou (a forma das letras, do paleo-hebraico ao "assírio", e a contagem dos meses — caps. 14, 16) do que não mudou (o conteúdo do texto). Esdras "mudou a escrita, mas não mudou coisa da Torá". A prova positiva da fidelidade é a massorá: os judeus contam letras, palavras e versículos, marcam o pleno e o defectivo (malé/chaser) nas margens — daí o próprio nome soferim ("contadores"). E a evidência decisiva: a Torá é hoje idêntica "na mão de todo Israel, do oriente ao ocidente, num só texto". As variantes nas versões das nações vêm de tradutores "não peritos", não do original judaico.
O ponto mais delicado, que os adversários exploravam: os Sábios falam de "tikun soferim" (correções dos escribas) em certas palavras (ex.: deveria dizer "o Senhor estava diante de Abraão", mas diz "Abraão estava diante do Senhor"). Não seria isso confissão de que escribas alteraram o texto? Albo responde com precisão lógica: "não há homem no mundo que falsifique um livro e declare 'eu falsifiquei'" — a própria existência da tradição que aponta esses lugares prova que ninguém os escondeu. O sentido é outro: foi a própria Escritura (a "boca de D'us") que formulou a frase a modo de reverência — como um escriba que ajusta uma expressão por respeito ao Alto (Moisés falava "para cima", não de si). E os pontos sobre certas palavras (sobre "e Aarão", sobre "para nós e nossos filhos") não apagam nada: marcam um sentido intermediário entre "escrito" e "não-escrito" — sinalizando, por exemplo, que o contador principal era Moisés (Aarão secundário), ou que a obrigação dos filhos pela aliança é menor que a dos pais. São técnicas de ensino e honra, não evidências de corrupção. Assim Albo blinda a integridade material da Torá, completando a defesa: o texto não só é juridicamente irrevogável, mas factualmente intacto — exatamente como saiu das mãos de Moisés.
Toda escrita comporta duas leituras — e a Torá precisa ser entendida na intenção certa. Por isso D'us deu a Moisés, junto ao texto, a sua interpretação oral, transmitida de geração a geração: a Torá Oral. E, porque os casos novos são infinitos, deu também as treze regras de derivação. Onde surge controvérsia, a decisão cabe à maioria dos sábios — "não está nos céus" —, não ao consenso da multidão.
Toda escrita comporta duas leituras — e a Torá precisa ser entendida na intenção certa. Por isso D'us deu a Moisés, junto ao texto, a sua interpretação oral, transmitida de geração a geração: a Torá Oral. E, porque os casos novos são infinitos, deu também as treze regras de derivação. Onde surge controvérsia, a decisão cabe à maioria dos sábios — "não está nos céus" —, não ao consenso da multidão.
1 A coisa perfeita shalem é aquela sobre a qual não se imagine acréscimo nem falta. E, depois que se acha que Davi descreve a Torá do Senhor como sendo perfeita temimá (Salmos 19:8), eis que é impossível que haja nela alguma falta que impeça a obtenção da sua perfeição e do seu fim. E, porque toda coisa escrita, de qualquer espécie que seja, já é possível que se entenda em duas compreensões diferentes — até que é possível que seja a compreensão uma concordante com a intenção do que diz e a segunda diferente dela de todo em todo, como escreveu o Rambam, de abençoada memória, na Epístola da Ressurreição dos Mortos: de que "ouve, Israel, o Senhor, nosso D'us, o Senhor é um" (Deuteronômio 6:4), os hebreus entendem dele a unidade completa, e os cristãos o explicam conforme a intenção da trindade —, por causa disto foi necessário, a fim de que a Torá do Senhor seja perfeita e se entenda na intenção cabida, que, ao dar o Senhor, bendito seja, a ela a Moisés por via da escrita, lhe explicasse-a na intenção cabida; e assim Moisés a Josué, e assim Josué aos anciãos, e os anciãos aos profetas, e assim de geração após geração, a fim de que não caísse nenhuma dúvida na compreensão da escrita conforme o que é cabido.
כָּל דָּבָר נִכְתָּב אֶפְשָׁר שֶׁיּוּבַן בִּשְׁתֵּי הֲבָנוֹת. ״שְׁמַע יִשְׂרָאֵל ה׳ אֶחָד״ — הָעִבְרִים הָאַחְדוּת, הַנּוֹצְרִים הַשִּׁלּוּשׁ. לָכֵן פֵּרֵשׁ הַשֵּׁם לְמֹשֶׁה, וּמֹשֶׁה לִיהוֹשֻׁעַ, דּוֹר אַחַר דּוֹר.
2 E a esta explicação da Torá escrita, que entregou Moisés a Josué e Josué aos que vêm depois dele, é o que chamaram "Torá Oral" Torá she'be'al pé, porque é impossível que venha esta explicação por via da escrita, pois naquela escrita cairia também a dúvida que dissemos que cai na primeira escritura, e precisaria de uma explicação para a explicação, e assim ao infinito — como aconteceu à compilação das Mishnayot, que é a explicação da Torá escrita, na qual caiu da dúvida e da confusão até que se precisou de uma outra explicação, que é a compilação do Talmud que fez Rav Ashi para explicar as Mishnayot; e assim o Talmud, que é a explicação das Mishnayot, precisou de explicação também, e se multiplicaram sobre ele as explicações e as divisões das opiniões, e assim sobre as explicações também. E por isso é manifesto que é impossível que seja a Torá escrita aprendida se não for na existência, com ela, desta explicação oral — e isto é o chamado "Torá Oral".
אִי אֶפְשָׁר שֶׁיָּבֹא הַפֵּרוּשׁ בִּכְתָב, כִּי יִצְטָרֵךְ פֵּרוּשׁ לַפֵּרוּשׁ עַד לְבִלְתִּי תַּכְלִית — כְּמִשְׁנָה שֶׁהֻצְרְכָה לַתַּלְמוּד. וְזֶהוּ תּוֹרָה שֶׁבְּעַל פֶּה.
3 E sobre isto é que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "não fez o Santo, bendito seja, aliança com Israel senão em razão da Torá Oral" — e isto porque não há existência para a compreensão da Torá escrita senão com a Torá Oral. E ainda, porque é impossível que seja a Torá do Senhor, bendito seja, perfeita de modo que baste em todos os tempos — já que os particulares que se renovam sempre nos assuntos dos homens, nos juízos e nas coisas que se fazem, são muito mais do que os que possa abranger um livro —, por isso foram dados a Moisés no Sinai, oralmente, caminhos gerais derachim kolelim aludidos na Torá em forma resumida, a fim de que por meio deles extraíssem os sábios de cada geração e geração os particulares que se renovam.
״לֹא כָּרַת הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּרִית עִם יִשְׂרָאֵל אֶלָּא בִּשְׁבִיל תּוֹרָה שֶׁבְּעַל פֶּה״. נִתְּנוּ דְּרָכִים כּוֹלְלִים לְהוֹצִיא הַפְּרָטִים הַמִּתְחַדְּשִׁים.
4 E eles são os caminhos que se mencionaram no Torat Cohanim, no seu início, naquela baraita que começa "Rabi Ismael diz: por treze medidas midot a Torá é interpretada — por argumento a fortiori kal vachómer, por analogia verbal guezerá shavá" etc. E por meio daqueles caminhos, ou de um deles, se sabe tudo o que não se acha na Torá explicitamente; mas o que se acha na Torá explicitamente ou por tradição kabalá, o que sai por aqueles caminhos não aproveita, nem eleva nem abaixa, para anular a escritura ou a tradição. E por causa disto achas muitas vezes no Talmud que dizem "isto, de onde te vem?" e diz o respondente "é lei dada a Moisés do Sinai halachá leMoshé miSinai"; e assim diz o que objeta "se é tradição, recebê-la-emos; e, se é por via de raciocínio din, há o que responder".
״בִּשְׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה מִדּוֹת הַתּוֹרָה נִדְרֶשֶׁת — מִקַּל וָחֹמֶר, מִגְּזֵרָה שָׁוָה...״. וּמַה שֶּׁמְּפֹרָשׁ בַּתּוֹרָה אוֹ בַּקַּבָּלָה — אֵין הַיּוֹצֵא בַּמִּדּוֹת מְבַטְּלוֹ. ״אִם קַבָּלָה הִיא נְקַבֵּל״.
5 E, porque é possível que caia controvérsia entre os sábios de Israel numa coisa na qual não veio a tradição, mas que sai por uma das treze medidas ou por um dos demais caminhos da compreensão, concordou a Sabedoria divina, a fim de que a Torá do Senhor, bendito seja, seja perfeita, em remover aquela controvérsia no que for possível — e isto ao dar a decisão hachra'á em cada geração e geração à maioria dos sábios, e disse "após os muitos acharei rabim para inclinar" (Êxodo 23:2); e disse também "não te desviarás da coisa que te disserem, para a direita ou para a esquerda" (Deuteronômio 17:11), e explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, "mesmo que te digam sobre a direita que é esquerda e sobre a esquerda que é direita". E a sua intenção nisto é dizer que, porque é do caminho de todo homem pensar pensamentos e atribuir a si mesmo a reflexão e o raciocínio e o entendimento mais do que a tudo o que é outro fora dele — até que achas vários tolos e mulheres e ignorantes amei ha'arets a falar desvario sobre os sábios e a pensarem-se a si mesmos como entendidos mais do que eles —, disse a Escritura que, mesmo se parecer ao que discorda que os sábios dizem sobre a direita que é esquerda e sobre a esquerda que é direita, não se mova das suas palavras jamais, mas seja a decisão entregue sempre à maioria dos sábios; e, mesmo se for possível que o indivíduo seja mais sábio do que cada um deles e mais concordante com a verdade do que todos eles, seja a lei conforme a decisão da maioria, e não é o indivíduo autorizado a discordar deles para fazer um ato conforme as suas palavras de modo algum.
״אַחֲרֵי רַבִּים לְהַטֹּת״. ״לֹא תָסוּר מִן הַדָּבָר... יָמִין וּשְׂמֹאל״ — ״אֲפִלּוּ אוֹמְרִים לְךָ עַל יָמִין שֶׁהוּא שְׂמֹאל״. הַהַכְרָעָה מְסוּרָה לְרֹב הַחֲכָמִים.
6 E este é o assunto de Rabi Iehoshua com Rabi Eliezer em Bava Metzia: pois, ainda que Rabi Eliezer fosse o mais notável em sabedoria de todos eles, até que saiu uma voz celeste bat kol e disse "que tendes vós com Rabi Eliezer, já que a lei é como ele em todo lugar?", levantou-se Rabi Iehoshua sobre os seus pés e disse "não está nos céus lo bashamáyim hi" (Deuteronômio 30:12) — quer dizer que, ainda que a verdade seja conforme as palavras de Rabi Eliezer, não é cabido que deixemos as palavras dos muitos para fazer conforme as palavras do indivíduo, pois já nos foi dada a Torá no monte Sinai, na qual está escrito "após os muitos para inclinar"; e, se numa só coisa fizermos conforme as palavras do indivíduo e deixarmos as palavras dos muitos, se renovaria uma grande controvérsia em Israel em cada geração e geração, pois todo indivíduo viria a pensar que a verdade está com ele e faria conforme as suas palavras como lei para a prática, e com isto cairia a Torá no seu conjunto; e por isso é cabido que não deixemos o caminho geral, que é o de ir após a maioria e deixar as palavras do indivíduo ou as palavras dos poucos — contanto que sejam os muitos a opinião dos sábios, não a maioria das opiniões dos ignorantes, porque a multidão e os ignorantes se deixam seduzir por coisa que não é, até que vêm a testemunhar sobre ela e a dizer que é assim.
״לֹא בַשָּׁמַיִם הִיא״ — אַף שֶׁהָאֱמֶת כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר, ״אַחֲרֵי רַבִּים לְהַטֹּת״. וּבִלְבַד שֶׁיִּהְיוּ הָרֹב דַּעַת הַחֲכָמִים, לֹא רֹב עַמֵּי הָאָרֶץ.
7 E já advertiu Salomão sobre isto e disse que não é cabido seguir após o consenso da multidão, pois eis que nós os vemos a concordar em várias coisas no oposto da verdade. E isto é: pois eis que a multidão não despreza o ladrão "quando rouba para saciar a sua alma, quando tem fome" (Provérbios 6:30) — e isto é concordado junto a eles e não-desprezível, e não é assim conforme a verdade, mas "se for achado, pagará sete vezes, dará todo o haver da sua casa" (Provérbios 6:31), conforme os juízos da Torá, que disse "se não tiver com que pagar, será vendido pelo seu roubo" (Êxodo 22:2). E assim concorda a multidão de que o adúltero não é cabido de castigo, mas dizem que "aquele que comete adultério com uma mulher é falto de coração" (Provérbios 6:32), e é cabido ter compaixão dele, pois ele prejudica a si mesmo e arruína a sua alma, e ele é o que faz a transgressão e o mal a si mesmo, e nenhum homem sensato prejudica a si mesmo; e por isso dizem a multidão que ele é falto de coração e não é cabido de castigo — e não é assim conforme a verdade, pois "uma praga e uma desonra achará o adúltero" (Provérbios 6:33), e diz "pois o ciúme é a ira do homem forte, e não terá compaixão no dia da vingança; não atentará para a face de nenhum resgate, e não consentirá ainda que multipliques o suborno" (Provérbios 6:34-35). E por isso não é cabido trazer prova do consenso da multidão, pois às vezes concorda a multidão no oposto da verdade — pois eis que nos dias de Achav e Menashé e os que se lhes assemelham, concordavam todos em servir idolatria, exceto os profetas e os seus discípulos. E por isso é cabido que seja a decisão entregue à maioria dos sábios apenas, pois a sabedoria é dádiva de D'us — "pois o Senhor dá sabedoria, da sua boca vêm conhecimento e entendimento" (Provérbios 2:6); e com isto será a Torá do Senhor perfeita em cada geração e geração e não faltando coisa alguma.
הַהֲמוֹן יַסְכִּימוּ בְּחִלּוּף הָאֱמֶת — לֹא יָבוּזוּ לַגַּנָּב, וְיֹאמְרוּ נוֹאֵף ״חֲסַר לֵב״. בִּימֵי אַחְאָב הִסְכִּימוּ כֻּלָּם לַעֲבֹד עֲבוֹדָה זָרָה. ״כִּי ה׳ יִתֵּן חָכְמָה״.
Este capítulo final do Maamar III completa a defesa da Torá: tendo provado que ela é juridicamente irrevogável (caps. 13-20), literalmente vinculante (cap. 21) e textualmente intacta (cap. 22), Albo enfrenta a última lacuna — como a Torá escrita pode ser perfeita (temimá) se um texto, qualquer texto, é por natureza ambíguo? A resposta funda a necessidade da Torá Oral e da autoridade rabínica.
O argumento parte de um princípio semiótico: "toda coisa escrita comporta duas leituras". Albo dá o exemplo devastador, tomado de Maimônides (Epístola da Ressurreição): o mesmo "Shemá Israel… o Senhor é um" é lido pelos judeus como unidade absoluta e pelos cristãos como trindade. Se o texto sozinho admite a heresia, então para a Torá ser "perfeita e entendida na intenção certa" D'us teve de entregar a Moisés, junto ao texto, a sua interpretação — transmitida oralmente de Moisés a Josué, aos anciãos, aos profetas, geração após geração. Por que oral e não escrita? Porque uma interpretação escrita sofreria a mesma ambiguidade e exigiria interpretação da interpretação, "ao infinito" — exatamente o que ocorreu de fato: a Mishná precisou do Talmud, o Talmud dos comentários, e estes de mais comentários. Daí o dito "D'us só fez aliança com Israel em razão da Torá Oral" — sem ela a Torá escrita seria ininteligível.
A Torá Oral tem ainda uma segunda função: cobrir os casos novos que "nenhum livro poderia abranger". Para isso foram dados a Moisés "caminhos gerais" — as treze midot de Rabi Ismael (kal vachómer, guezerá shavá, etc.) — pelas quais cada geração deriva o que não está explícito. Albo fixa o limite preciso: as regras só operam onde falta texto ou tradição; o que está explícito na Torá ou recebido por kabalá não pode ser anulado por derivação lógica (daí "se é tradição, aceitamos; se é raciocínio, há resposta").
O coração jurídico do capítulo é a solução das controvérsias: onde a tradição não decide e os sábios divergem, a Sabedoria divina entregou a decisão à maioria ("após os muitos para inclinar"; "não te desviarás… mesmo que te digam sobre a direita que é esquerda"). Albo narra o célebre episódio do "forno de Achnai": mesmo com uma voz celeste confirmando Rabi Eliezer, Rabi Iehoshua replica "não está nos céus" — a Torá já foi dada, e nela está escrito "siga a maioria". A justificativa é pragmática e profunda: se cada indivíduo seguisse a própria convicção (achando que "a verdade está comigo"), "cairia toda a Torá" em controvérsias infinitas. Mesmo que o indivíduo esteja objetivamente mais certo, a lei segue a maioria — para preservar a unidade da Lei.
A ressalva final é decisiva e atualíssima: a "maioria" que decide é a dos sábios, jamais a dos ignorantes (amei ha'arets). Albo, com Salomão (Provérbios), mostra que o consenso popular erra sistematicamente: a multidão não despreza o ladrão faminto (mas a Torá o penaliza), e tende a desculpar o adúltero como "falto de coração que só prejudica a si" (mas a Torá conhece a gravidade do dano). A prova histórica máxima: "nos dias de Achav e Menashé, todos concordavam em servir ídolos, exceto os profetas e seus discípulos". A verdade não se mede por votação geral, mas pela sabedoria — "dádiva de D'us". Com isso, a Torá permanece "perfeita em cada geração", capaz de responder ao novo sem perder a fidelidade ao antigo, conduzida pela autoridade viva dos sábios. Encerra-se assim o grande bloco do Maamar III sobre a natureza, a permanência e a transmissão da Torá vinda do Céu — da revelação a Moisés à hermenêutica rabínica que a mantém viva; os capítulos seguintes voltam-se à estrutura interna da Lei e aos seus mandamentos.
A Torá de Moisés abrange três partes que correspondem a três atributos divinos: Devarim (as opiniões verdadeiras, da sabedoria), Chukim (os estatutos sem razão conhecida, da vontade) e Mishpatim (a justiça entre os homens, do poder). A lei humana não alcança as duas primeiras — e, examinando bem, nem mesmo a terceira, pois não sabe medir a justiça verdadeira. O Salmo 147 louva a D'us por ter dado as três a Israel.
A Torá de Moisés abrange três partes que correspondem a três atributos divinos: Devarim (as opiniões verdadeiras, da sabedoria), Chukim (os estatutos sem razão conhecida, da vontade) e Mishpatim (a justiça entre os homens, do poder). A lei humana não alcança as duas primeiras — e, examinando bem, nem mesmo a terceira, pois não sabe medir a justiça verdadeira. O Salmo 147 louva a D'us por ter dado as três a Israel.
1 Esta Torá divina de Moisés abrange, em geral, três partes que indicam três assuntos distintos, que são a sabedoria, a vontade e o poder chochmá, ratzon, yechólet. A parte primeira é a parte que abrange as opiniões verdadeiras, e chama-se esta parte "palavras" devarim, como disse a Escritura "estas palavras falou o Senhor a toda a vossa congregação" (Deuteronômio 5:19), e disse também "e escreveu sobre as tábuas as palavras da aliança, as dez palavras" (Êxodo 34:28) — em razão da parte cognitiva que há nelas, acerca da existência do Senhor, bendito seja, e da Torá do Céu, e da providência, e de que ele não é corpo, e da criação renovada do mundo, e além disto; e esta parte é a influenciada da sua sabedoria, bendito seja — quer dizer, pelo lado de ser ele sábio.
תּוֹרַת מֹשֶׁה תַּקִּיף עַל שְׁלֹשָׁה חֲלָקִים: חָכְמָה, רָצוֹן, יְכֹלֶת. הָאֶחָד — דְּבָרִים: הַדֵּעוֹת הָאֲמִתִּיּוֹת, הַמֻּשְׁפָּע מֵחָכְמָתוֹ.
2 E a segunda é a parte que abrange as coisas agradáveis junto ao Senhor, bendito seja, e elas são as influenciadas da sua vontade, que indicam o ser ele um que quer rotzé; e chama-se esta parte "estatutos" chukim, e ela é o conjunto dos mandamentos cuja razão não é conhecida — como a comida do porco e a vestidura de tecido misto sha'atnez e a semeadura de sementes mistas kil'aim e a vaca vermelha pará adumá e os que se lhes assemelham, que são um decreto do Rei guezerat melech, e são coisas agradáveis a ele, bendito seja, depois de que ele as ordenou. Disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "e que é o que importa ao Santo, bendito seja, entre aquele que abate pela parte de frente do pescoço e aquele que abate pela nuca? Senão que é satisfação nachat rúach diante dele, já que disse e a sua vontade se fez." E assim disseram sobre os sacrifícios "oferta de aroma agradável réiach nichóach" — satisfação diante de mim, já que eu disse e a minha vontade se fez.
הַשֵּׁנִי — חֻקִּים: הַדְּבָרִים הַנִּרְצִים, הַמֻּשְׁפָּעִים מֵרְצוֹנוֹ (חֲזִיר, שַׁעַטְנֵז, כִּלְאַיִם, פָּרָה אֲדֻמָּה). ״נַחַת רוּחַ לְפָנַי שֶׁאָמַרְתִּי וְנַעֲשָׂה רְצוֹנִי״.
3 E a terceira é a parte que abrange a feitura da retidão e o afastamento da iniquidade entre os homens, e chama-se "juízos" mishpatim, e eles são os influenciados do seu poder.
4 E é manifesto que a religião convencional dat nimusit não pode abranger a parte primeira, que são as opiniões verdadeiras; pois, como escrevemos neste Maamar, ainda a controvérsia se mantém no seu lugar de pé sobre as questões nobres das quais as opiniões dependem. E sobre a parte segunda também, que é o saber dos estatutos e das coisas agradáveis junto ao Senhor, bendito seja, não pode abranger de modo algum, pois não há para o intelecto humano entrada para saber os particulares das coisas agradáveis junto ao Senhor, bendito seja, se não for pelo lado da profecia, como explicámos; e o fundamento do seu alcance é sobre a parte terceira, que são os juízos, pois ela se esforça por afastar a iniquidade de entre os homens e por estabelecer a retidão, e ela fixa lei e juízo entre os homens a fim de que se complete o agrupamento político.
הַשְּׁלִישִׁי — מִשְׁפָּטִים: הַיֹּשֶׁר, הַמֻּשְׁפָּעִים מִיְּכָלְתּוֹ. הַדָּת הַנִּמּוּסִית לֹא תַּקִּיף עַל הַדֵּעוֹת וְלֹא עַל הַחֻקִּים — עִקַּר הַקָּפָתָהּ עַל הַמִּשְׁפָּטִים.
5 E, quando se examina nela bem, achas que mesmo na parte terceira é impossível para ela julgar com retidão, pois não basta para medir a retidão em todas as coisas pelo caminho da verdade. Pois que opinião humana basta para medir quanto pagará o ladrão — se dois múltiplos, ou três múltiplos, ou quatro, ou sete vezes? Pois achas entre os legisladores das convenções humanas quem estabeleceu que o que rouba dinheiro, entre muito e pouco, seja morto — e isto é coisa que o intelecto humano recusa, pois por que seria morto o homem por um roubo de dinheiro, e ainda que muitas vezes? E por causa disto concordou a Torá divina em medir o roubo de dinheiro com castigos diferentes: pois o que nega um depósito e o que se lhe assemelha, que é uma espécie de roubo leve, pagará o dobro ao seu próximo (Êxodo 22:8); e o que rouba uma ovelha pagará quatro do rebanho em lugar da ovelha; e o que rouba um boi pagará cinco bois (Êxodo 21:37), pois o dano que causou no roubo do boi — já que o tirou do trabalho — é maior do que no roubo da ovelha. E, contudo, porque há no roubo do rebanho um prejuízo maior do que nos demais bens móveis — leite, e lã, e crias —, disse "quatro do rebanho em lugar da ovelha"; e sobre todos disse "se não tiver com que pagar, será vendido pelo seu roubo" (Êxodo 22:2). E este é um juízo reto e uma equidade verdadeira: que o que vem a causar prejuízo de dinheiro pague dinheiro, e, se não tiver, que seja vendido pelo seu roubo a fim de que se pague mesmo do seu corpo; mas que seja morto o homem por um roubo de dinheiro — não é isto uma retidão verdadeira, senão por um roubo de almas guenevat nefashot, como disse a Escritura "se for achado um homem que rouba uma alma dos seus irmãos, dos filhos de Israel" etc., "e morrerá aquele ladrão" (Deuteronômio 24:7) — quer dizer, e não por outro roubo. E assim na maioria dos juízos não basta a religião convencional para medir a retidão e a equidade verdadeira; e por isso era cabido que, assim como a Torá divina abrange as duas partes primeiras, assim também abranja os juízos, para indicar que não há poder na mão de nenhum homem para medir a retidão verdadeira a fim de fazer um juízo reto, senão o Santo, bendito seja; e por isso se dividiram todas as palavras da Torá nestas três partes, para indicar a sua sabedoria e a sua vontade e o seu poder, como dissemos.
אֵיזֶה דַּעַת אֱנוֹשִׁי יַסְפִּיק לְשַׁעֵר כַּמָּה יְשַׁלֵּם הַגַּנָּב? הַתּוֹרָה שִׁעֲרָה: כֶּפֶל, אַרְבַּע צֹאן, חֲמִשָּׁה בָקָר. וְלֹא יוּמַת אֶלָּא עַל גְּנֵבַת נְפָשׁוֹת.
6 E assim achas o salmista no salmo "Hallelu-Yá, pois é bom cantar ao nosso D'us" etc. (Salmos 147:1), que louvava o Senhor porque são influenciados dele assuntos que indicam o ser ele sábio e que quer e que pode, e juntou com eles o ser ele, bendito seja, o que agracia e dá a Israel, da sua parte, estas três partes — que são "palavras" e "estatutos" e "juízos" —, que indicam também o ser ele sábio e que quer e que pode; e por isso disse "pois é bom cantar ao nosso D'us, pois é agradável, e convém o louvor" (Salmos 147:1) — quer dizer, agradável e bom e conveniente louvá-lo e cantar a ele sobre todos os assuntos que decorrem da sua sabedoria e da sua vontade e do seu poder, que indicam a sua providência. E começou "o que edifica Jerusalém é o Senhor, os dispersos de Israel ajunta" (Salmos 147:2), pois isto indica o ser ele, bendito seja, que quer — como um rei que edifica uma cidade pela sua vontade e ajunta dentro dela qual povo quiser, no que não há quem impeça a obra de sua mão, porque ele é maior do que todos os filhos do seu reino e, pelo lado da sua grandeza, faz conforme a sua vontade. E depois disse "o que cura os quebrantados de coração e venda as suas tristezas" (Salmos 147:3), para indicar o seu poder; e isto é: que a quebra do coração — que é a desunião da sua composição — não recebe cura de modo algum pelo caminho da natureza, como escreveram os sábios da medicina, mas a desunião da composição dos demais membros já é possível que recebam cura; e por isso atribuiu ao Senhor, bendito seja, que ele é o que cura os quebrantados de coração — que é a desunião da sua composição —, ainda que não seja do seu caminho que receba cura; e isto é do que indica a força do seu poder para salvar o oprimido da mão do seu opressor. Conforme o dito de Davi "perto está o Senhor dos quebrantados de coração, e os esmagados de espírito salva" (Salmos 34:19) — quer dizer que, assim como aos quebrantados de coração, que não está na sua natureza viver, ele está perto para curá-los, assim ele salva os esmagados de espírito, que não têm quem salve pelo lado da natureza; conforme o dito de Salomão "o espírito do homem suporta a sua doença, mas um espírito abatido, quem o levantará?" (Provérbios 18:14) — quer dizer: quando o homem está doente e o espírito vital é forte, ele suporta a doença; mas, quando o espírito está doente, que é abatido, "quem o levantará?". E depois disse "o que conta o número das estrelas, a todas elas chama por nomes" (Salmos 147:4), para indicar a sua sabedoria, bendito seja; e prosseguiu nisto "grande é o nosso Senhor e abundante de força, e para o seu entendimento não há número" (Salmos 147:5), para indicar as três coisas: pois disse "grande é o nosso Senhor" para indicar a vontade — pois ele é grande para fazer o que quiser e não há quem impeça a obra de sua mão, e isto é em correspondência ao que disse "o que edifica Jerusalém é o Senhor"; e disse "e abundante de força", para aludir ao seu poder para vendar os quebrantados de coração, em correspondência ao que disse "o que cura os quebrantados de coração"; e disse "e para o seu entendimento não há número", para indicar o ser ele sábio para saber o número das estrelas e a força de cada uma delas e a mescla das suas forças umas com as outras, e isto é em correspondência ao que disse "o que conta o número das estrelas".
״הַלְלוּיָהּ כִּי טוֹב זַמְּרָה אֱלֹהֵינוּ״. ״בּוֹנֵה יְרוּשָׁלִַם ה׳״ (רָצוֹן), ״הָרֹפֵא לִשְׁבוּרֵי לֵב״ (יְכֹלֶת), ״מוֹנֶה מִסְפָּר לַכּוֹכָבִים״ (חָכְמָה). ״גָּדוֹל אֲדוֹנֵינוּ וְרַב כֹּחַ וְלִתְבוּנָתוֹ אֵין מִסְפָּר״.
7 E o que disseram os sábios da investigação de que as estrelas são de número conhecido e que elas são mil e vinte e duas e cento 1.022 — não disseram isto senão sobre as estrelas visíveis a nós; mas as estrelas não-visíveis a nós são muitas, muitíssimo; disse a Escritura "e eis-vos hoje como as estrelas dos céus em multidão" (Deuteronômio 10:22), e outras além disto, muitas; e pela fraqueza da nossa visão não apreendemos delas senão um pouco de um muito. E não é cabido dizer que o não-apreendido por nós não se acha não existe, pois o morcego, que não apreende a luz do sol, não é prova sobre o ser ela não-existente; e por isso tomou prova sobre o ser ele sábio a partir de ser ele o que conta o número das estrelas, para indicar a imensidão da multiplicidade que se gera pelo lado da composição das suas forças e o estarem elas submetidas diante dele para anular a sua indicação astrológica conforme o que decreta a sua sabedoria, bendito seja — e isto é "a todas elas chama por nomes", como um senhor que chama o servo para fazer a sua vontade.
הַכּוֹכָבִים אֶלֶף וְכ״ב — רַק הַנִּרְאִים. ״הִנְּכֶם הַיּוֹם כְּכוֹכְבֵי הַשָּׁמַיִם לָרֹב״. הַבִּלְתִּי מוּשָּׂג אֵינוֹ רְאָיָה לְהֶעְדֵּרוֹ — כָּעֲטַלֵּף שֶׁאֵינוֹ מַשִּׂיג אוֹר הַשֶּׁמֶשׁ.
8 E prosseguiu todo o salmo deste modo, a mostrar a sua sabedoria, a sua vontade e o seu poder: pois disse "o que anima os humildes é o Senhor" etc. (Salmos 147:6), para indicar o poder; "o que cobre os céus de nuvens" (Salmos 147:8), para indicar a sabedoria — pois Elihu trouxe prova das maravilhas da chuva para indicar a sua sabedoria, bendito seja; e disse ainda "não é na força do cavalo que se compraz" (Salmos 147:10), para indicar a vontade — a dizer que não está a sua vontade nos possuidores de cavalos nem nos possuidores de braço e estatura, mas "compraz-se o Senhor nos que o temem, nos que esperam na sua bondade" (Salmos 147:11), pois "não é com um exército, nem com força, que salva o Senhor"; e disse "louva, ó Jerusalém, ao Senhor" (Salmos 147:12), em correspondência ao que disse no início "o que edifica Jerusalém é o Senhor", para indicar a vontade; e prosseguiu isto também na descida da chuva e nas demais coisas que decorrem no mundo, a dizer que todas decorrem dele e indicam a sua sabedoria e a sua vontade e o seu poder; e por isso disse no fim do salmo "o que conta as suas palavras devarav a Jacó, os seus estatutos chukav e os seus juízos mishpatav a Israel" (Salmos 147:19), para indicar que também estas três partes com que a Torá abrange, que são "palavras", "estatutos" e "juízos", indicam o ser ele sábio e que quer e que pode, como dissemos, e que é cabido louvar ao Senhor porque estas três partes chegam dele ao conjunto da nação; e por isso chamou-as "as suas palavras" e "os seus estatutos" e "os seus juízos". E o que disse depois disso "não fez assim a nação alguma" (Salmos 147:20) veio a divulgar a grande bondade que fez o Senhor, bendito seja, a Israel — a dar-lhes palavras e estatutos e juízos pelos quais se conduzam, para adquirir a sua perfeição humana —, o que não fez assim a nação alguma, a dar-lhe a conhecer as suas palavras e os seus estatutos; e mesmo os juízos, que é do caminho da religião convencional falar neles e delimitá-los, não os conheceram as demais nações, pois não era o seu saber suficiente para medir a retidão e a equidade verdadeira, como explicámos — e isto é "e juízos, não os conheceram" (Salmos 147:20); e selou "Hallelu-Yá", a dizer que é cabido louvar ao Senhor pela bondade abundante que fez com Israel ao supervisioná-los com esta espécie de providência maravilhosa, a influir-lhes palavras e estatutos e juízos da sua sabedoria e da sua vontade e do seu poder, no que se alcança o fim humano.
״מַגִּיד דְּבָרָיו לְיַעֲקֹב חֻקָּיו וּמִשְׁפָּטָיו לְיִשְׂרָאֵל. לֹא עָשָׂה כֵן לְכָל גּוֹי וּמִשְׁפָּטִים בַּל יְדָעוּם הַלְלוּיָהּ״ — שְׁלֹשֶׁת הַחֲלָקִים מוֹרִים עַל חָכְמָתוֹ וּרְצוֹנוֹ וִיכָלְתּוֹ.
Concluída a defesa da Torá (caps. 13-23), Albo volta-se agora à sua estrutura interna. A tese deste capítulo é uma elegante taxonomia: toda a Torá divide-se em três partes que espelham três atributos de ação de D'us. (1) Devarim ("palavras") — as opiniões verdadeiras, os dogmas (existência de D'us, Torá do Céu, providência, incorporeidade, criação): a parte que emana da sabedoria divina. (2) Chukim ("estatutos") — os mandamentos sem razão acessível (porco, sha'atnez, kil'aim, pará adumá): a parte que emana da vontade divina, "decreto do Rei". (3) Mishpatim ("juízos") — a justiça civil entre os homens: a parte que emana do poder. A própria Escritura usa esses três termos juntos ("os seus devarim… chukim… mishpatim"), e os Dez Mandamentos são chamados "devarim" pela sua carga doutrinal.
Sobre os estatutos sem razão, Albo invoca a doutrina rabínica clássica: "que importa a D'us se abatem pela frente ou pela nuca? É satisfação (nachat rúach) diante dEle, pois disse e a Sua vontade se fez". O valor do chok não está num benefício intrínseco do ato, mas na obediência à vontade divina — exatamente a doutrina da kavaná do cap. 5. O mesmo vale para os sacrifícios ("aroma agradável" = "satisfação por eu ter ordenado e ter sido obedecido").
O argumento central é apologético: a lei convencional (dat nimusit, a legislação puramente humana) não pode produzir as três partes. As opiniões verdadeiras (parte 1) ela não alcança — a filosofia ainda discute as questões fundamentais sem consenso. Os chukim (parte 2) ela jamais poderia conhecer — só a profecia revela o que agrada a D'us. E o ponto mais surpreendente: mesmo a justiça (parte 3), que parece o domínio próprio da lei humana, ela não acerta. A prova de Albo é jurídica e penetrante: que razão humana sabe medir quanto o ladrão deve pagar? Algumas legislações humanas chegam ao absurdo de matar por roubo de dinheiro — "o que o intelecto recusa". A Torá, ao contrário, gradua com precisão: o dobro para o caso leve (negar depósito), quatro ovelhas por uma (pelo prejuízo de leite, lã e crias), cinco bois por um (pelo trabalho perdido), e a venda do corpo do ladrão sem bens — "dinheiro paga dinheiro". A pena de morte reserva-se ao roubo de pessoas (sequestro), não de bens. Só D'us mede "a retidão verdadeira"; por isso a Torá teve de abranger também os mishpatim.
A segunda metade é uma leitura sistemática do Salmo 147 como hino aos três atributos. Albo mapeia versículo a versículo: "edifica Jerusalém / ajunta os dispersos" = vontade (o rei faz o que quer); "cura os quebrantados de coração" = poder (a "quebra do coração" é, segundo a medicina, incurável por natureza — só D'us a cura, prova do seu poder de salvar o oprimido); "conta o número das estrelas, chama-as por nomes" = sabedoria. E o versículo-síntese "grande é o nosso Senhor (vontade) / abundante de força (poder) / ao seu entendimento não há número (sabedoria)" recapitula os três. Há ainda uma bela digressão científica: o número talmúdico de 1.022 estrelas refere-se só às visíveis; as ocultas são incontáveis ("como as estrelas em multidão"), e "o não-percebido não prova inexistência — o morcego não vê o sol, mas o sol existe". O clímax é o fecho do salmo: "conta os seus devarim a Jacó, chukim e mishpatim a Israel; não fez assim a nação alguma" — a prova de que as três partes da Torá, todas emanadas dos três atributos divinos, foram o dom singular e providencial concedido a Israel para alcançar a perfeição humana. Assim Albo une a estrutura da Torá à teologia dos atributos e à eleição de Israel, num só arco.
Um sábio cristão argumentou que a Torá de Moisés é deficiente nas suas quatro causas — matéria, agente, fim e forma — e que a fé cristã supre essas faltas. Albo responde a cada alegação, estabelecendo primeiro que a fé não pode recair sobre o logicamente impossível, e demonstra que a Torá é perfeita em todas as suas causas — "a Torá do Senhor é perfeita, restitui a alma".
Um sábio cristão argumentou que a Torá de Moisés é deficiente nas suas quatro causas — matéria, agente, fim e forma — e que a fé cristã supre essas faltas. Albo responde a cada alegação, estabelecendo primeiro que a fé não pode recair sobre o logicamente impossível, e demonstra que a Torá é perfeita em todas as suas causas — "a Torá do Senhor é perfeita, restitui a alma".
1 Objetou-me um sábio dos sábios dos cristãos e disse que a coisa se examina pelo lado das suas causas — seja pelo lado da matéria, seja pelo lado da forma, seja pelo lado do agente, seja pelo lado do fim. E disse que, quando se examina a Torá de Moisés, acha-se ela deficiente em todas elas. E isto é: que ela é deficiente pelo lado da matéria, já que há nela narrativas e outros assuntos que não são Torá — quer dizer, condução e encaminhamento —, e que a torá de Jesus não há nela coisa que não seja torá. E pelo lado do agente, já que ela deixa os segredos divinos que aludem à trindade muito ocultos, até que é impossível que se entenda dela a perfeição do agente e os seus atributos de modo algum — e disse que isto se entende da torá de Jesus, o nazareno, que explicou explicitamente que o D'us é pai e filho e espírito santo e que todos eles são uma só coisa. E pelo lado do fim, já que ela não estabelece a felicidade anímica, que é o fim humano, mas estabelece felicidades corporais apenas, ao passo que a torá de Jesus estabelece a felicidade anímica e não as felicidades corporais. E pelo lado da forma, já que é cabido que a torá abranja três coisas: o que há entre o homem e o Lugar Makom, que são mandamentos de serviço chamados na sua língua "cerimoniais"; e os mandamentos que há entre o homem e o seu próximo, que são os juízos chamados "judiciais"; e os mandamentos que há entre ele e si mesmo, chamados "morais" — que são os mandamentos que o homem faz para adquirir uma boa disposição na sua alma, como o temor do pecado e a humildade e os que se lhes assemelham.
חָכָם נוֹצְרִי טָעַן שֶׁתּוֹרַת מֹשֶׁה חֲסֵרָה בְּד׳ סִבּוֹתֶיהָ: חֹמֶר (סִפּוּרִים), פּוֹעֵל (לֹא בֵּאֲרָה הַשִּׁלּוּשׁ), תַּכְלִית (הַצְלָחוֹת גַּשְׁמִיּוֹת), צוּרָה (צֵירִימוֹנְיָאלִישׁ, יוּדִיצְיָאלִישׁ, מוֹרָאלִישׁ).
2 E disse que, quando se examina a Torá de Moisés nestas três espécies de mandamentos, acha-se ela deficiente em todas elas. Quanto ao que há entre o homem e o Lugar, que são mandamentos de serviço — quer dizer, na indicação dos caminhos do serviço —, eis que ela é deficiente, pois ela ordena o matar dos viventes e a queima da carne e da gordura e a aspersão dos sangues e o seu lançamento, que são serviços imundos, o que não se dá na torá de Jesus, pois o seu serviço é limpo com pão e vinho. E quanto ao que há entre o homem e o seu próximo, que são os juízos, que são os mandamentos políticos, eis que ela é deficiente também, porque ela permite os juros, já que disse "ao estrangeiro emprestarás a juros" (Deuteronômio 23:21), e isto é coisa que corrompe o agrupamento político; e ordenou também que o que mata por engano bishgagá se exile até a morte do sumo sacerdote, e isto é um castigo desigual — pois às vezes será muito e às vezes será pouco; e ainda, que o que mata por engano não tem pena de morte pela lei, e a torá de Moisés permitiu o seu sangue ao vingador do sangue goel hadam, e, se o matou o vingador do sangue, está isento; e acha-se, conforme isto, que o que mata propositadamente está isento e o que mata por engano é morto — o que não se dá na torá de Jesus, em que tudo está dependente da opinião dos juízes. E quanto ao que há entre o homem e si mesmo, já que a torá de Moisés não ordena senão na probidade da ação, não na pureza do coração, e a torá de Jesus ordena na pureza do coração e por meio disso salva o homem do juízo do Geinom inferno. Isto é o que sai do conjunto das palavras do cristão.
טָעַן: הָעֲבוֹדָה מְזֹהֶמֶת (קָרְבָּנוֹת), הַמִּשְׁפָּטִים חֲסֵרִים (רִבִּית, רוֹצֵחַ בְּשׁוֹגֵג), וְלֹא צִוְּתָה עַל טָהֳרַת הַלֵּב.
3 E esta foi a minha resposta a ele: que todas estas coisas são o oposto da verdade, sem compreensão nem exame nem conhecimento dos caminhos da Torá. E, antes de responder às suas palavras, exporei uma premissa sobre a qual não há dúvida junto a todos os possuidores de intelecto, e ela é: que a coisa sobre a qual venha a crença é cabido que seja possível ao intelecto representar letsayer a sua existência, ainda que seja impossível pelo lado da natureza, como se explicou no primeiro Maamar, capítulo 22. Pois as coisas impossíveis pelo lado da natureza — como a abertura do Mar dos Juncos e o transformar-se da vara em serpente e os demais sinais e maravilhas que vieram na Torá ou se mencionaram nas palavras dos profetas —, depois de ser possível ao intelecto representar a sua existência, já virá a crença neles, de que há poder na mão de D'us para fazê-los existir e renová-los; mas o que é impossível ao intelecto representar a sua existência — como o estar a coisa existente e não-existente juntas, de uma só vez, ou o estar o corpo um em dois lugares diferentes num só tempo, e o ser o número um, ele mesmo, par e ímpar juntos —, tudo isto e o que se lhe assemelha, do que é impossível ao intelecto representar a sua existência, é impossível que venha a crença nele, e não se descreve D'us como tendo poder sobre ele — assim como não se descreve D'us como podendo criar outro como ele de todo lado, nem como podendo fazer existir um quadrado cujo diâmetro seja igual ao seu lado, nem como podendo fazer que o que já passou não tenha passado; pois isto, depois de que o intelecto não pode representar a sua existência, não se descreve D'us como tendo poder sobre ele, porque é impossível em si mesmo. E por isso é impossível que venha a crença nele, pois a crença nas coisas impossíveis não é do que dá perfeição à alma — já que, se a crença nas impossíveis em si mesmas desse perfeição à alma, teria sido dado o intelecto ao homem em vão, e não haveria vantagem para o homem sobre os viventes, depois de não haver para o intelecto entrada na crença daquilo sobre o que se deve crer.
הַדָּבָר שֶׁתָּבֹא הָאֱמוּנָה בּוֹ צָרִיךְ שֶׁאֶפְשָׁר לַשֵּׂכֶל לְצַיֵּר מְצִיאוּתוֹ. הַנִּמְנָע בְּטֶבַע (קְרִיעַת יַם סוּף) — תָּבֹא בּוֹ אֱמוּנָה. אֲבָל הַנִּמְנָע בְּעַצְמוֹ (זוּג וְנִפְרָד יַחַד) — אִי אֶפְשָׁר.
4 E, depois desta premissa, digo que o facto de ter dito que a Torá de Moisés é deficiente pelo lado da matéria — isto indica a deficiência do seu conhecimento na Torá de Moisés; pois não há coisa na Torá de Moisés nem nenhuma narrativa que não seja necessária à Torá, seja para ensinar alguma opinião ou uma moral, seja para explicar algum mandamento dos mandamentos da Torá. Pois mesmo "e Timna era concubina de Elifaz, filho de Esaú" (Gênesis 36:12) era necessário escrevê-lo, a fim de distinguir entre Amaleque, que ordenou a Torá a exterminá-lo, e os demais filhos de Esaú, acerca dos quais se disse "não abominarás o edomita, pois é teu irmão" (Deuteronômio 23:8); e assim todas as demais narrativas são, para os que sabem, cheias de graça chen, e já se estenderam os comentadores da nossa Torá em cada particular e particular delas.
5 E o que disse de que não é assim na torá de Jesus — eis que nós não achamos que Jesus tenha dado uma torá, mas ele mesmo ordenou guardar a Torá de Moisés; e os Evangelhos evangeliyot não são torá, mas uma narrativa das gerações de Jesus; e os sinais que dizem que ele fez na sua vida — eles e os que se lhes assemelham se acham feitos por meio de profetas que não davam uma torá. E o que veio nos Evangelhos das morais e do ensino de conhecimento ao povo para corrigir as suas ações, tudo veio em parábolas e enigmas, e não é do caminho da Torá ser assim, porque a coisa dita por via de enigma e parábola é impossível que se apreenda a intenção senão com dificuldade; e por isso é que explicou a Escritura a respeito da profecia de Moisés que não era em enigmas — pois, porque a Torá era dada por meio dele, não era cabido que falasse em enigmas, que é do caminho dos profetas cujo grau não é grande na profecia a falar assim. Pois a fala dita por caminho de enigma ou parábola, como as profecias de Zacarias, não tem a sua perfeição cabida a ela, pois precisa de explicação e é possível que suporte explicações muitas e diferentes; e por isso é que Ezequiel se queixava por ser a sua profecia em parábolas, disse "ah, Senhor D'us! eles dizem de mim: acaso não é um proferidor de parábolas ele?" (Ezequiel 21:5) — do que se vê que isto seria uma deficiência na sua profecia; e por isso voltou D'us a falar com ele explicitamente. E é manifesto que não é cabido do estatuto da Torá que seja senão do mais elevado dos graus da profecia — sobre o que é que louvou a Escritura a respeito da profecia de Moisés e disse a seu respeito "boca a boca falo com ele, e numa visão e não em enigmas"; acha-se então que a fala torática que vem em enigmas tem nela deficiência pelo lado da matéria — e eis que isto é o oposto do que pensou o cristão.
אֵין סִפּוּר בַּתּוֹרָה שֶׁאֵינוֹ הֶכְרֵחִי. ״וְתִמְנַע הָיְתָה פִילֶגֶשׁ״ — לְהַבְדִּיל בֵּין עֲמָלֵק לִשְׁאָר בְּנֵי עֵשָׂו. יֵשׁוּ לֹא נָתַן תּוֹרָה; הָאֵוַואנְגֵּילְיוֹ סִפּוּר, וּבָא בִּמְשָׁלִים.
6 E assim o que disse de que ela é deficiente pelo lado do agente, já que não escreveu os atributos da divindade — eis que a coisa é ao contrário, pois ela escreveu explicitamente a raiz da unidade e o afastamento da corporeidade, e explicou que o Senhor, bendito seja, é impossível de apreensão; disse a Escritura "pois não me verá o homem e viverá" (Êxodo 33:20). E escreveu que o que se apreende dele, bendito seja, é pelo lado das medidas midot com que ele conduz as suas criaturas, como explicou isto a Moisés quando lhe disse, bendito seja, "dá-me a conhecer, por favor, os teus caminhos, e te conhecerei, a fim de que ache graça aos teus olhos" (Êxodo 33:13) — do que lhe deu a conhecer que as treze medidas shelosh esré midot com que ele conduz as suas criaturas são os seus caminhos, nos quais é possível ao homem o conhecimento, entre muito e pouco, conforme a diferença dos graus dos que apreendem; mas os atributos da sua própria essência é impossível que se apreendam.
7 E o facto de a torá de Moisés não ter escrito a trindade é por ser ela uma opinião não-concordante com a verdade conforme a especulação intelectual, e a Torá não legaria uma opinião não-verdadeira que diga que o um é três e que os três são um, com o facto de estarem eles existentes como separados em si mesmos, conforme o que eles dizem. Pois o que dizem os filósofos a respeito de D'us de que é intelecto e inteligente e inteligido, com o facto de ser ele um, não é deste modo — pois eles não dizem que há nele três coisas separadas, existentes em si mesmas, longe disso, mas dizem que a coisa una se chama com estes três nomes nas três considerações bechinot: pois ele, bendito seja, é intelecto simples sem nenhuma composição; e, contudo, depois de que é intelecto, por força que inteligencia, e, se é assim, é inteligente; e não inteligencia coisa fora da sua essência — pois é do falso que a sua perfeição esteja dependente de outro e que outro o extraia da potência ao ato —, e nesta consideração ele é inteligido em ato sempre, e, com tudo isto, não se multiplica a sua unidade de modo algum. Mas que haja nele três coisas separadas, existentes, cada uma de pé em si mesma — como eles dizem "distintos em pessoas" distintos in personas — e que sejam um, isto é impossível, a não ser que se verifiquem os dois contraditórios juntos, o que é coisa contra os inteligíveis primeiros, que é impossível ao intelecto representar a sua existência. E por isto mesmo negou a Torá também a corporeidade e advertiu a não crer nela, disse "e guardareis muito as vossas almas, pois não vistes nenhuma figura" etc. (Deuteronômio 4:15), "para que não vos corrompais e façais para vós escultura, figura de qualquer imagem" (Deuteronômio 4:16).
הַתּוֹרָה כָּתְבָה הָאַחְדוּת וְהַרְחָקַת הַגַּשְׁמוּת. הַשִּׁלּוּשׁ — דֵּעָה בִּלְתִּי אֲמִתִּית; שְׂכָלִים נִבְדָּלִים ״דִּיסְטִינְטוֹשׁ אִין פִּירְשׂוֹנָאשׁ״ וְשֶׁיִּהְיוּ אֶחָד — נִמְנָע בְּעַצְמוֹ.
8 E, contudo, o que disse de que ela é deficiente pelo lado do fim, já que não mencionou a felicidade anímica — isto não é assim, pois já a mencionou aos sábios por via de alusão, como mencionaremos no Maamar Quarto, com a ajuda do Senhor. E o facto de não ter explicado isto com uma explicação ampla é porque a Torá não foi dada aos sábios e aos entendidos apenas, mas a todo o povo, do extremo — grandes e pequenos, sábios e tolos —, e é cabido que venham nela coisas compreendidas a todos e cabidas de que venha a crença nelas.
9 E as coisas apreendidas com ênfase pela sensação a todos, dá-se nelas uma crença grande; e as coisas inteligíveis não-apreendidas pela sensação e não-compreendidas senão pelos sábios, não se dá nelas crença de modo algum, mas dizem a multidão hamon que o que é não-apreendido pelo sentido é coisa distante e falsa; e por isso prometeu a torá de Moisés coisas corporais explicitamente, visíveis ao olho e apreendidas pelo sentido, a todo o povo, do extremo, e coisas intelectuais não-apreendidas senão pelos entendidos, por via de alusão, a fim de que reconheçam todos, cada homem e homem conforme o seu grau, que por meio da Torá se alcançam todas as felicidades corporais e anímicas, por todo o tempo enquanto não o causar o pecado, e a fim de que seja a obtenção das corporais — que não é do caminho da natureza que se obtenham — prova sobre as anímicas.
הַהַצְלָחָה הַנַּפְשִׁית נִזְכְּרָה לַחֲכָמִים בְּרֶמֶז. הַתּוֹרָה נִתְּנָה לְכָל הָעָם — וְהַשָּׂגַת הַגַּשְׁמִיּוֹת שֶׁלֹּא כְּדֶרֶךְ הַטֶּבַע רְאָיָה עַל הַנַּפְשִׁיּוֹת.
10 E já testemunhou sobre isto Balaão, que não era da nação de Israel e era um grande sábio e profeta, e disse "morra a minha alma a morte dos retos, e seja o meu fim como o dele" (Números 23:10) — do que se vê que, pelo lado da sua sabedoria ou da sua profecia, apreendeu que haveria para Israel um fim e uma esperança após a morte, até que ele ansiava que, depois de morrer, houvesse para ele um fim e uma esperança como Israel — porque entendeu que a providência neste mundo é prova sobre a sua felicidade no mundo vindouro; e com muito mais razão ao haver milagres permanentes na nação fora do caminho do costume do mundo, que é prova sobre a felicidade da alma no mundo vindouro. Como por todo o tempo do Primeiro Templo se achava a profecia em Israel sempre, e mesmo no Segundo Templo, em que não havia ali profecia, eram respondidos às vezes por voz celeste bat kol, e havia outros milagres permanentes na nação — como que a terra faria em todo sexto ano da shemitá a colheita para os três anos, como disse "e ordenarei a minha bênção para vós no sexto ano, e fará a colheita para os três anos" (Levítico 25:21); e como que em todo ano da shemitá, acerca do qual disse a Escritura "reúne o povo, os homens e as mulheres e as crianças e o teu estrangeiro que está nos teus portões" etc. (Deuteronômio 31:12), subiam todos na festa de Sucot para ouvir a Torá, e disse a Escritura "e não cobiçará homem a tua terra no teu subir" etc. (Êxodo 34:24); e outros milagres permanentes que havia no Templo, como os que os contaram no tratado Avot, e no tratado Yomá disseram que a tira de lã escarlate embranquecia em cada ano no Dia da Expiação, e outros milagres que os contaram ali que eram permanentes na nação — o que não se acha na nação dos cristãos um sinal permanente que indique a verdade da sua crença.
11 E o facto de trazerem eles prova da felicidade dos que creem na sua crença não é prova de modo algum, depois de termos achado, antes de ser dada a torá de Moisés, mais de dois mil anos, que todas as nações serviam idolatria, exceto indivíduos seletos como os patriarcas e os que se lhes assemelham, e, ainda assim, todas as nações prosperavam, cada uma e uma no seu reino próprio a ela, e estavam em tranquilidade e sossego; e mesmo depois de ser dada a Torá, todas as nações eram adoradoras de idolatria exceto Israel, e prosperavam cada uma no seu reino. E não é a prosperidade de Senaqueribe e Nabucodonosor e Alexandre, e o facto de dominarem sobre Israel, prova de que a sua crença seja melhor do que a crença de Israel. E ainda hoje os cristãos admitem que a religião dos ismaelitas muçulmanos é convencional e conduzida hanchiit e não é divina, e, com tudo isto, eles prosperam e dominam numa grande parte do mundo; e, se é assim, se vê que não é a prosperidade da nação prova sobre o bem da sua crença. E, na verdade, a prova sobre a verdade da crença é a permanência dos milagres, como eram permanentes em Israel ao estarem habitando sobre a sua terra — o que não se acha assim para os que creem na crença dos cristãos nem na crença dos ismaelitas; e o que disseram da felicidade da alma no mundo vindouro — sobre isto nós julgamos se é assim ou não, e qual é a prova sobre isto.
״תָּמֹת נַפְשִׁי מוֹת יְשָׁרִים״ — בִּלְעָם הֵבִין שֶׁהַהַשְׁגָּחָה רְאָיָה עַל הָעוֹלָם הַבָּא. הַנִּסִּים הַמַּתְמִידִים בְּיִשְׂרָאֵל הֵם הָרְאָיָה, לֹא הַצְלָחַת הָאֻמָּה.
12 E, contudo, o que disse de que ela é deficiente pelo lado da forma — eis que isto é uma falsidade completa, o oposto da verdade; pois em todas as três partes que mencionou de que a Torá abrange nelas, ela é perfeita no cúmulo da perfeição. Quanto à parte dos mandamentos que há entre o homem e o Lugar, que são as chamadas "cerimoniais" — quer dizer, mandamentos de serviço —, eis que ela é muito perfeita, pois ela ordena na oração, como disse "e servireis ao Senhor vosso D'us, e ele abençoará o teu pão e as tuas águas" (Êxodo 23:25) — pois este serviço é a oração por força, como explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, e como explicaremos no Maamar Quarto, com a ajuda de D'us; e adverte sobre o amor do Senhor e o seu temor, disse "e amarás o Senhor teu D'us" (Deuteronômio 6:5), "e temerás o teu D'us" (Levítico 19:14), "ao Senhor teu D'us temerás e a ele servirás" (Deuteronômio 6:13).
13 E o que disse de que os serviços são imundos com a queima da carne e da gordura e do sangue — eis que, se dissermos que não foram ordenados Israel nos sacrifícios senão na intenção segunda, a fim de afastá-los da oferenda da idolatria, como escreveu o Rambam, de abençoada memória — não há esta objeção de modo algum, pois não era a intenção nos sacrifícios senão a purificar a intenção do coração e afastá-los da oferenda da idolatria; disse Jeremias "pois não falei a vossos pais nem os ordenei, no dia em que os tirei da terra do Egito, sobre assuntos de holocausto e sacrifício; mas esta coisa lhes ordenei, dizendo: ouvi a minha voz" etc. (Jeremias 7:22-23).
14 E, contudo, mesmo se dissermos que havia nos sacrifícios uma parte deles que eram feitos na intenção primeira — seja para despertar o coração do pecador, ou do homem, de que o cordeiro ou aquele vivente que se faz dele um sacrifício já era vivo e nutrido como ele, e no entanto é queimado e se acaba e não resta dele coisa alguma a não ser no que havia nele de satisfação diante do Senhor — assim o homem se acabará deste modo e não restará dele coisa alguma a não ser pelo lado da ação que fizer no que houver nela de satisfação diante do Senhor, que disse e a sua vontade se fez, que é a vantagem que há no homem sobre os viventes; e com isto porá ao seu coração o fazer o bom e o reto aos olhos do Senhor a fim de que isto seja causa da permanência da alma, que é o fundamento da perfeição do homem. E, seja que o sacrifício fosse a fim de aproximar e ligar as forças superiores com as inferiores, como é a opinião dos sábios da Cabalá — de todo modo é impossível dizer que os serviços não fossem dignos, depois de o sentido testemunhar que aquelas coisas eram agradáveis junto ao Senhor; pois eis que o fogo descia do céu e consumia sobre o altar o holocausto e as gorduras — já que desceu o fogo a Moisés na tenda do encontro, e a Salomão na Casa do Templo, e a Davi na eira de Araúna, o jebuseu, e a Elias no monte Carmelo —, e a Glória Shechiná ou o espírito de santidade repousava em Israel por meio dos sacrifícios, e o sacerdote anunciava os futuros pelos Urim e Tumim, como testemunhou o sentido sobre isso — o que não se dá em todos os sacrifícios deles, pois nunca se viu neles um sinal de verdade permanente e reconhecido e divulgado a todos como se via nos sacrifícios. E o que dizem de que aproveita à alma é coisa que o sentido não testemunha sobre ela nem o intelecto indica sobre isso; e sobre coisa semelhante a isto disseram "o que quer mentir afasta as suas testemunhas".
הַתּוֹרָה שְׁלֵמָה בָּעֲבוֹדָה: תְּפִלָּה, אַהֲבָה וְיִרְאָה. הַקָּרְבָּנוֹת — לְטַהֵר כַּוָּנַת הַלֵּב וּלְהַרְחִיק עֲבוֹדָה זָרָה; וְהָאֵשׁ יוֹרֶדֶת מִן הַשָּׁמַיִם — אוֹת אֱמֶת.
15 E ainda, pois o que dizem do sacrifício do pão e do vinho de que é um sacrifício limpo — não é a coisa assim, pois o pão e o vinho não são um sacrifício ao seu deus, mas, conforme o que eles dizem, é o corpo do seu deus; pois dizem que o corpo de Jesus que está nos céus, muito maior em muito na sua medida e na sua grandeza, vem ao altar e se reveste no pão e no vinho logo ao terminar a fala da boca do sacerdote — qualquer sacerdote que seja, tanto o justo quanto o ímpio —, e se faz tudo um só corpo com o corpo do messias deles que desce do céu sem passar tempo; e, depois de terminar a comida e a bebida, sobe aos céus, ao seu lugar; e assim faz em cada altar e altar. Esta é a sua opinião neste sacrifício. E quanto há nesta crença de afastamento da razão junto ao intelecto do homem, e de coisa que é impossível ao intelecto humano recebê-la nem representá-la, porque tudo isto discorda dos inteligíveis primeiros e dos dados do sentido.
16 Primeiro, pois é necessário que creia que se ache um movimento sem passar tempo na distância que há desde os céus superiores e desde o trono da Glória até a terra. E ainda, que se ache um só corpo em dois lugares ou nos lugares muitos e diferentes, pois o corpo do messias deles se acharia em altares muitos e diferentes num só tempo. E ainda, que suba e desça o corpo do messias sem que se rasgue o corpo dos céus, depois de que os céus não recebem rasgadura. E ainda, pois dizem que a carne e o sangue que se renovaram agora da essência do pão e do vinho, que é finita e limitada, é ele mesmo o corpo do messias que era desde os dias da antiguidade, e não se acrescenta nisto nem se diminui de como era — e isto leva à crença da entrada dos corpos uns nos outros.
17 E todas estas coisas, além de serem contra os inteligíveis primeiros, são contra o dado do sentido, pois dizem que o pão e o vinho visíveis ao olho não são alimento e não nutrirão o vivente nem o homem que o come — e nós vemos que, se o pão comido e o vinho forem em medida grande, nutrirão o homem que o come e se fará dele uma parte de membro como é com o demais pão e vinho. E ainda, pois dizem que a essência do pão e do vinho se transforma no corpo do messias e restaram os acidentes mikrim de pé em si mesmos, não num sujeito; e que o gosto e o aspecto e o aroma e o tato e o peso e a leveza e a maciez e a dureza que sentimos no pão não estão no pão, já que o corpo já partiu e foi-se para o corpo do messias. E todas estas coisas são do que o intelecto não pode representá-las, nem a boca pode falar nem o ouvido pode ouvir; e, se é assim, como é possível que venha a crença nisto e no que se lhe assemelha, que o intelecto afasta e o sentido desmente? E por causa disto, o judeu, que é habituado a opiniões verdadeiras que não desmentem os dados do sentido nem discordam dos inteligíveis primeiros, vindas da Torá de Moisés — da qual todos admitem que é divina e que foi dada com grande divulgação diante de seiscentos mil —, é-lhe difícil forçar o seu intelecto a crer coisas não-compreendidas junto ao intelecto; pois como creria o homem o que não entende nem sabe como representar a sua existência?
הַלֶּחֶם וְהַיַּיִן — לְפִי דַּעְתָּם גּוּף אֱלֹהֵיהֶם. תְּנוּעָה בְּלֹא זְמַן, גּוּף אֶחָד בְּמְקוֹמוֹת רַבִּים, מִקְרִים בְּלֹא נוֹשֵׂא — מַכְחִישׁ הַמּוּשְׂכָּלוֹת וְהַמּוּחָשׁ.
18 E com muito mais razão é-lhe difícil crer nas coisas que vieram na torá de Jesus, ao ver que a coisa que puseram como raiz e fundamento à sua crença — que é que Jesus era o messias filho de Davi — não é sabido junto a eles se era filho de Davi ou não. Pois o capítulo 1 do evangelho de Mateus atribui José, marido de Maria, ou seu noivo conforme as suas palavras, a Salomão e a Davi, e diz a seu respeito que era da semente da realeza; e no capítulo 3 do evangelho de Lucas diz a seu respeito que não era da semente da realeza, e atribui-o a Natã, filho de Davi; e estas duas genealogias não são senão de José; e eles dizem que jamais conheceu José a Maria, nem antes do nascimento de Jesus nem depois disso. E, ainda que se ache ali no evangelho de Mateus que "José não conheceu Maria até que ela deu à luz Jesus" — do que se vê que após o parto a conheceu —, e ainda que se ache ali também que Jesus tinha irmãos — o que indica sobre isso também —, eles explicam que "irmãos" quer dizer "parentes"; e assim o que disse de que "não conheceu José a Maria até que ela deu à luz Jesus", explicam-no como "não te abandonarei até que eu tenha feito o que te falei" (Gênesis 28:15), e como nós explicamos "não se desviará o cetro de Judá... até que venha Shiló" (Gênesis 49:10), cuja explicação é que mesmo depois não se desviará; e, conforme isto, não aproveita a genealogia de José a Jesus de modo algum, e de onde se sabe a genealogia de Maria?
19 E assim o judeu, que é perito nos livros sagrados e vê que os versículos que eles trazem nos evangelhos e nos demais seus livros como prova para si não indicam sobre a sua prova de modo algum, como poderá ele conter-se de não crer nas suas palavras? Como o que se mencionou no capítulo 1 de Mateus de que nasceu Jesus de uma virgem para confirmar o que se disse "eis que a jovem está grávida" (Isaías 7:14) — e é divulgado e sabido a todo o que sabe ler, e mesmo às crianças da escola, que este versículo foi dito a Acaz nuns seiscentos anos antes de Jesus como sinal sobre a perdição do reino de Aram e do reino de Israel e a permanência do reino de Judá na mão dos reis da casa de Davi; e como seria o nascimento de Jesus de uma virgem um sinal para Acaz?
20 E assim disse ali, capítulo 2 de Mateus, que Herodes matou todos os varões pequenos, chamados "inocentes", para confirmar o que se disse "Raquel está chorando sobre os seus filhos" (Jeremias 31:14) — e a coisa é manifesta e divulgada a partir do assunto da passagem de que isto foi dito sobre o exílio de Israel no Primeiro Templo, já que disse ali "e voltarão da terra do inimigo, e voltarão os filhos ao seu termo" (Jeremias 31:16-17), "ouvindo ouvi Efraim a lamentar-se" etc., "faze-me voltar e voltarei" (Jeremias 31:18); e assim outros versículos que os trouxeram nos evangelhos no oposto do que eles são e no oposto da intenção sobre a qual foram ditos no seu lugar. E tudo isto é do que afasta o homem de crer de que a torá de Jesus seja divina; mas dirão que ela é conduzida hanchiit vinda de homens que não eram peritos nos livros sagrados e na intenção dos versículos, e não puseram o coração a examinar a compreensão dos versículos como é cabido nem nos caminhos do serviço que vieram na Torá de Moisés.
יֵשׁוּ — אֵין יָדוּעַ אִם בֶּן דָּוִד. ״הִנֵּה הָעַלְמָה הָרָה״ נֶאֱמַר לְאָחָז; ״רָחֵל מְבַכָּה״ עַל גָּלוּת בַּיִת רִאשׁוֹן — הֵבִיאוּם בְּחִלּוּף הַכַּוָּנָה.
21 E, contudo, na parte dos mandamentos que há entre o homem e o seu próximo, que são os que chamaram "judiciais" — eis que a Torá de Moisés é perfeita mais do que as demais religiões, pois ela adverte no amor das pessoas, disse "e amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Levítico 19:18), e afasta o ódio, "não odiarás o teu irmão no teu coração" (Levítico 19:17); e sobre o estrangeiro guer disse "e amareis o estrangeiro" (Deuteronômio 10:19), e advertiu a não enganá-lo, disse "contigo habitará, no teu meio, no lugar que escolher num dos teus portões, no que for bom para ele; não o oprimirás" (Deuteronômio 23:17), e não só o estrangeiro justo convertido, mas mesmo o estrangeiro residente guer toshav que não serve idolatria; e assim ordenou a Torá a beneficiá-lo, disse "ao estrangeiro que está nos teus portões a darás, e a comerá" (Deuteronômio 14:21) — e este é o estrangeiro residente a quem é permitido comer carniças. E não permite os juros senão do estrangeiro nochri adorador de idolatria, como disse "ao estrangeiro emprestarás a juros" (Deuteronômio 23:21); e o adorador de idolatria que não quer cumprir os sete mandamentos dos filhos de Noé, como o estrangeiro residente, o seu corpo é permitido conforme o consenso de todas as religiões — e mesmo os filósofos permitem o seu sangue, e disseram "matai aquele que não tem religião"; e assim adverte a Torá sobre os adoradores de idolatria "não deixarás viva nenhuma alma" (Deuteronômio 20:16); e, se o seu corpo é permitido, com muito mais razão o seu dinheiro, pois o adorador de idolatria é cabido de matá-lo e não de ter compaixão dele.
22 E nos demais juízos ela é perfeita mais do que as demais leis torot, pois ela mede os castigos cabidos conforme a rebeldia, como escrevemos no capítulo precedente a este a respeito do castigo do que rouba dinheiro; e nos juízos do que mata por engano — porque há um enganado próximo do proposital, permitiram o seu sangue ao vingador do sangue, a fim de que o homem seja cauteloso nisto mais do que demais; e a prova para esta coisa é que, se o homicida fosse forçado no seu matar, mesmo de exílio não seria culpado, e no entanto o vingador do sangue está isento por causa dele se o matar — como no caso de se alguém atirou uma pedra e outro pôs a cabeça e a recebeu.
23 E o facto de a Escritura ter dependido o seu retorno do exílio da morte do sumo sacerdote — já explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, a razão da coisa, e disseram que por isso se dependeu esta coisa da vida do sumo sacerdote, a fim de que ele fosse cuidadoso em pedir misericórdia sobre os filhos da sua geração a fim de que não lhes ocorresse um tropeço. E ainda, pois é do caminho dos justos suportar castigo e tribulações em razão da multidão que peca com as suas almas; pois assim achamos que a Ezequiel, o profeta, disse-lhe o Senhor, bendito seja, que se deitasse sobre o seu lado e suportasse tribulações para levar sobre si o pecado da casa de Israel (Ezequiel 4:4-6); e por isso não há que admirar-se se o sacerdote for castigado pelo pecado do povo.
״וְאָהַבְתָּ לְרֵעֲךָ כָּמוֹךָ״, ״וַאֲהַבְתֶּם אֶת הַגֵּר״. רִבִּית רַק מֵעוֹבֵד עֲבוֹדָה זָרָה. הָרוֹצֵחַ בְּשׁוֹגֵג — לְהַזְהִיר; וְהַכֹּהֵן נֶעֱנָשׁ בַּעֲוֹן הָעָם כְּדֶרֶךְ הַצַּדִּיקִים.
24 Mas há que admirar com admiração e maravilha sobre o que diz de que os juízos que vieram na Torá de Moisés, com o facto de ela ser divina, são deficientes e que são completados na torá de Jesus; pois eis que na torá de Jesus não há nela juízos entre o homem e o seu próximo, e todos os cristãos se conduzem nos seus juízos conforme o que ordenaram os seus sábios, seja por ordem do César, seja por ordem do Papa; e como subiria à mente que os juízos postos na balança da opinião de homens sábios completem a deficiência dos juízos que vieram na Torá de Moisés, com o facto de ela ser divina? E mesmo se fossem postos pelos apóstolos apostolos, não seria possível para eles corrigir os juízos da Torá de Moisés, depois de que isto não é coisa dependente da crença.
25 E com muito mais razão pois não é cabido a nenhum homem corrigir senão o que é sabido junto a ele; e, conforme o que se vê, os enviados apóstolos mencionados não eram peritos na Torá de Moisés, pois se mencionou no capítulo 7 do livro Atos dos Apóstolos que Estêvão disse que José trouxe Jacó, seu pai, ao Egito com setenta e cinco almas, e que morreu Jacó e os seus pais e foram sepultados em Shechem, na caverna que comprou Abraão com dinheiro dos filhos de Hamor, filho de Shechem — e tudo isto é o oposto do que está escrito na Torá explicitamente: pois no livro Gênesis, na parashá "Vaigash", conta em particular todas as almas que vieram com Jacó ao Egito, e com José e seus filhos não são mais de setenta, como mencionou a Escritura "com setenta almas desceram os teus pais ao Egito" (Deuteronômio 10:22); também a caverna que comprou Abraão está em Hebron, ela, e não em Shechem, e não a comprou dos filhos de Hamor, filho de Shechem, mas de Efron, o hitita, como se mencionou explicitamente; e assim no capítulo 13 ali disse Paulo que Israel pediu um rei a Samuel e lhes deu o filho de Kish, um homem da tribo de Benjamim, que reinou quarenta anos — e a Escritura é ao contrário, e isto é que não reinou senão três ou quatro anos. E não há para eles resposta em tudo isto a dizer que os judeus falsificaram os versículos, pois não há nisto coisa que aumente nem diminua na crença; e, se é assim, se vê que não eram peritos nas palavras da Torá e dos profetas.
26 E mesmo se admitirmos que, conforme as suas palavras, fossem os apóstolos autorizados a mudar os juízos, quem deu permissão ao Papa para mudar o mandamento do Shabat, que não é dos juízos? E na descida do maná se viu um sinal de verdade de que o dia do Shabat em si mesmo é santo por uma força divina, não pelo lado do repouso apenas, como as convenções hanachot convencionais; e por isso disse a Escritura "vede que o Senhor vos deu o Shabat" etc. (Êxodo 16:29) — quer dizer que, ao descer o maná nos seis dias da semana e não no dia do Shabat, e ao descer no sexto dia pão para dois dias, é um sinal que indica sobre a santidade do Shabat em si mesmo e de que ele é da parte do Senhor vindo do céu; e por isso é impossível a nenhum homem anulá-lo, e com muito mais razão pois ele é um dos dez Mandamentos, e é um mandamento que o cumpriram Jesus e todos os seus discípulos; e depois de Jesus, nuns quinhentos anos, mudou-o o Papa e ordenou a guardar, no lugar do Shabat, o primeiro dia da semana; e eis que o Shabat tinha nele mesmo um sinal reconhecível no maná que indicou sobre a sua santidade e não havia nele nenhuma deficiência, e eis que ele é dos dez Mandamentos, acerca dos quais admitem eles que não há neles nenhuma deficiência; mas se vê que a intenção de todos eles é arrancar a Torá de Moisés a partir da sua própria opinião, sem nenhum argumento de modo algum, pois eis que não ordenaram sobre isto nem Jesus nem os seus discípulos. E por isso é manifesto que não basta o argumento da deficiência que argumentou contra os juízos verdadeiros que vieram na Torá de Moisés para anulá-los de modo algum.
בְּתוֹרַת יֵשׁוּ אֵין מִשְׁפָּטִים. הַשְּׁלוּחִים לֹא הָיוּ בְּקִיאִים (אַקְטוּשׂ פֶּרֶק ז). מִי נָתַן רְשׁוּת לָאַפִּיפְיוֹר לְשַׁנּוֹת הַשַּׁבָּת? — אוֹת הַמָּן עַל קְדֻשָּׁתוֹ.
27 E, contudo, na parte terceira, que é a parte dos mandamentos das qualidades, que são os que chamaram "morais" — do que disse de que ela é deficiente pelo lado de que a Torá de Moisés não advertiu senão sobre a probidade da ação e não sobre a pureza do coração —, isto é o oposto da verdade; pois eis que disse "e circuncidareis o prepúcio do vosso coração" (Deuteronômio 10:16), e disse "e amarás o Senhor teu D'us com todo o teu coração" (Deuteronômio 6:5), "e amarás o teu próximo como a ti mesmo", "e temerás o teu D'us", "não te vingarás e não guardarás rancor contra os filhos do teu povo" (Levítico 19:18). E o facto de ter ordenado na probidade da ação é porque a pureza do coração não é considerada se não concordar com ela a ação — e o fundamento é a intenção do coração; disse Davi "um coração puro cria para mim, ó D'us" (Salmos 51:12), e coisa semelhante a isto, muito do que se pode narrar.
28 Acha-se então que a Torá de Moisés é perfeita em todas as espécies de perfeição, o oposto do que pensou o cristão. E já aludiu Davi sobre isto em forma resumida quando a louvou pelo lado das suas quatro causas, disse "a Torá do Senhor é perfeita, restitui a alma" (Salmos 19:8). Eis que ao dizer "Torá" aludiu à causa material, e disse que ela é "torá" — quer dizer, que cada narrativa e narrativa que há nela, como as narrativas da embriaguez de Noé e de Lot e as que se lhes assemelham, todas foram escritas nela para dar alguma religião e encaminhamento e condução, não por outra razão de modo algum. E ao dizer "a Torá do Senhor" aludiu à sua perfeição pelo lado do agente — quer dizer que, depois de que o agente é o Senhor, bendito seja, é impossível que haja nela alguma deficiência das deficiências que é possível que caiam na religião humana. E ao dizer "perfeita" temimá aludiu à perfeição que é pelo lado da sua forma. E ao dizer "restitui a alma" aludiu à perfeição que é pelo lado do fim, que é a felicidade anímica; e "restitui a alma" é como o dito de Salomão "e o espírito voltará a D'us, que o deu" (Eclesiastes 12:7).
29 E aqui errou Jerônimo Hieronymus, o tradutor para os cristãos, que traduziu "temimá" como "sem defeito" imaculada, e fez assim a fim de que não se atribuísse à Torá de Moisés que ela é perfeita, a fim de poder dizer que ela é deficiente e que a torá de Jesus a completou; e isto não é assim, pois a explicação de "temimá" é, por força, "perfeita" shelemá — já que a respeito da vaca vermelha se disse "temimá", e, ainda assim, se precisou dizer nela "na qual não há defeito" (Números 19:2), do que se vê que "temimá" é uma coisa e "na qual não há defeito" é outra coisa; pois já explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, que "temimá" quer dizer "perfeita na vermelhidão", e isto indica que a explicação de "temimá" em todo lugar é "perfeita no cúmulo da perfeição que é possível naquela espécie". E, depois de tê-la descrito como sendo perfeita pelo lado da forma ao dizer "temimá", e de ter mencionado também a perfeição que é pelo lado do fim ao dizer "restitui a alma", e de ter mencionado também que o agente é o Senhor, bendito seja, que é um agente perfeito, e que a matéria é "torá" — quer dizer, uma condução e um encaminhamento qualquer —, se explicou que ela é isenta de todas as deficiências e que ela é perfeita em todas as espécies de perfeição. E eis que se completou a intenção deste capítulo.
״וּמַלְתֶּם אֵת עָרְלַת לְבַבְכֶם״ — הַתּוֹרָה צִוְּתָה עַל טָהֳרַת הַלֵּב. ״תּוֹרַת ה׳ תְּמִימָה מְשִׁיבַת נָפֶשׁ״ — שְׁלֵמָה בְּד׳ סִבּוֹתֶיהָ. וְטָעָה גִּירוֹנִימוֹ שֶׁהֶעְתִּיק ״בִּלְתִּי בַּעֲלַת מוּם״.
Este é o capítulo mais célebre e extenso do Maamar III — o coração da polêmica antiCristã de Albo, escrito por quem participara da Disputa de Tortosa (1413-14), o maior debate público entre judeus e cristãos da Idade Média. Albo dramatiza o confronto: um "sábio dos cristãos" argumenta, com o instrumental aristotélico das quatro causas, que a Torá de Moisés é deficiente em todas elas — na matéria (tem narrativas "que não são lei"), no agente (não revela a trindade), no fim (promete só bens materiais, não a salvação da alma) e na forma (falha nos preceitos cerimoniais, judiciais e morais) — e que o cristianismo supre essas faltas.
Antes de responder ponto a ponto, Albo crava a premissa que governará toda a refutação: a fé só pode recair sobre o que o intelecto consegue representar como existente. O impossível por natureza (a abertura do mar, a vara virando serpente) é crível, porque D'us pode realizá-lo. Mas o impossível em si (algo ser e não ser ao mesmo tempo; um corpo em dois lugares; um número par e ímpar) não é objeto possível de fé, e nem se atribui a D'us "poder" sobre ele — pois "se a crença no impossível desse perfeição à alma, o intelecto teria sido dado ao homem em vão". Esta é a arma com que Albo desmontará tanto a trindade quanto a eucaristia.
Matéria: nenhuma narrativa da Torá é supérflua — até "Timna era concubina de Elifaz" serve (distinguir Amaleque, a exterminar, dos demais edomitas, a respeitar). E Jesus "não deu torá" — mandou guardar a de Moisés; os Evangelhos são narrativa, e ensinam por parábolas, o que é sinal de profecia inferior (Moisés falava "sem enigmas") — logo a deficiência é deles. Agente: a Torá ensina a unidade e a incorporeidade; não ensina a trindade porque a trindade é logicamente impossível — distinta da fórmula filosófica "intelecto-inteligente-inteligido" (que são três aspectos de um, não três pessoas existentes em si). Fim: a felicidade da alma está na Torá, por alusão (a ser exposta no Maamar IV); foi velada porque a Torá fala a todo o povo, e a massa só crê no sensível — por isso D'us prometeu bens materiais visíveis como prova dos espirituais, confirmada pelos milagres permanentes de Israel (a profecia, a bênção do sexto ano, os prodígios do Templo) — que o cristianismo não tem. Forma: a Torá é perfeita nas três categorias.
O ataque mais cortante é à transubstanciação. A "oferta limpa de pão e vinho" exige crer numa cascata de impossíveis-em-si: movimento sem tempo (do céu ao altar), um corpo em muitos altares ao mesmo tempo, subir e descer sem rasgar o céu, e acidentes sem sujeito (gosto, cor, peso do pão persistindo sem o pão). Tudo isso "o intelecto não pode representar, a boca não pode dizer, o ouvido não pode ouvir" — e contradiz até o sentido (o pão visivelmente nutre). Pela premissa do §3, nada disso pode ser objeto de fé. Em contraste, os sacrifícios judaicos eram visivelmente aceitos (o fogo descia do céu — Moisés, Salomão, Davi, Elias).
Albo exibe domínio dos próprios textos cristãos: as duas genealogias contraditórias de Jesus (Mateus o liga a Salomão, Lucas a Natã — e ambas só por José, que "nunca conheceu Maria"); os versículos mal aplicados (Isaías 7:14 "a jovem está grávida" foi sinal para Acaz, seis séculos antes; "Raquel chora seus filhos" é sobre o exílio babilônico); e os erros factuais dos apóstolos (Estêvão em Atos 7 confunde a caverna de Hebron com Shechem e o vendedor Efron com os filhos de Hamor; Paulo erra os anos de Saul) — provando que "não eram peritos nas Escrituras". E a pergunta demolidora: se até os juízos civis cristãos vêm "do César ou do Papa" (a torá de Jesus não tem mishpatim!), quem autorizou o Papa, 500 anos depois, a mudar o Shabat — um dos Dez Mandamentos que o próprio Jesus guardou, cuja santidade o maná atestou?
Albo conclui invertendo o argumento: a própria fórmula que o cristão usou prova a perfeição da Torá. "A Torá do Senhor é perfeita, restitui a alma" (Sl 19:8) louva-a pelas quatro causas: "Torá" (matéria — toda narrativa ensina), "do Senhor" (agente perfeito), "perfeita/temimá" (forma), "restitui a alma" (fim — a salvação anímica que o cristão dizia faltar!). E desmascara Jerônimo, que na Vulgata traduziu temimá como "imaculada" (sem defeito) em vez de "perfeita" — manobra deliberada para poder alegar que a Torá precisava ser "completada". Albo refuta com a halachá: a vaca vermelha é chamada temimá e separadamente "sem defeito" — prova de que temimá significa "perfeita ao máximo possível na sua espécie". A Torá não carece de nada. Encerra-se assim a defesa positiva da perfeição da Lei mosaica — o ponto culminante da apologética de Albo.
Os Dez Mandamentos vieram em duas tábuas porque resumem dois deveres distintos: cinco voltados a D'us (o Senhor) e cinco voltados ao próximo (o homem). Albo explica cada um pela parábola do rei que edifica uma cidade e liberta os seus servos; revela o sentido profundo de "Zachor e Shamor numa só palavra"; e mostra a honra aos pais como o fundamento da transmissão da fé.
Os Dez Mandamentos vieram em duas tábuas porque resumem dois deveres distintos: cinco voltados a D'us (o Senhor) e cinco voltados ao próximo (o homem). Albo explica cada um pela parábola do rei que edifica uma cidade e liberta os seus servos; revela o sentido profundo de "Zachor e Shamor numa só palavra"; e mostra a honra aos pais como o fundamento da transmissão da fé.
1 Porque era a Torá divina uma condução e um encaminhamento qualquer para a espécie do homem, influenciada do Senhor, bendito seja, eis que ela indica por força um vínculo e uma adesão entre o D'us, bendito seja, que é o que ordena, e o homem, que é o ordenado; e por causa disto é manifesto que, por este lado, na audição de algum mandamento da boca do Senhor se indica por força sobre a existência da profecia e da Torá do Céu e da existência do Senhor que ordena na religião e que supervisiona, e com muito mais razão na audição de "Eu sou" e "Não terás", que indicam essencialmente sobre os três princípios estes, como explicámos. Mas, com tudo isto, quis o Senhor, bendito seja, fazer ouvir a Israel da sua boca os dez Mandamentos, a fim de que indicassem sobre as coisas gerais com que o homem se obriga pelo lado deste vínculo que há entre o Senhor, bendito seja, e ele — e isto é seja pelo lado do senhor que ordena, seja pelo lado do servo que é ordenado. E por isso vieram em duas tábuas separadas, para indicar que estes dois assuntos estão separados um do outro; e vieram os cinco deles que são em correspondência ao Senhor, que é o senhor, numa tábua, e os cinco que são em correspondência ao homem, que é o servo, noutra tábua, para indicar que ambos são necessários na obtenção da perfeição humana.
הַתּוֹרָה תּוֹרָה עַל קֶשֶׁר בֵּין הָאֱלוֹהַּ הַמְצַוֶּה וְהָאָדָם הַמְצֻוֶּה. בָּאוּ בִּשְׁתֵּי לוּחוֹת: חֲמִשָּׁה כְּנֶגֶד הָאָדוֹן וַחֲמִשָּׁה כְּנֶגֶד הָעֶבֶד.
2 E eram estes dez Mandamentos gerais que abrangem as duas espécies de mandamentos deste modo: pois na tábua primeira estavam os cinco mandamentos primeiros, com os quais o homem se obriga ao seu fazer pelo lado da recepção da sua divindade, bendito seja, deste modo. Pois, como num rei que edificou uma cidade e foi e tomou servos e os tirou para a liberdade e os assentou dentro dela, e depois veio a ela para falar com eles a fim de que recebessem sobre si o jugo da sua realeza — pois o que é cabido que lhes dê a conhecer primeiro é que ele é o senhor que supervisionou sobre eles e os tirou para a liberdade da casa de servos, e isto é o mandamento "Eu sou o Senhor teu D'us" etc. (Êxodo 20:2), quer dizer: é cabido a vós que recebais sobre vós o jugo da minha realeza, pois eu sou o que vos tirei para a liberdade. E depois lhes ordena que não deem o domínio a outro que não ele, e isto é "não terás outros deuses diante de mim" (Êxodo 20:3). E assim lhes ordena que não se rebelem a fim de levantar sobre si um outro rei, e isto é "não farás para ti escultura nem nenhuma figura" (Êxodo 20:4). E depois disto é cabido que lhes ordene que se conduzam com ele num costume de honra e que não se conduzam com ele num costume de desprezo — como jurar pelo seu nome falsamente, e isto é "não tomarás o nome do Senhor teu D'us em vão" (Êxodo 20:7). E depois disto é cabido que lhes fixe uma memória ao dia em que edificou a cidade, e disso se recordarão de que têm um senhor que edificou a cidade, e se recordarão de como era a sua habitação dentro dela — de que eram servos e os tirou para a liberdade; e por causa disto lhes ordenou guardar o dia do Shabat, para indicar sobre a criação renovada do mundo e sobre a saída do Egito, da servidão para a liberdade.
מָשָׁל לְמֶלֶךְ שֶׁבָּנָה מְדִינָה: ״אָנֹכִי״ (קַבָּלַת מַלְכוּתוֹ), ״לֹא יִהְיֶה לְךָ״ (לֹא לְזוּלָתוֹ), ״לֹא תַעֲשֶׂה פֶסֶל״ (לֹא לִמְרֹד), ״לֹא תִשָּׂא״ (כָּבוֹד), ״שַׁבָּת״ (זֵכֶר לִבְנְיַן הַמְּדִינָה).
3 E isto é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "'Recorda' Zachor e 'guarda' Shamor numa só palavra foram ditos" — quer dizer que o Shabat não veio a indicar sobre a existência do agente que renova o mundo apenas, mencionado no mandamento "Recorda" — pois também o filósofo admite a existência do agente, e não há quem negue isto exceto a seita de Epicuro —, mas o fundamento do Shabat veio a indicar sobre a existência de um agente por vontade poel beratzon sempre, e também depois da criação do mundo, como se mencionou isto no mandamento "Guarda", no qual se mencionou a saída do Egito — de onde se reconheceu por dentro dela que o Senhor, bendito seja, faz na existência o seu desejo e a sua vontade, e não apenas no tempo da criação do mundo, mas também, depois de que o mundo se renovou, ele supervisiona e muda a natureza para fazer o seu desejo e a sua vontade em todo tempo, como fez na saída do Egito — a fim de tirar do coração dos que dizem "não há nada de novo debaixo do sol" (Eclesiastes 1:9). E por isso disseram que "Recorda", que indica sobre a existência do agente, e "Guarda", que indica sobre a existência de um agente por vontade sempre, por via de providência, ambos numa só palavra foram ditos — quer dizer, no mandamento da mitzvá do Shabat; pois a intenção nele é a de indicar sobre a existência de um agente por vontade sempre e que supervisiona, não sobre a existência do agente apenas.
״זָכוֹר וְשָׁמוֹר בְּדִבּוּר אֶחָד נֶאֱמְרוּ״ — לֹא עַל מְצִיאוּת הַפּוֹעֵל בִּלְבַד (שֶׁגַּם הַפִילוֹסוֹף יוֹדֶה), אֶלָּא עַל פּוֹעֵל בְּרָצוֹן תָּמִיד וּמַשְׁגִּיחַ, כְּמוֹ בִּיצִיאַת מִצְרַיִם.
4 E entende isto, pois é muito maravilhoso na explicação deste dito, que não vi para nenhum dos comentadores nele uma explicação suficiente. Pois há quem diz que, porque a expressão "Zachor" indica sobre um mandamento positivo e "Shamor" sobre um mandamento negativo — como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "a expressão 'guarda-te' hishamer, 'para que não' pen e 'não' al não é senão um mandamento negativo" —, disseram que o mandamento positivo e o negativo, ambos são necessários no mandamento do Shabat: o mandamento positivo para indicar sobre a criação do mundo, e o negativo, que é o repouso do trabalho, em memória de que o Senhor, bendito seja, os tirou da servidão para a liberdade — pois, porque o servo é impossível para ele repousar do seu trabalho, eis que no repouso do trabalho há uma memória à saída do Egito. E, conforme as palavras deste comentador, não era cabido que mencionasse a Escritura "não farás nenhum trabalho" no mandamento "Zachor"; e, depois de se ter mencionado nele "não farás nenhum trabalho", que necessidade há de que digam "Zachor e Shamor numa só palavra foram ditos"?
5 E há quem escreveu que no repouso há uma memória à saída do Egito, pois o servo não pode repousar; e, mesmo se o repouso fosse de dez em dez dias, haveria nele uma memória à saída do Egito; mas, ao ser o repouso de sete em sete dias, há nele uma memória à criação do mundo, pois "em seis dias fez o Senhor os céus e a terra e no dia sétimo descansou e repousou" (Êxodo 31:17), e sobre isto disseram "Zachor e Shamor numa só palavra foram ditos". E isto não se assenta bem: por que não seria tudo uma memória à criação do mundo? E, se disseres que a Escritura veio a explicar que há para o mandamento do Shabat razões diferentes, não há necessidade de que digam "numa só palavra", pois vários mandamentos têm razões diferentes e não disseram sobre eles que foram ditos "numa só palavra".
6 E, contudo, conforme o que escrevemos, é necessário que digam que os dois mandamentos foram ditos numa só palavra: o um para indicar sobre a existência do agente da existência, e o segundo sobre o ser ele um agente por vontade e que supervisiona sempre; e não há um deles suficiente sem o outro; e por isso era o dia do Shabat a indicar sobre estas duas intenções, porque elas são necessárias pelo lado do senhor.
הַפֵּרוּשִׁים הָאֲחֵרִים אֵינָם מַסְפִּיקִים. לְפִי דְּבָרֵינוּ: זָכוֹר עַל מְצִיאוּת הַפּוֹעֵל, וְשָׁמוֹר עַל הֱיוֹתוֹ פּוֹעֵל בְּרָצוֹן וּמַשְׁגִּיחַ — וְאֵין אֶחָד מַסְפִּיק זוּלָתִי הָאַחֵר.
7 E conforme a opinião dos nossos mestres, de abençoada memória, ainda há no mandamento do Shabat uma outra intenção, que é o que disseram no tratado Shabat "todos admitem que no Shabat foi dada a Torá a Israel"; e, conforme isto, incluem-se no mandamento do Shabat os três princípios da religião que abrangem tudo — a existência do agente, e a providência, e a Torá do Céu —, e será o Shabat também uma memória ao dia em que se revelou sobre eles o Rei na cidade e em que receberam sobre si o jugo da sua realeza. Mas, porque esta intenção não é reconhecível senão uma vez por ano na leitura, não se mencionou na Torá explicitamente. Eis que o mandamento do Shabat é obrigatório e necessário pelo lado do senhor nestas três considerações que mencionámos.
״הַכֹּל מוֹדִים שֶׁבְּשַׁבָּת נִתְּנָה תּוֹרָה לְיִשְׂרָאֵל״ — נִכְלָלִים בַּשַּׁבָּת שְׁלֹשֶׁת הָעִקָּרִים: מְצִיאוּת הַפּוֹעֵל, הַהַשְׁגָּחָה, וְתוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם.
8 E depois disso disse "honra teu pai e tua mãe" (Êxodo 20:12), porque é do sabido que o rei que edificou a cidade não se revela em cada dia aos homens daquela cidade; e, se bem que os homens daquela geração que viram a vinda do rei à cidade se recordem da recepção do jugo da sua realeza e de que o rei edificou a cidade e de que os tirou da servidão para a liberdade — eis que os que vêm depois deles, que não sentiram a servidão de modo algum e que não viram a entrada do rei na cidade, viriam a rebelar-se e a pensar que a cidade fora sempre deles e que não têm governante sobre eles; e não há caminho para sair desta loucura senão ao estarem eles submissos aos pais e ao receberem a disciplina deles, pois eles os pais darão a conhecer aos seus filhos como eram servos, e que um senhor os tirou para a liberdade e que ele foi quem edificou a cidade e os assentou dentro dela. E por isso era da necessidade, a fim de que não se esquecesse o domínio do rei sobre a cidade e o bem que fez com eles ao tirá-los da servidão para a liberdade, que se submetessem os filhos em cada geração e geração aos pais e que recebessem as palavras da sua disciplina sobre si; e por causa disto veio o mandamento quinto, que é "honra teu pai e tua mãe", para advertir sobre a tradição kabalá — quer dizer, que se atraia o homem na recepção da tradição dos pais —, que é um princípio geral para todas as religiões, já que não se concebe a sua existência se não for o homem obediente à tradição dos pais e dos sábios da religião.
9 E, contudo, não o contámos nos princípios nem nas raízes, por ser um mandamento particular — seja dos pais, "honra teu pai e tua mãe", seja dos sábios, "não te desviarás da coisa que te disserem, para a direita ou para a esquerda" (Deuteronômio 17:11). E completaram-se com este mandamento todas as coisas gerais necessárias ao homem na consideração do que há entre ele e o Senhor, bendito seja, que são as coisas que se obrigam sobre o servo a fazer na consideração do senhor.
״כַּבֵּד אֶת אָבִיךָ וְאֶת אִמֶּךָ״ — לְהַזְהִיר עַל הַקַּבָּלָה, שֶׁלֹּא תִּשְׁתַּכַּח מֶמְשֶׁלֶת הַמֶּלֶךְ; עִקָּר כּוֹלֵל לְכָל הַדָּתוֹת. הַבָּנִים נִכְנָעִים לָאָבוֹת וּמְקַבְּלִים מוּסָרָם.
10 E depois disso voltou a Escritura a advertir sobre as coisas gerais que são necessárias aos homens na consideração da sua vida e da sua subsistência na cidade, a fim de que se complete o agrupamento político. E o mandamento primeiro deles é que é preciso que guarde o corpo do seu companheiro, e isto é "não matarás" (Êxodo 20:13); e que guarde o seu dinheiro, e isto é "não roubarás", conforme o sentido simples da escritura; e que guarde a coisa que é como um intermediário entre o seu corpo e o seu bem, e isto é a sua mulher — pois ela, por um lado, é como que é o seu corpo, e por um lado é como que é o seu bem —, e isto é o mandamento "não adulterarás". E depois disso voltou a advertir e a dizer que não basta ao homem que se acautele de prejudicar o seu companheiro em ato, seja no seu corpo, ou no seu dinheiro, ou na sua mulher, pois também é preciso que se acautele de não prejudicá-lo nem mesmo com a palavra, e isto é "não responderás contra o teu próximo como testemunha falsa" (Êxodo 20:13); e tampouco com o pensamento, e isto é "não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu campo, e o seu servo, e a sua serva, e o seu boi, e o seu jumento, e tudo o que é do teu próximo" (Êxodo 20:14; Deuteronômio 5:18). E com isto se completaram as coisas gerais necessárias ao homem na consideração da sua vida, no aspecto em que lhe é necessário associar-se com outro, como escrevemos no primeiro Maamar.
הַלּוּחַ הַשֵּׁנִי: ״לֹא תִרְצָח״ (גּוּף), ״לֹא תִגְנֹב״ (מָמוֹן), ״לֹא תִנְאָף״ (אִשְׁתּוֹ), ״לֹא תַעֲנֶה״ (בְּדִבּוּר), ״לֹא תַחְמֹד״ (בְּמַחֲשָׁבָה).
11 E por isso eram estes dez Mandamentos em duas tábuas, para indicar que estes dois assuntos, com o facto de estarem separados um do outro, eis que são necessários para a perfeição humana: o um na consideração da perfeição do homem pelo lado de si mesmo, e o segundo na consideração de ser ele uma parte da cidade. E por isso eram os cinco primeiros numa tábua, para indicar que eles são também um conjunto único, próprio em si mesmo. E nestes dois conjuntos estão incluídos todos os mandamentos, quando se examina neles — e é conforme o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no Torat Cohanim: "'e amarás o teu próximo como a ti mesmo' (Levítico 19:18) — Rabi Akiva diz: este é um grande princípio na Torá; Ben Azai diz: 'este é o livro das gerações do homem' (Gênesis 5:1) é um princípio maior do que este"; e é conforme o caminho que explicámos no capítulo 24 do primeiro Maamar.
שְׁתֵּי לוּחוֹת: שְׁלֵמוּת הָאָדָם מִצַּד עַצְמוֹ, וּבִהְיוֹתוֹ חֵלֶק מְדִינָה. ״וְאָהַבְתָּ לְרֵעֲךָ כָּמוֹךָ — זֶה כְּלָל גָּדוֹל בַּתּוֹרָה״.
Tendo estabelecido (cap. 24) que a Torá tem três partes correspondentes a três atributos divinos, Albo agora analisa a estrutura interna do Decálogo, o resumo que Israel ouviu da própria boca de D'us. A chave é a divisão em duas tábuas: cinco mandamentos "do lado do Senhor" (deveres para com D'us) e cinco "do lado do servo" (deveres para com o próximo) — duas dimensões distintas mas ambas necessárias à perfeição humana: o homem como indivíduo diante de D'us e o homem como membro da sociedade.
Albo unifica a primeira tábua sob uma única alegoria política — o rei que edifica uma cidade, liberta servos e os instala nela, depois vem firmar a sua realeza. Cada mandamento é um passo lógico: "Eu sou o Senhor" (reconhecer o rei-libertador), "não terás outros deuses" (não dar o domínio a outro), "não farás escultura" (não se rebelar entronizando outro rei), "não tomarás o Nome em vão" (tratá-lo com honra, não com desprezo), "Shabat" (memorial do dia em que o rei fundou a cidade — a criação — e libertou os servos — o Êxodo). A sequência transforma o Decálogo num drama coerente de soberania e lealdade.
O centro intelectual do capítulo é a interpretação inovadora de "Zachor e Shamor numa só palavra foram ditos". Albo descarta explicitamente as leituras dos outros comentadores (positivo/negativo; repouso a cada dez dias vs. a cada sete) como insuficientes, e propõe a sua: Zachor ("recorda", ligado à criação) prova a existência do agente — mas isso "até o filósofo admite" (só Epicuro nega). O essencial é Shamor ("guarda", ligado ao Êxodo): prova que D'us é agente por vontade, que age sempre, mesmo depois da criação, suspendendo a natureza (como no Êxodo) — contra os que dizem "não há nada de novo sob o sol". O Shabat ensina, "numa só palavra", não apenas que D'us criou, mas que D'us providencia e intervém — os dois pilares inseparáveis. Albo ainda acrescenta a terceira camada (os Sábios: "no Shabat foi dada a Torá"): assim o Shabat condensa os três princípios — existência, providência, Torá do Céu.
Brilhante é a colocação do quinto mandamento — "honra teu pai e tua mãe" — na primeira tábua (entre os deveres para com D'us), e não como mera ética familiar. A razão, de novo pela parábola: o rei não se revela a cada geração; quem viu o Êxodo lembra-se, mas os netos, que "nunca sentiram a servidão", tenderiam a "pensar que a cidade sempre foi deles, sem governante". O único antídoto é a submissão aos pais, que transmitem a memória da libertação. Logo "honra os pais" é, no fundo, o mandamento da tradição (kabalá) — "princípio geral de todas as religiões, pois nenhuma existe sem obediência à tradição dos pais e dos sábios". A fé sobrevive pela cadeia de transmissão; sem ela, a revelação se perderia em duas gerações.
A segunda tábua protege o próximo em camadas concêntricas: o corpo ("não matarás"), o bem ("não roubarás"), o intermediário entre corpo e bem — a esposa ("não adulterarás") —, depois a proteção contra dano pela palavra ("não testemunharás falso") e até pelo pensamento ("não cobiçarás"). O capítulo fecha unindo as duas tábuas aos dois grandes princípios da Torá segundo o Torat Cohanim: o "amarás o próximo como a ti mesmo" de Rabi Akiva (a ética social, segunda tábua) e o "este é o livro das gerações do homem" de Ben Azai (a dignidade do homem criado à imagem de D'us, que funda a primeira). Assim Albo demonstra que todos os mandamentos da Torá se reduzem a esses dois eixos — o vertical (homem-D'us) e o horizontal (homem-próximo) —, gravados nas duas tábuas como o resumo perfeito de toda a Lei.
Um grande princípio: tudo segue a intenção do coração — "o Misericordioso quer o coração". Por isso uma só mitzvá com intenção pode valer mais que muitas sem ela; e mesmo abster-se do mal, por temor de D'us, dá perfeição à alma como o cumprir um mandamento. Daí a razão profunda do número 613: os 248 positivos correspondem aos membros do corpo, e os 365 negativos aos dias do ano solar.
Um grande princípio: tudo segue a intenção do coração — "o Misericordioso quer o coração". Por isso uma só mitzvá com intenção pode valer mais que muitas sem ela; e mesmo abster-se do mal, por temor de D'us, dá perfeição à alma como o cumprir um mandamento. Daí a razão profunda do número 613: os 248 positivos correspondem aos membros do corpo, e os 365 negativos aos dias do ano solar.
1 Um grande princípio terás na tua mão na feitura dos mandamentos: que tudo segue a intenção do coração kavanat halev, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "o Misericordioso quer o coração" Rachamaná liba ba'i. E, conforme isto, há quem faz muitos mandamentos e não lhe sobem em mérito nada — ou não na medida em que bastem para a aquisição da perfeição humana, nem para uma parte dela que seja percebida; e há quem faz um só mandamento que basta mais do que muitos mandamentos, conforme a intenção do que o faz a fim de adquirir uma parte grande da perfeição. E, depois que o assunto segue a intenção, explica-se disto também que todos os mandamentos que há na Torá — sejam mandamentos positivos mitzvot asé ou mandamentos negativos mitzvot lo ta'asé — são um caminho para a aquisição da perfeição humana, ou de algum grau dela, ao estarem eles sendo feitos na intenção cabida; pois não é a feitura das boas ações apenas que traz o homem à vida do mundo vindouro, mas também o abster-se de fazer as ações más por temor do Senhor dá perfeição à alma.
הַכֹּל הוֹלֵךְ אַחַר כַּוָּנַת הַלֵּב — ״רַחֲמָנָא לִבָּא בָּעֵי״. יֵשׁ עוֹשֶׂה מִצְוֹת רַבּוֹת וְאֵינָן עוֹלוֹת, וְיֵשׁ מִצְוָה אַחַת שֶׁתַּסְפִּיק יוֹתֵר. גַּם הַהִמָּנַע מִן הָרַע נוֹתֵן שְׁלֵמוּת.
2 E isto é: que, conforme o que veio explícito na Torá "e andarás nos seus caminhos" (Deuteronômio 28:9), se vê que o andar nos caminhos do Senhor é o fundamento do serviço com que o homem serve ao Senhor; e acha-se que o salmista explica que aquele que se abstém de fazer o mal por temor do Senhor se chama "o que anda nos caminhos do Senhor", disse "felizes os íntegros de caminho, os que andam na Torá do Senhor" (Salmos 119:1) — quer dizer: felizes os da multidão dos crentes, chamados "íntegros de caminho", que não se fazem sábios acima do Senhor, mas andam com integridade na Torá do Senhor, bendito seja. E explicou que os "que andam na Torá do Senhor" são os que guardam os seus mandamentos com a intenção do coração, e por isso disse "felizes os que guardam os seus testemunhos, os que de todo o coração o buscam" (Salmos 119:2). E, a fim de que não se imagine que não se chama "o que anda nos caminhos do Senhor" nem "o que guarda os seus testemunhos" senão o que guarda um mandamento positivo — já que os mandamentos negativos não se concebe que deem perfeição à alma —, por isso disse depois disso "também não fazem iniquidade; nos seus caminhos andam" (Salmos 119:3), quer dizer: também o que se abstém de fazer iniquidade com a intenção do coração se chama "o que anda nos caminhos do Senhor", e isto é o que disse "nos seus caminhos andam". E assim disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "aquele que se senta e não comete transgressão, dão-lhe recompensa como a quem faz um mandamento".
״וְהָלַכְתָּ בִּדְרָכָיו״. ״אַשְׁרֵי תְמִימֵי דָרֶךְ... אַף לֹא פָעֲלוּ עַוְלָה בִּדְרָכָיו הָלָכוּ״ — אַף הַנִּמְנָע מֵעַוְלָה נִקְרָא הוֹלֵךְ בְּדַרְכֵי הַשֵּׁם. ״יָשַׁב וְלֹא עָבַר עֲבֵרָה — נוֹתְנִין לוֹ שָׂכָר כְּעוֹשֶׂה מִצְוָה״.
3 E, ainda que isto seja coisa de admirar — como é possível que o homem adquira alguma perfeição ao estar ele sentado e ocioso e a não fazer nenhuma ação? —, e eis que explicitamente disseram os nossos mestres, de abençoada memória, sobre "qual é o homem que deseja a vida" etc., "guarda a tua língua do mal" etc., "afasta-te do mal e faze o bem" (Salmos 34:13-15): "talvez digas: irei e me entregarei ao sono — por isso diz a Escritura 'e faze o bem'" — do que se vê que é preciso fazer a boa ação em ato a fim de que se mereça a vida eterna e o bem oculto para os que temem o Senhor, sobre o qual se disse "quão abundante é a tua bondade que ocultaste para os que te temem" (Salmos 31:20); e sobre aquele bem disse "qual é o homem que deseja a vida, que ama os dias para ver o bem" (Salmos 34:13).
אֵיךְ יִקְנֶה הַיּוֹשֵׁב וּבָטֵל שׁוּם שְׁלֵמוּת? ״שֶׁמָּא תֹּאמַר אֵלֵךְ וְאֶגְרֶה בְּשֵׁנָה — תַּלְמוּד לוֹמַר וַעֲשֵׂה טוֹב״.
4 E a resposta nisto é que o homem que está sentado e ocioso, sem dúvida é impossível que adquira com isto nenhuma perfeição; mas, se vier à sua mão uma coisa de transgressão e ele se abstiver e não a fizer por temor do Senhor, eis que ele merece com isto a vida do mundo vindouro, como se fizesse um mandamento. E por este lado dão todos os mandamentos negativos que há na Torá perfeição à alma: pois quem se senta e não comeu carne de porco porque tinha o que comer ou porque a sua alma a enjoava, não é cabido de receber recompensa por isso; mas, se ele cobiçava comer carne de porco, ou se não tinha o que comer e lhe apareceu diante a carne de porco e ele se absteve de comê-la por temor do Senhor e para cumprir o seu mandamento, que ordenou a não comê-la, ainda que estivesse faminto e a cobiçasse — eis que este, certamente, é cabido de receber recompensa. E isto é o que disse a Escritura sobre o sangue, "não o comerás, para que seja bom para ti e para os teus filhos depois de ti, já que farás o reto aos olhos do Senhor" (Deuteronômio 12:25). E isto é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "não diga o homem 'não desejo i efshi comer carne de porco, não desejo vestir sha'atnez', mas diga 'desejo efshi, e que farei? — já que meu Pai que está nos céus decretou sobre mim'". Eis que revelaram que o caminho pelo qual o homem merece por não transgredir um mandamento negativo é que se lhe apresente a transgressão e que se abstenha de fazê-la pelo amor do Senhor e pelo seu temor, e não por nenhuma outra causa.
אִם בָּא לְיָדוֹ דְּבַר עֲבֵרָה וְנִמְנַע מִיִּרְאַת הַשֵּׁם — זוֹכֶה כְּעוֹשֶׂה מִצְוָה. ״אֶפְשִׁי, וּמָה אֶעֱשֶׂה וְאָבִי שֶׁבַּשָּׁמַיִם גָּזַר עָלַי״.
5 E este caminho, ainda que pareça fácil de alcançar, não é assim, mas é muito difícil; pois eis que o rei Davi, que disse a respeito de si mesmo "guarda a minha alma, pois sou piedoso chassid" (Salmos 86:2), quando se lhe apresentou o assunto de Bat-Sheva — no qual não havia para ele outro impedimento senão o temor do Senhor apenas —, não havia nele a capacidade de subjugar a sua inclinação pelo amor do Senhor. Pois o abster-se de fazer a transgressão em razão do temor do Senhor e do seu amor, eis que ele é como quem fez um mandamento positivo conforme a regra, na intenção cabida. E deste modo dão os mandamentos negativos perfeição à alma ao estarem eles não sendo feitos, como dão os mandamentos positivos perfeição à alma na sua feitura.
הַדֶּרֶךְ קָשֶׁה מְאֹד: דָּוִד, ״שָׁמְרָה נַפְשִׁי כִּי חָסִיד אָנִי״, בְּעִנְיַן בַּת שֶׁבַע לֹא יָכֹל לִכְבֹּשׁ יִצְרוֹ. הַהִמָּנַע לְאַהֲבַת הַשֵּׁם — כְּעוֹשֶׂה מִצְוַת עֲשֵׂה.
6 E esta é uma coisa que explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Makot. Disseram: "Expôs Rabi Simlai: seiscentos e treze mandamentos taryag foram ditos a Moisés no Sinai — trezentos e sessenta e cinco em correspondência aos dias do ano solar chamá, e duzentos e quarenta e oito em correspondência aos membros do homem" etc. Eis que explicaram com isto que a Torá visou com este número mostrar como se concebe que seja a aquisição da perfeição nos mandamentos negativos como nos mandamentos positivos, com o facto de serem eles opostos — pois o positivo e o negativo, sem dúvida, são opostos.
7 E isto é: que, ao ser o número dos mandamentos positivos duzentos e quarenta e oito em correspondência aos membros do homem, é uma indicação de que, assim como os membros — por serem eles coisas existentes em ato — alcança-se neles a perfeição visada neles para o homem no aspecto em que ele é vivente, assim os mandamentos que são mandamentos positivos, alcança-se deles a perfeição visada neles para o homem no aspecto em que ele é homem ao estarem eles sendo feitos em ato, não apenas pelo lado da crença e do saber. E os mandamentos negativos, ao serem trezentos e sessenta e cinco como o número dos dias do ano solar, há nisto uma indicação de que estes mandamentos, mesmo se são coisas não-existentes em ato, dão perfeição à alma do homem. Pois, assim como o tempo é uma coisa não-existente em ato — já que o passado não se acha não existe, e o futuro ainda não saiu ao ato, e o presente não é senão o "agora" ata que liga entre o passado e o futuro, e, contudo, o próprio "agora" não é tempo, na verdade, a ponto de que receba divisão, como é do caminho do tempo que receba divisão por ser ele do gênero da quantidade contínua, mas a relação do "agora" para o tempo é a relação do ponto para a linha; e, se é assim, não se acha o tempo em ato, e, ainda assim, ele dá a perfeição da existência a todas as coisas existentes no tempo — assim os mandamentos negativos, mesmo se são coisas não-existentes em ato, dão perfeição à alma humana pelo lado de serem eles coisas não-existentes; e por isso vieram no número trezentos e sessenta e cinco, para indicar que, assim como o tempo é não-existente, assim estes mandamentos é cabido que sejam não-existentes em ato; e ao estarem eles não-existentes em ato dão a perfeição anímica ao estar o abster-se de fazê-los na intenção cabida — como o tempo, que, ao estar ele não-existente em ato, dá a perfeição às coisas existentes.
״תַּרְיַ״ג מִצְוֹת... שס״ה כְּנֶגֶד יְמוֹת הַחַמָּה וְרמ״ח כְּנֶגֶד אֵבָרָיו שֶׁל אָדָם״. עֲשֵׂה כְּאֵבָרִים (נִמְצָאִים בְּפֹעַל); לֹא תַעֲשֶׂה כַּזְּמַן (בִּלְתִּי נִמְצָא, וְנוֹתֵן שְׁלֵמוּת).
Este capítulo coroa a doutrina prática do Maamar III com o princípio que perpassa toda a obra de Albo: "o Misericordioso quer o coração" (Rachamaná liba ba'i). O valor de uma mitzvá não se mede pela quantidade nem pelo gesto externo, mas pela kavaná — a intenção. Daí a afirmação radical: alguém pode fazer "muitos mandamentos e não lhe somarem nada", enquanto outro faz "um só que vale mais que muitos". É a mesma tese dos caps. 5-6 (a perfeição vem da ação informada pela intenção de servir a D'us), agora aplicada para reavaliar todo o sistema dos preceitos.
A consequência mais original é a valorização dos mandamentos negativos. Abster-se do mal por temor de D'us não é mera ausência — é serviço positivo. Albo lê Salmos 119 com precisão: "felizes os íntegros de caminho… nos seus caminhos andam" — e o "também não fazem iniquidade" mostra que até quem se abstém da iniquidade "anda nos caminhos do Senhor". Confirma com o dito rabínico: "quem se senta e não peca recebe recompensa como quem faz uma mitzvá".
Mas Albo coloca uma condição crucial que afasta o mal-entendido. A objeção é forte: como o ocioso ganha mérito por nada fazer? (Os Sábios mesmos advertem: "não digas 'irei dormir' — diz a Escritura 'faze o bem'".) A resposta: a abstenção só tem mérito quando há tentação real vencida. Quem não come porco "porque tem o que comer ou porque o enjoa" não merece nada; quem cobiça o porco, ou está faminto sem outra opção, e se abstém por temor de D'us — esse merece. Daí a fórmula rabínica decisiva, que Albo destaca: não se deve dizer "não desejo comer porco", mas "desejo, e que farei? meu Pai nos céus o decretou". A santidade está em querer e renunciar por D'us, não em não sentir o desejo. E isso é difícil: o próprio Davi, que se chamou "chassid", não venceu a tentação de Bat-Sheva — prova de que resistir por puro temor de D'us é das coisas mais árduas.
O fecho é uma das passagens mais belas de Albo: a leitura filosófica do número 613 (taryag). Por que 248 positivos e 365 negativos? Os 248 positivos correspondem aos membros do corpo — coisas existentes em ato: como os membros realizam a perfeição do homem-animal pela sua presença atuante, os mandamentos positivos aperfeiçoam o homem-homem por serem feitos em ato, "não apenas pela crença e pelo saber" (de novo contra o intelectualismo). Os 365 negativos correspondem aos dias do ano solar — e aqui Albo eleva-se a uma metafísica do tempo: o tempo é, a rigor, não-existente em ato (o passado já não é, o futuro ainda não é, e o "agora" é só um ponto sem extensão, "como o ponto está para a linha"); e, no entanto, é o tempo que confere existência a tudo o que existe no tempo. Analogamente, os mandamentos negativos são "coisas não-existentes em ato" (consistem em não fazer), e justamente por isso, como o tempo, dão perfeição à alma — quando a abstenção é feita "na intenção cabida". A não-ação, carregada de kavaná, é tão geradora de perfeição quanto a ação. Assim Albo demonstra que opostos lógicos (asé e lo ta'asé) convergem no mesmo fim — a perfeição da alma —, fechando a doutrina dos mandamentos com uma síntese onde até a estrutura numérica da Torá revela a sua sabedoria.
Como pode a parte civil da Torá — os mishpatim, leis sobre danos e roubo — dar perfeição à alma? Albo resolve: nem a ação sozinha nem a intenção sozinha bastam; só a sua união. Por isso o estudo é "grande" — leva à ação, que é o fim. E o mesmo ato de justiça, feito por amor de D'us, gera uma perfeição que a lei meramente humana não dá: "a mitzvá é candeia e a Torá é luz".
Como pode a parte civil da Torá — os mishpatim, leis sobre danos e roubo — dar perfeição à alma? Albo resolve: nem a ação sozinha nem a intenção sozinha bastam; só a sua união. Por isso o estudo é "grande" — leva à ação, que é o fim. E o mesmo ato de justiça, feito por amor de D'us, gera uma perfeição que a lei meramente humana não dá: "a mitzvá é candeia e a Torá é luz".
1 Do que explicámos no capítulo passado decorre que a perfeição humana não é possível que se alcance senão nos mandamentos positivos e nos mandamentos negativos. E isto é: que, assim como nenhuma perfeição humana é possível que se alcance senão por meio dos membros existentes em ato e por meio do tempo não-existente em ato, assim a perfeição anímica se alcança nos mandamentos positivos e nos mandamentos negativos. E por isso eram as três partes em que a Torá se divide — que são opiniões de'ot e estatutos chukim e juízos mishpatim, como explicámos no capítulo 24 deste Maamar — cada uma delas abrangendo um mandamento positivo e um mandamento negativo, a fim de que houvesse em cada parte delas um caminho para a aquisição da perfeição, ou de uma parte da perfeição que se adquire ao homem pelo lado dos mandamentos positivos e dos mandamentos negativos.
2 E isto é: que nas opiniões há um mandamento positivo, como a crença na existência do Senhor e na sua unidade e no facto de não ser ele corpo, e um mandamento negativo, como não levantar no pensamento que há um deus fora do Senhor e não buscar após a idolatria e além disto. E nos estatutos, como a vestidura de tsitsit e as proibições das comidas. E nos juízos, "com justiça julgarás o teu próximo" (Levítico 19:15), "no seu dia darás o seu salário" (Deuteronômio 24:15), "guarnecê-lo-ás com presentes" (Deuteronômio 15:14), e "não oprimireis cada um o seu próximo" (Levítico 25:14), "não roubareis e não negareis e não mentireis cada um ao seu próximo" (Levítico 19:11), e além destes, muitos.
הַשְּׁלֵמוּת בְּעֲשֵׂה וּבְלֹא תַעֲשֶׂה. שְׁלֹשֶׁת הַחֲלָקִים (דֵּעוֹת, חֻקִּים, מִשְׁפָּטִים) — כָּל אֶחָד מַקִּיף עַל עֲשֵׂה וְלֹא תַעֲשֶׂה.
3 E a coisa é manifesta de que a parte cognitiva é cabido que adquira a perfeição, sejam os mandamentos positivos que há nela, sejam os mandamentos negativos; e assim a parte dos estatutos, que é a que abrange as coisas agradáveis junto ao Senhor, bendito seja, e as não-agradáveis, é cabido que se adquira nela a perfeição do modo que escrevemos acima. Mas o que precisa de explicação é como será a perfeição anímica adquirida na parte terceira, que é a que abrange os juízos; pois não se concebe que dê perfeição à alma nenhuma parte das suas partes — nem os mandamentos positivos que há nela nem os mandamentos negativos. Pois a parte dos mandamentos positivos que há nela, como julgar nos danos do boi e do poço e do fogo, ou a parte dos mandamentos negativos, como "não roubareis" e "não explorarás o teu próximo" e "não furtarás" e além deles — com o facto de serem eles juízos retos para estabelecer o assentamento político —, que merecerá o nascido de mulher neles tal que adquira a sua alma alguma perfeição humana por meio deles? E, se é porque eles são entrada e caminho para a correção das qualidades — e que neste encaminhamento se adquire a perfeição humana apenas, não por outra razão —, será então o esforço da maioria dos sábios de Israel e a sua ocupação no Talmud e nos juízos das questões talmúdicas uma coisa não-proveitosa para a aquisição da perfeição, e será o seu cansaço em vão, longe disso! Além de que não é cabido que uma parte tão grande como esta da Torá não dê nenhuma perfeição a não ser pelo lado de ser ela uma correção das qualidades e não por outra razão.
אֵיךְ יִתֵּן שְׁלֵמוּת בַּנֶּפֶשׁ חֵלֶק הַמִּשְׁפָּטִים (נִזְקֵי שׁוֹר וּבוֹר, לֹא תִגְנֹב)? וְאִם רַק תִּקּוּן הַמִּדּוֹת — יִהְיֶה עֵסֶק הַחֲכָמִים בַּתַּלְמוּד לְרִיק.
4 E a solução desta dúvida é deste modo: que na feitura de cada mandamento e mandamento há duas considerações — a primeira, pelo lado do fazer-se a ação do mandamento e o seu chegar ao ato perfeito, e a segunda, pelo lado da intenção do que o faz. E a perfeição que decorre do mandamento não é pelo lado da ação, pois eis que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Nazir, "é grande uma transgressão por seu nome lishmá mais do que um mandamento que não é por seu nome"; e disseram ali "uma parábola de dois homens que assaram os seus cordeiros pascais: um comeu-o para o nome da mitzvá do Pessach e um comeu-o para o nome de uma comida grosseira; este, que o comeu para o nome do Pessach, sobre ele diz a Escritura 'e os justos andarão por eles'; e este, que o comeu para o nome de comida grosseira, sobre ele diz a Escritura 'e os transgressores tropeçarão neles' (Oséias 14:10)". Eis que explicaram explicitamente que o mandamento sem intenção não sobe em mérito como nenhum mandamento.
5 E assim o assunto da intenção sozinha, sem ação, não aproveita de modo algum; pois, se isto aproveitasse, seria cabido que subisse o saber do mandamento e o seu estudo com intenção no lugar da sua feitura — e não é assim, pois a leitura das passagens que estão nos tefilin não sobe em mérito no lugar do seu pôr físico. E ainda, pois explicitamente disseram em Kidushin, quando divergiram se o estudo talmud é grande ou a ação ma'asé é grande, contaram-se e concluíram que o estudo é grande, e explicaram a razão porque o estudo traz à ação; e é manifesto que, depois de que o estudo é grande pelo lado de que ele traz à ação, então a ação, que é o fim, é o fundamental.
״גְּדוֹלָה עֲבֵרָה לִשְׁמָהּ מִמִּצְוָה שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ״ — מִצְוָה בְּלֹא כַוָּנָה אֵינָהּ עוֹלָה. וְכַוָּנָה לְבַדָּהּ אֵינָהּ מוֹעֶלֶת — ״תַּלְמוּד גָּדוֹל שֶׁמֵּבִיא לִידֵי מַעֲשֶׂה״.
6 Pois em quaisquer dois ofícios em que um precede o outro com uma precedência natural — como o ofício do freio precede o ofício da cavalaria parashut, ou o ofício da tecelagem precede o ofício da costura —, o ofício que precede é inferior em grau ao outro, pois o que precede é como um servidor do outro; assim como o ofício de talhar as pedras da montanha é inferior em grau ao ofício da construção, depois de que ele a serve, ainda que seja impossível ao ofício da construção que se complete sem o talhar das pedras. E assim a ação, ainda que seja impossível que se alcance senão com o estudo — pois "não há um ignorante piedoso am ha'arets chassid" —, de todo modo, depois de que o estudo não é senão a fim de que traga à ação, é manifesto que a ação é o fundamental.
הַמְּלָאכָה הַקּוֹדֶמֶת מְשָׁרֶתֶת לָאַחֲרוֹנָה (כַּחֲצִיבַת אֲבָנִים לַבְּנָאוּת). הַתַּלְמוּד מֵבִיא לַמַּעֲשֶׂה — וְהַמַּעֲשֶׂה הוּא הָעִקָּר; ״לֹא עַם הָאָרֶץ חָסִיד״.
7 E, depois que explicámos que não é a ação sozinha o fundamental nem a intenção sozinha, é cabido que seja a união das duas o fundamental na feitura dos mandamentos — como é o assunto na parte cognitiva com a parte prática, como explicámos neste Maamar; e assim é o assunto na feitura dos mandamentos, pois a ação à qual se junta a intenção é a ação perfeita que dá perfeição à alma, já que a intenção dá perfeição à ação, como explicámos no capítulo quinto deste Maamar. E, conforme isto, digo que a parte torática que abrange os juízos é cabido que dê perfeição à alma mais do que dá a parte judicial posta nas convenções nimusim.
8 E isto é: que, quando faz a retidão ou o juízo o homem convencional com qualquer intenção que seja, decorre dele o fim visado, que é a correção do agrupamento político, e esta é a sua perfeição apenas, e não há nele um outro fim adicional. Mas os juízos toráticos — com o facto de haver na sua feitura uma perfeição pela qual por meio deles se completa o assentamento e o agrupamento político — eis que, ao se juntar à sua feitura a intenção também, decorre da sua feitura uma outra perfeição adicional, mais nobre do que a primeira; como os dentes e a língua e os lábios estavam nos viventes como necessidade da comida, e, com isso, eles estão no homem para um fim mais nobre do que este, que são instrumentos para a fala e a expressão a fim de louvar o Senhor, bendito seja, e contar os seus louvores; assim nos juízos toráticos há neles um fim mais nobre do que a correção do agrupamento político, ainda que pareça à primeira vista que não é assim. E aquele fim, eis que ele é que se intente na feitura destes juízos pelo lado de que ordenou neles o Senhor, bendito seja; e esta intenção, quando se junta à ação, adquire e dá perfeição à alma do que a faz, depois de que a feitura desta sua ação não é pelo lado de que ela é a correção do agrupamento político apenas, mas pelo lado do amor do Senhor, bendito seja — quero dizer, a fim de cumprir os seus mandamentos que ordenou neles. E acha-se, conforme este caminho, que a feitura de uma e a mesma coisa — como se disseras: a doação de caridade tsedaká, ou emprestar ao pobre na hora do seu aperto, ou que se abstenha o homem de explorar o seu companheiro ou de roubar o seu dinheiro —, se fizer isto o que se conduz conforme a convenção, porque estas são boas qualidades com que se completa o agrupamento político, não se segue a ele nenhuma perfeição particular nisto a não ser a perfeição que decorre pelo lado da correção do assentamento político; e, quando fizer isto o que se conduz conforme a Torá, pelo lado de que ordenou neles o Senhor, bendito seja, e a fim de submeter-se a ele e fazer a sua vontade e cumprir os seus mandamentos que ordenou neles, eis que lhe chega disto um outro fim particular, mais nobre e mais importante, que é o serviço do Senhor, bendito seja — pois por meio desta intenção que se une à ação, alcança-se a perfeição anímica, como explicámos no capítulo quinto deste Maamar.
הַמִּשְׁפָּטִים הַתּוֹרִיִּים — בְּהִצְטָרֵף הַכַּוָּנָה (מִצַּד שֶׁצִּוָּה הַשֵּׁם) יַגִּיעַ שְׁלֵמוּת נוֹסָף. נְתִינַת צְדָקָה עַל פִּי הַתּוֹרָה — עֲבוֹדַת הַשֵּׁם, וְיֻשַּׂג הַשְּׁלֵמוּת הַנַּפְשִׁי.
9 E isto é o que disse a Escritura "e será a obra da caridade ma'asé hatsedaká paz" etc. (Isaías 32:17) — quer dizer: a feitura da caridade causa paz no agrupamento político, a fim de que não roube o pobre o rico; mas a intenção da doação da caridade, se ela é pelo lado de que ordenou nela o Senhor, bendito seja — que é o chamado "serviço da caridade" avodat hatsedaká —, causa "tranquilidade e segurança até a eternidade" (Isaías 32:17), que é a permanência anímica eterna. E sobre isto disseram "é maior o ordenado metsuvé e que faz do que aquele que não é ordenado e faz", pois o ordenado e que faz, na feitura do mandamento conforme a regra, faz duas coisas: a primeira, que faz a boa ação ou a retidão de verdade, e a segunda, que ele intenta fazer a vontade do seu Pai que está nos céus; e aquele que não é ordenado e faz, faz esta ação pelo lado de que é retidão apenas, não por outra razão. E deste modo se entende como adquire o homem a perfeição e a vida do mundo vindouro nos juízos da Torá, no positivo e no negativo que há nela, quando forem feitos pelo amor do Senhor, bendito seja, e pelo seu temor, e para cumprir o seu mandamento que ordenou neles.
״וְהָיָה מַעֲשֵׂה הַצְּדָקָה שָׁלוֹם״ — בַּקִּבּוּץ; אֲבָל עֲבוֹדַת הַצְּדָקָה (מִצַּד הַשֵּׁם) ״הַשְׁקֵט וָבֶטַח עַד עוֹלָם״ — הַהִשָּׁאֲרוּת הַנַּפְשִׁית. ״גָּדוֹל הַמְצֻוֶּה וְעוֹשֶׂה״.
10 E explica-se disto que a ação da feitura do mandamento sozinha não é visada a chegar à perfeição humana pelo lado de si mesma, mas pelo lado da indicação que há na sua feitura do mandamento sobre a submissão ao Senhor, bendito seja, a fim de fazer a sua vontade e amá-lo. E eis que isto é como aquele que acende a candeia, que não é a intenção no acender a ação do acender em si mesma — quer dizer, a fim de consumir o azeite e queimar o pavio, que é a ação que chega da feitura do acender —, mas a intenção do acender da candeia é em razão da luz que decorre daquela ação; e assim é a intenção da Torá: encaminhar o homem no serviço do Senhor, bendito seja, e iluminar diante dele o caminho pelo qual andará a fim de fazer o seu serviço, e a ação que fará a fim de alcançar o seu amor.
11 E por isso o que comparou a Escritura o mandamento à candeia ao dizer "pois a candeia é o mandamento ki ner mitzvá", e a Torá à luz ao dizer "e a Torá é luz vetorá or" (Provérbios 6:23) — é como que explicou que a Torá é visada pelo lado de si mesma, como a luz que é visada por si mesma, mas o mandamento não é visado pelo lado de si mesmo, e a ação que há nele é como a candeia que não é visada pelo lado de si mesma, mas pelo lado da luz que decorre dela; e assim o mandamento, a intenção da sua feitura é pelo lado da indicação que decorre daquela ação, que é o serviço ao Senhor, bendito seja, que é a luz que decorre dele — e é o que chamou "Torá" ao dizer "e a Torá é luz". E por isso, na ausência da intenção da ação do mandamento, eis que ele é como um homem que anda na escuridão da noite e na treva, que tropeça por força. E por causa disto cunharam os nossos mestres, de abençoada memória, ao que faz um mandamento sem a intenção cabida "um transgressor", e disseram que aquele que faz o mandamento do Pessach não conforme a sua regra — quer dizer, não na intenção cabida — sobre ele diz a Escritura "e os transgressores tropeçarão neles"; e disse Salomão "o caminho dos ímpios é como a treva, não sabem em que tropeçam" (Provérbios 4:19); e sobre a intenção que se liga à ação como é cabido disseram "pois retos são os caminhos do Senhor e os justos andarão por eles", e disse Salomão "e a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai e ilumina até estar firme o dia" (Provérbios 4:18) — quer dizer, que não se apaga jamais.
״כִּי נֵר מִצְוָה וְתוֹרָה אוֹר״ — הַמִּצְוָה כַּנֵּר (לֹא מְכֻוֶּנֶת לְעַצְמָהּ אֶלָּא לָאוֹר), וְהָאוֹר הוּא עֲבוֹדַת הַשֵּׁם. בְּהֶעְדֵּר הַכַּוָּנָה — ״וּפוֹשְׁעִים יִכָּשְׁלוּ בָם״.
Este capítulo enfrenta uma dificuldade que toca o cerne da vida judaica: se a perfeição da alma vem de servir a D'us, como as leis civis da Torá — os mishpatim sobre danos do boi, do poço, do fogo, sobre roubo e exploração — podem dar perfeição à alma? Afinal, são regras de convivência social que qualquer legislação humana também tem. Albo leva a objeção ao extremo, com ousadia: se os mishpatim só servissem para "corrigir as qualidades" ou ordenar a sociedade, então "o esforço da maioria dos sábios de Israel no Talmud seria em vão" — conclusão inaceitável, dado que essa é a maior parte da Torá oral.
A solução exige primeiro estabelecer dois pontos contra extremos opostos. (1) A ação sozinha não basta: "é maior uma transgressão por seu nome (lishmá) que uma mitzvá não por seu nome"; a parábola do cordeiro pascal (comido "para a mitzvá" vs. "para comer grosseiro") prova que "mitzvá sem intenção não vale como mitzvá". (2) A intenção sozinha também não basta: se bastasse, "estudar" o tefilin substituiria pô-lo — e não substitui. Aqui Albo é sutilíssimo: cita a célebre conclusão de Kidushin de que "o estudo é grande" — mas por quê? "Porque o estudo leva à ação". Logo, paradoxalmente, a própria primazia do estudo prova que a ação é o fim. Como o talhar pedras serve à construção, o estudo serve à prática — e o que é servido é superior ao que serve (embora "não haja ignorante piedoso", isto é, a ação dependa do estudo).
A resposta é a união dos dois — exatamente a tese do cap. 5 reaplicada. Aqui está a chave que resolve o enigma dos mishpatim: o mesmo ato tem valor diferente conforme a intenção. O legislador humano que faz justiça obtém só um fim — a ordem social. Mas quem cumpre o mesmo juízo "porque D'us o ordenou" obtém, além da ordem social, "um fim particular mais nobre: o serviço de D'us", e por ele a perfeição da alma. A analogia é a mesma do cap. 21: dentes e língua servem (nos animais) à alimentação, mas no homem servem também à fala que louva a D'us. Assim dar caridade, emprestar ao pobre, abster-se de roubar — feitos por amor de D'us — deixam de ser mera ética e tornam-se avodá. Daí "a obra da caridade será paz" (efeito social) mas o "serviço da caridade" traz "tranquilidade até a eternidade" (a imortalidade da alma); e "é maior o ordenado que cumpre do que o não-ordenado que cumpre", pois o primeiro faz duas coisas — o bem e a vontade do Pai.
O fecho entrega uma das imagens mais luminosas de toda a obra, lendo Provérbios 6:23 — "pois a candeia é o mandamento e a Torá é luz". A mitzvá é a candeia: não se acende a candeia pela combustão em si (consumir o azeite, queimar o pavio — o "ato" físico), mas pela luz que dela emana. Assim o mandamento não vale pelo gesto em si, mas pela luz que dele decorre — o serviço de D'us a que ele aponta, que é "a Torá, a luz". A mitzvá é meio; a iluminação espiritual é o fim. E a contrapartida sombria: a mitzvá sem intenção é como andar "na treva da noite" — quem a faz é cunhado "transgressor" ("os transgressores tropeçarão neles"; "o caminho dos ímpios é como a treva"). Mas o ato carregado de kavaná é "a vereda dos justos, como a luz da aurora que cresce até o pleno dia — que nunca se apaga". Com esta imagem, Albo coroa toda a doutrina dos mandamentos: o valor eterno de cada ato — inclusive o mais "secular" juízo civil — está na luz da intenção que o transforma em serviço de D'us.
A Torá dá perfeição no seu todo ou nas suas partes? Se fosse só no todo, ninguém — "pois não há justo que não peque" — alcançaria o mundo vindouro, e a Torá dada por graça seria condenação. Albo resolve: uma só mitzvá, cumprida com a intenção devida, basta para herdar uma porção do mundo vindouro; a multiplicidade dos mandamentos é graça abundante, não fardo. "Todo Israel tem porção no mundo vindouro."
A Torá dá perfeição no seu todo ou nas suas partes? Se fosse só no todo, ninguém — "pois não há justo que não peque" — alcançaria o mundo vindouro, e a Torá dada por graça seria condenação. Albo resolve: uma só mitzvá, cumprida com a intenção devida, basta para herdar uma porção do mundo vindouro; a multiplicidade dos mandamentos é graça abundante, não fardo. "Todo Israel tem porção no mundo vindouro."
1 E é cabido que investiguemos aqui uma investigação de grande proveito em muito, e ela é: se esta Torá divina dá perfeição no seu todo ou nas suas partes. E dizemos que esta coisa foi aquela em que divergiram Rabi Shimon ben Lakish e Rabi Iochanan no capítulo "Chelek". Disseram ali sobre "por isso alargou o Sheol a sua alma e abriu a sua boca sem limite livli chok" (Isaías 5:14): disse Rabi Shimon ben Lakish — sobre quem isto recai? — "sobre aquele que deixa de cumprir mesmo um só estatuto chok da Torá"; disse Rabi Iochanan: "não é agradável ao seu Senhor de que eu diga sobre eles assim, mas recai sobre aquele que não cumpriu nem mesmo um só estatuto da Torá".
אִם הַתּוֹרָה נוֹתֶנֶת שְׁלֵמוּת בִּכְלָלָהּ אוֹ בַּחֲלָקֶיהָ. רֵישׁ לָקִישׁ: ״מִי שֶׁמְּשַׁיֵּר אֲפִלּוּ חֹק אֶחָד״; רַבִּי יוֹחָנָן: ״מִי שֶׁלֹּא קִיֵּם אֲפִלּוּ חֹק אֶחָד״.
2 E parecia a princípio que era cabido que ela desse a perfeição no seu todo e não nas suas partes, como as palavras de Rabi Shimon ben Lakish; porque, se uma parte dela bastasse para adquirir a perfeição humana, por que carregaria o Senhor, bendito seja, sobre nós a multiplicidade dos mandamentos e das advertências? Pois o que é possível que se alcance com uma só ação — se vê que seria uma ação vã ao fazer alguém, para alcançá-lo, ações muitas; pois quem pode curar uma doença com um só remédio simples e fácil de obter, se fizesse uma composição com muitos remédios e difíceis de obter, seria uma ação de nada sem dúvida — conforme o dito do sábio "em vão se faz com ações muitas o que é possível fazer com uma só ação". E por isso se veria que todos os mandamentos e as advertências que vieram na Torá são necessários para a aquisição da perfeição humana — pois, se não fosse assim, não nos ordenaria o Senhor, bendito seja, neles.
אִם חֵלֶק מַסְפִּיק, לָמָּה רִבּוּי הַמִּצְוֹת? ״לַשָּׁוְא יֵעָשֶׂה בִּפְעוּלוֹת רַבּוֹת מַה שֶּׁאֶפְשָׁר בְּפְעֻלָּה אַחַת״ — נִרְאֶה שֶׁכֻּלָּן הֶכְרֵחִיּוֹת.
3 Mas dizer que todos os mandamentos e as advertências que vieram na Torá são necessários na aquisição da perfeição humana é coisa estranha e muito difícil; pois, se a coisa é assim, é impossível a nenhum homem que adquira aquela perfeição, já que "não há homem justo na terra que faça o bem e não peque" (Eclesiastes 7:20); e, se lhe faltar um dos mandamentos, conforme esta opinião é impossível a ele adquirir a perfeição humana; e seria então a Torá, que foi dada a Israel como um caminho de graça para trazê-los todos à vida do mundo vindouro, ela mesma a que os impede de que mereçam aquela suavidade — e isto é o oposto do que se intentou dela. Pois não é preciso dizer que não a alcançarão todos — já que mesmo um único indivíduo na geração não poderia abranger o conjunto das opiniões que vieram na Torá, nem fazer todos os estatutos, nem cumprir todos os juízos que vieram nela —, e seria o conjunto de Israel, conforme isto, a descer ao poço da perdição, longe esteja de D'us a maldade e do Todo-Poderoso a iniquidade! Além de que o que é recebido por tradição na nação é o oposto de tudo isto, pois eis que disseram na Mishná "todo Israel tem porção no mundo vindouro". E esta é uma dúvida forte que é cabido que nos esforcemos na sua solução.
״אָדָם אֵין צַדִּיק בָּאָרֶץ אֲשֶׁר יַעֲשֶׂה טּוֹב וְלֹא יֶחֱטָא״ — אִם כֻּלָּן הֶכְרֵחִיּוֹת, אִי אֶפְשָׁר לִזְכּוֹת. אֲבָל ״כָּל יִשְׂרָאֵל יֵשׁ לָהֶם חֵלֶק לָעוֹלָם הַבָּא״.
4 E o caminho da compreensão deste assunto é: que, assim como se acham nas coisas naturais coisas muitas que se acham pelo lado do que é melhor tzad hayoter tov e não pelo lado da necessidade — como o duplicar dos sentidos e além deles, já que seria possível ao existir e ao subsistir dos viventes sem aquele duplicar, e, contudo, acham-se nos viventes pelo lado do que é melhor —, assim o Senhor, bendito seja, por ser ele que deseja trazer o homem à perfeição humana, e por ver quantos impedimentos há para ele que o distraem da obtenção daquela perfeição, abriu um caminho para que a alcance — e isto ao multiplicar-lhe caminhos e modos que não são todos necessários para a obtenção da perfeição, mas, na verdade, se acham pelo lado do que é melhor, a fim de que se alcance a perfeição humana, ou uma parte dela, por meio de cada um deles, a fim de que não escape nenhum de Israel em particular, ou dos homens em geral, de que não alcance aquela perfeição se se esforçar por alcançá-la por um dos caminhos deles.
כְּמוֹ שֶׁבַּטֶּבַע יֵשׁ דְּבָרִים עַל צַד הַיּוֹתֵר טוֹב (כְּפִילַת הַחוּשִׁים), כֵּן רִבָּה הַשֵּׁם דְּרָכִים — לֹא הֶכְרֵחִיִּים — כְּדֵי שֶׁלֹּא יִמָּלֵט אִישׁ מִיִּשְׂרָאֵל מֵהַשָּׂגַת הַשְּׁלֵמוּת.
5 E isto é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no fim do tratado Makot: "Rabi Chananiá ben Akashiá diz: quis o Santo, bendito seja, conceder mérito lezakot a Israel; por isso lhes multiplicou a Torá e mandamentos, conforme se disse 'o Senhor desejou, em razão da sua justiça tzidkó, engrandecer a Torá e fortalecê-la' (Isaías 42:21)". Eis que explicaram que por isso foram ordenados Israel na maioria dos mandamentos: a fim de justificá-los e conceder-lhes mérito. E é manifesto que, se todos eles fossem necessários para a aquisição da perfeição, não seria isto um mérito zechut, mas uma obrigação chová; e por isso é que disse Rabi Iochanan "não é agradável ao seu Senhor de que eu diga sobre eles assim, mas recai sobre aquele que não cumpriu nem mesmo um só estatuto da Torá".
״רָצָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְזַכּוֹת אֶת יִשְׂרָאֵל, לְפִיכָךְ הִרְבָּה לָהֶם תּוֹרָה וּמִצְוֹת״. אִם הָיוּ הֶכְרֵחִיִּים — לֹא הָיָה זְכוּת אֶלָּא חוֹבָה.
6 E assim escreveu o Rambam, de abençoada memória, no Comentário da Mishná, e estas são as suas palavras sobre aquela mishná: "Dos fundamentos da crença na Torá é que, quando o homem cumpre um mandamento dos seiscentos e treze mandamentos conforme a ordem e como é cabido, e não associa com ele coisa das intenções do mundo de modo algum, mas o faz por seu nome lishmá, por amor, como te expliquei — eis que mereceu por ele a vida do mundo vindouro; e sobre isto disse Rabi Chananiá que, ao serem eles muitos, é impossível que não faça o homem na sua vida um deles na sua medida e na sua perfeição, e, ao fazer aquele mandamento, viverá a sua alma por aquela ação. E do que indica sobre este princípio é Rabi Chananiá ben Teradion, que perguntou a Rabi Iossi ben Kisma 'o que serei eu para a vida do mundo vindouro?', e este respondeu 'acaso veio alguma ação à tua mão?' — quer dizer, apresentou-se a ti a oportunidade de fazer um mandamento como é cabido —, e Rabi Chananiá respondeu-lhe que se lhe apresentara um mandamento de caridade tsedaká de modo perfeito no quanto era possível, e mereceu por ele a vida do mundo vindouro" — até aqui as suas palavras ali.
הָרַמְבַּ״ם: ״כְּשֶׁיְּקַיֵּם אָדָם מִצְוָה אַחַת... לִשְׁמָהּ מֵאַהֲבָה, זָכָה בָּהּ לְחַיֵּי הָעוֹלָם הַבָּא״. רַבִּי חֲנִינָא בֶּן תְּרַדְיוֹן זָכָה בְּמִצְוַת צְדָקָה.
7 E explicou-se, conforme isto, o que dissemos: que apenas um mandamento bastará para dar a perfeição humana; e, contudo, o facto de se acharem na Torá mandamentos muitos não foi isto pelo lado da necessidade, mas pelo lado do que é melhor, a fim de que não escape nenhum homem de Israel de que não mereça o mundo vindouro por meio de um deles, qual deles for. E vem e vê quem é o grande homem que testemunha sobre isso — o Rambam, de abençoada memória —, que disse que a opinião dos nossos mestres, de abençoada memória, é que a multiplicidade dos mandamentos não foi para carregar sobre nós um fardo pesado que não pudéssemos suportar, mas foi uma graça chesed do Senhor, bendito seja, para conceder mérito a Israel e justificá-los — já que engrandeceu a Torá e multiplicou os seus mandamentos a fim de que tivessem caminhos diferentes pelos quais adquirissem por meio deles a perfeição humana; e, ainda que eles não estimem isto — pois, por serem eles um povo saqueado e despojado, pensam que a multiplicidade dos mandamentos é para carregar sobre o povo um fardo pesado —, e isto é o que Rabi Chananiá apoiou no versículo "o Senhor desejou, em razão da sua justiça" etc. (Isaías 42:21), e logo "e ele é um povo saqueado e despojado" etc. (Isaías 42:22) — quer dizer que pensam que, porque não basta um só mandamento para que adira a eles a providência divina em todos os particulares das suas ações a fim de salvá-los da sua aflição, dirão que por causa disto não basta para adquirir nenhuma perfeição à alma — e não é a coisa assim, pois mesmo um só mandamento feito conforme a sua regra, como explicámos, basta para que adquira o homem por ele a vida do mundo vindouro. E por causa disto disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "todo Israel tem porção no mundo vindouro", pois é impossível que não faça cada um deles um mandamento dos mandamentos da Torá pelo qual mereça algum grau dos graus do mundo vindouro. E, contudo, conforme a multiplicidade dos mandamentos que fizer, assim engrandecerá o seu grau ali; e por isso era Moisés ansioso e desejoso de entrar na Terra, a fim de que, por meio do cumprimento dos mandamentos dependentes da Terra, merecesse, sem dúvida, um grau maior no mundo vindouro.
רִבּוּי הַמִּצְוֹת — חֶסֶד לְזַכּוֹת, לֹא מַשָּׂא. ״כָּל יִשְׂרָאֵל יֵשׁ לָהֶם חֵלֶק״. וּכְפִי רִבּוּי הַמִּצְוֹת תִּגְדַּל מַדְרֵגָתוֹ — וְלָכֵן מֹשֶׁה כָּסַף לְהִכָּנֵס לָאָרֶץ.
8 E às vezes chega a multiplicidade dos mandamentos cumpridos por um só homem a que ele esteja num grau em que é supervisionado neste mundo em todos os particulares dos seus assuntos, como Rabi Chanina ben Dossa e outros além dele dentre os piedosos. E já é possível que se ache a multiplicidade dos mandamentos, ou a sua totalidade, nos indivíduos diferentes de uma comunidade, e seja o conjunto daqueles indivíduos mais supervisionado do que o só homem — pois aquele conjunto torna-se como que no grau do só homem em que se acham nele a multiplicidade dos mandamentos; e esta é a causa de que seja o conjunto klal sempre mais supervisionado do que o particular prat — porque se acha no conjunto a multiplicidade dos mandamentos, ou a totalidade dos mandamentos da Torá, mais do que se acham no só homem; e por isso será o conjunto sempre respondido na sua oração e supervisionado e salvo dos acidentes mikrim mais do que o particular.
9 E isto, na verdade, será na felicidade deste mundo; mas no mundo vindouro é o grau de cada um e um conforme as suas ações e conforme a multiplicidade dos mandamentos que fizer. E coisa maior do que esta se acha nos nossos mestres, de abençoada memória, em muitos lugares: que mesmo na feitura de uma só ação que não é um mandamento e não é uma advertência, se intentar o que a faz na sua feitura para o nome dos céus leshem shamáyim e para a honra do Senhor, bendito seja, ou para a honra da sua Torá, merecerá por ela a vida do mundo vindouro — quer dizer, algum grau dos graus do mundo vindouro. E disseram em Ketubot sobre aquele lavandeiro que estava na vizinhança de Rabi e subiu ao telhado e caiu e morreu — que saiu uma voz celeste e disse que também aquele lavandeiro está preparado para a vida do mundo vindouro; do que se vê disto que mesmo quem se afligiu por não ter honrado o sábio na sua morte e morreu por aquela aflição, por aquela intenção merece a vida do mundo vindouro, depois de que a sua aflição e a sua morte foram para o nome dos céus.
הַכְּלָל מֻשְׁגָּח יוֹתֵר מֵהַפְּרָט — שֶׁנִּמְצָא בּוֹ רִבּוּי הַמִּצְוֹת. אֲפִלּוּ פְּעֻלָּה שֶׁאֵינָהּ מִצְוָה, אִם לְשֵׁם שָׁמַיִם — זוֹכֶה לְחַיֵּי הָעוֹלָם הַבָּא.
10 E assim no tratado Avodá Zará disseram sobre o oficial que estava encarregado de matar Rabi Chanina ben Teradion, que, porque aproximou a sua morte a fim de que Rabi Chanina não se afligisse em demasia, estava preparado para a vida do mundo vindouro. E assim no tratado Taanit, no capítulo "Seder Taaniyot Batra", traz muitas ações de homens sobre os quais disse Elias que estavam preparados para a vida do mundo vindouro, ainda que não fizessem ações que fossem um mandamento ou uma advertência, mas apenas ações boas — como o guarda da casa do cárcere que separava as mulheres dos homens a fim de que não viessem ao hábito da transgressão, e além disto ali, muitas.
11 E já explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, o conjunto das boas ações que trazem o homem à obtenção da vida do mundo vindouro, além dos mandamentos explicitados na Torá; disseram sobre "e andarás nos seus caminhos" (Deuteronômio 28:9): "assim como ele é misericordioso, também tu sê misericordioso; assim como ele é gracioso, também tu sê gracioso; assim como ele faz bondades, também tu faze bondades; assim como ele sepulta os mortos, também tu sepulta os mortos" etc. E o conjunto das coisas é que toda ação que faça o que a faz para o nome dos céus merece por ela a vida do mundo vindouro; e mesmo se aquela ação for pensada nela de que é má, disseram os nossos mestres, de abençoada memória, sobre "em todos os teus caminhos conhece-o" (Provérbios 3:6) — "e mesmo a respeito de uma coisa de transgressão"; e disseram ainda "é grande uma transgressão por seu nome mais do que um mandamento que não é por seu nome". E entende este princípio e conhece-o, pois ele é necessário à Torá de Moisés; pois, se não fosse assim, não seriam o conjunto de Israel a merecer a vida do mundo vindouro por meio da Torá, senão um de uma cidade ou um único indivíduo na geração, e seria a afeição excessiva com que amou o Santo, bendito seja, a Israel ao dar-lhes a Torá — como disseram "amados são Israel, pois lhes foi dado um instrumento precioso" etc. — numa vingança contra eles, de que não pudessem cumpri-la na sua totalidade e de que fossem castigados por isso.
״וְהָלַכְתָּ בִּדְרָכָיו — מָה הוּא רַחוּם אַף אַתָּה רַחוּם״. כָּל פְּעֻלָּה לְשֵׁם שָׁמַיִם זוֹכֶה לָעוֹלָם הַבָּא. ״בְּכָל דְּרָכֶיךָ דָעֵהוּ — וַאֲפִלּוּ לִדְבַר עֲבֵרָה״.
12 Senão que a verdade é como dissemos: que este é um princípio particular da Torá de Moisés, ao qual visaram os nossos mestres, de abençoada memória, ao dizerem "todo Israel tem porção no mundo vindouro" — quer dizer, que todos eles alcançarão algum grau dos graus do mundo vindouro. E, ainda que haja dos sábios os que discordam disto e dizem que é preciso uma grande multiplicidade dos mandamentos a fim de que mereça o homem a vida do mundo vindouro, não é a coisa assim, mas é que, conforme a multiplicidade dos mandamentos, engrandecer-se-á o seu grau nele, como dissemos; e, contudo, com um só mandamento já alcançará algum grau dele. E o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Makot, "Expôs Rabi Simlai: seiscentos e treze mandamentos foram ditos a Moisés no Sinai" etc., "veio Davi e estabeleceu-os sobre onze" etc., "veio Isaías e estabeleceu-os sobre seis" etc. — do que se veria disto que é preciso de todos os mandamentos a fim de adquirir a perfeição, senão que Davi os estabeleceu sobre onze e Isaías sobre seis e assim os demais —, ainda saberás a explicação deste dito no capítulo que vem depois deste, com a ajuda do Senhor.
״כָּל יִשְׂרָאֵל יֵשׁ לָהֶם חֵלֶק לָעוֹלָם הַבָּא״. ״בָּא דָּוִד וְהֶעֱמִידָן עַל אַחַת עֶשְׂרֵה... בָּא יְשַׁעְיָה וְהֶעֱמִידָן עַל שֵׁשׁ״ — וְעוֹד יִתְבָּאֵר בַּפֶּרֶק הַבָּא.
Este capítulo enfrenta uma das questões mais consequentes de toda a teologia judaica: a Torá salva no todo (só quem cumpre todos os 613) ou nas partes (cada mandamento contribui)? Albo ancora o debate numa controvérsia talmúdica (Sanhedrin "Chelek") sobre Isaías 5:14: para Resh Lakish, o Sheol engole quem "deixa um só estatuto"; para Rabi Iochanan, só quem "não cumpriu nem um só estatuto". A diferença é abissal — e Albo construirá toda a sua resposta a favor de Rabi Iochanan.
Albo primeiro dá força à posição oposta com um argumento aristotélico de economia: "em vão se faz com muitas ações o que se pode fazer com uma" (a navalha lógica). Se uma parte da Torá bastasse, por que D'us imporia 613 mandamentos? Logo todos seriam necessários. Mas aí vem a objeção fatal: "não há justo na terra que não peque" (Ecl 7:20). Se a salvação exigisse o cumprimento integral, ninguém — nem o maior tzadik de uma geração — a alcançaria; a Torá, "dada por graça para levar todos ao mundo vindouro", tornar-se-ia o próprio obstáculo a essa meta, e "todo Israel desceria à perdição" — o oposto da Mishná "todo Israel tem porção no mundo vindouro". A tese maximalista é teologicamente insustentável.
A chave de Albo é uma analogia da biologia: na natureza há muito que existe "pelo lado do melhor" (tzad hayoter tov), não da necessidade — a duplicação dos sentidos (dois olhos, dois ouvidos), sem a qual o animal sobreviveria, mas que existe para o seu bem. Assim os mandamentos: D'us, vendo os muitos obstáculos à perfeição, multiplicou os caminhos — não porque cada um seja indispensável, mas para que ninguém escape de alcançar a perfeição por algum deles. A prova é a baraita de Rabi Chananiá ben Akashiá (que encerra cada capítulo das Mishnayot lidas): "quis D'us conceder mérito (lezakot) a Israel, por isso multiplicou Torá e mandamentos". Albo extrai a inferência decisiva: se todos fossem necessários, isso seria obrigação (chová), não mérito (zechut) — a própria linguagem de "conceder mérito" prova que a abundância é graça, não exigência.
Albo convoca Maimônides (Comentário à Mishná) como testemunha máxima: "quando o homem cumpre um mandamento dos 613… por seu nome (lishmá), por amor… merece a vida do mundo vindouro". Sendo os mandamentos muitos, é impossível que alguém, na vida inteira, não cumpra ao menos um em perfeição — e por ele "viverá a sua alma". O exemplo: Rabi Chananiá ben Teradion, que mereceu o mundo vindouro por uma mitzvá de tsedaká feita perfeitamente. Daí "todo Israel tem porção": ninguém deixa de cumprir ao menos um mandamento com kavaná. A multiplicidade não é fardo — embora "o povo saqueado e despojado" assim a perceba (Is 42) —, mas escada: quanto mais mandamentos, maior o grau no mundo vindouro (por isso Moisés ansiava entrar na Terra, pelas mitzvot a ela ligadas).
O capítulo amplia ainda mais a porta. (1) O coletivo (klal) é sempre mais providenciado que o indivíduo, pois nele se reúne a totalidade dos mandamentos. (2) Espantosamente, até uma ação que não é mandamento — feita "para o nome dos céus" (leshem shamáyim) — garante o mundo vindouro: o lavandeiro que morre de pesar por não ter honrado o sábio; o carrasco que apressa a morte de Rabi Chananiá para poupá-lo de sofrimento; o carcereiro que separa homens e mulheres para evitar o pecado (histórias que Elias confirma). A imitatio Dei de "andarás nos seus caminhos" (misericordioso, gracioso, sepultando mortos) abre a perfeição a qualquer gesto santificado pela intenção — "grande é uma transgressão por seu nome que uma mitzvá sem nome". Albo declara este princípio "necessário à Torá de Moisés": sem ele, o dom amoroso da Torá viraria condenação, salvando "só um por cidade". A conclusão sela a posição de Rabi Iochanan e da Mishná — "todo Israel tem porção" — e remete ao capítulo seguinte a explicação do enigma de Rabi Simlai (Davi reduziu os 613 a onze, Isaías a seis), que mostrará como toda a Torá pode condensar-se em poucos princípios vivificantes.
Os graus alcançados pelos mandamentos variam de quatro modos: pela espécie da mitzvá, pela intenção, pela repetição da ação e pela quantidade de mandamentos. Daí Albo decifra o enigma de Rabi Simlai — Davi reduziu os 613 a onze, Isaías a seis, Miquéias a três, Habacuc a um: os profetas formularam princípios englobantes que condensam muitos mandamentos, abrindo a perfeição a todos.
Os graus alcançados pelos mandamentos variam de quatro modos: pela espécie da mitzvá, pela intenção, pela repetição da ação e pela quantidade de mandamentos. Daí Albo decifra o enigma de Rabi Simlai — Davi reduziu os 613 a onze, Isaías a seis, Miquéias a três, Habacuc a um: os profetas formularam princípios englobantes que condensam muitos mandamentos, abrindo a perfeição a todos.
1 Os graus que se alcançam por meio dos mandamentos são diferentes de muitos modos. Primeiro, pelo lado da diferença dos mandamentos, pois há um mandamento cujo grau que se alcança por meio dele é maior do que o grau que se alcança por meio de um outro, ainda que sejam iguais na intenção da sua feitura; e isto aprendemos do que disseram "sê cauteloso num mandamento leve como num mandamento grave, pois não sabes a dádiva da recompensa dos mandamentos" — do que se vê disto que há diferença na dádiva da recompensa dos mandamentos, de alguns sobre alguns; e aprendemos disto também que o caminho que dissemos no capítulo precedente a este é verdadeiro e correto — de que não é a aquisição da perfeição dependente da feitura dos mandamentos todos, pois, se fosse assim, de que serve o que diz "sê cauteloso num mandamento leve como num mandamento grave, pois não sabes a dádiva da recompensa dos mandamentos"? Mesmo se a recompensa fosse sabida, seria cabido que se acautelasse em todos eles a fim de se receber a recompensa; senão que há daqui uma prova de que sobre cada um e um há um grau próprio à recompensa e de que a sua recompensa não é igual, e de que não é a feitura de todos os mandamentos necessária para receber a recompensa prometida no mundo vindouro.
״הֱוֵי זָהִיר בְּמִצְוָה קַלָּה כְּבַחֲמוּרָה שֶׁאֵין אַתָּה יוֹדֵעַ מַתַּן שְׂכָרָן שֶׁל מִצְוֹת״ — יֵשׁ חִלּוּף בְּשָׂכָר, וְאֵין קְנִיַּת הַשְּׁלֵמוּת תְּלוּיָה בְּכֻלָּן.
2 E segundo, pelo lado da diferença das intenções; pois não há dúvida de que, mesmo se os mandamentos forem iguais em número, ou se for o mandamento o mesmo único, diferir-se-á o grau da sua recompensa conforme a diferença das intenções — como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "uma parábola de dois homens que assaram os seus cordeiros pascais: um comeu-o para o nome do Pessach e um comeu-o para o nome de comida grosseira; este, que o comeu para o nome do Pessach, sobre ele diz a Escritura 'pois retos são os caminhos do Senhor e os justos andarão por eles'; e este, que o comeu para o nome de comida grosseira, sobre ele diz a Escritura 'e os transgressores tropeçarão neles'"; e já explicámos isto acima.
3 Terceiro: que, mesmo se as intenções concordarem e o número dos mandamentos for igual, diferir-se-ão os graus pelo lado da diferença da multiplicidade das ações e da sua escassez; pois não há dúvida de que a continuidade da feitura de uma e a mesma ação adquire um grau maior do que a feitura daquela ação uma só vez. E o exemplo disto são dois homens iguais em sabedoria e em riqueza e em toda coisa, e o um deu mil zuz para a caridade de uma só vez com intenção cabida, e o segundo deu mil zuz em mil vezes, um zuz em cada vez; pois, ainda que a caridade seja igual em quantidade, será o grau do segundo, sem dúvida, maior do que o grau do primeiro — pois o cumprimento de ordens muitas numa e a mesma ação e a multiplicidade das boas intenções que há naquelas ações é melhor do que o cumprimento de uma só ordem com uma só boa intenção; e assim quem honra o seu pai ao dar-lhe de uma só vez mil zuz, e o outro em mil vezes — diferir-se-ão os graus, sem dúvida, conforme a multiplicidade das ações que vieram na feitura daquele mandamento.
שֵׁנִית — לְפִי הַכַּוָּנוֹת. שְׁלִישִׁית — רִבּוּי הַפְּעוּלוֹת: הַנּוֹתֵן אֶלֶף זוּז בְּפַעַם אַחַת מוּל הַנּוֹתֵן בְּאֶלֶף פְּעָמִים — מַדְרֵגַת הַשֵּׁנִי גְּדוֹלָה יוֹתֵר.
4 Quarto: diferir-se-ão os graus conforme a multiplicidade dos mandamentos que faça o um sobre o número dos mandamentos que faça o outro, pois o cumprimento de mandamentos muitos dá indicações para um grau maior, sem dúvida, ao se juntar nisto a multiplicidade de mandamentos e a multiplicidade de ações. E acontecerá, pelo lado da diferença destes graus, que já se achará um homem com muitos mandamentos na sua mão, mais do que um outro homem, e, ainda assim, porque não foram feitos aqueles mandamentos na intenção cabida, não bastarão para dar-lhe senão um grau pequeno dos graus do mundo vindouro — e talvez que não baste para adquirir por meio deles nenhum grau dos graus do mundo vindouro; e, porque o Santo, bendito seja, não retém a recompensa de nenhuma criatura, lhe será dada neste mundo a recompensa do mandamento ou dos mandamentos que fez sem intenção. E acha-se também um homem que faz por todos os seus dias uma multiplicidade de transgressões e no fim dos seus dias faz um mandamento ou uma ação na intenção cabida e morre de dentro daquela intenção — que basta aquela intenção para dar-lhe algum grau dos graus do mundo vindouro, como provámos no capítulo anterior a este a partir daquele oficial que acelerou a morte de Rabi Chanina ben Teradion. E às vezes acha-se um homem cujo grau basta, pelo lado da multiplicidade da feitura de mandamentos e das intenções cabidas, para que seja supervisionado neste mundo e salvo de todos os males, como a maioria dos piedosos de Israel, até que se mude a natureza conforme a sua vontade — como foi isto em Rabi Chanina ben Dossa e em Nachum, o homem de Gam Zu, e Rabi Pinchas ben Yair e os que se lhes assemelham; e às vezes acha-se um homem, pelo lado da multiplicidade dos mandamentos e das intenções cabidas e da apreensão que apreende no Senhor, bendito seja, que chega neste mundo ao grau de Isaías e Eliseu e os que se lhes assemelham — e este é um grau acima do qual não há, que é o grau dos grandes dos profetas que foram depois de Moisés.
רְבִיעִית — רִבּוּי הַמִּצְוֹת. וְיֵשׁ שֶׁמִּצְוֹתָיו רַבּוֹת וְאֵינָן בְּכַוָּנָה — מַדְרֵגָה קְטַנָּה; וְיֵשׁ מִצְוָה אַחַת בְּכַוָּנָה בְּסוֹף יָמָיו — מַדְרֵגָה בָּעוֹלָם הַבָּא.
5 Daqui em diante, o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no fim do tratado Makot — "Expôs Rabi Simlai: seiscentos e treze mandamentos foram ditos a Moisés no Sinai; veio Davi e estabeleceu-os sobre onze, conforme se disse 'Senhor, quem habitará na tua tenda?' etc., 'o que anda íntegro e faz justiça' (Salmos 15:1-2); veio Isaías e estabeleceu-os sobre seis, conforme se disse 'o que anda em justiças e fala retidões' etc. (Isaías 33:15); veio Miquéias e estabeleceu-os sobre três, conforme se disse 'e o que o Senhor pede de ti, senão praticar juízo e amar a bondade e andar humildemente com o teu D'us' (Miquéias 6:8); veio Habacuc e estabeleceu-os sobre um, conforme se disse 'e o justo na sua fé viverá' (Habacuc 2:4)" — não é a intenção a dizer que na feitura de onze mandamentos, ou seis, ou três, se adquira da perfeição humana o grau que se alcança pelo lado de todos os mandamentos da Torá, ou que só neles se adquira algum grau da perfeição e não em menos; mas é que cada um dos profetas intentava fazer princípios gerais klalim kolelim que abrangem mandamentos muitos da Torá e boas qualidades — à maneira como os homens fazem —, a fim de que por meio deles alcance o homem um grau grande da perfeição. Pois, porque dificulta sobre todo homem carregar sobre si os seiscentos e treze mandamentos, e dificulta também sobre ele fazer um mandamento conforme a regra de todos os lados, do modo que explicámos acima neste Maamar, era a intenção de todos os profetas fazer princípios gerais pelos quais por meio deles se alcance um grau grande da perfeição, próximo do grau alcançado pelo conjunto dos mandamentos, ainda que seja impossível que suba a um grau tão grande como ele.
״בָּא דָּוִד וְהֶעֱמִידָן עַל אַחַת עֶשְׂרֵה... יְשַׁעְיָה עַל שֵׁשׁ... מִיכָה עַל שָׁלֹשׁ... חֲבַקּוּק עַל אַחַת״ — כְּלָלִים כּוֹלְלִים מִצְוֹת רַבּוֹת, שֶׁעַל יָדָם תֻּשַּׂג מַדְרֵגָה גְּדוֹלָה.
6 E contou Davi onze coisas que são mais princípios para as boas qualidades do que princípios para as opiniões verdadeiras — e não são mandamentos; pois eis que "fala verdade no seu coração" (Salmos 15:2) e "afronta não levanta sobre o seu próximo" (Salmos 15:3) e "é desprezível aos seus olhos o vil" (Salmos 15:4) — nenhuma delas é um mandamento dos mandamentos da Torá; mas a intenção de Davi era fazer princípios que abranjam mandamentos muitos e boas qualidades, pelos quais por meio deles adquira o homem um grau grande da perfeição humana. Pois "o que anda íntegro e faz justiça e fala verdade no seu coração e não calunia com a sua língua e não faz a seu próximo mal" etc. adverte a que não peque o homem no pensamento, nem na fala, nem na ação, e a que corrija as suas qualidades com as boas qualidades que decorrem destes princípios: no pensamento, "fala verdade no seu coração"; na fala, "não calunia com a sua língua"; na ação, "não faz a seu próximo mal" e "afronta não levanta sobre o seu próximo" — quer dizer, que tinha ciúme em prol da afronta do seu próximo como se tinha ciúme por si mesmo. E, ainda que todas estas suas palavras não sejam um mandamento dos mandamentos da Torá, mas uma correção das qualidades, mencionou com elas alguns mandamentos particulares nos quais tropeçavam os da sua geração, ou nos quais o homem tropeça com facilidade e pensa que não são transgressões — como "suborno sobre o inocente não tomou" (Salmos 15:5), cuja explicação é que não tomou suborno mesmo a respeito de quem é inocente para absolvê-lo no juízo, que é coisa que pensa aquele que o toma que não está pecando, e assim nos demais.
דָּוִד מָנָה י״א, רֻבָּם תִּקּוּן מִדּוֹת: בְּמַחֲשָׁבָה ״דֹּבֵר אֱמֶת בִּלְבָבוֹ״, בְּדִבּוּר ״לֹא רָגַל עַל לְשֹׁנוֹ״, בְּמַעֲשֶׂה ״לֹא עָשָׂה לְרֵעֵהוּ רָעָה״.
7 E a prova sobre esta explicação é que se acha o próprio Davi a dizer no salmo "do Senhor é a terra e a sua plenitude" (Salmos 24:1): "quem subirá ao monte do Senhor e quem se levantará no lugar da sua santidade?" (Salmos 24:3), e não contou senão três condições, que são "limpo de mãos e puro de coração e o que não levantou para o vão a sua alma" (Salmos 24:4). E há que admirar de por que não contou os onze que se mencionaram no salmo "Senhor, quem habitará na tua tenda?". Senão que no salmo "do Senhor é a terra e a sua plenitude" ele inclui todos os mandamentos e as boas qualidades em três coisas apenas — na ação, e no pensamento, e na fala: na ação, "limpo de mãos"; no pensamento, "puro de coração"; e na fala, "o que não levantou para o vão a sua alma", quer dizer, que não jurou um juramento em vão.
8 E nestes três princípios estão incluídos todos os mandamentos que mencionou no salmo "Senhor, quem habitará na tua tenda?"; senão que ali detalhou mais coisas que não estão incluídas nestes, e são coisas dependentes das qualidades, porque viu os da sua geração tropeçando neles, ou que o homem tropeça neles com facilidade porque pensa que não há mal na sua feitura — como desprezar os sábios; por isso disse "e aos que temem o Senhor honra" (Salmos 15:4), e assim "e afronta não levanta sobre o seu próximo".
״מִי יַעֲלֶה בְהַר ה׳... נְקִי כַפַּיִם וּבַר לֵבָב וַאֲשֶׁר לֹא נָשָׂא לַשָּׁוְא נַפְשִׁי״ — שָׁלֹשׁ: מַעֲשֶׂה, מַחֲשָׁבָה, דִּבּוּר.
9 E deste mesmo modo é o que disseram "veio Isaías e estabeleceu-os sobre seis", pois Isaías fez seis princípios para os mandamentos, e são: que não peque o homem na ação, mas faça as boas ações, e isto é "o que anda em justiças"; e que não peque na fala, e isto é "e fala retidões"; e que não peque no pensamento, e isto é "o que despreza o ganho das opressões" — pois o desprezo é o oposto da cobiça, que está no coração; e depois disso disse que não basta que não peque numa de todas estas, mas que também ele se acautela de não fortalecer a mão dos transgressores, e isto é "o que sacode as suas palmas de segurar no suborno" — pois não basta que não tome suborno, mas que sacode as suas palmas de segurar a mão do que toma suborno; e não basta que não fortaleça a mão dos transgressores, mas que também ele se afasta de ver o mal ou de ouvir a má ação, e isto é "o que tapa o seu ouvido de ouvir derramamentos de sangue e fecha os seus olhos de ver no mal" (Isaías 33:15). E disse depois disso "ele nas alturas habitará, fortalezas de rochas serão o seu refúgio" (Isaías 33:16), quer dizer que a um homem como este é cabido crer de que guardará a fortaleza da fé, "já que o seu pão é dado, as suas águas são fiéis" (Isaías 33:16), pois não temerá de nenhuma coisa má, já que na fome o redimirá o Senhor da morte e na guerra da mão da espada. Ou é possível que "ele nas alturas habitará" aluda à recompensa anímica que há no mundo superior.
״הֹלֵךְ צְדָקוֹת וְדֹבֵר מֵישָׁרִים מֹאֵס בְּבֶצַע מַעֲשַׁקּוֹת נֹעֵר כַּפָּיו מִתְּמֹךְ בַּשֹּׁחַד אֹטֵם אָזְנוֹ מִשְּׁמֹעַ דָּמִים וְעֹצֵם עֵינָיו מֵרְאוֹת בְּרָע״.
10 E assim, deste modo, é o que disseram "veio Miquéias e estabeleceu-os sobre três: 'e o que o Senhor pede de ti senão praticar juízo e amar a bondade e andar humildemente com o teu D'us'", pois estes são três princípios que abrangem todos os mandamentos que há na Torá ou a sua maioria: pois "praticar juízo" inclui todos os juízos que há entre o homem e o seu próximo; e "amar a bondade chesed" inclui todas as espécies de práticas de bondade; e "andar humildemente hatznéa lechet com o teu D'us" inclui todas as coisas que há entre o homem e o Lugar, que são as opiniões verdadeiras. E disse a respeito delas a expressão "e andar humildemente vehatznéa" para aludir ao que escrevemos no Maamar segundo de que os atributos divinos são os atributos negativos, que são atributos feitos em recato betznéa — pois não é o homem autorizado a soltar a sua língua e atribuir a ele, bendito seja, o que lhe sobe ao espírito, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "o remédio de tudo é o silêncio shtiká, conforme se disse 'a ti o silêncio é louvor' (Salmos 65:2)" — e isto é a expressão "e andar humildemente com o teu D'us".
״עֲשׂוֹת מִשְׁפָּט״ (בֵּין אָדָם לַחֲבֵרוֹ), ״אַהֲבַת חֶסֶד״ (גְּמִילוּת חֲסָדִים), ״וְהַצְנֵעַ לֶכֶת עִם אֱלֹהֶיךָ״ (הַדֵּעוֹת) — ״סַמָּא דְכֹלָּא מַשְׁתּוּקָא״.
11 E assim é o que disseram "veio Habacuc e estabeleceu-os sobre um, conforme se disse 'e o justo na sua fé viverá'": a intenção nisto é que, porque Habacuc se queixava da prosperidade dos ímpios e das tribulações dos justos, disse no fim das suas palavras este princípio — que o justo, quando se aferra à sua fé emuná a fim de crer nas palavras dos profetas e nas promessas do Senhor, bendito seja, que prometeu fazer juízo nos ímpios e pagar boa recompensa aos justos, então na guarda deste princípio viverá, e não se preocupará com todos os acidentes que se renovam sobre ele, e suportará tudo com bom semblante, e com isto merecerá a vida do mundo vindouro.
12 E assim é do caminho dos sábios fazer princípios para os mandamentos da Torá. E já disseram sobre um dos sábios posteriores que veio a ele um salteador armado e possuidor de transgressões e disse-lhe: "eu quero voltar em arrependimento teshuvá e guardar os mandamentos do Senhor, bendito seja, senão que não posso carregar sobre mim a multiplicidade dos mandamentos que há na Torá, pois não posso suportar aquele fardo"; e disse-lhe o sábio: "receberás sobre ti uma só coisa para guardá-la como é cabido?", e disse-lhe "sim"; disse-lhe o sábio: "se é assim, recebe sobre ti dizer a verdade", e ele recebeu sobre si e foi pelo seu caminho. Passados dias, ia aquele salteador para saltear um certo homem e matá-lo, e encontrou-o um homem que lhe disse "para onde vais?", e recordou-se aquele salteador do que recebera sobre si — dizer a verdade — e narrou àquele homem para onde ia; e assim encontrou-o um outro homem e perguntou-lhe para onde ia, e narrou-lhe; imediatamente refletiu aquele salteador no seu coração "estes dois serão sobre mim testemunhas e me matarão", e assim lhe aconteceu muitas vezes em tudo o que queria fazer, até que se absteve por causa disto das suas más ações. Eis que está manifesto que deste modo é possível que, na guarda de um só princípio ou dois princípios ou mais, guarde o homem a maioria dos mandamentos da Torá ou uma parte grande dela, pela qual por meio dela mereça a excelência da vida do mundo vindouro ou um grau grande dele.
״וְצַדִּיק בֶּאֱמוּנָתוֹ יִחְיֶה״ — בְּהַחֲזִיקוֹ בָּאֱמוּנָה יִחְיֶה. הַלִּסְטִים שֶׁקִּבֵּל לוֹמַר אֱמֶת — וּבָזֶה נִמְנַע מִמַּעֲשָׂיו הָרָעִים. בִּשְׁמִירַת כְּלָל אֶחָד יִשְׁמֹר רֹב הַמִּצְוֹת.
Tendo estabelecido (cap. 29) que uma só mitzvá com intenção basta para o mundo vindouro, Albo agora mapeia por que os graus de mérito variam — uma verdadeira "geometria" das quatro variáveis do mérito. (1) A espécie do mandamento: mitzvot diferentes valem diferente (daí "sê cauteloso na mitzvá leve como na grave, pois não sabes a recompensa de cada uma" — prova, de passagem, que a salvação não exige cumprir todas). (2) A intenção: a mesma mitzvá com kavaná diversa rende diversamente (o cordeiro pascal). (3) A repetição: mil zuz dados em mil vezes valem mais que mil zuz de uma vez — cada gesto é uma ordem cumprida e uma intenção renovada. (4) A quantidade: mais mandamentos, maior grau.
Dessas variáveis Albo deriva um espectro de destinos espirituais: quem tem muitas mitzvot mas sem intenção ganha pouco (ou recebe a recompensa neste mundo, pois "D'us não retém o salário de criatura alguma"); quem peca a vida toda mas faz uma ação com intenção ao morrer ganha o mundo vindouro (o carrasco de Rabi Chanina); quem acumula mitzvot com intenção atinge a providência especial (Rabi Chanina ben Dossa, Nachum Ish Gam Zu — a natureza muda à sua vontade); e o ápice, o grau profético de Isaías e Eliseu. O mérito não é binário — é um contínuo de graus.
O centro do capítulo é a decifração do famoso midrash (Makot 24a): "Moisés recebeu 613 mandamentos; Davi os reduziu a onze (Sl 15), Isaías a seis (Is 33), Miquéias a três (Mq 6:8), Habacuc a um (Hab 2:4)". A leitura ingênua — que bastam onze, ou seis, para a perfeição — Albo rejeita: o que os profetas fizeram foi formular princípios englobantes (klalim kolelim), categorias que condensam muitos mandamentos e virtudes. Como? Porque "é difícil para todo homem carregar os 613, e difícil até fazer uma mitzvá perfeita de todos os lados" — então os profetas criaram atalhos pedagógicos que dão "um grau grande de perfeição, próximo (mas não igual) ao do conjunto dos mandamentos". É a sabedoria de quem ensina o todo pela síntese.
Albo então analisa cada redução com elegância. Os onze de Davi (Sl 15) são sobretudo "correção das qualidades" — cobrindo pensamento ("fala verdade no coração"), fala ("não calunia") e ação ("não faz mal ao próximo") —, mais alguns preceitos em que a geração tropeçava por não os ver como pecado (aceitar suborno "mesmo para absolver o inocente"). E Albo nota agudamente que o próprio Davi, no Salmo 24, reduz ainda mais — a três: "limpo de mãos" (ação), "puro de coração" (pensamento), "não jurou em vão" (fala) — confirmando que a técnica é fazer princípios por categorias. Os seis de Isaías sobem em escala moral: não pecar em ação/fala/pensamento, depois não apoiar os transgressores, depois nem ver ou ouvir o mal. Os três de Miquéias mapeiam perfeitamente as três partes da Torá do cap. 24: "fazer juízo" (mishpatim, entre homem e próximo), "amar a bondade" (chesed), "andar humildemente com D'us" (as opiniões verdadeiras — e o "humildemente"/hatznéa alude à teologia negativa do Maamar II: "o remédio de tudo é o silêncio", pois não se pode atribuir a D'us o que a mente imagina).
O clímax é o um de Habacuc — "o justo na sua fé (emuná) viverá": aferrar-se à crença nas promessas divinas de juízo e recompensa, suportando "com bom semblante" todos os reveses, basta para a vida eterna. E Albo sela com uma parábola inesquecível: o salteador que não consegue carregar os 613 e recebe do sábio um compromisso — "dizer sempre a verdade". Quando vai cometer um crime e é perguntado "para onde vais?", a obrigação de não mentir o trava (revelaria o plano e teria testemunhas) — e assim, por um único princípio, abandona toda a vida de crime. A moral é a tese do capítulo encarnada: a guarda de um só klal bem escolhido arrasta consigo "a maioria dos mandamentos da Torá", abrindo a perfeição a quem jamais carregaria o todo — a misericórdia pedagógica que torna a Torá acessível a cada alma.
O fim alcançado pela alma no corpo, por meio dos mandamentos, é fixar nela a disposição do temor de D'us — e por esse temor a alma se eleva e se habilita à vida eterna, "o bem oculto para os justos". Albo mostra, com o Eclesiastes, por que é o temor (não a apreensão dos inteligíveis) a causa da imortalidade; e relê "que pede o Senhor de ti senão temê-Lo" como a graça que torna a perfeição acessível.
O fim alcançado pela alma no corpo, por meio dos mandamentos, é fixar nela a disposição do temor de D'us — e por esse temor a alma se eleva e se habilita à vida eterna, "o bem oculto para os justos". Albo mostra, com o Eclesiastes, por que é o temor (não a apreensão dos inteligíveis) a causa da imortalidade; e relê "que pede o Senhor de ti senão temê-Lo" como a graça que torna a perfeição acessível.
1 O fim alcançado à alma, ao estar ela no corpo, pelo lado do cumprimento dos mandamentos da Torá, não é senão que se fixe na alma a disposição do temor do Senhor, bendito seja yirat Hashem; e, quando houver nela este atributo de temer o Senhor honrado e terrível, elevar-se-á a alma e se habilitará a alcançar a vida eterna, que é o bem oculto para os justos, e ela é a felicidade da alma; disse a Escritura "quão abundante é a tua bondade que ocultaste para os que te temem" (Salmos 31:20). E explica-se isto pelo lado do que se acha que a Escritura promete a abundância do castigo sobre Israel e sobre a sua semente se não chegar aos seus coraçãoões esta disposição do temor pelo lado dos mandamentos da Torá; disse a Escritura "se não guardares a fazer todas as palavras desta Torá que estão escritas neste livro, para temer o Nome honrado e terrível este, o Senhor teu D'us, então o Senhor tornará maravilhosas as tuas chagas e as chagas da tua semente" etc. (Deuteronômio 28:58-59).
הַתַּכְלִית הַמּוּשָּׂג מִצַּד הַמִּצְוֹת — שֶׁתִּקָּבַע בַּנֶּפֶשׁ תְּכוּנַת יִרְאַת הַשֵּׁם, וּבָהּ תַּשִּׂיג הַחַיִּים הַנִּצְחִיִּים. ״מָה רַב טוּבְךָ אֲשֶׁר צָפַנְתָּ לִּירֵאֶיךָ״.
2 E, se perguntares e disseres: como é possível que o temor traga o homem a este grau grande, que é a obtenção da vida eterna? Eis que é mais cabido que o traga a isto a apreensão dos inteligíveis! — já explicou isto Salomão no livro Eclesiastes e disse que o temor é a causa da permanência hisha'arut e não uma outra coisa fora dele, e que isto é coisa dependente da sabedoria do Senhor, bendito seja, que decretou ser assim, e que não é cabido perguntar a razão nisto. E isto é: que, quando começou a investigar se é possível que haja aqui alguma coisa que dê a permanência eterna — e é o que disse "que vantagem há para o que faz naquilo em que ele se afadiga?" (Eclesiastes 3:9) —, disse depois "vi o ocupar inyan que deu D'us aos filhos do homem para se ocuparem nele" (Eclesiastes 3:10), quer dizer: vi as ações que deu D'us aos filhos do homem para se esforçarem nelas — quer dizer, as ações e os ofícios, pois "todos são belos no seu tempo" (Eclesiastes 3:11), quer dizer, conforme o seu tempo, a fim de que não cessem os ofícios e os saberes; e disse "também o mundo olam pôs no seu coração, sem que o homem ache a obra que fez D'us do princípio até o fim" (Eclesiastes 3:11), quer dizer que o que Ele pôs no seu coração foi um anseio de conhecer o mundo, que é a sabedoria dos existentes; e, ainda que seja coisa que é impossível que se apreenda — pois é impossível ao homem que apreenda a obra que fez D'us do princípio até o fim —, com tudo isto, aquele anseio que lhes deu, também ele é belo no seu tempo, a fim de que não cesse aquele ofício — não pelo lado de que por ela se alcancem a vida eterna como pensam os homens, depois de que às vezes será o que se apreende o oposto da própria verdade, como explicámos no capítulo 3 deste Maamar; e por isso disse depois disto "soube que não há bem neles senão o alegrar-se e fazer o bem na sua vida" (Eclesiastes 3:12) — quer dizer que em todos estes esforços humanos, dos quais o saber é do seu conjunto, não há outro bem neles senão o alegrar-se, pois todo homem se alegra quando se esforça nalgum ofício de sua vontade e alcança o seu intento nele conforme a sua opinião; e é também útil para fazer o bem na sua vida, pois a filosofia adverte o homem sobre a feitura do bem útil na conduta enquanto o homem está em vida, mas não aproveita para outra coisa além deste. E, se é assim, já é possível que digamos que também todo homem que come e bebe e mostra à sua alma o bem no seu trabalho — pois também isto é dádiva de D'us, como o ocupar que deu D'us aos filhos do homem para se ocuparem nele —, e não há em tudo isto coisa que traga à permanência eterna.
הַשָּׂגַת הַמּוּשְׂכָּלוֹת — ״גַּם אֶת הָעוֹלָם נָתַן בְּלִבָּם״ — יָפָה בְּעִתָּהּ, אֲבָל לֹא בָהּ יֻשַּׂג הַנִּצְחִי, שֶׁלִּפְעָמִים הַמּוּשָּׂג חִלּוּף הָאֱמֶת.
3 E disse depois disto "soube que tudo o que faz D'us, ele será para sempre; sobre ele não há o que acrescentar e dele não há o que diminuir; e D'us o fez para que temam sheyirú diante dele" (Eclesiastes 3:14). Diz que tudo o que faz D'us sem a intermediação da natureza, que é pelo lado da geração e da corrupção — como se disseras, os céus e toda a sua hoste —, ele será para sempre, pois os vemos permanentes no indivíduo, conforme o dito de Davi "e os estabeleceu para sempre, eternamente" (Salmos 148:6); e D'us o fez a fim de dar permanência no indivíduo à alma intelectiva, que é a obra das suas mãos, como disse a Escritura "e soprou nas suas narinas um sopro de vida" (Gênesis 2:7) — "para que temam diante dele", do que se vê disto que o temor é como que ele é a equidade verdadeira hashivui ha'amiti sobre a qual não há o que acrescentar e da qual não há o que diminuir — que é a definição da equidade verdadeira, que não recebe acréscimo nem diminuição, pois o acréscimo e a diminuição tirariam a coisa da sua equidade e a corromperiam. E D'us fez o temor diante dele — quer dizer, ordenou a Torá e os mandamentos, que são a equidade verdadeira da qual o temor decorre — a fim de dar permanência à alma; se é assim, por força que permanecerá sempre, pois "tudo o que faz D'us, ele será para sempre". Ou diremos "e D'us fez para que temam diante dele", quer dizer: ordenou que temam diante dele; se é assim, este temor é como que ele é a equidade verdadeira que não recebe acréscimo nem diminuição, a qual é impossível que se corrompa; e por isso é cabido alcançar por meio dele o fim humano.
״יָדַעְתִּי כִּי כָּל אֲשֶׁר יַעֲשֶׂה הָאֱלֹהִים הוּא יִהְיֶה לְעוֹלָם... וְהָאֱלֹהִים עָשָׂה שֶׁיִּרְאוּ מִלְּפָנָיו״ — הַיִּרְאָה כְּמוֹ הַשִּׁוּוּי הָאֲמִתִּי שֶׁאֵין לְהוֹסִיף עָלָיו.
4 E, depois que assim decretou a sua sabedoria, não há que fazer-se sábio e dizer "como será o temor a que faz chegar o homem à perfeição humana?" — porque ele é como a equidade verdadeira, sobre a qual não se imagina acréscimo nem diminuição para a obtenção daquele fim, que é a permanência e a perpetuação. E por isso será o que se diz na Torá "ao Senhor teu D'us temerás" (Deuteronômio 6:13) — ainda que seja um mandamento particular, eis que ele é um princípio que abrange todos os mandamentos da Torá ou mandamentos muitos dela —, porque o temor é a disposição adquirida por meio dos mandamentos da Torá, e ela é a disposição mais louvável que o homem alcança, e não se alcança senão depois de muito trabalho e grande esforço; pois eis que sobre Abraão, nosso pai, não se disse que era "temente a D'us" yeré Elohim senão no fim das suas provações, quando disse a Escritura a seu respeito "pois agora soube que temente a D'us és tu" (Gênesis 22:12) — quer dizer: e já chegaste à disposição mais louvável que é possível que o homem alcance neste mundo, a fim de que mereça por ela a vida do mundo vindouro. E por causa disto adverte a Torá em muitos lugares sobre esta disposição, disse "e temerás o teu D'us, eu sou o Senhor" (Levítico 19:14), "ao Senhor teu D'us temerás" (Deuteronômio 10:20), porque esta disposição é muito difícil de alcançar e, com tudo isto, se alcança na guarda dos mandamentos da Torá.
״אֶת ה׳ אֱלֹהֶיךָ תִּירָא״ — כְּלָל כּוֹלֵל. אַבְרָהָם לֹא נֶאֱמַר עָלָיו ״יְרֵא אֱלֹהִים״ עַד סוֹף נִסְיוֹנוֹתָיו: ״כִּי עַתָּה יָדַעְתִּי כִּי יְרֵא אֱלֹהִים אַתָּה״.
5 E por causa disto disse a Escritura "e agora, Israel, que é o que o Senhor teu D'us pede de ti senão temer o Senhor teu D'us, a fim de andar em todos os seus caminhos, e amá-lo, e servir o Senhor teu D'us com todo o teu coração e com toda a tua alma, para guardar os mandamentos do Senhor" etc. (Deuteronômio 10:12-13). E a sua explicação é deste modo: que Moisés dizia a Israel a grandeza da abundância das bondades do Senhor; pois, pela estrita lei, seria cabido ao homem temer o Senhor, bendito seja, e andar nos seus caminhos e amá-lo e servi-lo com todo o coração e com toda a alma a fim de alcançar a sua perfeição anímica; e, porque isto é um assunto muito difícil — que chegue o homem ao grau cabido do temor e do amor e do serviço com todo o coração e com toda a alma —, facilitou-lhe o Senhor, bendito seja, pois em lugar de tudo isto ordenou-lhe guardar os estatutos do Senhor e os seus mandamentos apenas, e com isto se alcança a disposição que lhe chega pelo lado do serviço com todo o coração e com toda a alma. E será a explicação do versículo assim: "e agora, Israel, contempla a grandeza da abundância das bondades do Senhor: o que é que ele pede de ti? — pois não pede de ti senão, em lugar do temor do Senhor, bendito seja, e em lugar do andar nos seus caminhos e amá-lo, e em lugar do seu serviço com todo o teu coração e com toda a tua alma — o que eras obrigado a fazer —, não pede senão a guardar os mandamentos do Senhor e os seus estatutos que eu te ordeno hoje, para o bem de ti" (Deuteronômio 10:13) — quer dizer: e tudo isto é para o bem de ti, pois por meio da guarda dos mandamentos da Torá se alcança o fim humano que seria cabido que o homem o alcançasse com grande trabalho e com esforço extraordinário por meio do temor e do amor e do serviço ao Senhor, bendito seja, com todo o seu coração e com toda a sua alma.
״וְעַתָּה יִשְׂרָאֵל מָה ה׳ אֱלֹהֶיךָ שֹׁאֵל מֵעִמָּךְ כִּי אִם לְיִרְאָה... לִשְׁמֹר אֶת מִצְוֹת ה׳״ — תַּחַת הַיִּרְאָה וְהָאַהֲבָה וְהָעֲבוֹדָה, אֵינוֹ שׁוֹאֵל אֶלָּא שְׁמִירַת הַמִּצְוֹת.
6 E entende esta explicação neste versículo, pois ela é muito extraordinária; remove-se com ela a objeção com que objetaram sobre ele quando disseram "acaso é o temor coisa pequena milta zutarta?", e responderam "sim, junto a Moisés é coisa pequena". E esta resposta não é suficiente, pois há para o adversário o que discordar e dizer que não é cabido que diga o rico abastado ao pobre que não tem coisa alguma "que é que peço de ti senão mil moedas de ouro?", porque mil moedas de ouro, para o pobre, são coisa grande e difícil de obter, e não fala o rico nisto corretamente. E, conforme o nosso caminho, explica-se belamente: que não é o Senhor, bendito seja, que pede coisa que é difícil de obter, senão o cumprimento dos mandamentos da Torá, pois a disposição do temor pela qual por meio dela se alcança a perfeição humana decorre do cumprimento dos mandamentos da Torá.
״אַטּוּ יִרְאָה מִלְּתָא זוּטַרְתָּא הִיא?... אִין, לְגַבֵּי מֹשֶׁה מִלְּתָא זוּטַרְתָּא הִיא״ — וְאֵין הַתֵּרוּץ מַסְפִּיק. אֵין הַשֵּׁם שׁוֹאֵל קָשֶׁה אֶלָּא קִיּוּם הַמִּצְוֹת.
7 E assim explicou Davi, a paz esteja sobre ele, e disse "o princípio da sabedoria é o temor do Senhor reshit chochmá yirat Hashem" (Salmos 111:10) — quer dizer que o mais seleto e o fundamental da sabedoria é alcançar o temor do Senhor; pois "reshit" é como "e o melhor reshit dos óleos ungem" (Amós 6:6); e explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, e disseram "'para os que os aprendem' não se disse, senão 'para os que os fazem' le'osehem" etc., a dizer que a feitura dos mandamentos traz ao fim alcançado pelo lado da apreensão haskalá, sobre o qual todos admitem que é o fundamento do fim do homem. E assim acha-se Jó a dizer "eis que o temor do Senhor, ele é a sabedoria" (Jó 28:28) — quer dizer, o fim da sabedoria é alcançar o temor do Senhor. E, por ser esta disposição o fim de todas as disposições que se adquirem da Torá por meio da feitura dos mandamentos, é cabido que nos estendamos nela a explicar o seu assunto no capítulo que vem depois deste.
״רֵאשִׁית חָכְמָה יִרְאַת ה׳״ — ״לְעוֹשֵׂיהֶם נֶאֱמַר וְלֹא לְלוֹמְדֵיהֶם״. ״הֵן יִרְאַת ה׳ הִיא חָכְמָה״ — תַּכְלִית הַחָכְמָה לְהַשִּׂיג יִרְאַת ה׳.
Depois de mostrar (caps. 27-30) que cada mandamento, feito com intenção, gera perfeição, Albo agora revela o fim único a que todos eles servem: fixar na alma a disposição (tekhuná) do temor de D'us (yirat Hashem). Os mandamentos não são fins em si — são o caminho pelo qual o temor se grava na alma, e é esse temor que a "habilita à vida eterna, o bem oculto para os justos". A prova negativa: a Torá ameaça com castigos extraordinários quem não deixa o cumprimento dos mandamentos gerar esse temor ("se não guardares… para temer o Nome honrado e terrível").
Aqui Albo retoma e sela a polêmica antiintelectualista do cap. 3. A objeção é a tese filosófica: não seria a apreensão dos inteligíveis (o conhecimento metafísico) o que conduz à imortalidade, mais que o temor? A resposta vem do Eclesiastes, lido como tratado sobre a imortalidade. Salomão investigou "que vantagem há no trabalho do homem?" e examinou os esforços humanos — incluindo o saber ("pôs o mundo no coração deles", o anseio de conhecer). Conclusão: a ciência é "bela no seu tempo" (mantém os ofícios, dá alegria, orienta a conduta nesta vida) — mas não conduz à vida eterna, pois "às vezes o que se apreende é o oposto da verdade" (o erro dos filósofos, cap. 3). O comer, o beber, o trabalhar, o saber: todos são "dádiva de D'us" para esta vida, mas nenhum traz a permanência eterna.
O versículo-chave é Ecl 3:14: "tudo o que D'us faz será para sempre… e D'us o fez para que O temam". Albo lê com profundidade dupla: o que D'us faz diretamente (sem a natureza corruptível) — como os céus — é permanente; e D'us criou a alma intelectiva para dar-lhe igual permanência, "por meio do temor". O temor é "como a equidade verdadeira (hashivui ha'amiti) sobre a qual não se acrescenta nem se diminui" — o ponto exato que não admite excesso nem falta, e por isso incorruptível, capaz de conferir à alma a perpetuidade. A imortalidade é, assim, decreto da sabedoria divina (não dedução filosófica): "não cabe perguntar a razão" de por que o temor salva — basta saber que assim Ele ordenou.
O ápice exegético do capítulo é a interpretação de Deuteronômio 10:12 — "que pede o Senhor de ti senão temer… amar… servir de todo o coração… guardar os mandamentos". O Talmud objetara: "é o temor coisa pequena (milta zutarta)?" e respondera "para Moisés, sim" — resposta que Albo considera insuficiente (um rico não diria a um pobre "só te peço mil moedas de ouro", pois para o pobre é muito). A solução de Albo é brilhante: o versículo não equipara as exigências, mas as substitui por graça. Pela estrita justiça, o homem deveria alcançar o temor, o amor e o serviço pleno "de todo o coração" — algo arduíssimo. Mas D'us, na sua abundante bondade, pede em lugar disso "apenas guardar os mandamentos" — e por essa via mais acessível a alma adquire a mesma disposição. "Contempla a grandeza da bondade de D'us": ele troca a meta difícil (o temor pleno, atingido só após provações, como Abraão "que só foi chamado 'temente a D'us' no fim das provas") pelo caminho praticável (cumprir as mitzvot) — "tudo isto para o bem de ti".
O capítulo fecha invertendo definitivamente o intelectualismo: "o princípio (reshit) da sabedoria é o temor do Senhor" (Sl 111) — onde reshit significa "o melhor, o fundamental" (como "o melhor dos óleos"). E o midrash decisivo: "'para os que os aprendem' não se disse, mas 'para os que os fazem'" — a prática dos mandamentos é que leva ao fim que o saber buscava. Jó confirma: "eis que o temor do Senhor, ele é a sabedoria" — o telos de toda sabedoria é alcançar o temor. Assim Albo completa o arco de todo o Maamar III sobre os mandamentos: a Torá inteira existe para gravar na alma o temor de D'us, disposição incorruptível que é a verdadeira porta da imortalidade — tema que o capítulo seguinte aprofundará, definindo o que é esse temor.
O temor é o recuo da alma diante de algo que a assusta — e isso de dois modos: o temor do dano (do castigo) e o temor da exaltação (diante do que é grande e sublime, mesmo sem dano). Servir pelo primeiro é "não por seu nome"; servir pelo segundo — o temor louvável de Abraão — é "por seu nome". O intelecto deseja este por natureza; a Torá pôs castigos só para coagir a matéria. O duplo temor de Jó.
O temor é o recuo da alma diante de algo que a assusta — e isso de dois modos: o temor do dano (do castigo) e o temor da exaltação (diante do que é grande e sublime, mesmo sem dano). Servir pelo primeiro é "não por seu nome"; servir pelo segundo — o temor louvável de Abraão — é "por seu nome". O intelecto deseja este por natureza; a Torá pôs castigos só para coagir a matéria. O duplo temor de Jó.
1 O assunto do temor yirá em toda coisa é o recuar da alma para trás e o reunir-se das suas forças a ela quando estima alguma coisa que a apavora; e isto é de dois modos: ou que estime alguma coisa prejudicial e se apavore dela por temor do dano que estima ser possível que chegue dela; ou que estime alguma coisa grande e elevada e exaltada e muito alta e se apavore dela quando contempla a pobreza e a baixeza do seu valor em relação àquela coisa grande, ainda que não estime que lhe chegue um dano daquela coisa e não se tema dela.
הַיִּרְאָה — הִסּוּג הַנֶּפֶשׁ אָחוֹר. שְׁנֵי פָנִים: יִרְאַת הַהֶזֵּק (מִדָּבָר מַזִּיק), וְיִרְאַת הָרוֹמְמוּת (מִדָּבָר גָּדוֹל וְנִשָּׂא, אַף בְּלִי הֶזֵּק).
2 E, quando o homem cumpre os mandamentos em razão do temor que é do primeiro modo — quer dizer, por temor do castigo ou por amor da recompensa —, se chama na língua dos nossos mestres, de abençoada memória, "o que serve não por seu nome" shelo lishmá. Disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Sotá, capítulo "Notel": "sete tipos de separatistas perushin há" etc. — quer dizer que são "não por seu nome" —, e contaram no seu conjunto o separatista por amor, o separatista por temor; e diziam-lhe os rabinos ao tana "não ensines 'o separatista por amor, o separatista por temor', pois disse Rav Iehudá em nome de Rav: sempre se ocupe o homem na Torá e nos mandamentos, mesmo não por seu nome, pois de dentro do não por seu nome vem ao por seu nome"; e explicou Rashi, de abençoada memória, "por amor e por temor" — a saber por amor da recompensa e por temor do castigo. Eis que está manifesto que aquele que se ocupa na Torá e nos mandamentos por amor da recompensa e por temor do castigo se chama "o que se ocupa na Torá não por seu nome".
הַמְקַיֵּם מִיִּרְאַת הָעֹנֶשׁ אוֹ מֵאַהֲבַת הַשָּׂכָר — ״עוֹבֵד שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ״. ״מִתּוֹךְ שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ בָּא לִשְׁמָהּ״.
3 E, contudo, aquele que cumpre os mandamentos por temor do Senhor e por seu amor e por estar submisso aos seus mandamentos — ele é o que chamaram os nossos mestres, de abençoada memória, "o que se ocupa na Torá por seu nome" lishmá —, quer dizer que não cumpre os mandamentos por temor do castigo e por amor da recompensa, mas porque representa no seu coração a exaltação do Senhor e o seu grau, e por causa disto está submisso a fazer a sua vontade — que é o temor do segundo modo que dissemos. E ela é o temor verdadeiro com que se louvou Abraão, nosso pai, a paz esteja sobre ele, a quem se disse "agora soube que temente a D'us és tu" (Gênesis 22:12); e ela é a disposição última a que o homem chega por meio dos mandamentos da Torá. Pois, quando contempla o homem e inteligencia e sabe que o Senhor, bendito seja, atenta sobre o seu oculto e sobre o seu manifesto, e discerne a sua inferioridade e a pobreza do seu intelecto e a grandeza da exaltação do Senhor e o seu grau, apavora-se diante dele com grande pavor e se envergonha de transgredir os seus mandamentos e de não fazer a sua vontade — como se envergonha o homem de fazer uma coisa não-decente diante de um príncipe honrado, ancião e elevado de face e sábio dos sábios, unanimemente concordado como perfeito na perfeição da sabedoria e das qualidades e do grau; pois, ainda que estime o homem que não lhe chegará dano ao transgredir o seu mandamento, eis que ele, sem dúvida, se envergonhará e se humilhará e se apavorará com um pavor muito grande de rebelar-se diante dos olhos da sua glória.
הַמְקַיֵּם מִיִּרְאַת הָרוֹמְמוּת — ״עוֹבֵד לִשְׁמָהּ״; הַיִּרְאָה הָאֲמִתִּית שֶׁל אַבְרָהָם, ״עַתָּה יָדַעְתִּי כִּי יְרֵא אֱלֹהִים אַתָּה״ — כְּבוֹשׁ מִשַּׂר נִכְבָּד אַף בְּלִי פַחַד נֵזֶק.
4 E esta espécie de temor, que é o temor louvável, ela é a que a natureza do intelecto anseia, porque toda coisa anseia por aquilo que é da sua natureza e semelhante a ela; e, assim como anseia todo homem por cumprir os desejos do homem perfeito, o piedoso, e por fazer o seu serviço com coração inteiro e com alma desejosa, sem esperança de recompensa e sem temor de castigo, assim o intelecto anseia por fazer e por cumprir a vontade do Senhor, bendito seja, pois é coisa natural a ele. E por causa disto é que dizia o sábio "Senhor do mundo, revelado e sabido é diante de ti que a nossa vontade é fazer a tua vontade; e quem impede? O fermento que está na massa se'or shebe'isá" etc. — quer dizer que é coisa correta pelo lado da natureza do intelecto, pois o intelecto decreta o submeter-se do inferior ao nobre, já que por este lado se submeteram os viventes à espécie do homem; mas a natureza da matéria e a má inclinação yétzer hará, que é o fermento que está na massa, se opõe a isto e pensa em fazer o mal e em rebelar-se sempre e em desdenhar a grande glória; e por causa disto foram postos na Torá os castigos a fim de coagir a natureza da matéria e as forças materiais a servir o Senhor, bendito seja, por temor do castigo — não porque isto seja preciso para coagir o intelecto, pois é coisa natural a ele o servir o Senhor, bendito seja, e submeter-se a ele sem o temor do castigo e o amor da recompensa. E por isso eram estas duas espécies de temor necessárias ao homem a fim de que alcance a sua perfeição: a uma pelo lado da matéria, e a outra pelo lado do intelecto.
הַיִּרְאָה הַמְשֻׁבַּחַת — טֶבַע הַשֵּׂכֶל יִכְסֹף אֵלֶיהָ. ״רְצוֹנֵנוּ לַעֲשׂוֹת רְצוֹנְךָ, וּמִי מְעַכֵּב? שְׂאוֹר שֶׁבָּעִסָּה״. הָעֳנָשִׁים — לְהַכְרִיחַ הַחֹמֶר.
5 E achas Jó a louvar a si mesmo com estas duas espécies de temor, e a dizer que se acautelava de fazer o mal aos olhos do Senhor, bendito seja, por temor do castigo, e que fazia as coisas agradáveis junto ao Senhor, bendito seja, pelo lado da submissão a ele, por sua exaltação e o seu enaltecimento e o seu grau; disse "pois um pavor a mim é a calamidade de D'us, e diante da sua majestade se'eto não me posso" (Jó 31:23). Disse "pois um pavor a mim é a calamidade de D'us" para aludir ao temor do castigo, e "diante da sua majestade não posso" para aludir ao temor da exaltação e do enaltecimento não-finito — quer dizer: quando estimo o seu enaltecimento, não posso transgredir as suas palavras a fim de não fazer a sua vontade, pois eu me envergonho diante dele de fazer o mal aos seus olhos, fora do pavor com que me apavoro do seu castigo, ao qual aludiu primeiro ao dizer "a calamidade de D'us".
״כִּי פַחַד אֵלַי אֵיד אֵל וּמִשְּׂאֵתוֹ לֹא אוּכָל״ — ״אֵיד אֵל״ יִרְאַת הָעֹנֶשׁ, ״מִשְּׂאֵתוֹ לֹא אוּכָל״ יִרְאַת הָרוֹמְמוּת.
6 E assim achas também Jó, quando repreendia os seus companheiros e lhes disse que falavam uma coisa na boca e outra no coração e que lisonjeavam o Senhor, bendito seja, com palavras de falsidade, disse-lhes "acaso por D'us falareis iniquidade, e por ele falareis engano? Acaso a sua face levantareis, ou por D'us contendereis? Será bom que ele vos esquadrinhe? Acaso, como se zomba do homem, zombareis dele? Repreender vos repreenderá, se em segredo a sua face levantardes. Acaso não é a sua majestade que vos aterroriza, e não é o seu pavor que cai sobre vós?" (Jó 13:7-11). Disse "a sua majestade se'eto vos aterroriza" sobre o temor que chega ao homem pelo lado do enaltecimento do Senhor e da sua exaltação e de que ele atenta sobre o seu oculto e o seu manifesto, pois isto aterroriza o homem de falar iniquidade ou engano; e disse "e o seu pavor cai sobre vós" na consideração do pavor e do temor que chega ao homem por medo do castigo, que é pelo lado da matéria; e por isso juntou a isto "a vossa memória são provérbios de cinza, como dorsos de barro são os vossos dorsos" (Jó 13:12) — quer dizer: quando recordardes que sois comparados à cinza e que sois possuidores de matéria, tendes como temer do Senhor destes dois modos que dissemos. E este é o assunto da representação do temor com que é cabido ao homem temer do Senhor, aquele sobre o qual se chama o homem "temente a D'us".
״הֲלֹא שְׂאֵתוֹ תְּבַעֵת אֶתְכֶם וּפַחְדּוֹ יִפֹּל עֲלֵיכֶם״ — ״שְׂאֵתוֹ״ יִרְאַת הָרוֹמְמוּת, ״פַחְדּוֹ״ יִרְאַת הָעֹנֶשׁ. ״זִכְרֹנֵיכֶם מִשְׁלֵי אֵפֶר״.
Tendo estabelecido (cap. 31) que o temor de D'us é o fim de toda a Lei e a porta da imortalidade, Albo precisa agora definir esse temor. Começa por uma fenomenologia precisa: o temor (yirá) é o "recuo da alma para trás, o reunir-se das suas forças" diante do que a assusta. E distingue dois modos radicalmente diferentes: (1) o temor do dano — recuar de algo prejudicial, por medo do mal que pode causar; (2) o temor da exaltação — recuar diante de algo grande e sublime, ao perceber a própria pequenez em comparação, mesmo sem qualquer ameaça de dano. É a diferença entre temer o fogo e ficar pasmo diante de uma montanha imensa.
Albo mapeia essa distinção sobre a terminologia rabínica clássica. Quem cumpre as mitzvot pelo primeiro temor (medo do castigo) — ou pelo amor da recompensa — serve "não por seu nome" (shelo lishmá). Albo cita Sotá: dos "sete separatistas" (perushin), o "separatista por temor" e o "por amor" (de recompensa) são formas inferiores — embora válidas, pois "de dentro do não-por-seu-nome vem o por-seu-nome". Quem cumpre pelo segundo temor — submisso à exaltação de D'us, não ao medo — serve "por seu nome" (lishmá). Este é o temor verdadeiro, "a disposição última que o homem alcança", e foi o louvor de Abraão: só após a Aqedá foi chamado "temente a D'us".
A descrição psicológica do temor superior é finíssima: quem contempla que D'us "atenta sobre o seu oculto e o seu manifesto", e percebe "a pobreza do seu intelecto" diante "da grandeza da exaltação de D'us", envergonha-se de transgredir — como alguém se envergonharia de agir indignamente diante de um sábio venerável "ainda que soubesse que nenhum dano lhe viria". O temor maduro não é medo da punição, mas pudor reverente diante da majestade — a vergonha de desapontar o Sublime.
A explicação metafísica é a chave do capítulo. O temor da exaltação é o que o intelecto deseja por natureza — pois "tudo anseia pelo que lhe é semelhante", e ao intelecto é natural submeter-se ao nobre (como os animais se submetem ao homem). Daí a oração do sábio: "Senhor, é revelado que a nossa vontade é fazer a Tua vontade — e quem impede? O fermento na massa (se'or shebe'isá)", isto é, a inclinação ao mal enraizada na matéria. O intelecto serviria a D'us espontaneamente, sem precisar de ameaças; mas a matéria resiste, "pensa em rebelar-se e desdenhar". Por isso a Torá pôs castigos — não para coagir o intelecto (que não precisa), mas para coagir a matéria e as forças corporais. Ambos os temores são, assim, necessários ao homem composto de intelecto e matéria: o temor da exaltação eleva o intelecto, o temor do castigo doma o corpo.
Albo sela com uma dupla leitura de Jó. Jó louva-se de ambos os temores em Jó 31:23 — "a calamidade de D'us (eid El) é um pavor para mim" (o temor do castigo) "e diante da sua majestade (se'eto) não posso" (o temor da exaltação: "quando estimo o seu enaltecimento, não posso transgredir, pois me envergonho"). E, ao repreender os amigos hipócritas (Jó 13:11), distingue de novo: "a sua majestade (se'eto) vos aterroriza" (temor da exaltação, que impede de falar engano) "e o seu pavor (pachdó) cai sobre vós" (temor do castigo, do lado da matéria) — concluindo "lembrai-vos que sois pó e barro": precisamente porque sois matéria, deveis temer dos dois modos. Com esta análise dupla, Albo entrega a definição plena do "temente a D'us": aquele em quem o intelecto reverencia a majestade divina e a matéria é domada pelo temor — disposição que, gravada pela prática dos mandamentos, é o verdadeiro fim do homem.
A alegria dá acabamento e perfeição ao mandamento: o mesmo ato feito com alegria é virtude, feito com tristeza é vileza. A Torá ameaça com castigo quem não serve a D'us "com alegria". Mas como conciliar alegria e temor, que parecem opostos? Albo resolve: alegrar-se do próprio temor é sinal de saúde da alma — "servi ao Senhor com temor e exultai com tremor".
A alegria dá acabamento e perfeição ao mandamento: o mesmo ato feito com alegria é virtude, feito com tristeza é vileza. A Torá ameaça com castigo quem não serve a D'us "com alegria". Mas como conciliar alegria e temor, que parecem opostos? Albo resolve: alegrar-se do próprio temor é sinal de saúde da alma — "servi ao Senhor com temor e exultai com tremor".
1 A coisa que dá perfeição ao mandamento, a fim de que se alcance por meio dele o fim visado nele, é a alegria simchá; pois a alegria dá acabamento e perfeição à coisa feita, até que a uma e a mesma ação, quando é feita com alegria e com bom coração, se chama uma virtude ma'alá, e quando é feita com tristeza se chama uma vileza pechitut; e isto é coisa que se explicou no segundo Maamar do livro das Qualidades Ética de Aristóteles, pois o generoso, quando faz um ato de generosidade e está alegre naquele ato, se chama uma virtude, e, se o fizer com tristeza, se chama uma vileza. E assim acha-se a Escritura a prometer a recompensa pela feitura da caridade tsedaká com alegria, disse "dar darás a ele, e não se entristecerá o teu coração ao dares a ele, pois em razão desta coisa biglal hadavar hazé te abençoará o Senhor teu D'us" (Deuteronômio 15:10) — dependurou a bênção do "não se entristecerá o teu coração", e não do "dar darás a ele".
הַשִּׂמְחָה נוֹתֶנֶת גְּמַר וּשְׁלֵמוּת אֶל הַמַּעֲשֶׂה. ״וְלֹא יֵרַע לְבָבְךָ בְּתִתְּךָ לוֹ כִּי בִּגְלַל הַדָּבָר הַזֶּה יְבָרֶכְךָ ה׳״ — תָּלָה הַבְּרָכָה בְּ״לֹא יֵרַע לְבָבְךָ״.
2 E explica-se isto com uma explicação mais completa deste modo. Não há dúvida de que a ação mais nobre e mais elevada é cabido que se receba sobre ela recompensa do Senhor por sua feitura, e o castigo sobre o seu oposto, conforme o caminho torático; e não há no mundo uma ação mais nobre e mais elevada da qual seja cabido que se receba sobre ela recompensa, conforme a verdade em si mesma e conforme o consenso de todos os homens, senão o serviço do Senhor, bendito seja. E acha-se a Escritura a prometer o castigo grande sobre quem não serve o Senhor, bendito seja, com alegria; disse Moisés no Deuteronômio "em razão de que não serviste o Senhor teu D'us com alegria e com bom coração, na abundância de tudo, então servirás os teus inimigos" etc. (Deuteronômio 28:47-48) — dependurou o castigo de que não serviu o Senhor, bendito seja, com alegria, não de que não serviu de modo absoluto.
3 E o assunto do versículo indica que a sua explicação é assim, pois não é possível que se diga que o castigo chega a ele porque não o serviu enquanto estava em alegria — pois, se fosse assim, decorreria que não estaria o homem obrigado a servir o Senhor, bendito seja, quando não estivesse em alegria e na abundância de tudo; e disto se vê que o cumprimento do mandamento com alegria dá acabamento e perfeição ao mandamento. E por isso achas o salmista a advertir sobre o serviço do Senhor, bendito seja, de que seja com alegria, disse "servi o Senhor com alegria, vinde diante dele com cântico" (Salmos 100:2). E, conforme isto, é cabido que perguntemos: se o serviço do Senhor, bendito seja, é impossível que se alcance na perfeição a não ser se for com alegria e com bom coração — e já se explicou no capítulo passado que o fundamento do serviço do Senhor, bendito seja, é cabido que seja com temor, e o temor é coisa que apavora o coração e o entristece —, como é possível que seja o serviço do Senhor, bendito seja, alcançado com tristeza e alegria juntas, com o facto de serem elas opostas?
״תַּחַת אֲשֶׁר לֹא עָבַדְתָּ אֶת ה׳ אֱלֹהֶיךָ בְּשִׂמְחָה... וְעָבַדְתָּ אֶת אֹיְבֶיךָ״ — תָּלָה הָעֹנֶשׁ עַל שֶׁלֹּא עָבַד בְּשִׂמְחָה. וְאֵיךְ הַשִּׂמְחָה וְהַיִּרְאָה יַחַד?
4 E a solução desta dúvida é deste modo: que toda força das forças do homem, quando faz a sua ação como é cabido, indica isto sobre a perfeição daquela força, e, quando não faz a sua ação conforme o que é cabido, indica isto sobre a deficiência daquela força ou sobre a deficiência da sua saúde. E, assim como é uma perfeição no homem que não se tema do que não é cabido temer, assim é uma perfeição a ele que tema do que é cabido temer, e, se não se temer do que é cabido que tema, é uma deficiência a ele; pois quem não se teme de meter a sua mão no fogo, isto indica ou sobre a confusão do seu intelecto, ou sobre a anulação do sentido da sua mão — como disse Hipócrates no segundo Maamar do livro dos Aforismos: "quem tem dor em alguma coisa do seu corpo e não sente a sua dor, na maioria dos seus casos o seu intelecto está confuso". E assim a alma, ao estar ela temente e apavorada do que é cabido que se apavore, indica isto sobre a sua saúde e a perfeição do seu intelecto; e, quando cresce a excelência da alma e a perfeição do seu intelecto, assim estima mais o enaltecimento do Senhor, bendito seja, e a sua exaltação, e se apavora dele mais, e teme transgredir as suas palavras.
שְׁלֵמוּת בָּאָדָם שֶׁיִּפְחַד מִמַּה שֶּׁרָאוּי, כְּמִי שֶׁאֵינוֹ פּוֹחֵד לְהַכְנִיס יָדוֹ בָּאֵשׁ — שִׂכְלוֹ מְעֻרְבָּב. הַנֶּפֶשׁ הַיְרֵאָה מִמַּה שֶּׁרָאוּי — בְּרִיאָה.
5 E, quando acha o homem na sua alma este grau do temor, é cabido que esteja regozijado e alegre naquele temor, porque isto indica sobre a saúde da sua alma e a perfeição do seu intelecto. E, para despertar sobre isto, explicou Davi noutro lugar que o que disse "servi o Senhor com alegria" não é que seja o serviço com riso e leviandade e no caminho dos vulgares, mas é cabido que seja o serviço com temor; disse "servi o Senhor com temor, e exultai com tremor vegilu bir'adá" (Salmos 2:11), quer dizer que o fundamento do serviço do Senhor, bendito seja, é cabido que seja com temor e tremor, quando estima a alma a exaltação do Senhor e o seu enaltecimento e se teme dele ao estar ela a discernir a baixeza do seu valor e a grandeza do seu grau; e que exulte e se alegre naquele temor e naquele tremor, em razão de que estimou a coisa terrível da qual é cabido temer — pois isto indica sobre a sua perfeição e a saúde do seu intelecto. E nesta exultação que se alcança será o vosso serviço perfeito; e por isso disse "e exultai com tremor", para indicar que a alegria dá acabamento e perfeição ao serviço.
״עִבְדוּ אֶת ה׳ בְּיִרְאָה וְגִילוּ בִּרְעָדָה״ — שֶׁיָּגִיל וְיִשְׂמַח בְּאוֹתָהּ הַיִּרְאָה, שֶׁמּוֹרֶה עַל בְּרִיאוּת נַפְשׁוֹ. הַשִּׂמְחָה נוֹתֶנֶת גְּמַר אֶל הָעֲבוֹדָה.
6 E assim a alegria dá perfeição e permanência à coisa; disse Davi "herdei os teus testemunhos para sempre, pois a alegria do meu coração são eles" (Salmos 119:111) — quer dizer que, porque a Torá se divide em três partes, em juízos mishpatim e testemunhos edot e estatutos chukim, e sobre os juízos disse "jurei e o cumprirei, a fim de guardar os juízos da tua justiça" (Salmos 119:106), para indicar que os juízos, a sua perfeição está pelo lado de serem eles coisas existentes em ato, e por isso disse neles "e o cumprirei va'akayemá" — disse agora que os testemunhos, que são as opiniões e as coisas que vieram na Torá que concordam com o inteligível ou com o sensível, porque o intelecto os recebe com alegria, e a alegria é a causa da sua permanência na alma, por isso disse "herdei os teus testemunhos para sempre" etc.
7 Mas os estatutos, que são as coisas que vieram na Torá com as quais o intelecto não concorda — como a comida do porco e a vestidura de tecido misto e outras além delas, do que não tem razão sabida —, porque o intelecto não os recebe com alegria, e se precisa submeter o intelecto a fim de que concorde na sua feitura com alegria, por isso disse "inclinei o meu coração a fazer os teus estatutos para sempre, como consequência ékev" (Salmos 119:112) — quer dizer: inclinei e coagi o meu intelecto à força a fazê-los, e isto pelo lado da esperança da recompensa eterna esperada na sua feitura, e isto é "para sempre, como consequência"; e pelo lado da recompensa se alegra neles, e pelo lado da alegria decorre a permanência à alma neles. E sobre isto é que Davi se louvava a si mesmo e dizia "exulto eu sobre a tua palavra imratecha como quem acha grande despojo" (Salmos 119:162) — quer dizer que a alegria nos estatutos, que não é pelo lado de si mesmos mas pelo lado de que são a tua palavra, eu me alegro no seu cumprimento com alegria grande, como quem acha grande despojo.
״נָחַלְתִּי עֵדְוֹתֶיךָ לְעוֹלָם כִּי שְׂשׂוֹן לִבִּי הֵמָּה״ (עֵדוֹת — שֶׁהַשֵּׂכֶל מְקַבְּלָם). ״נָטִיתִי לִבִּי לַעֲשׂוֹת חֻקֶּיךָ״ (חֻקִּים — מִצַּד הַשָּׂכָר). ״שָׂשׂ אָנֹכִי עַל אִמְרָתְךָ כְּמוֹצֵא שָׁלָל רָב״.
8 Mas, a fim de distinguir entre a alegria que há nos estatutos, que é pelo lado da recompensa esperada apenas, e a alegria que o homem alcança nos testemunhos, que são as coisas com as quais o intelecto concorda, disse noutro lugar "no caminho dos teus testemunhos exultei como sobre toda a riqueza" (Salmos 119:14) — quer dizer, uma alegria não-finita, pois a expressão "toda a riqueza" inclui todo o dinheiro que há no mundo, do que é impossível que se estime mais do que ele.
״בְּדֶרֶךְ עֵדְוֹתֶיךָ שַׂשְׂתִּי כְּעַל כָּל הוֹן״ — שִׂמְחָה בִּלְתִּי בַּעֲלַת תַּכְלִית, כִּי הַשֵּׂכֶל מַסְכִּים לָעֵדוֹת.
9 E tudo isto indica que a alegria é a causa da permanência da coisa na alma e a que dá acabamento e perfeição à ação, seja qual ação for — até que mesmo o agente do mal, a fim de que chegue à perfeição do seu fim, é cabido que o faça com alegria. Disse a Escritura, a prometer o mal sobre os inimigos de Israel por sua transgressão das palavras da Torá: "e será que, assim como o Senhor se regozijou sobre vós para fazer-vos bem e multiplicar-vos, assim se regozijará o Senhor sobre vós para fazer-vos perecer e exterminar-vos" etc. (Deuteronômio 28:63) — quer dizer que o Senhor, bendito seja, fará com que o agente do mal esteja regozijado e alegre na feitura daquele mal, a fim de que se faça com perfeição. Mas, a fim de que não se entenda que o Senhor, bendito seja, que é um bem completo, se alegra na feitura do mal, disse a Escritura "assim se regozijará ken yassis", que é do gênero da construção causativa hif'il e é um verbo transitivo, e quer dizer que o Senhor, bendito seja, fará com que o agente do mal esteja alegre — mas ele, bendito seja, não se alegra na feitura do mal, longe disso; e já advertiu Salomão sobre isto, "ao cair o teu inimigo, não te alegres" (Provérbios 24:17), e disse o profeta "não te alegres, ó filhos de Judá Edom, no dia da sua perdição" (Obadias 1:12) — do que se vê que é uma deficiência o alegrar-se na ação má.
10 E, contudo, na ação boa dependurou a alegria nele, bendito seja, e não disse "se regozijará yassis" — que é verbo transitivo —, mas disse "pois voltará o Senhor a regozijar-se lassus sobre ti para o bem, como se regozijou sobre os teus pais" (Deuteronômio 30:9), que é do gênero do verbo simples kal e é um verbo intransitivo. E, para indicar que a alegria dá perfeição à ação, disse Salomão "é alegria para o justo simchá latzadik praticar o juízo, e é terror para os obreiros da iniquidade" (Provérbios 21:15) — quer dizer que o justo, porque se alegra na feitura do juízo, sai o juízo corrigido de debaixo da sua mão; mas os obreiros da iniquidade, porque estão tristes na feitura do juízo, já que ele é terror para eles, por força que sai de debaixo da sua mão um juízo torcido, depois de que não estão alegres na sua feitura.
״כֵּן יָשִׂישׂ ה׳ עֲלֵיכֶם״ (הִפְעִיל — יוֹצֵא) — שֶׁיְּסַבֵּב שֶׁפּוֹעֵל הָרַע יִשְׂמַח, אֲבָל הוּא אֵינוֹ שָׂמֵחַ בָּרַע. ״שִׂמְחָה לַצַּדִּיק עֲשׂוֹת מִשְׁפָּט״.
Se o capítulo anterior estabeleceu o temor como o fim da Lei, este acrescenta o seu complemento indispensável: a alegria (simchá). A tese é que a alegria "dá acabamento e perfeição" ao mandamento — o mesmo ato é virtude quando feito com alegria e vileza quando feito com tristeza. Albo invoca explicitamente a Ética a Nicômaco de Aristóteles (livro II): o generoso que dá com alegria é virtuoso; o que dá com pesar, não. E a Escritura confirma de modo preciso: a bênção da caridade depende não do "dar darás" mas do "não se entristecerá o teu coração" (Dt 15:10) — é a disposição alegre, não o gesto isolado, que atrai a recompensa.
A prova mais forte é teológica: a Torá ameaça com a maldição máxima — "servirás os teus inimigos" — não quem deixa de servir a D'us, mas quem "não O serviu com alegria e bom coração" (Dt 28:47). Albo demole a leitura ingênua (de que o castigo seria por não servir "enquanto próspero") — pois isso isentaria o pobre de servir. O sentido só pode ser: servir sem alegria é falha punível, porque a alegria é parte constitutiva do serviço perfeito. Daí "servi ao Senhor com alegria" (Sl 100).
Surge então a contradição aguda entre os dois capítulos: o cap. 32 disse que o serviço deve ser com temor — que "apavora e entristece o coração"; este capítulo exige alegria. Como conciliar afetos opostos? A solução de Albo é uma das mais belas do livro, e psicologicamente profunda: temer o que se deve temer é sinal de saúde da alma. Toda faculdade que funciona bem indica sua perfeição; assim como não temer meter a mão no fogo revela "confusão do intelecto" ou anestesia (Albo cita Hipócrates: quem não sente a própria dor tem o intelecto perturbado), temer diante do verdadeiramente temível revela uma alma sã. Quanto mais perfeito o intelecto, mais percebe a exaltação de D'us e mais O teme.
A chave que dissolve a contradição: quando a pessoa encontra em si esse temor reverente, deve alegrar-se dele — pois ele atesta a saúde de sua alma. A alegria não substitui o temor nem o contradiz; ela é a alegria de estar temendo corretamente. Davi cifra isso em "servi ao Senhor com temor e exultai com tremor" (Sl 2:11): o serviço não é "riso e leviandade dos vulgares", mas temor — e a exultação nesse mesmo tremor, pela consciência de ter percebido o Sublime. Assim "exultai com tremor" significa que a alegria completa o temor, e o temor dignifica a alegria. Os dois afetos, longe de se excluírem, encaixam-se: alegro-me porque temo bem.
Albo refina com a tripartição do cap. 24, lida em Salmos 119. Os juízos (mishpatim) se cumprem "em ato" ("jurei e cumprirei"). Os testemunhos (edot — as verdades que o intelecto aceita) o intelecto recebe com alegria espontânea, e essa alegria os "herda para sempre" (a alegria garante a permanência na alma) — alegria "infinita, como sobre toda a riqueza". Os estatutos (chukim — porco, sha'atnez, sem razão acessível) o intelecto não aceita de bom grado; é preciso "inclinar e coagir o intelecto" a cumpri-los com alegria, alegria que vem da recompensa esperada ("inclinei meu coração… para sempre, como consequência") — e mesmo essa é alegria genuína: "exulto na tua palavra como quem acha grande despojo". A gradação é sutil: nos testemunhos a alegria é direta e ilimitada; nos estatutos, mediada pela obediência amorosa.
O fecho é gramaticalmente brilhante. A alegria é tão essencial à perfeição de qualquer ato que até a punição dos ímpios deve ser feita "com alegria" para se completar — "assim se regozijará (ken yassis) o Senhor sobre vós para vos fazer perecer" (Dt 28:63). Mas como D'us, "o bem completo", se alegraria com o mal? Albo resolve pela morfologia: yassis é hif'il (causativo, transitivo) — D'us faz com que o executor do castigo se alegre, mas Ele próprio "não se alegra no mal" (cf. "não te alegres ao cair o teu inimigo", Pv 24:17). Ao contrário, na ação boa a alegria é atribuída diretamente a D'us — "voltará o Senhor a regozijar-se (lassus) sobre ti para o bem" (Dt 30:9), forma kal (simples, intransitiva). A distinção causativo/intransitivo grava na própria gramática a verdade teológica: D'us alegra-se no bem, mas só induz a alegria no agente do mal. E o selo: "alegria para o justo é praticar o juízo" (Pv 21:15) — o juiz que julga com alegria produz sentença reta; o que julga com pesar, sentença torta. A alegria não é adorno do serviço — é o que o torna íntegro e eficaz.
Como o temor pode coexistir com a alegria? Pela mesma razão pela qual suportamos de bom grado o esforço por um grande fim. Quem busca a Torá "como prata e como tesouros escondidos" alegra-se na própria fadiga — e quem chega a esse grau é chamado "o que serve por amor", não só "temente a D'us". E o temor de D'us, ao contrário do temor humano, prolonga a vida e não a encurta.
Como o temor pode coexistir com a alegria? Pela mesma razão pela qual suportamos de bom grado o esforço por um grande fim. Quem busca a Torá "como prata e como tesouros escondidos" alegra-se na própria fadiga — e quem chega a esse grau é chamado "o que serve por amor", não só "temente a D'us". E o temor de D'us, ao contrário do temor humano, prolonga a vida e não a encurta.
1 Porque o assunto do temor do Senhor, bendito seja, é o fundamento do serviço com que o homem serve o Senhor, bendito seja, na feitura do mandamento, como dissemos, e porque explicámos que o fundamento do serviço é cabido que seja com alegria, e porque a representação do temor com a alegria é coisa muito difícil, é cabido que alarguemos a fala nisto, a fim de que se entenda o assunto com uma compreensão boa pelo que serve a D'us — como é possível que seja aquele que teme regozijado e alegre, com o facto de o temor e o tremor quebrarem o coração e entristecerem-no.
הַיִּרְאָה עִקַּר הָעֲבוֹדָה, וְהָעֲבוֹדָה רְאוּיָה בְּשִׂמְחָה — אֵיךְ הַיָּרֵא שָׂשׂ וְשָׂמֵחַ עִם הֱיוֹת הַיִּרְאָה וְהָרְעָדָה שׁוֹבְרִים הַלֵּב?
2 E dizemos que não há dúvida de que todo homem, o seu intelecto julga ser cabido a ele suportar trabalho e fadiga grande por algum tempo a fim de alcançar alguma excelência ou uma honra grande; e, ainda que, enquanto suporta aquela fadiga ou aquele trabalho, se aflija e se entristeça sem dúvida, mas, quando estima na sua alma a honra grande ou aquela excelência esperada de alcançar por meio daquela fadiga, põe toda aquela fadiga e aquele trabalho como nada em face daquele bem esperado. E assim é o assunto, ele mesmo, no temor do Senhor, bendito seja, que dissemos; pois, ao estar o homem a estimar a grandeza do grau alcançado por meio do temor — que é, quando estima a sua alma a grandeza da exaltação do Senhor, bendito seja, e o seu grau, até que se teme e se apavora dele —, não se importa com toda a fadiga e a tristeza e o pavor que chegam a ele por meio do temor.
כָּל אָדָם יִסְבֹּל עָמָל גָּדוֹל כְּדֵי לְהַשִּׂיג מַעֲלָה — וְיָשִׂים הָעָמָל כְּאַיִן לְעֻמַּת הַטּוֹב הַמְקֻוֶּה. כֵּן בְּיִרְאַת הַשֵּׁם, לֹא יָחוּשׁ לְכָל הַטֹּרַח.
3 E acha-se Salomão a comparar a isto uma comparação muito nobre e concordante com o que dissemos, disse "se a buscares como a prata, e como a tesouros escondidos a procurares, então entenderás o temor do Senhor" etc. (Provérbios 2:4-5). E a sua explicação é: que, porque há na extração da prata da sua mina uma fadiga muito grande — porque sai misturada com as águas —, e assim o homem a quem se diz que há na sua casa um tesouro grande, eis que ele o cava com alegria muito grande e o procura com diligência, ainda que, ao cavar o tesouro ou ao achar da prata, ele suporte uma fadiga grande e um trabalho abundante e às vezes bata o seu dedo ou o seu pé ou a sua canela e se aflija muito; e não há dúvida de que, ainda que se aflija muito naquela pancada e se entristeça, eis que, quando estima o fim alcançado — que é o tesouro ou a prata —, ele se alegra no seu coração e suporta toda a aflição e a fadiga com bom semblante e com alegria grande. Assim, deste modo, é cabido que se entenda o trabalho e o temor e o pavor e o tremor que o homem alcança no temor do Senhor, bendito seja — de que é cabido que se alegre nele com alegria grande, ao estar ele a estimar a grandeza da excelência do fim alcançado, que é a submissão ao Senhor, bendito seja, e o serviço a ele, que é o fim do temor. E isto é o que disse "se a buscares como a prata, e como a tesouros escondidos a procurares, então entenderás o temor do Senhor" — quer dizer: quando suportares toda a fadiga com bom semblante, como aquele que cava o tesouro e como aquele que extrai a prata, então entenderás o temor do Senhor — pois sobre aquele mesmo modo é cabido que estejas regozijado e alegre na fadiga e no trabalho e na aflição que te chegam no serviço do Senhor, bendito seja.
״אִם תְּבַקְשֶׁנָּה כַכָּסֶף וְכַמַּטְמוֹנִים תַּחְפְּשֶׂנָּה אָז תָּבִין יִרְאַת ה׳״ — כְּחוֹפֵר מַטְמוֹן שֶׁסּוֹבֵל הַטֹּרַח בְּשִׂמְחָה לְעֻמַּת הַתַּכְלִית.
4 E, porque não é todo homem que pode alcançar este grau, ao que chega a ele se chama "o que serve por amor" oved me'ahavá, e não apenas "temente a D'us"; pois eis que a Abraão se disse no fim das suas provações "agora soube que temente a D'us és tu", e no entanto chamou-o a Escritura "o que ama" ohev, e disse sobre Israel "semente de Abraão, aquele que me ama" (Isaías 41:8). E disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "os que fazem por amor e se alegram nos sofrimentos — sobre eles diz a Escritura 'e os que o amam são como o sair do sol na sua força' (Juízes 5:31)"; pois quem é o que ama o Senhor, bendito seja, não se importa com toda a fadiga e o trabalho e os sofrimentos que lhe chegam do seu serviço, bendito seja. E assim achas que, quando se revelou o Senhor, bendito seja, sobre Abraão primeiro, disse-lhe "vai-te da tua terra e da tua pátria" etc. (Gênesis 12:1), para prová-lo e habituá-lo a suportar por causa dele a fadiga e o trabalho grande que há na peregrinação; e, porque se manteve firme nas suas provações com alegria e com bom coração, chamou-o a Escritura "o que ama". E tudo isto é do que indica que o suportar a fadiga e o trabalho no serviço do Senhor, bendito seja, com alegria dá perfeição ao serviço e ao temor.
הַמַּגִּיעַ לְזֶה הַמַּדְרֵגָה — ״עוֹבֵד מֵאַהֲבָה״. ״זֶרַע אַבְרָהָם אֹהֲבִי״. ״עוֹשִׂין מֵאַהֲבָה וּשְׂמֵחִין בַּיִּסּוּרִין — וְאֹהֲבָיו כְּצֵאת הַשֶּׁמֶשׁ בִּגְבֻרָתוֹ״.
5 E isto é: que não é o temor do Senhor como o temor de carne e sangue; pois quem teme dalgum homem, ou dum rei, ou dum príncipe, está sempre em pavor e tremor, e isto é a causa do encurtamento dos seus dias; mas ao que teme do Senhor — não só que o pavor não encurta os seus dias, mas que acrescenta dias; disse Salomão "o temor do Senhor acrescenta dias" (Provérbios 10:27); e os ímpios, que não têm o temor do Senhor — não só que não prolongam os dias, mas que "os anos dos ímpios se encurtam" (Provérbios 10:27).
אֵין יִרְאַת הַשֵּׁם כְּיִרְאַת בָּשָׂר וָדָם, שֶׁמְּקַצֶּרֶת יָמִים. ״יִרְאַת ה׳ תּוֹסִיף יָמִים וּשְׁנוֹת רְשָׁעִים תִּקְצֹרְנָה״.
6 E assim, ainda que seja do caminho do temeroso e do mole de coração gerar filhos moles de coração como ele, e que não enriqueça nem se erga a sua riqueza — pois, ao estar ele sempre a temer, não fará o seu desejo como é cabido —, disse Davi "feliz o homem que teme o Senhor, que nos seus mandamentos se compraz muito; poderoso na terra será a sua semente" etc. (Salmos 112:1-2) — quer dizer: feliz o que teme o Senhor, pois não lhe adquire aquela disposição do temor a moleza do coração, mas a valentia, até que "poderoso na terra será a sua semente" etc.; e também quem se compraz nos seus mandamentos, ainda que faça despesas no cumprimento dos mandamentos, não se reduzirá a sua riqueza, pois "haveres e riqueza há na sua casa, e a sua justiça permanece para sempre" (Salmos 112:3). E isto é para indicar que o temor do Senhor não encurta os dias e não diminui o dinheiro e não causa os acidentes maus, como o temor de carne e sangue; disse Salomão "o temor do Senhor é para a vida, e o que o tem saciado pernoitará, e não será visitado pelo mal" (Provérbios 19:23) — quer dizer: o temor do Senhor, bendito seja, não causa a morte, mas ele é para a vida; e assim não é o temeroso carente de todo bem, pois "saciado pernoitará"; e assim não se temerá dos acidentes, pois "não será visitado pelo mal".
״אַשְׁרֵי אִישׁ יָרֵא אֶת ה׳... גִּבּוֹר בָּאָרֶץ יִהְיֶה זַרְעוֹ״ — אֵין הַיִּרְאָה מַקְנָה רַכּוּת אֶלָּא גְּבוּרָה. ״יִרְאַת ה׳ לְחַיִּים וְשָׂבֵעַ יָלִין בַּל יִפָּקֶד רָע״.
Este capítulo completa a discussão dos caps. 31-33, unindo as duas disposições que pareciam opostas — o temor (que "quebra e entristece o coração") e a alegria (que aperfeiçoa o serviço). Albo já mostrara (cap. 33) que se alegrar do próprio temor é sinal de saúde da alma; agora oferece uma segunda explicação, mais experiencial: a do esforço suportado por um grande fim.
O princípio é universal e reconhecível: todo homem aceita "trabalho e fadiga grande por algum tempo" para alcançar uma honra ou excelência. No próprio ato do esforço há dor; mas, quando se estima o fim, "põe-se toda a fadiga como nada em face daquele bem esperado". O atleta, o estudante, o comerciante — todos sofrem alegremente porque o prêmio reluz adiante. Assim no temor de D'us: quem percebe a grandeza do grau que o temor alcança (a submissão e o serviço ao Sublime) "não se importa com toda a fadiga, a tristeza e o pavor" que o temor traz. A alegria não elimina o tremor; ela o transcende pela visão do fim.
A imagem é uma das mais concretas e belas do livro, tirada de Provérbios 2:4-5 ("se a buscares como prata, e como tesouros escondidos a procurares, então entenderás o temor do Senhor"). Albo desenvolve-a com realismo físico: extrair prata da mina é fadiga enorme (sai "misturada com as águas"); quem cava um tesouro em sua casa fere o dedo, o pé, a canela — e sofre. Mas, porque tem os olhos no tesouro, "alegra-se no coração e suporta toda a aflição de bom semblante". O versículo, lido assim, torna-se diretriz: suportar a fadiga do serviço divino como quem cava um tesouro — então se "entende o temor do Senhor". O esforço da avodá é o cavar; o temor reverente é o ouro.
Albo então eleva o nível: quem alcança esse grau de suportar o esforço com alegria já não é apenas "temente a D'us", mas "serve por amor" (oved me'ahavá). A prova é o próprio Abraão: declarado "temente a D'us" no clímax da Aqedá (Gn 22), é contudo chamado por Isaías de "aquele que me ama" (Is 41:8). E os Sábios: "os que fazem por amor e se alegram nos sofrimentos — sobre eles se diz 'os que o amam são como o sol nascente na sua força'". O amor é o cume onde o esforço deixa de pesar: quem ama "não se importa com fadiga nem sofrimentos". E a primeira prova de Abraão — "vai-te da tua terra" — foi precisamente um treino para "suportar por amor o trabalho da peregrinação"; por mantê-la com alegria, ganhou o título de "amante". A alegria no esforço é, assim, a ponte que conduz do temor ao amor.
O fecho corrige um possível mal-entendido com uma distinção decisiva: o temor de D'us não é como o temor humano. Quem vive em pavor de um rei ou senhor tem os "dias encurtados" (o medo crônico adoece e mata); mas "o temor do Senhor acrescenta dias" (Pv 10:27). E mais: enquanto o temeroso comum gera "filhos moles de coração", não prospera e vive ansioso, o temente a D'us recebe o oposto — "poderoso na terra será a sua semente" (a yirá dá valentia, não fraqueza), "haveres e riqueza há na sua casa" (apesar dos gastos com as mitzvot), e "saciado pernoitará, não será visitado pelo mal" (Sl 112; Pv 19:23). O paradoxo é resolvido: o temor reverente de D'us, longe de ser uma angústia que consome, é fonte de vida, força e segurança — porque é o temor que liberta de todos os outros temores. Assim Albo coroa a doutrina do temor-com-alegria: a disposição que é o fim da Torá não escraviza nem encurta, mas vivifica e enobrece o homem.
O amor de D'us é o grau supremo, alcançado só após o cume do temor. O amor tem três tipos — do bom, do útil e do agradável; só o amor do bem por si mesmo é eterno e imutável. Como D'us reúne os três (é o bem absoluto, o que dá a existência e o que dá o prazer), todos Lhe convêm. O Shemá — "com todo o teu coração, alma e força" — mapeia os três tipos e as três idades da vida.
O amor de D'us é o grau supremo, alcançado só após o cume do temor. O amor tem três tipos — do bom, do útil e do agradável; só o amor do bem por si mesmo é eterno e imutável. Como D'us reúne os três (é o bem absoluto, o que dá a existência e o que dá o prazer), todos Lhe convêm. O Shemá — "com todo o teu coração, alma e força" — mapeia os três tipos e as três idades da vida.
1 O amor do Senhor, bendito seja, é o grau grande acima do qual não há, e não chega a ele o homem se não for depois de chegar ao grau último do temor, como explicámos; pois Abraão, sobre o qual se disse "aquele que me ama", não chegou a este grau senão no fim dos seus dias e após a Aqedá, quando se lhe disse "agora soube que temente a D'us és tu". E por isso é preciso que expliquemos o assunto do amor e as suas espécies.
אַהֲבַת הַשֵּׁם — הַמַּדְרֵגָה הַגְּדוֹלָה שֶׁאֵין לְמַעְלָה הֵימֶנָּה, וְלֹא יַגִּיעַ אֵלֶיהָ אֶלָּא אַחַר הַיִּרְאָה. אַבְרָהָם הִגִּיעַ אַחַר הָעֲקֵדָה.
2 E dizemos que o amor é de três modos: ou o amor do bem tov, ou o amor do útil mo'il, ou o amor do agradável arev. E o amor do bem é que ame o homem a coisa amada pelo lado de que ela é um bem completo, sem que se misture naquele amor a recepção de proveito nem a recepção de agrado de modo algum, mas que ame o bem pelo lado de que é bem apenas. E o amor do útil é que ame o homem a coisa amada pelo lado do proveito que recebe dela apenas. E o amor do agradável é que ame o homem a coisa amada pelo lado do agrado que lhe chega dela, não porque ela é boa nem útil, mas porque é agradável apenas. E o amor do útil e do agradável se mudam e se diferenciam em menos e mais conforme a abundância da recepção do proveito ou do prazer, e é possível que se corrompam. Mas o amor que é em razão do bem em si mesmo, eis que este amor não se corrompe e não se muda, porque o amante não ama o amado porque ele é bom para ele — quer dizer, em relação ao amante —, mas porque se lhe explicou que este amado é bom em si mesmo; e o amado é o conhecido junto ao amante, e ele é a coisa amada apenas, gravada no seu coração, até que se verifica sobre eles juntos a definição do amor — pois o amor é o unir-se da coisa amada com o amante e o seu aderir-se juntos com uma adesão intelectual na perfeição. Mas no útil e no agradável, eis que não é o amado o conhecido, mas o proveito que chega ao amante ou o prazer que chega a ele; e por isso é impossível que se una o amante com o amado, e por este lado se muda o amor com a mudança da recepção do proveito ou do prazer, ou se corrompe. Mas o amor do bem é impossível que se mude de modo algum, pois não tem o amante o que receber de nenhum proveito do amado a não ser o conhecimento dele apenas; e por isso era o amor do bem, pelo lado de que ele é bem, o mais elevado das espécies dos amores.
הָאַהֲבָה עַל ג׳ פָּנִים: אַהֲבַת הַטּוֹב, הַמּוֹעִיל, הֶעָרֵב. הַמּוֹעִיל וְהֶעָרֵב יִשְׁתַּנּוּ וְיִפָּסְדוּ. אֲבָל אַהֲבַת הַטּוֹב מִצַּד שֶׁהוּא טוֹב — לֹא תִּשְׁתַּנֶּה, וְהִיא הַמְעֻלָּה.
3 E, por ser o Senhor, bendito seja, o bem completo no qual não há mal de modo algum — depois de que não há nele privação nem possibilidade —, será o amor a ele o amor do bem pelo lado de que ele é bem; e se acrescenta este amor conforme a medida do conhecimento dele, bendito seja, depois de termos dito que o amor do bem é pelo lado do conhecimento dele apenas. E, contudo, depois de que ele, bendito seja, é o formador de tudo e o que agracia e dá a existência a todo existente e dá alma a todo aquele que tem sopro de espírito de vida nas suas narinas, eis que ele é útil, e é cabido que seja amado pelo lado de que ele é útil também. E, quando examinamos o caminho pelo qual prepara alimento a todo o que criou, vemos que não criou as coisas necessárias ao vivente ou ao homem para a necessidade da sua vida apenas, mas também as coisas que dão prazer, que não são necessárias a eles pelo lado da sua vida — como se disseras que o homem é possível que subsista com o alimento do pão apenas, e, contudo, foram criados os figos e as uvas e as romãs e outros além deles dos frutos, que dão prazer, ainda que não sejam necessários a ele para a permanência da sua existência —, e eis que por este lado é cabido que seja amado também pelo lado do agradável — quer dizer, pelo lado de que criou as coisas agradáveis e que dão prazer. E por causa disto, com o facto de ser ele um com unidade completa, convêm-lhe todas as espécies de amor — seja o amor do bem, seja o amor do útil, seja o amor do agradável; e é cabido, conforme isto, que seja amado no cúmulo do que é possível em todas as espécies de amor, pois não se imagina que seja possível que se ache algo mais bom, nem mais útil, nem mais aprazível do que ele.
הַשֵּׁם — הַטּוֹב הַגָּמוּר, וְהַמּוֹעִיל (יוֹצֵר וְנוֹתֵן מְצִיאוּת), וְהֶעָרֵב (בָּרָא הַתְּאֵנִים וְהָעֲנָבִים). יָאוּתוּ אֵלָיו כָּל מִינֵי הָאַהֲבָה.
4 E por isso achas que Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele, quando advertia Israel a amar o Senhor, bendito seja, com todas as espécies de amor, como explicaremos — no que disse "e amarás o Senhor teu D'us com todo o teu coração e com toda a tua alma e com toda a tua força me'odecha" (Deuteronômio 6:5) —, precedeu e disse "ouve, Israel, o Senhor, nosso D'us, o Senhor é um Hashem echad" (Deuteronômio 6:4), quer dizer que, com o facto de ser ele um, convêm-lhe todas as espécies de amor diferentes — seja o amor do bem, seja o amor do útil, seja o amor do agradável —, porque ele, bendito seja, é um bem completo e é o que dá o proveito e o que dá o prazer, e não tens o que amar fora dele, mesmo se for o teu amor de qual espécie for, pois todas as causas do amor se acham nele; e por isso é cabido amá-lo "com todo o teu coração e com toda a tua alma e com toda a tua força", pois não há ali um impedimento a que não seja o amor a ele perfeito no cúmulo do que é possível.
5 E isto é: que, ainda que seja impossível ao homem que ame duas coisas ou dois homens com um amor perfeito no cúmulo — porque, se amar a ambos, não é o amor a um perfeito no cúmulo da perfeição, depois de que ele está dividido entre ambos, e é impossível que se una o amante com o amado com uma união completa, como é da definição do amor, a não ser se for o amado um —, por isso disse "o Senhor é um", quer dizer: depois de que o Senhor, bendito seja, é um, não é o amor dividido, e é possível que seja o teu amor a ele completo, pois não se dividirá o amor para dois; e, mesmo se for o amor de espécies diferentes — quer dizer, pelo lado do bem ou pelo lado do útil ou pelo lado do agradável —, por ser o Senhor, bendito seja, um e por se acharem nele todas as causas do amor diferentes, é cabido que seja o amor a ele perfeito "com todo o teu coração e com toda a tua alma e com toda a tua força", em qualquer consideração que seja das considerações.
״שְׁמַע יִשְׂרָאֵל ה׳ אֱלֹהֵינוּ ה׳ אֶחָד״ — אַחַר שֶׁהוּא אֶחָד, אֵין הָאַהֲבָה מִתְחַלֶּקֶת, וְאֶפְשָׁר שֶׁתִּהְיֶה שְׁלֵמָה ״בְּכָל לְבָבְךָ וּבְכָל נַפְשְׁךָ וּבְכָל מְאֹדֶךָ״.
6 E também não há ali um impedimento pelo lado da mudança dos tempos da vida do homem; pois, quando se examinam os anos da vida do homem, achamo-los divididos em três partes, que são os anos da subida aliá e os anos da permanência amidá e os anos da descida yeridá; e a diferença do amor neles é conforme a diferença das espécies do amor, que são o bom e o útil e o agradável. Pois nos anos da subida — que vão até os trinta ou próximo deles — o homem ama o agradável e se arrasta após ele muito; e por isso achas este amor nos jovens e nas mulheres e naqueles que estão no grau dos jovens, como aquele que se arrasta após o apetite da relação sexual porque é agradável a ele, sem que olhe para o dano que decorre dele ao corpo e à alma — eis que ele é semelhante aos jovens que se arrastam após o apetite da comida e não discernem o dano que decorre da abundância da comida, e não amam outra coisa senão quem os presenteia com uma fatia de pão ou com um dos demais prazeres agradáveis. E nos anos da permanência — que vão de trinta até cinquenta ou próximo deles — prevalece sobre o homem o amor do útil, até que há dentre os homens quem deixa a comida e a bebida e os demais prazeres agradáveis por se arrastar após o jogo sechok, porque imagina o proveito grande que é possível que decorra do ganho grande em pouco tempo; e assim quem cavalga sobre os navios e dá no mar um caminho e arrisca a si mesmo nas águas impetuosas pela esperança do ganho e do proveito, e não se importa com nenhum outro prazer de modo algum. E nos anos da descida — que são os anos da velhice, de cinquenta anos em diante — não se importa o homem com o útil nem com o agradável, mas o seu amor apenas será para o bem pelo lado de que ele é bem; e por isso acham-se os velhos a se arrastarem para o serviço do Senhor e separados dos apetites mais do que os outros, pois, depois de verem que o amor que é pelo lado do agradável ou pelo lado do útil é não-permanente, não se importam senão com o amor do bem pelo lado de que ele é bem, que é um amor permanente e não-mutável na existência do amado, que é o Senhor, como explicámos; e esta é a causa da salvação da alma.
ג׳ זְמַנֵּי הַחַיִּים: עֲלִיָּה (עַד ל׳) — אַהֲבַת הֶעָרֵב; עֲמִידָה (ל׳–נ׳) — אַהֲבַת הַמּוֹעִיל; יְרִידָה (זִקְנָה) — אַהֲבַת הַטּוֹב. הַזְּקֵנִים נִמְשָׁכִים לַעֲבוֹדַת הַשֵּׁם.
7 E, porque o jovem, pelo lado da fervura do sangue e do estar ele imerso nos apetites, não estima a recompensa da alma e a sua salvação — pois, por estar ele submerso nos sensíveis, imagina que eles permanecerão sempre, e não crê na salvação da alma e na sua permanência, que é coisa não-sensível —, por isso disse a Escritura sobre aquele que confia no Senhor "com comprimento de dias o saciarei, e o farei ver na minha salvação" (Salmos 91:16), quer dizer que, de dentro do comprimento dos dias e do seu chegar aos dias da velhice — em que se enfraquecem os apetites —, poderá estimar a salvação da alma e a sua permanência, e reconhecerá que isto se alcança pelo lado do amor do Senhor, e por isso será arrastado para o seu serviço e para amá-lo, que é o caminho dos velhos — arrastar-se para o serviço do Senhor mais do que os outros. E este é o caminho que se conduz no conjunto dos homens; mas há dentre os velhos quem se arrasta após os prazeres como os jovens, ou após o útil e após o domínio como o homem de quarenta anos, e há jovens que se arrastam após o amor do bem como os velhos; e assim diferem os homens nisto conforme a sua têmpera e os seus costumes e as convenções com que cresceram; e, de todo modo, os anos da vida do homem em geral se dividem nas três espécies de amor do modo que mencionámos.
הַבָּחוּר שָׁקוּעַ בַּמּוּחָשׁוֹת וְלֹא יַאֲמִין בְּתְשׁוּעַת הַנֶּפֶשׁ. ״אֹרֶךְ יָמִים אַשְׂבִּיעֵהוּ וְאַרְאֵהוּ בִּישׁוּעָתִי״ — מִתּוֹךְ הַזִּקְנָה יְשַׁעֵר תְּשׁוּעַת הַנֶּפֶשׁ.
8 E se vê que a diferença do amor nestes três tempos decorre da diferença do domínio das forças da alma sobre o homem. Pois no tempo da juventude e nos anos da subida prevalece a alma apetitiva nefesh hamit'avá sobre o homem, e por isso se arrasta após os prazeres; e no tempo da maturidade e nos anos da permanência, em que prevalece sobre ele a alma vital nefesh hachiyunit — da qual vem a força excitativa e as outras das forças —, se arrasta após o domínio e a vitória e o amor do dinheiro e o proveito imaginado; e nos anos da velhice, porque se enfraquece o apetite e as demais forças de correr atrás do domínio e da vitória, prevalece sobre ele então a força intelectual koach hasichli, e inteligencia e sabe que todas as demais coisas são perecíveis e que não há coisa que possa ser permanente nem dar-lhe permanência senão o arrastar-se para o serviço do Senhor, bendito seja, e para o que é da natureza do intelecto arrastar-se atrás dele; e despreza os apetites e se arrasta após o que decreta a sua alma intelectiva, como o amor do Senhor, bendito seja, e o seu temor, e, em geral, para o amor do bem, que é o Senhor, bendito seja, pelo lado de que ele é bem, não pelo lado do útil nem pelo lado do agradável.
הַהִשְׁתַּנּוּת מִמֶּמְשֶׁלֶת כֹּחוֹת הַנֶּפֶשׁ: נֶפֶשׁ הַמִּתְאַוָּה (נְעוּרִים), נֶפֶשׁ חִיּוּנִית (עֲמִידָה), כֹּחַ שִׂכְלִי (זִקְנָה) — אַהֲבַת הַטּוֹב.
9 E se vê que esta força intelectual se chama na nossa língua "coração duplo" levav; pois "lev" coração se diz a respeito do membro dos viventes no qual está a força vital, mas "levav" não se diz a não ser a respeito da força intelectual apenas — "também eu tenho coração levav como vós" (Jó 12:3), "e um homem oco se encherá de coração yilavev" etc. (Jó 11:12). E "nefesh" alma é nome dito na generalidade e na particularidade: se diz sobre as forças da alma em geral — e isto é o mais comum —, e se diz sobre a alma vital em particular; disse Jó "aquele em cuja mão está a alma nefesh de todo vivente e o espírito rúach de toda carne de homem" (Jó 12:10) — pois disse "a alma de todo vivente" sobre o conjunto da alma vital, e "o espírito de toda carne de homem" sobre a força intelectual que há no homem.
״לֵבָב״ — הַכֹּחַ הַשִּׂכְלִי (״גַּם לִי לֵבָב כְּמוֹכֶם״). ״נֶפֶשׁ״ — בִּכְלָל הַכֹּחוֹת אוֹ הַחִיּוּנִית. ״רוּחַ כָּל בְּשַׂר אִישׁ״ — הַכֹּחַ הַשִּׂכְלִי.
10 E, porque a alma apetitiva nefesh hamit'avá está sempre clamando homá pela obtenção dos apetites e pela chegada dos dinheiros, denomina-a a Escritura com a expressão "a tua força" me'odecha; e, para aludir ao amor destas três forças ao Senhor, bendito seja, conforme a sua divisão na vida do homem do modo que explicámos, disse Moisés "e amarás o Senhor teu D'us com todo o teu coração levavecha e com toda a tua alma nafshecha e com toda a tua força me'odecha" — disse "o teu coração" levavecha para aludir ao amor da força intelectual, e disse "todo" bechol para despertar de que é cabido que todos os pensamentos intelectuais se dirijam a isto; e "a tua alma" nafshecha para aludir ao amor da força vital; e "a tua força" me'odecha para o amor da força apetitiva.
11 E a sua explicação é deste modo: que a Escritura veio a advertir o homem a que ame o Senhor, bendito seja, no cúmulo do amor com todas as forças do seu corpo em todos os tempos. Seja pelo lado de que o amado é bom — que é o amor que decreta a força intelectual —, disse "com todo o teu coração" levavecha; seja pelo lado do útil, disse "com toda a tua alma" nafshecha, pois ele, bendito seja, é o que dá no homem o sopro de espírito de vida nas suas narinas e o mantém — pois "a tua alma" alude à força vital, e "todo" alude a todas as forças vitais, conforme o dito dos sábios "'com toda a tua alma' — mesmo se Ele tomar a tua alma"; e seja pelo lado do agradável, disse "com toda a tua força" me'odecha, para aludir à força apetitiva e ao amor que decorre dela, que é de espécies diferentes, como o amor dos dinheiros e dos haveres e dos prazeres. E tudo isto é para indicar que ele é o Senhor, bendito seja, o bem completo, e ele é o útil e o formador do homem e o que agracia e dá o sopro de espírito de vida nas suas narinas, e ele é o que dá os dinheiros e os haveres e o que dá prazer ao homem por todos os dias da sua vida; e por isso é cabido amá-lo com todas as espécies de amor e em todos os tempos.
״וְאָהַבְתָּ... בְּכָל לְבָבְךָ״ (הַשִּׂכְלִי — הַטּוֹב), ״וּבְכָל נַפְשְׁךָ״ (הַחִיּוּנִי — הַמּוֹעִיל; ״אֲפִלּוּ נוֹטֵל אֶת נַפְשְׁךָ״), ״וּבְכָל מְאֹדֶךָ״ (הַמִּתְאַוֶּה — הֶעָרֵב).
12 E, porque o amor do Senhor, bendito seja, é cabido que seja a fim de servir o seu serviço e guardar os seus mandamentos no quanto for possível em todos os tempos — seja no pensamento, seja na fala, seja na ação —, prosseguiu nisto "e estarão as palavras estas, que eu te ordeno hoje, sobre o teu coração" (Deuteronômio 6:6), para aludir ao pensamento machashavá; "e as inculcarás aos teus filhos e falarás nelas" (Deuteronômio 6:7), para aludir à fala dibur, e isto em todos os tempos, "ao sentares na tua casa e ao andares no caminho e ao deitares e ao levantares" (Deuteronômio 6:7). E é cabido que seja também na ação ma'asé, "e atá-las-ás por sinal sobre a tua mão" (Deuteronômio 6:8). E, porque a ação, parte dela é a que se faz enquanto o homem está vivo, e parte dela é a que permanece também após a morte do homem, advertiu sobre as duas espécies de ação: sobre o que é na vida do homem disse "e atá-las-ás por sinal" os tefilin, e sobre o que permanece após a morte disse "e as escreverás" etc. a mezuzá (Deuteronômio 6:9). E isto é para indicar que o amor do Senhor, bendito seja, é cabido que seja com todas as espécies de amor e com todas as forças do corpo, e de dentro do amor servirá o seu serviço no quanto for possível, no pensamento, na fala e na ação, e isto em todos os tempos.
״וְהָיוּ הַדְּבָרִים... עַל לְבָבֶךָ״ (מַחֲשָׁבָה), ״וְשִׁנַּנְתָּם... וְדִבַּרְתָּ בָּם״ (דִּבּוּר), ״וּקְשַׁרְתָּם לְאוֹת״ (מַעֲשֶׂה בַּחַיִּים), ״וּכְתַבְתָּם״ (הַנִּשְׁאָר אַחַר הַמָּוֶת).
Se o temor (caps. 31-34) é a disposição fundamental gravada pelos mandamentos, o amor de D'us é "o grau supremo, acima do qual não há" — e só se alcança depois do cume do temor (Abraão tornou-se "amante" só após a Aqedá, que o coroou "temente a D'us"). Temor e amor não são rivais: o temor é a porta, o amor é o cume. Este capítulo, um dos mais sistemáticos da obra, analisa o que é o amor e como amar a D'us.
Albo aplica a tripartição da Ética de Aristóteles: ama-se ou o bom (tov — por ser bom em si), ou o útil (mo'il — pelo proveito), ou o agradável (arev — pelo prazer). A diferença é decisiva quanto à permanência: o amor do útil e do agradável varia e perece, pois o que se ama de fato não é o objeto, mas o proveito/prazer que ele rende — quando estes mudam, o amor muda. Já o amor do bem por si mesmo é eterno e imutável, porque o amante "nada recebe do amado senão o conhecimento dele"; o objeto amado é gravado no coração tal como é, e então se realiza a verdadeira definição do amor: "a união da coisa amada com o amante, a adesão intelectual perfeita". Só no amor do bem amante e amado se unem; nos outros dois, fica sempre o interesse de permeio.
A aplicação é luminosa. D'us é amável pelos três modos simultaneamente: como bem absoluto ("sem mal, sem privação nem possibilidade"), como útil (formador de tudo, dador da existência e da alma) e como agradável — e aqui Albo tem um toque belo: D'us não criou só o necessário (o pão sustenta a vida) mas também o que dá prazer sem ser necessário — "os figos, as uvas, as romãs". Logo D'us merece o amor supremo "em todas as espécies de amor, pois nada há mais bom, mais útil ou mais aprazível do que Ele".
Albo lê o Shemá com profundidade filosófica. Por que "Ouve, Israel, o Senhor é Um" precede "e amarás"? Porque o amor pleno exige um objeto único: ninguém pode amar duas coisas com amor total (o amor dividido em dois não é completo em nenhum), e a "união do amante com o amado" só se dá se o amado é um. Sendo D'us Um, "o amor não se divide" e pode ser "completo, com todo o coração, alma e força" — e, mais ainda, como n'Ele se reúnem todas as causas de amor, esse amor único abarca os três tipos sem se fragmentar.
A parte mais original é a fenomenologia do desenvolvimento humano. A vida divide-se em três fases que correspondem aos três amores e às três forças da alma: (1) a subida (até ~30 anos) — domina a alma apetitiva, e o jovem ama o agradável (prazeres, comida, sexo, sem ver o dano); (2) a permanência (~30-50) — domina a alma vital, e o homem ama o útil (poder, dinheiro, ganho — arrisca-se no jogo, no mar, pelo lucro); (3) a descida (velhice, 50+) — domina a força intelectual, e o homem volta-se ao bem por si mesmo, despreza os apetites e adere ao serviço de D'us. Por isso os velhos tendem mais à religião — "vendo que os amores do útil e do agradável são impermanentes, importam-se só com o amor do bem, que é eterno". Daí "comprimento de dias o saciarei e o farei ver na minha salvação" (Sl 91): com a velhice, enfraquecidos os apetites, o homem finalmente percebe "a salvação da alma" que o jovem, "imerso nos sensíveis", não crê existir. Albo admite as exceções (velhos sensuais, jovens espirituais — conforme têmpera e educação), mas a regra geral vale.
O fecho amarra tudo numa exegese filológica do versículo central. Albo distingue: levav ("coração") designa a força intelectual (não lev, que é o órgão vital — "também eu tenho levav como vós", Jó); nefesh designa a força vital; e me'od ("força/muito") a força apetitiva (que "clama sempre"/homá pelos apetites). Assim "amarás com todo o teu levav" = amor pela via do bem (intelecto); "com toda a tua nefesh" = pela via do útil (a vida que D'us dá — "mesmo se Ele tomar a tua alma"); "com todo o teu me'od" = pela via do agradável (apetites, posses). O Shemá ordena, portanto, amar a D'us com todas as três forças da alma e em todas as idades da vida — integrando o homem inteiro, e não só o intelecto. E o amor culmina em serviço: no pensamento ("sobre o teu coração"), na fala ("falarás nelas… ao sentar, ao andar, ao deitar, ao levantar") e na ação — distinguindo até a ação em vida (os tefilin, "atá-las-ás") da que permanece após a morte (a mezuzá, "escreverás"). Assim Albo transforma a tipologia grega do amor numa teologia integral da devoção judaica: amar a D'us com todo o ser, em toda idade, traduzido em pensamento, palavra e obra.
O amor de D'us deleita a alma e nunca cessa — pois o Amado é infinito, e cada grau apreendido só aumenta o anseio. O amor completo é o que se dirige ao Amado por si mesmo, sem proveito nem medo de dano. Daí o livre-arbítrio na Aqedá: Abraão, que podia recusar até a ordem divina, foi chamado "meu amante" — pois só o ato escolhido, não o habitual, merece louvor.
O amor de D'us deleita a alma e nunca cessa — pois o Amado é infinito, e cada grau apreendido só aumenta o anseio. O amor completo é o que se dirige ao Amado por si mesmo, sem proveito nem medo de dano. Daí o livre-arbítrio na Aqedá: Abraão, que podia recusar até a ordem divina, foi chamado "meu amante" — pois só o ato escolhido, não o habitual, merece louvor.
1 O amor ao Senhor, bendito seja, deleita a alma e a alegra; e, ainda que o amor ao que é não-apreendido ou difícil de apreender atormente a alma e a confunda a pensar pensamentos para alcançar a coisa amada — e por isso estão os enamorados choshkim sempre em aflição e angústia até que alcancem a coisa amada —, de todo modo o amor ao Senhor, bendito seja, mesmo sendo ele coisa não-apreendida, não atormenta a alma e não a confunde; pois no pouco apreendido dele ao homem se alegra a alma e exulta e se deleita com um deleite maravilhoso, pois assim é o caminho do amante — de que o pouco apreendido a ele da coisa amada é mais agradável junto a ele do que o muito de outro.
אַהֲבַת הַשֵּׁם תְּעַנֵּג הַנֶּפֶשׁ. אַף שֶׁהָאַהֲבָה לַבִּלְתִּי מוּשָּׂג תַּטְרִיד — אַהֲבַת הַשֵּׁם לֹא תַטְרִיד, כִּי בִּמְעַט הַמּוּשָּׂג מִמֶּנּוּ תִּשְׂמַח הַנֶּפֶשׁ.
2 E por isso é que louvou Salomão no livro Cântico dos Cânticos esta espécie de amor acima das demais dos amores e disse a seu respeito "quão bela és e quão agradável, ó amor, nos deleites" (Cântico 7:7) — quer dizer: quão abundante é a beleza e a agradabilidade que há no amor ao Senhor, bendito seja, acima das demais dos amores, pois este amor é um amor nos deleites ahavá bata'anugim, quer dizer que se deleita nele o homem com um deleite maravilhoso e há nele espécies de deleites diferentes, como as espécies das apreensões diferentes que há nele; e as demais espécies dos amores afligem o homem com uma aflição maravilhosa antes da obtenção da coisa amada, e, quando alcança dela um pouco, alegra-se nele, senão que se duplica a aflição até que a alcance por inteiro, depois de que ela é possível de apreensão a ele; e, quando se alcança por inteiro, cessa o amor e se aquieta o anseio. Mas no amor ao Senhor, bendito seja, se alegra o homem no pouco apreendido, por estar ele a estimar a grandeza da excelência da coisa apreendida, e se deleita nele sem nenhum acréscimo de aflição, depois de ser ele o que sabe que ele, bendito seja, é impossível de apreensão; e por isso se deleita no pouco apreendido dele com um deleite maravilhoso, e tudo o que se acrescenta a apreensão se acrescenta o amor e o deleite.
״מַה יָּפִית וּמַה נָּעַמְתְּ אַהֲבָה בַּתַּעֲנוּגִים״ — אַהֲבַת הַשֵּׁם בַּתַּעֲנוּגִים; שְׁאָר הָאַהֲבוֹת יְצַעֲרוּ, וּכְשֶׁתֻּשַּׂג כֻּלָּהּ תִּפָּסֵק. אֲבָל אַהֲבַת הַשֵּׁם בַּמְּעַט תִּתְעַנֵּג.
3 E é impossível a este amor que se aquiete e cesse, por ser a coisa amada não-finita; e tudo o que apreende dela algum grau, se deleita nele e se engrandece o anseio de apreender mais, e assim ao infinito; e por isso é impossível que cesse, mas alegrar-se-á sempre no pouco apreendido dela — como explicámos no capítulo 15 do segundo Maamar —, pois conforme a grandeza da excelência da coisa buscada se engrandecem a alegria e o deleite mais na coisa apreendida dela. E por causa disto, mesmo se chegar ao homem uma fadiga grande na sua busca deste amor e desta apreensão, não por causa disto se absterá de correr atrás dela, por estar ele a estimar o fim grande que se alcança; e com muito mais razão pois o que serve por amor não tem o que se importar com o proveito nem com o dano que lhe chegue no seu serviço, pois não é a sua intenção senão fazer a vontade do amado apenas, e não se importa com a fadiga ou o dano que lhe chegue, contanto que chegue o proveito ao amado. Acaso não vês Jônatas, que, no seu amor a Davi, não se importava com a perda da realeza que perdia ao estar Davi vivo — como lhe disse Saul "pois todos os dias em que o filho de Yishai estiver vivo sobre a terra, não se firmarás tu e a tua realeza" (I Samuel 20:31) —, mas a sua intenção era fazer chegar o proveito a Davi, que era o amado, e mesmo que isso prejudicasse a si mesmo.
אִי אֶפְשָׁר שֶׁתִּפָּסֵק — הַנֶּאֱהָב בִּלְתִּי בַּעַל תַּכְלִית. יְהוֹנָתָן בְּאַהֲבָתוֹ אֶת דָּוִד לֹא חָשַׁשׁ לְהֶפְסֵד הַמְּלוּכָה — לַעֲשׂוֹת רְצוֹן הָאָהוּב.
4 E este é o caminho do amor completo, que é pelo lado do amado apenas; pois o amor que é em razão do proveito ao amante se assemelha ao amor com que ama o homem as bestas em razão do proveito que lhe chega delas; e o amor que é em razão da guarda do dano se assemelha ao amor com que ama o homem os cães, pois o homem ama os cães em razão da sua guarda dele contra o dano. Mas o amor completo é aquele com que ama o homem o amado pelo lado do amado apenas, e não há no seu coração um outro fim senão o de fazer a vontade do amado, pois não ama o amado por uma outra causa fora dele; porque o amor que está dependente de uma outra causa se muda e cessa, conforme o seu dito, de abençoada memória, "todo amor que está dependente de uma coisa — ao anular-se a coisa, anula-se o amor" — mas o amor que está dependente do amado apenas, sem uma outra causa, será permanente por todo o tempo em que o amado for permanente; e, por ser o Senhor, bendito seja, permanente sempre, será o amor a ele permanente e não-cessante.
אַהֲבָה מִצַּד הַתּוֹעֶלֶת — כְּאַהֲבַת הַבְּהֵמוֹת; מִצַּד שְׁמִירַת נֵזֶק — כְּאַהֲבַת הַכְּלָבִים. ״כָּל אַהֲבָה הַתְּלוּיָה בְּדָבָר — בָּטֵל דָּבָר בְּטֵלָה אַהֲבָה״.
5 E este amor, que é pelo lado do amado, não se dará senão nos possuidores de intelecto e entendimento; pois o amor com que ama o homem o seu companheiro pelo lado de si mesmo não é senão pelo lado do intelecto que há nele, e por isso, se enlouquecer o amado ou morrer, se cessa o amor, pois a alma foge do corpo morto, já que não está ali a coisa amada. E, por ser este o amor mais louvável das espécies dos amores, e por não se achar senão nos possuidores de intelecto e entendimento, se louva o homem ou se censura sobre ele; e por isso é preciso que não se misture nele nenhum lado de necessidade hechrach de modo algum, pois não se louva o homem ou se censura sobre a coisa forçada, mas sobre a coisa que é de livre-escolha bechirit sua de todo em todo. E por isso se louvou Abraão, nosso pai, nesta espécie de amor acima de outro, até que o chamou a Escritura "Abraão, aquele que me ama" (Isaías 41:8), porque não havia no seu coração um outro fim senão o de fazer a vontade do Senhor, bendito seja, o amado, e não havia ali uma outra causa que o coagisse a isso — pois eis que não se misturou no ato da Aqedá nenhum lado de necessidade de modo algum, pois mesmo o mandamento do Senhor, bendito seja, não o coagia. E esta é uma coisa que explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, sobre o versículo "o Senhor verá" etc. (Gênesis 22:14): "disse Abraão diante do Santo, bendito seja: Senhor do mundo, revelado e sabido é diante de ti que, na hora em que me disseste 'toma agora o teu filho, o teu único, a quem amaste, Isaque, e oferece-o para mim por holocausto', eu podia dizer 'acaso não já me disseste que em Isaque te será chamada uma semente' (Gênesis 21:12), e não disse assim, mas reprimi a minha misericórdia e não pus em dúvida os teus atributos" — do que se vê disto explícito que mesmo pelo lado do mandamento do Senhor, bendito seja, não estava Abraão coagido, depois de que ele podia desculpar-se disso junto a ele com um argumento verdadeiro se quisesse, e não fez assim, mas reprimiu a misericórdia do pai sobre o filho pelo amor do Senhor.
הָאַהֲבָה רַק בְּבַעֲלֵי שֵׂכֶל, וְלֹא יִתְעָרֵב בָּהּ הֶכְרֵחַ. אַבְרָהָם — ״אֹהֲבִי״, שֶׁאֲפִלּוּ מִצְוַת הַשֵּׁם לֹא הִכְרִיחַתּוּ, ״כָּבַשְׁתִּי רַחֲמַי״.
6 E por isso é que se atribuiu o ato da Aqedá a Abraão e não a Isaque, com o facto de ser ele um filho de trinta e sete anos na hora da Aqedá conforme a opinião dos nossos mestres, de abençoada memória — porque Abraão podia desculpar-se sobre isso a fim de não atar o seu filho, e Isaque não podia desculpar-se a fim de não entregar a si mesmo se se lhe ordenasse sobre isso. E por esta razão é que mencionamos nas nossas orações sempre a Aqedá de Abraão a Isaque mais do que a aqedá de todos os piedosos e dos santos que entregaram a si mesmos pela santificação do Nome do Senhor, bendito seja — como Rabi Akiva e os seus companheiros e todos os santos que há em cada geração e geração —, porque cada um deles, na verdade, entregou a si mesmo pela santificação do Nome do Senhor, bendito seja, para cumprir o mandamento "e não profanareis o nome da minha santidade, e eu serei santificado no meio dos filhos de Israel" (Levítico 22:32); mas Abraão — mesmo o mandamento do Senhor, bendito seja, não o coagia a isso, e ele sabia e discernia o que estava a fazer, pois mais de três dias se passaram desde a hora em que se lhe disse "toma agora o teu filho" até a hora da Aqedá, pois eis que está escrito "no dia terceiro ergueu Abraão os seus olhos e viu o lugar de longe" (Gênesis 22:4).
נִתְיַחֵס לְאַבְרָהָם וְלֹא לְיִצְחָק — שֶׁאַבְרָהָם יָכוֹל הָיָה לְהִתְנַצֵּל. ״בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי״ — יָדַע וְהִבְחִין מַה שֶּׁעוֹשֶׂה.
7 E o ato de livre-escolha completo é o ato que, quando o homem o faz, sabe fazer o oposto e pode fazê-lo, sem nenhum constrangimento e sem nenhum outro impedimento, e escolhe fazer aquele ato acima de outro; mas, se não souber e não discernir como fazer o oposto, e fizer o que fizer sem um discernimento entre aquela coisa e o seu oposto, mas o fizer por acaso, ou em razão do hábito e do costume, ou porque não pode fazer o oposto — não é este um ato de livre-escolha tal que se louve o homem sobre ele se é bom, ou se censure se é mau. Pois mesmo o sacrifício, que é um ato bom, quando o trouxer o homem sem um discernimento entre o bem e o mal, mas em razão do hábito e do costume, não é considerado como nada.
8 E isto é o que disse Salomão no livro Eclesiastes "guarda o teu pé quando fores à casa de D'us" (Eclesiastes 4:17) — quer dizer: guarda de que seja o teu andar para lá feito com discernimento, não em razão do hábito e do costume; e sobre isto disse "e aproximar-se para ouvir é melhor do que o dar dos tolos sacrifício, pois não sabem a fazer o mal" (Eclesiastes 4:17) — quer dizer que o facto de o homem estar próximo de ouvir as palavras dos sábios é melhor do que o sacrifício que trazem os tolos, pois por meio do ouvir as palavras dos sábios reconhecerá o homem e discernirá o bem do mal e fará o bem com discernimento completo pelo lado de que é bem, e se afastarão os homens do mal pelo lado de serem eles os que sabem que é mal — o que não se dá no ato dos tolos, pois mesmo o sacrifício que trazem não é considerado a eles como serviço, já que, pelo lado de que não estão próximos de ouvir as palavras dos sábios, não discernem entre o bem e o mal, até que não discernem e não sabem como fazer o mal por livre-escolha deles, e por isso não é o ato bom, que é o sacrifício, considerado a eles como nada, depois de que não o fazem por livre-escolha entre o bem e o mal, pois não sabem como fazer o mal, e não fazem o sacrifício pelo lado de que o escolhem acima do seu oposto, que é mal, mas pelo lado do hábito e do costume; e por isso não é cabido que se louvem sobre ele, pois não se louva o homem sobre o ato bom senão quando é o que sabe como fazer o mal e pode fazê-lo e escolhe fazer o bem acima de outro. E por isso não se louva o que serve por amor senão quando o seu serviço é de um amor completo, sem que se misture nele nenhum lado de necessidade nem de afastamento de dano nem de recepção de proveito de modo algum; e este é o amor que dá deleite ahavá hame'aneget pelo qual é cabido que se receba sobre ela recompensa eterna não-finita; e sobre ela disse Salomão no livro Cântico dos Cânticos "se desse um homem todo o haver da sua casa pelo amor, desprezar o desprezariam" (Cântico 8:7) — pois ao não-finito é impossível que se dê em sua troca uma coisa finita, que é todo o haver da sua casa.
הַפֹּעַל הַבְּחִירִי — שֶׁיֵּדַע לַעֲשׂוֹת הַהֵפֶךְ וְיוּכַל, וְיִבְחַר הַטּוֹב. ״שְׁמֹר רַגְלְךָ״. ״אִם יִתֵּן אִישׁ אֶת כָּל הוֹן בֵּיתוֹ בָּאַהֲבָה בּוֹז יָבוּזוּ לוֹ״.
Tendo definido o amor de D'us como o grau supremo (cap. 35), Albo agora explora o seu caráter único entre todos os amores. Todo amor por algo "não-apreendido ou difícil de apreender" atormenta — os enamorados vivem "em aflição e angústia" até alcançar o objeto. Mas o amor de D'us, embora o seu objeto seja inapreensível, não atormenta: "no pouco apreendido a alma se alegra com deleite maravilhoso". A razão é a lógica do verdadeiro amante — "o pouco do amado vale mais que o muito de outro".
A diferença estrutural é profunda. Nos amores comuns: aflição crescente até a posse, e quando se possui tudo, "cessa o amor e aquieta-se o anseio" (a conquista mata o desejo). No amor de D'us, ao contrário: como o Amado é infinito e inapreensível, nunca se possui "tudo" — cada grau apreendido deleita e aumenta o anseio por mais, "ao infinito". Por isso este amor "é impossível que cesse": não há frustração (sabe-se de antemão que não se apreenderá tudo) nem saciedade (sempre há mais). É o "amor nos deleites" (ahavá bata'anugim) do Cântico — pura alegria sem o tormento da falta. Albo remete ao cap. 15 do Maamar II: quanto maior a excelência do buscado, maior o deleite no pouco apreendido.
Albo recupera a tipologia do cap. 35 com imagens cortantes: amar pelo proveito é como amar o gado (pelo que rende); amar pela proteção do dano é como amar o cão (pela guarda). O amor completo é só pelo Amado em si, "sem outro fim senão fazer a vontade do amado". E cita a máxima de Avot: "todo amor dependente de uma coisa — cessada a coisa, cessa o amor; o amor não-dependente de coisa nenhuma nunca cessa". Como D'us é eternamente permanente, o amor a Ele é eterno. O modelo humano é Jônatas: amou Davi a ponto de abdicar do próprio trono ("enquanto o filho de Yishai viver, não te firmarás"), buscando o bem do amado mesmo em seu próprio prejuízo — o oposto do amor interesseiro.
A virada filosófica: o amor verdadeiro só existe em seres de intelecto (amar o próximo "é pelo lado do intelecto" — por isso o amor cessa se o amado enlouquece ou morre, "pois a alma foge do corpo morto"). E, sendo a disposição mais nobre, é objeto de louvor ou censura — o que exige que seja livre: "não se louva ninguém pelo que é forçado, mas só pelo que é escolha sua de todo em todo". Esta é a chave para a leitura mais ousada do capítulo.
Abraão foi chamado "meu amante" porque o seu amor não tinha "nenhum lado de necessidade" — e Albo afirma o impensável: nem mesmo a ordem divina o coagia. Apoiando-se no midrash sobre Gn 22:14, Abraão diz a D'us: "eu poderia ter respondido 'mas Tu me disseste que em Isaque me será chamada semente' — e não respondi, mas reprimi a minha misericórdia". Ou seja, Abraão tinha um argumento legítimo de recusa (a contradição com a promessa anterior) e escolheu não usá-lo. Foi obediência livre, não compelida. Daí por que a Aqedá se atribui a Abraão, não a Isaque (que aos 37 anos também se entregou): Abraão podia recusar, Isaque não (uma vez ordenado, devia obedecer). E por isso — observação teologicamente notável — invocamos nas orações a Aqedá de Abraão mais que o martírio de Rabi Akiva e dos santos de todas as gerações: pois eles morreram cumprindo o mandamento de santificar o Nome ("serei santificado entre os filhos de Israel"), enquanto Abraão agiu sem que mandamento algum o forçasse, "sabendo e discernindo o que fazia" durante três dias inteiros de reflexão.
O fecho universaliza o princípio numa teoria do ato moral: o ato de livre-escolha pleno é aquele em que se "sabe fazer o oposto, pode fazê-lo, e escolhe o bem". O que se faz "por acaso, por hábito ou por não poder o contrário" não merece louvor — "mesmo o sacrifício, trazido por hábito sem discernir o bem do mal, não vale nada". Albo lê Eclesiastes 4:17 nessa luz: "guarda o teu pé ao ir à casa de D'us" = vai com discernimento, não por rotina; "ouvir os sábios é melhor que o sacrifício dos tolos, pois não sabem fazer o mal" = quem não distingue bem e mal (por não ouvir os sábios) não escolhe o bem, e por isso seu próprio sacrifício "não conta como serviço". A conclusão sela a doutrina inteira: só se louva o serviço por amor "completo, sem necessidade, sem fuga do dano nem busca de proveito" — o "amor que deleita", merecedor de "recompensa eterna infinita", pois (Cântico 8:7) "ao infinito é impossível dar em troca o finito — todo o haver da casa". A liberdade desinteressada do amor é o que o torna infinitamente recompensável.
Como pode haver amor de D'us ao homem, se a distância entre eles é infinita e o amor só nasce entre semelhantes? Albo distingue três gêneros de amor — de igualdade, natural e relacional — e mostra que o amor de D'us a Israel é relacional, como o do rei ao povo, do pai ao filho, do esposo à esposa: um "chéshek" sem razão, a eleição de Israel como tesouro (segulá). "Com amor eterno te amei." Assim se encerra o Maamar III.
Como pode haver amor de D'us ao homem, se a distância entre eles é infinita e o amor só nasce entre semelhantes? Albo distingue três gêneros de amor — de igualdade, natural e relacional — e mostra que o amor de D'us a Israel é relacional, como o do rei ao povo, do pai ao filho, do esposo à esposa: um "chéshek" sem razão, a eleição de Israel como tesouro (segulá). "Com amor eterno te amei." Assim se encerra o Maamar III.
1 E é cabido que expliquemos aqui se é possível que caia amor entre o Senhor, bendito seja, e o homem, como cai entre o homem e o Senhor. Pois há para um que diz o que dizer que, na verdade, se verifica que ame o homem o Senhor, seja pelo lado do amor do bem no aspecto em que é bem, seja pelo lado da recepção do proveito dele, que é pelo lado do útil ou pelo lado do agradável; mas o Senhor, bendito seja, ao homem — no qual não há uma de todas estas causas — não se imagina que é possível que haja dele um amor ao homem. E isto é: que o amor entre os amantes se dá quando é possível que ame um ao outro e o outro a ele, entre muito e pouco; mas, quando estiverem no cúmulo da distância um do outro, não se imagina que é possível que caia entre ambos um amor, porque são como opostos — pois os opostos são os que estão no cúmulo da distância cada um do seu companheiro, já que todo oposto foge do oposto; e não se imagina que haja amor a não ser nos semelhantes. E por isso anseiam os homens de que os honrem e os amem os sábios e os homens de excelência, a fim de que se imagine que há entre eles alguma semelhança; e por causa disto será o amor entre dois homens mais completo quando se igualarem ambos na perfeição ou nalguma excelência, e, quando for a diferença entre eles grande, será o amor mais escasso — até que por causa disto há dentre os homens os que não anseiam pelos bens dos seus companheiros, a fim de que não se elevem a um grau grande e se mude a igualdade que há entre eles e se corrompa ou se reduza o amor; a não ser que fosse o amante no cúmulo da adesão ao seu companheiro, como um pai a um filho, até que é como que ele é ele mesmo, e então anseia de que cheguem os bens ao seu companheiro como anseia por eles para si mesmo, pois não estima alteridade zulatiyut entre ele e o seu companheiro; mas os amantes entre os quais há alteridade, é impossível que haja entre eles amor completo de modo algum.
2 E isto é manifesto do assunto dos homens que estão no cúmulo da perfeição no assunto da excelência e do bem com os homens que estão no cúmulo da maldade, de que não se acha entre eles amor e adesão de modo algum; e assim os homens que são inferiores no grau em muito não põem ao seu coração e não lhes sobe ao pensamento que os amem os reis, por ser a distância entre eles muito grande; e com muito mais razão a distância que há entre o D'us e o homem, que é não-finita.
אֵין אַהֲבָה אֶלָּא בְּדוֹמִים — וְהַהֲפָכִים בְּתַכְלִית הַמֶּרְחָק. אֵיךְ יֹאהַב הַשֵּׁם אֶת הָאָדָם, וְהַמֶּרְחָק בֵּינֵיהֶם בִּלְתִּי בַּעַל תַּכְלִית?
3 E por isso é manifesto que, mesmo se cai um amor do homem ao Senhor, bendito seja, em razão do proveito recebido dele, ou da agradabilidade que há na apreensão do que se apreende dele, ou pelo lado do amor do bem no aspecto em que é bem — é impossível que caia um grau de amor do Senhor, bendito seja, ao homem, nem pelo lado do bem, nem pelo lado do útil, nem pelo lado do agradável. E, se é assim, como é possível que haja amor entre o D'us e o homem, como se acha prometido na Torá divina? Disse "e será que, em consequência de ouvirdes estes juízos e os guardardes e os fizerdes, guardará o Senhor teu D'us" etc., "e te amará e te abençoará e te multiplicará" (Deuteronômio 7:12-13); e disse o profeta "amei-vos, diz o Senhor" (Malaquias 1:2), "o Senhor ama os justos" (Salmos 146:8).
״וְאָהֵבְךָ וּבֵרַכְךָ וְהִרְבֶּךָ״, ״אָהַבְתִּי אֶתְכֶם אָמַר ה׳״, ״ה׳ אֹהֵב צַדִּיקִים״ — אֵיךְ אֶפְשָׁר?
4 E a resposta desta coisa é que o amor se acha entre os amantes em três gêneros.
5 O primeiro é o amor da igualdade ou da semelhança ahavat hashivui, e ele é quando se igualam os dois amantes nalgum assunto, ou nalguma excelência, ou na perfeição, ou na recepção de proveito — como se disseras que recebe cada um deles proveito do seu companheiro, ou que se deleita cada um deles no seu companheiro, ou que se igualam na bondade. E quem se engrandece junto a ele a recepção do proveito é mais cabido que ame o seu companheiro mais — conforme a vantagem da recepção do proveito ou da agradabilidade que alcança no seu companheiro, ou a vantagem do bem e da perfeição que há no seu companheiro acima dele; e, quando se igualarem na recepção do proveito, ou da agradabilidade, ou na bondade, será o amor mais completo, sem dúvida, pois neste gênero de amor já cai a igualdade na quantidade.
6 E o gênero segundo é o amor natural ahavá tiv'it, e ele é de duas espécies: ou o amor do gerador ao gerado, porque é uma parte dele; ou o amor do artífice à obra na qual se afadigou e se esforçou na sua produção. E por isso amam as mães os filhos mais do que os pais, por se reunirem nelas estas duas coisas mais do que no pai: pois o filho tem nele uma parte maior da mãe — seja porque elas dão a matéria, seja porque elas se afadigam no seu crescimento mais.
הָאַהֲבָה בְּג׳ סוּגִים. הָאֶחָד — אַהֲבַת הַשִּׁוּוּי (שֶׁיִּשְׁתַּווּ הָאוֹהֲבִים). הַשֵּׁנִי — אַהֲבָה טִבְעִית: אַהֲבַת הַמּוֹלִיד לַוָּלָד, וְאַהֲבַת הָאֻמָּן לִמְלַאכְתּוֹ.
7 E o gênero terceiro é o amor relacional ahavá yachasit, e ele é de três espécies.
8 A primeira é o amor que há entre o rei e o povo, ou o condutor e os conduzidos por ele; pois não é o amor que há entre o rei e o povo igual na quantidade de modo algum, mas na relação e na proporção — pois é cabido que seja o rei amado pelos homens mais do que o seu amor a eles; também não é o buscado do amor do rei ao povo igual ao buscado do amor do povo ao rei: pois o buscado do rei é que faça bem ao povo, na guarda da retidão entre eles e na completude dos seus assuntos, na guarda dos seus haveres de modo conveniente e completo conforme o que lhe é possível; e o buscado do povo é que honrem o rei e o exaltem e reconheçam o seu domínio e a sua excelência sobre eles e a sua beneficência a eles e a sua necessidade dele; e com isto decorre o amor do rei a fim de fazer bem ao povo, e do povo a fim de honrar o rei e exaltá-lo.
9 E a espécie segunda é o amor que há entre o pai e o filho; pois, além do amor natural que há entre o gerador e o gerado, já há entre eles um outro amor relacional, semelhante ao amor do rei e do povo: pois o buscado pelo filho do pai é que faça com ele a ação do pai a fim de fazer bem ao seu filho conforme o que lhe é possível, e o buscado do filho ao pai é que o honre.
10 E a espécie terceira é o amor que há entre o homem e a mulher; pois, além do amor natural que há entre eles — como o amor de todo macho à fêmea para a permanência da espécie —, já há entre eles um outro amor relacional, semelhante ao amor do condutor e dos conduzidos por ele: pois o buscado do homem é que complete as necessidades da mulher e a honre e complete o seu direito conforme o que lhe é possível de modo conveniente, e o buscado da mulher é que sirva o homem e o honre e guarde os seus haveres e não ame a outro. E neste gênero de amor relacional é cabido que seja o amor do inferior no grau ao mais bom ou mais grande maior do que o amor do grande a ele; e por isso será a igualdade neste gênero feita sobre uma relação e uma proporção, não a igualdade na quantidade.
הַסּוּג הַג׳ — אַהֲבָה יַחֲסִית, ג׳ מִינִים: מֶלֶךְ וְעָם, אָב וּבֵן, אִישׁ וְאִשָּׁה. הַשִּׁוּוּי עַל יַחַס וָעֵרֶךְ, לֹא בְּכַמּוּת.
11 E o amor de D'us ao homem é manifesto que é impossível que seja do gênero primeiro, que é o amor dos semelhantes; mas já se pensaria que seja do gênero segundo, que é o amor natural. E por isso achas que Moisés, nosso mestre, a paz esteja sobre ele, alude às duas espécies dele: disse "acaso não é ele teu pai, que te adquiriu kanecha?" (Deuteronômio 32:6), para aludir ao amor da espécie primeira, que é o amor de pai a filho; e disse "ele te fez e te estabeleceu", para aludir à espécie segunda — do amor do artífice à sua obra. E assim achas que o profeta, na sua oração, alude a estas duas espécies: disse "e agora, Senhor, nosso pai és tu; nós somos o barro e tu és o nosso formador" (Isaías 64:7) — quer dizer: e por este lado é cabido que nos supervisiones a fim de te compadeceres de nós como se compadece um pai sobre os filhos; e também pelo lado segundo, do amor natural, é cabido a ti que nos ames, pois "obra das tuas mãos somos todos nós" — e mesmo o barro tu o formaste antes de pores nele a forma intelectual; e isto é o que concluiu "obra da tua mão somos todos nós" (Isaías 64:7), quer dizer: e é cabido a ti que nos supervisiones como se supervisiona todo agente a obra das suas mãos, seja ela cabida ou não-cabida.
12 Mas, quando se examina bem, achamos que tudo isto foi dito por transposição ha'avará — metáfora; pois nem a forma nem o barro é uma parte do Senhor como um filho é parte do pai; e também, depois de que a sua ação se faz por uma simples fala be'maamar, não há o que dizer a respeito dele que é cabido que se esforce a guardar as suas obras — pois todo agente, na verdade, se esforça a guardar a obra das suas mãos em razão da fadiga com que se afadigou nela, e por este lado é que amam os poetas os seus poemas; mas aquele em que não cai nem fadiga nem trabalho, não cai nele o amor que é desta espécie. E por isso é manifesto que o amor de D'us ao homem é impossível que seja senão do gênero terceiro, que é o amor relacional.
״הֲלוֹא הוּא אָבִיךָ קָּנֶךָ״ (אָב), ״הוּא עָשְׂךָ וַיְכֹנְנֶךָ״ (אֻמָּן). אֲבָל זֶה בְּהַעֲבָרָה — אַהֲבַת הַשֵּׁם אֶת הָאָדָם רַק מֵהַסּוּג הַשְּׁלִישִׁי, הַיַּחֲסִית.
13 E por isso acha-se a Escritura a descrever o Senhor, bendito seja, como rei e como pai e como esposo. Como rei: "pois o rei de toda a terra é D'us" (Salmos 47:8), "assim diz o Senhor, rei de Israel e seu redentor" (Isaías 44:6), "o Senhor é o nosso rei, ele nos salvará" (Isaías 33:22). Como pai: "pois tu és o nosso pai, pois Abraão não nos conheceu" (Isaías 63:16), "acaso não é ele teu pai, que te adquiriu", e assim muitos. E isto é: que, assim como o rei e o pai completam as necessidades do povo e do filho, e não se busca deles senão que os honrem, como dissemos, assim o Senhor, bendito seja, completa as necessidades dos homens e não busca deles senão que lhe deem honra ao seu nome, como disse a Escritura "todo o que é chamado pelo meu nome, e para a minha honra o criei" (Isaías 43:7).
14 E por isso acha-se o Senhor, bendito seja, a inculpar Israel porque não se conduziam com ele com honra à maneira do filho com o pai, e com temor à maneira do servo com o seu senhor; disse "um filho honra o pai, e um servo o seu senhor; e, se pai sou eu, onde está a minha honra? e, se senhores sou eu, onde está o meu temor?" (Malaquias 1:6). E, ainda que ele, bendito seja, não precise de que o honrem outros fora dele — pois ele reina sobre toda a honra, como explicámos no capítulo catorze do Maamar segundo —, de todo modo inculpava Israel porque não se conduziam como é cabido, a fim de que estivessem preparados a que pairasse ou aderisse a eles o influxo divino e a sua providência para guardá-los dos acidentes da constelação — a qual não paira senão sobre o que prepara a si mesmo para isso, e isto ao honrar o Senhor, bendito seja, como um filho ao pai e temer diante dele como um servo diante do seu senhor; e assim disse o profeta "se não ouvirdes e se não puserdes ao coração a fim de dar honra ao meu nome" etc., "e amaldiçoarei as vossas bênçãos" etc. (Malaquias 2:2), "dai ao Senhor vosso D'us honra" etc. (Jeremias 13:16).
הַשֵּׁם מֶלֶךְ, אָב, בַּעַל. ״כָּל הַנִּקְרָא בִשְׁמִי וְלִכְבוֹדִי בְּרָאתִיו״. ״בֵּן יְכַבֵּד אָב וְעֶבֶד אֲדֹנָיו... אַיֵּה כְבוֹדִי... אַיֵּה מוֹרָאִי״.
15 E assim compara a Escritura o amor do Senhor, bendito seja, a Israel ao amor relacional que há entre o esposo e a esposa; disse "pois o teu esposo é o teu fazedor" (Isaías 54:5), "e desposar-te-ei para mim na fidelidade" (Oséias 2:22), "chamar-me-ás 'meu marido'" (Oséias 2:18), "contendei com a vossa mãe, contendei, pois ela não é minha mulher e eu não sou o seu marido" (Oséias 2:4) — quer dizer, porque não se conduzia como é cabido que se conduza a mulher com o seu marido. E isto é para indicar que, assim como o marido é obrigado a completar todas as necessidades da mulher que tomou e individuou para si dentre as demais das mulheres, assim é cabido que complete o Senhor, bendito seja, todas as necessidades de Israel, que são o povo que escolheu por herança para si dentre todos os povos que há sobre a terra; e por isso é cabido a Israel que amem e honrem a ele e que temam diante dele e que guardem os seus mandamentos e os seus estatutos, e que não amem a outro — como se obriga a mulher a honrar o seu marido e a amá-lo e a temer diante dele e a não amar a outro.
״כִּי בֹעֲלַיִךְ עֹשַׂיִךְ״, ״וְאֵרַשְׂתִּיךְ לִי בֶּאֱמוּנָה״, ״תִּקְרְאִי אִישִׁי״. כְּמוֹ שֶׁהַבַּעַל מַשְׁלִים צָרְכֵי הָאִשָּׁה — כֵּן הַשֵּׁם לְיִשְׂרָאֵל.
16 E, para indicar que o amor do Senhor, bendito seja, a Israel mais do que a toda nação e língua não é como o amor da semelhança nem como o amor natural, mas um amor de livre-escolha bechirit que decorre da vontade do amante apenas, sem nenhuma razão, denomina a Escritura o amor do Senhor, bendito seja, a Israel com o nome "anseio" chéshek; disse "anelou chashak o Senhor a vós e vos escolheu" (Deuteronômio 7:7). E o nome "chéshek" se diz sobre a abundância do amor sem razão — como o amor do homem por uma mulher determinada dentre as demais, ainda que haja outra mais bela do que ela, se chama "chéshek" por estar ele sem razão; disse a Escritura "Shechem, meu filho, anelou chashká a sua alma a vossa filha" (Gênesis 34:8), quer dizer: ainda que ele acha outra mais bela do que ela; e assim o amor do Senhor, bendito seja, a Israel é como um anseio chéshek sem razão. E todo o livro Cântico dos Cânticos está fundado na imitação deste anseio que há entre o Senhor, bendito seja, e a Congregação de Israel, como o amado que anseia choshek com a companheira anelada chashuká sem nenhuma razão.
17 E por isso é que chamou a Escritura este amor "tesouro" segulá, disse "pois um povo santo és tu para o Senhor teu D'us; em ti escolheu o Senhor teu D'us para ser para ele por povo de tesouro segulá dentre todos os povos que há sobre a face da terra" (Deuteronômio 7:6), "não por serdes mais numerosos merubechem de todos os povos anelou o Senhor a vós e vos escolheu" (Deuteronômio 7:7). E a explicação disto é: que, assim como a propriedade segulá se acha aderida à espécie, não se separa dela, e não se acha nela nem pelo lado da quantidade nem pelo lado da qualidade, assim este amor é um assunto de propriedade aderido à nação não pelo lado da quantidade — pois "não por serdes mais numerosos de todos os povos anelou o Senhor a vós" —; e também, para explicar que não era pelo lado da qualidade, disse noutro lugar "não pela tua justiça e pela retidão do teu coração" etc., "pois um povo de dura cerviz és tu" (Deuteronômio 9:5-6); mas este amor é como um anseio chéshek sem razão, um assunto que decorre da vontade do que anela apenas; e ele é o que prometeu sobre ele na hora da doação da Torá em recompensa da sua recepção da Torá, disse "e agora, se ouvir ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim por tesouro dentre todos os povos" (Êxodo 19:5).
״חָשַׁק ה׳ בָּכֶם וַיִּבְחַר בָּכֶם״ — חֵשֶׁק בְּלִי טַעַם, כִּשְׁכֶם ״חָשְׁקָה נַפְשׁוֹ״. ״סְגֻלָּה מִכָּל הָעַמִּים״ — לֹא מֵרֻבְּכֶם וְלֹא בְּצִדְקָתְךָ.
18 Pois, assim como é da propriedade do que anela choshek que o pouco apreendido a ele do seu anelado é mais nobre e agradável junto a ele do que o muito de outro, assim o Senhor, bendito seja, o pouco serviço que chega a ele da nação de Israel é mais considerado junto a ele do que o muito de uma outra nação ou de todas as nações; e isto é o seu dito "dentre todos os povos, pois minha é a terra" etc. (Êxodo 19:5). Ou é possível que o seu dito "pois minha é toda a terra" esteja ligado a "e vós sereis para mim um reino de sacerdotes" etc. (Êxodo 19:6) — quer dizer: depois de que toda a terra é minha e todos os domínios vêm de mim, eu posso prometer-vos a engrandecer-vos sobre todos os povos que estão debaixo de todos os céus, pois o meu domínio abrange tudo e não há D'us fora de mim que possa dar domínio a uma outra nação fora de vós, ainda que ela seja maior do que vós; pois este é o assunto da propriedade segulá — quer dizer, um amor aderido sem razão, como o assunto do anseio chéshek.
19 E assim achas que o profeta explica isto, disse "amei-vos, diz o Senhor, e dissestes: em que nos amaste?" (Malaquias 1:2) — quer dizer que o amor que está na fala apenas não é nada, até que decorram do amante ações que indiquem sobre o amor; e por isso disse "acaso não é irmão Esaú de Jacó? — declaração do Senhor; e amei a Jacó, e a Esaú odiei" etc. (Malaquias 1:2-3) — quer dizer: ainda que, pelo lado do caminho do amor do pai aos filhos, fosse cabido que eu escolhesse Esaú, pois ele é o primogênito, e não fiz assim, mas odiei-o e pus os seus montes em desolação.
מְעַט הָעֲבוֹדָה מִיִּשְׂרָאֵל יוֹתֵר נֶחְשָׁב, כְּחֵשֶׁק. ״אָהַבְתִּי אֶתְכֶם... וָאֹהַב אֶת יַעֲקֹב וְאֶת עֵשָׂו שָׂנֵאתִי״.
20 E assim acha-se também que a Escritura exagera no amor do Senhor, bendito seja, a Israel como um pai a um filho, de todo lado de que é possível que haja o amor entre eles. Pois, porque é do caminho do pai amar o seu filho primogênito, já que ele é o princípio da sua força, disse a Escritura "pois fui para Israel por pai, e Efraim é o meu primogênito" (Jeremias 31:8), "meu filho, meu primogênito, é Israel" (Êxodo 4:22). E assim, porque às vezes ama o homem o filho pelo lado do serviço com que o serve diante dele enquanto jovem, disse a Escritura "pois um jovem é Israel, e eu o amei" (Oséias 11:1). E também porque às vezes é o amor do pai ao filho por causa da sua importância — de que é um filho querido a ele — ou porque é uma criança pequena com a qual se diverte, disse a Escritura "um filho querido é para mim Efraim, ou uma criança de deleites?" (Jeremias 31:19) — a saber que a minha alma está atada no seu amor como um pai ao filho querido a ele ou à criança dos seus deleites, até que "tanto quanto eu falar nele midei dabri bo, recordar recordá-lo-ei ainda" — como é do caminho do amante, que se deleita na recordação do seu amado sempre, e por isso volta a recordá-lo quando fala nele; e também pela grandeza da sua importância aos meus olhos e pelo meu amor a ele, "comoveram-se as minhas entranhas por ele e se aqueceram as minhas misericórdias sobre ele" — como o homem que se comove com a aflição do seu filho querido a ele; e por isso é cabido a mim que me compadeça dele como se compadece o pai sobre a criança dos seus deleites ou sobre o filho querido a ele, e isto é "compadecer me compadecerei dele, declaração do Senhor" (Jeremias 31:19).
21 E, porque não se acha a misericórdia de nenhum existente sobre outro maior do que a misericórdia do pai sobre o filho, mencionamos sempre nas nossas orações "nosso Pai, nosso Rei Avinu Malkenu, comovam-se, por favor, as tuas misericórdias sobre nós" — pois dizemos "nosso Pai" para pedir sobre o aquecer das misericórdias como um pai sobre o filho, e dizemos "nosso Rei" para dizer que há na sua mão a capacidade de salvar-nos como um rei aos seus servos.
״בְּנִי בְכֹרִי יִשְׂרָאֵל״, ״כִּי נַעַר יִשְׂרָאֵל וָאֹהֲבֵהוּ״, ״הֲבֵן יַקִּיר לִי אֶפְרַיִם... רַחֵם אֲרַחֲמֶנּוּ נְאֻם ה׳״. ״אָבִינוּ מַלְכֵּנוּ יֶהֱמוּ נָא רַחֲמֶיךָ עָלֵינוּ״.
22 E se explicou em tudo isto que o amor do Senhor, bendito seja, e exaltado, a Israel é um amor relacional, como um rei aos seus servos e como um pai a os filhos e como um esposo à esposa. E, para indicar que este amor é um assunto intelectual e permanente, não-mutável, disse a Escritura "e com amor eterno ahavat olam te amei" (Jeremias 31:2). E se explicou também que o amor do homem ao Senhor, ainda que seja deste gênero terceiro, que é um amor relacional, é possível que seja de todos os lados — quer dizer, pelo lado do bem, ou pelo lado do útil, ou pelo lado do agradável; e por causa disto é obrigado o homem a amar o Senhor, bendito seja, no cúmulo do amor; e foi o amor ao Senhor, bendito seja, o fim de toda a Torá, porque ela atrai o amor do Senhor, bendito seja, a ele ao homem, do modo que escrevemos. E isto é o que quisemos explicar acerca do assunto do amor.
23 E aqui se completa o Maamar terceiro, que é a explicação do segundo princípio, que é a Torá do Céu. E o louvor seja a D'us, que até aqui nos ajudou; bendito seja e se eleve e se exalte sobre toda bênção e louvor — amém e amém, sela, sela.
״וְאַהֲבַת עוֹלָם אֲהַבְתִּיךְ״ — אַהֲבָה שִׂכְלִית קַיֶּמֶת. הָאַהֲבָה אֶל הַשֵּׁם תַּכְלִית כָּל הַתּוֹרָה. וּבְכָאן נִשְׁלַם הַמַּאֲמָר הַשְּׁלִישִׁי, וְהַשֶּׁבַח לָאֵל.
O capítulo final do Maamar III enfrenta uma dificuldade que coroa toda a doutrina do amor: já se explicou como o homem pode amar D'us; mas como pode D'us amar o homem? A objeção é rigorosa: o amor só nasce entre semelhantes ("os opostos fogem um do outro"), e por isso é mais pleno entre iguais — tanto que há quem nem deseje o bem do amigo, para não romper a igualdade que sustenta o amor. Ora, entre D'us e o homem a distância é infinita. E, de fato, nenhuma das causas de amor (bem, útil, agradável) que o homem encontra em D'us pode existir em sentido inverso — D'us nada recebe do homem. E contudo a Torá afirma repetidamente "e te amará" (Dt 7), "amei-vos, diz o Senhor" (Malaquias), "o Senhor ama os justos". Como conciliar?
A solução de Albo é uma taxonomia tríplice. (1) Amor de igualdade (ahavat hashivui): entre pares que se igualam em proveito, prazer ou excelência — quanto mais iguais, mais pleno; mede-se "na quantidade". (2) Amor natural (ahavá tiv'it): do gerador ao gerado (o filho é "parte" do pai) e do artífice à sua obra (o trabalho investido) — daí as mães amarem mais que os pais (dão a matéria e o esforço da criação). (3) Amor relacional (ahavá yachasit): que não se mede na quantidade mas na relação e proporção, em três espécies — rei/povo, pai/filho, esposo/esposa. Nele, o amor é assimétrico e cada lado busca coisa diferente: o rei busca beneficiar o povo; o povo, honrar o rei.
Albo elimina as duas primeiras opções. O amor de igualdade é impossível (não há igualdade entre D'us e o homem). O amor natural parece aplicável (Moisés diz "teu pai que te adquiriu" e "ele te fez", Dt 32; Isaías "nós o barro, tu o oleiro") — mas Albo demonstra que isso é metáfora (ha'avará): nem o homem é "parte" de D'us como o filho do pai, nem D'us "se esforça" na sua obra (cria "por uma simples palavra", sem a fadiga que faz o poeta amar o poema). Logo, por eliminação, o amor de D'us ao homem só pode ser relacional — e a Escritura confirma ao chamar D'us de rei, pai e esposo. Em todos, D'us "completa as necessidades" do amado e pede apenas honra ("todo o chamado pelo meu nome, para a minha honra o criei"). Daí a queixa de Malaquias: "se sou pai, onde a minha honra? se senhor, onde o meu temor?" — não porque D'us precise de honra (ele "reina sobre toda a honra", Maamar II:14), mas porque honrá-lo prepara o homem a receber a providência divina que o livra dos acidentes da constelação.
O ápice teológico é a doutrina da eleição. Por que D'us ama Israel "mais que toda nação"? Não por semelhança nem por natureza, mas por um amor livre, "que decorre só da vontade do amante, sem razão alguma" — e a Escritura o nomeia chéshek (anseio, paixão): "anelou o Senhor a vós e vos escolheu" (Dt 7:7). Albo ilumina o termo com Gênesis 34:8 — Shechem "anelou (chashká) a tua filha" ainda que houvesse outra mais bela: o chéshek é amor sem causa, irredutível a mérito. Por isso a eleição é uma segulá (propriedade/tesouro): como a propriedade oculta de uma espécie, está "aderida à nação não pela quantidade" ("não por serdes mais numerosos", Dt 7:7) nem pela qualidade ("não pela tua justiça, pois és povo de dura cerviz", Dt 9). E todo o Cântico dos Cânticos é a "imitação desse chéshek entre D'us e a Congregação de Israel" — o amado e a amada que se desejam sem razão. Notável é a aplicação do princípio do cap. 36: como o apaixonado prefere o pouco do amado ao muito de outro, "o pouco serviço de Israel é mais precioso a D'us que o muito de todas as nações".
Antes de concluir, Albo acumula as imagens do amor paterno de D'us em todas as suas modulações: o filho primogênito ("meu filho, meu primogênito, é Israel"), o filho-servo ("pois jovem é Israel e o amei"), e o filho-querido de quem o pai não cansa de falar ("filho querido é Efraim… tanto quanto falo nele, ainda o recordo… comoveram-se as minhas entranhas… compadecer me compadecerei"). Daí a oração "Avinu Malkenu" — "nosso Pai" (para invocar a misericórdia paterna, a maior de todas) e "nosso Rei" (para invocar o poder de salvar). E o selo: "com amor eterno (ahavat olam) te amei" (Jr 31) — amor intelectual e imutável, porque relacional e não dependente de mérito mutável. A conclusão reúne todo o Maamar: o amor a D'us pode dar-se por todos os lados (bem, útil, agradável), e por isso é o homem obrigado a amá-lo "no cúmulo" — e esse amor é o fim de toda a Torá, pois a Torá "atrai o amor de D'us ao homem". Com a doxologia "aqui se completa o Maamar Terceiro… o louvor a D'us que até aqui nos ajudou", encerra-se a grande exposição de Albo sobre o segundo princípio — a Torá vinda do Céu —, da natureza da revelação à culminação de toda a vida religiosa no amor recíproco entre D'us e Israel.
O Maamar IV trata do terceiro princípio: a recompensa e o castigo. Abre com o maior dos enigmas: D'us conhece todos os atos do homem — e contudo o homem é livre. Se o conhecimento divino é necessitante, não há mérito nem culpa; se não é, D'us poderia ignorar o que de fato ocorre. Albo expõe o problema, a solução de Saadia Gaon e a dos que distinguem o necessário-por-suas-causas do possível-em-si.
O Maamar IV trata do terceiro princípio: a recompensa e o castigo. Abre com o maior dos enigmas: D'us conhece todos os atos do homem — e contudo o homem é livre. Se o conhecimento divino é necessitante, não há mérito nem culpa; se não é, D'us poderia ignorar o que de fato ocorre. Albo expõe o problema, a solução de Saadia Gaon e a dos que distinguem o necessário-por-suas-causas do possível-em-si.
1 Conforme o que enraizámos no segundo Maamar — de que o Senhor, bendito seja, é cabido que seja removido das deficiências, e não há deficiência no mundo maior do que a deficiência da ignorância —, eis que é manifesto que é necessário que seja ele o que sabe todas as coisas que se fazem no mundo, e não é possível que se faça no mundo uma coisa que ele ignore e não saiba; e disto decorre por força que seja ele, bendito seja, o que sabe todas as ações humanas, sobre as quais nós julgamos. E, contudo, se o seu conhecimento é necessitante machríach de uma das duas partes do possível, ou se é não-necessitante — eis que esta coisa precisa de um exame grande. E isto é: que, se é necessitante, então o homem estará forçado nas suas ações, e não é cabido ao homem, conforme isto, que receba recompensa nem castigo sobre o que ele faz, depois de ser ele o que age por via de necessidade — já que não se louva o homem ou se censura senão sobre o que os princípios das suas ações estão nele — dependem dele — sem um constrangimento; e, se o conhecimento não é necessitante, eis que é possível que saia ao ato o oposto do que sabe o Senhor, bendito seja, e será então o seu conhecimento não-concordante com a existência metsiut, e não será então um conhecimento, mas ignorância e vaidade e coisa de mentira.
הַשֵּׁם יוֹדֵעַ כָּל הַפְּעֻלּוֹת הָאֱנוֹשִׁיּוֹת. אִם יְדִיעָתוֹ מַכְרַחַת — הָאָדָם מֻכְרָח וְאֵין שָׂכָר וָעֹנֶשׁ; וְאִם אֵינָהּ מַכְרַחַת — אֶפְשָׁר שֶׁיֵּצֵא הֵפֶךְ יְדִיעָתוֹ, וְאֵינָהּ יְדִיעָה אֶלָּא סִכְלוּת.
2 E é manifesto também que é necessário que a natureza do possível téva ha'efshar se ache, e isto é seja pelo lado do intelecto, seja pelo lado da Torá. Pelo lado do intelecto: que, se a natureza do possível fosse não-existente, seria o esforço em toda coisa vão e nulo, e seria o juízo de quem se esforça por alcançar uma coisa e o juízo de quem se esforça por que não chegue aquela coisa igual; e anular-se-iam, conforme isto, as artes e os ofícios e toda obra de pensamento melechet machashévet, e seria nulo o estudo e o aprendizado, e nulo o que o homem se aproxime do útil e fuja do prejudicial, e não haveria aqui entrada para a vontade ratzon de modo algum — e isto é o oposto do sensível e o oposto daquilo sobre o que fomos criados.
טֶבַע הָאֶפְשָׁר מְחֻיָּב שֶׁיִּמָּצֵא. מִצַּד הַשֵּׂכֶל: אִם לֹא — הָיָה הַהִשְׁתַּדְּלוּת שָׁוְא, וְיִתְבַּטְּלוּ הַמְּלָאכוֹת וְהָרָצוֹן.
3 E pelo lado da Torá, isto se vê seja dos assuntos gerais, seja dos mandamentos particulares. Pelo lado dos gerais: que, se não fosse a natureza do possível existente, em vão se esmerou o Doador da Torá em encaminhar os homens e guiá-los no caminho reto, e seria o que veio na Torá de advertência do homem sobre o serviço do Senhor, bendito seja, e do seu amor e de fazer caridade e juízo — vão e nulo; e a Escritura clama "quem dera que fosse este o seu coração neles — a fim de temer-me e guardar todos os meus mandamentos todos os dias" etc. (Deuteronômio 5:26). E pelo lado dos mandamentos particulares: que disse a Escritura "e farás um parapeito para o teu terraço" (Deuteronômio 22:8), e disse "irá e voltará para a sua casa" (Deuteronômio 20:5), e "não matarás", e "não explorarás o teu próximo e não roubarás" (Levítico 19:13), e outros além destes dos mandamentos particulares que indicam sobre a existência da natureza do possível. E ainda, pois, se não fosse a natureza do possível existente, seriam o castigo e a recompensa uma iniquidade completa — nem do Senhor a nós nem de alguns de nós a outros —, depois de ser todo homem o que age por via de necessidade; senão que é manifesto que é impossível que não seja a natureza do possível existente. E, depois de que a natureza do possível é necessário que se ache, e de que também é impossível que seja o Senhor, bendito seja, não-sabedor dos assuntos particulares — por ser isto uma deficiência no seu estatuto —, eis que restou a dúvida: como será o conhecimento do Senhor, bendito seja, concordante com a verdade e não-necessitante de um lado dos lados do possível, e como é possível que concordem estas duas opiniões, que parecem como contraditórias uma à outra no início do pensamento?
מִצַּד הַתּוֹרָה: ״מִי יִתֵּן וְהָיָה לְבָבָם זֶה לָהֶם לְיִרְאָה אֹתִי״; ״וְעָשִׂיתָ מַעֲקֶה״. וְאִם אֵין אֶפְשָׁר — הַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ עָוֶל. אֵיךְ יַסְכִּימוּ הַיְדִיעָה וְהָאֶפְשָׁר?
4 E eis que o Gaon Rav Saadia, de abençoada memória, no livro das Crenças e Opiniões Emunot veDe'ot, no rolo quarto, disse que não é o conhecimento do Senhor, bendito seja, das coisas possíveis a causa da sua existência — assim como não é o seu conhecimento do que foi a causa do seu ter sido, mas este permaneceu sobre a sua natureza —; assim o seu conhecimento das coisas possíveis não é a causa da sua existência, e por isso permaneceram sobre a natureza da sua possibilidade. Pois, se o seu conhecimento fosse a causa da sua existência, se achariam elas sempre, como as coisas naturais das espécies; e, depois de que nós as vemos a se renovarem de dia em dia, decorre que não está a sua existência dependente do seu conhecimento, e por causa disto permaneceram as coisas sobre a natureza da sua possibilidade. Estas são as palavras do Gaon, de abençoada memória; e seguiu-o o autor do livro do Cuzari no Maamar quinto do seu livro. E isto não é suficiente, porque estas coisas estão próximas das palavras dos que dizem que não é o Senhor, bendito seja, o que sabe as coisas possíveis; pois, se ele soubesse aquelas, depois de que não está a sua existência dependente do seu conhecimento, já seria possível que fosse o seu conhecimento no oposto do que sai à existência das duas partes do possível, e não seria então um conhecimento, mas ignorância.
רַב סְעַדְיָה: אֵין יְדִיעָתוֹ סִבַּת מְצִיאוּתָם, וְלָכֵן נִשְׁאֲרוּ עַל טֶבַע אֶפְשָׁרוּתָם. וְאֵינוֹ מַסְפִּיק — קָרוֹב לְדַעַת הָאוֹמְרִים שֶׁאֵינוֹ יוֹדֵעַ הָאֶפְשָׁרִיִּים.
5 E há dentre os posteriores quem resolveu esta dúvida ao dizer que a coisa já é necessária mechuyav na consideração das suas causas e possível efshari na consideração de si mesma — como a descida da chuva amanhã, que é possível pelo lado de si mesma e necessária na consideração das suas causas, que são a subida dos vapores e a abundância das humidades e as coisas semelhantes que estavam preparadas; e o Senhor, bendito seja, sabia que a chuva desceria amanhã porque ela é necessária na consideração das suas causas, ainda que a descida da chuva seja possível na consideração de si mesma — e estendeu-se este sábio em embelezar este assunto.
יֵשׁ מִי שֶׁהִתִּיר: הַדָּבָר מְחֻיָּב בִּבְחִינַת סִבּוֹתָיו וְאֶפְשָׁרִי בִּבְחִינַת עַצְמוֹ — כִּירִידַת הַמָּטָר מָחָר.
6 E, quando se examina esta opinião, acha-se o oposto da opinião primeira — pois ela se inclina para a opinião do que diz que todas as coisas estão no decreto guezerá e que a natureza do possível é não-existente; já que, depois de que as coisas são necessárias na consideração das suas causas, então, se o Senhor, bendito seja, sabe as causas, eis que serão elas necessárias por força. E, se é assim, de que vale o que dizemos de que elas são possíveis na consideração de si mesmas, depois de que são necessárias e delimitadas pelo lado pelo qual saem ao ato — que é pelo lado das causas —, e é impossível que saiam ao ato por outro lado que não aquele? E isto não é possível senão numa consideração intelectual, pelo lado do nome "possível" — a saber que era possível que se achassem as causas no oposto, e que saísse então ao ato o oposto do que saiu; mas pelo lado do assunto em si mesmo eis que ele é necessário, depois de se acharem as causas que as sabe o Senhor, bendito seja. E decorre que se diga, conforme esta opinião, que não há coisa no mundo que seja possível com igualdade al hashivui na consideração das suas causas; pois, se as causas forem iguais para as duas partes do contraditório, volta a dúvida no seu próprio olho — tal qual: quem é o que necessita machríach o um lado sobre o outro? E, se o conhecimento do Senhor, bendito seja, é o que necessita, anular-se-á a natureza do possível; e, se permanecer a natureza do possível, anular-se-á o conhecimento do Senhor, bendito seja, longe disso! — a não ser que digamos que a natureza do possível se acha na fala e na consideração intelectual e não no assunto em si mesmo, e isto é o oposto do visado. E muitas coisas se disseram na solução desta dúvida; e, quando se examinam, achamo-las girando neste caminho — de que há dentre elas as que se inclinam para a opinião primeira e há dentre elas as que se inclinam para a opinião segunda; e por isso não vi por bem trazê-las, a fim de que não se alongue a fala no que não há nele proveito; e o que me parece nisto, sabê-lo-ás depois de eu prefaciar uma premissa no capítulo que vem depois deste.
נוֹטֶה לְדַעַת הַגְּזֵרָה: אִם הַסִּבּוֹת מְחֻיָּבוֹת וְהַשֵּׁם יוֹדְעָן — מְחֻיָּבוֹת בְּהֶכְרֵחַ. אוֹ יְדִיעָה אוֹ אֶפְשָׁר. הַנִּרְאֶה לִי — בַּפֶּרֶק הַבָּא.
Abre-se o Maamar IV, dedicado ao terceiro dos grandes princípios de Albo: a recompensa e o castigo (que pressupõe a providência divina). Mas, antes de tratar da retribuição, Albo precisa remover o obstáculo que a tornaria sem sentido: se o homem não é livre, não há justiça em premiá-lo ou puni-lo. E a liberdade humana esbarra no atributo divino estabelecido no Maamar II — a onisciência. Daí o capítulo enfrenta o que talvez seja o mais célebre paradoxo da teologia: presciência divina vs. livre-arbítrio.
Albo formula-o como um dilema de ferro. D'us tem de saber tudo (ignorar algo seria "deficiência", contra o Maamar II) — inclusive todos os atos humanos. Agora: o conhecimento divino de um ato futuro ou é necessitante (machríach) ou não. Se é: o homem está forçado a agir como D'us previu, e então "não cabe recompensa nem castigo", pois só se louva ou censura quem age sem constrangimento. Se não é: o homem poderia agir ao contrário do que D'us "sabia" — e então esse conhecimento estaria errado, "não seria conhecimento mas ignorância". Os dois chifres do dilema parecem destruir, um a liberdade, o outro a onisciência.
Antes de buscar saída, Albo crava que o possível (téva ha'efshar — o livre-arbítrio, a contingência) existe, por dupla prova. Pela razão: se nada fosse possível (tudo necessário), todo esforço seria vão, "anular-se-iam as artes, os ofícios, o estudo, a aproximação do útil e a fuga do nocivo" e "não haveria lugar para a vontade" — contra a experiência e contra a própria constituição humana. Pela Torá: em geral (de que serviriam as exortações "quem dera fosse o seu coração para temer-me"?) e em particular (os mandamentos "farás um parapeito", "não matarás" pressupõem que o homem pode escolher) — e, decisivamente, "se não houvesse o possível, a recompensa e o castigo seriam pura iniquidade". Logo a liberdade é certa; a onisciência também é certa; e a dúvida — como conciliá-las — permanece aguda.
Albo, com o seu método dialético, expõe e critica duas tentativas clássicas. (1) Saadia Gaon (Emunot veDe'ot IV, seguido pelo Cuzari): o conhecimento divino não causa o evento (como o nosso conhecimento do passado não o causou); por isso os atos "permanecem na sua natureza de possibilidade". Albo objeta: isso "está próximo de dizer que D'us não sabe os possíveis" — pois, se o conhecimento não está ligado à existência do ato, ele poderia divergir do que realmente ocorre, e voltaria a ser "ignorância". (2) Os "posteriores" (alusão a uma posição de tipo averroísta/gersonida): a coisa é necessária por suas causas mas possível em si — a chuva de amanhã é possível em si, mas necessária dadas as causas (vapores, humidade), e D'us a conhece pelas causas. Albo refuta com vigor: isso na verdade nega o possível e "inclina-se à doutrina do decreto absoluto" — se as causas necessitam e D'us as conhece, o resultado é necessário de fato; o "possível em si" passa a ser mera abstração verbal, "uma consideração intelectual, não o assunto em si". E o dilema ressurge intacto: se as causas fossem equilibradas entre as duas opções, o que decide? Se o conhecimento de D'us decide, morre o possível; se o possível sobrevive, morre o conhecimento divino. "Ou conhecimento, ou possível" — parece não haver terceira via.
Caracteristicamente, Albo não resolve aqui. Tendo demonstrado que as soluções correntes "giram entre os dois extremos" (umas sacrificam a liberdade, outras a onisciência), ele recusa-se a multiplicá-las "para não alongar no que não tem proveito" e anuncia a sua própria via — mas só após "uma premissa no capítulo seguinte". O capítulo é, assim, a montagem do problema na sua forma mais cortante: estabelece os dois pólos inegociáveis (D'us sabe tudo; o homem é livre), mostra a falência das conciliações fáceis, e cria a expectativa da solução alboniana — que, fiel ao seu equilíbrio entre razão e fé, buscará preservar ambas as verdades sem reduzir uma à outra. Está aberto o tratado da providência, da retribuição e do livre-arbítrio que coroa o Sefer HaIkkarim.
A premissa para resolver o enigma da presciência: as ciências teóricas discordam nos próprios fundamentos — a astronomia e a física partem de princípios opostos, e contudo o que o sentido atesta é verdadeiro, ainda que não saibamos a causa. Assim a Torá concilia o que parece contraditório: aceita o livre-arbítrio (com o filósofo) e a presciência divina (com o astrólogo), porque o sentido testemunha ambos.
A premissa para resolver o enigma da presciência: as ciências teóricas discordam nos próprios fundamentos — a astronomia e a física partem de princípios opostos, e contudo o que o sentido atesta é verdadeiro, ainda que não saibamos a causa. Assim a Torá concilia o que parece contraditório: aceita o livre-arbítrio (com o filósofo) e a presciência divina (com o astrólogo), porque o sentido testemunha ambos.
1 Sabe que as ciências teóricas chochmot iyuniot não concordam em todas as suas palavras sobre um só assunto, mas cada uma discorda da outra nas suas raízes e nos seus princípios. E isto é: que todo possuidor de uma ciência crê e pensa que os princípios da sua ciência são verdadeiros e explicados no cúmulo da explicação, até que considera como tolo e ignorante o que discorda deles; e o possuidor de uma outra ciência nega aquelas raízes e princípios, e pensa que os seus próprios princípios e raízes são o oposto das outras — verdadeiros. Como acontece ao possuidor da ciência da astronomia techuná com o físico natural: pois o astrónomo põe duas raízes sobre as quais se constroem todas as demonstrações daquela ciência — e elas são a esfera excêntrica galgal yotsé merkaz e a esfera epiciclo galgal hakafá; e o possuidor da ciência natural põe que os movimentos são três — partindo do meio, e em direção ao meio, e em torno do meio —, e esta é a maior dos seus princípios; e diz também que é impossível que se ache um movimento circular a não ser em torno de um corpo imóvel e permanente. E o astrónomo nega tudo isto, porque da postulação da esfera-epiciclo que ele põe decorre que se ache um movimento que não é em direção ao meio nem partindo do meio nem em torno do meio — a não ser que digamos que há no meio da esfera-epiciclo um corpo imóvel e permanente como a terra, em torno do qual gira a esfera-epiciclo, como gira a esfera diurna em torno da terra, que é o meio, que é uma coisa imóvel e permanente; e decorre, conforme isto, que haja dentro das esferas-epiciclos postas para os planetas kochavim nevuchim outras terras em torno das quais eles se movem, e que se achem nos céus, conforme isto, outros mundos. E da postulação da esfera excêntrica decorre também que se ache um movimento circular em torno de um corpo que não é imóvel e permanente, já que a esfera excêntrica se move em torno de um ponto que se move sempre — pois, conforme o que se explicou na Epístola das Distâncias Igueret haRechakim, os centros das esferas excêntricas que há para os planetas, parte deles estão acima dos elementos, na esfera lunar, e parte deles acima da esfera da lua, e parte deles acima da esfera do sol, como despertou sobre isto o Rav, o Guia Maimônides, no capítulo 24 da segunda Parte.
הַחָכְמוֹת הָעִיּוּנִיּוֹת אֵינָן מַסְכִּימוֹת בְּשָׁרְשֵׁיהֶן. הַתְּכוּנִי מַנִּיחַ גַּלְגַּל יוֹצֵא מֶרְכָּז וְגַלְגַּל הַקָּפָה; הַטִּבְעִי מַנִּיחַ ג׳ תְּנוּעוֹת וְשֶׁאֵין תְּנוּעָה סְבוּבִית אֶלָּא סְבִיב גֶּשֶׁם נָח.
2 E, com todas estas coisas impossíveis e estranhezas que o astrónomo põe, traz prova das suas palavras a partir dos eclipses lunares e solares, que são apreendidos pelo sentido, e a partir do que se acha nos aspectos mabatim das conjunções das estrelas, que é concordante com as suas postulações; e por causa disto constrói todas as suas demonstrações sobre eles e não se importa com as postulações do físico natural e os seus princípios. E o físico natural nega os princípios do astrónomo e as suas postulações pelo lado da especulação natural, com o facto de o sentido ser concordante com as palavras do astrónomo; e diz o possuidor da ciência natural que o que se acha pelo sentido é verdade, mas não pelo lado daquelas raízes e postulações que põe o astrónomo, que são impossíveis em si mesmas, mas pelo lado de outras raízes que não as conhecemos.
הַתְּכוּנִי מֵבִיא רְאָיָה מֵהַלִּקּוּיִים הַמּוּשָּׂגִים בַּחוּשׁ. הַטִּבְעִי: הַנִּמְצָא לַחוּשׁ אֱמֶת, אֲבָל מִצַּד שָׁרָשִׁים אֲחֵרִים שֶׁלֹּא נֵדָעֵם.
3 E coisa semelhante a isto aconteceu ao possuidor da ciência dos juízos das estrelas mishpetei hakochavim — a astrologia — com o filósofo: pois o filósofo nega o conhecimento do Senhor yediat Hashem e põe a natureza do possível permanente; e o possuidor da ciência dos juízos põe o conhecimento do Senhor como verdadeiro e diz que ele, bendito seja, sabe o decretado pelo lado da constelação ma'arachá, e decreta que é impossível que seja de outro modo que não este e nega a natureza do possível. E o possuidor da ciência da Torá chochmat haTorá concorda com ambos: pois põe a natureza do possível existente como põe o filósofo, e traz prova das suas palavras a partir do sentido que testemunha sobre isto, como se explicou no capítulo anterior a este; e põe o conhecimento do Senhor como verdadeiro como põe o possuidor da ciência dos juízos das estrelas, e traz prova das suas palavras a partir do intelecto, que decreta que não é cabido atribuir ao Senhor, bendito seja, a deficiência da ignorância, e de que não seja o seu conhecimento abrangente de tudo o que se faz no mundo; e diz, com isto, que o seu conhecimento é concordante com a natureza do possível a partir do que se vê pelo sentido da providência divina na descida da chuva no tempo do verão, na ausência das humidades e dos vapores, por meio da oração dos justos e dos piedosos.
הַפִילוֹסוֹף מַכְחִישׁ יְדִיעַת הַשֵּׁם וּמַנִּיחַ אֶפְשָׁר; בַּעַל הַמִּשְׁפָּטִים מַנִּיחַ יְדִיעָה וּמַכְחִישׁ אֶפְשָׁר. בַּעַל הַתּוֹרָה מַסְכִּים עִם שְׁנֵיהֶם.
4 E, depois de que o sentido testemunha conforme as suas palavras, não nos importaremos com as palavras de quem nega isto — assim como não nos importamos com as palavras do físico natural que discorda do astrónomo, depois de que o sentido testemunha conforme as palavras do astrónomo; assim como não nos importamos com as palavras do físico natural que põe que é impossível a um ponto que esteja imóvel a não ser num corpo imóvel, e no entanto o matemático limudi põe num corpo esférico que se move com um movimento circular dois pontos imóveis e não-móveis, que os chama "polos" kotvim, e a esfera no seu conjunto está em movimento. E assim em toda coisa que o sentido testemunha sobre ela, dizemos que ela é verdadeira, ainda que não saibamos a sua causa — como diz o físico natural sobre as palavras do astrónomo que são verdadeiras, depois de que o sentido testemunha sobre elas, e nega as causas que põe o astrónomo para isto e diz que aquelas causas não são verdadeiras, mas há nele outras causas não-conhecidas.
הַחוּשׁ מֵעִיד — נֹאמַר שֶׁהוּא אֱמֶת אַף שֶׁלֹּא נֵדַע סִבָּתוֹ. כַּקֹּטֶב הַנָּח בְּגֶשֶׁם מִתְנוֹעֵעַ. כֵּן הַיְדִיעָה וְהָאֶפְשָׁר — שְׁנֵיהֶם אֱמֶת, וְהַסִּבָּה נֶעְלֶמֶת.
No capítulo anterior, Albo deixou o enigma da presciência e do livre-arbítrio sem solução, prometendo "uma premissa". Aqui está ela — e é uma premissa epistemológica de surpreendente modernidade: as ciências teóricas não concordam entre si nos próprios fundamentos, e cada uma julga "tolo" quem parte de outros princípios. A lição implícita: a aparente contradição entre dois saberes (como onisciência e liberdade) não obriga a sacrificar nenhum dos dois — pode haver verdade em ambos, com a causa da conciliação oculta.
O exemplo é tecnicamente preciso e historicamente real. A astronomia ptolomaica (techuná) construía os seus cálculos sobre dois artifícios geométricos: a esfera excêntrica (yotsé merkaz — cujo centro não é a Terra) e o epiciclo (galgal hakafá — uma esfera menor girando sobre a maior). Mas a física aristotélica (a "ciência natural") postulava que só há três movimentos (para o centro, do centro, em torno do centro) e que todo movimento circular gira em torno de um corpo imóvel central. Os dois sistemas são incompatíveis: os epiciclos exigiriam movimentos que não giram em torno do centro do universo (ou então "outras Terras e outros mundos" no céu — Albo registra a implicação cosmológica audaciosa!), e a excêntrica exigiria um movimento em torno de um ponto móvel. Albo cita o próprio Maimônides (Guia II:24), que reconhecera essa "perplexidade" entre a astronomia matemática e a física — o famoso impasse pré-copernicano.
A resolução de Albo é pragmática e empirista: o astrônomo prova pelo sentido — os eclipses e as conjunções planetárias, observáveis, confirmam os seus cálculos. Logo "o que o sentido atesta é verdadeiro", e o físico, que não consegue refutar os dados, admite que "o achado pelo sentido é verdade — mas por causas que não conhecemos", não pelos artifícios do astrônomo. A verdade do fenômeno não depende de conhecermos a sua causa. Albo reforça com outro exemplo geométrico: o físico diz que um ponto só fica imóvel num corpo imóvel, mas o matemático mostra que numa esfera em rotação há dois pontos imóveis — os polos. O fato é certo mesmo contrariando o princípio físico.
O cerne do capítulo: a mesma estrutura resolve a presciência. Há três posições. O filósofo (aristotélico) preserva o possível (livre-arbítrio) mas nega que D'us conheça os contingentes. O astrólogo preserva o conhecimento divino do que a constelação decreta, mas nega o possível (tudo necessário). Cada um sacrifica um pólo. O homem da Torá "concorda com ambos": afirma o possível (com o filósofo, provado pelo sentido — cap. 1) e a onisciência (com o astrólogo, exigida pela razão — negá-la atribuiria a "deficiência da ignorância" a D'us). E o que autoriza sustentar as duas verdades juntas, apesar da aparente contradição, é justamente o sentido: vê-se a providência divina operar (a chuva no verão pela oração dos justos, sem as causas naturais), sinal de que D'us conhece e intervém; e vê-se o esforço humano fazer diferença, sinal de que o possível existe. Como na astronomia, aceitamos os dois fatos atestados e admitimos que a causa da sua compatibilidade nos é oculta — "não saberemos a causa, mas a coisa é verdadeira". Albo prepara assim a sua solução do cap. 1: não uma redução de um pólo ao outro (como Saadia ou os "posteriores"), mas a afirmação simultânea de ambos, fundada na primazia do dado sobre a teoria — uma humildade epistemológica que reserva a D'us o modo de conciliar o que à mente humana parece irreconciliável.
A solução do enigma: fazer raiz do que o sentido atesta — o possível e a presciência —, ainda que a razão não alcance a causa, como não alcança a do movimento diurno ou do ímã. O conhecimento de D'us é infinito e não se mede pelo nosso: abrange tudo sem anular o possível nem se alterar. É o que ensinaram os Sábios: "Tudo é previsto, e a liberdade é dada."
A solução do enigma: fazer raiz do que o sentido atesta — o possível e a presciência —, ainda que a razão não alcance a causa, como não alcança a do movimento diurno ou do ímã. O conhecimento de D'us é infinito e não se mede pelo nosso: abrange tudo sem anular o possível nem se alterar. É o que ensinaram os Sábios: "Tudo é previsto, e a liberdade é dada."
1 Depois de se te ter explicado que os possuidores das ciências discordam um com o outro nas suas postulações, daqui em diante é cabido que façamos em toda coisa uma raiz a partir do sentido, e não nos importemos com as palavras de todas elas senão com aquele com que se acha o sentido concordante.
2 E, depois de que o sentido testemunha conforme as palavras do homem da Torá — a saber do achar-se a natureza do possível, e da chegada do conhecimento vindo de D'us em coisas particulares individuais por meio dos profetas, e da providência particular nos indivíduos específicos, como foi isto nos patriarcas em todos os seus assuntos conforme a tradição que decorre em nossas mãos até hoje, e na saída do Egito, e nos demais indivíduos específicos escritos nos livros dos profetas —, não nos importaremos com aquele que nega isto, de que não neguemos o que se acha no sentido em razão da especulação do filósofo; assim como não negamos o ser a esfera a se mover com um movimento circular sobre dois polos imóveis, ainda que o físico natural, pelo lado da sua especulação, negue isto — já que é cabido que façamos em toda coisa uma raiz a partir do que se acha no sentido, ainda que não baste o intelecto para saber a sua causa.
נַעֲשֶׂה שֹׁרֶשׁ מִן הַחוּשׁ. הַחוּשׁ מֵעִיד עַל טֶבַע הָאֶפְשָׁר וְעַל הַהַשְׁגָּחָה (בָּאָבוֹת, בִּיצִיאַת מִצְרַיִם) — לֹא נַכְחִישׁ אַף שֶׁלֹּא יַסְפִּיק הַשֵּׂכֶל לַסִּבָּה.
3 Pois o intelecto é fraco de dois lados: ou que não apreenda muitas coisas na sua verdade, ou que não baste para saber as causas de todas as coisas, e mesmo das coisas apreendidas pelo sentido. Pois eis que o movimento diurno tenuá yomit é impossível que se negue a sua existência, já que o sentido testemunha sobre ele, e é impossível ao intelecto humano que estime a sua estrutura de modo algum; pois, se dissermos que o que o move é um corpo nono guéshem teshi'i — como concordaram muitos dos sábios, e o chamaram "esfera diurna" porque ele delimita o aspecto da tarde e da manhã que se chama "um dia" —, quem dera que eu soubesse de que modo move aquele corpo todas as esferas! Se for pelo modo do toque peguishá — já que o corpo é impossível a ele que mova um corpo a não ser pelo modo do toque —, como é possível que se represente que o toque da esfera de Marte com a esfera do sol a mova com o movimento diurno que lhe vem por acidente bemikré pelo lado do toque da esfera de Júpiter, com que a tocou a esfera de Saturno, que se move pelo lado do toque da esfera das estrelas fixas, que se move com um movimento diurno por acidente pelo lado do toque da esfera nona diurna — e no entanto não se move a esfera do sol com o movimento próprio à esfera de Marte no seu toque a ela, que é o movimento essencial à esfera de Marte; e como se move a esfera da lua com o movimento diurno que vem do toque da esfera nona aos outros, e no entanto não se move com o movimento próprio à esfera de Mercúrio, que é essencial e próprio a ela, vindo do seu toque a ela?
הַשֵּׂכֶל לוֹאֶה: לֹא יַשִּׂיג, וְלֹא יֵדַע סִבּוֹת. הַתְּנוּעָה הַיּוֹמִית — הַחוּשׁ מֵעִיד, וְאִי אֶפְשָׁר לְשַׁעֵר תְּכוּנָתָהּ; אִם הַמֵּנִיעַ גּוּף תְּשִׁיעִי עַל צַד הַפְּגִישָׁה — קֻשְׁיוֹת רַבּוֹת.
4 E talvez por causa disto disse o sábio nosso mestre Aben Ezra Ibn Ezra, de abençoada memória, em nome de um grande sábio sefardita, que não há acima da esfera das estrelas um corpo — por provas claras —, quer dizer que é impossível que seja o movimento diurno pelo lado de um corpo nono. E não digamos que a esfera das estrelas move com o movimento diurno, como vi haver quem escreveu assim; pois, depois de que se acha para ela o movimento retardatário próprio, é impossível a uma só esfera que se mova com dois movimentos diferentes pelo lado de si mesma, a não ser se for o um essencial e vindo de si mesma e o outro por acidente e pelo lado de um outro motor que não ele. Mas se vê que a sua opinião é dizer que o que move o movimento diurno não é um corpo, mas uma inteligência separada séchel nivdal; e também nisto não está a minha opinião tranquila, pois isto não é suficiente de modo algum — porque a inteligência separada não move o corpo a não ser se for ele possuidor de alma e pelo lado da representação tziyur, como se explicou no seu lugar, e explicou isto o Rav, o Guia, no capítulo 10 da segunda Parte; e é impossível a nenhum corpo possuidor de alma que se mova de uma só vez com dois movimentos diferentes vindos de duas representações diferentes, assim como é impossível ao homem que se mova para o oriente e para o ocidente de uma só vez por ordem de dois reis — em que o um lhe ordena mover-se para o oriente e o um lhe ordena mover-se para o ocidente. E ainda, pois os elementos são corpos não-possuidores de alma, e se vê ao olho que os cometas kochavim ba'alei zenavot que se gravam no elemento do fogo, de que eles se movem com o movimento diurno — como se mencionou isto no livro Dos Sinais Superiores Meteorológicos e é apreendido pelo sentido —, e não há causa naquele movimento senão pelo modo do toque da esfera da lua; e, se é assim, por que se move aquele cometa gravado no elemento do fogo com o movimento diurno apenas, e não se move com ele com o movimento próprio à esfera da lua, depois de ser ele o que toca a esfera da lua? — pois nós vemos os cometas com cabeleiras ba'alei shalshelaot por um mês ou dois meses seguindo o movimento diurno, e não têm vínculo com o movimento da lua; e esta é uma dúvida muito forte que destrói o ser o movimento diurno pelo toque.
אִבְּן עֶזְרָא: אֵין לְמַעְלָה גּוּף תְּשִׁיעִי. וְלֹא שֵׂכֶל נִבְדָּל לְבַד, שֶׁאֵינוֹ מֵנִיעַ אֶלָּא עַל צַד הַצִּיּוּר. הַכּוֹכָבִים בַּעֲלֵי הַזְּנָבוֹת נִמְשָׁכִים לַיּוֹמִית וְלֹא לַיָּרֵחַ — סָתִירָה לַפְּגִישָׁה.
5 E que seja pelo modo da representação é impossível, por serem os elementos corpos mortos e por não se moverem pelo modo da representação de modo algum. E sobre isto disseram na Guemará a Shmuel, que disse "são claros para mim os caminhos do céu como os caminhos de Neardea" — "sabe o mestre do cometa kochva deshavit?" — quer dizer: se sabia a causa do ser o cometa, possuidor de cauda ou possuidor de cabeleira, a seguir o movimento diurno e não o movimento da lua; e respondeu que não sabia a causa disto, pois a causa disto é oculta, na verdade — a não ser que digamos que a esfera diurna está abaixo da esfera da lua, e então precisaremos dizer assim, a saber que há para cada estrela e estrela um motor diurno megalguel yomi abaixo dela que a move com o movimento diurno, como era a opinião dos antigos antes de Ptolomeu; e não há o intelecto humano suficiente para saber a verdade disto, assim como não é suficiente para saber a causa dos movimentos celestes de modo que não discorde da especulação natural. E mesmo nas coisas naturais terrestres não é suficiente o intelecto humano para saber as suas causas, como a atração do ímã magnetis ao ferro, por quê. E por causa disto não é cabido que deixemos o apreendido pelo sentido e que o neguemos porque não saibamos a sua causa; e por isso não é cabido que neguemos a natureza do possível, apreendida pelo sentido, e o conhecimento do Senhor, bendito seja, necessário pelo lado do intelecto, porque ignorámos a causa disto.
״יָדַע מַר כּוֹכְבָא דְשָׁבִיט?״ — לֹא יָדַע, שֶׁסִּבָּתוֹ נֶעְלֶמֶת. כִּמְשִׁיכַת הַמַּגְנֵטִיס. אֵין לְהַכְחִישׁ הַמּוּשָּׂג בַּחוּשׁ — וְלֹא טֶבַע הָאֶפְשָׁר וִידִיעַת הַשֵּׁם.
6 E, se perguntares e disseres: como é possível reunir entre estas duas opiniões — ao pôr a natureza do possível permanente com o facto de o conhecimento divino ser abrangente nele? — a resposta nisto é do modo que escreveu o Rambam, de abençoada memória, que disse que, depois de que o conhecimento de D'us é essencial nele e não é uma coisa adicional sobre a essência, eis que a investigação do seu conhecimento, bendito seja, — como ele é — retorna à investigação da sua essência; e, assim como a sua essência é oculta no cúmulo da ocultação, assim a qualidade do seu conhecimento é oculta no cúmulo da ocultação; e, assim como não há comparação e semelhança entre a sua existência e a existência de outro, assim não há o que comparar entre o seu conhecimento e o conhecimento de outro. E por isso, se ao conhecimento que se acha em nós, ou que é compreendido junto a nós, decorrem coisas nulas muitas — seja a de suprimir a natureza do possível, seja a de que o seu conhecimento abranja o que não se concebe que o abranja um conhecimento, ao ser ele o que sabe a coisa não-finita, seja a de que se mude o seu conhecimento na mudança dos conhecidos e coisa semelhante a isto —, eis que isto decorre da compreensão do seu conhecimento como do gênero do nosso conhecimento; mas, depois de que não é o seu conhecimento do gênero do nosso conhecimento, não decorrem estas coisas nulas, porque o seu conhecimento, bendito seja, é não-finito, e ao conhecimento não-finito não decorrem estas coisas nulas.
הָרַמְבַּ״ם: יְדִיעַת הָאֵל עַצְמִית, וְכַחֲקִירַת עַצְמוּתוֹ הַנֶּעְלֶמֶת. אֵין לְהַקִּישׁ יְדִיעָתוֹ לִידִיעָתֵנוּ — הַבְּטוּלִים נִמְשָׁכִים לַיְדִיעָה הַבַּעֲלַת תַּכְלִית, לֹא לַבִּלְתִּי בַּעֲלַת תַּכְלִית.
7 E com este argumento acha-se Isaías a repreender os que negam o conhecimento do Senhor; disse "por que dizes, Jacó" etc., "acaso não soubeste, ou não ouviste" etc. (Isaías 40:27-28); disse "acaso não soubeste" pelo lado da investigação, "ou não ouviste" pelo lado da tradição kabalá, "de que o D'us da eternidade é o Senhor" — quer dizer que pelo lado da demonstração mofet se explica que há um existente necessário da existência, que ele é o D'us da eternidade, quer dizer a causa de todos os existentes, e que ele é o Senhor, quer dizer que ele é uma inteligência separada que não é corpo nem força num corpo; e disto decorre que seja um, antigo e eterno, e com todas as coisas que decorrem para o princípio da existência do Senhor, bendito seja, conhecido pelo estudo da investigação; e, com o facto de ser ele uma inteligência separada, é o criador das extremidades da terra — quer dizer, a causa dos existentes corpóreos; e, com o facto de ser ele não-finito, eis que ele é a causa do mundo corpóreo, que é finito, como o seu dizer "o criador das extremidades da terra"; e isto não é pelo lado do cansaço e da deficiência de força, pois "não se fatiga", nem pelo lado da mudança, pois "não se cansa" (Isaías 40:28).
8 E, se é assim, então o que crê na eternidade do mundo e nega o conhecimento do Senhor, bendito seja, que nos dê a conhecer como é possível que se ache a coisa corpórea a partir da inteligência separada, a não-mutável — pois à sua força do que nega ele tem que admitir que o achar-se a coisa material a partir da inteligência separada é uma mudança e uma produção de algo a partir do nada yesh me'áin, ao que é impossível ao intelecto humano dar uma causa; e também como é possível que se ache, a partir de um existente cuja força é não-finita, um mundo finito. E, se é assim, a nossa força — é forçoso que tenhamos que admitir que esta coisa está dependente do seu conhecimento, bendito seja, pelo lado de que ela é não-finita, e ele soube a causa de tudo isto, ainda que nós não possamos estimar isto pelo lado do nosso conhecimento. E assim também é cabido que digamos que este erro de suprimir o conhecimento do Senhor, bendito seja, e de dizer "está oculto o meu caminho do Senhor" (Isaías 40:27), é porque eles comparam o conhecimento do Senhor, bendito seja, ao conhecimento do homem; e o conhecimento do homem, por ser ele finito, decorrem a ele estas coisas nulas que dissemos — quer dizer, que se mude o conhecimento na mudança dos conhecidos e que não abranja o conhecimento o que é impossível que o abranja um conhecimento, que é o não-finito conforme o que estimamos isto no nosso conhecimento; mas o conhecimento dele, bendito seja, por ser ele não-finito, pode abranger o que não tem fim, e abrange o que não se acha não existe ainda sem que isto obrigue uma mudança no seu estatuto, bendito seja; e por isso é que concluiu "não há investigação chéker do seu entendimento" (Isaías 40:28). E assim o que vós dizeis "do meu D'us o meu juízo passa" (Isaías 40:27) — quer dizer, o que eu julgo e com que necessito uma das duas partes do possível é impossível que o saiba o Senhor, bendito seja, pois, se for assim, anular-se-á a natureza do possível — não é assim, pois esta anulação se segue ao conhecimento finito; mas o Senhor, bendito seja, "não há investigação do seu entendimento", e, por ser o seu conhecimento não-finito, não se anula com ele a natureza do possível, e nós não saberemos a qualidade do seu conhecimento, como é, assim como não sabemos a sua essência, como é.
״הֲלוֹא יָדַעְתָּ אִם לֹא שָׁמַעְתָּ אֱלֹהֵי עוֹלָם ה׳... אֵין חֵקֶר לִתְבוּנָתוֹ״. הַטָּעוּת — מִדִּמּוּי יְדִיעָתוֹ לִידִיעָתֵנוּ הַבַּעֲלַת תַּכְלִית.
9 Este é o caminho do Rambam, de abençoada memória, no conhecimento do Senhor, bendito seja; e disse o Rav, de abençoada memória, que, assim como não há o que comparar entre a sua essência e a nossa essência, assim não há o que comparar entre o seu conhecimento e o nosso conhecimento — já que o nome "conhecimento" se diz a respeito dele, bendito seja, e a respeito de nós na homonímia shituf completa do nome. E não é a intenção do Rav, de abençoada memória, a dizer que se diga o nome "conhecimento" a respeito de nós sobre o conhecimento e a respeito dele, bendito seja, sobre a ignorância, ou ao contrário, como decreta o assunto da homonímia do nome, longe disso; mas a explicação do assunto é assim: que, assim como o nome "existência" metsiut se diz a respeito dele, bendito seja, e a respeito de nós na homonímia completa — e não há dúvida de que, com o facto de a sua existência, bendito seja, ser diferente da existência de outro no cúmulo da diferença, com tudo isto não indica num da existência e noutro da privação, pois pelo lado da indicação negativa — que é a negação da privação — eis que a sua indicação é una, como se explicou no capítulo 30 do Maamar II: que, assim como a respeito dele, bendito seja, indica o nome "existência" a negação da privação, assim o nome "existência" a respeito de nós indica a negação da privação, mas pelo lado da indicação positiva do nome se diz o nome "existência" a respeito dele e a respeito de nós na homonímia completa, pois não há comparação entre a sua existência e a existência de outro de modo algum —, assim o nome "conhecimento" dito a respeito dele e a respeito de nós: assim como a respeito dele, bendito seja, indica a ausência da ignorância, assim a respeito de nós também indica sobre isto, e por este lado, que é o lado da indicação negativa, se diz a respeito dele e a respeito de nós com precedência e posterioridade e não na homonímia completa; mas pelo lado da indicação positiva que indica o nome "conhecimento", eis que ele se diz a respeito dele, bendito seja, e a respeito de nós na homonímia completa; e, assim como a sua essência, bendito seja, é oculta no cúmulo da ocultação, assim o seu conhecimento é oculto no cúmulo da ocultação.
שֵׁם הַיְדִיעָה נֶאֱמָר בּוֹ וּבָנוּ בְּשִׁתּוּף. מִצַּד הַהוֹרָאָה הַשּׁוֹלֶלֶת (הֶעְדֵּר הַסִּכְלוּת) — בִּקְדִימָה וְאִחוּר; מִצַּד הַחִיּוּבִית — בְּשִׁתּוּף גָּמוּר.
10 E, quando se compreendem as palavras do Rav, o Guia, no conhecimento deste modo, removem-se de sobre elas as dúvidas com que duvidaram os posteriores sobre as suas palavras; e sobe em nossas mãos que o conhecimento do Senhor, bendito seja, por ser ele não-finito, abrange tudo o que se faz no mundo, sem que decorra nele, bendito seja, mudança, e sem que se anule a natureza do possível, e abrange o que não tem fim. E este caminho é o mais correto do que examinei nesta coisa; e ele é o caminho que explicaram os nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Avot, numa mishná anônima com a qual não há quem discorde; disseram "tudo é previsto, e a permissão é dada hakol tzafui vehareshut netuná": no seu dizer "tudo é previsto" indicam que o conhecimento do Senhor abrange tudo o que se faz no mundo, e não há coisa que caia por acaso sem um conhecimento prévio; e no seu dizer "e a permissão é dada" indicam que a natureza do possível permanece existente e que o conhecimento do Senhor não a anula. E esta é a verdade nesta questão, ainda que o nosso conhecimento não seja suficiente para estimar a possibilidade desta coisa; e basta isto no conhecimento do Senhor ao nível da nossa limitação.
״הַכֹּל צָפוּי וְהָרְשׁוּת נְתוּנָה״ — ״הַכֹּל צָפוּי״: יְדִיעָתוֹ מַקֶּפֶת; ״וְהָרְשׁוּת נְתוּנָה״: טֶבַע הָאֶפְשָׁר קַיָּם. וְזֶהוּ הָאֱמֶת, אַף שֶׁאֵין יְדִיעָתֵנוּ מַסְפֶּקֶת לְשַׁעֵר.
Este capítulo entrega a solução alboniana do grande enigma da presciência, construída sobre a premissa do cap. 2 (o sentido como árbitro acima das teorias discordantes). O argumento tem três movimentos: (1) o sentido atesta ambos os fatos — a liberdade humana e a providência/conhecimento divino —, logo ambos são verdadeiros; (2) a razão humana é limitada e frequentemente não alcança a causa nem de fenômenos óbvios; (3) o conhecimento divino, sendo infinito, não se mede pelo nosso e por isso não gera as contradições que o nosso geraria.
O coração demonstrativo do capítulo é uma longa exibição dos limites da razão, com a astronomia como exemplo-mestre. O movimento diurno (a rotação aparente de todo o céu em 24h) é inegável (o sentido o vê), mas ninguém sabe explicá-lo: se houver um "nono corpo" movendo tudo "por toque" (peguishá, contato mecânico), surge a perplexidade — por que o toque transmite só o movimento diurno e não o movimento próprio de cada esfera? Albo registra a famosa observação de Ibn Ezra (em nome de "um grande sábio sefardita") de que talvez não exista nono corpo, e discute se o motor seria uma "inteligência separada" — mas rejeita (a inteligência só move por "representação", e nenhum corpo se move em dois sentidos de uma vez, "como ninguém obedece a dois reis que mandam ir a leste e a oeste"). O argumento decisivo: os cometas ("estrelas com cauda/cabeleira"), gravados na esfera do fogo (corpo "morto", sem alma), seguem o movimento diurno por meses sem seguir o da lua que tocam — o que "destrói a teoria do toque". E o episódio talmúdico de Shmuel, que se gabava de conhecer "os caminhos do céu como as ruas de Neardea", mas não sabia a causa do cometa. Conclusão: se nem o céu visível a razão explica — nem mesmo a atração do ímã aqui na terra! —, então a incapacidade de explicar como presciência e liberdade coexistem não é razão para negar nenhuma das duas.
A peça teológica positiva é a doutrina de Maimônides (Guia III:20-21), que Albo adota como "o caminho mais correto". Como o conhecimento de D'us é idêntico à sua essência (não um atributo adicional — Maamar II), investigá-lo é investigar a essência divina, "oculta ao extremo". E "assim como não se compara a Sua existência à nossa, não se compara o Seu conhecimento ao nosso". As contradições que parecem insolúveis — que o conhecimento mude com os eventos, que abranja o infinito, que anule o possível — decorrem todas de imaginar o conhecimento divino como do nosso gênero (finito). Mas o conhecimento infinito não sofre essas limitações: pode abranger o ainda-não-existente sem mudar, e conhecer o contingente sem necessitá-lo.
Albo ancora a doutrina em Isaías 40, lido como refutação aos que negam a providência ("oculto está o meu caminho do Senhor", "do meu D'us o meu juízo passa"). O profeta responde: "D'us da eternidade, o Senhor… não há investigação do seu entendimento" — o erro está em "comparar o conhecimento de D'us ao do homem". E ele aprofunda com a doutrina linguística do shituf (homonímia) do Maamar II: "conhecimento" dito de D'us e de nós é homônimo — partilha só o nome. Mas Albo precisa, com finura, contra mal-entendidos: não significa que "conhecer" em nós seja "ignorar" em D'us; significa que, no seu sentido negativo (negação da ignorância), aplica-se a ambos "com precedência e posterioridade"; no sentido positivo (o que o conhecimento é), aplica-se "em homonímia completa" — pois o conhecimento divino é tão oculto quanto a essência divina.
O capítulo culmina na máxima de Avot que sintetiza toda a posição — e que Albo destaca como "mishná anônima com a qual ninguém discorda": "Tudo é previsto, e a liberdade é dada" (hakol tzafui vehareshut netuná). "Tudo é previsto" = a onisciência abrange tudo, nada cai ao acaso. "A liberdade é dada" = o possível permanece, e o conhecimento divino não o anula. As duas metades da frase afirmam os dois pólos sem reduzir um ao outro — exatamente a solução de Albo. A honestidade final é desarmante: "esta é a verdade, ainda que o nosso conhecimento não baste para estimar a possibilidade desta coisa". Não é uma demonstração de como os dois coexistem (isso a mente humana não alcança, como não alcança o cometa ou o ímã), mas a afirmação confiante de que coexistem — fundada na primazia do dado, na limitação reconhecida da razão e na infinitude insondável do conhecimento divino. Albo resolve o paradoxo não dissolvendo-o, mas situando-o no único lugar onde repousa sem contradição: o abismo entre o finito e o Infinito.
Duas opiniões sobre a influência dos astros: a do filósofo — os corpos celestes agem só sobre os elementos, preparando a matéria — e a dos astrólogos — tudo o que sucede ao homem é decretado pelos astros, sem escapatória. Albo aceita uma influência real (atestada pelos sentidos), mas demole o determinismo astrológico: as indicações dos astros não são necessitantes, e a Torá liberta da constelação.
Duas opiniões sobre a influência dos astros: a do filósofo — os corpos celestes agem só sobre os elementos, preparando a matéria — e a dos astrólogos — tudo o que sucede ao homem é decretado pelos astros, sem escapatória. Albo aceita uma influência real (atestada pelos sentidos), mas demole o determinismo astrológico: as indicações dos astros não são necessitantes, e a Torá liberta da constelação.
1 E é cabido que falemos agora sobre a indicação da constelação hora'at hama'arachá, e dizemos que as opiniões dos homens a respeito da indicação da constelação, conforme o que se acha nos antigos, são duas. A primeira é a opinião do filósofo, o que diz que os corpos celestes e as estrelas agem no mundo inferior, no sentido em que eles, com os seus movimentos diferentes, movem os elementos e os compõem e os preparam com espécies de preparações diferentes para receber as formas naturais — até que decorre disto que tornem alguns dos filhos do homem preparados a receber a sabedoria e alguns não, e alguns preparados a que recebam o influxo divino profético e alguns não. E esta espécie de indicação ou domínio que têm as estrelas no mundo inferior é impossível que se negue, depois de que nós vemos o sol aquecer o ar, e a lua humedecê-lo e esfriá-lo e fortalecer o elemento das águas — é impossível que não digamos que eles, com os seus movimentos, fortaleçam uma vez as humidades e uma vez a secura e uma vez o frio e uma vez o calor, até que preparem a matéria para receber formas diferentes. Mas que tenham as estrelas uma outra indicação nas coisas outras nas quais não há entrada para as qualidades físicas — como na pobreza, ou na riqueza, ou se o homem desposará uma mulher ou muitas, ou se será um homem de excelência ou um homem de deficiência — diz esta seita que é vaidade e coisa de mentira, muito distante do homem de que suba à mente que indiquem as estrelas sobre o que não cai nelas, como a pobreza e a riqueza e o amor e o ódio e os que se lhes assemelham.
הַפִילוֹסוֹף: הַכּוֹכָבִים פּוֹעֲלִים בַּיְּסוֹדוֹת, מְכִינִים הַחֹמֶר. אֵין לְהַכְחִישׁ (הַשֶּׁמֶשׁ מְחַמֵּם). אֲבָל בָּעֹשֶׁר וְהָאַהֲבָה — אֵין הוֹרָאָה.
2 E a segunda opinião é a opinião dos repartidores dos céus, dos videntes das estrelas choznim bakochavim, que dizem que todas as coisas que vêm sobre o homem vêm sobre ele pelo decreto das estrelas; e trazem prova para isto a partir do sentido, no facto de que o vidente das estrelas anuncia ao homem o que lhe acontecerá em todos os particulares dos seus assuntos — se viverá muitos anos, e se será pobre ou rico, e em que prosperará mais, e quantas mulheres desposará, e quantos filhos gerará e coisa semelhante a isto; e esta é uma prova de que todas as coisas vêm sobre o homem pelo decreto das estrelas e de que é impossível escapar do seu decreto; e dizem que deste modo se mantém o conhecimento do Senhor sem nenhuma mudança. E esta é a opinião de alguns dos nossos mestres, de abençoada memória, os que dizem "a constelação mazal enriquece, a constelação dá sabedoria, e há constelação para Israel".
הַחוֹזִים בַּכּוֹכָבִים: כָּל הַבָּא עַל הָאָדָם בִּגְזֵרַת הַכּוֹכָבִים, וְאִי אֶפְשָׁר לְהִמָּלֵט. ״מַזָּל מַעֲשִׁיר מַזָּל מַחְכִּים וְיֵשׁ מַזָּל לְיִשְׂרָאֵל״.
3 E há o que julgar a respeito destas duas opiniões. Quanto à opinião primeira: depois de que é manifesto, em toda coisa que extrai a outra da potência ao ato, que é necessário que se ache no agente em ato o que se acha no paciente em potência — como se explicou na Metafísica —, e depois de que é manifesto também que as estrelas não são possuidoras de qualidades físicas, se é assim, como é possível que o sol aqueça o ar e a lua o humedeça? Senão que por força é que digamos que aquela premissa que dissemos — de que é cabido que se ache no agente em ato o que se acha no paciente em potência — eis que, na verdade, será isto no agente por natureza; mas, quando o agente é possuidor de intelecto, não é necessário isto nele; e, depois de que as esferas são vivas, possuidoras de alma intelectiva, já é possível que ajam nos existentes inferiores mesmo o que não se acha junto a elas, e por isso fortalecerão uma vez o elemento do fogo, e uma vez o elemento das águas, e uma vez o elemento do ar, e uma vez o elemento da terra; pois, assim como se acha a respeito do sol que o seu raio, ainda que não seja corpo, move o elemento do fogo e o fortalece, e a lua move o elemento das águas, assim há o que dizer a respeito das demais estrelas, que os seus raios movem os demais elementos e os fortalecem uma vez — e isto por uma coisa oculta ou uma relação não-conhecida por nós. E assim, deste modo, há o que dizer a respeito das demais indicações que indicam sobre a pobreza ou sobre a riqueza ou sobre a sabedoria e a ignorância e as demais coisas, ainda que aquelas coisas não se achem junto a elas, por uma coisa ou uma relação não-conhecida por nós, e com a condição de se achar alguma preparação no receptor — como o mestre faz agir o aprendizado no aluno, e como chega o proveito ao preparado mais do que ao não-preparado; e ainda, pois, depois de que o sentido testemunha sobre a chegada da coisa do vidente das estrelas aos homens, é impossível negar o sentido em qualquer assunto.
הַגַּלְגַּלִּים חַיִּים בַּעֲלֵי נֶפֶשׁ — יִפְעֲלוּ אֲפִלּוּ מַה שֶּׁאֵין אֶצְלָם, לְעִנְיָן נִסְתָּר. וּבִתְנַאי הֲכָנָה בַּמְקַבֵּל. וְהַחוּשׁ מֵעִיד — אִי אֶפְשָׁר לְהַכְחִישׁוֹ.
4 Também a respeito da opinião segunda, que é a opinião dos repartidores dos céus, dos videntes das estrelas, há muito o que julgar. Primeiro, que eles suprimem a natureza do possível, cuja existência se explicou a partir do sentido e que decretámos ser necessário que se ache, num capítulo deste Maamar. Segundo, há o que julgar a respeito dos seus princípios: pois eles dizem que há na esfera das estrelas a figura de um carneiro Áries e de um touro Touro e de gêmeos e outras além das figuras que indicam tal e tal; e eles traçam no seu pensamento linhas de estrela a estrela a fim de que se eleve e se complete aquela figura, até que traçam, deste modo, quarenta e oito figuras constelações — e por que não traçam outras linhas de outro modo a fim de que chegue e se complete uma outra figura? Como o que disseram de que a figura sexta das figuras do sul é a figura de um cão pequeno Cão Menor, e dizem que nela há duas estrelas apenas — quem dera que eu soubesse como se sabe isto naquelas duas estrelas! E eles dizem que os antigos, que eram perfeitos da criação mais do que nós, apreenderam aquelas figuras, ainda que nós não as apreendamos; e isto é vaidade, pois como subiria à mente que a mão dos homens hoje seja curta na apreensão dos sensíveis mais do que a dos antigos? — e eis que todo aquele cuja mão do seu intelecto é curta, fortalecem-se as suas sensações e apreende os sensíveis mais, como se vê nos viventes que não são possuidores de intelecto, de que as suas sensações são fortes mais do que as sensações do homem. E também a respeito daquelas quarenta e oito figuras que eles dizem que foram apreendidas pelos antigos — quem dera que eu soubesse com que as apreenderam, e como souberam que há na constelação tal a figura de tal e tal, até que digam que se ergue nas faces terceiras de Touro um homem cujos pensamentos são todos para o mal, e assim que se ergue nas faces primeiras de Câncer a figura de um porco de ferro e com a sua cabeça de cobre, e assim que se ergue nas faces terceiras dele um homem com a intenção de entrar num navio para ir no mar a fim de trazer ouro e prata para fazer dele o anel, e assim que se ergue nas faces primeiras de Virgem a figura de uma virgem com uma candeia na sua mão, e ela está andando entre as murtas e quer ir à casa do seu pai — isto e tudo o que se lhe assemelha, como foi sabido, depois de que é impossível ao sentido testemunhar sobre isso?
הַחוֹזִים מְסַלְּקִים טֶבַע הָאֶפְשָׁר. הַצּוּרוֹת (מ״ח) — קַוִּים מִכּוֹכָב לְכוֹכָב; מִי יוֹדֵעַ צוּרַת חֲזִיר מִבַּרְזֶל בְּסַרְטָן? אֵין הַחוּשׁ מֵעִיד.
5 E, se disseres que se sabe isto ao homem pelo caminho da adivinhação késem — se é assim, os princípios desta ciência estão construídos sobre a apreensão da força imaginativa, da qual toda a ciência da adivinhação está dependente; e isto se assemelha ao que profetiza e enlouquece do seu próprio coração com a força imaginativa e pensa que todo imaginado é possível, ou se assemelha ao que sonha um sonho — e com que se sabe a verdade disto ao intelecto do homem? E também o que eles dizem a respeito das posições das estrelas e dos seus aspectos mabatim e da sua relação um para com o outro — como que o aspecto da oposição nochach é um aspecto de inimizade completa, e dão razão para isto de que está então entre as duas estrelas o cúmulo da distância, que é cento e oitenta graus, como é do caminho dos que odeiam e dos inimigos de estarem um do outro no cúmulo da distância como opostos; e por isso dizem que o aspecto da quadratura revi'it é meia inimizade — e, conforme esta sua razão, por que dizem a respeito do aspecto da trígona shelishit que é um aspecto de amor completo, depois de que ele está numa distância mais distante do que o aspecto da quadratura? E o que dizem de que há para as constelações que se olham uma à outra no aspecto da trígona — que é cento e vinte graus — os sinais mais do que as que se olham uma à outra no aspecto da quadratura — que é noventa graus —, todas estas são palavras de profecias e consensos e postulações que não as admite o adversário.
מַבְּטֵי הַכּוֹכָבִים: נֹכַח (ק״פ מַעֲלוֹת) אֵיבָה, רְבִיעִית (צ׳) חֲצִי אֵיבָה, שְׁלִישִׁית (ק״כ) אַהֲבָה — אַף שֶׁרְחוֹקָה יוֹתֵר! דִּבְרֵי נְבוּאוֹת וְהַסְכָּמוֹת.
6 E, se disserem que isto se verificou pela experiência nisayon — eis que assim dizem os possuidores das sortes da areia goralot hachol — a geomancia — ou os das demais espécies de sortes que se conduzem entre os homens, de que por puro acaso completo dão a conhecer alguns homens por meio delas todo o litígio e todo o mal que acontece entre os homens, sem que haja naquelas figuras nenhuma indicação essencial sobre o assunto anunciado, e dizem que assim se verificou pela experiência — como diz o possuidor da sorte da areia que, ao sair a figura "cabeça erguida" nasui rosh primeiro, indica sobre a prosperidade, e "cabeça abaixada" shefal rosh indica sobre o oposto, e não há diferença entre estas duas figuras senão na postura de um só ponto, que numa delas está posto em cima e noutra embaixo, e assim nas demais figuras — de modo que tudo isto é coisa que não tem assunto verdadeiro em si mesma senão por acaso completo; como os homens que anunciam os futuros pela leitura da omoplata katef, ou como o facto de que há homens dotados mesugalim nisto, como Achitófel, que era dotado a dar um conselho conveniente, até que se precisou Davi de orar a D'us para tornar tola a sua consulta.
״נִתְאַמֵּת בְּנִסָּיוֹן״ — כֵּן בְּגוֹרְלוֹת הַחוֹל, בְּמִקְרֶה גָּמוּר. אוֹ אֲנָשִׁים מְסֻגָּלִים כַּאֲחִיתֹפֶל.
7 E, mesmo se lhes concedermos todos os seus princípios e as suas postulações, eis que eles estão forçados a dizer que as suas postulações não são necessitantes; pois eis que, quando acontece uma coisa, ou uma fome, ou uma guerra numa só cidade, morrem os seus homens fora do seu tempo — e por que se anula a indicação da constelação particular que decretou na hora do nascimento de cada um e um dos seus homens sobre uma vida diferente para cada um e um conforme o seu nascimento? E eles dizem nisto que a indicação do geral klal anula a indicação do particular prat, e por isso anula a indicação da fome ou da peste dever decretada sobre a cidade a indicação de cada particular e particular dela; e, se é assim, explica-se mesmo conforme as suas palavras que a indicação da constelação particular não é necessitante, pois já é possível que se anule por vários lados.
8 E ainda lhes perguntaremos, conforme as suas palavras, de que é cabido que anule o geral o particular nas coisas que se dão pelo caminho da natureza, como a fome e a epidemia e os que se lhes assemelham; mas o que dirão nas coisas que se dão pelo caminho da livre-escolha geral, como a guerra, ou pelo caminho da livre-escolha particular — como o caso de um só homem que faz um navio do seu próprio parecer, e entram nele cem homens ou mais, no que não há dúvida de que não era o fim a vida de todos eles igual, e entram todos no navio e se afunda o navio — e por que se encurtariam as vidas daqueles homens pela indicação do decreto das estrelas sobre o dono do navio de que se afundaria o seu navio no mar? E por que se anulariam as indicações das estrelas sobre todos os homens que entram no navio mais do que a sua indicação sobre o dono do navio?
הַהוֹרָאוֹת אֵינָן הֶכְרֵחִיּוֹת: הוֹרָאַת הַכְּלָל מְבַטֶּלֶת הַפְּרָט (רָעָב, דֶּבֶר). וּבַסְּפִינָה — לָמָּה יִתְקַצְּרוּ חַיֵּי כָּל הַנִּכְנָסִים בְּהוֹרָאַת בַּעַל הַסְּפִינָה?
9 Senão que a opinião verdadeira é que daqui há o que provar de que as indicações das estrelas não são necessitantes, e de que, ainda que vejamos algumas delas a se cumprirem conforme o juízo dos astrólogos sobre os homens, de todo modo já é possível que se anulem por vários lados — seja em razão da livre-escolha, seja em razão de algum mérito ou mandamento, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Shabat "não há constelação para Israel ein mazal leYisrael"; e explicou Rashi, de abençoada memória, ali que por meio da caridade e da oração e do mérito se muda a sua constelação para o bem; e com muito mais razão pela vontade de D'us, bendito seja, que é o geral elevado sobre tudo — que é cabido que se anulem todas as indicações, de qualquer lado que sejam, por sua vontade, por uma causa conhecida junto a ele apenas; e esta foi a intenção na doação da Torá: a fim de que, por meio do cumprimento dos seus mandamentos, se salve o homem da indicação da constelação, como disse o profeta "e dos sinais dos céus não vos atemorizeis, pois as nações se atemorizam deles" (Jeremias 10:2).
הָאֱמֶת — הַהוֹרָאוֹת אֵינָן הֶכְרֵחִיּוֹת, וְיִתְבַּטְּלוּ בִּבְחִירָה אוֹ זְכוּת. ״אֵין מַזָּל לְיִשְׂרָאֵל״. ״וּמֵאֹתוֹת הַשָּׁמַיִם אַל תֵּחָתּוּ״ — הַתּוֹרָה מַצֶּלֶת.
10 E assim escreveu o nosso mestre, o Rav, Aben Ezra Ibn Ezra, de abençoada memória, no Livro dos Nascimentos Sefer haMoladot, quando contou as coisas gerais que anulam as indicações particulares; disse ali, no caminho oitavo, que pelo lado da livre-escolha da alma sábia se anula a indicação particular; e disse ali também que ao que confia no Senhor — aquele de quem "é dele que as ações são acertadas" lo nitkenu alilot (cf. I Samuel 2:3) — fará o Senhor, bendito seja, com que se gerem causas para salvá-lo de todo dano que há no seu nascimento; e isto é manifesto como escrevemos, e é concordante com a opinião dos nossos mestres, de abençoada memória, os que disseram que a mudança do nome, ou a mudança da ação, ou a caridade, ou o clamor anulam a sentença do homem; e assim disseram "Abram não gera, Abraão gera"; e deste modo disseram alguns dos sábios que Isaque, porque era da parte de Marte e esta indicava sobre ele que seria morto, ordenou o Senhor, bendito seja, a elevá-lo diante dele por holocausto, e depois deu o carneiro em seu lugar como resgate a fim de que se salvasse daquela indicação; e coisa semelhante a isto faz com que se gerem o Senhor, bendito seja, causas para salvar os guardadores da Torá e dos seus mandamentos das indicações da constelação. E por isso achas que os profetas advertem o povo a voltar do seu caminho mau; disse Jeremias "melhorai os vossos caminhos e as vossas ações, e vos farei habitar neste lugar" (Jeremias 7:3) — e isto por serem eles os que sabem que é da natureza dos mandamentos e da obediência ao Senhor, bendito seja, anular a indicação da constelação, assim como já se anula aquela indicação por outras causas conforme a opinião dos astrólogos, como explicámos a respeito do assunto da guerra ou da epidemia ou do navio. E isto é o que quisemos explicar acerca do assunto da indicação da constelação.
אִבְּן עֶזְרָא: בְּחִירַת הַנֶּפֶשׁ הַחֲכָמָה וְהַבּוֹטֵחַ בַּשֵּׁם — יְסַבֵּב סִבּוֹת לְהַצִּילוֹ. ״אַבְרָם אֵינוֹ מוֹלִיד, אַבְרָהָם מוֹלִיד״. שִׁנּוּי הַשֵּׁם, שִׁנּוּי מַעֲשֶׂה, צְדָקָה, צְעָקָה.
Tendo resolvido o paradoxo da presciência (caps. 1-3), Albo enfrenta agora o seu "primo" — o determinismo astrológico. Se os astros decretam tudo, o livre-arbítrio cai por terra e, com ele, a justiça da recompensa e do castigo (o tema do Maamar IV). A astrologia era ciência respeitada no séc. XV, e até os Sábios diziam "há mazal para Israel". Albo precisa, portanto, conceder o que a experiência confirma e refutar o que destrói a liberdade.
Albo distingue: (1) o filósofo — os astros agem só sobre os elementos (o sol aquece, a lua humedece), preparando a matéria a receber formas; influem até na disposição para a sabedoria ou a profecia, mas não sobre pobreza, riqueza, amor — coisas "que não caem neles". (2) os astrólogos — tudo o que sucede ao homem é decretado pelos astros, sem escapatória; e argumentam pela experiência (o astrólogo acerta previsões). A segunda posição, levada a sério, anula o possível.
Albo aceita a influência astral de fato, resolvendo uma objeção física aguda: como os astros (sem qualidades físicas) aquecem ou esfriam, se "o agente deve ter em ato o que o paciente tem em potência"? Resposta: essa regra vale para agentes naturais; mas as esferas são animadas (vivas, intelectivas) e por isso "podem agir até o que não está nelas", por uma "relação oculta a nós" — como o raio do sol (que não é fogo) move o fogo. E o critério decisivo: o sentido atesta que as previsões astrológicas às vezes se cumprem, "e não se nega o sentido". Há, portanto, alguma influência real — incluindo sobre riqueza e talento, dada uma "preparação no receptor".
Mas Albo despeja sobre os astrólogos uma bateria de objeções devastadoras. (1) Suprimem o possível, já provado. (2) As 48 constelações são arbitrárias — as "linhas de estrela a estrela" que desenham as figuras (o Carneiro, o Cão Menor) poderiam ligar-se de outro modo; e como saber que "no terceiro decano de Câncer ergue-se um porco de ferro com cabeça de cobre"? "O sentido não pode atestar isso." A defesa de que "os antigos eram mais perfeitos" Albo rebate com ironia: quem tem o intelecto mais fraco tem os sentidos mais fortes (como os animais) — logo não há razão para os antigos perceberem cores que não percebemos. (3) Os aspectos planetários são convenções incoerentes: dizem que a oposição (180°) é "inimizade" pela distância máxima, e a quadratura (90°) "meia-inimizade" — mas então por que a trígona (120°, mais distante que a quadratura) é "amor completo"? A lógica não fecha. (4) "Comprovado pela experiência" não vale — os jogos de geomancia (sortes da areia) também "acertam" por puro acaso, e a diferença entre "cabeça erguida" e "cabeça abaixada" é só a posição de um ponto.
O golpe central é interno: os próprios astrólogos admitem que as indicações não são necessitantes. Quando uma peste ou guerra mata uma cidade inteira, morrem juntos pessoas com horóscopos de vidas longuíssimas — e eles explicam que "a indicação do geral anula a do particular". Mas isso já prova que o horóscopo individual não é inexorável! E Albo aperta com o caso do navio: cem homens de horóscopos diferentes afundam juntos pelo destino do dono do navio — por que a indicação de um anula a de todos? A conclusão se impõe: as indicações astrais são reais mas revogáveis.
Daqui Albo extrai a tese teológica: se a indicação se anula por causas naturais (peste, guerra) e pela livre-escolha, com muito mais razão se anula pela vontade de D'us — "o geral elevado sobre tudo" — e pelo mérito. É o sentido de "ein mazal leYisrael" (Shabat): por caridade, oração e mérito "a constelação muda para o bem" (Rashi). E este é o propósito da Torá — "para que, pelo cumprimento dos mandamentos, o homem se salve da indicação da constelação", como diz Jeremias "dos sinais dos céus não vos atemorizeis". Albo invoca Ibn Ezra (Sefer haMoladot): a "escolha da alma sábia" e a confiança em D'us geram "causas para salvar" do que o nascimento indicava — e cita os meios rabínicos clássicos: "mudança de nome (Abram→Abraão), mudança de ação, caridade, clamor anulam a sentença". Até a Aqedá é relida por "alguns sábios": Isaque, sob o signo de Marte (que "indicava ser morto"), foi oferecido em holocausto e resgatado pelo carneiro — para "salvar-se daquela indicação". Assim Albo preserva tanto a ordem natural (os astros influem) quanto a liberdade e a providência (a influência é revogável pela escolha, pelo mérito e pela graça divina) — fundamento indispensável para a doutrina da retribuição que o Maamar IV desenvolverá.
As ações humanas não são todas forçadas (astrólogos), nem todas livres (filósofo), nem todas mistas — pois cada hipótese tem refutação. Restam três classes: as livres (onde cabe louvor, censura, recompensa), as forçadas (o decreto que opera mesmo sem nossa percepção) e as mistas. A confusão entre elas gera o debate de Jó e Elifaz sobre se tudo é destino ou retribuição.
As ações humanas não são todas forçadas (astrólogos), nem todas livres (filósofo), nem todas mistas — pois cada hipótese tem refutação. Restam três classes: as livres (onde cabe louvor, censura, recompensa), as forçadas (o decreto que opera mesmo sem nossa percepção) e as mistas. A confusão entre elas gera o debate de Jó e Elifaz sobre se tudo é destino ou retribuição.
1 E é cabido que prossigamos a isto a fala sobre a livre-escolha bechirá. E dizemos que as ações humanas, não se livra o assunto nelas de uma divisão: ou que sejam todas forçadas muchrachot com força completa, ou todas de livre-escolha bechiriot com escolha completa, ou todas misturadas da necessidade e da escolha, ou algumas de livre-escolha e algumas forçadas e algumas misturadas da necessidade e da escolha.
הַפְּעֻלּוֹת הָאֱנוֹשִׁיּוֹת: אוֹ כֻּלָּן מֻכְרָחוֹת, אוֹ כֻּלָּן בְּחִירִיּוֹת, אוֹ כֻּלָּן מְעֹרָבוֹת, אוֹ מִקְצָתָן בְּחִירִיּוֹת וּמִקְצָתָן מֻכְרָחוֹת וּמִקְצָתָן מְעֹרָבוֹת.
2 E dizer que sejam todas forçadas com força completa — como é conforme a opinião dos repartidores dos céus, dos videntes das estrelas — é uma opinião de manifesta nulidade, porque com isto se anula a natureza do possível, cuja existência se explicou a partir do sentido, e se arrancam todas as raízes da Torá em geral e em particular, como precedeu tudo isto. E ainda, pois o que os trouxe a isto foi o seu pensar que deste modo se mantém o conhecimento do Senhor, bendito seja, como verdadeiro sem nenhuma mudança — já que, depois de que sabe o Senhor, bendito seja, o decretado sobre o homem pelo lado da constelação, e de que é impossível que seja de outro modo que não aquele decreto, eis que será o seu conhecimento verdadeiro, sem dúvida; pois, se fosse possível que saísse à existência o oposto do decretado pelo lado da constelação, mudar-se-ia o seu conhecimento do que era e não seria verdadeiro de um só modo. E eis que, por este caminho, ainda não se livraram da mudança — pois não há dúvida de que o conhecimento da coisa antes de que saia ao ato não é igual ao conhecimento da coisa depois de que saiu ao ato; e, se viermos a comparar o seu conhecimento ao nosso conhecimento, já se pensaria que cai a mudança no seu conhecimento, bendito seja, por este lado, como cai no nosso conhecimento — senão que a verdade é que não há o que comparar entre o seu conhecimento e o nosso conhecimento de modo algum, como escrevemos acima, pois o seu conhecimento não se muda de modo algum, depois de ser ele não-finito; e por causa disto é manifesto que esta opinião é impossível a sua subsistência de nenhum modo.
כֻּלָּן מֻכְרָחוֹת (הַחוֹזִים) — בָּטֵל, מְבַטֵּל הָאֶפְשָׁר וְהַתּוֹרָה. וְגַם לֹא נִמְלְטוּ מִן הַשִּׁנּוּי, אֶלָּא שֶׁאֵין לְהַקִּישׁ יְדִיעָתוֹ הַבִּלְתִּי בַּעֲלַת תַּכְלִית לִידִיעָתֵנוּ.
3 E, contudo, dizer que sejam todas as ações humanas de livre-escolha com escolha completa e que o esforço seja proveitoso em todas elas — como decreta a natureza do possível e como é a opinião do filósofo — é uma opinião de manifesta nulidade também, depois de que nós vemos pelo sentido muitas vezes que o homem se esforça por alcançar alguma coisa e faz todas as preparações que é possível que se façam para alcançar aquele fim, e não só não chega aquele fim, mas que aquelas preparações que fez são causas para a chegada do oposto — como se vê isto nos irmãos de José, que se esforçaram por anular de sobre eles os sonhos que ele sonhara para eles, e pensaram em anulá-los ao fazerem o seu oposto, ao vendê-lo como servo eterno, de modo que não lhe fosse possível dominar sobre eles de modo algum, e aqueles esforços que fizeram para anular o decretado foram eles as que foram causas para a chegada do domínio sobre eles; e assim Adoniá, que se esforçou por alcançar a realeza ao estarem os ministros e os servos do rei a amá-lo e a obedecer-lhe, e aquele esforço mesmo foi causa para que não o alcançasse, pois se irou Davi quando o ouviu e fez reinar Salomão, seu filho, em sua própria vida; e assim muitas vezes chega ao homem algum bem sem esforço de modo algum — acaso não vês Saul, que alcançou a realeza sem esforço que lhe precedesse nisso de modo algum? E tudo isto é do que indica que não são todas as ações humanas de livre-escolha com escolha completa.
כֻּלָּן בְּחִירִיּוֹת (הַפִילוֹסוֹף) — בָּטֵל: אֲחֵי יוֹסֵף שֶׁהִשְׁתַּדְּלוּ לְבַטֵּל הַחֲלוֹם וְגָרְמוּ הַמֶּמְשָׁלָה; אֲדוֹנִיָּה; וְשָׁאוּל הִשִּׂיג מַלְכוּת בְּלֹא הִשְׁתַּדְּלוּת.
4 E dizer também que sejam todas as ações humanas misturadas da necessidade e da escolha é impossível; pois, se fosse assim, não haveria aqui ações tais que fosse cabido que se louvasse o homem ou que se censurasse sobre elas — pois as ações pelas quais se louva o homem ou se censura são as ações nas quais não há nelas o lado da necessidade de modo algum; e, se fossem misturadas da necessidade e da escolha, não seria cabido que se louvasse o homem se são boas nem que se censurasse se são más, e a desculpa cairia em toda coisa, e não haveria aqui uma ação tal que se censurasse o homem sobre ela em absoluto se é má nem que se louvasse sobre ela se é boa. E, depois de que é impossível que sejam todas as ações humanas por via de necessidade, nem todas por via de escolha, nem todas misturadas da necessidade e da escolha, não restou senão que sejam algumas de livre-escolha e algumas forçadas e algumas misturadas da necessidade e da escolha; e é cabido que expliquemos agora cada espécie e espécie destas espécies nas ações humanas.
כֻּלָּן מְעֹרָבוֹת — אִי אֶפְשָׁר, שֶׁאָז לֹא יִשְׁתַּבַּח אָדָם וְלֹא יִתְגַּנֶּה. נִשְׁאַר: מִקְצָתָן בְּחִירִיּוֹת, מֻכְרָחוֹת, מְעֹרָבוֹת.
5 E dizemos: quanto às ações de livre-escolha com escolha completa, eis que elas são aquelas nas quais a natureza do possível está guardada, e elas são as nas quais cai a diligência e o esforço, e sobre as quais se louva o homem ou se censura; e nestas ações cai a advertência e a ordem, e sobre elas se recebe a recompensa e o castigo, depois de que o princípio destas ações está nele — depende dele —, e não há ali constrangimento nem outro impedimento de modo algum.
הַבְּחִירִיּוֹת — שֶׁטֶּבַע הָאֶפְשָׁר שָׁמוּר בָּהֶן, בָּהֶן הַחֲרִיצוּת וְהַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ, שֶׁהַתְחָלָתָן אֵלָיו וְאֵין מֵעִיק.
6 E, contudo, as ações forçadas com força completa, eis que elas são as decretadas — seja pelo lado da constelação, seja pela providência do Senhor, bendito seja, como virá —, e nestas coisas não há à escolha humana nenhuma capacidade sobre elas de modo algum, mas o esforço nelas é vão e nulo, porque não foram postas estas coisas à sua escolha, sejam elas boas ou más. E isto é: que, mesmo que haja à escolha a capacidade de anular o decretado, eis que por uma rebeldia que precedeu ao homem ou aos seus pais, às vezes se retém dele algum bem que era cabido que chegasse pelo lado do seu esforço e da sua diligência; ou por um mérito que precedeu a ele ou aos seus pais, chega a ele algum bem sem esforço de modo algum. E é possível também que seja aquele bem ou aquele mal chegando pelo lado da constelação — quando não houver ali um pecado que cause ao retirar daquele bem dele, ou quando não houver para ele um mérito suficiente para retirar dele aquele mal decretado pela constelação; e chega ao homem aquele bem de modo que não o estima não o percebe de modo algum — como aquele que queria ir por um caminho e bateu o seu pé numa pedra e se absteve de ir por aquele caminho, ou aquele que queria entrar num navio e lhe saltou sobre ele uma doença e se absteve de entrar naquele navio, e caíram salteadores sobre os que andavam por aquele caminho e os mataram, e assim o navio se afundou no mar; e a coisa é manifesta de que o facto de não lhe ter subido na mão o seu esforço de modo algum — de ir por aquele caminho ou de entrar naquele navio — foi para o bem dele, para salvá-lo do seu mal — dos salteadores ou do afundamento do navio — por algum mérito que lhe precedeu.
7 E coisa semelhante a isto disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Nidá, capítulo "HaMapelet", sobre o versículo "louvar-te-ei, Senhor, pois te iraste comigo" etc. (Isaías 12:1): "de que fala a Escritura? De dois homens que saíram para o comércio; a um se lhe enterrou um espinho no pé, começou a blasfemar e a amaldiçoar; passados dias, ouviu que se afundara o seu navio no mar, começou a agradecer e a louvar; por isso se disse 'voltou yashov a tua ira e me consolaste'". E isto é o que disse Rabi Eleazar: "que é o que está escrito 'o que faz maravilhas sozinho' (Salmos 72:18)? — mesmo o dono do milagre não reconhece o seu próprio milagre" etc. E por este mesmo caminho chega ao homem um mal que não estimava, sem que faça ações cabidas de que decorra delas aquele mal. E é manifesto que aquele bem ou aquele mal e o que se lhe assemelha chega pelo lado do decreto guezerá, sem escolha de modo algum.
הַמֻּכְרָחוֹת — הַנִּגְזָרוֹת, מַזָּל אוֹ הַשְׁגָּחָה. ״בִּשְׁנֵי בְּנֵי אָדָם שֶׁיָּצְאוּ לִסְחוֹרָה... אֲפִלּוּ בַּעַל הַנֵּס אֵינוֹ מַכִּיר בְּנִסּוֹ״.
8 E as ações misturadas da necessidade — quer dizer, do decreto — e da escolha, eis que elas são como aquele que cava um alicerce e acha um tesouro, ou aquele que semeia colheita e prospera nela — pois é manifesto que, se não se esforçasse na cavadura daquele alicerce ou na semeadura da colheita, não acharia um tesouro nem prosperaria na colheita; e é manifesto que estas são misturadas da necessidade e da escolha. E às vezes chega ao homem algum bem no seu esforço, e este lhe retém a obtenção de um bem maior; como aquele que se esforçava por comprar trigo, com que ganharia nele em pouco tempo um ganho grande, e, porque não era aquele homem cabido de um ganho tão grande como aquele, preparou-lhe o Senhor, bendito seja, ao ir ele comprar o trigo, vestes belas que as comprou com o dinheiro com que lhe era cabido tomar o trigo, e não ganhou nelas nada ou ganhou nelas uma coisa escassa; ou o oposto — pois, porque não ganharia nos trigos senão uma coisa escassa, preparou-lhe o Senhor vestes com que ganharia nelas um ganho grande — conforme os méritos que lhe precederam ou as coisas decretadas sobre ele do ganho ou da perda. E a maioria das ações do homem que vêm da providência do Senhor sobre o homem pelo caminho da recompensa e do castigo vêm deste modo — quer dizer, misturadas do decreto, que é a necessidade, e da escolha.
הַמְעֹרָבוֹת — כְּחוֹפֵר וּמוֹצֵא מַטְמוֹן, אוֹ זוֹרֵעַ וּמַצְלִיחַ. רֹב פְּעֻלּוֹת הָאָדָם הַבָּאוֹת מֵהַשְׁגָּחָה בְּדֶרֶךְ שָׂכָר וָעֹנֶשׁ — מְעֹרָבוֹת מִגְּזֵרָה וּבְחִירָה.
9 E, porque é uma coisa oculta dos homens que há das ações as que são pelo modo da necessidade, e há delas as que são pelo modo da escolha completa, e há delas misturadas da necessidade e da escolha, cai a confusão e a perplexidade nos assuntos dos filhos do homem — até que vêm alguns deles a pensar que todos os seus males estão no decreto e na necessidade e não na escolha de modo algum, e se desculpam sobre todas as suas ações corrompidas por estarem eles a pensar que tudo está no decreto; e alguns deles pensam que tudo está na escolha e que sobre todas as ações cai o louvor e a censura. E não está esta perplexidade no conjunto dos homens apenas, mas no conjunto dos homens da especulação também — pois há deles quem decreta que todos os bens do homem e os seus males estão no decreto e pelo modo da necessidade, e há quem decreta que tudo está na escolha, e há quem disse que as ações são misturadas da necessidade e da escolha.
נֶעֱלָם מֵהָאֲנָשִׁים שֶׁיֵּשׁ ג׳ מִינִים — וְיִפֹּל הַבִּלְבּוּל: יֵשׁ חוֹשֵׁב שֶׁהַכֹּל בִּגְזֵרָה וְיִתְנַצֵּל, וְיֵשׁ שֶׁהַכֹּל בִּבְחִירָה.
10 E se vê que a opinião de Jó era que todos os bens do homem e os seus males estão no decreto pelo lado da constelação, e por causa disto amaldiçoava o seu dia; e por isso o apanhou Elifaz na sua resposta primeira e disse-lhe que, se todos os bens e os males estivessem no decreto, estariam o justo e o ímpio também no decreto, e é impossível que digamos que seja o justo um justo pelo lado do decreto do Senhor; e isto é o que lhe disse "acaso o homem será mais justo do que D'us, ou será mais puro o varão do que o seu Fazedor?" (Jó 4:17) — quer dizer: acaso o homem é justo pelo lado do decreto do Senhor, ou puro pelo lado do decreto do seu Fazedor? E como é possível isto, se "eis que nos seus servos não confia" etc. (Jó 4:18) — quer dizer: e mesmo nos seus anjos e nos seus servos não põe neles um lado de permanência tal que não se mudem, quanto mais nos habitantes de casas de barro os homens, que se mudam sempre pelo lado da natureza dos elementos de que foram compostos —, de que não é cabido que ponha neles um lado de permanência tal que seja o homem por via de necessidade justo ou ímpio que não possa mudar-se da justiça ou da maldade pelo lado da sua escolha. E, depois de que a justiça ou a maldade estão na escolha do homem, eis que por força é que há aqui bens ou males que decorrem da escolha, e não como tu pensas de que tudo está no decreto; e por causa disto prosseguiu Elifaz a isto "pois ao tolo mata o desgosto, e ao simples mata a inveja" (Jó 5:2), para indicar que há aqui males que vêm sobre o homem pelo lado da sua escolha, como os males que decorrem do desgosto e da inveja. E, depois de que há aqui ações de livre-escolha e males que decorrem delas, eis que por força é que os males que vêm sobre o homem não pelo lado da sua escolha são os que vêm pelo modo do castigo; e por isso disse Elifaz no fim das suas palavras "eis que feliz é o homem a quem D'us repreende" etc. (Jó 5:17), "pois ele faz doer e venda" etc. (Jó 5:18).
אִיּוֹב חָשַׁב שֶׁהַכֹּל בִּגְזֵרָה מִפְּאַת הַמַּעֲרֶכֶת. אֱלִיפַז: ״הַאֱנוֹשׁ מֵאֱלוֹהַּ יִצְדָּק״ — הַצֶּדֶק בִּבְחִירָה, וְהָרָעוֹת שֶׁלֹּא בִּבְחִירָה — עַל צַד הָעֹנֶשׁ.
11 E esta é a opinião dos justos dentre os homens da especulação — de que todos os males do homem e os seus bens são pelo modo do castigo e da recompensa, como a opinião de Elifaz e o oposto da opinião de Jó. E por isso achas que os nossos mestres, de abençoada memória, dizem sempre que todo mal que vem sobre o homem é pelo modo do castigo; disseram "a Rav Huná azedaram-se-lhe quatrocentos barris de vinho; disseram-lhe os rabinos: examine o mestre os seus atos; disse-lhes: acaso sou suspeito aos vossos olhos? disseram-lhe: e acaso é suspeito o Santo, bendito seja, de que faça juízo sem juízo? examinaram e acharam que ele não dava a parte da poda ao seu meeiro aris". Eis que Rav Huná pensava que o tornar-se o vinho vinagre era por má sorte ou pelo costume do mundo; e disseram-lhe os seus discípulos e os filhos da sua ieshivá que é impossível que seja isto senão pelo lado do castigo, pois um homem como ele é cabido que seja supervisionado em todos os particulares dos seus atos; e Rav Huná respondeu-lhes que não lhes era cabido suspeitar dele de que pecava; e, depois de que não pecava, eis que isto era pelo lado do acaso mikré; e eles responderam que, conforme a sua opinião — de que tudo vem de D'us pelo modo do castigo e da recompensa —, seria mais cabido suspeitar dele do que lançar uma mácula nos juízos do Senhor; e em suma da coisa, se revelou o assunto de que isto era pelo lado do castigo, por um pecado que lhe precedeu no assunto do vinho, e, quando se removeu o pecado, se removeu o castigo. E assim achas em muitos lugares nos nossos mestres, de abençoada memória, a atribuírem todas as coisas que vêm sobre o homem ao lado do castigo, e não a outro lado.
״רַב הוּנָא תְּקִיפוּ לֵיהּ אַרְבַּע מְאָה דַּנֵּי חַמְרָא... מִי חֲשִׁיד קֻדְשָׁא בְּרִיךְ הוּא דְּעָבֵיד דִּינָא בְּלָא דִּינָא?״ — בָּדְקוּ וְאַשְׁכַּח שֶׁלֹּא נָתַן שְׁבִישְׁתָּא לְאֲרִיסֵיהּ.
12 E a verdade é como dissemos: que há coisas que é cabido que se atribuam ao castigo, e há coisas que é cabido que se atribuam à escolha, e há coisas misturadas da necessidade e da escolha; e não é cabido tomar prova de uma parte delas sobre a outra. E, porque não perceberam os investigadores este assunto e tomaram prova de uma parte sobre as demais partes, mergulharam em águas impetuosas e tiraram caco na sua mão — pois há quem se inclinou para o lado do decreto e da necessidade e negou a natureza do possível, e há quem se inclinou para o lado da escolha completa e negou o conhecimento do Senhor, bendito seja; e a verdade não é senão como escrevemos, de que as três partes se acham nas ações humanas, senão que não está na mão do homem a capacidade de discernir entre a uma parte e a outra, e de dentro disso vem ele a julgar de uma parte sobre a outra e clama com protesto korê tigar sobre os juízos do Senhor e os seus atos.
הָאֱמֶת — ג׳ הַחֲלָקִים נִמְצָאִים, וְאֵין לָקַחַת רְאָיָה מֵחֵלֶק עַל חֲבֵרוֹ. וְאֵין בְּיַד הָאָדָם לְהַבְחִין בֵּינֵיהֶם — וּמִתּוֹךְ כָּךְ קוֹרֵא תִּגָּר עַל מִשְׁפְּטֵי הַשֵּׁם.
Tendo estabelecido que os astros influem mas não necessitam (cap. 4), Albo aborda diretamente a liberdade. Com método escolástico, monta uma divisão lógica exaustiva das ações humanas — ou todas forçadas, ou todas livres, ou todas mistas, ou algumas de cada — e elimina as três primeiras para estabelecer a quarta.
Nem todas forçadas (a tese astrológica): anula o possível e a Torá; e, ironicamente, nem sequer salva a imutabilidade do conhecimento divino que pretendia proteger — pois "conhecer o futuro" e "conhecer o já-feito" não são iguais (a verdadeira solução é que o conhecimento infinito de D'us não se compara ao nosso, cap. 3). Nem todas livres (a tese do filósofo): a experiência mostra que o esforço às vezes produz o oposto — os irmãos de José venderam-no para anular o sonho do seu domínio e com isso realizaram-no; Adoniá buscou o trono e por isso o perdeu; Saul ganhou a realeza sem esforço algum. Nem todas mistas: se toda ação tivesse um componente de necessidade, não haveria ação plenamente louvável ou censurável — "a desculpa caberia em tudo", destruindo a responsabilidade moral. Resta: algumas livres, algumas forçadas, algumas mistas.
Livres (bechiriot): onde "a natureza do possível está guardada" — cabe esforço, louvor, censura, mandamento, recompensa e castigo, "pois o princípio depende dele, sem constrangimento". Forçadas (muchrachot): as decretadas, pela constelação ou pela providência, onde o esforço é "vão" — e Albo dá a elas uma leitura providencial profunda: o bem ou mal que chega "sem que o percebamos" pode ser retribuição por méritos ou culpas próprias ou dos pais. O exemplo é inesquecível: quem tropeça numa pedra e perde a viagem, e depois descobre que salteadores mataram os viajantes ou o navio afundou — o "fracasso" foi salvação por mérito oculto. Albo cita o midrash de Nidá: dois sócios saem ao comércio, um espeta um espinho no pé e blasfema; depois sabe que o navio (que perdeu) afundou, e passa a louvar — "voltou a tua ira e me consolaste"; e Rabi Eleazar: "nem o dono do milagre reconhece o seu milagre". Mistas (me'oravot): cavar o alicerce e achar o tesouro, semear e prosperar — o esforço é necessário, mas o resultado depende também do decreto. E "a maioria das ações que vêm da providência por recompensa e castigo são desta classe" — o homem que vai comprar trigo e acaba comprando roupas que (por mérito) lhe dão lucro maior, ou (por demérito) prejuízo.
O ponto pastoral decisivo: como o homem não consegue distinguir a qual classe pertence cada evento, instala-se a confusão — uns acham que "tudo é destino" (e se desculpam de todos os seus males), outros que "tudo é escolha". E isso atinge até os filósofos: uns reduzem tudo ao decreto (negando o possível), outros tudo à escolha (negando a onisciência). Albo dramatiza o erro no debate de Jó e Elifaz: Jó pensava que "tudo está no decreto da constelação" (por isso amaldiçoa o seu dia); Elifaz refuta — se tudo fosse decreto, a justiça e a maldade também o seriam, e "ninguém é justo por decreto" (Jó 4:17: "será o homem mais justo que D'us?"); logo a virtude é escolha, e os males não causados pela escolha vêm "pelo modo do castigo" (Jó 5:17: "feliz o homem a quem D'us repreende"). Albo alinha-se a Elifaz como "a opinião dos justos", ilustrando com Rav Huná, cujos 400 barris de vinho azedaram: ele atribuía ao "acaso", mas os discípulos insistiram — "será D'us suspeito de fazer juízo sem juízo?" — e descobriu-se um pecado (não dar ao meeiro a sua parte da poda); removido o pecado, removido o castigo.
A conclusão é a tese central e a sua cautela: as três classes coexistem nas ações humanas — há o que se deve ao castigo, o que se deve à escolha, o que é misto —, e o erro de todos os investigadores foi "tomar prova de uma parte sobre a outra", inclinando-se a um extremo (e negando o possível ou a onisciência). A verdade é a coexistência das três. Mas — e aqui está a humildade característica de Albo — "não está na mão do homem discernir entre uma e outra". É justamente essa impossibilidade de classificar cada evento concreto que leva o homem a "clamar com protesto contra os juízos de D'us": ao tomar por injustiça um castigo merecido, ou por mérito um acaso, ou por destino o que era escolha. A lição é de confiança: o sistema é justo (escolha real, retribuição real, providência real), mas a leitura de cada caso particular escapa-nos — e a sabedoria está em não julgar os caminhos de D'us pelo que não podemos discernir. Prepara-se, assim, a teodiceia que o Maamar IV desenvolverá: por que sofrem os justos e prosperam os ímpios.
Se há ações decretadas onde o esforço parece vão, não correríamos o risco de abandonar todo esforço? Albo responde que a diligência (hishtadlut) é útil e necessária em tudo: nas livres e nas mistas é causa direta do resultado; e mesmo nas decretadas tem sua função — pois o esforço que não frutifica é o sinal que move o homem a examinar seus atos e voltar-se a D'us, e o esforço que frutifica é a prova de que não há pecado a impedi-lo. Por isso devemos agir em tudo como se fosse livre escolha completa.
Se há ações decretadas onde o esforço parece vão, não correríamos o risco de abandonar todo esforço? Albo responde que a diligência (hishtadlut) é útil e necessária em tudo: nas livres e nas mistas é causa direta do resultado; e mesmo nas decretadas tem sua função — pois o esforço que não frutifica é o sinal que move o homem a examinar seus atos e voltar-se a D'us, e o esforço que frutifica é a prova de que não há pecado a impedi-lo. Por isso devemos agir em tudo como se fosse livre escolha completa.
1 A diligência charitzut e o esforço hishtadlut são proveitosos e necessários em toda coisa das ações humanas; e isto é manifesto em todas as ações: seja nas ações nas quais a natureza do possível está guardada — que, depois de que elas estão postas à escolha completa, sem nenhum impedidor e nenhum obstrutor, não há dúvida de que o esforço nelas é causa para a sua chegada —; e assim nas ações que são misturadas da necessidade e da escolha, é manifesto que o esforço nelas é causa para a sua chegada. E isto é: que toda coisa que chega de dois agentes, e ambos são condição para a existência daquela coisa — como a colheita que chega da ação dos lavradores da terra e das chuvas, que não há dúvida de que o trabalho do lavrador e o seu esforço é condição para a chegada da colheita, como o descer da chuva, e é impossível que chegue sem ele de modo algum, como não chega a tinta sem as bugalhas afatzim e o vitríolo kankantos, depois de que ambos são condição para a existência da tinta — e esta é uma coisa manifesta.
הַחֲרִיצוּת וְהַהִשְׁתַּדְּלוּת מוֹעִיל וְהֶכְרֵחִי בְּכָל דָּבָר. בַּפְּעֻלּוֹת שֶׁטֶּבַע הָאֶפְשָׁר שָׁמוּר — אֵין סָפֵק שֶׁהַהִשְׁתַּדְּלוּת סִבָּה. וְכֵן בַּמְעֹרָבוֹת: כַּתְּבוּאָה הַבָּאָה מֵעֲבוֹדַת הָעוֹבֵד וּמִן הַגְּשָׁמִים; כַּדְּיוֹ שֶׁאֵינוֹ בָּא מִזּוּלַת הָעֲפָצִים וְהַקַּנְקַנְתּוֹס.
2 E, contudo, nas ações que são pelo modo da necessidade — e elas são as que chegam pelo modo do decreto, como dissemos — eis que pareceria que não é cabido o esforço nelas; mas, quando se olhar bem, se acha que também nelas o esforço é cabido e obrigatório, porque já dissemos que o reter da chegada do fim — que é o bem que chega do esforço — não será senão pelo lado do castigo: seja por uma rebeldia que lhe precedeu, seja porque não é suficiente o seu mérito para anular de sobre ele o decretado pelo lado da constelação. E, quando vir o homem que se esforça com diligência grande por alcançar algum bem ou algum fim e não o alcançou, saberá com certeza que assim lhe foi decretado — seja pelo lado do castigo sobre os seus pecados, seja pelo lado de que não é suficiente o seu mérito para anular de sobre ele o decreto da constelação —; e nisto voltará a esquadrinhar lefashpesh nos seus atos e voltará ao Senhor, e Ele o compadecerá. Pois, quando vir o homem a si mesmo que se cansa em vão e que os seus atos não prosperam e que não chega dos seus atos o fim cabido de que chegue deles, saberá com certeza que isto lhe foi decretado como castigo sobre o seu pecado, e saberá que os seus atos estão corrompidos e se empenhará por consertá-los conforme lhe alcançar a mão — como disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "se vê o homem que sofrimentos vêm sobre ele, esquadrinhe nos seus atos, conforme se diz 'busquemos os nossos caminhos e investiguemos' (Lamentações 3:40); esquadrinhou e achou — faça teshuvá, conforme se diz 'e voltemos ao Senhor' (Lamentações 3:40)".
בַּנִּגְזָרוֹת נִרְאֶה שֶׁאֵין הַהִשְׁתַּדְּלוּת רָאוּי — וּכְשֶׁיְּעֻיַּן הֵיטֵב, גַּם בָּהֶן רָאוּי. כְּשֶׁיִּיגַע לָרִיק, יֵדַע שֶׁכָּךְ נִגְזַר עָלָיו עַל עֲוֹנוֹתָיו, וְיָשׁוּב לְפַשְׁפֵּשׁ בְּמַעֲשָׂיו: ״אִם רוֹאֶה אָדָם שֶׁיִּסּוּרִין בָּאִין עָלָיו יְפַשְׁפֵּשׁ בְּמַעֲשָׂיו... נַחְפְּשָׂה דְרָכֵינוּ וְנַחְקֹרָה... וְנָשׁוּבָה אֶל ה׳״.
3 Mas, quando vir o homem a si mesmo que alcança, pelo lado da sua fadiga e do seu labor, o que é cabido que alcance, e que não se cansa em vão, saberá que não há na sua mão um pecado grande que o impeça de alcançar o seu sustento pelo lado do seu esforço, e não recuará a sua destra de fazer o seu poder para alcançar o seu pedido, depois de que sabe que não há um decreto erguido contra ele — e estará alegre e contente nisto. E isto é o que disse a Escritura: "o labor das tuas palmas, quando comeres" etc. (Salmos 128:2) — quer dizer: quando chegar o labor das tuas palmas e o teu trabalho até o ponto de que alcances por ele o teu sustento, e não se consuma em vão a tua força, "feliz és tu e bem a ti" (Salmos 128:2), como explicaram os nossos mestres, de abençoada memória: "'feliz és tu' neste mundo e 'bem a ti' para o mundo vindouro" etc. — quer dizer: "feliz és tu" neste mundo, que saberás com certeza que não há na tua mão um pecado que baste para anular a que não alcances pelo teu esforço o fim pedido; e "bem a ti" para o mundo vindouro, que te anunciarás a ti mesmo que os teus atos são bons e retos e desejados perante o Senhor, bendito seja, depois de que chegaste a este grau, que é o grau dos justos, dos quais se diz sobre eles "não se cansarão em vão e não gerarão para o terror" etc. (Isaías 65:23).
כְּשֶׁמַּשִּׂיג מֵעֲמָלוֹ — יֵדַע שֶׁאֵין בְּיָדוֹ עָוֹן גָּדוֹל הַמּוֹנְעוֹ. ״יְגִיעַ כַּפֶּיךָ כִּי תֹאכֵל אַשְׁרֶיךָ וְטוֹב לָךְ״ — אַשְׁרֶיךָ בָּעוֹלָם הַזֶּה, וְטוֹב לָךְ לָעוֹלָם הַבָּא, מִדְּרֵגַת הַצַּדִּיקִים ״לֹא יִיגְעוּ לָרִיק״.
4 E se explicará de tudo isto que a diligência é boa em toda coisa; e por causa disto louvava Salomão a diligência e dizia "e a mão dos diligentes enriquece" (Provérbios 10:4), e censurava a preguiça, para despertar o homem a que se esforce por alcançar o seu pedido com todo o esforço da sua força. E assim disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "'para que te abençoe o Senhor teu D'us' (Deuteronômio 14:29) — poderia pensar-se: mesmo que esteja sentado e ocioso? Por isso diz a Escritura 'em toda obra da tua mão que fizeres' (Deuteronômio 14:29)". Eis que explicaram que a bênção do Senhor, bendito seja, chega e vem com o esforço. E assim disse o poeta: "se o Senhor não guardar a cidade, em vão vela o vigia" (Salmos 127:1) — mas, se o Senhor guardar a cidade, belamente vela o vigia; pois com a guarda e o esforço humano chega o auxílio divino, e não sem ele. E por causa disto é cabido que se esforce o homem com firmeza da mão em todas as coisas que é possível que sejam alcançadas pelo esforço do homem, depois de que sabemos que o esforço é proveitoso em toda coisa e em todas as ações pelo modo que explicamos. E por causa de uma ação que se vê chegando pelo lado do decreto — como dizem os nossos mestres, de abençoada memória: "'quando cair o que cai dele' (Deuteronômio 22:8) — cabido era este a cair" etc. — não por causa disto julgaremos sobre todas as coisas que elas estão no decreto; mas é cabido que nos esforcemos em todas elas como se fossem de livre-escolha com escolha completa, e o Senhor o que é bom aos seus olhos fará — e baste isto na livre-escolha conforme a nossa limitação.
הַחֲרִיצוּת טוֹב בְּכָל דָּבָר: ״וְיַד חָרוּצִים תַּעֲשִׁיר״. ״לְמַעַן יְבָרֶכְךָ ה׳... בְּכֹל מַעֲשֵׂה יָדְךָ אֲשֶׁר תַּעֲשֶׂה״ — שֶׁהַבְּרָכָה בָּאָה עִם הַהִשְׁתַּדְּלוּת. ״אִם ה׳ לֹא יִשְׁמָר עִיר שָׁוְא שָׁקַד שׁוֹמֵר״. רָאוּי שֶׁנִּשְׁתַּדֵּל בְּכֻלָּן כְּאִלּוּ הֵן בְּחִירִיּוֹת, וַה׳ הַטּוֹב בְּעֵינָיו יַעֲשֶׂה.
O capítulo anterior dividiu as ações em três classes — livres, decretadas (forçadas) e mistas — e admitiu que nas decretadas "o esforço é vão". Surge daí uma objeção prática perigosa: se algumas coisas estão decretadas e nelas o esforço nada adianta, e se eu não consigo distinguir a qual classe pertence cada situação (como Albo concluiu no cap. 5), por que me esforçar em coisa alguma? Não seria mais coerente o fatalismo? Este capítulo é a refutação pastoral desse fatalismo — a defesa vigorosa da hishtadlut, o esforço humano.
Nas ações livres e nas mistas a resposta é direta: o esforço é uma causa verdadeira do resultado. Albo formula um princípio de causalidade conjunta: quando uma coisa depende de dois agentes, ambos são condição indispensável. A colheita exige o trabalho do lavrador e a chuva — nenhum sozinho basta. A tinta exige as bugalhas e o vitríolo. Assim, mesmo que o decreto (a "chuva", a graça) seja necessário, o esforço humano (o "trabalho") é igualmente condição da chegada do bem. A bênção divina não substitui o trabalho; ela se acopla a ele — "com a guarda e o esforço humano chega o auxílio divino, e não sem ele".
O movimento mais original do capítulo: até nas ações decretadas, onde o esforço "não frutifica", o esforço continua sendo devido — porque o seu próprio fracasso tem um papel revelador. Quando o homem se empenha com toda a diligência e mesmo assim não alcança, esse fracasso é um sinal: ou há um pecado a expiar, ou o mérito não basta para anular o decreto astral. O fracasso converte-se assim em convite à teshuvá — "esquadrinhe nos seus atos" (Lamentações 3:40, via Berachot 5a). E o inverso também ensina: quando o esforço frutifica, isso é prova consoladora de que "não há grande pecado a impedir" — donde a leitura de "o labor das tuas palmas, quando comeres, feliz és tu" (Salmos 128:2): a felicidade não está só no pão ganho, mas na certeza de que nenhum pecado bloqueia o caminho. O esforço torna-se, portanto, um instrumento de diagnóstico espiritual, válido qualquer que seja a classe a que o evento pertença.
A conclusão é uma regra de vida que resolve elegantemente a aporia do cap. 5. Já que não podemos saber o que está decretado e o que depende de nós, a conduta correta é agir em tudo "como se fosse livre escolha completa" — esforçando-nos com firmeza da mão em cada coisa alcançável pelo esforço — "e o Senhor o que é bom aos seus olhos fará". Albo cuidadosamente cita o "quando cair o que cai" (Deuteronômio 22:8, via Shabat 32a — o que ia cair de qualquer modo) apenas para negar que se generalize: de um único evento aparentemente decretado não se conclui que tudo seja decreto. A síntese une providência e responsabilidade: o decreto é real, mas a nossa parte é trabalhar como se tudo dependesse de nós — a humildade epistêmica do cap. 5 transforma-se aqui em ética do empenho. Salomão louva o diligente ("a mão dos diligentes enriquece", Provérbios 10:4) e a Torá recusa o ócio ("poderia sentado e ocioso? — em toda obra da tua mão", Sifrei a Deuteronômio 14:29): a bênção vem com o esforço, nunca em lugar dele.
A providência divina (hashgachá) sobre cada indivíduo, para recompensar e punir, é raiz de toda religião divina. Mas saber não é o mesmo que prover: o filósofo nega que D'us conheça os particulares; concedido que conhece, resta perguntar se cuida de cada um para retribuir, ou apenas conhece como conhece os animais. A desordem aparente do mundo — justos que sofrem, ímpios que prosperam — levou Jó a negar a providência. Albo abre aqui o grande tratado da teodiceia, mostrando por que "ímpio e bem-lhe-vai" é a pergunta mais dura, e prepara as provas da providência.
A providência divina (hashgachá) sobre cada indivíduo, para recompensar e punir, é raiz de toda religião divina. Mas saber não é o mesmo que prover: o filósofo nega que D'us conheça os particulares; concedido que conhece, resta perguntar se cuida de cada um para retribuir, ou apenas conhece como conhece os animais. A desordem aparente do mundo — justos que sofrem, ímpios que prosperam — levou Jó a negar a providência. Albo abre aqui o grande tratado da teodiceia, mostrando por que "ímpio e bem-lhe-vai" é a pergunta mais dura, e prepara as provas da providência.
1 E é cabido que prossigamos a esta fala com a fala sobre a providência hashgachá e as suas espécies. E dizemos que, do que é obrigatório sobre todo dono de uma religião divina que creia, está o que o Senhor, bendito seja, supervisiona mashguíach os indivíduos do gênero humano e os particulares dos seus atos, para recompensar e para castigar os particulares do homem e os seus bandos — e isto é uma raiz shóresh em todas as religiões divinas.
שֶׁמִּמַּה שֶּׁיִּתְחַיֵּב עַל כָּל בַּעַל דָּת אֱלֹהִית לְהַאֲמִין הוּא שֶׁהַשֵּׁם יִתְבָּרַךְ מַשְׁגִּיחַ בְּאִישֵׁי מִין הָאָדָם וּבְפִרְטֵי מַעֲשֵׂיהֶם לִגְמֹל וְלַעֲנֹשׁ פְּרָטֵי הָאָדָם וְכִתּוֹתָיו, וְזֶה שֹׁרֶשׁ בְּכָל הַדָּתוֹת הָאֱלֹהִיּוֹת.
2 E, contudo, se isto é possível pelo lado da especulação — eis que isto necessita de esclarecimento; pois, conforme a opinião do filósofo, aquele que diz que o conhecimento do Senhor, bendito seja, não está abrangendo os particulares, quanto mais é certo que não os supervisionará para castigá-los sobre as suas rebeldias. Mas já estabelecemos ao ser o Senhor, bendito seja, conhecedor de todos os existentes e dos particulares dos seus atos, com provas suficientes para todo dono de intelecto; e, contudo, o que se precisa de esclarecer é que, mesmo que saiba os particulares e os seus atos, se Ele os supervisiona para dar a cada homem conforme os seus caminhos — ou se os sabe como sabe os viventes e os seus particulares por via de necessidade, por ser o seu conhecimento abrangedor de tudo o que é existente e que é feito no mundo, e por não se esconder dele nenhuma coisa, pequena ou grande, mas que não os supervisiona para dar-lhes recompensa e castigo sobre os seus atos, senão que supervisiona nos seus particulares no que eles são partes do todo, e para guardar a espécie — não por outro modo que não este.
לְפִי דַּעַת הַפִּילוֹסוֹף שֶׁאֵין יְדִיעָתוֹ מַקֶּפֶת בַּפְּרָטִים — לֹא יַשְׁגִּיחַ. אֲבָל הִכְרַעְנוּ שֶׁהַשֵּׁם יוֹדֵעַ הַכֹּל. וְהַצָּרִיךְ לְבָאֵר: אַף שֶׁיֵּדַע הַפְּרָטִים, הַאִם יַשְׁגִּיחַ לָתֵת לְאִישׁ כִּדְרָכָיו — אוֹ יְדָעֵם כְּמוֹ שֶׁיּוֹדֵעַ הַבַּעֲלֵי חַיִּים בְּהֶכְרֵחַ, לִשְׁמֹר הַמִּין לְבַד.
3 E o que trouxe os homens a retirar a providência, com o serem eles confessores do conhecimento do Senhor, bendito seja, é a má ordem que se acha — conforme a sua opinião — nos bens do mundo e nos seus males: que se acham justos a quem chega conforme os atos dos ímpios, e o oposto. E esta dúvida trouxe a Jó a pensar que o Senhor, bendito seja, não está supervisionando os particulares dos filhos do homem, e que não há distinção entre justo e ímpio, como não há distinção nos indivíduos dos viventes entre um indivíduo e outro indivíduo — como explicou isto ao dizer "uma coisa só é — por isso o disse — ao íntegro e ao ímpio ele consome" (Jó 9:22), "se o açoite mata de súbito, da provação dos inocentes ele zomba" (Jó 9:23), "a terra foi dada na mão do ímpio, as faces dos seus juízes ele cobre; se não é assim, pois quem é?" (Jó 9:24). Quer dizer que é uma só a alegação que o move a dizer que não está a providência aderida aos indivíduos do gênero humano, e que tanto o íntegro como o ímpio Ele aniquila e não discerne entre justo e ímpio — pois ele vê o açoite e o acaso mau chegando aos inocentes do pecado e os mata de súbito e zomba deles e os prova, e vê que os ímpios são o oposto disto, que prosperam muitíssimo, até o ponto de que "a terra foi dada na mão do ímpio", até o ponto de que é como se cobrisse as faces dos juízes e os fizesse não videntes, depois de que não lhes é permitido fazer nele juízo — e isto é do que indica que não há no mundo um supervisor nos particulares; e isto é o que concluiu as suas palavras "se não é assim, pois quem é?" — quer dizer: e, se não é assim, quem é o Condutor que faria esta iniquidade ou suportaria o fazê-la?
מַה שֶּׁהֵבִיא לְסַלֵּק הַהַשְׁגָּחָה: רֹעַ הַסֵּדֶר — צַדִּיקִים שֶׁמַּגִּיעַ אֲלֵיהֶם כְּמַעֲשֵׂי הָרְשָׁעִים וְהַהֵפֶךְ. אִיּוֹב חָשַׁב שֶׁאֵין הֶבְדֵּל בֵּין צַדִּיק לְרָשָׁע: ״אַחַת הִיא עַל כֵּן אָמַרְתִּי תָּם וְרָשָׁע הוּא מְכַלֶּה... אֶרֶץ נִתְּנָה בְיַד רָשָׁע... אִם לֹא אֵפוֹא מִי הוּא״.
4 E também os profetas, os crentes na providência e os que a divulgam no mundo, e os sábios da Torá, os achamos a queixarem-se sobre estas duas medidas — seja sobre o bem do ímpio, seja sobre o mal do justo. E, ainda que não sejam as queixas iguais — pois a queixa d'"o ímpio e bem-lhe-vai" é verdadeira e dura muitíssimo, pelo lado de ser que todos os homens veem com os seus olhos a maldade do ímpio, no seu ser um servidor de idolatria e um descobridor de nudezas incesto e um derramador de sangue e um fazedor de iniquidade e violência manifesta, e não há temor de D'us defronte dos seus olhos, e com tudo isto os seus atos prosperam — e isto traz todos os homens a duvidar da providência, conforme se diz "por que o caminho dos ímpios prospera?" (Jeremias 12:1) —; mas a queixa d'"o justo e mal-lhe-vai" não é dura tanto, pois não é a iniquidade manifesta aos filhos do homem, que todos sabem que "um homem não há justo na terra que faça o bem e não peque" (Eclesiastes 7:20) — seja pouco, seja muito —, e, se chegarem ao justo males, não é isto estranho junto deles, pois dirão: talvez pecou de fato nos escondidos, no lugar onde não há quem veja senão o Senhor — e "ao profanador do nome dos céus em segredo se cobra dele em manifesto" —; ou talvez pecou em pensamento. Disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "aquele que diz à mulher 'eis que estás consagrada a mim com a condição de que sou um justo completo' — mesmo se é um ímpio completo, ela está consagrada, pois talvez pensou em teshuvá na sua mente; '...com a condição de que sou um ímpio' — mesmo se é um justo completo como Rabi Akiva, ela está consagrada, pois talvez cogitou idolatria no seu juízo". Eis que revelaram que não está o reconhecer do justo entregue a todo homem — que o homem vê aos olhos e o estima um justo, e o Senhor vê ao coração e vê que não é assim, mas que ele é um ímpio.
הַנְּבִיאִים וְהַחֲכָמִים מִתְלוֹנְנִים עַל שְׁתֵּי הַמִּדּוֹת. ״רָשָׁע וְטוֹב לוֹ״ — קָשָׁה מְאֹד, שֶׁהַכֹּל רוֹאִין רִשְׁעוֹ ״מַדּוּעַ דֶּרֶךְ רְשָׁעִים צָלֵחָה״. אֲבָל ״צַדִּיק וְרַע לוֹ״ אֵינוֹ קָשֶׁה כָּל כָּךְ — ״אָדָם אֵין צַדִּיק בָּאָרֶץ״. ״הָאוֹמֵר... עַל מְנָת שֶׁאֲנִי צַדִּיק... שֶׁמָּא הִרְהֵר תְּשׁוּבָה״; ״ה׳ יִרְאֶה לַלֵּבָב״.
5 E assim se vê da linguagem do tana no tratado Avot, que não é a pergunta d'"o justo e mal-lhe-vai" igual à pergunta d'"o ímpio e bem-lhe-vai": disse "não está em nossa mão da tranquilidade dos ímpios" (Avot 4:15) — quer dizer, que não nos é conhecido o motivo d'"o ímpio e bem-lhe-vai"; e depois disto disse "e nem ainda dos sofrimentos dos justos" (Avot 4:15) — quer dizer: ainda os sofrimentos dos justos, de que se pensaria que o motivo nos é conhecido, não é assim. E isto o indica a linguagem "e nem ainda", pois não disse "e nem dos sofrimentos dos justos" — e isto é do que indica que não é a queixa d'"o justo e mal-lhe-vai" dura tanto, porque não estão os habitantes do mundo a reconhecer quem é um justo completo; e não há esta queixa senão para o que sabe em si mesmo que é um justo completo — como a fala de Jeremias "tu, Senhor, conheceste-me, ver-me-ás e provaste o meu coração contigo" etc. (Jeremias 12:3); e assim Jó queixava-se sobre os juízos do Senhor pelo lado de ser ele um justo aos seus próprios olhos.
״אֵין בְּיָדֵינוּ לֹא מִשַּׁלְוַת הָרְשָׁעִים וְאַף לֹא מִיִּסּוּרֵי הַצַּדִּיקִים״ — לְשׁוֹן ״וְאַף״ מוֹרֶה שֶׁאֵין צַדִּיק וְרַע לוֹ קָשֶׁה כָּל כָּךְ, שֶׁאֵין מַכִּירִין מִי צַדִּיק גָּמוּר. אֵין הַתְּלוּנָה אֶלָּא לַיּוֹדֵעַ בְּעַצְמוֹ — כְּיִרְמִיָה, וּכְאִיּוֹב שֶׁהָיָה צַדִּיק בְּעֵינָיו.
6 E nesta coisa pecaram os amigos de Jó, que atribuíam a Jó maldade — pois não souberam achar uma resposta e um caminho pelo qual chegassem ao justo males se não pelo lado de ser ele um ímpio, como acharam um caminho pelo qual chegassem bens ao ímpio; e Jó, que sabia a justiça de si mesmo, não se assentava a sua opinião na resposta deles. E por isto "ardeu a ira" de Eliú, ao dizer "e contra os seus três amigos ardeu a sua ira, sobre o fato de que não acharam resposta e fizeram ímpio a Jó" (Jó 32:3) — quer dizer que, porque não souberam uma resposta e um lado pelo qual chegassem ao justo males sem que houvesse iniquidade no direito dele, bendito seja, faziam ímpio a Jó e diziam sobre ele que era um ímpio. E sobre isto disse o Senhor a Elifaz: "ardeu a minha ira em ti e nos teus dois amigos, pois não falastes a mim coisa correta como o meu servo Jó" (Jó 42:7) — quer dizer que Jó cria que já chegam ao justo completo males, e neste lado falou correto; mas, porque, quando não sabia a causa disto, atribuía isto a iniquidade ao Senhor, bendito seja, se é que Ele supervisionava, ou retirava a providência — pois não sabia como seria possível que chegassem ao justo males pelo lado da providência sem que houvesse iniquidade no direito dele —, não falou correto. E, quando lhe revelou Eliú a necessidade hekhrech da providência e disse-lhe que estava pecando, sobre o fato de que pensava sobre o Senhor coisa errônea, voltou a crer que já chegam ao justo males pelo lado da providência sem que isto seja iniquidade no direito dele. E isto é: que já prova o Senhor o justo para ver se ele é um servidor por amor me'ahavá, e se não se importa de suportar um esforço grande e labor pelo amor do Santo, bendito seja, e não clama com protesto sobre as suas medidas; e foi que Jó, porque clamou com protesto sobre as medidas do Santo, bendito seja, e disse que o Senhor torce o juízo, pecou.
חָטְאוּ חֲבֵרֵי אִיּוֹב שֶׁיִּחֲסוּ לוֹ רֶשַׁע. אֱלִיהוּא: ״עַל אֲשֶׁר לֹא מָצְאוּ מַעֲנֶה וַיַּרְשִׁיעוּ אֶת אִיּוֹב״. ״לֹא דִבַּרְתֶּם אֵלַי נְכוֹנָה כְּעַבְדִּי אִיּוֹב״ — שֶׁכְּבָר יַגִּיעוּ אֶל הַצַּדִּיק רָעוֹת; אֲבָל בְּיַחֲסוֹ זֶה לְעָוֶל לֹא דִבֵּר נְכוֹנָה. שֶׁיְּנַסֶּה הַשֵּׁם אֶת הַצַּדִּיק אִם עוֹבֵד מֵאַהֲבָה; וְאִיּוֹב קָרָא תִגָּר וְחָטָא.
7 E se verificaram nisto as palavras do Satã, que disse "acaso é de graça que teme Jó a D'us?" (Jó 1:9) — que não se prova o justo se ele é um servidor por amor enquanto está a prosperar em todos os seus caminhos, mas enquanto está a suportar sofrimentos pelo amor do Senhor. E, quando soube isto Jó da boca do Senhor, que lhe disse "acaso ainda vais anular o meu juízo, far-me-ás ímpio para te tornares justo?" (Jó 40:8), e da toda aquela resposta que lhe mostrou que pecara ao estar a atribuir ao D'us, bendito seja, cansaço ou limitação nos seus atos ou iniquidade nos seus juízos — confessou e disse "soube que tudo podes e que não se retém de ti um desígnio" (Jó 42:2) — quer dizer: soube que é impossível atribuir-te cansaço ou limitação, pois tudo podes e tens a capacidade de fazer a tua vontade; também não há iniquidade no juízo pelo lado da falta de conhecimento, pois "não se retém de ti um desígnio" e o teu conhecimento abrange toda coisa; sendo assim, é impossível que decorra de ti iniquidade, depois de que tu és capaz sobre toda coisa e és sábio em toda coisa. E o fim das suas palavras: "por isso me enfastio e me consolo sobre pó e cinza" (Jó 42:6) — quer dizer que ele se enfastiava de todos os desejos do mundo e dos seus bens, e se consolava sobre os sofrimentos que suportava, e se assentava no meio do pó e da cinza, pois soube que isto era para o bem dele.
נִתְאַמְּתוּ דִּבְרֵי הַשָּׂטָן ״הַחִנָּם יָרֵא אִיּוֹב אֱלֹהִים״ — שֶׁלֹּא יִבָּחֵן הַצַּדִּיק בְּהַצְלָחָתוֹ אֶלָּא בְּסָבְלוֹ יִסּוּרִין. וְהוֹדָה אִיּוֹב: ״יָדַעְתִּי כִּי כֹל תּוּכָל וְלֹא יִבָּצֵר מִמְּךָ מְזִמָּה״ — לֹא לֵאוּת וְלֹא עָוֶל מֵהֶעְדֵּר יְדִיעָה. ״עַל כֵּן אֶמְאַס וְנִחַמְתִּי עַל עָפָר וָאֵפֶר״.
8 E o conjunto do livro de Jó é o resolver estas duas perguntas. E, porque o resolvê-las é necessário à religião divina, concordou a opinião do senhor dos profetas, sobre ele a paz Moshé, em compor este livro, que é o livro de Jó, pelo modo de discussão e negociação massá u-matán entre sábios que se esforçam por resolver estas duas dúvidas por faces diversas; mencionarei delas em poucas palavras as mais fortes dentre as suas provas. E, porque não há lugar para resolver estas duas dúvidas se não quando se verificar primeiro a existência da providência, escreverei primeiro algo das provas que indicam a providência, do que veio neste livro e em outros que não ele. E as provas que indicam a providência são três espécies: dentre elas, provas tomadas da providência que se acha nos assuntos gerais; e dentre elas, provas tomadas da providência que se acha nos assuntos parciais; e dentre elas, provas tomadas pelo lado do intelecto. E mencionarei cada espécie destas em um capítulo por si mesmo.
כְּלַל סֵפֶר אִיּוֹב — לְתָרֵץ שְׁתֵּי הַקֻּשְׁיוֹת, וְהִסְכִּימָה דַעַת אֲדוֹן הַנְּבִיאִים לְחַבְּרוֹ בְּדֶרֶךְ מַשָּׂא וּמַתָּן. וְאֵין לְהַתִּיר אִם לֹא כְּשֶׁיִּתְאַמֵּת מְצִיאוּת הַהַשְׁגָּחָה. וְהָרְאָיוֹת ג׳ מִינִים: מִן הָעִנְיָנִים הַכּוֹלְלִים, מִן הַחֶלְקִיִּים, וּמִצַּד הַשֵּׂכֶל — כָּל מִין בְּפֶרֶק בִּפְנֵי עַצְמוֹ.
Os capítulos anteriores estabeleceram a presciência divina (cap. 1–3) e a liberdade humana sob a influência (não a necessidade) dos astros (cap. 4–6). Este capítulo abre a segunda grande questão do Maamar IV: a providência (hashgachá). Albo distingue cuidadosamente dois problemas que costumam confundir-se. Saber os particulares é uma coisa; prover por eles — cuidar de cada indivíduo para retribuir-lhe segundo os seus atos — é outra. O filósofo (Aristóteles) nega que D'us conheça os particulares; isso já foi refutado. Mas — concede Albo — alguém poderia admitir que D'us conhece todos os particulares e ainda assim sustentar que os conhece "como conhece os animais", por necessidade da onisciência, cuidando apenas da espécie e não do indivíduo. A providência retributiva sobre cada pessoa precisa, portanto, de prova própria — e é "raiz de toda religião divina".
O que leva homens que creem na onisciência a negar a providência? Não um argumento abstrato, mas a experiência: a aparente desordem moral do mundo — justos que sofrem, ímpios que prosperam. É a dúvida de Jó em sua forma mais radical: "ao íntegro e ao ímpio ele consome" (Jó 9:22) — não há diferença entre justo e ímpio, tal como não há entre um animal e outro; a terra está "na mão do ímpio". Jó conclui o cético "se não é assim, pois quem é?": se há um Condutor, como tolera tal iniquidade?
A contribuição mais fina do capítulo é mostrar que as duas queixas não têm o mesmo peso. "Ímpio e bem-lhe-vai" é a pergunta dura: a maldade do ímpio é pública — todos veem o idólatra, o violento, o sanguinário prosperar — e por isso abala a fé de todos ("por que prospera o caminho dos ímpios?", Jeremias 12:1). Já "justo e mal-lhe-vai" é menos dura, porque a justiça de ninguém é certa: "homem não há justo na terra que não peque" (Eclesiastes 7:20); o sofredor pode ter pecado em segredo, ou em pensamento. Albo lê com agudeza a Mishná de Avot 4:15 ("não está em nossa mão da tranquilidade dos ímpios e nem ainda dos sofrimentos dos justos"): aquele "e nem ainda" (ve-af) denuncia a assimetria — o sofrimento do justo pareceria compreensível (castigo por pecado oculto), mas nem isso dominamos. E note-se: a queixa "justo e mal-lhe-vai" só existe verdadeiramente para quem sabe de si que é justo completo — como Jeremias ("provaste o meu coração", Jr 12:3), como Jó, "justo aos seus próprios olhos".
Albo reinterpreta todo o livro de Jó à luz da teodiceia. O erro dos amigos foi achar que o único modo de o justo sofrer é ser ele secretamente ímpio — por isso "fizeram ímpio a Jó", e por isso "ardeu a ira" de Eliú (Jó 32:3). E o erro de Jó? Curiosamente, Jó acertou no fato ("já chegam males ao justo completo" — nisto "falou correto", Jó 42:7, mais que os amigos), mas errou na interpretação: ao não achar a causa, atribuiu o sofrimento a injustiça de D'us ("o Senhor torce o juízo") ou negou a providência. A solução que Eliú revela — e que o Satã antecipara com "acaso de graça teme Jó a D'us?" (Jó 1:9) — é a provação do amor: D'us prova o justo para ver se serve "por amor" (me'ahavá), suportando o sofrimento sem "clamar protesto". O justo provado não está sendo punido; está sendo amado e elevado. A confissão final de Jó (42:2) é o reconhecimento de que a D'us não se pode atribuir nem cansaço/limitação ("tudo podes") nem ignorância ("não se retém de ti um desígnio") — logo, dele não pode decorrer injustiça.
Albo registra a tradição talmúdica (Bava Batra 14b–15a) de que Moisés compôs o livro de Jó — precisamente porque resolver as duas perguntas é "necessário à religião divina". E encerra traçando o roteiro dos próximos capítulos: antes de responder por que sofrem justos e prosperam ímpios, é preciso provar que a providência existe. As provas serão de três espécies — (1) da providência nos assuntos gerais (a ordem da natureza e da espécie), (2) nos assuntos parciais/individuais (milagres, retribuição visível), e (3) pelo intelecto (argumento racional) — cada uma em seu capítulo. Este capítulo é, assim, o pórtico de toda a teodiceia do Sefer HaIkkarim.
A primeira espécie de prova da providência: a tirada dos assuntos gerais. Duas provas — o aparecimento da terra seca, que pela natureza dos elementos deveria estar coberta pelas águas (donde se prova um Criador voluntário que força a natureza, conforme a resposta de D'us a Jó), e a existência da chuva, que não corre pelo curso da natureza nem do acaso e desce pela oração. Ambas mostram que o mundo subsiste pela vontade de quem o supervisiona com justiça.
A primeira espécie de prova da providência: a tirada dos assuntos gerais. Duas provas — o aparecimento da terra seca, que pela natureza dos elementos deveria estar coberta pelas águas (donde se prova um Criador voluntário que força a natureza, conforme a resposta de D'us a Jó), e a existência da chuva, que não corre pelo curso da natureza nem do acaso e desce pela oração. Ambas mostram que o mundo subsiste pela vontade de quem o supervisiona com justiça.
1 Das provas tomadas dos assuntos gerais.
בָּרְאָיוֹת הַלְּקוּחוֹת מֵהָעִנְיָנִים הַכּוֹלְלִים.
2 A prova primeira é a tomada do aparecimento da terra seca galut ha-yabashá. E isto é: que, porque o negador da providência pensa que o mundo se conduz conforme o costume da natureza que se acha hoje, e não há ali uma vontade de um querente que force as coisas a saírem da sua natureza — eis que do aparecimento da terra seca há como trazer prova de que o mundo foi criado pela vontade de um querente ratzon rotzé.
הָרְאָיָה הָרִאשׁוֹנָה הִיא הַלְּקוּחָה מֵהִגָּלוּת הַיַּבָּשָׁה, שֶׁהַמַּכְחִישׁ הַהַשְׁגָּחָה חוֹשֵׁב שֶׁהָעוֹלָם נוֹהֵג כְּפִי מִנְהַג הַטֶּבַע, וְאֵין שָׁם רָצוֹן רוֹצֶה — וּמֵהִגָּלוּת הַיַּבָּשָׁה יֵשׁ לְהָבִיא רְאָיָה שֶׁהָעוֹלָם נִבְרָא בְּרָצוֹן רוֹצֶה.
3 E isto é: que, conforme a natureza dos elementos, era cabido que estivesse a terra coberta pelo elemento das águas, e que não se achassem plantas nem viventes; e o aparecimento da terra seca é uma prova sobre uma vontade de um querente que força a natureza a fazer a sua vontade. E esta prova é a primeira que mencionou o Senhor, bendito seja, a Jó no princípio das suas palavras: disse-lhe "onde estavas tu ao eu fundar a terra? declara, se sabes entendimento" (Jó 38:4). E o esclarecer disto é que o que pensa que o mundo é eterno disse assim porque traz prova daquilo que ele vê hoje nos existentes parciais sobre a formação geral — e não é assim; pois, se fosse o mundo eterno e se conduzisse sempre conforme a natureza que se conduz hoje, e não houvesse ali um forçador pelo lado da vontade, eis que a coisa que está na natureza é cabido que se ache em ato por via de necessidade em algum tempo dos tempos; e a coisa que está na natureza do elemento das águas é que esteja a terra coberta por ele; e, se o mundo se conduz conforme o costume da natureza, por que não saiu à existência jamais a que estivesse a terra coberta por ele? E, conforme isto, estaria o elemento das águas posto sempre forçado fora do seu lugar natural — e isto é impossível conforme o caminho da natureza, pois era cabido que saísse a natureza do elemento à existência em algum tempo, e naquele tempo é impossível que se ache homem, nem viventes, nem plantas. E, se foi assim em algum tempo dos tempos, quem é aquele que forçou o elemento aquoso a sair da sua natureza para que se achassem as plantas e os viventes que existem por causa do gênero humano? E esta é uma prova forçosa de que a existência foi feita pela vontade de um querente, e de que não esteve o mundo sempre a conduzir-se no costume da natureza no qual se conduz hoje, mas que se inovou nitchadesh pela vontade de um querente.
כְּפִי טֶבַע הַיְסוֹדוֹת הָיָה רָאוּי שֶׁתִּהְיֶה הָאָרֶץ מְכֻסָּה בַּמַּיִם, וְלֹא יִמָּצְאוּ צְמָחִים וּבַעֲלֵי חַיִּים. אִם הָעוֹלָם קַדְמוֹן וְנוֹהֵג בַּטֶּבַע — לָמָּה לֹא יָצָא מֵעוֹלָם שֶׁתִּהְיֶה הָאָרֶץ מְכֻסָּה? מִי הִכְרִיחַ הַיְסוֹד הַמֵּימִיִּי לָצֵאת מִטִּבְעוֹ כְּדֵי שֶׁיִּמָּצְאוּ הַצְּמָחִים וְהַבַּעֲלֵי חַיִּים בַּעֲבוּר מִין הָאָדָם — רְאָיָה שֶׁנִּתְחַדֵּשׁ בְּרָצוֹן רוֹצֶה.
4 E isto é o que lhe disse o Senhor, bendito seja, a Jó: "onde estavas ao eu fundar a terra?" etc. (Jó 38:4) — quer dizer: tu, Jó, que pensas que não é o mundo inovado pela vontade de um querente mas que se conduz sempre no costume natural, declara, se sabes entendimento, onde estavas tu ou o gênero humano quando era o elemento terrestre um fundamento para todos os elementos — quer dizer, coberto pelas águas e cercado por todos os elementos como é na sua natureza, ao ser um fundamento para tudo? Eis que por força tens tu de confessar que se revelou pela vontade de um querente. E, quando se revelou a terra, "quem pôs as suas medidas, se o sabes, ou quem estendeu sobre ela um cordel?" (Jó 38:5) — quer dizer: quem mediu o elemento da terra de modo que se revele dele aquela medida cabida, não menos e não mais? E disse ainda "sobre que estão os seus pedestais fincados?" (Jó 38:6) — quer dizer: que natureza obrigou a que a terra estivesse sobre as águas? "ou quem lançou a pedra da sua esquina?" (Jó 38:6) — quer dizer: porque é do caminho dos edifícios grandes que a pedra angular aquele que a põe no seu lugar é algum rei ou ministro, com instrumentos de movimento e com címbalos e com tocadores ou com tambor e harpa, para que se mantenha — por isto disse pelo modo de eloquência tzachut "quem é o ministro que lançou a pedra da sua esquina" — de modo que sejam as estrelas os tocadores e os cantores, e todos os filhos de D'us a bradarem um brado grande? Quer dizer que a terra se fez um fundamento neste modo, "ao cantarem juntas as estrelas da manhã" (Jó 38:7). E juntou a isto "e cercou com portas o mar" (Jó 38:8) — quer dizer: e quem é o ministro que fechou o mar com portas de modo que não voltasse a cobrir a terra, como fiz eu? E esclareceu o assunto e disse "e quebrei sobre ele o meu decreto" (Jó 38:10) — quer dizer: mudei nele o costume do decreto da natureza, e pus tranca e portas e disse "até aqui virás e não acrescentarás" etc. (Jó 38:11). E concluiu todo este assunto como prova de que o aparecimento da terra seca e a sua continuidade neste modo é uma prova sobre uma vontade de um querente que mantém sempre o mundo e o conserva, e não pelo caminho do costume da natureza.
״אֵיפֹה הָיִיתָ בְּיָסְדִי אָרֶץ... מִי שָׂם מְמַדֶּיהָ... אוֹ מִי נָטָה עָלֶיהָ קָּו... עַל מָה אֲדָנֶיהָ הָטְבָּעוּ אוֹ מִי יָרָה אֶבֶן פִּנָּתָהּ, בְּרָן יַחַד כּוֹכְבֵי בֹקֶר״. ״וַיָּסֶךְ בִּדְלָתַיִם יָם... וָאֶשְׁבֹּר עָלָיו חֻקִּי... עַד פֹּה תָבוֹא וְלֹא תֹסִיף״ — רְאָיָה עַל רָצוֹן רוֹצֶה הַמַּעֲמִיד הָעוֹלָם.
5 E assim se acha Jeremias, quando repreendia os filhos da sua geração sobre o fato de que não havia neles temor dos céus e pensavam que não há no mundo um supervisor e um agente pela vontade, mas que o mundo conforme o seu costume se conduz — disse-lhes esta alegação: disse "ouvi, pois, isto, povo tolo e sem coração, que olhos têm e não veem, ouvidos têm e não ouvem: acaso a mim não temereis? — palavra do Senhor — acaso de diante de mim não tremereis, eu que pus a areia como limite ao mar, decreto eterno, e não o ultrapassará?" etc. (Jeremias 5:21–22). Eis que revelou nisto que esta é uma coisa que força o intelecto a confessar que o aparecimento da terra seca indica a que o mundo foi feito pela vontade de um querente, e não é um assunto que se conduz no costume natural. E isto é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, em Bereshit Rabá: "na hora em que disse o Santo, bendito seja, 'ajuntem-se as águas' (Gênesis 1:9), levantou-se o ministro do mar sar shel yam diante do Santo, bendito seja, e disse perante ele: 'Senhor do mundo, e acaso não é o mundo todo inteiro que eu encho?', imediatamente o coiceou e o matou, conforme se diz 'pela sua força aquietou o mar' (Jó 26:12)". Eis que eles chamaram "ministro do mar" à natureza do elemento das águas, e disseram sobre ele que enchia o mundo todo — pois a sua natureza é cobrir a terra —, senão que se revelou pela vontade do Santo, bendito seja; e por isso disseram "no futuro o Santo, bendito seja, fá-las-á retornar ao seu lugar", para indicar que o aparecimento da terra seca não é do caminho da natureza, mas pela vontade de um querente que mantém o mundo e o conserva assim; e, porque a coisa que está na natureza é cabido que seja assim em ato em algum tempo dos tempos, disseram que no futuro o Santo, bendito seja, fá-las-á retornar ao seu lugar. E esta é uma prova forçosa de que o mundo subsiste sempre pela vontade de um querente e não pela natureza, e que Ele é o que supervisiona nele para conduzi-lo com retidão e com juízo.
יִרְמִיָה: ״הַאוֹתִי לֹא תִירָאוּ... אֲשֶׁר שַׂמְתִּי חוֹל גְּבוּל לַיָּם חָק עוֹלָם וְלֹא יַעַבְרֶנְהוּ״. בְּרֵאשִׁית רַבָּה: ״עָמַד שַׂר שֶׁל יָם... וַהֲלֹא כָּל הָעוֹלָם אֲנִי מָלֵא, מִיָּד בָּעַט בּוֹ וַהֲרָגוֹ — בְּכֹחוֹ רָגַע הַיָּם״. עָתִיד לְהַחְזִירָן לִמְקוֹמָן.
6 E assim trouxe o poeta prova disto: disse "Ele ama justiça e juízo" etc. (Salmos 33:5) — quer dizer: ainda que D'us ame justiça e juízo, quer dizer, as coisas que decorrem pelo lado da obrigação e pelo caminho e costume da natureza, de todo modo "da bondade do Senhor está cheia a terra" (Salmos 33:5), quer dizer: é impossível negar a que o mundo se ache pelo lado da bondade e da vontade; e trouxe prova a isto do aparecimento da terra seca, e disse "Ele ajunta como num montão as águas do mar" etc. (Salmos 33:7); e prosseguiu a isto "temam ao Senhor toda a terra" etc. (Salmos 33:8), "pois ele disse e foi" (Salmos 33:9) — para dizer que, depois de que o mundo se criou e subsiste sempre pela palavra e pela ordem da vontade de um querente e não pela natureza, há disto uma prova grande sobre a providência — que todo o salmo está fundado sobre isto, como disse depois disto "dos céus olhou o Senhor" etc. (Salmos 33:13), "do assento da sua morada" etc. (Salmos 33:14), "o que entende todos os seus atos" (Salmos 33:15). E quer dizer que, depois de que o aparecimento da terra seca — para que se achem as plantas e os viventes que são para a necessidade do homem — se fez pela vontade de um querente, há como tomar disto prova de que o Senhor, bendito seja, supervisiona no gênero humano mais do que supervisiona nas espécies dos demais viventes — que a providência neles é específica minit e a providência do gênero humano é individual ishit e um assunto que decorre pelo lado da vontade e não pela natureza; pois eis que nós vemos que "não está o rei a ser salvo pela multidão do exército" etc. (Salmos 33:16), como é nos demais viventes e como o assunto o dá. E, depois de que isto é assim, se indica que, ainda que em todos os viventes a providência neles seja específica, a providência no gênero humano é individual.
״אֹהֵב צְדָקָה וּמִשְׁפָּט חֶסֶד ה׳ מָלְאָה הָאָרֶץ... כֹּנֵס כַּנֵּד מֵי הַיָּם... כִּי הוּא אָמַר וַיֶּהִי״. ״מִשָּׁמַיִם הִבִּיט ה׳... הַמֵּבִין אֶל כָּל מַעֲשֵׂיהֶם״. ״אֵין הַמֶּלֶךְ נוֹשָׁע בְּרָב חַיִל״ — הַשְׁגָּחַת מִין הָאָדָם אִישִׁית.
7 E a prova segunda dos assuntos gerais é a prova tomada da existência da chuva matar — que, ainda que não seja uma prova que indique por essência, conforme o que se vê no princípio do assunto, sobre a providência individual no gênero humano, porque a achamos ao mencioná-la Elifaz na sua resposta primeira e Eliú na sua quarta resposta, e ao confirmá-la o Senhor, bendito seja, na sua resposta primeira — precisamos de esclarecer o modo da prova tomada da chuva.
הָרְאָיָה הַשֵּׁנִית הִיא הַלְּקוּחָה מִמְּצִיאוּת הַמָּטָר. זָכְרָהּ אֱלִיפַז וְאֱלִיהוּא, וְקִיֵּם אוֹתָהּ הַשֵּׁם בְּמַעֲנֵהוּ — צְרִיכִין לְבָאֵר אֹפֶן הָרְאָיָה.
8 E dizemos que é manifesto que é impossível que subsista esta existência inferior sem a chuva — seja para fazer germinar as plantas como alimento dos viventes, seja para umedecer os corpos dos viventes de modo que não se ressequem e se enegreçam pela muita queimação do sol. Já mencionou Elifaz estes dois proveitos: disse "porém eu buscaria a D'us" etc. (Jó 5:8), "o que dá chuva sobre a face da terra" etc. (Jó 5:10), "para pôr os humildes no alto, e aos enegrecidos eleva a salvação" (Jó 5:11). Disse que na chuva há dois proveitos: o um, que no dar a chuva sobre a face da terra o proveito é para pôr as plantas humildes no alto, quer dizer que se elevam na sua germinação sobre a terra; e o proveito segundo é "e envia águas sobre a face das ruas" (Jó 5:10) — no povoado dentre os homens, e isto é porque os homens enegrecidos pela queimação do sol têm o seu corpo umedecido e podem subsistir, e isto é "e aos enegrecidos eleva a salvação". E Eliú também aludiu a isto ao dizer "as nuvens que destilam os céus, gotejam sobre o homem em abundância" (Jó 36:28), e completou ali o assunto das maravilhas da chuva.
אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּתְקַיֵּם הַמְּצִיאוּת הַשָּׁפֵל בְּזוּלַת הַמָּטָר — לְהַצְמִיחַ וּלְלַחְלֵחַ. אֱלִיפַז: ״הַנֹּתֵן מָטָר עַל פְּנֵי אָרֶץ... לָשׂוּם שְׁפָלִים לְמָרוֹם וְקֹדְרִים שָׂגְבוּ יֶשַׁע״. אֱלִיהוּא: ״אֲשֶׁר יִזְּלוּ שְׁחָקִים יִרְעֲפוּ עֲלֵי אָדָם רָב״.
9 E, com ser a chuva com existência necessária para a conservação de todos os viventes em geral — depois de que a existência de todos os viventes é para a necessidade do homem —, é impossível atribuir a sua geração à natureza, porque não é uma coisa contínua por um modo só em cada ano e ano em um tempo só, como é o assunto nas coisas naturais, mas que vem em tempos diferentes e por faces diversas e pelo caminho da maravilha, que não se conduz sempre por um costume só nem pelo caminho natural — pois, depois de que se interrompeu um tempo grande e prevaleceu a secura, não era cabido que voltasse o ar a umedecer-se uma outra vez e a fazer subir vapores. Eis que isto é do que indica que não é a geração da chuva nos tempos diferentes das ações da natureza, mas pela vontade de um querente. E já aludiu o Senhor, bendito seja, a Jó a esta alegação: que, porque disse Jó "ao fazer ele para a chuva um decreto" (Jó 28:26) — de modo que se vê das suas palavras que era a sua opinião de que há para a chuva um decreto e um costume natural —, por isto o respondeu o Senhor, bendito seja: "acaso há para a chuva um pai, ou quem gerou as gotas do orvalho?" (Jó 38:28) — quer dizer: acaso há para a chuva um decreto natural, como tu dizes, de modo que seja como um pai que a gera para fazer germinar as plantas por um modo ordenado, suficiente para alimentar todos os viventes? ou quem é a natureza que obriga a gerar as gotas do orvalho sempre no tempo em que não há ali chuva, para umedecer os corpos dos viventes nos lugares do povoado? — pois isto é impossível a ti negar a que não seja pelo lado do costume natural.
אִי אֶפְשָׁר לְיַחֵס הֲוָיָתוֹ אֶל הַטֶּבַע, שֶׁאֵינוֹ מַתְמִיד עַל אֹפֶן אֶחָד — בָּא בִּזְמַנִּים מִתְחַלְּפִים וּבְדֶרֶךְ פֶּלֶא. ״הֲיֵשׁ לַמָּטָר אָב אוֹ מִי הוֹלִיד אֶגְלֵי טָל״ — אֵין לוֹ חֹק טִבְעִי.
10 Também é impossível atribuir a sua geração ao acaso mikré, pois as coisas acidentais não são contínuas por um modo tal que se complete por elas a subsistência da existência neste modo completo que se vê ao sentido. E, depois de que não é do costume da natureza nem pelo lado do acaso, eis que restou que seja pela vontade de um querente — que é o D'us, bendito seja, aquele que supervisiona no gênero humano e conserva as plantas e os viventes neste modo para a necessidade do gênero humano. E, ainda que esta providência seja específica, de todo modo, quando se vê a chuva a inovar-se às vezes por meio dos homens completos os tzadikim, como Elias e Choni HaMe'aguel, eis que isto é do que indica sem dúvida sobre a providência particular naquele indivíduo, e de que não é um assunto natural. E por isto achas os nossos mestres, de abençoada memória, a dizerem: "três chaves não foram entregues na mão de um mensageiro shaliach — a chave da parturiente, e a chave das chuvas, e a chave da ressurreição dos mortos" — quer dizer que não há nestas coisa alguma de assunto natural de modo algum, pois "a chave da parturiente" se explica como gerar as estéreis.
גַּם אִי אֶפְשָׁר לְיַחֵס אֶל הַמִּקְרֶה. נִשְׁאַר שֶׁיִּהְיֶה בְּרָצוֹן רוֹצֶה. כְּשֶׁנִּרְאֶה הַמָּטָר עַל יְדֵי שְׁלֵמִים כְּאֵלִיָּהוּ וְחוֹנִי הַמְעַגֵּל — הַשְׁגָּחָה פְּרָטִית. ״ג׳ מַפְתְּחוֹת לֹא נִמְסְרוּ בְּיַד שָׁלִיחַ: שֶׁל חַיָּה וְשֶׁל גְּשָׁמִים וְשֶׁל תְּחִיַּת הַמֵּתִים״.
11 E assim achas os profetas a mencionarem o assunto da chuva como sinal sobre a providência. Disse Jeremias "e a este povo houve um coração desviador e rebelde, que se desviaram e foram, e não disseram no seu coração 'temamos, pois, ao Senhor nosso D'us, o que dá chuva, a temporã e a serôdia, no seu tempo, as semanas dos decretos da ceifa Ele guarda para nós'" (Jeremias 5:23–24); e disse o poeta "o que cobre os céus com nuvens" etc. (Salmos 147:8) — e isto é pois o descer da chuva é impossível que se complete sem o soprar dos ventos para cobrir os céus com nuvens e para conduzi-los de lugar a lugar, ao lugar onde for ali a vontade do Senhor de conduzi-los. Disse o profeta, a repreender a Israel sobre o fato de que negavam a providência: "e também eu retive de vós a chuva, quando ainda faltavam três meses para a ceifa, e fiz chover sobre uma cidade e sobre outra cidade não fiz chover" (Amós 4:7) — quer dizer: e disto vos era cabido tomar prova sobre a que a chuva é pela vontade de um querente. E disseram os nossos sábios, de abençoada memória: "grande é o dia das chuvas mais que o dia da ressurreição dos mortos, pois a ressurreição dos mortos é para os justos apenas, e a força das chuvas é para os justos e para os ímpios" — como se quisessem nisto dizer que, assim como a ressurreição dos mortos não é um assunto natural, assim o assunto da chuva não corre na corrida das coisas naturais, mas é um assunto pendente da vontade de um querente, que indica sobre a providência que se inova de ano em ano conforme a vontade divina.
הַנְּבִיאִים מַזְכִּירִין הַמָּטָר לְאוֹת: ״הַנֹּתֵן גֶּשֶׁם יוֹרֶה וּמַלְקוֹשׁ בְּעִתּוֹ״. ״וְגַם אָנֹכִי מָנַעְתִּי מִכֶּם אֶת הַגֶּשֶׁם... וְהִמְטַרְתִּי עַל עִיר אֶחָת״. ״גָּדוֹל יוֹם הַגְּשָׁמִים מִיּוֹם תְּחִיַּת הַמֵּתִים״.
12 E, porque era possível dizer que não é isto do que indica sobre a providência individual mas apenas sobre a providência específica — como disseram "a força das chuvas é para os justos e para os ímpios" —, disse o profeta "pedi do Senhor chuva no tempo da chuva serôdia" (Zacarias 10:1), pois do descer da chuva por causa da oração há uma prova grande sobre a providência. E por isto trouxe Eliú prova do descer da chuva por causa da oração dos muitos tefilat ha-rabim, como disse "as nuvens que destilam os céus, gotejam sobre o homem em abundância" (Jó 36:28) — que isto indica que não é o seu descer pela natureza, mas pelo lado da providência na oração dos muitos. E assim há uma prova grande sobre a providência da chuva que desce na oração dos justos e dos piedosos que há em cada geração e geração, e pelo lado da providência divina, que está aderida a eles, em cada indivíduo e indivíduo conforme a sua perfeição, ou nos muitos conforme a sua perfeição. E assim disse Davi "no dia em que te chamei e me respondeste, encorajaste-me na minha alma com força" (Salmos 138:3) — quer dizer: um sinal forte sobre a providência. E assim Moisés, nosso mestre, trouxe prova sobre a providência da aceitação da oração dos muitos, e disse "pois que nação grande há que tenha D'us próximos a ela como o Senhor nosso D'us em todo o nosso chamá-lo?" (Deuteronômio 4:7).
״שַׁאֲלוּ מֵה׳ מָטָר בְּעֵת מַלְקוֹשׁ״ — מִירִידַת הַמָּטָר בַּעֲבוּר הַתְּפִלָּה רְאָיָה גְדוֹלָה. ״בְּיוֹם קְרָאתִי וַתַּעֲנֵנִי״. מֹשֶׁה: ״כִּי מִי גוֹי גָּדוֹל אֲשֶׁר לוֹ אֱלֹהִים קְרֹבִים אֵלָיו... בְּכָל קָרְאֵנוּ אֵלָיו״.
Anunciadas três espécies de prova da providência (cap. 7), Albo começa pelas gerais — as que se tiram da ordem do cosmo como um todo. A lógica é indireta mas potente: o negador da providência supõe que o mundo "se conduz pela natureza", sem vontade que force as coisas a sair do seu curso. Ora — argumenta Albo — se isso fosse verdade, certos fatos do mundo seriam impossíveis. Logo, há uma Vontade. E uma Vontade que ordena o cosmo é uma Vontade que pode prover.
A primeira prova é engenhosa e tipicamente medieval. Pela física aristotélica dos quatro elementos, cada um busca seu "lugar natural": a água é mais leve que a terra e mais pesada que o ar, de modo que deveria formar uma esfera contínua cobrindo toda a terra. Que existam continentes secos — terra emersa onde vivem plantas, animais e o homem — é, portanto, um estado antinatural, mantido contra a tendência dos elementos. E aqui Albo usa um princípio: o que está na natureza de algo realiza-se necessariamente em algum tempo. Se o mundo fosse eterno e puramente natural, em algum momento da eternidade infinita a água teria de cobrir a terra — e então nenhum ser vivo existiria. Que isso "nunca tenha acontecido" prova que uma Vontade mantém perpetuamente a água fora do seu lugar, "para que existam as plantas e os animais por causa do homem". Albo lê toda a grande resposta de D'us a Jó (Jó 38) sob esta chave — "onde estavas ao eu fundar a terra?", "cerquei com portas o mar", "até aqui virás e não acrescentarás" — como o argumento da terra seca posto na boca do próprio Criador. O Midrash do "ministro do mar" (Bereshit Rabá 5) confirma: a natureza da água queria encher tudo, e só a vontade divina a conteve — por isso "no futuro Ele as fará retornar".
O passo decisivo é o Salmo 33. Albo lê "Ele ama justiça e juízo" como "o curso necessário e natural das coisas", mas "da bondade do Senhor está cheia a terra" como o testemunho de que o mundo existe por graça e vontade, não por necessidade — provado pela terra seca ("ajunta como num montão as águas"). E o salmo prossegue de propósito para a providência: "dos céus olhou o Senhor... o que entende todos os seus atos... não está o rei salvo pela multidão do exército". A lógica é: já que o cosmo foi disposto para o homem por uma Vontade, a supervisão do homem é individual (ishit) — diferente da providência meramente específica (minit) que basta aos animais (cuidar da espécie, não do indivíduo). Esta distinção entre providência específica e individual é o eixo de todo o Maamar IV.
A segunda prova é mais sutil, e Albo é honesto sobre isso: a chuva, por si, prova só a providência específica (Elifaz e Eliú a citam, e os Sábios dizem "a força das chuvas é para justos e ímpios"). O argumento central é a irregularidade: ao contrário dos verdadeiros processos naturais (que se repetem identicamente em ciclos fixos), a chuva vem "em tempos diferentes e por faces diversas, pelo caminho da maravilha" — depois de longa secura, o ar não tinha por que voltar a se umedecer. Nem natureza (irregular demais) nem acaso (descontínuo demais para sustentar a vida) a explicam: resta a Vontade. D'us a Jó: "há para a chuva um pai?" (Jó 38:28) — isto é, não há "lei natural" que a gere. E a "elevação" da prova à providência individual vem por dois sinais: (1) a chuva trazida por tzadikim singulares — Elias, Choni HaMe'aguel — e o dito de que a "chave das chuvas não foi entregue a mensageiro" (Taanit 2a), a par da parturiente e da ressurreição, todos fora do natural; e sobretudo (2) a chuva pela oração: "pedi do Senhor chuva" (Zacarias 10:1), "no dia em que te chamei, me respondeste" (Sl 138:3), "que nação tem D'us tão próximo... em todo o nosso chamá-lo?" (Dt 4:7). A oração atendida é a prova mais límpida de que D'us escuta o indivíduo — a transição perfeita para as provas dos assuntos particulares no próximo capítulo.
A segunda espécie de prova: a tirada dos assuntos particulares e individuais do gênero humano — e são três. A frustração dos planos dos malfeitores (os irmãos de José, Saul e Davi, a ovelha entre setenta lobos); o castigo medida por medida que alcança os ímpios pelos próprios caminhos do seu pecado; e a revelação que vem ao homem em sonho da noite para afastá-lo do mal. Todas indicam um Supervisor que julga com justiça e guarda os simples.
A segunda espécie de prova: a tirada dos assuntos particulares e individuais do gênero humano — e são três. A frustração dos planos dos malfeitores (os irmãos de José, Saul e Davi, a ovelha entre setenta lobos); o castigo medida por medida que alcança os ímpios pelos próprios caminhos do seu pecado; e a revelação que vem ao homem em sonho da noite para afastá-lo do mal. Todas indicam um Supervisor que julga com justiça e guarda os simples.
1 E, contudo, as provas tomadas dos assuntos parciais e particulares que se acham no gênero humano são três.
וְאוּלָם הָרְאָיוֹת הַלְּקוּחוֹת מֵהָעִנְיָנִים הַחֶלְקִיִּים וְהַפְּרָטִיִּים הַנִּמְצָאִים בְּמִין הָאָדָם הֵן ג׳.
2 A primeira é a providência que se acha nos assuntos parciais, daquilo que se vê — quantos sábios e astutos se esforçam com causas e sinais por fazer sair o seu pensamento ao ato, para fazer chegar o mal a algum homem, e não se completa o seu pensamento de modo que chegue ao ato; ao contrário, aquelas mesmas causas pelas quais pensam que chegará por elas a outro o mal, às vezes são causas para a chegada do bem — como aconteceu aos irmãos de José, que as causas mesmas pelas quais pensaram em fazer chegar por elas o mal a José, elas mesmas foram causas para a sua prosperidade; e assim Saul, pois as causas mesmas pelas quais pensou em fazer cair por elas a Davi, elas mesmas foram causas para a sua prosperidade — disse a Escritura "e Saul disse 'não esteja a minha mão nele mas esteja nele a mão dos filisteus'" etc. (I Samuel 18:17), e isto foi causa para que se divulgasse a sua existência a todo Israel, de que era um herói e um homem de guerra e um próspero nas suas guerras. E isto e o semelhante a ele é um sinal grande que indica sobre a providência — e especialmente pelo fato de que ela se acha nos fracos e em quem não tem um ajudador; e disse o poeta "o que faz juízo aos oprimidos" (Salmos 146:7).
חֲכָמִים מִשְׁתַּדְּלִים לְהַגִּיעַ הָרַע — וְלֹא תִשְׁלַם מַחֲשַׁבְתָּם, אַדְּרַבָּה הַסִּבּוֹת בְּעַצְמָן סִבּוֹת הַטּוֹב. אֲחֵי יוֹסֵף; שָׁאוּל וְדָוִד: ״אַל תְּהִי יָדִי בּוֹ וּתְהִי בוֹ יַד פְּלִשְׁתִּים״. וּבְיִחוּד בַּחַלָּשִׁים: ״עֹשֶׂה מִשְׁפָּט לַעֲשׁוּקִים״.
3 E disseram os nossos mestres, de abençoada memória: perguntou um herege min a Rabi Yehoshua ben Chananiá: "grande é a ovelha que se mantém entre setenta lobos!"; e disse-lhe: "grande é o pastor que a salva". Eis que o herege se espantava de como é possível que, com ser que a intenção de todas as nações é fazer mal a Israel — como os lobos que estão sobre a ovelha —, como não se completa a sua intenção; e ele respondeu que isto é pelo lado do pastor que a salva, e ele é a providência divina, que está aderida a eles. E este assunto é do que indica que o mal que chega aos homens chega pelo lado da providência — depois de que nós vemos quantos ímpios se esforçam na chegada do mal a quantos simples peta'im e não lhes sobe na mão; e esta é uma prova de que os simples são guardados pelo lado da providência, e não pelo lado da sua sabedoria, como a fala de Davi "o guardador dos simples é o Senhor" (Salmos 116:6). E esta prova mencionou-a Elifaz: disse "o que anula os pensamentos dos astutos, e não realizam as suas mãos coisa de proveito; o que apanha os sábios na sua astúcia, e o conselho dos tortuosos se precipita; de dia encontram trevas, e como na noite apalpam ao meio-dia; e salva da espada da sua boca, e da mão do forte ao pobre, e assim houve para o pobre uma esperança" (Jó 5:12–16); e confirmou-a o Senhor, bendito seja, na sua resposta primeira: disse "e retém dos ímpios a sua luz" etc. (Jó 38:15) — quer dizer que retém dos ímpios a que chegue o seu pensamento ao ato, que é isto o que chamou "a sua luz"; e era cabido, se fosse o Senhor, bendito seja, não-supervisor, que chegasse o pensamento dos ímpios ao ato, depois de que eles fazem as causas adequadas para que chegue o seu pensamento ao ato — e como se vê nos ofícios pensados artes deliberadas, que de fato chegam ao ato pelo lado de serem feitos com as causas adequadas; e, depois de que se vê que não chega o pensamento dos ímpios ao ato, há disto uma prova que indica sobre a providência.
״גְּדוֹלָה כִּבְשָׂה הָעוֹמֶדֶת בֵּין ע׳ זְאֵבִים — גָּדוֹל הָרוֹעֶה שֶׁמַּצִּילָהּ״. ״שֹׁמֵר פְּתָאִים ה׳״. אֱלִיפַז: ״מֵפֵר מַחְשְׁבוֹת עֲרוּמִים... לֹכֵד חֲכָמִים בְּעָרְמָם״. ״וִימַנַּע מֵרְשָׁעִים אוֹרָם״ — שֶׁלֹּא תַגִּיעַ מַחֲשַׁבְתָּם לַפֹּעַל.
4 E a prova segunda é tomada pelo lado dos castigos parciais que chegam aos ímpios na medida em frente da medida midá ke-neguéd midá — que disto se toma prova de que há um supervisor que julga com justiça. E isto é: que, quando se vê aquele que danifica o seu companheiro no dinheiro a ser ele danificado no seu dinheiro, e aquele que o danifica no seu corpo — como se dissesses, que lhe cortou a mão ou lhe cegou o olho — a ser cortada a sua mão e a escurecer-se o seu olho, e aquele que mata o seu companheiro a ser morto; e assim em todos os castigos a ser que chega a medida em frente da medida — como os egípcios, que julgaram a Israel com as águas, "todo filho nascido no rio o lançareis" (Êxodo 1:22), e aos quais se julgou com as águas, que se afogaram no mar; e assim, quando lamberam os cães o sangue de Navot, se disse "lamberão os cães o teu sangue, também a ti" (I Reis 21:19), como se disse a Acab; e assim Davi, que deitou com Bat-Sheva, lhe foi dito "e deitará com as tuas mulheres" (II Samuel 12:11); e assim disse o tana "sobre o fato de que afogaste, afogaram-te" etc. (Avot 2:6). E esta é uma prova de que o Senhor, bendito seja, julga o homem conforme os seus atos na medida em frente da medida. E disse Jeremias "grande no conselho e abundante na ação" etc. (Jeremias 32:19) — chamou ao Senhor, bendito seja, "grande no conselho" por ser ele o que arranja as causas e traz conselhos de longe para castigar o pecador conforme a medida do pecado com que pecou, e pelos caminhos aqueles pelos quais pecou neles, e isto é "conforme os seus caminhos". Também disse "conforme os seus caminhos" para aludir sobre o que anda por um caminho não bom e faz todo o seu esforço para fazer mal ao seu companheiro: que, ainda que não tenham feito os seus atos um fruto e não tenha chegado ao seu companheiro um dano — depois de que não se reteve a chegada do mal pelo lado dele, mas pelo lado da providência divina que guarda os simples, que salvou o seu companheiro daquele mal — eis que o Senhor, bendito seja, o castiga sobre o fato de que andou por um caminho não bom, ainda que não se completasse o seu pensamento de fazer mal ao seu companheiro; e disse "conforme o fruto dos seus feitos" (Jeremias 32:19) para aludir a que o Senhor, bendito seja, castiga o homem conforme o fruto que saiu dos seus atos da chegada do mal ao seu companheiro — e mesmo se chegou da parte dele sem esforço grande, mas por uma fala leve, "como o insensato que arroja faíscas, flechas e morte" (Provérbios 26:18) — eis que o Senhor, bendito seja, o castiga sobre o fruto mau que chegou da parte dele ao seu companheiro, seja com esforço grande, seja sem esforço grande. E disto se toma uma prova grande sobre a que o Senhor, bendito seja, supervisiona e faz juízo nos ímpios, depois de que os julga conforme os seus caminhos.
הָעֳנָשִׁים מִדָּה כְּנֶגֶד מִדָּה: מִצְרַיִם בַּמַּיִם; ״יָלֹקּוּ הַכְּלָבִים אֶת דָּמְךָ״ לְאַחְאָב; ״וְשָׁכַב עִם נָשֶׁיךָ״ לְדָוִד. ״עַל דְּאַטֵּפְתְּ אַטְּפוּךְ״. ״גְּדֹל הָעֵצָה וְרַב הָעֲלִילִיָּה... כִּדְרָכָיו כִּפְרִי מַעֲלָלָיו״.
5 E isto é o que disse o poeta "se fez conhecido o Senhor, um juízo fez" etc. (Salmos 9:17) — quer dizer que se fez conhecido que o Senhor, bendito seja, faz juízo quando o ímpio se enreda na ação má que fez e na qual danificou a outros, como disse "na rede esta que esconderam se prendeu o seu próprio pé" (Salmos 9:16). E se esclareceu isto em muitos lugares no livro dos Salmos: disse "uma espada abriram os ímpios" (Salmos 37:14), "mas a sua espada virá no seu próprio coração" (Salmos 37:15). E já exageraram os nossos mestres, de abençoada memória, nisto, até o ponto de que disseram no Midrash a Eclesiastes sobre "e D'us busca o perseguido nirdaf" (Eclesiastes 3:15) — que, mesmo se um justo persegue o ímpio, "busca o perseguido" de todo modo. E assim se acha o profeta a testemunhar sobre isto: disse "sobre três rebeldias de Moab, e sobre quatro, não o farei voltar — sobre o fato de que queimou os ossos do rei de Edom em cal" (Amós 2:1), e não disse isto pela piedade do rei de Edom, mas por ser ele um perseguido apenas. E assim se acha isto muito nos livros dos profetas, que vaticinam o castigo aos ímpios na medida em frente da medida: disse Isaías "e dissestes 'não, mas sobre cavalos fugiremos' — por isso fugireis — 'e sobre montaria veloz cavalgaremos' — por isso serão velozes os vossos perseguidores" (Isaías 30:16); e disse Joel "e sobre o meu povo lançaram sorte, e deram o menino em troca de uma meretriz, e a menina venderam por vinho" etc. (Joel 4:3), "eis que eu os despertarei do lugar" etc. (Joel 4:7), "e venderei os vossos filhos e as vossas filhas na mão dos filhos de Judá, e os venderão aos sabeus" (Joel 4:8). E assim disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "na medida com que o homem mede, com ela se lhe mede". E esta é uma prova grande sobre a providência, que rasga o coração dos pequenos de fé ketanei amaná.
״נוֹדַע ה׳ מִשְׁפָּט עָשָׂה... בְּרֶשֶׁת זוּ טָמָנוּ נִלְכְּדָה רַגְלָם״. ״וְהָאֱלֹהִים יְבַקֵּשׁ אֶת נִרְדָּף״. ״בַּמִּדָּה שֶׁאָדָם מוֹדֵד בָּהּ מוֹדְדִין לוֹ״ — רְאָיָה גְדוֹלָה הַקּוֹרַעַת לֵב קְטַנֵּי אֲמָנָה.
6 A prova terceira é o que se acha nas palavras de Eliú da notícia hoda'á que vem ao homem em um sonho, na visão da noite, nas coisas parciais: disse "em um sonho, na visão da noite" etc. (Jó 33:15), "então revela o ouvido dos homens" etc. (Jó 33:16); e explicou o motivo por que, e disse "para afastar o homem da obra, e a soberba do varão Ele cobre" (Jó 33:17) — quer dizer: para afastar o homem da ação má na qual se enredou, de modo que se cubram dele os assuntos corpóreos e as medidas vis e se separe deles; e esclareceu o proveito que decorre disto — que é neste mundo e no mundo vindouro —, e disse "Ele poupa a sua alma da cova" (Jó 33:18) — no mundo vindouro —, "e a sua vida de passar pela arma" — neste mundo —; ou é possível que ambos estejam neste mundo, e "poupa a sua alma da cova" alude à morte natural, e "a sua vida de passar pela arma" sobre a morte acidental. E esta notícia que vem sobre o homem nas visões da noite é uma prova grande sobre a providência individual no gênero humano — pois eis que esta não é uma providência específica, depois de que ela vem nas coisas parciais individuais, e se vê que todas as espécies se mantêm sem ela; e, se fosse uma providência específica, era cabido que se achasse também em outro que não o gênero humano, e que não se achasse nas coisas particulares.
הָרְאָיָה הַשְּׁלִישִׁית — מִדִּבְרֵי אֱלִיהוּא: ״בַּחֲלוֹם חֶזְיוֹן לַיְלָה... אָז יִגְלֶה אֹזֶן אֲנָשִׁים... לְהָסִיר אָדָם מַעֲשֶׂה וְגֵוָה מִגֶּבֶר יְכַסֶּה. יַחְשֹׂךְ נַפְשׁוֹ מִנִּי שַׁחַת וְחַיָּתוֹ מֵעֲבֹר בַּשָּׁלַח״. רְאָיָה עַל הַשְׁגָּחָה אִישִׁית, שֶׁאֵינָהּ מִינִית.
O capítulo anterior provou a providência a partir da ordem geral do cosmo — mas reconheceu que tais provas, por si, estabelecem sobretudo a providência específica (o cuidado com a espécie). Agora Albo avança às provas que vão direto ao alvo: a providência individual (ishit) sobre cada pessoa. São três, e cada uma se foca num indivíduo concreto, não numa lei universal.
Há um padrão observável na história: malfeitores espertos montam todas as "causas adequadas" para destruir alguém — e fracassam; pior, os próprios meios da maldade tornam-se instrumentos do bem da vítima. Os irmãos venderam José para anular o seu domínio e com isso o realizaram (tema já visto no cap. 5). Saul lançou Davi contra os filisteus esperando sua morte — e isso fez a fama de Davi como herói. O argumento é metodológico: nas artes técnicas, montar corretamente as causas produz o efeito; se nos planos dos ímpios isso sistematicamente falha, há uma Vontade interferindo. E o sinal é mais nítido justamente nos fracos e indefesos — "o guardador dos simples é o Senhor" (Sl 116:6); a parábola do min e Rabi Yehoshua ben Chananiá (Pesachim 118b) cristaliza: a ovelha (Israel) entre setenta lobos só sobrevive porque "grande é o Pastor que a salva". Albo ancora tudo em Elifaz (Jó 5:12–16, "anula os pensamentos dos astutos") e na confirmação divina (Jó 38:15, "retém dos ímpios a sua luz" — impede que o plano deles chegue ao ato).
O castigo midá ke-neguéd midá é prova de um Juiz que julga "conforme os caminhos" do réu — não um acaso cego, mas uma justiça desenhada. Quem dana no dinheiro perde dinheiro; quem mata é morto; os egípcios afogaram crianças e afogaram-se no mar; o sangue de Navot lambido pelos cães retorna a Acab; o adultério de Davi volta como "deitará com as tuas mulheres"; Hilel: "porque afogaste, afogaram-te" (Avot 2:6). A precisão da correspondência — o castigo espelhando o crime na sua própria forma — é o que exclui o acaso: Jeremias chama D'us "grande no conselho" (Jr 32:19) precisamente por "arranjar causas de longe" para que a pena reflita o pecado. Albo extrai ainda dois refinamentos de "conforme os seus caminhos / conforme o fruto dos seus feitos": (1) pune-se mesmo o plano frustrado — quem tentou o mal e só não o causou porque a providência salvou a vítima é punido por ter "andado em mau caminho"; (2) pune-se o dano causado mesmo sem esforço, por uma "fala leve" ("como o insensato que arroja faíscas", Pv 26:18) — a responsabilidade segue o fruto, não só a intenção.
O versículo-âncora é "fez-se conhecido o Senhor, um juízo fez: na rede que esconderam prendeu-se o seu próprio pé" (Sl 9:17) — a auto-ruína do ímpio é a assinatura visível da providência. E Albo eleva o princípio à sua forma mais radical com o Midrash (Kohelet Rabá a Ecl 3:15): "D'us busca o perseguido" — mesmo quando um justo persegue um ímpio, D'us está do lado do perseguido. A condenação de Moab por "queimar os ossos do rei de Edom" (Amós 2:1) não se deve a mérito de Edom, mas só à sua condição de perseguido. É a defesa providencial da vítima como tal — uma prova que, nas palavras de Albo, "rasga o coração dos pequenos de fé".
A prova mais íntima, tirada de Eliú (Jó 33:15–18): D'us "revela o ouvido dos homens" em sonho noturno "para afastar o homem da má obra" — um aviso moral dirigido a este indivíduo, para o salvar "da cova" (o mundo vindouro) e da "arma" (a morte neste mundo). O argumento lógico é decisivo e fecha o capítulo: tal revelação não pode ser providência específica, pois (a) atinge coisas particulares e individuais, (b) as demais espécies subsistem perfeitamente sem ela, e (c) se fosse cuidado da espécie, apareceria também noutras espécies e não em casos individuais. Logo é, necessariamente, providência individual sobre o homem. Estabelecida assim a existência da providência (cap. 8–9), o Maamar pode enfim enfrentar a pergunta que a motivou — por que sofrem os justos e prosperam os ímpios.
A terceira espécie de prova: a tirada do intelecto — e são duas. Pelo lado do recebedor: a faculdade intelectual do homem não pode existir só para a conservação da espécie, pois ela o eleva acima dos animais e atrai a providência conforme a sua perfeição (Maimônides; Salmos 8). E pelo lado do Doador: a sabedoria e o poder absoluto de D'us, e o ser o homem obra de Suas mãos — donde a refutação do "argumento do desprezo" de Jó, feita por Eliú e confirmada na resposta divina.
A terceira espécie de prova: a tirada do intelecto — e são duas. Pelo lado do recebedor: a faculdade intelectual do homem não pode existir só para a conservação da espécie, pois ela o eleva acima dos animais e atrai a providência conforme a sua perfeição (Maimônides; Salmos 8). E pelo lado do Doador: a sabedoria e o poder absoluto de D'us, e o ser o homem obra de Suas mãos — donde a refutação do "argumento do desprezo" de Jó, feita por Eliú e confirmada na resposta divina.
1 E, contudo, as provas tomadas pelo lado do intelecto sechel são duas: a uma pelo lado do recebedor ha-mekabel, e a segunda pelo lado do doador ha-notén.
וְאוּלָם הָרְאָיוֹת הַלְּקוּחוֹת מִצַּד הַשֵּׂכֶל הֵם שְׁנַיִם, הָאַחַת מִצַּד הַמְּקַבֵּל וְהַשֵּׁנִית מִצַּד הַנּוֹתֵן.
2 A primeira, que é pelo lado do recebedor, é assim: a faculdade intelectual que há no homem — é impossível que seja a sua existência para o fim da conservação da espécie apenas, depois de que se veem as demais espécies a subsistirem sem ela; e, depois de que se vê para o homem esta vantagem sobre os viventes, não é cabível que digamos que seja ele enviado abandonado e largado e não-supervisionado nos particulares dos seus atos como eles, depois de ter ele sobre eles a vantagem do conhecimento.
הַכֹּחַ הַשִּׂכְלִי שֶׁבָּאָדָם אִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּהְיֶה מְצִיאוּתוֹ לְתַכְלִית קִיּוּם הַמִּין בִּלְבַד, אַחַר שֶׁשְּׁאָר הַמִּינִים מִתְקַיְּמִים זוּלָתוֹ. וְאַחַר שֶׁיֵּשׁ לָאָדָם יִתְרוֹן דַּעַת עֲלֵיהֶם, לֹא יִתָּכֵן שֶׁיִּהְיֶה מְשֻׁלָּח וְנֶעֱזָב וּבִלְתִּי מֻשְׁגָּח בְּפִרְטֵי מַעֲשָׂיו כְּהֵם.
3 E a esta alegação aludiu o Senhor a Jó na sua resposta primeira: pois, quando contava as bondades chasadim que fez com cada espécie e espécie das espécies dos viventes — ao supervisionar nele com uma providência singularizada de outro que não ele dentre as espécies, para guardá-lo ou para dar-lhe uma perfeição singularizada de outro que não ele, como disse "quem prepara para o corvo a sua caça?" etc. (Jó 38:41), "quem soltou o asno selvagem livre?" (Jó 39:5), "acaso conheces o tempo do parir das cabras montesas? acaso guardas o gestar das corças?" (Jó 39:1), "acaso dás ao cavalo a valentia?" etc. (Jó 39:19), e outro que não isto — contou então a bondade que fez com o gênero humano, quando lhe deu na sua natureza uma perfeição singularizada, que é a faculdade de alcançar os inteligíveis muskalot; e isto é o que disse "quem deu ao galo sechvi entendimento?" (Jó 38:36), pois "sechvi" se diz sobre a faculdade intelectual que há no homem, como escrevi no Maamar primeiro; e disse no princípio "quem pôs nos rins tuchot sabedoria?" (Jó 38:36), para aludir sobre os inteligíveis primeiros que foram dados no homem nas raízes da sua formação, que eles são as causas essenciais para a obtenção do investigado, para que não se encadeie ao não-finito — que o "bet" de "batuchot" é letra-raiz, como escrevemos no Maamar primeiro. E disse isto para esclarecer-lhe que esta bondade dada no homem sem dúvida foi para a obtenção de algum fim mais honrado do que nos demais viventes; e esta vantagem que se acha nele indica que ele é estimado aos olhos do Senhor mais do que cada um deles; e, depois de que é assim, é cabido que se adira nele a providência divina conforme a medida da vantagem do seu intelecto, mais do que neles. E assim escreveu o Rambam, de abençoada memória, de que a medida da providência será conforme a perfeição da faculdade intelectual que há no homem; e, sendo assim, aquele que aperfeiçoou a sua alma conforme a faculdade dada nele, mais é cabido que se adira nele a providência divina; e aquele que não aperfeiçoa a sua alma e perde a faculdade intelectual que foi dada nele — eis que ele volta à categoria dos viventes, e é cabido que se afaste de sobre ele a providência divina. E daqui há uma prova forte sobre a que a providência divina está aderida ao dono de intelecto conforme a sua perfeição, assim como se aderiu no princípio da formação da espécie humana uma providência acrescida yeterá nele sobre outro que não ele dentre as espécies, para dar-lhe aquela preparação.
״מִי יָכִין לָעֹרֵב צֵידוֹ... מִי שִׁלַּח פֶּרֶא חָפְשִׁי... הֲתִתֵּן לַסּוּס גְּבוּרָה״ — וְאַחַר כָּךְ ״מִי נָתַן לַשֶּׂכְוִי בִינָה... מִי שָׁת בַּטֻּחוֹת חָכְמָה״, רֶמֶז לַמּוּשְׂכָּלוֹת הָרִאשׁוֹנוֹת. וְכָתַב הָרַמְבַּ״ם: שִׁעוּר הַהַשְׁגָּחָה כְּפִי שְׁלֵמוּת הַכֹּחַ הַשִּׂכְלִי. הַמַּשְׁלִים נַפְשׁוֹ — תִּדְבַּק בּוֹ; וְהַמְאַבֵּד — שָׁב בְּמַדְרֵגַת הַבַּעֲלֵי חַיִּים.
4 E assim achamos a Davi, o rei, sobre ele a paz, a trazer prova sobre o ser a providência divina aderida ao mundo inferior a partir da faculdade intelectual que há no homem, no salmo "Senhor, nosso Senhor, quão poderoso é o teu nome em toda a terra" (Salmos 8:2); e a palavra "mah" quão neste lugar está no lugar de diminuir, como "e nós que somos?" etc. (Êxodo 16:7). E disse, como que a espantar-se: que elevação e poderio pode haver para o teu nome em toda a terra, depois de que deste o teu esplendor sobre os céus, que são fortes "como um espelho fundido" (Jó 37:18) e permanentes e luzentes sem dúvida? não vejo que haja nas formações da terra quem seja cabido que conheça na sua formação a tua elevação e o poderio do teu nome. Mas, quando eu olho nisto bem, eu acho que "da boca dos pequeninos e dos lactentes fundaste força" etc. (Salmos 8:3) — quer dizer: as premissas fortes que estão no homem por via de natureza e não lhe vieram pelo lado do estudo e do hábito, e elas são os inteligíveis primeiros que estão "na boca dos pequeninos e dos lactentes", ou as coisas sensíveis — que todas estas são "fundamentos de força" para o conhecimento e para confirmar a providência, "por causa dos teus adversários" (Salmos 8:3), e eles são os que dizem "abandonou o Senhor a terra" (Ezequiel 8:12), "e para fazer cessar o inimigo e o vingativo" (Salmos 8:3) — o que responde ao pobre e ao mísero com soberba e faz conforme a sua vontade ao ser ele um negador da providência.
״ה׳ אֲדֹנֵינוּ מָה אַדִּיר שִׁמְךָ... אֲשֶׁר תְּנָה הוֹדְךָ עַל הַשָּׁמַיִם״. ״מִפִּי עוֹלְלִים וְיֹנְקִים יִסַּדְתָּ עֹז״ — הַמּוּשְׂכָּלוֹת הָרִאשׁוֹנוֹת, יְסוֹדוֹת עֹז לֶאֱמֵת הַהַשְׁגָּחָה ״לְמַעַן צוֹרְרֶיךָ״ הָאוֹמְרִים ״עָזַב ה׳ אֶת הָאָרֶץ״.
5 E voltou depois disto a esclarecer com longura este assunto que mencionou com brevidade, e disse "quando vejo os teus céus" etc. (Salmos 8:4), "que é o homem?" etc. (Salmos 8:5) — quer dizer: quando vejo os céus e a sua elevação, e a lua e as estrelas e a sua disposição que dispuseste, eu digo no meu coração "que é o homem?" etc., pois o homem é um sopro em comparação à sua elevação, e não é cabido que se adira a providência divina no filho do homem, que é uma formação inferior, de uma matéria turva e uma gota pútrida, para visitá-lo. E depois disto voltou a refutar esta opinião, e disse "e o fizeste pouco menor de D'us Elohim" (Salmos 8:6) — quer dizer: mas, quando olho na formação do homem e vejo eu a perfeição que há na sua formação, de que há nele uma faculdade intelectual que é próxima aos anjos do serviço, de que ele não é menor do que eles senão em pouco — pois eles são intelecto em ato e o homem é intelecto em potência — e isto é "e o fizeste pouco menor de D'us" etc., "e com honra e glória hadar o coroaste" (Salmos 8:6); e com coroa de glória divina o coroou, até o ponto de que por meio desta faculdade que há nele "o fazes dominar nas obras das tuas mãos" etc. (Salmos 8:7) — que sem ela não lhe seria possível, nem lhe seria cabido subjugar todos os viventes que são fortes e poderosos do que ele, de modo que estejam todos sob os seus pés, e também não lhe seria possível "pôr no mar um caminho e nas águas impetuosas uma vereda" (cf. Isaías 43:16). E tudo isto é do que indica que a faculdade divina está misturada nele por meio do seu intelecto, e de que há nele algo do conhecimento do seu Criador. E, depois de que é assim, eu digo: que das formações da terra há como tomar prova sobre o poderio do teu nome e a tua elevação, de que derramaste uma faculdade intelectual sobre uma matéria turva como esta. E disto se reconhece a elevação da tua perfeição — que a elevação do agente se reconhece no seu dar perfeição a uma matéria desprezível e distante da perfeição, como expliquei no capítulo primeiro do Maamar segundo. E isto é o que concluiu "Senhor, nosso Senhor" etc. (Salmos 8:10) — e a palavra "mah" neste lugar está para o engrandecer da coisa, como "quão muitas são as tuas obras, Senhor" (Salmos 104:24), "quão grandes são as tuas obras, Senhor" etc. (Salmos 92:6); e quer dizer: ainda que os céus sejam de uma matéria mais honrada do que as formações inferiores, eis que da faculdade intelectual que se acha no homem — que é "pouco menor de D'us" — podemos tomar prova sobre o ser poderoso o teu nome em toda a terra e o estar a tua providência aderida ao gênero humano no mundo inferior.
״כִּי אֶרְאֶה שָׁמֶיךָ... מָה אֱנוֹשׁ כִּי תִזְכְּרֶנּוּ״ — הָאָדָם הֶבֶל בְּעֵרֶךְ. ״וַתְּחַסְּרֵהוּ מְעַט מֵאֱלֹהִים״ — שֵׂכֶל קָרוֹב לַמַּלְאָכִים (הֵם בְּפֹעַל, הָאָדָם בְּכֹחַ). ״תַּמְשִׁילֵהוּ בְּמַעֲשֵׂי יָדֶיךָ״. מֵהַכֹּחַ הַשִּׂכְלִי נִקַּח רְאָיָה עַל הַשְׁגָּחָתְךָ בְּמִין הָאָדָם.
6 E a prova segunda, que é pelo lado do doador, eis que ela é por dois modos: o um, pelo lado da sabedoria de D'us e do seu poder; e o segundo, pelo lado de ser o homem obra das suas mãos maasé yadav.
וְהָרְאָיָה הַשֵּׁנִית שֶׁהִיא מִצַּד הַנּוֹתֵן הִיא עַל ב׳ פָּנִים: הָאֶחָד מִצַּד חָכְמַת הָאֵל וִיכָלְתּוֹ, וְהַשֵּׁנִי מִצַּד הֱיוֹת הָאָדָם מַעֲשֵׂה יָדָיו.
7 O modo primeiro, que é pelo lado da sabedoria de D'us e do seu poder, é por este caminho: é um inteligível primeiro que é cabido que se atribuam ao Senhor, bendito seja, todas as espécies das perfeições e que se afastem dele todas as espécies das faltas; e, a partir daquilo que se vê que é uma perfeição para o homem que supervisione na obra das suas mãos de modo que cheguem ao fim da sua perfeição, e que é perfeição também para o senhor que supervisione nos conduzidos por ele para conduzi-los com retidão e com juízo — e, se não fizerem assim, será isto uma falta no direito do homem e no direito do senhor —; e esta falta chega ao homem ou pelo lado de ser ele não-conhecedor, ou de ser não-poderoso e não-suficiente para fazer assim, ou chega ao senhor que é suficiente para fazer assim ou pelo lado de ser ele um ímpio e um injusto ou pelo lado do desprezo mi'us. E, depois de que ele, que seja exaltado, é "sábio de coração e firme de força" (Jó 9:4), como disse o próprio Jó, eis que ele é dono do poder completo, e é impossível, sendo assim, que seja não-supervisor por ser ele cansado e não-suficiente para completar o direito dos conduzidos por ele; e assim, depois de que ele é sábio de coração, é impossível que se reduza aqui por falta de conhecimento; e também é impossível que não supervisione nos conduzidos por ele pelo lado da maldade ou da injustiça — como Jó alegava e dizia que o D'us, bendito seja, por ser único e por não haver quem proteste na sua mão, faz conforme a sua vontade injustiça aos conduzidos por ele, como disse "e ele está no um, e quem o fará voltar?" etc. (Jó 23:13), e disse ainda "não há entre nós um árbitro que ponha a sua mão sobre nós ambos" (Jó 9:33) — que Eliú respondeu sobre isto quando disse "longe de D'us El a maldade, e do Todo-Poderoso Shadai a injustiça" etc. (Jó 34:10): disse "longe de D'us El" para aludir sobre o ser ele dono do poder completo, pois "El" indica sobre o poder; e, depois de que tem ele poder completo, não fará injustiça e maldade ao ponto de não castigar os fazedores de maldade; também é impossível que não supervisione na obra das suas mãos para retribuir ao justo com o bem pelo lado de que não lhe baste dar as suas necessidades, pois ele é "Shadai" Todo-Poderoso — que há suficiência dai na sua existência para derramar sobre toda coisa o fim da sua perfeição; e, depois de que ele é suficiente para dar a cada um o seu direito, se não fizer assim seria isto injustiça, e isto é o seu dizer "e do Todo-Poderoso a injustiça".
מוּשְׂכָּל רִאשׁוֹן: שֶׁיְּיֻחֲסוּ אֵלָיו כָּל הַשְּׁלֵמֻיּוֹת וִיסֻלְּקוּ הַחֶסְרוֹנוֹת. הוּא ״חֲכַם לֵבָב וְאַמִּיץ כֹּחַ״ — בַּעַל הַיְכֹלֶת. אֱלִיהוּא: ״חָלִילָה לָאֵל מֵרֶשַׁע וְשַׁדַּי מֵעָוֶל״ — ״אֵל״ עַל הַיְכֹלֶת, ״שַׁדַּי״ שֶׁיֵּשׁ דַּי לְהַשְׁפִּיעַ תַּכְלִית שְׁלֵמוּת.
8 E juntou a isto "pois a obra do homem Ele lhe paga" (Jó 34:11), para aludir sobre a retribuição boa; "e conforme o caminho do varão lha faz achar yamtzi'enu", para aludir sobre o castigo que chega ao ímpio. E voltou ainda a fortalecer as suas palavras com a alegação do poder, e disse "também, em verdade, D'us El não age com maldade, e o Todo-Poderoso Shadai não torce o juízo" (Jó 34:12) — quer dizer que, depois de que era o D'us, bendito seja, dono do poder completo, o que está aludido na palavra "El", e ele é suficiente para dar a todo existente a perfeição que lhe é possível, e ele está aludido na palavra "Shadai" — e isto é impossível se não ao ser ele supervisor nos particulares da obra dos filhos do homem, para que pague a cada um conforme a sua obra e lho faça achar conforme os seus caminhos; e, se não fizer assim — de pagar ao ímpio conforme a sua maldade — seria isto maldade, e D'us não age com maldade; e, se não lhe fizer achar ao justo o bem conforme os seus caminhos, seria isto um torcer de juízo, e o Todo-Poderoso não torce o juízo — é cabido, sendo assim, que digamos que ele, bendito seja, supervisiona na obra dos filhos do homem para dar a cada homem conforme os seus caminhos.
״כִּי פֹעַל אָדָם יְשַׁלֶּם לוֹ וּכְאֹרַח אִישׁ יַמְצִאֶנּוּ״. ״אַף אָמְנָם אֵל לֹא יַרְשִׁיעַ וְשַׁדַּי לֹא יְעַוֵּת מִשְׁפָּט״ — וְזֶה אֶפְשָׁר רַק בִּהְיוֹתוֹ מַשְׁגִּיחַ לָתֵת לְאִישׁ כִּדְרָכָיו.
9 E trouxe prova sobre o ser ele dono do poder completo, e disse "quem o encarregou pakad da terra?" (Jó 34:13) — quer dizer: quem é um encarregado sobre ele que lhe ordenou a fazer a terra, de modo que seja mais poderoso do que ele? "e quem pôs o mundo todo?", de modo que seja mais generoso do que ele? "se Ele puser a ele o seu coração, o seu espírito e a sua alma a si recolherá; expirará toda carne juntamente" (Jó 34:14–15) — quer dizer: e quem é o encarregado que tem poder mais do que ele, de modo que, se "puser a ele o seu coração", quer dizer se voltar a sua atenção à existência, "expirará toda carne juntamente, e o homem ao pó tornará"? não há aqui um existente que não seja Ele que baste para fazer isto a não ser ele; e, sendo assim, se explica que ele é dono do poder completo. E, depois de que se explicou isto, é impossível que faça isto ao ser ele um ímpio ou um injusto e um inimigo do juízo; e por isto disse "e, se há entendimento, ouve isto, escuta a voz das minhas palavras: acaso aquele que odeia o juízo governará yachbosh? e ao justo poderoso farás ímpio? acaso se diz a um rei 'vilão', 'um ímpio' a nobres? — aquele que não levantou a face de ministros e não reconheceu o rico diante do pobre, pois obra das suas mãos são todos eles" (Jó 34:16–19) — quer dizer: depois de que esclarecemos que ele é dono do poder e ele é o rei sobre tudo, é impossível dizer que o senhor que seja um inimigo do juízo seja um governante, quer dizer um rei; e aquele que é um justo completo é impossível a ti fazê-lo ímpio — pois não é cabido dizer a um rei que é dono do poder "vilão", de que faça injustiça e escolha o ser chamado injusto, nem que se diga "ímpio" aquele que é generoso e poderoso para dar o que quiser, de que não escolha o ser chamado ímpio e injusto ao reduzir o direito de quem é cabido a receber o bem, ao não retribuí-lo conforme a sua justiça. E, se disseres que faz isto porque precisaria de fazer aceitação de faces aos grandes que estão na terra — não é assim, pois ele, bendito seja, não levanta a face a nenhum existente, como disse "aquele que não levantou a face de ministros" etc. (Jó 34:19), "pois obra das suas mãos são todos eles" — e é cabido que lhes faça um juízo igual em todos eles, depois de haver poder na sua mão para fazê-lo e de não haver quem o impeça na sua mão, pois "num momento morrerão, e no meio da noite se estremecerá um povo, e se removerão" (Jó 34:20) — por meio dos seus mensageiros — "e removerão os poderosos sem esforço da mão" (Jó 34:20); e isto é o que indica que "os seus olhos estão sobre os caminhos do homem, e todos os seus passos Ele vê" (Jó 34:21), e de que "não há treva e não há sombra de morte para esconder-se ali os fazedores de iniquidade" (Jó 34:22). E este é o caminho de toda a resposta segunda com que alegou Eliú para trazer prova sobre a providência pelo lado do poder.
״מִי פָקַד עָלָיו אָרְצָה... אִם יָשִׂים אֵלָיו לִבּוֹ... יִגְוַע כָּל בָּשָׂר יָחַד״ — אֵין זוּלָתוֹ. ״הַאַף שׂוֹנֵא מִשְׁפָּט יַחֲבוֹשׁ?... אֲשֶׁר לֹא נָשָׂא פְּנֵי שָׂרִים... כִּי מַעֲשֵׂה יָדָיו כֻּלָּם״. ״עֵינָיו עַל דַּרְכֵי אִישׁ וְכָל צְעָדָיו יִרְאֶה״.
10 E o modo segundo da prova, que é pelo lado de ser o homem obra das suas mãos, trouxe-a Eliú na resposta quarta por este caminho: que, porque a alegação mais forte com que Jó alegava contra tudo isto é a alegação do desprezo mi'us, como disse "que é o homem, que o engrandeças, e que ponhas a ele o teu coração, e que o visites aos amanheceres, que o examines a cada instante?" (Jó 7:17–18) — e pensava que, por ser o homem desprezível e vil aos olhos do Senhor, não supervisiona nos particulares dos seus atos, como não supervisiona nos particulares das ações do porco pelo lado do desprezo; e atribuía isto a uma opressão oshek ao Senhor — de que oprime do gênero humano o seu direito, depois de que ele é obra das suas mãos e de que há nele uma faculdade intelectual; e por isto o chamou "labor das suas palmas", porque não se completou a sua existência a partir da natureza apenas, como os demais viventes, mas a partir da natureza e a partir da faculdade divina, que é a faculdade intelectual que foi dada nele, como disse "façamos um homem" etc. (Gênesis 1:26). E por causa disto Jó dizia que isto era uma opressão — de que o Senhor, bendito seja, oprimia o gênero humano —, e de que não era cabido que fizesse assim, de reter a sua providência dele por causa da grandeza da elevação do Senhor e da pequenez da elevação do homem; de que não é isto do direito do perfeito, de que despreze o labor das suas palmas e os largue pelo lado do desprezo. E isto é o que disse "acaso é bom para ti que oprimas, que desprezes o labor das tuas palmas, e sobre o conselho dos ímpios resplandeças?" (Jó 10:3): disse "acaso é bom para ti", pois, porque tu és perfeito no extremo da perfeição e da elevação, e o homem é inferior e desprezível em comparação à tua elevação, acaso é bom que oprimas dele o seu direito e que não alcance a perfeição que lhe é possível conforme a sua faculdade intelectual que deste nele, e que o largues pelo lado do desprezo e desprezes o labor das tuas palmas? E disse "e sobre o conselho dos ímpios resplandeças", quer dizer: como se tu concordasses nisto com os ímpios, os que dizem que não é a aptidão da ação proveitosa.
טַעֲנַת הַמִּאוּס: ״מָה אֱנוֹשׁ כִּי תְגַדְּלֶנּוּ... וַתִּפְקְדֶנּוּ לִבְקָרִים״. חָשַׁב שֶׁמֵּרֹב מִאוּס הָאָדָם לֹא יַשְׁגִּיחַ, וְיִחֵס זֶה לְעֹשֶׁק. ״הֲטוֹב לְךָ כִּי תַעֲשֹׁק כִּי תִמְאַס יְגִיעַ כַּפֶּיךָ וְעַל עֲצַת רְשָׁעִים הוֹפָעְתָּ״.
11 E por isso voltou Eliú na sua resposta quarta a resolver a alegação do desprezo, e é o que disse "eis que D'us é poderoso e não despreza, poderoso de força de coração koach lev" (Jó 36:5): diz que é impossível que largue o Senhor o gênero humano pelo lado do desprezo, pois não é do direito de nenhum agente sábio que largue a obra das suas mãos pelo lado do desprezo ao ser ele capaz de consertá-los; e isto é o que disse "eis que D'us é poderoso" etc. — quer dizer: depois de que ele é D'us e dono do poder e poderoso no entendimento em ato, e de que lhe é possível fazer chegar o gênero humano à perfeição que é potencial nele, por causa da grandeza do seu poder, eis que é impossível a ele que despreze o homem, que é poderoso na potencialidade do coração koach lev — capaz de intelecção e que é capaz do entendimento; e, depois de que há nele intelecto em potência, é cabido que o ajude o Senhor, bendito seja, a fazê-lo sair ao ato, e que não oprima do gênero humano a perfeição que lhe é possível alcançar — pois isto seria uma falta no direito do Senhor, bendito seja, depois de que ele é capaz disto. E, porque disse Jó no fim desta alegação "e sobre o conselho dos ímpios resplandeças", disse Eliú agora que não é a coisa assim, mas que ela é o oposto: pois "não faz viver o ímpio, e o juízo dos pobres Ele dá" (Jó 36:6), e disse ainda "não retira do justo os seus olhos" etc. (Jó 36:7), "e, se estão presos em grilhões" etc. (Jó 36:8), "e lhes declara a sua obra e as suas rebeldias, pois se avultaram" (Jó 36:9), "e revela o seu ouvido para a correção, e diz que se voltem da iniquidade" (Jó 36:10) — para indicar que todo mal que chega aos justos é pelo lado da providência.
״הֶן אֵל כַּבִּיר וְלֹא יִמְאָס כַּבִּיר כֹּחַ לֵב״ — אִי אֶפְשָׁר שֶׁיַּעֲזֹב הָאָדָם עַל צַד הַמִּאוּס, שֶׁאֵין מֵחֹק פּוֹעֵל חָכָם לַעֲזֹב מַעֲשֵׂה יָדָיו בִּהְיוֹתוֹ יָכוֹל לְתַקְּנָם. ״כִּי לֹא יְחַיֶּה רָשָׁע וּמִשְׁפַּט עֲנִיִּים יִתֵּן... וַיְגַל אָזְנָם לַמּוּסָר״.
12 E no fim daquela resposta, depois de que mencionou esta prova, concluiu as suas palavras com o que fez conhecer as maravilhas da chuva — que indicam sobre a sabedoria e a providência — e as maravilhas do trovão ra'am — que indicam sobre o poder; e como as alegações da sabedoria e do poder são fortes muitíssimo, confirmou-as o Senhor, bendito seja, nas suas duas respostas: que na sua resposta uma trouxe prova sobre a sabedoria e a providência a partir da sabedoria que se vê na formação dos viventes e da providência que se vê na guarda de cada espécie e espécie deles com a guarda cabida a ele e no dar uma perfeição singularizada a cada espécie deles — o que indica sobre a sabedoria —, e esta é a intenção de toda aquela resposta; e na resposta segunda trouxe prova sobre o poder, e disse-lhe "acaso ainda vais anular o meu juízo, far-me-ás ímpio para te tornares justo?" (Jó 40:8) — quer dizer: anularás a minha providência para dizer que não faço juízo nos existentes, como se não tivesse eu poder sobre isto? "e, se tens um braço como o de D'us, e com uma voz como a dele trovejas, adorna-te, pois, de majestade e altura" (Jó 40:9–10), "vê todo soberbo e humilha-o" (Jó 40:11), "vê todo soberbo, abaixa-o, e esmaga os ímpios debaixo deles" (Jó 40:12).
סִיֵּם בְּפִלְאוֹת הַמָּטָר (חָכְמָה וְהַשְׁגָּחָה) וּפִלְאוֹת הָרַעַם (יְכֹלֶת). קִיֵּם הַשֵּׁם בִּשְׁנֵי מַעֲנָיו. ״הַאַף תָּפֵר מִשְׁפָּטִי תַּרְשִׁיעֵנִי לְמַעַן תִּצְדָּק... רְאֵה כָל גֵּאֶה וְהַשְׁפִּילֵהוּ״.
13 E toda aquela resposta vai por este caminho — a mostrar a grandeza do poder do Senhor para criar criaturas grandes que se espante o homem de vê-las e caia a sua plena estatura por terra; e isto é o que disse "acaso também à sua vista não se derruba alguém?" (Jó 41:1). E tudo isto é para indicar que, depois de que ele é dono do poder completo, é impossível atribuir a ele algum cansaço em coisa alguma, e também não a falta de conhecimento, depois de o nosso ver a sabedoria grande que há em todas as formações que criou. E nisto se apaziguou Jó e confessou as duas alegações: quanto à alegação do poder, disse "soube que tudo podes" (Jó 42:2); e quanto à alegação do conhecimento, disse "e não se retém de ti um desígnio" (Jó 42:2).
״הֲגַם אֶל מַרְאָיו יֻטָּל״ — אַחַר שֶׁהוּא בַּעַל הַיְכֹלֶת הַגְּמוּרָה אִי אֶפְשָׁר לְיַחֵס לוֹ לֵאוּת אוֹ הֶעְדֵּר יְדִיעָה. וְנִתְפַּיֵּס אִיּוֹב: ״יָדַעְתִּי כִּי כֹל תּוּכָל״ (יְכֹלֶת), ״וְלֹא יִבָּצֵר מִמְּךָ מְזִמָּה״ (יְדִיעָה).
Esgotadas as provas empíricas (a ordem geral, cap. 8; os casos particulares, cap. 9), Albo passa às provas racionais — deduções a partir de conceitos. Há duas, simétricas: uma parte do recebedor da providência (o homem) e outra do Doador (D'us). Juntas, fecham logicamente a demonstração da providência individual.
A premissa: a faculdade intelectual do homem é um dom supérfluo para a mera sobrevivência da espécie — as outras espécies subsistem sem ela. Logo, ela existe para um fim mais alto, e marca o homem como "estimado aos olhos de D'us mais que os demais". E seria contraditório dotar o homem dessa preeminência e depois abandoná-lo, sem providência, como aos animais. Albo lê a primeira resposta divina a Jó nessa chave: depois de enumerar a providência específica sobre cada espécie (o corvo, o asno selvagem, a cabra montês, o cavalo), D'us coroa a lista com o dom único ao homem — "quem deu ao sechvi entendimento?" (Jó 38:36), o intelecto. Daí a tese maimonidiana central (Guia III:17–18): a providência é proporcional à perfeição do intelecto. Quem aperfeiçoa a alma atrai providência intensa; quem deixa murchar o intelecto "volta à categoria dos animais" e a providência se retira dele. A providência individual não é, portanto, automática — é conquistada pela atualização do intelecto. O Salmo 8 dá a mesma prova em chave poética: o salmista, esmagado diante dos céus ("que é o homem?"), reverte-se ao perceber que o homem foi feito "pouco menor que os anjos" — intelecto em potência, próximo dos anjos que são intelecto em ato. E é precisamente "verter intelecto sobre matéria turva" que revela a grandeza do Agente — donde "quão poderoso é o teu nome em toda a terra".
O segundo argumento é uma dedução por eliminação, posta na boca de Eliú. Premissa axiomática ("inteligível primeiro"): a D'us atribuem-se todas as perfeições e negam-se todas as faltas. Ora, supervisionar a própria obra para levá-la à perfeição é uma perfeição; não fazê-lo é falta. E uma falta só tem três causas possíveis: ignorância, impotência, ou malícia/desprezo. Eliú elimina todas: D'us é "sábio de coração" (não ignora), "firme de força" / "El" (não é impotente), e "Shadai" — há n'Ele suficiência (dai) para suprir tudo (não tem por que ser injusto). Logo, "longe de D'us a maldade, e do Todo-Poderoso a injustiça" (Jó 34:10): por eliminação, Ele supervisiona e retribui com justiça. A prova do poder absoluto é elegante: "quem o encarregou da terra?" (Jó 34:13) — não há nenhum poder acima d'Ele que pudesse forçá-lo ou a quem precisasse bajular ("não levanta a face de ministros... pois obra das suas mãos são todos eles"). Sem superior a temer e sem carência a suprir, não há motivo concebível para Ele ser injusto.
O ângulo mais original do capítulo é a resposta à objeção mais forte de Jó — o mi'us (desprezo): "que é o homem, que o visites a cada instante?" (Jó 7:17–18). Jó raciocinava: sendo o homem tão ínfimo diante de D'us, talvez Ele o ignore por desprezo, como se ignora um porco — e chamava isso de oshek, "opressão", porque o homem, sendo "obra das mãos" d'Ele e portador de intelecto divino ("façamos um homem"), merece cuidado. Eliú vira o argumento do avesso (Jó 36:5): "eis que D'us é poderoso e não despreza, poderoso de força de coração" — justamente porque o homem tem capacidade intelectual (koach lev) e D'us tem poder para atualizá-la, seria falta n'Ele desprezá-lo; nenhum artesão sábio abandona por desprezo uma obra que pode aperfeiçoar. A grandeza de D'us, longe de afastá-Lo do homem, é precisamente o que garante que Ele não o abandone.
Albo nota a arquitetura do livro de Jó: Eliú fecha com as maravilhas da chuva (que provam sabedoria e providência) e do trovão (que provam poder) — e o próprio D'us, nas suas duas falas, confirma exatamente esses dois eixos: a primeira resposta exibe a sabedoria na formação dos viventes; a segunda, o poder ("se tens um braço como o de D'us... vê todo soberbo e humilha-o", Jó 40:9–12). Por isso a confissão final de Jó tem duas partes, espelhando as duas alegações: "soube que tudo podes" (o poder) "e não se retém de ti um desígnio" (a sabedoria/conhecimento). Demonstrada a providência por todas as vias — geral, particular e racional —, o Maamar está pronto para descrever como ela opera em cada indivíduo, tema do próximo capítulo.
Assim como a providência divina alcança cada espécie animal por modos diversos, dando a cada uma os órgãos e instintos para sua perfeição (os ruminantes, os peixes, o cão, os predadores, a formiga, o camelo, o corvo, a cabra montês), assim é cabido que alcance cada indivíduo humano conforme o seu grau de perfeição. E, como os homens diferem no intelecto mais do que as espécies entre si, os graus da notícia divina variam: profecia, sonho, mensageiro profeta, despertar (insinuação) divino, e os sofrimentos — doença e prisão — como advertência e prova de quem serve por amor.
Assim como a providência divina alcança cada espécie animal por modos diversos, dando a cada uma os órgãos e instintos para sua perfeição (os ruminantes, os peixes, o cão, os predadores, a formiga, o camelo, o corvo, a cabra montês), assim é cabido que alcance cada indivíduo humano conforme o seu grau de perfeição. E, como os homens diferem no intelecto mais do que as espécies entre si, os graus da notícia divina variam: profecia, sonho, mensageiro profeta, despertar (insinuação) divino, e os sofrimentos — doença e prisão — como advertência e prova de quem serve por amor.
1 Como se acha que a providência divina chega a cada espécie e espécie dos viventes por modos diferentes, para que se complete aquela espécie no modo o mais perfeito que é possível, assim é cabido que se ache em cada indivíduo e indivíduo dos indivíduos do homem conforme o seu grau e a elevação da sua perfeição, para que se complete aquele indivíduo no modo perfeito.
כְּמוֹ שֶׁנִּמְצָא הַהַשְׁגָּחָה הָאֱלֹהִית תַּגִּיעַ לְכָל מִין וָמִין מִן הַבַּעֲלֵי חַיִּים בְּאֹפַנִּים מִתְחַלְּפִים, כֵּן רָאוּי שֶׁתִּמָּצֵא בְּכָל אִישׁ וָאִישׁ מֵאִישֵׁי הָאָדָם כְּפִי מַדְרֵגָתוֹ וּמַעֲלַת שְׁלֵמוּתוֹ.
2 E isto é: que nós achamos que supervisionou o Senhor em cada um das espécies dos viventes com uma providência maravilhosa, para dar a cada espécie e espécie o fim da sua perfeição que lhe é possível conforme o seu direito; e isto é revelado muitíssimo em cada um das espécies, pois o Senhor, bendito seja, deu-lhe membros e instrumentos e faculdades adequados à guarda da espécie e à sua conservação no modo perfeito. Assim os animais donos de chifres, os que comem a erva do campo — porque a matéria da qual era cabido que se formassem dela os dentes se consome nos chifres, e não bastou a natureza para fazer-lhes dentes na mandíbula superior, e não podem cortar o alimento bem — pôs neles a natureza uma faculdade de fazer subir o ruminado guerá, para completar na mastigação segunda o que lhes faltou na primeira. E assim aquele cujo alimento está disponível, como os peixes e as aves — pôs a sua digestão muito rápida; disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "e nas aves e nos peixes pôs digestão rápida, para que caia a presa no fogo da digestão e se queime". E no cão, porque o seu alimento é não-disponível, pôs a sua digestão mais retardada; disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "'conhece o justo a causa do juízo dos pobres' (Provérbios 29:7) — conhece o Santo, bendito seja, no cão o facto de que o seu alimento é escasso, por isso reteve o seu alimento nas suas entranhas três dias". E nos donos de presa e nas aves rapinantes, porque não é o seu alimento a partir das plantas, proveu-lhes a natureza instrumentos com que possam ser alimentados da caça, e preparou-lhes nas garras um veneno que o lançam no momento da rapina, para predigerir cozer o alimento e afiná-lo, pois a faculdade do veneno e o seu calor lhes está no lugar do fogo, para cozer a carne. E da natureza da formiga — que é uma criatura pequena, e pela faculdade de diligência que há nela — julgamos sobre a sabedoria do Senhor e a sua providência em todos os existentes e em cada parte e parte deles; como se vê no camelo, no qual se pôs o comprimento do pescoço em proporção ao comprimento das suas pernas, para que se alivie sobre ele o tomar o seu alimento.
נָתַן לְכָל מִין אֵבָרִים וְכֵלִים נָאוֹתִים: בַּעֲלֵי קַרְנַיִם — כֹּחַ לְהַעֲלוֹת גֵּרָה; דָּגִים וְעוֹפוֹת — עִכּוּל מָהִיר; כֶּלֶב — ״יוֹדֵעַ צַדִּיק דִּין דַּלִּים״ הִשְׁהָה מְזוֹנוֹתָיו ג׳ יָמִים; דּוֹרְסִים — אֶרֶס בַּצִּפָּרְנַיִם; הַנְּמָלָה; הַגָּמָל — אֹרֶךְ הַצַּוָּאר מִתְיַחֵס לְשׁוֹקָיו.
3 E, ainda que todas estas sejam providências de gênero ou específicas minit, há como tomar delas prova sobre a diferenciação da providência nos indivíduos do gênero humano. Pois, depois de que se vê a providência do Senhor aderida a cada um das espécies por modos diversos conforme o que é cabido a cada espécie e espécie para a obtenção do fim da sua perfeição, e conforme o que se ajusta ao seu temperamento e à sua natureza pôs-lhe instrumentos para a sua guarda e para a obtenção do seu alimento e do fim da sua perfeição no modo o mais perfeito que é possível — e a quem precisa de uma guarda excelsa, como os filhos do corvo, supervisiona neles para preparar-lhes o seu alimento, até o ponto de que não se acham jamais filhos de corvo que morram de fome; e as cabras montesas supervisiona nelas para guardá-las no momento do seu parir, até o ponto de que não se acha uma delas privada daquela providência no momento do seu parir, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "porque o seu útero é estreito, o Santo, bendito seja, prepara-lhe uma serpente drakon no momento do seu parir, e ela a morde e isto facilita o parto"; e assim em cada espécie e espécie por este caminho — eis que isto é do que indica por via de necessidade que há um supervisor nos existentes para dar a cada um o seu direito e a sua perfeição conforme o que decrete a sua natureza e conforme o que lhe é possível, e não oprime a nenhum deles, ao não lhe completar o seu direito que lhe é possível receber.
אַף שֶׁאֵלּוּ הַשְׁגָּחוֹת מִינִיּוֹת, יֵשׁ לִקַּח רְאָיָה עַל הִתְחַלְּפוּת הַהַשְׁגָּחָה בְּאִישֵׁי מִין הָאָדָם. בְּנֵי הָעוֹרֵב — מֵכִין מְזוֹנָם; יַעֲלֵי סֶלַע — שׁוֹמְרָם בְּעֵת לֵדָתָן. יֵשׁ מַשְׁגִּיחַ לָתֵת לְכָל אֶחָד חֻקּוֹ.
4 E, depois de que os indivíduos do homem se diferenciam na perfeição da faculdade intelectual que há neles com uma diferenciação maior do que a diferenciação de uma espécie das espécies dos viventes sobre a outra — até o ponto de que se vê um indivíduo próximo de estar no grau dos viventes não-falantes, e outro próximo de estar no grau dos anjos —, é cabido, sendo assim, que haja entre os indivíduos uma diferenciação de providência como a que há nos viventes entre as espécies. E se obriga disto que sejam os graus da providência diferentes entre os indivíduos do homem conforme a diferenciação dos seus graus na perfeição; e por causa disto, às vezes estará o homem num grau tal que vem a ele a providência por este caminho — quando chega a notícia hoda'á divina ao próprio homem, seja em profecia, seja em sonho.
אִישֵׁי הָאָדָם מִתְחַלְּפִים בִּשְׁלֵמוּת הַשֵּׂכֶל יוֹתֵר מֵהִתְחַלְּפוּת מִין מֵהַבַּעֲלֵי חַיִּים — אֶחָד קָרוֹב לַבְּהֵמוֹת וְאֶחָד קָרוֹב לַמַּלְאָכִים. יִתְחַיֵּב שֶׁמַּדְרֵגוֹת הַהַשְׁגָּחָה מִתְחַלְּפוֹת — בִּנְבוּאָה אוֹ בַּחֲלוֹם.
5 Em profecia, como se disse a Abraão "vai-te da tua terra" etc. (Gênesis 12:1), "e far-te-ei uma nação grande" etc. (Gênesis 12:2); e se em sonho, como se disse a Avimélech no sonho da noite "eis que tu estás morto por causa da mulher que tomaste" etc. (Gênesis 20:3); e a Faraó, que era um ímpio, veio a ele a notícia por meio de chagas negaim, como disse a Escritura "e feriu o Senhor a Faraó com chagas grandes" etc. (Gênesis 12:17).
בִּנְבוּאָה: לְאַבְרָהָם ״לֶךְ לְךָ מֵאַרְצְךָ״. בַּחֲלוֹם: לַאֲבִימֶלֶךְ ״הִנְּךָ מֵת עַל הָאִשָּׁה״. וּלְפַרְעֹה הָרָשָׁע — עַל יְדֵי נְגָעִים: ״וַיְנַגַּע ה׳ אֶת פַּרְעֹה נְגָעִים גְּדֹלִים״.
6 E às vezes vem a notícia ao homem por meio de um mensageiro profeta, como veio a Barac, filho de Avinoam, por meio de Débora, ou a Eli e a Saul por meio de Samuel; e às vezes estará o homem num grau abaixo deste, e não lhe vem a notícia nem em profecia nem por meio de um profeta, mas por um despertar he'ará divino — como veio a Judá um despertar para inclinar-se ao caminho de Tamar, sua nora, para que saíssem dele Peretz e Zerach; e como o despertar que veio a Avigail, de sair ao encontro de Davi — e reconheceu Davi que era um despertar divino, e por isso disse "bendito seja o Senhor, D'us de Israel, que te enviou hoje ao meu encontro" (I Samuel 25:32); e como o despertar que veio a alguns dos juízes, de sair à guerra para salvar a Israel; e às vezes será o despertar divino ao homem para que tome o Senhor a sua vingança dele sobre um pecado que lhe precedeu — como o despertar que veio a Acab, de sair à guerra para que se mate e para tomar o Senhor a vingança de Navot dele; e como estes há muitos.
עַל יְדֵי שָׁלִיחַ נָבִיא: בָּרָק עַל יַד דְּבוֹרָה; עֵלִי וְשָׁאוּל עַל יַד שְׁמוּאֵל. וְעַל יְדֵי הֶעָרָה אֱלֹהִית: לִיהוּדָה (תָּמָר); לַאֲבִיגַיִל — ״בָּרוּךְ ה׳ אֲשֶׁר שְׁלָחֵךְ״; לְאַחְאָב לָצֵאת לַמִּלְחָמָה לִנְקֹם נְקַם נָבוֹת.
7 E às vezes virão ao homem sofrimentos yissurim, seja por doença, seja por prisão e coisas semelhantes a elas — seja pelo lado da advertência, para despertá-los a que se voltem ao Senhor do mal no qual se enredaram, seja para depurar o pouco das rebeldias que estão na sua mão. E com os sofrimentos que são desta espécie se examinam os homens que servem o Senhor: que, se eles servem por amor me'ahavá, receberão os sofrimentos com semblante de faces belas de bom grado pelo amor do Senhor; e, se eles servem por temor do castigo e por amor da recompensa, clamarão com protesto sobre as medidas do Senhor e falarão sobre ele coisa errônea — como aconteceu a Jó nos seus sofrimentos, que era um temente a D'us e servia por amor da recompensa e por temor do castigo, e por isso clamou com protesto sobre os juízos do Senhor pelo lado dos seus sofrimentos. E este lado da notícia revelou-o Eliú na sua resposta primeira, e disse "em um sonho, na visão da noite" etc. (Jó 33:15), "então revela o ouvido dos homens" etc. (Jó 33:16), "para afastar o homem da obra, e a soberba do varão Ele cobre" (Jó 33:17): diz que às vezes vem a notícia ao homem em um sonho, para afastar o homem da ação má na qual se enredou, e para que se cubram dele os assuntos corpóreos, e por meio disso "Ele poupa a sua alma da cova" (Jó 33:18). E disse ainda que às vezes vem a notícia ao homem por meio da doença, como disse "e é repreendido com dor no seu leito, e a contenda dos seus ossos é constante" (Jó 33:19) — quer dizer com dor forte; e se alongou a contar o assunto da aflição que suporta naquela doença; e depois disto disse "se roga a D'us e Ele se lhe apraz, e ele vê a sua face com júbilo, e Ele faz voltar ao homem a sua justiça" (Jó 33:26) — quer dizer que, quando se roga ao Senhor, Ele se lhe apraz e faz voltar a ele a sua justiça, pois reconheceu que a doença era por causa das suas rebeldias, e de dentro disso se voltou ao Senhor e confessou a ele em uma assembleia grande e no assento dos anciãos que as suas rebeldias lhe causaram a doença; e isto é o que disse "Ele olha yashor sobre os homens, e cada um diz 'pequei e o que era reto torci'" (Jó 33:27) — e isto lhe foi contado por justiça.
יִסּוּרִין — מֵחֹלִי אוֹ מִמַּאֲסָר — לְהַזְהִיר אוֹ לְמָרֵק. בָּהֶן יִבָּחֲנוּ הָעוֹבְדִים: מֵאַהֲבָה מְקַבְּלִים בְּסֵבֶר פָּנִים יָפוֹת; וְהָעוֹבֵד מִיִּרְאַת עֹנֶשׁ — קוֹרֵא תִגָּר, כְּאִיּוֹב. ״בַּחֲלוֹם... יַחְשֹׂךְ נַפְשׁוֹ מִנִּי שַׁחַת״; ״וְהוּכַח בְּמַכְאוֹב עַל מִשְׁכָּבוֹ״; ״חָטָאתִי וְיָשָׁר הֶעֱוֵיתִי״.
8 E assim na resposta última disse Eliú que às vezes virão sobre o homem sofrimentos de outra espécie, como prisão e o semelhante a ela, para despertar o homem a voltar das rebeldias nas quais tropeçou; disse "e, se estão presos em grilhões, se prendem em cordas de aflição" (Jó 36:8), "e lhes declara a sua obra e as suas rebeldias, pois se avultaram" (Jó 36:9), "e revela o seu ouvido para a correção, e diz que se voltem da iniquidade" (Jó 36:10); e completou o assunto: "se ouvirem e servirem, completarão os seus dias no bem" etc. (Jó 36:11), "e, se não ouvirem, pela arma passarão" etc. (Jó 36:12), "e os de coração ímpio chanfei lev acumulam ira, não clamam por socorro quando os prende" (Jó 36:13). Disse que, quando vierem os sofrimentos sobre o homem por prisão e o semelhante a ela — que é pelo lado da notícia ao homem para voltar das suas rebeldias e para saber-se se os recebe com semblante de faces belas, e pense que isto lhe veio como castigo sobre as suas rebeldias e se volte ao Senhor para servir o seu serviço — eis que o Senhor lhe pagará a sua recompensa, e isto é "se ouvirem e servirem, completarão os seus dias no bem"; "e, se não ouvirem, pela arma passarão" etc. — quer dizer: e, se não receberem os sofrimentos com semblante de faces belas e não se dispuserem a voltar ao Senhor depois deste despertar, está previsto para eles a espada e expirarão sem conhecimento; e isto é o que disse depois disto "e os de coração ímpio acumulam ira, não clamam quando os prende" — diz que aqueles que servem o Senhor pelo lado da lisonja chanupá e eles são os de coração ímpio — e aludiu nisto a Jó — se iram com ira grande sobre o Senhor por ter trazido sobre eles aqueles sofrimentos, como se irou Jó, e não se voltam ao Senhor, e por isso "não clamam quando os prende" e por isso "morre na juventude a sua alma, e a sua vida entre os prostitutos do culto" (Jó 36:14).
״וְאִם אֲסוּרִים בַּזִּקִּים... וַיְגַל אָזְנָם לַמּוּסָר... אִם יִשְׁמְעוּ וְיַעֲבֹדוּ יְכַלּוּ יְמֵיהֶם בַּטּוֹב, וְאִם לֹא יִשְׁמְעוּ בְּשֶׁלַח יַעֲבֹרוּ. וְחַנְפֵי לֵב יָשִׂימוּ אָף לֹא יְשַׁוְּעוּ כִּי אֲסָרָם״ — רֶמֶז לְאִיּוֹב הַכּוֹעֵס וְלֹא שָׁב.
9 Mas o pobre aní é salvo destes sofrimentos pelo lado da sua pobreza — quer dizer, depois de que suportou os sofrimentos da pobreza; e isto é "Ele livra o pobre na sua pobreza, e no aperto revela o seu ouvido" (Jó 36:15) — quer dizer que, com aquele aperto que suportava por causa da pobreza, revela o seu ouvido de modo que se voltem ao Senhor, e não se precisa de prisão ou de outros sofrimentos. E, se não se voltar o homem ao Senhor por causa dos sofrimentos, mas se os pensar como acaso keri e acidente do tempo, e não como castigo sobre as suas rebeldias — já vaticinou a Escritura o castigo sobre isto, e disse "e, se andardes comigo com acaso keri" etc. (Levítico 26:27), "e andarei também eu convosco com furor de acaso" etc. (Levítico 26:28) — quer dizer: até que entendais que não é acaso.
״יְחַלֵּץ עָנִי בְעָנְיוֹ וַיִּגֶל בַּלַּחַץ אָזְנָם״ — בְּלַחַץ הָעֹנִי יָשׁוּב, וְאֵין צָרִיךְ מַאֲסָר. וְאִם יַחְשֹׁב הַיִּסּוּרִין לְקֶרִי: ״וְאִם תֵּלְכוּ עִמִּי קֶרִי... וְהָלַכְתִּי אַף אֲנִי עִמָּכֶם״ — עַד שֶׁתָּבִינוּ שֶׁאֵינוֹ קֶרִי.
Demonstrada a existência da providência (cap. 8–10), Albo descreve agora o seu funcionamento. O método é uma analogia a fortiori. Primeiro, ele documenta com riqueza a providência específica sobre os animais — não no plano da espécie abstrata, mas no design fino de cada uma: o ruminante, cujos dentes superiores faltam (a matéria "foi gasta nos chifres") e por isso recebe a ruminação; o peixe e a ave, de digestão veloz; o cão, cuja digestão dura três dias "porque seu alimento é escasso" (Bava Batra, sobre "conhece o justo o juízo dos pobres"); o predador, com veneno nas garras que "cozinha" a presa; a formiga diligente; o camelo, cujo pescoço é proporcional às pernas. Cada espécie é um testemunho de sabedoria providencial sob medida.
O passo lógico decisivo (§4): se D'us provê diferenciadamente a cada espécie segundo o que ela precisa, e se os indivíduos humanos diferem entre si no intelecto mais do que as espécies diferem entre si — um homem "próximo do grau dos animais", outro "próximo do grau dos anjos" —, então, com mais razão, a providência deve operar de modo diferenciado e individual em cada pessoa, conforme o seu grau. É a aplicação concreta do princípio maimonidiano do cap. 10 (providência ∝ perfeição do intelecto): não uma providência uniforme, mas uma escala graduada que acompanha a estatura espiritual de cada um.
O coração do capítulo é a tipologia dos graus pelos quais D'us comunica com o indivíduo — uma escada descendente de imediatismo:
1. Profecia direta (o grau mais alto) — Abraão, "vai-te da tua terra". 2. Sonho — Avimélech, "estás morto por causa da mulher"; e, para o ímpio Faraó, a forma degradada da "notícia": as chagas. 3. Mensageiro profeta — Barac por Débora, Saul por Samuel. 4. Despertar / insinuação divina (he'ará) — o grau mais sutil, sem profeta nem visão: um impulso interior providencialmente dirigido. Judá inclinado a Tamar (para nascerem Peretz e Zerach, a linhagem messiânica); Avigail saindo ao encontro de Davi (que reconheceu a mão divina: "bendito o Senhor que te enviou"); os juízes movidos a libertar Israel; e, em sentido punitivo, Acab "despertado" a ir à guerra onde morreria, para a vingança de Navot. Este conceito de he'ará — a providência operando através de impulsos internos que o agente experimenta como sua própria decisão — é uma das contribuições mais finas de Albo: a graça que conduz a história sem violar a liberdade.
O grau final e mais universal: os sofrimentos (doença, prisão, pobreza) como uma forma de "notícia" — a mensagem que chega quando as palavras não bastam. Têm duplo propósito: advertência (despertar à teshuvá) e depuração (purgar pecados). E são a grande prova: revelam se o homem serve "por amor" (me'ahavá) — recebendo a dor "com semblante de faces belas" — ou apenas por temor do castigo e amor da recompensa — caso em que "clama com protesto", como Jó. Albo lê as duas falas de Eliú como o manual desses sofrimentos: o sonho-aviso e a doença-aviso (Jó 33), que levam à confissão "pequei e torci o reto"; e a prisão-aviso (Jó 36), com a bifurcação decisiva — "se ouvirem e servirem, completarão os dias no bem; se não, pela arma passarão". Os "chanfei lev" (de coração ímpio/lisonjeiro) — alusão velada a Jó — são os que se iram contra D'us em vez de se voltarem. Há ainda a nota de graça: o pobre pode ser "livrado pela própria pobreza", poupado de outros sofrimentos porque o aperto já lhe "revela o ouvido". E a advertência final, de Levítico: o pior erro é ler o sofrimento como keri — acaso, acidente do tempo —, pois a isso D'us responde "andarei convosco com keri", isto é, "até que entendais que não é acaso". Toda a doutrina da providência individual culmina, assim, num chamado: ler os eventos da vida como mensagem, não como sorte cega.
A remoção da queixa "ímpio e bem-lhe-vai". O bem chega ao ímpio por quatro causas — pela providência geral (da nação ou da constelação), pela recompensa de algum mérito seu (para "expulsá-lo" do mundo vindouro), pela providência sobre outros (justos ou ímpios), e em benefício próprio ou dos justos da geração. E, mesmo aceito que o ímpio seja realmente ímpio, pode-se ainda negar o sujeito (talvez não seja ímpio) ou o predicado (talvez o "bem" não seja realmente bom).
A remoção da queixa "ímpio e bem-lhe-vai". O bem chega ao ímpio por quatro causas — pela providência geral (da nação ou da constelação), pela recompensa de algum mérito seu (para "expulsá-lo" do mundo vindouro), pela providência sobre outros (justos ou ímpios), e em benefício próprio ou dos justos da geração. E, mesmo aceito que o ímpio seja realmente ímpio, pode-se ainda negar o sujeito (talvez não seja ímpio) ou o predicado (talvez o "bem" não seja realmente bom).
1 Sobre a remoção da queixa d'"o ímpio e bem-lhe-vai".
בַּהֲסָרַת תְּלוּנַת הָרָשָׁע וְטוֹב לוֹ.
2 E dizemos que o bem chega ao ímpio por quatro causas, mesmo se confessemos que aquele a quem julgamos nele que é um ímpio seja assim um ímpio de verdade, e que aquele a quem pensamos que é um justo seja um justo de verdade.
הַטּוֹב יַגִּיעַ לָרָשָׁע מֵאַרְבַּע סִבּוֹת, אַף אִם נוֹדֶה שֶׁמִּי שֶׁנִּשְׁפֹּט בּוֹ שֶׁהוּא רָשָׁע יִהְיֶה רָשָׁע בֶּאֱמֶת, וּמִי שֶׁנַּחְשֹׁב שֶׁהוּא צַדִּיק יִהְיֶה צַדִּיק בֶּאֱמֶת.
3 A uma: que já chegam ao ímpio bens pelo lado da providência geral hashgachá kolelet — como se dissesses, pelo lado da generalidade da nação, sobre a qual se decretou que assente em tranquilidade e em sossego e que se sustentem os seus homens em prosperidade; e isto se assemelha à providência específica, a ordenada a partir das causas superiores, na qual não há lugar para queixar-se sobre ela — pois, assim como não há queixas sobre o Senhor por que criou ao ímpio mãos para fazer com elas mal, e membros íntegros e uma força sã e forte para vir sobre a nudez cometer incesto e o semelhante a isto, assim não há queixas sobre ele por que não mudou a constelação ou o decreto que se decretou sobre a nação, para que não chegassem bens ao ímpio pelo lado da generalidade da nação ou da cidade em que ele assenta, sobre a qual se decretou que se sustentem os seus homens em tranquilidade. E também virão bens por este caminho ao ímpio pelo lado da indicação da constelação particular sobre ele, quando não for ele um ímpio num modo da maldade tal que se vença a constelação e se reverta sobre ele do bem ao mal; e isto se assemelha à providência geral, porque este bem chega ao ímpio pelo lado da ordenação geral, que indica que o que nasce na constelação tal será próspero.
(א) מִצַּד הַהַשְׁגָּחָה הַכּוֹלֶלֶת — מִצַּד כְּלָלוּת הָאֻמָּה שֶׁנִּגְזַר עָלֶיהָ שֵׁבֶת בְּשַׁלְוָה. כְּשֵׁם שֶׁאֵין תַּרְעֹמֶת לָמָּה בָּרָא לָרָשָׁע יָדַיִם, כֵּן אֵין תַּרְעֹמֶת לָמָּה לֹא שִׁנָּה הַמַּעֲרֶכֶת. וְגַם מִצַּד הוֹרָאַת הַמַּעֲרֶכֶת הַפְּרָטִית.
4 E a segunda: que já virão ao ímpio bens pelo lado da providência individual ishit, e isto é para retribuir-lhe o bem por algum mérito que tem ou alguma mitsvá que fez — pois, porque o Santo, bendito seja, é justo e reto, não defrauda a recompensa de nenhuma criatura, e por isso é cabido que pague ao ímpio a recompensa dos méritos que fez, para expulsá-lo tordo da recompensa da alma e da sua suavidade no mundo vindouro. E isto é o que disse a Escritura "e paga aos que o odeiam à sua face, para fazê-lo perecer" (Deuteronômio 7:10), como traduziu Onkelos: "e paga aos que o odeiam as coisas boas que eles fazem perante ele em suas vidas, para fazê-los perecer". E assim disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "'o ímpio e bem-lhe-vai' — é um ímpio que não é completo"; e disseram: "todo aquele cujas rebeldias são mais do que os seus méritos, se lhe faz o bem neste mundo, e é semelhante a quem cumpriu toda a Torá inteira"; e disseram: "como recompensa de duas lágrimas que derramou Esaú, o ímpio, mereceu e saíram dele os príncipes de Edom" etc.
(ב) מִצַּד הַהַשְׁגָּחָה הָאִישִׁית — לִגְמֹל לוֹ עַל זְכוּת, לְטָרְדוֹ מִשְּׂכַר הַנֶּפֶשׁ. ״וּמְשַׁלֵּם לְשֹׂנְאָיו אֶל פָּנָיו לְהַאֲבִידוֹ״. ״כָּל מִי שֶׁעֲוֹנוֹתָיו מְרֻבִּין... מְטִיבִין לוֹ״. ״בִּשְׂכַר שְׁתֵּי דְמָעוֹת שֶׁהוֹרִיד עֵשָׂו״.
5 E se acha isto explícito nas palavras do poeta: disse "o homem bruto não conhece, e o tolo não entende isto: ao florescerem os ímpios" etc. (Salmos 92:7–8); e esclareceu que isto é para que lhes chegue um castigo eterno, e isto é o que concluiu "é para serem destruídos para sempre" (Salmos 92:8); e esclareceu no fim das suas palavras o motivo desta prosperidade — que é "para anunciar para mostrar que reto é o Senhor" (Salmos 92:16), quer dizer: e não defrauda a recompensa de nenhuma criatura. E assim achamos a Acab, que era um servidor de idolatria — que se disse sobre ele "somente não houve como Acab, que se vendeu para fazer o mal aos olhos do Senhor" (I Reis 21:25) — e, com tudo isto, porque se cobriu de saco e se humilhou diante do Senhor, não defraudou a recompensa daquela humilhação e anulou dele o decreto nos seus dias, adiando-o até os dias do seu filho; disse o Senhor a Elias "viste como se humilhou Acab diante de mim?" etc. (I Reis 21:29), "não trarei o mal nos seus dias" etc. (I Reis 21:29). E já se acha nos nossos mestres, de abençoada memória, que tragam prova dos bens que chegam ao ímpio por este caminho sobre a recompensa dos justos para o mundo vindouro: disseram "se é assim para os transgressores da sua vontade, quanto mais para os fazedores da sua vontade — é muito mais e mais"; e disseram "assim como se paga recompensa boa aos ímpios neste mundo por uma mitsvá leve que está na sua mão, assim se paga recompensa boa aos justos para o mundo vindouro" etc.
״אִישׁ בַּעַר לֹא יֵדַע... בִּפְרֹחַ רְשָׁעִים... לְהִשָּׁמְדָם עֲדֵי עַד... לְהַגִּיד כִּי יָשָׁר ה׳״. אַחְאָב — ״הֲרָאִיתָ כִּי נִכְנַע אַחְאָב... לֹא אָבִיא הָרָעָה בְּיָמָיו״. ״אִם לְעוֹבְרֵי רְצוֹנוֹ כָּךְ, לְעוֹשֵׂי רְצוֹנוֹ עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה״.
6 E a terceira: que já chegam bens aos ímpios por causa da providência sobre os outros — seja sobre os bons, seja sobre os ímpios. Sobre os bons, como prosperaram os bens de Lavan por causa de Jacó (Gênesis 30:27), e se abençoou a casa do egípcio em razão de José (Gênesis 39:5), e se salvou Ló no mérito de Abraão (Gênesis 19:29) — e não só que se salvou Ló, mas também os habitantes de Tsoar se salvaram por causa de Ló, que se salvou no mérito de Abraão: disse o anjo "eis que levantei a tua face também quanto a esta coisa, de não destruir a cidade" etc. (Gênesis 19:21). E por este caminho já prosperam os filhos, mesmo se forem ímpios, no mérito dos pais: disse Moisés "lembra-te de Abraão, de Isaac e de Israel, teus servos" (Êxodo 32:13). E assim prosperam os pais por causa dos filhos, pelo modo de "o que o justo prepara e o justo veste" (Jó 27:17), "e está guardada para o justo a riqueza do pecador" (cf. Provérbios 13:22) — que às vezes chega o ímpio a ajuntar fortuna e prospera muito para que caia ela diante do seu filho; e assim alonga o ímpio os dias para que saia dele um filho justo — disseram os nossos mestres, de abençoada memória, que alongou o Santo, bendito seja, os dias de Acaz para que saísse dele Ezequias; e desta espécie há muito.
(ג) בִּסְבַת הַהַשְׁגָּחָה עַל אֲחֵרִים: לָבָן בַּעֲבוּר יַעֲקֹב; בֵּית הַמִּצְרִי בִּגְלַל יוֹסֵף; לוֹט וְיוֹשְׁבֵי צוֹעַר בִּזְכוּת אַבְרָהָם. הַבָּנִים בִּזְכוּת אָבוֹת; הָאָבוֹת בַּעֲבוּר בָּנִים — ״הֶאֱרִיךְ לְאָחָז כְּדֵי שֶׁיֵּצֵא מִמֶּנּוּ חִזְקִיָּהוּ״.
7 E seja pelo lado da providência sobre outros que são ímpios, para cobrar-se deles — até o ponto de que já prosperam ímpios outros que são como eles, por serem eles instrumento da ira do Senhor, bendito seja, como deu prosperidade a Nabucodonosor, o ímpio, e a Senaqueribe e a Tito, para tomar a sua vingança dos ímpios de Israel e das nações outras por meio deles. Disse a Escritura sobre Senaqueribe "ai da Assíria, vara da minha ira" (Isaías 10:5), "com uma nação ímpia o enviarei, e sobre o povo da minha cólera o ordenarei, para saquear despojo e para pilhar pilhagem" (Isaías 10:6); e assim se disse sobre Nabucodonosor "um martelo és tu para mim, instrumentos de guerra" etc. (Jeremias 51:20), "e com elas estilhaçarei nações" etc. (Jeremias 51:20).
וְעַל אֲחֵרִים שֶׁהֵם רְשָׁעִים — לְהִפָּרַע מֵהֶם, כְּלִי זַעְמוֹ: נְבוּכַדְנֶצַּר, סַנְחֵרִיב, טִיטוּס. ״הוֹי אַשּׁוּר שֵׁבֶט אַפִּי״. ״מַפֵּץ אַתָּה לִי כְּלֵי מִלְחָמָה״.
8 E a quarta é que já chegam bens aos ímpios, seja por causa deles mesmos, seja por causa dos justos. Por causa deles mesmos: que às vezes se derrama o Senhor sobre eles um bem para endurecer o seu coração de modo que não se voltem em teshuvá diante dele, ao eles terem se enraivecido e entristecido o seu espírito santo e terem exagerado ao injustiçar; e por este caminho é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, de que o Santo, bendito seja, retém os caminhos da teshuvá dos ímpios; ou o oposto disto — que o Senhor, bendito seja, é desejante de bondade chafetz chesed e lhes alonga os dias para que se voltem em teshuvá.
(ד) בַּעֲבוּר עַצְמָם: לְחַזֵּק לִבָּם שֶׁלֹּא יָשׁוּבוּ — ״מוֹנֵעַ דַּרְכֵי הַתְּשׁוּבָה מִן הָרְשָׁעִים״; אוֹ בְּהֵפֶךְ, ״חָפֵץ חֶסֶד״ וּמַאֲרִיךְ כְּדֵי שֶׁיָּשׁוּבוּ.
9 E seja por causa dos justos: que, por causa dos bens que chegam ao ímpio enquanto ele se mantém agarrado à sua maldade, se multiplica a recompensa dos justos que se sustentam naquela geração e veem isto e, com tudo isto, se mantêm agarrados à sua integridade. E isto é: que, se o castigo chegasse ao ímpio logo ao fazer a ação má, não seria cabido de atribuir um mérito aos justos que servem o Senhor por amor, porque haveria lugar para o litigante a discordar e dizer que o seu serviço ao Senhor não é por amor mas por temor do castigo que veem que chega aos ímpios; mas, quando se vê que não chega o castigo aos homens da maldade logo ao fazerem o mal, e os justos pensam que jamais chegará sobre eles um castigo — e por causa disto faz cada homem aquilo que é reto aos seus olhos — e mesmo assim os justos persistem, então a sua recompensa se multiplica.
וּבַעֲבוּר הַצַּדִּיקִים: שֶׁבִּרְאוֹתָם הַטּוֹב הַמַּגִּיעַ לָרָשָׁע וְעִם כָּל זֶה מַחֲזִיקִים בְּתֻמָּתָם — יִתְרַבֶּה שְׂכָרָם. שֶׁאִם הָיָה הָעֹנֶשׁ מַגִּיעַ מִיָּד, הָיָה מָקוֹם לוֹמַר שֶׁעֲבוֹדָתָם מִיִּרְאַת הָעֹנֶשׁ.
10 E assim Salomão testemunha sobre isto no livro de Eclesiastes: disse "porque não se faz a sentença da obra má depressa, por isso está cheio o coração dos filhos do homem neles de ousadia para fazer o mal" (Eclesiastes 8:11) — e quer dizer, como que a espantar-se por este caminho, dizendo: por que não chega o castigo ao ímpio logo ao fazer a ação má? — que isto sem dúvida é uma causa para que se encha o coração do homem para fazer o mal; e responde que isto é pelas duas causas que mencionamos: disse "que um pecador faz o mal cem vezes e Ele lhe alonga os dias" (Eclesiastes 8:12), quer dizer que a causa nisto é que o Senhor, bendito seja, alonga ao ímpio — seja para que se volte em teshuvá diante dele, seja para que não se volte, como escrevemos; e esclareceu também que isto será por uma causa outra, e disse "pois também sei eu que haverá bem para os tementes de D'us, que temem de diante dele" (Eclesiastes 8:12), quer dizer que a causa do alongamento é também para que se estenda um bem aos tementes de D'us, que temem de diante dele e o servem por amor e não por temor de castigo.
״אֲשֶׁר אֵין נַעֲשָׂה פִתְגָם מַעֲשֵׂה הָרָעָה מְהֵרָה עַל כֵּן מָלֵא לֵב בְּנֵי הָאָדָם בָּהֶם לַעֲשׂוֹת רָע״. ״אֲשֶׁר חֹטֶא עֹשֶׂה רָע מְאַת וּמַאֲרִיךְ לוֹ... כִּי גַם יוֹדֵעַ אָנִי אֲשֶׁר יִהְיֶה טּוֹב לְיִרְאֵי הָאֱלֹהִים״.
11 E estas são as causas pelas quais chegam os bens ao ímpio — e isto é quando confessamos o predicado e o sujeito o atributo e o portador, quer dizer, que o ímpio é um ímpio de verdade e o bem é um bem de verdade. Mas já é possível que neguemos o sujeito, quando dissermos que aquilo com que nós o imaginamos que ele é um ímpio não é assim — pois talvez o conhecedor dos pensamentos saiba nele que é um justo; disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "aquele que diz à mulher 'eis que estás consagrada a mim com a condição de que sou um justo' — mesmo se é um ímpio completo, ela está consagrada, pois talvez pensou em teshuvá no seu coração".
אֵלּוּ כְּשֶׁנּוֹדֶה הַנָּשׂוּא וְהַנּוֹשֵׂא. אֲבָל אֶפְשָׁר שֶׁנַּכְחִישׁ הַנּוֹשֵׂא — שֶׁמָּה שֶׁנְּדַמֶּה בּוֹ שֶׁהוּא רָשָׁע אֵינוֹ כֵן, שֶׁמָּא יוֹדֵעַ מַחֲשָׁבוֹת יוֹדֵעַ בּוֹ שֶׁהוּא צַדִּיק.
12 E assim já é possível que neguemos o predicado, quando dissermos que aquilo com que nós o imaginamos que é um bem não é um bem. Disse Salomão "há riqueza guardada para o seu dono para o seu mal" (Eclesiastes 5:12); e como a fala de Elifaz "todos os dias do ímpio ele se contorce em angústia" (Jó 15:20), quer dizer: e é possível que aqueles bens que chegam a ele sejam males, porque ele se contorce e dói sempre e se aflige e se preocupa — como a fala dos nossos mestres, de abençoada memória, "quem multiplica bens multiplica preocupação", e como a fala de Davi "muitas são as dores do ímpio" (Salmos 32:10). E até aquilo que se vê aos olhos que é um bem é possível que não seja um bem — como aquele cujo muro estava inclinado a cair, e havia debaixo dele um tesouro, e, se caísse, se-lhe revelaria; e pela providência do Senhor se endireitou o muro, e todo o povo se espanta e diz "como chegou ao ímpio esta providência grande?" — e, pelo caminho da verdade, era para o mal do ímpio reter dele o achar do tesouro; e como o semelhante a isto há muito do que se poderia contar.
וְאֶפְשָׁר שֶׁנַּכְחִישׁ הַנָּשׂוּא — שֶׁאֵינוֹ טוֹב: ״עֹשֶׁר שָׁמוּר לִבְעָלָיו לְרָעָתוֹ״; ״מַרְבֶּה נְכָסִים מַרְבֶּה דְאָגָה״; ״רַבִּים מַכְאוֹבִים לָרָשָׁע״. הַכֹּתֶל הַנּוֹטֶה שֶׁתַּחְתָּיו מַטְמוֹן וְנִתְיַשֵּׁר — לְרָעָתוֹ.
Demonstrada a providência (cap. 8–11), Albo enfrenta agora a pergunta que motivou todo o Maamar — começando pela queixa que ele próprio (cap. 7) classificou como a mais dura: "ímpio e bem-lhe-vai". A estrutura é lógica: a proposição "este ímpio prospera" tem um sujeito ("este é ímpio") e um predicado ("prospera/tem bem"). Albo primeiro concede ambos e mostra que ainda assim há quatro explicações justas; depois mostra que, frequentemente, um dos dois termos é simplesmente falso.
1. Providência geral. O ímpio prospera porque pertence a uma nação ou cidade prósperas, ou nasceu sob constelação favorável. Albo neutraliza a indignação com uma analogia poderosa: não nos queixamos de que D'us deu ao ímpio mãos e força física que ele usa para o mal — pois esses são dons da ordem natural geral; igualmente, não há queixa de que Ele não suspenda a constelação ou o destino da nação só para privar este ímpio do benefício coletivo.
2. Recompensa esgotada neste mundo. A causa mais severa: D'us "não defrauda recompensa de criatura alguma", então paga ao ímpio aqui os poucos méritos que tem — precisamente para "expulsá-lo" (tordo) da recompensa eterna da alma. A prosperidade do ímpio é, nesta chave, um sinal sombrio, não um favor: "para serem destruídos para sempre" (Sl 92:8). Acab, o pior dos reis, teve o decreto adiado por uma única humilhação sincera (I Reis 21:29) — e os Sábios invertem o argumento a fortiori: se D'us paga tão pontualmente os transgressores, quanto mais recompensará os justos no mundo vindouro.
3. Providência sobre terceiros. O bem do ímpio pode ser um "transbordamento" da providência destinada a outros: a justos próximos (Lavan por Jacó, a casa de Potifar por José, Ló e até Tsoar pelo mérito de Abraão), a descendentes ou ancestrais ("guardada para o justo a riqueza do pecador"; Acaz teve vida prolongada para que dele nascesse Ezequias), ou ainda a outros ímpios — quando o ímpio próspero é "vara do furor" divino, instrumento de castigo (Nabucodonosor, Senaqueribe, Tito: "ai da Assíria, vara da minha ira", Is 10:5).
4. Em benefício do próprio ímpio ou dos justos. Em benefício do ímpio: ou para endurecer-lhe o coração quando já se tornou irrecuperável (D'us "retém os caminhos da teshuvá"), ou — ao contrário — porque "deseja a bondade" e lhe dá tempo de se arrepender. Em benefício dos justos: a impunidade temporária do ímpio é o que torna o serviço dos justos genuinamente "por amor" — se o castigo fosse imediato, sempre se poderia dizer que servem só por medo. Salomão sela ambas as razões (Ecl 8:11–12): o adiamento da sentença, embora "encha o coração para fazer o mal", existe para que o pecador se arrependa e para que "haja bem aos tementes de D'us que temem de diante dele" — isto é, por amor.
Mas, antes mesmo das quatro causas, há a saída mais simples: a própria proposição pode ser falsa. Negar o sujeito: talvez o "ímpio" não seja realmente ímpio — "o homem vê os olhos, mas D'us vê o coração"; o Talmud admite até que um "ímpio completo" possa ter sido um justo no instante em que "pensou teshuvá". Negar o predicado: talvez o "bem" não seja bem — a riqueza "guardada para o mal do dono" (Ecl 5:12), as dores e a angústia que acompanham a fortuna ("multiplica bens, multiplica preocupação"). E a parábola final é a contraparte exata do exemplo do cap. 5 (a pedra que salva o viajante): o muro inclinado que, por sobre um tesouro escondido, é "milagrosamente" endireitado — e a multidão admira a "grande providência" sobre o ímpio, sem perceber que foi precisamente uma providência contra ele, privando-o do tesouro. A aparência engana; o que parece favor pode ser sentença. Resolvida a queixa mais dura, o capítulo seguinte enfrentará a inversa — "justo e mal-lhe-vai" —, o coração da teodiceia.
A remoção da queixa "justo e mal-lhe-vai". Muitas vezes o homem sabe que os seus pecados causaram o seu sofrimento e ainda assim protesta. Mas, mesmo concedido que o justo seja verdadeiramente justo, os males chegam a ele por quatro causas paralelas às do ímpio: pela natureza geral e o decreto da nação; pela providência individual (depurar pecados leves, ou preveni-lo de cair); por causa dos ímpios ou dos pais; e — a quarta — os sofrimentos de amor e a provação, em três modos, culminando na Akedá e em Rabi Akiva.
A remoção da queixa "justo e mal-lhe-vai". Muitas vezes o homem sabe que os seus pecados causaram o seu sofrimento e ainda assim protesta. Mas, mesmo concedido que o justo seja verdadeiramente justo, os males chegam a ele por quatro causas paralelas às do ímpio: pela natureza geral e o decreto da nação; pela providência individual (depurar pecados leves, ou preveni-lo de cair); por causa dos ímpios ou dos pais; e — a quarta — os sofrimentos de amor e a provação, em três modos, culminando na Akedá e em Rabi Akiva.
1 Sobre a remoção da queixa d'"o justo e mal-lhe-vai".
בַּהֲסָרַת תְּלוּנַת צַדִּיק וְרַע לוֹ.
2 E dizemos que muitas vezes sabem os filhos do homem que as suas rebeldias causam os seus sofrimentos, e, com tudo isto, gritam e clamam com protesto sobre os juízos do Senhor. E isto se assemelha aquele a quem se escureceram os olhos pela muita cópula, ou ao doente que sabe que a má conduta da sua condução o trouxe à sua doença, e, com tudo isto, se aflige e clama com protesto sobre a sua doença; e sobre aquele que é semelhante a isto disse Salomão "a tolice do homem perverte o seu caminho, e contra o Senhor se irrita o seu coração" (Provérbios 19:3) — como os irmãos de José, que disseram "que é isto que fez D'us a nós?" (Gênesis 42:28), com o facto de estarem eles a dizer "porém culpados somos nós" etc. (Gênesis 42:21); e não há necessidade de falar dos semelhantes a estes.
פְּעָמִים רַבּוֹת יוֹדְעִין שֶׁעֲוֹנוֹתֵיהֶם גּוֹרְמִין יִסּוּרֵיהֶן, וְעִם כָּל זֶה קוֹרְאִין תִּגָּר. ״אִוֶּלֶת אָדָם תְּסַלֵּף דַּרְכּוֹ וְעַל ה׳ יִזְעַף לִבּוֹ״. כַּאֲחֵי יוֹסֵף ״מַה זֹּאת עָשָׂה אֱלֹהִים לָנוּ״ — עִם ״אֲבָל אֲשֵׁמִים אֲנַחְנוּ״.
3 E assim muitas vezes peca o homem, e, porque o Senhor, bendito seja, é abundante de bondade, alonga ao pecador — talvez se volte em teshuvá — até o ponto de que se esquece o pecador do seu pecado; e, quando traz o Santo, bendito seja, sobre ele sofrimentos pelo pecado que precedeu, para despertá-lo a que se volte ao Senhor, clama com protesto, porque se esqueceu das suas rebeldias e pensa que, assim como ele não se recorda delas, assim o Senhor, bendito seja, as esqueceu, e grita e diz que foi em vão que vieram sobre ele estes sofrimentos. E os filhos do homem que não sabem ou não se recordam dos seus pecados que precederam pensarão sobre o Senhor coisa errônea; e isto se assemelha a quem emprestou ao seu companheiro mil zuz, e o credor fez bondade com o devedor e lhe alongou o prazo do pagamento, e tanto se alongou o tempo até o ponto de que se esqueceu o devedor da sua dívida, e, quando vem o credor a cobrar a sua dívida do devedor, ele a nega e se queixa dele e diz que o aperta em vão; e os homens que não sabem da dívida desculpam o devedor e dizem: se fosse verdade que lhe devia, por que não a cobrou até agora? — e o devedor, depois de se recordar da dívida, se queixa: por que não me alonga o credor como me alongou até agora? — e todas estas são palavras de vaidade, pois, se fosse assim, não cobraria o Santo, bendito seja, a sua dívida jamais.
מַאֲרִיךְ לַחוֹטֵא עַד שֶׁשּׁוֹכֵחַ חֶטְאוֹ, וּכְשֶׁבָּאִין הַיִּסּוּרִין קוֹרֵא תִגָּר. כְּמַלְוֶה אֶלֶף זוּז שֶׁהֶאֱרִיךְ זְמַן הַפֵּרָעוֹן עַד שֶׁשָּׁכַח הַלֹּוֶה, וּכְשֶׁתּוֹבֵעַ מַכְחִישׁ וּמִתְרַעֵם — דִּבְרֵי הֲבַאי.
4 E sobre aquele que é semelhante a isto disseram: "todo aquele que diz que o Santo, bendito seja, é indulgente vatran — serão indulgenciadas as suas entranhas a sua vida; senão que Ele alonga a sua ira e cobra o que é dele". E sobre aquele que é semelhante a isto disse o profeta "eis que está escrita diante de mim, não me calarei, mas pagarei" etc. (Isaías 65:6) — quer dizer: não penseis que, porque esquecestes vós as vossas rebeldias, eu as esqueci; pois não é assim, que ei-las escritas diante de mim, e não me calarei de pagar as rebeldias ao seio dos pecadores. E não temos o que tratar com estes que esquecem a si mesmos, nem com os primeiros que transgridem em si mesmos e clamam com protesto por causa da simplicidade e da tolice; disse Elifaz "pois ao tolo mata o desgosto" etc. (Jó 5:2).
״כָּל הָאוֹמֵר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וַתְּרָן הוּא יִתְוַתְּרוּן מְעוֹהִי, אֶלָּא מַאֲרִיךְ אַפֵּיהּ וְגָבֵי דִּילֵיהּ״. ״הִנֵּה כְתוּבָה לְפָנָי לֹא אֶחֱשֶׂה כִּי אִם שִׁלַּמְתִּי״.
5 E assim muitos do povo da terra amei ha-aretz clamam com protesto e falam sobre o Senhor coisa errônea e gritam sobre os juízos do Senhor sem intelecto e sem entendimento; e, com o facto de que se acha para eles o necessário no seu sustento, e mais do que isto, eles se queixam sobre o facto de que não têm para eles prata e ouro em abundância, para que possam encher o seu ventre e embriagar-se com vinho forte cheio de mistura, e sobre por que não há para eles uma força forte e um corpo sadio, para que comam e bebam e copulem cópulas muitas e não lhes doa a sua cabeça, e se deleitem nos deleites do porco e do asno; e gritam: por que há para fulano prata e ouro mais do que para ele?
רַבִּים מֵעַמֵּי הָאָרֶץ קוֹרְאִים תִּגָּר בְּלִי שֵׂכֶל, וְעִם הֱיוֹת לָהֶם הַהֶכְרֵחַ — מִתְרַעֲמִים שֶׁלֹּא יִהְיֶה לָהֶם כֶּסֶף וְזָהָב לָרֹב... וְיִתְעַנְּגוּ בְּתַעֲנוּגֵי הַחֲזִיר וְהַחֲמוֹר.
6 E já exagerou o Rav, o Guia Maimônides, a responder sobre estes no capítulo doze da parte terceira do Guia, e é manifesto que a queixa destes hereges não tem lugar de modo algum, pois a resposta sobre eles, pelo caminho geral, é negar o sujeito ou o predicado: que aquele a quem o pensam um justo não é um justo, pois aquele que é um simples e um tolo e que se esquece a si mesmo, ou um glutão e um beberrão cuja mente é curta — de modo que não o sacie a fortuna —, não é cabido que se chame justo, pois "não é como vê o homem que D'us vê, que o homem vê para os olhos e o Senhor vê para o coração" (cf. I Samuel 16:7); e assim é possível negar o predicado, pois aquilo com que o pensam um mal não é um mal — que às vezes vem ao homem um mal pequeno para salvá-lo de um mal grande, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, sobre o versículo "louvar-te-ei, Senhor" etc. (Isaías 12:1), que mencionamos acima cap. 5; e isto é também como a fala de Eliú "Ele livra o pobre na sua pobreza" (Jó 36:15); e se acham muitas vezes pessoas a clamar com protesto sobre um mal pequeno que é a causa para um bem grande, e sobre aquele que é semelhante a isto disse o profeta "e eu repreendi, fortaleci os seus braços, e a mim me pensam um mal" (Oseias 7:15). E a regra nisto é que em todos estes e nos semelhantes a eles é possível negar o predicado ou o sujeito.
הִרְבָּה הָרַב הַמּוֹרֶה לְהָשִׁיב (חֵלֶק ג׳ פֶּרֶק יב). הַתְּשׁוּבָה: לְהַכְחִישׁ הַנּוֹשֵׂא אוֹ הַנָּשׂוּא. ״ה׳ יִרְאֶה לַלֵּבָב״. ״יְחַלֵּץ עָנִי בְעָנְיוֹ״. ״וַאֲנִי יִסַּרְתִּי חִזַּקְתִּי זְרֹעוֹתָם וְאֵלַי יְחַשְּׁבוּ רָע״.
7 Mas, mesmo se estabelecermos o justo como sendo assim de verdade, e o mal como sendo um mal de verdade — já acontecem ao justo males por quatro causas, semelhantes às quatro causas que mencionamos no "ímpio e bem-lhe-vai".
גַּם אִם נַנִּיחַ הַצַּדִּיק שֶׁיִּהְיֶה כֵן בֶּאֱמֶת וְהָרַע שֶׁיִּהְיֶה רַע בֶּאֱמֶת — יִקְרוּ אֶל הַצַּדִּיק רָעוֹת לְאַרְבַּע סִבּוֹת, דּוֹמוֹת לְאַרְבַּע הַסִּבּוֹת שֶׁזָּכַרְנוּ בְּרָשָׁע וְטוֹב לוֹ.
8 A uma: pelo lado da natureza geral, como a natureza da geração e da corrupção haviá e hefsed — como se dissesses, "uma chuva torrencial" (cf. Provérbios 28:3) que arrasta o justo com o ímpio, quando não for o justo num modo cabido de que se supervisione sobre ele para salvá-lo do seu mal; ou pelo lado da natureza geral na indicação da constelação, quando não for o justo num modo da perfeição tal que vença a indicação da constelação; ou quando for ele fraco de temperamento e adoeça sempre; ou quando for de uma nação inferior, ou de uma cidade sobre a qual se decretou algum decreto, e cheguem males ao justo por meio dela — porque os decretos gerais que se decretam sobre a nação recaem sobre os particulares não pelo lado deles mesmos, mas pelo lado de serem eles partes daquela nação; e por isso recaem sobre eles os males, sejam eles cabidos a eles ou não-cabidos, como foram exilados Daniel e os seus companheiros no exílio do rei Joaquim, e Jeremias no exílio de Tsidquiahu, pelo lado do decreto que se decretou sobre Jerusalém ou sobre a nação, ainda que pelo lado deles mesmos não fossem cabidos ao exílio.
(א) מִצַּד הַטֶּבַע הַכּוֹלֵל: ״גֶּשֶׁם שׁוֹטֵף״ צַדִּיק עִם רָשָׁע; אוֹ הוֹרָאַת הַמַּעֲרֶכֶת; אוֹ חֲלוּשׁ הַמֶּזֶג; אוֹ מֵאֻמָּה שֶׁנִּגְזַר עָלֶיהָ. הַגְּזֵרוֹת הַכּוֹלְלוֹת חָלוֹת עַל הַפְּרָטִים — כְּדָנִיֵּאל וְיִרְמִיָה בַּגָּלוּת.
9 E às vezes também recaem males sobre o justo por causa da generalidade da nação pelo lado do castigo — pois se lhe conta por rebeldia quando não pede misericórdia sobre os filhos da sua geração, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, que Elimélech e Machlon e Quilion, que eram os grandes da geração, foram castigados porque lhes era cabido pedir misericórdia sobre os filhos da sua geração e não pediram. E isto é: que o justo é cabido a ele que ande nos caminhos do Senhor e que deseje a subsistência do mundo, como ele, bendito seja, deseja a sua subsistência — disse a Escritura "pois não desejo a morte do que morre, palavra do Senhor D'us, mas o seu voltar dos seus caminhos e o viver" (Ezequiel 18:32) —; e, quando não fizer assim, ele é castigado sobre isso.
וּפְעָמִים עַל צַד הָעֹנֶשׁ — שֶׁלֹּא בִקֵּשׁ רַחֲמִים עַל בְּנֵי דוֹרוֹ: אֱלִימֶלֶךְ וּמַחְלוֹן וְכִלְיוֹן. ״כִּי לֹא אֶחְפֹּץ בְּמוֹת הַמֵּת... כִּי אִם בְּשׁוּבוֹ מִדְּרָכָיו וְחָיָה״.
10 E às vezes recaem sobre o justo males por causa da generalidade da nação, não pelo lado do castigo, mas para expiar sobre a generalidade da nação. E isto é: que, por o ser o Senhor, bendito seja, desejante da subsistência do mundo, e por saber que o justo receberá os sofrimentos com semblante de faces belas e não clamará com protesto sobre as medidas do Santo, bendito seja, por isso traz o Santo, bendito seja, sofrimentos sobre o justo como resgate kofer do mal decretado a vir sobre a generalidade da nação, para que seja uma expiação sobre ela; e isto é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "a morte dos justos expia". E se acha isto explícito na Escritura: disse o Senhor a Ezequiel "e tu, deita-te sobre o teu lado esquerdo e põe a iniquidade da casa de Israel sobre ele; pelo número dos dias que te deitares sobre ele Ele carregarás a sua iniquidade" (Ezequiel 4:4), "e, ao completares estes, deita-te sobre o teu lado direito uma segunda vez e carregarás a iniquidade da casa de Judá" etc. (Ezequiel 4:6). E por este caminho é tudo o que se menciona no capítulo "eis que prosperará o meu servo" (Isaías 52:13ss) — sobre Israel, a quem chamou "meu servo", "e tu não temas, meu servo Jacó" (Jeremias 30:10), "e tu, Israel, meu servo" (Isaías 41:8); e disse "certamente as nossas doenças ele carregou e as nossas dores as suportou, e nós o pensamos ferido, golpeado de D'us e afligido" (Isaías 53:4) — diz que os que veem os sofrimentos a virem sobre os justos pensarão que vêm sobre eles por causa deles mesmos e se espantarão disto; e não é assim, pois não vêm sobre eles por seu pecado, mas que eles são uma expiação sobre a generalidade do mundo, ou sobre a generalidade da nação, ou sobre a cidade.
וּפַעַם לְכַפֵּר עַל כְּלַל הָאֻמָּה: ״מִיתָתָן שֶׁל צַדִּיקִים מְכַפֶּרֶת״. יְחֶזְקֵאל ״וְשַׂמְתָּ אֶת עֲוֹן בֵּית יִשְׂרָאֵל עָלָיו״. ״אָכֵן חֳלָיֵנוּ הוּא נָשָׂא וּמַכְאֹבֵינוּ סְבָלָם״ — כַּפָּרָה עַל כְּלַל הָעוֹלָם.
11 E a causa segunda é que às vezes vêm males sobre o justo pelo lado da providência individual, e isto é: que "um homem não há justo na terra que faça o bem e não peque" (Eclesiastes 7:20), e talvez pecou em transgressões nas quais houve conhecimento, seja no princípio, seja no fim, e não pôs ao seu coração o voltar-se delas, ou porque não houve nelas o arrependimento cabido; e quer o Santo, bendito seja, depurar lemarek aquelas transgressões que estão na sua mão com um pouco de sofrimentos na sua vida, para que esteja limpo de todo pecado e possa merecer a vida do mundo vindouro — pois, assim como paga o Santo, bendito seja, ao ímpio a recompensa dos seus bens neste mundo para julgá-lo na perdição eterna, assim chega o castigo sobre o justo pelo pouco das transgressões que estão na sua mão para que mereça a suavidade eterna; como disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "aquele cuja maioria são méritos e a minoria transgressões — se cobra dele pelo pouco das transgressões leves que fez neste mundo, para lhe tomar a sua recompensa completa no mundo vindouro".
(ב) מִצַּד הַהַשְׁגָּחָה הָאִישִׁית: ״אָדָם אֵין צַדִּיק בָּאָרֶץ אֲשֶׁר יַעֲשֶׂה טּוֹב וְלֹא יֶחֱטָא״. לְמָרֵק עֲבֵרוֹת קַלּוֹת בְּמַעַט יִסּוּרִין, כְּדֵי שֶׁיִּזְכֶּה לְנֹעַם נִצְחִי. ״רֻבּוֹ זְכֻיּוֹת וּמִעוּטוֹ עֲבֵרוֹת נִפְרָעִין מִמֶּנּוּ״.
12 E também às vezes vêm sobre o justo sofrimentos pelo lado da providência individual para guardá-lo do pecado aquele no qual ele começa a tropeçar ou para o qual ele está preparado, pelo modo de "e engordou Yeshurun e coiceou" (Deuteronômio 32:15), e como disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "agrada a pobreza aos judeus" — e isto é para que não coiceiem pela muita bondade, como a fala do profeta "e prata lhes multipliquei" etc. (Oseias 2:10).
וְלִשְׁמֹר אוֹתוֹ מִן הַחֵטְא שֶׁמּוּכָן אֵלָיו — ״וַיִּשְׁמַן יְשֻׁרוּן וַיִּבְעָט״; ״יָאֵי עֲנִיּוּתָא לִיהוּדָאֵי״, שֶׁלֹּא יִבְעֲטוּ מֵרֹב הַטּוֹבָה.
13 A terceira é que às vezes chegam ao justo males por causa do ímpio, assim como chegam bens ao ímpio por causa do justo, como dissemos; e isto se dá por faces diversas. Seja porque os pais foram ímpios e se decretou sobre eles e sobre a sua semente algum castigo que se estende por via de necessidade sobre toda aquela semente, sejam eles ímpios ou justos — como se estendeu o castigo sobre toda a semente de Eli por causa do pecado dos pais, e foram mortos Achimélech e Nov, a cidade dos sacerdotes, naquele pecado; e como se estendeu o castigo do pecado de Adão sobre toda a sua semente, sejam eles justos ou ímpios, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "quatro morreram pela picada conselho da serpente" — quer dizer que não havia na sua mão uma rebeldia pela qual morressem, se não pelo pecado primordial com que pecou Adão pelo conselho da serpente.
(ג) רָעוֹת אֶל הַצַּדִּיק בִּסְבַת הָרָשָׁע: אִם הָאָבוֹת רְשָׁעִים וְנִגְזַר עַל הַזֶּרַע — כְּזֶרַע עֵלִי (אֲחִימֶלֶךְ וְנֹב), וְעֹנֶשׁ אָדָם עַל זַרְעוֹ: ״אַרְבָּעָה מֵתוּ בְּעֶטְיוֹ שֶׁל נָחָשׁ״.
14 E seja porque, ainda que não se decretasse um decreto sobre os pais e sobre a sua semente, mas sobre os pais apenas, se estende o castigo dos pais aos filhos por acidente mikré, ainda que sejam eles justos — como aquele que era rico e por causa do seu pecado se perdeu o seu dinheiro e ficaram os seus filhos na pobreza, ainda que sejam eles justos, pela iniquidade dos pais; ou como, se os pais pecaram e se decretou sobre eles exílio e foram exilados, e ficaram os seus filhos depois deles no exílio pela iniquidade do seu pai. E por este caminho se diz "os nossos pais pecaram e não estão mais, e nós as suas iniquidades suportamos savalnu" (Lamentações 5:7) — pois, se os pais não pecassem, não se perderia o seu dinheiro ou não seriam exilados, e ficariam os filhos na sua terra ou seriam ricos com o dinheiro do seu pai que lhes restara — enquanto não forem os filhos num modo da maldade tal que sejam exilados da sua terra ou percam o seu dinheiro, ainda que não estejam no grau do bem tal que mereçam voltar a assentar na terra ou a enriquecer no princípio. E se acha, conforme isto, que o exílio ou a pobreza que veio sobre os pais por seu pecado — suportam-no os filhos; não que o filho carregue a culpa na iniquidade do pai — pois isto seria uma injustiça no direito do Senhor, bendito seja, que Deus o livre. E já esclareceu isto Ezequiel e disse "a alma que peca, ela morrerá; o filho não carregará a culpa na iniquidade do pai, e o pai não carregará a culpa na iniquidade do filho" (Ezequiel 18:20) — exceto se houver na coisa uma profanação do Nome e um causar de pecado aos muitos que veem, que então se estende o castigo sobre a semente também, como foi no assunto de Eli.
אוֹ בְּמִקְרֶה: ״אֲבוֹתֵינוּ חָטְאוּ וְאֵינָם וַאֲנַחְנוּ עֲוֹנוֹתֵיהֶם סָבָלְנוּ״ — סוֹבְלִין, לֹא שֶׁיִּשָּׂא הַבֵּן בַּעֲוֹן הָאָב. ״הַנֶּפֶשׁ הַחֹטֵאת הִיא תָמוּת... בֵּן לֹא יִשָּׂא בַּעֲוֹן הָאָב״ — זוּלָתִי בְּחִלּוּל הַשֵּׁם.
15 E a quarta é que às vezes chegam ao justo males para o bem dele, e eles são os chamados "sofrimentos de amor" yissurim shel ahavá, e se chamam também "provação" nissayon; e isto é por três modos.
(ד) רָעוֹת אֶל הַצַּדִּיק לְטוֹב לוֹ — הַנִּקְרָאִים יִסּוּרִין שֶׁל אַהֲבָה, וְנִקְרָאִין גַּם כֵּן נִסָּיוֹן, וְזֶה עַל שְׁלֹשָׁה פָּנִים.
16 O um: são os sofrimentos que vêm sobre o justo completo, o que serve o Senhor com amor completo — que, pelo amor do Senhor a ele, traz sobre ele sofrimentos para depurar alguma impureza ou imundície de pecado que há na sua alma. E isto é: que é impossível para o homem que não peque às vezes em transgressões leves pelas quais não é obrigado sobre elas um sacrifício, ou que se aprecie no cumprimento de um mandamento positivo; e mesmo o justo completo não põe ao seu coração o voltar-se sobre elas; e estas coisas, ainda que não haja um sacrifício que venha sobre elas e não sejam cabidas de castigo, de todo modo, pelo lado de que elas conspurcam a alma e a contaminam, elas são uma causa para diminuir o seu grau no mundo vindouro. E por causa disto a transgressão na qual não há conhecimento, nem no princípio nem no fim, ainda que não seja cabida de castigo, precisa de expiação, como está mencionado no capítulo primeiro do tratado Shevuot. E, pelo amor do Senhor, bendito seja, ao justo, é que traz sobre ele sofrimentos para depurar aquela imundície e impureza que há na alma, para que alcance o grau cabido a ela conforme os seus atos bons e para que não a obstrua coisa alguma.
(הָאֶחָד) יִסּוּרִין לְמָרֵק זוֹהֲמַת חֵטְא קַל בַּנֶּפֶשׁ — עֲבֵרוֹת קַלּוֹת שֶׁמְּזַהֲמוֹת הַנֶּפֶשׁ. אַף שֶׁאֵין רְאוּיוֹת לְעֹנֶשׁ, צְרִיכוֹת כַּפָּרָה, כְּדֵי שֶׁתַּשִּׂיג הַמַּדְרֵגָה הָרְאוּיָה.
17 E estes sofrimentos, ainda que sejam para depurar rebeldias, porque não é a sua causa conhecida ao homem, se chamam "provação"; e se chamam também "sofrimentos de amor" conforme a opinião do Ramban, de abençoada memória, que escreveu em "Shaar HaGuemul" que jamais há sofrimentos sem iniquidade, conforme as palavras de Rabi Ami, que disse "não há morte sem pecado e não há sofrimentos sem iniquidade"; e, ainda que se tenha rejeitado aquela sentença, sustenta o Rav, de abençoada memória, que não se rejeitou senão a parte "não há morte sem pecado", mas não se rejeitou "não há sofrimentos sem iniquidade"; e por isso diz que é impossível que venham jamais sobre o homem sofrimentos sem iniquidade. E, contudo, quando eles são por este caminho que dissemos, se chamam "sofrimentos de amor", porque eles são vindos do amor do Senhor ao homem, para que não impeça a imundície de algum pecado leve que não percebeu nele a que alcance a alma o seu grau cabido a ela conforme os seus atos.
נִקְרָאִין נִסָּיוֹן (סִבָּתָן לֹא יְדוּעָה), וְגַם ״יִסּוּרִין שֶׁל אַהֲבָה״ לְפִי דַּעַת הָרַמְבַּ״ן (שַׁעַר הַגְּמוּל): ״אֵין יִסּוּרִין בְּלֹא עָוֹן״.
18 E o modo segundo dos sofrimentos que vêm conforme a causa quarta é conforme a opinião antiga e divulgada na nação, e ela é a opinião dos Gaonim, de abençoada memória, que dizem que já chegam ao homem sofrimentos sem iniquidade de modo algum, e eles são os chamados "sofrimentos de amor", porque não vêm sobre um pecado de modo algum, e se chamam também "provação". E isto é: que às vezes traz o Santo, bendito seja, sofrimentos sobre o justo para prová-lo para ver se ele serve o Senhor com amor completo, como está escrito "pois prova menassé o Senhor vosso D'us a vós, para saber" etc. (Deuteronômio 13:4), ou se ele serve o Senhor por amor de recompensa e por temor de castigo.
(הָאוֹפֶן הַשֵּׁנִי) דַּעַת הַגְּאוֹנִים: יִסּוּרִין בְּלֹא עָוֹן כְּלָל, נִסָּיוֹן אִם עוֹבֵד מֵאַהֲבָה: ״כִּי מְנַסֶּה ה׳ אֱלֹהֵיכֶם אֶתְכֶם לָדַעַת״.
19 E isto é: que não todo homem cujo pensamento é bom e que serve o Senhor com amor completo nos dias da tranquilidade e da prosperidade tem a capacidade de fortalecer o seu coração para suportar o esforço e o labor pelo amor do Onipresente e para servir o Senhor a partir de dentro da pobreza e da aflição como a partir de dentro da tranquilidade e do sossego, e de modo que não clame com protesto sobre as medidas do Onipresente ao vir sobre ele aflição e angústia; e por isso traz o Santo, bendito seja, sofrimentos sobre o justo para saber-se se se coaduna a ação boa com o pensamento bom. Acaso não vês que Jó era "íntegro e reto e temente a D'us e afastado do mal" (Jó 1:1), e o seu pensamento e a sua intenção eram bons, e não pôde suportar o esforço e o labor em ato pelo amor do Onipresente? — pois, quando vieram sobre ele sofrimentos, clamou com protesto sobre as medidas do Santo, bendito seja; e de dentro disso se verificaram as palavras do Satã, que disse "acaso de graça teme Jó a D'us? acaso não és tu que cercaste em volta dele e em volta da sua casa e em volta de tudo o que é dele?" (Jó 1:9–10); e se soube que ele servia o Senhor por amor de recompensa e por temor de castigo, não por amor completo. E por isso, quando o Santo, bendito seja, traz sofrimentos desta espécie sobre o justo, se chamam "sofrimentos de amor", porque por meio deles se esclarece aos filhos do homem, os que dizem sobre os justos prósperos que não servem por amor, que — de dentro disso reconhecerão todos e saberão que aqueles justos servem o Senhor a partir de dentro da aflição como a partir de dentro da tranquilidade.
לֹא כָּל מִי שֶׁעוֹבֵד מֵאַהֲבָה בִּימֵי שַׁלְוָה יֵשׁ לְאֵל יָדוֹ לִסְבֹּל בְּפֹעַל. אִיּוֹב הָיָה תָּם וְיָשָׁר וְלֹא יָכֹל לִסְבֹּל — קָרָא תִגָּר, וְנִתְאַמְּתוּ דִּבְרֵי הַשָּׂטָן ״הַחִנָּם יָרֵא אִיּוֹב אֱלֹהִים״.
20 E sobre isto é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "se vê o homem que sofrimentos vêm sobre ele, esquadrinhe nos seus atos, conforme se diz 'busquemos os nossos caminhos' etc. (Lamentações 3:40); esquadrinhou e achou — faça teshuvá, conforme se diz 'e voltemos' (Lamentações 3:40); esquadrinhou e não achou — atribua -os à anulação do estudo da Torá bitul Torá, conforme se diz 'feliz é o varão que repreendes, Yah' etc. (Salmos 94:12); atribuiu e não achou — é sabido que sofrimentos de amor são, conforme se diz 'pois a quem o Senhor ama Ele repreende' etc. (Provérbios 3:12); e, se os recebeu com amor, qual é a sua recompensa? — 'verá semente, alongará dias' (Isaías 53:10); e não só isto, mas que o seu estudo se mantém na sua mão, conforme se diz 'e o desejo do Senhor na sua mão prosperará' (Isaías 53:10)".
״אִם רוֹאֶה אָדָם שֶׁיִּסּוּרִין בָּאִין עָלָיו יְפַשְׁפֵּשׁ בְּמַעֲשָׂיו... פִּשְׁפֵּשׁ וְלֹא מָצָא יִתְלֶה בְּבִטּוּל תּוֹרָה... תָּלָה וְלֹא מָצָא בְּיָדוּעַ שֶׁיִּסּוּרִין שֶׁל אַהֲבָה הֵן... כִּי אֶת אֲשֶׁר יֶאֱהַב ה׳ יוֹכִיחַ״.
21 Eis que os nossos mestres, de abençoada memória, incluíram nesta sentença todas as espécies dos sofrimentos que vêm sobre o homem. E disseram "se vê o homem que sofrimentos vêm sobre ele" — quer dizer, sobre ele em particular, que vê e discerne que não são pelo lado da natureza geral e pelo modo da causa primeira, mas que eles vêm sobre ele em particular e não pelo lado de nenhuma causa geral — então "esquadrinhe nos seus atos", para ver se vêm sobre ele conforme a causa segunda, quer dizer, sobre transgressões nas quais há conhecimento, e por isso é cabido a ele que esquadrinhe nos seus atos; "e, se esquadrinhou e achou, faça teshuvá" e se volte ao Senhor e Ele o compadecerá; "esquadrinhou e não achou" — quer dizer, que não achou que são conforme a causa segunda — "atribua-os à anulação da Torá", quer dizer, à falta de conhecimento: seja porque não era versado na Torá e nos seus mandamentos e por isso não reconhece o pecado de modo a guardar-se dele, pelo modo de "e nem o povo da terra é piedoso" (Avot 2:5); seja porque não sabe discernir por qual lado é possível que cheguem a ele os sofrimentos, ainda que não tenha pecado ele — e isto é conforme a causa terceira que escrevemos; "atribuiu e não achou — é sabido que sofrimentos de amor são, conforme se diz 'pois a quem o Senhor ama repreende'" — quer dizer: e, se ele é sábio e um justo completo de modo que não tem o que atribuir nem à causa segunda nem à terceira, quer dizer, à falta do reconhecer do pecado e do seu discernir, é sabido que eles são sofrimentos de amor — quer dizer, conforme esta causa quarta. Seja conforme o modo primeiro dela, que eles são vindos do amor do Senhor para depurar algum pecado leve que precisa de expiação para purificar a imundície da alma e a sua contaminação, para que alcance o grau cabido a ela, como o pai que castiga o seu filho querido por ele, não por vingança dele, mas para purificá-lo da sujeira que há nele, para o bem dele, para fazê-lo chegar a um grau grande — e isto é "e como um pai que ao filho se apraz" (Provérbios 3:12); seja conforme o modo segundo, para prová-lo para ver se suporta o esforço e o labor pelo amor do Onipresente e se não clama com protesto sobre as suas medidas — e por isso disseram "se os recebeu com amor, qual é a sua recompensa?" etc., pois, quando o homem recebe os sofrimentos com semblante de faces belas, se multiplica a sua recompensa, porque todos os homens reconhecem por meio dele até onde é cabido que chegue o amor do Onipresente, e vêm eles próprios a servir o Senhor com amor completo.
״יִסּוּרִין בָּאִין עָלָיו״ — בִּפְרָט (לֹא הַסִּבָּה הָרִאשׁוֹנָה). ״יְפַשְׁפֵּשׁ״ — הַסִּבָּה הַשֵּׁנִית; ״בִּטּוּל תּוֹרָה״ — חֶסְרוֹן הַכָּרַת הַחֵטְא (הַשְּׁלִישִׁית); ״שֶׁל אַהֲבָה״ — הָרְבִיעִית. ״וְכִאָב אֶת בֵּן יִרְצֶה״. ״אִם קִבְּלָן מֵאַהֲבָה מַה שְּׂכָרוֹ״.
22 E o modo terceiro dos sofrimentos são os chamados "sofrimentos de amor" de verdade, e eles são os sofrimentos que vêm sobre o homem não para depurar um pecado — pois não há na sua mão uma iniquidade com que pecou de modo algum, pois já recebeu a depuração cabida a ele — e não para prová-lo, pois já foi provado; mas que, da bondade do Senhor e do seu amor a ele, traz sobre ele sofrimentos, e não nas coisas reveladas e conhecidas aos filhos do homem apenas, mas também nas coisas que não são conhecidas aos filhos do homem — como a Aquedá o atar de Isaac que foi em um dos montes, no lugar onde não há ali quem veja senão o Senhor; e isto é para multiplicar a sua recompensa, de modo que tenha para ele a recompensa da ação boa, e não a recompensa do pensamento bom apenas.
(הָאוֹפֶן הַג׳) יִסּוּרִין שֶׁל אַהֲבָה בֶּאֱמֶת — לֹא לְמָרֵק חֵטְא (שֶׁאֵין בְּיָדוֹ) וְלֹא לְנַסּוֹתוֹ (שֶׁכְּבָר נֻסָּה), אֶלָּא מֵחֶסֶד וְאַהֲבָה לְהַרְבּוֹת שְׂכָרוֹ — כָּעֲקֵדָה בְּמָקוֹם שֶׁאֵין רוֹאֶה אֶלָּא הַשֵּׁם.
23 E, se perguntares e disseres sobre o modo segundo — depois de que o Senhor, bendito seja, sabe se se manterá na sua provação ou não —, e assim sobre o modo terceiro — depois de que o Senhor, bendito seja, sabe que este justo serve o Senhor com amor completo, com todo o seu coração e com toda a sua alma e com todo o seu poder, como já foi provado nisto —, que necessidade há destes sofrimentos? — a resposta nisto é que não é cabido que seja a recompensa daquele que suporta o esforço e o labor em ato pelo amor do Onipresente igual a daquele que não o suporta em ato; e sobre aquele que é semelhante a isto se diz "não se glorie aquele que se cinge com armas como aquele que as desata" (I Reis 20:11) — que não é cabido que se glorie aquele que não fez a valentia em ato, ainda que esteja preparado a fazê-la e esteja cingido com instrumentos de guerra, como aquele que já operou e fez a valentia em ato, e ele é o que desata de sobre si os instrumentos de guerra.
אִם תִּשְׁאַל: אַחַר שֶׁהַשֵּׁם יוֹדֵעַ אִם יַעֲמֹד, מַה צֹּרֶךְ? הַתְּשׁוּבָה: אֵין שְׂכַר הַסּוֹבֵל בְּפֹעַל שָׁוֶה לְמִי שֶׁאֵינוֹ סוֹבֵל. ״אַל יִתְהַלֵּל חוֹגֵר כִּמְפַתֵּחַ״.
24 E por isso muitas vezes traz o Santo, bendito seja, sofrimentos sobre o justo para habituá-lo a que se coadune a ação boa com o pensamento bom e para que seja cabido de uma recompensa maior — pois de dentro da ação se fortalece o seu coração no amor do Senhor, porque toda ação adquire na alma uma disposição tekhuná mais forte do que a que se adquire sem ação; e merece com isto a recompensa da ação boa com a intenção boa, não a recompensa da intenção boa apenas.
הָרֶגֶל בַּמַּעֲשֶׂה: כָּל פֹּעַל יִקְנֶה בַּנֶּפֶשׁ תְּכוּנָה חֲזָקָה יוֹתֵר מִשֶּׁנִּקְנֵית בְּזוּלַת מַעֲשֶׂה. וְזוֹכֶה לִשְׂכַר מַעֲשֶׂה טוֹב עִם הַכַּוָּנָה.
25 E se chama o hábito heguel no serviço "provação", como escreveu o Rambam, de abençoada memória: "pois 'para te afligir e para te provar' (Deuteronômio 8:16)" — a sua explicação é "para habituar-te a suportar o esforço e o labor em ato pelo amor do Onipresente". E assim explicou a Escritura ao dizer "pois para o bem por causa de provar a vós veio D'us" (Êxodo 20:17) — quer dizer que veio D'us nas vozes temíveis e nos relâmpagos trementes por duas causas: a uma, para habituar-vos a suportar em ato o esforço e o labor e a aflição pelo amor do Onipresente, porque a ação adquire na alma uma disposição forte para o amor do Senhor — e, depois de que se estenda o pensamento bom e a fala boa que dissestes "faremos e ouviremos" (Êxodo 24:7) ao ato, haverá para vós a recompensa do habituado sobre uma ação boa, não a recompensa de um pensamento bom apenas; e a segunda, para despertar-vos sobre a grandeza do castigo que chega ao transgressor das palavras do Senhor, bendito seja, e isto é "e para que seja o seu temor sobre as vossas faces" (Êxodo 20:17).
״כִּי לְמַעַן עַנֹּתְךָ וּלְמַעַן נַסֹּתֶךָ״ — לְהַרְגִּילְךָ. ״כִּי לְבַעֲבוּר נַסּוֹת אֶתְכֶם בָּא הָאֱלֹהִים״ — לְהַרְגִּילְכֶם וְלִשְׂכַר מַעֲשֶׂה טוֹב, ״וּבַעֲבוּר תִּהְיֶה יִרְאָתוֹ עַל פְּנֵיכֶם״.
26 E assim explicou a Escritura ao dizer "pois prova o Senhor vosso D'us a vós" etc. (Deuteronômio 13:4) — quer dizer que o Senhor, bendito seja, vos habitua nos caminhos do serviço, para que se fortaleça no vosso coração a disposição do amor ao Senhor, e haja para vós com isto a recompensa da ação boa, quando se souber em ato que vós servis por amor e que não vos deixais seduzir após as palavras daquele profeta ou daquele sonhador de sonho por causa do proveito imaginado que vedes no serviço de outros deuses, e da prosperidade que vem por meio deles em riqueza e bens e honra — que esta coisa é a que seduz o homem a servir a idolatria. E disse Moisés na porção de Nitsavim "pois vós sabeis o modo como assentamos na terra do Egito" etc. (Deuteronômio 29:15), "e vistes as suas abominações" etc. (Deuteronômio 29:16), "para que não haja entre vós um homem ou uma mulher" etc. (Deuteronômio 29:17) — quer dizer que, porque vistes que, com o facto de serem aquelas abominações e ídolos madeira e pedra, vistes a abundância da prata e do ouro que há com aquelas nações, e por isso eu receio talvez que se seduza um homem dentre vós após eles por cobiça daquela prosperidade — e por isso disse "para que não haja entre vós" etc.; e sobre aquele que é semelhante a isto disse "pois prova o Senhor vosso D'us a vós", quer dizer: depois de que não vos seduzais após aquela prosperidade, sereis habituados na disposição do amor, e será a vossa recompensa maior por causa do esforço que suportareis em ato pelo seu amor, e se saberá que vós servis com amor completo e não por amor de recompensa e por temor de castigo — e isto é suficiente para os sofrimentos que vêm pelo modo do segundo modo.
״כִּי מְנַסֶּה ה׳ אֱלֹהֵיכֶם אֶתְכֶם״ — מַרְגִּיל אֶתְכֶם, שֶׁלֹּא תִתְפַּתּוּ אַחַר הַצְלָחַת עוֹבְדֵי הָאֱלִילִים. ״פֶּן יֵשׁ בָּכֶם אִישׁ אוֹ אִשָּׁה״.
27 Mas o assunto da provação mencionada na Aquedá é por via de necessidade deste modo terceiro — que quis o Senhor, bendito seja, que a intenção boa que estava no coração de Abraão saísse ao ato, e que tivesse para ele a recompensa da ação boa com o pensamento bom, e não a recompensa de um pensamento bom apenas. E, porque o conhecimento que cai sobre uma coisa depois de que ela saiu ao ato é diferente por via de necessidade do conhecimento sobre uma coisa antes de que ela saísse ao ato, diz a Escritura "pois agora soube que és temente a D'us és tu" (Gênesis 22:12) — ainda que não se tenha inovado nele um conhecimento novo —, como "eis que agora soube que és uma mulher bela de aparência és tu" (Gênesis 12:11), que não se inovou agora o conhecimento nisto, mas que se inovou o ato que indica que o conhecimento precedente é verdadeiro; quer dizer: chegou o ato que indica que tu és temente a D'us, que serve o Senhor com amor completo.
הָעֲקֵדָה — מֵהָאוֹפֶן הַג׳: שֶׁתֵּצֵא הַכַּוָּנָה אֶל הַפֹּעַל. ״כִּי עַתָּה יָדַעְתִּי כִּי יְרֵא אֱלֹהִים אַתָּה״ — לֹא נִתְחַדְּשָׁה יְדִיעָה, אֶלָּא הַפֹּעַל הַמּוֹרֶה.
28 E este conhecimento já esclarecemos no capítulo terceiro deste Maamar — que, ainda que ele obrigue uma mudança no nosso direito, não obriga uma mudança no seu direito, bendito seja; e a Escritura diz "soube" pelo modo da linguagem dos filhos do homem, pois não se deu a Torá aos anjos do serviço, e é cabido que fale com coisas compreendidas a nós; e por causa disto menciona a Escritura a linguagem "provação" em todo lugar. E disse "agora soube" porque então se fez a ação em ato que indica sobre o que Ele já sabia — que Abraão é temente a D'us e serve com amor e não por temor de castigo —, pois não há no mundo um castigo maior do que ele estar a degolar o seu filho, o seu único, depois de ser ele filho de trinta e sete anos, e não se absteve de fazer assim pelo amor do Senhor, bendito seja; e isto é um sinal grande que indica sobre o ser ele um servidor do Senhor com amor completo, e por isso o descreveu a Escritura como "o que ama" e disse "a semente de Abraão, o que me ama" (Isaías 41:8).
״יָדַעְתִּי״ עַל דֶּרֶךְ לְשׁוֹן בְּנֵי אָדָם, שֶׁלֹּא נִתְּנָה תּוֹרָה לְמַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת. ״עַתָּה יָדַעְתִּי״ — נַעֲשָׂה הַמַּעֲשֶׂה בְּפֹעַל. ״זֶרַע אַבְרָהָם אֹהֲבִי״.
29 E esta espécie dos sofrimentos são o cerne dos "sofrimentos de amor" que mencionaram os Gaonim, de abençoada memória; e eles são aqueles que o Santo, bendito seja, pelo lado do seu amor ao justo, traz sofrimentos sobre ele para multiplicar a sua recompensa — quer dizer, para que suporte em ato o esforço e o labor pelo amor do Santo, bendito seja, para que tenha para ele a recompensa da ação boa, não a recompensa de um pensamento bom apenas. E estes sofrimentos não são da espécie dos sofrimentos que vieram sobre Jó, nem da provação que veio sobre Ezequias — de que se disse sobre ele "e assim nos intérpretes dos ministros de Babel, os enviados a ele para inquirir sobre o portento que houve na terra, Ele o abandonou D'us para prová-lo, para saber tudo o que estava no seu coração" (II Crônicas 32:31), e ele tropeçou nisto, como testemunhou a Escritura "e não conforme o bem retribuído sobre ele a ele feito respondeu Ezequias, pois se elevou o seu coração" etc. (II Crônicas 32:25) — pois aqueles sofrimentos e aquela provação eram do modo segundo apenas; mas estes sofrimentos que vêm pelo modo do modo terceiro não vêm senão sobre os justos completos, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, em Bereshit Rabá: "'o Senhor o justo prova' (Salmos 11:5) — este oleiro, quando examina o seu forno, não examina nas vasilhas frágeis, pois não lhe basta nem alcança golpear sobre elas até o ponto de que já se quebram; e no que ele examina? nas vasilhas belas, que mesmo se golpeia sobre elas algumas vezes não se quebram; isto é o que está escrito 'e D'us provou a Abraão' (Gênesis 22:1)".
עִקַּר ״יִסּוּרִין שֶׁל אַהֲבָה״. אֵינָן כְּיִסּוּרֵי אִיּוֹב וְלֹא כְּנִסְיוֹן חִזְקִיָּה (שֶׁהָיוּ מֵהָאוֹפֶן הַשֵּׁנִי). ״ה׳ צַדִּיק יִבְחָן... אֵינוֹ בּוֹדֵק בְּקַנְקַנִּים מְרֹעָעִים... בְּקַנְקַנִּים יָפִים״ — ״וְהָאֱלֹהִים נִסָּה אֶת אַבְרָהָם״.
30 E esta espécie dos sofrimentos, quando vierem sobre os justos como Rabi Akiva e os seus companheiros, não são uma injustiça no seu direito, bendito seja, mas eles são bondade e graça chen da sua parte — que ele, bendito seja, é desejante de dar a eles a recompensa da ação boa e dos que servem em ato por amor, não a recompensa de um pensamento bom apenas; pois não chega o homem ao grau do amor completo até o ponto de que suporte em ato o esforço e o labor pelo amor do Santo, bendito seja.
כְּשֶׁבָּאִין עַל רַבִּי עֲקִיבָא וַחֲבֵרָיו — אֵינָן עָוֶל, אֶלָּא חֶסֶד וַחֲנִינָה, שֶׁאֵין אָדָם מַגִּיעַ לְמַדְרֵגַת הָאַהֲבָה הַגְּמוּרָה עַד שֶׁיִּסְבֹּל בְּפֹעַל.
31 E, conforme isto, não há como objetar sobre este modo terceiro e dizer: depois de que o Senhor, bendito seja, sabe que este justo está habituado no serviço e se mantém na sua provação, por que o prova? — pois, como dissemos, não é o grau da recompensa preparada ao que serve em ato igual ao grau do que serve em pensamento apenas; e eis que isto se assemelha a quem diz: por que ordenou o Senhor que se fizessem os mandamentos em ato? não basta que pense o homem em fazê-los? — que isto, sem dúvida, é manifesta a resposta: que a recompensa do mandamento chega sobre o seu fazer em ato, não sobre o pensamento apenas; e isto está mencionado na Torá muito: "e os fareis" (Levítico 19:37), "e ouvirás, Israel, e guardarás para fazer" (Deuteronômio 6:3); e assim é o assunto no ato da provação — que o Senhor, bendito seja, quer que chegue a ação em ato, não a intenção boa apenas.
אֵין לְהַקְשׁוֹת: אַחַר שֶׁיּוֹדֵעַ שֶׁעוֹמֵד, לָמָּה יְנַסֶּה? — אֵין שְׂכַר הָעוֹבֵד בְּפֹעַל שָׁוֶה לָעוֹבֵד בְּמַחֲשָׁבָה. כְּמוֹ הַמִּצְוֹת: ״וַעֲשִׂיתֶם אֹתָם״.
32 E observa atentamente no que escrevemos nesta causa quarta no assunto dos sofrimentos de amor e no assunto da provação — que é uma coisa correta e que se coaduna com a verdade mais do que tudo o que vimos para outros que não nós nisto.
וְהִתְבּוֹנֵן בְּמַה שֶּׁכָּתַבְנוּ בַּסִּבָּה הָרְבִיעִית — דָּבָר נָכוֹן וּמַסְכִּים לָאֱמֶת יוֹתֵר מִכָּל מַה שֶּׁרָאִינוּ לְזוּלָתֵנוּ.
33 E voltemos ao assunto do capítulo, e digamos pelo modo geral que não chegam males ao justo se não com retidão e com juízo, ainda que lhe esteja oculto, daqueles sofrimentos que lhe chegam, de qual das quatro causas que mencionamos eles são.
לֹא יַגִּיעוּ רָעוֹת אֶל הַצַּדִּיק כִּי אִם בְּיֹשֶׁר וּבְמִשְׁפָּט, אַף עַל פִּי שֶׁיִּהְיֶה נֶעֱלָם מִמֶּנּוּ מֵאֵיזוֹ סִבָּה מֵאַרְבַּע הַסִּבּוֹת הֵם.
Este é o capítulo culminante de todo o Maamar IV — a resposta à pergunta que, no cap. 7, Albo classificou como a verdadeira angústia do crente sincero: por que sofre o justo? A arquitetura espelha o capítulo anterior: primeiro nega-se que a proposição seja sequer verdadeira (talvez não seja justo; talvez o "mal" não seja mal); depois, concedido que seja um justo verdadeiro sofrendo um mal verdadeiro, mostram-se quatro causas justas — paralelas às quatro do ímpio.
Antes das causas, Albo desmonta o protesto fácil. Muitos sabem que pecaram e ainda assim "se irritam contra o Senhor" (Pv 19:3) — como os irmãos de José que, no mesmo fôlego, confessam "culpados somos" e perguntam "que nos fez D'us?". E há o autoengano mais sutil: porque D'us "alonga ao pecador" esperando teshuvá, o homem esquece o próprio pecado e, quando o castigo enfim chega, supõe-no imerecido — "como ele não se lembra, pensa que D'us também esqueceu". A parábola do credor que adia a cobrança até o devedor esquecer a dívida é cristalina: a paciência divina não é amnésia ("eis que está escrita diante de mim", Is 65:6); "quem chama D'us de indulgente — indulgenciada será a sua vida", isto é, Ele cobra, só que com longanimidade (Bava Kama 50a). Albo também despacha as queixas dos amei ha-aretz que, tendo o necessário, protestam por não terem luxos "para os deleites do porco e do asno".
1. Natureza geral / decreto da nação. A "chuva torrencial arrasta justo com ímpio": quem não atingiu perfeição bastante para "vencer a constelação" fica sujeito à ordem natural e ao destino coletivo — Daniel e Jeremias foram exilados pelo decreto sobre Jerusalém, "não por si mesmos". Há um corolário ético severo (Elimélech, Machlon, Quilion, em Bava Batra): o grande da geração é punido por não rezar pela sua geração. E há a face sublime — a morte dos justos que expia pela nação (Yechezkel deitado sobre o lado; Isaías 53 lido, na tradição judaica, como referente a Israel, "meu servo"): o justo sofre não por seu pecado, mas como kofer, resgate da coletividade.
2. Providência individual. "Não há justo na terra que não peque" (Ecl 7:20) — um pouco de sofrimento aqui depura pecados leves para que o justo chegue limpo ao mundo vindouro (espelho exato da 2ª causa do ímpio: como o ímpio recebe seu bem aqui para ser excluído lá, o justo recebe seu castigo aqui para herdar lá). Ou o sofrimento é preventivo: poupa-o de um pecado a que a prosperidade o levaria — "engordou Yeshurun e coiceou" (Dt 32:15); "agrada a pobreza aos judeus".
3. Por causa de outros (pais). Aqui Albo é teologicamente cuidadoso. O filho pode sofrer as consequências do pecado do pai (perda de fortuna, exílio herdado) — "nós as iniquidades deles suportamos savalnu" (Lm 5:7) — mas isso é carregar a consequência, não a culpa: "o filho não carrega a iniquidade do pai" (Ez 18:20), pois imputar culpa alheia "seria injustiça em D'us, que Ele o livre". A exceção é o chilul Hashem (profanação pública), que estende o castigo à descendência (caso de Eli).
A grande contribuição do capítulo — os yissurim shel ahavá, em três modos de profundidade crescente. (1) Sofrimentos que depuram uma "imundície" tão sutil que nem exige sacrifício, mas que ainda assim rebaixaria o grau da alma; chamam-se "de amor" na leitura do Ramban (que sustenta "não há sofrimento sem alguma iniquidade", Berachot 5a). (2) Sofrimentos sem pecado algum, na opinião dos Gaonim: pura provação — para revelar se o homem serve por amor ou por interesse. Jó é o contra-exemplo trágico: "íntegro e reto", de boa intenção, mas incapaz de sustentar o serviço na dor — protestou, e assim confirmou a tese do Satã de que servia "por amor da recompensa e temor do castigo". (3) Os verdadeiros sofrimentos de amor — nem para depurar (não há pecado) nem para provar (já provado), mas puro dom, para multiplicar a recompensa: a Akedá, "em um dos montes onde só D'us vê".
A objeção decisiva — "se D'us já sabe que o justo passará na prova, para que prová-lo?" — recebe a resposta mais original do capítulo, e uma das mais belas de toda a obra. A recompensa do ato realizado não é igual à da mera intenção: "não se glorie quem se cinge com armas como quem as desata" (I Reis 20:11) — só venceu de verdade quem combateu de fato. Mais: "todo ato grava na alma uma disposição (tekhuná) mais forte do que a intenção sozinha grava" — a virtude exercida torna-se caráter. Por isso "agora soube que és temente a D'us" (Gn 22:12) não significa que D'us aprendeu algo novo (o conhecimento divino não muda, cap. 3) — é "linguagem humana": o ato tornou manifesto e real o que já era sabido em potência. A própria provação e o hábito (Sinai, "para vos provar"; "agrada a pobreza") existem para converter a boa disposição em ato consolidado. O sofrimento do justo Rabi Akiva, longe de injustiça, é "bondade e graça" — a oportunidade de atualizar o amor completo, "pois ninguém chega ao grau do amor completo até suportar em ato o esforço pelo amor de D'us". A conclusão sela toda a teodiceia: ao justo "não chegam males senão com retidão e juízo" — ainda que qual das quatro causas opera em cada caso permaneça, como sempre em Albo, oculto ao olhar humano.
Se já se mostrou que os juízos de D'us são retos e não cabe queixa nem em "justo e mal-lhe-vai" nem em "ímpio e bem-lhe-vai", por que Moisés, Jó, Assaf, Jeremias, Habacuc, Malaquias e Coélet se queixaram dessas duas medidas? Albo lê o Salmo 73 ("Só bom para Israel") como a obra em que Assaf ordena as dúvidas para resolvê-las: a prosperidade do ímpio termina em ruína eterna — "só em lugares escorregadios os pões" — e o mal do justo não é mal em face do bem eterno da alma que se apega a D'us.
Se já se mostrou que os juízos de D'us são retos e não cabe queixa nem em "justo e mal-lhe-vai" nem em "ímpio e bem-lhe-vai", por que Moisés, Jó, Assaf, Jeremias, Habacuc, Malaquias e Coélet se queixaram dessas duas medidas? Albo lê o Salmo 73 ("Só bom para Israel") como a obra em que Assaf ordena as dúvidas para resolvê-las: a prosperidade do ímpio termina em ruína eterna — "só em lugares escorregadios os pões" — e o mal do justo não é mal em face do bem eterno da alma que se apega a D'us.
1 Depois de que esclarecemos a retidão dos juízos do Senhor, e de que não há sobre ele queixa nem no "justo e mal-lhe-vai" nem no "ímpio e bem-lhe-vai", é preciso dar um motivo para por que estavam os profetas e os sábios a queixar-se sobre estas duas medidas — pois, conforme o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, mesmo Moisés, nosso mestre, sobre ele a paz, se perplexou nesta pergunta, quando pediu "faze-me conhecer, pois, o teu caminho, e te conhecerei" (Êxodo 33:13); e Jó se queixava sobre isto, como dissemos; e Assaf também disse "e eu, por pouco se inclinaram os meus pés" etc. (Salmos 73:2), "pois invejei os jactanciosos" etc. (Salmos 73:3) — e esta é a pergunta d'"o ímpio e bem-lhe-vai"; e disse ainda "certamente foi em vão que purifiquei o meu coração" etc. (Salmos 73:13) — e esta é a pergunta d'"o justo e mal-lhe-vai". E Jeremias também disse "por que o caminho dos ímpios prospera?" (Jeremias 12:1); e Habacuc disse "por que olhas para os traidores, te calas ao tragar o ímpio o justo mais do que ele?" (Habacuc 1:13), e disse ainda "pois o ímpio cerca o justo, por isso sai um juízo torcido" (Habacuc 1:4); e Malaquias disse "fatigastes o Senhor com as vossas palavras, e dissestes 'em que o fatigamos?' — ao dizerdes 'todo fazedor de mal é bom aos olhos do Senhor'" etc. (Malaquias 2:17), e disse também "também se edificaram os fazedores de maldade, também provaram D'us e se livraram" (Malaquias 3:15); e Coélet disse "há uma vaidade que se faz sobre a terra: que há justos a quem chega conforme o ato dos ímpios, e há ímpios a quem chega conforme o ato dos justos" (Eclesiastes 8:14); e além disto há muito nas palavras dos profetas — e esta coisa precisa de esclarecimento, sem dúvida.
אַחַר שֶׁבֵּאַרְנוּ יֹשֶׁר מִשְׁפְּטֵי הַשֵּׁם, צָרִיךְ לָתֵת טַעַם לָמָּה הָיוּ הַנְּבִיאִים מִתְרַעֲמִים. מֹשֶׁה: ״הוֹדִיעֵנִי נָא אֶת דְּרָכֶךָ״. אָסָף: ״וַאֲנִי כִּמְעַט נָטָיוּ רַגְלָי״, ״אַךְ רִיק זִכִּיתִי לְבָבִי״. יִרְמִיָה: ״מַדּוּעַ דֶּרֶךְ רְשָׁעִים צָלֵחָה״. חֲבַקּוּק; מַלְאָכִי; קֹהֶלֶת.
2 E o que me parece nas palavras de Assaf é que Assaf ordenou as perplexidades no salmo "certamente é bom para Israel" (Salmos 73:1) a fim de escrever a sua resolução; e escreveu a resolução, seja no "justo e mal-lhe-vai", seja no "ímpio e bem-lhe-vai", pelo caminho da causa segunda que escrevemos cap. 12–13. E começou "certamente é bom para Israel" — quer dizer: fica sabendo que todo mal que vem ao justo, o seu fim não é senão para o bem; e por isso pegou a expressão "ach" certamente/só, quer dizer: que, mesmo se no princípio do pensamento não se vir que seja o mal que chega a Israel — que são justos — um bem, ele não é senão um bem; e, contudo, o reconhecer de que é um bem não está entregue a todos, mas apenas aos puros de coração barei levav, pois todo homem outro que não eles está preparado a tropeçar nisto e a pensar que não é aquele mal que chega a Israel para um fim bom. E isto é: "e eu, por pouco se inclinaram os meus pés" etc. (Salmos 73:2); e esclarece o motivo por que: "pois invejei os jactanciosos" e a sua prosperidade — "que a paz dos ímpios eu via" (Salmos 73:3) sempre, e a sua tranquilidade é contínua por todos os seus dias, até o ponto de que eles morrem sem aflição e sem sofrimentos — "pois não há tormentos chartzubot na sua morte" (Salmos 73:4), pois a sua força é sã e forte no momento da sua morte; e também nas suas vidas "no trabalho do homem comum não estão" etc. (Salmos 73:5), "por isso os enfeita a soberba" etc. (Salmos 73:6).
אָסָף סִדֵּר הַסְּפֵקוֹת בְּמִזְמוֹר ״אַךְ טוֹב לְיִשְׂרָאֵל״ כְּדֵי לִכְתֹּב תֵּרוּצָן. ״אַךְ״ — שֶׁכָּל רַע אֵינוֹ אֶלָּא לְטוֹב, אַךְ הַהַכָּרָה מְסוּרָה לְבָרֵי לֵבָב. ״כִּי קִנֵּאתִי בַּהוֹלְלִים... כִּי אֵין חַרְצֻבּוֹת לְמוֹתָם״.
3 E prosseguiu o assunto a enumerar a sua prosperidade. Diz "saltou da gordura o seu olho" (Salmos 73:7) — quer dizer que eles são belos na aparência e na forma: na aparência, pois o branco do olho deles é mais branco do que o leite; ou diz que eles são gordos muitíssimo, até o ponto de que os seus olhos se avultam saltam pela muita gordura; e, para que não se pense que a gordura os afeia e os traz à fealdade do aspecto e da forma, disse "passaram as imaginações do coração" (Salmos 73:7) — quer dizer que eles são belos mais do que todas as imaginações que é possível ao homem que pense no seu coração. E disse ainda que eles são maus para as criaturas, pois sempre as amassam esmagam e falam com maldade de opressão; e eles são maus para os céus também, pois "do alto falam" (Salmos 73:8), "e põem nos céus a sua boca" (Salmos 73:9), ao estar a sua língua a caminhar na terra.
״יָצָא מֵחֵלֶב עֵינֵמוֹ עָבְרוּ מַשְׂכִּיּוֹת לֵבָב״ — נָאִים מְאֹד. וְרָעִים לַבְּרִיּוֹת וְלַשָּׁמַיִם: ״שַׁתּוּ בַשָּׁמַיִם פִּיהֶם וּלְשׁוֹנָם תִּהֲלַךְ בָּאָרֶץ״.
4 E prosseguiu a isto a esclarecer o mal que decorre da prosperidade destes ímpios, e disse "por isso volta o seu povo para aqui" etc. (Salmos 73:10) — quer dizer que, quando o povo dos filhos de Israel veem a prosperidade do ímpio por este caminho, voltam abatidos e oprimidos para a sua casa; "e águas de um cheio se lhes espremem" (Salmos 73:10) — quer dizer que eles sugam um espírito de heresia minut destas águas más, do homem cheio delas, de modo que por causa disso negam a providência e dizem "como sabe D'us?" etc. (Salmos 73:11): eis que eu vejo estes ímpios e eles são tranquilos no mundo, a multiplicarem fortuna (cf. Salmos 73:12); sendo assim, é em vão o servir D'us, e "foi em vão que purifiquei o meu coração" (Salmos 73:13) das transgressões, "e me lavei sempre em limpeza das minhas palmas" (Salmos 73:13) — e, com tudo isto, "estou ferido aflito todo o dia" (Salmos 73:14) e suporto sofrimentos a cada dia, "e a minha repreensão vem aos amanheceres" (Salmos 73:14).
״לָכֵן יָשׁוּב עַמּוֹ הֲלֹם וּמֵי מָלֵא יִמָּצוּ לָמוֹ״ — מוֹצְצִים רוּחַ מִינוּת. ״אֵיכָה יָדַע אֵל... אַךְ רִיק זִכִּיתִי לְבָבִי... וָאֱהִי נָגוּעַ כָּל הַיּוֹם״.
5 E disse o poeta: se eu dissesse — de modo a contar como estas perplexidades —, estaria eu a sair do conjunto dos justos e a trair na geração dos teus filhos (cf. Salmos 73:15); e, quando penso em saber o que é isto e sobre o que é isto, "um labor é aos meus olhos, até que eu venha aos santuários de D'us" etc. (Salmos 73:16–17) — e ele é o lugar designado e preparado para todo homem no seu fim, para atar-se nele as almas, e o chamou "santuários de D'us" porque ele está sob o trono da glória e ele é um lugar de graus diferentes; "e discernirei no fim deles" (Salmos 73:17) — destes ímpios — para ver se podem estar aderidos e atados naquele lugar santo; e eu vejo que é impossível que se adiram nele, porque toda coisa se aproxima do seu semelhante e foge do seu oposto, e sem dúvida que os ímpios não poderão aderir-se naquele lugar, por ser ele oposto à sua natureza, de modo que se escorregarão dele e cairão no Sheol mais baixo; e isto é "certamente só em lugares escorregadios chalakot os pões" (Salmos 73:18), e de dentro disso "Tu os fazes cair em ruínas" (Salmos 73:18). Ou digamos que "certamente em lugares escorregadios os pões" alude a que a prosperidade dos ímpios neste mundo não é senão porque o Santo, bendito seja, lhes alisa o caminho e lhes mostra uma face serena, a fim de que não se voltem em teshuvá e comam o pouco dos méritos que estão na sua mão neste mundo, e os faz cair no mundo vindouro em ruínas eternas; e então "serão um motivo de desolação num instante" etc. (Salmos 73:19). E, na medida do sonho que o homem sonha quando dorme acordado — quer dizer, de dia, que é uma coisa escassa —, naquela medida "desprezarás a sua imagem tzelem" (Salmos 73:20), que é a alma, como explicou o Rav, de abençoada memória, na homonímia de "tzelem". E até aqui respondeu a resposta d'"o ímpio e bem-lhe-vai" pelo caminho que escrevemos na causa segunda.
״עַד אָבוֹא אֶל מִקְדְּשֵׁי אֵל אָבִינָה לְאַחֲרִיתָם״ — שֶׁאִי אֶפְשָׁר שֶׁיִּדְבְּקוּ. ״אַךְ בַּחֲלָקוֹת תָּשִׁית לָמוֹ הִפַּלְתָּם לְמַשּׁוּאוֹת״. אוֹ: מַחֲלִיק לָהֶם שֶׁלֹּא יָשׁוּבוּ.
6 E depois disto voltou a resolver a perplexidade do "justo e mal-lhe-vai" por um caminho outro, e disse que não é o mal que vem sobre o justo um mal em comparação ao bem eterno preparado para ele; e disse "pois se azedava o meu coração" etc. (Salmos 73:21) — quer dizer: ainda que eu tenha dado um motivo para o "ímpio e bem-lhe-vai", ainda está a pergunta do "justo e mal-lhe-vai" no seu lugar a sustentar-se, e "se azedava o meu coração" sobre ela "e nos meus rins me aguilhoava" (Salmos 73:21), e com tudo isto "eu sou bruto e não conhecia" (Salmos 73:22) um motivo para "o justo e mal-lhe-vai"; senão que eu vejo e sinto em mim mesmo que, quando "eu estou sempre contigo" (Salmos 73:23) e o meu pensamento está aderido a ti, "tu seguraste a mão da minha direita" (Salmos 73:23) para ajudar-me e para salvar-me dos acasos que vêm sobre mim pelo caminho do costume da natureza e do costume do mundo — pelo modo do que disse Davi "se apegou a minha alma após ti, em mim sustenta a tua direita" (Salmos 63:9), quer dizer: quando a minha alma está aderida a ti e se estende após ti para servir-te com coração inteiro, imediatamente ela se sustenta na tua mão direita, que é a providência divina que me ajuda, como se tu segurasses a mão da minha direita para guardar-me dos sinistros; e eu vejo que nestas vidas corpóreas "com o teu conselho me conduzes" (Salmos 73:24), quer dizer, com despertares divinos he'arot, como se mencionou no capítulo onze deste Maamar, "me conduzes" e me guias para salvar-me da palma do mal; "e depois destas vidas com a glória me tomarás" (Salmos 73:24); e nisto eu penso na grandeza da glória e da elevação preparada para mim, e eu digo no meu coração "quem tenho eu nos céus?" etc. (Salmos 73:25) — que é esta tua glória que se sobrepõe a mim e me supervisiona a partir dos céus; e, contigo, que tenho nos céus, não desejei coisa alguma da terra, pois eu sei que, quando se consumir o corpo e as suas faculdades — que são "a minha carne e o meu coração" (Salmos 73:26), que são as faculdades anímicas aquelas que têm dependência do corpo —, com tudo isto eu não me consumo ao consumirem-se elas, pois ainda restará uma coisa permanente em mim, e ela é a que se chama "rocha do meu coração" (Salmos 73:26), que é a parte intelectual, que é permanente como uma rocha forte; e "a minha porção" na existência é o ser eu aderido a D'us para sempre, que é uma coisa eterna; e não temerei a corrupção, depois de que eu estou aderido a uma coisa eterna. Mas os que se afastam de ti perecerão sem dúvida, pois "tu aniquilas todo o que adultera de ti" (Salmos 73:27) — quer dizer, o que se separa de ti e se adere a uma coisa outra que não tu; "e eu, a proximidade de D'us me é bem" (Salmos 73:28), quer dizer: todo o meu bem é o ser eu a aproximar-me do Senhor e aderido a ele, e o que ponha no Senhor D'us o meu refúgio, a fim de contar todas as tuas obras enviaduras (cf. Salmos 73:28) — quer dizer, as missões e as maravilhas que se fizeram por meio dos profetas.
״וַאֲנִי תָמִיד עִמָּךְ אָחַזְתָּ בְּיַד יְמִינִי. בַּעֲצָתְךָ תַנְחֵנִי וְאַחַר כָּבוֹד תִּקָּחֵנִי״. ״כָּלָה שְׁאֵרִי וּלְבָבִי צוּר לְבָבִי וְחֶלְקִי אֱלֹהִים לְעוֹלָם״. ״וַאֲנִי קִרְבַת אֱלֹהִים לִי טוֹב״.
7 E este é o caminho que caminhou Assaf na resolução destas perplexidades, e ele é correto muitíssimo e se coaduna com a verdade.
וְזֶהוּ הַדֶּרֶךְ שֶׁהָלַךְ אָסָף בְּהֶתֵּר אֵלּוּ הַסְּפֵקוֹת, וְהוּא נָכוֹן מְאֹד וּמַסְכִּים אֶל הָאֱמֶת.
Os capítulos 12–13 resolveram teoricamente as duas queixas. Mas Albo é honesto: se a resposta já está dada, por que tantos gigantes do espírito — Moisés ("faze-me conhecer o teu caminho"), Jó, Assaf, Jeremias, Habacuc, Malaquias, Coélet — continuaram a se queixar das duas medidas? O capítulo abre catalogando essas queixas e admite que "esta coisa precisa de esclarecimento". A resposta virá em dois passos: este capítulo mostra que Assaf não duvidava — ele ensinava, ordenando as dúvidas justamente para resolvê-las; o capítulo seguinte mostrará que os profetas posteriores tinham uma queixa diferente.
Albo lê o Salmo 73 inteiro como uma peça arquitetada. A palavra-chave é a primeira: "ach tov le-Yisrael" — "certamente/só bom para Israel". O "ach" sinaliza a tese de todo o salmo: todo mal que chega ao justo "não é senão para o bem", ainda que à primeira vista não pareça. E há uma ressalva epistêmica crucial, fiel ao tom de todo o Maamar: esse reconhecimento "não está entregue a todos, mas apenas aos puros de coração" (barei levav) — qualquer outro "está preparado a tropeçar". Assaf então encena o tropeço para nós: "por pouco se inclinaram os meus pés" — descreve com força a prosperidade insolente dos ímpios (belos, gordos, sem tormentos na morte, arrogantes contra o céu e contra os homens) e o seu efeito corrosivo: o povo, vendo isso, "suga um espírito de heresia" e conclui "em vão purifiquei o meu coração".
O ponto de inflexão é "até que eu venha aos santuários de D'us, discernirei no fim deles" (Sl 73:17). Albo dá a "santuários de D'us" (mikdeshei El) uma leitura metafísica: não um templo físico, mas o destino último das almas — o lugar "sob o trono da glória" onde as almas se atam, "de graus diferentes". A partir desse ponto de vista — o fim, não o presente —, a prosperidade do ímpio inverte-se de sinal. Por quê? Princípio: "toda coisa se aproxima do seu semelhante e foge do oposto"; a alma do ímpio, sendo oposta àquele lugar santo, não consegue aderir-se a ele — "escorrega" e cai. Daí a dupla leitura genial de "ach ba-chalakot tashit lamo" (Sl 73:18): chalakot são "lugares escorregadios" (a alma do ímpio escorrega da santidade e despenca em ruínas), e/ou "lisuras/afagos" (D'us "alisa o caminho" ao ímpio, mostrando-lhe face serena, para que não faça teshuvá e esgote aqui seus poucos méritos — exatamente a 2ª causa do cap. 12). A prosperidade que parecia favor era a sentença em curso; e toda ela, do ponto de vista da eternidade, tem a duração irrisória de "um sonho ao despertar".
Para "justo e mal-lhe-vai", Assaf muda de via: não diz por que o justo sofre (admite "sou bruto e não conheço o motivo"), mas mostra que o sofrimento não é mal real diante do bem eterno. A experiência que ele invoca é mística e pessoal: "eu estou sempre contigo, seguraste a mão da minha direita" — a alma aderida a D'us é protegida pela providência ("com o teu conselho me conduzes" = os he'arot, despertares interiores do cap. 11) e, sobretudo, é indestrutível. Quando o corpo e as faculdades dependentes dele ("minha carne e meu coração") perecem, resta a "rocha do meu coração" (tzur levavi) — a parte intelectual da alma, eterna como rocha. "Minha porção é D'us para sempre": quem se apega ao Eterno participa do eterno e "não teme a corrupção". O contraste final é absoluto: os que "adulteram de D'us" (separam-se dele para aderir a outra coisa) "perecem"; o justo, cujo "todo bem é a proximidade de D'us", herda o que não acaba. Assim Assaf resolve ambas as queixas a partir do mesmo ponto de vista — o fim último — que reposiciona toda a aritmética terrena do bem e do mal.
Se Assaf já resolveu as dúvidas, por que os profetas depois dele tornaram a levantá-las? Uma resposta: a dor do que se vê com os olhos é maior que a do que se sabe (como Moisés, que quebrou as Tábuas ao ver o bezerro embora já o soubesse). Mas a verdadeira resposta é outra: a queixa de Habacuc e Jeremias não era dúvida — era que o mal não devia chegar ao justo pela mão do próprio ímpio, pois isso leva os homens a suspeitar dos juízos de D'us e "a Torá se afrouxa". O ímpio é só instrumento; o dano é apenas para quem olha.
Se Assaf já resolveu as dúvidas, por que os profetas depois dele tornaram a levantá-las? Uma resposta: a dor do que se vê com os olhos é maior que a do que se sabe (como Moisés, que quebrou as Tábuas ao ver o bezerro embora já o soubesse). Mas a verdadeira resposta é outra: a queixa de Habacuc e Jeremias não era dúvida — era que o mal não devia chegar ao justo pela mão do próprio ímpio, pois isso leva os homens a suspeitar dos juízos de D'us e "a Torá se afrouxa". O ímpio é só instrumento; o dano é apenas para quem olha.
1 E o que nos restou a esclarecer é que, depois de que se mencionaram nas palavras de Assaf estas perplexidades e a sua resolução pelo caminho que escrevi, por que voltaram os profetas que vieram depois dele a perplexar-se sobre elas, e o que inovaram nas perplexidades e na sua resolução?
וּמַה שֶּׁנִּשְׁאַר עָלֵינוּ לְבָאֵר הוּא, שֶׁאַחַר שֶׁנִּזְכְּרוּ בְּדִבְרֵי אָסָף הַסְּפֵקוֹת הַלָּלוּ וְהֶתֵּרָם, לָמָּה חָזְרוּ הַנְּבִיאִים הַבָּאִים אַחֲרָיו לְסַפֵּק עֲלֵיהֶם, וּמַה חִדְּשׁוּ.
2 E poderíamos dizer que os profetas não se perplexavam nesta coisa depois de que se mencionou a resolução nas palavras de Assaf, senão que mencionaram estas duas perplexidades porque estavam aflitos com a coisa com uma aflição grande quando viam com os seus olhos "um ímpio e bem-lhe-vai" ou "um justo e mal-lhe-vai" — pois a coisa que se vê aos olhos aflige o homem com uma aflição grande mais do que o conhecimento dela, pois o homem se afeta mais com o sentido mursagh e com o obtido pelo sentido mais do que se afeta com o sabido na verdade, ainda que não se perplexe na sua existência de modo algum. Acaso não vês que a Moisés, nosso mestre, sobre ele a paz, se disse pela boca do Senhor no monte "vai, desce" etc. (Êxodo 32:7), e não estava a coisa junto dele em dúvida de modo algum, depois de lhe ter sido dito pela boca do Senhor, e, com tudo isto, não se absteve de descer as Tábuas e não concordou em deixá-las no monte e em não descê-las; e, quando se aproximou do acampamento e viu o bezerro com o sentido, "se inflamou a sua ira e arremessou das suas mãos as Tábuas" (Êxodo 32:19) e as quebrou debaixo do monte? Eis que se afetou com o que se via aos olhos e se afligiu e se inflamou a sua ira mais do que se afetara com o ouvido, ainda que soubesse que o dito a ele pela boca do Senhor, bendito seja, era verdade completa, sem dúvida. E por este caminho era possível dizer que os profetas, ao verem com os seus olhos "um justo e mal-lhe-vai" ou "um ímpio e bem-lhe-vai", se afligiam muito sobre isto, e por causa disto se queixavam sobre esta coisa, como o doente que se aflige sobre a sua doença no tempo da sua doença, ainda que conheça a causa da sua doença de antes e saiba que adoecerá por via de necessidade — não se abstém de queixar-se sobre a sua doença na hora da doença; e o indica sobre isto a fala de Jeremias, que disse "justo és tu, Senhor, quando contendo contigo" (Jeremias 12:1) — quer dizer: sei eu que justo és tu, Senhor, e retos são os teus juízos, quando contendo contigo, quer dizer, quando eu me queixo desta medida, mas de todo modo eu recordo a minha aflição — "por que o caminho dos ímpios prospera?" (Jeremias 12:1). E assim digamos que foi a intenção de todos os profetas — senão que isto não é suficiente de tudo em tudo e não se coaduna com os escritos bem.
הַדָּבָר הַנִּרְאֶה לָעֵינַיִם מְצַעֵר יוֹתֵר מֵהַיְדִיעָה. מֹשֶׁה — אַף שֶׁנֶּאֱמַר לוֹ ״לֶךְ רֵד״, כְּשֶׁרָאָה הָעֵגֶל בְּחוּשׁ חָרָה אַפּוֹ וַיְשַׁבֵּר הַלּוּחוֹת. יִרְמִיָה: ״צַדִּיק אַתָּה ה׳ כִּי אָרִיב אֵלֶיךָ״ — אֲבָל ״מַדּוּעַ דֶּרֶךְ רְשָׁעִים צָלֵחָה״. אַךְ אֵין זֶה מַסְפִּיק.
3 E o que me parece nisto é que os profetas não se perplexavam no tema com que se perplexou Assaf de modo algum, mas se perplexavam e se queixavam pelo modo do que disse Davi "caia, pois, na mão do Senhor, pois muitas são as suas misericórdias, e na mão do homem que eu não caia" (II Samuel 24:14). E isto é: que, ainda que seja dos juízos do Senhor, os retos, — que é possível que chegue um mal ao justo, como escrevemos —, de todo modo, não era cabido que chegasse isto ao justo por meio do ímpio mesmo, pois isto traz os homens a hesitar lefakpek nos juízos do Senhor e a que se afrouxe a Torá tafug Torá; e o indica sobre isto a expressão da queixa de Habacuc, que disse "pois o ímpio cerca o justo, por isso sai um juízo torcido" (Habacuc 1:4) — pois, ainda que soubesse que Israel pecava e era obrigado a castigo, se queixava sobre o ser a chegada do castigo a Israel por meio de Nabucodonosor, o ímpio, pois era cabido que lhes chegasse um castigo por meio do Senhor — seja por peste, seja por fome, seja por doenças más, como adoeceram em Jó, ou que fosse Jerusalém revolvida como num instante como Sodoma — não que estivesse o ímpio a cercar a triunfar sobre o justo.
הַנְּבִיאִים לֹא נִסְתַּפְּקוּ — ״אֶפְּלָה נָא בְיַד ה׳... וּבְיַד אָדָם אַל אֶפֹּלָה״. לֹא הָיָה רָאוּי שֶׁיַּגִּיעַ הָרַע עַל יְדֵי הָרָשָׁע עַצְמוֹ, שֶׁזֶּה מֵבִיא לְפַקְפֵּק בְּמִשְׁפְּטֵי הַשֵּׁם וְתָפוּג תּוֹרָה. ״כִּי רָשָׁע מַכְתִּיר אֶת הַצַּדִּיק עַל כֵּן יֵצֵא מִשְׁפָּט מְעֻקָּל״.
4 E, para mostrar que esta era a sua intenção na sua queixa, disse "por que olhas para os traidores, te calas ao tragar o ímpio o justo mais do que ele?" (Habacuc 1:13) — que não disse "o justo" em absoluto, mas "o justo mais do que ele", quer dizer que, ainda que não fossem os israelitas justos completos, de todo modo eram mais justos do que Nabucodonosor, o ímpio, que os tragava; e disto se queixava: por que estava o Senhor a conduzir-se com esta medida, de que chegasse o mal por meio do ímpio ao que é mais justo do que ele, ainda que não seja um justo completo.
״לָמָּה תַבִּיט בּוֹגְדִים תַּחֲרִישׁ בְּבַלַּע רָשָׁע צַדִּיק מִמֶּנּוּ״ — לֹא ״צַדִּיק״ סְתָם אֶלָּא ״צַדִּיק מִמֶּנּוּ״, שֶׁאַף שֶׁלֹּא הָיוּ צַדִּיקִים גְּמוּרִים, הָיוּ יוֹתֵר צַדִּיקִים מִנְּבוּכַדְנֶצַּר.
5 E assim a queixa de Jeremias era por este caminho também — que se queixava sobre os homens de Anatot, que eram ímpios e o perseguiam e buscavam a sua alma e queriam dar-lhe a beber o veneno da morte, e ele não o sabia: disse "e eu era como um cordeiro manso que é conduzido para o degolar, e não sabia que sobre mim pensaram pensamentos: 'destruamos a árvore com o seu pão e o cortemos da terra dos viventes, e o seu nome não se recordará mais'" (Jeremias 11:19); e, se não fosse a providência divina, teria caído nas suas mãos, como disse "e o Senhor me fez conhecer e o soube; então me mostraste os seus feitos" (Jeremias 11:18). E a causa desta queixa não é porque não seja um juízo reto que o Senhor faça do ímpio um instrumento para tomar a sua vingança dos ímpios, como esclareci na causa terceira do "ímpio e bem-lhe-vai", mas porque traz os homens a suspeitar dos juízos do Senhor, bendito seja.
תַּרְעֹמֶת יִרְמִיָה עַל אַנְשֵׁי עֲנָתוֹת: ״וַאֲנִי כְּכֶבֶשׂ אַלּוּף יוּבַל לִטְבוֹחַ״. לֹא לְפִי שֶׁאֵינוֹ מִשְׁפָּט יָשָׁר, אֶלָּא לְפִי שֶׁמֵּבִיא לַחֲשֹׁד מִשְׁפְּטֵי הַשֵּׁם.
6 E isto é o que disse Habacuc "por isso se afrouxa a Torá e não sai a vitória do juízo netzach mishpat" etc. (Habacuc 1:4); e isto é pelo modo do que disse Salomão "uma fonte turvada nirpás e um manancial corrompido — um justo que vacila diante do ímpio" (Provérbios 25:26) — quer dizer que, assim como a fonte turvada e o manancial corrompido, em que não há o mal e o dano para a fonte nem para o manancial, mas para os que veem e se abastecem dele, ao estarem eles aflitos sobre o ser a sua fonte turvada e o seu manancial corrompido — assim, quando o justo vacila diante do ímpio, não há o dano para o justo, pois ele sabe que os sofrimentos que vêm sobre ele são para o bem dele, para depurar o pouco das rebeldias que estão na sua mão, e sabe também que muitos são os caminhos do Onipresente quando toma a sua vingança dos transgressores da sua vontade, e não há diferença junto dele entre o pagar o Senhor o seu pecado ao justo por meio de uma serpente ou um leão ou outro vivente, ou por meio do ímpio; e, contudo, o dano e a aflição é para os homens que veem, porque eles vêm a lançar uma suspeita nos juízos do Senhor e a dizer: eis que fulano é um ímpio completo e ele danifica a fulano, que é mais justo do que ele, ainda que não seja um justo completo — e parece aos homens que não é isto um juízo reto, — não que seja assim conforme a verdade; pois eis que Habacuc mesmo esclareceu isto, ao dizer "Senhor, para o juízo o puseste, e ó Rocha, para a correção o fundaste" (Habacuc 1:12) — quis dizer que o ímpio não é senão um instrumento com que faz o Senhor, bendito seja, por meio dele um juízo nos ímpios, e com que repreende o Senhor os justos por meio dele com dor e aflição, a fim de depurar o pouco das rebeldias que estão na sua mão para que mereçam a vida do mundo vindouro, e a fim de que pereça o ímpio com uma perdição eterna num instante — como pereceu toda a semente de Nabucodonosor, e Israel subiu do exílio de Babel e prosperou.
״עַל כֵּן תָּפוּג תּוֹרָה וְלֹא יֵצֵא לָנֶצַח מִשְׁפָּט״. ״מַעְיָן נִרְפָּשׂ וּמָקוֹר מָשְׁחָת צַדִּיק מָט לִפְנֵי רָשָׁע״ — אֵין הַהֶזֵּק לַצַּדִּיק אֶלָּא לָרוֹאִים. ״ה׳ לְמִשְׁפָּט שַׂמְתּוֹ וְצוּר לְהוֹכִיחַ יְסַדְתּוֹ״ — הָרָשָׁע אֵינוֹ אֶלָּא כְּלִי.
7 E o que se eleva disto é que todos os sofrimentos dos justos — o seu fim é para o bem, e as prosperidades do ímpio — o seu fim é para o mal; e toda coisa se examina na sua bondade ou na sua maldade conforme o fim takhlit. E por este caminho se entendem todas as palavras dos profetas e dos sábios, um a um — que há dentre eles os que falaram pelo caminho de Assaf ou de Jó, e há os que falaram pelo caminho de Habacuc e de Jeremias; e é suficiente a fala sobre a providência com o que escrevemos.
וְהָעוֹלֶה: שֶׁכָּל יִסּוּרֵי הַצַּדִּיקִים תַּכְלִיתָן לְטוֹב וְהַצְלָחוֹת הָרָשָׁע תַּכְלִיתָן לְרַע, וְכָל דָּבָר יִבָּחֵן כְּפִי הַתַּכְלִית. וְיַסְפִּיק הַדִּבּוּר בְּהַשְׁגָּחָה בְּמַה שֶּׁכָּתַבְנוּ.
O capítulo anterior mostrou que Assaf (Salmo 73) já tinha resolvido as duas queixas. Surge então um problema literário-teológico: por que profetas posteriores — Jeremias, Habacuc, Malaquias — voltam a levantá-las? Albo oferece duas respostas, e a segunda é a sua contribuição original.
A primeira resposta é psicológica e profunda: saber uma verdade não impede a dor diante dela; "o homem afeta-se mais com o que sente do que com o que sabe". O exemplo é magistral — Moisés já sabia, pela boca de D'us no monte, que Israel fizera o bezerro; ainda assim, ao ver o bezerro com os próprios olhos, "inflamou-se a sua ira" e quebrou as Tábuas. A emoção do testemunho direto excede a da informação prévia. Assim os profetas poderiam queixar-se não por dúvida (que Assaf dissolvera), mas pela dor de presenciar a injustiça aparente — como o doente que, conhecendo a causa do seu mal, ainda geme na hora da dor. Jeremias quase admite isso: "sei que és justo, Senhor, quando contendo contigo — mas recordo a minha aflição: por que prospera o caminho dos ímpios?". Albo, porém, julga essa resposta insuficiente: "não se coaduna bem com os textos".
A verdadeira queixa dos profetas é diferente da de Assaf — e Albo a ancora no voto de Davi: "caia eu na mão de D'us... mas na mão do homem não caia" (II Sm 24:14). O ponto não é que o justo sofra (isso a teodiceia já justificou), mas como: o mal não deveria chegar ao justo pela mão do próprio ímpio. Por quê? Por uma razão de ordem pública e religiosa: quando se vê um ímpio triunfar sobre alguém melhor que ele, "os homens hesitam nos juízos de D'us e a Torá se afrouxa" (tafug Torá). A objeção de Habacuc é precisa — "o ímpio cerca o justo, por isso sai um juízo torcido" (Hab 1:4) — e o detalhe filológico é decisivo: ele não diz "o justo" mas "o justo mais que ele" (tzadik mimenu, Hab 1:13). Israel não era perfeito, mas era mais reto que Nabucodonosor; que o pior puna o menos-pior é o que escandaliza. Seria preferível que o castigo viesse "pela mão de D'us" — peste, fome, doença (como Jó), Sodoma num instante — do que pelo triunfo visível de um malvado. Jeremias sente o mesmo diante dos homens de Anatot que o queriam envenenar ("como cordeiro manso conduzido ao degolar").
A resolução de Albo é cirúrgica e desloca o foco do justo para o espectador. Habacuc mesmo dá a resposta: "Senhor, para o juízo o puseste, e ó Rocha, para a correção o fundaste" (Hab 1:12) — o ímpio é mero instrumento, indiferente como uma serpente ou um leão. Para o justo, "não há diferença" se o castigo lhe vem por uma fera ou por um homem mau — ele sabe que o sofrimento o depura e que "muitos são os caminhos do Onipresente". O dano real é só para os que olham — e aqui entra a imagem perfeita de Salomão (Pv 25:26): "fonte turvada e manancial corrompido — um justo que vacila diante do ímpio". A fonte turvada não sofre dano em si; o prejuízo é dos que dela bebem e a veem suja. Assim, o triunfo do ímpio sobre o justo não é injustiça — apenas parece aos observadores, levando-os a "suspeitar dos juízos de D'us". O problema é de percepção pública, não de justiça real — e a história o desmente: "pereceu toda a semente de Nabucodonosor, e Israel subiu do exílio e prosperou".
A conclusão condensa todo o Maamar numa só frase: "os sofrimentos dos justos têm por fim o bem, e as prosperidades dos ímpios têm por fim o mal; e toda coisa se julga pelo fim (takhlit)". Esta é a chave que reconcilia todas as vozes da Escritura: uns (Assaf, Jó) falaram pela ótica do destino último da alma; outros (Habacuc, Jeremias) pela ótica do escândalo público — mas ambos apontam para o mesmo horizonte. A aparência presente engana; só o fim revela o valor verdadeiro de cada coisa. Com isso, declara Albo, "é suficiente a fala sobre a providência" — encerrando o grande arco da teodiceia que ocupou os capítulos 7 a 15.
A oração (tefilá) é ramo que brota da providência: o atendimento da prece prova a providência. Crer na providência obriga crer que a oração aproveita — e quem não reza ou nega a providência, ou duvida do poder de D'us, ou se julga indigno. Todo bem que vem de D'us é graça, não salário. As potências celestes agem só por natureza, sobre o preparado, sem vontade — daí o erro da idolatria; só D'us age por vontade e pode dar o oposto. A oração prepara o recebedor. Menashé, o ímpio, foi atendido — e de dentro da própria aflição.
A oração (tefilá) é ramo que brota da providência: o atendimento da prece prova a providência. Crer na providência obriga crer que a oração aproveita — e quem não reza ou nega a providência, ou duvida do poder de D'us, ou se julga indigno. Todo bem que vem de D'us é graça, não salário. As potências celestes agem só por natureza, sobre o preparado, sem vontade — daí o erro da idolatria; só D'us age por vontade e pode dar o oposto. A oração prepara o recebedor. Menashé, o ímpio, foi atendido — e de dentro da própria aflição.
1 E é cabido que prossigamos à fala sobre a providência com a fala sobre a oração tefilá, porque a oração, ainda que não seja uma raiz das raízes da Torá, eis que ela é um ramo que se ramifica da providência — que o atendimento da oração indica por via de necessidade sobre a providência, como esclarecemos; e é uma coisa cabida e obrigatória sobre todo crente na providência que creia que a oração lhe aproveitará para salvá-lo do seu mal. Pois aquele que não reza ao Senhor no tempo da sua angústia, eis que ele é ou porque não crê na providência, ou porque crê nela mas duvida do poder do Senhor sobre a sua salvação — e ambas são heresia —, ou porque crê na providência e não duvida do poder do Senhor, bendito seja, sobre a sua salvação, pois D'us é capaz sobre toda coisa, mas duvida se ele é cabido a uma tal benesse — de que se ouça a sua oração.
הַתְּפִלָּה עָנָף מִסְתַּעֵף מִן הַהַשְׁגָּחָה, שֶׁקַּבָּלַת הַתְּפִלָּה יוֹרֶה עַל הַהַשְׁגָּחָה. מִי שֶׁלֹּא יִתְפַּלֵּל: אוֹ אֵינוֹ מַאֲמִין בַּהַשְׁגָּחָה, אוֹ מְסַפֵּק בִּיכֹלֶת הַשֵּׁם (וּשְׁתֵּיהֶן כְּפִירָה), אוֹ מְסַפֵּק אִם רָאוּי.
2 E isto é uma coisa cabida e obrigatória sobre todo homem — o não ser justo aos seus próprios olhos; mas, de todo modo, não é cabido que se abstenha por causa disto de rezar a D'us sobre o que lhe é necessário, pois aquele que faz isto, eis que é porque crê que o bem que chega ao homem do Senhor é a recompensa dos seus atos bons, não a bondade do Senhor e as suas misericórdias — e esta é uma opinião não correta; pois eis que a Escritura diz "não sobre as nossas justiças" etc. (Daniel 9:18), "mas sobre as tuas misericórdias muitas" (Daniel 9:18), porque as bondades do Senhor, bendito seja, e as suas misericórdias estão sobre todas as suas criaturas pelo lado da bondade completa, não pelo lado da recompensa — e é o que disse o Senhor a Jó "quem me antecedeu, para que eu lhe pague?" (Jó 41:3); e disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "acaso fez algum homem uma mezuzá e eu não lhe dei uma casa? amarrou tsitsit na sua veste e eu não lhe dei um manto?".
רָאוּי שֶׁלֹּא לִהְיוֹת צַדִּיק בְּעֵינָיו, וְעִם כָּל זֶה לֹא יִמָּנַע מִלְּהִתְפַּלֵּל. ״לֹא עַל צִדְקוֹתֵינוּ... כִּי עַל רַחֲמֶיךָ הָרַבִּים״. ״מִי הִקְדִּימַנִי וַאֲשַׁלֵּם״. ״כְּלוּם עָשָׂה אָדָם מְזוּזָה וְלֹא נָתַתִּי לוֹ בַּיִת״.
3 E por isso o que é cabido que se creia é que todos os bens que chegam do Senhor são pelo lado da bondade completa, e não a recompensa dos seus atos bons; e por este lado já chegam dele bens, seja que o recebedor esteja preparado, seja que esteja não-preparado — pois a oração adquire ao homem uma preparação hachaná que não está na sua natureza, para receber aquele bem, coisa com que é impossível que chegue isto e o semelhante a ele de algum existente outro que não o Senhor sem outra preparação, seja natural, seja artificial. E isto é porque todas as potências superiores são limitadas e não chegam senão sobre o preparado; pois, assim como a potência do fogo é de aquecer e a das águas de esfriar, assim a potência de Marte, pelo modo do exemplo, é de destruir, matar e fazer perecer, e não está na sua mão derramar o oposto sobre o recebedor, ou mudar isto se for o recebedor preparado, como não há potência na mão do fogo de esfriar; e assim a potência de Júpiter Tzedek é de fazer prosperar e enriquecer, e não está na sua mão mudar aquela indicação e derramar o oposto sobre o recebedor, como não há potência na mão das águas de aquecer senão por acidente; e por este caminho são as demais potências superiores.
כָּל הַטּוֹבוֹת מֵהַשֵּׁם — עַל צַד הַחֶסֶד, וְהַתְּפִלָּה תִּקְנֶה הֲכָנָה שֶׁאֵינָהּ בְּטִבְעוֹ. הַכֹּחוֹת הָעֶלְיוֹנוֹת מֻגְבָּלוֹת — מַאְדִּים לְהַשְׁמִיד, צֶדֶק לְהַצְלִיחַ, וְאֵין בְּיָדָם לְשַׁנּוֹת הַהוֹרָאָה.
4 E esta coisa esclareceram-na os nossos mestres, de abençoada memória, no capítulo "Arvei Pesachim": disseram ali que, na hora em que lançou Nabucodonosor, o ímpio, a Chananiá, Mishael e Azariá para dentro da fornalha do fogo, levantou-se Yorkemi, o ministro do granizo sar shel barad, diante do Santo, bendito seja, e disse perante ele: "Senhor do mundo, descerei e esfriarei a fornalha e salvarei os justos"; levantou-se Gabriel diante do Santo, bendito seja, e disse: "não está a glória do Santo, bendito seja, nisto — que tu o faças, mas eu, que sou o ministro do fogo, irei e a aquentarei por fora e a esfriarei por dentro, de modo que haja um milagre dentro de um milagre". Eis que está manifesto que não é a potência de Yorkemi senão de esfriar, e a potência de Gabriel senão de aquecer, exceto pela vontade do Senhor, bendito seja. E assim é impossível às potências superiores que recaiam sobre os recebedores sem a preparação, seja que aquele influxo recaia sobre o recebedor pelo lado de uma natureza revelada, seja pelo lado de uma natureza oculta — como os medicamentos agem nos recebedores, seja pelo lado da sua natureza, seja pelo lado das suas propriedades segulot, que é a natureza oculta, conforme a preparação dos recebedores para receberem aquela natureza ou aquela propriedade.
״עָמַד יוּרְקְמִי שַׂר שֶׁל בָּרָד... אֲצַנֵּן אֶת הַכִּבְשָׁן... עָמַד גַּבְרִיאֵל... אֲנִי שַׂר שֶׁל אֵשׁ אֵלֵךְ וְאַקְדִּיר מִבַּחוּץ וַאֲצַנֵּן מִבִּפְנִים, נֵס בְּתוֹךְ נֵס״ — אֵין כֹּחָם אֶלָּא בִּרְצוֹן הַשֵּׁם.
5 E, contudo, quando preparar o recebedor a si mesmo para receber aquele influxo que chega pelo lado da natureza do astro revelada — como para receber a umidade pelo lado da lua e o calor por meio do sol —, não é isto do que traz o homem a errar e a pensar que aquela ação chega pelo lado do extrair a vontade do astro; mas, quando preparar o recebedor a si mesmo para receber o influxo do astro por meio de alguma ação das ações cuja causa é oculta — semelhante à ação que decorre dos medicamentos pelo lado das suas propriedades —, isto traz os homens a errar e a pensar que aquela ação chega pelo lado do extrair a vontade do astro; e não é assim, mas é como que o influxo do mestre do que ensina recai sobre o preparado dentre os aprendizes mais do que recai sobre o não-preparado, sem que se dirija o mestre a um deles mais do que se dirige a outro — assim o influxo do astro chega sobre o preparado mais do que sobre o não-preparado, sem intenção e sem vontade da sua parte.
שֶׁפַע הַכּוֹכָב יַגִּיעַ עַל הַמּוּכָן יוֹתֵר — בְּלֹא כַּוָּנָה וְרָצוֹן, כְּשֶׁפַע הַמְּלַמֵּד שֶׁחָל עַל הַמּוּכָן מֵהַמִּתְלַמְּדִים בְּלִי שֶׁיְּכַוֵּן לְאֶחָד יוֹתֵר.
6 E esta foi a raiz do erro nos servidores de idolatria — que pensavam que o influxo que chega do astro era pelo lado do extrair a vontade do astro por meio das ações singularizadas do astro, e não pensavam que isto era pelo lado de que aquelas ações dão uma preparação no recebedor; e isto foi porque a causa nelas era oculta; e por causa disto vinham a prostrar-se a ele e a rezar diante dele e a sacrificar e a queimar incenso e a libar verter libações àquele astro, ao estarem eles a pensar em extrair a sua vontade por meio daquelas ações.
זֶה הָיָה שֹׁרֶשׁ הַטָּעוּת בְּעוֹבְדֵי עֲבוֹדָה זָרָה — שֶׁחָשְׁבוּ שֶׁהַשֶּׁפַע מִצַּד הֲפָקַת רְצוֹן הַכּוֹכָב, וְלֹא שֶׁהַפְּעֻלּוֹת נוֹתְנוֹת הֲכָנָה בַּמְּקַבֵּל.
7 E o erro nisto é manifesto, porque o poder das potências superiores é limitado, e não há potência na mão de nenhuma delas de fazer senão o que decreta a sua natureza, e conforme a preparação do recebedor apenas, não pelo lado da vontade de modo algum. E isto é como o ídolo Baal-Peor, cuja potência era de soltar expelir os humores dos que se descobriam defecavam diante dele; e disseram os nossos mestres, de abençoada memória, que os sacerdotes os alimentavam com acelgas e os davam a beber cerveja de Edom, e isto era para que se preparasse o recebedor para isso; e esta ação decorria dele para o que se descobria diante dele, seja que precisasse disso, seja que não precisasse, e aproveitava ao que precisava e danificava ao que não precisava e o matava — e isto é porque não decorria a ação dele pelo lado da vontade. E por isso, o que chamou a Escritura àquele serviço "sacrifícios dos mortos": disse "e se juntaram a Baal-Peor e comeram os sacrifícios dos mortos" (Salmos 106:28) — quer dizer: que, assim como não há na mão do morto a potência de querer e de não querer, assim não há na mão dos astros a potência de querer e de não querer, como não há capacidade na mão do fogo de não queimar a veste do justo quando se aproximar dele, ou de queimar a veste do ímpio quando se afastar dele ou quando não houver nele preparação alguma para receber a queima — assim não há potência na mão do astro de fazer mal ou de fazer bem senão conforme o que decreta a sua natureza e conforme a preparação do recebedor; e por isso não será a oração cabida a ele de modo algum, depois de que não é a sua ação pelo lado da vontade — mas apenas ao Senhor, bendito seja, pois as ações que chegam dele chegam pelo lado da vontade, e há na sua mão a potência de querer e de não querer, e de fazer uma coisa e o seu oposto, e de fazer bondade de graça, seja que o recebedor seja cabido a isso, seja que seja não-cabido — exceto quando se preparar a si mesmo por meio da oração apenas.
בַּעַל פְּעוֹר — כֹּחוֹ לְשַׁלְשֵׁל לַפּוֹעֲרִים, וְלֹא עַל צַד הָרָצוֹן. ״וַיִּצָּמְדוּ לְבַעַל פְּעוֹר וַיֹּאכְלוּ זִבְחֵי מֵתִים״ — כְּמֵת אֵין בְּיָדוֹ לִרְצוֹת. הַתְּפִלָּה רְאוּיָה רַק לַשֵּׁם, שֶׁפְּעֻלּוֹתָיו עַל צַד הָרָצוֹן.
8 E esta é uma coisa que se esclareceu na Escritura em muitos lugares, e em particular em Menashé, filho de Ezequias, rei de Judá, que era um ímpio completo, e não houve quem se rebelasse e exagerasse ao injustiçar como ele, antes dele e depois dele; e, ainda assim, se disse sobre ele "e, ao estar em aperto para ele, suplicou a face do Senhor seu D'us" etc. (II Crônicas 33:12), "e rezou a ele, e Ele se lhe comoveu atendeu e ouviu a sua súplica e o fez voltar a Jerusalém para a sua realeza" (II Crônicas 33:13). E aprendemos disto duas coisas: a uma, que, mesmo se for o orante no extremo da maldade, como Menashé, se preparará para receber a bondade por meio da oração; e a segunda, que a oração é ouvida mesmo de dentro da angústia, como testemunhou a Escritura "e, ao estar em aperto para ele" etc.
מְנַשֶּׁה — רָשָׁע גָּמוּר, וְ״כְהָצֵר לוֹ חִלָּה אֶת פְּנֵי ה׳... וַיֵּעָתֶר לוֹ״. שְׁנֵי דְבָרִים: גַּם הָרָשָׁע יוּכַן עַל יְדֵי הַתְּפִלָּה; וְהַתְּפִלָּה נִשְׁמַעַת מִתּוֹךְ הַצָּרָה.
9 E isto indica sobre a grandeza do exagero da bondade do Senhor, bendito seja, sobre as suas criaturas — que é do caminho dos homens o dizer "e por que viestes a mim agora, quando estais em aperto?" (cf. Juízes 11:7); mas o Senhor, bendito seja, é desejante de bondade, e a sua direita está estendida para receber os que se voltam em todo tempo e todo tempo. Disse o poeta "e clamaram ao Senhor ao estarem em aperto para eles" etc. (Salmos 107:6); e disse Jonas "clamei, da angústia minha, ao Senhor, e Ele me respondeu" (Jonas 2:3) — quer dizer: ainda que não fosse cabido que se recebesse a minha oração de dentro da angústia, depois de que fugi de diante dele, não por causa disto se absteve de responder-me, e isto é "clamei, da angústia minha, ao Senhor, e Ele me respondeu".
גֹּדֶל חֶסֶד הַשֵּׁם — יְמִינוֹ פְּשׁוּטָה לְקַבֵּל שָׁבִים בְּכָל עֵת. ״וַיִּצְעֲקוּ אֶל ה׳ בַּצַּר לָהֶם״. יוֹנָה: ״קָרָאתִי מִצָּרָה לִי אֶל ה׳ וַיַּעֲנֵנִי״.
Encerrada a teodiceia (caps. 7–15), Albo passa a um corolário direto da providência: a oração. A lógica é precisa — embora a oração não seja um dos "princípios" (ikkarim) cardinais, ela é um ramo que brota necessariamente da providência, pois o atendimento da prece pressupõe que D'us escuta e age sobre o indivíduo. Daí o teste diagnóstico afiado: quem não reza na aflição revela um de três defeitos — ou não crê na providência, ou duvida do poder de D'us (ambos "heresia"), ou duvida do próprio mérito. Os dois primeiros são erros de fé; o terceiro, embora pareça humildade, também é erro.
O eixo teológico do capítulo: todo bem que vem de D'us é chesed (graça), não gemul (recompensa merecida). Quem se abstém de rezar por se julgar indigno comete, paradoxalmente, o erro de supor que o bem divino é pagamento por boas obras — uma "opinião não correta". As provas são contundentes: "não sobre as nossas justiças... mas sobre as tuas muitas misericórdias" (Dn 9:18); "quem me antecedeu, para que eu lhe pague?" (Jó 41:3); e o belíssimo midrash — "fez alguém uma mezuzá e eu não lhe dei uma casa? amarrou tsitsit e eu não lhe dei o manto?" (Nidá 70b). D'us dá primeiro a casa e o manto; o mandamento vem depois. A indignidade, portanto, não é razão para não rezar — porque a oração não compra; ela prepara.
O conceito-chave é a hachaná (preparação/disposição do recebedor). Aqui Albo expõe sua física-metafísica das causas. As "potências superiores" (os astros, as forças celestes) são limitadas e unidirecionais: cada uma só pode fazer o que sua natureza decreta, e só sobre o preparado. Como o fogo só aquece e a água só esfria, Marte só destrói e Júpiter (Tzedek) só faz prosperar — nenhum pode inverter sua "indicação". O midrash de Yorkemi (ministro do granizo) e Gabriel (ministro do fogo) na fornalha de Daniel 3 (Pesachim 118a) ilustra-o: cada anjo-potência tem uma só função (esfriar / aquecer), e só atuam "pela vontade de D'us". A oração, então, faz algo que nenhuma força natural pode fazer: confere ao recebedor uma preparação que não está em sua natureza, abrindo-o ao bem que de outro modo não o alcançaria.
Daqui Albo extrai um diagnóstico brilhante do erro idolátrico. O influxo dos astros chega ao preparado "como o influxo do mestre chega ao aluno preparado, sem que o mestre se dirija a ele com vontade" — é automático, não volitivo. Quando a preparação se dá por meios ocultos (ritos cuja causa não se vê, análogos às "propriedades" segulot dos medicamentos), os homens erram supondo que se está extraindo a vontade do astro — e por isso se prostram, sacrificam e libam a ele. Mas o astro é como Baal-Peor (cuja "potência" era puramente mecânica, sobre quem se preparava por acelgas e cerveja) ou como um morto: "sacrifícios dos mortos" (Sl 106:28) — pois "como o morto não tem poder de querer ou não-querer, assim os astros". O fogo não pode poupar a veste do justo nem queimar a do ímpio à distância; age só por natureza e preparação. Logo, rezar a eles é absurdo — só faz sentido rezar a Quem age por vontade, podendo querer ou não querer, fazer uma coisa ou seu oposto, conceder graça "de graça". A oração dirigida a D'us não é magia que força uma vontade; é a auto-preparação do orante diante d'Aquele que livremente concede.
O capítulo culmina com o caso-limite que prova ambas as teses. Menashé, "o pior dos reis, antes e depois dele", rezou em sua prisão e foi atendido (II Cr 33:12–13). Daí Albo tira duas lições: (1) mesmo o mais ímpio pode preparar-se pela oração para receber a graça — porque o bem é chesed, não salário; e (2) a oração é ouvida de dentro da própria aflição, sem necessidade de mérito prévio. Contra o cálculo humano ("por que vens a mim só agora que estás em aperto?", Jz 11:7), "a direita de D'us está estendida para receber os que voltam em todo tempo". Jonas selaria: "clamei da minha angústia ao Senhor, e Ele me respondeu" — embora estivesse fugindo d'Ele. A oração, assim, é o ato pelo qual o homem se abre à graça ilimitada de Quem, sozinho, age por vontade livre — tese que o próximo capítulo fundamentará nos quatro atributos exclusivos de D'us.
Toda espécie de bondade flui só de D'us — pois só n'Ele se reúnem quatro atributos sem os quais não se pode esperar bondade completa de existente algum: ser imutável, não precisar de auxílio, poder igualmente os dois opostos, e não haver quem o impeça. Os quatro "eu" de Ha'azinu cifram esses quatro atributos. Por isso a oração só cabe a Ele — e a oração brota da faculdade intelectual, não da apetitiva; pede-se só o que o recebedor tem capacidade de receber.
Toda espécie de bondade flui só de D'us — pois só n'Ele se reúnem quatro atributos sem os quais não se pode esperar bondade completa de existente algum: ser imutável, não precisar de auxílio, poder igualmente os dois opostos, e não haver quem o impeça. Os quatro "eu" de Ha'azinu cifram esses quatro atributos. Por isso a oração só cabe a Ele — e a oração brota da faculdade intelectual, não da apetitiva; pede-se só o que o recebedor tem capacidade de receber.
1 Todas as espécies da bondade são influídas e decorrem do Senhor, bendito seja, e não há outro existente que não ele que possa influir bondade sobre algum existente. E isto é porque é impossível que se espere uma bondade completa de algum existente, a não ser se se acharem naquele influenciador quatro atributos tearim.
כָּל מִינֵי הַחֶסֶד מֻשְׁפָּעִים וְנִמְשָׁכִים מֵהַשֵּׁם יִתְבָּרַךְ, וְאֵין נִמְצָא זוּלָתוֹ שֶׁיּוּכַל לְהַשְׁפִּיעַ חֶסֶד. וְזֶה לְפִי שֶׁאִי אֶפְשָׁר שֶׁיְּקֻוֶּה חֶסֶד גָּמוּר מִשּׁוּם נִמְצָא אֶלָּא אִם נִמְצְאוּ בַּמַּשְׁפִּיעַ הַהוּא ד׳ תְּאָרִים.
2 O um: que seja aquele influenciador não-mutável bilti mishtané; pois, se fosse mutável, é impossível que fosse a bondade que decorre dele completa, pois não seria permanente; e não há outro existente que não o Senhor que não se mude, como expliquei no capítulo segundo do Maamar segundo.
הָאֶחָד: שֶׁיִּהְיֶה בִּלְתִּי מִשְׁתַּנֶּה, שֶׁאִם הָיָה מִשְׁתַּנֶּה לֹא יִהְיֶה הַחֶסֶד גָּמוּר כִּי לֹא יִהְיֶה קַיָּם. וְאֵין זוּלָת ה׳ שֶׁלֹּא יִשְׁתַּנֶּה.
3 E o segundo: que seja aquele influenciador não-necessitado de um auxílio ezer de outro existente que não ele no influir daquela bondade ou daquele bem; pois, se for necessitado de um auxílio outro que não ele, não estará seguro o recebedor da bondade de que se continue aquela bondade, a não ser com o achar-se daquele auxílio. E é manifesto das potências superiores que elas indicam sobre uma coisa quando concordar com elas um assunto ou uma causa outra que auxilia a isto — como se dissesses, ao estar o dono do signo ascendente tzomeach na casa da sua honra, ou ao olhar para um astro bom, e o semelhante a isto; e não há existente no mundo que não precise de um auxílio senão o Senhor, bendito seja, como a fala da Escritura "eu sou o Senhor, o que faz tudo, o que estende os céus sozinho, o que estira a terra — de mim mesmo por mim só" (Isaías 44:24).
וְהַב׳: שֶׁיִּהְיֶה בִּלְתִּי צָרִיךְ אֶל עֵזֶר. הַכֹּחוֹת הָעֶלְיוֹנוֹת יוֹרוּ כְּשֶׁיַּסְכִּים סִבָּה אַחֶרֶת. ״אָנֹכִי ה׳ עֹשֶׂה כֹּל נֹטֶה שָׁמַיִם לְבַדִּי רֹקַע הָאָרֶץ מֵאִתִּי״.
4 E o terceiro: que seja aquele influenciador capaz sobre os dois opostos shnei hafachim por igual; pois, sem isto, não poderá o recebedor alcançar o seu desejo em todo tempo, pois às vezes precisa o homem de uma coisa e outra vez do seu oposto — pois às vezes precisa, pelo modo do exemplo, de fazer guerra, e outra vez precisa de paz; e é sabido das potências superiores que o astro que indica sobre a guerra não indica sobre a paz, e o que indica sobre a destruição não indica sobre a construção, e não há potência na mão do que indica sobre a guerra de reverter a sua indicação à paz; e assim o que indica sobre a doença não indica sobre a cura. E por isso não poderá o recebedor da bondade estar seguro de que se lhe estenda a bondade que lhe é necessária, a não ser se for o influenciador capaz sobre os dois opostos por igual; e não há no mundo quem seja capaz disto a não ser o Senhor, bendito seja: disse a Escritura "o que forma a luz e cria a treva, o que faz a paz e cria o mal, eu sou o Senhor, o que faz todas estas" (Isaías 45:7).
וְהַשְּׁלִישִׁי: שֶׁיִּהְיֶה יָכוֹל עַל ב׳ הֲפָכִים בְּשָׁוֶה. הַכּוֹכָב הַמּוֹרֶה עַל הַמִּלְחָמָה לֹא יוֹרֶה עַל הַשָּׁלוֹם. ״יוֹצֵר אוֹר וּבוֹרֵא חֹשֶׁךְ עֹשֶׂה שָׁלוֹם וּבוֹרֵא רָע אֲנִי ה׳ עֹשֶׂה כָל אֵלֶּה״.
5 E o quarto: que seja aquele influenciador num modo tal que não haja outro existente que possa impedir le'akev na sua mão — de fazer a sua vontade; pois, se há um impedidor na sua mão, não estará seguro o recebedor da bondade de que lhe chegue a bondade buscada daquele influenciador, pois talvez a impeça na sua mão outro que não ele. E é manifesto que todo existente outro que não o Senhor — o Senhor o pode impedir na sua mão, e não há quem impeça na mão do Senhor — de que não faça a sua vontade: disse a Escritura "eis que Ele arrebata, e quem o fará voltar? quem lhe dirá 'o que fazes'?" (Jó 9:12).
וְהַד׳: שֶׁלֹּא יִהְיֶה שׁוּם נִמְצָא יָכוֹל לְעַכֵּב עַל יָדוֹ. כָּל נִמְצָא זוּלַת הַשֵּׁם — הַשֵּׁם יָכוֹל לְעַכֵּב עַל יָדוֹ. ״הֵן יַחְתֹּף וּמִי יְשִׁיבֶנּוּ מִי יֹאמַר אֵלָיו מַה תַּעֲשֶׂה״.
6 E, ao juntarem-se estas condições no influenciador, estará seguro o recebedor da bondade de que se mantenha na sua mão a bondade que chega, ou de que chegue a bondade buscada. E, depois de que não há outro existente que não o Senhor no qual se achem juntas estas quatro condições, é manifesto que não é cabido que se busque ou que se espere bondade de algum existente que não ele. E esta coisa esclareceu-a a Escritura na porção de Ha'azinu: "vede agora que eu, eu o sou" etc. (Deuteronômio 32:39). E a sua explicação é que, porque as nações que afligem a Israel pensam que o Senhor, bendito seja, não há nele a capacidade de salvá-los, e disseram "onde estão os seus deuses, a rocha em que se refugiaram nela, que a gordura dos seus sacrifícios comiam?" (Deuteronômio 32:37–38) — e estas coisas indicam que eles pensam que o D'us de Israel é como as demais potências superiores, de que ele recebe mudança, ou de que ele precisa do auxílio de outro deus com ele, ou de que não é capaz sobre toda coisa, de que não tem potência sobre os dois opostos por igual, ou de que há outro existente que não ele que impede na sua mão —; e por isso esclareceu que não é o Senhor, que é o D'us de Israel, como as demais potências superiores como pensaram, mas que o assunto é o oposto: que ele, bendito seja, é permanente, não-mutável — e isto é o seu dizer "vede agora que eu, eu o sou", quer dizer que não há existente no mundo que possa dizer sobre si mesmo "eu, eu o sou" senão o Senhor.
״רְאוּ עַתָּה כִּי אֲנִי אֲנִי הוּא״. הַגּוֹיִם חוֹשְׁבִים שֶׁאֱלֹהֵי יִשְׂרָאֵל כִּשְׁאָר הַכֹּחוֹת — מִשְׁתַּנֶּה, צָרִיךְ עֵזֶר, אֵינוֹ יָכוֹל עַל הַהֲפָכִים, יֵשׁ מְעַכֵּב. וְאֵינוֹ כֵן.
7 E disse "a quem me assemelhareis e me igualareis? — diz o Santo" (Isaías 40:25) — quer dizer que aquele que tenha a igualdade de modo que se diga "um santo" — pois todo existente que não ele é mutável de dia a dia e não é hoje aquele que era ontem, pois já se mudou, e por isso não recai sobre ele a expressão "eu, eu o sou", pois não é em cada vez sobre um atributo só permanente; mas o Senhor, por ser não-mutável, pode dizer sobre si mesmo "eu, eu o sou"; e assim diz o profeta "eu, eu sou o Senhor" (Isaías 43:11), pois não recai esta duplicação senão sobre ele, bendito seja, que é hoje aquele que era ontem sem mudança — e isto alude sobre o atributo primeiro. E disse depois disto "e não há D'us comigo" (Deuteronômio 32:39), quer dizer que não preciso nas minhas ações do auxílio de outro que não eu, para aludir sobre o atributo segundo. E disse depois disto "eu mato e dou vida" (Deuteronômio 32:39), quer dizer que tenho a capacidade sobre os dois opostos por igual, para aludir sobre o atributo terceiro. E concluiu "e não há quem de minha mão livre" (Deuteronômio 32:39), para aludir sobre o atributo quarto, quer dizer que não há nenhum existente que não eu que possa impedir na minha mão — de fazer a minha vontade. E, depois de que não há outro existente que não ele no qual se achem estas quatro condições, é impossível que decorra a bondade de outro que não ele, senão dele apenas; e por isso disse o poeta "espere, ó Israel, pelo Senhor, pois com o Senhor está a bondade" etc. (Salmos 130:7) — quer dizer: espera pelo Senhor, pois o que tu buscas não é pelo lado da recompensa mas pelo lado da bondade, e não há nenhum existente que não ele que possa fazer bondade, pois ele sozinho é a fonte das bondades e dos bens todos — e isto é "pois com o Senhor está a bondade", quer dizer, e não com outro que não ele.
״וְאֵין אֱלֹהִים עִמָּדִי״ — אֵינִי צָרִיךְ עֵזֶר (הב׳). ״אֲנִי אָמִית וַאֲחַיֶּה״ — עַל הַהֲפָכִים (הג׳). ״וְאֵין מִיָּדִי מַצִּיל״ — אֵין מְעַכֵּב (הד׳). ״יַחֵל יִשְׂרָאֵל אֶל ה׳ כִּי עִם ה׳ הַחֶסֶד״.
8 E por isso será a oração cabida a ele e não a outro que não ele, pois como rezaria o homem diante de quem não é capaz de dar a sua súplica e de fazer o seu pedido? — que a faculdade intelectual julgará que não se reze senão diante de quem tem a capacidade de fazer o seu pedido. E o despertar da oração é pelo lado da faculdade intelectual koach sichli; e isto é que, mesmo se se ache a Escritura a dizer "o desejo dos humildes ouviste, Senhor" (Salmos 10:17) — de modo que se veria que a oração é vinda do despertar da faculdade apetitiva koach taavoní —, não é assim, mas é que, quando começa a faculdade apetitiva a desejar, se desperta a faculdade intelectual a pensar pensamentos para buscar um caminho pelo qual se alcance aquele desejo; e, quando julgar que isto não se alcança senão por meio do Senhor, que é capaz sobre toda coisa e que influi bondade mesmo sobre os não-cabidos, imediatamente decreta que é cabido rezar a ele, bendito seja.
הִתְעוֹרְרוּת הַתְּפִלָּה מִצַּד הַכֹּחַ הַשִּׂכְלִי. ״תַּאֲוַת עֲנָוִים שָׁמַעְתָּ ה׳״ — אַף שֶׁנִּרְאֶה מֵהַכֹּחַ הַתַּאֲוָנִי, אֵינוֹ כֵן: הַתַּאֲוָנִי מַתְחִיל, וְהַשִּׂכְלִי גּוֹזֵר שֶׁרָאוּי לְהִתְפַּלֵּל לַשֵּׁם.
9 E, porque o princípio primeiro é pelo lado da faculdade apetitiva, atribuiu a Escritura o ouvir da oração à faculdade desejante; e por isso é o que disse a Escritura "o desejo dos humildes ouviste, Senhor" — como se a oração fosse pelo lado da faculdade desejante; e não é assim, mas pelo lado da faculdade intelectual, a que desperta o homem ao bem e a amar o Senhor, e a faculdade desejante está no oposto; e por isso concluiu a Escritura "preparas o seu coração, atentas o teu ouvido" (Salmos 10:17), para esclarecer que o ouvir do desejo dos humildes não é senão depois de que se prepare a faculdade intelectual à oração e a aderir-se ao Senhor — e isto é "preparas o seu coração", e então "atentas o teu ouvido".
״תַּאֲוַת עֲנָוִים שָׁמַעְתָּ ה׳ תָּכִין לִבָּם תַּקְשִׁיב אָזְנֶךָ״ — שְׁמִיעַת הַתַּאֲוָה רַק אַחַר שֶׁיּוּכַן הַכֹּחַ הַשִּׂכְלִי אֶל הַתְּפִלָּה וּלְהִדָּבֵק בַּשֵּׁם.
10 E assim se disse a Daniel "desde o dia primeiro em que deste o teu coração para entender e para afligir-te diante do teu D'us, se ouviram as tuas palavras" (Daniel 10:12); e esclareceram os nossos mestres, de abençoada memória: daqui se aprende que mesmo a aceitação do jejum, antes de que jejuem, aproveita à aceitação da oração pelo lado da preparação do coração. E isto é o que disse a Escritura "e será, antes de que clamem, e eu responderei" (Isaías 65:24) — quer dizer: quando preparar a faculdade intelectual a si mesma para rezar ou para humilhar-se e jejuar, antes de que façam a oração e o jejum em ato, eu responderei, e enquanto eles estão a falar em fazer a oração e o jejum, eu ouvirei, e mesmo antes de que rezem em ato; e isto desde que seja depois de que decrete a faculdade intelectual que é cabido rezar sobre esta coisa, e de que aquela coisa é possível de alcançar — não pelo lado do Doador apenas, pois D'us é capaz sobre toda coisa, mas de modo que se examine a possibilidade também pelo lado do recebedor, se há nele uma preparação para receber aquela bondade. Pois, se não há a potência no recebedor de que receba uma bondade grande como esta, que é uma coisa que não está no seu direito recebê-la, não é cabido que se busque sobre ela misericórdia; pois aquele que reza ao Senhor de que o faça reinar sobre todo o mundo como Alexandre Magno — ainda que a coisa seja possível pelo lado do Doador, pois D'us é capaz sobre toda coisa —, depois de que não é do direito do recebedor que receba uma bondade grande como esta e o semelhante a ela, não é cabido que se reze sobre ela, pois não é todo homem cabido de dominar sobre todos os habitantes da terra, pois é possível que haja entre eles um homem mais preparado a isso do que ele, e não reterá o Senhor o bem do outro por causa disto, pois as bondades do Senhor, bendito seja, decorrem pelo lado da oração sobre os recebedores conforme o que estiver na sua potência de recebê-las; e sobre isto disse o poeta "lança gol sobre o Senhor o teu caminho" etc. (Salmos 37:5) — quer dizer que o exame das coisas proveitosas ao homem e das aptidões dos recebedores está pendente da sabedoria do Senhor e não de outro que não ele.
דָּנִיֵּאל ״מִן הַיּוֹם הָרִאשׁוֹן אֲשֶׁר נָתַתָּ אֶת לִבְּךָ... נִשְׁמְעוּ דְבָרֶיךָ״. ״טֶרֶם יִקְרָאוּ וַאֲנִי אֶעֱנֶה״. וּבִלְבַד שֶׁתִּבָּחֵן הָאֶפְשָׁרוּת מִצַּד הַמְּקַבֵּל — לֹא יִתְפַּלֵּל שֶׁיַּמְלִיכֵהוּ כְּאֲלֶכְּסַנְדֶּר. ״גֹּל עַל ה׳ דַּרְכֶּךָ״.
O capítulo anterior afirmou que a oração só cabe a Quem age por vontade. Este fundamenta filosoficamente por quê: enumera os quatro atributos sem os quais nenhum ser pode garantir uma "bondade completa" — e mostra que só D'us os reúne. É uma demonstração de monoteísmo prático: a quem vale a pena rezar?
1. Imutável. Se o doador muda, a bondade que dele flui não é estável — não há garantia de que perdure. Só D'us "não se muda" (Maamar II, cap. 2). 2. Não precisa de auxílio. Se o doador depende de outro fator para agir, a bondade fica condicionada a esse fator estar presente. As potências astrais são exatamente assim — só "indicam" quando uma segunda causa concorda (o regente no seu domicílio, um aspecto favorável); só D'us age "por mim só" (Is 44:24). 3. Pode os dois opostos por igual. A necessidade humana é bidirecional — às vezes guerra, às vezes paz; às vezes a vida, às vezes a morte. Mas cada astro tem uma indicação fixa: o astro da guerra não pode dar paz, o da doença não pode curar. Só D'us "forma a luz e cria a treva, faz a paz e cria o mal" (Is 45:7), podendo atender qualquer pedido. 4. Ninguém o impede. Se algo pode obstruir o doador, o pedido pode ser frustrado por um terceiro. Só sobre D'us "ninguém dirá: o que fazes?" (Jó 9:12).
O achado exegético do capítulo: Albo lê o versículo culminante do cântico de Moisés — "vede agora que eu, eu o sou, e não há D'us comigo; eu mato e dou vida, e não há quem livre da minha mão" (Dt 32:39) — como a cifra exata dos quatro atributos, em ordem. As nações pensavam que o D'us de Israel era "como as demais potências" — mutável, dependente, unilateral, obstruível —, e por isso zombavam ("onde estão os seus deuses?"). O versículo refuta cláusula por cláusula: "eu, eu o sou" = imutável (só o que é "hoje aquele que era ontem" pode dizer o "ani" duplicado); "não há D'us comigo" = não precisa de auxílio; "eu mato e dou vida" = poder sobre os dois opostos; "não há quem livre da minha mão" = ninguém o impede. Os quatro atributos filosóficos revelam-se pré-inscritos na Torá. Donde "espera pelo Senhor, pois com o Senhor está a bondade" (Sl 130:7) — e com nenhum outro.
A segunda metade do capítulo refina a psicologia da oração. Poder-se-ia supor, de "o desejo dos humildes ouviste" (Sl 10:17), que a oração brota da faculdade apetitiva (taavoní). Albo corrige: o gatilho é o desejo, mas a oração propriamente é ato da faculdade intelectual (sichlí). A sequência é precisa: o apetite deseja algo; o intelecto então delibera sobre como alcançá-lo; e, ao concluir que só D'us — capaz sobre tudo e que dá graça mesmo aos indignos — pode concedê-lo, o intelecto decreta que se deve rezar. Por isso o verso completa: "preparas o seu coração, atentas o teu ouvido" — o ser ouvido depende de o intelecto primeiro se preparar e se aderir a D'us. O mesmo princípio explica por que "antes que clamem, eu responderei" (Is 65:24) e por que o aceite do jejum vale antes de jejuar (Daniel): o que D'us atende é a disposição intelectual consolidada, não o ato externo.
A nota final equilibra o capítulo anterior. Lá, Albo enfatizou o poder ilimitado de D'us (tudo é possível "pelo lado do Doador"); aqui, ele acrescenta a condição do recebedor. Mesmo o que D'us pode conceder, só se deve pedir se o orante tem capacidade de receber. Rezar para ser feito "rei de todo o mundo como Alexandre" é vão — não porque D'us não possa, mas porque "não é do direito do recebedor" tal bondade, e talvez outro seja mais apto a ela (e "D'us não retém o bem do outro" por causa do nosso pedido desmedido). A oração eficaz, portanto, alinha-se à hachaná real do orante. E como o homem não conhece os próprios limites nem o que verdadeiramente lhe aproveita, a conclusão é de entrega: "lança sobre o Senhor o teu caminho" (Sl 37:5) — pois "o exame do que aproveita ao homem e da aptidão dos recebedores está pendente da sabedoria de D'us, e não de outro". A oração madura pede com confiança, mas deixa o conteúdo último à sabedoria divina.
A objeção que iguala a dúvida sobre a oração à dúvida sobre a presciência: se o bem já foi decretado, a oração é desnecessária; se não foi, como mudaria a vontade de D'us? A resposta de Albo: o decreto é condicional ao grau e à preparação do recebedor; mudada a disposição — por oração, boas obras ou teshuvá —, muda o decreto, sem mudança em D'us. Como o conhecimento divino convive com o possível, convive com a oração — e o sentido testemunha que D'us atende.
A objeção que iguala a dúvida sobre a oração à dúvida sobre a presciência: se o bem já foi decretado, a oração é desnecessária; se não foi, como mudaria a vontade de D'us? A resposta de Albo: o decreto é condicional ao grau e à preparação do recebedor; mudada a disposição — por oração, boas obras ou teshuvá —, muda o decreto, sem mudança em D'us. Como o conhecimento divino convive com o possível, convive com a oração — e o sentido testemunha que D'us atende.
1 O que trouxe os homens a hesitar na oração é próximo do que os trouxe a retirar o conhecimento do Senhor. E isto é: que eles dizem que não se livra a coisa de uma divisão — ou que foi decretado do Senhor algum bem sobre algum homem, ou que não foi decretado; e, se foi decretado, não se precisa de oração; e, se não foi decretado, como aproveitará a oração para mudar a vontade do Senhor a fim de decretar sobre ele um bem que não foi decretado? — pois não se mudará o Senhor da vontade ao não-querer, nem do não-querer à vontade; e por causa disto dirão que não aproveitará a aptidão da ação kishron ha-maasé para que chegue ao homem do Senhor por causa dela algum bem; e assim dirão que não aproveitará a oração para alcançar algum bem ou para salvar-se de um mal que foi decretado sobre ele.
מַה שֶּׁהֵבִיא הָאֲנָשִׁים לְפַקְפֵּק בַּתְּפִלָּה קָרוֹב לְמַה שֶּׁהֵבִיא לְסַלֵּק יְדִיעַת הַשֵּׁם. אִם נִגְזַר — אֵין צָרִיךְ תְּפִלָּה, וְאִם לֹא נִגְזַר — אֵיךְ תְּשַׁנֶּה רְצוֹן הַשֵּׁם, שֶׁלֹּא יִשְׁתַּנֶּה מֵרָצוֹן אֶל לֹא רָצוֹן.
2 E se acha a Jó a alegar esta opinião em nome dos ímpios e a inclinar-se a ela: disse, como que a espantar-se sobre o Senhor — se ele supervisiona na obra dos filhos do homem, por que não castiga os ímpios sobre o serem eles crentes nesta opinião? — disse "por que os ímpios vivem, se tornam velhos, também se fortalecem em poder? a sua semente está firme diante deles, com eles" etc. (Jó 21:7–8), "e dizem a D'us: 'afasta-te de nós, e o conhecer dos teus caminhos não desejamos; que é o Todo-Poderoso, para que o sirvamos? e que nos aproveita se o suplicamos?'" (Jó 21:14–15). Eis que esclarece que a sua opinião deles era que não há a aptidão da ação proveitosa — e isto é o seu dizer "que é o Todo-Poderoso, para que o sirvamos?" —, e que não há a oração proveitosa — e isto é o seu dizer "e que nos aproveita se o suplicamos?" —; e isto é por estarem eles a pensar que, depois de que foi decretado sobre o homem alguma coisa, é impossível que se anule por nenhum lado.
אִיּוֹב טוֹעֵן זֶה בְּשֵׁם הָרְשָׁעִים: ״מַדּוּעַ רְשָׁעִים יִחְיוּ... מַה שַּׁדַּי כִּי נַעַבְדֶנּוּ וּמַה נּוֹעִיל כִּי נִפְגַּע בּוֹ״ — בִּטּוּל כִּשְׁרוֹן הַמַּעֲשֶׂה וְהַתְּפִלָּה.
3 E se vê que se inclinou Jó a esta opinião no que juntou a isto: "eis que não está na mão deles o seu bem; o conselho dos ímpios está longe de mim" (Jó 21:16) — quer dizer: eis que eu vejo que não está na mão deles o seu bem, pois não é por meio da aptidão da ação que se multiplicam os seus bens, nem danifica a maldade dos seus atos para remover deles os bens que lhes chegam; e por isso eu digo "o conselho dos ímpios está longe de mim", quer dizer: o conselho divino aconselhado sobre estes ímpios — de que se consumam no bem nos seus dias — está longe do meu conhecimento; e por isso eu digo que tudo está no decreto. Pois, se não fosse tudo no decreto e fosse a aptidão da ação proveitosa, era cabido que chegasse o mal aos ímpios por causa dos seus atos — e não é assim; "pois quantas vezes a candeia dos ímpios se apaga, e vem sobre eles o seu infortúnio, e dores Ele reparte na sua ira" (Jó 21:17) — quer dizer: quantos ímpios se vê que se apaga a sua candeia e que vem sobre eles o seu infortúnio, quer dizer, a recompensa dos seus atos maus, e que lhes reparte o Senhor dores na sua ira sobre os seus atos maus? — e disto se vê que se inclinou Jó à opinião dos ímpios, os que dizem que o decreto é verdade e que não aproveita a aptidão da ação ou a oração para anular o decreto.
״הֵן לֹא בְיָדָם טוּבָם עֲצַת רְשָׁעִים רָחֲקָה מֶנִּי״ — הָעֵצָה הָאֱלֹהִית רְחוֹקָה מִידִיעָתִי, וְעַל כֵּן הַכֹּל בִּגְזֵרָה.
4 E esta opinião não é correta, pois os influxos superiores se influem sobre o recebedor ao estar ele num grau conhecido e numa preparação conhecida para recebê-los; e, se não preparar o homem a si mesmo para receber aquele influxo, eis que ele é o que retém o bem de si mesmo. Pois, se foi decretado sobre algum homem, pelo modo do exemplo, que prosperem as suas colheitas no ano tal, e ele não lavra nem semeia naquele ano — ainda que faça chover o Senhor chuvas da sua força sobre a face do mundo da sua terra, não prosperarão as suas colheitas, depois de que não lavrou e não semeou —, e ele é o que retém de si mesmo aquele bem, ao não preparar a si mesmo para recebê-lo.
הַשֶּׁפַע יֻשְׁפַּע עַל הַמְּקַבֵּל בְּמַדְרֵגָה וַהֲכָנָה יְדוּעָה. אִם נִגְזַר שֶׁיַּצְלִיחוּ תְבוּאוֹתָיו וְלֹא יַחֲרֹשׁ וְלֹא יִזְרַע — לֹא תַצְלַחְנָה, וְהוּא מוֹנֵעַ הַטּוֹב מֵעַצְמוֹ.
5 E, conforme isto, dizemos que, quando foi decretado sobre o homem algum bem, eis que ele foi decretado sobre ele num grau conhecido da aptidão da ação — e este é o conjunto das promessas ye'udim da Torá; e assim, quando foi decretado sobre ele algum mal, eis que ele foi decretado ao estar ele num grau conhecido da maldade ou numa preparação conhecida; e, quando se mudar aquele grau ou aquela preparação, se mudará o decreto por via de necessidade, para o bem ou para o mal.
כְּשֶׁנִּגְזַר טוֹב — בְּמַדְרֵגָה יְדוּעָה מִכִּשְׁרוֹן הַמַּעֲשֶׂה (כְּלַל יְעוּדֵי הַתּוֹרָה); וְכֵן רַע — בְּמַדְרֵגָה יְדוּעָה מֵהָרֹעַ. וּכְשֶׁתִּשְׁתַּנֶּה — תִּשְׁתַּנֶּה הַגְּזֵרָה.
6 E isto é como um rei que decretou sobre todos os incircuncisos que há na cidade tal que se matem, ou que se dê a cada um deles um talento de ouro, e se levantou um deles e se circuncidou — que se mudará sem dúvida aquele decreto e se anulará de sobre ele para o mal ou para o bem, conforme a preparação que se inovou naquele homem. E por isso era o esforço no fazer o bem e a aptidão da ação um bem e algo necessário em toda coisa, pois ele é uma preparação para receber o influxo divino ou para anular de sobre ele o decreto.
כְּמֶלֶךְ שֶׁגָּזַר עַל הָעֲרֵלִים שֶׁיֵּהָרְגוּ אוֹ יִנָּתֵן כִּכַּר זָהָב, וְעָמַד אֶחָד וְנִמּוֹל — תִּשְׁתַּנֶּה הַגְּזֵרָה כְּפִי הַהֲכָנָה.
7 E isto se coaduna com a sentença dos sábios, de abençoada memória: "Rava chegou de visita a Mimal Mechoza, viu pessoas de cabeça cabeludas negras de juventude que morriam jovens; disse: 'que é isto?'; disseram-lhe: 'da casa de Eli viemos, do que está escrito sobre ela "e todo o crescimento da tua casa morrerá como homens — na juventude]"' (cf. I Samuel 2:33); disse-lhes: 'ide ocupar-vos na Torá, do que está escrito "pois ela é a tua vida e o alongar dos teus dias" (Deuteronômio 30:20)'" — de modo que se vê das suas palavras que os decretos divinos eles se dão ao estar o recebedor numa preparação e num grau conhecido, e, se se mudar aquele grau, se mudará aquele decreto; e por causa disto é que disseram que a mudança do nome aproveita para anular o decreto, e assim a mudança da ação do agir.
״רָבָא אִקְלַע לְמִימַל, חַזְנְהוּ שְׁחוֹרֵי רֹאשׁ... מִדְּבֵית עֵלִי קָאָתֵינַן... אֲמַר לְהוּ זִילוּ אִיעַסְקוּ בַּתּוֹרָה, דִּכְתִיב כִּי הִיא חַיֶּיךָ וְאֹרֶךְ יָמֶיךָ״ — אִם תִּשְׁתַּנֶּה הַמַּדְרֵגָה תִּשְׁתַּנֶּה הַגְּזֵרָה.
8 E por este lado é que aproveita a teshuvá ao ímpio — que, por meio da teshuvá, ele é como se se tivesse revertido num homem outro, sobre o qual não se decretou aquele decreto. Pois eis que Ahab, sobre o qual se disse "somente não houve como Ahab, que se vendeu para fazer o mal aos olhos do Senhor" (I Reis 21:25), depois de que se decretou sobre ele um decreto — porque jejuou e se cobriu de saco e se humilhou diante do Senhor — se disse a Elias "porque se humilhou Ahab de diante de mim, não trarei o mal nos seus dias; nos dias do seu filho trarei o mal sobre a sua casa" (I Reis 21:29); e isto indica que o decreto que se decreta sobre o ímpio se dá ao estar ele naquele atributo da maldade, e, quando se mudar daquele atributo por meio da teshuvá, eis que ele é como se se tivesse revertido num homem outro, sobre o qual não se decretou aquele decreto.
הַתְּשׁוּבָה — כְּאִלּוּ נֶהְפַּךְ לְאִישׁ אַחֵר. אַחְאָב: ״יַעַן כִּי נִכְנַע אַחְאָב מִפָּנַי לֹא אָבִיא הָרָעָה בְּיָמָיו״ — כְּשֶׁיִּשְׁתַּנֶּה מֵהַתֹּאַר עַל יְדֵי הַתְּשׁוּבָה.
9 E por este caminho está manifesto que aproveita a oração ou a aptidão da ação para que se prepare o orante para receber o influxo do bem ou para anular dele o mal que foi decretado sobre ele, por estar ele a mudar-se do grau da maldade no qual estava. E esta alegação aludiu a ela Tzofar ao estar ele a inculpar a Jó por que não rezava ao Senhor para salvá-lo do seu mal e por que não preparava a si mesmo para anular de sobre ele o decreto. E isto é o que lhe disse: "se tu preparares o teu coração e estenderes a ele as tuas palmas — se há iniquidade na tua mão, afasta-a — pois então levantarás a tua face de livre de mácula" etc. (Jó 11:13–15) — quer dizer: se preparares o teu coração para rezar e para consertar os teus atos, não há dúvida de que, por meio da oração e da aptidão da ação, te livrarás destas angústias. E disto se esclarece que a oração e a aptidão da ação aproveita para anular o decreto em todo tempo; e assim disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "boa é a súplica tze'aká para o homem, seja antes do veredito guezar din, seja depois do veredito".
צוֹפַר: ״אִם אַתָּה הֲכִינוֹתָ לִבֶּךָ וּפָרַשְׂתָּ אֵלָיו כַּפֶּךָ... כִּי אָז תִּשָּׂא פָנֶיךָ מִמּוּם״. ״יָפֶה צְעָקָה לָאָדָם בֵּין קֹדֶם גְּזַר דִּין בֵּין לְאַחַר גְּזַר דִּין״.
10 E não há como objetar e dizer: como se muda a vontade do Senhor, bendito seja, por meio da oração? — pois assim foi a vontade do Senhor desde o princípio: que se mantivesse o decreto ao estar ele naquele grau e naquela preparação, e, se se mudar a preparação, se mude o decreto.
אֵין לְהַקְשׁוֹת אֵיךְ יִשְׁתַּנֶּה רְצוֹן הַשֵּׁם, שֶׁכָּךְ הָיָה רְצוֹנוֹ מִתְּחִלָּה: שֶׁתִּתְקַיֵּם הַגְּזֵרָה בְּאוֹתָהּ מַדְרֵגָה, וְאִם תִּשְׁתַּנֶּה הַהֲכָנָה תִּשְׁתַּנֶּה הַגְּזֵרָה.
11 E a pergunta da mudança do seu conhecimento, bendito seja, ao mudar-se a preparação por meio da oração, se reverte à pergunta do conhecimento do Senhor, bendito seja, com a natureza do possível; e, assim como não investigamos sobre o conhecimento do Senhor, bendito seja, como ele é tal que não se mude com a existência da natureza do possível, assim não investigaremos sobre ele como ele é tal que não se mude com a oração; mas creremos que, assim como não se muda o seu conhecimento com a existência da natureza do possível, assim não se muda com a oração, e, com tudo isto, creremos no ser a natureza do possível existente, depois de que testemunhou sobre ela o sentido; e assim creremos no ser a oração proveitosa para anular o decreto, depois de que testemunhou sobre isto o sentido, como virá; e, mesmo se não soubermos como se coaduna o seu conhecimento sem mudança com o receber da oração — como não sabemos como se coaduna com a existência da natureza do possível —, não por causa disto negaremos o que testemunhou o sentido, de que o Senhor, bendito seja, será comovido atendendo ao orante para dar a sua súplica de qualquer espécie que seja.
שְׁאֵלַת הִשְׁתַּנּוּת יְדִיעָתוֹ שָׁבָה אֶל שְׁאֵלַת יְדִיעָתוֹ עִם טֶבַע הָאֶפְשָׁר. כְּמוֹ שֶׁלֹּא תִשְׁתַּנֶּה עִם הָאֶפְשָׁר, כֵּן לֹא תִשְׁתַּנֶּה עִם הַתְּפִלָּה — וְהַחוּשׁ הֵעִיד שֶׁהַתְּפִלָּה מוֹעֶלֶת.
12 E isto é o que respondeu Elifaz a Jó sobre o que viu que se inclinou à opinião dos ímpios, os que dizem "que é o Todo-Poderoso, para que o sirvamos? e que nos aproveita se o suplicamos?": disse-lhe, a responder sobre as suas palavras, "e dizes: 'que sabe D'us? acaso por detrás da névoa julga? as nuvens são um esconderijo para ele, e não vê'" etc. (Jó 22:13–14) — quer dizer: depois de que tu te inclinas à opinião dos ímpios, os que dizem "que nos aproveita se o suplicamos?", para anular a oração a fim de que não se mude o seu conhecimento, eis que nesta opinião tu vens a anular o conhecimento do Senhor, bendito seja, com a natureza do possível, a fim de que não se mude o seu conhecimento — e isto é o que disse "e dizes: 'que sabe D'us?'"; e se vê nisto que a tua opinião é a de dizer "o mundo conforme o seu costume se conduz", e isto é o que chamou "a vereda orach do mundo". E disse-lhe "acaso a vereda do mundo olam guardarás, que pisaram homens de iniquidade? — os que dizem a D'us: 'afasta-te de nós', e 'que faz o Todo-Poderoso para eles?'" (Jó 22:15–17). Eis que chamou aos "homens de iniquidade que dizem 'o mundo conforme o seu costume se conduz'", porque eles anulam a aptidão da ação e a oração; e isto é o que concluiu nas suas palavras: "se te voltares até o Todo-Poderoso, serás edificado restabelecido, se afastares a iniquidade da tua tenda" (Jó 22:23), "suplica a ele e Ele te ouvirá" etc. (Jó 22:27) — como que a aludir nisto que a causa dos seus sofrimentos foi porque não cria que a sua prosperidade era do Senhor, bendito seja, mas apenas do costume da natureza, e assim creria nos seus sofrimentos, e por isso não rezava ao Senhor sobre eles; e diz Elifaz que, se se voltar ao Senhor e rezar diante dele e lhe confessar que tudo lhe veio dele, ouvirá a sua oração e se salvará dos seus sofrimentos e prosperarão os seus bens — e por isso disse "suplica a ele e Ele te ouvirá" etc., "e será o Todo-Poderoso nos teus minérios bitzareicha, e prata de alturas abundante para ti" (Jó 22:25) — quer dizer que, por meio da oração, serão os seus bens a prosperar; e assim testemunhou a Escritura "e o Senhor reverteu o cativeiro de Jó, ao rezar ele em favor do seu companheiro" (Jó 42:10) — pois, quando creu que a oração ao Senhor aproveita, e por causa disto rezou diante dele, imediatamente se reverteu o seu cativeiro.
אֱלִיפַז: ״וְאָמַרְתָּ מַה יָּדַע אֵל הַבְעַד עֲרָפֶל יִשְׁפּוֹט״ — בָּא לְבַטֵּל יְדִיעַת הַשֵּׁם. ״הַאֹרַח עוֹלָם תִּשְׁמֹר אֲשֶׁר דָּרְכוּ מְתֵי אָוֶן״. ״תַּעְתִּיר אֵלָיו וְיִשְׁמָעֶךָּ״; ״וַה׳ שָׁב אֶת שְׁבוּת אִיּוֹב בְּהִתְפַּלְלוֹ בְּעַד רֵעֵהוּ״.
O capítulo enfrenta a objeção filosófica clássica contra a eficácia da oração — estruturalmente idêntica à objeção contra a presciência (cap. 1). Forma de dilema: o bem que peço ou já foi decretado ou não. Se foi, a oração é supérflua. Se não foi, a oração teria de mudar a vontade de D'us — mas D'us é imutável, não passa "do querer ao não-querer". Logo (concluem os céticos), nem a oração nem as boas obras (kishron ha-maasé) servem para coisa alguma. Albo mostra que o próprio Jó, em seu desespero, flertou com essa posição "em nome dos ímpios": "que aproveita suplicá-Lo?" (Jó 21:15), "não está em suas mãos o seu bem" — isto é, tudo é decreto cego, e nem mérito nem prece o alteram.
A solução de Albo é uma das mais importantes de toda a obra, e reaproveita a teoria da hachaná (preparação) do cap. 16. O erro do dilema é supor que o decreto é incondicional. Na verdade, todo decreto é emitido relativamente a um grau e a uma disposição determinados do recebedor. O influxo celeste só recai sobre o preparado — como a chuva decretada de nada serve a quem não lavrou nem semeou (e este "retém de si mesmo o bem"). Portanto: quando se decreta um bem, ele é decretado na condição de certo nível de mérito; quando se decreta um mal, ele vale enquanto a pessoa permanece em certo estado. Mude a disposição — e o decreto muda por necessidade, sem que D'us mude. A parábola é límpida: o rei decreta que todo incircunciso da cidade seja morto (ou receba um talento de ouro); quem se circuncida sai da categoria e o decreto, automaticamente, deixa de aplicar-se a ele. A oração, as boas obras e a teshuvá são exatamente isso — operações que alteram a disposição do recebedor e, com ela, o decreto.
Daí a fórmula radical sobre o arrependimento: pela teshuvá o ímpio "torna-se como que outro homem, sobre quem aquele decreto não foi emitido". Ahab é o caso-prova: o pior dos reis teve o decreto adiado por uma única humilhação sincera (I Reis 21:29) — sinal de que o decreto valia para o "Ahab-ímpio", não para o "Ahab-humilhado". O dito talmúdico de Rava e os descendentes de curta vida da casa de Eli (Yevamot 105a) confirma o mecanismo: o decreto de morte precoce sobre aquela linhagem podia ser revertido pelo estudo da Torá ("ela é a tua vida e o alongar dos teus dias") — mudada a disposição, mudado o decreto. Por isso "boa é a súplica, seja antes, seja depois do veredito" (Rosh Hashaná 16a): mesmo um veredito já selado é condicional à permanência do estado que o motivou.
A objeção residual — "mas então a oração muda a vontade de D'us!" — recebe a resposta decisiva: não. "Assim foi a vontade de D'us desde o princípio: que o decreto valha enquanto durar a disposição, e que mude se a disposição mudar." A condicionalidade não é uma emenda posterior à vontade divina; é parte da vontade original. A mudança está toda do lado do homem, nunca do lado de D'us. E Albo conecta isso com humildade epistêmica ao seu princípio recorrente (cap. 3): a pergunta "como o conhecimento imutável de D'us convive com a oração que muda a disposição?" é a mesma pergunta de "como Seu conhecimento convive com o possível?" — e a resposta é a mesma: o conhecimento infinito de D'us não se compara ao nosso, e não sabemos como; mas, assim como o sentido testemunha que o possível existe (e cremos nisso apesar do mistério), o sentido testemunha que a oração é atendida — e cremos nisso igualmente. A reverência diante do que não compreendemos não autoriza negar o que experimentamos.
Albo fecha mostrando que Elifaz já fizera esse diagnóstico (Jó 22): ao negar a eficácia da oração "para que o conhecimento de D'us não mude", Jó acabava por negar a própria providência — adotando o "o mundo segue o seu curso natural" (a orach olam dos "homens de iniquidade"). A raiz do sofrimento de Jó, sugere Elifaz, foi atribuir a sua prosperidade (e depois a sua desgraça) ao mero "costume da natureza", e por isso não rezar. O remédio: "volta-te ao Todo-Poderoso... suplica a Ele e Ele te ouvirá" (Jó 22:23–27). E o desfecho do livro confirma a tese central do capítulo: "o Senhor reverteu o cativeiro de Jó ao rezar ele em favor do seu companheiro" (Jó 42:10) — no instante em que Jó crê que a oração aproveita e reza, seu cativeiro se reverte. A oração funciona não porque dobra D'us, mas porque transforma quem reza.
O que é a bênção (berachá) que profetas, justos e piedosos dão? Os comentadores oscilaram: se é prece, por que Isaac tremeu por ter abençoado Jacó em vez de Esaú? Se é vaticínio, por que Esaú se queixou? Albo responde: a bênção não é vaticínio nem mera prece, mas oração acompanhada de dar preparação ao recebedor — o abençoador é um canal (tzinor) por onde desce o influxo. Daí a imposição das mãos; a porção dobrada de Eliseu; Jacó sobre Efraim e Manassés; a bênção dos sacerdotes; e por que Isaac não pôde retirar a bênção já concedida.
O que é a bênção (berachá) que profetas, justos e piedosos dão? Os comentadores oscilaram: se é prece, por que Isaac tremeu por ter abençoado Jacó em vez de Esaú? Se é vaticínio, por que Esaú se queixou? Albo responde: a bênção não é vaticínio nem mera prece, mas oração acompanhada de dar preparação ao recebedor — o abençoador é um canal (tzinor) por onde desce o influxo. Daí a imposição das mãos; a porção dobrada de Eliseu; Jacó sobre Efraim e Manassés; a bênção dos sacerdotes; e por que Isaac não pôde retirar a bênção já concedida.
1 O assunto das bênçãos berachot com que os profetas e os justos e os piedosos abençoam os homens é uma coisa na qual se confundiram os comentadores e não se elevou na sua mão uma coisa apropriada. E isto é: que eles disseram que não se livra a coisa de uma divisão — ou que as bênçãos sejam uma oração, ou uma narração das coisas futuras hagadat ha-atidot. E, se elas são uma oração, por que se aterrorizou Isaac com um terror grande até o extremo sobre o fato de que abençoou a outro que não Esaú, e disse "quem, pois, é o que caçou caça?" etc. (Gênesis 27:33), e disse "e o abençoei? também abençoado será" (Gênesis 27:33)? — que volte e reze sobre Esaú como rezou no princípio sobre Jacó, pois sem dúvida é mais cabido que seja a sua oração ouvida no final sobre Esaú, a qual se faria com vontade, mais do que a que se recebeu sobre Jacó, que foi com engano. E, se as bênçãos são uma narração das coisas futuras, por que se queixou Esaú sobre isto e disse "a minha primogenitura tomou, e eis que agora tomou a minha bênção" (Gênesis 27:36)? e como lhe disse Isaac "eis que um senhor o pus a ti, e todos os seus irmãos dei a ele por servos" (Gênesis 27:37)? — eis que não fez coisa alguma de si mesmo, senão que estava a narrar na profecia as coisas futuras a vir sobre o abençoado; e que queixa há nisto para Isaac, e não para Esaú?
הַבְּרָכוֹת — אִם תְּפִלָּה אוֹ הַגָּדַת הָעֲתִידוֹת. אִם תְּפִלָּה, לָמָּה חָרַד יִצְחָק וְלֹא חָזַר לְהִתְפַּלֵּל עַל עֵשָׂו? וְאִם הַגָּדַת עֲתִידוֹת, לָמָּה נִתְרַעֵם עֵשָׂו ״אֶת בְּכֹרָתִי לָקָח וְהִנֵּה עַתָּה לָקַח בִּרְכָתִי״?
2 E muitas coisas se disseram nisto, e a mais apropriada do que concordaram sobre ela é que o assunto das bênçãos é como se fosse uma coisa composta dos dois — da narração das coisas futuras e da oração —, por este caminho: que o profeta vê na profecia o futuro a vir sobre o abençoado e reza em seu favor para multiplicar aquele bem; como se dissesses, que vê na profecia que aquele homem prosperará no trabalho da terra, e o abençoa o profeta de que se multipliquem as suas colheitas cem porções cem por um; ou, se vê que aquele homem prosperará no gado, abençoa-o de que se multiplique o seu gado numa medida grande, que "escape crie a sua vaca e não aborte" (cf. Jó 21:10); e por este caminho disseram que é em todas as demais prosperidades; e, quando lhes for difícil a coisa pelo lado da oração, dirão que é uma narração das coisas futuras, e, se lhes for difícil pelo lado da narração das coisas futuras, dirão que é uma oração; e por este caminho se precisariam de dividir entre as bênçãos ditas pela boca do profeta e as ditas pela boca dos justos e dos piedosos que não são profetas.
הַיּוֹתֵר נָכוֹן: דָּבָר מֻרְכָּב מִשְּׁנֵיהֶם — הַנָּבִיא רוֹאֶה הֶעָתִיד וּמִתְפַּלֵּל לְהַרְבּוֹת הַטּוֹב. וּכְשֶׁיִּקְשֶׁה מִצַּד הַתְּפִלָּה יֹאמְרוּ הַגָּדַת עֲתִידוֹת, וּלְהֵפֶךְ.
3 E assim se lhes dificulta a isto todas as bênçãos ditas a Israel pela boca dos sacerdotes, nas quais não há narração das coisas futuras de modo algum — a não ser que digas que todas estas são pelo caminho da oração, e as de Isaac, porque era um profeta, havia nelas narração das coisas futuras, e por isso se aterrorizou Isaac todo aquele terror — vindo da tristeza, pois estava triste sobre o que viu na profecia do bem futuro a vir sobre Jacó e da abundância da sua prosperidade sobre Esaú, que lhe era querido. E há o que espantar-se: depois de que a oração aproveita nas bênçãos, por que não rezou Isaac sobre Esaú de que prosperasse mais do que Jacó, como rezam os justos sobre o abençoado por meio deles? e por que não disse a Esaú que as bênçãos eram uma narração das coisas futuras e que não se perdeu coisa alguma ao abençoar a Jacó? — e isto seria mais cabido, a fim de que não odiasse Esaú a Jacó sobre a bênção com que o abençoou o seu pai.
יִקְשֶׁה: בִּרְכַּת הַכֹּהֲנִים שֶׁאֵין בָּהּ הַגָּדַת עֲתִידוֹת. וְלָמָּה לֹא הִתְפַּלֵּל יִצְחָק עַל עֵשָׂו שֶׁיַּצְלִיחַ, וְלָמָּה לֹא אָמַר לוֹ שֶׁהַבְּרָכוֹת הַגָּדַת עֲתִידוֹת?
4 E o que me parece nisto é que o assunto das bênçãos não é uma narração das coisas futuras de modo algum, mas que ele é uma oração com o dar uma preparação hachaná ao recebedor de modo que recaia o influxo divino sobre ele. E isto é: que os influxos superiores se encadeiam e se influem sobre os recebedores por graduações hadragot e por intermediários emtza'im, e com condições de que sejam os recebedores cabidos e de modo proporcional e numa ordem guardada, e de que estejam com isto preparados para receber aquele influxo; e, se se interromper o encadeamento de algum dos intermediários, e não for a proporção guardada ou a ordem, ou for o recebedor não-preparado, se confundirá o influxo ou a proporção e não recairá o influxo divino ao mudar-se a ordem; e por isso é preciso que haja no recebedor uma preparação a fim de que recaia nele aquele influxo.
הַנִּרְאֶה לִי: הַבְּרָכוֹת אֵינָן הַגָּדַת עֲתִידוֹת, אֶלָּא תְּפִלָּה עִם נְתִינַת הֲכָנָה אֶל הַמְּקַבֵּל. הַשְּׁפָעִים יִשְׁתַּלְשְׁלוּ בְּהַדְרָגוֹת וְאֶמְצָעִים, וְצָרִיךְ הֲכָנָה כְּדֵי שֶׁיָּחוּל.
5 E, quando não for o recebedor preparado para receber o influxo divino, se preparará por meio do profeta ou por meio do justo ou do piedoso, e será o abençoador um intermediário no descer daquele influxo; e este é o assunto da imposição da mão semichat ha-yad que os abençoadores impunham as suas mãos sobre os abençoados — para dar uma preparação ao abençoado de modo que receba o influxo ou aquele bem; e é como se o piedoso ou o justo abençoador fosse um cano tzinor para fazer fluir o influxo divino por meio dele — como achamos no assunto da profecia, que recaía por meio do profeta sobre os não-cabidos a ela, desde que houvesse neles alguma preparação: disse o Senhor, bendito seja, a Moisés "toma para ti a Josué, filho de Nun, um homem no qual há um espírito, e imporás a tua mão sobre ele" (Números 27:18); e, conforme a elevação do que impõe a mão ou do abençoador, será o grau do influxo recebido. E por isso achas que disse Elias a Eliseu, quando lhe disse "pede o que eu faça por ti antes de que eu seja tomado de junto de ti", e respondeu Eliseu "e seja, pois, uma boca porção dobrada do teu espírito sobre mim" (II Reis 2:9), e disse-lhe Elias "endureceste dificultaste a pedir" (II Reis 2:10) — pois é impossível ao homem dar uma preparação ao recebedor mais do que a que se acha junto dele; e por isso disse-lhe que, se o vir depois de que for tomado de junto dele, será assim para ele — pois sem dúvida estará Elias, depois do tomar, num grau maior do que estava antes disso, e será então possível a ele influir sobre ele uma boca dobrada do que era em Elias antes do tomar, o que não lhe era possível influir antes de que o tomassem.
הַמְבָרֵךְ צִנּוֹר לְהַמְשִׁיךְ הַשֶּׁפַע. ״סְמִיכַת הַיָּד״ — ״קַח לְךָ אֶת יְהוֹשֻׁעַ... וְסָמַכְתָּ אֶת יָדְךָ עָלָיו״. אֵלִיָּהוּ: ״הִקְשִׁיתָ לִשְׁאוֹל״ — אִי אֶפְשָׁר לָתֵת הֲכָנָה יוֹתֵר מֵהַנִּמְצָא אֶצְלוֹ.
6 E a expressão "endureceste a pedir" indica que não é a explicação de "uma boca dobrada do teu espírito" como "Ele reconhecerá para dar a ele uma boca dobrada" do que se diz do primogênito (cf. Deuteronômio 21:17), como escreveram alguns dos comentadores; pois, se fosse assim, não lhe diria "endureceste a pedir", pois eis que Eliseu era cabido da profecia de si mesmo mais do que os demais filhos dos profetas, ainda que eles tivessem servido a Elias antes de Eliseu e estivessem a preparar a si mesmos para a profecia mais do que ele — pois já se disse a Elias no monte Carmelo "e a Eliseu, filho de Shafat, de Avel-Mecholá, ungirás como profeta no teu lugar" (I Reis 19:16) —; e por que lhe "endureceu a pedir" quando seja ele o primogênito de todos os filhos dos profetas a tomar uma boca dobrada como um deles? Mas a verdade é que lhe pediu uma boca dobrada do espírito de Elias no que era antes do tomar; e assim foi para ele — pois os milagres de Elias foram oito e os milagres de Eliseu foram dezesseis.
״הִקְשִׁיתָ לִשְׁאוֹל״ — לֹא ״פִּי שְׁנַיִם״ כַּבְּכוֹר. שָׁאַל פִּי שְׁנַיִם בְּרוּחַ אֵלִיָּהוּ קֹדֶם הַלְּקִיחָה — וְכֵן הָיָה, נִסֵּי אֵלִיָּהוּ ח׳ וְנִסֵּי אֱלִישָׁע ט״ז.
7 E assim concordaram os nossos mestres, de abençoada memória, nisto, no capítulo primeiro do tratado Chulin; e assim se vê da expressão da Escritura que Elias se mostrava a Eliseu depois do tomar, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, que se mostrava a alguns dos piedosos dentre os sábios do Talmud: disse a Escritura "e levantou o manto de Elias que lhe caíra de sobre ele, e voltou e se pôs sobre a margem do Jordão; e disse: 'onde está o Senhor, D'us de Elias?' — também ele af hu —, e feriu as águas, e se partiram para aqui e para ali, e passou Eliseu" (II Reis 2:13–14): que, depois de que escreveu "e passou Eliseu", e não escreveu "e passou" apenas, se vê que o que feriu não foi Eliseu sozinho, mas que Elias estava com ele, pois se mostrou a ele naquela hora, e sobre ele se diz "também ele af hu feriu as águas".
אֵלִיָּהוּ נִרְאָה לֶאֱלִישָׁע אַחַר הַלְּקִיחָה. ״אַיֵּה ה׳ אֱלֹהֵי אֵלִיָּהוּ אַף הוּא וַיַּכֶּה אֶת הַמַּיִם״ — ״וַיַּעֲבֹר אֱלִישָׁע״, שֶׁאֵלִיָּהוּ הָיָה עִמּוֹ.
8 E assim achei escrito em nome dos antigos dos comentadores — que Elias se mostrou a Eliseu naquela hora, e então repousou o espírito de Elias sobre Eliseu e se cumpriu nele o que tinha para ele uma boca dobrada do seu espírito, porque o viu depois de ter sido tomado de junto dele. E assim achamos que, depois do tomar, está escrito sobre Yehoram, filho de Yehoshafat, rei de Judá, "e veio a ele um escrito de Elias, o profeta" (II Crônicas 21:12) — de modo que se vê que estava então a achar-se entre os homens e a consertar os seus atos.
אֵלִיָּהוּ נִרְאָה וְנָחָה רוּחוֹ עַל אֱלִישָׁע. וְאַחַר הַלְּקִיחָה: ״וַיָּבֹא אֵלָיו מִכְתָּב מֵאֵלִיָּהוּ הַנָּבִיא״ אֶל יְהוֹרָם.
9 E a imposição da mão que dissemos — não há dúvida de que sobre quem tem uma preparação abundante aproveitará mais do que a imposição da mão sobre quem tem uma preparação escassa; e por isso pôs Jacó a mão da sua direita sobre a cabeça de Efraim, no qual havia uma preparação grande mais do que em Manassés, e por isso quis que recaísse a bênção por meio dela sobre ele com olho bom generosamente conforme a grandeza da sua preparação a ela; mas sobre Manassés, pela pequenez da sua preparação para receber o influxo, bastou-lhe que pusesse a mão da sua esquerda sobre ele, a fim de que recaísse sobre ele com a bênção de Jacó o influxo que lhe era possível receber.
סְמִיכַת הַיָּד עַל בַּעַל הֲכָנָה מְרֻבָּה תּוֹעִיל יוֹתֵר. יַעֲקֹב שָׂם יְמִינוֹ עַל אֶפְרַיִם (הֲכָנָה גְדוֹלָה), וּשְׂמֹאלוֹ עַל מְנַשֶּׁה.
10 E esta foi a intenção no abençoar os sacerdotes ao povo — a fim de que sejam intermediários para recair o influxo sobre os abençoados conforme a preparação de cada um deles; e levantavam as suas palmas no momento da bênção, que é como o assunto da imposição da mão; e era a bênção dos sacerdotes para a generalidade de Israel ou para a comunidade, porque os muitos são mais preparados para receber o influxo do que o indivíduo — e isto é que é impossível que não haja entre eles quem tenha nele uma preparação para receber algum influxo divino por intermédio dos sacerdotes; e por este caminho são as bênçãos dos justos ou dos piedosos aos abençoados por meio deles, a fim de que recaia o influxo por intermédio deles sobre o abençoado, pelo modo que explicamos na profecia no capítulo onze do Maamar terceiro.
בִּרְכַּת הַכֹּהֲנִים — אֶמְצָעִים, וְנוֹשְׂאִים כַּפֵּיהֶם כְּעִנְיַן סְמִיכַת הַיָּד. לַצִּבּוּר, שֶׁהָרַבִּים יוֹתֵר מוּכָנִים מֵהַיָּחִיד.
11 E não me dificultes ao dizer: como é possível que seja o justo ou o piedoso um instrumento para fazer chegar a bênção ao abençoado, e ele próprio seja um pobre e um necessitado às criaturas? — pois já esclareceram os nossos mestres, de abençoada memória, no capítulo "Kisui HaDam" e disseram: "aproveitou a eles o mérito dos justos a outros, mas a si mesmos não aproveitou o seu próprio mérito a eles".
״אַהֲנֵי לְהוּ זְכוּתָא דְּצַדִּיקֵי לַאֲחֵרִינֵי, לְדִידְהוּ לָא מַהֲנֵי לְהוּ זְכוּוָתַיְהוּ״.
12 E, depois de que se estende o influxo ao abençoado por intermédio do abençoador conforme a preparação do recebedor, não há potência na mão do abençoador de interromper aquele influxo e de que não desça sobre o recebedor — pois, sem ele, descerá sobre ele —, pois o abençoador não é senão um instrumento para fazer chegar a bênção ao abençoado, e, ainda que se retire o instrumento, não se retirará a bênção; e isto é como um homem que conduziu as águas de uma fonte que transborda a um jardim — e os seus semeados crescem —, que, ainda que se retire o homem que conduz, não se interromperá o riacho que decorre de regar o jardim; e assim aquele que fez janelas numa casa escura a fim de que entre nela a luz do sol, que, mesmo se se retirar o artesão, não se retirará a luz do sol de iluminar aquela casa escura.
אֵין כֹּחַ בְּיַד הַמְבָרֵךְ לְהַפְסִיק הַשֶּׁפַע — אֵינוֹ אֶלָּא כְּלִי. כְּמַמְשִׁיךְ מֵי מַעְיָן לַגִּנָּה, אוֹ עוֹשֶׂה חַלּוֹנוֹת לְהַכְנִיס אוֹר הַשֶּׁמֶשׁ.
13 E isto é o que disse Isaac quando se aterrorizou com um terror grande até o extremo: "e o abençoei? também abençoado será" (Gênesis 27:33) — quer dizer: contra a minha vontade forçosamente será abençoado, depois de que o abençoei, pois "também abençoado será" é do conjunto do terror, como se dissesse: não está na minha mão de interromper aquele influxo que se estendeu a ele por meu intermédio. E isto é como quem ordenou ao ourives tzoref que fizesse vasos belos de ouro, decorados com uma decoração bela até o extremo, para o amigo do ourives, e o artesão, ao estar a imaginar que aqueles vasos eram para o seu amigo, decorou-os com uma decoração bela até o extremo, com alegria e com bondade de coração, e depois se soube que não eram aqueles vasos para o amigo do ourives — que sem dúvida aquele ourives se entristecerá sobre isto e se aterrorizará com um terror grande, mas não está na sua mão de impedir aquela decoração bela de modo que não seja feita naqueles vasos, ainda que se soubesse que eles são para o inimigo do artesão. E por causa disto disse Isaac a Esaú "eis que um senhor o pus a ti" etc. (Gênesis 27:37) — quer dizer: já lhe chegou por meu intermédio, por via da sua preparação, todo este influxo, e não está na minha mão de interrompê-lo, depois de que já se estendeu, "e a ti, pois, que farei, meu filho?" (Gênesis 27:37); até que lhe pediu Esaú "a bênção uma só é para ti, meu pai?" (Gênesis 27:38) — quer dizer que o abençoasse com uma bênção outra que não fosse contra a bênção com que o abençoara; e assim fez Isaac, pois no conjunto da bênção de Esaú disse-lhe "e ao teu irmão servirás" (Gênesis 27:40), pois sem isto seria impossível; e isto é o que quisemos esclarecer do assunto das bênçãos.
״וָאֲבָרֲכֵהוּ גַּם בָּרוּךְ יִהְיֶה״ — עַל כָּרְחִי, אֵין בְּיָדִי לְהַפְסִיק. כַּצּוֹרֵף שֶׁצִּיֵּר כֵּלִים לְאוֹהֲבוֹ וְנוֹדַע שֶׁאֵינָם לוֹ. ״הֵן גְּבִיר שַׂמְתִּיו לָךְ... וְאֶת אָחִיךָ תַּעֲבֹד״.
Tendo estabelecido como a oração opera (caps. 16–18), Albo aborda um fenômeno aparentado e enigmático: a berachá — a bênção que profetas, justos e piedosos pronunciam sobre outros. O problema é colocado com nitidez através da cena de Isaac, Jacó e Esaú (Gênesis 27). Há duas hipóteses correntes e ambas falham: se a bênção é mera prece, por que Isaac, ao descobrir o engano, não simplesmente reza de novo por Esaú (com mais boa vontade, aliás)? E por que "tremeu com grande terror"? Se a bênção é vaticínio (narração do futuro que Deus revela ao profeta), então Isaac nada deu a Jacó — só anunciou o que viria — e a queixa de Esaú ("tomou a minha bênção") não faria sentido. A opinião de compromisso (bênção = vaticínio + prece) também tropeça: a bênção sacerdotal não contém vaticínio algum.
A solução de Albo integra a bênção à sua teoria geral do influxo (cap. 16–18). A bênção não é vaticínio. É oração acompanhada de transmissão de hachaná — o abençoador confere ao recebedor a preparação que o torna apto a receber o influxo divino. O fundamento metafísico: os influxos superiores descem por graus e intermediários, numa ordem que precisa ser preservada e exige que o recebedor esteja preparado; rompido o encadeamento ou faltando a disposição, o influxo "não recai". Quando o recebedor não está, por si, preparado, o profeta ou tzadik atua como intermediário, dando-lhe a preparação. A imagem-chave: o abençoador é um tzinor — um cano/canal por onde o influxo divino é conduzido até o recebedor. A imposição das mãos (semichá) é o gesto físico dessa transmissão (Moisés sobre Josué, "um homem no qual há espírito... imporás a tua mão"), e seu efeito é proporcional ao grau do abençoador.
Albo lê a famosa cena de II Reis 2 como prova da teoria. Eliseu pede "porção dobrada do teu espírito"; Elias responde "endureceste a pedir" (dificultaste). Por quê "difícil"? Porque — argumenta Albo contra os que liam "porção dobrada" como o direito de primogenitura — um abençoador não pode transmitir mais preparação do que aquela que ele próprio possui. Eliseu pediu o dobro do que Elias tinha: impossível enquanto Elias estivesse no seu grau atual. Donde a condição de Elias: "se me vires quando for tomado" — pois, arrebatado, Elias estaria num grau superior, e só então poderia transmitir o dobro do que era antes. Albo recolhe ainda a tradição (Chulin) de que Elias apareceu a Eliseu no momento do arrebatamento (a leitura fina de "af hu vayakeh", "também ele feriu as águas", e o "escrito de Elias" que chega a Yehoram depois de sua ascensão) — confirmando a transmissão. E o selo empírico: os milagres de Elias foram oito; os de Eliseu, dezesseis — exatamente o dobro.
A teoria explica os detalhes rituais. Jacó cruza as mãos pondo a direita sobre Efraim e a esquerda sobre Manassés (Gn 48) — não arbitrariamente, mas porque Efraim tinha maior preparação, exigindo o canal mais forte. A bênção sacerdotal levanta as palmas (variante da imposição de mãos) e dirige-se à comunidade, não ao indivíduo, porque "os muitos estão mais preparados que o indivíduo" — num coletivo, é impossível que ninguém tenha a disposição para receber algum influxo. E a objeção óbvia — como um tzadik pobre pode ser canal de bênção material para outros? — recebe a resposta talmúdica (Chulin 7): "o mérito dos justos aproveita a outros, mas a si mesmos o próprio mérito não aproveita" — o canal conduz a água sem necessariamente regar-se a si.
O capítulo culmina resolvendo o enigma inicial. A bênção, uma vez dada e recaída sobre um recebedor preparado, não pode ser interrompida pelo abençoador — porque ele era apenas o instrumento, e "retirado o instrumento, não se retira a bênção". As imagens são perfeitas: quem canaliza a água de uma fonte a um jardim pode afastar-se — o riacho continua a correr; quem abre janelas numa casa escura pode sair — a luz do sol continua a entrar. Por isso o "terror" de Isaac e a frase "também abençoado será" (Gn 27:33): não é resignação, é a constatação de que já não está em sua mão deter o influxo que desceu por seu intermédio. A parábola do ourives que decora com amor um vaso preciosíssimo crendo ser para o amigo, e depois descobre que é para o inimigo — sem poder desfazer a obra — capta a impotência de Isaac. Não podendo retirar, Isaac só pode acrescentar a Esaú uma bênção que "não contrarie" a primeira (a pedido do próprio Esaú: "uma só bênção tens, meu pai?") — e ainda assim subordinada: "ao teu irmão servirás" (Gn 27:40), "pois sem isto seria impossível". A bênção, como a oração, opera por lei e preparação — não por capricho de quem a pronuncia.
Embora a oração seja uma mitsvá como as outras, ela tem uma propriedade singular: aproveita a todas as coisas — como o grande antídoto (tzori/theriac) que cura todos os males, frios e quentes, ao passo que os demais remédios servem só a males particulares. A oração cura doentes, salva da morte, abre o ventre estéril, vence a fome, a guerra e o exílio; serve até a opostos — lembrar e esquecer; e aproveita ao estrangeiro e ao ímpio. É o "serviço do coração".
Embora a oração seja uma mitsvá como as outras, ela tem uma propriedade singular: aproveita a todas as coisas — como o grande antídoto (tzori/theriac) que cura todos os males, frios e quentes, ao passo que os demais remédios servem só a males particulares. A oração cura doentes, salva da morte, abre o ventre estéril, vence a fome, a guerra e o exílio; serve até a opostos — lembrar e esquecer; e aproveita ao estrangeiro e ao ímpio. É o "serviço do coração".
1 Ainda que a oração seja um mandamento dos mandamentos da Torá — como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no Sifrei: "'e para servi-lo com todo o vosso coração' (Deuteronômio 11:13) — esta é a oração"; e disseram também "sê cuidadoso num mandamento leve como num mandamento grave, pois não sabes tu o dar da recompensa dos mandamentos" (Avot 2:1) —, não por causa disto diremos que seja o dar da recompensa dos mandamentos igual, e que não seja um deles de grande valor e de grande recompensa mais do que o outro; mas isto é como quem diz sobre os medicamentos da cura "sê cuidadoso no medicamento que não é caro de valor como no medicamento que é caro de valor", pois todos eles aproveitam um proveito grande ao corpo — e não por causa disto diremos que não haja para alguns dos medicamentos vantagem sobre alguns; mas se diz isto porque o ruibarbo raavand, pelo modo do exemplo, que é um medicamento caro de valor muitíssimo, e outro medicamento que não é tão caro de valor — que é cabido que seja cuidadoso em ambos, ainda que não seja o seu valor igual, porque cada um deles tem uma propriedade segulá por si mesma que aproveita ao corpo do homem em geral; pois, assim como o ruibarbo tem uma propriedade de curar as doenças do fígado, assim o outro tem uma propriedade de curar as doenças das pernas e das canelas e dos joelhos — que também isto aproveita ao corpo humano; e, de todo modo, tem cada um e um deles um assunto e um proveito por si mesmo conforme o seu lugar, de modo que não é o seu valor igual.
״וּלְעָבְדוֹ בְּכָל לְבַבְכֶם — זוֹ תְּפִלָּה״. ״הֱוֵי זָהִיר בְּמִצְוָה קַלָּה כְּבַחֲמוּרָה״ — לֹא שֶׁשָּׂכָר שָׁוֶה. כַּסַּמִּים: כָּל אֶחָד יֵשׁ לוֹ סְגֻלָּה, וְאֵין עֶרְכָּם שָׁוֶה.
2 E assim os mandamentos, ainda que cada um deles tenha uma propriedade e um proveito geral pelo lado de ser ele um mandamento do Senhor — que este é um proveito que inclui todos os mandamentos, e é cabido que sejamos cuidadosos conforme isto num mandamento leve como num mandamento grave —, de todo modo não é o seu valor igual, pois cada um tem uma propriedade singularizada por si mesma e um proveito singularizado pelo lado de ser ele aquele mandamento singularizado; e é cabido que haja vantagem para alguns deles sobre alguns por este lado.
הַמִּצְוֹת — לְכָל אַחַת סְגֻלָּה כּוֹלֶלֶת מִצַּד הֱיוֹתָהּ מִצְוַת הַשֵּׁם, וּסְגֻלָּה מְיֻחֶדֶת מִצַּד עַצְמָהּ. וְאֵין עֶרְכָּם שָׁוֶה.
3 E por isso eu digo que o mandamento da oração, com o facto de ser ele um dos mandamentos da Torá — e é cabido que se receba sobre ele uma recompensa geral como sobre cada um deles —, eis que, pelo lado de si mesmo, tem uma vantagem grande sobre cada um deles; e isto é: que cada mandamento, pelo lado de si mesmo, dá uma recompensa singularizada — como achas no enviar o pássaro do ninho "para que te seja bom e se alonguem os teus dias" (Deuteronômio 22:7), e na caridade "para que te abençoe o Senhor teu D'us em toda a tua colheita e em toda obra da tua mão" (Deuteronômio 14:29); e do mandamento da oração, a propriedade singularizada que tem pelo lado de si mesma é um assunto geral — que ela aproveita a todas as coisas. Pois eis que a achamos a aproveitar para curar os doentes, como aproveitou a Ezequias: "ouvi a tua oração" etc. (II Reis 20:5), "eis que estou a curar-te, no dia terceiro subirás à casa do Senhor" (II Reis 20:5); e aproveita para salvar da morte, pois eis que, quando pecaram Israel no bezerro, se disse a Moisés "deixa-me, e os aniquilarei" etc. (Êxodo 32:10), e se salvaram pela oração de Moisés; e assim Jonas se salvou na sua oração das entranhas do peixe.
הַתְּפִלָּה — סְגֻלָּתָהּ עִנְיָן כּוֹלֵל, שֶׁתּוֹעִיל לְכָל הַדְּבָרִים. לְרַפְּאוֹת חוֹלִים (חִזְקִיָּה); לְהַצִּיל מִמָּוֶת (מֹשֶׁה בָּעֵגֶל; יוֹנָה).
4 E aproveita para visitar as estéreis: "e suplicou Isaac" etc. (Gênesis 25:21), "e se lhe comoveu o Senhor" etc. (Gênesis 25:21); e assim se visitou Chaná na sua oração. E aproveita para a fome: "e houve uma fome nos dias de Davi por três anos" etc. (II Samuel 21:1), "e suplicou Davi ao Senhor" (cf. II Samuel 21:14). E aproveita para a guerra: disse a Escritura, na guerra de Senaqueribe, "e rezou Ezequias, o rei, e Isaías, filho de Amots, o profeta, sobre isto, e clamaram aos céus, e enviou o Senhor um anjo, e exterminou todo herói de poder e todo ministro e todo comandante no acampamento do rei da Assíria" etc. (II Crônicas 32:20–21).
לִפְקֹד עֲקָרוֹת (יִצְחָק, חַנָּה); לָרָעָב (דָּוִד); לַמִּלְחָמָה (חִזְקִיָּהוּ וְסַנְחֵרִיב — ״וַיִּשְׁלַח ה׳ מַלְאָךְ וַיַּכְחֵד״).
5 E, sendo assim, a oração é como o bálsamo tzori geral, que aproveita a todas as doenças e a todos os venenos, sejam eles quentes, sejam frios — não como as demais espécies do theriac tiriak — antídoto, que aproveitam a doenças particulares apenas: há deles para o veneno quente e há deles para o veneno frio apenas, e não se acha um deles a aproveitar para o veneno quente e o frio e para doenças opostas, senão o theriac grande apenas. E assim a oração aproveita a todas as coisas, e mesmo a coisas opostas: pois eis que Moisés disse na sua oração "lembra-te de Abraão" etc. (Êxodo 32:13), e Assaf disse "não te lembres de nós das iniquidades primeiras" etc. (Salmos 79:8) — se acha então que ela aproveita ao lembrar e ao esquecer; e não se acha um mandamento que aproveite a todas as coisas senão a oração. E por isso é o que esclareceram os nossos mestres, de abençoada memória, de que o que se mencionou na Escritura "e servireis ao Senhor vosso D'us" etc. (Êxodo 23:25) — que aquele serviço não é o serviço dos sacrifícios, que é num lugar singularizado, mas que ele é um serviço que é em todo lugar; e é impossível também que seja como o serviço do servo ao senhor, pois o Senhor, bendito seja, não é necessitado do serviço de outro que não ele; e por isso será este serviço por via de necessidade tal que seja o homem a mencionar os louvores do Onipresente e a reconhecer que tudo vem dele e a buscar as suas necessidades dele ao estar a suplicar diante dele e a confessar que não tem ele ajudador e amparo sem ele — e este é o serviço a ele.
הַתְּפִלָּה כַּצֳּרִי הַכּוֹלֵל, מוֹעִיל לְכָל הַחֳלָיִים וְהָאַרְסִים, חַם וְקַר, כַּתִּרְיָאק הַגָּדוֹל. תּוֹעִיל לִזְכִירָה (״זְכֹר לְאַבְרָהָם״) וְלִשְׁכֵחָה (״אַל תִּזְכָּר לָנוּ״). וְהִיא הָעֲבוֹדָה שֶׁבַּלֵּב.
6 E, porque acharam naquele versículo e no que vem depois dele quatro coisas gerais que se alcançam por meio da oração, e não se acha outro que não ela dentre os mandamentos e dos serviços que aproveite a isso, por isso esclareceram que este serviço é a oração, que é o serviço que está no coração avodá she-balev. Pois nós achamos que se disse neste serviço "e abençoará o teu pão e as tuas águas" etc. (Êxodo 23:25), e se acha nos dias de Davi que aproveitou para a fome, como dissemos; e assim "e removerei a doença do teu meio" (Êxodo 23:25) — em Ezequias; "e não haverá mulher que aborte e estéril na tua terra" (Êxodo 23:26) — em Chaná; "e o número dos teus dias completarei" (Êxodo 23:26) — em Ezequias e em Israel no bezerro; "o meu terror enviarei diante de ti" etc. (Êxodo 23:27) — em Ezequias com Senaqueribe, rei da Assíria, e o seu acampamento. E se acha também que aproveita a oração a todas as angústias, como se vê da oração de Salomão: "a peste, quando houver; a fome, quando houver; crestamento, gafanhoto e ferrugem, toda praga e toda doença" (cf. I Reis 8:37). E aproveita também para salvar-se da angústia e do exílio: se disse de Israel ao estarem eles no Egito "e clamaram, e subiu o seu brado a D'us" etc. (Êxodo 2:23), "e ouviu D'us o seu gemido" etc. (Êxodo 2:24); e assim Daniel e Esdras, com a sua oração, subiram Israel do exílio.
״וַעֲבַדְתֶּם אֵת ה׳... וּבֵרַךְ אֶת לַחְמְךָ... וַהֲסִרֹתִי מַחֲלָה... לֹא תִהְיֶה מְשַׁכֵּלָה וַעֲקָרָה... אֶת מִסְפַּר יָמֶיךָ אֲמַלֵּא״. וְתוֹעִיל לְכָל הַצָּרוֹת וּלְהִנָּצֵל מֵהַגָּלוּת.
7 Se acha, sendo assim, que a oração é como o bálsamo que inclui todas as espécies das doenças e que aproveita a todos os corpos; e por isso aproveitará a todas as espécies dos homens — disse Salomão "e também ao estrangeiro nochri que não é do teu povo Israel ele, e vem e reza" etc. (I Reis 8:41–42). E aproveita também mesmo aos ímpios completos, como se mencionou no capítulo dezesseis deste Maamar do assunto da oração de Menashé.
תּוֹעִיל לְכָל מִינֵי הָאֲנָשִׁים: ״וְגַם אֶל הַנָּכְרִי אֲשֶׁר לֹא מֵעַמְּךָ יִשְׂרָאֵל... וּבָא וְהִתְפַּלֵּל״. וַאֲפִלּוּ לָרְשָׁעִים גְּמוּרִים (מְנַשֶּׁה).
Tendo fundamentado a oração filosoficamente (caps. 16–18) e tratado da bênção (cap. 19), Albo dedica este capítulo a uma tese específica: a singularidade da oração entre os mandamentos. O ponto de partida é uma distinção sutil. O dito de Avot 2:1 — "sê cuidadoso num mandamento leve como num grave, pois não sabes a recompensa dos mandamentos" — não significa que todas as mitsvot tenham igual valor. Albo usa uma analogia farmacológica medieval: o médico recomenda zelo com todos os remédios, baratos e caros, porque todos ajudam — mas isso não os iguala. O ruibarbo (caríssimo) cura o fígado (um "órgão principal"); outro remédio mais barato cura pernas e joelhos. Cada mitsvá tem uma propriedade (segulá) dupla: um benefício geral (por ser mandamento de D'us) e um benefício específico próprio. Por isso há hierarquia de valor entre elas, apesar do zelo igual.
A tese central: enquanto cada mitsvá tem uma recompensa específica definida (o ninho do pássaro → longevidade; a caridade → bênção na colheita), a segulá própria da oração é, paradoxalmente, ser universal — "ela aproveita a todas as coisas". Albo documenta isso com um catálogo bíblico abrangente: a oração cura doentes (Ezequias), salva da morte (Israel no bezerro, Jonas no peixe), abre o ventre estéril (Isaac/Rebeca, Chaná), vence a fome (Davi), e ganha guerras (Ezequias contra Senaqueribe). Nenhuma outra mitsvá cobre tal espectro.
A imagem culminante é a do theriac (tiriak) — o célebre antídoto universal da medicina antiga e medieval, composto de dezenas de ingredientes, tido como capaz de neutralizar qualquer veneno. Albo distingue: os antídotos comuns servem só a venenos particulares — uns ao veneno "quente", outros ao "frio". Só o "grande theriac" serve a ambos, a males opostos. A oração é esse theriac. E a prova de que serve a opostos é elegante: Moisés reza "lembra-te de Abraão" (Êx 32:13), enquanto Assaf reza "não te lembres de nós das iniquidades" (Sl 79:8) — a mesma ferramenta serve ao lembrar e ao esquecer. Nenhum mandamento específico poderia operar nas duas direções; a oração, sim.
Daí Albo extrai a identificação rabínica clássica: o "serviço" de "servireis ao Senhor vosso D'us" (Êx 23:25) não é o serviço dos sacrifícios (limitado a um lugar) nem o serviço de um servo a um senhor (D'us não precisa de serviço algum) — é a avodá she-balev, o "serviço do coração", isto é, a oração. A prova é exegética e bela: o versículo de Êxodo 23 e seu contexto prometem quatro bens universais — pão abençoado (a fome de Davi), remoção de doença (Ezequias), fim da esterilidade (Chaná), completude dos dias (Ezequias, Israel) — todos os quais, como o capítulo mostrou, são precisamente os domínios em que a oração opera. Logo, o "serviço" prometido só pode ser a oração, a única mitsvá com esse alcance total. O serviço, definido em positivo, é: louvar D'us, reconhecer que tudo vem d'Ele, pedir-Lhe as necessidades, e confessar que "não há ajudador nem amparo sem Ele".
A nota final estende a universalidade da oração a uma última dimensão: não só a todos os males, mas a todas as pessoas. Salomão, na dedicação do Templo, reza explicitamente pelo estrangeiro — "também ao nochri que não é do teu povo Israel... e vem e reza" (I Reis 8:41–42); e, como o cap. 16 mostrou com Menashé, a oração aproveita "mesmo aos ímpios completos". O remédio universal não exclui paciente algum. A oração é, assim, o único mandamento que transcende as fronteiras tanto do tipo de necessidade quanto do tipo de orante — o que a confirma, na economia espiritual de Albo, como o instrumento por excelência da relação entre o homem e a providência divina.
A grande dúvida: Moisés, o senhor dos profetas, rezou para entrar na Terra e não foi atendido. Isso não mostraria que o decreto não se anula pela oração? A resposta: a oração aproveita antes do veredito e mesmo depois — exceto quando há juramento; o decreto de Moisés tinha juramento. Daí a diferença entre indivíduo e comunidade; as três mortes (punição, natural, acidental); "va'etchanan" como dádiva de graça; e a prece de Moisés aceita pela comunidade mas não por si mesmo.
A grande dúvida: Moisés, o senhor dos profetas, rezou para entrar na Terra e não foi atendido. Isso não mostraria que o decreto não se anula pela oração? A resposta: a oração aproveita antes do veredito e mesmo depois — exceto quando há juramento; o decreto de Moisés tinha juramento. Daí a diferença entre indivíduo e comunidade; as três mortes (punição, natural, acidental); "va'etchanan" como dádiva de graça; e a prece de Moisés aceita pela comunidade mas não por si mesmo.
1 Ocorre no assunto da oração uma dúvida grande, e ela é esta: que quem há para nós maior do que Moisés, senhor de todos os profetas? e ele rezou ao Senhor sobre a sua entrada à Terra e não foi atendido — disse a Escritura "e supliquei va'etchanan ao Senhor" (Deuteronômio 3:23), "atravesse eu, pois" etc. (Deuteronômio 3:25), "e disse o Senhor a mim: 'baste-te'" etc. (Deuteronômio 3:26); e eis que isto é do que indica que a coisa decretada é impossível que se anule por meio da oração; e, sendo assim, dirá o que diz: "é em vão o servir D'us, e que proveito há quando suplicamos diante dele, depois de que é impossível anular o decretado?".
מִי לָנוּ גָּדוֹל מִמֹּשֶׁה, וְהוּא הִתְפַּלֵּל עַל כְּנִיסָתוֹ לָאָרֶץ וְלֹא נַעֲנָה. ״וָאֶתְחַנַּן... רַב לָךְ״. וְאִם כֵּן ״שָׁוְא עֲבֹד אֱלֹהִים״?
2 E a resposta nisto é que a oração aproveita antes do veredito guezar din de todo modo, e mesmo depois do veredito também aproveita, se não há com ele um juramento shevuá; e assim disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "boa é a súplica para o homem, seja antes do veredito, seja depois do veredito", como se vê isto de Ezequias, que, depois de que se lhe disse "ordena à tua casa, pois estás morto tu e não viverás" (II Reis 20:1), se lhe disse "ouvi a tua oração" etc. (II Reis 20:5), "eis que estou a acrescentar sobre os teus dias" etc. (II Reis 20:6) — e isto foi depois do veredito, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória. Mas o veredito de Moisés era um veredito que há com ele um juramento com que Ele jurou, conforme se disse "por isso lachen não trareis" (Números 20:12); e esclareceram os nossos mestres, de abençoada memória, que "lachen" é uma expressão de juramento, e como o provaram de "por isso lachen jurei à casa de Eli" (I Samuel 3:14); e por isso não aproveitou a oração de Moisés, nosso mestre, sobre ele a paz.
הַתְּפִלָּה מוֹעֶלֶת קֹדֶם גְּזַר דִּין, וְאַף לְאַחֲרָיו אִם אֵין עִמּוֹ שְׁבוּעָה. חִזְקִיָּה — אַחַר גְּזַר דִּין. אֲבָל גְּזַר דִּין שֶׁל מֹשֶׁה הָיָה עִמּוֹ שְׁבוּעָה: ״לָכֵן לֹא תָבִיאוּ״ — לְשׁוֹן שְׁבוּעָה.
3 E esta é a diferença que há entre o indivíduo e a comunidade tzibur: que o indivíduo — não se rasga o seu veredito quando há com ele um juramento; e o da comunidade — ele se rasga e se anula por meio da oração; e isto se vê que é assim a partir do encadeamento da porção.
זֶהוּ הַהֶבְדֵּל בֵּין יָחִיד לַצִּבּוּר: הַיָּחִיד — אֵין גְּזַר דִּינוֹ נִקְרָע כְּשֶׁיֵּשׁ עִמּוֹ שְׁבוּעָה; וְשֶׁל צִבּוּר נִקְרָע וּמִתְבַּטֵּל עַל יְדֵי הַתְּפִלָּה.
4 E, a fim de que se entenda isto bem, esclarecerei os versículos que vieram na oração de Moisés, para que se entenda o encadeamento belamente. Eis que no princípio disse "e supliquei va'etchanan ao Senhor", e disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "não há 'chinun' súplica em nenhum lugar senão no sentido de um dom de graça matnat chinam"; e precisaram isto porque a raiz de "chinam" é "chanan"; e vieram a indicar que não é cabido ao homem que atrele a sua oração aos seus atos bons nem ao mérito de si mesmo, como a fala de Elifaz "que é o homem, que se purifique, e que se justifique o nascido de mulher?" (Jó 15:14). E censuraram os sábios a Ezequias porque atrelou a sua oração ao mérito de si mesmo, e disseram que, porque atrelou a coisa ao mérito de si mesmo, lhe atrelaram a Ele a salvação ao mérito de outros, e se lhe disse "e protegerei sobre esta cidade para salvá-la por minha causa e por causa de Davi, meu servo" (II Reis 19:34). E por causa disto não atrelou Moisés, nosso mestre, a sua oração ao mérito de si mesmo, mas ao dom de graça; e por isso disse "Senhor D'us, tu começaste" etc. (Deuteronômio 3:24) — quer dizer: assim é o teu caminho comigo — de fazer bondade de graça —, que tu começaste de ti mesmo na sarça a influir sobre mim um influxo profético sem que eu fosse cabido a ele nem que eu preparasse a mim mesmo para isso.
״אֵין חִנּוּן בְּכָל מָקוֹם אֶלָּא מַתְּנַת חִנָּם״ — שֶׁלֹּא יִתְלֶה אָדָם תְּפִלָּתוֹ בְּמַעֲשָׂיו. גִּנּוּ לְחִזְקִיָּה שֶׁתָּלָה בִּזְכוּת עַצְמוֹ. ״ה׳ אֱלֹהִים אַתָּה הַחִלּוֹתָ״ — חֶסֶד חִנָּם.
5 E assim disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no Sifrei: "'tu começaste a mostrar ao teu servo' (Deuteronômio 3:24) — milagres e proezas, conforme se diz 'desviar-me-ei, pois, e verei' (Êxodo 3:3)" — eis que esclareceram que "tu começaste" se diz sobre o princípio da profecia de Moisés; e é como se dissesse: "Senhor do mundo, não se dificulte aos teus olhos o fazer comigo bondade, ainda que eu não seja cabido a ela, e o dar-me um dom de graça, pois assim é o teu caminho comigo — que tu, de ti mesmo, começaste na sarça a mostrar ao teu servo etc.; e, depois de que assim é o teu caminho comigo, faze também agora comigo esta bondade que eu peço: atravesse eu, pois, e veja etc.". E esta oração é pelo modo de "salva-nos, D'us da nossa salvação". E o que é o impedidor de que não faças comigo esta bondade? — pois esta morte decretada sobre mim é impossível que seja senão por um de três modos: ou pelo lado do castigo que chega de ti sobre o meu pecado, ou pelo lado da indicação da constelação, ou porque chegou o meu tempo de me retirar — e estes três são os fins ketzim fixados para a vida do homem. Disse Davi sobre Saul "pois, a não ser que o Senhor o fira, ou que o seu dia venha e morra, ou que na guerra desça e se consuma" (I Samuel 26:10) — aludiu nisto que as mortes são três: ou cortada prematura, ou natural, ou acidental: "pois o Senhor o fira" alude à morte cortada, e ela é a morte do castigo sobre o pecado; "ou o seu dia venha e morra" alude à morte natural, e ela é ao ter chegado o seu tempo de se retirar conforme o seu temperamento; "ou na guerra desça e se consuma" alude à morte acidental que chega ao homem fora do seu tempo e sem um pecado que precede, mas pelo lado da indicação da constelação ou do decreto geral — que todo aquele que entrar na guerra tal morrerá, e, se não saísse à guerra, não morreria, e, se saiu, morrerá pelo lado da indicação geral, ainda que não tenha na sua mão uma iniquidade com que pecou. E não mencionou a morte de livre-escolha bechirit, porque não há homem que escolha a morte em vez da vida — e Davi não se coadunou nisto à verdade, pois eis que a morte de Saul foi de livre-escolha, conforme se disse "e tomou Saul a espada e caiu sobre ela" (I Samuel 31:4); e assim Moisés não a mencionou, pois ele não escolhia a morte em vez da vida, e por isso não mencionou senão estas três mortes apenas.
״אַתָּה הַחִלּוֹתָ״ — תְּחִלַּת נְבוּאָתוֹ. הַמִּיתָה אֶחָד מִג׳: עֹנֶשׁ, הוֹרָאַת הַמַּעֲרֶכֶת, אוֹ הִגִּיעַ זְמַנּוֹ. ״כִּי אִם ה׳ יִגָּפֶנּוּ אוֹ יוֹמוֹ יָבוֹא וָמֵת אוֹ בַמִּלְחָמָה יֵרֵד וְנִסְפָּה״ — כְּרֵתִית, טִבְעִית, מִקְרִית.
6 E disse diante dele: "Senhor do mundo, a morte decretada sobre mim — se ela é pelo lado do castigo sobre o pecado, sendo assim a minha iniquidade é tão grande que é impossível que se perdoe, como disse Caim 'grande é a minha iniquidade demais para suportar' (Gênesis 4:13)"; e disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "disse Caim diante do Santo, bendito seja: 'Senhor do mundo, tu suportas os céus e a terra, e a minha iniquidade é impossível de suportar?'" — e o esclarecer das suas palavras é que Caim disse ao Senhor: depois de que a minha iniquidade é tão grande que é impossível que se perdoe, sendo assim será a minha força de pecar maior do que a força do Senhor, bendito seja, de perdoar — e isto é impossível, pois a força do Senhor, bendito seja, é grande ao não-finito; e isto é o que ele estranhou ao dizer "grande é a minha iniquidade demais para suportar". E estas são, elas mesmas, as palavras de Moisés no que disse "a tua grandeza" etc. (Deuteronômio 3:24), quer dizer: eu sei que a tua grandeza é não-finita, e é impossível que seja a minha iniquidade tão grande que não baste a tua grandeza não-finita para perdoá-la. E disse ainda "e a tua mão forte" (Deuteronômio 3:24), para aludir que, se a morte fosse pelo lado da indicação da constelação, já me mostraste milagres e maravilhas que indicam que a tua mão é forte e poderosa sobre a constelação para vencê-la. E disse ainda "que é o D'us" etc. (Deuteronômio 3:24), para aludir que, se a morte é natural — como é a morte dos justos, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, que o Santo, bendito seja, se assenta e conta os anos dos justos etc. —, quer dizer que Ele conta os seus anos de modo que não se encurtem nem pelo lado do castigo nem pelo lado do acaso, mas que vivam os anos cabidos a eles a viver conforme a sua natureza e a composição do seu temperamento e a umidade radical lechut shorshí que há neles desde o princípio da sua formação. E isto é o que disse a Escritura sobre Sara "os anos da vida de Sara" (Gênesis 23:1), depois de que disse "e foram as vidas de Sara cem ano e vinte ano e sete anos" (Gênesis 23:1), para indicar que aqueles 127 anos que viveu foram os anos que foram os anos da sua vida conforme a sua natureza e a umidade radical que havia nela no princípio da sua formação, e não se encurtaram os seus dias como se encurtaram os anos da vida de Abraão, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, que lhe era cabido viver 180 anos como viveu Isaac, e não viveu senão 175 anos, pois se encurtaram os seus dias cinco anos a fim de que não visse a Esaú a sair para a má conduta; e para aludir sobre isto se disse sobre ele "e estes são os dias dos anos da vida de Abraão, que viveu" (Gênesis 25:7) — para dizer: estes são os anos que viveu, não que fossem estes os anos da sua vida conforme a natureza do seu temperamento e a umidade radical que havia nele, como foram os anos da vida de Sara.
״אֲשֶׁר מִי אֵל בַּשָּׁמַיִם״ — ״אֶת גָּדְלְךָ״ (אִם עֹנֶשׁ, גָּדְלְךָ אֵין סוֹף לִמְחֹל); ״וְאֶת יָדְךָ הַחֲזָקָה״ (אִם מַעֲרֶכֶת, יָדְךָ חֲזָקָה לְנַצְּחָהּ); ״אֲשֶׁר מִי אֵל״ (אִם טִבְעִית). ״שְׁנֵי חַיֵּי שָׂרָה״ — לֹא נִתְקַצְּרוּ כְּאַבְרָהָם.
7 E por isso Moisés dizia: se esta minha morte é uma morte natural, tal que não há na força da composição do meu temperamento como eu viver mais, eis que tu podes renovar como ao águia a minha juventude (cf. Salmos 103:5) e me dar força para reverter-me viçoso como um cipreste e de corpo sadio, pois não há outro D'us no mundo que não tu que faça como os teus feitos, que possa criar criaturas e dar uma natureza nova senão tu; e, se renovares em mim um assunto novo, como se eu fosse uma criatura nova, quem te dirá "o que fazes?", pois não há no mundo quem faça como os teus feitos e como as tuas proezas; e, depois de que tudo isto é assim — de que não há quem impeça na tua mão —, atravesse eu, pois, e veja.
אִם מִיתָה טִבְעִית — אַתָּה יָכוֹל לְחַדֵּשׁ כַּנֶּשֶׁר נְעוּרַי. ״מִי יֹאמַר לְךָ מַה תַּעֲשֶׂה״ — אֵין מְעַכֵּב, ״אֶעְבְּרָה נָּא וְאֶרְאֶה״.
8 E respondeu-lhe o Senhor, bendito seja, "baste-te" etc. (Deuteronômio 3:26), "e ordena a Josué" etc. (Deuteronômio 3:28) — pois ele atravessará; e até tanto era o decreto do Senhor, bendito seja, firme sobre mim, que, quando chegamos ao vale defronte de Bet-Peor, nos assentamos ali, pois não me deu permissão de atravessar dali; e isto é o que disse aqui "e nos assentamos no vale defronte de Bet-Peor" (Deuteronômio 3:29) — quer dizer que não pudemos atravessar dali em diante, porque eu estava destinado a ser sepultado ali, como está escrito "e o sepultou no vale, na terra de Moab, defronte de Bet-Peor" (Deuteronômio 34:6).
״רַב לָךְ... וְצַו אֶת יְהוֹשֻׁעַ״. ״וַנֵּשֶׁב בַּגַּיְא מוּל בֵּית פְּעוֹר״ — שֶׁהָיִיתִי עָתִיד לְהִקָּבֵר שָׁם.
9 E juntou a isto "e agora, Israel" etc. (Deuteronômio 4:1), "para que vivais e venhais e herdeis a Terra" etc. (Deuteronômio 4:1) — quer dizer: eu me afligi com toda esta aflição a fim de que entrasse à Terra e não mereci entrar ali, e vós tendes o mérito de entrar ali; fortalecei-vos para guardar os mandamentos do Senhor, bendito seja, a fim de que mereçais entrar nela.
״וְעַתָּה יִשְׂרָאֵל... לְמַעַן תִּחְיוּ וּבָאתֶם וִירִשְׁתֶּם אֶת הָאָרֶץ״ — אֲנִי נִצְטַעַרְתִּי וְלֹא זָכִיתִי, וְאַתֶּם זוֹכִים; הִתְחַזְּקוּ לִשְׁמֹר.
10 E, talvez digais que, depois de que a minha oração não é ouvida, já é possível também que hoje ou amanhã pequeis vós e não seja a vossa oração ouvida — por isso juntou a isto "os vossos olhos são os que veem o que fez o Senhor em Baal-Peor" (Deuteronômio 4:3), "e vós, os aderidos ao Senhor" etc. (Deuteronômio 4:4), "pois que nação grande há que tenha D'us" etc. (Deuteronômio 4:7) — quer dizer: não penseis que a generalidade e o indivíduo são iguais nesta coisa, pois não é a coisa assim, que eu, com a abundância da minha elevação, porque sou um indivíduo, não se recebeu a minha oração em meu favor, e vós, com o facto de serdes servidores de idolatria e vos prostrardes a Peor — e não há coisa odiada perante o Senhor como um servidor de idolatria —, se recebeu a minha oração em vosso favor; pois eis que, quando rezei sobre vós no pecado do bezerro ou em Peor, se recebeu a minha oração sobre vós e vos perdoou o Santo, bendito seja, ainda que não se recebesse a minha oração sobre mim mesmo.
תִּפְלַּת מֹשֶׁה נִתְקַבְּלָה עַל הַצִּבּוּר וְלֹא עַל עַצְמוֹ. ״עֵינֵיכֶם הָרֹאֹת... וְאַתֶּם הַדְּבֵקִים בַּה׳״ — אֵין הַכְּלָל וְהַפְּרָט שָׁוִים.
11 E assim se vê da expressão dos nossos mestres, de abençoada memória, no Sifrei — que por isso se mencionou aqui a iniquidade de Baal-Peor, para indicar sobre a diferença que há entre a oração do indivíduo sobre o indivíduo e a sua oração sobre a comunidade — que, com o facto de serem as duas orações iguais e de uma espécie só, se recebe mais a oração da generalidade do que a oração do indivíduo; e por isso juntou a isto "como o Senhor nosso D'us em todo o nosso chamá-lo" (Deuteronômio 4:7) — quis dizer: em qualquer assunto que seja, a oração da generalidade é aceita. E sobre isto é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "não despreza o Santo, bendito seja, a oração dos muitos, conforme se diz 'eis que D'us é poderoso, e não despreza' (Jó 36:5)"; e disseram "sempre deve o homem associar-se a si mesmo com a comunidade tzibur" — para indicar que a oração da generalidade é aceita sempre, ainda que a oração do indivíduo não seja aceita quando ele é um veredito que há com ele um juramento, como não se recebeu a oração de Moisés, nosso mestre, sobre ele a paz, sobre a sua entrada à Terra, porque era um veredito que havia com ele um juramento.
״אֵין הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מוֹאֵס בִּתְפִלָּתָן שֶׁל רַבִּים, שֶׁנֶּאֱמַר הֶן אֵל כַּבִּיר לֹא יִמְאָס״. ״לְעוֹלָם לְשַׁתֵּף אִינָשׁ נַפְשֵׁיהּ בַּהֲדֵי צִבּוּרָא״.
Depois de exaltar a oração como remédio universal (cap. 20), Albo encara honestamente o caso que parece refutá-la: Moisés, o maior dos profetas, rezou para entrar na Terra de Israel — e foi recusado ("baste-te", Dt 3:26). Se a prece do próprio Moisés falhou, não estaria provado que "é em vão servir D'us", que o decreto é irrevogável e a oração inútil? É a objeção do cap. 18 reaparecendo em sua forma mais aguda.
A resposta é precisa e limitada: a oração aproveita antes do veredito sempre, e depois do veredito também — com uma única exceção: quando o decreto vem acompanhado de juramento (shevuá). Ezequias prova o caso geral: seu veredito de morte ("estás morto e não viverás") já fora pronunciado, e ainda assim a oração o reverteu ("acrescentarei sobre os teus dias"). Mas o decreto de Moisés continha um juramento — o "lachen não trareis" (Nm 20:12), e Albo segue o midrash que lê lachen como fórmula de juramento (comparando com "lachen jurei à casa de Eli", I Sm 3:14). O juramento divino "tranca" o decreto contra a oração individual. A falha da prece de Moisés não desmente a eficácia da oração; confirma, por contraste, que apenas o juramento a bloqueia.
Daqui emerge o eixo do capítulo: a assimetria entre o indivíduo (yachid) e a comunidade (tzibur). Para o indivíduo, um decreto com juramento é irreversível. Para a comunidade, "ele se rasga e se anula pela oração" — mesmo com juramento. Esta é a chave que o capítulo desenvolverá: Moisés, como indivíduo, não foi atendido; Moisés, rezando pela comunidade, foi.
Albo faz uma leitura cerrada de "va'etchanan" (Dt 3:23–24). O verbo, da raiz chanan, ensina (via Sifrei) que toda súplica é pedido de "matnat chinam" — dádiva gratuita, não salário. Moisés deliberadamente não atrelou sua prece ao próprio mérito — ao contrário de Ezequias, censurado por invocar seus méritos (e por isso salvo "por causa de Davi", não por si). "Tu começaste" (na sarça, sem que eu merecesse) significa: "tua relação comigo sempre foi graça gratuita — concede-me, pois, também isto por graça". E Moisés argumenta sistematicamente analisando as três mortes possíveis — princípio que Albo ancora no verso de Davi sobre Saul (I Sm 26:10): cortada/punitiva ("o Senhor o fira"), natural ("o seu dia venha"), acidental ("na guerra desça"). A cada uma, Moisés opõe um atributo divino (os mesmos do cap. 17): se punição — "tua grandeza" é infinita e perdoa qualquer pecado; se astral — "tua mão forte" já venceu a constelação em milagres; se natural — "que D'us" pode "renovar como à águia a juventude", recriar a vida. E como "ninguém te dirá: o que fazes?" (o 4º atributo, a inobstrutibilidade), nada impede o atendimento — "atravesse eu, pois". (Albo nota com finura que Moisés omite a morte por escolha, que ninguém escolhe — e corrige até Davi: a morte de Saul foi, de fato, por escolha própria.)
O excurso sobre Sara e Abraão (§6) ilustra a "morte natural" na fisiologia medieval: cada pessoa tem, desde a formação, uma "umidade radical" (lechut shorshi) que determina seus anos naturais. De Sara diz-se "os anos da vida de Sara" — ela viveu exatamente seus anos naturais, não encurtados. De Abraão diz-se só "os dias dos anos que viveu" — pois seus dias foram encurtados cinco anos (deveria viver 180 como Isaac, viveu 175) para que não visse Esaú degenerar. A distinção verbal cifra a diferença entre vida plena e vida abreviada por providência.
D'us recusa ("baste-te"), e o decreto é tão firme que Moisés nem pôde atravessar o vale de Bet-Peor — onde seria sepultado. Mas o capítulo termina com a virada consoladora. Moisés diz a Israel: "esforçai-vos para guardar os mandamentos e herdar a Terra que eu não herdei" (Dt 4:1). E antecipa a angústia do povo: "se nem a tua prece foi ouvida, que esperança temos nós?". A resposta é a tese central: o indivíduo e a comunidade não são iguais. "Eu, com toda a minha grandeza, por ser indivíduo, não fui atendido por mim mesmo; e vós, mesmo idólatras que vos prostrastes a Peor, fostes perdoados — porque rezei por vós como comunidade." O paradoxo é deliberado: a prece de Moisés, impotente para salvá-lo, foi todo-poderosa para salvar Israel. Donde "D'us não despreza a oração dos muitos" (Berachot 8a, lendo Jó 36:5) e "sempre se associe o homem à comunidade" — porque a oração coletiva atravessa até o juramento que detém a oração individual. A providência tem, para o tzibur, uma porta que permanece aberta mesmo quando se fecha para o maior dos indivíduos.
Por que o decreto de Moisés teve juramento, tornando inútil a sua prece? Albo rejeita as explicações de Maimônides (a ira) e da "fala à rocha" sozinha, e propõe: o pecado capital foi a falta de fé. Princípio da Torá, ramo da providência: a natureza se submete aos justos — o tzadik decreta e a natureza muda (Chanina ben Dosá, Pinchas ben Yair, Elias, Eliseu, o sol de Josué). Moisés deveria ter ordenado à rocha por si, santificando o Nome; ao golpeá-la, gerou profanação do Nome — pecado que só a morte expia.
Por que o decreto de Moisés teve juramento, tornando inútil a sua prece? Albo rejeita as explicações de Maimônides (a ira) e da "fala à rocha" sozinha, e propõe: o pecado capital foi a falta de fé. Princípio da Torá, ramo da providência: a natureza se submete aos justos — o tzadik decreta e a natureza muda (Chanina ben Dosá, Pinchas ben Yair, Elias, Eliseu, o sol de Josué). Moisés deveria ter ordenado à rocha por si, santificando o Nome; ao golpeá-la, gerou profanação do Nome — pecado que só a morte expia.
1 E é cabido que esclareçamos o motivo de por que era o veredito de Moisés um veredito que havia com ele um juramento, até o ponto de que não se recebeu sobre ele a sua oração de modo algum. Pois, conforme o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, de que o cerne do pecado nas águas de Merivá foi sobre o fato de que disse "ouvi, pois, ó rebeldes morim" (Números 20:10), porque depreciou a honra de Israel — e aprenderam daqui que aquele que deprecia a honra dos muitos é como o que profana o Nome —, é difícil muitíssimo que seja este pecado não-passível de expiação; com o facto de que achamos que Moisés, no Mishné Torá Deuteronômio, voltou e lhes disse "rebeldes fostes com o Senhor" (Deuteronômio 9:24) — e, se o cerne do seu castigo foi sobre o que lhes disse "ouvi, pois, ó rebeldes", como voltou a dizer-lhes assim?
לָמָּה הָיָה גְּזַר דִּין שֶׁל מֹשֶׁה עִם שְׁבוּעָה. רַבּוֹתֵינוּ: עִקַּר הַחֵטְא ״שִׁמְעוּ נָא הַמֹּרִים״ — שֶׁזִּלְזֵל בִּכְבוֹדָן. קָשֶׁה, שֶׁבְּמִשְׁנֵה תוֹרָה חָזַר וְאָמַר ״מַמְרִים הֱיִיתֶם״.
2 E muito se confundiram os comentadores no esclarecer do pecado nas águas de Merivá, até o ponto de que o Rambam, de abençoada memória, se estreitou forçou-se nisto e disse que o pecado foi a ira ka'as com que se irou Moisés de graça sobre Israel — pois não achamos que se irasse o Senhor, bendito seja, sobre eles, já que não se ira o Senhor sobre o que pedem uma coisa necessária a eles, como a água e o maná; e eis que houve nisto uma profanação do Senhor, bendito seja, conforme a sua opinião, pois pensariam os que viam que o Senhor, bendito seja, se irou sobre eles porque pediram a água, com o facto de serem elas necessárias a eles — pois, se não fosse assim, não se iraria Moisés sobre eles por coisa nenhuma, já que a ira é uma medida vil, e não se acha no senhor dos profetas uma medida vil como esta sobre coisa nenhuma, que Deus o livre —, e viriam a pensar sobre o Senhor coisa errônea — que se irou por coisa nenhuma; este é o resumo das suas palavras nisto, e elas são distantes da boa opinião.
הָרַמְבַּ״ם: הַחֵטְא הַכַּעַס שֶׁכָּעַס מֹשֶׁה עַל חִנָּם, וְהָיָה בָּזֶה חִלּוּל הַשֵּׁם. וְהֵם רְחוֹקִים מֵהַדַּעַת.
3 E já refutou o Ramban, de abençoada memória, esta opinião no comentário da Torá; senão que se vê das suas palavras que também ele concorda com o Rambam, de abençoada memória, de que não foi o pecado sobre o fato de que não falaram à rocha — e isto, ou porque não é a rocha dona de intelecto tal que lhe venha uma ordem do Senhor, bendito seja, ou porque, depois de que se disse a Moisés "toma a vara e congrega a comunidade, tu e Aarão, teu irmão, e falareis à rocha" etc. (Números 20:8), se vê que se precisava de golpear a rocha, depois de que se ordenou a tomar a vara — pois, se não fosse assim, por que se precisava de mencionar a vara? E isto não é uma prova; pois eis que se disse a ele em Chorev "e a tua vara, com que feriste nela" etc. (Êxodo 17:5), e, ainda assim, se precisou de dizer-lhe depois "e ferirás na rocha" (Êxodo 17:6) — e também aqui era cabido que se lhe dissesse "e ferirás na rocha", se fosse a sua intenção de que a ferisse como disse na primeira vez; e o tomar da vara não é uma prova de que se precise de golpear, pois não é a vara o que opera a saída das águas pela força do golpe — pois não é do caminho da vara que golpeia na rocha o que a fenda e faça sair água pela força do golpe, senão pelo caminho do milagre, que, ao estar a vara a achar-se junto à rocha, saem as águas como o que decreta o Senhor —, como se disse a Moisés no princípio da sua profecia "e esta vara tomarás na tua mão, a que farás com ela os sinais" (Êxodo 4:17): eis que esclareceu explicitamente que lhe conferiu uma propriedade de que se façam por seu intermédio os sinais conforme o que decretar o Senhor, bendito seja, e ordenar por meio de Moisés. E uma prova à coisa: que eis que, na praga do granizo, se disse a Moisés "estende a tua mão sobre os céus, e haverá granizo" (Êxodo 9:22), e depois está escrito "e estendeu Moisés a sua vara sobre os céus, e o Senhor deu trovões e granizo" etc. (Êxodo 9:23) — e não se inovava o granizo pelo golpe da vara no ar, mas que, ao achar-se ela na mão de Moisés junto ao ar, se inovava no ar o sinal do granizo pela vontade do Senhor, bendito seja; e também aqui não é o tomar da vara uma prova de que se precise de golpear com ela.
הָרַמְבַּ״ן רֶצֶף — אֲבָל גַּם הוּא: לֹא הָיָה הַחֵטְא עַל שֶׁלֹּא דִבְּרוּ אֶל הַסֶּלַע. הַמַּטֶּה אֵינוֹ פּוֹעֵל בְּכֹחַ הַהַכָּאָה, אֶלָּא ״אֲשֶׁר תַּעֲשֶׂה בּוֹ אֶת הָאֹתֹת״ — סְגֻלָּה.
4 Também a alegação primeira que disseram — de que o Senhor, bendito seja, não ordena senão a um dono de intelecto, e não é a rocha um dono de intelecto tal que lhe venha uma ordem do Senhor, bendito seja, de dar as suas águas, e este é o parecer do Rambam, de abençoada memória, como se vê no capítulo vinte e cinco dos Capítulos de Moisés — não é uma prova; pois a matéria não se afeta de si mesma, mas de um motor que a mova e a prepare para receber a forma; e, quando ordenar o Senhor sobre a matéria que receba alguma forma ou que se mude com alguma mudança — como o seu dizer "produza a terra alma vivente" etc. (Gênesis 1:24), "pululem as águas o pulular de alma vivente" etc. (Gênesis 1:20), e o semelhante a ele —, não é aquela ordem à matéria, mas ao motor, de que prepare a matéria para receber aquela forma ou aquela mudança que o Senhor decreta; e eis que a ordem que é ao motor é a um dono de intelecto, sem dúvida.
הַצִּוּוּי אֶל הַחֹמֶר אֵינוֹ אֶלָּא אֶל הַמֵּנִיעַ שֶׁיָּכִין הַחֹמֶר. ״תּוֹצֵא הָאָרֶץ נֶפֶשׁ חַיָּה״ — אֶל הַמֵּנִיעַ, וְהוּא בַּעַל שֵׂכֶל.
5 E o que me parece nisto é que o pecado nas águas de Merivá foi sobre o fato de que não falaram à rocha, conforme o sentido literal da Escritura; e o indica sobre isto a expressão da Escritura que disse "sobre o fato de que vos rebelastes contra a minha boca peri nas águas de Merivá" (Números 20:24) — e não recai esta expressão sobre o seu dizer "ouvi, pois, ó rebeldes", nem sobre o fato de ser ele a irar-se, mas sobre o fato de que transgrediram a ordem; e, contudo, o cerne do pecado sobre o qual veio o juramento foi sobre o fato de que houve naquele assunto uma pouquez de fé mi'ut emuná, como disse a Escritura "porque não crestes em mim" etc. (Números 20:12), "por isso não trareis" (Números 20:12).
הַחֵטְא — שֶׁלֹּא דִבְּרוּ אֶל הַסֶּלַע. ״עַל אֲשֶׁר מְרִיתֶם אֶת פִּי״ — עַל שֶׁעָבְרוּ הַצִּוּוּי. אֲבָל עִקַּר הַחֵטְא שֶׁעָלָיו הַשְּׁבוּעָה — מִעוּט אֱמוּנָה: ״יַעַן לֹא הֶאֱמַנְתֶּם בִּי״.
6 E o esclarecer disto é por este caminho: que uma raiz grande à Torá e um fundamento à crença, que se ramifica da crença na providência, é a de que o Senhor, bendito seja, força a natureza a estar sob as plantas dos pés dos crentes — como disse Moisés, nosso mestre, depois da oração que ordenou no salmo "uma oração de Moisés, o homem de D'us" (Salmos 90:1): disse que o que se assenta no segredo do Altíssimo e se hospeda na sombra do Todo-Poderoso (cf. Salmos 91:1), eis que ele o assegura, por causa do Senhor, bendito seja, de que o salvará do laço do caçador e da peste e dos sinistros naturais, até o ponto de que pisará sobre o leão e a víbora e calcará o leãozinho e a serpente (cf. Salmos 91:13).
שֹׁרֶשׁ גָּדוֹל מִסְתַּעֵף מֵהַשְׁגָּחָה: שֶׁהַשֵּׁם מַכְרִיחַ הַטֶּבַע תַּחַת כַּפּוֹת רַגְלֵי הַמַּאֲמִינִים. ״יֹשֵׁב בְּסֵתֶר עֶלְיוֹן... עַל שַׁחַל וָפֶתֶן תִּדְרֹךְ״.
7 E se acha isto em alguns dos piedosos, como disseram sobre Rabi Chanina ben Dosá, que pôs o seu pé sobre o buraco da víbora arod e o mordeu a víbora e morreu a víbora — o oposto do que era cabido do caminho da natureza a ser —, e disse aos seus discípulos "meus filhos, não é a víbora que mata, mas o pecado que mata"; se acha então que nos justos se muda a natureza pela sua fala — disseram sobre Rabi Chanina que disse "aquele que disse ao óleo e se acendeu, dirá ao vinagre e se acenderá", e foi assim, e outras coisas como estas. E assim disseram sobre Rabenu Pinchas ben Yair no tratado Chulin, que se dividiu o rio ao seu mandado muitas vezes, com o facto de que não é o rio dono de intelecto, e se dividiu para os cumpridores do mandamento e para os que andavam com eles; e assim em Nachum, o homem de Gamzu, e nos demais piedosos que se mencionaram no tratado Taanit, é avultado o número dos milagres que se faziam por meio deles com a sua fala leve, sem que os trouxesse a isto uma profecia ou uma fala ou uma ordem do Senhor, bendito seja. E assim disse Elifaz a Jó "e decretarás uma palavra omer e ela se erguerá para ti" (Jó 22:28) — de modo que se vê que esta é uma coisa concordada pelos profetas e pelos que falam pelo espírito sagrado, como Elifaz, de que a natureza se muda conforme a fala dos justos conforme o que quiserem, e quanto mais conforme a fala dos profetas, nos quais se inovavam os milagres por meio deles conforme tudo o que saía da sua boca; disse Elias "vive o Senhor, de que não haverá nestes anos orvalho e chuva senão conforme a minha palavra" (I Reis 17:1), e disse ainda "e, se um homem de D'us sou eu, descerá fogo dos céus e te consumirá, a ti e aos teus cinquenta" (II Reis 1:10), e foi assim; e assim Eliseu disse "a esta hora, amanhã, um seá de flor de farinha" etc. (II Reis 7:1), e foi assim; e assim "e flutuou o ferro" (II Reis 6:6), e os demais milagres que se fizeram por meio dele sem que lhe precedesse uma profecia ou uma ordem do Senhor, bendito seja, sobre isto; e assim os demais profetas, e Moisés mesmo disse "se conforme a morte de todo homem" etc. (Números 16:29), "e, se uma criação beriá criar o Senhor" etc. (Números 16:30), "e foi — ao completar ele a falar todas estas palavras, que se fendeu a terra que estava debaixo deles, e abriu a terra a sua boca" etc. (Números 16:31–32), e não se acha que o Senhor, bendito seja, o ordenasse sobre isto. E assim disse Isaías "o que cumpre a palavra do seu servo e o conselho dos seus mensageiros completa" (Isaías 44:26).
רַבִּי חֲנִינָא בֶּן דּוֹסָא — ״לֹא עָרוֹד מֵמִית אֶלָּא חֵטְא מֵמִית״; ״מִי שֶׁאָמַר לַשֶּׁמֶן וְהִדְלִיק יֹאמַר לַחֹמֶץ וְיִדְלִיק״. פִּנְחָס בֶּן יָאִיר — נֶחֱלַק הַנָּהָר. ״וְתִגְזַר אֹמֶר וְיָקָם לָךְ״. אֵלִיָּהוּ, אֱלִישָׁע, מֹשֶׁה בְּקֹרַח.
8 E quem duvida de que o Senhor, bendito seja, não completará a vontade do profeta ou do justo ou do piedoso cabido a isso — eis que ele é como o que lança uma dúvida na Torá e numa raiz das suas raízes; e quanto mais num lugar em que há nele uma santificação do Senhor kidush Hashem, que é cabido e obrigatório que se divulgue que a natureza está subjugada e forçada a fazer a vontade dos guardadores da Torá e dos cumpridores dos seus mandamentos; e quem vê o profeta que é cabido que se façam por seu intermédio milagres a não fazê-los para a salvação de uma nação ou de uma generalidade, eis que ele, sem dúvida, é causa para lançar uma dúvida na crença — pois o que vê pensará que não é a verdade como a que vaticina a Escritura na Torá em muitos lugares, de que a natureza está submissa e subjugada aos cumpridores dos mandamentos da Torá, e virão a lançar uma dúvida na Torá.
מִי שֶׁיְּסַפֵּק שֶׁלֹּא יַשְׁלִים הַשֵּׁם רְצוֹן הַנָּבִיא — כְּמֵטִיל סָפֵק בַּתּוֹרָה. וְכָל שֶׁכֵּן בְּמָקוֹם שֶׁיֵּשׁ קִדּוּשׁ ה׳.
9 E quanto mais quando virem o próprio profeta — sobre cujo intermédio se deu a Torá — a não se apoiar nesta crença — de decretar uma palavra e falar uma coisa contra a natureza para mudá-la do seu costume ou para inovar um sinal ou um prodígio —, com o facto de ser aquele profeta daqueles para os quais é cabido que se façam por seu intermédio milagres mais do que por intermédio de outro que não ele; e isto, sem dúvida, é causa para a profanação do Nome e para lançar uma dúvida na crença, e é como se o profeta mesmo estivesse a duvidar se a coisa é verdade — que se mude a natureza conforme a sua fala como vaticina a Torá. E sobre isto se disse "porque não crestes em mim" etc.; pois, quando pediram a água, se Moisés e Aarão decretassem que se fendesse a rocha e fluíssem as águas, Ele o Senhor, bendito seja, sem dúvida, "cumpriria a palavra do seu servo e o conselho dos seus mensageiros completaria", e seria o Senhor, bendito seja, santificado nisto aos olhos de todo o povo.
וְכָל שֶׁכֵּן הַנָּבִיא עַצְמוֹ — חִלּוּל הַשֵּׁם, כְּאִלּוּ הוּא מְסֻפָּק. אִלּוּ גָזְרוּ שֶׁיִּבָּקַע הַצּוּר, ״מֵקִים דְּבַר עַבְדּוֹ״, וְנִתְקַדֵּשׁ שְׁמוֹ.
10 E, porque não fizeram assim Moisés e Aarão, mas vieram de diante da comunidade como a figura de fugitivos para a entrada da Tenda do Encontro — como explicou o sábio Rabi Abraão ibn Ezra, de abençoada memória —, como se não tivessem eles um conselho do que fazer, e isto foi, sem dúvida, uma profanação do Nome e causa para pouquez de crença nele e na Torá para os que viam; e por isso disse "não crestes em mim" — que, se crêsseis, decretaríeis sobre a natureza que se mudasse, a fim de que se santificasse o meu Nome por meio de vós, de modo que vissem todos que eu cumpro a palavra do meu servo e o conselho dos meus mensageiros completo.
בָּאוּ מִפְּנֵי הַקָּהָל כְּבוֹרְחִים (אִבְּן עֶזְרָא). ״לֹא הֶאֱמַנְתֶּם בִּי״ — אִלּוּ הֶאֱמַנְתֶּם הֱיִיתֶם גּוֹזְרִים עַל הַטֶּבַע.
11 E eles, sobre eles a paz, ainda que fizeram isto pela abundância da sua humildade anvanut — já que não queriam tomar uma coroa para si mesmos sem a ordem do Senhor —, de todo modo se lhes contou por iniquidade e por pouquez de crença, por causa da profanação do Nome que decorreu disto, como esclarecemos. E por isso achas que Josué, quando se precisou de uma coisa como esta, não esperou a tomar permissão do Senhor e a consultar a Presença Shechiná, mas se apoiou no Senhor de que faria a sua vontade, e de si mesmo disse "ó sol, em Givon, cala-te" etc. (Josué 10:12), como testemunhou a Escritura "então falou Josué ao Senhor" etc., "e disse aos olhos de Israel: 'ó sol, em Givon, cala-te'" etc. (Josué 10:12); e cumpriu o Senhor a sua palavra, até o ponto de que testemunhou a Escritura sobre ele de que não houve uma coisa grande como ela mesmo nos dias de Moisés — de que diga Moisés de si mesmo uma coisa e que se cumpra uma coisa grande como esta —, e disse "e não houve como aquele dia, antes dele e depois dele, no ouvir o Senhor a voz de um homem" etc. (Josué 10:14), quer dizer: que cumprisse o Senhor uma coisa grande como esta que decrete o homem de si mesmo. E este é o pecado da pouquez da crença que atribuiu a Escritura a Moisés e a Aarão sobre o fato de que não fizeram uma coisa de si mesmos sem a permissão do Senhor; e também, depois de que se lhes disse "e falareis à rocha", e eles não falaram, mas que golpearam, pecaram também por que transgrediram a boca do Senhor — pois, se falassem, se santificaria o Senhor e estariam a consertar uma parte do que pecaram, e, porque não falaram, acrescentaram a pecar.
עָשׂוּ זֶה לְרֹב עַנְוְתָנוּתָם — וְנֶחְשַׁב לְעָוֹן. יְהוֹשֻׁעַ: ״שֶׁמֶשׁ בְּגִבְעוֹן דּוֹם״ — ״וְלֹא הָיָה כַּיּוֹם הַהוּא... לִשְׁמֹעַ ה׳ בְּקוֹל אִישׁ״.
12 E a causa do pecado foi porque pensaram que, assim como em Chorev saíram as águas por meio de um golpe, também desta vez não sairiam senão por meio de um golpe; e o Senhor dos exércitos não o aconselhou assim — pois na primeira vez ainda não se tinha dado a Torá e não estava a natureza subjugada a Israel tanto, mas agora, no ano quadragésimo, cabidos eram a que se fizesse para eles um milagre e a que se subjugasse a natureza diante deles pela fala de Moisés apenas; e por causa disto houve aqui uma rebeldia sobre o fato de que não falaram à rocha como lhes foi ordenado, e uma pouquez de crença e uma profanação do Nome sobre o fato de que não decretaram de si mesmos sobre a rocha que desse as suas águas sem a ordem do Senhor, bendito seja. E assim achas que, na porção de Ha'azinu, quando disse o Senhor a Moisés "sobe ao monte de Avarim" e "recolhe-te ao teu povo" (cf. Números 27:12–13), menciona a Escritura as duas coisas — "sobre o fato de que prevaricastes contra mim" e "sobre o fato de que não me santificastes" (Deuteronômio 32:51) —, para aludir sobre estas duas espécies do pecado.
חָשְׁבוּ שֶׁכְּמוֹ בְחוֹרֵב עַל יְדֵי הַכָּאָה. בִּשְׁנַת הָאַרְבָּעִים רְאוּיִים שֶׁיִּכָּנַע הַטֶּבַע בְּדִבּוּר בִּלְבַד. ״עַל אֲשֶׁר מְעַלְתֶּם בִּי וְעַל אֲשֶׁר לֹא קִדַּשְׁתֶּם אוֹתִי״.
13 E, porque houve no pecado uma pouquez de crença e uma profanação do Nome, como esclarecemos, não foi dado a expiação, como disseram no tratado Yomá: mas aquele que tem na sua mão uma profanação do Nome, não há potência na teshuvá de suspender o castigo nem nos sofrimentos de depurar, senão que a morte depura; e por isso era um veredito que há com ele um juramento, e por isso não aproveitou a sua oração nem a sua teshuvá de Moisés neste pecado. E observa atentamente no que esclarecemos neste capítulo e entende-o, pois é mais correto do que tudo o que se disse nele; e o Senhor, bendito seja, com as suas misericórdias, nos salve do erro, amém.
מִי שֶׁיֵּשׁ בְּיָדוֹ חִלּוּל הַשֵּׁם — אֵין כֹּחַ בִּתְשׁוּבָה לִתְלוֹת וְלֹא בְּיִסּוּרִין לְמָרֵק אֶלָּא מִיתָה מְמָרֶקֶת. עַל כֵּן גְּזַר דִּין שֶׁיֵּשׁ עִמּוֹ שְׁבוּעָה.
O cap. 21 estabeleceu que a prece de Moisés falhou porque seu decreto vinha com juramento — e juramento bloqueia até a oração do maior dos profetas. Mas isso só desloca a pergunta: por que esse pecado mereceu juramento, quando nem teshuvá nem sofrimento o podiam reverter? O capítulo é a célebre investigação de Albo sobre o "pecado das águas de Merivá" (Nm 20) — um dos enigmas mais discutidos da Torá, sobre o qual "muito se confundiram os comentadores".
Albo descarta primeiro Maimônides (Shemoná Perakim, cap. 4), para quem o pecado foi a ira ("ouvi, ó rebeldes!") — uma emoção indigna que, exibida pelo líder, fez o povo supor que D'us se irara com um pedido legítimo (água), gerando profanação do Nome. Albo julga isso "distante da boa opinião" — e nota a dificuldade: o próprio Moisés repete "rebeldes fostes" em Deuteronômio sem ser punido, logo a palavra "morim" não pode ser o crime. Descarta também a tese (atribuída em parte ao Ramban) de que o pecado não foi golpear em vez de falar — com um belo argumento físico: a vara nunca foi instrumento mecânico (não há "rocha que se fenda pela força do golpe"); ela é uma segulá, um objeto pelo qual o milagre se manifesta "conforme o que D'us decreta" ("a vara com que farás os sinais", Êx 4:17). A prova: no granizo, Moisés "estende a vara ao céu" — e o granizo não vem do impacto da vara no ar, mas da vontade divina com a vara presente. Logo, tomar a vara não implicava golpear. E à objeção de que "D'us não ordena a uma rocha sem intelecto": a ordem dirige-se sempre ao motor (que prepara a matéria), não à matéria — e o motor é intelectual.
A explicação própria de Albo integra Mei Merivá à teologia de todo o Maamar. Há dois níveis no pecado. O nível literal (a rebeldia, "rebelastes contra a minha boca", Nm 20:24): falar era a ordem, e golpearam. Mas o nível capital — o que mereceu juramento — é a pouquez de fé ("porque não crestes em mim", Nm 20:12). E que fé é essa? Um princípio cardinal da Torá, ramo da providência: a natureza está subjugada aos pés dos crentes. O tzadik decreta e a natureza obedece — sem necessidade de profecia, ordem ou permissão divina prévia. Albo acumula provas: Chanina ben Dosá ("não é a víbora que mata, mas o pecado"; "Quem disse ao óleo que ardesse dirá ao vinagre que arda"); Pinchas ben Yair, a cujo mando o rio se dividia; Nachum Ish Gamzu e os piedosos de Taanit; e, no plano profético, Elias (a seca, o fogo do céu), Eliseu (a farinha, o ferro que flutua), e o próprio Moisés decretando o abismo que tragou Coré — sem que conste ordem divina. "Decretarás uma palavra e ela se erguerá para ti" (Jó 22:28). "Ele cumpre a palavra do seu servo" (Is 44:26).
O ponto decisivo: Moisés e Aarão, diante da multidão sedenta, não ousaram decretar por si mesmos que a rocha desse água. Vieram "como fugitivos à entrada da Tenda" (ibn Ezra) — como quem não sabe o que fazer —, esperando instrução. Esse titubeio público é a profanação: o homem por cujas mãos a Torá foi dada parecia ele próprio duvidar de que a natureza se curva à palavra do justo, semeando dúvida na fé de quem via. O contraste luminoso é Josué: precisando de um milagre, "não esperou tomar permissão de D'us", mas, apoiado na fé, decretou por si — "sol, em Givon, cala-te!" — e D'us cumpriu, num feito que a Escritura declara sem paralelo "antes ou depois", "ao ouvir o Senhor a voz de um homem" (Js 10:14). Josué creu e ordenou; Moisés hesitou e golpeou.
Albo é teologicamente generoso: Moisés e Aarão agiram assim "pela abundância da sua humildade" (anvanut) — não quiseram "tomar coroa para si" sem mandato divino. Mas a intenção nobre não anulou o dano objetivo: a profanação do Nome resultante. E aqui está a razão última do juramento, ancorada em Yomá 86a: para quem tem chilul Hashem nas mãos, "não há força na teshuvá para suspender, nem nos sofrimentos para depurar — só a morte depura". Por isso, e só por isso, o decreto de Moisés veio selado com juramento, e nem sua prece nem sua teshuvá puderam revertê-lo. A erros sobre o método (golpear, supondo ser como em Chorev) somou-se o erro de fundo: no quadragésimo ano, já dada a Torá e já subjugada a natureza a Israel, era chegada a hora de a água vir pela mera palavra — e a falha em confiar nisso, vinda do próprio legislador, era a falha mais cara possível. Os dois verbos de Deuteronômio 32:51 — "prevaricastes" (a rebeldia) e "não me santificastes" (a falta de fé/kidush Hashem) — cifram, para Albo, as duas faces do pecado.
Quais palavras e atributos se podem dirigir a D'us na oração? Há três categorias de termos — os que só indicam bem, os que só indicam mal, e os mistos. Mesmo termos que os profetas atribuíram a D'us (como "chorar" nas câmaras ocultas, ou a alma como "glória") não nos é lícito usar em prece a nosso bel-prazer. E há três condições para a oração ser aceita: palavras breves e adequadas, concordância do coração com a boca, e voz baixa e submissa — culminando nos graus de quem reza, do quebrantado de coração ao amante de D'us guardado sem pedir.
Quais palavras e atributos se podem dirigir a D'us na oração? Há três categorias de termos — os que só indicam bem, os que só indicam mal, e os mistos. Mesmo termos que os profetas atribuíram a D'us (como "chorar" nas câmaras ocultas, ou a alma como "glória") não nos é lícito usar em prece a nosso bel-prazer. E há três condições para a oração ser aceita: palavras breves e adequadas, concordância do coração com a boca, e voz baixa e submissa — culminando nos graus de quem reza, do quebrantado de coração ao amante de D'us guardado sem pedir.
1 As palavras tevot — dentre elas há as que indicam o bem com uma indicação completa e não indicam o mal de modo algum; e há as que indicam com indicação completa o mal e não indicam o bem de modo algum; e há as que a maioria da sua indicação indicam o bem e indicam num certo lado o mal também, e o oposto.
הַתֵּבוֹת: מֵהֶם שֶׁיּוֹרוּ עַל טוֹב הוֹרָאָה גְמוּרָה; וְיֵשׁ שֶׁיּוֹרוּ עַל רַע; וְיֵשׁ שֶׁרֹב הוֹרָאָתָן עַל הַטּוֹב וְיוֹרוּ בְּצַד מָה עַל רַע, וְהַהֵפֶךְ.
2 E os que indicam o bem, como "o reto" e "o fiel", "o misericordioso" e "o gracioso" — estes e os semelhantes a eles foi permitido atribuí-los ao Senhor, bendito seja, e a rezar diante dele com eles. E os que indicam o mal completo, como "o ímpio", "o iníquo", "o roubador", "o violento", e estes e os semelhantes a eles — não foi permitido atribuí-los ao Senhor, bendito seja, de modo algum, e quanto mais a rezar diante dele com eles. E as palavras cuja maioria da sua indicação é o bem — não foi permitido atribuí-las ao Senhor, bendito seja, se não se achar que os profetas as atribuíram a ele, bendito seja, como "o piedoso chassid", que, ainda que a maioria da sua indicação seja o bem, depois de que se acha que se disse sobre a vergonha cherpá num lado distante, como "para que não te envergonhe yechasdecha o que ouve" (Provérbios 25:10) — "é vergonha" (Levítico 20:17) —, não nos permitiríamos a atribuí-lo a ele, bendito seja, se não se achasse que a Escritura diz "pois um piedoso chassid sou eu, palavra do Senhor, não guardarei rancor para sempre" (Jeremias 3:12).
הַטּוֹב: ״יָשָׁר וְנֶאֱמָן רַחוּם וְחַנּוּן״ — הֻתַּר. הָרַע: ״רָשָׁע עַוָּל גַּזְלָן״ — לֹא הֻתַּר. רֹב טוֹב: ״חָסִיד״ — לֹא נְיַחֲסֶנּוּ אֶלָּא שֶׁמָּצִינוּ ״כִּי חָסִיד אֲנִי נְאֻם ה׳״.
3 E, contudo, as palavras cuja maioria da sua indicação é o mal ou uma coisa feia — não nos permitiremos a atribuí-las ao Senhor pelo caminho da oração, ainda que se ache que os profetas as atribuíram a ele, bendito seja, se não se achar que os atribuíram a ele pelo caminho da oração. E isto é como o entristecimento itzavon e a estreiteza da alma kotzer nefesh, que os atribuiu a ele a Escritura: "e se entristeceu vayit'atzev ao seu coração" (Gênesis 6:6), "e se estreitou a sua alma vatiktzar nafsho no labor de Israel" (Juízes 10:16) — e, ainda assim, não os atribuiremos a ele, bendito seja, pelo caminho da oração — a dizer "entristece-te sobre mim" ou "estreite-se a tua alma sobre mim". E assim o pranto bechi — não nos permitiremos a atribuí-lo a ele, bendito seja, ainda que o atribuíssem a ele os profetas conforme o parecer dos nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Chaguigá: disse Rav Shmuel bar Uniá em nome de Rav: "um lugar há para o Santo, bendito seja, em que chora boché, e 'câmaras mistarim' é o seu nome, conforme se diz 'e, se não a ouvirdes, nas câmaras bemistarim chorará a minha alma de diante da altivez gevá' (Jeremias 13:17) — que é 'de diante da altivez'? — de diante da altivez de Israel que se rebaixou; e acaso há pranto diante do Santo, bendito seja? e eis que está escrito 'força e alegria há no seu lugar' (I Crônicas 16:27)! não é difícil: esta — nas câmaras de dentro batei gva'i, esta — nas câmaras de fora batei bara'i'".
רֹב רַע: ״הָעִצָּבוֹן וְקֹצֶר הַנֶּפֶשׁ״ — לֹא נְיַחֲסֵם דֶּרֶךְ תְּפִלָּה. הַבְּכִי: ״מָקוֹם יֵשׁ לְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שֶׁבּוֹכֶה בּוֹ וּמִסְתָּרִים שְׁמוֹ... הָא בְּבָתֵּי גַוָּאֵי הָא בְּבָתֵּי בָרָאֵי״.
4 Eis que os nossos mestres, de abençoada memória, entenderam que este versículo são palavras do Senhor e não palavras do profeta, porque a porção começa "ouvi e escutai, não vos eleveis, pois o Senhor falou" (Jeremias 13:15) — e esta expressão indica que são palavras do Senhor e não palavras do profeta, como "ouvi, ó céus, e escuta, ó terra, pois o Senhor falou: filhos criei e exaltei" (Isaías 1:2); e disse "dai ao Senhor vosso D'us a glória, antes de que escureça" etc. (Jeremias 13:16), "e, se não a ouvirdes, nas câmaras chorará a minha alma de diante da altivez" (Jeremias 13:17). E a intenção da porção, conforme o parecer dos nossos mestres, de abençoada memória, é que o que disse "ouvi e escutai, não vos eleveis" quer dizer: não penseis a ser eternos como os altos os astros, pois não é assim, já que vós sois da natureza da geração e da corrupção; e, se quiserdes subsistir, "dai ao Senhor vosso D'us a glória kavod", quer dizer: a alma, que se chama "glória" — como "e a minha glória kevodi no pó residirá" etc. (Salmos 7:6) —, dai-a ao Senhor e vos esforçai a que ela alcance a perfeição espiritual anímica que se chama também com o nome de "glória", conforme disse "e será o seu repouso glória" (Isaías 11:10), "exultem os piedosos na glória" (Salmos 149:5); e se chama esta perfeição "glória" porque ela é uma glória ao Senhor, que criou a alma do homem, com o facto de ser o homem da natureza da geração e da corrupção, num modo tal que, se ela se aderir a ele, possa subsistir e a ser eterna.
״תְּנוּ לַה׳ אֱלֹהֵיכֶם כָּבוֹד״ — הַנֶּפֶשׁ הַנִּקְרֵאת כָּבוֹד. ״וְכָבוֹד אֶל הַשֵּׁם״ שֶׁבָּרָא נֶפֶשׁ הָאָדָם שֶׁתּוּכַל לְהִתְקַיֵּם וְלִהְיוֹת נִצְחִית.
5 E disse que se esforcem a alcançar esta perfeição antes do dia da morte, e isto é "antes de que escureça" (Jeremias 13:16), como a fala de Salomão "e lembra-te do teu Criador" etc. (Eclesiastes 12:1) "até que não se escureça o sol e a luz e a lua e as estrelas" (Eclesiastes 12:2), que é alusão ao dia da morte. E disse "e, se não a ouvirdes, nas câmaras chorará a minha alma" — quer dizer: se não ouvirdes a este meu conselho — de esforçar-vos na obtenção desta glória, que é a perfeição anímica —, "nas câmaras chorará a minha alma", quer dizer: sabei que já se decretou a minha sabedoria e a minha vontade de que estareis preparados ao mal e à corrupção, pois o pranto é sempre sobre a coisa ausente; e alude a que há na existência um lugar em que a ausência e o mal estão aderidos a ele, e ele é o mundo inferior, e ele é o que se chama "câmaras de dentro" — seja porque a terra está no meio do mundo, cercada de todos os lados; e se chama "câmaras de fora" aos céus, em que a permanência, que é a alegria, é contínua neles —, seja porque a ausência está aderida à matéria-prima hiulí, que é não-apreensível pelo sentido, e por isso a chamou "câmaras de dentro", e se chama "câmaras de fora" à existência sensível. E é como se indicassem nisto que toda a existência — no seu conjunto — é supervisionada e conduzida pelo Senhor, bendito seja, e mesmo a parte em que a ausência está aderida a ela, a chamada "câmaras de dentro"; e a existência desta parte é pelo lado da alegria que se acha na existência sensível chamada "câmaras de fora". E alude nisto que, depois de que a ausência está aderida aos existentes oriundos da matéria-prima, é impossível a nenhum deles o ser eterno senão pelo lado da alma. E disse "chorará a minha alma" — quer dizer: a alma do homem, que é minha, se perderá; pois o pranto alude à corrupção; ou é pelo modo do exemplo, como se o agente se afligisse quando não chega a sua ação ao fim da perfeição que ele visou nela; e por isso disse que o pranto é "de diante da altivez de Israel que se rebaixou", porque a elevação de Israel e a sua perfeição a visada neles pelo lado da Torá é a perfeição da alma e a sua subsistência, e por isso se aflige quando não se mantém a alma e se perde — e sobre isto disse que ele chora, ou que há pranto diante dele.
״בְּמִסְתָּרִים תִּבְכֶּה נַפְשִׁי״ — שֶׁהַבְּכִי עַל הַדָּבָר הַנֶּעְדָּר. ״בָּתֵּי גַוָּאֵי״ — הָעוֹלָם הַשָּׁפָל. ״תִּבְכֶּה נַפְשִׁי״ — נֶפֶשׁ הָאָדָם תֵּעָדֵר, מִפְּנֵי גַּאֲוָתָן שֶׁל יִשְׂרָאֵל שֶׁנִּשְׁפַּל.
6 E esta expressão e a semelhante a ela — ainda que se ache que o profeta a atribui ao Senhor, bendito seja, conforme o parecer dos nossos mestres, de abençoada memória — não nos permitiremos a atribuí-las ao Senhor pelo caminho da oração e a dizer "chora sobre mim" ou "entristece-te sobre mim" ou "estreite-se a tua alma sobre mim", ainda que se diga "rujam, pois, as tuas misericórdias sobre nós" — porque se acha que o profeta disse assim pelo caminho da oração: disse Isaías "a comoção hamon das tuas entranhas e as tuas misericórdias — a mim — se contiveram?" (Isaías 63:15).
לֹא נַתִּיר עַצְמֵנוּ לְיַחֲסָם דֶּרֶךְ תְּפִלָּה. ״יֶהֱמוּ נָא רַחֲמֶיךָ עָלֵינוּ״ — שֶׁנִּמְצָא לַנָּבִיא: ״הֲמוֹן מֵעֶיךָ וְרַחֲמֶיךָ אֵלַי הִתְאַפָּקוּ״.
7 E por causa disto está manifesto que não é todo homem autorizado a ordenar compor palavras conforme a sua vontade na oração, e quanto mais a atribuir a ele algum atributo de si mesmo; e sobre aquele que é semelhante a isto se disse "não te precipites sobre a tua boca, e o teu coração não se apresse a proferir uma palavra diante de D'us" etc. (Eclesiastes 5:1); e já se alongou nisto o Rav Abraão ibn Ezra, de abençoada memória, no comentário de Eclesiastes sobre este versículo, e as suas palavras são corretas nisto e não precisam de conserto. E a regra nisto é que a oração precisa de três coisas a fim de que seja cabida de ser aceita.
אֵין כָּל אָדָם רַשַּׁאי לְסַדֵּר דְּבָרִים כִּרְצוֹנוֹ. ״אַל תְּבַהֵל עַל פִּיךָ וְלִבְּךָ אַל יְמַהֵר לְהוֹצִיא דָבָר לִפְנֵי הָאֱלֹהִים״. הַתְּפִלָּה צְרִיכָה ג׳ דְּבָרִים.
8 A uma: que seja dita com enunciados breves, adequados e que indiquem a intenção do orante, e que não multiplique as palavras, pois o tolo multiplica as palavras; e que não seja daqueles sobre os quais se disse "pois vem o sonho na multidão do afazer, e a voz do tolo na multidão das palavras" (Eclesiastes 5:2). E é preciso que sejam aquelas palavras ditas suaves arevim ao que ouve e que não sejam sobre ele um fardo; e por isso se escolheram os cânticos shirim e os hinos piyutim e as súplicas feitas em métrica mishkal para a oração, para se reunirem neles todos estes assuntos; e ainda se acrescenta sobre eles que eles concordam com as melodias da música, como é da definição do cântico, que é um enunciado proporcional e ligado — uma parte dele com outra parte —, que faz conhecer a intenção do que fala em palavras breves e suaves e medidas shekulot conforme as melodias da música.
(א) מַאֲמָרִים קְצָרִים נָאוֹתִים, וְלֹא יַרְבֶּה דְּבָרִים. ״וְקוֹל כְּסִיל בְּרֹב דְּבָרִים״. נִבְחֲרוּ הַשִּׁירִים וְהַפִּיּוּטִים הָעֲשׂוּיִים בְּמִשְׁקָל, הַמַּסְכִּימִים לְנִגּוּנֵי הַמּוּסִיקָה.
9 E a segunda: que concorde a intenção do coração com o que é dito pela boca, e que não seja o orante daqueles sobre os quais se disse "e o seduziram vayfatuhu com a sua boca, e com a sua língua lhe mentiam, e o seu coração não estava firme com ele" (Salmos 78:36–37); mas que seja daqueles nos quais concorda o coração com a boca, como disse Davi "sejam por aceitação ratzon os ditos da minha boca e a meditação heguion do meu coração diante de ti" (Salmos 19:15) — quer dizer: depois de que eles concordam juntos, os ditos da minha boca e a meditação do meu coração, sejam por aceitação diante de ti.
(ב) שֶׁתַּסְכִּים כַּוָּנַת הַלֵּב עִם הַנֶּאֱמָר בַּפֶּה. ״יִהְיוּ לְרָצוֹן אִמְרֵי פִי וְהֶגְיוֹן לִבִּי לְפָנֶיךָ״.
10 E a terceira: que seja a voz baixa namuch e que indique sobre a submissão hachna'á, como um homem que suplica diante do seu senhor, como a fala do poeta "ouve, ó D'us, a minha voz na minha queixa" (Salmos 64:2), "ouve a voz das minhas súplicas no meu clamar a ti" (Salmos 28:2); e que não seja daquele sobre o qual se disse "deu sobre mim com a sua voz, por isso a odiei" (Jeremias 12:8).
(ג) שֶׁיִּהְיֶה הַקּוֹל נָמוּךְ וּמוֹרֶה עַל הַהַכְנָעָה. ״שְׁמַע אֱלֹהִים קוֹלִי בְשִׂיחִי״. וְלֹא ״נָתְנָה עָלַי בְּקוֹלָהּ עַל כֵּן שְׂנֵאתִיהָ״.
11 E a estas três condições aludiu Davi no salmo quinto: disse "aos meus ditos dá ouvidos, Senhor" (Salmos 5:2), para aludir à condição primeira, que é pelo lado da brevidade das palavras e dos enunciados; "atenta biná a minha meditação" (Salmos 5:2), para aludir à condição segunda, que é pelo lado da intenção do coração; "escuta a voz do meu clamor" (Salmos 5:3), para aludir à condição terceira, que é pelo lado da voz que indica sobre a submissão; e estas são as condições sem as quais é impossível que se aceite a oração. E, contudo, mesmo se se acharem as três, não é obrigatório que se aceite a oração de todo modo, pois já será o recebedor tão distante do Senhor, bendito seja, que se precisará de multiplicar e de insistir le'hafetzir na oração a fim de que se aceite, e, com a insistência e a multiplicação da oração, é possível que se aceite; e por isso achas que Isaías, o profeta, inculpa a Israel sobre o fato de que não estavam a insistir na oração: disse "não há quem clame pelo teu nome, que se desperte a segurar-se em ti" (Isaías 64:6) — de modo que se vê que, se se segurassem e insistissem nele, aproveitaria; e assim achamos nos homens de Nínive, dos quais está escrito neles "e clamaram a D'us com força" (Jonas 3:8), e Ele se comoveu atendeu a eles; e assim fez Moisés, quando rezou sobre o feito do bezerro, multiplicou e insistiu na oração por muitos dias até que foi atendido; e assim nos espias, até que se lhe disse "perdoei conforme a tua palavra" (Números 14:20).
״אֲמָרַי הַאֲזִינָה ה׳ בִּינָה הֲגִיגִי הַקְשִׁיבָה לְקוֹל שַׁוְעִי״ — ג׳ הַתְּנָאִים. וְלִפְעָמִים צָרִיךְ לְהַפְצִיר: ״וַיִּקְרְאוּ אֶל אֱלֹהִים בְּחָזְקָה״ (נִינְוֵה); מֹשֶׁה בָּעֵגֶל.
12 E outra vez será o recebedor tão distante do Senhor, bendito seja, ou será a coisa buscada tão grande, que não aproveitará a multiplicação da oração até que faça o orante alguma ação ou algumas ações que indiquem sobre a submissão e a teshuvá: disse Isaías "também se multiplicardes a oração, não estou a ouvir" (Isaías 1:15), e disse ainda "lavai-vos, purificai-vos" etc. (Isaías 1:16); e nos homens de Nínive se disse "e se cobriram de sacos, o homem e o animal" (cf. Jonas 3:8); e também os justos faziam ações que indicavam sobre a submissão: disse Daniel "o pão das delícias não comi, e carne e vinho não vieram à minha boca, e com óleo não me ungi" (Daniel 10:3), e disse-lhe o anjo "desde o dia primeiro em que deste o teu coração para entender e para afligir-te diante do teu D'us, se ouviram as tuas palavras" (Daniel 10:12).
וּפַעַם צָרִיךְ פְּעֻלּוֹת הַמּוֹרוֹת עַל הַכְנָעָה. ״גַּם כִּי תַרְבּוּ תְפִלָּה אֵינֶנִּי שֹׁמֵעַ... רַחֲצוּ הִזַּכּוּ״. דָּנִיֵּאל — ״לֶחֶם חֲמֻדוֹת לֹא אָכַלְתִּי״.
13 E há dentre os homens quem lhe baste o fazer a oração com intenção do coração: disse Davi "próximo está o Senhor dos quebrantados de coração" (Salmos 34:19), "próximo está o Senhor de todos os que o chamam" (Salmos 145:18). E há os que estejam num grau ainda maior, tal que mesmo o que não rezem sobre ele lhes é dado, e ela é a categoria dos tementes do Senhor: disse a Escritura "a vontade dos que o temem Ele faz" etc. (Salmos 145:19); e, de todo modo, é preciso que rezem diante dele em ato, e por isso concluiu "e a voz do seu clamor Ele ouve, e os salva" (Salmos 145:19). E há os que estejam num grau ainda maior, e eles são os amantes ohavim do Senhor, bendito seja, até o ponto de que não se precisam de rezar ao Senhor, bendito seja, pois ele, de si mesmo, os guarda — e isto é o que disse depois disto "o guardador é o Senhor de todos os que o amam" (Salmos 145:20); e disseram os nossos mestres, de abençoada memória, sobre "o que faz maravilhas sozinho" (Salmos 72:18): "por assim dizer, não reconhece o dono do milagre o seu próprio milagre" — e esta foi a categoria de Abraão, nosso pai, sobre ele a paz.
״קָרוֹב ה׳ לְנִשְׁבְּרֵי לֵב״. ״רְצוֹן יְרֵאָיו יַעֲשֶׂה... וְאֶת שַׁוְעָתָם יִשְׁמַע״. ״שׁוֹמֵר ה׳ אֶת כָּל אֹהֲבָיו״ — אֵינָם צְרִיכִים לְהִתְפַּלֵּל, וְזוֹ מַדְרֵגַת אַבְרָהָם.
Tendo tratado da eficácia da oração (caps. 16–22), Albo volta-se agora à sua forma: que linguagem é lícita diante de D'us? A questão nasce de uma tensão real — a Escritura atribui a D'us termos e emoções (ira, tristeza, até pranto) que pareceriam impróprios. Albo organiza isso numa taxonomia de três categorias de palavras: as que indicam só bem ("reto", "fiel", "misericordioso") — livremente atribuíveis a D'us e usáveis na prece; as que indicam só mal ("ímpio", "violento") — jamais atribuíveis; e as mistas, de maioria positiva ou negativa, que exigem critério.
A regra de Albo é de uma prudência reverente. Um termo de maioria positiva mas com algum sentido negativo (como chassid, "piedoso", que num uso raro significa "vergonha") só se atribui a D'us se a própria Escritura já o atribuiu — e, de fato, "pois chassid sou eu" (Jr 3:12) o autoriza. Mais restritivo ainda: um termo de maioria negativa (tristeza, "estreiteza de alma", pranto), mesmo quando a Escritura o aplica a D'us, só pode ser usado por nós em prece se os profetas o usaram especificamente em modo de oração. Assim, embora a Torá diga que D'us "se entristeceu ao coração" (Gn 6:6), não nos é lícito rezar "entristece-te por mim". Mas podemos dizer "rujam as tuas misericórdias sobre nós" — porque Isaías rezou assim ("a comoção das tuas entranhas e as tuas misericórdias", Is 63:15). A linguagem da oração não é invenção livre; é herança regulada.
O caso mais delicado é o midrash de Chaguigá (5b): "há um lugar onde o Santo chora, e seu nome é 'câmaras ocultas'" (lendo Jr 13:17). Como conciliar com "força e alegria há no seu lugar"? — "uma coisa nas câmaras de dentro, outra nas de fora". Albo dá a esse texto uma leitura filosófica profunda. Lê toda a passagem de Jeremias como exortação à imortalidade da alma: "não vos creiais eternos como os astros — sois da geração e corrupção; mas dai a D'us a glória" — onde kavod (glória) é a alma (como em "minha glória repousará no pó"). Esforçai-vos por alcançar a perfeição anímica (também chamada kavod) "antes que escureça" (a morte). E "nas câmaras chorará a minha alma" = se não cultivardes essa perfeição, está decretado que perecereis — pois "o pranto é sempre sobre o que está ausente". As "câmaras de dentro" (batei gva'i) são o mundo inferior, onde a corrupção adere (à matéria-prima, o hiulí não-sensível); as "de fora" (bara'i), os céus permanentes. O "pranto de D'us" é, então, uma metáfora antropopática: como o artesão se entristece quando sua obra não atinge a perfeição visada, D'us "chora" pela alma de Israel que poderia ser eterna e se perde. A altivez "rebaixada" é a dignidade espiritual desperdiçada.
Da análise dos atributos Albo extrai uma lei prática: "não é todo homem autorizado a compor preces ao seu arbítrio", e menos ainda a atribuir a D'us um atributo de sua própria lavra — "não te precipites com a tua boca... diante de D'us" (Ecl 5:1). A liturgia fixa não é uma limitação, mas uma proteção: poupa o orante de dizer a D'us o que não se deve.
O coração prático do capítulo: três requisitos sem os quais a prece não pode ser aceita. (1) Palavras breves e adequadas — "o tolo multiplica palavras" (Ecl 5:2); a prece deve ser concisa, fiel à intenção, e agradável ao ouvido. Daí, nota Albo, a escolha de piyutim métricos e melódicos: o "cântico" reúne brevidade, beleza e proporção. (2) Concordância do coração com a boca — não ser dos que "o seduziram com a boca, mas o coração não estava firme" (Sl 78:36–37), mas dos que dizem "sejam por aceitação os ditos da minha boca e a meditação do meu coração" (Sl 19:15). (3) Voz baixa e submissa — como quem suplica ao seu senhor, não como quem "ergue a voz" com arrogância (Jr 12:8). E Albo encontra as três cifradas, em ordem, no Salmo 5:2–3: "meus ditos" (brevidade), "minha meditação" (coração), "voz do meu clamor" (submissão).
A conclusão é uma escala espiritual ascendente, lida no Salmo 145. As três condições são necessárias, mas não suficientes: conforme a distância do orante em relação a D'us, pode ser preciso insistir (os homens de Nínive que "clamaram com força"; Moisés rezando dias a fio pelo bezerro), ou até acrescentar atos de submissão (jejum, saco, as privações de Daniel). Mas, à medida que se sobe, a oração se torna mais leve: ao quebrantado de coração basta a intenção sincera ("próximo está o Senhor dos quebrantados", Sl 34:19); ao temente de D'us, sua vontade é feita ainda antes de pedir (embora ainda deva rezar, Sl 145:19); e ao amante de D'us — o grau supremo — "Ele o guarda" sem que precise rezar ("guarda o Senhor todos os que o amam", Sl 145:20). É a categoria de Abraão, e o midrash a sela com a frase tantas vezes citada por Albo: "nem o dono do milagre reconhece o seu milagre" (Sl 72:18) — a providência envolve o amante de D'us tão constante e silenciosamente que ele nem percebe os prodígios que o cercam.
Nem toda ação alcança o seu fim, embora bem-feita — o médico e o lavrador fazem tudo certo e às vezes não logram a cura ou a colheita, pois o agente é o homem e a natureza. Assim a oração: pode não ser atendida sem culpa do orante — por castigo, por providência, por um impedimento, ou porque D'us sabe que o pedido lhe seria mau. Daí a melhor oração: "faze o que é bom aos teus olhos"; bendizer o mal como o bem; rezar em termos gerais e lançar o fardo sobre D'us, que escolhe melhor do que nós.
Nem toda ação alcança o seu fim, embora bem-feita — o médico e o lavrador fazem tudo certo e às vezes não logram a cura ou a colheita, pois o agente é o homem e a natureza. Assim a oração: pode não ser atendida sem culpa do orante — por castigo, por providência, por um impedimento, ou porque D'us sabe que o pedido lhe seria mau. Daí a melhor oração: "faze o que é bom aos teus olhos"; bendizer o mal como o bem; rezar em termos gerais e lançar o fardo sobre D'us, que escolhe melhor do que nós.
1 Todas as ações e os atos que o homem faz — não é obrigatório que chegue a perfeição do seu fim conforme a sua ação por via de necessidade; pois já é possível que faça o homem tudo o que é cabido e no modo cabido, e não chegue o fim visado. Acaso não vês que o médico muitas vezes faz tudo o que é cabido de fazer-se e pelo modo o mais bom que é possível que se faça, e não cai um erro nem da parte dele nem da parte do doente, e, com tudo isto, não chega a saúde visada? E assim o lavrador da terra faz tudo o que é cabido e semeia no tempo cabido, e é o campo bom e preparado como é cabido, e não prospera a semeadura. E a causa de tudo isto é manifesta: que o que faz a saúde não é o médico apenas, nem o doente também, mas o médico e a natureza; e assim no trabalho da terra, não é o que faz apenas o lavrador, nem o campo também, mas o lavrador e a natureza.
אֵין מְחֻיָּב שֶׁיַּגִּיעַ תַּכְלִית הַפְּעֻלּוֹת בְּהֶכְרֵחַ. הָרוֹפֵא עוֹשֶׂה כָּרָאוּי וְלֹא תַגִּיעַ הַבְּרִיאוּת; הָעוֹבֵד זוֹרֵעַ וְלֹא יַצְלִיחַ — שֶׁהַפּוֹעֵל הָרוֹפֵא וְהַטֶּבַע, הָעוֹבֵד וְהַטֶּבַע.
2 E assim a oração — muitas vezes a faz o homem como é cabido e no tempo cabido, e não se aceita a oração, e não pelo lado do pecado do orante, mas porque não concorda nisto a vontade do Senhor, bendito seja; como o marinheiro que muitas vezes faz o seu navio preparado como é cabido e o conduz pela melhor das conduções e desce ao mar no tempo cabido, e, com tudo isto, não prospera o navio de chegar ao lugar do desejo — e isto pelo lado de que não concorda nisto a vontade do Senhor, bendito seja, seja pelo lado do castigo, como aconteceu no assunto de Jonas, seja pelo lado da providência para o bem, por uma causa das causas que se mencionaram no capítulo treze deste Maamar. E assim a oração — às vezes é que não se aceita, seja pelo lado do castigo, como esclarecemos na oração de Moisés, ou porque não está o recebedor preparado, até que multiplique e insista na oração ou que faça ações que indiquem sobre a submissão, como o jejum ou o vestir um saco, como os homens de Nínive, e coisas semelhantes a estas como esclarecemos; ou porque haja ali um impedidor monea outro, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, de que não se aceitou a oração de Davi de que não morresse no Shabat, porque chegou o tempo de que reinasse Salomão, seu filho, e não há uma realeza que toque na realeza da sua companheira mesmo na medida de um fio; ou porque o Senhor, bendito seja, sabe que não é aquela coisa buscada boa ao orante, e pelo lado da providência sobre ele não se aceita a sua oração — como se dissesses, que rezou por causa de filhos e não se aceita a sua oração, ao ser o Senhor, bendito seja, conhecedor do serem os filhos maus para ele e que buscam matá-lo, como Avshalom, o que buscou matar a Davi; ou que reze por causa de dinheiro, e o Senhor, bendito seja, sabe que aquele dinheiro será a causa da sua morte, como a fala de Salomão "a riqueza guardada para o seu dono para o seu mal" (Eclesiastes 5:12), ou que seja a causa da sua heresia, como a fala de Salomão "para que não me sacie e te negue e diga 'quem é o Senhor?'" (Provérbios 30:9); ou por uma causa outra oculta dele e conhecida junto ao Senhor, bendito seja.
הַתְּפִלָּה לֹא תִתְקַבֵּל וְלֹא מִצַּד חֵטְא — שֶׁלֹּא יַסְכִּים רְצוֹן הַשֵּׁם: עַל צַד הָעֹנֶשׁ (יוֹנָה, מֹשֶׁה); אוֹ הַמְּקַבֵּל בִּלְתִּי מוּכָן; אוֹ מוֹנֵעַ (דָּוִד וּשְׁלֹמֹה); אוֹ שֶׁהַדָּבָר רַע לוֹ (בָּנִים רָעִים, ״עֹשֶׁר... לְרָעָתוֹ״).
3 E por isso será a escolha da oração a melhor oração aquilo que rezava o sábio e dizia "Senhor do mundo, faze a tua vontade nos céus acima, e dá tranquilidade de espírito aos teus tementes embaixo, e o que é bom aos teus olhos faze". Disse que faça a sua vontade nos céus num assunto tal que haja tranquilidade de espírito embaixo aos tementes do Senhor — e isto é que subjugue a constelação yeshaded ha-maarechet para anular o decreto de sobre os fazedores da sua vontade, num assunto tal que haja para eles a potência de se salvar da sua angústia; e depois disto disse "e o que é bom aos teus olhos faze" — quer dizer: e em toda coisa que eu reze diante de ti, não te voltes às minhas palavras nem ao meu pedido — de fazer o que o meu coração deseja ou o que eu peço; pois muitas vezes eu busco e rezo sobre uma coisa que é má para mim, porque eu imagino e penso que é um bem, e tu és o que sabe mais do que eu se aquela coisa é boa para mim ou má; e por isso tu escolherás e não eu — faze o que tu sabes que é um bem, e isto é "e o que é bom aos teus olhos faze", não o que é bom aos meus olhos. E por causa disto é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "é obrigado o homem a bendizer sobre o mal assim como bendiz sobre o bem", porque o exame do bem é ao Senhor, bendito seja, não ao homem — que sobre o Senhor está o escolher o caminho do bem e da salvação para o homem, mas o homem não tem o que fazer senão bendizer o Senhor sempre; e isto é o que disse Davi "ao Senhor pertence a salvação" (Salmos 3:9) — quer dizer: sobre o Senhor, bendito seja, sozinho está a escolha do caminho da salvação e não sobre o homem, e o que está imposto sobre o homem é o bendizer o Senhor sempre sobre o bem e sobre o mal, e que reconheça que tudo é para o bem dele; e isto é "sobre o teu povo está a tua bênção, sela" (Salmos 3:9).
״רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם עֲשֵׂה רְצוֹנְךָ בַּשָּׁמַיִם מִמַּעַל וְתֵן נַחַת רוּחַ לִירֵאֶיךָ מִתַּחַת וְהַטּוֹב בְּעֵינֶיךָ עֲשֵׂה״. ״חַיָּב אָדָם לְבָרֵךְ עַל הָרָעָה כְּשֵׁם שֶׁמְּבָרֵךְ עַל הַטּוֹבָה״. ״לַה׳ הַיְשׁוּעָה״.
4 E por causa disto era a oração a mais cabida ao Senhor, bendito seja, a de buscar a sua vontade a vontade de D'us em coisas gerais, não em coisas delimitadas, particulares e por um caminho singularizado; pois o que reza por um caminho singularizado e com coisas particulares, eis que ele é como se quisesse forçar a vontade divina ao que a sua opinião se inclina nele e escolhe, e não quer forçar a sua opinião à vontade divina — e isto é como se se lançasse uma mácula no conhecimento do Senhor, bendito seja, e no seu poder, como se não houvesse na mão do Senhor, bendito seja, um caminho outro para dar a sua súplica e para fazer o seu pedido senão o caminho que ele escolhe para si mesmo. E sobre aquele que é semelhante a isto disse o poeta "somente para D'us silencia, minha alma, pois dele vem a minha esperança" (Salmos 62:6) — quer dizer: quando rezares diante de carne e sangue, tu precisas de explicitar o teu pedido e o caminho que tu escolhes nele para chegar ao teu buscado, pois, sem isto, não saberá ele o que está no teu coração e o que tu precisas e o que é o bem e o proveitoso a ti; mas, quando rezares diante de D'us, não explicites o teu pedido, mas "silencia, minha alma" diante dele, e não escolhas tu o caminho da tua salvação, pois ele sabe o bem e o proveitoso a ti mais do que tu; e isto é "pois dele vem a minha salvação" ou "dele vem a minha esperança", pois ele sabe o caminho da salvação ou o caminho pelo qual se complete a esperança mais do que eu — que às vezes penso eu um caminho para mim mesmo para alcançar uma honra ou alguma elevação ou uma salvação, e resulta o oposto; e por isso é cabido rezar diante dele em palavras gerais e lançar o teu fardo yehavchá sobre ele. E isto é o que disse o poeta, depois de que disse "e deleita-te sobre o Senhor" (Salmos 37:4), disse "rola gol sobre o Senhor o teu caminho e confia nele, e ele fará" (Salmos 37:5) — o bem e o proveitoso a ti, pois ele sabe a escolher o caminho do bem ou da honra ou da salvação mais do que tu; e isto é o que disse também "sobre D'us está a minha salvação e a minha honra" (Salmos 62:8) — quer dizer: por isso eu digo "somente para D'us, silencia, minha alma", porque sobre ele está o escolher para mim o que é a salvação para mim ou um proveito e uma salvação ou uma honra, já que eu não saberia avaliar isto, mas que eu ponho a minha confiança nele de que ele escolherá para mim o que é bom e reto e ajustado a mim; e isto é o que concluiu "rocha da minha força, o meu refúgio está em D'us" (Salmos 62:8). E baste esta fala sobre a oração.
הָרְאוּיָה — לְבַקֵּשׁ בִּדְבָרִים כְּלָלִיִּים, לֹא מֻגְבָּלִים. הַמִּתְפַּלֵּל בְּדֶרֶךְ מְיֻחָד כְּמַטִּיל דֹּפִי. ״אַךְ לֵאלֹהִים דּוֹמִי נַפְשִׁי כִּי מִמֶּנּוּ תִּקְוָתִי״. ״גֹּל עַל ה׳ דַּרְכֶּךָ וּבְטַח עָלָיו וְהוּא יַעֲשֶׂה״.
Estabelecidas as condições da oração aceitável (cap. 23), surge a questão inversa: por que uma prece bem-feita — com palavras adequadas, coração sincero e voz submissa — às vezes não é atendida, sem culpa do orante? Albo responde com a mesma teoria de causalidade conjunta do cap. 6: nenhuma ação humana garante seu efeito, porque o agente é sempre o homem e a natureza juntos. O médico pode fazer tudo certo, sem erro seu nem do paciente, e a cura não vir — porque "quem cura é o médico e a natureza". O lavrador semeia na hora certa em bom campo e a colheita falha. A oração é igual: o orante prepara o "navio" perfeitamente, mas a travessia depende também da "vontade de D'us" que pode não concordar.
Albo enumera as causas pelas quais D'us pode reter o pedido — todas sem implicar pecado ou falha na prece: (1) castigo (como Jonas, ou Moisés); (2) providência para o bem (uma das causas do cap. 13); (3) preparação insuficiente do recebedor, que exige insistência ou atos de submissão (Nínive); (4) um impedimento externo — como a prece de Davi para não morrer no Shabat, recusada porque "chegara o tempo de Salomão reinar, e um reino não toca o do outro nem num fio de cabelo"; e — a mais consoladora — (5) porque D'us sabe que o pedido seria mau para o orante. Quem reza por filhos pode tê-los recusados porque seriam como Avshalom, que buscou matar Davi; quem reza por riqueza pode ser poupado dela porque ela seria "guardada para o seu mal" (Ecl 5:12) ou levaria à negação de D'us ("para que não me sacie e diga: quem é o Senhor?", Pv 30:9). A recusa pode ser a forma mais alta do atendimento.
Daí a conclusão prática, e uma das mais belas do Maamar. A melhor oração é a do sábio (Berachot 29b): "Senhor do mundo, faze a tua vontade nos céus, dá tranquilidade aos teus tementes embaixo, e o que é bom aos teus olhos, faze". O orante pede a D'us que subjugue a constelação pelos justos — mas deixa o conteúdo à escolha divina: "não te voltes ao meu pedido, pois muitas vezes peço o que me é mau crendo ser bom; tu sabes melhor do que eu". Por isso "é obrigado o homem a bendizer sobre o mal como bendiz sobre o bem" (Berachot 54a): a tarefa do homem não é avaliar o que lhe convém — isso "pertence a D'us" ("ao Senhor a salvação", Sl 3:9) — mas bendizer sempre, reconhecendo que tudo é para o seu bem.
O capítulo culmina numa distinção fina entre rezar a um homem e rezar a D'us. Diante de "carne e sangue", é preciso especificar o pedido e o meio desejado — pois o homem não conhece nosso coração nem sabe o que nos convém. Mas diante de D'us o oposto: "somente para D'us, silencia, minha alma" (Sl 62:6). Pedir por um caminho particular e delimitado é, na verdade, uma falta de fé disfarçada: é querer "forçar a vontade divina ao que a minha opinião escolhe", como se D'us não tivesse outro meio de me salvar senão aquele que eu imaginei — uma "mácula" sobre Seu conhecimento e poder. A maturidade espiritual reza em termos gerais e "rola sobre o Senhor o teu caminho" (Sl 37:5), "lança o teu fardo sobre Ele". O orante pede com confiança, mas entrega o como e o quê à sabedoria de Quem "sabe escolher o caminho do bem mais do que tu" — fechando, com "rocha da minha força, meu refúgio está em D'us" (Sl 62:8), toda a doutrina da oração do Sefer HaIkkarim.
Entre todos os mandamentos positivos, só a teshuvá (o retorno) faz o homem alcançar, por si só, o fim visado pela Torá: o amor de D'us. A porção de Nitsavim fala dela e a louva por sua grandeza e facilidade — "não está nos céus". A teshuvá por amor faz os pecados deliberados tornarem-se méritos; por temor, tornarem-se erros. Há dois tipos de temor (o de Faraó, forçado, e o do crente); o endurecimento do coração; e a promessa: D'us "circuncida o coração" do que volta por temor para que enfim volte por amor.
Entre todos os mandamentos positivos, só a teshuvá (o retorno) faz o homem alcançar, por si só, o fim visado pela Torá: o amor de D'us. A porção de Nitsavim fala dela e a louva por sua grandeza e facilidade — "não está nos céus". A teshuvá por amor faz os pecados deliberados tornarem-se méritos; por temor, tornarem-se erros. Há dois tipos de temor (o de Faraó, forçado, e o do crente); o endurecimento do coração; e a promessa: D'us "circuncida o coração" do que volta por temor para que enfim volte por amor.
1 Quando esquadrinhamos todo mandamento positivo que há na Torá, não achamos um mandamento com que mereça o homem por ele apenas ao fim alcançado pelo lado da Torá, senão a teshuvá o arrependimento. E isto é: que o fim visado na Torá e no fazer os seus mandamentos, conforme o que esclarecemos no Maamar terceiro, é o amor do Senhor, que é o que traz o homem à recompensa grande a esperada para a alma; e assim achamos no assunto da teshuvá que se escreveu este fim mesmo na porção de "Atem Nitsavim"; e isto é do que indica sobre a grandeza da elevação deste mandamento, e de que ele é um mandamento geral mais do que a oração — que a oração, ainda que aproveite aos assuntos particulares, de todo modo não aproveita para dar a recompensa geral à alma como a teshuvá; e por isso vimos por bem de falar nela depois da oração, mais do que nos demais mandamentos, e com brevidade conforme a intenção do Maamar.
לֹא מָצִינוּ מִצְוָה שֶׁיִּזְכֶּה בָּהּ לַתַּכְלִית הַמּוּשָׂג מִצַּד הַתּוֹרָה אֶלָּא הַתְּשׁוּבָה. הַתַּכְלִית — אַהֲבַת הַשֵּׁם, וְנִכְתַּב בְּפָרָשַׁת ״אַתֶּם נִצָּבִים״. מִצְוָה כְּלָלִית יוֹתֵר מִן הַתְּפִלָּה.
2 E dizemos que, quando olhamos na porção de Nitsavim bem, achamos que o que disse a Escritura "vê, eu dei diante de ti" etc. (Deuteronômio 30:15), "o que eu te ordeno hoje — de amar o Senhor teu D'us, de ouvir na sua voz e de aderir-te a ele" etc. (Deuteronômio 30:16) — fala sobre a teshuvá, conforme o decorrer da porção e o seu encadeamento; e isto é que, no princípio, diz "e te voltarás até o Senhor teu D'us, e ouvirás na sua voz" (Deuteronômio 30:2), e conclui o assunto na teshuvá e disse que é preciso que seja com coração inteiro, e que o Senhor o ajudará se for assim, e isto é o que disse no fim "pois te voltarás ao Senhor teu D'us com todo o teu coração e com toda a tua alma" (Deuteronômio 30:10); e depois disto disse a louvar a grandeza da elevação da teshuvá com a facilidade da sua existência: "pois este mandamento que eu te ordeno hoje — não é maravilhoso difícil demais de ti e não é distante — não está nos céus" etc. (Deuteronômio 30:11–12), "e não está de além do mar" etc. (Deuteronômio 30:13), "pois está próximo de ti" etc. (Deuteronômio 30:14); e tudo isto, sem dúvida, fala sobre a teshuvá, e o indica sobre isto o seu dizer "na tua boca e no teu coração, para fazê-lo" (Deuteronômio 30:14) — que o assunto da teshuvá está pendente da confissão da boca vidui ha-pé e do arrependimento do coração charatat ha-lev, como esclareceremos; e assim explicou o Ramban, de abençoada memória, que sobre a teshuvá fala, e exagerou a Escritura a louvá-la ao dizer "não está nos céus" e "não está de além do mar".
״וְשַׁבְתָּ עַד ה׳ אֱלֹהֶיךָ... כִּי תָשׁוּב... בְּכָל לְבָבְךָ״. ״לֹא נִפְלֵאת... לֹא בַשָּׁמַיִם הִיא״ — עַל הַתְּשׁוּבָה. ״בְּפִיךָ וּבִלְבָבְךָ לַעֲשֹׂתוֹ״ — וִדּוּי הַפֶּה וַחֲרָטַת הַלֵּב.
3 E isto é como se dissesse que a coisa, pela grandeza do seu valor, era cabido a ti que te esforçasses e te labutasses por causa dela com todo o labor que há no mundo, mesmo se fosse preciso subir aos céus, se fosse possível, ou atravessar o mar, a fim de alcançá-la, já que é uma coisa cara de valor muitíssimo — porque não decreta o raciocínio hekesh que haja para o pecador uma expiação por nenhum modo, como a fala do profeta "com que me anteciparei diante do Senhor?" etc. (Miquéias 6:6), "acaso se agradará o Senhor?" etc. (Miquéias 6:7). Disse que tão cabido era o dar uma recompensa grande para se salvar do castigo sobre as transgressões, que não se sabe quanto dar e o que bastaria para isto — se "milhares de carneiros" ou "miríades de ribeiros de óleo", ou "se daria o seu primogênito pela sua rebeldia, o fruto do seu ventre pelo pecado da sua alma" (Miquéias 6:7); e tudo isto é do que indica que o intelecto decreta que não era cabido que bastasse um resgate ao pecador por causa do seu pecado, e quanto mais que não é cabido que se aceite o pecador em teshuvá com palavras, como o profeta diz "tomai convosco palavras e voltai-vos ao Senhor" (Oseias 14:3) — a não ser pelo lado da bondade divina; e por isso advertiu sobre ela a teshuvá muito e disse "vê, dei diante de ti hoje" etc. (Deuteronômio 30:15), "e escolherás a vida, para que vivas" etc. (Deuteronômio 30:19).
אֵין הַהֶקֵּשׁ גּוֹזֵר שֶׁיִּהְיֶה לַחוֹטֵא כַּפָּרָה. ״בַּמָּה אֲקַדֵּם ה׳... הֲיִתֵּן בְּכוֹרִי פִּשְׁעִי״. אֶלָּא עַל צַד הַחֶסֶד. ״וּבָחַרְתָּ בַּחַיִּים״.
4 Pois, depois de que lhe mostrou o caminho da sua facilidade ao dizer "pois próximo de ti está a coisa" (Deuteronômio 30:14), disse "vê, dei diante de ti" etc. — quer dizer: não tens tu uma desculpa nisto, como a que tens sobre os demais mandamentos, de que — pela sua multidão e pela grandeza do seu labor — não podes cumpri-los; pois não é a coisa assim neste, que este mandamento é leve muitíssimo, e, se o fizeres, alcançarás a vida e o bem, e, se te descuidares dele, te chegará a morte e o mal; e por isso sê cuidadoso de que não o deprecies. E isto é como um homem que sofre uma doença grande, tal que o raciocínio decreta que não baste um remédio àquela doença, e vem algum médico e diz ao doente: "eu te revelarei algum medicamento com que te curarás da tua doença", e o doente pensa que aquele medicamento, depois de que é o que cura uma doença difícil como esta, tal que o raciocínio não decreta que tenha para ela uma cura, é preciso que desembolse um dinheiro grande e que labute um labor grande para alcançá-lo; e o médico diz-lhe: "não penses que há um labor grande na obtenção daquele medicamento, e que precises de subir aos céus por causa dele ou de desembolsar um dinheiro grande para atravessar um caminho de navio no coração do mar, como era cabido a ser assim, pois a sua obtenção é leve muitíssimo"; e isto é o que concluiu "pois próximo" etc.; e por isso é cabido a ti que não te descuides na sua obtenção, que é a vida para a tua alma, e, assim como não te descuidas na busca da vida, assim não é cabido a ti que te descuides nisto, e isto é o que juntou a isto "e escolherás a vida"; e esclareceu que estas vidas que se alcançam neste mandamento são, elas mesmas, o fim alcançado pelo lado da Torá, e isto é o seu dizer "de amar o Senhor teu D'us, de ouvir na sua voz e de aderir-te a ele, pois ele é a tua vida e o alongar dos teus dias, para morar sobre a terra" etc. (Deuteronômio 30:20) — "pois ele é a tua vida", quer dizer, no mundo das almas, "e o alongar dos teus dias" no mundo este, que é "para morar sobre a terra"; que, por meio deste amor, se alcança a adesão devekut no Senhor, bendito seja, e a vida eterna e as prosperidades corpóreas.
כְּחוֹלֶה גָּדוֹל שֶׁהָרוֹפֵא מְגַלֶּה לוֹ סַם קַל לְהַשִּׂיג. ״וּבָחַרְתָּ בַּחַיִּים... לְאַהֲבָה אֶת ה׳... כִּי הוּא חַיֶּיךָ״ — בְּעוֹלַם הַנְּשָׁמוֹת, ״וְאֹרֶךְ יָמֶיךָ״ בָּעוֹלָם הַזֶּה.
5 E tudo isto é quando a teshuvá é por amor; mas, quando a teshuvá é por temor — ainda que se aceite sobre ela uma recompensa —, de todo modo não é uma teshuvá completa tal que se receba sobre ela esta recompensa grande. Que assim disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Yomá, no capítulo "Yom HaKipurim": disse Resh Lakish: "grande é o dono de teshuvá baal teshuvá, que as transgressões deliberadas zedonot se tornam para ele como transgressões inadvertidas shegagot, conforme se diz 'pois tropeçaste na tua iniquidade' (Oseias 14:2) — uma iniquidade deliberada é, e ele a chama 'um tropeço'". "Não é assim? e eis que disse Resh Lakish: 'grande é o dono de teshuvá, que as deliberadas se tornam para ele como méritos zechuyot, conforme se diz "e, ao voltar-se o ímpio da sua maldade e fazer juízo e justiça, sobre eles viverá" (Ezequiel 33:19)!'". "Não é difícil: aqui — por amor, aqui — por temor".
״גָּדוֹל בַּעַל תְּשׁוּבָה שֶׁזְּדוֹנוֹת נַעֲשׂוֹת לוֹ כִּשְׁגָגוֹת... כִּזְכֻיּוֹת״. ״לֹא קַשְׁיָא: כָּאן מֵאַהֲבָה, כָּאן מִיִּרְאָה״.
6 E esta coisa precisa de esclarecimento: de onde lhe saiu a Resh Lakish que as deliberadas se tornam como inadvertidas para o que volta por temor? pois, pela linha do direito shurat ha-din, o que volta por temor do castigo não é cabido que aproveite a sua teshuvá de modo algum; que a ação pela qual se louva o homem ou se censura, ou pela qual é cabido que receba recompensa ou castigo, é a ação de livre-escolha bechirit tal que não se misture nela o lado de constrangimento ones de modo algum; e o que volta por temor — não é esta uma ação de livre-escolha completa, e por que se receberia sobre ela recompensa de modo algum?
הַשָּׁב מִיִּרְאַת הָעֹנֶשׁ אֵינוֹ פֹּעַל בְּחִירִי גָמוּר, וְלָמָּה יְקֻבַּל עָלָיו שָׂכָר?
7 E a resposta desta coisa é que o que volta por temor é por dois modos: há o que volta por temor do castigo imposto sobre ele, como um servo que suplica diante do seu senhor enquanto ele o açoita, e, quando aliviar o senhor de sobre ele a vara da sua ira, voltará a rebelar-se nele como no princípio — como foi o assunto em Faraó, que, ao estar a praga sobre ele, dizia "o Senhor é o justo" etc. (Êxodo 9:27), e, quando havia o alívio, voltava a endurecer o seu coração como no princípio; e isto, sem dúvida, indicava que a teshuvá primeira era pelo lado da necessidade — de "uns terrores de morte caíram sobre ele" (cf. Salmos 55:5) — e de que não era uma ação de livre-escolha; e por isso não é cabido que se lhe conte por teshuvá de modo algum.
הַשָּׁב מִיִּרְאַת הָעֹנֶשׁ הַמֻּטָּל — כְּעֶבֶד שֶׁמַּלְקֶהוּ, וּכְשֶׁיָּקֵל יָשׁוּב לִמְרֹד. כְּפַרְעֹה: ״ה׳ הַצַּדִּיק״, וּכְשֶׁהָיְתָה הָרְוָחָה הִכְבִּיד לִבּוֹ — אֹנֶס, וְאֵינָהּ תְּשׁוּבָה.
8 E há quem volta por causa do pavor do Senhor e dos seus castigos, e mesmo na hora do alívio está o pavor de D'us defronte dos seus olhos, e ele é temeroso e trêmulo do pavor dos seus sofrimentos, ao estar a crer que todas as coisas vêm do Senhor, bendito seja, pelo lado da recompensa e do castigo, e não atribui as coisas à natureza e ao acaso, como fez Faraó, que, ao sair a praga de sobre ele, voltava à sua corrupção primeira, e mesmo depois da praga dos primogênitos, quando pensou que Israel estava perplexo na terra, atribuiu todos os sinais e os prodígios que viu ao acaso, e por isso se fortaleceu a perseguir após os filhos de Israel, e se verificou que a sua teshuvá primeira foi por constrangimento e por causa das pragas, e não de livre-escolha.
וְיֵשׁ שֶׁשָּׁב מִפַּחַד הַשֵּׁם וְעָנְשׁוֹ, וְאַף בִּשְׁעַת הָרְוָחָה פַּחַד אֱלֹהִים לְנֶגֶד עֵינָיו — מַאֲמִין שֶׁהַכֹּל מֵהַשֵּׁם, וְלֹא יְיַחֵס לַמִּקְרֶה כְּפַרְעֹה.
9 E por este caminho se explica o que se acha na Escritura — que o Senhor, bendito seja, fortalece o coração dos ímpios ou endurece a sua cerviz e retém deles os caminhos da teshuvá. E isto é que o ímpio, ao vir sobre ele a praga, se enternece e se volta ao Senhor por temor do castigo imposto sobre ele, como disse Faraó "pequei esta vez, o Senhor é o justo" etc. (Êxodo 9:27); e, porque esta ação é semelhante ao constrangimento e não é de livre-escolha, eis que o Senhor, bendito seja, fortalece o seu coração, ao dar-lhe um lado ou lados para atribuir a eles a praga e para dizer que veio por acaso e não pelo lado da providência divina, e isto a fim de que se afaste do seu coração a debilidade morech que adquiriu por causa da praga, e que reste sobre a sua natureza e a sua livre-escolha sem um forçador; e então se examinará se foi a sua teshuvá de livre-escolha; e, a partir do facto de que a livre-escolha de Faraó, quando se afastou de sobre ele o jugo da praga, foi para o mal, disse o Senhor, bendito seja, "eu endureci o seu coração" (Êxodo 10:1) — quer dizer: quando removi do seu coração a debilidade que adquiriu por causa da praga, e ele restou sobre a sua natureza e a sua livre-escolha, ele, pela sua má livre-escolha, buscou pretextos e desculpas para atribuir a eles o assunto das pragas e para dizer que foram por acaso.
הַשֵּׁם מְחַזֵּק לֵב הָרְשָׁעִים — נוֹתֵן צַד לִתְלוֹת הַמַּכָּה בְּמִקְרֶה, כְּדֵי לְהָסִיר הַמֹּרֶךְ וּלְהַשְׁאִירוֹ עַל בְּחִירָתוֹ. ״אֲנִי הִכְבַּדְתִּי אֶת לִבּוֹ״.
10 E sobre isto disse a Escritura "e, se andardes comigo com acaso keri" (Levítico 26:27) — quer dizer, que atribuais as coisas ao acaso —, "e andarei também eu convosco com furor de acaso" etc. (Levítico 26:28); e por este lado se fecham os portões da teshuvá diante dos ímpios — não que o Senhor, bendito seja, retenha do homem o bem da sua livre-escolha, que Deus o livre, pois disse a Escritura "pois não desejo a morte do ímpio, mas o seu voltar dos seus caminhos e o viver" (Ezequiel 33:11) —, mas que o Senhor, bendito seja, o deixa sobre a sua livre-escolha apenas, sem um forçador de fora, e ele escolhe um caminho para si mesmo. E assim foi o assunto de Sicon, sobre o qual disse a Escritura "pois endureceu o Senhor teu D'us o seu espírito e afirmou o seu coração" (Deuteronômio 2:30) — e isto é: porque Sicon se obrigou ao Senhor por causa da sua maldade, senão que se temia do pavor do Senhor de provocar a Israel, trouxe o Santo, bendito seja, conselhos de longe para remover do seu coração a debilidade que adquiriu pelo lado dos prodígios que ouviu que se fizeram para Israel, a fim de deixá-lo sobre a sua livre-escolha apenas.
״וְאִם תֵּלְכוּ עִמִּי קֶרִי״ — שֶׁתְּיַחֲסוּ לַמִּקְרֶה. בָּזֶה נִנְעָלִים שַׁעֲרֵי תְשׁוּבָה — לֹא שֶׁיִּמְנַע הַבְּחִירָה, אֶלָּא מַשְׁאִירוֹ עָלֶיהָ. סִיחוֹן: ״הִקְשָׁה ה׳ אֶת רוּחוֹ״.
11 E isto foi quando ordenou a Moisés que enviasse mensageiros ao rei de Edom para dizer-lhe "passemos, pois, pela tua terra" (Números 20:17); e, quando não o consentiu, mas que saiu ao encontro de Israel com povo pesado e com mão forte, ordenou o Senhor a desviar-se de sobre ele; e, quando viu isto Sicon, pensou pensamentos para maquinar maquinações com maldade e para dizer que a prosperidade de Israel não era com providência do Senhor, bendito seja, depois de que os viu a desviarem-se de sobre o rei de Edom e de sobre o rei de Moab — como explicou Jiftach —, e então disse no seu coração "não sou eu menor do que estes", e por isso se fortaleceu o seu coração e saiu ao encontro deles para a guerra, e o feriu Israel ao fio da espada e herdou a sua terra; e, se não fosse o facto de que enviou mensageiros ao rei de Edom, não se fortaleceria Sicon a sair ao encontro deles para a guerra por temor do Senhor, e precisariam de um tempo grande para conquistar toda a sua terra; e este foi o assunto do endurecimento do coração sobre o qual se escreveu "pois endureceu o Senhor" etc., "a fim de dá-lo na tua mão" (Deuteronômio 2:30).
שְׁלִיחוּת אֶל מֶלֶךְ אֱדוֹם וּנְטִיָּה מֵעָלָיו — חָשַׁב סִיחוֹן ״לֹא נוֹפֵל אָנֹכִי מֵאֵלּוּ״ וְיָצָא לַמִּלְחָמָה. ״לְמַעַן תִּתּוֹ בְּיָדְךָ״.
12 E por este caminho se assenta o por que se escreveu na Torá a porção de "e enviou Israel mensageiros ao rei de Edom" (Números 20:14), já que, conforme o que se vê, há nela algo da desonra kalon para Israel no que não se ocultará: que, conforme o que disse Israel "alimento por dinheiro me venderás" etc. (Deuteronômio 2:28), pensou o rei de Edom que lhes faltavam pão e água, até o ponto de que lhe diziam que lhe dariam dinheiro por causa da água, e por isso pediu deles dinheiro também por causa da passagem, até o ponto de que se precisou Israel de dizer "e, se das tuas águas bebermos, eu e o meu gado" etc. (Números 20:19) — quer dizer que a compra das águas não lhes era necessária, e, se beberem delas, darão o seu preço, mas "não darei coisa alguma — pois é só com os meus pés que passarei" (cf. Números 20:19), quer dizer, por causa da passagem; e por isso disse o rei de Edom "não passarás", e saiu ao encontro de Israel com povo pesado e com mão forte, e então ordenou o Senhor, bendito seja, a desviar-se de sobre ele; e estavam Moisés e todo Israel a espantar-se disto, até que, quando ordenou o Senhor, bendito seja, a enviar mensageiros a Sicon, rei de Cheshbon, e ele saiu ao encontro deles para a guerra e a guerrearam e o feriram, então entenderam os pensamentos do Senhor, bendito seja, que são profundos, e de que tudo o que Ele ordenou — de enviar mensageiros ao rei de Edom e ao rei de Moab e de se desviar de sobre eles — foi a fim de fortalecer o coração de Sicon, a fim de que saísse para a guerra e que o ferisse Israel e que herdassem a sua terra em pouco tempo e para mostrar a maldade da sua livre-escolha.
נִכְתְּבָה פָּרָשַׁת מַלְאָכִים אֶל אֱדוֹם — כְּדֵי לְחַזֵּק לֵב סִיחוֹן. הֵבִינוּ מַחְשְׁבוֹת הַשֵּׁם כִּי עָמְקוּ.
13 E por isso o que volta por temor pelo caminho de Sicon e de Faraó não é uma teshuvá de modo algum; mas o que volta por temor porque crê na providência e por isso é temeroso e trêmulo da palavra do Senhor, e não busca pretextos e lados para atribuir a eles os juízos de D'us, os retos, mas que reconhece que tudo o que vem sobre o homem é pelo caminho da providência e como castigo sobre os seus atos maus — eis que este é o que volta por temor tal que é cabido que receba recompensa; e sobre ele disse Resh Lakish — que as deliberadas se tornam para ele como inadvertidas, como o provou da expressão do versículo que disse "pois tropeçaste na tua iniquidade" (Oseias 14:2); e, ainda que o sentido literal do versículo se veja que ele fala sobre quem não se voltou de modo algum, precisou Resh Lakish da expressão do versículo que disse "volta-te, ó Israel, até o Senhor" (Oseias 14:2), e não disse "a o Senhor" — de modo que se vê que ele fala sobre quem se voltou em parte, senão que não se voltou até o Senhor, bendito seja, que é a teshuvá completa que é por amor; que a teshuvá primeira, que foi por temor, ainda lhe resta nela um tropeço de iniquidade, como disse "pois tropeçaste na tua iniquidade".
הַשָּׁב מִיִּרְאָה לְפִי שֶׁמַּאֲמִין בַּהַשְׁגָּחָה — זֶהוּ שֶׁרָאוּי לְקַבֵּל שָׂכָר. ״שׁוּבָה יִשְׂרָאֵל עַד״ — וְלֹא ״אֶל״, שֶׁשָּׁב מִקְצָת. ״כִּי כָשַׁלְתָּ בַּעֲוֹנֶךָ״.
14 E, contudo, ainda se precisa de esclarecimento sobre o que disse — que o que volta por amor, as deliberadas se tornam para ele como méritos; que, pela linha do direito, basta que aproveite a teshuvá ao dono de teshuvá para depurar as suas rebeldias e para pô-las como se não fossem, mas como alcançaria ele algum grau com que merecesse por ele a vida do mundo vindouro? — pois, depois de que não tem ele méritos, restará como um privado nul, vazio; e que assunto há para se distinguir entre o que volta por temor e o que volta por amor nisto?
שׁוּרַת הַדִּין דַּי שֶׁתְּמָרֵק הָעֲבֵרוֹת. בַּמֶּה יַשִּׂיג מַדְרֵגָה לִזְכּוֹת לְעוֹלָם הַבָּא, אַחַר שֶׁאֵין לוֹ זְכֻיּוֹת?
15 E o esclarecer deste assunto é que a teshuvá não tem lugar pela linha do direito, como esclarecemos no princípio do capítulo, mas que ela é pelo caminho da bondade e da dádiva nedavá que decorre do Senhor, bendito seja; e por isso não há o que espantar-se se bastar a bondade do Senhor, bendito seja, a não-finita, para isto. E esta coisa esclareceu-a Oseias, o profeta, que disse sobre os donos de teshuvá "curarei a sua apostasia, amá-los-ei como dádiva ahavem nedavá" etc. (Oseias 14:5): que, porque os homens da sua geração duvidavam dele e diziam "como é possível que aproveite a teshuvá ao dono de teshuvá para alcançar alguma recompensa ou suavidade? e eis que basta que sirva para depurar as rebeldias, mas que restem como privados de transgressões e méritos — e com que se tornariam dignos de algum agrado divino ou do amor do Senhor, bendito seja, vaticinado na Torá para o dono de teshuvá?" — e por isso respondeu o profeta em nome do Senhor, bendito seja, e disse "curarei a sua apostasia" etc., quer dizer que a verdade é assim — que não é cabido que alcance o dono de teshuvá nenhum grau pelo lado de si mesmo, senão que, pelo lado da bondade divina e pelo caminho da dádiva, chegará o amor do Senhor, bendito seja, a ele por meio da teshuvá; e isto, seja pelo lado de que o mandamento da teshuvá está num grau grande mais do que todos os mandamentos da Torá, já que por meio dela alcança o homem o fim alcançado pelo lado da Torá, que é o amor do Senhor, bendito seja; seja pelo lado da bondade completa que decorre sobre o dono de teshuvá pelo caminho da dádiva, como disse "amá-los-ei como dádiva", quer dizer: assim como a teshuvá foi por amor, assim eu os amarei como dádiva. E assim disse Davi, quando se voltava em teshuvá no assunto de Bat-Sheva, "e um espírito de generosidade nediva me sustente" (Salmos 51:14) — quer dizer: pelo caminho da dádiva e da bondade, e não por causa de nenhum mérito, mas pelo amor do Senhor, bendito seja, apenas, e pelo caminho da bondade que decorre do Senhor, bendito seja, de influir sobre cada homem e homem na medida do que prepare a si mesmo para receber da bondade divina; disse o poeta "e deleita-te sobre o Senhor" etc. (Salmos 37:4), "pede de mim, e darei nações por tua herança" etc. (Salmos 2:8), "alarga a tua boca, e eu a encherei" (Salmos 81:11) — eis que depende o dar da bondade conforme o pedido.
הַתְּשׁוּבָה דֶּרֶךְ חֶסֶד וּנְדָבָה. ״אֶרְפָּא מְשׁוּבָתָם אֹהֲבֵם נְדָבָה״ — כְּמוֹ שֶׁהָיְתָה מֵאַהֲבָה, כָּךְ אֹהֲבֵם נְדָבָה. ״וְרוּחַ נְדִיבָה תִסְמְכֵנִי״.
16 E por isso o que volta em teshuvá por causa de temor, eis que ele se volta ao ser temeroso de que o alcance um castigo por causa das transgressões que fez, e o Senhor, bendito seja, como recompensa desta teshuvá, faz fluir a ele uma bondade conforme o que pedir e o protege do castigo, e as deliberadas se tornam para ele como inadvertidas, tal que não é castigado sobre elas, senão que se precisa de expiação como o que peca por inadvertência; mas o que volta por amor, eis que ele, depois de que não se volta por temor do castigo que lhe chegaria da transgressão — pois não se importa com o castigo, já que o seu coração é como diamante — forte mais do que a rocha — para suportar os castigos —, e não se volta senão pelo amor do Senhor, bendito seja, apenas, pois quer fazer o bem aos seus olhos pelo lado de que é bom aos seus olhos apenas, como faz o amante o que é bom aos olhos do seu amado sem nenhum temor de castigo — eis que ele chega com esta teshuvá ao fim visado pelo lado da Torá, que é o amor do Senhor, bendito seja, e por isso é cabido que o ame o Senhor, bendito seja, como disse a Escritura "eu, aos que me amam, amo" (Provérbios 8:17) — o que não é assim no que volta por temor; e por isso não é cabido que seja o seu grau igual. E, de todo modo, mesmo se não for a teshuvá no princípio por amor como é cabido, mas por temor do castigo, prometeu o Senhor, bendito seja, que ele ajudará o que volta por temor no princípio a que se volte depois com uma teshuvá completa diante dele, que é a teshuvá por amor; e isto é que, no princípio da porção da teshuvá, disse a Escritura "ao estar em aperto para ti, e te acharem" etc. (Deuteronômio 4:30) — e isto indica que o princípio da teshuvá foi por temor do castigo que o alcançou —, e disse depois disto "e circuncidará o Senhor teu D'us o teu coração" etc. (Deuteronômio 30:6) — e isto é do que indica que, mesmo se no princípio não foi a teshuvá senão por temor, Ele, o Senhor, bendito seja, circuncidará o coração do pecador e o ajudará a voltar por amor, que é a teshuvá correta, como dissemos.
הַשָּׁב מֵאַהֲבָה — מַגִּיעַ אֶל הַתַּכְלִית, ״אֲנִי אֹהֲבַי אֵהָב״. וְהִבְטִיחַ שֶׁיַּעֲזֹר לַשָּׁב מִיִּרְאָה לָשׁוּב אַחַר כָּךְ מֵאַהֲבָה: ״בַּצַּר לְךָ וּמְצָאוּךָ... וּמָל ה׳ אֱלֹהֶיךָ אֶת לְבָבְךָ״.
Depois da extensa doutrina da oração (caps. 16–24), Albo dedica este capítulo à teshuvá — e a coloca acima de todos os mandamentos, incluindo a oração. A razão é precisa: dentre todas as mitsvot positivas, só a teshuvá faz o homem alcançar, por si só, o fim último da Torá — o amor de D'us (estabelecido como tal no Maamar III). A oração resolve necessidades particulares; a teshuvá confere "a recompensa geral à alma". E a prova textual é que a porção de Nitsavim (Dt 30), lida por Albo (com o Ramban) como o capítulo bíblico do arrependimento, culmina exatamente em "amar o Senhor teu D'us... pois Ele é a tua vida".
Albo capta o paradoxo central de Nitsavim: a teshuvá é a coisa de maior valor e de menor dificuldade. "Não está nos céus nem além do mar" (Dt 30:12–13) — pela razão pura (hekesh), não deveria haver expiação alguma para o pecador (como clama Miquéias: "com que me anteciparei? milhares de carneiros?... o meu primogênito pela minha rebeldia?"). Pela lógica estrita, nenhum resgate bastaria; e seria absurdo que "palavras" (Oseias 14:3) apagassem o pecado. Logo, a teshuvá só existe por graça divina. A parábola é o médico que, diante de uma doença que "a razão julga incurável", revela um remédio — e o doente espera que custe fortunas e viagens, mas ouve: "está à mão". Tão precioso quanto seria justo subir aos céus por ele; tão acessível que não custa nada além de querer. Daí "escolherás a vida" (Dt 30:19): não há desculpa de "mandamento difícil demais".
O eixo do capítulo é a célebre distinção de Resh Lakish (Yomá 86b): o baal teshuvá tem seus pecados deliberados (zedonot) transformados — numa fonte, em "erros" (shegagot); noutra, em "méritos" (zechuyot). A resolução talmúdica: "uma é por temor, outra por amor". Albo enfrenta duas dificuldades. Primeira: por que o arrependimento por temor do castigo teria qualquer valor, se não é ato de livre-escolha pleno (e só o ato livre merece recompensa)?
A resposta de Albo distingue dois tipos de temor. O primeiro é o de Faraó: arrepender-se só enquanto a vara cai ("o Senhor é o justo") e voltar a rebelar-se no alívio — pura coação, "terrores de morte", que "não conta como teshuvá". O segundo é o do crente: temer a D'us mesmo no alívio, porque crê que tudo vem da providência como retribuição, e não atribui os eventos ao "acaso". Só este merece recompensa. Aqui Albo dá sua leitura notável do endurecimento do coração: quando D'us "endurece o coração" de Faraó ou de Sicon, não está removendo o livre-arbítrio — ao contrário, está restaurando-o. A praga gerara no ímpio uma "debilidade" (morech) coagida; D'us, ao dar-lhe pretextos para atribuir tudo ao acaso, remove essa coação e o deixa "sobre a sua natureza e escolha, sem forçador" — e então se revela que sua escolha livre é para o mal. As "portas da teshuvá se fecham" não porque D'us as tranque ("não desejo a morte do ímpio", Ez 33:11), mas porque o ímpio, deixado livre, as recusa. Albo aplica isso engenhosamente a por que a Torá narra o episódio (aparentemente humilhante) dos mensageiros a Edom: foi a manobra providencial que envaideceu Sicon ("não sou menor que estes!") e o fez sair à guerra — "para mostrar a maldade da sua escolha" — entregando sua terra a Israel rapidamente. "Os pensamentos de D'us são profundos."
A segunda dificuldade é mais profunda: por que, por amor, os pecados viram méritos? Pela justiça estrita, a teshuvá quando muito apaga os pecados — mas então o penitente fica vazio, sem méritos para a vida eterna. A resposta sela toda a teologia de Albo sobre o tema: a teshuvá não opera pela linha do direito, mas por graça e dádiva (nedavá). Por isso o ilimitado chesed divino pode dar ao penitente o que ele não merece por si. Oseias o cifra: "curarei a sua apostasia, amá-los-ei como dádiva" (14:5) — "assim como a teshuvá foi por amor, eu os amarei como dádiva". Davi, arrependendo-se no caso de Bat-Sheva: "um espírito de generosidade (nediva) me sustente" (Sl 51:14) — por dádiva, não por mérito. E a graça flui na medida da abertura: "alarga a tua boca e eu a encherei" (Sl 81:11).
A síntese final reúne tudo numa promessa esperançosa. Quem volta por temor (do tipo crente) recebe proteção e tem os zedonot reduzidos a shegagot — perdoados, mas ainda exigindo expiação, e ainda com um "tropeço" residual ("pois tropeçaste na tua iniquidade", Os 14:2 — "até o Senhor", não "a o Senhor": voltou em parte). Quem volta por amor — cujo coração "é como diamante, mais forte que a rocha, para suportar os castigos", e que se arrepende não por medo da pena mas pelo puro desejo de agradar a D'us "como o amante faz o que agrada ao amado" — esse alcança o fim da Torá, o amor de D'us, e por isso "eu, aos que me amam, amo" (Pv 8:17). E a graça suprema: mesmo quem começa por temor não fica preso ali. A Torá promete (Dt 4:30; 30:6): "ao estar em aperto... e te acharem" (início por temor) → "e circuncidará o Senhor o teu coração" (Ele mesmo ajuda a chegar ao amor). D'us não apenas aceita o penitente imperfeito — circuncida-lhe o coração para conduzi-lo ao arrependimento perfeito. A teshuvá, começando onde o homem pode, termina onde só D'us pode levá-lo.
A teshuvá purifica por três caminhos — arrependimento do pensamento, confissão da boca, emenda do ato — e é bloqueada por três impedimentos: ocultar o pecado, desculpar-se e o amor ao dinheiro e à honra. A teshuvá de Saul fracassou por faltarem-lhe esses três; a de Davi foi aceita por tê-los. Daí o contraste entre os dois reis, as seis virtudes obrigatórias ao rei, e a teshuvá completa de Davi cifrada no Salmo 51.
A teshuvá purifica por três caminhos — arrependimento do pensamento, confissão da boca, emenda do ato — e é bloqueada por três impedimentos: ocultar o pecado, desculpar-se e o amor ao dinheiro e à honra. A teshuvá de Saul fracassou por faltarem-lhe esses três; a de Davi foi aceita por tê-los. Daí o contraste entre os dois reis, as seis virtudes obrigatórias ao rei, e a teshuvá completa de Davi cifrada no Salmo 51.
1 Os caminhos da teshuvá, nos quais se purifica o homem das suas iniquidades e se inocenta do seu pecado diante do seu Senhor, eis que eles são que conserte o pensamento e a fala e o ato: o pensamento — que se arrependa o homem das suas iniquidades; a fala — que confesse sobre as suas rebeldias; o ato — que aceite sobre si que não volte mais à insensatez, mas que faça atos que indiquem que os atos primeiros foram em erro e em falta de conhecimento.
דַּרְכֵי הַתְּשׁוּבָה: שֶׁיְּתַקֵּן הַמַּחֲשָׁבָה וְהַדִּבּוּר וְהַמַּעֲשֶׂה. הַמַּחֲשָׁבָה — שֶׁיִּתְחָרֵט; הַדִּבּוּר — שֶׁיִּתְוַדֶּה; הַמַּעֲשֶׂה — שֶׁיְּקַבֵּל עָלָיו שֶׁלֹּא יָשׁוּב.
2 E, contudo, o arrependimento charatá — está manifesto nos profetas o seu ser necessário à teshuvá: disse Jeremias "não há um homem que se arrependa da sua maldade, a dizer 'que fiz?'" (Jeremias 8:6); e disse Joel "quem sabe? se voltará e se arrependerá, e deixará após si uma bênção" (Joel 2:14). E a confissão vidui está explícita na Torá: "e confessarão o seu pecado que fizeram" (Números 5:7), "e confessarão a sua iniquidade e a iniquidade dos seus pais" (Levítico 26:40), "e confessará aquilo sobre o que pecou" (Levítico 5:5). E que aceite sobre si que não acrescente a pecar no que pecou: disse o profeta "e não diremos mais 'nosso D'us' à obra das nossas mãos" (Oseias 14:4), "pois falará paz ao seu povo e aos seus piedosos, e que não voltem à insensatez" (Salmos 85:9).
הַחֲרָטָה: ״אֵין אִישׁ נִחָם עַל רָעָתוֹ לֵאמֹר מֶה עָשִׂיתִי״. הַוִּדּוּי: ״וְהִתְוַדּוּ אֶת חַטָּאתָם״. וְשֶׁיְּקַבֵּל שֶׁלֹּא יָשׁוּב: ״וְלֹא יָשׁוּבוּ לְכִסְלָה״.
3 E as coisas que impedem e estorvam a teshuvá são três: que são o ocultar do pecado ha'alamat ha-chet, e a desculpa hitnatzlut, e o amor do dinheiro e da honra; e é manifesto que cada um destes estorva a teshuvá. E, contudo, o ocultar do pecado — que aquele que não reconhece nem sabe que pecou, jamais se arrependerá nem se voltará em teshuvá, assim como o doente, enquanto não sentir nem souber que está doente, é impossível a ele que se cure, porque não buscará jamais a cura; e assim o pecador, se não souber que pecou, jamais se voltará em teshuvá; e por isso era o Senhor, bendito seja, a inculpar a Israel sobre o fato de que não estavam a reconhecer as suas iniquidades, que isto era a causa para que não se voltassem em teshuvá diante dele — disse "irei, voltarei ao meu lugar, até que se reconheçam culpados e busquem a minha face" (Oseias 5:15), quer dizer: até que se reconheçam a si mesmos como culpados e pecadores, e então se voltarão em teshuvá e buscarão a minha face. E assim disse Davi "pois as minhas rebeldias eu conheço" etc. (Salmos 51:5); e disse o Senhor, bendito seja, "clama com a garganta" (Isaías 58:1), para indicar que o conhecimento do pecado é necessário à teshuvá.
(א) הַעֲלָמַת הַחֵטְא — מִי שֶׁלֹּא יַכִּיר שֶׁחָטָא לֹא יָשׁוּב, כְּחוֹלֶה שֶׁאֵינוֹ מַרְגִּישׁ. ״עַד אֲשֶׁר יֶאְשְׁמוּ וּבִקְשׁוּ פָנָי״. ״כִּי פְשָׁעַי אֲנִי אֵדָע״.
4 E a desculpa hitnatzlut também — está manifesto do seu assunto que ela impede a teshuvá; que, se pensar o pecador que aproveita a desculpa no que pecou, jamais se arrependerá nem confessará sobre ele; e isto se chama "o que cobre as suas rebeldias", aquele sobre o qual disse Salomão "o que cobre as suas rebeldias não prosperará" (Provérbios 28:13) — que o cobrir do pecado é quando o homem atribui o seu pecado a outra coisa, disse Jó "se cobri como Adão adam as minhas rebeldias" etc. (Jó 31:33); e isto é porque Adão, o primeiro, se desculpou sobre o seu pecado e disse "a mulher que deste comigo" etc. (Gênesis 3:12), e não lhe aproveitou a desculpa de modo algum, porque o intelecto foi dado no homem para estar sempre com os seus olhos sobre os seus caminhos de modo que não peque; e por isso se chama o inadvertido shoguег "um pecador" e ele precisa de expiação, e assim é preciso que se guarde de que não o engane nenhum homem, e por isso se disse a Adão "pois ouviste a voz da tua mulher" etc. (Gênesis 3:17), ainda que não se tenha ordenado a ele que não ouvisse a voz da sua mulher — e isto é do que indica que não aproveitará ao homem a desculpa — de dizer "fulano causou-me a pecar"; pois não há desculpa sobre o pecado senão o constrangimento completo ones gamur, sobre o qual disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "ao forçado, o Misericordioso o isenta"; e ainda esclareceremos o assunto do constrangimento no capítulo que vem depois deste.
(ב) הַהִתְנַצְּלוּת — ״מְכַסֶּה פְשָׁעָיו לֹא יַצְלִיחַ״. אָדָם הִתְנַצֵּל ״הָאִשָּׁה אֲשֶׁר נָתַתָּה עִמָּדִי״ וְלֹא הוֹעִיל. אֵין הִתְנַצְּלוּת אֶלָּא הָאֹנֶס הַגָּמוּר.
5 E o amor do dinheiro ou da honra kavod estorva a teshuvá; e isto é: que, mesmo se se voltar em teshuvá, se a teshuvá é por causa do proveito do dinheiro ou por causa da honra, não é uma teshuvá; e isto é que, quando aceitar sobre si que não volte mais à insensatez, é preciso que seja isto pelo amor do Senhor, bendito seja, apenas, não por outro que não isto de modo algum. E assim era Davi a dizer que a sua teshuvá era cabida de ser aceita porque não havia nela uma coisa que impedisse a sua aceitação: que disse "o meu pecado te faço conhecer" etc. (Salmos 32:5) — disseram: "o meu pecado te faço conhecer" alude ao reconhecimento do pecado; "e a minha iniquidade não cobri" alude a que não se desculpou sobre o pecado de modo algum; "disse: confessarei sobre mim as minhas rebeldias" alude a que a teshuvá e a confissão foi pelo amor do Senhor, bendito seja, apenas, e não por causa do dinheiro e da honra.
(ג) אַהֲבַת הַמָּמוֹן וְהַכָּבוֹד — צָרִיךְ שֶׁתִּהְיֶה לְאַהֲבַת הַשֵּׁם בִּלְבַד. ״חַטָּאתִי אוֹדִיעֲךָ וַעֲוֹנִי לֹא כִסִּיתִי אָמַרְתִּי אוֹדֶה עֲלֵי פְשָׁעַי״.
6 E, porque a teshuvá de Saul, quando pecou em Amalec, era carente destas três condições — ainda que confessasse o seu pecado a Samuel duas vezes e dissesse "pequei" —, não se aceitou a sua teshuvá de modo algum. E isto é que, no princípio, ele negava o pecado e não reconhecia que pecara, pois, quando lhe disse Samuel "e por que não ouviste na voz do Senhor?" (I Samuel 15:19), respondeu "que ouvi na voz do Senhor e fui no caminho pelo qual me enviou o Senhor" etc. (I Samuel 15:20); e, quando lhe disse Samuel que estava a pecar naquela insistência heftzer mais do que pecou na rebeldia primeira mesma, que era o cerne do pecado, e lhe disse "pois um pecado de adivinhação é a rebeldia, e iniquidade e terafim a insistência" (I Samuel 15:23) — quer dizer que a rebeldia, que é o cerne do pecado, é como um pecado de adivinhação, que é uma proibição de "não farás" apenas, e a insistência com que insistia a dizer "não pequei" é como iniquidade e terafim, que é um pecado de idolatria, e ele é mais grave do que a adivinhação que é o cerne do pecado —, de dentro destas palavras confessou Saul que pecou e disse "pequei", mas se desculpou sobre o pecado com palavras de falsidade e disse "pois temi o povo" etc. (I Samuel 15:24); e por isso não quis Samuel voltar com ele quando lhe disse "e volta comigo, e me prostrarei ao Senhor", e respondeu-lhe "não voltarei, pois rejeitaste a palavra do Senhor" (I Samuel 15:26), "e se virou Samuel para ir" (I Samuel 15:27) — porque a confissão do seu pecado não foi uma confissão de modo algum, já que se desculpava com palavras de falsidade; e, quando confessou Saul depois disto que pecou e disse "pequei" sem mais, concordou Samuel em voltar com ele; mas, porque revelou Saul a sua opinião de que esta sua teshuvá era por causa da honra, como disse "e agora honra-me, pois" etc. (I Samuel 15:30), e não pelo amor do Senhor, bendito seja, não se aceitou a sua teshuvá, e se disse a Samuel imediatamente que ungisse a Davi como rei.
תְּשׁוּבַת שָׁאוּל חֲסֵרָה ג׳ הַתְּנָאִים: בַּתְּחִלָּה הִכְחִישׁ (״שָׁמַעְתִּי בְּקוֹל ה׳״); אַחַר כָּךְ הִתְנַצֵּל (״כִּי יָרֵאתִי אֶת הָעָם״); וְגִלָּה שֶׁהָיְתָה לַכָּבוֹד (״כַּבְּדֵנִי נָא״).
7 E por isso não se contaram no conjunto dos anos da realeza de Saul os anos que reinou daí em diante. Saiba: pois eis que dois anos ou mais esteve Davi a fugir de diante de Saul — que a Escritura diz que esteve no campo dos filisteus um ano e quatro meses (cf. I Samuel 27:7), além do tempo grande em que se escondia na terra de Israel, no deserto de Zif e no reduto e no Carmel com os pastores de Naval; e a Escritura disse "um ano tinha Saul no seu reinar, e dois anos reinou sobre Israel, e escolheu para si Saul três mil" etc. (I Samuel 13:1–2), e a sua explicação é que, depois de um ano em que se ungiu como rei, escolheu para si os três mil e começou a fazer as guerras; e diz que reinou depois sobre Israel dois anos e não mais; e é impossível a ele que fizesse todas as guerras que mencionou a Escritura — "e guerreou em volta contra todos os seus inimigos, em Moab e nos filhos de Amon e nos reis de Tsová e nos filisteus" etc. (cf. I Samuel 14:47) — em dois anos, ao estar a perseguir após Davi também; mas é que, desde o dia em que se ungiu Davi como rei, não se contou a realeza a Saul, ainda que ele fosse rei — pois assim achas em Ish-Boshet, que reinou sobre Israel todos os anos que reinou Davi em Chevron sobre Judá, que foram sete anos, e, ainda assim, não se contaram a ele senão dois anos em que se manteve como rei sem guerra, como está escrito "de quarenta anos era Ish-Boshet no seu reinar, e dois anos reinou" etc. (II Samuel 2:10) — que, depois de dois anos em que reinou e se começou a guerra entre a casa de Saul e a casa de Davi, e estava a casa de Saul a ir e a enfraquecer-se e a casa de Davi a ir e a fortalecer-se, não se contaram no conjunto dos anos do seu reinado; e assim a Saul não se contou a realeza depois de que se ungiu Davi como rei.
לֹא נִמְנוּ שְׁנֵי מַלְכוּת שָׁאוּל מִשֶּׁנִּמְשַׁח דָּוִד. כְּאִישׁ בֹּשֶׁת, שֶׁמָּלַךְ ז׳ שָׁנִים וְלֹא נִמְנוּ אֶלָּא ב׳ — שֶׁבֵּית שָׁאוּל הוֹלְכִים וְדַלִּים.
8 E, contudo, por que se castigou Saul — de que lhe fosse removida a realeza dele por causa do seu pecado, e não se castigou com um castigo outro, como se castigou Davi sobre o assunto de Bat-Sheva e não lhe foi removida a realeza? O motivo nisto, conforme o meu parecer, é que Davi não pecou num mandamento particular com que se tivesse ordenado depois de ser ele rei, ou num mandamento particular com que se tivesse ordenado na Torá pelo lado de que ele é rei, mas num mandamento que o inclui com todos os homens — pois a proibição da mulher de outro homem adultério ou ao homicídio inclui todos os homens, e por isso é cabido que seja o seu castigo igual ao castigo da generalidade dos homens; mas Saul pecou num mandamento particular a ele — vindo da boca de Samuel — depois de ser ele rei ou pelo lado de que era rei, pois disse-lhe Samuel "sete dias esperarás até o meu vir a ti" (I Samuel 10:8), e disse-lhe também "vai e ferirás a Amalec e não te apiedarás dele" etc. (I Samuel 15:3); e por causa disto se castigou com a remoção da realeza da sua semente e com que morresse fora do seu tempo. E por isso, quando transgrediu as suas palavras e ofereceu um holocausto em Guilgal antes de que viesse Samuel, se lhe disse "e agora o teu reino não se sustentará" (I Samuel 13:14), quer dizer que se interromperá a realeza da sua semente; mas não se lhe disse que morresse na metade dos seus dias; e, quando pecou no assunto de Amalec, se lhe disse "pois rejeitaste a palavra do Senhor, e Ele te rejeitou de seres rei" (I Samuel 15:23), quer dizer que morrerá fora do seu tempo e não se contará a ele a realeza daí em diante — pois a coisa rejeitada — não a mantém o homem; e por isso, quando elevou Saul a Samuel por meio da mulher dona de necromancia ov, disse-lhe Samuel "sobre o fato de que não ouviste na voz do Senhor e não fizeste o furor da sua ira em Amalec" etc. (I Samuel 28:18), "e amanhã, tu e os teus filhos, comigo" (I Samuel 28:19) — aludiu-lhe que, por causa de serem estes mandamentos particulares a ele, morria fora do seu tempo e se interrompia a realeza dele.
דָּוִד חָטָא בְּמִצְוָה כּוֹלֶלֶת (אֵשֶׁת אִישׁ, רְצִיחָה) — עָנְשׁוֹ כִּכְלָל הָאֲנָשִׁים. שָׁאוּל חָטָא בְּמִצְוָה פְּרָטִית אֵלָיו (עֲמָלֵק) — בַּהֲסָרַת הַמַּלְכוּת וּבְמִיתָה בְּלֹא עִתּוֹ.
9 E o indica sobre este motivo o que vaticinou o Senhor, bendito seja, a Yehu — de que se manteria a realeza na mão da sua semente até a quarta geração, porque guardou o mandamento particular com que se ordenou — de destruir a casa de Acab e os servidores do Baal (cf. II Reis 10:30); e assim Salomão, porque pecou no mandamento de "não multiplicará para si mulheres" (Deuteronômio 17:17) e nos mandamentos particulares com que se ordena o rei pelo lado de que ele é rei, lhe foi removida da sua semente a realeza das dez tribos, e não lhe restou senão a tribo de Judá e Benjamin, por causa do juramento com que jurou o Senhor, bendito seja, a Davi; este é o meu parecer nesta coisa.
יֵהוּא — נִתְקַיֵּם עַד דּוֹר רְבִיעִי עַל שֶׁשָּׁמַר הַמִּצְוָה הַפְּרָטִית. שְׁלֹמֹה — ״לֹא יַרְבֶּה לּוֹ נָשִׁים״, הוּסְרָה מַלְכוּת עֲשֶׂרֶת הַשְּׁבָטִים.
10 E há quem escreveu nisto um motivo outro, e ele é que Saul pecou na arte régia umanut ha-malchiit, e é cabido que perca aquela arte; mas Davi não pecou na arte régia, pois o seu pecado foi um pecado outro que não tem dependência da arte régia, e por isso se deu ao perdão. E eis que isto se assemelha a dois escrivães sofrim — que um pecou no que fez um documento falsificado, e o outro um pecou no que veio sobre a nudez cometeu incesto: que, quando deu o rei a cada um o seu castigo conforme o seu pecado e castigou aquele que veio sobre a nudez a açoitá-lo, depois de que se açoitou não é cabido que perca a sua arte, e eis que este se mantém na confiança da sua arte como estava antes disto; mas o escrivão que fez um documento falsificado, mesmo depois de que recebeu o seu castigo sobre o que pecou, eis que é cabido que se o remova da sua arte, e que não se lhe dê confiança alguma na sua arte; e assim Saul, porque pecou na arte régia — no fato de que se apiedou de Agag e não fez vingança em Amalec como era cabido —, é cabido que se o remova dela.
וְיֵשׁ שֶׁכָּתַב: שָׁאוּל חָטָא בְּאֻמָּנוּת הַמַּלְכִיִּית, וְרָאוּי שֶׁיֹּאבַד. כִּשְׁנֵי סוֹפְרִים — אֶחָד שְׁטָר מְזֻיָּף וְאֶחָד עֶרְוָה.
11 E este motivo não é suficiente, se não se disser nele mais do que isto, porque, antes da guerra de Amalec, se lhe disse "e agora o teu reino não se sustentará" sobre o fato de que ofereceu o holocausto em Guilgal antes de que viesse Samuel. E é possível que se conserte esta opinião e que se a reverta à opinião primeira por este caminho, quando esclarecermos as medidas virtudes cabidas a estar no rei, até o ponto de que se inclua numa delas o pecado precedente.
זֶה אֵינוֹ מַסְפִּיק, שֶׁקֹּדֶם מִלְחֶמֶת עֲמָלֵק נֶאֱמַר ״וְעַתָּה מַמְלַכְתְּךָ לֹא תָקוּם״. אֶפְשָׁר לְתַקְּנוֹ כְּשֶׁנְּבָאֵר הַמִּדּוֹת הָרְאוּיוֹת לַמֶּלֶךְ.
12 E, conforme o que se vê, as medidas necessárias ao rei pelo lado da realeza são seis; e isto é que a intenção na instituição do rei é de guerrear contra os inimigos e de julgar o povo com juízo de justiça — disseram Israel, quando pediram um rei, "e nos julgará o nosso rei e sairá diante de nós e guerreará as nossas guerras" (I Samuel 8:20) —; e por isso é cabido que se achem nele as medidas necessárias a isto. E, contudo, as medidas dos juízes já se esclareceram na Torá, que elas são quatro: "homens de poder, tementes a D'us, homens de verdade, que odeiam o lucro injusto" (Êxodo 18:21); e, quando misturarmos com estes os atributos que são necessários pelo lado da guerra, achá-los-emos entre todos — seis.
הַמִּדּוֹת לַמֶּלֶךְ שֵׁשׁ. הַכַּוָּנָה — לְהִלָּחֵם וְלִשְׁפֹּט. מִדּוֹת הַשּׁוֹפְטִים ד׳: ״אַנְשֵׁי חַיִל יִרְאֵי אֱלֹהִים אַנְשֵׁי אֱמֶת שֹׂנְאֵי בָצַע״; וְעִם תָּאֳרֵי הַמִּלְחָמָה — שֵׁשׁ.
13 A uma: que é preciso que seja o rei cruel aos estranhos e misericordioso ao seu povo e que entregue a sua alma para salvá-los, como é do caminho do pastor — de arriscar a sua alma para remover os danificadores e para guerrear com o leão e o urso para guardar o rebanho, e para apiedar-se deles, "com o seu braço ajuntará os cordeiros, e no seu seio carregará as amamentantes — as ovelhas que amamentam Ele conduzirá" (Isaías 40:11). E a segunda: que faça o bem aos que fazem bem a ele e aos seus servos e aos homens da sua guerra, pois, se não fizer assim, quem entregará a sua alma por causa da sua honra, ou quem se zelará por ele se o traírem? E a terceira: que seja aquele que odeia o lucro injusto e que não seja um cobiçoso, pois o pastor que se pôs para guardar o rebanho não é cabido a ele que roube a sua pele de sobre eles e a sua carne de sobre os seus ossos, pois então se reverterá o assunto ao oposto — de que sejam o rebanho para sustentar o pastor e não o pastor para guardar o rebanho; e por isso disse a Escritura "e prata e ouro não multiplicará para si muitíssimo" (Deuteronômio 17:17), pois, se se esforçar a ajuntar prata e ouro, mesmo dos inimigos, quando não os achar neles, os tomará do seu povo. E a quarta: que seja um homem de poder, forte de força, com o seu coração — como o dos heróis — a fim de quebrar as queixadas da iniquidade, e que não levante a face do pobre nem honre a face do grande, e que não tema de fazer juízo. E a quinta: que seja um homem de verdade e que não se ache iniquidade nos seus lábios e que julgue com juízo de justiça, pois aquele que é negador ou um falador de mentiras, eis que ele é ou por causa do medo ou porque não pode alcançar a sua vontade sem isto — e o juiz não tem por que temer de nenhum homem, disse a Escritura "não temereis de diante de nenhum homem" (Deuteronômio 1:17), e quanto mais o rei, que não há quem o impeça de fazer a sua vontade, e por isso não é cabido a ele que minta; e ainda, pois não se confiará o homem nas palavras do rei se os seus lábios falarem iniquidade e a sua língua proferir engano. E a sexta: que seja um temente dos céus e um trêmulo sobre as suas palavras de D'us e que seja submisso aos servidores do Senhor, bendito seja, e que guarde os seus mandamentos com que se ordenou pelo lado de que ele é rei ou depois de ser ele rei; e mesmo nos demais mandamentos é cabido a ele que não se eleve sobre os seus irmãos a pensar que ele é livre dos mandamentos mais do que eles, disse a Escritura "para não se elevar o seu coração sobre os seus irmãos e para não se desviar do mandamento à direita e à esquerda" (Deuteronômio 17:20); e isto é como a fala do sábio "o rei e a Torá são irmãos fiéis"; e, se virem o povo o rei a depreciar a Torá e os seus ensinadores, virão todo o povo a aliviar menosprezar nela, e cairá a Torá no seu conjunto.
(1) אַכְזָר לַזָּרִים וְרַחְמָן לְעַמּוֹ; (2) יֵיטִיב לַמְּטִיבִים; (3) שֹׂנֵא בֶצַע (״וְכֶסֶף וְזָהָב לֹא יַרְבֶּה״); (4) אִישׁ חַיִל שֶׁלֹּא יִירָא מֵעֲשׂוֹת מִשְׁפָּט; (5) אֱמֶת; (6) יְרֵא שָׁמַיִם (״לְבִלְתִּי רוּם לְבָבוֹ מֵאֶחָיו״).
14 E, quando esquadrinharmos as medidas de Saul, achá-lo-emos carente em todas elas. Quanto à primeira — que se apiedou de Agag, até o ponto de que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "'e contendeu vayarev no vale' (I Samuel 15:5) — sobre os assuntos do vale nachal", que fez um raciocínio "a fortiori" de insensatez: "e, se sobre uma alma só disse a Torá traze a novilha ao vale" etc. —, e era cruel ao seu povo, pois a Nov, a cidade dos sacerdotes, feriu ao fio da espada; e Davi no oposto, que feria a Moab e os fazia passar serrando-os com a serra e com os trilhos de ferro, e, quando viu o anjo destruidor, disse "eu pequei e eu cometi iniquidade, e estes — as ovelhas — que fizeram? esteja, pois, a tua mão em mim e na casa do meu pai" (II Samuel 24:17). Na segunda — que não fez bem a Davi, que arriscou a sua alma na morte de Golias; e Davi no oposto, que ordenou na hora da sua morte "e aos filhos de Barzilai, o gileadita, farás bondade" (I Reis 2:7). Na terceira — disse a Escritura sobre Saul "e se lançou vata'at ao despojo" (I Samuel 15:19); e Davi no oposto, que era generoso de coração e repartia o despojo e dizia "eis para vós uma bênção do despojo dos inimigos do Senhor" (I Samuel 30:26). Na quarta — disse Saul "pois temi o povo e ouvi na sua voz" (I Samuel 15:24); e Davi não temia de fazer juízo, disse a Escritura "e foi Davi a fazer juízo e justiça a todo o seu povo" (II Samuel 8:15). Na quinta — que estava Saul a mentir a Samuel e a cobrir a sua rebeldia; e Davi confessou imediatamente e disse "pequei" ao vir a ele Natan, o profeta, quando veio sobre Bat-Sheva. Na sexta — que não estava a ouvir a Samuel e transgrediu as suas palavras nos mandamentos particulares com que se ordenou; e Davi estava a ouvir a Natan, o profeta, e a Gad, o vidente, e a Samuel em tudo o que se ordenou da boca deles. E conforme estas coisas está manifesto que pelo lado desta medida sexta é possível que se reverta esta opinião segunda à opinião primeira.
שָׁאוּל חָסֵר בְּכֻלָּן (חָמַל עַל אֲגָג, הִכָּה נֹב, ״וַתַּעַט אֶל הַשָּׁלָל״, ״יָרֵאתִי אֶת הָעָם״, שִׁקֵּר). וְדָוִד שָׁלֵם בְּכֻלָּן.
15 E também, quando se esquadrinham as Escrituras, se acha Davi a ser completo em todas estas medidas e Saul a ser carente em todas elas; e por causa disto foi uma disposição circunstância determinada da parte do Senhor, bendito seja, de que não restasse a realeza a Saul e de que não restasse dele uma semente apropriada para a realeza; e também Avner, o ministro do seu exército, morreu, a fim de que se mantivesse a realeza com uma manutenção bela na mão de Davi e da sua semente, a fim de que fosse um exemplo e um modelo para os reis que vêm depois dele — de que não se elevem sobre o Senhor, bendito seja, a rebelar-se diante dos olhos da sua glória de que a realeza é dele; e por isso não é cabido a um rei de carne e sangue que deprecie os servidores do Senhor, bendito seja, e os guardadores da sua Torá, já que ele sozinho é o Rei da Glória, como expliquei no capítulo catorze do Maamar segundo, e disse a Escritura "e ele — o que remove reis e o que ergue reis" (Daniel 2:21).
הָיְתָה נְסִבָּה מֵאֵת הַשֵּׁם שֶׁלֹּא יִשָּׁאֵר הַמַּלְכוּת לְשָׁאוּל — לִהְיוֹת מָשָׁל לַמְּלָכִים שֶׁלֹּא יִתְגָּאוּ, שֶׁהַמַּלְכוּת שֶׁלּוֹ. ״וְהוּא מְהַעְדֵּה מַלְכִין״.
16 E voltemos ao assunto do capítulo, e digamos que, assim como não se aceitou a teshuvá de Saul por ser ela carente das três condições que mencionamos, assim por causa disto se aceitou a teshuvá de Davi sobre o assunto de Bat-Sheva, porque havia nela as três condições que mencionamos; e se esclarece isto a partir do que mencionou na sua teshuvá sobre o assunto de Bat-Sheva e disse "agraça-me, D'us, conforme a tua bondade chesed" (Salmos 51:3), para aludir que a teshuvá não se aceita senão pelo lado da bondade que mencionamos; e disse "conforme a abundância das tuas misericórdias apaga as minhas rebeldias" (Salmos 51:3), quer dizer: ainda que as minhas rebeldias sejam grandes e muitas, apaga-as conforme a abundância das tuas misericórdias, que são não-finitas, a fim de que não seja a minha força de pecar maior do que a tua força de perdoar. E disse "pois as minhas rebeldias eu conheço" (Salmos 51:5), para aludir à condição primeira e a dizer que o pecado não lhe era oculto; "e o meu pecado está defronte de mim sempre" (Salmos 51:5), para aludir que não se desculpava sobre o seu pecado a dizer que não pecou, pois sempre ele pensa que pecou. E disse "a ti, a ti só, pequei" (Salmos 51:6), para aludir à condição terceira, a dizer que não foi a sua teshuvá por causa do amor da honra ou do prazer do dinheiro ou do medo dos filhos do homem — de que não o castigassem —, mas por causa do amor do Senhor, bendito seja, pois as transgressões eram entre o homem e o Onipresente, quer dizer, em segredo, tal que não estavam os homens a sabê-las senão o Senhor, bendito seja.
תְּשׁוּבַת דָּוִד הָיוּ בָּהּ ג׳ הַתְּנָאִים: ״כִּי פְשָׁעַי אֲנִי אֵדָע״ (הַכָּרָה); ״וְחַטָּאתִי נֶגְדִּי תָמִיד״ (לֹא הִתְנַצֵּל); ״לְךָ לְבַדְּךָ חָטָאתִי״ (לְאַהֲבַת הַשֵּׁם).
17 E duplicou a dizer "e o mal aos teus olhos fiz" (Salmos 51:6), para confessar sobre as duas espécies das transgressões: sobre as transgressões que são entre o homem e o Onipresente, e sobre as transgressões que são entre o homem e o seu companheiro. Sobre as transgressões que são entre o homem e o Onipresente disse "a ti, a ti só, pequei"; e sobre as transgressões que são entre o homem e o seu companheiro — como "não roubareis" e "não enganareis" e as semelhantes a elas — disse "e o mal aos teus olhos fiz"; e isto é que, ainda que sejam elas mandamentos que são entre o homem e o seu companheiro, depois de que os ordenou o Senhor, bendito seja, eis que é mau aos olhos do Senhor aquele que faz o oposto do seu mandamento. E disse "para que te justifiques no teu falar" (Salmos 51:6), que se reverte ao que disse "apaga as minhas rebeldias e muito lava-me da minha iniquidade" etc. (Salmos 51:4) — quer dizer: por causa de que te justifiques no que disseste — que tu aceitas em teshuvá os que se voltam e perdoas e absolves o seu pecado —, apaga as minhas rebeldias; e a fim de que mereças no que julgas o homem sobre o seu pecado, depois de que ele pode se voltar em teshuvá e não se volta, purifica-me do meu pecado, depois de que eu me volto em teshuvá diante de ti. E há quem diz que "no teu falar" e "no teu julgar" se revertem ao que se disse a Caim "acaso não, se fizeres bem, haverá elevação?" (Gênesis 4:7), e ao modo como se julgou sobre ele.
״וְהָרַע בְּעֵינֶיךָ עָשִׂיתִי״ — לְהִתְוַדּוֹת עַל שְׁתֵּי מִינֵי עֲבֵרוֹת. ״לְמַעַן תִּצְדַּק בְּדָבְרֶךָ״.
18 E, porque a transgressão é seja em pensamento, seja em fala, seja em ato, ou em todos eles, é preciso que seja a teshuvá nos três deles: seja em pensamento — o arrependimento, seja em fala — a confissão, seja em ato — que não baste o abandono do pecado apenas, mas que faça os atos o oposto das transgressões que fez.
הָעֲבֵרָה בְּמַחֲשָׁבָה אוֹ בְּדִבּוּר אוֹ בְּמַעֲשֶׂה — צְרִיכָה תְּשׁוּבָה בִּשְׁלָשְׁתָּן: חֲרָטָה, וִדּוּי, וּמַעֲשִׂים הֵפֶךְ הָעֲבֵרוֹת.
19 Por isso estava Davi a rezar sobre todos eles: sobre o pensamento disse "um coração puro cria para mim, D'us" etc. (Salmos 51:12); sobre a fala "Senhor, os meus lábios abrirás" etc. (Salmos 51:17); e sobre o ato disse "ensinarei aos transgressores os teus caminhos" etc. (Salmos 51:15) — quer dizer que faça atos o oposto da transgressão a fim de que vejam os homens e tomem moral mussar e aprendam a voltar-se ao Senhor, bendito seja. E assim esclareceu o profeta que a teshuvá é cabido que seja com a feitura de atos o oposto das transgressões: disse a Escritura "e viu D'us os seus atos, pois se voltaram do seu caminho mau" (Jonas 3:10); e esclareceram os nossos mestres, de abençoada memória: "'os seus sacos e os seus jejuns' não se disse, mas 'viu os seus atos' — que mesmo se roubou uma viga e a edificou num edifício birá, desmanchava todo o edifício para devolver a viga". E assim disse Isaías "deixe o ímpio o seu caminho" etc. (Isaías 55:7) — disse "deixe o ímpio o seu caminho" sobre a transgressão que chegou ao ato, de modo que faça atos o oposto da transgressão e que escolha para si um caminho outro: se pecou em comidas proibidas, jejue e se guarde de comer até a saciedade da sua alma mesmo as coisas permitidas, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "santifica-te no que é permitido a ti"; e, se ocultou os seus olhos da caridade, espalhe o seu dinheiro aos pobres; e, se ensinou aos homens a conduzir-se com leviandade nos mandamentos, ensine-lhes um caminho reto — a cuidar nos mandamentos e a voltar-se ao Senhor, bendito seja, porque o que faz pecar os muitos machti et ha-rabim é impossível que se volte em teshuvá completa, pois com que poderá consertar o que perverteu no que causou aos outros a pecar? — e por isso disse "ensinarei aos transgressores os teus caminhos" etc.; e assim tudo o que é semelhante a isto; e, se pecou em pensamento apenas, purifique os seus pensamentos diante do conhecedor dos pensamentos, e isto é "e o homem de iniquidade — os seus pensamentos" (Isaías 55:7).
״לֵב טָהוֹר בְּרָא לִי״ (מַחֲשָׁבָה); ״ה׳ שְׂפָתַי תִּפְתָּח״ (דִּבּוּר); ״אֲלַמְּדָה פֹשְׁעִים דְּרָכֶיךָ״ (מַעֲשֶׂה). ״וַיַּרְא הָאֱלֹהִים אֶת מַעֲשֵׂיהֶם״ — ״גָּזַל מָרִישׁ וּבְנָאוֹ בְּבִירָה״.
20 E disse "e se volte ao Senhor, e Ele o compadecerá" (Isaías 55:7), para indicar que a teshuvá é preciso que seja pelo amor do Senhor, bendito seja, apenas, não pelo prazer do dinheiro e pelo amor da honra; e disse "e ao nosso D'us, pois Ele multiplica a perdoar" (Isaías 55:7), para fortalecer o coração dos que se voltam de modo que não se desesperem da teshuvá por causa da abundância das iniquidades, já que o seu perdão é mais abundante do que as iniquidades; e por isso é cabido ao homem que saiba e que entenda que, se não se voltar em teshuvá, eis que ele é cabido de um castigo grande, depois de estar a permissão na sua mão de se voltar em teshuvá e não se voltar, e que tema do Senhor, bendito seja, de que o castigue se não se voltar depois de ser ele capaz disto; e isto é o que disse a Escritura "pois contigo está o perdão, para que sejas temido" (Salmos 130:4). E isto se vê à primeira vista como uma coisa estranha — que como diz que, por causa de que está com ele o perdão, seja temido? e eis que a coisa se vê no oposto, de que, depois de que sabe o homem que o Senhor, bendito seja, lhe perdoará todas as suas iniquidades, não temerá e não se importará de pecar! — mas a sua explicação se esclarece pelo caminho que escrevemos: que não temerá o homem da coisa necessária hechrechit, assim como não teme da morte depois de que ela é necessária ao homem; e, se fosse o castigo necessário ao homem sobre o pecado com ausência de esperança de perdão, não estaria o homem a temer do Senhor, bendito seja, depois de que sabia que lhe é impossível se salvar do castigo porque lhe é impossível que não peque; mas agora, que ele sabe que o Senhor, bendito seja, perdoa e absolve aos pecadores por meio da teshuvá, e que lhe é possível se salvar do castigo, eis que temerá disto por via de necessidade, pois, se multiplicar a pecar e não puser ao seu coração o voltar-se em teshuvá diante dele, não consentirá o Senhor em perdoar-lhe; e por causa disto temerá o pecador de diante do Senhor, bendito seja, depois de ser ele conhecedor de que não é o castigo necessário ao pecador, e de que, se se voltar ao Senhor, bendito seja, com todo o seu coração e com toda a sua alma e com todo o seu poder, Ele o compadecerá e multiplicará a perdoar, pois com ele está o perdão.
״כִּי עִמְּךָ הַסְּלִיחָה לְמַעַן תִּוָּרֵא״ — לֹא יִירָא אָדָם מִן הַהֶכְרֵחִי. אִלּוּ הָיָה הָעֹנֶשׁ הֶכְרֵחִי בְּאֶפֶס תִּקְוָה — לֹא הָיָה יָרֵא; עַכְשָׁו שֶׁאֶפְשָׁר לְהִנָּצֵל עַל יְדֵי תְשׁוּבָה — יִירָא בְּהֶכְרֵחַ.
Estabelecida a teologia da teshuvá (cap. 25), Albo descreve agora a sua estrutura prática. A teshuvá opera nos três planos da ação humana — pensamento (arrependimento, charatá), palavra (confissão, vidui) e ato (a resolução de não reincidir, comprovada por "atos que mostram que os primeiros foram em erro"). Cada um tem base escriturística explícita. E a teshuvá tem três impedimentos que a anulam: (1) ocultar o pecado — quem não reconhece que pecou nunca se arrepende, como o doente que não se sabe doente nunca busca cura; (2) a desculpa — atribuir o pecado a outrem ("a mulher que me deste"), que não aproveitou a Adão, pois "o intelecto foi dado ao homem para vigiar seus caminhos"; só o ones gamur (coação total) desculpa; (3) o amor ao dinheiro e à honra — a teshuvá precisa ser "pelo amor de D'us apenas", não por interesse.
Albo contrasta dramaticamente os dois reis através desses critérios. A teshuvá de Saul (após Amalec) falhou nas três: começou negando ("ouvi a voz do Senhor!"), depois desculpou-se com falsidade ("temi o povo"), e por fim revelou que era pela honra ("honra-me, pois"). Disse "pequei" duas vezes — e mesmo assim foi rejeitado. A teshuvá de Davi (após Bat-Sheva) teve as três, todas cifradas no Salmo 51: "as minhas rebeldias eu conheço" (reconhecimento), "o meu pecado está defronte de mim sempre" (sem desculpa), "a ti só pequei" (pelo amor de D'us — pecados secretos, sem testemunha humana a temer).
O grande excurso do capítulo: por que o pecado de Davi (adultério + homicídio, objetivamente piores) foi perdoado com a coroa intacta, e o de Saul (poupar Agag) custou-lhe a dinastia? A resposta de Albo é jurídica e elegante: Davi pecou num mandamento universal (que vincula todo homem), logo seu castigo é o de qualquer homem; Saul pecou num mandamento particular ao rei (ordem específica de Samuel, dada por ele ser rei), logo o castigo atinge precisamente a realeza. Confirmam-no Yehu (premiado com dinastia por cumprir um mandamento real) e Salomão (que perdeu dez tribos por violar "não multiplicará mulheres", lei específica do rei). Albo registra ainda a opinião alternativa (Saul pecou na "arte régia" — como um escrivão que falsifica perde o ofício, mas o que comete outro crime não), nota sua insuficiência, e a reconcilia com a sua própria via através da sexta virtude régia.
Daqui Albo deriva um pequeno tratado de teoria política. O rei existe para guerrear e julgar (I Sm 8:20); reúne, portanto, as quatro virtudes do juiz (Êx 18:21 — poder, temor de D'us, verdade, ódio ao lucro injusto) mais as exigidas pela guerra, totalizando seis: (1) cruel aos inimigos, misericordioso ao povo, disposto a dar a vida por ele (como o pastor que arrisca a vida contra o leão); (2) grato a quem o serve; (3) não-cobiçoso ("não multiplicará prata e ouro" — senão o rebanho passa a sustentar o pastor, invertendo a função); (4) corajoso, sem temer fazer justiça; (5) veraz (o rei não tem por que mentir, pois nada o impede, e ninguém confia em rei mentiroso); (6) temente a D'us e submisso aos Seus servos, sem se julgar acima da Torá — "o rei e a Torá são irmãos fiéis", e se o povo vê o rei a depreciá-la, "cai a Torá inteira". Albo então mostra, virtude por virtude, que Saul falhou em todas e Davi cumpriu todas — donde a "disposição da parte de D'us" de transferir a realeza, "para servir de modelo aos reis vindouros de que a realeza é d'Ele" (Dn 2:21), o verdadeiro Rei da Glória.
O capítulo retorna ao Salmo 51 para mostrar que Davi reza nos três planos: "coração puro cria para mim" (pensamento), "meus lábios abrirás" (palavra), "ensinarei aos transgressores os teus caminhos" (ato). E insiste no ato como prova: a teshuvá exige fazer "o oposto da transgressão". O midrash sobre Nínive é decisivo — "não disse 'seus sacos e jejuns', mas 'viu D'us seus atos': mesmo quem roubara uma viga e a embutira num edifício, desmanchava o edifício inteiro para devolvê-la" (Taanit 16a). Reparação concreta: quem pecou no proibido jejua e se santifica até no permitido; quem negou caridade espalha seu dinheiro; quem fez os outros pecarem (machti et ha-rabim) — que dificilmente faz teshuvá completa, "pois como reparar o que perverteu nos outros?" — deve ensiná-los a voltar. O capítulo fecha com a leitura do paradoxo de Salmos 130:4 — "pois contigo está o perdão, para que sejas temido". Por que o perdão gera temor, em vez de licenciar o pecado? Porque o homem não teme o inevitável (como não teme a morte): se o castigo fosse certo e sem remédio, a alma se entorpeceria. É justamente porque existe remédio (a teshuvá) — porque a salvação está ao alcance e depende de mim — que o temor se torna real e operante: quem despreza essa porta aberta tem de quem temer. O perdão disponível é o que torna a responsabilidade verdadeira.
Feito o pecado, como o arrependimento e a confissão o desfazem? Não restituem a vítima nem o Shabat profanado — como reconstruir uma casa "com palavras". A resposta: louvor e censura recaem só sobre o ato voluntário; o feito por coação ou erro não se imputa. E a ação define-se pela vontade de mantê-la: quem se arrepende de verdade revela que o ato primeiro foi "em erro e sem conhecimento". Daí a teshuvá o torna como não-feito — e por graça se conta por mérito.
Feito o pecado, como o arrependimento e a confissão o desfazem? Não restituem a vítima nem o Shabat profanado — como reconstruir uma casa "com palavras". A resposta: louvor e censura recaem só sobre o ato voluntário; o feito por coação ou erro não se imputa. E a ação define-se pela vontade de mantê-la: quem se arrepende de verdade revela que o ato primeiro foi "em erro e sem conhecimento". Daí a teshuvá o torna como não-feito — e por graça se conta por mérito.
1 Ocorre no assunto da teshuvá uma dúvida grande, conforme o que se estabeleceu do seu assunto, e ela é esta: que, depois de que se fez a transgressão em ato, que aproveitará a teshuvá com o arrependimento e com a confissão? E acaso aquele que mata uma alma ou que profana o Shabat e se voltou em teshuvá com a sua boca e com o seu coração, como dissemos — acaso volta a alma do assassinado a ele com a confissão e o arrependimento, ou o Shabat profanado — acaso volta a ser guardado nisto? E eis que isto se assemelha a quem desmancha a casa em ato e volta e a edifica com a sua boca, pois não se edificará jamais com a abundância das palavras no "senta-te e não faças"; e, sendo assim, como é possível que baste uma teshuvá como esta para depurar e para branquear o pecado que se fez em ato? E esta coisa precisa de esclarecimento de qual lado é possível que aproveite a teshuvá ao dono de teshuvá.
אַחַר שֶׁנַּעֲשֵׂית הָעֲבֵרָה בְּפֹעַל, מַה תּוֹעִיל הַתְּשׁוּבָה? הַתָּשׁוּב נֶפֶשׁ הַנִּרְצָח אֵלָיו בְּוִדּוּי? כְּמִי שֶׁסָּתַר הַבַּיִת וְחוֹזֵר וּבוֹנֶה אוֹתוֹ בְּפִיו.
2 E dizemos que as ações humanas sobre as quais se louva o homem ou se censura, eis que elas são as ações voluntárias retzoniot que se fazem com livre-escolha; e isto é quando o que as faz está a saber, no tempo da sua feitura, que ele faz aquela ação e a quer na sua feitura e a escolhe sobre a sua oposta. E por isso se desculpam os ébrios shikorim sobre as ações que fazem no tempo da embriaguez a dizer que as fizeram sem conhecimento, ainda que as façam com vontade e com livre-escolha. E assim não dizemos que se censure o homem sobre as ações que se fazem sem a sua vontade, mesmo se se tenham feito com o seu conhecimento e com a sua livre-escolha — quer dizer, que ele sabe no tempo em que faz aquela ação e escolhe a sua feitura mais do que o suportar o castigo com que o castigam se não a fizer —; mas, depois de que não se faz com a sua vontade, mas pela necessidade da coação ones, não se censura sobre ela. Sendo assim, a ação pela qual se louva o homem, se ela é boa, ou se censura, se ela é má, é a ação que sabe o homem no tempo da sua feitura que ele a faz, e a escolhe sobre a sua oposta, e a quer na sua feitura; e as ações sobre as quais não recai sobre elas o nome do louvor ou da censura de modo algum são as ações da coação completa ones gamur, e elas são as ações que aquele que as faz não está a saber, nem a querer aquela ação no ato, nem a escolhê-la sobre a sua oposta — como um homem que lança uma pedra e tirou o seu companheiro a cabeça e a recebeu e morreu, que este que fez a ação não soube a ação na sua feitura nem ele a escolhe sobre a sua oposta nem a quer; e este é a coação completa, sobre a qual não recai sobre ela o louvor e a censura; e por isso não obrigou a Torá o exílio ao assassino por coação por este caminho, mas ao assassino por inadvertência shgagá, que há nele um lado misto da coação e da vontade.
הַפְּעֻלּוֹת שֶׁעֲלֵיהֶן יְשֻׁבַּח אוֹ יְגֻנֶּה — הָרְצוֹנִיּוֹת הַנַּעֲשׂוֹת בִּבְחִירָה. הַשִּׁכּוֹרִים מִתְנַצְּלִים שֶׁעֲשָׂאוּם בְּלֹא יְדִיעָה. הָאֹנֶס הַגָּמוּר — אֵין עָלָיו שֶׁבַח וּגְנוּת.
3 E as ações misturadas da coação e da vontade, que são as intermediárias entre estas duas espécies que mencionamos, são uma coisa difícil de saber se é cabido que se atribuam à coação ou à vontade, ou se há delas as que é cabido que se atribuam à coação e delas as que é cabido que se atribuam à vontade; que o homem que faz uma coisa feia por temor de homens donos de braço poderosos, para que não o agridam, eis que se vê que isto é da categoria da coação e que aquela coisa se fez por necessidade; senão que, se houver aqui uma coisa cabida de se suportar por causa dela toda aflição e todo labor antes de que lance o homem a sua mão a fazê-la, eis que é cabido que entrem estas ações, quando se fizerem por este caminho, na categoria da vontade; e, se forem todas as ações do que não é cabido que se suporte por causa delas um labor grande e uma aflição forte, eis que entram estas na categoria da coação.
הַפְּעֻלּוֹת הַמְעֹרָבוֹת — קָשֶׁה לָדַעַת אִם לָאֹנֶס אוֹ לָרָצוֹן. הָעוֹשֶׂה מִיִּרְאַת אֲנָשִׁים — אִם רָאוּי לִסְבֹּל צַעַר טֶרֶם יַעֲשֶׂנּוּ, מִסּוּג הָרָצוֹן.
4 Mas, quando se olhar bem, se verá que é cabido que haja aqui ações tais que é cabido de se suportar por causa delas todo sofrimento que há no mundo antes de que se as faça, e estas — mais é cabido que se atribua a sua feitura à vontade do que se atribua à coação, porque a coisa que a faz o homem e, no tempo em que a faz, a escolhe sobre a sua oposta — mais é cabido que se atribua a sua feitura à vontade do que se atribua à coação; e por isso se censura o homem quando não suporta um labor grande ou uma aflição extraordinária antes de que levante a sua mão a tocar no seu pai ou a rebelar-se no seu rei e no seu D'us; e há ações tais que não é cabido ao homem que suporte por causa delas uma aflição grande e um labor extraordinário.
יֵשׁ פְּעֻלּוֹת שֶׁרָאוּי לִסְבֹּל כָּל צַעַר טֶרֶם יַעֲשֶׂה אוֹתָן — יִגֻּנֶּה כְּשֶׁלֹּא יִסְבֹּל טֹרַח גָּדוֹל טֶרֶם יִגַּע בְּאָבִיו אוֹ לִמְרֹד בְּמַלְכּוֹ וּבֵאלֹהָיו.
5 E por isso se vê que a definição delimitação das ações voluntárias é por este caminho: que a coisa que a faz o homem e, no tempo em que a faz, a escolhe sobre a sua oposta e a quer, e, depois de que se fez, ele quer a sua permanência kiyum — quer dizer, que ele deseja e quer que ela esteja feita —, eis que esta é cabido que se atribua à vontade, ainda que haja no seu princípio um pouco de coação, como o que ocorre aos que descem ao mar, que lançam a sua mercadoria ao mar no tempo em que vem um vento de tempestade que eleva as suas ondas; pois, ainda que não haja nenhum homem que lance a sua mercadoria ao mar com vontade e isso se assemelhe à coação, eis que, pelo lado de que a escolhem sobre a aflição e o perigo de si mesmos, é cabido que se atribua à vontade, porque mesmo depois de que saíram à terra seca eles querem aquela ação e desejam que ela esteja feita assim, porque isto foi a causa para a salvação de si mesmos; e por isso é cabido que sejam estas ações da categoria da vontade e não da categoria da coação. E, contudo, se, depois de que saíram à terra seca, não quisessem isto, mas que escolhessem e desejassem o seu oposto, é cabido que se atribua à coação, depois de que não querem a permanência daquela ação; mas se vê que, depois de que não há homem que não escolha — sempre — a lançar a sua mercadoria ao mar a fim de salvar a sua alma da morte, é cabido que atribuamos isto à vontade no lançar a mercadoria, depois de que ele quer a sua permanência sempre. E disto se obriga que toda coisa que se fez com vontade no tempo da sua feitura, e, depois de que se fez aquela ação, ele não quer a sua permanência e ele deseja que não esteja feita — ainda que no seu princípio se tenha feito com vontade ou que tenha havido nela alguma vontade —, não é cabido que se atribua à vontade, mas à coação e ao erro taut; e, contudo, se, depois de que se fez aquela ação, ele quer e escolhe aquela ação e deseja nela que ela esteja feita assim, ainda que tenha havido no seu princípio um pouco de coação, é cabido que se atribua à vontade.
הַדָּבָר שֶׁאַחַר שֶׁנַּעֲשָׂה הוּא רוֹצֶה בְּקִיּוּמוֹ — לָרָצוֹן, אַף שֶׁבִּתְחִלָּתוֹ קְצָת אֹנֶס (כְּמַשְׁלִיכֵי סְחוֹרָה בַּיָּם). וְאִם אֵינוֹ רוֹצֶה בְּקִיּוּמוֹ — לָאֹנֶס וְטָעוּת.
6 E se vê que isto é assim a partir do que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Nedarim "e a halachá lei é que se abre a anulação do voto com o arrependimento potechin be-charatá", e explicaram ali na Guemará "como é o caso? que se lhe diz: 'o teu coração estava sobre ti — estavas em ti?' ou 'já então te arrependeste?'" — e isto é do que indica que tudo vai conforme a permanência da vontade: que, se a vontade é permanente, o juramento shevuá é permanente, e, se não é a vontade permanente, eis que o juramento é como se ele fosse em erro, e o anulam, ainda que se tenha feito no princípio com vontade. E, conforme isto, o dono de teshuvá, quando se arrepende e decide conclui no seu coração que ele quer que a transgressão que se fez por meio dele não tivesse sido feita, e que, se vier à sua mão outra vez, não a fará — isto indica que a ação primeira se fez em erro e sem conhecimento e sem intelecto, como disse Aristóteles no livro das Medidas a Ética — que as ações do intelecto não recebem o arrependimento.
״וְהִלְכְתָא פּוֹתְחִין בַּחֲרָטָה... לִבָּךְ עָלָךְ אוֹ כְּדוּ תְּהֵית״ — הַכֹּל הוֹלֵךְ אַחַר קִיּוּם הָרָצוֹן. כְּאֲרִיסְטוֹ: פְּעֻלּוֹת הַשֵּׂכֶל לֹא יְקַבְּלוּ הַחֲרָטָה.
7 E isto é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "qual é o caso do dono de teshuvá? como aquele a quem veio à mão uma coisa de nudez transgressão sexual uma vez primeira e uma segunda e se salvou dela" — demonstrou Rav Yehudá: "naquele mesmo capítulo período, com aquela mesma mulher, naquele mesmo lugar". Pois, quando vier aquela ação à sua mão com todas aquelas condições e ele subjugar a sua inclinação yetzer pelo amor do Senhor, bendito seja, e não voltar a fazê-la, isto indica que se arrependeu com um arrependimento completo e decidiu no seu coração que a ação que fez na primeira vez foi em erro e sem conhecimento e sem intelecto, depois de que se arrepende sobre ela; e não é cabido que se castigue o homem sobre uma transgressão como esta, assim como não é cabido que se censure sobre a ação que se fez em erro e sem conhecimento. E assim a ação boa — não se louva o homem sobre ela a não ser se se tiver feito com vontade no seu princípio e se, depois de que se fez, ele quiser a sua permanência — quer dizer, que queira que ela esteja feita e que não se arrependa sobre ela —; pois, se se arrepender sobre ela, perdeu a sua recompensa e não se lhe conta por justiça tzedaká.
״הֵיכִי דָּמֵי בַּעַל תְּשׁוּבָה? כְּגוֹן שֶׁבָּא לְיָדוֹ דְּבַר עֶרְוָה... וְנִצּוֹל הֵימֶנָּה... בְּאוֹתוֹ פֶּרֶק בְּאוֹתָהּ אִשָּׁה בְּאוֹתוֹ מָקוֹם״ — שֶׁנִּתְחָרֵט חֲרָטָה גְמוּרָה.
8 E esta é uma coisa que esclareceram-na os nossos mestres, de abençoada memória, no tratado Kidushin sobre o que se disse em Yechezkel "e, ao voltar-se o justo da sua justiça e fazer iniquidade avel, conforme toda a traição maal que traiu, morrerá" (cf. Ezequiel 18:24); e objetaram ali: "e que seja como um meio inocente e um meio culpado!" — pois pelos seus méritos passados não deveria morrer totalmente —; e responde: "disse Rav: trata-se daquele que se entristece arrepende sobre as primeiras — as boas ações". Eis que se vê que mesmo a ação boa não é cabido que se louve sobre ela ou que se receba sobre ela recompensa a não ser se ele quiser a sua permanência e se não se arrepender sobre ela; mas, se se arrepender sobre ela, eis que ele é como se não se tivesse feito, e não é cabido que receba sobre ela recompensa. E se esclareceu, conforme isto, que a transgressão sobre a qual se arrepende como é cabido e da qual ele não quer a permanência, eis que isto indica que não se fez aquela ação com vontade completa, e de que, se se tivesse deixado à sua vontade simples pura, não a faria, conforme o que a vontade decreta agora; e a prova é que veio a coisa desta transgressão à sua mão outra vez e se salvou dela, com o seu conhecimento e com a sua vontade e com a sua livre-escolha, ao estar a avaliar que aquela coisa é má aos olhos do Senhor e de que não é cabido ao homem que faça o que é mau aos olhos do Senhor, bendito seja — e esta é a teshuvá completa; e por este lado é que aproveita a teshuvá ao dono da transgressão, pois ela põe a transgressão como se não se tivesse feito em ato, e como se fosse uma coisa que se fez em erro e sem conhecimento; e nisto alcança a depuração das iniquidades, e — pelo lado da bondade — se lhe conta por justiça, e o ama o Senhor, bendito seja, por dádiva, como escrevemos acima.
״בְּשׁוּב צַדִּיק מִצִּדְקָתוֹ וְעָשָׂה עָוֶל... יָמוּת... אָמַר רַב: בְּתוֹהֶא עַל הָרִאשׁוֹנוֹת״. הַתְּשׁוּבָה שָׂמָה הָעֲבֵרָה כְּאִלּוּ לֹא נַעֲשֵׂית, וְעַל צַד הַחֶסֶד תֵּחָשֵׁב לוֹ לִצְדָקָה.
Este capítulo enfrenta a objeção filosófica mais aguda contra a teshuvá: o pecado é um ato passado, e o passado é imutável. Quem matou não ressuscita a vítima com a confissão; quem profanou o Shabat não o "reguarda" com o arrependimento. "Como reconstruir uma casa demolida apenas com palavras?" Por que, então, mero arrependimento + confissão deveriam "depurar e branquear" um pecado já consumado em ato? A resposta de Albo é uma análise penetrante da natureza da ação voluntária.
O princípio de partida: louvor e censura — e, portanto, recompensa e castigo — só recaem sobre o ato voluntário (retzoni), feito com conhecimento e livre-escolha no momento de fazê-lo. O ébrio é desculpado pelo que faz sem consciência; o ones gamur (coação total) — como quem joga uma pedra e o outro põe a cabeça no caminho — não merece censura alguma, porque o agente "não soube, não quis, não escolheu". Por isso a Torá não exila o homicida por coação, mas só o shogeg (inadvertido), em que há "uma mistura de coação e vontade". As ações mistas — feitas por medo de poderosos, etc. — são as mais difíceis de classificar: dependem de se havia algo "pelo qual seria devido sofrer toda aflição antes de fazê-lo" (caso em que se imputam à vontade) ou não.
Aqui está o coração do capítulo, e uma das análises mais sofisticadas de toda a obra. Albo propõe que o caráter voluntário de um ato não se decide apenas no momento da execução, mas pela vontade de sua permanência (kiyum) — se, depois de feito, o agente ainda quer que tenha sido feito. O exemplo é perfeito: o mercador que, na tempestade, lança a carga ao mar. Ninguém faz isso "de bom grado" — parece coação. Mas, já em terra firme, ele continua a querer ter feito (salvou-lhe a vida); logo o ato é voluntário, apesar da "pequena coação" inicial. Inversamente: um ato feito com vontade no momento, mas do qual depois o agente se arrepende e deseja "que não tivesse sido feito", retroativamente revela-se como pertencente à coação e ao erro — "como se a vontade pura, deixada a si mesma, não o tivesse feito".
Albo ancora essa teoria na halachá da anulação de votos (Nedarim 21b): "abre-se com o arrependimento" (potechin be-charatá) — o sábio pergunta ao que fez o voto "estavas em ti? já te arrependeste do voto?". Se a vontade permanece, o voto vale; se não permanece, o voto "é como se fosse em erro" e se anula, embora feito originalmente com vontade. Ou seja: a tradição já reconhece que o arrependimento posterior redefine retroativamente a qualidade do ato. E Albo invoca Aristóteles (Ética a Nicômaco) para selar: "as ações do intelecto não admitem arrependimento" — o que se faz com pleno entendimento, não se lamenta; logo, lamentar prova que faltou pleno entendimento.
Daqui o capítulo ilumina a célebre definição talmúdica do penitente (Yomá 86b): o verdadeiro baal teshuvá é quem, "com a mesma mulher, no mesmo lugar, no mesmo período" (Rav Yehudá), enfrenta de novo a tentação e a vence por amor de D'us. Por quê essa prova específica? Porque vencer nas mesmas condições demonstra que o arrependimento é completo — que o agente realmente "decidiu no coração que o ato primeiro foi em erro e sem conhecimento". E o princípio é simétrico: assim como o arrependimento desfaz o pecado, também desfaz o mérito. O Talmud (Kidushin 40b) lê Ezequiel 18:24 ("ao voltar o justo da sua justiça... morrerá") como referente ao "que se entristece arrepende das primeiras boas ações": quem se arrepende do bem que fez "perde a sua recompensa, como se não tivesse feito". A simetria confirma a tese: em ambos os casos, é a vontade de permanência que determina o valor moral do ato. Assim se resolve o paradoxo: a teshuvá não "apaga o passado" magicamente — ela recategoriza o ato passado, revelando-o (pela mudança de vontade comprovada na prova) como tendo sido, na verdade, "em erro e sem conhecimento", e portanto não-imputável. Feito isso, a depuração das iniquidades segue por direito; e o mérito positivo que daí resulta — a recompensa eterna do penitente — vem, como o cap. 25 estabeleceu, "pelo lado da graça, contado por justiça, e D'us o ama por dádiva".
A aceitação da teshuvá é por graça — mas há uma necessidade que a torna indispensável: o fim da criação humana é a permanência da alma, e o homem, obra de D'us, deve alcançar esse fim. Como o mau instinto seduz o homem dia a dia (descrito por Coélet) até arrastá-lo à heresia, e como toda transgressão deliberada envolve um pensamento contra os princípios — cujo castigo é eterno —, D'us, por misericórdia, abriu as portas da teshuvá para salvar a alma da morte eterna. Por isso Torá e teshuvá precederam o mundo.
A aceitação da teshuvá é por graça — mas há uma necessidade que a torna indispensável: o fim da criação humana é a permanência da alma, e o homem, obra de D'us, deve alcançar esse fim. Como o mau instinto seduz o homem dia a dia (descrito por Coélet) até arrastá-lo à heresia, e como toda transgressão deliberada envolve um pensamento contra os princípios — cujo castigo é eterno —, D'us, por misericórdia, abriu as portas da teshuvá para salvar a alma da morte eterna. Por isso Torá e teshuvá precederam o mundo.
1 Ainda que a aceitação da teshuvá seja pelo caminho da graça, como dissemos, eis que a necessidade hechrech que traz à existência desta graça é que, a partir do facto de que todo agente está a ansiar e a desejar sempre que chegue da sua ação o fim visado nela, e de que o fim visado na formação humana era o ser a alma remanescente após a morte — como precedeu no Maamar terceiro —, e de que o homem é obra das mãos do Senhor, bendito seja, eis que ele — D'us — deseja que chegue o homem ao seu fim visado nele, que é a permanência da alma.
הַהֶכְרֵחַ הַמֵּבִיא אֶל הַחֶסֶד: כָּל פּוֹעֵל חוֹשֵׁק שֶׁיַּגִּיעַ תַּכְלִית פְּעֻלָּתוֹ. תַּכְלִית הַיְצִירָה — הִשָּׁאֲרוּת הַנֶּפֶשׁ. וְהָאָדָם מַעֲשֵׂה יָדָיו, חָפֵץ שֶׁיַּגִּיעַ אֶל תַּכְלִיתוֹ.
2 E, porque o instinto yetzer do homem se fortalece sobre ele em cada dia e o seduz a pecar — como já despertou sobre isto Salomão no livro de Eclesiastes, que, quando menciona as palavras do mau instinto e as suas seduções, narra como ele seduz e incita o homem com lábios de lisonjas, pouco a pouco, até o ponto de que o faz sair para a má conduta —, que no princípio lhe diz "vai, come com alegria o teu pão" etc. (Eclesiastes 9:7) — que estas são as palavras do mau instinto conforme o encadeamento dos versículos de cima, e ele fala com o dono de teshuvá, que se preocupa sempre sobre os seus pecados, e por isso lhe diz "vai, come" etc., "pois já agradou D'us aos teus atos" (Eclesiastes 9:7), e não há um piedoso no mundo que não se seduza com estas suas palavras, já que não se vê que haja nelas um tropeço e uma iniquidade; e, quando o homem lhe ouve nisto, acrescenta a dizer-lhe "a todo tempo sejam as tuas vestes brancas" (Eclesiastes 9:8), quer dizer que seja belo e enfeitado; e, depois de que lhe ouviu também nisto, pois não há nisto uma iniquidade com que pecou, acrescenta ainda a dizer-lhe "vê a vida com a mulher que amaste" etc. (Eclesiastes 9:9); e, depois de que o fez chegar a este grau — de ouvir-lhe nestas coisas, ainda que sejam coisas permitidas —, não se aquietará até que acrescente sobre ele e o traga a negar no princípio ikkar e a dizer "não há juiz e não há juízo" leit din ve-leit dayan, e diz-lhe "tudo o que achar a tua mão para fazer com a tua força faze, pois não há ação e cômputo e conhecimento e sabedoria no Sheol para onde tu vais" (Eclesiastes 9:10), e traz uma prova às suas palavras ao dizer-lhe "voltei e vi debaixo do sol que não é dos velozes a corrida, e também não é dos sábios o pão" etc., "pois um tempo e um acaso ocorre a todos eles" (Eclesiastes 9:11).
הַיֵּצֶר מְפַתֶּה מְעַט מְעַט: ״לֵךְ אֱכֹל בְּשִׂמְחָה לַחְמְךָ״, ״בְּכָל עֵת יִהְיוּ בְגָדֶיךָ לְבָנִים״, ״רְאֵה חַיִּים עִם אִשָּׁה״, עַד ״כֹּל אֲשֶׁר תִּמְצָא יָדְךָ... כִּי אֵין מַעֲשֶׂה... בִּשְׁאוֹל״ — לֵית דִּין וְלֵית דַּיָּן.
3 E com estas coisas e com as semelhantes a elas inclina o homem do caminho reto e o conduz por um caminho mau, quando se mostra a si mesmo como um desejante do proveito do homem e a zelar por ele e a importar-se com a sua honra — como fez no princípio da formação a Eva, que lhe disse "ainda que af ki disse D'us 'não comereis de toda árvore do jardim'" (Gênesis 3:1); e mesmo neste lugar, conforme o meu parecer, é uma expressão de cólera e ira, quer dizer: uma ira grande tenho eu sobre o que vos disse o Senhor, bendito seja, — de que não comais de toda árvore do jardim, senão de árvores conhecidas —, pois não vos ordenou isto para o vosso proveito, já que o oposto vos é proveitoso mais; e nisto a seduziu, e ela deixou as veredas da retidão para andar nos caminhos da treva. E assim em cada dia e dia o instinto do homem maquina a fazer-lhe mal e a incitá-lo, como já testemunhou sobre ele, ele — D'us, bendito seja, e disse "pois o instinto do coração do homem é mau desde a sua juventude" etc. (Gênesis 8:21); e disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "infeliz aluvá é a massa de que o padeiro testemunha sobre ela que é má".
הַנָּחָשׁ לְחַוָּה: ״אַף כִּי אָמַר אֱלֹהִים״ — לְשׁוֹן חֵמָה. ״כִּי יֵצֶר לֵב הָאָדָם רַע מִנְּעֻרָיו״. ״עֲלוּבָה עִסָּה שֶׁהַנַּחְתּוֹם מֵעִיד עָלֶיהָ שֶׁהִיא רָעָה״.
4 Por isso é impossível ao homem que não peque em ato, seja pouco, seja muito; e o pecador — é impossível a ele que não tropece no pensamento — de cogitar contra um dos princípios ikkarei da religião, porque todo o que comete uma transgressão deliberadamente be-mezid não se permitirá a fazê-la se não pelo lado de algum pensamento mau que entrou no seu coração; e disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "não comete o homem uma transgressão a não ser se entrou nele um espírito de insensatez ruach shtut". E isto é: ou que negue no pensamento a existência de D'us e pense que não há para o mundo um condutor, e por causa disto se permite a fazer a transgressão — como a fala da Escritura "disse o vil no seu coração 'não há D'us', corromperam, abominaram a iniquidade, não há quem faça o bem" (Salmos 14:1); eis que esclareceu que a causa do fazer o pecado é o ser ele a pensar no seu coração "não há D'us". Ou que pense que há para o mundo um criador, mas diga que não supervisiona nos particulares dos atos dos filhos do homem para dar a cada homem conforme os seus caminhos — e isto também é uma causa para que se permita a pecar; disse a Escritura "sobre que blasfemou o ímpio a D'us? disse no seu coração 'não o inquirirás'" (Salmos 10:13). Ou que pense que, ainda que haja para o mundo um condutor e supervisor nos particulares dos atos, diga no seu coração "talvez não o ordenou o Senhor, bendito seja, — isto — ou não proibiu este ato" — como se dissesses, que pense que não proibiu a gordura proibida chelev e o sangue, ou a nidá, e por causa disto se permite a comer gordura ou sangue ou a possuir uma nidá e o semelhante a eles; e eis que ele é como o que nega que não há Torá dos céus, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, no capítulo "Chelek", que aquele que diz sobre um versículo só, ou mesmo uma palavra só, que Moisés, nosso mestre, da sua própria boca a disse, eis que ele está no conjunto do que diz "não há Torá dos céus".
״אֵין אָדָם עוֹבֵר עֲבֵרָה אֶלָּא אִם כֵּן נִכְנְסָה בּוֹ רוּחַ שְׁטוּת״: אוֹ מַכְחִישׁ מְצִיאוּת (״אֵין אֱלֹהִים״); אוֹ הַהַשְׁגָּחָה (״לֹא תִדְרֹשׁ״); אוֹ תּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם.
5 E é manifesto que em cada uma destas três intenções ele está a negar num princípio dos princípios da religião divina, os gerais, que são pais avot para todos os princípios, como escrevemos; e isto, sem dúvida, é mais mau e mais grave do que comer a gordura ou o sangue mesmo; e por causa disto é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "os pensamentos de transgressão hirhurei averá são mais graves do que a transgressão" — e isto é porque o castigo da transgressão mesma é temporal zemani, como virá, e o castigo da negação dos princípios é eterno nitzchi; como disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "o juízo dos ímpios no Guehinom é de doze meses", quer dizer os ímpios que transgridem as palavras da Torá e não negam nos princípios — que os que negam nos princípios já esclareceram que o seu castigo é eterno, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "mas os hereges minim e os delatores e os que negaram a Torá e os que negaram a ressurreição dos mortos descem ao Guehinom e se julgam nele por gerações de gerações".
״הִרְהוּרֵי עֲבֵרָה קָשִׁין מֵעֲבֵרָה״ — שֶׁעֹנֶשׁ הָעֲבֵרָה זְמַנִּי וְעֹנֶשׁ כְּפִירַת הָעִקָּרִים נִצְחִי. ״דִּינָן שֶׁל רְשָׁעִים בְּגֵיהִנֹּם י״ב חֹדֶשׁ״; וְהַמִּינִים — לְדוֹרֵי דוֹרוֹת.
6 E, depois de que os homens que se livram da negação de um dos princípios gerais, conforme isto, são poucos, um mínimo, não muitos, e, conforme isto, seria cabido que fossem julgados com um castigo eterno — se aprimorou o Senhor, bendito seja, nas suas misericórdias e na abundância das suas bondades a fazer bondade com o gênero humano — de abrir-lhe os portões da teshuvá, a fim de que por meio dela se livre das redes do mau instinto e da morte da alma. Disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "o instinto do homem se fortalece sobre ele em cada dia, conforme se diz 'o ímpio espreita o justo' (Salmos 37:32); e, se não fosse pelo facto de que o Santo, bendito seja, o ajuda, não lhe poderia resistir, conforme se diz 'o Senhor não o deixará na sua mão' (Salmos 37:33)" — eis que esclareceu que, por meio do auxílio com que o Santo, bendito seja, ajuda o homem, ele se livra da morte com que o instinto buscava matá-lo. E já esclareceu Yechezkel que sobre a morte da alma fala: disse "pois não desejo a morte do que morre, mas o seu voltar dos seus caminhos e o viver" (cf. Ezequiel 18:32) — e a expressão "na morte do que morre" indica que fala sobre quem já morreu, e quer dizer: não desejo a morte da alma de quem já morreu, mas o que se volte na sua vida do seu caminho e viva a alma do morto — de modo que se vê que, por meio da teshuvá, não morre o homem morto, mas que vive a sua alma e se torna digna da vida do mundo vindouro; e nisto chega o homem, que é obra das mãos do Senhor, ao fim da sua perfeição e à sua permanência eterna, mesmo se pecar um pecado tal que seria cabido que fosse julgado por causa dele com um castigo eterno.
פָּתַח שַׁעֲרֵי תְּשׁוּבָה. ״יִצְרוֹ שֶׁל אָדָם מִתְגַּבֵּר... אִלְמָלֵא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עוֹזְרוֹ אֵינוֹ יָכוֹל לוֹ״. ״כִּי לֹא אֶחְפֹּץ בְּמוֹת הַמֵּת״ — מִיתַת הַנֶּפֶשׁ.
7 E este é o dito de Isaías, a falar sobre o dono de teshuvá: "pois não para sempre contenderei e não para sempre me enfurecerei" (Isaías 57:16) — quis dizer: ainda que pela linha do direito me era cabido contender e me enfurecer para sempre e a julgar o pecador com um castigo eterno, não farei assim, "pois um espírito de diante de mim se envolve ya'atof" etc. (Isaías 57:16) — quer dizer que, ainda que o espírito vital que envolve o corpo seja de diante de mim, quer dizer, dos motores dos corpos celestes que estão diante de mim, eis que as almas humanas eu as fiz, e é cabido a mim que me apiede delas ainda mais, depois de que elas são obra das minhas mãos — que a expressão "neshamá" se diz sobre a alma humana, e "ruach" sobre a alma vital, pois nos viventes disse a Escritura "o que dá neshamá" etc. (Isaías 42:5); e, depois de que as almas são obra das minhas mãos, é cabido a mim que me esforce para que chegue o gênero humano ao fim visado na sua formação; e por causa disto, ainda que "pela iniquidade da sua avareza me enfureci e o feri" (Isaías 57:17), não o feria com um golpe de cruel, mas a fim de castigá-lo para que se voltasse em teshuvá diante de mim — que não o feria conforme o castigo cabido a ele conforme os seus pecados, mas "ocultei-me e me enfureci" (Isaías 57:17), quer dizer, ocultava a minha fúria do castigo e me enfurecia um pouco a fim de castigá-lo, porque estava a ir desviado no caminho do seu coração; mas, quando vi os seus caminhos — que se voltou em teshuvá diante de mim —, "curei-o" (Isaías 57:18), quer dizer: aceitei a sua teshuvá, ainda que estivesse próximo da sua morte, e por isso "o conduzo no caminho de toda a terra" e é recolhido ao seu povo a fim de que vá expiado para o mundo vindouro, "e completei as consolações a ele e aos seus enlutados" (Isaías 57:18) — a ele, quando lhe dei uma parte para o mundo vindouro, e aos seus enlutados, pois, quando não se corta a sua alma, eles se consolam sobre a sua morte; e a expressão "consolações aos seus enlutados" indica que fala sobre o morto, e disse sobre ele "e curei-o", pois a aceitação da teshuvá é a cura à alma para tornar-se digna da vida do mundo vindouro.
״כִּי לֹא לְעוֹלָם אָרִיב וְלֹא לָנֶצַח אֶקְצוֹף... וּנְשָׁמוֹת אֲנִי עָשִׂיתִי״. ״רָאִיתִי דְרָכָיו וְאֶרְפָּאֵהוּ״ — קַבָּלַת הַתְּשׁוּבָה הִיא הָרְפוּאָה אֶל הַנֶּפֶשׁ.
8 E se esclareceu, sendo assim, a necessidade da existência da teshuvá com a existência da Torá, para fazer chegar o gênero humano ao fim visado na sua formação, que é o fim visado do conjunto da existência inferior; e por isso é o que disseram os nossos mestres, de abençoada memória, de que a Torá e a teshuvá precederam à criação do mundo; e baste esta fala sobre a teshuvá.
נִתְבָּאֵר הֶכְרֵחִיּוּת מְצִיאוּת הַתְּשׁוּבָה עִם מְצִיאוּת הַתּוֹרָה. וְלָזֶה הַתּוֹרָה וְהַתְּשׁוּבָה קָדְמוּ לִבְרִיאַת הָעוֹלָם.
O cap. 25 estabeleceu que a teshuvá opera por graça, não por direito estrito. Este capítulo aprofunda: embora seja graça, há uma necessidade (hechrech) que a torna inevitável. O argumento parte de um princípio teleológico: todo agente deseja que sua obra atinja o fim para o qual a fez. O fim da criação humana é a permanência da alma (estabelecido no Maamar III); e o homem é "obra das mãos de D'us". Logo, D'us deseja que o homem alcance esse fim — e isso exige um mecanismo de resgate quando o homem falha. A teshuvá é esse mecanismo: dádiva gratuita do ponto de vista do homem, mas "necessária" do ponto de vista do propósito divino da criação.
Por que a teshuvá é indispensável? Porque o pecado é inevitável — o yetzer hará "se fortalece a cada dia". Albo oferece uma leitura psicológica brilhante de Eclesiastes 9:7–11 como o roteiro da sedução gradual. O mau instinto não ataca de frente; aproxima-se "com lábios de lisonja, pouco a pouco", fingindo zelar pelo bem do homem. Ao penitente angustiado diz primeiro algo inocente: "vai, come com alegria o teu pão, pois D'us já aprovou os teus atos" — nenhum piedoso resiste, pois não há pecado aparente. Cedido isso, escala: "tuas vestes sempre brancas" (cuida da aparência), depois "vê a vida com a mulher que amaste" — ainda dentro do permitido. E só então, tendo habituado o homem a obedecê-lo no lícito, dá o golpe: "tudo o que tua mão achar, faze, pois não há ação nem juízo no Sheol" — leit din ve-leit dayan, a negação total. O paradigma é a serpente com Eva ("af ki amar Elohim" — que Albo lê como ira fingida: "que indignação, que D'us vos proíba isto, sendo o oposto melhor para vós!"). O sedutor sempre se mascara de aliado do homem.
O passo decisivo: "não comete o homem transgressão a não ser que entre nele um espírito de insensatez" (Sotá 3a). Albo argumenta que toda transgressão deliberada (be-mezid) pressupõe, no fundo, a negação de um dos três princípios cardinais — os "pais de todos os princípios": (1) a existência de D'us ("disse o vil: não há D'us", Sl 14:1); (2) a providência ("não inquirirás", Sl 10:13); ou (3) a Torá do céu (pensar "talvez D'us não proibiu isto" — equivalente, conforme Sanhedrin, a negar a origem divina de um único versículo). Daí o dito "os pensamentos de transgressão são piores que a transgressão" (Yomá 29a) — não por capricho, mas por uma razão de economia da pena: o castigo da transgressão em si é temporal ("o juízo dos ímpios no Guehinom é doze meses"), mas o castigo da negação dos princípios é eterno ("os hereges... por gerações de gerações"). O pecado-ato é finito; a heresia que o habilita é infinita.
A conclusão lógica é dramática: se quase todo pecado envolve algum desses pensamentos heréticos, e se "os que se livram da negação de algum princípio são pouquíssimos", então quase todos mereceriam castigo eterno. Sem a teshuvá, a criação humana seria, em massa, um fracasso — a alma destinada à eternidade perdendo-se para sempre. Por isso D'us "abriu os portões da teshuvá" — não como concessão opcional, mas como o único modo de salvar o propósito da criação. E o auxílio é ativo: "o instinto se fortalece a cada dia, e, se D'us não o ajudasse, o homem não lhe resistiria" (Kidushin 30b). Albo lê Ezequiel 18:32 ("não desejo a morte do morto") com finura: trata-se da morte da alma de quem "já morreu" — a teshuvá ressuscita a alma, fazendo o "morto" digno do mundo vindouro.
A leitura culminante é de Isaías 57:16–18, lida inteira como a voz de D'us sobre o penitente. "Não contenderei para sempre" — embora pela justiça estrita o castigo eterno fosse devido, D'us recusa-o, "pois as almas eu as fiz" (distinguindo neshamá, a alma humana que D'us "faz" diretamente, de ruach, a alma vital dos motores celestes). O Criador tem misericórdia especial de sua obra mais direta. O castigo que aplica não é "golpe de cruel", mas pedagógico — mede a fúria, fere "um pouco" para despertar à teshuvá; e quando vê o retorno, "curei-o" — pois "a aceitação da teshuvá é a cura da alma". Daí o selo do capítulo, com o dito rabínico (Pesachim 54a) de que Torá e teshuvá precederam a criação do mundo: a teshuvá não é um remendo posterior, mas condição prévia da própria possibilidade de criar um ser livre e falível destinado à eternidade. Sem ela, criar o homem teria sido criá-lo para a perdição. Encerra-se assim o tratado da teshuvá (caps. 25–28); o próximo capítulo abre o último grande tema do Maamar — a recompensa e o castigo.
A recompensa e o castigo — o terceiro princípio geral, que faz as vezes do fim visado por toda religião. Quem serve por amor não busca recompensa, mas há recompensa. As quatro opiniões — nenhuma; corpórea neste mundo; espiritual no vindouro; ambas — radicam-se nas concepções da natureza da alma. Albo refuta os saduceus e o filósofo, define a alma como substância espiritual preparada para o serviço de D'us (não só para a intelecção), discute e rejeita o gilgul, e firma a opinião da Torá: recompensa corpórea aqui e espiritual no além.
A recompensa e o castigo — o terceiro princípio geral, que faz as vezes do fim visado por toda religião. Quem serve por amor não busca recompensa, mas há recompensa. As quatro opiniões — nenhuma; corpórea neste mundo; espiritual no vindouro; ambas — radicam-se nas concepções da natureza da alma. Albo refuta os saduceus e o filósofo, define a alma como substância espiritual preparada para o serviço de D'us (não só para a intelecção), discute e rejeita o gilgul, e firma a opinião da Torá: recompensa corpórea aqui e espiritual no além.
1 E é cabido que falemos agora na recompensa e no castigo sachar va-onesh, que é o princípio terceiro dos princípios gerais à religião divina, e ele está no lugar do fim visado em todas as religiões. E isto é que, ainda que o que serve por amor não se importe com a recompensa e com o castigo de modo algum — já que não há junto dele outro fim sem a completude da vontade do amado apenas, e disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "não sejais como os servos que servem o senhor com a condição de receber uma gratificação peras" —, não por causa disto diremos que não haja ali recompensa e castigo, que Deus o livre, mas a intenção ali é a dizer que o que serve por amor não servirá pelo amor da recompensa e pelo temor do castigo, ainda que creia que há ali uma recompensa para os crentes e para os tementes do Senhor e os que cogitam o seu nome, pois toda aquela recompensa é como nada defronte dele na consideração da completude da vontade daquele amado; e o serviço que é sobre este atributo é o serviço que traz ao fim da recompensa e do castigo visado em todas as religiões.
הָעוֹבֵד מֵאַהֲבָה לֹא יָחוּשׁ לַשָּׂכָר. ״אַל תִּהְיוּ כַּעֲבָדִים הַמְשַׁמְּשִׁין... עַל מְנָת לְקַבֵּל פְּרָס״ — לֹא שֶׁאֵין שָׂכָר, אֶלָּא שֶׁלֹּא יַעֲבֹד מֵאַהֲבַת הַשָּׂכָר.
2 E, porque o fim da religião divina é diferente dos fins das religiões convencionais nimusiot, como escrevemos no Maamar primeiro, o contamos dos princípios gerais à religião divina. E dizemos que a recompensa e o castigo — não se livra o assunto nele de uma divisão: ou que haja ali recompensa e castigo, ou que não haja; e, se houver ali, ou que seja todo corpóreo gashmi e neste mundo, ou que seja todo espiritual ruchani e no mundo vindouro, ou que haja ali uma recompensa corpórea neste mundo e uma recompensa espiritual no mundo vindouro.
הַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ: אוֹ שֶׁיֵּשׁ אוֹ שֶׁאֵין; וְאִם יֵשׁ — אוֹ כֻּלּוֹ גַּשְׁמִי בָּעוֹלָם הַזֶּה, אוֹ כֻּלּוֹ רוּחָנִי בָּעוֹלָם הַבָּא, אוֹ גַּשְׁמִי וְרוּחָנִי.
3 E se acham os homens a se dividirem no assunto da crença na retribuição e no castigo em quatro opiniões, conforme o número das partes que decreta a referida divisão: que há quem creia que não há ali recompensa nem castigo, nem corpóreo nem anímico nafshi; e há quem creia que há ali recompensa corpórea e anímica; e há quem creia na recompensa corpórea e não anímica; e há quem a creia anímica e não corpórea.
נֶחְלָקִים לְד׳ דֵּעוֹת: שֶׁאֵין שָׂכָר כְּלָל; שֶׁיֵּשׁ גַּשְׁמִי וְנַפְשִׁי; שֶׁיֵּשׁ גַּשְׁמִי וְלֹא נַפְשִׁי; שֶׁיֵּשׁ נַפְשִׁי וְלֹא גַּשְׁמִי.
4 E a raiz desta discórdia está pendente da diferença das opiniões que há entre os homens na quididade mahut da alma. A opinião primeira é que há dentre os homens quem diz que a alma do homem não tem nela vantagem sobre a alma dos viventes, senão que o homem tem nele uma astúcia maior do que a dos demais viventes para inventar as artes e os ardis que lhe são necessários para o conserto da sua vida num modo perfeito, como há para alguns dos viventes uma vantagem sobre alguns nisto; e por causa disto creem os donos desta opinião que não há ali recompensa nem castigo de modo algum, nem corpóreo nem espiritual, e dizem que os homens estão enviados e largados aos acasos como os demais viventes, já que não é a intenção divina neles senão a de guardar as espécies apenas. E esta opinião já a golpearam no alto do seu crânio os filósofos e disseram que não se assemelha a alma do homem às almas dos viventes — que os viventes têm os seus conhecimentos parciais individuais, e o homem alcança as coisas gerais das coisas, e alcança as coisas após o seu ocultar-se do sentido, o que não é assim nos viventes, e distingue entre a substância e o acidente, e outro que não isto, do que indica sobre a diferença grande que há entre a alma do homem e a alma dos viventes; e é impossível sem que haja para a alma do homem um fim singularizado dentre os demais viventes, como esclarecemos no capítulo segundo do Maamar terceiro; e por isso, mesmo se não houver para os viventes nenhuma perfeição anímica, já se obriga que se ache isto no homem. E assim os donos da Torá se dividiram sobre esta opinião e disseram que é cabido que haja para o homem recompensa e castigo, seja no mundo vindouro para a alma, seja neste mundo para o corpo, pelo lado da providência divina, como esclarecemos isto quando falamos na providência.
(א) שֶׁאֵין לַנֶּפֶשׁ יִתְרוֹן עַל הַבַּעֲלֵי חַיִּים — הִכּוּ הַפִילוֹסוֹפִים עַל קָדְקֳדוֹ: הָאָדָם יַשִּׂיג כְּלָלִים וְהַמּוּשְׂכָּלוֹת אַחַר הֵעָלְמָם. וּבַעֲלֵי הַתּוֹרָה: יֵשׁ שָׂכָר עַל צַד הַהַשְׁגָּחָה.
5 E a opinião segunda é a opinião de quem crê que há recompensa e castigo, mas diz que ele é corpóreo e neste mundo; e isto é porque há dentre os homens quem creia que a alma do homem tem uma vantagem sobre os viventes no fato de que há nela uma faculdade intelectual por meio da qual se adere o espírito divino no homem para supervisioná-lo conforme a vantagem do seu intelecto, mas, porque não é esta vantagem senão uma preparação apenas, dizem que ela precisa sempre de um sujeito nose, e, quando se separar esta adesão que há entre a alma e o corpo, se perderá a alma; e nesta opinião se enredaram e se prenderam um grupo dos donos da especulação que disseram que não se imagina nenhuma perfeição para a alma sem o corpo; e se arrastaram após eles a seita de Tsadok Sadoc e Baitos, que, com o facto de que eles creem na Torá de Moisés e na providência, creem com isto que a recompensa e o castigo é corpóreo apenas e neste mundo, como se mencionou em Avot de-Rabi Natan, e negaram a recompensa espiritual após a morte de tudo em tudo, e trazem uma prova às suas palavras do que não se mencionou, conforme o parecer deles, na Torá de Moisés uma retribuição anímica de modo algum, mas apenas prosperidades corpóreas; e, contudo, caíram nesta opinião por estarem a pensar o ser a alma do homem composta de faculdades diferentes — como a faculdade da nutrição e do crescimento e da sensação e a faculdade intelectual —, e, depois de que se vê que as demais faculdades se corrompem no separar-se da adesão que há entre a alma e o corpo, dizem que também se perderá dela a faculdade do intelecto haskalá que havia nela com o que já entendeu, e restará a alma perdida como a alma dos viventes, e "como a morte deste, assim a morte daquele" (Eclesiastes 3:19).
(ב) צָדוֹק וּבַיְתוֹס: הַשָּׂכָר גַּשְׁמִי בִּלְבַד וּבָעוֹלָם הַזֶּה — שֶׁהַיִּתְרוֹן הֲכָנָה בִּלְבַד וּצְרִיכָה נוֹשֵׂא, וּבְהִפָּרֵד תֵּעָדֵר. ״כְּמוֹת זֶה כֵּן מוֹת זֶה״.
6 E já refutaram os grandes dos filósofos esta opinião e disseram que não são as ações diferentes que decorrem do agente coisa que obrigue uma multiplicidade ribui na essência do agente, como se esclareceu no capítulo oitavo do Maamar segundo. E também não é o perder-se da vida do corpo coisa que obrigue a perda da alma intelectiva, assim como não obriga o perder-se da faculdade do crescimento, depois dos quarenta anos, a perda da alma; pois o corpo é um instrumento kli por meio do qual se veem algumas ações da alma, e, no perder-se do instrumento, se perdem aquelas ações apenas — como a nutrição e o crescimento e a sensação —, mas não é isto coisa que obrigue que se perca a essência da alma, pois não é a subsistência do intelecto pendente do corpo como as demais faculdades corpóreas, mas é no oposto, que o intelecto se fortalece depois dos quarenta no enfraquecer-se das faculdades corpóreas; e o intelecto não se assemelha às faculdades corpóreas, pois ele alcança a si mesmo e aos seus instrumentos, o que não é assim nas faculdades corpóreas; e provas outras fortes, tais que é impossível negá-las, trouxeram sobre o fato de que não se assemelha a alma do homem à alma dos viventes — senão que não há necessidade de se alongar nisto.
אֵין הֶעְדֵּר חִיּוּת הַגּוּף מְחַיֵּב הֶעְדֵּר הַנֶּפֶשׁ הַמַּשְׂכֶּלֶת. הַגּוּף כְּלִי; הַשֵּׂכֶל יִתְחַזֵּק אַחַר הָאַרְבָּעִים, וְיַשִּׂיג אֶת עַצְמוֹ.
7 E, para testemunhar sobre a refutação desta opinião, escreveu o Rambam, de abençoada memória, na introdução do comentário de Avot que o nome "alma" se diz sobre a alma do homem e sobre a alma dos viventes por homonímia do nome shituf ha-shem, e, ainda que se veja que decorram de uma delas ações semelhantes às ações que decorrem da outra, não é isto coisa que obrigue que se assemelhem as essências dos agentes — pois eis que a luz do sol e a luz da vela se assemelham no fato de que iluminam dois lugares escuros, e não se obriga por causa disto que sejam os agentes iguais, pois a luz do sol é contínua e não se apaga e ilumina mesmo no lugar em que o sol não brilha, e a vela se apaga e não é contínua e não ilumina senão no lugar em que a centelha cai; e, sendo assim, não é obrigatório que, ainda que se corrompa a alma dos viventes, que se corrompa e se perca a alma do homem no seu separar-se do corpo, depois de que eles confessam que há para ela uma vantagem sobre as almas dos viventes. E o que trouxe como prova às suas palavras a seita de Tsadok e Baitos — do que não se mencionou na Torá de Moisés a retribuição anímica mas apenas a corpórea —, não é assim como pensaram, que não se escreveu a corpórea senão no lugar em que não há lugar para a recompensa espiritual, e a recompensa espiritual se escreveu por alusão remizá, por uma causa que mencionaremos com a ajuda do Senhor.
״נֶפֶשׁ״ בְּשִׁתּוּף הַשֵּׁם. אוֹר הַשֶּׁמֶשׁ מַתְמִיד וּמֵאִיר אַף בְּמָקוֹם שֶׁאֵין הַשֶּׁמֶשׁ זוֹרַחַת, וְהַנֵּר כָּבֶה — וְלֹא יִדְמוּ הַפּוֹעֲלִים. הָרוּחָנִי נִכְתַּב בִּרְמִיזָה.
8 E a opinião terceira é o oposto da opinião segunda, e ela é a opinião de alguns dos nossos mestres, de abençoada memória, que dizem "a recompensa do mandamento neste mundo não há sachar mitzvá be-hai alma leka", e trouxeram uma prova a isto a partir do sentido do observável: disseram "eis que alguém a quem lhe disse o seu pai 'sobe ao pombal e traze-me pombinhos', e subiu ao pombal e enviou a mãe e tomou os filhos, e no seu retornar caiu e morreu — onde está o bem deste? e onde está o alongar dos dias deste? — que se disse no enviar a mãe e no honrar o pai 'para que te seja bom e se alonguem os dias' (cf. Deuteronômio 22:7; 5:16) —; mas 'para que te seja bom' — no mundo que é todo bom, e 'o alongar dos dias' — no mundo que é todo longo"; e é impossível que haja um mundo que é todo bom e um mundo que é todo longo senão o mundo vindouro após a morte, e na recompensa espiritual.
(ג) ״שְׂכַר מִצְוָה בְּהַאי עָלְמָא לֵיכָּא״. ״עֲלֵה לַבִּירָה וְהָבֵא לִי גוֹזָלוֹת... וּבַחֲזִירָתוֹ נָפַל וָמֵת״ — ״לְמַעַן יִיטַב לָךְ לְעוֹלָם שֶׁכֻּלּוֹ טוֹב, וְהַאֲרַכְתָּ יָמִים לְעוֹלָם שֶׁכֻּלּוֹ אָרֹךְ״.
9 E também esta é a opinião de um grupo dos grandes dos filósofos e um grupo dos donos da Torá que se arrastaram após eles, que dizem que não há nenhuma perfeição para o homem pelo lado de que ele é homem senão após a morte apenas, quando o intelecto for abstraído da matéria e das coisas corpóreas; e isto é porque a vantagem das coisas intelectuais, esta sobre esta, é conforme o seu grau na intelecção, sem dúvida — que aquele que entende mais — é o seu grau maior; e, depois de que o homem tem a vantagem do intelecto sobre os viventes, é cabido que haja para ele por causa disto uma perfeição de grau pendente na intelecção apenas, pois, se isto fosse numa coisa corpórea que o inclui a ele e aos viventes, seria a perfeição e a vantagem do intelecto que foi dado nele sobre os viventes para vingança dele e não para a perfeição de um grau; e isto é: que os viventes, por serem privados do intelecto e do entendimento, não se afligem no pensamento do mal preparado a vir sobre eles, e não se afligem ao estarem a avaliar que o seu fim é a morte como o homem, e não sentem a aflição que vem sobre eles antes da sua vinda e não se preocupam sobre coisa alguma; e o homem sente tudo isto e se preocupa e se aflige sobre o mal preparado a vir sobre ele e vive na agonia e no gemido — até o ponto de que, conforme a elevação do intelecto que há para o homem sobre outro que não ele, se aflige sobre o mal preparado a vir sobre ele; e por causa disto dizem que não é cabido que seja a perfeição alcançada pelo lado do intelecto uma coisa corpórea e que participe com os viventes, mas um assunto e um grau numa coisa que se separa deles, que é o intelecto, não numa coisa corpórea de modo algum; esta é a opinião do filósofo nisto, que, com o facto de que ele nega a providência, crê que há para a alma do homem uma perfeição após a morte no separar-se do corpo, e muitos dos sábios da Torá se arrastaram após as suas palavras nisto.
דַּעַת הַפִילוֹסוֹף: אֵין שְׁלֵמוּת אֶלָּא אַחַר הַמָּוֶת. הָאָדָם מַרְגִּישׁ בָּרַע הַמְעֻתָּד וְיִצְטַעֵר — וְלָכֵן הַשְּׁלֵמוּת בְּדָבָר נִבְדָּל (הַשֵּׂכֶל), לֹא גַשְׁמִי.
10 E há o que examinar após este motivo: que, mesmo se estas coisas são uma resposta sobre a opinião segunda, de todo modo não se esclarecerá disto que haja uma perfeição para o homem após a morte. E isto é que, depois de que a perfeição e a subsistência é impossível que seja senão para uma coisa intelectual, como disseram, e a faculdade intelectual que há no homem não é senão uma preparação hachaná, como se imaginará a sua permanência, já que não é a preparação uma coisa que subsiste por si mesma? E o que dizem — que o intelecto adquirido sechel ha-niknê se substancializa nos seus inteligíveis até o ponto de que se reverte ele e eles numa coisa só — é uma coisa não-compreensível; pois, se a faculdade intelectual que há no homem é uma faculdade hilética hiulanit, cuja natureza é a de que se corrompa exceto pelo lado da intelecção, como se manterá a intelecção por si mesma, ou como se imaginará a sua adesão ao Intelecto Agente? — que tudo isto é distante muitíssimo de que se entenda, como escrevemos no Maamar terceiro no capítulo terceiro; e por causa disto disseram alguns dos sábios que a alma é uma substância espiritual etzem ruchani que subsiste por si mesma, preparada à intelecção, e por isso não é cabível nela a corrupção, por ser ela uma substância que subsiste por si mesma, mas que recebe um deleite conforme a sua obtenção na intelecção; e também isto não é correto, porque, mesmo se for a alma uma substância que subsiste por si mesma, depois de que ela está preparada à intelecção, se não alcançar à intelecção será a perfeição da preparação à toa le-vatalá, e não alcançará, sendo assim, a perfeição da alma um de entre mil, e talvez não a alcance nenhum homem, como escrevemos no capítulo terceiro do Maamar terceiro — por D'us! — se não dissermos que a perfeição desta intelecção é a obtenção dos inteligíveis primeiros muskalot rishonot, e nesta coisa se igualariam o justo e o ímpio, e isto não subiu ao coração de nenhum homem jamais.
אִם הַכֹּחַ הַשִּׂכְלִי הֲכָנָה בִּלְבַד, אֵיךְ יְצֻיַּר הִשָּׁאֲרוּתוֹ? וְאִם עֶצֶם רוּחָנִי מוּכָן לְהַשְׂכָּלָה — אִם לֹא יַשִּׂיג, תִּהְיֶה הַהֲכָנָה לְבַטָּלָה.
11 E por isso se vê que a opinião correta e adequada à Torá é que a alma é uma substância espiritual preparada à intelecção para servir o Senhor, bendito seja, e não à intelecção apenas; e por isso, quando alcançar o homem algum intelecto para servir o Senhor, bendito seja, pelo lado de que alcança alguma obtenção ou algum reconhecimento do Senhor, grande ou pequeno, alcançará imediatamente algum grau dos graus do mundo vindouro. E assim se acha nos nossos mestres, de abençoada memória, no capítulo "Chelek", sobre o versículo "uma semente o servirá" (Salmos 22:31): disseram "a partir de quando merecem as criancinhas tinokot a vida do mundo vindouro? em nome de Rabi Meir disseram: desde que saibam a dizer 'amém'; isto é o que está escrito 'abri os portões e venha uma nação justa, que guarda as fidelidades shomer emunim' (Isaías 26:2) — não leias 'guarda fidelidades' shomer emunim mas 'que diz améns' she-omer amenim"; e isto está manifesto como escrevemos — que a perfeição da alma é pelo lado da intelecção voltada ao serviço — qualquer que seja —, até o ponto de que, quando alcançar a criança a intelecção voltada ao serviço o mais pequeno que é possível — que é o dizer "amém" sobre alguma bênção —, se torne digna de algum grau dos graus do mundo vindouro; e isto se coaduna com o que escrevemos no capítulo vinte e nove do Maamar terceiro — que no fazer um mandamento só se torna digno o homem de algum grau dos graus do mundo vindouro.
הַדַּעַת הַנָּכוֹן: הַנֶּפֶשׁ עֶצֶם רוּחָנִי מוּכָן לְהַשְׂכָּלָה לַעֲבוֹד הַשֵּׁם, וְלֹא לְהַשְׂכָּלָה לְבַד. ״מֵאֵימָתַי תִּינוֹקוֹת זוֹכִין?... מִשֶּׁיּוֹדְעִין לוֹמַר אָמֵן״.
12 E indica também sobre o ser a alma uma substância espiritual que subsiste por si mesma o que disseram "não se mantém o mundo senão pelo hálito hevel da boca das criancinhas da casa do mestre tinokot shel beit raban"; disse-lhe Rav Papa a Abaye: "o meu e o teu — o nosso que é?", disse-lhe: "não se assemelha o hálito no qual não há pecado ao hálito no qual há pecado". E, se não for a alma uma substância que subsiste por si mesma, como é possível que haja uma vantagem para as criancinhas da casa do mestre, que não chegaram ao grau da intelecção senão um pouco, sobre Abaye e Rava, que chegaram a um grau grande sem dúvida? Senão que a verdade é que um grau pequeno no serviço para quem não se sujou no pecado aproveita mais do que um grau grande para quem se sujou no pecado, porque a alma, por ser ela uma substância espiritual que subsiste por si mesma, a grandeza do seu grau é conforme a medida da sua limpeza junto com o seu serviço na feitura dos mandamentos; e por isso o que estava Moisés, nosso mestre, sobre ele a paz, a se afligir — foi sobre o fato de que não podia entrar à Terra para fazer o serviço dos mandamentos em ato, não pela obtenção dos inteligíveis, pois, sem dúvida, já chegou Moisés ao grau que era cabido que alcançasse na intelecção, senão que ele ansiava por cumprir os mandamentos em ato, que é o serviço voltado à intelecção, que é a que dá perfeição e subsistência à alma, como escrevemos no capítulo quarto do Maamar terceiro.
״אֵין הָעוֹלָם מִתְקַיֵּם אֶלָּא בְּהֶבֶל פִּיהֶם שֶׁל תִּינוֹקוֹת... אֵינוֹ דּוֹמֶה הֶבֶל שֶׁאֵין בּוֹ חֵטְא לְהֶבֶל שֶׁיֵּשׁ בּוֹ חֵטְא״ — גֹּדֶל הַמַּדְרֵגָה כְּפִי נְקִיּוּתָהּ עִם הָעֲבוֹדָה.
13 E nestas duas opiniões que há na quididade da alma — quero dizer, se ela é uma faculdade hilética ou uma substância que subsiste por si mesma — é que se dividiram os nossos mestres, de abençoada memória, em Eruvin, ao dizerem "dois anos e meio se dividiram Beit Shamai e Beit Hilel: estes dizem 'cômodo noach é ao homem que não tenha sido criado mais do que tenha sido criado', e estes dizem 'cômodo é ao homem que tenha sido criado mais do que não tenha sido criado'; se contaram e concluíram: 'cômodo é ao homem que não tenha sido criado mais do que tenha sido criado, e agora que foi criado, esquadrinhe nos seus atos'".
״ב׳ שָׁנִים וּמֶחֱצָה נֶחְלְקוּ... נֹחַ לוֹ לָאָדָם שֶׁלֹּא נִבְרָא יוֹתֵר מִשֶּׁנִּבְרָא... וְעַכְשָׁו שֶׁנִּבְרָא יְפַשְׁפֵּשׁ בְּמַעֲשָׂיו״.
14 E se vê que aquele que diz "cômodo é a ele que tenha sido criado" sustenta que a alma do homem é uma faculdade hilética, como a opinião do filósofo, e por isso diz que lhe é cômodo que tenha sido criado, porque toda existência é melhor do que o não-ser, e é possível que se eleve ao grau da subsistência por meio da intelecção; e aquele que diz "cômodo é a ele que não tenha sido criado" sustenta que a alma é uma substância espiritual permanente pelo lado de si mesma, e, porque, por meio da criação, é possível que a alcance a corrupção ou que a alcance o castigo enorme, disse "cômodo é a ele que não tenha sido criado", quer dizer, que não se tivesse achado no corpo humano; e assim disse Salomão "e bom do que ambos — aquele que ainda não foi" (Eclesiastes 4:3); e, se fosse a alma uma faculdade hilética, como diria "bom do que ambos" sobre uma coisa ausente nichdá, e como seria o não-ser melhor do que a existência? — eis que toda existência é boa, e a Escritura testemunha sobre isto ao dizer "e viu D'us tudo o que fez, e eis que era muito bom" (Gênesis 1:31); senão que, sem dúvida, a sua opinião é a de dizer que a alma é uma substância espiritual e não uma faculdade hilética; e, porque este é a opinião correta e a que se coaduna com a Torá, é o que se contaram e concluíram que cômodo é a ele que não tenha sido criado mais do que tenha sido criado, e por isso disseram que é preciso que esquadrinhe nos seus atos a fim de que não se perca a alma ou se castigue.
״נֹחַ שֶׁנִּבְרָא״ — כֹּחַ הִיּוּלָנִי (הַפִילוֹסוֹף); ״נֹחַ שֶׁלֹּא נִבְרָא״ — עֶצֶם רוּחָנִי, שֶׁיּוּכַל לְהִפָּסֵד אוֹ לְהֵעָנֵשׁ. ״וְטוֹב מִשְּׁנֵיהֶם אֵת אֲשֶׁר עֲדֶן לֹא הָיָה״.
15 E daqui saiu para os sábios da Cabalá chochmei ha-kabalá a opinião da transmigração guilgul; e isto é que, porque eles viram que a opinião correta conforme a Torá é que não é a alma uma faculdade hilética mas uma substância que subsiste por si mesma, como dissemos, julgaram disto que, assim como a substância espiritual entra no corpo humano no princípio da sua formação, assim é possível que a alma que já serviu num corpo humano volte ainda a residir num corpo. Mas isto não é correto, pois, se decretou a Sabedoria Suprema a fazer residir a substância espiritual — que não é da sua natureza o ser dona de livre-escolha — no corpo humano a fim de pô-la dona de livre-escolha, porque isto é uma elevação grande a ela sem dúvida — até o ponto de que nesta coisa erraram os anjos sobre o homem, como disseram os nossos mestres, de abençoada memória, em Bereshit Rabá: "quando criou o Santo, bendito seja, o homem, buscaram os anjos do serviço a prostrar-se a ele" etc., e isto por ser ele dono de livre-escolha mais do que eles, que não são donos de livre-escolha — de todo modo a alma que já serviu num corpo humano e foi dona de livre-escolha, por que voltaria ainda ao corpo? e com que se prepararia a gota seminal para receber a alma que já serviu num corpo mais do que para receber a alma que não serviu num corpo e não foi dona de livre-escolha? E o mais distante do que isto é o que dizem — que as almas dos homens se transmigram nos corpos dos viventes; e o Senhor sabe.
הַגִּלְגּוּל (חַכְמֵי הַקַּבָּלָה) — אֵינוֹ נָכוֹן: הַנֶּפֶשׁ שֶׁכְּבָר שִׁמְּשָׁה וְהָיְתָה בַּעֲלַת בְּחִירָה, לָמָּה תַחֲזֹר? וְהָרָחוֹק — שֶׁמִּתְגַּלְגְּלוֹת בְּגוּפוֹת הַבַּעֲלֵי חַיִּים.
16 E a opinião quarta é a opinião de quem crê que a recompensa — dela é corpórea e neste mundo e dela é espiritual e no mundo vindouro após a morte; e este é a opinião da nossa Torá santa, que vaticinou vaticínios corpóreos particulares para os justos, como para os patriarcas e para outros que não eles, e vaticinou vaticínios espirituais para a alma sozinha, seja um castigo, seja uma recompensa, como esclareceremos com a ajuda de D'us; e este é a opinião dos nossos mestres, de abençoada memória, em muitos lugares, e em particular no que se acha no Sifrei: disseram "'para que se multipliquem os vossos dias' (Deuteronômio 11:21) — neste mundo, 'e os dias dos vossos filhos' — nos dias do Messias, 'como os dias dos céus sobre a terra' — no mundo vindouro" — de modo que se vê explicitamente que na recompensa dos mandamentos vaticinou a Escritura uma recompensa neste mundo e no mundo vindouro; este é o conjunto das opiniões dos homens na recompensa e no castigo, e a opinião da nossa Torá nele.
(ד) דַּעַת תּוֹרָתֵנוּ: מִמֶּנּוּ גַּשְׁמִי בָּעוֹלָם הַזֶּה וּמִמֶּנּוּ רוּחָנִי בָּעוֹלָם הַבָּא. ״לְמַעַן יִרְבּוּ יְמֵיכֶם — בָּעוֹלָם הַזֶּה... כִּימֵי הַשָּׁמַיִם — לָעוֹלָם הַבָּא״.
Encerrados os temas da providência (7–15), oração (16–24) e teshuvá (25–28), Albo aborda o último dos três princípios cardinais: recompensa e castigo (sachar va-onesh). Ele abre dissolvendo um aparente paradoxo: se o ideal é "servir por amor", e os Sábios advertem "não sejais como servos que servem para receber gratificação" (Avot 1:3), existe recompensa? Sim — a advertência não nega a recompensa; nega que ela seja a motivação. Quem serve por amor crê que há recompensa, mas ela "é como nada diante da completude da vontade do Amado". A recompensa é real; só não deve ser o motor.
Por divisão lógica, há quatro posições: (1) não há recompensa alguma; (2) só corpórea, neste mundo; (3) só espiritual, no vindouro; (4) ambas. E Albo identifica a raiz de toda a controvérsia: a concepção da natureza da alma (mahut ha-nefesh). Toda a discussão escatológica depende, no fundo, de uma questão metafísica — o que é a alma humana?
A primeira opinião (alma humana = alma animal, só com mais astúcia; nenhuma recompensa) é refutada pelos próprios filósofos: o homem apreende universais, retém conceitos após o objeto sumir do sentido, distingue substância de acidente — diferenças qualitativas que provam um fim próprio à alma humana. A segunda (recompensa só corpórea, neste mundo — dos saduceus, Tsadok e Baitos) admite uma "vantagem" intelectual no homem, mas a reduz a mera preparação que precisa de um "sujeito" corpóreo e perece com ele ("a morte deste é como a morte daquele", Ecl 3:19). Albo refuta com Maimônides: o intelecto não depende do corpo como as faculdades vegetativa e sensitiva — ao contrário, "fortalece-se depois dos quarenta, quando as forças corpóreas enfraquecem", e "apreende a si mesmo" (auto-reflexão impossível ao corpóreo). A analogia maimonidiana é luminosa: a palavra "alma" aplica-se ao homem e ao animal por homonímia (shituf ha-shem), como "luz" do sol e da vela — ambas iluminam, mas a do sol é contínua e ilumina mesmo onde o sol não brilha, a da vela apaga-se. À objeção saducéia de que a Torá só promete bens corpóreos, Albo responde: a recompensa espiritual está lá, "por alusão" (remizá) — por uma razão que ele guardará para depois.
A terceira opinião (só espiritual, no vindouro) tem base rabínica forte — "não há recompensa de mitsvá neste mundo" (Kidushin 39b), provada pelo caso do menino que morre obedecendo o pai e enviando a mãe-ave (ambos mandamentos cuja recompensa é "que te seja bom e se alonguem os dias"): "para que te seja bom — no mundo todo bom; e se alonguem os dias — no mundo todo longo". Mas a versão filosófica dessa posição (a perfeição é só a intelecção abstrata após a morte) Albo critica duramente. Se a alma é mera preparação (hachaná), como subsiste? Preparação não é substância autônoma. E a teoria do "intelecto adquirido que se substancializa em seus inteligíveis e se funde com o Intelecto Agente" é "incompreensível". E se a perfeição dependesse da intelecção filosófica alcançada, "não a alcançaria um em mil, talvez nenhum homem" — a menos que se reduza aos "inteligíveis primeiros", e então "justo e ímpio se igualariam", o que ninguém jamais admitiu.
Aqui está a contribuição central, e profundamente anti-intelectualista, de Albo. A alma é uma substância espiritual (etzem ruchani) que subsiste por si mesma, "preparada para a intelecção voltada ao serviço de D'us — e não para a intelecção apenas". A consequência é democratizante e revolucionária: a salvação não depende de filosofia, mas de serviço. Por isso "desde quando a criancinha merece o mundo vindouro? Desde que sabe dizer 'amém'" (Sanhedrin 110b) — o ato mais ínfimo de serviço já confere "algum grau do mundo vindouro" (ecoando o cap. 29 do Maamar III). E a prova decisiva da alma-substância: "o mundo só se mantém pelo hálito das criancinhas da casa do mestre"; quando Rav Papa pergunta "e o nosso hálito de estudo, que é?", Abaye responde: "não se compara o hálito sem pecado ao hálito com pecado". Se a alma fosse mera preparação intelectual, as crianças (de pouca intelecção) não poderiam superar Abaye e Rava (de imensa erudição). A verdade: "o grau da alma é conforme a medida da sua limpeza junto com o serviço", não conforme o conhecimento acumulado. Daí Moisés ansiar por entrar na Terra — não para "obter inteligíveis" (já os tinha), mas para cumprir mandamentos em ato, "que é o serviço que dá perfeição e subsistência à alma".
Albo lê a célebre controvérsia (Eruvin 13b) — "cômodo ao homem não ter sido criado / ter sido criado" — como sendo sobre a natureza da alma: quem diz "melhor ter sido criado" supõe a alma como faculdade hilética (toda existência é ganho, e pode subir pela intelecção); quem diz "melhor não ter sido criado" supõe a alma como substância eterna (que, criada no corpo, arrisca a corrupção ou o castigo terrível). A conclusão talmúdica — "melhor não ter sido criado, e agora que foi, esquadrinhe seus atos" — confirma, para Albo, a tese da alma-substância (e Ecl 4:3, "melhor que ambos quem ainda não foi", só faz sentido se a alma é substância, pois o não-ser não poderia ser "melhor" que a existência boa de Gn 1:31). Dessa premissa correta os cabalistas derivaram o guilgul (transmigração): se a alma-substância entra num corpo, poderia reentrar noutro. Albo rejeita: a alma já dotada de livre-arbítrio não teria por que retornar (a "gota seminal" não está mais apta a recebê-la), "e o mais distante de tudo" é dizer que almas humanas transmigram em animais — encerrando com o cauteloso "e o Senhor sabe". A quarta opinião, a da Torá, é a síntese: recompensa corpórea neste mundo (as promessas materiais aos patriarcas) e espiritual no vindouro (Sifrei a Dt 11:21: "que se multipliquem os vossos dias — neste mundo; dos vossos filhos — nos dias do Messias; como os dias dos céus — no mundo vindouro"). Estabelecida a existência de ambas, os próximos capítulos detalharão a natureza de cada uma.
Sobre o galardão espiritual que chega à alma após a morte, os sábios posteriores dividiram-se em duas opiniões. A de Maimônides: o galardão essencial é da alma só no mundo vindouro ("sem comida nem bebida... os justos sentados e suas coroas nas cabeças, deleitando-se do brilho da Presença"); a ressurreição é um bem corpóreo nos dias do Messias, mas os ressuscitados morrem de novo. E a de Nachmânides e Ramah: o galardão é de corpo e alma juntos, após a ressurreição. Albo expõe ambas, e critica detidamente a segunda.
Sobre o galardão espiritual que chega à alma após a morte, os sábios posteriores dividiram-se em duas opiniões. A de Maimônides: o galardão essencial é da alma só no mundo vindouro ("sem comida nem bebida... os justos sentados e suas coroas nas cabeças, deleitando-se do brilho da Presença"); a ressurreição é um bem corpóreo nos dias do Messias, mas os ressuscitados morrem de novo. E a de Nachmânides e Ramah: o galardão é de corpo e alma juntos, após a ressurreição. Albo expõe ambas, e critica detidamente a segunda.
1 No galardão espiritual