פִּרְקֵי דְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר
Pirkei DeRabbi Eliezer
Capitulos de Rabi Eliezer — tradução bilíngue do hebraico
Dvar Torah Israel · dvartorahisrael.com

Sumario

  1. 1 Os primeiros passos de Rabi Eliezer פֶּרֶק א׳
  2. 2 Rabi Eliezer e seus irmãos פֶּרֶק ב׳
  3. 3 Antes do mundo e o primeiro dia da criação פֶּרֶק ג׳
  4. 4 A obra do segundo dia: os anjos e o Trono da Glória פֶּרֶק ד׳
  5. 5 A obra do terceiro dia: as águas, o mar e a chuva פֶּרֶק ה׳
  6. 6 A obra do quarto dia: os luzeiros, os planetas e o grande ciclo do sol פֶּרֶק ו׳
  7. 7 O curso da lua: o molad, o ciclo e o calendário de Israel פֶּרֶק ז׳
  8. 8 O segredo da intercalação: a corrente da tradição do tempo פֶּרֶק ח׳
  9. 9 As maravilhas do quinto dia: as águas, os seres e o Leviatã פֶּרֶק ט׳
  10. 10 A história de Yoná: a fuga, o grande peixe e a teshuvá das profundezas פֶּרֶק י׳
  11. 11 A obra do sexto dia: a criação do homem e os dez reis פֶּרֶק י״א
  12. 12 Adam no Paraíso: a obra do Éden, a mulher e o primeiro casamento פֶּרֶק י״ב
  13. 13 A serpente no Paraíso: a inveja, o desejo e a queda פֶּרֶק י״ג
  14. 14 O pecado de Adam e Chavá: o julgamento e as consequências פֶּרֶק י״ד
  15. 15 Os dois caminhos: a vida e a morte, a tzedaká e o chesed פֶּרֶק ט״ו
  16. 16 O serviço da bondade: gemilut chassadim e os noivos פֶּרֶק ט״ז
  17. 17 A bondade aos enlutados: chesed shel emet פֶּרֶק י״ז
  18. 18 O Shabat: o descanso, o sinal e o dia escolhido פֶּרֶק י״ח
  19. 19 O crepúsculo da criação e o cântico do Shabat פֶּרֶק י״ט
  20. 20 A penitência de Adam: a Havdalá e a teshuvá פֶּרֶק כ׳
  21. 21 Caim e Hevel: a primeira oferenda e o primeiro sangue פֶּרֶק כ״א
  22. 22 A geração do dilúvio: a corrupção e o aviso de Noach פֶּרֶק כ״ב
  23. 23 A arca e o dilúvio: o aviso, o refúgio e o arco-íris פֶּרֶק כ״ג
  24. 24 Nimrod e a Torre de Bavel: a rebelião e a escolha de Avraham פֶּרֶק כ״ד
  25. 25 O pecado de Sodoma: a riqueza sem bondade פֶּרֶק כ״ה
  26. 26 As provações de Avraham: a fé que se mantém firme פֶּרֶק כ״ו
  27. 27 A guerra dos reis: o resgate de Lot e o escudo de Avraham פֶּרֶק כ״ז
  28. 28 A Aliança entre as Partes: os impérios e a luz ao entardecer פֶּרֶק כ״ח
  29. 29 A circuncisão: a aliança na carne e no coração פֶּרֶק כִּ״ט
  30. 30 A partida de Hagar e Yishmael: a separação e o amor que permanece פֶּרֶק ל׳
  31. 31 A Ligação de Yitzchak (Akedat Yitzchak): a prova suprema פֶּרֶק ל״א
  32. 32 Os nomes anunciados e a bênção de Yaakov פֶּרֶק ל״ב
  33. 33 O poder da tzedacá e a ressurreição dos mortos פֶּרֶק ל״ג
  34. 34 A alma, a morte e o mundo vindouro פֶּרֶק ל״ד
  35. 35 A escada de Yaakov: o sonho em Beit El e a Pedra Fundamental פֶּרֶק ל״ה
  36. 36 Yaakov e Lavan: o nascimento das tribos e as alianças dos pais פֶּרֶק ל״ו
  37. 37 A luta de Yaakov e o reencontro com Esav פֶּרֶק ל״ז
  38. 38 Diná, a venda de Yossef e a força do cherem פֶּרֶק ל״ח
  39. 39 A descida ao Egito e a sabedoria de Yossef פֶּרֶק ל״ט
  40. 40 Moshé e a sarça ardente: o chamado e o Nome פֶּרֶק מ׳
  41. 41 A entrega da Torá no Sinai פֶּרֶק מ״א
  42. 42 A travessia do Mar Vermelho e o Cântico פֶּרֶק מ״ב
  43. 43 O poder da teshuvá (o arrependimento) פֶּרֶק מ״ג
  44. 44 Amalek: o ataque aos fracos e a guerra contra o mal פֶּרֶק מ״ד
  45. 45 O bezerro de ouro פֶּרֶק מ״ה
  46. 46 As segundas tábuas e o Yom Kipur do perdão פֶּרֶק מ״ו
  47. 47 O pecado de Baal Peor e o zelo de Pinchas פֶּרֶק מ״ז
  48. 48 A escravidão no Egito e os segredos da redenção פֶּרֶק מ״ח
  49. 49 De Agag a Haman: as raízes da história de Purim פֶּרֶק מ״ט
  50. 50 A reviravolta de Purim: a queda de Haman e a mão oculta פֶּרֶק נ׳
  51. 51 Céus novos e terra nova: a renovação do mundo vindouro פֶּרֶק נ״א
  52. 52 Os sete grandes prodígios da história פֶּרֶק נ״ב
  53. 53 O peso das palavras: a maledicência e o fogo פֶּרֶק נ״ג
  54. 54 A serpente de bronze e o coração voltado ao Céu פֶּרֶק נ״ד
Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 1

Os primeiros passos de Rabi Eliezer

פֶּרֶק א׳

A obra abre não com a criação do mundo, mas com uma história humana: como um homem de 28 anos, que nunca estudara, tornou-se um dos maiores sábios de Israel — movido apenas pelo desejo de aprender.

1
Aconteceu com Rabi Eliezer ben Hyrcanos: seu pai tinha lavradores que aravam sobre a terra plana, e ele arava num terreno pedregoso. Sentou-se e chorava. Disse-lhe o pai: "Por que choras? Acaso te afliges por arares no pedregal? Pois agora ararás na terra plana." Foi arar na terra plana, e chorava. Disse-lhe: "Por que choras? Acaso te afliges por arares na terra plana?" Respondeu: "Não." "Então por que choras?" Disse: "Porque desejo aprender Torá." Disse-lhe: "Mas já tens vinte e oito anos, e queres aprender Torá? Antes, toma uma esposa, gera filhos, e tu os levarás à escola." Passou duas semanas sem provar alimento, até que se lhe revelou Eliyahu — de boa memória — e lhe disse: "Ben Hyrcanos, por que choras?" Respondeu: "Porque desejo aprender Torá." Disse-lhe: "Se desejas aprender Torá, sobe a Jerusalém, ao encontro de Rabban Yochanan ben Zakai." Levantou-se e foi a Rabban Yochanan ben Zakai. Sentou-se e chorava. Disse-lhe: "Por que choras?" Respondeu: "Porque desejo aprender Torá." Disse-lhe: "De quem és filho?" E ele não lhe contou.
מַעֲשֶׂה בְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן הוֹרְקְנוֹס, שֶׁהָיוּ לְאָבִיו חוֹרְשִׁים וְהָיוּ חוֹרְשִׁים עַל גַּבֵּי הַמַּעֲנָה, וְהוּא הָיָה חוֹרֵשׁ בַּטְּרָשִׁין. יָשַׁב לוֹ וְהָיָה בּוֹכֶה. אָמַר לוֹ אָבִיו, ״מִפְּנֵי מָה אַתָּה בּוֹכֶה? שֶׁמָּא מִצְטַעֵר אַתָּה שֶׁאַתָּה חוֹרֵשׁ בַּטְּרָשִׁין? עַכְשָׁו אַתָּה חוֹרֵשׁ עַל גַּבֵּי הַמַּעֲנָה״. יָשַׁב לוֹ עַל גַּבֵּי הַמַּעֲנָה וְהָיָה בּוֹכֶה. אָמַר לוֹ, ״מִפְּנֵי מָה אַתָּה בּוֹכֶה? שֶׁמָּא מִצְטַעֵר אַתָּה שֶׁאַתָּה חוֹרֵשׁ עַל גַּבֵּי הַמַּעֲנָה?״ אָמַר לוֹ, ״לָאו״. ״וְלָמָּה אַתְּ בּוֹכֶה?״ אָמַר לוֹ, ״שֶׁאֲנִי מְבַקֵּשׁ לִלְמֹד תּוֹרָה״. אָמַר לוֹ, ״וַהֲלֹא בֶּן עֶשְׂרִים וּשְׁמוֹנֶה שָׁנִים אַתָּה, וְאַתָּה מְבַקֵּשׁ לִלְמֹד תּוֹרָה? אֶלָּא קַח לְךָ אִשָּׁה וְתוֹלִיד לְךָ בָּנִים וְאַתָּה מוֹלִיכָן לְבֵית הַסֵּפֶר״. עָשָׂה שְׁתֵּי שַׁבָּתוֹת וְלֹא טָעַם כְּלוּם עַד שֶׁנִּגְלָה לוֹ אֵלִיָּהוּ זָכוּר לַטּוֹב, וְאָמַר לוֹ, ״בֶּן הוֹרְקְנוֹס, לָמָּה אַתָּה בּוֹכֶה?״ אָמַר לוֹ, ״מִפְּנֵי שֶׁאֲנִי מְבַקֵּשׁ לִלְמֹד תּוֹרָה״. אָמַר לוֹ, ״אִם אַתָּה מְבַקֵּשׁ לִלְמֹד תּוֹרָה, עֲלֵה לִירוּשָׁלַיִם אֵצֶל רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי״. עָמַד וְהָלַךְ אֵצֶל רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי. יָשַׁב לוֹ וְהָיָה בּוֹכֶה. אָמַר לוֹ, ״מִפְּנֵי מָה אַתָּה בּוֹכֶה?״ אָמַר לוֹ, ״מִפְּנֵי שֶׁאֲנִי מְבַקֵּשׁ לִלְמֹד תּוֹרָה״. אָמַר לוֹ, ״בֶּן מִי אַתָּה?״ וְלֹא הִגִּיד לוֹ.
Nota. Eliyahu, de boa memória (Eliyahu zachur latov) é o profeta Elias, que na aggadá aparece para guiar quem busca o caminho certo. Note também o detalhe central: Eliezer já tinha 28 anos e jamais estudara — a obra começa justamente afirmando que nunca é tarde para começar a Torá.
2
Disse-lhe Rabban Yochanan: "Em todos os teus dias, nunca aprendeste a leitura do Shemá, nem a Tefilá (oração), nem a Bênção após as refeições?" Respondeu: "Não." Disse-lhe: "Levanta-te, e eu te ensinarei as três." Sentou-se e chorava. Disse-lhe: "Meu filho, por que choras?" Respondeu: "Porque desejo aprender Torá." E ele lhe ensinava duas halachot a cada dia da semana, e Eliezer as revisava e as fixava. Passou oito dias sem provar alimento, até que o odor de sua boca subiu diante de Rabban Yochanan ben Zakai, que o fez afastar-se de diante de si. Sentou-se e chorava. Disse-lhe: "Por que choras?" Respondeu: "Porque me afastaste de diante de ti como quem afasta de si um leproso." Disse-lhe: "Meu filho, assim como subiu o odor da tua boca diante de mim, assim suba o odor dos estatutos da Torá da tua boca aos céus." Disse-lhe: "Meu filho, de quem és filho?" Respondeu: "Sou filho de Hyrcanos." Disse-lhe: "Mas tu és filho dos grandes do mundo — e não me contavas!" E acrescentou: "Por tua vida, hoje comerás comigo." Respondeu: "Já comi na casa onde me hospedo." Disse-lhe: "E quem te hospeda?" Respondeu: "Rabi Yehoshua ben Chananiá e Rabi Yossi haCohen."
אָמַר לוֹ: ״מִיָּמֶיךָ לֹא לָמַדְתָּ קְרִיאַת שְׁמַע וְלֹא תְפִלָּה וְלֹא בִּרְכַּת הַמָּזוֹן?״ אָמַר לוֹ: ״לָאו״. אָמַר לוֹ: ״עֲמֹד וַאֲלַמֶּדְךָ שְׁלָשְׁתָּן״. יָשַׁב וְהָיָה בּוֹכֶה. אָמַר לוֹ: ״בְּנִי, מִפְּנֵי מָה אַתָּה בּוֹכֶה?״ אָמַר לוֹ: ״שֶׁאֲנִי מְבַקֵּשׁ לִלְמֹד תּוֹרָה״. וְהָיָה אוֹמֵר לוֹ שְׁתֵּי הֲלָכוֹת כָּל יְמֵי הַשָּׁבוּעַ, וְהָיָה חוֹזֵר לוֹ עֲלֵיהֶן וּמְדַבְּקָן. עָשָׂה שְׁמוֹנָה יָמִים וְלֹא טָעַם כְּלוּם עַד שֶׁעָלָה רֵיחַ פִּיו לִפְנֵי רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי, וְהֶעֱמִידוֹ מִלְּפָנָיו. יָשַׁב וְהָיָה בּוֹכֶה. אָמַר לוֹ: ״מִפְּנֵי מָה אַתָּה בּוֹכֶה?״ אָמַר לוֹ: ״מִפְּנֵי שֶׁהֶעֱמַדְתָּנִי מִלְּפָנֶיךָ כְּאָדָם שֶׁמַּעֲמִיד מִלְּפָנָיו מֻכֵּה שְׁחִין״. אָמַר לוֹ: ״בְּנִי, כְּשֵׁם שֶׁעָלָה רֵיחַ פִּיךָ מִלְּפָנַי, כָּךְ יַעֲלֶה רֵיחַ חֻקֵּי תוֹרָה מִפִּיךָ לַשָּׁמַיִם״. אָמַר לוֹ: ״בְּנִי, בֶּן מִי אַתָּה?״ אָמַר לוֹ: ״בֶּן הוֹרְקְנוֹס אֲנִי״. אָמַר לוֹ: ״וַהֲלֹא בֶּן גְּדוֹלֵי עוֹלָם אַתָּה, וְלֹא הָיִיתָ מַגִּיד לִי!״ אָמַר לוֹ: ״חַיֶּיךָ, הַיּוֹם אַתָּה סוֹעֵד אֶצְלִי״. אָמַר לוֹ: ״כְּבָר סָעַדְתִּי אֵצֶל אַכְסַנְיָא שֶׁלִּי״. אָמַר לוֹ: ״וּמִי הוּא אַכְסַנְיָא שֶׁלְּךָ?״ אָמַר לוֹ: ״רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן חֲנַנְיָה, וְרַבִּי יוֹסֵי הַכֹּהֵן״.
Nota. A bênção de Rabban Yochanan — "assim suba o odor dos estatutos da Torá da tua boca aos céus" — soa quase profética: aquele jovem faminto e envergonhado viria a ser Rabi Eliezer "o Grande", um dos pilares da Mishná. O jejum de oito dias mostra a intensidade do seu anseio: ele não percebia a fome diante da sede de Torá.
3
Rabban Yochanan mandou perguntar aos que o hospedavam: "Eliezer comeu hoje convosco?" Responderam: "Não. E eis que já faz oito dias que ele nada provou." Depois disso, Rabi Yehoshua ben Chananiá e Rabi Yossi haCohen foram e disseram a Rabban Yochanan ben Zakai: "De fato, já faz oito dias que ele nada provou."
שָׁלַח וְשָׁאַל לְאַכְסַנְיָא שֶׁלּוֹ, אָמַר לָהֶם: ״אֶצְלְכֶם סָעַד אֱלִיעֶזֶר הַיּוֹם?״ אָמְרוּ לוֹ: ״לָאו. וַהֲלֹא יֵשׁ לוֹ שְׁמוֹנָה יָמִים שֶׁלֹּא טָעַם כְּלוּם״. אַחֲרֵי כֵן הָלְכוּ רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן חֲנַנְיָה וְרַבִּי יוֹסֵי הַכֹּהֵן וְאָמְרוּ לוֹ לְרַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי: ״וַהֲלֹא יֵשׁ לוֹ שְׁמוֹנָה יָמִים שֶׁלֹּא טָעַם כְּלוּם״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

O livro poderia ter começado pela criação do mundo — e logo chegará a ela. Mas escolhe abrir com a biografia do seu mestre, e nisso já é um ensinamento: antes de qualquer cosmologia, vem a pergunta de como um ser humano se torna digno de receber a Torá.

Nunca é tarde — e a origem não basta

Os comentadores destacam dois pontos. Primeiro, a idade: Eliezer já tinha 28 anos, era analfabeto nas próprias bênçãos básicas, e ainda assim subiu ao topo. O começo tardio não foi obstáculo; o desejo, sim, foi o motor. Segundo, a linhagem: ele era "filho dos grandes do mundo" — homem rico —, mas a riqueza e o nome do pai não lhe davam Torá. Ele teve de conquistá-la pela fome, pela vergonha e pela perseverança. A Torá não se herda como um campo; adquire-se.

As lágrimas como força

Em todo o capítulo, Eliezer chora — e cada choro repete o mesmo motivo: "porque desejo aprender Torá". O Radal (Rabi David Luria), no clássico comentário a esta obra, lê esse anseio como a verdadeira raiz do seu futuro. O choro não é fraqueza: é a medida de quem sente que viver sem Torá é não viver. É esse mesmo anseio que, segundo a tradição (Avot deRabi Natan), fará dele "um poço que não perde uma gota" — a memória prodigiosa que preservou a tradição dos mestres.

A bênção que se cumpre

O ponto culminante é a bênção de Rabban Yochanan ben Zakai. Diante do jovem humilhado por dias de jejum, o mestre não vê o constrangimento — vê o futuro: "assim suba o odor dos estatutos da Torá da tua boca aos céus." Os sábios observam que o verdadeiro mestre enxerga a grandeza oculta no aluno antes que ela apareça. Foi assim que o próprio Rabban Yochanan diria depois (Pirkei Avot 2:8) que Eliezer "pesa mais que todos os sábios de Israel".

O capítulo, então, é um pórtico moral: quem quiser entrar nas profundezas da criação e dos mistérios que virão a seguir começa por aqui — pela humildade, pela fome de aprender e pela coragem de recomeçar.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 2

Rabi Eliezer e seus irmãos

פֶּרֶק ב׳

O pai sobe a Jerusalém para deserdar o filho — e desce disposto a dar-lhe tudo. No meio, o poço que vira fonte e um rosto que brilha como o de Moshé.

1
Os filhos de Hyrcanos disseram ao seu pai: "Sobe a Jerusalém e faze voto de excluir teu filho Eliezer dos teus bens." Ele subiu a Jerusalém para deserdá-lo, e encontrou ali um dia de festa na casa de Rabban Yochanan ben Zakai. E todos os grandes da cidade estavam à mesa com ele: Ben Tzitzit haKeset, Nakdimon ben Gurion e Ben Kalba Savua.
אָמְרוּ בָּנָיו שֶׁל הוֹרְקְנוֹס לַאֲבִיהֶם: ״עֲלֵה לִירוּשָׁלַיִם וְנַדֵּה אֶת בִּנְךָ אֱלִיעֶזֶר מִנְּכָסֶיךָ״. וְעָלָה לִירוּשָׁלַיִם לְנַדּוֹתוֹ, וּמָצָא שָׁם יוֹם טוֹב לְרַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי. וְהָיוּ כָּל גְּדוֹלֵי הַמְּדִינָה סוֹעֲדִין אֶצְלוֹ: בֶּן צִיצִית הַכֶּסֶת, וְנַקְדִּימוֹן בֶּן גּוּרְיוֹן, וּבֶן כַּלְבָּא שָׂבוּעַ.
2
E por que se chamava Ben Tzitzit haKeset? Porque se reclinava à mesa acima dos grandes de Jerusalém. Diziam de Nakdimon ben Gurion que tinha provisão de três seás de farinha para cada habitante de Jerusalém; e de Ben Kalba Savua, que possuía terras tão vastas que a sua riqueza "se moía com ouro". Disseram a Rabban Yochanan: "Eis que chegou o pai de Rabi Eliezer." Disse-lhes: "Fazei-lhe lugar", e abriram-lhe lugar e o sentaram junto a si. Rabban Yochanan pôs os olhos em Rabi Eliezer e lhe disse: "Dize-nos uma palavra de Torá." Respondeu-lhe: "Rabi, dou-te uma parábola: a que se assemelha isto? A um poço, que não pode dar mais água do que a que nele foi posta. Assim, não posso dizer palavras de Torá além do que recebi de ti."
וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ בֶּן צִיצִית הַכֶּסֶת? שֶׁהָיָה מֵסֵב לְמַעְלָה מִגְּדוֹלֵי יְרוּשָׁלַיִם. אָמְרוּ עַל נַקְדִּימוֹן בֶּן גּוּרְיוֹן, שֶׁהָיָה לוֹ מָזוֹן שְׁלשָׁה סְאִים קֶמַח לְכָל אֶחָד וְאֶחָד שֶׁהָיוּ בִּירוּשָׁלַיִם. אָמְרוּ עָלָיו עַל בֶּן כַּלְבָּא שָׂבוּעַ, שֶׁהָיָה לוֹ בַּיִת אַרְבַּע כּוֹרִין שֶׁל גַּנּוֹת טוֹחֲנִין בְּזָהָב. אָמְרוּ לוֹ, ״הֲרֵי אָבִיו שֶׁל רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בָּא״. אָמַר לָהֶם, ״עֲשׂוּ לוֹ מָקוֹם״, וְעָשׂוּ לוֹ מָקוֹם וְהוֹשִׁיבוּ אוֹתוֹ אֶצְלוֹ. וְנָתַן עֵינָיו בְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר, אָמַר לוֹ, ״אֱמֹר לָנוּ דָּבָר אֶחָד מֵהַתּוֹרָה״. אָמַר לוֹ, ״רַבִּי, אֶמְשֹׁל לְךָ מָשָׁל, לְמָה הַדָּבָר דּוֹמֶה? לַבּוֹר הַזֶּה שֶׁאֵינוֹ יָכוֹל לְהוֹצִיא מַיִם יוֹתֵר מִמַּה שֶּׁהָיָה מוֹצִיא. כָּךְ אֲנִי אֵינִי יָכוֹל לוֹמַר דִּבְרֵי תוֹרָה יוֹתֵר מִמַּה שֶּׁקִּבַּלְתִּי מִמְּךָ״.
Nota. Ben Tzitzit haKeset, Nakdimon ben Gurion e Ben Kalba Savua eram os três homens mais ricos de Jerusalém (lembrados também no Talmud, Guitín 56a). A obra os coloca à mesa de propósito: ao lado de toda essa fortuna, o que a história vai exaltar é outra riqueza — a Torá de Eliezer. E note a humildade dele: compara-se a um poço, que só devolve o que recebeu.
3
Disse-lhe Rabban Yochanan: "Também eu te dou uma parábola: a que se assemelha isto? A uma fonte, que jorra e faz brotar água, e tem força para fazer sair mais água do que a que nela entra. Assim, tu podes dizer palavras de Torá além do que se recebeu no Sinai." Disse-lhe: "Acaso te envergonhas de mim? Eis que me levanto e me afasto de ti." Rabban Yochanan levantou-se e saiu para fora; e Rabi Eliezer ficou sentado, expondo, e o seu rosto resplandecia como a luz do sol, e dele saíam raios como os raios do rosto de Moshé, e ninguém sabia se era dia ou se era noite. Veio Rabban Yochanan por trás dele e o beijou na cabeça, dizendo: "Felizes sois, Avraham, Yitzchak e Yaakov, porque este saiu das vossas entranhas!"
אָמַר לוֹ: ״אֶמְשֹׁל לְךָ מָשָׁל. לְמָה הַדָּבָר דּוֹמֶה? לְמַעְיָן זֶה שֶׁהוּא נוֹבֵעַ וּמוֹצִיא מַיִם, וְיֵשׁ בְּכֹחוֹ לְהוֹצִיא מַיִם יוֹתֵר מִמַּה שֶּׁהוּא מַכְנִיס. כָּךְ אַתָּה יָכֹל לוֹמַר דִּבְרֵי תוֹרָה יוֹתֵר מִמַּה שֶּׁקִּבְּלוּ מִסִּינַי״. אָמַר לוֹ: ״שֶׁמָּא מִמֶּנִּי אַתָּה מִתְבַּיֵּשׁ? הֲרֵינִי עוֹמֵד מֵאֶצְלְךָ״. עָמַד רַבָּן יוֹחָנָן וְהָלַךְ לוֹ לַחוּץ, וְהָיָה רַבִּי אֱלִיעֶזֶר יוֹשֵׁב וְדוֹרֵשׁ וּפָנָיו מְאִירוֹת כְּאוֹר הַחַמָּה, וְקַרְנוֹתָיו יוֹצְאוֹת כְּקַרְנוֹתָיו שֶׁל מֹשֶׁה, וְאֵין אָדָם יוֹדֵעַ אִם יוֹם וְאִם לַיְלָה. בָּא רַבָּן יוֹחָנָן מֵאֲחוֹרָיו וּנְשָׁקוֹ עַל רֹאשׁוֹ. אָמַר לוֹ: ״אַשְׁרֵיכֶם אַבְרָהָם יִצְחָק וְיַעֲקֹב שֶׁיָּצָא זֶה מֵחֲלָצֵיכֶם״.
Nota. A virada das parábolas é o coração do capítulo: Eliezer se vê como poço (guarda o que recebe), e o mestre o corrige — ele é uma fonte (faz brotar mais do que recebeu). É o elogio que Rabban Yochanan lhe faz em Pirkei Avot (2:8), aqui em ação. E os "raios como os de Moshé" ecoam Shemot 34:29 (o rosto de Moshé que irradiava) — sinal de que a luz da Torá voltava a brilhar nele.
4
Disse Hyrcanos: "A quem ele falou assim?" Responderam-lhe: "A Eliezer, teu filho." Disse-lhes: "Não era assim que ele devia ter falado, mas: "Feliz sou eu, porque este saiu das minhas entranhas!"" Rabi Eliezer estava sentado, expondo, e o seu pai, de pé. Ao ver o pai de pé, perturbou-se e disse-lhe: "Pai, senta-te — não posso dizer palavras de Torá enquanto estás de pé." Disse-lhe o pai: "Meu filho, não foi para isto que vim, mas para deserdar-te dos meus bens. Agora, porém, que vim ver-te e vi todo este louvor, eis que os teus irmãos ficam excluídos deles, e eles são dados a ti como presente."
אָמַר הוֹרְקָנוֹס: ״לְמִי אָמַר כָּךְ?״ אָמְרוּ לוֹ: ״לֶאֱלִיעֶזֶר בִּנְךָ״. אָמַר לָהֶם: ״לֹא כָּךְ הָיָה לוֹ לוֹמַר, אֶלָּא 'אַשְׁרֵי אֲנִי שֶׁיָּצָא זֶה מֵחֲלָצַי'״. הָיָה רַבִּי אֱלִיעֶזֶר יוֹשֵׁב וְדוֹרֵשׁ, וְאָבִיו עוֹמֵד עַל רַגְלָיו. כֵּיוָן שֶׁרָאָה אָבִיו עוֹמֵד עַל רַגְלָיו, נִבְהַל. אָמַר לוֹ: ״אַבָּא, שֵׁב, שֶׁאֵינִי יָכוֹל לוֹמַר דִּבְרֵי תוֹרָה וְאַתָּה עוֹמֵד עַל רַגְלֶיךָ״. אָמַר לוֹ: ״בְּנִי, לֹא עַל כָּךְ בָּאתִי, אֶלָּא לְנַדּוֹתְךָ מִנְּכָסַי. וְעַתָּה שֶׁבָּאתִי לִרְאוֹתְךָ וְרָאִיתִי כָּל הַשֶּׁבַח הַזֶּה, הֲרֵי אַחֶיךָ מְנֻדִּים מֵהֶם, וְהֵם נְתוּנִים לְךָ בְּמַתָּנָה״.
5
Respondeu-lhe Eliezer: "Mas eu não valho mais do que um deles. Se eu tivesse pedido terras diante do Santo, bendito seja, Ele poderia dá-las, como está dito: "Do Eterno é a terra e a sua plenitude, o mundo e os que nele habitam" (Tehilim 24:1). E se eu tivesse pedido prata e ouro, Ele mos daria, como está dito: "Minha é a prata e meu é o ouro, diz o Eterno dos Exércitos" (Chagai 2:8). Mas eu não pedi diante do Santo, bendito seja, senão Torá, apenas, como está dito: "Por isso considero retos todos os Teus preceitos; todo caminho de falsidade eu odeio" (Tehilim 119:128)."
אָמַר לוֹ: ״וַהֲרֵי אֲנִי אֵינִי שָׁוֶה כְּאֶחָד מֵהֶם. אִלּוּ קַרְקָעוֹת בִּקַּשְׁתִּי מִלִּפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, הָיָה לְפָנָיו לִתֵּן לִי, שֶׁנֶּאֱמַר: 'לַה' הָאָרֶץ וּמְלוֹאָהּ תֵּבֵל וְיֹשְׁבֵי בָהּ'. וְאִלּוּ כֶּסֶף וְזָהָב בִּקַּשְׁתִּי, הָיָה נוֹתֵן לִי, שֶׁנֶּאֱמַר: 'לִי הַכֶּסֶף וְלִי הַזָּהָב נְאֻם ה' צְבָאוֹת'. אֶלָּא לֹא בִקַּשְׁתִּי מִלִּפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶלָּא תּוֹרָה בִּלְבַד, שֶׁנֶּאֱמַר: 'עַל כֵּן כָּל פִּקּוּדֵי כֹל יִשָּׁרְתִּי כָּל אֹרַח שֶׁקֶר שָׂנֵאתִי'״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

O poço e a fonte

O centro do capítulo são as duas parábolas. Eliezer, humilde, vê-se como um poço — um reservatório que só pode devolver a água que recebeu. Rabban Yochanan o corrige: ele é uma fonte, que faz brotar mais do que entra nela. Os comentadores (entre eles o Radal) observam que essa é a definição do verdadeiro estudioso: não um repetidor, mas alguém que, a partir do que recebeu, gera entendimento novo — "palavras de Torá além do que se recebeu no Sinai", isto é, o chidush, a renovação fiel que já estava contida na raiz da tradição.

É o mesmo elogio que Rabban Yochanan ben Zakai faz a Eliezer em Pirkei Avot (2:8): "um poço calafetado que não perde uma gota". Aqui vemos como esse poço, sem nunca perder o que recebeu, tornou-se também fonte.

O rosto que brilha como o de Moshé

Quando Eliezer expõe, "o seu rosto brilhava como a luz do sol, e dele saíam raios como os de Moshé". A imagem evoca diretamente Shemot 34:29, o rosto de Moshé que irradiava ao descer do Sinai. A tradição lê isto como sinal de que a luz da Torá, transmitida de mestre a discípulo, é a mesma luz do Sinai — e que o estudo sincero faz o rosto do homem refletir o divino.

A verdadeira herança

O contraste percorre todo o capítulo: à mesa estão os homens mais ricos de Jerusalém; o pai vem para deserdar Eliezer e acaba querendo dar-lhe tudo. Mas Eliezer recusa o privilégio — pede apenas uma parte igual à dos irmãos — e declara que do Céu jamais pediu terras nem ouro, mas só Torá. Os sábios veem nisso o ensinamento de que a Torá é a única herança que não se pode tirar nem comprar: quem a possui já é o mais rico, mesmo de mãos vazias. Assim, o que começou com lágrimas (capítulo 1) culmina em luz — e o filho deserdado torna-se a verdadeira glória da casa.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 3

Antes do mundo e o primeiro dia da criação

פֶּרֶק ג׳

Aqui começa a obra da criação. E a primeira lição é surpreendente: antes mesmo do mundo, o que tornou possível a sua existência foi a teshuvá — a possibilidade do retorno.

1
Rabi Eliezer ben Hyrcanos abriu o seu discurso: "Quem pode narrar os feitos poderosos do Eterno, fazer ouvir todo o Seu louvor?" (Tehilim 106:2). Acaso há homem no mundo que possa narrar a força do Santo, bendito seja, ou fazer ouvir todo o Seu louvor? Nem mesmo os anjos do serviço conseguem contar senão uma parte das Suas potências! Cabe-nos, porém, expor o que Ele fez e o que há de fazer, para que se exalte o Nome do Santo, bendito seja, nas criaturas que criou de uma ponta à outra do mundo, como está dito: "Geração a geração louvará as Tuas obras" (Tehilim 145:4).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן הוֹרְקָנוֹס פָּתַח: ״מִי יְמַלֵּל גְּבוּרוֹת ה' יַשְׁמִיעַ כָּל תְּהִלָּתוֹ״. וְכִי יֵשׁ אָדָם בָּעוֹלָם שֶׁהוּא יָכוֹל לְמַלֵּל גְּבוּרָתוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, אוֹ לְהַשְׁמִיעַ כָּל תְּהִלָּתוֹ? אֲפִלּוּ מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת אֵינָן יְכוֹלִים לְסַפֵּר אֶלָּא מִקְצָת גְּבוּרוֹתָיו! וְיֵשׁ לָנוּ לִדְרֹשׁ בְּמַה שֶּׁעָשָׂה וּבְמַה שֶּׁהוּא עָתִיד לַעֲשׂוֹת, לְמַעַן יִתְרוֹמֵם שְׁמוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בִּבְרִיּוֹתָיו שֶׁבָּרָא מִסּוֹף הָעוֹלָם וְעַד סוֹפוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״דּוֹר לְדוֹר יְשַׁבַּח מַעֲשֶׂיךָ״.
2
Antes que o mundo fosse criado, existiam apenas o Santo, bendito seja, e o Seu grande Nome. E subiu no pensamento criar o mundo; e Ele ia traçando o mundo diante de Si, mas este não se firmava. Deram uma parábola: a que se assemelha? A um rei que quer construir o seu palácio — se não traça antes no chão os fundamentos, as entradas e as saídas, não começa a construir. Assim, o Santo, bendito seja, traçou diante de Si o mundo, e ele não se firmava — até que criou a teshuvá.
עַד שֶׁלֹּא נִבְרָא הָעוֹלָם, הָיָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וּשְׁמוֹ הַגָּדוֹל בִּלְבַד, וְעָלָה בְּמַחֲשָׁבָה לִבְרֹא אֶת הָעוֹלָם, וְהָיָה מַחֲרִיט אֶת הָעוֹלָם לְפָנָיו וְלֹא הָיָה עוֹמֵד. מָשְׁלוּ מָשָׁל, לְמָה הַדָּבָר דּוֹמֶה? לְמֶלֶךְ שֶׁהוּא רוֹצֶה לִבְנוֹת פַּלְטֵרִים שֶׁלּוֹ, אִם אֵינוֹ מַחֲרִיט בָּאָרֶץ יְסוֹדוֹתָיו וּמוֹבָאָיו וּמוֹצָאָיו, אֵינוֹ מַתְחִיל לִבְנוֹת, כָּךְ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא הֶחֱרִיט לְפָנָיו אֶת הָעוֹלָם וְלֹא הָיָה עוֹמֵד עַד שֶׁבָּרָא אֶת הַתְּשׁוּבָה.
3
Sete coisas foram criadas antes que o mundo fosse criado, e são: a Torá, o Guehinom, o Gan Éden, o Trono da Glória, o Templo, a Teshuvá e o Nome do Mashiach.
שִׁבְעָה דְבָרִים נִבְרְאוּ עַד שֶׁלֹּא נִבְרָא הָעוֹלָם, וְאֵלּוּ הֵן: תּוֹרָה, וְגֵיהִנֹּם, וְגַן עֵדֶן, וְכִסֵּא הַכָּבוֹד, וּבֵית הַמִּקְדָּשׁ, וּתְשׁוּבָה, וּשְׁמוֹ שֶׁל מָשִׁיחַ.
Nota. "Criadas antes do mundo" não é uma cronologia física: a tradição (e o Radal, no comentário clássico a esta obra) lê isto como as finalidades para as quais o mundo existe — os seus fundamentos ideais. E é profundíssimo que a teshuvá esteja entre elas, e que "o mundo não se firmasse" sem ela: a realidade só se sustenta porque nela está embutida a possibilidade do retorno e do recomeço. Um mundo sem perdão não poderia durar.
4
De onde a Torá? "O Eterno me possuiu no princípio do Seu caminho, antes das Suas obras, desde então" (Mishlei 8:22) — "desde então", antes de o mundo ser criado. O Guehinom? "Pois desde ontem está preparado o Tófet" (Yeshayahu 30:33). O Gan Éden? "Plantou o Eterno D'us um jardim no Éden, desde o oriente" (Bereshit 2:8). O Trono da Glória? "Firme está o Teu trono desde então" (Tehilim 93:2). O Templo? "Trono de glória, exaltado desde o princípio" (Yirmiyahu 17:12). A Teshuvá? "Antes que nascessem os montes... fazes o homem voltar à contrição" (Tehilim 90:2–3). O Nome do Mashiach? "Antes do sol, o seu nome se perpetua" (Tehilim 72:17); e "tu, Belém Efrata... as suas origens são desde o princípio" (Michá 5:1).
תּוֹרָה מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״ה' קָנָנִי רֵאשִׁית דַּרְכּוֹ קֶדֶם מִפְעָלָיו מֵאָז״. גֵּיהִנֹּם מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי עָרוּךְ מֵאֶתְמוּל תָּפְתֶּה״. גַּן עֵדֶן מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּטַּע ה' אֱלֹהִים גַּן בְּעֵדֶן מִקֶּדֶם״. כִּסֵּא הַכָּבוֹד מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״נָכוֹן כִּסְאֲךָ מֵאָז״. בֵּית הַמִּקְדָּשׁ מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּסֵּא כָבוֹד מָרוֹם מֵרִאשׁוֹן״. תְּשׁוּבָה מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּטֶרֶם הָרִים יֻלָּדוּ״ וּכְתִיב ״תָּשֵׁב אֱנוֹשׁ עַד דַּכָּא״. שְׁמוֹ שֶׁל מָשִׁיחַ מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״לִפְנֵי שֶׁמֶשׁ יִנּוֹן שְׁמוֹ״, וְכָתוּב: ״וְאַתָּה בֵּית לֶחֶם אֶפְרָתָה... וּמוֹצָאֹתָיו מִקֶּדֶם״.
5
Imediatamente, o Santo, bendito seja, tomou conselho com a Torá — cujo nome é "Tushiyah" — para criar o mundo. Ela Lhe respondeu: "Senhor dos mundos! Se não há exército nem acampamento para o rei, sobre o que ele reina? E se não há povo que aclame o rei, onde está a sua honra?" Ouviu o Senhor do mundo, e a resposta Lhe foi agradável. Daqui disseram os sábios: todo reino que não tem conselheiros não é reino. E de onde aprendemos? Do reino da casa de David, que tinha conselheiros... "e a salvação está na multidão de conselheiros" (Mishlei 11:14).
מִיָּד נִתְיַעֵץ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בַּתּוֹרָה שֶׁשְּׁמָהּ תּוּשִׁיָּה לִבְרֹא אֶת הָעוֹלָם. הֵשִׁיבָה לוֹ וְאָמְרָה: רִבּוֹן הָעוֹלָמִים, אִם אֵין צָבָא וְאִם אֵין מַחֲנֶה לַמֶּלֶךְ – עַל מָה הוּא מוֹלֵךְ? וְאִם אֵין עַם מְקַלְּסִין לַמֶּלֶךְ אֵי זֶה הוּא כְּבוֹדוֹ? שָׁמַע אֲדוֹן הָעוֹלָם וְעָרַב לוֹ. מִכָּאן אָמְרוּ חֲכָמִים: כָּל מַלְכוּת שֶׁאֵין לָהּ יוֹעֲצִים, אֵין מַלְכוּתָהּ מַלְכוּת. וּמִנַּיִן אָנוּ לְמֵדִים? מִמַּלְכוּת בֵּית דָּוִד שֶׁהָיוּ לָהּ יוֹעֲצִים... ״וּתְשׁוּעָה בְּרֹב יוֹעֵץ״.
Nota. A "consulta" de D'us à Torá é uma imagem para dizer que o mundo foi criado com sabedoria e propósito — não ao acaso. E a resposta da Torá revela a finalidade da criação: um Rei que deseja um povo que O reconheça. A criação tem, desde a raiz, um sentido relacional.
6
Oito coisas foram criadas no primeiro dia: céus e terra, luz e treva, tohu e bohu, vento (rúach) e água — como está dito: "e o espírito de D'us pairava sobre a face das águas". Há quem diga: também dia e noite. E oito no segundo dia: o poço, o maná, o cajado, o arco-íris, a escrita, o estilo de escrever, a túnica e os mazikin. E dez coisas surgiram primeiro no pensamento: Jerusalém, os espíritos dos Patriarcas, os caminhos dos justos, o Guehinom, as águas do dilúvio, as segundas Tábuas, o Shabat, o Templo, a Arca, e a luz do mundo vindouro.
שְׁמוֹנָה דְבָרִים נִבְרְאוּ בַּיּוֹם רִאשׁוֹן, וְאֵלּוּ הֵן: שָׁמַיִם וָאָרֶץ, וְאוֹר, וְחֹשֶׁךְ, וְתֹהוּ וָבֹהוּ, וְרוּחַ וּמַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְרוּחַ אֱלֹהִים מְרַחֶפֶת עַל פְּנֵי הַמָּיִם״. וְיֵשׁ אוֹמְרִים אַף יוֹם וָלַיְלָה. וּשְׁמוֹנָה בַּיּוֹם הַשֵּׁנִי: הַבְּאֵר וְהַמָּן וְהַמַּטֶּה וְהַקֶּשֶׁת וְהַכְּתָב וְהַמִּכְתָּב וְהַכְּתֹנֶת וְהַמַּזִּיקִין. וַעֲשָׂרָה דְבָרִים עָלוּ בַמַּחֲשָׁבָה: יְרוּשָׁלַיִם וְרוּחוֹת אָבוֹת וְאָרְחוֹת הַצַּדִּיקִים וְגֵיהִנֹּם וּמֵי הַמַּבּוּל וְלוּחוֹת הַשְּׁנִיִּים, וְהַשַּׁבָּת וְהַמִּקְדָּשׁ וְהָאָרוֹן וְאוֹר לָעוֹלָם הַבָּא.
7
De onde foram criados os céus? Da luz da veste do Santo, bendito seja, de que Ele se reveste. Tomou dela e a estendeu como um manto, e os céus iam-se estendendo, até que lhes disse: "Basta (dai)!" — e por isso o Seu Nome é Shaddai, porque disse aos céus "basta" e eles pararam. E de onde se aprende? "Ele se cobre de luz como de um manto, estende os céus como uma cortina" (Tehilim 104:2).
שָׁמַיִם מֵאֵיזֶה מָקוֹם נִבְרְאוּ? מֵאוֹר לְבוּשׁוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שֶׁהוּא לָבוּשׁ. לָקַח מִמֶּנּוּ וּפָרַשׂ כַּשַּׂלְמָה וְהָיוּ מוֹתְחִין וְהוֹלְכִין עַד שֶׁאָמַר לָהֶם: דַּי, וְעַל כֵּן נִקְרָא שְׁמוֹ שַׁדַּי, שֶׁאָמַר לַשָּׁמַיִם דַּי וְעָמְדוּ. וּמִנַּיִן שֶׁמֵּאוֹר לְבוּשׁוֹ נִבְרָא? שֶׁנֶּאֱמַר: ״עֹטֶה אוֹר כַּשַּׂלְמָה נוֹטֶה שָׁמַיִם כַּיְרִיעָה״.
8
De onde foi criada a terra? Da neve que está sob o Trono da Glória: tomou-a e lançou-a sobre as águas, e as águas se congelaram e se fez o pó da terra, como está dito: "Pois à neve Ele diz: sê terra" (Iyov 37:6).
הָאָרֶץ מֵאֵיזֶה מָקוֹם נִבְרֵאת? מִשֶּׁלֶג שֶׁתַּחַת כִּסֵּא הַכָּבוֹד, לָקַח וְזָרַק עַל הַמַּיִם וְנִקְפְּאוּ הַמַּיִם וְנַעֲשָׂה עֲפַר הָאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי לַשֶּׁלֶג יֹאמַר הֱוֵא אָרֶץ״.
9–10
As águas do oceano situam-se entre as extremidades dos céus e as da terra, e as bordas dos céus estendem-se sobre essas águas, como está dito: "Ele cobre de águas as Suas câmaras altas" (Tehilim 104:3). E a abóbada dos céus eleva-se como a cúpula de uma tenda estendida — as pontas para baixo e o centro para cima —, e todos os homens habitam sob ela, como está dito: "e os estendeu como uma tenda para habitar" (Yeshayahu 40:22).
קַצְווֹת הַשָּׁמַיִם עַל מֵימֵי אוֹקְיָנוֹס הֵם אֲחוּזִים, שֶׁמֵּימֵי אוֹקְיָנוֹס עוֹמְדִין בֵּין קְצוֹת הַשָּׁמַיִם וּבֵין קְצוֹת הָאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר ״הַמְקָרֶה בַמַּיִם עֲלִיּוֹתָיו״. תֹּכֶן שֶׁל שָׁמַיִם עוֹלֶה לְמַעְלָה, הוּא כְּאֹהֶל פְּרוּשָׂה, קְצוֹתֶיהָ לְמַטָּה וְתוֹכָהּ לְמַעְלָה, וְכָל בְּנֵי אָדָם יוֹשְׁבִים תַּחְתֶּיהָ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּמְתָּחֵם כָּאֹהֶל לָשָׁבֶת״.
Nota. Os capítulos 7–10 descrevem a criação com a linguagem cosmológica da época (os céus tecidos da luz da "veste", a terra coalhada da neve, a abóbada como uma tenda). A tradição racionalista (na linha do Rambam) lê essas imagens da aggadá como metáforas que carregam ideias — não como astronomia literal. Veja, por exemplo, a explicação do Nome Shaddai ("Aquele que disse 'basta'"): o ponto não é física, mas teologia — D'us é quem põe medida e limite a tudo o que existe.
11
Quatro direções há no mundo: leste, oeste, sul e norte. Do leste sai a luz para o mundo. Do sul saem os orvalhos de bênção e as chuvas de bênção. Do oeste sai a treva. Do norte saem os tesouros da neve e do granizo, o frio, o calor e as chuvas. Outra interpretação: o canto do norte — D'us o criou e não o concluiu, dizendo: "Todo aquele que se disser um deus, venha e termine este canto que deixei — e saberão todos que ele é deus."
אַרְבַּע רוּחוֹת בָּעוֹלָם: מִזְרָח, מַעֲרָב, דָּרוֹם, צָפוֹן. רוּחַ הַמִּזְרָח – מִשָּׁם הָאוֹר יוֹצֵא לָעוֹלָם. רוּחַ הַדָּרוֹם – מִשָּׁם טַלְלֵי בְרָכָה וְגִשְׁמֵי בְרָכָה יוֹצְאִין. רוּחַ הַמַּעֲרָב – מִשָּׁם חֹשֶׁךְ יוֹצֵא. רוּחַ הַצָּפוֹן – מִשָּׁם אוֹצְרוֹת הַשֶּׁלֶג וְהַבָּרָד וְקֹר וָחֹם וּגְשָׁמִים. דָּבָר אַחֵר: רוּחַ הַצָּפוֹן – בָּרָא וְלֹא גְמָרוֹ. אָמַר: כָּל מִי שֶׁיֹּאמַר שֶׁהוּא אֱלוֹהַּ יָבוֹא וְיִגְמֹר אֶת הַפִּנָּה הַזֹּאת שֶׁהִנַּחְתִּי וְיֵדְעוּ הַכֹּל שֶׁהוּא אֱלוֹהַּ.
12
Com dez enunciados (maamarot) o mundo foi criado (Avot 5:1) — os dez "E disse D'us" do relato da criação. E com três atributos Ele o abrangeu: com sabedoria (chochmá), entendimento (tevuná) e conhecimento (da'at), como está dito: "O Eterno com sabedoria fundou a terra, firmou os céus com entendimento; pelo Seu conhecimento se fenderam os abismos" (Mishlei 3:19–20). Com os três foi feito o Mishkan (Shemot 31:3); com os três foi feito o Templo (1 Reis 7:14); e com os três será o Templo reconstruído no futuro (Mishlei 24:3).
בַּעֲשָׂרָה מַאֲמָרוֹת נִבְרָא הָעוֹלָם. וּבִשְׁלֹשָׁה כּוֹלְלוֹ, וְאֵלּוּ הֵן: בְּחָכְמָה, בִּתְבוּנָה וּבְדַעַת, שֶׁנֶּאֱמַר ״ה' בְּחָכְמָה יָסַד אָרֶץ כּוֹנֵן שָׁמַיִם בִּתְבוּנָה, בְּדַעְתּוֹ תְּהוֹמוֹת נִבְקָעוּ״. וּבִשְׁלָשְׁתָּן נַעֲשָׂה הַמִּשְׁכָּן, וּבִשְׁלָשְׁתָּן נַעֲשָׂה בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, וּבִשְׁלָשְׁתָּן עָתִיד לְהִבָּנוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר ״בְּחָכְמָה יִבָּנֶה בָּיִת וּבִתְבוּנָה יִתְכּוֹנָן וּבְדַעַת חֲדָרִים יִמָּלְאוּ״.
13
E com esses três atributos, no futuro, Ele dará três bons dons a Israel, como está dito: "Pois o Eterno dá sabedoria; da Sua boca vêm conhecimento e entendimento" (Mishlei 2:6). E os três, em dobro, foram dados ao Rei Mashiach, como está dito: "E repousará sobre ele o espírito do Eterno: espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de força, espírito de conhecimento e de temor do Eterno" (Yeshayahu 11:2).
וּבִשְׁלָשְׁתָּן עָתִיד לִיתֵּן שָׁלֹשׁ מַתָּנוֹת טוֹבוֹת לְיִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי ה' יִתֵּן חָכְמָה מִפִּיו דַּעַת וּתְבוּנָה״. וּשְׁלָשְׁתָּן כְּפוּלוֹת נִתְּנוּ לְמֶלֶךְ הַמָּשִׁיחַ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְנָחָה עָלָיו רוּחַ ה', רוּחַ חָכְמָה וּבִינָה, רוּחַ עֵצָה וּגְבוּרָה, רוּחַ דַּעַת וְיִרְאַת ה'״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A teshuvá antes do mundo

O ponto mais comentado deste capítulo é que o mundo "não se firmava" até que foi criada a teshuvá. Os sábios entendem: um mundo de seres livres, capazes de errar, só pode existir se já estiver inscrita nele a possibilidade do retorno. A teshuvá não é um remendo posterior — é uma condição da própria criação. Por isso ela figura entre as "sete coisas" que precedem o mundo: são as finalidades pelas quais tudo existe (Torá, justiça, redenção, a presença divina, o retorno).

Criado com sabedoria, não ao acaso

A parábola do rei que traça os fundamentos antes de construir, e a "consulta" à Torá, dizem a mesma coisa: o mundo foi feito com plano e propósito. O capítulo o sela na tríade chochmá–tevuná–da'at (sabedoria, entendimento, conhecimento) — as mesmas faculdades com que se ergueram o Tabernáculo e o Templo, e que serão dadas, em medida dobrada, ao Mashiach. A criação, o santuário e a redenção compartilham uma só estrutura: a da sabedoria.

Ler a aggadá em profundidade

As descrições físicas (os céus da luz da veste, a terra da neve, a tenda do firmamento, os "tesouros" nos quatro ventos) pertencem à aggadá. Na leitura racionalista — a do Rambam e, aqui, do Radal —, tais imagens não são lições de astronomia, mas véus de ideias: o nome Shaddai ("Aquele que diz 'basta'") ensina que D'us é a fonte da medida e do limite de tudo; o "canto inacabado" no norte é um desafio à pretensão humana de ser deus. Lê-las assim não é esvaziá-las — é honrá-las.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 4

A obra do segundo dia: os anjos e o Trono da Glória

פֶּרֶק ד׳

Um capítulo de "Maasê Merkavá" — a visão do mundo celestial. E o seu ápice surpreende: acima, os anjos louvam sem conhecer "o lugar da glória"; embaixo, Israel proclama o Shemá — e D'us responde.

1
No segundo dia, o Santo, bendito seja, criou o firmamento, os anjos, o fogo destinado à carne e ao sangue, e o fogo do Guehinom. Mas os céus e a terra não foram criados no primeiro dia ("No princípio criou D'us os céus e a terra" — Bereshit 1:1)? Que firmamento, então, foi criado no segundo dia? Rabi Eliezer diz: o firmamento que está sobre as cabeças das quatro Chayot, como está dito: "E a semelhança sobre as cabeças da Chayá era um firmamento, como o aspecto do gelo terrível" (Yechezkel 1:22). E o que é "como o aspecto do gelo terrível"? Como pedras preciosas e pérolas; e ele ilumina todos os céus como uma lâmpada numa casa, e como o sol que brilha em sua força ao meio-dia — "e com Ele mora a luz" (Daniel 2:22). E como ele, os justos hão de resplandecer no porvir: "os sábios resplandecerão como o resplendor do firmamento" (Daniel 12:3). E não fosse aquele firmamento, o mundo seria engolido pelas águas: pois acima há água e abaixo há água, e ele separa entre as águas superiores e as inferiores (Bereshit 1:6).
בַּשֵּׁנִי בָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת הָרָקִיעַ וְהַמַּלְאָכִים וְאִשּׁוֹ שֶׁל בָּשָׂר וָדָם וְאִשּׁוֹ שֶׁל גֵּיהִנֹּם. וַהֲלֹא הַשָּׁמַיִם וְהָאָרֶץ נִבְרְאוּ בַּיּוֹם רִאשׁוֹן, שֶׁנֶּאֱמַר ״בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ״. וְאֵי זֶה רָקִיעַ בָּרָא בַּיּוֹם שֵׁנִי? רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, רָקִיעַ שֶׁעַל רָאשֵׁי הַחַיּוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר ״וּדְמוּת עַל רָאשֵׁי הַחַיָּה רָקִיעַ כְּעֵין הַקֶּרַח הַנּוֹרָא״. וּמַה הוּא כְּעֵין הַקֶּרַח הַנּוֹרָא? כַּאֲבָנִים טוֹבוֹת וּמַרְגָּלִיּוֹת, וְהוּא מֵאִיר עַל כָּל הַשָּׁמַיִם כְּנֵר שֶׁהוּא בַּבַּיִת וְכַשֶּׁמֶשׁ שֶׁהוּא מֵאִיר בִּגְבוּרָתוֹ בַּצָּהֳרַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר ״וּנְהוֹרָא עִמֵּהּ שְׁרֵא״. וּכְמוֹתָן הַצַּדִּיקִים עֲתִידִין לְהָאִיר לֶעָתִיד לָבוֹא, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְהַמַּשְׂכִּלִים יַזְהִרוּ כְּזֹהַר הָרָקִיעַ״. וְאִלּוּלֵי הָרָקִיעַ הַהוּא הָיָה הָעוֹלָם נִבְלָע מִן הַמַּיִם, וְהוּא מַבְדִּיל בֵּין מַיִם הָעֶלְיוֹנִים לְמַיִם הַתַּחְתּוֹנִים.
2
E os anjos criados no segundo dia: quando são enviados pela Sua palavra, tornam-se ventos; e quando servem diante d'Ele, tornam-se de fogo, como está dito: "Faz dos ventos os Seus mensageiros, do fogo flamejante os Seus servidores" (Tehilim 104:4).
וְהַמַּלְאָכִים שֶׁנִּבְרְאוּ בַּיּוֹם הַשֵּׁנִי, כְּשֶׁהֵן נִשְׁלָחִין בִּדְבָרוֹ נַעֲשִׂין רוּחוֹת, וּכְשֶׁהֵן מְשָׁרְתִים לְפָנָיו נַעֲשִׂין שֶׁל אֵשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר ״עֹשֶׂה מַלְאָכָיו רוּחוֹת מְשָׁרְתָיו אֵשׁ לֹהֵט״.
Nota. Este capítulo é Maasê Merkavá — "a obra da Carruagem", a parte mais esotérica do pensamento judaico, baseada na visão de Yechezkel. A tradição racionalista (o Rambam, no Guia dos Perplexos, trata o tema como metafísica profunda) lê estas imagens como símbolos de realidades espirituais, não como descrição literal de uma "geografia celeste". Repare já no v. 2: os anjos são "ventos" e "fogo" — isto é, as forças e os mensageiros pelos quais D'us age, não criaturas materiais.
3
Quatro grupos de anjos do serviço louvam diante do Santo, bendito seja: o primeiro acampamento, de Michael, à Sua direita; o segundo, de Gabriel, à Sua esquerda; o terceiro, de Uriel, diante d'Ele; o quarto, de Rafael, atrás d'Ele — e a Shechiná no centro. Ele se assenta num trono alto e elevado; os aspectos da Sua glória, como o chashmal (Yechezkel 1:27); e os Seus olhos percorrem toda a terra. À Sua direita, vida; à esquerda, morte; um cetro de fogo na Sua mão; uma cortina (parochet) estendida diante d'Ele — e sete anjos, criados no princípio, servem dentro dela. Justiça e juízo (tzedek u-mishpat) são o fundamento do Seu trono; sete nuvens de glória o cercam; e o ofan, o galgal, o keruv e a chayá Lhe dão louvor. A forma do Seu trono é como uma safira, de quatro pés; e as quatro Chayot sagradas estão fixadas sobre cada pé — quatro faces e quatro asas para cada uma; e são os keruvim.
אַרְבַּע כִּתּוֹת שֶׁל מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת מְקַלְּסִין לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא. מַחֲנֶה רִאשׁוֹנָה שֶׁל מִיכָאֵל מִימִינוֹ, מַחֲנֶה שְׁנִיָּה שֶׁל גַּבְרִיאֵל עַל שְׂמֹאלוֹ, מַחֲנֶה שְׁלִישִׁית שֶׁל אוּרִיאֵל מִלְּפָנָיו, מַחֲנֶה רְבִיעִית שֶׁל רְפָאֵל מִלְּאַחֲרָיו, וּשְׁכִינָתוֹ בָּאֶמְצַע. וְהוּא יוֹשֵׁב עַל כִּסֵּא רָם וְנִשָּׂא, מַרְאוֹת כְּבוֹדוֹ כְּעֵין הַחַשְׁמַל, וְעֵינָיו מְשׁוֹטְטוֹת בְּכָל הָאָרֶץ, מִימִינוֹ חַיִּים וּמִשְּׂמֹאלוֹ מָוֶת, וְשֵׁבֶט שֶׁל אֵשׁ בְּיָדוֹ, וּפָרֹכֶת פְּרוּשָׂה לְפָנָיו, וְשִׁבְעָה מַלְאָכִים מְשָׁרְתִים לְפָנָיו לִפְנִים מִן הַפָּרֹכֶת. צֶדֶק וּמִשְׁפָּט מְכוֹן כִּסְאוֹ, שִׁבְעָה עַנְנֵי כָבוֹד סוֹבְבִים אוֹתוֹ, וְאוֹפַן וְגַלְגַּל וּכְרוּב וְחַיָּה נוֹתְנִין לְפָנָיו שֶׁבַח. וּדְמוּת כִּסְאוֹ כְּעֵין סַפִּיר שֶׁל אַרְבַּע רַגְלַיִם, וְאַרְבַּע חַיּוֹת הַקֹּדֶשׁ קְבוּעִים עַל כָּל רֶגֶל וָרֶגֶל, אַרְבַּע פָּנִים וְאַרְבַּע כְּנָפַיִם לְאֶחָד, וְהֵם הֵן הַכְּרוּבִים.
4
E quando fala para o leste, fala dentre os dois keruvim com a face de homem; quando fala para o sul, com a face de leão; quando fala para o oeste, com a face de boi; quando fala para o norte, com a face de águia.
וּכְשֶׁהוּא מְדַבֵּר פְּנֵי הַמִּזְרָח מְדַבֵּר מִבֵּין שְׁנֵי הַכְּרוּבִים פְּנֵי אָדָם. וּכְשֶׁהוּא מְדַבֵּר פְּנֵי הַדָּרוֹם מְדַבֵּר מִבֵּין שְׁנֵי הַכְּרוּבִים פְּנֵי אַרְיֵה. וּכְשֶׁהוּא מְדַבֵּר פְּנֵי הַמַּעֲרָב מְדַבֵּר מִבֵּין שְׁנֵי הַכְּרוּבִים פְּנֵי שׁוֹר. וּכְשֶׁהוּא מְדַבֵּר מִפְּנֵי הַצָּפוֹן מְדַבֵּר מִבֵּין שְׁנֵי הַכְּרוּבִים פְּנֵי נֶשֶׁר.
5
E defronte deles, os ofanim e as rodas da Merkavá. Quando Ele se assenta no trono alto e elevado e olha sobre a terra, as Suas carruagens estão sobre os ofanim; e do som do clamor das rodas da Merkavá, relâmpagos e trovões saem para o mundo. Quando está nos céus, cavalga sobre uma nuvem leve; e quando se apressa, plana "sobre as asas do vento", como está dito: "E cavalgou sobre um keruv e voou, e planou sobre as asas do vento" (Tehilim 18:11).
וּלְעֻמָּתָם הָאוֹפַנִּים וְגַלְגַּלֵּי מֶרְכָּבָה. וּכְשֶׁהוּא יוֹשֵׁב עַל כִּסֵּא רָם וְנִשָּׂא, וּכְשֶׁהוּא מַשְׁקִיף עַל הָאָרֶץ מַרְכְּבוֹתָיו עַל הָאוֹפַנִּים, וּמִקּוֹל זַעֲקַת גַּלְגַּלֵּי הַמֶּרְכָּבָה בְּרָקִים וּרְעָמִים יוֹצְאִין לָעוֹלָם. כְּשֶׁהוּא בַּשָּׁמַיִם רוֹכֵב עַל עָב קַל, וּכְשֶׁהוּא מְמַהֵר דּוֹאֶה עַל כַּנְפֵי רוּחַ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּרְכַּב עַל כְּרוּב וַיָּעֹף וַיֵּדֶא עַל כַּנְפֵי רוּחַ״.
6
E as Chayot estão junto ao trono da Sua glória, e não conhecem o lugar da Sua glória. Estão de pé em temor e pavor, em tremor e suor; e do suor das suas faces um rio de fogo se estende e sai diante d'Ele, como está dito: "um rio de fogo manava e saía de diante d'Ele" (Daniel 7:10). Dois serafim estão de pé — um à direita e um à esquerda; seis asas para cada um: com duas cobre a face, para não olhar a face da Shechiná; com duas cobre os pés; e com duas voa — e exaltam e santificam o Seu grande Nome, um respondendo ao outro, e dizem: "Santo, santo, santo é o Eterno dos Exércitos; toda a terra está cheia da Sua glória" (Yeshayahu 6:3).
וְהַחַיּוֹת עוֹמְדוֹת אֵצֶל כִּסֵּא כְבוֹדוֹ וְאֵין יוֹדְעוֹת מְקוֹם כְּבוֹדוֹ. עוֹמְדוֹת בְּיִרְאָה וּבְאֵימָה בְּרֶתֶת וּבְזִיעַ, וּמִזֵּעַת פְּנֵיהֶם נְהַר שֶׁל אֵשׁ מוֹשֵׁךְ וְיוֹצֵא לְפָנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר ״נְהַר דִּי נוּר נָגֵד וְנָפֵק מִן קֳדָמוֹהִי״. שְׁנַיִם שְׂרָפִים עוֹמְדִים – אֶחָד מִימִינוֹ וְאֶחָד מִשְּׂמֹאלוֹ, שֵׁשׁ כְּנָפַיִם לְכָל אֶחָד: בִּשְׁתַּיִם יְכַסֶּה פָנָיו שֶׁלֹּא יַבִּיט פְּנֵי הַשְּׁכִינָה, וּשְׁתַּיִם מְכַסִּים רַגְלֵיהֶם, וּבִשְׁתַּיִם מְעוֹפְפִים וּמַעֲרִיצִים וּמְקַדְּשִׁים אֶת שְׁמוֹ הַגָּדוֹל, זֶה עוֹנֶה וְזֶה קוֹרֵא וְאוֹמְרִים ״קָדוֹשׁ קָדוֹשׁ קָדוֹשׁ ה' צְבָאוֹת מְלֹא כָל הָאָרֶץ כְּבוֹדוֹ״.
7
E as Chayot, junto à Sua glória, não conhecem o lugar da Sua glória; respondem e dizem, onde quer que esteja a Sua glória: "Bendita seja a glória do Eterno desde o Seu lugar" (Yechezkel 3:12). E Israel — nação una na terra, que unifica o Seu Nome continuamente — todos os dias responde e diz: "Ouve, Israel: o Eterno é nosso D'us, o Eterno é Um" (Devarim 6:4); e Ele responde ao Seu povo Israel: "Eu sou o Eterno vosso D'us, que vos salva de toda angústia."
וְהַחַיּוֹת עוֹמְדוֹת אֵצֶל כְּבוֹדוֹ וְאֵינָן יוֹדְעוֹת מְקוֹם כְּבוֹדוֹ, עוֹנוֹת וְאוֹמְרוֹת בְּכָל מָקוֹם שֶׁכְּבוֹדוֹ שָׁם: ״בָּרוּךְ כְּבוֹד ה' מִמְּקוֹמוֹ״. וְיִשְׂרָאֵל גּוֹי אֶחָד בָּאָרֶץ שֶׁהֵם מְיַחֲדִים שְׁמוֹ תָּמִיד, בְּכָל יוֹם עוֹנִים וְאוֹמְרִים ״שְׁמַע יִשְׂרָאֵל ה' אֱלֹהֵינוּ ה' אֶחָד״, וְהוּא מֵשִׁיב לְעַמּוֹ יִשְׂרָאֵל: ״אֲנִי ה' אֱלֹהֵיכֶם הַמַּצִּיל אֶתְכֶם מִכָּל צָרָה״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

Ler a Merkavá com profundidade

O capítulo desenha o mundo celeste com as cores da visão de Yechezkel: o firmamento sobre as Chayot, os quatro acampamentos de anjos, o Trono, os ofanim, os serafim. Na leitura racionalista — a do Rambam, que classificou esta matéria como Maasê Merkavá, o cume da metafísica —, tais descrições não são astronomia: são símbolos. Os anjos que se tornam "ventos" e "fogo" (v. 2) são as forças e os mensageiros pelos quais D'us conduz o mundo; as quatro faces (homem, leão, boi, águia) e os quatro acampamentos figuram a ordem e a totalidade da criação sob o domínio Divino.

O fundamento do Trono é a justiça

Em meio a tanto esplendor, há uma frase decisiva: "justiça e juízo são o fundamento do Seu trono" (ecoando Tehilim 89:15). Toda a majestade celeste repousa, no fim, sobre o mishpat — a justiça. O poder divino não é arbitrário: a sua "sede" é a retidão.

O encontro do alto com o baixo

O ponto culminante é também o mais comentado. Os anjos mais elevados louvam, mas "não conhecem o lugar da Sua glória" — sinal da transcendência absoluta de D'us, que nem as Chayot apreendem. E, no entanto, é Israel, embaixo, com as palavras simples do Shemá, que proclama a unidade do Seu Nome — e D'us lhe responde. Os sábios veem aqui que a declaração humilde da unidade divina, feita por um povo na terra, alcança o que toda a hoste celeste não alcança: o reconhecimento direto do Um. O céu canta "Santo, santo, santo"; Israel diz "o Eterno é Um" — e os dois cânticos se encontram.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 5

A obra do terceiro dia: as águas, o mar e a chuva

פֶּרֶק ה׳

O mar imenso é contido por uma simples linha de areia — porque assim D'us ordenou. E a chuva desce como uma bênção, "casando" o céu com a terra.

1
No terceiro dia, a terra era plana como uma planície, e as águas cobriam toda a sua face. Quando saiu a palavra da boca da Potência (Bereshit 1:9), "Ajuntem-se as águas", ergueram-se os montes e as colinas, formaram-se vales no interior da terra, e as águas rolaram e se reuniram neles, como está dito: "e ao ajuntamento das águas chamou mares" (Bereshit 1:10). De imediato as águas se ensoberbeceram e subiram para cobrir a terra como no princípio — até que o Santo, bendito seja, as repreendeu e as subjugou, mediu-as no côncavo da Sua mão, para não acrescentar nem diminuir, e pôs a areia como limite ao mar, como quem faz uma cerca para a sua vinha; e quando as águas sobem e veem a areia diante delas, voltam para trás, como está dito: "A Mim não temereis, diz o Eterno...? a Mim, que pus a areia por limite ao mar" (Yirmiyahu 5:22).
בַּשְּׁלִישִׁי הָיְתָה הָאָרֶץ מִישׁוֹר כַּבִּקְעָה, וְהָיוּ הַמַּיִם מְכַסִּים עַל פְּנֵי כָל הָאָרֶץ. וּכְשֶׁיָּצָא הַדִּבּוּר מִפִּי הַגְּבוּרָה ״יִקָּווּ הַמַּיִם״, עָלוּ הֶהָרִים וְהַגְּבָעוֹת וְנַעֲשִׂים עֲמָקִים, וְנִתְגַּלְגְּלוּ הַמַּיִם וְנִקְווּ לָעֲמָקִים, שֶׁנֶּאֱמַר ״וּלְמִקְוֵה הַמַּיִם קָרָא יַמִּים״. מִיָּד נִתְגָּאוּ הַמַּיִם וְעָלוּ לְכַסּוֹת הָאָרֶץ כְּבַתְּחִלָּה, עַד שֶׁגָּעַר בָּהֶם הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְכָבְשָׁן, וּמְדָדָם בְּשָׁעֳלוֹ שֶׁלֹּא לְהוֹסִיף וְלֹא לִגְרֹעַ, וְעָשָׂה חוֹל גְּבוּל לַיָּם, כְּאָדָם שֶׁהוּא עוֹשֶׂה גָּדֵר לְכַרְמוֹ, וּכְשֶׁהֵן עוֹלִין וְרוֹאִין אֶת הַחוֹל לִפְנֵיהֶם חוֹזְרִין לַאֲחוֹרֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר ״הַאוֹתִי לֹא תִירָאוּ נְאֻם ה'... אֲשֶׁר שַׂמְתִּי חוֹל גְּבוּל לַיָּם״.
Nota. A imagem é deliberada: o mar, força colossal, recua diante de uma simples linha de areia — não pela areia, mas porque assim D'us decretou (Yirmiyahu 5:22). É uma lição de humildade e de ordem: a natureza obedece a um limite que não pôs em si mesma.
2
Antes de as águas se reunirem, foram criados os luzeiros e os abismos (tehomot) — os abismos que estão sob a terra; pois a terra está estendida sobre os abismos como um navio que flutua no meio do mar, como está dito: "Ao que estendeu a terra sobre as águas" (Tehilim 136:6). E D'us abriu nela uma porta para o Gan Éden, e fez brotar plantas sobre toda a face da terra — toda espécie de árvore frutífera segundo a sua espécie, e toda erva e relva. E preparou uma mesa para as criaturas antes mesmo de o mundo ser criado, como está dito: "Preparas diante de mim uma mesa" (Tehilim 23:5); e todas as fontes sobem dos abismos para dar de beber a todas as criaturas.
עַד שֶׁלֹּא נִקְווּ הַמַּיִם נִבְרְאוּ הַמְּאוֹרוֹת וּתְהוֹמוֹת, וְאֵלּוּ הֵן הַתְּהוֹמוֹת שֶׁמִּתַּחַת לָאָרֶץ, שֶׁהָאָרֶץ עַל הַתְּהוֹמוֹת נִרְקַעַת כָּאֳנִיָּה שֶׁהִיא צָפָה בְּלֵב יָם, שֶׁנֶּאֱמַר ״לְרֹקַע הָאָרֶץ עַל הַמָּיִם״. וּפָתַח לְגַן עֵדֶן פֶּתַח בָּהּ וְהוֹצִיא מִמֶּנָּה נְטָעִים עַל פְּנֵי כָל הָאָרֶץ, כָּל מִינֵי עֵץ אִילָן עוֹשֶׂה פְּרִי לְמִינוֹ וְכָל מִין עֵשֶׂב וְדֶשֶׁא, וְעָרַךְ שֻׁלְחָן לַבְּרִיּוֹת עַד שֶׁלֹּא נִבְרָא הָעוֹלָם, שֶׁנֶּאֱמַר ״תַּעֲרֹךְ לְפָנַי שֻׁלְחָן״, וְכָל הַמַּעְיָנוֹת עוֹלִין מִן הַתְּהוֹמוֹת לְהַשְׁקוֹת כָּל הַבְּרִיּוֹת.
3
Rabi Yehoshua diz: a espessura da terra é uma jornada de sessenta anos; e um dos abismos, que fica junto ao Guehinom, jorra e faz sair águas quentes, deleite para os filhos do homem as fontes termais.
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר: עָבְיָהּ שֶׁל אֶרֶץ מַהֲלַךְ שִׁשִּׁים שָׁנָה, וּתְהוֹם אֶחָד שֶׁהוּא אֵצֶל גֵּיהִנֹּם נוֹבֵעַ וּמוֹצִיא מַיִם חַמִּים תַּעֲנוּג לִבְנֵי הָאָדָם.
4
Disse Rabi Yehudá: uma vez por mês, canais sobem dos abismos e regam toda a face do solo, como está dito: "E uma neblina subia da terra e regava toda a face do solo" (Bereshit 2:6). As nuvens fazem ouvir o som dos seus canais aos mares; os mares, aos abismos; e abismo chama a abismo para fazer subir águas e dá-las às nuvens, como está dito: "Abismo chama a abismo ao ruído das tuas cachoeiras" (Tehilim 42:8).
אָמַר רַבִּי יְהוּדָה: פַּעַם אַחַת בְּכָל חֹדֶשׁ סִלּוֹנוֹת עוֹלִין מִן הַתְּהוֹמוֹת וּמַשְׁקִין אֶת כָּל פְּנֵי הָאֲדָמָה, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְאֵד יַעֲלֶה מִן הָאָרֶץ וְהִשְׁקָה אֶת כָּל פְּנֵי הָאֲדָמָה״. הֶעָבִים מַשְׁמִיעִין אֶת קוֹל צִנּוֹרוֹתֵיהֶן לַיָּמִים, וְהַיָּמִים לַתְּהוֹמוֹת, וּתְהוֹם קוֹרֵא אֶל תְּהוֹם לְהַעֲלוֹת מַיִם וְלִיתֵּן לֶעָבִים, שֶׁנֶּאֱמַר ״תְּהוֹם אֶל תְּהוֹם קוֹרֵא לְקוֹל צִנּוֹרֶיךָ״.
5
E as nuvens haurem águas dos abismos, como está dito: "Faz subir os vapores das extremidades da terra" (Tehilim 135:7); e onde o Santo, bendito seja, lhes ordena subir e chover, ali fazem chover. Mas, quando o Santo, bendito seja, quer abençoar o crescimento da terra e dar sustento às criaturas, abre os tesouros do bem que há nos céus e faz chover sobre a terra as "águas masculinas"; e logo a terra concebe como uma noiva que concebe do seu esposo, e brota uma semente de bênção — como está dito: "Abrirá o Eterno para ti o Seu bom tesouro, os céus" (Devarim 28:12); e: "Pois assim como descem a chuva e a neve dos céus... e não voltam sem regar a terra" (Yeshayahu 55:10).
וְהֶעָבִים שׁוֹאֲבִין מַיִם מִן הַתְּהוֹמוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר ״מַעֲלֶה נְשִׂאִים מִקְצֵה הָאָרֶץ״. וּבַמָּקוֹם שֶׁיִּפְקֹד לָהֶם הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְהַעֲלוֹת וּלְהַמְטִיר, שָׁם מַגְשִׁימִים. אֲבָל כְּשֶׁיִּרְצֶה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְבָרֵךְ צִמְחָהּ שֶׁל אֶרֶץ וְלִיתֵּן צֵידָן שֶׁל בְּרִיּוֹת, פּוֹתֵחַ אוֹצְרוֹת הַטּוֹב שֶׁבַּשָּׁמַיִם וּמַמְטִיר עַל הָאָרֶץ שֶׁהֵן מַיִם זְכָרִים, וּמִיָּד הָאָרֶץ מִתְעַבֶּרֶת וְצָמְחָה זֶרַע שֶׁל בְּרָכָה, שֶׁנֶּאֱמַר ״יִפְתַּח ה' לְךָ אֶת אוֹצָרוֹ הַטּוֹב אֶת הַשָּׁמַיִם״, וּכְתִיב ״כִּי כַּאֲשֶׁר יֵרֵד הַגֶּשֶׁם וְהַשֶּׁלֶג מִן הַשָּׁמַיִם״.
Nota. A descrição do "ciclo das águas" (abismos, mares, nuvens, chuva) é dada com a imagem do mundo da época — a terra "como um navio" sobre as águas. Na leitura racionalista, o que importa não é a hidrologia, mas a teologia: tudo é sustento providente. A "mesa preparada antes do mundo" (Tehilim 23:5) ensina que D'us preparou o alimento das criaturas antes que existissem; e a chuva-bênção, descrita como o "casamento" do céu com a terra (Yeshayahu 62:5), é a imagem do dar divino que fecunda a vida.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

O limite do mar

A imagem mais forte do capítulo é o mar contido pela areia. O profeta Yirmiyahu (5:22) já fizera dela uma repreensão: o mar, que poderia engolir a terra, recua diante de um punhado de areia — porque obedece ao decreto de D'us; e o ser humano, que recebeu razão e livre-arbítrio, ousa não temê-Lo? Os sábios leem aqui que a ordem da natureza não é óbvia nem necessária: é uma vontade que a sustenta a cada instante. O mar "quer" subir — e é "subjugado". A estabilidade do mundo é um ato contínuo.

A mesa posta antes dos convidados

"Preparou uma mesa para as criaturas antes que o mundo fosse criado." O Radal e os comentadores veem nisso a marca da providência: o alimento, a água, as fontes — tudo foi disposto antes que houvesse quem comesse. A criação não é indiferente à vida; ela foi feita para a vida, com cuidado prévio. É a mesma confiança do salmo: "Preparas diante de mim uma mesa" (Tehilim 23:5).

A chuva como bênção

O capítulo distingue dois modos da chuva: a chuva "comum", que sobe dos abismos, e a chuva-bênção, que D'us abre dos "tesouros do bem nos céus". A linguagem das "águas masculinas" e da terra que "concebe" é uma metáfora antiga do encontro fecundo entre o alto e o baixo — o céu que dá e a terra que recebe e gera. Lida em profundidade, ensina que a fartura não é mero mecanismo: é dom, e responde à bênção. "Abrirá o Eterno para ti o Seu bom tesouro" (Devarim 28:12).

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 6

A obra do quarto dia: os luzeiros, os planetas e o grande ciclo do sol

פֶּרֶק ו׳

A rivalidade entre o sol e a lua, e a longa contabilidade do tempo — os planetas, os dias, os doze mazalot, as estações e o grande ciclo de vinte e oito anos em que o sol volta ao ponto em que foi criado.

1
No quarto dia, Ele uniu os dois grandes luzeiros — não sendo um maior que o outro, mas iguais em altura, em forma e em luz, como está dito: "E fez D'us os dois grandes luzeiros" (Bereshit 1:16). Surgiu uma rivalidade entre eles: um dizia ao outro "eu sou maior do que tu", e o outro respondia "eu sou maior do que tu" — e não havia paz entre eles.
בָּרְבִיעִי חִבֵּר שְׁנֵי מְאוֹרוֹת הַגְּדוֹלִים, לֹא זֶה גָּדוֹל מִזֶּה וְלֹא זֶה גָּדוֹל מִזֶּה, וְשָׁוִין בְּגָבְהָם וּבְתָאֳרָן וּבְאוֹרָן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּעַשׂ אֱלֹהִים אֶת שְׁנֵי הַמְּאֹרֹת״ וְכוּ'. נִכְנַס תַּחֲרוּת בֵּינֵיהֶם, זֶה אוֹמֵר לָזֶה: ״אֲנִי גָּדוֹל מִמְּךָ״, וְזֶה אוֹמֵר לָזֶה: ״אֲנִי גָּדוֹל מִמְּךָ״, וְלֹא הָיָה שָׁלוֹם בֵּינֵיהֶם.
2
Que fez o Santo, bendito seja para que houvesse paz entre eles? Engrandeceu a um e diminuiu o outro, como está dito: "o luzeiro maior para governar o dia, e o luzeiro menor para governar a noite" (Bereshit 1:16).
מָה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? הִגְדִּיל אֶת הָאֶחָד, וְהִקְטִין אֶת הָאֶחָד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֶת הַמָּאוֹר הַגָּדֹל לְמֶמְשֶׁלֶת הַיּוֹם וְאֶת הַמָּאוֹר הַקָּטֹן לְמֶמְשֶׁלֶת הַלַּיְלָה״.
Nota. Este é um dos midrashim mais famosos do judaísmo: a "diminuição da lua". Lido à maneira racionalista, não é astronomia, mas parábola moral: dois iguais entram em disputa por primazia — e aquele que exige "eu sou maior" acaba diminuído. A busca de superioridade rebaixa; a paz exige que um aceite refletir a luz do outro (a lua não tem luz própria — recebe a do sol). É uma lição sobre o orgulho e a humildade, vestida com a história dos céus.
3
E as estrelas: todas as estrelas servem aos sete planetas das horas, cujos nomes são Mercúrio (Kokhav), Lua (Levaná), Saturno (Shabtai), Júpiter (Tzédek), Marte (Maadim), Sol (Chamá) e Vênus (Nogah). E estes servem aos sete dias da semana. E todos servem aos doze mazalot (constelações), que correspondem aos doze meses, a saber: Áries (Taleh), Touro (Shor), Gêmeos (Teomim), Câncer (Sartan), Leão (Aryeh), Virgem (Betulá), Libra (Moznáyim), Escorpião (Akrav), Sagitário (Késhet), Capricórnio (Guedi), Aquário (Dli) e Peixes (Daguim). Estes foram criados na obra da criação para conduzir o mundo, e assim são as suas leis. Todos os mazalot servem aos dias do mês solar; e os dias do mês solar são trinta dias, dez horas e meia, servindo cada mazal a dois dias e meio do mês solar — dois mazalot a cada cinco dias. O "chefe" que começa no início do mês solar é o mesmo que o conclui no fim: ele é o que abre e o que fecha.
וְאֶת הַכּוֹכָבִים, כָּל הַכּוֹכָבִים מְשָׁרְתִים לְשִׁבְעָה כּוֹכְבִים שֶׁל שָׁעוֹת, וּשְׁמָן: כּוֹכָב, לְבָנָה, שַׁבְּתַאי, צֶדֶק, מַאֲדִים, חַמָּה, נוֹגַהּ, וְהֵם מְשָׁרְתִים לְשִׁבְעָה יְמֵי הַשָּׁבוּעַ, וְכֻלָּם מְשָׁרְתִים לִשְׁנֵים עָשָׂר מַזָּלוֹת שֶׁהֵן כְּנֶגֶד י״ב חֳדָשִׁים, וְאֵלּוּ הֵן: טָלֶה, שׁוֹר, תְּאוֹמִים, סַרְטָן, אַרְיֵה, בְּתוּלָה, מֹאזְנַיִם, עַקְרָב, קֶשֶׁת, גְּדִי, דְּלִי, דָּגִים, וְאֵלּוּ שֶׁנִּבְרְאוּ בְּמַעֲשֵׂה בְרֵאשִׁית לִנְהֹג אֶת הָעוֹלָם, וְכֵן חֻקֵּיהֶן. כָּל הַמַּזָּלוֹת מְשָׁרְתִים אֶת יְמוֹת חֹדֶשׁ הַחַמָּה, וִימוֹת חֹדֶשׁ הַחַמָּה שְׁלֹשִׁים יוֹם עֶשֶׂר שָׁעוֹת וּמֶחֱצָה, וְכָל מַזָּל וּמַזָּל מְשָׁרֵת אֶת יְמוֹת חֹדֶשׁ הַחַמָּה שְׁנֵי יָמִים וּמֶחֱצָה, שְׁנֵי מַזָּלוֹת לַחֲמִשָּׁה יָמִים. הַשַּׂר הַמַּתְחִיל בְּרֹאשׁ חֹדֶשׁ חַמָּה הוּא הַשַּׂר הַמַּשְׁלִים בְּסוֹף חֹדֶשׁ חַמָּה, הוּא הַפּוֹתֵחַ וְהוּא הַסּוֹגֵר.
Nota. Os nomes dos planetas dão nome às "horas planetárias" e, em muitas línguas, aos dias da semana (a hora que rege o nascer de cada dia). É a astronomia geocêntrica da Antiguidade — o quadro científico da época do midrash. O essencial, para a leitura racionalista, não é o modelo dos céus, mas a afirmação de que tudo "foi criado para conduzir o mundo" segundo leis fixas (חֻקֵּיהֶן): o cosmos é ordenado, mensurável e regular — não caprichoso. A própria possibilidade de um calendário é prova dessa ordem.
4
O grande ciclo do sol é de vinte e oito anos, e nele há sete ciclos pequenos, de quatro anos cada. O cálculo dos dias do ano solar é de 365 dias e um quarto de dia. As estações (tekufot) do ano solar são quatro, cada uma de noventa e um dias e sete horas e meia. Seguem os sinais mnemônicos das ordens dos ciclos das estações, e os intervalos: entre um ciclo e outro, cinco dias e seis horas.
מַחֲזוֹר גָּדוֹל שֶׁל חַמָּה שְׁמוֹנֶה וְעֶשְׂרִים שָׁנָה, וְשִׁבְעָה מַחֲזוֹרִים הַקְּטַנִּים יֵשׁ בּוֹ מֵאַרְבַּע אַרְבַּע שָׁנִים. חֶשְׁבּוֹן יְמוֹת הַחַמָּה שס״ה יָמִים וּרְבִיעַ יוֹם. תְּקוּפַת שְׁנַת הַחַמָּה אַרְבַּע, מִתִּשְׁעִים וְאֶחָד יוֹם וְשֶׁבַע שָׁעוֹת וּמֶחֱצָה. רָאשֵׁי מַחֲזוֹרוֹת שֶׁל תְּקוּפוֹת דב״ז הגא״ו. בֵּין מַחֲזוֹר לְמַחֲזוֹר ה' יָמִים ו' שָׁעוֹת.
5
As estações do ciclo pequeno são quatro a cada ano, e todas de noventa e um dias e sete horas e meia; algumas, de noventa e dois dias. E os sinais para o momento de cada tekufá nos quatro anos do ciclo pequeno: no primeiro ano do ciclo, "a-g"; no segundo, "b-b"; no terceiro, "g-a"; no quarto, "d-d".
תְּקוּפוֹת שֶׁל מַחֲזוֹר הַקָּטָן אַרְבַּע בְּכָל שָׁנָה, וְכֻלָּן מִצ״א יוֹם וְז' שָׁעוֹת וּמֶחֱצָה. יֵשׁ מֵהֶם מִצ״ב. שָׁנָה הָרִאשׁוֹנָה שֶׁל מַחֲזוֹר א״ג שָׁנָה, שֵׁנִית ב״ב שָׁנָה, הַשְּׁלִישִׁית ג״א שָׁנָה, הָרְבִיעִית ד״ד.
6
Os quatro inícios da tekufá ao longo dos quatro anos de Nissan entram: no começo da noite, à meia-noite, no começo do dia e ao meio-dia respectivamente. E assim os demais momentos das estações seguem os sinais indicados.
אַרְבָּעָה רָאשֵׁי תְּקוּפָה לְד' רָאשֵׁי חֳדָשִׁים שֶׁל נִיסָן: נִכְנֶסֶת תְּחִלַּת הַלַּיְלָה, וַחֲצִי הַלַּיְלָה, תְּחִלַּת הַיּוֹם, וַחֲצִי הַיּוֹם. וּשְׁאָר כָּל יְמוֹת הַתְּקוּפוֹת: ז״ח, גי״ח, א״ח, טר״ח.
7
A primeira tekufá de Nissan entra no início das horas de Saturno (Shabtai); a tekufá de Tamuz, na metade das horas de Saturno; a tekufá de Tishrei, no início das horas de Júpiter (Tzédek); a tekufá de Tevet, na metade das horas de Júpiter; e todas as demais estações entram no início das horas ou na metade das horas.
תְּקוּפָה הָרִאשׁוֹנָה שֶׁל נִיסָן נִכְנֶסֶת בָּרֹאשׁ בִּשְׁעַת שַׁבְּתַאי, תְּקוּפַת תַּמּוּז נִכְנָס בְּחֶצְיָהּ שֶׁל שַׁבְּתַאי, תְּקוּפָה הָרִאשׁוֹנָה שֶׁל תִּשְׁרִי נִכְנֶסֶת בְּרֹאשׁ שְׁעוֹת צֶדֶק, תְּקוּפַת טֵבֵת נִכְנֶסֶת בְּחֶצְיוֹ שֶׁל צֶדֶק, וּשְׁאָר כָּל הַתְּקוּפוֹת נִכְנָסִין בְּרָאשָׁן שֶׁל שָׁעוֹת וּבְחֶצְיָן שֶׁל שָׁעוֹת.
8
O primeiro ciclo entra no início da hora de Saturno (e o sinal é ShTzM ChNKL); o segundo ciclo, na hora anterior, no início da hora de Júpiter; o terceiro, no início da hora de Marte; o quarto, no início da hora do Sol; o quinto, no início da hora de Vênus; o sexto, no início da hora da Lua. Ao fim das sete horas, ao fim dos sete ciclos, ao fim dos sessenta e cinco dias do grande ciclo de vinte e oito anos, tudo retorna ao início da noite da quarta-feira, na hora de Saturno — na hora em que o sol foi criado.
מַחֲזוֹר רִאשׁוֹן נִכְנָס בְּרֹאשׁ שְׁעוֹת שַׁבְּתַאי, וְסִימָן: שצ״ם חנכ״ל. מַחֲזוֹר הַשֵּׁנִי בַּשָּׁעָה שֶׁלְּפָנָיו בְּרֹאשׁ שְׁעוֹת צֶדֶק. מַחֲזוֹר הַשְּׁלִישִׁי נִכְנָס בְּרֹאשׁ שְׁעוֹת מַאְדִים. מַחֲזוֹר הָרְבִיעִי נִכְנָס בְּרֹאשׁ שְׁעוֹת חַמָּה. מַחֲזוֹר הַחֲמִישִׁי נִכְנָס בְּרֹאשׁ שְׁעוֹת נוֹגַהּ. מַחֲזוֹר הַשִּׁשִּׁי נִכְנָס בְּרֹאשׁ שְׁעוֹת לְבָנָה. בְּסוֹף ז' שָׁעוֹת, בְּסוֹף ז' מַחֲזוֹרוֹת, בְּסוֹף שִׁשִּׁים וְה' יָמִים שֶׁל מַחֲזוֹר הַגָּדוֹל שֶׁל כ״ח שָׁנָה, חוֹזֵר לִתְחִלַּת לֵיל ד' בְּשָׁעָה שַׁבְּתַאי בַּשָּׁעָה שֶׁנִּבְרָא.
Nota — a chave de todo o capítulo. Os §§4–8 são uma página de astronomia matemática: o ano solar de 365¼ dias, dividido em quatro tekufot (estações) de ~91 dias, e o "grande ciclo" (machzor gadol) de 28 anos, ao fim do qual o início da primavera volta a cair exatamente no mesmo dia e hora da semana — "a quarta-feira 4º dia, na hora de Saturno, a hora em que o sol foi criado". Daqui nasce uma mitsvá real: a Bircat HaChamá, a "bênção do sol", recitada uma única vez a cada 28 anos, quando o sol "retorna ao ponto de partida da criação". Toda a contabilidade densa destes parágrafos existe para fundamentar esse instante de louvor ao Criador dos luzeiros.
9
E em trezentos e sessenta e seis graus o sol sobe e desce: cento e oitenta e três sobem pelo lado do oriente, e cento e oitenta e três descem pelo lado do ocidente, correspondendo aos dias do ano solar. E por trezentas e sessenta e seis "janelas" o sol sai e entra no oriente: noventa e um dias no canto sul, noventa e um dias no canto norte, e uma janela no meio, cujo nome é Nogah aurora.
וּבִשְׁלֹשׁ מֵאוֹת וְשִׁשִּׁים וָשֵׁשׁ מַעֲלוֹת הַחַמָּה עוֹלָה וְיוֹרֶדֶת, קפ״ג עוֹלָה בְּרוּחַ מִזְרָח וְקפ״ג יוֹרֶדֶת בְּרוּחַ מַעֲרָב כְּנֶגֶד יְמוֹת שְׁנוֹת הַחַמָּה. וּבְג' מֵאוֹת וְשִׁשִּׁים וָשֵׁשׁ חַלּוֹנוֹת הַחַמָּה יוֹצֵא וְנִכְנָס בַּמִּזְרָח, צ״א יוֹם בְּקֶרֶן דְּרוֹמִית צ״א יוֹם בְּקֶרֶן צְפוֹנִית וְחַלּוֹן אֶחָד בָּאֶמְצַע וּשְׁמוֹ חַלּוֹן נוֹגַהּ.
10
Na tekufá de Tishrei equinócio de outono, o sol começa pela janela de Nogah e vai girando rumo ao canto sul, janela após janela, até chegar à janela de Saturno (Shabtai). Na tekufá de Tevet solstício de inverno, começa pela janela de Saturno e refaz o caminho de volta, janela após janela, até chegar à janela de Ta'alumá "o oculto", por onde a luz sai, como está dito: "e do oculto faz sair a luz" (Iyov 28:11). Na tekufá de Nissan equinócio de primavera, começa pela janela de Ta'alumá e vai rumo ao canto norte, janela após janela, até chegar à janela de Naamán. Na tekufá de Tamuz solstício de verão, começa pela janela de Naamán e refaz o caminho, janela após janela, até chegar à janela de Chéder "a câmara", de onde sai o vento de tempestade, como está dito: "Da câmara vem a tormenta, e dos ventos dispersos, o frio" (Iyov 37:9).
בִּתְקוּפַת תִּשְׁרֵי מַתְחִיל מֵחַלּוֹן נֹגַהּ וְהוֹלֵךְ וְסוֹבֵב לְקֶרֶן דְּרוֹמִית, חַלּוֹן אַחַר חַלּוֹן, עַד שֶׁהוּא מַגִּיעַ לְחַלּוֹן שַׁבְּתַאי. בִּתְקוּפַת טֵבֵת מַתְחִיל מֵחַלּוֹן שַׁבְּתַאי וְהוֹלֵךְ וְסוֹבֵב וְחוֹזֵר לְאַחֲרָיו, חַלּוֹן אַחַר חַלּוֹן, עַד שֶׁהוּא מַגִּיעַ לְחַלּוֹן תַּעֲלוּמָה, שֶׁבּוֹ הָאוֹר יוֹצֵא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְתַעֲלוּמָה יוֹצִיא אוֹר״. בִּתְקוּפַת נִיסָן מַתְחִיל מֵחַלּוֹן תַּעֲלוּמָה שֶׁבּוֹ הָאוֹר יוֹצֵא וְהוֹלֵךְ אֶל קֶרֶן צְפוֹנִית, חַלּוֹן אַחַר חַלּוֹן, עַד שֶׁהוּא מַגִּיעַ לְחַלּוֹן נַעֲמָן. בִּתְקוּפַת תַּמּוּז מַתְחִיל מֵחַלּוֹן נַעֲמָן וְהוֹלֵךְ וְסוֹבֵב וְחוֹזֵר לְאַחֲרָיו, חַלּוֹן אַחַר חַלּוֹן, עַד שֶׁהוּא מַגִּיעַ לְחַלּוֹן חֶדֶר שֶׁבּוֹ רוּחַ סוּפָה יוֹצֵא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מִן הַחֶדֶר תָּבוֹא סוּפָה וּמִמְּזָרִים קָרָה״.
11
Por estas janelas do oriente ele sai, e diante delas, no ocidente, ele se põe — e a Shechiná está sempre no ocidente. E o sol entra e se prostra diante do Santo, bendito seja, e diz perante Ele: "Senhor de todos os mundos, cumpri tudo o que me ordenaste".
בְּאֵלּוּ שֶׁבַּמִּזְרָח הוּא יוֹצֵא, כְּנֶגְדּוֹ בַּמַּעֲרָב הוּא נִכְנָס, וְהַשְּׁכִינָה לְעוֹלָם בַּמַּעֲרָב. וְנִכְנָס וּמִשְׁתַּחֲוֶה לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאוֹמֵר לְפָנָיו: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, עָשִׂיתִי כְּכָל אֲשֶׁר צִוִּיתַנִי״.
Nota. A imagem das "janelas" no horizonte traduz, em linguagem poética, um fato observável: ao longo do ano o ponto do nascer do sol desloca-se pelo horizonte (mais ao sul no inverno, mais ao norte no verão), retornando nos equinócios. O midrash conta isso como portas por onde o sol passa. E o gesto final — o sol que "se prostra e diz: cumpri o que me ordenaste" — é o coração teológico: o maior dos corpos celestes não é um deus, mas um servo obediente. Contra todo culto ao sol, o midrash o faz curvar-se ao Criador.
12
E há uma janela no meio do firmamento, cujo nome é Mezarim, pela qual o sol só sai e entra uma única vez no grande ciclo — saindo nela no dia em que foi criado. Nas tekufot de Tishrei e Tevet, vai girando rumo ao canto sul e às águas do oceano, entre os confins do céu e os confins da terra, onde se põe — pois então a noite é longa e o caminho é longo, até chegar à janela do oriente por onde quer sair. Nas tekufot de Nissan e Tamuz, gira rumo ao canto norte e às águas do oceano, onde a noite é curta e o caminho é curto, até chegar às janelas do oriente por onde quer sair — como está dito: "vai para o sul e gira para o norte" (Kohélet 1:6): vai para o sul nas tekufot de Tishrei e Tevet, e gira para o norte nas de Nissan e Tamuz; gira seis meses no canto sul e seis meses no canto norte, e em seus giros o vento o sol volta à janela do oriente. O sol tem três letras do Nome escritas no seu coração, e os anjos o conduzem: os que o conduzem de dia não o conduzem de noite, e os que o conduzem de noite não o conduzem de dia. O sol cavalga numa carruagem e se ergue coroado como um noivo, e se alegra como um herói, como está dito: "e ele é como um noivo que sai do seu tálamo" (Tehilim 19:6). As faces e os raios do sol voltados para baixo, para a terra, são de fogo; e as faces e os raios voltados para cima são de granizo; e, não fosse o granizo que apaga as suas faces de fogo, o mundo se incendiaria, como está dito: "e não há quem se esconda do seu calor" (Tehilim 19:7). E no inverno ele vira as faces de baixo para cima; e, não fosse o fogo que aquece o granizo, o mundo não poderia subsistir por causa do frio, como está dito: "diante do seu frio, quem subsistirá?" (Tehilim 147:17). E estes são os confins dos caminhos do sol.
וְחַלּוֹן אֶחָד יֵשׁ בְּאֶמְצַע הָרָקִיעַ וּשְׁמוֹ מְזָרִים, וְאֵינוֹ יוֹצֵא וְנִכְנָס בּוֹ אֶלָּא פַּעַם אַחַת שֶׁל מַחֲזוֹר הַגָּדוֹל שֶׁבּוֹ יוֹצֵא בַּיּוֹם שֶׁנִּבְרָא. בִּתְקוּפַת תִּשְׁרֵי וְטֵבֵת הוֹלֵךְ וְסוֹבֵב לְקֶרֶן דְּרוֹמִית וּלְמֵימֵי אוֹקְיָאנוֹס בֵּין קְצוֹת הַשָּׁמַיִם לְבֵין קְצוֹת הָאָרֶץ, שֶׁהַלַּיְלָה גָּדוֹל וְהַדֶּרֶךְ גְּדוֹלָה, עַד שֶׁהוּא מַגִּיעַ לַחַלּוֹן שֶׁבַּמִּזְרָח שֶׁהוּא רוֹצֶה לָצֵאת בּוֹ. בִּתְקוּפַת נִיסָן וְתַמּוּז הוֹלֵךְ וְסוֹבֵב לְקֶרֶן צְפוֹנִית לְמֵימֵי אוֹקְיָאנוֹס שֶׁבֵּין קְצוֹת הַשָּׁמַיִם לְבֵין קְצוֹת הָאָרֶץ, שֶׁהַלַּיְלָה קָצָר וְהַדֶּרֶךְ קְצָרָה, עַד שֶׁהוּא מַגִּיעַ לַחֲלוֹנוֹת שֶׁבַּמִּזְרָח שֶׁהוּא רוֹצֶה בּוֹ לָצֵאת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הוֹלֵךְ אֶל דָּרוֹם וְסוֹבֵב אֶל צָפוֹן״. הוֹלֵךְ אֶל דָּרוֹם בִּתְקוּפַת תִּשְׁרֵי וּבִתְקוּפַת טֵבֵת, וְסוֹבֵב אֶל צָפוֹן בִּתְקוּפַת נִיסָן וּתְקוּפַת תַּמּוּז, סוֹבֵב סוֹבֵב שִׁשָּׁה חֳדָשִׁים בְּקֶרֶן דְּרוֹמִית וְשִׁשָּׁה חֳדָשִׁים בְּקֶרֶן צְפוֹנִית. הַחַמָּה שָׁלֹשׁ אוֹתִיּוֹת שֶׁל שֵׁם כְּתוּבִים בְּלִבּוֹ, וְהַמַּלְאָכִים מַנְהִיגִים אוֹתוֹ; אֵלּוּ שֶׁמַּנְהִיגִים אוֹתוֹ בַּיּוֹם אֵין מַנְהִיגִים אוֹתוֹ בַּלַּיְלָה, אֵלּוּ שֶׁמַּנְהִיגִים אוֹתוֹ בַּלַּיְלָה אֵין מַנְהִיגִים אוֹתוֹ בַּיּוֹם. וְחַמָּה רוֹכֵב בַּמֶּרְכָּבָה וְעוֹלֶה מְעֻטָּר כֶּחָתָן וְיָשִׂישׂ כַּגִּבּוֹר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהוּא כְּחָתָן יֹצֵא מֵחֻפָּתוֹ״. הַחַמָּה קַרְנוֹתָיו וּפָנָיו הַמַּבִּיטוֹת לְמַטָּה לָאָרֶץ שֶׁל אֵשׁ, וְקַרְנוֹתָיו וּפָנָיו הַמַּבִּיטוֹת לְמַעְלָה שֶׁל בָּרָד, וְאִלּוּלֵי הַבָּרָד שֶׁהוּא מְכַבֶּה פָּנָיו שֶׁל אֵשׁ הָיָה הָעוֹלָם נִבְעָר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאֵין נִסְתָּר מֵחַמָּתוֹ״. וּבַחֹרֶף הוֹפֵךְ אֶת פָּנָיו שֶׁל מַטָּה לְמַעְלָה, וְאִלּוּלֵי הָאֵשׁ שֶׁהוּא מְחַמֵּם אֶת הַבָּרָד לֹא הָיָה הָעוֹלָם יָכוֹל לַעֲמֹד מִפְּנֵי הַקָּרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לִפְנֵי קָרָתוֹ מִי יַעֲמֹד״, וְאֵלּוּ הֵן קְצוֹת דְּרָכָיו שֶׁל חַמָּה.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A diminuição da lua: uma lição contra o orgulho

O Talmud (Chulin 60b) já discutia a estranheza do versículo: "os dois grandes luzeiros" e, na mesma frase, "o luzeiro maior... e o luzeiro menor". O midrash resolve com a famosa narrativa: criados iguais, sol e lua disputaram a primazia, e a lua foi diminuída. Os sábios — e o Radal, no seu comentário ao nosso livro — leem aqui ética, não física: quem se exalta é rebaixado. A lua, que exigiu ser maior, passou a brilhar apenas com luz refletida. É a mesma medida de toda a Torá: "antes da queda vem o orgulho" (Mishlê 16:18), e "a glória sustenta o humilde de espírito" (Mishlê 29:23).

O grande ciclo e a Bênção do Sol

A longa contabilidade dos §§4–8 não é ornamento: é a base de uma prática viva. O "grande ciclo" de 28 anos é o tempo em que o início da primavera (tekufat Nissan) volta a cair no mesmo dia e hora da semana em que, segundo a tradição, o sol foi posto no céu. Sobre isso os sábios instituíram a Bircat HaChamá — a bênção recitada uma vez a cada 28 anos: "Bendito... que faz a obra da criação". O capítulo, portanto, transforma a astronomia em louvor: medir o tempo do sol é reconhecer Quem o criou e o conduz.

O sol que se curva: ciência antiga, teologia eterna

As "janelas" no horizonte, a carruagem, o fogo e o granizo nas faces do sol — tudo isso é a cosmologia da Antiguidade, falada na linguagem da época. Os comentadores racionalistas, na trilha do Rambam, ensinam a distinguir o invólucro (o modelo físico de então) do conteúdo (a verdade que o midrash quer transmitir). E o conteúdo é claro e ousado: o sol — adorado como divindade por tantos povos — aqui se prostra a cada poente e declara: "cumpri tudo o que me ordenaste". O maior dos luzeiros é apenas um servo. Toda a página, no fim, é uma polêmica silenciosa contra a idolatria e um hino à providência que mantém o mundo em equilíbrio — o fogo temperado pelo granizo, o calor pelo frio — "para que o mundo possa subsistir".

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 7

O curso da lua: o molad, o ciclo e o calendário de Israel

פֶּרֶק ז׳

O companheiro lunar do capítulo anterior: como nasce a lua nova (molad), como se intercala o ano (ibbur), e por que Israel conta o tempo pela lua — e não teme os "sinais do céu".

1
Rabban Yochanan ben Zakai, Rabban Gamliel, Rabi Yishmael, Rabi Elazar ben Arach, Rabi Eliezer ben Hyrcanos e Rabi Akivá estavam sentados, expondo as leis do molad da lua o nascimento da lua nova. Disseram: com uma só palavra criou o Santo, bendito seja, os céus, como morada do trono da Sua glória, como está dito: "Pela palavra do Eterno foram feitos os céus" (Tehilim 33:6). Mas a respeito do "exército dos céus" os astros, fala-se de grande lavor. Que fez o Santo, bendito seja? Soprou com o sopro do alento da Sua boca, e foi criado de uma só vez todo o exército dos céus, como está dito: "e pelo sopro da Sua boca, todo o seu exército" (Tehilim 33:6).
רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי וְרַבִּי גַּמְלִיאֵל וְרַבִּי יִשְׁמָעֵאל וְרַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲרָךְ וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן הוֹרְקְנוֹס וְרַבִּי עֲקִיבָא הָיוּ יוֹשְׁבִים וְדוֹרְשִׁים עַל מוֹלַד הַלְּבָנָה, וְאָמְרוּ: דָּבָר אֶחָד אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, נִבְרְאוּ הַשָּׁמַיִם לִמְכוֹן כִּסֵּא מַלְכוּתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בִּדְבַר ה' שָׁמַיִם נַעֲשׂוּ״, אֲבָל בִּצְבָא הַשָּׁמַיִם יְגִיעָה הַרְבֵּה נֶאֱמַר בָּהּ. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? נָפַח בְּרוּחַ נִשְׁמַת פִּיו וְנִבְרְאוּ כָּל צְבָא הַשָּׁמַיִם בְּבַת אַחַת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּבְרוּחַ פִּיו כָּל צְבָאָם״.
Nota. Notável: a abertura nomeia o círculo dos maiores tanaítas — entre eles o próprio Rabi Eliezer ben Hyrcanos, que dá nome ao livro — reunidos para "expor o molad da lua". O cálculo do calendário não era matéria secundária: era estudo de sábios. E a teologia do versículo: os céus por "uma palavra"; o "exército" (o sol, a lua, os astros) por um "sopro" — mas tudo "de uma só vez", sem esforço real. A linguagem de "lavor" é figurada: ensina a grandeza da obra, não uma fadiga em D'us.
2
Todas as estrelas, as constelações e os dois luzeiros foram criados no início da noite do quarto dia, e um não precedeu o outro senão por dois terços de hora. Por isso todo movimento do sol é vagaroso, e todo movimento da lua é veloz: o que o sol percorre em treze dias e um quinto, a lua percorre em um só dia; e o que o sol percorre em todo o ano, a lua percorre em quarenta e um dias. Segue a tábua dos molados: no início da noite do quarto dia, o início do molad da lua deu-se na hora de Saturno; e, a cada três anos do ciclo pequeno, o dia do molad recua pela ordem indicada — à noite do terceiro dia (hora de Vênus), à do segundo (Júpiter), à do primeiro (Mercúrio), à noite de Shabat (Marte), à do sexto dia (Lua), à do quinto (Sol) — até voltar ao início da noite do quarto dia, na hora de Saturno.
כָּל הַכּוֹכָבִים וְהַמַּזָּלוֹת וּשְׁנֵי הַמְּאוֹרוֹת נִבְרְאוּ בִּתְחִלַּת לֵיל ד' וְלֹא קָדַם זֶה לָזֶה אֶלָּא שְׁתֵּי יָדוֹת שָׁעוֹת. לְפִיכָךְ כָּל מַעֲשֵׂה חַמָּה בִּמְתִינוּת וְכָל מַעֲשֵׂה לְבָנָה בִּזְרִיזוּת. מַה שֶּׁהַחַמָּה מְהַלֶּכֶת כָּל יְמוֹת הַשָּׁבוּעַ מְהַלֶּכֶת הַלְּבָנָה לְיוֹם א', וְכָל שֶׁהַחַמָּה מְהַלֶּכֶת כָּל יְמוֹת הַשָּׁנָה, מְהַלֶּכֶת הַלְּבָנָה לְמ״א יוֹם. כָּל הַיָּמִים מְשָׁרְתִים לְרֹאשׁ מוֹלַד הַלְּבָנָה לְאַחֲרֵיהֶם לְמַפְרֵעַ. בִּתְחִלַּת לֵיל רְבִיעִי רֹאשׁ מוֹלַד לְבָנָה בְּשָׁעַת שַׁבְּתַאי, וּלְאַחַר ג' שָׁנִים שֶׁל מַחֲזוֹר הַקָּטָן יוֹם שֶׁל אַחֲרָיו תְּחִלַּת לֵיל ג' רֹאשׁ מוֹלַד הַלְּבָנָה בְּשָׁעַת נוֹגַהּ, וְכֵן בְּשָׁעַת צֶדֶק, וּבְשָׁעַת כּוֹכָב, וּבְשָׁעַת מַאֲדִים, וּבְשָׁעַת לְבָנָה, וּבְשָׁעַת חַמָּה, עַד שֶׁחוֹזֵר בִּתְחִלַּת לֵיל רְבִיעִי רֹאשׁ מוֹלַד הַלְּבָנָה בְּשָׁעַת שַׁבְּתַאי.
3
O grande ciclo da lua é de vinte e um anos, e nele há sete ciclos pequenos de três anos cada. O total dos dias do mês lunar é de vinte e nove dias e meio, mais dois terços de hora e setenta e três chalakim partes. Cada mazal serve aos dias do mês lunar por dois dias e oito horas, e três mazalot servem a sete dias. O "chefe" que começa no início do mês lunar é o mesmo que o conclui no fim. A lua se renova em cada molad — uma vez de noite, a seguinte de dia —, e este é o seu sinal: "e foi tarde e foi manhã" (Bereshit 1:5). Entre um molad e o molad correspondente do ano seguinte há apenas quatro dias, oito horas e oitocentas e setenta e seis partes.
מַחֲזוֹר הַגָּדוֹל שֶׁל לְבָנָה כ״א שָׁנָה, ז' מַחֲזוֹרִים קְטַנִּים יֵשׁ בּוֹ מִג' ג' שָׁנִים. וְכָל מַזָּל וּמַזָּל מְשָׁרֵת אֶת יְמוֹת חֹדֶשׁ הַלְּבָנָה כ״ט יָמִים וּמֶחֱצָה וּב' יָדוֹת שָׁעָה וְע״ג חֲלָקִים, וְכָל מַזָּל מְשָׁרֵת אֶת יְמוֹת חֹדֶשׁ הַלְּבָנָה ב' יָמִים וְח' שָׁעוֹת, וְג' מַזָּלוֹת לְז' יָמִים. הַשַּׂר הַמַּתְחִיל בְּרֹאשׁ חֹדֶשׁ הַלְּבָנָה הוּא הַשַּׂר הַמַּשְׁלִים בְּסוֹף חֹדֶשׁ הַלְּבָנָה. הַלְּבָנָה מִתְחַדֶּשֶׁת בְּכָל מוֹלָד וּמוֹלָד, אַחַת בַּלַּיְלָה וְאַחַת בַּיּוֹם, וְזֶה הָאוֹת שֶׁלָּהֶם: ״וַיְהִי עֶרֶב וַיְהִי בֹקֶר״. אֵין בְּכָל מוֹלָד לְרֹאשׁ מוֹלָד לַשָּׁנָה הַבָּאָה אֶלָּא ד' יָמִים וְד' שָׁעוֹת וְתתע״ו חֲלָקִים.
Nota — o molad. O molad é o instante do "nascimento" da lua nova (a conjunção). O valor que o capítulo dá — cerca de 29 dias e meio mais uma fração — é a duração do mês lunar (o "mês sinódico"), conhecido com notável precisão já na Antiguidade. Repare na bela imagem do §3: a lua se renova "ora de noite, ora de dia", e o seu sinal é o ritmo da própria criação, "e foi tarde e foi manhã". O tempo de Israel é tecido nesse pulsar de renovação.
4
Entre o grande ciclo e o ciclo pequeno há apenas treze dias de diferença. E quando o sol caminha no canto sul, a lua caminha no canto norte; quando o sol caminha no canto norte, a lua caminha no canto sul. Todas as horas servem, em ordem retrógrada, ao início do molad da lua: no primeiro ano, no início da noite do quarto dia, na hora de Saturno; no segundo, na hora da Lua; no terceiro, na de Mercúrio; no quarto, na de Vênus; no quinto, na do Sol; no sexto, na de Marte; no sétimo, na de Júpiter. E assim, por três vezes, estas horas servem ao molad da lua, até completar os vinte e um anos do ciclo.
אֵין בֵּין מַחֲזוֹר הַגָּדוֹל לְמַחֲזוֹר הַקָּטָן אֶלָּא י״ג יוֹם. בִּזְמַן שֶׁהַחַמָּה מְהַלֶּכֶת לְקֶרֶן דְּרוֹמִית, הַלְּבָנָה מְהַלֶּכֶת לְקֶרֶן צְפוֹנִית, וּבִזְמַן שֶׁהַחַמָּה מְהַלֶּכֶת בְּקֶרֶן צְפוֹנִית, הַלְּבָנָה מְהַלֶּכֶת בְּקֶרֶן דְּרוֹמִית. כָּל הַשָּׁעוֹת מְשָׁרְתוֹת לְרֹאשׁ מוֹלַד לְבָנָה לְאַחֲרֵיהֶן לְמַפְרֵעַ: בְּשָׁעָה רִאשׁוֹנָה תְּחִלַּת לֵיל ד' רֹאשׁ מוֹלַד לְבָנָה בְּשָׁעַת שַׁבְּתַאי, וּבַשָּׁנָה הַשְּׁנִיָּה בִּשְׁעַת לְבָנָה, וּבַשְּׁלִישִׁית בִּשְׁעַת כּוֹכָב, וּבָרְבִיעִית בִּשְׁעַת נֹגַהּ, וּבַחֲמִישִׁית בִּשְׁעַת חַמָּה, וּבַשִּׁשִּׁית בִּשְׁעַת מַאֲדִים, וּבַשְּׁבִיעִית בִּשְׁעַת צֶדֶק. וְכֵן ג' פְּעָמִים הַשָּׁעוֹת הַלָּלוּ מְשָׁרְתוֹת לְרֹאשׁ מוֹלַד לְבָנָה עַד כ״א שָׁנָה שֶׁל מַחֲזוֹר.
5
Todas as constelações servem à lua, de noite, a partir dos quatro cantos do mundo: três no norte, três no sul, três no leste, três no oeste. E todas as horas servem à lua de noite: duas no sul, duas no norte, duas no leste, duas no oeste; e na hora em que começa a servir no sul, conclui no oeste — e assim em todos os seus giros.
כָּל הַמַּזָּלוֹת מְשָׁרְתִים לְבָנָה בַּלַּיְלָה מִד' פִּנּוֹת הָעוֹלָם: ג' בַּצָּפוֹן, ג' בַּדָּרוֹם, ג' בַּמַּעֲרָב, ג' בַּמִּזְרָח. וְכָל הַשָּׁעוֹת מְשָׁרְתוֹת לְבָנָה בַּלַּיְלָה: שְׁתַּיִם בַּדָּרוֹם, שְׁתַּיִם בַּצָּפוֹן, שְׁתַּיִם בַּמִּזְרָח, שְׁתַּיִם בַּמַּעֲרָב. וּבְשָׁעָה שֶׁמַּתְחִיל לְשָׁרֵת בַּדָּרוֹם גּוֹמֵר בַּמַּעֲרָב, וְכָל סְבִיבוֹתָיו כֵּן.
6
Todos os grandes luzeiros das estrelas estão no sul, exceto a "Carruagem" (a Ursa Maior), que está no norte. E todos os mazikin espíritos daninhos que vagueiam pelo firmamento, e os anjos que caíram da sua grandeza e do seu lugar de santidade, dos céus, nos dias da geração de Enosh — quando sobem para ouvir alguma coisa de detrás da cortina pargod, são dispersos por um "cetro de fogo" e voltam para trás, ao seu lugar.
כָּל מְאוֹרֵי אוֹר הַגְּדוֹלִים נְתוּנִים בַּדָּרוֹם, חוּץ מִן הָעֲגָלָה שֶׁהִיא נְתוּנָה בַּצָּפוֹן. וְכָל הַמַּזִּיקִים הַמְהַלְּכִים בָּרָקִיעַ וְהַמַּלְאָכִים שֶׁנָּפְלוּ מִגְּדֻלָּתָן וּמִמְּקוֹם קְדֻשָּׁתָן מִן הַשָּׁמַיִם בִּימֵי דּוֹר אֱנוֹשׁ, כְּשֶׁהֵם עוֹלִים לִשְׁמֹעַ דָּבָר מֵאֲחוֹרֵי הַפַּרְגּוֹד, הֵן מִתְפָּרְדִין בְּשֵׁבֶט שֶׁל אֵשׁ וְחוֹזְרִים לַאֲחוֹרֵיהֶן לִמְקוֹמָן.
Nota. O §6 menciona "a geração de Enosh" — segundo a tradição, a primeira a desviar-se para a idolatria (cf. cap. 22 do nosso livro). A imagem dos espíritos que tentam "espiar atrás da cortina" e são repelidos por fogo é metáfora: não há acesso furtivo ao oculto. Nem astros, nem forças, nem "ídolos" têm poder próprio sobre o decreto divino — tema que o capítulo retomará em força no §12.
7
Dez dias, vinte e uma horas e duzentas e quatro partes é o excesso dos dias do ano solar sobre os do ano lunar — e por isso entra a intercalação (ibbur), para igualar os dias do ano solar com os do ano lunar. O sol e a lua começam o seu curso no rosh chodesh de Nissan: o sol caminha à frente, na sua tekufá, e Áries começa a servir diante dele de dia, e todos os mazalot o seguem na sua ordem; a lua caminha atrás, e Áries começa a servir diante dela de noite. E assim, até o ano da intercalação, vem o ibbur "empurrar" o molad da lua acrescentando um mês; e, ao cabo de doze intercalações, o sol e a lua voltam a igualar-se no início da noite do quarto dia, na hora de Saturno — na hora em que foram criados.
י' יָמִים וְכ״א שָׁעוֹת וְר״ד חֲלָקִים יִתְרוֹן יְמוֹת הַחַמָּה עַל יְמוֹת הַלְּבָנָה, וְהָעִבּוּר נִכְנָס לְהַשְׁווֹת יְמוֹת שְׁנוֹת הַחַמָּה עִם יְמוֹת שְׁנוֹת הַלְּבָנָה. וְהַחַמָּה וְהַלְּבָנָה מַתְחִילִין מֵרֹאשׁ חֹדֶשׁ נִיסָן: הַחַמָּה מְהַלֶּכֶת לְפָנֶיהָ בִּתְקוּפָתָהּ וְטָלֶה מַתְחִיל לְשָׁרֵת לְפָנָיו בַּיּוֹם וְכָל הַמַּזָּלוֹת מְשָׁרְתִים אַחֲרָיו כְּדַרְכָּן, וְהַלְּבָנָה מְהַלֶּכֶת לְאַחֲרֶיהָ וְטָלֶה מַתְחִיל לְשָׁרֵת לְפָנֶיהָ בַּלַּיְלָה. וְכֵן עַד שְׁנַת הָעִבּוּר, בָּא הָעִבּוּר דּוֹחֶה לְרֹאשׁ מוֹלַד לְבָנָה, וְכֵן עַד י״ב עִבּוּרִין בָּאִין הַחַמָּה וְהַלְּבָנָה שָׁוִין לִתְחִלַּת לֵיל רְבִיעִי בְּשָׁעַת שַׁבְּתַאי בְּשָׁעָה שֶׁנִּבְרְאוּ.
Nota — o coração do calendário. Aqui está o segredo do calendário judaico: ele é luni-solar. Os meses seguem a lua (~354 dias por ano); mas as festas precisam cair na estação certa (Pessach na primavera — "guarda o mês da primavera", Devarim 16:1), que segue o sol (~365 dias). A diferença anual de ~11 dias é corrigida pela intercalação (ibbur): acrescenta-se um mês (um segundo Adar) em sete dos dezenove anos do ciclo. É por isso que as festas judaicas "andam" em relação ao calendário civil, mas nunca saem da sua estação. (O nosso texto descreve um esquema próprio de 21 anos; o calendário fixado por Hilel II segue o ciclo de 19 anos.)
8
A lua não desaparece do firmamento senão por "um piscar de olhos". Mesmo havendo nela um fio de luz que a circunda no leste e no oeste, não tem o olho força para ver a lua senão depois de oito "horas grandes" — quer no início do molad, quer no seu fim.
אֵין הַלְּבָנָה חֲסֵרָה מִן הַשָּׁמַיִם אֶלָּא כְּהֶרֶף עַיִן. אֲפִלּוּ יֵשׁ בָּהּ כִּמְלֹא הַחוּט, סוֹבֶבֶת בַּמִּזְרָח וּבַמַּעֲרָב, וְאֵין כֹּחַ בָּעַיִן לִרְאוֹת הַלְּבָנָה עַד ח' שָׁעוֹת גְּדוֹלִים, בֵּין בְּרֹאשׁ מוֹלַד לְבָנָה בֵּין בְּסוֹף מוֹלַד לְבָנָה.
9
O cálculo dos dias do ano lunar é de trezentos e cinquenta e quatro dias, um terço de dia e oitocentas e setenta e nove partes. Todas as horas do mês lunar são setecentas e oito horas e dois terços; todas as horas do ano lunar são oito mil e quinhentas e quatro horas.
חֶשְׁבּוֹן יְמוֹת שְׁנוֹת הַלְּבָנָה שנ״ד יָמִים וּשְׁלִישׁ יוֹם וְתתע״ט חֲלָקִים. כָּל הַשָּׁעוֹת שֶׁל חֹדֶשׁ הַלְּבָנָה תרק״ח שָׁעוֹת וּשְׁתֵּי יָדוֹת שָׁעָה. כָּל הַשָּׁעוֹת שֶׁל שְׁנַת הַלְּבָנָה ח' אֲלָפִים וְתק״ד שָׁעוֹת.
10
Todas as constelações servem ao molad da lua e às gerações dos filhos do homem, e sobre elas o mundo se sustenta. E todo aquele que é sábio e entende, entende o molad da lua e as gerações dos filhos do homem; e sobre elas diz o versículo: "e serão por sinais e por estações" (Bereshit 1:14). Estes sinais não cessarão de servir ao sol de dia e à lua de noite.
כָּל הַמַּזָּלוֹת מְשָׁרְתִים לְמוֹלַד הַלְּבָנָה וּלְתוֹלְדוֹת בְּנֵי אָדָם, וַעֲלֵיהֶם הָעוֹלָם עוֹמֵד. וְכָל מִי שֶׁהוּא חָכָם וּמֵבִין, הוּא מֵבִין מוֹלַד לְבָנָה וְתוֹלְדוֹת בְּנֵי אָדָם, וַעֲלֵיהֶם אוֹמֵר הַכָּתוּב: ״וְהָיוּ לְאֹתֹת וּלְמוֹעֲדִים״. אוֹתוֹת הַלָּלוּ לֹא יָמוּשׁוּ מְשָׁרְתִים לַחַמָּה בַּיּוֹם וְלַלְּבָנָה בַּלַּיְלָה.
11
Em três ciclos do sol, ou em quatro ciclos da lua, há oitenta e quatro anos — que são "uma hora do dia do Santo, bendito seja". Então o sol e a lua voltam a igualar-se no início da noite do quarto dia, na hora de Saturno, na hora em que foram criados. Na hora em que a chama da lua alcança o sol, de dia, no grau sessenta, o sol passa por dentro dela e apaga a sua luz; e na hora em que a chama do sol alcança a lua, de noite, no grau quarenta, passa por dentro dela e apaga a sua luz os eclipses.
בְּג' מַחֲזוֹרוֹת שֶׁל חַמָּה וְד' מַחֲזוֹרוֹת שֶׁל לְבָנָה פ״ד שָׁנִים, שֶׁהוּא שָׁעָה אַחַת מִיּוֹמוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא. בָּאִין חַמָּה וּלְבָנָה שָׁוִים בִּתְחִלַּת לֵיל ד' וּבְשָׁעַת שַׁבְּתַאי בְּשָׁעָה שֶׁנִּבְרְאוּ. בְּשָׁעָה שֶׁשַּׁלְהֶבֶת לְבָנָה מַגַּעַת לַחַמָּה בַּיּוֹם בְּמַעֲלוֹת שִׁשִּׁים, עוֹבֵר בְּתוֹכוֹ וּמְכַבֶּה אֶת אוֹרוֹ. וּבְשָׁעָה שֶׁשַּׁלְהֶבֶת הַחַמָּה מַגַּעַת לַלְּבָנָה בַּלַּיְלָה בְּמַעֲלוֹת אַרְבָּעִים, עוֹבֵר בְּתוֹכוֹ וּמְכַבֶּה אֶת אוֹרוֹ.
12
Rabi Nehorai diz: é um decreto do Rei, em assunto bem conhecido. Quando Israel peca e não intercala o ano como convém, na hora em que a chama do sol alcança a lua, de noite, nos quarenta graus, o Santo, bendito seja, escurece a lua eclipse lunar e "recolhe" um dos membros do Sanhedrin. Mas, quando Israel faz a vontade do Santo, bendito seja, Ele age na Sua grande misericórdia e escurece o sol eclipse solar, enviando a Sua ira sobre os idólatras, como está dito: "Assim diz o Eterno: não aprendais o caminho das nações, e dos sinais do céu não vos atemorizeis, pois é com eles que as nações se atemorizam" (Yirmiyahu 10:2) — as nações se atemorizam, e não Israel. E, assim como a luz do sol não domina à noite, nem a luz da lua de dia, assim também nós não contamos pelo sol à noite nem pela lua de dia, e um não invade a fronteira do outro.
רַבִּי נְהוֹרַאי אוֹמֵר: גְּזֵרַת מֶלֶךְ בְּמִלָּה מְפֻרְסֶמֶת הִיא. בְּשָׁעָה שֶׁיִּשְׂרָאֵל חוֹטְאִין וְאֵינָן מְעַבְּרִין אֶת הַשָּׁנָה כָּרָאוּי, בְּשָׁעָה שֶׁשַּׁלְהֶבֶת חַמָּה מַגַּעַת לַלְּבָנָה בַּלַּיְלָה מַעֲלוֹת אַרְבָּעִים, הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מַכְהֶה אֶת הַלְּבָנָה וְגוֹנֵז אֶחָד מִן הַסַּנְהֶדְרִין. וּכְשֶׁיִּשְׂרָאֵל עוֹשִׂין רְצוֹנוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, עוֹשֶׂה בְּרַחֲמָיו הָרַבִּים וּמַכְהֶה אֶת הַחַמָּה וְשׁוֹלֵחַ אֶת רוּגְזוֹ עַל עוֹבְדֵי כּוֹכָבִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כֹּה אָמַר ה' אֶל דֶּרֶךְ הַגּוֹיִם אַל תִּלְמָדוּ וּמֵאֹתוֹת הַשָּׁמַיִם אַל תֵּחָתּוּ כִּי יֵחַתּוּ הַגּוֹיִם מֵהֵמָּה״ — הַגּוֹיִם יֵחַתּוּ וְלֹא יִשְׂרָאֵל. כְּשֵׁם שֶׁאֵין אוֹר הַחַמָּה מוֹשֵׁל בְּאוֹר הַלְּבָנָה וְלֹא אוֹר הַלְּבָנָה בְּאוֹר הַחַמָּה, כָּךְ אָנוּ מוֹנִים לֹא מִנְיַן הַחַמָּה בַּלַּיְלָה וְלֹא מִנְיַן הַלְּבָנָה בַּיּוֹם, וְלֹא יַשִּׂיגוּ גְּבוּל אִישׁ אֶת רֵעֵהוּ.
Nota. O verso de Yirmiyahu 10:2 é a base bíblica da rejeição da astrologia: "dos sinais do céu não vos atemorizeis — são as nações que com eles se atemorizam". Eclipses e portentos assustam quem vê nos astros poderes autônomos; Israel, que conhece o Criador por trás da ordem, não teme. E a bela conclusão: cada luzeiro tem o seu domínio (o sol o dia, a lua a noite) e "um não invade a fronteira do outro" — uma imagem de ordem, limite e respeito, que o capítulo aplica também ao modo como contamos o tempo.
13
A morada da lua está entre a nuvem e a névoa, feitas como duas taças viradas uma sobre a outra, e ela sai por entre as duas. Quando é o molad, essas duas nuvens viram as suas faces para o lado oeste, e a lua sai por entre elas como um shofar um chifre, a fina foice. Na primeira noite, uma medida de luz; na segunda, uma segunda medida; e assim até meio do mês, até revelar-se por inteiro. E de meio do mês em diante, essas duas nuvens viram as faces para o lado leste, e a foice da lua que primeiro saiu começa a entrar e a cobrir-se entre as duas — uma medida na primeira noite, outra na segunda — até o fim do mês, até cobrir-se por inteiro. E de onde sabemos que está posta entre duas nuvens? Do que está dito: "quando pus a nuvem por sua veste, e a névoa por sua faixa" (Iyov 38:9). E de onde sabemos que se cobre por inteiro? Do que está dito: "tocai o shofar na lua nova, no encobrimento ba-késse, para o dia da nossa festa" (Tehilim 81:4) — no dia em que se cobre por inteiro.
מְדוֹר הַלְּבָנָה בֵּין עָנָן לַעֲרָפֶל, עֲשׂוּיִין כְּמִין שְׁנֵי קְעָרוֹת כְּפוּיוֹת זוֹ עַל גַּבֵּי זוֹ, וְהוּא יוֹצֵא בֵּין שְׁנֵיהֶם. וּכְשֶׁהוּא מוֹלַד לְבָנָה, אֵלּוּ שְׁנֵי עֲנָנִים הוֹפְכִים אֶת פְּנֵיהֶם בְּרוּחַ מַעֲרָבִית וְהוּא יוֹצֵא מִבֵּין שְׁנֵיהֶם כְּמִין שׁוֹפָר. בַּלַּיְלָה הָרִאשׁוֹן מִדָּה אַחַת, בַּלַּיְלָה הַשְּׁנִיָּה מִדָּה שְׁנִיָּה, וְכֵן עַד חֶצְיוֹ שֶׁל חֹדֶשׁ, עַד שֶׁהוּא מִתְגַּלֶּה כֻּלּוֹ. וּמֵחֶצְיוֹ שֶׁל חֹדֶשׁ אֵלּוּ שְׁנֵי עֲנָנִים הוֹפְכִים אֶת פְּנֵיהֶם לְרוּחַ מִזְרָחִי, וּפְאַת הַלְּבָנָה שֶׁיָּצָא מִתְּחִלָּה מַתְחִיל וְנִכְנָס וּמִתְכַּסֶּה בֵּין שְׁנֵיהֶם, עַד סוֹפוֹ שֶׁל חֹדֶשׁ עַד שֶׁמִּתְכַּסֶּה כֻּלּוֹ. וּמִנַּיִן שֶׁהוּא נָתוּן בֵּין שְׁנֵי עֲנָנִים? שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּשׂוּמִי עָנָן לְבֻשׁוֹ וַעֲרָפֶל חֲתֻלָּתוֹ״. וּמִנַּיִן שֶׁהוּא מִתְכַּסֶּה כֻּלּוֹ? שֶׁנֶּאֱמַר: ״תִּקְעוּ בַחֹדֶשׁ שׁוֹפָר בַּכֵּסֶה לְיוֹם חַגֵּנוּ״, בְּיוֹם שֶׁמִּתְכַּסֶּה כֻּלּוֹ.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

O calendário como sabedoria sagrada

Não é por acaso que o capítulo se abre com os maiores sábios de Israel "sentados a expor o molad da lua". Calcular o tempo é, na tradição, uma mitsvá e uma sabedoria: "este mês é para vós o início dos meses" (Shemot 12:2) foi o primeiro mandamento dado a Israel como povo. O Radal e os comentadores notam que o capítulo preserva um antiquíssimo cômputo do mês lunar — o molad de 29 dias, 12 horas e 793 partes que ainda hoje sustenta o calendário —, prova de quão cedo Israel dominou a medida exata dos céus, "para que sejam por sinais e por estações" (Bereshit 1:14).

Israel e a lua: a sabedoria da renovação

Por que Israel conta os meses pela lua, enquanto os povos contam pelo sol? Os sábios veem aqui um símbolo. O sol brilha sempre igual; a lua míngua, quase desaparece — e renova-se. Assim é Israel: passa por eclipses e quase-desaparecimentos na história, e sempre se renova. A bênção mensal da lua (Kidush Levaná) chama a isso "uma coroa de esplendor para os carregados desde o ventre, pois também eles hão de se renovar como ela". O capítulo, ao descrever a lua que "sai como um shofar" e cresce noite após noite, está descrevendo a esperança de Israel.

"Não vos atemorizeis com os sinais do céu"

O §12, com o verso de Yirmiyahu (10:2), é uma das raízes da firme rejeição da astrologia na tradição racionalista. O Rambam foi categórico: crer que os astros governam o destino humano é um erro e uma tolice, contrário à Torá e à razão. Os eclipses, ensina o nosso capítulo, têm causa fixa e calculável (a "chama" de um luzeiro alcançando o outro em certos graus) — são fenômenos, não presságios. Quem se atemoriza com eles ainda atribui poder aos céus; quem conhece o Criador "não os teme". A frase final — cada luzeiro no seu domínio, "sem invadir a fronteira do outro" — ensina que a ordem do mundo é de limites respeitados, reflexo da vontade Daquele que os fixou.

A lua coberta e o shofar de Rosh Hashaná

O fecho do capítulo (§13) é um pequeno tesouro. Lendo "tocai o shofar na lua nova, ba-késse no encobrimento, para o dia da nossa festa" (Tehilim 81:4), os sábios identificam a festa cuja lua está totalmente coberta no seu início: Rosh Hashaná, único Rosh Chodesh que é também Yom Tov, quando a lua nova ainda não se vê. O shofar soa, portanto, no exato instante de máxima escuridão lunar — quando a renovação ainda é invisível, mas certa. É a imagem perfeita do Ano Novo: clamar a D'us no ponto em que a luz parece sumida, com a fé de que ela voltará a crescer.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 8

O segredo da intercalação: a corrente da tradição do tempo

פֶּרֶק ח׳

Quem tem o direito de "ajustar" o calendário? Este capítulo conta como o segredo da intercalação foi entregue por D'us a Adam e transmitido, de mão em mão, até Moshé — e por que só na Terra de Israel se santifica o tempo.

1
No vigésimo oitavo dia de Elul foram criados o sol e a lua. E o cômputo dos anos, dos meses, dos dias e das noites, das horas, dos prazos, das estações (tekufot), dos ciclos e das intercalações estava diante do Santo, bendito seja; e Ele intercalava o ano. Depois entregou-o ao primeiro homem Adam no Gan Éden, como está dito: "Este é o livro a conta das gerações de Adam" (Bereshit 5:1) — o cômputo do mundo, para todas as gerações dos filhos do homem.
בְּעֶשְׂרִים וּשְׁמוֹנֶה בֶּאֱלוּל נִבְרְאוּ חַמָּה וּלְבָנָה. וּמִנְיָן שֶׁהוּא שָׁנִים וְחֳדָשִׁים וְיָמִים וְלֵילוֹת שָׁעוֹת וְקִצִּים וּתְקוּפוֹת וּמַחְזוֹרוֹת וְעִבּוּרִין הָיוּ לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וְהָיָה מְעַבֵּר אֶת הַשָּׁנָה וְאַחַר כָּךְ מְסָרָן לְאָדָם הָרִאשׁוֹן בְּגַן עֵדֶן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״זֶה סֵפֶר תּוֹלְדֹת אָדָם״, מִנְיַן עוֹלָם לְכָל תּוֹלְדוֹת בְּנֵי אָדָם.
Nota. A data — 28 de Elul — é coerente com a tradição: se Adam foi criado no sexto dia, que é 1 de Tishrei (Rosh Hashaná), então o quarto dia, em que foram criados os luzeiros (caps. 6–7), cai em 28 de Elul. O capítulo afirma algo profundo: o cálculo do tempo não foi "inventado" pelo homem — foi entregue por D'us a Adam como saber sagrado, e desde então é transmitido. O verso "este é o sefer das gerações de Adam" é lido como "este é o cômputo do mundo".
2
Adam transmitiu o segredo a Chanoch, que foi iniciado no segredo da intercalação e intercalou o ano, como está dito: "E Chanoch andou com D'us" (Bereshit 5:22) — Chanoch andou nos caminhos do cômputo do mundo que D'us entregara a Adam. E Chanoch transmitiu a Noach o segredo da intercalação, e Noach intercalou o ano, e disse: "Enquanto durar a terra, sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno não cessarão" (Bereshit 8:22). "Sementeira" é a tekufá de Tishrei equinócio de outono; "ceifa", a tekufá de Nissan equinócio de primavera; "frio", a tekufá de Tevet solstício de inverno; "calor", a tekufá de Tamuz solstício de verão; "verão" no seu tempo, e "inverno" no seu tempo.
אָדָם מָסַר לַחֲנוֹךְ וְנִכְנַס בְּסוֹד הָעִיבּוּר וְעִיבֵּר אֶת הַשָּׁנָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּתְהַלֵּךְ חֲנוֹךְ אֶת הָאֱלֹהִים״ וְכוּ', וַיִּתְהַלֵּךְ חֲנוֹךְ בְּדַרְכֵי מִנְיַן הָעוֹלָם שֶׁמָּסַר אֱלֹהִים לְאָדָם, וַחֲנוֹךְ מָסַר לְנֹחַ סוֹד הָעִיבּוּר וְעִיבֵּר אֶת הַשָּׁנָה, וְאָמַר: ״עֹד כָּל יְמֵי הָאָרֶץ זֶרַע וְקָצִיר וְקֹר וָחֹם וְקַיִץ וָחֹרֶף״. ״זֶרַע״ זֶה תְּקוּפַת תִּשְׁרֵי. ״קָצִיר״ זוֹ תְּקוּפַת נִיסָן. ״קֹר״ זוֹ תְּקוּפַת טֵבֵת. וְ״חֹם״ זוֹ תְּקוּפַת תַּמּוּז. וְ״קַיִץ״ בְּעִתּוֹ וְ״חֹרֶף״ בְּעִתּוֹ.
3
O cômputo do sol de dia, e o cômputo da lua de noite, "não cessarão".
מִנְיַן הַחַמָּה בַּיּוֹם וּמִנְיַן הַלְּבָנָה בַּלַּיְלָה, ״לֹא יִשְׁבֹּתוּ״.
4
Noach transmitiu a Shem, que foi iniciado no segredo da intercalação, intercalou o ano e foi chamado kohen sacerdote. Pois Shem, filho de Noach, era sacerdote? Mas, por ser o primogênito e por servir a D'us de dia e de noite, foi chamado sacerdote, como está dito: "E Malkitzédek, rei de Shalem... era sacerdote do D'us Altíssimo" (Bereshit 14:18). E Shem transmitiu a Avraham, que foi iniciado no segredo da intercalação e intercalou o ano, e foi chamado sacerdote, como está dito: "Jurou o Eterno e não Se arrependerá: tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Malkitzédek" (Tehilim 110:4) — daí sabemos que Shem transmitiu a Avraham. Avraham transmitiu a Yitzchak, que foi iniciado no segredo da intercalação e intercalou o ano após a morte de Avraham, como está dito: "E aconteceu, depois da morte de Avraham, que D'us abençoou a Yitzchak, seu filho" (Bereshit 25:11). Yitzchak transmitiu a Yaakov. Saiu Yaakov para fora da Terra e quis intercalar o ano fora da Terra. Disse-lhe o Santo, bendito seja: "Yaakov, não tens permissão de intercalar o ano fora da Terra; eis que Yitzchak, teu pai, intercalará o ano na Terra." E, quando Yaakov voltou à Terra, disse-lhe o Santo, bendito seja: "Levanta-te, intercala o ano", como está dito: "E apareceu D'us a Yaakov outra vez, ao voltar de Padan-Aram, e o abençoou" (Bereshit 35:9) — abençoou-o por ter entrado no segredo da intercalação, com a bênção eterna. Daqui disseram: ainda que justos e sábios estejam fora da Terra, e apenas um pastor de ovelhas e gado esteja na Terra, não se intercala o ano senão pelo pastor que está na Terra; ainda que profetas estejam fora da Terra e gente simples na Terra de Israel, não se intercala o ano senão pelos simples que estão na Terra. Exilados na Babilônia, intercalavam o ano por meio dos que restaram na Terra; não restando ninguém na Terra, intercalavam na Babilônia. Quando Ezra subiu, e toda a congregação com ele, Yechezkel quis intercalar o ano na Babilônia. Disse-lhe o Santo, bendito seja: "Yechezkel, não tens permissão de intercalar o ano fora da Terra; eis que Israel, teus irmãos na Terra, eles intercalarão o ano", como está dito: "Filho do homem, a casa de Israel habita na sua terra" (Yechezkel 36:17) — a eles compete intercalar o ano.
נֹחַ מָסַר לְשֵׁם וְנִכְנַס בְּסוֹד הָעִבּוּר וְעִבֵּר אֶת הַשָּׁנָה וְנִקְרָא כֹּהֵן. וְכִי שֵׁם בֶּן נֹחַ כֹּהֵן הָיָה? אֶלָּא עַל יְדֵי שֶׁהָיָה בְּכוֹר וְהָיָה מְשָׁרֵת בַּיּוֹם וּבַלַּיְלָה, לְפִיכָךְ נִקְרָא כֹּהֵן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמַלְכִּי צֶדֶק מֶלֶךְ שָׁלֵם״ וְכוּ'. וְשֵׁם מָסַר לְאַבְרָהָם וְנִכְנַס בְּסוֹד הָעִבּוּר וְעִבֵּר הַשָּׁנָה וְנִקְרָא כֹהֵן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״נִשְׁבַּע ה' וְלֹא יִנָּחֵם אַתָּה כֹהֵן לְעוֹלָם״. וּמִנַּיִן שֶׁמָּסַר שֵׁם לְאַבְרָהָם? שֶׁנֶּאֱמַר: ״עַל דִּבְרָתִי מַלְכִּי צֶדֶק״. אַבְרָהָם מָסַר לְיִצְחָק וְנִכְנַס בְּסוֹד הָעִבּוּר וְעִבֵּר אֶת הַשָּׁנָה לְאַחַר מוֹתוֹ שֶׁל אַבְרָהָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי אַחֲרֵי מוֹת אַבְרָהָם וַיְבָרֶךְ אֱלֹהִים אֶת יִצְחָק בְּנוֹ״. יִצְחָק מָסַר לְיַעֲקֹב וְנִכְנַס בְּסוֹד הָעִבּוּר וְעִבֵּר אֶת הַשָּׁנָה. יָצָא יַעֲקֹב לְחוּצָה לָאָרֶץ וּבִקֵּשׁ לְעַבֵּר אֶת הַשָּׁנָה בְּחוּצָה לָאָרֶץ. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״יַעֲקֹב, אֵין לְךָ רְשׁוּת לְעַבֵּר אֶת הַשָּׁנָה בְּחוּצָה לָאָרֶץ, הֲרֵי יִצְחָק אָבִיךָ הוּא יְעַבֵּר אֶת הַשָּׁנָה בָּאָרֶץ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּרָא אֱלֹהִים אֶל יַעֲקֹב עוֹד בְּבֹאוֹ מִפַּדַּן אֲרָם וַיְבָרֶךְ אֹתוֹ״. וְלָמָּה עוֹד? שֶׁפַּעַם רִאשׁוֹנָה נִגְלָה עָלָיו וּמְנָעוֹ מִלְּעַבֵּר אֶת הַשָּׁנָה בְּחוּצָה לָאָרֶץ. וּכְשֶׁבָּא לָאָרֶץ אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״קוּם עַבֵּר אֶת הַשָּׁנָה״, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיֵּרָא אֱלֹהִים אֶל יַעֲקֹב״ וְכוּ' ״וַיְבָרֶךְ אֹתוֹ״ עַל שֶׁנִּכְנַס בְּסוֹד הָעִבּוּר וּבֵרְכוֹ בִּרְכַּת עוֹלָם. מִכָּאן אָמְרוּ: אֲפִלּוּ צַדִּיקִים וַחֲכָמִים בְּחוּץ לָאָרֶץ וְרוֹעֵה צֹאן וּבָקָר בָּאָרֶץ, אֵין מְעַבְּרִין אֶת הַשָּׁנָה אֶלָּא עַל יְדֵי רוֹעֵה צֹאן וּבָקָר. אֲפִלּוּ נְבִיאִים בְּחוּץ לָאָרֶץ וְהֶדְיוֹטִים בְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל, אֵין מְעַבְּרִין אֶת הַשָּׁנָה אֶלָּא עַל יְדֵי הֶדְיוֹטִים שֶׁבָּאָרֶץ. גָּלוּ לְבָבֶל, הָיוּ מְעַבְּרִין אֶת הַשָּׁנָה עַל יְדֵי הַנִּשְׁאָר בָּאָרֶץ. לֹא נִשְׁאַר אֶחָד בָּאָרֶץ, הָיוּ מְעַבְּרִין אֶת הַשָּׁנָה בְּבָבֶל. עָלָה עֶזְרָא וְכָל הַקָּהָל עִמּוֹ וְרָצָה יְחֶזְקֵאל לְעַבֵּר אֶת הַשָּׁנָה בְּבָבֶל, אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״יְחֶזְקֵאל, אֵין לְךָ רְשׁוּת לְעַבֵּר אֶת הַשָּׁנָה בְּחוּץ לָאָרֶץ. הֲרֵי יִשְׂרָאֵל אַחֶיךָ וְהֵם יְעַבְּרוּ אֶת הַשָּׁנָה״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בֶּן אָדָם בֵּית יִשְׂרָאֵל יֹשְׁבִין עַל אַדְמָתָם״, שֶׁלָּהֶן הִיא לְעַבֵּר אֶת הַשָּׁנָה.
Nota — a autoridade da Terra. O capítulo estabelece um princípio surpreendente: o calendário só pode ser santificado na Terra de Israel (ou pelos que ali estão). "Ainda que haja profetas fora da Terra e gente simples dentro dela, intercala-se o ano pelos simples que estão na Terra." A santidade do tempo não depende da genialidade de quem calcula, mas da autoridade do lugar e do tribunal designado. Por isso até Yaakov e o profeta Yechezkel foram impedidos de intercalar no estrangeiro. É a base da regra clássica: a fixação do calendário pertence ao Sanhedrin da Terra de Israel.
5
Yaakov transmitiu a Yossef, que foi iniciado no segredo da intercalação e intercalou o ano no Egito. Morreram Yossef e os seus irmãos, e as intercalações diminuíram em Israel. E, assim como as intercalações diminuíram em Israel na servidão do Egito, assim hão de diminuir no fim da servidão do quarto reino, até que venha o rei Mashiach. E, assim como o Santo, bendito seja, Se revelou a Moshé e a Aharon no Egito, assim Ele há de revelar-Se a nós no fim do quarto reino, como está dito: "E disse o Eterno a Moshé e a Aharon, na terra do Egito: este mês é para vós o princípio dos meses" (Shemot 12:1-2). Que significa "dizendo" (lemor)? Dize-lhes a Israel: até agora o segredo da intercalação estava comigo; de agora em diante é vosso o direito de intercalar o ano.
יַעֲקֹב מָסַר לְיוֹסֵף וְנִכְנַס בְּסוֹד הָעִבּוּר, וְעִבֵּר אֶת הַשָּׁנָה בְּמִצְרַיִם. מֵת יוֹסֵף וְאֶחָיו, נִתְמַעֲטוּ הָעִבּוּרִין מִיִּשְׂרָאֵל. וּכְשֵׁם שֶׁנִּתְמַעֲטוּ הָעִבּוּרִין מִיִּשְׂרָאֵל בְּשִׁעְבּוּד מִצְרַיִם, כָּךְ עֲתִידִים לִמְעֹט בְּסוֹף שִׁעְבּוּד מַלְכוּת הָרְבִיעִית עַד שֶׁיָּבֹא מֶלֶךְ הַמָּשִׁיחַ. כְּשֵׁם שֶׁנִּגְלָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל מֹשֶׁה וְעַל אַהֲרֹן בְּמִצְרַיִם, כָּךְ הוּא עָתִיד לְהִגָּלוֹת עָלֵינוּ בְּסוֹף מַלְכוּת רְבִיעִית, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר ה' אֶל מֹשֶׁה וְאֶל אַהֲרֹן בְּאֶרֶץ מִצְרַיִם לֵאמֹר: הַחֹדֶשׁ הַזֶּה לָכֶם״. מַהוּ ״לֵאמֹר״? אֱמוֹר לָהֶם לְיִשְׂרָאֵל: עַד עַכְשָׁו אֶצְלִי הָיָה סוֹד הָעִבּוּר, מִכָּאן וָאֵילָךְ שֶׁלָּכֶם הוּא לְעַבֵּר אֶת הַשָּׁנָה.
Nota. "Este mês é para vós" (Shemot 12:2) foi a primeira mitsvá dada a Israel como povo — e o capítulo entende-a como a entrega do controle do tempo: "até agora estava comigo; de agora em diante é vosso". Há aqui um sentido profundo de liberdade: o escravo não é dono do seu tempo; o povo livre santifica o seu calendário. O "quarto reino" é a tradição rabínica para o último e mais longo exílio (Edom/Roma); o capítulo promete que, como no Egito, a redenção virá com uma nova revelação.
6
A intercalação faz-se na presença de três. Rabi Eliezer diz: de dez, como está dito: "D'us Se posta na congregação divina" (Tehilim 82:1). E, se forem menos de dez, trazem um rolo da Torá e o estendem diante de si, dispõem-se em forma de eira redonda — o maior segundo a sua grandeza e o menor segundo a sua pequenez —, voltam o rosto para a terra, estendem as mãos ao seu Pai que está nos céus, e o chefe da assembleia menciona o Nome; e ouvem uma bat kol (voz celeste) que proclama nestas palavras: "E disse o Eterno a Moshé e a Aharon, dizendo: este mês é para vós".
בִּשְׁלֹשָׁה מְעַבְּרִין. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר בַּעֲשָׂרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֱלֹהִים נִצָּב בַּעֲדַת אֵל״. וְאִם נִתְמַעֲטוּ מְבִיאִין סֵפֶר תּוֹרָה וּפוֹרְשִׂין אוֹתוֹ לִפְנֵיהֶם וְנַעֲשִׂין כְּמִין גֹּרֶן עֲגֻלָּה וְיוֹשְׁבִין גָּדוֹל לְפִי גָדְלוֹ וְקָטָן לְפִי קָטְנוֹ וְנוֹתְנִין פְּנֵיהֶן לְמַטָּה לָאָרֶץ וּפוֹרְשִׂין אֶת כַּפֵּיהֶן לַאֲבִיהֶם שֶׁבַּשָּׁמַיִם וְרֹאשׁ הַיְשִׁיבָה מַזְכִּיר אֶת הַשֵּׁם וְשׁוֹמְעִים בַּת קוֹל שֶׁצּוֹוַחַת וְאוֹמֶרֶת בַּלָּשׁוֹן הַזֶּה: ״וַיֹּאמֶר ה' אֶל מֹשֶׁה וְאֶל אַהֲרֹן לֵאמֹר הַחֹדֶשׁ הַזֶּה לָכֶם״.
7
Mas, por causa do pecado da geração, às vezes nada ouvem — pois, por assim dizer, D'us não pode fazer repousar a Sua Presença entre eles. E felizes os que estiverem naquele lugar, naquela hora, como está dito: "Feliz o povo que conhece o som da terua, ó Eterno; na luz do Teu rosto andarão" (Tehilim 89:16) — na luz do rosto do Santo, bendito seja, eles caminham.
וּמֵעֲוֹן הַדּוֹר אֵינָן שׁוֹמְעִין כְּלוּם, אֶלָּא כִּבְיָכוֹל אֵינוֹ יָכוֹל לְשַׁכֵּן שְׁכִינָה בֵּינֵיהֶם. וְאַשְׁרֵי הָעָם הָעוֹמְדִין בַּמָּקוֹם הַהוּא בַּשָּׁעָה הַהִיא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַשְׁרֵי הָעָם יֹדְעֵי תְרוּעָה, ה' בְּאוֹר פָּנֶיךָ יְהַלֵּכוּן״. בְּאוֹר פָּנָיו שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא הֵן מְהַלְּכִין.
8
Por três sinais se intercala o ano: pelas árvores o amadurecer dos frutos, pelas ervas a produção do campo e pelas tekufot a estação astronômica. Se chegaram dois e não chegou um dos sinais, não se intercala o ano nem pelas árvores nem pelas ervas. Se chegou um e não chegaram os dois, intercala-se o ano pelas tekufot. Se a tekufá de Tevet entrou do vigésimo dia do mês de Tevet para baixo isto é, no dia 20 ou depois, intercala-se o ano; do vigésimo dia de Tevet para cima antes, não se intercala o ano.
עַל שְׁלֹשָׁה סִימָנִים מְעַבְּרִין אֶת הַשָּׁנָה: עַל הָאִילָנוֹת, וְעַל הָעֲשָׂבִים, וְעַל הַתְּקוּפוֹת. הִגִּיעוּ שְׁנַיִם וְלֹא הִגִּיעַ אֶחָד – אֵין מְעַבְּרִין אֶת הַשָּׁנָה לֹא עַל הָאִילָנוֹת וְלֹא עַל הָעֲשָׂבִים. הִגִּיעַ אֶחָד וְלֹא הִגִּיעוּ הַשְּׁנַיִם – מְעַבְּרִין אֶת הַשָּׁנָה עַל הַתְּקוּפוֹת. אִם נִכְנְסָה הַתְּקוּפָה מֵעֶשְׂרִים יוֹם שֶׁל חֹדֶשׁ טֵבֵת וּלְמַטָּה – מְעַבְּרִין אֶת הַשָּׁנָה. מֵעֶשְׂרִים יוֹם שֶׁל חֹדֶשׁ טֵבֵת וּלְמַעְלָה – אֵין מְעַבְּרִין אֶת הַשָּׁנָה.
9
O ciclo da intercalação é de dezenove anos, e há nele sete anos de intercalação. Alguns deles distam três anos do anterior, outros, dois — três e dois, três e três e três, e três e dois.
מַחֲזוֹר הָעִבּוּר מִי״ט שָׁנָה, וְז' מַחֲזוֹרִין קְטַנִּים יֵשׁ בּוֹ. יֵשׁ מֵהֶן מִשָּׁלֹשׁ וְיֵשׁ מֵהֶן מִשְּׁתַּיִם, שָׁלֹשׁ וּשְׁתַּיִם, שָׁלֹשׁ וְשָׁלֹשׁ וְשָׁלֹשׁ וְשָׁלֹשׁ וּשְׁתַּיִם.
Nota — o ciclo de dezenove anos. Aqui o capítulo enuncia o coração do calendário hebraico fixo: o machzor de 19 anos, com 7 anos embolismais (com um segundo Adar). Pela tradição, são os anos 3, 6, 8, 11, 14, 17 e 19 do ciclo — exatamente o esquema que Hilel II fixou no século IV e que ainda hoje rege o calendário judaico. Os intervalos descritos ("três e dois...") são a distribuição desses anos. É notável encontrar num midrash narrativo o cálculo astronômico que sincroniza o ano lunar com o solar.
10
No rosh chodesh de Nissan, o Santo, bendito seja, revelou-Se a Moshé e a Aharon na terra do Egito; e era o décimo quinto ano do grande ciclo da lua, o décimo sexto ano do ciclo da intercalação. "De agora em diante, o cômputo será vosso."
בְּרֹאשׁ חֹדֶשׁ נִיסָן נִגְלָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל מֹשֶׁה וְעַל אַהֲרֹן בְּאֶרֶץ מִצְרַיִם, וְהָיְתָה שְׁנַת ט״ו שֶׁל מַחֲזוֹר הַגָּדוֹל שֶׁל לְבָנָה, שְׁנַת י״ז לִשְׁנַת מַחֲזוֹר הָעִבּוּר. מִכָּאן וָאֵילָךְ הַמִּנְיָן יִהְיֶה לָכֶם.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A corrente da tradição (shalshelet ha-kabbalá)

O capítulo desenha o calendário como uma cadeia de transmissão: D'us → Adam → Chanoch → Noach → Shem → Avraham → Yitzchak → Yaakov → Yossef → Moshé. É o mesmo formato com que a Mishná abre Pirkei Avot ("Moshé recebeu a Torá no Sinai e a transmitiu...") — e o Radal observa que não é por acaso: o saber do tempo é parte da mesorá, da tradição recebida. Para a leitura racionalista, isso ensina que o calendário não é convenção arbitrária nem invenção tardia, mas conhecimento dado e preservado, ligando cada geração à origem. Quem santifica o mês liga-se a Adam no Gan Éden.

Shem, o sacerdote, e Malkitzédek

A identificação de Shem, filho de Noach, com Malkitzédek, rei de Shalem (Bereshit 14:18), é antiga e aceita por muitos sábios. Antes da escolha de Aharon, o serviço sacerdotal cabia aos primogênitos; Shem, primogênito e "servo de D'us dia e noite", é por isso chamado kohen. O versículo "tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Malkitzédek" (Tehilim 110:4) é lido como a transmissão dessa dignidade — e do segredo do tempo — a Avraham.

Por que só na Terra de Israel

A insistência do capítulo — nem Yaakov, nem o profeta Yechezkel podiam intercalar fora da Terra — fundamenta uma regra central: a santificação do calendário pertence ao tribunal (Sanhedrin) da Terra de Israel. O Rambam (Mishné Torá, Hilchot Kidush HaChodesh) explica que a fixação dos meses e das festas depende dessa autoridade enraizada na Terra; só quando cessou o Sanhedrin foi adotado o cálculo fixo de Hilel II. Os sábios extraem daqui uma lição: a santidade não segue o brilho pessoal ("ainda que haja profetas fora"), mas a ordem e o lugar que D'us designou.

"Este mês é para vós": o tempo como liberdade

Que a primeira mitsvá ao povo recém-liberto seja sobre o calendário não é acidente. O escravo não governa o seu tempo — vive no relógio do senhor. Ao receber "este mês é para vós", Israel recebe o domínio do próprio tempo: o poder de declarar a lua nova e marcar as festas. Santificar o tempo é, assim, o primeiro ato de um povo livre — e o capítulo o coroa com a esperança de que, como no Egito, também no fim do "quarto reino" D'us Se revelará e devolverá a plenitude desse cômputo a Israel.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 9

As maravilhas do quinto dia: as águas, os seres e o Leviatã

פֶּרֶק ט׳

As águas fervilham de vida — aves, peixes e gafanhotos, cada um com o seu sinal. E das águas vêm também grandes lições: a parábola dos rios que se perdem no mar, e o enigma do Leviatã.

1
No quinto dia, fez D'us as águas fervilharem de toda espécie de ave, machos e fêmeas, puras e impuras. Por dois sinais as aves puras se distinguem: pelo papo, e pela moela que se descasca. Rabi Eliezer diz: também pelo dedo a mais na pata. E duas espécies de aves foram escolhidas para a oferenda de elevação (olá), a saber: a rola (tor) e o filhote de pomba (ben yoná).
בַּחֲמִישִׁי הִשְׁרִיץ מִן הַמַּיִם כָּל מִין עוֹף, זְכָרִים וּנְקֵבוֹת, טְהוֹרִים וּטְמֵאִים. בִּשְׁנֵי סִימָנִים הֵן מִטַּהֲרִין: בַּזֶּפֶק וּבַקֻּרְקְבָן נִקְלָף. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: בְּאֶצְבַּע יְתֵרָה. וּשְׁנֵי מִינֵי עוֹפוֹת נִבְחֲרוּ לְקָרְבַּן עוֹלָה, אֵלּוּ הֵן: תּוֹר וּבְנֵי יוֹנָה.
2
No quinto dia, fez as águas fervilharem de toda espécie de peixe, machos e fêmeas, impuros e puros. Por dois sinais os puros se distinguem: barbatana e escama; e, se não os têm, são impuros.
בַּחֲמִישִׁי הִשְׁרִיץ מִן הַמַּיִם כָּל מִין דָּגִים זְכָרִים וּנְקֵבוֹת, טְמֵאִים וּטְהוֹרִים. בִּשְׁנֵי סִימָנִים הֵם מִטַּהֲרִים: סְנַפִּיר וְקַשְׂקֶשֶׂת, וְאִם לָאו הֵם טְמֵאִים.
3
No quinto dia, fez as águas fervilharem de toda espécie de gafanhotos, machos e fêmeas, impuros e puros. Por dois sinais os puros se distinguem: pelas pernas longas com que saltam sobre a terra, e pelas asas que cobrem todo o corpo. E aqueles que fervilharam das águas — peixes e gafanhotos — comem-se sem abate ritual (shechitá); mas a ave não se come senão por shechitá. Aqueles que foram criados das águas, o seu sangue é derramado como água; e aqueles que foram criados da terra, o seu sangue é coberto com pó.
בַּחֲמִישִׁי הִשְׁרִיץ מִן הַמַּיִם כָּל מִינֵי חֲגָבִים זְכָרִים וּנְקֵבוֹת טְמֵאִים וּטְהוֹרִים, בִּשְׁנֵי סִימָנִים הֵן מְטַהֲרִים: בִּכְרָעַיִם אֲרֻכִּים שֶׁהֵן מְקַפְּצִין עַל הָאָרֶץ וּבִכְנָפַיִם מְכַסִּין אֶת כָּל הַגּוּף, וְאֵלּוּ שֶׁשָּׁרְצוּ מִן הַמַּיִם דָּגִים וַחֲגָבִים נֶאֱכָלִים שֶׁלֹּא בִשְׁחִיטָה, אֲבָל הָעוֹף אֵינוֹ נֶאֱכָל אֶלָּא בִשְׁחִיטָה; אֵלּוּ שֶׁנִּבְרְאוּ מִן הַמַּיִם דָּמָן נִשְׁפָּךְ כַּמַּיִם וְאֵלּוּ שֶׁנִּבְרְאוּ מִן הָאָרֶץ דָּמָן נִכְסוֹת בֶּעָפָר.
Nota — os sinais e o sangue. O capítulo registra os simanim (sinais) de pureza da Torá: barbatana e escama nos peixes (Vayikrá 11:9), o papo, a moela descascável e o "dedo a mais" nas aves; pernas saltadoras e asas nos gafanhotos puros. São critérios observáveis — a lei pode ser ensinada e verificada por qualquer um. E há a distinção do sangue: os seres da água têm o sangue "derramado como água"; os da terra (e as aves) têm o sangue coberto com terra (kisui hadam, Vayikrá 17:13) — pois "o sangue é a vida" (Devarim 12:23). Mesmo ao se alimentar, o ser humano é chamado ao respeito pela vida.
4
Rabi Eliezer diz: não foi só sobre as águas que a Escritura disse "que fervilhem", mas também sobre as nações idólatras, que são comparadas às águas, como está dito: "e o tumulto dos povos, que como o tumulto de águas impetuosas se agitam" (Yeshayahu 17:12). E, assim como as águas fervilharam naquele dia, assim hão de fervilhar no mundo as nações, guerreando umas com as outras para destruir, como está dito: "e fiz nação chocar-se com nação, e cidade com cidade, pois D'us as conturbou com toda angústia" (Divrei HaYamim II 15:6). E o que está escrito logo depois? A salvação de Israel, como está dito: "mas vós, sede fortes, e não desfaleçam as vossas mãos, pois há recompensa para o vosso trabalho" (Divrei HaYamim II 15:7).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: לֹא עַל הַמַּיִם בִּלְבַד אָמְרוּ שֶׁיִּשְׁרְצוּ, אֶלָּא אַף עַל הָעַכּוּ״ם שֶׁנִּמְשְׁלוּ כַּמַּיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּשְׁאוֹן לְאֻמִּים כִּשְׁאוֹן מַיִם כַּבִּירִים יִשָּׁאוּן״, וּכְשֵׁם שֶׁשָּׁרְצוּ הַמַּיִם בַּיּוֹם הַהוּא כָּךְ עֲתִידִים הָעַכּוּ״ם לִשְׁרֹץ בָּעוֹלָם וְנִלְחָמִים אֵלּוּ עִם אֵלּוּ לְהַשְׁחִית, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְנָתַתִּי גוֹי בְּגוֹי וּמַמְלָכָה בְּמַמְלָכָה כִּי אֱלֹהִים הֲמָמָם בְּכָל צָרָה״, וּכְתִיב אַחֲרָיו יְשׁוּעַת יִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאַתֶּם חִזְקוּ וְאַל יִרְפּוּ יְדֵיכֶם״.
Nota. A "comparação das nações às águas" é metáfora profética (Yeshayahu 17:12): assim como as ondas se agitam e chocam, os impérios da história se agitam e guerreiam. O termo do original (akum) refere-se às nações idólatras na visão do profeta. O alvo do trecho não é o desprezo, mas o consolo: logo após a descrição do tumulto vem "a salvação de Israel — sede fortes, e não desfaleçam as vossas mãos". É uma palavra de firmeza em tempos turbulentos.
5
Todos os rios, enquanto correm sobre a terra, são bons, abençoados e doces, e há proveito neles para o mundo; mas, ao entrarem no mar, tornam-se ruins, amargos salgados, e não há proveito neles para o mundo. Assim Israel: quando confiam à sombra do seu Criador e fazem a Sua vontade, são abençoados e doces, e há proveito neles para o mundo — e por causa deles o mundo subsiste; mas, quando se desviam de após o seu Criador e confiam nos estatutos das nações idólatras, tornam-se amaldiçoados e amargos, e não há proveito neles para o mundo. E, assim como as águas dos rios são alimento para o mar, assim os que se corrompem são combustível para o fogo do Guehinom.
כָּל הַנְּהָרוֹת, כְּשֵׁם שֶׁהֵם מְהַלְּכִין עַל הָאָרֶץ הֵם טוֹבִים וּבְרוּכִים וּמְתוּקִים וְיֵשׁ מֵהֶן הֲנָיָה לָעוֹלָם, נִכְנְסוּ לַיָּם הֵם מְאוֹרִים רָעִים וּמְרוֹרִים וְאֵין מֵהֶם הֲנָיָה לָעוֹלָם; כָּךְ יִשְׂרָאֵל שֶׁבּוֹטְחִים בְּצֵל יוֹצְרָם הֵם בְּרוּכִים וּמְתוּקִים וְיֵשׁ מֵהֶן הֲנָיָה לָעוֹלָם, וּבִזְמַן שֶׁהֵם סָרִים מֵאַחֲרֵי יוֹצְרָם וּבָטְחוּ בְחֻקּוֹת הָעַכּוּ״ם הֵם נֶאֱרָרִים וְרָעִים וְאֵין מֵהֶם הֲנָיָה לָעוֹלָם. וּכְשֵׁם שֶׁמֵּימֵי נְהָרוֹת מַאֲכָל לַיָּם, כָּךְ הֵם מַאֲכָל לְאִשּׁוֹ שֶׁל גֵּיהִנֹּם.
Nota — a parábola dos rios. Imagem bela e exata: a água do rio é doce e dá vida enquanto corre na sua terra; ao misturar-se ao mar, torna-se salgada e estéril. Os sábios leem nisso o perigo da assimilação: Israel é "doce e proveitoso" enquanto fiel à sua fonte; ao "confiar nos estatutos das nações" e dissolver-se neles, perde o sabor próprio. Não é xenofobia — é fidelidade à origem: o rio não deve ter vergonha de ser rio.
6
No quinto dia da semana todas as águas se transformaram em sangue no Egito a primeira praga; no quinto, saíram os nossos antepassados do Egito; no quinto, detiveram-se as águas do Jordão diante da arca da aliança do Eterno na entrada à Terra; no quinto, Chizkiyahu tapou as fontes que havia em Jerusalém, como está dito: "e ele, Chizkiyahu, tapou a saída superior das águas de Guichon" (Divrei HaYamim II 32:30).
בַּחֲמִישִׁי נֶהֶפְכוּ כָל הַמַּיִם לְדָם בְּמִצְרַיִם, בַּחֲמִישִׁי יָצְאוּ אֲבוֹתֵינוּ מִמִּצְרַיִם, בַּחֲמִישִׁי עָמְדוּ מֵימֵי הַיַּרְדֵּן לִפְנֵי אֲרוֹן בְּרִית ה', בַּחֲמִישִׁי סָתַם חִזְקִיָּהוּ אֶת הַמַּעְיָנוֹת שֶׁהָיוּ בִּירוּשָׁלַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהוּא יְחִזְקִיָּהוּ סָתַם אֶת מוֹצָא מֵימֵי גִיחוֹן הָעֶלְיוֹן״.
7
No quinto dia fez sair das águas o Leviatã, a serpente fugaz; a sua morada é nas águas inferiores, e entre as suas duas barbatanas repousa "a tranca do meio" da terra. E todos os grandes monstros marinhos são o alimento do Leviatã. E o Santo, bendito seja, "brinca" com ele dia a dia: o Leviatã abre a boca, e o grande monstro cuja hora de ser devorado chegou foge e corre — e acaba entrando na boca do Leviatã; e o Santo, bendito seja, com ele Se diverte, como está dito: "este Leviatã que formaste para com ele brincares" (Tehilim 104:26).
בַּחֲמִישִׁי הִשְׁרִיץ מִן הַמַּיִם לִוְיָתָן נָחָשׁ בָּרִיחַ, מְדוֹרוֹ בַּמַּיִם הַתַּחְתּוֹנִים, וּבֵין שְׁנֵי סְנַפִּירָיו הַבָּרִיחַ הַתִּיכוֹן שֶׁל אֶרֶץ עוֹמֵד, וְכָל הַתַּנִּינִים הַגְּדוֹלִים שֶׁבַּיָּם מְזוֹנוֹ שֶׁל לִוְיָתָן, וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שׂוֹחֵק עִמּוֹ יוֹם יוֹם, וְהוּא פּוֹתֵחַ פִּיו וְהַתַּנִּין הַגָּדוֹל שֶׁבָּא יוֹמוֹ לְהֵאָכֵל הוּא בּוֹרֵחַ וְנָס וְנִכְנָס לְתוֹךְ פִּיו שֶׁל לִוְיָתָן, וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שׂוֹחֵק בּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לִוְיָתָן זֶה יָצַרְתָּ לְשַׂחֶק בּוֹ״.
Nota — o Leviatã. O Leviatã é a maior das criaturas, símbolo das forças mais temíveis do mundo. O ponto do midrash está no versículo: "que formaste para com ele brincares" (Tehilim 104:26) — o monstro que aterroriza a imaginação humana é, diante de D'us, apenas um brinquedo. É uma afirmação da soberania do Criador sobre toda potência. A tradição fala ainda de um "banquete do Leviatã" no porvir (Talmud, Bava Batra 74b), que os sábios racionalistas leem como parábola do deleite do mundo vindouro — não uma refeição literal.
8
Rabi Meir diz: aqueles que foram criados da terra reproduzem-se e multiplicam-se na terra, e aqueles que fervilharam das águas reproduzem-se e multiplicam-se nas águas — exceto toda espécie de ave alada, cuja criação é das águas e que contudo se reproduz e multiplica na terra, como está dito: "e que as aves se multipliquem na terra" (Bereshit 1:22). E aqueles que fervilharam das águas reproduzem-se por ovos, e aqueles que foram criados da terra reproduzem-se por cria nascimento vivo.
רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר: אֵלּוּ שֶׁנִּבְרְאוּ מִן הָאָרֶץ פָּרִים וְרָבִים בָּאָרֶץ, וְאֵלּוּ שֶׁשָּׁרְצוּ מִן הַמַּיִם פָּרִים וְרָבִים בַּמַּיִם, חוּץ מִכָּל מִין עוֹף כָּנָף שֶׁבְּרִיָּתוֹ מִן הַמַּיִם וּפָרֶה וְרָבֶה בָּאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָעוֹף יִרֶב בָּאָרֶץ״. וְאֵלּוּ שֶׁשָּׁרְצוּ מִן הַמַּיִם פָּרִים וְרָבִים בְּבֵיצִים, וְאֵלּוּ שֶׁנִּבְרְאוּ מִן הָאָרֶץ פָּרִים וְרָבִים בְּוָלָד.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

Os sinais da pureza: a santidade no prato

Por que peixe precisa de barbatana e escama, e a ave de papo e moela? Os sábios e o Rambam (Mishné Torá, Hilchot Maachalot Assurot; Guia dos Perplexos III:48) ensinam que as leis de kashrut treinam o domínio de si: o ser humano não come tudo o que o apetite quer, mas o que a sabedoria permite. Os simanim têm ainda uma virtude prática — são observáveis, de modo que a lei pode ser ensinada e aplicada por qualquer pessoa, sem mistério. A mesa torna-se, assim, lugar de disciplina e consciência, não de mero instinto.

"O sangue é a vida"

A distinção do §3 — sangue derramado como água, sangue coberto com terra — aponta para um princípio profundo: a reverência pela vida. A Torá proíbe consumir o sangue, "pois o sangue é a vida" (Devarim 12:23), e ordena cobri-lo (kisui hadam). O Radal e os comentadores veem nisso a educação do caráter: ainda que a Torá permita ao homem alimentar-se de carne, ela o cerca de limites que o impedem de se tornar cruel ou indiferente diante do ato de tirar uma vida.

Os rios e o mar: a fidelidade à fonte

A parábola do §5 é das mais citadas do livro. O rio é doce porque corre na sua terra; ao entregar-se ao mar, some no sal. Israel é "proveitoso ao mundo" enquanto fiel ao seu Criador; ao "confiar nos estatutos das nações" e dissolver a sua identidade, perde o que tinha de bom a oferecer. A lição não é de isolamento, mas de raiz: só quem permanece ligado à sua fonte tem o que dar. É a mesma ideia que percorre o capítulo — cada ser segue a sua natureza e o seu lugar (§8), e a bênção está em não perdê-los.

O Leviatã e o riso de D'us

O fecho aggádico do capítulo desfaz, pela leitura sóbria, qualquer temor mitológico. O Leviatã — pavor dos antigos, "serpente fugaz" das profundezas — é, diante do Criador, aquilo "que formaste para com ele brincares" (Tehilim 104:26). Nenhuma força do mundo é um rival de D'us; as maiores potências são, perante Ele, brinquedo. E o "banquete do Leviatã" do porvir, ensinam os sábios na linha racionalista, não é um repasto físico, mas figura do deleite supremo dos justos no mundo vindouro — o gozo da proximidade de D'us, que nenhuma metáfora corporal pode esgotar.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 10

A história de Yoná: a fuga, o grande peixe e a teshuvá das profundezas

פֶּרֶק י׳

Por que Yoná fugiu? A tradição lê o livro de Jonas como um drama do arrependimento — a impossibilidade de fugir de D'us, a oração lançada do fundo do abismo, e até marinheiros idólatras que se voltam ao D'us de Israel.

1
No quinto dia, Yoná fugiu de diante de D'us. E por que fugiu? Na primeira vez, D'us o enviara para restaurar a fronteira de Israel, e as suas palavras se cumpriram, como está dito: "ele restaurou a fronteira de Israel desde a entrada de Chamat..." (Melachim II 14:25). Na segunda vez, enviou-o a Jerusalém para profetizar a sua destruição; mas, como fizeram teshuvá, o Santo, bendito seja, agiu segundo a abundância da Sua bondade e Se arrependeu do mal, e ela não foi destruída — e os de Israel passaram a chamá-lo "profeta mentiroso". Na terceira vez, enviou-o a Nínive. Yoná julgou consigo mesmo: "eu sei que esta nação é dada à teshuvá; agora farão teshuvá, e o Santo, bendito seja, lançará a Sua ira sobre Israel que não se arrepende. E não basta que Israel me chame de profeta mentiroso, mas até os povos? Eis que vou fugir para um lugar onde não se diz que está a Sua glória." Mas, se sobre os céus está dito que ali está a Sua glória — "sobre os céus está a Sua glória" (Tehilim 113:4) — e sobre a terra está dito que ali está a Sua glória — "a terra inteira está cheia da Sua glória" (Yeshayahu 6:3) —, "eis que fugirei para um lugar onde não se diz que está a Sua glória". Desceu Yoná a Yafo e não achou ali navio para embarcar; e o navio em que viria a embarcar estava a dois dias de viagem de Yafo — para pôr Yoná à prova. Que fez o Santo, bendito seja? Trouxe sobre ele uma tempestade no mar e o fez voltar a Yafo. E Yoná viu e alegrou-se no coração, dizendo: "agora sei que o meu caminho está aplainado diante de mim".
בַּחֲמִישִׁי בָּרַח יוֹנָה מִפְּנֵי אֱלֹהִים, וְלָמָּה בָּרַח? אֶלָּא פַּעַם רִאשׁוֹן שְׁלָחוֹ לְהָשִׁיב אֶת גְּבוּל יִשְׂרָאֵל וְעָמְדוּ דְּבָרָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הוּא הֵשִׁיב אֶת גְּבוּל יִשְׂרָאֵל מִלְּבוֹא חֲמָת״ וְכוּ'. פַּעַם שְׁנִיָּה שְׁלָחוֹ לִירוּשָׁלַיִם לְהַחֲרִיבָהּ, כֵּיוָן שֶׁעָשׂוּ תְּשׁוּבָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עָשָׂה כְּרוֹב חֲסָדָיו וְנִחַם עַל הָרָעָה וְלֹא חָרְבָה, וְהָיוּ יִשְׂרָאֵל קוֹרְאִין אוֹתוֹ נְבִיא שֶׁקֶר. פַּעַם שְׁלִישִׁית שְׁלָחוֹ לְנִינְוֵה, דָּן יוֹנָה דִּין בֵּינוֹ לְבֵין עַצְמוֹ, אָמַר: אֲנִי יוֹדֵעַ שֶׁזֶּה הַגּוֹי קְרוֹבֵי הַתְּשׁוּבָה הֵם, עַכְשָׁיו עוֹשִׂין תְּשׁוּבָה וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שׁוֹלֵחַ רֻגְזוֹ עַל יִשְׂרָאֵל, וְלֹא דַי שֶׁיִּשְׂרָאֵל קוֹרִין אוֹתִי נְבִיא הַשֶּׁקֶר אֶלָּא אַף הָעַכּוּ״ם. הֲרֵינִי בּוֹרֵחַ לִי לְמָקוֹם שֶׁלֹּא נֶאֱמַר כְּבוֹדוֹ שָׁם; אִם עַל הַשָּׁמַיִם נֶאֱמַר שֶׁכְּבוֹדוֹ שָׁם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עַל הַשָּׁמַיִם כְּבוֹדוֹ״, עַל הָאָרֶץ נֶאֱמַר שֶׁכְּבוֹדוֹ שָׁם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מְלֹא כָל הָאָרֶץ כְּבוֹדוֹ״, הֲרֵינִי בּוֹרֵחַ לִי לְמָקוֹם שֶׁלֹּא נֶאֱמַר כְּבוֹדוֹ שָׁם. יָרַד יוֹנָה לְיָפוֹ וְלֹא מָצָא שָׁם אֳנִיָּה לִירֵד בָּהּ, וְהָאֳנִיָּה שֶׁיָּרַד בָּהּ יוֹנָה הָיְתָה רְחוֹקָה מִיָּפוֹ מַהֲלַךְ שְׁנֵי יָמִים לְנַסּוֹת אֶת יוֹנָה. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? הֵבִיא עָלֶיהָ רוּחַ סְעָרָה בַּיָּם וְהֶחֱזִירָהּ לְיָפוֹ, וְרָאָה יוֹנָה וְשָׂמַח בְּלִבּוֹ וְאָמַר: עַכְשָׁיו אֲנִי יוֹדֵעַ שֶׁדַּרְכִּי מְיֻשָּׁרָה לְפָנַי.
Nota — por que Yoná fugiu. A tradição dá a Yoná um motivo nobre, não covardia: ele temia que o arrependimento de Nínive (uma nação "pronta a se arrepender") envergonhasse Israel, que resistia à teshuvá — e que ele fosse de novo tachado de "profeta mentiroso". E o capítulo sublinha, com fina ironia, a impossibilidade da fuga: Yoná procura "um lugar onde não esteja a glória de D'us" — mas os céus e a terra estão cheios dela (Tehilim 113:4; Yeshayahu 6:3). Não há para onde fugir de D'us (cf. Tehilim 139:7). Até a "sorte" do navio que aparece é, na verdade, uma prova.
2
Disse-lhes aos marinheiros: "descerei convosco". Responderam: "eis que vamos para as ilhas do mar, a Társis". Disse-lhes: "irei convosco". Ora, o costume de todos os navios é que, quando alguém desembarca, paga então a sua passagem; mas Yoná, na alegria do seu coração, adiantou-se e pagou a passagem, como está dito: "e levantou-se Yoná para fugir a Társis, de diante do Eterno; e desceu a Yafo, achou um navio que ia a Társis, pagou a sua passagem e desceu nele..." (Yoná 1:3).
אָמַר לָהֶם: ״אֵרֵד עִמָּכֶם״. אָמְרוּ לוֹ: ״הֲרֵי אָנוּ הוֹלְכִים לְאִיֵּי הַיָּם תַּרְשִׁישָׁה״. אָמַר לָהֶם: ״אָבֹא עִמָּכֶם״. וְדֶרֶךְ כָּל הָאֳנִיּוֹת כְּשֶׁאָדָם יוֹצֵא מִמֶּנָּה הוּא נוֹתֵן שְׂכָרָהּ, וְיוֹנָה בְּשִׂמְחַת לִבּוֹ הִקְדִּים וְנָתַן שְׂכָרָהּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּקָם יוֹנָה לִבְרֹחַ תַּרְשִׁישָׁה מִלִּפְנֵי ה' וַיֵּרֶד יָפוֹ״ וְכוּ'.
3
Navegaram a distância de um dia, e levantou-se sobre eles uma tempestade no mar, à sua direita e à sua esquerda; e, enquanto todos os outros navios iam e voltavam em paz, num mar tranquilo, o navio em que Yoná descera estava em grande aflição, como está dito: "e o navio ameaçava quebrar-se" (Yoná 1:4).
פָּרְשׂוּ מַהֲלַךְ יוֹם אֶחָד וְעָמַד עֲלֵיהֶם רוּחַ סְעָרָה בַּיָּם מִימִינָם וּמִשְּׂמֹאלָם, וְדֶרֶךְ כָּל הָאֳנִיּוֹת עוֹבְרוֹת וְשָׁבוֹת בְּשָׁלוֹם בִּשְׁתִיקוֹת הַיָּם, וְהָאֳנִיָּה שֶׁיָּרַד בָּהּ יוֹנָה הָיְתָה בְּצָרָה גְדוֹלָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָאֳנִיָּה חִשְּׁבָה לְהִשָּׁבֵר״.
4
Rabi Chanina diz: havia no navio homens das setenta línguas todos os povos, e cada um tinha o seu ídolo na mão, como está dito: "e temeram os marinheiros, e clamaram cada um ao seu deus" (Yoná 1:5). E prostraram-se e disseram: "clame cada um ao seu deus, e o deus que responder e nos livrar desta aflição, esse é o verdadeiro D'us". E clamou cada um ao seu deus, e nada adiantou. E Yoná, na angústia da sua alma, adormecera e dormia. Veio a ele o capitão e disse: "eis que estamos entre a morte e a vida, e tu dormes? De que povo és tu?" Respondeu: "hebreu sou eu". Disse-lhe: "não ouvimos que o D'us dos hebreus é grande? Levanta-te, clama ao teu D'us; talvez Ele Se compadeça de nós e faça conosco milagres como os que fez por vós no Mar de Suf". Disse-lhes: "não vos ocultarei: por minha causa veio sobre vós esta aflição; tomai-me e lançai-me ao mar, e o mar se aquietará sobre vós", como está dito: "tomai-me e lançai-me ao mar..." (Yoná 1:12).
רַבִּי חֲנִינָא אוֹמֵר: מִשִּׁבְעִים לְשׁוֹנוֹת הָיוּ בָּאֳנִיָּה, וְכָל אֶחָד וְאֶחָד שִׁקּוּצוֹ בְּיָדוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּירְאוּ הַמַּלָּחִים וַיִּזְעֲקוּ אִישׁ אֶל אֱלֹהָיו״. וַיִּשְׁתַּחֲווּ וַיֹּאמְרוּ: ״נִקְרָא אִישׁ אֶל אֱלֹהָיו וְהָיָה אֱלֹהִים אֲשֶׁר יַעֲנֵהוּ וְיַצִּיל אוֹתָנוּ מִצָּרָה זֹאת הוּא הָאֱלֹהִים״. וְקָרְאוּ אִישׁ אֶל אֱלֹהָיו וְלֹא הוֹעִילוּ, וְיוֹנָה בְּצָרַת נַפְשׁוֹ נִרְדָּם וְיָשֵׁן לוֹ. בָּא אֵלָיו רַב הַחוֹבֵל, אָמַר לוֹ: ״הֲרֵי אָנוּ עוֹמְדִים בֵּין מָוֶת לְחַיִּים וְאַתָּה נִרְדָּם וְיָשֵׁן? מֵאֵיזֶה עַם אַתָּה?״ אָמַר לוֹ: ״עִבְרִי אָנֹכִי״. אָמַר לוֹ: ״וַהֲלֹא שָׁמַעְנוּ שֶׁאֱלֹהֵי הָעִבְרִים גָּדוֹל הוּא, קוּם קְרָא אֶל אֱלֹהֶיךָ, אוּלַי יִתְעַשֵּׁת הָאֱלֹהִים לָנוּ וְיַעֲשֶׂה עִמָּנוּ נִסִּים כְּמוֹ שֶׁעָשָׂה לָכֶם בְּיָם סוּף״. אָמַר לָהֶם: ״לֹא אֲכַחֵד מִכֶּם, כִּי בִּשְׁבִילִי הַצָּרָה הַזֹּאת עֲלֵיכֶם; שָׂאוּנִי וַהֲטִילֻנִי אֶל הַיָּם וְיִשְׁתֹּק הַיָּם מֵעֲלֵיכֶם״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר אֲלֵיהֶם שָׂאוּנִי וַהֲטִילֻנִי״ וְכוּ'.
5
Rabi Shimon diz: os homens não consentiram em lançar Yoná ao mar, e lançaram sortes entre si, e a sorte caiu sobre Yoná, como está dito: "e lançaram sortes..." (Yoná 1:7). Que fizeram? Tomaram os utensílios que havia no navio e os atiraram ao mar, para aliviá-lo — e nada adiantou. Quiseram remar de volta à terra seca, e não puderam. Que fizeram? Tomaram Yoná, puseram-se à popa do navio e disseram: "D'us eterno, Eterno, não ponhas sobre nós sangue inocente, pois não sabemos a verdadeira índole deste homem". Disse-lhes Yoná: "por minha causa veio sobre vós esta aflição; tomai-me e lançai-me ao mar".
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: לֹא קִבְּלוּ הָאֲנָשִׁים לְהַפִּיל אֶת יוֹנָה אֶל הַיָּם וְהִפִּילוּ גּוֹרָלוֹת עֲלֵיהֶם וַיִּפֹּל הַגּוֹרָל עַל יוֹנָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּפִּלוּ גּוֹרָלוֹת״ וְכוּ', מֶה עָשׂוּ? נָטְלוּ אֶת הַכֵּלִים שֶׁבָּאֳנִיָּה וְהִשְׁלִיכוּ אוֹתָם אֶל הַיָּם לְהָקֵל מֵעֲלֵיהֶם וְלֹא הוֹעִיל מְאוּמָה; רָצוּ לַחְתֹּר בַּיַּבָּשָׁה וְלֹא יָכְלוּ; מֶה עָשׂוּ? נָטְלוּ אֶת יוֹנָה וְעָמְדוּ עַל יַרְכְּתֵי הַסְּפִינָה וְאָמְרוּ: ״אֱלֹהֵי עוֹלָם ה', אַל תִּתֵּן עָלֵינוּ דָּם נָקִי, שֶׁאֵין אָנוּ יוֹדְעִין מַה טִּיבוֹ שֶׁל הָאִישׁ הַזֶּה״. אָמַר לָהֶם: ״בִּשְׁבִילִי הַצָּרָה הַזֹּאת עֲלֵיכֶם, שָׂאוּנִי וַהֲטִילוּנִי אֶל הַיָּם״.
6
Imediatamente tomaram-no e o baixaram no mar até os joelhos — e o mar cessou do seu furor; tornaram a recolhê-lo, e o mar voltou a enfurecer-se sobre eles; baixaram-no até o pescoço — e o mar cessou do seu furor; e de novo o recolheram, e o mar ia enfurecendo-se sobre eles; lançaram-no por inteiro, e imediatamente o mar cessou do seu furor.
מִיָּד נְטָלוּהוּ וְהִטִּילוּהוּ עַד אַרְכֻּבּוֹתָיו, וְעָמַד הַיָּם מִזַּעְפּוֹ; לָקְחוּ אוֹתוֹ אֶצְלָם וְהַיָּם סוֹעֵר עֲלֵיהֶם; הִטִּילוּהוּ עַד צַוָּארוֹ וְהֶעֱמִיד הַיָּם מִזַּעְפּוֹ; וְעוֹד הֶעֱלוּ אוֹתוֹ אֶצְלָן וְהַיָּם הוֹלֵךְ וְסוֹעֵר עֲלֵיהֶם; הִטִּילוּהוּ כֻּלּוֹ וּמִיָּד עָמַד הַיָּם מִזַּעְפּוֹ.
Nota. O detalhe da imersão gradual — joelhos, pescoço, todo — mostra os marinheiros tentando, com piedade, salvar Yoná: cada vez que o recolhiam, o mar voltava a bramir, até que não houve dúvida sobre o que fazer. Não eram homens cruéis; agiram só constrangidos, e com temor de "derramar sangue inocente". O capítulo prepara, assim, a sua conversão final (§10).
7
Rabi Tarfon diz: aquele peixe fora designado para engolir Yoná desde os seis dias da criação, como está dito: "e o Eterno preparou um grande peixe para engolir Yoná" (Yoná 2:1). Yoná entrou na sua boca como um homem que entra numa grande sinagoga, e ali ficou; e os dois olhos do peixe eram como janelas que davam luz a Yoná.
רַבִּי טַרְפוֹן אוֹמֵר: מְמֻנֶּה הָיָה אוֹתוֹ הַדָּג לִבְלֹעַ אֶת יוֹנָה מִשֵּׁשֶׁת יְמֵי בְרֵאשִׁית, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְמַן ה' דָּג גָּדוֹל לִבְלֹעַ אֶת יוֹנָה״. נִכְנַס בְּפִיו כְּאָדָם שֶׁהוּא נִכְנָס בְּבֵית הַכְּנֶסֶת הַגְּדוֹלָה וְעָמַד, וְהָיוּ שְׁתֵּי עֵינָיו שֶׁל דָּג כַּחֲלוֹנוֹת אֲפוּמִיּוֹת מְאִירוֹת לְיוֹנָה.
8
Rabi Meir diz: havia uma pérola pendurada nas entranhas do peixe, que iluminava Yoná como este sol que brilha ao meio-dia, e lhe mostrava tudo o que havia no mar e nos abismos; e sobre ele diz o versículo: "luz é semeada para o justo" (Tehilim 97:11).
רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר: מַרְגָּלִית אַחַת הָיְתָה תְּלוּיָה בִּמְעָיו שֶׁל דָּג מְאִירָה לְיוֹנָה כַּשֶּׁמֶשׁ הַזֶּה שֶׁהוּא מֵאִיר בַּצָּהֳרַיִם וּמַרְאָה לוֹ כָּל מַה שֶּׁבַּיָּם וּבַתְּהוֹמוֹת, וְעָלָיו הַכָּתוּב אוֹמֵר: ״אוֹר זָרֻעַ לַצַּדִּיק״.
9
Disse o peixe a Yoná: "não sabes que chegou o meu dia de ser devorado pela boca do Leviatã?" Disse-lhe Yoná: "leva-me até ele". Disse Yoná ao Leviatã: "por tua causa desci, para ver o lugar da tua morada, pois eu hei de, no futuro, pôr uma corda na tua língua, fazer-te subir e abater-te para o grande banquete dos justos". Mostrou-lhe o selo de Avraham a circuncisão, dizendo: "olha para a aliança!" — e o Leviatã viu, e fugiu de diante de Yoná a distância de dois dias de viagem. Disse Yoná ao peixe: "eis que te salvei da boca do Leviatã; mostra-me tudo o que há no mar e nos abismos". E o peixe mostrou-lhe o grande rio das águas do oceano, como está dito: "o abismo me rodeava" (Yoná 2:6); e mostrou-lhe os caminhos do Mar de Suf por onde Israel passou, como está dito: "as algas se enrolaram à minha cabeça" (Yoná 2:6); e mostrou-lhe o lugar de onde saem as vagas e ondas do mar, como está dito: "todas as tuas vagas e ondas passaram sobre mim" (Yoná 2:4); e mostrou-lhe as colunas da terra e os seus fundamentos, como está dito: "a terra, com os seus ferrolhos, se fechou sobre mim para sempre" (Yoná 2:7); e mostrou-lhe o Guehinom; e mostrou-lhe o Sheol mais profundo, como está dito: "do ventre do Sheol clamei, e ouviste a minha voz" (Yoná 2:3); e mostrou-lhe o Templo do Eterno, como está dito: "desci até as raízes dos montes" (Yoná 2:7) — daqui aprendemos que Jerusalém está sobre sete montes —; e mostrou-lhe a Even Shetiyá a Pedra Fundamental, fixada nos abismos sob o Templo do Eterno, e os filhos de Korach de pé, orando sobre ela. Disse o peixe a Yoná: "Yoná, eis que estás sob o Templo do Eterno; ora, e serás respondido". Disse Yoná ao peixe: "fica no lugar em que estás, pois quero orar". Parou o peixe, e Yoná começou a orar diante do Santo, bendito seja, e disse perante Ele: "Senhor do mundo, chamado és 'o que faz descer e o que faz subir' — desci, faze-me subir; chamado és 'o que mata e o que dá vida' — eis que a minha alma chegou à morte, faze-me viver". E não foi respondido, até que saiu da sua boca esta palavra: "o que votei, cumprirei — votei fazer subir o Leviatã e abatê-lo diante de Ti; cumprirei isso no dia da salvação de Israel". Imediatamente o Santo, bendito seja, fez um aceno, e o peixe lançou Yoná para fora, como está dito: "e falou o Eterno ao peixe, e ele vomitou Yoná em terra seca" (Yoná 2:11).
אָמַר לוֹ הַדָּג לְיוֹנָה: ״אֵין אַתָּה יוֹדֵעַ שֶׁבָּא יוֹמִי לְהֵאָכֵל בְּפִיו שֶׁל לִוְיָתָן?״ אָמַר לוֹ יוֹנָה: ״הוֹלִיכֵנִי אֶצְלוֹ״. אָמַר יוֹנָה לַלִּוְיָתָן: ״בִּשְׁבִילְךָ יָרַדְתִּי לִרְאוֹת מְקוֹם מְדוֹרְךָ שֶׁאֲנִי עָתִיד לִיתֵּן חֶבֶל בִּלְשׁוֹנְךָ וּלְהַעֲלוֹתְךָ וְלִזְבּוֹחַ אוֹתְךָ לַסְּעוּדָה הַגְּדוֹלָה שֶׁל צַדִּיקִים״. הֶרְאָהוּ חוֹתָמוֹ שֶׁל אַבְרָהָם, אָמַר: ״הַבֵּט לַבְּרִית״, וְרָאָה לִוְיָתָן וּבָרַח מִפְּנֵי יוֹנָה מַהֲלַךְ שְׁנֵי יָמִים. אָמַר לוֹ: ״הֲרֵי הִצַּלְתִּיךָ מִפִּיו שֶׁל לִוְיָתָן, הַרְאֵנִי כָּל מַה שֶּׁבַּיָּם וּבַתְּהוֹמוֹת״, וְהֶרְאָהוּ נָהָר גָּדוֹל שֶׁל מֵימֵי אוֹקְיָנוֹס, שֶׁנֶּאֱמַר: ״תְּהוֹם יְסֹבְבֵנִי״, וְהֶרְאָהוּ יַם סוּף שֶׁעָבְרוּ בְתוֹכוֹ יִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״סוּף חָבוּשׁ לְרֹאשִׁי״, וְהֶרְאָהוּ מְקוֹם מִשְׁבְּרֵי יָם וְגַלָּיו יוֹצְאִים מִמֶּנּוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כָּל מִשְׁבָּרֶיךָ וְגַלֶּיךָ עָלַי עָבָרוּ״, וְהֶרְאָהוּ עַמּוּדֵי אֶרֶץ וּמְכוֹנֶיהָ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הָאָרֶץ בְּרִחֶיהָ בַעֲדִי לְעוֹלָם״, וְהֶרְאָהוּ גֵּיהִנֹּם, וְהֶרְאָהוּ שְׁאוֹל תַּחְתִּית, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מִבֶּטֶן שְׁאוֹל שִׁוַּעְתִּי שָׁמַעְתָּ קוֹלִי״, וְהֶרְאָהוּ הֵיכַל ה', שֶׁנֶּאֱמַר: ״לְקִצְבֵי הָרִים יָרַדְתִּי״, מִכָּאן אָנוּ לְמֵדִין שֶׁיְּרוּשָׁלַיִם עַל שִׁבְעָה הָרִים הִיא עוֹמֶדֶת, הֶרְאָהוּ אֶבֶן שְׁתִיָּה קְבוּעָה בַתְּהוֹמוֹת תַּחַת הֵיכַל ה' וּבְנֵי קֹרַח עוֹמְדִים וּמִתְפַּלְּלִין עָלֶיהָ. אָמַר לוֹ הַדָּג: ״יוֹנָה, הֲרֵי אַתָּה עוֹמֵד תַּחַת הֵיכַל ה', הִתְפַּלֵּל וְאַתָּה נַעֲנֶה״. אָמַר יוֹנָה לַדָּג: ״עֲמֹד בִּמְקוֹם עָמְדְּךָ שֶׁאֲנִי מְבַקֵּשׁ לְהִתְפַּלֵּל״. עָמַד הַדָּג וְהִתְחִיל יוֹנָה לְהִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וְאָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, נִקְרֵאתָ מוֹרִיד וּמַעֲלֶה, יָרַדְתִּי – הַעֲלֵנִי; נִקְרֵאתָ מֵמִית וּמְחַיֶּה, הֲרֵי נַפְשִׁי הִגִּיעָה לְמָוֶת – הַחֲיֵינִי״, וְלֹא נַעֲנָה, עַד שֶׁיָּצָא מִפִּיו דָּבָר זֶה וְאָמַר: ״אֲשֶׁר נָדַרְתִּי אֲשַׁלֵּמָה, אֲשֶׁר נָדַרְתִּי לְהַעֲלוֹת אֶת לִוְיָתָן וְלִזְבּוֹחַ אוֹתוֹ לְפָנֶיךָ אֲשַׁלֵּם בְּיוֹם יְשׁוּעַת יִשְׂרָאֵל״. מִיָּד רָמַז הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְהִשְׁלִיךְ אֶת יוֹנָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר ה' לַדָּג וַיָּקֵא אֶת יוֹנָה אֶל הַיַּבָּשָׁה״.
Nota — a viagem pelo abismo. Toda a "excursão" de Yoná pelas profundezas é tecida com versículos da sua própria oração (Yoná cap. 2): cada maravilha que ele "vê" corresponde a uma frase que ele dirá a D'us. O peixe não é castigo, mas refúgio e lugar de revelação — Yoná desce ao fundo do mundo (a Pedra Fundamental sob o Templo, o ponto de onde, na tradição, o mundo foi fundado) e dali ergue a sua prece. É a teshuvá lançada do ponto mais baixo: "do ventre do Sheol clamei, e ouviste a minha voz".
10
Viram os marinheiros todos os sinais, milagres e grandes maravilhas que o Santo, bendito seja, fez com Yoná. Imediatamente levantaram-se e cada um lançou o seu ídolo ao mar, como está dito: "os que guardam vaidades vãs abandonam a sua fonte de bondade" (Yoná 2:9). E voltaram a Yafo, subiram a Jerusalém e circuncidaram a carne do seu prepúcio, como está dito: "e temeram os homens com grande temor ao Eterno, e ofereceram um sacrifício ao Eterno" (Yoná 1:16). E acaso ofereceram um sacrifício? Mas não se aceita sacrifício de idólatras! — Trata-se, antes, do sangue da aliança da circuncisão, que é como o sangue de um sacrifício. E fizeram votos e os cumpriram, comprometendo-se a trazer cada um a sua mulher e tudo o que tinha ao temor do D'us de Yoná; e fizeram votos e os cumpriram. E sobre eles se diz: "a recompensa dos convertidos" — os guerei tzédek (prosélitos justos).
רָאוּ הַמַּלָּחִים אֶת כָּל הָאוֹתוֹת וְהַנִּפְלָאוֹת הַגְּדוֹלוֹת שֶׁעָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עִם יוֹנָה. מִיָּד עָמְדוּ וְהִשְׁלִיכוּ אִישׁ אֶת אֱלֹהָיו בַּיָּם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מְשַׁמְּרִים הַבְלֵי שָׁוְא חַסְדָּם יַעֲזֹבוּ״. וְחָזְרוּ לְיָפוֹ וְעָלוּ לִירוּשָׁלַיִם וּמָלוּ אֶת בְּשַׂר עָרְלָתָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּירְאוּ הָאֲנָשִׁים יִרְאָה גְדוֹלָה אֶת ה' וַיִּזְבְּחוּ זֶבַח לַה'״. וְכִי זֶבַח זָבְחוּ? וַהֲלֹא אֵין מְקַבְּלִין זֶבַח מִן הָעַכּוּ״ם, אֶלָּא זֶה הוּא דַּם בְּרִית שֶׁהוּא כְּדַם זֶבַח. וְנָדְרוּ וְשִׁלְּמוּ לְהָבִיא אִישׁ אֶת אִשְׁתּוֹ וְאֶת כָּל אֲשֶׁר לוֹ לְיִרְאַת אֱלֹהֵי יוֹנָה, וְנָדְרוּ וְשִׁלְּמוּ. וַעֲלֵיהֶם הוּא אוֹמֵר ״עַל הַגֵּרִים״, גֵּירֵי הַצֶּדֶק.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

Yoná e o livro do arrependimento

Não é por acaso que o livro de Yoná é lido em Yom Kipur, à tarde: ele é o livro da teshuvá. Os sábios leem a sua história como o drama de um profeta que aprende, à força, três verdades: que não há fuga de D'us; que a teshuvá é aceita de qualquer pessoa — até de Nínive, a grande cidade pagã; e que o profeta não é "dono" da sua profecia (uma ameaça que não se cumpre porque o povo se arrependeu não é mentira — é misericórdia). O Radal e os comentadores veem em Yoná não um covarde, mas um homem dilacerado pelo amor a Israel, que precisa aprender a amplitude da compaixão divina.

"Para onde fugiria da Tua presença?"

O capítulo abre desmontando a própria ideia de fuga: Yoná busca "um lugar onde não esteja a glória de D'us", mas os céus e a terra estão cheios dela. É a tradução narrativa do salmo: "para onde irei, longe do Teu espírito? e para onde fugirei da Tua face?" (Tehilim 139:7). A presença de D'us não é um lugar de onde se escapa indo a outro; Ele sustenta toda a realidade. A "descida" de Yoná — a Yafo, ao navio, ao porão, ao mar, ao ventre do peixe, ao fundo dos montes — é uma queda em espiral que só termina quando ele finalmente sobe: na oração.

O peixe: refúgio, não masmorra

A leitura dos sábios transforma o "grande peixe" de prisão em útero de renascimento. Designado "desde os seis dias da criação", iluminado por uma pérola, com olhos como janelas, o peixe leva Yoná numa peregrinação pelas profundezas até a Pedra Fundamental sob o Templo — o ponto a partir do qual, na tradição, o mundo foi fundado. Só do fundo absoluto, no centro espiritual do mundo, Yoná ergue a sua prece. É a lição maior: "luz é semeada para o justo" (Tehilim 97:11) — mesmo no escuro mais cerrado, há luz preparada para quem se volta a D'us.

Os marinheiros: a verdade convence até os idólatras

O fecho é uma das mais belas afirmações universalistas do livro: os marinheiros pagãos, das "setenta línguas", cada um agarrado ao seu ídolo, ao verem os atos de D'us "lançam cada um o seu ídolo ao mar" e se tornam guerei tzédek, prosélitos justos. A verdade, quando se revela, convence o coração honesto de qualquer povo. É o mesmo D'us de toda a humanidade — e, como Nínive que se arrependeu, esses marinheiros mostram que a porta da teshuvá e do reconhecimento do Criador está aberta a todos.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 11

A obra do sexto dia: a criação do homem e os dez reis

פֶּרֶק י״א

O clímax da criação: os animais, o Behemot, e o homem — feito do pó dos quatro cantos do mundo, em doze horas, coroando o seu Criador. E uma visão da história inteira: os dez reis que governam de um extremo ao outro do mundo, de D'us até o Mashiach e de volta a D'us.

1
No sexto dia, fez sair da terra todos os animais domésticos (behemot), machos e fêmeas, puros e impuros. Por dois sinais os puros se distinguem: por ruminarem e por terem o casco fendido. E três espécies foram escolhidas para a oferenda de elevação: o boi, o cordeiro e a cabra. E todo animal puro que não seja nevelá morto sem abate nem terefá dilacerado no campo é permitido comer, exceto três coisas: o chélev a gordura proibida, o sangue e o guid hanashê o nervo ciático, como está dito: "como a erva verde, dei-vos tudo" (Bereshit 9:3).
בַּשִּׁשִּׁי הוֹצִיא מִן הָאָרֶץ כָּל בְּהֵמוֹת: זְכָרִים וּנְקֵבוֹת, טְהוֹרִים וּטְמֵאִים. וּבִשְׁנֵי סִימָנִים הֵן מִטַּהֲרִים: בְּמַעֲלֵה גֵרָה וּבְמַפְרִיסֵי פַּרְסָה. וּשְׁלֹשָׁה מִינֵי בְהֵמָה נִבְחֲרוּ לְקָרְבַּן עוֹלָה, וְאֵלּוּ הֵן: שׁוֹר וְכֶשֶׂב וָעֵז. וְכָל מִין בְּהֵמָה טְהוֹרָה שֶׁאֵינָהּ נְבֵלָה וּטְרֵפָה בַּשָּׂדֶה מֻתָּר לְאָכְלוֹ, חוּץ מִשְּׁלֹשָׁה דְבָרִים, וְאֵלּוּ הֵן: הַחֵלֶב וְהַדָּם וְגִיד הַנָּשֶׁה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כְּיֶרֶק עֵשֶׂב נָתַתִּי לָכֶם אֶת כֹּל״.
2
No sexto dia, fez sair da terra sete animais selvagens (chayot) puros, cujo abate e consumo são como os da ave, a saber: o cervo, a gazela, o gamo etc. — e todos eles têm o abate e o consumo regrados como a ave. E todos os demais animais selvagens do campo são impuros.
בַּשִּׁשִּׁי הוֹצִיא מִן הָאָרֶץ שִׁבְעָה חַיּוֹת טְהוֹרוֹת, שְׁחִיטָתָן וַאֲכִילָתָן כְּעוֹף, וְאֵלּוּ הֵן: אַיִל וּצְבִי וְיַחְמוּר וְכוּ', וְכֻלָּן שְׁחִיטָתָן וַאֲכִילָתָן כְּעוֹף. וּשְׁאָר כָּל הַחַיּוֹת שֶׁבַּשָּׂדֶה כֻּלָּן טְמֵאִין.
3
E fez sair da terra toda espécie de répteis e rastejantes (shkatzim e remassim), todos impuros. E aqueles que foram criados da terra, a sua alma e o seu corpo são da terra; e, quando retornam, chegam ao seu pó, ao lugar onde foram criados, como está dito: "tiras-lhes o fôlego, perecem e ao seu pó voltam" (Tehilim 104:29); e está escrito: "e o espírito do animal, que desce para baixo, à terra" (Kohélet 3:21).
וְהוֹצִיא מִן הָאָרֶץ מִין שְׁקָצִים וּרְמָשִׂים, כֻּלָּם טְמֵאִים. וְאֵלּוּ שֶׁנִּבְרְאוּ מִן הָאָרֶץ, נַפְשָׁם וְגוּפָם מִן הָאָרֶץ, וּכְשֶׁהֵם חוֹזְרִין וּמַגִּיעִים לַעֲפָרָם לְמָקוֹם שֶׁנִּבְרְאוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״תֹּסֵף רוּחָם יִגְוָעוּן״, וְכָתוּב: ״וְרוּחַ הַבְּהֵמָה הַיֹּרֶדֶת הִיא לְמַטָּה לָאָרֶץ״.
Nota. O capítulo distingue as classes de animais e os seus sinais de pureza (ruminar e casco fendido nos domésticos), retomando os três interditos perpétuos sobre a carne permitida — gordura, sangue e nervo ciático. E nota uma diferença essencial entre o animal e o homem: o espírito do animal "desce à terra", de onde veio; só do homem se dirá algo diferente (§5 em diante), pois nele foi soprada uma alma de outra origem.
4
No sexto dia, fez sair da terra o Behemot, que jaz estendido sobre mil montes; cada dia pasta em mil montes, e à noite a vegetação volta a crescer por si mesma, como se ele não a houvesse tocado, como está dito: "pois os montes lhe produzem alimento" (Iyov 40:20). E as águas do Jordão o dessedentam, pois as águas do Jordão circundam toda a terra — metade acima da terra e metade abaixo —, como está dito: "ainda que o Jordão transborde até a sua boca" (Iyov 40:23). E ele está preparado para o dia do sacrifício, o grande banquete dos justos, como está dito: "só o seu Criador pode chegar-lhe a espada" (Iyov 40:19).
בַּשִּׁשִּׁי הוֹצִיא מִן הָאָרֶץ בְּהֵמוֹת שֶׁהוּא רָבוּץ בְּהַרְרֵי אֶלֶף, וּבְכָל יוֹם וָיוֹם בְּאֶלֶף הָרִים מַרְעִיתוֹ, וּבַלַּיְלָה הֵן נִצְמָחִין מֵאֲלֵיהֶן כְּאִלּוּ לֹא נָגַע בָּם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי בוּל הָרִים יִשְׂאוּ לוֹ״. וּמֵימֵי הַיַּרְדֵּן לְהַשְׁקוֹתוֹ, שֶׁמֵּימֵי הַיַּרְדֵּן סוֹבְבִין לְכָל הָאָרֶץ, חֶצְיָן לְמַעְלָה מִן הָאָרֶץ וְחֶצְיָן לְמַטָּה מִן הָאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי יָגִיחַ יַרְדֵּן אֶל פִּיהוּ״. וְהוּא מוּכָן לְיוֹם זֶבַח וּסְעוּדָה גְּדוֹלָה שֶׁל צַדִּיקִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הָעֹשׂוֹ יַגֵּשׁ חַרְבּוֹ״.
Nota. O Behemot é o par terrestre do Leviatã (cap. 9): as duas maiores criaturas, uma do mar, outra da terra, ambas "reservadas para o banquete dos justos no porvir" (cf. Talmud, Bava Batra 74b). Na leitura racionalista, esse banquete é parábola do deleite supremo do mundo vindouro — e o ponto, como no Leviatã, é que só o Criador "chega a espada" às maiores forças: tudo está sob o Seu domínio.
5
Disse o Santo, bendito seja, à Torá: "façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança" (Bereshit 1:26). Disse ela diante Dele: "Senhor de todos os mundos, o homem que pretendes criar será de dias curtos e farto de inquietação, e cairá em pecado; e, se não fores paciente com ele, melhor lhe fora não ter vindo ao mundo". Disse-lhe: "e será à toa que sou chamado 'longânimo e grande em bondade'?" Começou a recolher o pó do primeiro homem dos quatro cantos do mundo: vermelho, preto, branco e verde. Vermelho — é o sangue; preto — são as entranhas; branco — são os ossos e os nervos; verde — é o corpo.
אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לַתּוֹרָה: ״נַעֲשֶׂה אָדָם בְּצַלְמֵנוּ כִּדְמוּתֵנוּ״. אָמְרָה לְפָנָיו: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, הָאָדָם שֶׁלְּךָ לַעֲשׂוֹת קְצַר יָמִים וּשְׂבַע רֹגֶז, וּבָא לִידֵי חֵטְא. וְאִם אֵין אַתָּה מַאֲרִיךְ אֶת אַפְּךָ עִמּוֹ, רָאוּי הוּא כְּאִלּוּ לֹא בָּא לָעוֹלָם״. אָמַר לָהּ: ״וְעַל חִנָּם נִקְרֵאתִי אֶרֶךְ אַפַּיִם וְרַב חֶסֶד?״ הִתְחִיל מְקַבֵּץ עֲפָרוֹ שֶׁל אָדָם הָרִאשׁוֹן מֵאַרְבַּע פִּנּוֹת הָעוֹלָם: אָדֹם, שָׁחֹר, לָבָן, יָרֹק. אָדֹם – זֶה הַדָּם, שָׁחֹר – אֵלּוּ הַקְּרָבַיִם, לָבָן – אֵלּוּ עֲצָמוֹת וְגִידִין, יָרֹק – זֶה הַגּוּף.
6
E por que recolheu o seu pó dos quatro cantos do mundo? Disse o Santo, bendito seja: para que, se um homem vier do oriente ao ocidente ou do ocidente ao oriente, e chegar a sua hora de partir do mundo, não diga a terra: "o pó do teu corpo não é do meu; volta ao lugar onde foste criado". Antes, é para te ensinar que, em todo lugar aonde o homem vá e venha, e chegue a sua hora de partir do mundo, dali é o pó do seu corpo, e para lá ele volta, ao pó, como está dito: "pois pó és, e ao pó voltarás" (Bereshit 3:19).
וְלָמָּה כִּנֵּס אֶת עֲפָרוֹ מֵאַרְבַּע פִּנּוֹת הָעוֹלָם? אֶלָּא אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שֶׁאִם יָבֹא אָדָם מִן הַמִּזְרָח לַמַּעֲרָב אוֹ מִן הַמַּעֲרָב לַמִּזְרָח וְיַגִּיעַ קִצּוֹ לְהִפָּטֵר מִן הָעוֹלָם, שֶׁלֹּא תֹאמַר הָאָרֶץ ״אֵין עֲפַר גּוּפְךָ מִשֶּׁלִּי, חֲזֹר לַמָּקוֹם שֶׁנִּבְרֵאתָ״. אֶלָּא לְלַמֶּדְךָ שֶׁבְּכָל מָקוֹם וּמָקוֹם שֶׁאָדָם הוֹלֵךְ וּבָא וְהִגִּיעַ קִצּוֹ לְהִפָּטֵר מִן הָעוֹלָם, מִשָּׁם הוּא עֲפַר גּוּפוֹ, לְשָׁם הוּא חוֹזֵר לֶעָפָר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי עָפָר אַתָּה וְאֶל עָפָר תָּשׁוּב״.
Nota — o pó dos quatro cantos. O homem é feito do pó de todo o mundo, e de quatro "cores" — uma afirmação antiga da unidade da humanidade: todos os povos e tons de pele saem de um único Adam, formado da terra inteira. E, onde quer que alguém morra, "ali está o pó do seu corpo" — nenhuma terra lhe é estranha. É a base do princípio "amado é o homem, criado à imagem de D'us" (Pirkei Avot 3:14): um só pai para toda a humanidade.
7
E o dia tem doze horas: na primeira hora, foi recolhido o pó de Adam; na segunda, foi amassado; na terceira, foi-lhe dada a forma; na quarta, foi-lhe lançada a alma; na quinta, pôs-se de pé; na sexta, deu nome aos animais; na sétima, foi-lhe dada Chavá Eva; na oitava, foram ordenados quanto aos frutos; na nona, subiram ao leito dois e desceram quatro; na décima, transgrediu a ordem; na décima primeira, foi julgado; na décima segunda, foi expulso, como está dito: "e expulsou o homem" (Bereshit 3:24).
וּשְׁנֵים עָשָׂר שָׁעוֹת הַיּוֹם. בְּשָׁעָה רִאשׁוֹנָה הוּצְבַּר עֲפָרוֹ שֶׁל אָדָם, בַּשְּׁנִיָּה גִּבְּלוֹ, בַּשְּׁלִישִׁית רִקְּמוֹ, בָּרְבִיעִית נִזְרְקָה בּוֹ נְשָׁמָה, בַּחֲמִישִׁית קָם עַל רַגְלָיו, בַּשִּׁשִּׁית קָרָא שֵׁמוֹת, בַּשְּׁבִיעִית נִזְדַּמְּנָה לוֹ חַוָּה, בַּשְּׁמִינִית נִצְטַוּוּ עַל פֵּרוֹת, בַּתְּשִׁיעִית עָלוּ לַמִּטָּה שְׁנַיִם וְיָרְדוּ אַרְבָּעָה, בָּעֲשִׂירִית עָבַר עַל צִוּוּיוֹ, בְּאַחַד עָשָׂר נִדּוֹן, בִּשְׁנֵים עָשָׂר נִתְגָּרַשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְגָרֶשׁ אֶת הָאָדָם״.
Nota — as doze horas. Toda a trajetória de Adam — criado, animado, casado, advertido, transgressor, julgado e exilado — cabe num único dia. O midrash (cf. Talmud, Sanhedrin 38b) condensa nesse relógio a velocidade do drama humano: o ser humano nasce dotado da imagem divina e do livre-arbítrio, e na mesma jornada já enfrenta a sua primeira escolha — e a sua primeira queda. Mas note que entre a transgressão (10ª hora) e a expulsão (12ª) há o julgamento (11ª): mesmo no erro, há juízo e oportunidade, não destruição.
8
E amassou o torrão do pó do primeiro homem num lugar puro, no umbigo da terra o centro, onde se ergueria o Templo. Deu-lhe forma e o preparou, mas não havia nele espírito nem alma. Que fez o Santo, bendito seja? Soprou nele o sopro do alento de vida como está dito: "e soprou nas suas narinas o fôlego de vida" (Bereshit 2:7).
וְגִבֵּל גּוּשׁ עֲפָרוֹ שֶׁל אָדָם הָרִאשׁוֹן בְּמָקוֹם טָהוֹר בְּטַבּוּר הָאָרֶץ. רְקָמוֹ וְתִכְּנוֹ, וְרוּחַ נְשָׁמָה לֹא הָיְתָה בּוֹ. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? נָפַח בּוֹ רוּחַ נִשְׁמַת חַיִּים.
9
E Adam pôs-se de pé e olhava para cima e para baixo, e viu todas as criaturas que o Santo, bendito seja, criara, e admirava-se no seu coração. Começou a louvar e glorificar o seu Criador, e disse: "quão numerosas são as Tuas obras, ó Eterno!" (Tehilim 104:24). Pôs-se de pé, e estava no porte da semelhança divina, e a sua estatura ia do oriente ao ocidente, como está dito: "por detrás e por diante me formaste" (Tehilim 139:5) — "por detrás", isto é, o ocidente; "por diante", isto é, o oriente. E viram-no todas as criaturas e temeram diante dele, supondo que fosse o seu criador, e vieram prostrar-se diante dele.
וְעָמַד אָדָם וְהָיָה מִסְתַּכֵּל כְּלַפֵּי מַעְלָה וּמַטָּה, וְרָאָה כָּל הַבְּרִיּוֹת שֶׁבָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וְהָיָה תָּמֵהַּ בְּלִבּוֹ. הִתְחִיל מְשַׁבֵּחַ וּמְפָאֵר לְיוֹצְרוֹ וְאָמַר: ״מָה רַבּוּ מַעֲשֶׂיךָ ה'!״ קָם עַל רַגְלָיו וְהָיָה בְּתֹאַר כִּדְמוּת אֱלֹהִים, וְהָיְתָה קוֹמָתוֹ מִן הַמִּזְרָח לַמַּעֲרָב, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אָחוֹר וָקֶדֶם צַרְתָּנִי״. אָחוֹר – זֶה מַעֲרָב, וָקֶדֶם – זֶה קִדְמָה מִזְרָחָה. וְרָאוּ אוֹתוֹ כָּל הַבְּרִיּוֹת וְנִתְיָּרְאוּ מִלְּפָנָיו, סְבוּרִין שֶׁהוּא בּוֹרְאָן, וּבָאוּ לְהִשְׁתַּחֲווֹת לְפָנָיו.
10
Disse-lhes Adam: "por que viestes prostrar-vos diante de mim? Vinde, eu e vós, e vamos revestir-nos de majestade e força, e coroar como rei sobre nós Aquele que nos criou. Pois, se não há povo que coroe o rei, é o rei que se coroa a si mesmo; e se não há povo que louve o rei, é o rei que louva a si mesmo". Naquela hora, Adam abriu a sua boca, e todas as criaturas responderam após ele, e revestiram-se de majestade e força, e coroaram como rei sobre si o seu Criador, dizendo: "o Eterno reina, revestiu-Se de majestade" (Tehilim 93:1).
אָמַר לָהֶם אָדָם: ״לָמָּה בָּאתֶם לְהִשְׁתַּחֲווֹת? בּוֹאוּ, אֲנִי וְאַתֶּם, וְנֵלֵךְ וְנַלְבִּישׁ גֵּאוּת וָעֹז, וְנַמְלִיךְ עָלֵינוּ לְמִי שֶׁבְּרָאָנוּ. וְאִם אֵין עַם מַמְלִיכִים אֶת הַמֶּלֶךְ, הוּא מַמְלִיךְ עַצְמוֹ, וְאִם אֵין עַם מְקַלְּסִים אֶת הַמֶּלֶךְ, הַמֶּלֶךְ מְקַלֵּס אֶת עַצְמוֹ״. בְּאוֹתָהּ שָׁעָה פָּתַח אָדָם אֶת פִּיו וְעָנוּ כָּל הַבְּרִיּוֹת אַחֲרָיו, וְהִלְבִּישׁוּ גֵּאוּת וָעֹז וְהִמְלִיכוּ עֲלֵיהֶן לְיוֹצְרָן, וְאָמְרוּ: ״ה' מָלָךְ גֵּאוּת לָבֵשׁ״.
Nota — o primeiro ato do homem. Eis o gesto fundador da humanidade: as criaturas querem adorar Adam, e ele recusa, conduzindo-as a coroar o verdadeiro Criador. O primeiro uso da razão e da palavra humanas é rejeitar a idolatria e proclamar D'us. Aqui está, em germe, toda a vocação racional da Torá: a "imagem de D'us" no homem (o intelecto) existe para reconhecer o Criador, não para tomar o Seu lugar.
Nota — os dez reis. O capítulo encerra com uma filosofia da história: dez reis "governam de um extremo ao outro do mundo". O primeiro é D'us; depois vêm reis humanos — alguns de Israel (Yossef, Shelomó, Achav), outros das nações (Nimrod, Nevuchadnetzar, Koresh, Alexandre) —; o nono é o Mashiach; e o décimo é o retorno do reino ao seu verdadeiro Dono. A lição: todo poder terreno é delegado e passageiro ("Ele remove reis e estabelece reis", Daniel 2:21); a história começa e termina em D'us.
11
Dez reis governaram de um extremo do mundo ao outro. O primeiro rei é o Santo, bendito seja, que governa nos céus e na terra; e subiu ao Seu pensamento erguer reis sobre a terra, como está dito: "Ele muda os tempos e as estações, remove reis e estabelece reis" (Daniel 2:21).
עֲשָׂרָה מְלָכִים מָשְׁלוּ מִסּוֹף הָעוֹלָם וְעַד סוֹפוֹ. מֶלֶךְ רִאשׁוֹן זֶה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, שֶׁהוּא מוֹשֵׁל בַּשָּׁמַיִם וּבָאָרֶץ, וְעָלָה בְמַחֲשַׁבְתּוֹ לְהָקִים מְלָכִים עַל הָאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הוּא מְהַשְׁנֵא עִדָּנַיָּא וְזִמְנַיָּא, מְהַעְדֵּה מַלְכִין וּמְהָקֵים מַלְכִין״.
12
O segundo é Nimrod, que governou de um extremo do mundo ao outro, pois todas as criaturas moravam num só lugar, temendo as águas do dilúvio, e Nimrod era rei sobre elas, como está dito: "e o princípio do seu reino foi Bavel..." (Bereshit 10:10).
הַשֵּׁנִי זֶה נִמְרוֹד שֶׁמָּשַׁל מִסּוֹף הָעוֹלָם וְעַד סוֹפוֹ, שֶׁהָיוּ כָּל הַבְּרִיּוֹת יוֹשְׁבִין בְּמָקוֹם אֶחָד יְרֵאִים מִמֵּי הַמַּבּוּל, וְנִמְרוֹד הָיָה עֲלֵיהֶם מֶלֶךְ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתְּהִי רֵאשִׁית מַמְלַכְתּוֹ בָּבֶל״ וְכוּ'.
13
O terceiro é Yossef, que governou de um extremo do mundo ao outro, como está dito: "e toda a terra veio ao Egito para comprar trigo de Yossef" (Bereshit 41:57). Traziam o seu tributo e as suas ofertas para comprar cereal de Yossef; pois quarenta anos foi vice-rei e quarenta anos reinou por si, como está dito: "e levantou-se um novo rei sobre o Egito" (Shemot 1:8).
הַשְּׁלִישִׁי זֶה יוֹסֵף שֶׁמָּשַׁל מִסּוֹף הָעוֹלָם וְעַד סוֹפוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְכָל הָאָרֶץ בָּאוּ מִצְרַיְמָה״. ״בָּאוּ מִצְרַיִם״ אֵין כְּתִיב כָּאן, אֶלָּא ״מִצְרַיְמָה״. הָיוּ הַמַּס שֶׁלָּהֶם וּמִנְחוֹתֵיהֶם לִשְׁבֹּר בַּר מִיּוֹסֵף, שֶׁאַרְבָּעִים שָׁנָה הָיָה מִשְׁנֶה לַמֶּלֶךְ וְאַרְבָּעִים שָׁנָה מָלַךְ לְעַצְמוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּקָם מֶלֶךְ חָדָשׁ עַל מִצְרָיִם״.
14
O quarto rei é Shelomó, que governou de um extremo do mundo ao outro, como está dito: "e Shelomó dominava sobre todos os reinos" (Melachim I 5:1), e diz: "e traziam, cada um, a sua oferta" (Melachim I 10:25).
הַמֶּלֶךְ הָרְבִיעִי זֶה שְׁלֹמֹה, שֶׁמָּשַׁל מִסּוֹף הָעוֹלָם וְעַד סוֹפוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּשְׁלֹמֹה הָיָה מוֹשֵׁל בְּכָל הַמַּמְלָכוֹת״, וְאוֹמֵר: ״וְהֵמָּה מְבִיאִים אִישׁ מִנְחָתוֹ״.
15
O quinto rei é Achav, rei de Israel, que reinou de um extremo do mundo ao outro, como está dito: "vive o Eterno teu D'us, não há nação nem reino aonde o meu senhor não tenha enviado a buscar-te..." (Melachim I 18:10). E todos os governadores das províncias estavam submetidos a ele, e enviavam o seu tributo e as suas ofertas a Achav. E todos os governadores das províncias do mundo não eram senão duzentos e trinta e dois, como está dito: "e contou os jovens dos governadores das províncias, e eram duzentos e trinta e dois" (Melachim I 20:15).
הַמֶּלֶךְ הַחֲמִישִׁי זֶה אַחְאָב, שֶׁמָּלַךְ מִסּוֹף הָעוֹלָם וְעַד סוֹפוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״חַי ה' אֱלֹהֶיךָ אִם יֵשׁ גּוֹי וּמַמְלָכָה״ וְכוּ'. וְהָיוּ כָּל שָׂרֵי אִפַּרְכִיּוֹת כְּבוּשִׁים תַּחְתָּיו, וְהָיוּ מְשַׁלְּחִין וּמְבִיאִין הַמַּס שֶׁלָּהֶם וּמִנְחוֹתֵיהֶם לְאַחְאָב. וְהָיוּ כָּל שָׂרֵי אִפַּרְכִיּוֹת שֶׁל עוֹלָם אֵינָם אֶלָּא מָאתַיִם וּשְׁנַיִם וּשְׁלֹשִׁים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּפְקֹד אֶת נַעֲרֵי שָׂרֵי הַמְּדִינוֹת וַיִּהְיוּ מָאתַיִם שְׁנַיִם וּשְׁלֹשִׁים״.
16
O sexto rei é Nevuchadnetzar, que governou de um extremo do mundo ao outro. E não só isso, mas governou até sobre os animais do campo e as aves do céu, e não podiam abrir a boca senão com a permissão de Nevuchadnetzar, como está dito: "e onde quer que habitem os filhos do homem, os animais do campo e as aves do céu, tudo entregou na tua mão..." (Daniel 2:38).
הַמֶּלֶךְ הַשִּׁשִּׁי זֶה נְבוּכַדְנֶצַּר, שֶׁמָּשַׁל מִסּוֹף הָעוֹלָם וְעַד סוֹפוֹ. וְלֹא עוֹד, אֶלָּא שֶׁמָּשַׁל אֲפִלּוּ עַל חַיּוֹת הַשָּׂדֶה וּבְעוֹף הַשָּׁמַיִם, וְלֹא הָיוּ יְכוֹלִין לִפְתֹּחַ אֶת פִּיהֶם חוּץ מֵרְשׁוּתוֹ שֶׁל נְבוּכַדְנֶצַּר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּבְכָל דִּי דָיְרִין בְּנֵי אֲנָשָׁא חֵיוַת בָּרָא וְעוֹף שְׁמַיָּא יְהַב בִּידָךְ״ וְכוּ'.
17
O sétimo rei é Koresh Ciro, que governou de um extremo do mundo ao outro, como está dito: "assim diz Koresh, rei da Pérsia : todos os reinos da terra me deu o Eterno" (Divrei HaYamim II 36:23). E Achashverosh reinou sobre metade do mundo. E não é metade do mundo senão cento e dezesseis províncias? E, pelo mérito de Ester, acrescentaram-se onze províncias, como está dito: "o que reinava desde a Índia até Cush, sobre cento e vinte e sete províncias" (Ester 1:1).
הַמֶּלֶךְ הַשְּׁבִיעִי זֶה כּוֹרֶשׁ שֶׁמָּשַׁל מִסּוֹף הָעוֹלָם וְעַד סוֹפוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כֹּה אָמַר מֶלֶךְ פָּרַס״. וַאֲחַשְׁוֵרוֹשׁ מָלַךְ בְּחֶצְיוֹ שֶׁל עוֹלָם. וַהֲלֹא אֵין חֶצְיוֹ שֶׁל עוֹלָם אֶלָּא מֵאָה וְשֵׁשׁ עֶשְׂרֵה אִפַּרְכִיּוֹת, וּבִזְכוּתָהּ שֶׁל אֶסְתֵּר נִתּוֹסְפוּ אַחַת עֶשְׂרֵה אִפַּרְכִיּוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הַמּוֹלֵךְ מֵהֹדּוּ וְעַד כּוּשׁ שֶׁבַע וְעֶשְׂרִים וּמֵאָה מְדִינָה״.
18
O oitavo rei é Alexandre da Macedônia, que reinou de um extremo do mundo ao outro, como está dito: "e eu estava considerando, e eis que um bode vinha do ocidente sobre a face de toda a terra" (Daniel 8:5) — não está escrito "sobre a face da terra", mas "sobre a face de toda a terra". E não só isso, mas ele quis subir aos céus para saber o que há nos céus, e descer aos abismos para saber o que há nos abismos, e ainda procurou ir aos confins da terra para saber o que há nos confins da terra. E o Santo, bendito seja, dividiu o seu reino para os quatro ventos do mundo após a sua morte.
הַמֶּלֶךְ הַשְּׁמִינִי הוּא אֲלֶכְּסַנְדֶּר מוּקְדּוֹן שֶׁמָּלַךְ מִסּוֹף הָעוֹלָם וְעַד סוֹפוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַאֲנִי הָיִיתִי מֵבִין וְהִנֵּה צְפִיר הָעִזִּים בָּא מִן הַמַּעֲרָב עַל פְּנֵי כָל הָאָרֶץ״. ״עַל פְּנֵי הָאָרֶץ״ אֵין כְּתִיב כָּאן, אֶלָּא ״עַל פְּנֵי כָל הָאָרֶץ״. וְלֹא עוֹד, אֶלָּא שֶׁרָצָה לַעֲלוֹת לַשָּׁמַיִם וְלֵידַע מַה בַּשָּׁמַיִם, וְלֵירֵד בַּתְּהוֹמוֹת וְלֵידַע מַה שֶּׁבַּתְּהוֹמוֹת, וְלֵילֵךְ לִקְצוֹת הָאָרֶץ וְלֵידַע מַה שֶׁבִּקְצוֹת הָאָרֶץ. וְחָצָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת מַלְכוּתוֹ לְאַרְבַּע רוּחוֹת הָעוֹלָם.
19
O nono rei é o rei Mashiach, que há de governar, no futuro, de um extremo do mundo ao outro, como está dito: "e dominará de mar a mar" (Tehilim 72:8); e outro versículo diz: "e a pedra que feriu a estátua tornou-se uma grande montanha e encheu toda a terra" (Daniel 2:35).
הַמֶּלֶךְ הַתְּשִׁיעִי זֶה מֶלֶךְ הַמָּשִׁיחַ, שֶׁהוּא עָתִיד לִמְשֹׁל מִסּוֹף הָעוֹלָם וְעַד סוֹפוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְיֵרְדְּ מִיָּם עַד יָם״, וְכָתוּב אַחֵר אוֹמֵר: ״וְאַבְנָא דִּי מְחָת לְצַלְמָא הֲוָת לְטוּר רַב וּמְלָאת כָּל אַרְעָא״.
20
O décimo rei: o reino volta ao seu Dono. Aquele que foi o primeiro rei será o último rei, como está dito: "Eu sou o primeiro e Eu sou o último, e além de Mim não há D'us" (Yeshayahu 44:6); e está escrito: "e o Eterno será Rei sobre toda a terra" (Zecharyá 14:9). E o reino voltará aos seus herdeiros, e então "os ídolos de todo passarão", e "só o Eterno será exaltado naquele dia". E Ele apascentará o Seu rebanho e o fará repousar, como está escrito: "Eu apascentarei o Meu rebanho e Eu o farei repousar" (Yechezkel 34:15). E ver-se-á "olho a olho", como está escrito: "olho a olho verão, quando o Eterno fizer voltar Sião" (Yeshayahu 52:8). Amén.
הַמֶּלֶךְ הָעֲשִׂירִי חוֹזֶרֶת הַמְּלוּכָה לִבְעָלֶיהָ. מִי שֶׁהָיָה רִאשׁוֹן מֶלֶךְ הוּא יִהְיֶה אַחֲרוֹן מֶלֶךְ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֲנִי רִאשׁוֹן וַאֲנִי אַחֲרוֹן וּמִבַּלְעָדַי אֵין אֱלֹהִים״, וְכָתוּב: ״וְהָיָה ה' לְמֶלֶךְ עַל כָּל הָאָרֶץ״. וְתַחֲזֹר הַמְּלוּכָה לְיוֹרְשֶׁיהָ, וְאָז הָאֱלִילִים כָּלִיל יַחֲלֹף וְנִשְׂגָּב ה' לְבַדּוֹ בַּיּוֹם הַהוּא. וְיִרְעֶה אֶת צֹאנוֹ וְיַרְבִּיצֵם, כְּדִכְתִיב: ״אֲנִי אֶרְעֶה צֹאנִי וַאֲנִי אַרְבִּיצֵם״. וְנִרְאֶה עַיִן בְּעַיִן כְּמוֹ שֶׁכָּתוּב: ״עַיִן בְּעַיִן יִרְאוּ בְּשׁוּב ה' צִיּוֹן״. אָמֵן.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

O homem feito da terra inteira

Por que recolher o pó de Adam dos quatro cantos do mundo, em quatro cores? Os sábios e o Radal veem aqui a proclamação da unidade do gênero humano: todos os povos, todas as cores de pele, descendem de um único homem, formado de toda a terra. Daí a Mishná ensinar que o homem foi criado único "para que ninguém diga: meu pai é maior que o teu" (Sanhedrin 4:5), e que "amado é o homem, criado à imagem de D'us" (Avot 3:14). E onde quer que alguém morra, a terra o recebe como sua — nenhum ser humano é estrangeiro no mundo.

A imagem de D'us e o primeiro louvor

O "soprar da alma" (§8) e a recusa de Adam à adoração (§10) iluminam o que é o tzelem Elokim, a "imagem de D'us". Para o Rambam (Guia I:1), ela não é uma forma física, mas o intelecto — a capacidade de conhecer e reconhecer. E o primeiro uso que Adam faz dela é exemplar: diante das criaturas que o tomam por deus, ele as conduz a coroar o verdadeiro Criador. O ser humano é, por natureza e vocação, aquele que reconhece D'us — e o pecado, mais tarde, será o esquecimento dessa vocação.

As doze horas: a pressa do drama humano

O relógio do primeiro dia (§7) — do pó à expulsão em doze horas — não é cronologia, mas lição. Os sábios (Sanhedrin 38b) leem nele a condição humana: dotados de razão e livre-arbítrio, somos postos imediatamente diante da escolha; e Adam, no mesmo dia, já tropeça. Mas, entre a falta e o exílio, há o juízo (11ª hora) — sinal de que mesmo o erro encontra medida e misericórdia, não aniquilação. A queda não é o fim da história; é o seu começo.

Os dez reis: a história tem um Dono

O catálogo dos dez reis é uma teologia da história em miniatura. Entre o "primeiro rei" (D'us) e o "décimo" (o retorno do reino a D'us), desfilam soberanos de Israel e das nações — pois todo poder, judeu ou gentio, é delegado e temporário: "Ele remove reis e estabelece reis" (Daniel 2:21). Os impérios sobem e caem; o Mashiach trará o reino quase à sua plenitude; e o ciclo só se fecha quando "o Eterno for Rei sobre toda a terra" (Zecharyá 14:9). A história, ensina o capítulo, não é caos nem acaso: começa e termina no único Rei verdadeiro.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 12

Adam no Paraíso: a obra do Éden, a mulher e o primeiro casamento

פֶּרֶק י״ב

Qual era a "obra" de Adam no Éden, se as árvores cresciam sozinhas? E por que "não é bom o homem estar só"? Um capítulo sobre o trabalho que é estudo, sobre a companhia e sobre o casamento que o próprio D'us abençoa.

1
Com amor abundante amou o Santo, bendito seja, o primeiro homem, pois o criou num lugar puro, no lugar do Templo, e o introduziu no Seu palácio, como está dito: "e tomou o Eterno D'us o homem e o pôs no jardim do Éden" (Bereshit 2:15). De que lugar o tomou? Do lugar do Templo; e o introduziu no Seu palácio — este é o Gan Éden —, como está dito: "e o pôs no jardim do Éden, para o trabalhar e o guardar". E, se disseres que há trabalho no Gan Éden — lavrar e revolver a terra —, mas não crescem todas as árvores por si mesmas?
חִבָּה יְתֵרָה חִבַּב הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְאָדָם הָרִאשׁוֹן, שֶׁבְּרָאוֹ בְּמָקוֹם טָהוֹר, בִּמְקוֹם בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, וְהִכְנִיסוֹ לְאַפַּדְנוֹ. שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּקַּח ה' אֱלֹהִים אֶת הָאָדָם וַיַּנִּחֵהוּ בְגַן עֵדֶן״. מֵאֵי זֶה מָקוֹם לְקָחוֹ? מִבֵּית הַמִּקְדָּשׁ, וְהִכְנִיסוֹ לְפַּלָּטִין שֶׁלּוֹ – זֶה גַּן עֵדֶן. שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּנִּחֵהוּ בְגַן עֵדֶן לְעָבְדָהּ וּלְשָׁמְרָהּ״. וְשֶׁמָּא תֹּאמַר כִּי יֵשׁ מְלָאכָה בְּגַן עֵדֶן לְפַתֵּחַ וּלְשַׁדֵּד אֶת הָאֲדָמָה. וְלֹא כָל הָאִילָנוֹת נִצְמָחִין מֵאֲלֵיהֶן?
2
Ou, se disseres: há trabalho no Gan Éden — regar o jardim? Mas não saía já um rio do Éden para regar o jardim, como está dito: "e um rio saía do Éden para regar o jardim..." (Bereshit 2:10)?
אוֹ שֶׁמָּא תֹּאמַר: יֵשׁ מְלָאכָה בְּגַן עֵדֶן לְהַשְׁקוֹת אֶת הַגָּן? וַהֲלֹא כְּבָר נָהָר יוֹצֵא מֵעֵדֶן לְהַשְׁקוֹת אֶת הַגָּן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְנָהָר יֹצֵא מֵעֵדֶן״ וְכוּ'.
3
Então, que significa esta expressão "para o trabalhar e o guardar"? Não diz "para o trabalhar e o guardar" senão no sentido de ocupar-se com as palavras da Torá e guardar todos os seus mandamentos, como está dito: "para guardar o caminho da árvore da vida" (Bereshit 3:24) — e a "árvore da vida" não é senão a Torá, como está dito: "árvore de vida é ela para os que dela se apegam" (Mishlê 3:18).
וּמַה הַלָּשׁוֹן הַזֶּה ״לְעָבְדָהּ וּלְשָׁמְרָהּ״? לֹא אָמַר ״לְעָבְדָהּ וּלְשָׁמְרָהּ״ אֶלָּא לַעֲסֹק בְּדִבְרֵי תוֹרָה וְלִשְׁמֹר אֶת כָּל מִצְוֹתֶיהָ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לִשְׁמֹר אֶת דֶּרֶךְ עֵץ הַחַיִּים״, וְאֵין עֵץ חַיִּים אֶלָּא תּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עֵץ חַיִּים הִיא לַמַּחֲזִיקִים בָּהּ״.
Nota — qual era a "obra" do Éden. A pergunta é fina: se as árvores cresciam sozinhas e um rio regava o jardim, que "trabalho" cabia a Adam? A resposta vira a chave do capítulo: "trabalhar e guardar" o Éden é estudar a Torá e cumprir os seus mandamentos. Mesmo no paraíso, a vocação humana não é o ócio, mas a ocupação espiritual e intelectual — e a "árvore da vida" é a própria Torá (Mishlê 3:18).
4
E Adam passeava pelo Gan Éden como um dos anjos servidores. Disse o Santo, bendito seja: "Eu sou único no Meu mundo, e também este é único no seu mundo; em Mim não há geração e procriação, e também neste não há geração e procriação; acabarão por dizer que foi ele quem nos criou. Não é bom o homem estar só".
וְהָיָה אָדָם מְטַיֵּל בְּגַן עֵדֶן כְּאַחַד מִמַּלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת, אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״אֲנִי יָחִיד בְּעוֹלָמִי, אַף זֶה יָחִיד בְּעוֹלָמוֹ. אֲנִי אֵין פְּרִיָּה וְרְבִיָּה לְפָנַי, אַף זֶה אֵין פְּרִיָּה וְרְבִיָּה לְפָנָיו. הוּא שֶׁבְּרָאָנוּ״. לֹא טוֹב הֱיוֹת הָאָדָם לְבַדּוֹ.
5
Rabi Yehudá diz: sobre "uma ajuda kenegdó" — a seu lado/contra ele — não leias "kenegdó", mas "lenegdó": se o homem for merecedor, ela lhe será uma ajuda; e, se não, estará contra ele, para o combater.
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: ״אַל תִּקְרֵי 'כְּנֶגְדּוֹ' אֶלָּא 'לְנֶגְדּוֹ'. אִם זָכָה – תִּהְיֶה לוֹ עֵזֶר, וְאִם לָאו – לְנֶגְדּוֹ לְהִלָּחֵם״.
6
E, quando a terra ouviu esta expressão que o homem se multiplicaria, tremeu e estremeceu, e disse diante do seu Criador: "Senhor dos mundos, não tenho força para alimentar o rebanho do homem a multidão dos humanos!" Disse-lhe o Santo, bendito seja: "Eu e tu alimentaremos o rebanho do homem"; e dividiram entre si: a noite, para o Santo, bendito seja; e o dia, para a terra. Que fez o Santo, bendito seja? Criou o sono da vida: o homem deita-se e dorme, e D'us é o seu alimento, a sua cura, a sua vida e o seu descanso, como está dito: "se eu tivesse dormido, então teria repouso" (Iyov 3:13). E o Santo, bendito seja, ampara a terra e a rega, e ela dá os seus frutos, alimento para todas as criaturas. Mas o alimento do primeiro homem após o pecado: "com fadiga dela comerás todos os dias da tua vida" (Bereshit 3:17).
וְכֵיוָן שֶׁשָּׁמְעָה הָאָרֶץ הַלָּשׁוֹן הַזֶּה, רָעֲדָה וְרָעֲשָׁה וְאָמְרָה לִפְנֵי בּוֹרְאָהּ: ״רִבּוֹן הָעוֹלָמִים, אֵין לִי כֹּחַ לָזוּן צֹאנוֹ שֶׁל אָדָם!״ אָמַר לָהּ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״אֲנִי וְאַתְּ נָזוּן צֹאנוֹ שֶׁל אָדָם״, וְחָצוּ בֵּין שְׁנֵיהֶם: הַלַּיְלָה שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְהַיּוֹם לָאָרֶץ. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? בָּרָא שְׁנַת חַיִּים, וְאָדָם שׁוֹכֵב וְיָשֵׁן וְהוּא מְזוֹנוֹ וּרְפוּאָתוֹ וְחַיִּים לוֹ וּמָנוֹחַ לוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יָשַׁנְתִּי אָז יָנוּחַ לִי״. וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא סוֹמֵךְ עִם הָאָרֶץ וּמַשְׁקֶה אוֹתָהּ וְהִיא נוֹתֶנֶת פֵּרוֹתֶיהָ מָזוֹן לְכָל הַבְּרִיּוֹת. אֲבָל מְזוֹנוֹתָיו שֶׁל אָדָם הָרִאשׁוֹן – ״בְּעִצָּבוֹן תֹּאכֲלֶנָּה כָּל יְמֵי חַיֶּיךָ״.
Nota. O "sono da vida" é uma imagem terna: o descanso noturno não é interrupção da providência, mas parte dela — dormindo, o ser humano é sustentado, curado e renovado por D'us. A "divisão" entre D'us (a noite) e a terra (o dia) ensina que o sustento humano é uma parceria: a terra dá o seu fruto, mas é D'us quem a ampara e rega.
7
Compadeceu-Se o Santo, bendito seja, do primeiro homem, para não o fazer sofrer, e fez cair sobre ele um sono profundo, e ele dormiu. E tomou um osso do seu lado e carne do seu coração, e fez disso uma ajuda, e a pôs de pé diante dele. E Adam despertou do seu sono e a viu de pé diante dele, e disse: "esta, agora, é osso dos meus ossos e carne da minha carne" (Bereshit 2:23). Enquanto esteve sozinho, o seu nome era chamado Adam.
חָס הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל אָדָם הָרִאשׁוֹן שֶׁלֹּא לְהַכְאִיבוֹ, וְהִפִּיל עָלָיו שְׁנַת תַּרְדֵּמָה וְיָשַׁן לוֹ. וְלָקַח עֶצֶם מִצַּלְעוֹתָיו וּבָשָׂר מִלִּבּוֹ וַעֲשָׂאָהּ עֵזֶר, וְהֶעֱמִידָהּ כְּנֶגְדּוֹ. וְהֵקִיצוֹ מִשְּׁנָתוֹ וְרָאָה אוֹתָהּ שֶׁהִיא עוֹמֶדֶת כְּנֶגְדּוֹ וְאָמַר: ״זֹאת הַפַּעַם עֶצֶם מֵעֲצָמַי וּבָשָׂר מִבְּשָׂרִי״. עַד שֶׁהָיָה לְבַדּוֹ נִקְרָא שְׁמוֹ אָדָם.
8
Rabi Yehudá diz: pelo nome adamá (terra), da qual foi tomado, foi chamado o seu nome Adam. Rabi Yehoshua ben Korchá diz: pelo nome basar vadam (carne e sangue) foi chamado o seu nome. E, desde que lhe foi edificada uma companheira, no íntimo do nome "esh" (fogo) é o seu nome, e ela também é "esh".
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: עַל שֵׁם אֲדָמָה שֶׁלּוּקַח מִמֶּנָּה נִקְרָא שְׁמוֹ אָדָם. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה אוֹמֵר: עַל שֵׁם בָּשָׂר וָדָם נִקְרָא שְׁמוֹ. וּמִשֶּׁבָּנָה לוֹ עֵזֶר ״אֵשׁ״ שְׁמוֹ, וְהִיא ״אֵשׁ״.
9
Que fez o Santo, bendito seja? Pôs o Seu nome — Yud-Hê as letras de "Yah" — entre eles: o "yud" no homem (אִישׁ) e o "hê" na mulher (אִשָּׁה). Disse: "se andarem nos Meus caminhos e guardarem os Meus mandamentos, eis que o Meu nome está posto entre eles, e os salva de toda aflição; mas, se não, retiro o Meu nome do meio deles, e restam eles como 'esh' (fogo) — e o fogo consome o fogo", como está dito: "pois é um fogo que consome até a perdição" (Iyov 31:12).
מָה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? נָתַן שְׁמוֹ יוֹ״ד הֵ״א יָהּ, אָמַר: אִם הוֹלְכִים בִּדְרָכַי וְשׁוֹמְרִים מִצְוֹתַי, הֲרֵי שְׁמִי נָתוּן בֵּינֵיהֶם וּמַצִּיל אוֹתָם מִכָּל צָרָה. וְאִם לָאו, אֲנִי נוֹטֵל אֶת שְׁמִי מִבֵּינֵיהֶם וְהֵם נַעֲשִׂים אֵשׁ וְהָאֵשׁ אוֹכֶלֶת אֵשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי אֵשׁ הִיא עַד אֲבַדּוֹן תֹּאכֵל וּבְכָל תְּבוּאָתִי תְשָׁרֵשׁ״.
Nota — ish, ishá e o Nome divino. O jogo de palavras é célebre e profundo. Ish (homem, אִישׁ) tem a letra yud; ishá (mulher, אִשָּׁה) tem a letra : juntas, formam Yah (יָהּ), um Nome de D'us. Retire-se o Nome, e o que sobra em ambos é esh (אֵשׁ), "fogo". A lição: um lar em que habita a presença de D'us — a fidelidade aos Seus caminhos — é abençoado e protegido; um lar do qual ela é expulsa torna-se "fogo que consome fogo". O casamento sagrado une; o casamento esvaziado de ideal pode destruir.
10
Dez dosséis nupciais (chupot) fez o Santo, bendito seja, para o primeiro homem no Gan Éden, e todos eram de pedras preciosas, de pérolas e de ouro. Ora, para um noivo não se faz senão um dossel, e para um rei fazem-se três; mas, para honrar o primeiro homem, fez-lhe o Santo, bendito seja, dez dosséis no Gan Éden, como está dito: "no Éden, jardim de D'us, estavas; toda pedra preciosa era a tua cobertura..." (Yechezkel 28:13) — eis aqui os dez dosséis. E os anjos tocavam tamborins e dançavam.
עֶשֶׂר חֻפּוֹת עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְאָדָם הָרִאשׁוֹן בְּגַן עֵדֶן, וְכֻלָּם שֶׁל אֲבָנִים טוֹבוֹת וּמַרְגָּלִיּוֹת וְשֶׁל זָהָב. וַהֲלֹא לֶחָתָן אֵין עוֹשִׂין לוֹ אֶלָּא חֻפָּה אַחַת, וּלְמֶלֶךְ עוֹשִׂין לוֹ שָׁלֹשׁ חֻפּוֹת, וְלַחֲלֹק כָּבוֹד לְאָדָם הָרִאשׁוֹן עָשָׂה לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עֶשֶׂר בְּגַן עֵדֶן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּעֵדֶן גַּן אֱלֹהִים הָיִיתָ כָּל אֶבֶן יְקָרָה״. הֲרֵי אֵלּוּ עֶשֶׂר חֻפּוֹת, וְהָיוּ הַמַּלְאָכִים מְתוֹפְפִים בְּתֻפִּים וּמְרַקְּדִין.
11
No dia em que foi criado o primeiro homem — como está dito: "no dia em que foste criado, os dosséis foram preparados" (Yechezkel 28:13) —, disse o Santo, bendito seja, aos anjos servidores: "vinde, e façamos bondade (chésed) ao primeiro homem e à sua companheira, pois sobre a medida da bondade (gemilut chassadim) o mundo se sustenta". Disse o Santo, bendito seja: "mais amada Me é a bondade do que os sacrifícios e holocaustos que Israel há de oferecer diante de Mim sobre o altar", como está dito: "pois bondade desejei, e não sacrifício" (Hoshea 6:6).
בְּיוֹם שֶׁנִּבְרָא בּוֹ אָדָם הָרִאשׁוֹן, שֶׁנֶּאֱמַר ״בְּיוֹם הִבָּרַאֲךָ כּוֹנָנוּ״, אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת: ״בּוֹאוּ וְנִגְמֹל חֶסֶד לְאָדָם הָרִאשׁוֹן וּלְעֶזְרוֹ, שֶׁעַל מִדַּת גְּמִילוּת חֲסָדִים הָעוֹלָם עוֹמֵד״. אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״חֲבִיבָה גְּמִילוּת חֲסָדִים מִזְּבָחִים וְעוֹלוֹת שֶׁיִּשְׂרָאֵל עֲתִידִין לְהַקְרִיב לְפָנַי עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ״, שֶׁנֶּאֱמַר ״כִּי חֶסֶד חָפַצְתִּי וְלֹא זָבַח״.
12
E os anjos servidores andavam de um lado a outro diante dele, como companheiros que guardam os dosséis nupciais, como está dito: "pois aos Seus anjos ordenará a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos" (Tehilim 91:11) — e este "caminho" não é senão o caminho dos noivos. E o Santo, bendito seja, era como o chazan o oficiante: assim como é costume do chazan pôr-se de pé e abençoar a noiva sob o seu dossel, assim o Santo, bendito seja, pôs-Se de pé e abençoou Adam e a sua companheira, como está dito: "e D'us os abençoou" (Bereshit 1:28).
וְהָיוּ מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת מְהַלְּכִין וְהוֹלְכִין לְפָנָיו כְּמוֹ רוֹעִים הַמְּשַׁמְּרִים אֶת הַחֻפּוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי מַלְאָכָיו יְצַוֶּה לָּךְ לִשְׁמָרְךָ בְּכָל דְּרָכֶיךָ״, וְאֵין דֶּרֶךְ זוֹ אֶלָּא דֶּרֶךְ חֲתָנִים. וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא כְּחַזָּן, מַה דַּרְכּוֹ שֶׁל חַזָּן לַעֲמֹד וּלְבָרֵךְ לַכַּלָּה בְּתוֹךְ חֻפָּתָהּ, כָּךְ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עָמַד וּבֵרַךְ לְאָדָם וּלְעֶזְרוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְבָרֶךְ אֹתָם אֱלֹהִים״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

O trabalho do paraíso é o estudo

A primeira lição do capítulo desmonta uma fantasia comum: o paraíso não é o ócio absoluto. Se as árvores cresciam sozinhas e o rio regava o jardim, o "trabalhar e guardar" (Bereshit 2:15) só pode significar uma coisa — ocupar-se da Torá e dos seus mandamentos. Os sábios e o Radal veem aqui a vocação permanente do ser humano: mesmo na situação ideal, a vida plena é vida de estudo e de mitsvá, não de inércia. A "árvore da vida" do jardim (Bereshit 3:24) é, afinal, a própria Torá (Mishlê 3:18).

"Não é bom o homem estar só"

O capítulo dá uma razão surpreendente para a criação da mulher: Adam, único e sem geração, poderia ser tomado — ou tomar-se — por um deus (§4). A companhia o devolve à sua humanidade. E o jogo "ezer kenegdó" (§5) ensina que o cônjuge pode ser ajuda ou oposição, conforme o mérito — o casamento não é mágica, é construção. O par humano é interdependente também no sustento (§6): tudo é parceria — entre o homem e a mulher, e entre a terra e D'us.

O Nome de D'us no lar

A leitura de ish e ishá (§§8–9) é uma das mais belas do livro. Tire-se o "yud" e o "hê" — o Nome de D'us — de homem e mulher, e em ambos resta apenas esh, fogo. Os comentadores extraem daí uma ética do casamento: a presença do ideal divino (a fidelidade aos caminhos de D'us, o respeito, a santidade) é o que transforma duas chamas que poderiam consumir-se numa união que ilumina. O lar não é neutro: ou nele habita o Nome, ou nele lavra o fogo.

D'us faz chésed: o casamento e a imitação de D'us

O fecho é teológico e ético ao mesmo tempo: o próprio D'us "desce" para fazer bondade aos noivos — adorna o dossel, comanda os anjos, e fica de pé como o oficiante que abençoa. Daqui os sábios aprendem que o mundo "se sustenta sobre a bondade" (gemilut chassadim) e que ela é "mais amada que os sacrifícios" (Hoshea 6:6). E aprendem a imitação de D'us (cf. Rambam, Hilchot Deot 1:6): como Ele veste os nus, visita os doentes e alegra os noivos, assim deve fazer o ser humano. O primeiro casamento da história tem D'us por celebrante — e nos ensina a celebrar uns aos outros.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 13

A serpente no Paraíso: a inveja, o desejo e a queda

פֶּרֶק י״ג

"A inveja, o desejo e a honra tiram o homem do mundo." O capítulo dramatiza a primeira queda como o triunfo dessas três forças — e lê a serpente e Samael como a voz da inclinação ao mal, que disfarça o desejo de razão.

1
A inveja, o desejo e a honra tiram o homem do mundo. Disseram os anjos servidores diante do Santo, bendito seja: "Senhor de todos os mundos, o que é o homem para que dele tomes conhecimento? O homem é semelhante a um sopro; nada tem além do seu pó". Disse-lhes: "aquilo que todos vós Me louvais nas alturas, ele Me proclama Único nas regiões de baixo. E mais: podeis vós levantar-vos e dar nome a todas as criaturas que criei?" Levantaram-se e não puderam. De imediato, Adam levantou-se e deu nome a tudo, como está dito: "e o homem deu nomes a todos os animais" (Bereshit 2:20). Vendo isto, os anjos servidores recuaram, e disseram: "se não tomarmos um conselho contra este homem, para que peque diante do seu Criador, não prevaleceremos contra ele".
הַקִּנְאָה וְהַתַּאֲוָה וְהַכָּבוֹד מוֹצִיאִין אֶת הָאָדָם מִן הָעוֹלָם. אָמְרוּ מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, מָה אָדָם וַתֵּדָעֵהוּ? אָדָם לַהֶבֶל דָּמָה, אֵין לוֹ אֶלָּא עֲפָרוֹ מִשֶּׁלּוֹ״. אָמַר לָהֶם: ״מַה שֶּׁאַתֶּם כֻּלְּכֶם מְקַלְּסִים אוֹתִי בָּעֶלְיוֹנִים, הוּא מְיַחֵד אוֹתִי בַּתַּחְתּוֹנִים. וְלֹא עוֹד, אֶלָּא יְכוֹלִים אַתֶּם לַעֲמֹד וְלִקְרֹא שֵׁמוֹת לְכָל הַבְּרִיּוֹת שֶׁבָּרָאתִי?״ וְעָמְדוּ וְלֹא יָכְלוּ. מִיָּד עָמַד אָדָם וְקָרָא שֵׁמוֹת לַכֹּל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּקְרָא הָאָדָם שֵׁמוֹת לְכָל הַבְּהֵמָה״. וְכָאן, כֵּיוָן שֶׁרָאוּ מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת, שָׁבוּ לַאֲחוֹרֵיהֶם. אָמְרוּ מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת: ״אִם אֵין אָנוּ בָּאִים בְּעֵצָה עַל אָדָם זֶה שֶׁיֶּחֱטָא לִפְנֵי בּוֹרְאוֹ, אֵין אָנוּ יְכוֹלִין בּוֹ״.
Nota. O capítulo abre com a máxima de Pirkei Avot (4:21): "a inveja, o desejo e a honra tiram o homem do mundo" — e toda a narrativa da queda será a ilustração dessas três forças. Note a raiz proposta: a inveja dos anjos, ao verem que Adam os supera em algo que eles não podem fazer — dar nome às criaturas, isto é, conhecer e compreender. O homem vence os anjos pela razão; e é justamente aí que o tentador procurará a sua brecha.
2
E Samael era um grande príncipe nos céus — as chayot têm quatro asas e os serafim seis, mas Samael tinha doze. Que fez Samael? Tomou o seu bando e desceu, e viu todas as criaturas que o Santo, bendito seja, criara no Seu mundo, e não achou entre elas nenhuma tão astuta para o mal como a serpente, como está dito: "e a serpente era a mais astuta" (Bereshit 3:1). A sua aparência era como a de um camelo; e Samael subiu e cavalgou sobre ela. E a Torá clamava, dizendo: "Samael! Agora que o mundo foi criado, é hora de te rebelares contra o Altíssimo? O Senhor de todos os mundos rirá do cavalo e do seu cavaleiro" (cf. Iyov 39:18).
וְהָיָה סָמָאֵל שַׂר גָּדוֹל בַּשָּׁמַיִם, וְהַחַיּוֹת מֵאַרְבַּע כְּנָפַיִם וּשְׂרָפִים מִשֵּׁשׁ כְּנָפַיִם, וְסָמָאֵל מִשְּׁנֵים עָשָׂר כְּנָפַיִם. מֶה עָשָׂה סָמָאֵל? לָקַח כַּת שֶׁלּוֹ וְיָרַד וְרָאָה כָּל הַבְּרִיּוֹת שֶׁבָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּעוֹלָמוֹ, וְלֹא מָצָא בָּהֶם חָכָם לְהָרַע כַּנָּחָשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהַנָּחָשׁ הָיָה עָרוּם״. וְהָיָה דְמוּתוֹ כְּמִין גָּמָל, וְעָלָה וְרָכַב עָלָיו. וְהַתּוֹרָה הָיְתָה צוֹעֶקֶת וְאוֹמֶרֶת: מָה סָמָאֵל? עַכְשָׁו נִבְרָא הָעוֹלָם, עֵת לִמְרֹד בַּמָּרוֹם? רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים ״תִּשְׂחַק לְסוּסוֹ וּלְרֹכְבוֹ״.
3
A que se assemelha a coisa? A um homem em quem há um espírito mau: todos os atos que pratica e todas as palavras que diz — fala-as por sua própria vontade? Não age senão pela vontade do espírito mau que está sobre ele. Assim a serpente: todos os atos que praticou e todas as palavras que disse, não as disse senão pela vontade de Samael. Sobre ele diz o versículo: "na sua maldade é derrubado o ímpio" (Mishlê 14:32).
מָשָׁל לְמָה הַדָּבָר דּוֹמֶה? לְאָדָם שֶׁיֵּשׁ בּוֹ רוּחַ רָעָה. כָּל מַעֲשִׂים שֶׁהוּא עוֹשֶׂה וְכָל דְּבָרִים שֶׁהוּא מְדַבֵּר, מִדַּעְתּוֹ הוּא מְדַבֵּר? וַהֲלֹא אֵינוֹ עוֹשֶׂה אֶלָּא מִדַּעַת רוּחַ רָעָה שֶׁיֵּשׁ עָלָיו. כָּךְ הַנָּחָשׁ, כָּל מַעֲשִׂים שֶׁעָשָׂה וְכָל דְּבָרִים שֶׁדִּבֵּר, לֹא דִבֵּר אֶלָּא מִדַּעְתּוֹ שֶׁל סָמָאֵל. עָלָיו הַכָּתוּב אוֹמֵר: ״בְּרָעָתוֹ יִדָּחֶה רָשָׁע״.
Nota — quem é a serpente. O midrash distingue a serpente (o instrumento) de Samael (a vontade que a move). Na leitura racionalista, "Samael" é um nome do satán, que os sábios identificam com o yetzer hará — a inclinação humana ao mal (Talmud, Bava Batra 16a: "ele é o satán, ele é o yetzer hará, ele é o anjo da morte"). A serpente "que fala" é, assim, a voz do desejo dentro do ser humano, que se disfarça de conselho razoável. O mal não é um poder rival de D'us; é a tendência que cabe ao homem dominar (cf. Bereshit 4:7).
4
A que se assemelha a coisa? A um rei que desposou uma mulher e a fez senhora de tudo o que tinha. Disse-lhe: "eis que tudo o que é meu está na tua mão, exceto esta casa, que está cheia de escorpiões". Veio ter com ela um certo velho — como quem pede vinagre emprestado — e disse-lhe: "o rei trata-te bem?" Respondeu ela: "muito bem me trata: deu-me poder sobre tudo o que tem; só me disse: 'tudo o que é meu está na tua mão, exceto esta casa, que está cheia de escorpiões'". Disse-lhe ele: "mas é justamente nessa casa que estão todas as joias do rei! Ele só a proibiu porque deseja desposar outra mulher e dá-las a ela". O rei é Adam, a mulher é Chavá, e o que pede vinagre é a serpente. E sobre eles diz o versículo: "ali caíram os que praticam a iniquidade; foram derrubados e não puderam levantar-se" (Tehilim 36:13).
מָשָׁל לְמָה הַדָּבָר דּוֹמֶה? לְמֶלֶךְ שֶׁנָּשָׂא אִשָּׁה וְהִשְׁלִיטָהּ עַל כָּל מַה שֶּׁיֵּשׁ לוֹ. אָמַר לָהּ: ״הֲרֵי כָּל מַה שֶּׁיֵּשׁ לִי בְּיָדֵךְ, חוּץ מִן הַבַּיִת הַזֶּה שֶׁהִיא מְלֵאָה עַקְרַבִּים״. וּבָא זָקֵן אֶחָד אֶצְלָהּ, כְּגוֹן שׁוֹאֵל חֹמֶץ. אָמַר לָהּ: ״נָהוּג עִמָּךְ?״ אָמְרָה לוֹ: ״יָפֶה נָהוּג עִמִּי, שֶׁהִשְׁלִיטַנִי עַל כָּל מַה שֶּׁיֵּשׁ לוֹ. אָמַר לִי: 'הֲרֵי כָּל מַה שֶּׁיֵּשׁ לִי בְּיָדֵךְ, חוּץ מִן הַבַּיִת הַזֶּה שֶׁהִיא מְלֵאָה עַקְרַבִּים'״. אָמַר לָהּ: ״וַהֲרֵי כָּל קוֹזְמִיָּא שֶׁל הַמֶּלֶךְ הֲרֵי הֵן בַּבַּיִת הַזֶּה, אֶלָּא שֶׁהוּא מְבַקֵּשׁ לִישָּׂא אִשָּׁה אַחֶרֶת וְלִיתְּנָם לָהּ״. הַמֶּלֶךְ הַזֶּה הוּא אָדָם הָרִאשׁוֹן, וְהָאִשָּׁה זוֹ חַוָּה, שׁוֹאֵל חֹמֶץ זֶה הַנָּחָשׁ. וַעֲלֵיהֶם הַכָּתוּב אוֹמֵר: ״שָׁם נָפְלוּ פֹּעֲלֵי אָוֶן, דֹּחוּ וְלֹא יָכְלוּ קוּם״.
Nota. A parábola revela a tática essencial da tentação: semear a desconfiança. O velho não nega a ordem do rei — ele reinterpreta o motivo dela, como se a proibição viesse de ciúme ou egoísmo ("ele quer guardar as joias para outra"). É exatamente o que a serpente fará com Chavá no §5: transformar um mandamento de proteção numa suposta inveja de D'us. A maldade raramente ataca a verdade de frente; ela distorce as intenções.
5
A serpente raciocinou consigo mesma: "se eu for falar com Adam, sei que não me dará ouvidos, pois o homem é sempre difícil de persuadir; antes irei falar com Chavá". Foi a serpente e disse à mulher: "é verdade que vos foi ordenado algo quanto aos frutos da árvore?" Respondeu-lhe: "sim", como está dito: "mas do fruto da árvore que está no meio do jardim D'us disse: não comereis dele" (Bereshit 3:3). Quando a serpente ouviu as palavras de Chavá, achou uma brecha por onde entrar. Disse-lhe: "este mandamento não é senão inveja: pois, na hora em que comerdes dele, sereis como Ele, como D'us. Assim como Ele, sozinho, cria mundos, também vós podereis criar mundos e destruir mundos; assim como Ele faz morrer e faz viver, também vós podereis fazer morrer e fazer viver", como está dito: "porque D'us sabe que, no dia em que comerdes dele, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como D'us, conhecedores do bem e do mal" (Bereshit 3:5).
דָּן הַנָּחָשׁ דִּין בֵּינוֹ לְבֵין עַצְמוֹ וְאָמַר: אִם הוֹלֵךְ אֲנִי וְאוֹמֵר לְאָדָם, יוֹדֵעַ אֲנִי שֶׁאֵינוֹ שׁוֹמֵעַ לִי, שֶׁהָאִישׁ לְעוֹלָם קָשֶׁה. אֶלָּא הוֹלֵךְ אֲנִי וְאוֹמֵר לְחַוָּה. וְהָלַךְ הַנָּחָשׁ וְאָמַר לָאִשָּׁה: ״וְכִי אַתֶּם מְצֻוִּים עַל פֵּרוֹת הָאִילָן?״ אָמְרָה לוֹ: ״הֵן״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמִפְּרִי הָעֵץ אֲשֶׁר בְּתוֹךְ הַגָּן״. כֵּיוָן שֶׁשָּׁמַע הַנָּחָשׁ דְּבָרֶיהָ שֶׁל חַוָּה, מָצָא לוֹ פֶּתַח לְהִכָּנֵס. אָמַר לָהּ: ״אֵין צִוּוּי זֶה אֶלָּא קִנְאָה, כִּי בְּשָׁעָה שֶׁאַתֶּם אוֹכְלִים מִמֶּנּוּ תִּהְיוּ כְּמוֹהוּ אֱלֹהִים. מָה הוּא בּוֹרֵא יָחִיד שְׁנֵי עוֹלָמוֹת, אַף אַתֶּם יְכוֹלִים לִבְרֹא עוֹלָמוֹת וּלְהַחֲרִיב עוֹלָמוֹת. מָה הוּא מֵמִית וּמְחַיֶּה, אַף אַתֶּם יְכוֹלִים לְהָמִית וּלְהַחֲיוֹת״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי יֹדֵעַ אֱלֹהִים כִּי בְּיוֹם אֲכָלְכֶם מִמֶּנּוּ וְנִפְקְחוּ עֵינֵיכֶם״.
Nota — sobre o "ir falar com Chavá". No texto, a serpente calcula que terá mais êxito com Chavá do que com Adam. É preciso ler isto com honestidade: trata-se do cálculo do sedutor — a estratégia de quem procura o ponto que julga mais acessível —, não de uma doutrina da Torá sobre a mulher. A própria tradição honra repetidamente a sabedoria das mulheres (as matriarcas, das quais se diz que "a sua profecia era superior"; Sará, a quem D'us manda Avraham "ouvir"). O essencial do parágrafo é a natureza da mentira: a serpente promete poder divino ("sereis como D'us, criareis e destruireis mundos") — a velha sedução do orgulho, a "honra" da máxima inicial.
6
A serpente foi e tocou na árvore, e a árvore gritou, dizendo: "ímpio! Não me toques!", como está dito: "não venha contra mim o pé da soberba, e a mão dos ímpios não me afaste" (Tehilim 36:12).
וְהַנָּחָשׁ הָלַךְ וְנָגַע בָּאִילָן, וְהָאִילָן צָוַח וְאָמַר: ״רָשָׁע! אַל תִּגַּע בִּי!״ שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַל תְּבוֹאֵנִי רֶגֶל גַּאֲוָה, וְיַד רְשָׁעִים אַל תְּנִידֵנִי״.
7
A serpente foi e disse à mulher: "eis que toquei nela e não morri; também tu, toca-a, e não morrerás". E a mulher foi, tocou na árvore e viu o anjo da morte vindo em sua direção. Disse: "ai de mim, que toquei! Agora morrerei, e o Santo, bendito seja, fará outra mulher e a dará a Adam. Antes, farei com que ele coma comigo: se eu morrer, morreremos os dois; e se eu viver, viveremos os dois". E tomou dos frutos da árvore, comeu, e deu ao seu marido. Quando Adam comeu dos frutos da árvore, viu-se nu, abriram-se os seus olhos e os seus dentes ficaram embotados como em quem prova algo áspero. Disse-lhe: "que é isto que me deste a comer, que os meus olhos se abriram e os meus dentes se embotaram? Assim como se embotaram os meus dentes, assim se embotarão os dentes de todas as gerações".
הָלַךְ הַנָּחָשׁ וְאָמַר לָאִשָּׁה: ״הֲרֵי נָגַעְתִּי בּוֹ וְלֹא מַתִּי, אַף אַתְּ תִּגְּעִי בּוֹ וְלֹא תָמוּתִי״. וְהָלְכָה הָאִשָּׁה וְנָגְעָה בּוֹ בָּאִילָן וְרָאֲתָה מַלְאַךְ הַמָּוֶת בָּא כְּנֶגְדָּהּ. אָמְרָה: ״אוֹי לִי שֶׁנָּגַעְתִּי! עַכְשָׁיו אָנֹכִי מֵתָה וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עוֹשֶׂה אִשָּׁה אַחֶרֶת וְנוֹתְנָהּ לְאָדָם. אֶלָּא אָנֹכִי גּוֹרֶמֶת לוֹ שֶׁיֹּאכַל עִמִּי. אִם אָמוּת – נָמוּת שְׁנֵינוּ, וְאִם אֶחְיֶה – נִחְיֶה שְׁנֵינוּ״. וְלָקְחָה מִפֵּרוֹת הָאִילָן וְאָכְלָה וְנָתְנָה לְאִישָׁהּ. כֵּיוָן שֶׁאָכַל אָדָם מִפֵּרוֹת הָאִילָן, רָאָה אֶת עַצְמוֹ עֵרוֹם וְנִפְקְחוּ עֵינָיו וְקָהוּ שִׁנָּיו. אָמַר לָהּ: ״מַהוּ שֶׁהֶאֱכַלְתִּנִי שֶׁעֵינַי נִפְקְחוּ וְקָהוּ שִׁנַּי עָלַי? כְּשֵׁם שֶׁקָּהוּ שִׁנַּי, כֵּן יִקְהוּ שִׁנֵּי כָּל הַדּוֹרוֹת״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

Três forças que "tiram o homem do mundo"

O capítulo é construído sobre a máxima de Pirkei Avot (4:21): "a inveja (kin'á), o desejo (taavá) e a honra (kavod) tiram o homem do mundo". Os sábios mostram as três em ação: a inveja (dos anjos, e depois a desconfiança semeada em Chavá), o desejo (o fruto "bom para comer e agradável aos olhos", Bereshit 3:6) e a honra/orgulho (a promessa de "ser como D'us"). A queda, lida assim, não é um acidente, mas o modelo eterno de como o caráter se corrompe — e um aviso permanente.

A serpente e Samael: o desejo que fala como razão

Por que a serpente "fala"? Os comentadores racionalistas, na linha do Rambam (Guia I:2; II:30), leem a serpente e Samael como a personificação do yetzer hará, a inclinação ao mal — identificada pelos sábios com o "satán" (Bava Batra 16a). A "voz" da serpente é a voz interior do desejo, que se apresenta disfarçada de bom conselho. Por isso o midrash diz que a serpente agia "pela vontade de Samael": o impulso usa a inteligência para racionalizar o que o apetite já quer. Vencer a serpente é reconhecer essa voz e dominá-la.

A tática da mentira: distorcer a intenção de D'us

A parábola do quarto proibido (§4) e a fala da serpente (§5) expõem o mecanismo da tentação: ela não nega o mandamento — reinterpreta o motivo. "D'us proibiu por inveja, para que não sejais como Ele." Transforma-se um limite protetor numa suposta mesquinhez divina. O Radal e os comentadores notam que aqui está a raiz de todo pecado: a desconfiança de que os caminhos de D'us são bons. A primeira mentira do mundo não foi sobre fatos, mas sobre intenções.

"Os dentes de todas as gerações"

O detalhe final — os dentes "embotados" que passam a todas as gerações — é uma imagem da condição humana herdada da queda: a mortalidade, o esforço, a luta interior. Mas a tradição racionalista insiste que isso não anula a liberdade: cada geração ainda escolhe. O fruto "abriu os olhos" para o mundo do desejável e do repugnante — o "bem e o mal" da imaginação (Guia I:2), em lugar da clara visão do verdadeiro e do falso. A tarefa de toda vida é reconquistar essa visão: voltar a discernir o que é bom, e não apenas o que parece agradável.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 14

O pecado de Adam e Chavá: o julgamento e as consequências

פֶּרֶק י״ד

As dez "descidas" de D'us à história, e o julgamento do primeiro pecado: a veste de glória que se perde, a cadeia de culpas que ninguém quer assumir, e as consequências que tornam a vida mortal o que ela é.

1
Dez "descidas" desceu o Santo, bendito seja, sobre a terra, e são estas: uma no Gan Éden; uma na geração da Dispersão a Torre de Bavel; uma em Sodoma; uma na sarça ardente; uma no Egito; uma no Sinai; uma na fenda da rocha a Moshé; duas na Tenda do Encontro; e uma no porvir a redenção futura.
עֲשָׂרָה יְרִידוֹת יָרַד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל הָאָרֶץ, וְאֵלּוּ הֵן: אַחַת בְּגַן עֵדֶן, וְאַחַת בְּדוֹר הַפְּלַגָּה, וְאַחַת בִּסְדוֹם, וְאַחַת בַּסְּנֶה, וְאַחַת בְּמִצְרַיִם, וְאַחַת בְּסִינַי, וְאַחַת בְּנִקְרַת הַצּוּר, וּשְׁתַּיִם בְּאֹהֶל מוֹעֵד, וְאַחַת לֶעָתִיד לָבֹא.
Nota — o que é "descer". D'us não tem lugar nem corpo, e não Se "move" no espaço. As "dez descidas" são manifestações — momentos em que a Presença divina se revela na história: do Éden ao Sinai, até a redenção futura. "Descer" é a linguagem da Torá para a aproximação reveladora de D'us ao mundo dos homens, não um deslocamento físico (cf. o ensaio sobre a onipresença).
2
Uma no Gan Éden. De onde sabemos? Do que está dito: "e ouviram a voz do Eterno D'us que percorria o jardim" (Bereshit 3:8); e está escrito: "o meu amado desceu ao seu jardim, aos canteiros de bálsamo" (Shir HaShirim 6:2). Ali sentou-Se em juízo e julgou com reto juízo. Disse-lhe a Adam: "por que fugiste de diante de Mim?" Respondeu: "ouvi a Tua voz no jardim e temi, porque estava nu, e me escondi" (Bereshit 3:10).
אַחַת בְּגַן עֵדֶן. מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשְׁמְעוּ אֶת קוֹל ה' אֱלֹהִים מִתְהַלֵּךְ בַּגָּן״. וּכְתִיב: ״דּוֹדִי יָרַד לְגַנּוֹ לַעֲרוּגוֹת הַבֹּשֶׂם״. יָשַׁב בְּדִין וְשָׁפַט בְּדִין. אָמַר לוֹ: ״מִפְּנֵי מָה אַתָּה בָּרַחְתָּ מִלְּפָנַי?״ אָמַר: ״אֶת קוֹלְךָ שָׁמַעְתִּי בַּגָּן וָאִירָא כִּי עֵירֹם אָנֹכִי וָאֵחָבֵא״.
3
Qual era a veste do primeiro homem? Uma pele luminosa como a da unha, e uma nuvem de glória que o cobria. E, quando comeu dos frutos da árvore, despiu-se dele aquela pele de unha, e retirou-se de sobre ele a nuvem de glória, e ele viu-se nu, como está dito: "e disse D'us: quem te contou que estavas nu?" (Bereshit 3:11).
מָה הָיָה לְבוּשׁוֹ שֶׁל אָדָם הָרִאשׁוֹן? עוֹר צִפֹּרֶן וַעֲנַן כָּבוֹד הַמְכַסֶּה עָלָיו. וְכֵיוָן שֶׁאָכַל מִפֵּרוֹת הָאִילָן, נִפְשַׁט עוֹרוֹ וְצִפֹּרֶן מֵעָלָיו וְנִסְתַּלְּקָה עֲנַן כָּבוֹד מֵעָלָיו, וְרָאָה עַצְמוֹ עָרוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר מִי הִגִּיד לְךָ כִּי עֵירֹם אָתָּה?״
Nota — a veste de glória. Antes do pecado, o ser humano era envolto numa "nuvem de glória" — uma dignidade luminosa. Os comentadores leem aqui um símbolo: a clareza original do espírito, que vestia o homem antes que o desejo tomasse a frente. Ao "comer", essa veste se retira, e surge a vergonha da nudez — o despertar da consciência do corpo e do apetite (cf. Rambam, Guia I:2: antes, Adam via com nitidez o verdadeiro e o falso; depois, passou a julgar pelo agradável e o repugnante). A "nudez" não é só física: é a perda da cobertura interior.
4
Disse Adam diante do Santo, bendito seja: "Senhor de todos os mundos, quando eu estava só, não pequei contra Ti; foi a mulher que puseste comigo que me desviou dos Teus caminhos", como está dito: "a mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi" (Bereshit 3:12). Chamou o Santo, bendito seja, a mulher e disse-lhe: "não te bastou pecares por ti mesma, senão que fizeste pecar também a Adam?" Respondeu ela diante Dele: "Senhor de todos os mundos, a serpente desviou a minha mente para pecar diante de Ti", como está dito: "a serpente me enganou, e comi" (Bereshit 3:13). E trouxe os três e proferiu sobre eles uma sentença de nove maldições e a morte.
אָמַר אָדָם לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, כְּשֶׁהָיִיתִי לְבַדִּי לֹא חָטָאתִי לְךָ, אֶלָּא שֶׁהָאִשָּׁה שֶׁהֵבֵאתָ אֶצְלִי הִיא הִדִּיחָה אוֹתִי מִדְּרָכֶיךָ, שֶׁנֶּאֱמַר ״הָאִשָּׁה אֲשֶׁר נָתַתָּ עִמָּדִי״ וְכוּ'. קָרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לָאִשָּׁה וְאָמַר לָהּ: ״לֹא דַּיֵּךְ שֶׁחָטָאת אֶת עַצְמֵךְ, אֶלָּא שֶׁחָטָאת אֶת אָדָם?״ אָמְרָה לְפָנָיו: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, הַנָּחָשׁ הִסִּיחַ דַּעְתִּי לַחֲטֹא לְפָנֶיךָ, שֶׁנֶּאֱמַר ״הַנָּחָשׁ הִשִּׁיאַנִי וָאֹכֵל״. וְהֵבִיא שְׁלָשְׁתָּן וְנָתַן עֲלֵיהֶם גְּזַר דִּין מִתִּשְׁעָה קְלָלוֹת וּמָוֶת.
Nota — a cadeia de culpas. Eis o coração ético do capítulo: Adam culpa a mulher (e, de passagem, o próprio D'us — "a mulher que Tu me deste"); a mulher culpa a serpente. Ninguém diz "eu errei". Os sábios veem aqui o oposto da teshuvá: o pecado pode ser perdoado, mas a recusa de assumir o ato perpetua-o. O primeiro passo do arrependimento é parar de transferir a culpa.
5
E lançou Samael e o seu bando do seu lugar de santidade nos céus; cortou os pés da serpente, e decretou que ela trocasse de pele, sofrendo com grande dor uma vez a cada sete anos; e a amaldiçoou a rastejar sobre o ventre, e que o seu alimento se transformasse em pó nas suas entranhas, e tivesse o fel de víboras e a morte na boca; e pôs inimizade entre ela e os filhos da mulher, que lhe esmagariam a cabeça; e, depois de tudo isso, a morte. E deu à mulher nove aflições e a morte: as dores do parto, as do sangue dos ciclos, as da gravidez e as de criar os filhos; e outras provações ligadas à condição social da época; e, depois de tudo isso, a morte.
וְהִפִּיל אֶת סָמָאֵל וְאֶת כַּת שֶׁלּוֹ מִמְּקוֹם קְדֻשָּׁתָן מִן הַשָּׁמַיִם, וְקִצֵּץ רַגְלָיו שֶׁל נָחָשׁ, וּפָקַד עָלָיו לִהְיוֹת מַפְשִׁיט אֶת עוֹרוֹ וּמִצְטַעֵר אַחַת לְשִׁבְעָה שָׁנִים בְּעִצָּבוֹן גָּדוֹל. וְאָרְרוֹ שֶׁיִּהְיֶה שׁוֹאֵף בְּמֵעָיו, וּמְזוֹנוֹ נֶהְפַּךְ בְּמֵעָיו לְעָפָר, וּמְרוֹרַת פְּתָנִים מָוֶת בְּפִיהוּ. תִּתֵּן שִׂנְאָה בֵּינוֹ לְבֵין בְּנֵי הָאִשָּׁה שֶׁהָיוּ רוֹצְצִין אֶת רֹאשׁוֹ, וְאַחַר מִמֶּנּוּ הַמָּוֶת. וְנָתַן לָאִשָּׁה מִתֵּשַׁע קְלָלוֹת וָמָוֶת: עִנּוּי לֵידָה וְעִנּוּי דַּם בְּתוּלִים וְעִנּוּי הֵרָיוֹן וְעִנּוּי גִּדּוּל בָּנִים, וּמְכַסָּה אֶת רֹאשָׁהּ כְּאָבֵל, וְאֵינָהּ מְגַלַּחַת אוֹתָהּ כִּי אִם בִּזְנוּת, וְרָצַע אֶת אָזְנָהּ כְּעֶבֶד עוֹלָם, וּכְשִׁפְחָה מְשָׁרֶתֶת בַּעְלָהּ, וְאֵינָהּ נֶאֱמֶנֶת בְּעֵדוּת, וְאַחַר כָּל אֵלֶּה מָוֶת.
Nota — leitura honesta das "maldições". O capítulo enumera nove aflições e a morte para cada um dos três — a serpente, a mulher e o homem (§6) —, ecoando as palavras de Bereshit 3:14-19. É preciso lê-las com honestidade. Várias das aflições atribuídas à mulher (cobrir a cabeça, o rito da sotá, as regras de testemunho, a sujeição ao marido) descrevem a realidade jurídica e social do mundo antigo em que o midrash foi escrito — não constituem um decreto divino da inferioridade feminina, e a própria tradição honra a sabedoria e a dignidade das mulheres (as matriarcas, Devorá, Chuldá). A lista é do gênero "aflições da vida mortal pós-Éden", e a sua estrutura simétrica (também o homem recebe nove + a morte) mostra o ponto real: a saída do Éden inaugurou a condição humana de esforço, dor e finitude — para todos.
6
E impôs a Adam nove aflições e a morte: encurtou a sua força, encurtou a sua estatura, as impurezas ligadas ao corpo; semear trigo e colher espinhos; o seu alimento tirado da erva do campo, como o do animal; o seu pão com fadiga, o seu sustento com suor; e, depois de tudo isso, a morte.
וְהוֹצִיא דּוֹמִיס לְאָדָם מִתֵּשַׁע קְלָלוֹת וּמָוֶת: וְקִצֵּר כֹּחוֹ, וְקִצֵּר קוֹמָתוֹ, טֻמְאַת הַזָּב, טֻמְאַת הַקֶּרִי, טֻמְאַת תַּשְׁמִישׁ הַמִּטָּה, זוֹרֵעַ חִטִּים וְקוֹצֵר קוֹצִים, וּמַאֲכָלוֹ בְּעֵשֶׂב הָאָרֶץ כַּבְּהֵמָה, לַחְמוֹ בִּדְאָבָה, מְזוֹנוֹתָיו בְּזֵיעַ, וְאַחַר כָּל אֵלּוּ מָוֶת.
7
Se Adam pecou, em que pecou a terra, para ser amaldiçoada? Mas foi porque ela não denunciou o que se fez ou: não cumpriu como devia; por isso foi amaldiçoada. E, na hora em que os filhos do homem pecam com transgressões mais leves, D'us fere os frutos da terra por causa dos filhos do homem, como está dito: "maldita é a terra por tua causa" (Bereshit 3:17).
אִם אָדָם חָטָא, מָה חָטְאָה אֶרֶץ שֶׁנֶּאֶרְרָה? אֶלָּא עַל שֶׁלֹּא הִגִּיד אֶת מַעֲשֶׂיהָ, לְפִיכָךְ נֶאֶרְרָה. וּבְשָׁעָה שֶׁבְּנֵי אָדָם חוֹטְאִין בַּעֲבֵירוֹת הַקַּלּוֹת, הוּא מַכֶּה פֵּרוֹתֶיהָ שֶׁל אֶרֶץ בַּעֲבוּר בְּנֵי אָדָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֲרוּרָה הָאֲדָמָה בַּעֲבוּרֶךָ״.
Nota. A pergunta — "se Adam pecou, por que a terra é amaldiçoada?" — aponta para um princípio profundo: a interligação entre o ser humano e o mundo. As escolhas humanas repercutem na criação inteira. E há uma calibragem: às faltas graves correspondem golpes diretos; às mais leves, uma diminuição nos frutos da terra — um chamado à correção, não uma destruição. (Há também uma recensão variante deste capítulo, na edição de Veneza de 1544, que reordena a lista das "dez descidas".)

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

As "dez descidas": D'us na história

O capítulo abre o tema das dez yeridot — momentos em que a Presença divina se manifesta na história, do Éden ao porvir. Os comentadores racionalistas, na linha do Rambam, insistem que "descer" é metáfora: D'us, que não tem lugar nem corpo, não Se desloca. O que "desce" é a revelação — a aproximação de D'us ao mundo humano em horas decisivas. A lista desenha um arco: da queda no jardim, passando pela libertação do Egito e pela Torá no Sinai, até a redenção final. A história tem direção.

A veste de luz e o sentido da "nudez"

A "nuvem de glória" que vestia Adam (§3) e a vergonha da nudez que a sucede recebem, na tradição racionalista, uma leitura espiritual. Para o Rambam (Guia I:2), antes do pecado o ser humano percebia a realidade com clareza — distinguia o verdadeiro do falso; depois, passou a ser dominado pelo agradável e o repugnante, o juízo do desejo. A "veste" perdida é essa nitidez interior; a "nudez" é o desnudamento diante do próprio apetite. Recuperar a veste é reconquistar o domínio da razão sobre o impulso.

A culpa que ninguém assume

O diálogo do julgamento (§4) é uma das passagens mais agudas da Torá: Adam culpa a mulher e, indiretamente, D'us; a mulher culpa a serpente. Os sábios veem aí o avesso do arrependimento. D'us não pergunta para Se informar — pergunta "onde estás?" para abrir a porta da confissão; e ambos a recusam, deslocando a responsabilidade. A lição atravessa toda a tradição ética: a teshuvá começa quando se deixa de dizer "a culpa é do outro" e se diz "eu errei".

As consequências e a terra

As "nove maldições e a morte" para cada parte (a serpente, a mulher, o homem) ecoam Bereshit 3 e descrevem o ingresso na condição mortal: o esforço, a dor, a finitude. Lidas com honestidade, várias das aflições refletem o mundo social antigo, não um ideal eterno — e a simetria das três listas mostra que a queda pesa sobre toda a humanidade. Por fim, a maldição da terra (§7) ensina a interligação de tudo: o ser humano e o mundo partilham um destino, e o nosso agir moral repercute na criação inteira — "maldita é a terra por tua causa" (Bereshit 3:17).

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 15

Os dois caminhos: a vida e a morte, a tzedaká e o chesed

פֶּרֶק ט״ו

"Pus diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal." Dois caminhos se abrem ao ser humano — e, mesmo no caminho do mal, a misericórdia divina chama ao retorno a cada passo, até o último.

1
Rabi Eliezer diz: eu ouvi com os meus ouvidos o Eterno dos Exércitos falar. E o que falou? Disse: "vê, pus diante de ti hoje a vida e o bem, a morte e o mal" (Devarim 30:15). Disse o Santo, bendito seja: eis que dois caminhos dei a vós, filhos de Israel — um de bem e um de mal. O de bem é o da vida; o de mal é o da morte. E o caminho do bem tem duas veredas: uma de tzedaká justiça/caridade e uma de chesed bondade; e Eliyahu — lembrado para o bem — está posto bem no meio dessas duas veredas. Quando vem um homem para entrar, Eliyahu, lembrado para o bem, proclama sobre ele: "abri as portas, para que entre a nação justa que guarda a fidelidade" (Yeshayahu 26:2). E veio Shmuel, o profeta, e pôs-se entre essas duas veredas. Disse: "por qual delas irei? Se for pela de tzedaká, a de chesed é melhor; e se for pela de chesed, a de tzedaká é melhor; pois eis que tomo por testemunhas os céus e a terra que não abro mão de nenhuma das duas".
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: אֲנִי שָׁמַעְתִּי בְּאָזְנַי ה' צְבָאוֹת מְדַבֵּר. וּמָה דִּבֵּר? אָמַר: ״רְאֵה נָתַתִּי לְפָנֶיךָ הַיּוֹם אֶת הַחַיִּים וְאֶת הַטּוֹב, אֶת הַמָּוֶת וְאֶת הָרָע״. אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: הֲרֵי שְׁנֵי דְּרָכִים הַלָּלוּ נָתַתִּי לָכֶם לְיִשְׂרָאֵל, אַחַת שֶׁל טוֹבָה וְאַחַת שֶׁל רָעָה. שֶׁל טוֹבָה – שֶׁל חַיִּים, שֶׁל רָעָה – שֶׁל מָוֶת. שֶׁל טוֹבָה יֵשׁ בָּהּ שְׁנֵי דְרָכִים: אַחַת שֶׁל צְדָקָה וְאַחַת שֶׁל חֶסֶד, וְאֵלִיָּהוּ זָכוּר לַטּוֹב מְמֻצָּע בֵּין שְׁנֵי דְּרָכִים הַלָּלוּ. כְּשֶׁיָּבֹא אָדָם לְהִכָּנֵס, אֵלִיָּהוּ זָכוּר לַטּוֹב מַכְרִיז עָלָיו וְאוֹמֵר: ״פִּתְחוּ שְׁעָרִים וְיָבֹא גוֹי צַדִּיקִים שֹׁמֵר אֱמוּנִים״. בָּא שְׁמוּאֵל הַנָּבִיא וְעָמַד לוֹ בֵּין שְׁתֵּי הַדְּרָכִים הַלָּלוּ. אָמַר: בְּאֵי זֶה מֵהֶם אֵלֵךְ? אִם הוֹלֵךְ בְּשֶׁל צְדָקָה, שֶׁל חֶסֶד טוֹבָה הֵימֶנָּה. אֶלָּא מֵעִיד אֲנִי אֶת הַשָּׁמַיִם וְאֶת הָאָרֶץ שֶׁאֵינִי מַנִּיחַ אֶת אֶחָד מֵהֶם.
2
Disse o Santo, bendito seja: "Shmuel, tu te puseste sobre as duas boas veredas; pela tua vida, eu te darei três boas dádivas". Para te ensinar que todo aquele que pratica tzedaká e gemilut chassadim herda três boas dádivas, a saber: vida, tzedaká e honra, como está dito: "quem persegue a justiça e a bondade encontra vida, justiça e honra" (Mishlê 21:21).
אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: שְׁמוּאֵל, אַתָּה נָתַתָּ אֶת עַצְמְךָ עַל שְׁנֵי דְרָכִים הַטּוֹבוֹת הַלָּלוּ, וְחַיֶּיךָ שֶׁאֲנִי נוֹתֵן לְךָ שָׁלֹשׁ מַתָּנוֹת טוֹבוֹת. לְלַמֶּדְךָ שֶׁכָּל מִי שֶׁהוּא עוֹשֶׂה צְדָקָה וּגְמִילוּת חֲסָדִים יוֹרֵשׁ שָׁלֹשׁ מַתָּנוֹת טוֹבוֹת, וְאֵלּוּ הֵן: חַיִּים, וּצְדָקָה, וְכָבוֹד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״רוֹדֵף צְדָקָה וָחֶסֶד יִמְצָא חַיִּים צְדָקָה וְכָבוֹד״.
Nota — as duas veredas do bem. O caminho da vida desdobra-se em tzedaká (a justiça que dá a cada um o que é devido) e chesed (a bondade que vai além do estrito dever). Shmuel recusa-se a escolher entre elas: a vida boa exige ambas — a justiça sem a bondade é fria, a bondade sem a justiça é cega. Por essa integração ele recebe "vida, justiça e honra" (Mishlê 21:21). É o ideal ético da Torá em duas palavras.
3
E o caminho do mal tem quatro portas. Em cada porta estão sete anjos — quatro do lado de fora e três do lado de dentro. Os de fora são misericordiosos, e os de dentro são severos. Quando vem um homem para entrar, os misericordiosos saem ao seu encontro: "que tens tu com este fogo? Que tens tu com estas brasas? Ouve-nos e volta!" Se ele os ouve — ótimo; e, se não, diz-lhes: "entre elas está a minha vida eu as escolho". Dizem-lhe: "eis que entraste na primeira porta; não entres na segunda!" Se quer entrar na segunda, os misericordiosos saem ao seu encontro e dizem: "que tens tu a ganhar sendo apagado da Torá do teu D'us? Não é melhor estar inscrito na Torá do teu D'us e não apagado? Ouve-nos e volta!" Se ouve e volta — ótimo; e, se não, diz-lhes: "entre elas está a minha vida". Dizem-lhe: "entraste na segunda porta; não entres na terceira!" Vem a entrar na terceira, e os misericordiosos saem ao seu encontro: "que tens tu a ganhar sendo chamado impuro e não puro? Ouve-nos e volta!" Se os ouve — ótimo; e, se não, diz-lhes: "entre elas está a minha vida". Dizem: "entraste na terceira porta; não entres na quarta!" Vem a entrar na quarta, e os misericordiosos saem ao seu encontro e dizem-lhe: "eis que entraste por todas estas portas e não ouviste nem voltaste! Volta ainda agora! O Santo, bendito seja, recebe os que se arrependem; e até agora o Santo, bendito seja, perdoa as faltas e remite, e diz a cada dia: 'voltai, filhos do homem!', como está dito: 'Tu fazes o homem voltar até a contrição'" (Tehilim 90:3).
וְשֶׁל רָעָה יֵשׁ בָּהּ אַרְבָּעָה פְּתָחִים. עַל כָּל פֶּתַח וּפֶתַח שִׁבְעָה מַלְאָכִים עוֹמְדִים, אַרְבָּעָה מִבַּחוּץ וּשְׁלֹשָׁה מִבִּפְנִים. אֵלּוּ שֶׁבַּחוּץ רַחֲמָנִים וְאֵלּוּ שֶׁבִּפְנִים אַכְזָרִים. כְּשֶׁיָּבֹא אָדָם לְהִכָּנֵס, הָרַחֲמָנִים מְקַדְּמִין אוֹתוֹ: ״מַה לְּךָ וְלָאֵשׁ הַזּוֹ? מַה לְּךָ וְלַגֶּחָלִים הַלָּלוּ? שְׁמַע לָנוּ וְשׁוּב!״ אִם שָׁמַע לָהֶם – מוּטָב, וְאִם לָאו – אוֹמֵר לָהֶם: ״בָּהֶם חַיַּי!״ וְאָמְרוּ לוֹ: ״הֲרֵי נִכְנַסְתָּ לַפֶּתַח רִאשׁוֹן, אַל תִּכָּנֵס לַפֶּתַח שֵׁנִי!״ אִם רוֹצֶה לִכָּנֵס לַפֶּתַח שֵׁנִי, הָרַחֲמָנִים מְקַדְּמִין וְאוֹמְרִין לוֹ: ״מַה לְּךָ לִהְיוֹת מָחוּק מִתּוֹרַת אֱלֹהֶיךָ? אֵין מוּטָב לְךָ לִהְיוֹת חָקוּק בְּתוֹרַת אֱלֹהֶיךָ וְלֹא מָחוּק? שְׁמַע לָנוּ וְשׁוּב!״ אִם שׁוֹמֵעַ לָהֶם וְשָׁב – הֲרֵי מוּטָב, וְאִם לָאו – הֲרֵי הוּא אוֹמֵר לָהֶם: ״בָּהֶם חַיַּי!״ אָמַר לוֹ: ״הֲרֵי נִכְנַסְתָּ לַפֶּתַח שֵׁנִי, אַל תִּכָּנֵס לַפֶּתַח שְׁלִישִׁי!״ בָּא לְהִכָּנֵס בַּפֶּתַח הַשְּׁלִישִׁי, הָרַחֲמָנִין מְקַדְּמִין אוֹתוֹ וְאוֹמְרִין לוֹ: ״מַה לְּךָ לִהְיוֹת קוֹרְאִין אוֹתְךָ טָמֵא וְלֹא טָהוֹר? שְׁמַע לָנוּ וְשׁוּב!״ אִם שָׁמַע לָהֶן – הֲרֵי מוּטָב, וְאִם לָאו – הוּא אוֹמֵר לָהֶם: ״בָּהֶם חַיַּי!״ אָמְרוּ: ״הֲרֵי נִכְנַסְתָּ לַפֶּתַח שְׁלִישִׁי, אַל תִּכָּנֵס לַפֶּתַח רְבִיעִי!״ בָּא לִיכָּנֵס בַּפֶּתַח הָרְבִיעִי, הָרַחֲמָנִין מְקַדְּמִין אוֹתוֹ וְאוֹמְרִין לוֹ: ״הֲרֵי נִכְנַסְתָּ בְּכָל הַפְּתָחִים הַלָּלוּ וְלֹא שָׁמַעְתָּ וְשַׁבְתָּ! תָּשׁוּב עַד עַכְשָׁיו! הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מְקַבֵּל שָׁבִים, וְעַד עַכְשָׁו הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מוֹחֵל לַעֲוֹנוֹת וְסוֹלֵחַ, וְאוֹמֵר בְּכָל יוֹם: 'שׁוּבוּ בְּנֵי אָדָם!' שֶׁנֶּאֱמַר: 'תָּשֵׁב אֱנוֹשׁ עַד דַּכָּא'״.
Nota — a misericórdia que chama a cada porta. Esta é uma das mais belas imagens do livro. No caminho do mal há quatro portas, e em cada uma os anjos misericordiosos ficam do lado de fora — antes da entrada —, suplicando ao homem que volte; só depois, dentro, estão os severos. A cada passo da descida, a porta da teshuvá permanece aberta: "volta ainda agora!". É a doutrina central do arrependimento (cf. Rambam, Hilchot Teshuvá): D'us "recebe os que se arrependem" até o último instante, e proclama a cada dia "voltai, filhos do homem". Quem se perde, perde-se por insistir — "entre as brasas está a minha vida" —, não por falta de chamado.
4
Só então dizem os anjos severos: "visto que não ouviu os primeiros, que saia o seu espírito", como está dito: "sai o seu espírito, e ele volta ao seu pó" (Tehilim 146:4). E sobre eles diz a Escritura: "sobre a terceira e a quarta geração dos que Me odeiam" (Shemot 20:5); e outro versículo diz: "eis que todas estas coisas D'us faz duas, três vezes com o homem" (Iyov 33:29) — dando-lhe repetidas oportunidades. E assim o Santo, bendito seja, chama a Eliézer.
אָמְרוּ אַכְזָרִיִּים: ״הוֹאִיל וְלֹא שָׁמַע לָרִאשׁוֹנִים, יוֹצִיא רוּחוֹ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״תֵּצֵא רוּחוֹ יָשֻׁב לְאַדְמָתוֹ״. וַעֲלֵיהֶם הוּא אוֹמֵר: ״עַל שִׁלֵּשִׁים וְעַל רִבֵּעִים לְשֹׂנְאָי״. וְכָתוּב אַחֵר: ״הֶן כָּל אֵלֶּה יִפְעַל אֵל פַּעֲמַיִם שָׁלוֹשׁ עִם גָּבֶר״. וְכֵן הוּא קוֹרֵא לֶאֱלִיעֶזֶר.
5
Disse-lhe o Santo, bendito seja: "Eliézer, tu fizeste de ti mesmo como um fio triplo", como está dito: "e o fio triplo não se rompe depressa" (Kohélet 4:12). "Também eu aplico a ti este versículo: 'íntegro serás com o Eterno teu D'us' (Devarim 18:13)". Não leias apenas como ouviste, mas: "íntegro serás com o Eterno teu D'us" — inteiro, sem reservas, caminhando com simplicidade e confiança diante Dele.
אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: אֱלִיעֶזֶר, אַתָּה עָשִׂיתָ אֶת עַצְמְךָ כַּחוּט הַמְשֻׁלָּשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהַחוּט הַמְשֻׁלָּשׁ לֹא בִמְהֵרָה יִנָּתֵק״. אַף אֲנִי קוֹרֵא עָלֶיךָ הַפָּסוּק הַזֶּה: ״תָּמִים תִּהְיֶה עִם ה' אֱלֹהֶיךָ״. אַל תְּהִי קוֹרֵא כֵּן, אֶלָּא: ״תָּמִים תִּהְיֶה עִם ה' אֱלֹהֶיךָ״.
Nota. "Íntegro (tamim) serás com o Eterno teu D'us" (Devarim 18:13) é o versículo que sela o capítulo — e que a Torá põe logo depois da proibição da feitiçaria e da adivinhação. Caminhar "tamim" é caminhar inteiro: sem recorrer a artes ocultas para sondar o futuro, sem dividir o coração, confiando em D'us com simplicidade. O "fio triplo" de Eliézer — a integração das veredas do bem — é a imagem dessa vida una e firme.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

"Escolhe a vida": o livre-arbítrio

O capítulo é uma meditação sobre o versículo "pus diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal" (Devarim 30:15), que continua: "e escolherás a vida" (30:19). Os sábios e o Rambam (Hilchot Teshuvá 5) fazem dele a base do livre-arbítrio: os dois caminhos estão abertos, e a escolha é genuinamente do ser humano. Não há decreto que force ninguém ao bem ou ao mal — só há o convite, e a responsabilidade de responder.

Tzedaká e chesed: as duas veredas

O caminho da vida não é único: tem duas veredas, a justiça e a bondade. A recusa de Shmuel em escolher entre elas é a lição central: a vida boa exige as duas juntas. O Radal e os comentadores notam que tzedaká (dar a cada um o que lhe é devido) e chesed (a generosidade que excede o dever) se completam — e quem as une "encontra vida, justiça e honra" (Mishlê 21:21). É o mesmo ensino de Pirkei Avot: o mundo se sustenta sobre a Torá, o serviço e a gemilut chassadim.

As quatro portas: a teshuvá nunca se fecha

A passagem das quatro portas é uma das mais consoladoras do midrash. Em cada degrau da descida, os "anjos misericordiosos" — postos do lado de fora, antes da entrada — imploram ao homem que volte; os "severos" só agem quando todo apelo foi recusado. A lição, que percorre toda a tradição da teshuvá (Hilchot Teshuvá), é que o arrependimento está sempre disponível: "até agora o Santo, bendito seja, recebe os que voltam". A perdição não é um destino imposto, mas uma insistência — o homem que repete "entre as brasas está a minha vida". A porta nunca se tranca por fora; é a pessoa que escolhe não atravessá-la de volta.

O fio triplo e o caminhar "tamim"

O capítulo termina com a bênção a Rabi Eliézer: ele se fez "fio triplo" (Kohélet 4:12) — firme porque entrelaçado nas boas veredas. E recebe o versículo "íntegro serás com o Eterno teu D'us" (Devarim 18:13). Tamim — integridade, inteireza, simplicidade de coração — é o oposto da vida dividida entre o bem e o mal, e o oposto de quem busca atalhos ocultos. Caminhar inteiro com D'us, na justiça e na bondade, é a síntese de todo o capítulo.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 16

O serviço da bondade: gemilut chassadim e os noivos

פֶּרֶק ט״ז

O mundo se sustenta sobre três coisas — e uma delas é a bondade. Deste tema o capítulo tece a história mais terna: como o próprio D'us alegra os noivos, e como Eliézer, por amor, trouxe Rivká para Yitzchak.

1
Sobre três coisas o mundo se sustenta: sobre a Torá, sobre o serviço a D'us / a oração e sobre a gemilut chassadim a prática da bondade.
עַל שְׁלֹשָׁה דְבָרִים הָעוֹלָם עוֹמֵד: עַל הַתּוֹרָה, וְעַל הָעֲבוֹדָה, וְעַל גְּמִילוּת חֲסָדִים.
2
Sobre a Torá, de onde sabemos? Do que está dito: "se não fora a Minha aliança, estabelecida dia e noite..." (Yirmiyahu 33:25); e diz: "não se aparte da tua boca este livro da Torá" (Yehoshua 1:8). Sobre o serviço, de onde? Do que está dito: "e a oração dos retos é o Seu agrado" (Mishlê 15:8). Sobre a gemilut chassadim, de onde? Do que está dito: "pois bondade desejei, e não sacrifício" (Hoshea 6:6).
עַל הַתּוֹרָה מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״אִם לֹא בְרִיתִי יוֹמָם וָלָיְלָה״ וְכוּ'. וְאוֹמֵר: ״לֹא יָמוּשׁ סֵפֶר הַתּוֹרָה הַזֶּה מִפִּיךָ״. עַל הָעֲבוֹדָה מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּתְפִלַּת יְשָׁרִים רְצוֹנוֹ״. עַל גְּמִילוּת חֲסָדִים מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי חֶסֶד חָפַצְתִּי וְלֹא זָבַח״.
3
De quem aprendemos a fazer bondade aos noivos? Do Santo, bendito seja, que fez bondade ao primeiro homem e à sua companheira. Disse o Santo, bendito seja: "amada Me é a bondade, mais do que os sacrifícios e holocaustos que Israel — que Me é querido — há de oferecer diante de Mim sobre o altar", como está dito: "pois bondade desejei, e não sacrifício" (Hoshea 6:6).
עַל הָעוֹשֶׂה גְּמִילוּת חֲסָדִים לַחֲתָנִים מִנַּיִן אָנוּ לְמֵדִים? מֵהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שֶׁגָּמַל חֶסֶד לְאָדָם הָרִאשׁוֹן וּלְעֶזְרוֹ. אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״חֲבִיבָה עָלַי חֶסֶד מִזְּבָחִים וְעוֹלוֹת שֶׁיִּשְׂרָאֵל חֲבִיבִין וַעֲתִידִין לְהַקְרִיב לְפָנַי עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי חֶסֶד חָפַצְתִּי וְלֹא זָבַח״.
Nota — os três pilares. A máxima de Pirkei Avot (1:2) abre o capítulo: o mundo repousa sobre Torá (o estudo), Avodá (o serviço a D'us, hoje a oração) e gemilut chassadim (os atos de bondade). E a bondade aprende-se com o próprio D'us, que "desceu" para alegrar os primeiros noivos (cap. 12): é a imitação de D'us (cf. Rambam, Hilchot Deot 1:6). "Bondade desejei, e não sacrifício" (Hoshea 6:6) — a ética da compaixão precede o rito.
4
Rabi Yossi diz: de quem aprendemos os sete dias de festa nupcial? De Yaakov, nosso pai: quando desposou Lea, fez sete dias de festa e alegria, como está dito: "completa a semana desta..." (Bereshit 29:27).
רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: שִׁבְעַת יְמֵי הַמִּשְׁתֶּה מִמִּי אָנוּ לְמֵדִין? מִיַּעֲקֹב אָבִינוּ. כְּשֶׁנָּשָׂא אֶת לֵאָה עָשָׂה שִׁבְעַת יְמֵי הַמִּשְׁתֶּה וְשִׂמְחָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מַלֵּא שְׁבֻעַ זֹאת״ וְכוּ'.
5
Rabi Shimon diz: Avraham, nosso pai, registrou tudo o que tinha como herança para Yitzchak, como está dito: "e deu Avraham tudo o que tinha a Yitzchak" (Bereshit 25:5). E tomou o documento e o pôs na mão do seu servo Eliézer. Eliézer disse: "visto que o documento está na minha mão, todo o seu patrimônio está na minha mão; irei a Charan e serei bem recebido na casa do seu pai e na sua família".
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: כָּתַב אַבְרָהָם אָבִינוּ אֶת כָּל אֲשֶׁר לוֹ לְיִצְחָק, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּתֵּן אַבְרָהָם אֶת כָּל אֲשֶׁר לוֹ לְיִצְחָק״. וְלָקַח הַכְּתָב וּנְתָנוֹ בְּיַד עַבְדּוֹ אֱלִיעֶזֶר. אָמַר: הוֹאִיל וְהַכְּתָב בְּיָדוֹ, כָּל מָמוֹנוֹ בְּיָדִי, לֵילֵךְ וּלְהִשְׁתַּבֵּחַ בְּבֵית אָבִיו וּבְמִשְׁפַּחְתּוֹ.
6
De Kiryat Arba Chevron até Charan eram dezessete dias de viagem; e em três horas chegou o servo a Charan. E o servo admirava-se no coração e dizia: "hoje saí, e hoje cheguei!", como está dito: "e cheguei hoje à fonte" (Bereshit 24:42).
מִקִּרְיַת אַרְבַּע עַד חָרָן מַהֲלַךְ שִׁבְעָה עָשָׂר יוֹם, וּבְשָׁלוֹשׁ שָׁעוֹת בָּא הָעֶבֶד לְחָרָן. וְהָיָה הָעֶבֶד תָּמֵהַּ בְּלִבּוֹ וְאָמַר: ״הַיּוֹם יָצָאתִי וְהַיּוֹם בָּאתִי״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וָאָבֹא הַיּוֹם אֶל הָעָיִן״.
7
Rabi Abahu disse: o Santo, bendito seja, quis fazer bondade a Yitzchak, e enviou um anjo adiante de Eliézer, e o caminho se "encolheu" diante dele kefitzat haderech, e em três horas chegou o servo a Charan.
רַבִּי אַבָּהוּ אָמַר: רָצָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לִגְמֹל חֶסֶד לְיִצְחָק, וְשָׁלַח מַלְאָךְ לִפְנֵי אֱלִיעֶזֶר, וְנִקְפְּצָה הַדֶּרֶךְ עָלָיו, וּבְשָׁלֹשׁ שָׁעוֹת בָּא הָעֶבֶד לְחָרָן.
Nota — o caminho que se encurta. A "contração do caminho" (kefitzat haderech) é um motivo aggádico: dezessete dias percorridos em três horas. Não é uma "lei da física", mas uma figura de que a providência alisa o caminho de uma mitsvá — Eliézer corre a cumprir um ato de bondade (achar esposa para Yitzchak), e o Céu apressa o seu passo. A leitura sóbria vê aí a mão de D'us favorecendo a obra do bem, não uma proeza mágica do servo.
8
E tudo está revelado diante do Santo, bendito seja: uma "filha de reis", que em todos os seus dias jamais saíra para tirar água, saiu para tirar água naquela hora. E a jovem, que não sabia quem era o homem, aceitou unir-se a Yitzchak. Por quê? Porque ela era destinada a ele desde o ventre de sua mãe.
וְהַכֹּל [צָפוּי] לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וּבַת מְלָכִים שֶׁלֹּא יָצְאָה לִשְׁאֹב מִיָּמִים יָמִימָה יָצְאָה לִשְׁאֹב מַיִם בְּאוֹתָהּ שָׁעָה. וְהַנַּעֲרָה שֶׁלֹּא הָיְתָה יוֹדַעַת מִי הוּא הָאִישׁ קִבְּלָה עָלֶיהָ לְהִזְדַּוֵּג לְיִצְחָק. לָמָּה? שֶׁהָיְתָה רְאוּיָה מִמְּעֵי אִמָּהּ.
9
E responderam Lavan e Betuel: "visto que a coisa saiu da boca da Potência de D'us, não podemos impedi-la", como está dito: "e responderam Lavan e Betuel e disseram: do Eterno procede este assunto..." — "eis Rivká diante de ti; toma-a e vai" (Bereshit 24:50-51).
וְעָנוּ לָבָן וּבְתוּאֵל: ״הוֹאִיל וְהַדָּבָר יָצָא מִפִּי הַגְּבוּרָה, אֵין אָנוּ יְכוֹלִין לְעַכֵּב״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּעַן לָבָן וּבְתוּאֵל וַיֹּאמְרוּ״ וְכוּ'. ״הִנֵּה רִבְקָה לְפָנֶיךָ, קַח וָלֵךְ״.
10
E o servo madrugou e viu o anjo de pé, esperando-o do lado de fora. Disse-lhes: "não me detenhais, pois o homem que veio comigo ontem e fez prosperar o meu caminho, eis que está de pé, esperando-me lá fora", como está dito: "e disse-lhes: não me detenhais, pois o Eterno fez prosperar o meu caminho" (Bereshit 24:56). Comeram e beberam na festa de Rivká; e, como o chazan que se levanta e abençoa a noiva sob o seu dossel, assim se levantaram e abençoaram Rivká, sua irmã, unida a Yitzchak, como está dito: "e abençoaram Rivká, sua irmã, e disseram-lhe..." (Bereshit 24:60).
וְהִשְׁכִּים הָעֶבֶד בַּבֹּקֶר וְרָאָה אֶת מַלְאָךְ עוֹמֵד וּמַמְתִּין לוֹ בַּחוּץ. אָמַר לָהֶם: ״אַל תְּאַחֲרוּ אוֹתִי, שֶׁהֲרֵי הָאִישׁ שֶׁבָּא אֶתְמוֹל עִמִּי וְהִצְלִיחַ דַּרְכִּי, הֲרֵי הוּא עוֹמֵד וּמַמְתִּין לִי בַּחוּץ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר אֲלֵיהֶם אַל תְּאַחֲרוּ אֹתִי וַה' הִצְלִיחַ דַּרְכִּי״. אָכְלוּ וְשָׁתוּ מִשְׁתֵּה רִבְקָה, וּכְחַזָּן שֶׁהוּא עוֹמֵד וּמְבָרֵךְ לַכַּלָּה בְּתוֹךְ חֻפָּתָהּ, כֵּן עָמְדוּ וּבֵרְכוּ אֶת רִבְקָה אֲחוֹתָם לְיִצְחָק, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְבָרְכוּ אֶת רִבְקָה אֲחֹתָם וַיֹּאמְרוּ לָהּ״ וְכוּ'.
11
Às seis horas do dia, saiu o servo da terra de Charan e tomou Rivká e Devorá, sua ama, e as fez montar nos camelos. E, para que não ficasse a sós com a jovem durante a noite, o caminho "encolheu-se" diante dele, e em três horas chegou o servo a Chevron, à hora da oração de Minchá ao entardecer. E Yitzchak saíra para orar a oração de Minchá, e viu os camelos chegando, como está dito: "e Yitzchak saíra a meditar orar no campo, ao entardecer..." (Bereshit 24:63).
בְּשֵׁשׁ שָׁעוֹת מֵהַיּוֹם יָצָא הָעֶבֶד מֵהָאָרֶץ וְלָקַח אֶת רִבְקָה וְאֶת דְּבוֹרָה מֵנִיקְתָּהּ, וְהִרְכִּיב אוֹתָן עַל הַגְּמַלִּים. וּבִשְׁבִיל שֶׁלֹּא יִתְיַחֵד עִם הַנַּעֲרָה בַּלַּיְלָה, נִקְפְּצָה הָאָרֶץ לְפָנָיו, וּבְשָׁלֹשׁ שָׁעוֹת בָּא הָעֶבֶד לְחֶבְרוֹן לְעֵת תְּפִלַּת הַמִּנְחַת עֶרֶב. וְיָצָא יִצְחָק לְהִתְפַּלֵּל תְּפִלַּת הַמִּנְחָה וְרָאָה הַגְּמַלִּים בָּאִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּצֵא יִצְחָק לָשׂוּחַ בַּשָּׂדֶה״ וְכוּ'.
Nota — Yitzchak e a oração de Minchá. O capítulo lê "Yitzchak saiu a lasuach meditar/conversar no campo, ao entardecer" (Bereshit 24:63) como oração — e desta tradição os sábios derivam que Yitzchak instituiu a tefilá de Minchá, a oração da tarde (cf. Talmud, Berachot 26b: cada um dos patriarcas instituiu uma das três orações diárias). E, por delicadeza, o "encolher do caminho" repete-se na volta — para que o servo não passasse a noite a sós com a jovem: o respeito (tzeniut) faz parte da própria bondade.
12
Rabi Shimon diz: Avraham disse a Yitzchak, seu filho — pois conforme a desconfiança da época um servo cananeu poderia não ser fiel, "Canaã, em cuja mão há balança de engano" (Hoshea 12:8) — que verificasse, antes do casamento, a pureza da jovem; e, se ela fosse íntegra, "eis que é digna de ti por esposa, destinada a ti desde o ventre de sua mãe". E assim se confirmou, e depois a tomou por esposa, como está dito: "e Yitzchak a trouxe à tenda de Sará, sua mãe... e Yitzchak consolou-se após a morte de sua mãe" (Bereshit 24:67) — pois os atos de Rivká eram semelhantes aos de Sará. E esta foi a raiz de um costume de Israel quanto aos sinais legais da jovem, como está dito: "e tomará o pai da jovem e a sua mãe, e farão sair os sinais..." (Devarim 22:15).
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: אָמַר אַבְרָהָם לְיִצְחָק בְּנוֹ... רְאֵה שֶׁמָּא נָגַע בַּצִּנּוֹר. תָּבִיא הַנַּעֲרָה הָאֹהֱלָה. אִם טְהוֹרָה, הֲרֵי הִיא רְאוּיָה לְךָ לְאִשָּׁה מִמְּעֵי אִמָּהּ. וְאַחַר כָּךְ לְקָחָהּ לְאִשָּׁה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְבִיאֶהָ יִצְחָק הָאֹהֱלָה שָׂרָה אִמּוֹ וַיִּנָּחֵם יִצְחָק אַחֲרֵי אִמּוֹ״, שֶׁהָיוּ מַעֲשֵׂה רִבְקָה דּוֹמִין לְמַעֲשֵׂה שָׂרָה. וְכָךְ הָיוּ יִשְׂרָאֵל נְהוּגִין, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְלָקַח אֲבִי הַנַּעֲרָה וְאִמָּהּ וְהוֹצִיאוּ״ וְכוּ'.
Nota. Este parágrafo reflete os costumes jurídicos do mundo antigo quanto ao casamento (os "sinais da virgindade" de Devarim 22) e uma desconfiança da narrativa em relação ao servo — não é uma prescrição para hoje, e o tratamos com discrição. O coração da passagem é outro: "os atos de Rivká eram semelhantes aos de Sará". Segundo o conhecido midrash, ao entrar Rivká na tenda de Sará, voltaram os sinais da bênção que ali havia no tempo da matriarca — a luz acesa de Shabat a Shabat, a bênção na massa, a nuvem sobre a tenda. Rivká restaura a presença de Sará; é por isso que Yitzchak "se consola".
13
O administrador da casa de Avraham era o seu servo Eliézer. E de onde veio o seu servo? Quando Avraham saiu de Ur dos Caldeus, vieram todos os grandes da geração dar-lhe presentes; e Nimrod tomou o seu servo Eliézer e o deu a Avraham como servo perpétuo.
זְקַן בֵּיתוֹ שֶׁל אַבְרָהָם הָיָה עַבְדּוֹ אֱלִיעֶזֶר. וּמֵהֵיכָן הָיָה עַבְדּוֹ? אֶלָּא שֶׁכֵּיוָן שֶׁיָּצָא מֵאוּר כַּשְׂדִּים, בָּאוּ כָּל גְּדוֹלֵי הַדּוֹר לִיתֵּן לוֹ מַתָּנוֹת, וְלָקַח נִמְרוֹד עַבְדּוֹ אֱלִיעֶזֶר וּנְתָנוֹ לוֹ עֶבֶד עוֹלָם.
14
E, quando Eliézer fez bondade a Yitzchak, Avraham libertou-o; e o Santo, bendito seja, deu-lhe a sua recompensa neste mundo, e o elevou a rei — e ele é Og, rei de Bashan. Assim diz esta tradição aggádica.
וּכְשֶׁגָּמַל חֶסֶד לְיִצְחָק, הוֹצִיאוֹ לַחֵרוּת, וְנָתַן לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שְׂכָרוֹ בָּעוֹלָם הַזֶּה, וְקִיְּמוֹ לְמֶלֶךְ, וְהוּא עוֹג מֶלֶךְ הַבָּשָׁן.
15
Rabi Yossi diz: de quem aprendemos os sete dias de festa? De Yaakov, nosso pai, que fez sete dias de festa e alegria e desposou Lea; e ainda acrescentou outros sete dias de festa e alegria e desposou Rachel, como está dito: "e ajuntou Lavan todos os homens do lugar e fez uma festa" (Bereshit 29:22). Disse o Santo, bendito seja: "vós fizestes bondade com Yaakov, Meu servo; eu darei a vossa recompensa aos vossos filhos no porvir". E também aprendemos de Shimshon, o nazireu de D'us, que, quando desceu à terra dos filisteus e tomou esposa, fez sete dias de festa e alegria, como está dito: "e sucedeu que, ao vê-lo, tomaram trinta companheiros para estar com ele" (Shoftim 14:11) — e estes comiam, bebiam e se alegravam.
רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: שִׁבְעַת יְמֵי הַמִּשְׁתֶּה מִמִּי אָנוּ לְמֵדִין? מִיַּעֲקֹב אָבִינוּ, שֶׁעָשָׂה שִׁבְעַת יְמֵי הַמִּשְׁתֶּה וְשִׂמְחָה וְלָקַח אֶת לֵאָה. וְעוֹד הוֹסִיף שִׁבְעָה יָמִים אֲחֵרִים מִשְׁתֶּה וְשִׂמְחָה וְלָקַח אֶת רָחֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֶּאֱסֹף לָבָן אֶת כָּל אַנְשֵׁי הַמָּקוֹם וַיַּעַשׂ מִשְׁתֶּה״. אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: אַתֶּם גְּמַלְתֶּם חֶסֶד עִם יַעֲקֹב עַבְדִּי וַאֲנִי אֶתֵּן שְׂכַרְכֶם לִבְנֵיכֶם לֶעָתִיד לָבֹא. שִׁבְעַת יְמֵי הַמִּשְׁתֶּה מִמִּי אָנוּ לְמֵדִין? מִשִּׁמְשׁוֹן נְזִיר אֱלֹהִים, כְּשֶׁיָּרַד לְאֶרֶץ פְּלִשְׁתִּים וְלָקַח לוֹ אִשָּׁה וְעָשָׂה שִׁבְעַת יְמֵי מִשְׁתֶּה וְשִׂמְחָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי כִּרְאוֹתָם אוֹתוֹ וַיִּקְחוּ שְׁלֹשִׁים מֵרֵעִים וַיִּהְיוּ אִתּוֹ״.
16
O noivo é semelhante a um rei. Assim como o rei é louvado por todos, assim o noivo é louvado por todos durante os sete dias da festa. Assim como o rei veste trajes de honra, assim o noivo veste trajes de honra. Assim como o rei tem alegria e banquete diante de si, assim o noivo tem alegria e banquete diante de si todos os sete dias. Assim como o rei não sai sozinho à praça pública, assim o noivo não sai sozinho. Assim como o rosto do rei brilha como a luz do sol, assim o rosto do noivo brilha como a luz do sol, como está dito: "e ele é como um noivo que sai do seu tálamo" (Tehilim 19:6).
הֶחָתָן דּוֹמֶה לַמֶּלֶךְ. מָה הַמֶּלֶךְ הַכֹּל מְקַלְּסִין אוֹתוֹ שִׁבְעַת יְמֵי הַמִּשְׁתֶּה, כָּךְ חָתָן הַכֹּל מְקַלְּסִין אוֹתוֹ שִׁבְעַת יְמֵי הַמִּשְׁתֶּה. מָה הַמֶּלֶךְ לוֹבֵשׁ בִּגְדֵי כָבוֹד, כָּךְ הֶחָתָן לוֹבֵשׁ בִּגְדֵי כָבוֹד. מָה הַמֶּלֶךְ שִׂמְחָה וּמִשְׁתֶּה לְפָנָיו כָּל הַיָּמִים, כָּךְ הֶחָתָן שִׂמְחָה וּמִשְׁתֶּה לְפָנָיו כָּל שִׁבְעַת יָמִים. מָה הַמֶּלֶךְ אֵינוֹ יוֹצֵא לַשּׁוּק לְבַדּוֹ, כָּךְ הֶחָתָן אֵינוֹ יוֹצֵא לַשּׁוּק לְבַדּוֹ. מָה הַמֶּלֶךְ פָּנָיו מְאִירוֹת כְּאוֹר הַחַמָּה, כָּךְ חָתָן פָּנָיו מְאִירוֹת כְּאוֹר הַחַמָּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהוּא כְּחָתָן יֹצֵא מֵחֻפָּתוֹ״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

Os três pilares e a bondade que imita D'us

O capítulo nasce da máxima de Pirkei Avot (1:2): o mundo repousa sobre a Torá, a Avodá e a gemilut chassadim. E foca o terceiro pilar — a bondade —, aprendido do próprio D'us, que celebra os noivos (cap. 12). Os sábios extraem daqui a imitação de D'us (cf. Rambam, Hilchot Deot 1:6): como Ele alegra noivos, veste os nus e conforta os enlutados, assim deve o ser humano. "Bondade desejei, e não sacrifício" (Hoshea 6:6): a tradição racionalista vê na ética da compaixão o coração do serviço divino.

Eliézer, a providência e a oração de Yitzchak

A história de Eliézer (Bereshit 24) é, para os sábios, um retrato da providência que acompanha o bem: o caminho "se encolhe" porque o servo corre a cumprir uma mitsvá. Lida com sobriedade, a "contração do caminho" exprime o favor divino sobre a obra da bondade — não uma magia. E o detalhe de Yitzchak que "sai ao campo ao entardecer" (24:63) torna-se a fonte clássica de que ele instituiu a oração de Minchá (Berachot 26b): os patriarcas não só rezaram — fundaram o ritmo da oração de Israel.

Rivká e a restauração da tenda de Sará

O coração emocional do capítulo está em "os atos de Rivká eram semelhantes aos de Sará". O célebre midrash conta que, ao entrar Rivká na tenda, voltaram os três sinais da bênção do tempo de Sará: a luz que ardia de Shabat a Shabat, a bênção na massa do pão e a nuvem da Presença sobre a tenda. Por isso "Yitzchak se consolou após a mãe": a nova geração retoma e renova a santidade da anterior. (Os elementos do parágrafo que refletem costumes jurídicos antigos, tratamo-los com discrição e como contexto histórico, não como norma.)

O noivo como rei: a dignidade da alegria

O capítulo fecha coroando o noivo: louvado, vestido de honra, jamais sozinho, o rosto a brilhar "como um noivo que sai do seu tálamo" (Tehilim 19:6). Daqui vêm os costumes vivos do casamento judaico — os sete dias de festa (sheva berachot, aprendidos de Yaakov e de Shimshon) e o tratamento régio dos noivos. A lição é profunda: a alegria do casal é uma mitsvá comunitária, e honrá-la é um ato de bondade que, como ensina todo o capítulo, sustenta o mundo.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 17

A bondade aos enlutados: chesed shel emet

פֶּרֶק י״ז

A bondade mais pura é a que se faz a quem não pode retribuir — os mortos e os enlutados. Dela o próprio D'us deu o exemplo, ao sepultar Moshé com as Suas mãos.

1
De onde aprendemos a fazer bondade aos enlutados? Do Onipresente, que fez bondade a Moshé, nosso mestre — a paz esteja com ele —, sepultando-o com a Sua própria mão. E, se a coisa não estivesse escrita, seria impossível dizê-la, como está dito: "e o sepultou no vale, na terra de Moav" (Devarim 34:6).
גְּמִילוּת חֲסָדִים לַאֲבֵלִים מִנַּיִן אָנוּ לְמֵדִין? מֵהַמָּקוֹם שֶׁהוּא גָּמַל חֶסֶד לְמֹשֶׁה רַבֵּינוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם, שֶׁקְּבָרוֹ בְּיָדוֹ. וְאִלּוּלֵי שֶׁהַדָּבָר כָּתוּב, אִי אֶפְשָׁר לְאָמְרוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּקְבֹּר אֹתוֹ בַגַּיְא בְּאֶרֶץ מוֹאָב״.
2
Rabban Gamliel, filho de Rabi Yehudá, diz: não só a Moshé fez o Santo, bendito seja, essa bondade, mas também a Aharon. Quando subiram ao Monte Hor, todas as tribos de Israel discutiam, dizendo: "Moshé e Elazar deixaram Aharon no Monte Hor e desceram sozinhos" — e não acreditavam que Aharon tivesse morrido. Que fez o Santo, bendito seja? Tomou o féretro de Aharon e o fez passar por cima do acampamento de Israel, e todo o Israel viu o seu féretro voando e flutuando no ar; então acreditaram que Aharon morrera, e fizeram-lhe bondade — os homens, as mulheres e as crianças.
רַבָּן גַּמְלִיאֵל בְּנוֹ שֶׁל רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: לֹא לְמֹשֶׁה לְבַדּוֹ גָּמַל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, אֶלָּא אַף לְאַהֲרֹן. כְּשֶׁעָלוּ לְהֹר הָהָר, הָיוּ נִדּוֹנִין כָּל שִׁבְטֵי יִשְׂרָאֵל וְאוֹמְרִין: ״מֹשֶׁה וְאֶלְעָזָר הִנִּיחוּ אַהֲרֹן בְּהֹר הָהָר וְיָרְדוּ לָהֶם״, וְלֹא הֶאֱמִינוּ כִּי גָוַע אַהֲרֹן. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? נָטַל אֲרוֹנוֹ שֶׁל אַהֲרֹן וְהֶעֱבִיר מֵעַל מַחֲנֵה יִשְׂרָאֵל, וְרָאוּ כָל יִשְׂרָאֵל אֶת אֲרוֹנוֹ טָס וּפוֹרֵחַ בָּאֲוִיר, וְהֶאֱמִינוּ כִּי גָוַע אַהֲרֹן, וְגָמְלוּ לוֹ חֶסֶד הָאֲנָשִׁים וְהַנָּשִׁים וְהַטַּף.
3
Por quê todos? Porque Aharon perseguia a paz e amava a paz, e passava pelo acampamento de Israel a cada dia, e punha paz entre o homem e a sua mulher e entre uma pessoa e o seu próximo. Por isso lhe fizeram bondade, como está dito: "e choraram a Aharon trinta dias, toda a casa de Israel" (Bemidbar 20:29).
לָמָּה? שֶׁהָיָה אַהֲרֹן רוֹדֵף שָׁלוֹם וְאוֹהֵב שָׁלוֹם, וְעוֹבֵר עַל מַחֲנֵה יִשְׂרָאֵל בְּכָל יוֹם, וְנוֹתֵן שָׁלוֹם בֵּין אִישׁ לְאִשְׁתּוֹ וּבֵין אָדָם לַחֲבֵרוֹ. לְפִיכָךְ גָּמְלוּ לוֹ חֶסֶד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּבְכּוּ אֶת אַהֲרֹן שְׁלֹשִׁים יוֹם כֹּל בֵּית יִשְׂרָאֵל״.
Nota — chesed shel emet. A bondade aos mortos é chamada chesed shel emet — "bondade verdadeira" —, porque o morto não pode retribuir nada; é o serviço mais puro. E o seu modelo é o próprio D'us, que sepultou Moshé: como Ele cuida dos mortos, assim devemos cuidar (a imitação de D'us; cf. Talmud, Sotá 14a). Note também o contraste comovente: a Aharon, o amante da paz, choraram "todos" — homens, mulheres e crianças —, porque a sua bondade tocara cada lar.
4
Rabi Yossi diz: de quem aprendemos os sete dias de luto? De Yaakov, nosso pai, pois assim lhe fez Yossef, seu filho, como está dito: "e fez por seu pai um luto de sete dias" (Bereshit 50:10).
רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: שִׁבְעַת יְמֵי הָאֵבֶל מִנַּיִן אָנוּ לְמֵדִין? מִיַּעֲקֹב אָבִינוּ, שֶׁכָּךְ עָשָׂה לוֹ יוֹסֵף בְּנוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּעַשׂ לְאָבִיו אֵבֶל שִׁבְעַת יָמִים״.
5
De onde aprendemos o valor de fazer bondade aos enlutados — que nenhum ato se perde? De Izevel: a sua casa ficava junto ao mercado, e todo morto que passava pelo mercado, ela saía de casa, batia as palmas das mãos, entoava lamento com a boca e o acompanhava por dez passos; e todo noivo que passava pelo mercado, ela saía de casa, fazia soar as palmas das mãos, louvava-o com a boca e caminhava dez passos. E profetizou sobre ela Eliyahu — lembrado para o bem: "os cães comerão Izevel na parcela de Yizreel"; mas os membros que praticavam a bondade, os cães não os tocaram, como está dito: "e foram sepultá-la, mas não acharam dela senão o crânio, os pés e as palmas das mãos" (Melachim II 9:35-36).
גְּמִילוּת חֲסָדִים מִנַּיִן אָנוּ לְמֵדִין לַאֲבֵלִים? מֵאִיזֶבֶל, שֶׁהָיְתָה בֵּיתָהּ סָמוּךְ לַשּׁוּק, וְכָל מֵת שֶׁהָיָה עוֹבֵר בַּשּׁוּק הָיְתָה יוֹצֵאת מִתּוֹךְ בֵּיתָהּ וּמַכָּה בְּכַפֵּי יָדֶיהָ וּמְקוֹנֶנֶת בְּפִיהָ וּמְהַלֶּכֶת עֲשָׂרָה צְעָדוֹת. וְכָל חָתָן שֶׁהָיָה עוֹבֵר בַּשּׁוּק הָיְתָה יוֹצְאָה מִתּוֹךְ בֵּיתָהּ וּמְצַלְצֶלֶת בְּכַפֵּי יָדֶיהָ וּמְקַלֶּסֶת בְּפִיהָ וּמְהַלֶּכֶת עֶשֶׂר צְעָדוֹת. וְנִתְנַבֵּא עָלֶיהָ אֵלִיָּהוּ זָכוּר לַטּוֹב: ״הַכְּלָבִים יֹאכְלוּ אֶת אִיזֶבֶל בְּחֵלֶק יִזְרְעֶאל״, וְהָאֵבָרִים שֶׁהָיוּ גּוֹמְלֵי חֶסֶד לֹא שָׁלְטוּ הַכְּלָבִים בָּהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּלְכוּ לְקָבְרָהּ וְלֹא מָצְאוּ בָהּ״ וְכוּ'.
Nota — nenhum bem se perde. O exemplo de Izevel é assombroso: uma das rainhas mais ímpias do Tanach, e contudo os membros do seu corpo que praticavam atos de bondade (lamentar os mortos, alegrar os noivos) foram poupados. A lição é a exatidão da justiça divina: nenhum ato bom, por menor que seja, e venha de quem vier, se perde — assim como nenhum mal escapa ao acerto de contas. O bem tem peso próprio diante de D'us.
6
De onde aprendemos a fazer bondade aos enlutados? Dos homens de Yavesh Gilad. Quando Shaul e os seus filhos foram mortos, disseram os homens de Yavesh Gilad: "aquele homem que nos salvou da humilhação dos filhos de Amon — não somos obrigados a fazer-lhe bondade?" E levantaram-se todos os seus valentes, e foram a noite toda à muralha de Beit Shan, e tomaram o corpo de Shaul e os corpos dos seus filhos da muralha de Beit Shan, como está dito: "e levantaram-se todos os homens valentes e foram a noite toda..." (Divrei HaYamim I 10:12).
גְּמִילוּת חֶסֶד לַאֲבֵלִים מִנַּיִן אָנוּ לְמֵדִין? מֵאַנְשֵׁי יָבֵשׁ גִּלְעָד. כֵּיוָן שֶׁנֶּהֱרַג שָׁאוּל וּבָנָיו, אָמְרוּ אַנְשֵׁי יָבֵשׁ גִּלְעָד: ״אוֹתוֹ הָאִישׁ שֶׁהִצִּילָנוּ מֵחֶרְפַּת בְּנֵי עַמּוֹן, אֵין אָנוּ חַיָּבִין לִגְמֹל לוֹ חֶסֶד?״ וְעָמְדוּ כָּל הַגִּבּוֹרִים שֶׁבָּהֶם, וְהָלְכוּ כָּל הַלַּיְלָה לְחוֹמַת בֵּית שָׁן, וְלָקְחוּ אֶת גּוּפַת שָׁאוּל וְאֶת גּוּפַת בָּנָיו מֵחוֹמַת בֵּית שָׁן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּקוּמוּ כָל אַנְשֵׁי חַיִל כָּל הַלַּיְלָה״.
7
Aos enlutados consola-se com pão e com vinho, como está dito: "dai bebida ao que perece, e vinho aos amargurados de alma" (Mishlê 31:6).
לַאֲבֵלִים מְנַחֲמִין בְּלֶחֶם וּבְיַיִן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״תְּנוּ שֵׁכָר לְאוֹבֵד וְיַיִן לְמָרֵי נָפֶשׁ״.
8
Disse o Santo, bendito seja: "os homens de Yavesh Gilad fizeram bondade a Shaul e aos seus filhos; também eu darei a vossa recompensa a vós e aos vossos filhos no porvir". Quando o Santo, bendito seja, vier a reunir Israel dos quatro cantos do mundo, primeiro reunirá a meia tribo de Menashé, como está dito: "meu é Gilad, e meu é Menashé"; depois Efraim, como está dito: "Efraim é a fortaleza da minha cabeça"; depois Yehudá, como está dito: "Yehudá é o meu cetro legislador" (Tehilim 60:9).
אַנְשֵׁי יָבֵשׁ גִּלְעָד הָיוּ גּוֹמְלִין חֶסֶד עִם שָׁאוּל וּבָנָיו, אַף אֲנִי נוֹתֵן לָכֶם שְׂכַרְכֶם וְלִבְנֵיכֶם לֶעָתִיד לָבֹא. כְּשֶׁעָתִיד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְקַבֵּץ אֶת יִשְׂרָאֵל מֵאַרְבַּע פִּנּוֹת הָעוֹלָם, רִאשׁוֹן הוּא מְקַבֵּץ חֲצִי שֵׁבֶט מְנַשֶּׁה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לִי גִלְעָד וְלִי מְנַשֶּׁה״. וְאַחַר כָּךְ אֶפְרַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֶפְרַיִם מָעוֹז רֹאשִׁי״. וְאַחַר כָּךְ יְהוּדָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יְהוּדָה מְחֹקְקִי״.
9
E os sábios aplicaram o restante do salmo a diversas figuras: "meu é Gilad" — este é Achav, rei de Israel, que morreu em Ramot Gilad; "e meu é Menashé" — no sentido literal; "Efraim é a fortaleza da minha cabeça" — este é Yeravam; "Yehudá é o meu cetro" — este é Achitofel; "Moav é a minha bacia de lavar" — este é Geichazi; "sobre Edom lançarei o meu sapato" — este é Doeg; "sobre a Filístia, exulta por minha causa" — disse o Santo, bendito seja: cabe a Mim buscar mérito para eles e torná-los amigos uns dos outros.
״לִי גִלְעָד״, זֶה אַחְאָב מֶלֶךְ יִשְׂרָאֵל שֶׁמֵּת בְּרָמַת גִּלְעָד. ״וְלִי מְנַשֶּׁה״, כְּמַשְׁמָעוֹ. ״אֶפְרַיִם מָעוֹז רֹאשִׁי״, זֶה יָרָבְעָם. ״יְהוּדָה מְחֹקְקִי״, זֶה אֲחִיתֹפֶל. ״מוֹאָב סִיר רַחְצִי״, זֶה גֵּחֲזִי. ״עַל אֱדוֹם אַשְׁלִיךְ נַעֲלִי״, זֶה דּוֹאֵג. ״עַל פְּלֶשֶׁת הִתְרוֹעֲעִי״, אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עָלַי לְפַלֵּשׁ לָהֶם זְכוּת וְלַעֲשׂוֹתָם רֵעִים אֵלּוּ וָאֵלּוּ.
Nota. Este parágrafo é uma aplicação homilética (drash) do Salmo 60, ligando cada termo geográfico a uma figura bíblica complexa. O ponto teológico é belíssimo e fecha o §8: mesmo para figuras manchadas, "cabe a D'us buscar mérito" — Ele procura o bem que houve em cada um. É o mesmo princípio do §5 (Izevel): a justiça divina não descarta o pouco de bem que existe em ninguém.
10
Rabi Pinchás diz: trinta anos depois de mortos Shaul e os seus filhos, veio uma fome nos dias de David, três anos, ano após ano, como está dito: "e houve fome nos dias de David, três anos" (Shmuel II 21:1). E por que "ano após ano"? No primeiro ano, subiram todos os de Israel para as festas. Disse-lhes David: "saí e vede se há entre vós homens que adorem idolatria, pois pelo pecado da idolatria as chuvas são retidas", como está dito: "guardai-vos, para que não se deixe seduzir o vosso coração e sirvais a outros deuses" — e o que está escrito depois? "e se acenda a ira do Eterno contra vós e feche os céus" (Devarim 11:16-17). Saíram, examinaram, e não acharam.
רַבִּי פִּינְחָס אוֹמֵר: שָׁלֹשׁ שָׁנִים שֶׁנֶּהֱרַג שָׁאוּל וּבָנָיו, בָּא רָעָב בִּימֵי דָוִד שְׁלֹשָׁה שָׁנִים שָׁנָה אַחַר שָׁנָה, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיְהִי רָעָב בִּימֵי דָוִד שָׁלֹשׁ שָׁנִים״. וְלָמָּה שָׁנָה אַחַר שָׁנָה? בָּרִאשׁוֹנָה עָלוּ כָל יִשְׂרָאֵל לָרְגָלִים. אָמַר לָהֶם דָּוִד: צְאוּ וּרְאוּ שֶׁמָּא יֵשׁ בָּכֶם בְּנֵי אָדָם שֶׁהֵם עוֹבְדֵי עֲבוֹדָה זָרָה, שֶׁבַּעֲוֹן עֲבוֹדָה זָרָה הַגְּשָׁמִים נֶעֱצָרִים, שֶׁנֶּאֱמַר ״הִשָּׁמְרוּ לָכֶם פֶּן יִפְתֶּה לְבַבְכֶם״. מַה כְּתִיב אַחֲרָיו? ״וְחָרָה אַף ה' בָּכֶם״. יָצְאוּ וּבָדְקוּ וְלֹא מָצְאוּ.
11
No segundo ano, subiram todos os de Israel para as festas. Disse-lhes David: "saí e vede se há entre vós homens que cometem imoralidades, pois pelo pecado da imoralidade as chuvas são retidas", como está dito: "e profanaste a terra com as tuas devassidões" — e o que está escrito depois? "e foram retidas as chuvas, e não houve chuva tardia" (Yirmiyahu 3:2-3). Saíram, examinaram, e não acharam.
בַּשָּׁנָה שְׁנִיָּה עָלוּ כָּל יִשְׂרָאֵל לָרְגָלִים. אָמַר לָהֶם דָּוִד: צְאוּ וּרְאוּ שֶׁמָּא יֵשׁ בָּכֶם בְּנֵי אָדָם מְגַלֵּה עֲרָיוֹת, שֶׁבַּעֲוֹן מְגַלֵּה עֲרָיוֹת הַגְּשָׁמִים נֶעֱצָרִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתַּחֲנִיפִי אֶרֶץ בִּזְנוּתַיִךְ״. מַה כָּתוּב אַחֲרָיו? ״וַיִּמָּנְעוּ רְבִיבִים וּמַלְקוֹשׁ לֹא הָיָה״. יָצְאוּ וּבָדְקוּ וְלֹא מָצְאוּ.
12
No terceiro ano, subiram todos os de Israel para as festas. Disse-lhes David: "saí e vede se há entre vós homens que derramam sangue, pois pelo pecado dos que derramam sangue as chuvas são retidas", como está dito: "e não profaneis a terra em que estais, pois o sangue profana a terra" (Bemidbar 35:33). Saíram, examinaram, e não acharam. Disse-lhes David: "daqui em diante, a coisa só depende de mim". De imediato levantou-se e orou diante do Santo, bendito seja. E o Santo, bendito seja, respondeu-lhe: "É por causa de Shaul! Não é Shaul que foi ungido com o óleo da unção? Não é Shaul em cujos dias não se praticou idolatria em Israel? Não é Shaul cuja parte está com Shmuel, o profeta? E ei-lo: vós estais na Terra, e ele jaz fora da Terra sem sepultura digna".
בַּשָּׁנָה הַשְּׁלִישִׁית עָלוּ כָל יִשְׂרָאֵל לָרְגָלִים, אָמַר לָהֶם דָּוִד: צְאוּ וּרְאוּ אִם יֵשׁ בָּכֶם בְּנֵי אָדָם שׁוֹפְכֵי דָמִים, שֶׁבַּעֲוֹן שׁוֹפְכֵי דָמִים הַגְּשָׁמִים נֶעֱצָרִים, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְלֹא תַחֲנִיפוּ אֶת הָאָרֶץ״. יָצְאוּ וּבָדְקוּ וְלֹא מָצְאוּ. אָמַר לָהֶם דָּוִד: מִכָּאן וָאֵילָךְ אֵין הַדָּבָר תָּלוּי אֶלָּא בִּי. מִיָּד עָמַד וְהִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא. ״עַל שָׁאוּל? אֵינוֹ שָׁאוּל שֶׁנִּמְשַׁח בְּשֶׁמֶן הַמִּשְׁחָה? אֵינוֹ שָׁאוּל שֶׁבְּיָמָיו לֹא נַעֲשָׂה עֲבוֹדָה זָרָה בְּיִשְׂרָאֵל? אֵינוֹ שָׁאוּל שֶׁחֶלְקוֹ שְׁמוּאֵל הַנָּבִיא? וְאַתֶּם בָּאָרֶץ וְהֵם בְּחוּצָה לָאָרֶץ״.
13
De imediato, levantou-se David e reuniu todos os anciãos de Israel e os seus grandes, e atravessaram o Jordão e chegaram a Yavesh Gilad, e acharam os ossos de Shaul e de Yehonatan, seu filho, sem que neles tivesse atuado a corrupção, como está dito: "Ele guarda todos os seus ossos; nem um deles se quebra" (Tehilim 34:21). E tomaram os ossos de Shaul e de Yehonatan, seu filho, e os puseram dentro de um féretro, e atravessaram o Jordão. O rei ordenou que se fizesse passar o féretro de Shaul por todo o território de cada tribo; e a tribo em cujo limite entrava o féretro de Shaul, saíam eles, as suas mulheres, os seus filhos e as suas filhas, e faziam bondade a Shaul e ao seu filho, para que todo o Israel cumprisse a sua obrigação de gemilut chassadim. E assim se fez até chegar à terra da sua herança, ao limite de Israel, na terra de Binyamin, em Jerusalém. E, quando o Santo, bendito seja, viu que todo o Israel fizera bondade, de imediato encheu-Se de misericórdia e deu chuva à terra, como está dito: "e D'us atendeu à súplica pela terra depois disso" (Shmuel II 21:14).
מִיָּד עָמַד דָּוִד וְנִכְנַס לְכָל זִקְנֵי יִשְׂרָאֵל וּגְדוֹלֵיהֶן, וְעָבְרוּ אֶת הַיַּרְדֵּן וּבָאוּ לְיָבֵשׁ גִּלְעָד, וּמָצְאוּ אֶת עַצְמוֹת שָׁאוּל וִיהוֹנָתָן בְּנוֹ שֶׁלֹּא מָשְׁלָה בָּהֶם רִמָּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שׁוֹמֵר כָּל עַצְמוֹתָיו אַחַת מֵהֵנָּה לֹא נִשְׁבָּרָה״. וְנָטְלוּ אֶת עַצְמוֹת שָׁאוּל וִיהוֹנָתָן בְּנוֹ וְנָתְנוּ אוֹתָם בְּתוֹךְ אֲרוֹן הַמֵּת וְעָבְרוּ אֶת הַיַּרְדֵּן, וְצִוָּה הַמֶּלֶךְ לִהְיוֹת מַעֲבִירִין אֲרוֹנוֹ שֶׁל שָׁאוּל בְּכָל גְּבוּל שִׁבְטוֹ. וְהָיָה הַשֵּׁבֶט שֶׁהָיָה נִכְנָס בּוֹ אֲרוֹנוֹ שֶׁל שָׁאוּל, הָיוּ יוֹצְאִים הֵם וּנְשֵׁיהֶם וּבְנֵיהֶם וּבְנוֹתֵיהֶן וְגוֹמְלִים חֶסֶד עִם שָׁאוּל וְעִם בְּנוֹ, כְּדֵי שֶׁיֵּצְאוּ כָל יִשְׂרָאֵל יְדֵי חוֹבָתָן בִּגְמִילוּת חֶסֶד. וְכֵן עָשָׂה עַד שֶׁבָּא לְאֶרֶץ אֲחֻזָּתוֹ לִגְבוּל יִשְׂרָאֵל בְּאֶרֶץ בִּנְיָמִין בִּירוּשָׁלַיִם. וְכֵיוָן שֶׁרָאָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שֶׁגָּמְלוּ חֶסֶד כָּל יִשְׂרָאֵל, מִיָּד נִתְמַלֵּא רַחֲמִים וְנָתַן מָטָר עַל הָאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּעָתֵר אֱלֹהִים לָאָרֶץ אַחֲרֵי כֵן״.
Nota — a bondade traz misericórdia. A narrativa (baseada em Shmuel II 21) é notável: David investiga os grandes pecados — idolatria, imoralidade, derramamento de sangue — e não acha nenhum; o problema era que Shaul, o rei ungido, não recebera sepultura digna. E David honra o seu antigo rival com toda a pompa, levando o seu féretro por todo Israel — para que todos participem do chesed. Quando o povo inteiro pratica a bondade, "D'us Se enche de misericórdia e dá chuva". A bondade não é só dever moral: ela move o Céu.
14
Rabi Netanel diz: trezentos anos antes de nascer Yoshiyahu, já fora dito o seu nome na profecia; e tornou-se rei aos oito anos. E que discernimento tem um menino de oito anos? Contudo, ele rejeitou os ídolos, quebrou as colunas idólatras, derrubou as imagens e cortou os bosques sagrados da idolatria; e o seu mérito resplandecia diante do Trono da Glória. E, por causa do mal que Israel fazia em segredo, o justo foi recolhido, como está dito: "porque diante do mal é recolhido o justo" (Yeshayahu 57:1). E reuniram-se todos os de Yehudá, e Yirmiyahu, o profeta, para fazer bondade a Yoshiyahu, como está dito: "e Yirmiyahu entoou lamento por Yoshiyahu" (Divrei HaYamim II 35:25). Rabi Leví diz: "os cantores" — são os levitas que ficavam de pé no estrado com cânticos; "e as cantoras" — são as suas mulheres. Rabi Shimon diz: não se referiram só aos levitas e às suas mulheres, mas também às mulheres sábias nas endechas, como está dito: "assim diz o Eterno dos Exércitos: atentai e chamai as carpideiras, que venham; e mandai chamar as hábeis, que venham, e se apressem e levantem por nós um pranto" (Yirmiyahu 9:16-17). Daqui instituíram os sábios que se fizesse assim por todos os anciãos e grandes de Israel, como está dito: "e os puseram por norma em Israel" (Divrei HaYamim II 35:25).
רַבִּי נְתַנְאֵל אוֹמֵר: שְׁלֹשׁ מֵאוֹת שָׁנָה עַד שֶׁלֹּא נוֹלַד יֹאשִׁיָּהוּ שְׁמוֹ, וּבֶן שְׁמֹנֶה שָׁנִים מָלַךְ. וְכִי נַעַר שֶׁל שְׁמֹנֶה שָׁנִים מַה דַּעְתּוֹ? וַהֲלֹא מָאַס אֶת הָאֱלִילִים וְשִׁבַּר אֶת הַמַּצֵּבוֹת וְגִדַּע אֶת הַפְּסִילִים וְכָרַת אֶת הָאֲשֵׁרִים, וְהָיָה זְכוּתוֹ מַבְהֶקֶת לִפְנֵי כִּסֵּא הַכָּבוֹד. וּבִשְׁבִיל הָרָעָה שֶׁהָיוּ יִשְׂרָאֵל עוֹשִׂין בַּסֵּתֶר נֶאֱסַף הַצַּדִּיק, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי מִפְּנֵי הָרָעָה נֶאֱסַף הַצַּדִּיק״. וְנֶאֶסְפוּ כָּל יְהוּדָה וְיִרְמְיָהוּ הַנָּבִיא לִגְמֹל חֶסֶד לְיֹאשִׁיָּהוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְקוֹנֵן יִרְמְיָהוּ עַל יֹאשִׁיָּהוּ״. רַבִּי לֵוִי אוֹמֵר: הַשָּׁרִים – אֵלּוּ הַלְּוִיִּם שֶׁהָיוּ עוֹמְדִין עַל הַדּוּכָן בְּשִׁיר, וְהַשָּׁרוֹת – אֵלּוּ נְשׁוֹתֵיהֶן. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: לֹא עַל הַלְּוִיִּם וְלֹא עַל נְשׁוֹתֵיהֶן בִּלְבַד הֵן אָמְרוּ, אֶלָּא גַּם עַל הַנָּשִׁים הַחֲכָמוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כֹּה אָמַר ה' הִתְבּוֹנְנוּ וְקִרְאוּ לַמְקוֹנְנוֹת וּתְמַהֵרְנָה וְתִשֶּׂאנָה עָלֵינוּ נֶהִי״. מִכָּאן הִתְקִינוּ חֲכָמִים שֶׁיִּהְיוּ עוֹשִׂין כֵּן לְכָל זִקְנֵי יִשְׂרָאֵל וְלִגְדוֹלֵיהֶן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּתְּנֵם לְחֹק לְיִשְׂרָאֵל״.
15
Viu Shelomó que a medida da gemilut chassadim é grande diante do Santo, bendito seja; e, quando construiu o Templo, fez dois portões: um para os noivos e um para os enlutados e os excomungados afastados da comunidade. E os de Israel iam aos shabatot e sentavam-se entre esses dois portões. Quem entrava pelo portão dos noivos, sabiam que era noivo, e diziam-lhe: "Aquele que habita nesta Casa te alegre com filhos e filhas". Quem entrava pelo portão dos enlutados, com o lábio superior coberto, sabiam que era enlutado, e diziam-lhe: "Aquele que habita nesta Casa te console". E quem entrava pelo portão dos enlutados sem o lábio coberto, sabiam que era um excomungado, e diziam-lhe: "Aquele que habita nesta Casa ponha no teu coração ouvir as palavras dos teus companheiros, e ponha no coração dos teus companheiros perdoar-te e reaproximar-te deles" — para que todo o Israel cumprisse a sua obrigação de gemilut chassadim.
רָאָה שְׁלֹמֹה שֶׁמִּדַּת גְּמִילוּת חֲסָדִים גְּדוֹלָה לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וּכְשֶׁבָּנָה בֵּית הַמִּקְדָּשׁ בָּנָה שְׁנֵי שְׁעָרִים: אֶחָד לַחֲתָנִים וְאֶחָד לַאֲבֵלִים וְלִמְנֻדִּים. וְהָיוּ יִשְׂרָאֵל הוֹלְכִים בְּשַׁבָּתוֹת וְיוֹשְׁבִין בֵּין שְׁנֵי שְׁעָרִים הַלָּלוּ. וְהַנִּכְנָס בְּשַׁעַר חֲתָנִים הָיוּ יוֹדְעִין שֶׁהוּא חָתָן, וְהָיוּ אוֹמְרִים לוֹ: ״הַשּׁוֹכֵן בַּבַּיִת הַזֶּה יְשַׂמַּחֲךָ בְּבָנִים וּבְבָנוֹת״. וְהַנִּכְנָס בְּשַׁעַר הָאֲבֵלִים וְהָיָה שְׂפָמוֹ מְכֻסֶּה, הָיוּ יוֹדְעִין שֶׁהוּא אָבֵל וְהָיוּ אוֹמְרִין לוֹ: ״הַשּׁוֹכֵן בַּבַּיִת זֶה יְנַחֶמְךָ״. וְהַנִּכְנָס בְּשַׁעַר הָאֲבֵלִים וְלֹא הָיָה שְׂפָמוֹ מְכֻסֶּה, הָיוּ יוֹדְעִין שֶׁהוּא מְנֻדֶּה וְהָיוּ אוֹמְרִין לוֹ: ״הַשּׁוֹכֵן בַּבַּיִת הַזֶּה יִתֵּן בְּלִבְּךָ לִשְׁמֹעַ דִּבְרֵי חֲבֵירֶיךָ, וְיִתֵּן בְּלֵב חֲבֵרֶיךָ לִסְלֹחַ לְךָ וִיקָרְבוּךָ אֶצְלָם״, כְּדֵי שֶׁיֵּצְאוּ כָּל יִשְׂרָאֵל יְדֵי חוֹבָתָן בִּגְמִילוּת חֲסָדִים.
16
E, desde o dia em que o Templo foi destruído, instituíram os sábios — de abençoada memória — que os noivos e os enlutados fossem à sinagoga e às casas de estudo; e os homens do lugar veem o noivo e se alegram com ele, e veem o enlutado e sentam-se com ele no chão, para que todo o Israel cumpra a sua obrigação de gemilut chassadim. E sobre eles se diz: "Bendito és Tu, Eterno, que dás boa recompensa aos que praticam a bondade".
וּמִיּוֹם שֶׁנֶּחֱרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ הִתְקִינוּ חֲכָמִים זִכְרוֹנָם לִבְרָכָה שֶׁיִּהְיוּ חֲתָנִים וַאֲבֵלִים הוֹלְכִין לְבֵית הַכְּנֶסֶת וּלְבָתֵּי מִדְרָשׁוֹת, וְאַנְשֵׁי הַמָּקוֹם רוֹאִים אֶת הֶחָתָן וּשְׂמֵחִים עִמּוֹ וְרוֹאִין אֶת הָאָבֵל וְיוֹשְׁבִין לָאָרֶץ, כְּדֵי שֶׁיֵּצְאוּ כָּל יִשְׂרָאֵל יְדֵי חוֹבָתָן בִּגְמִילוּת חֲסָדִים. וַעֲלֵיהֶם הוּא אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ אַתָּה ה׳ נוֹתֵן שָׂכָר טוֹב לְגוֹמְלֵי חֲסָדִים״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

Chesed shel emet: a bondade que nada espera

O capítulo eleva a bondade aos mortos como o seu cume — a chesed shel emet, a "bondade verdadeira", porque quem a recebe não pode retribuir. O modelo é o próprio D'us, que sepulta Moshé com a Sua mão (Devarim 34:6). O Talmud (Sotá 14a) extrai daí a imitação de D'us: "como Ele veste os nus, visita os doentes, consola os enlutados e sepulta os mortos, assim faze tu". Cuidar do que morreu é cuidar da imagem divina mesmo quando ela já não pode agradecer.

Nenhum bem se perde

Dois exemplos surpreendentes ensinam a exatidão da justiça divina: Izevel, rainha ímpia, cujos membros que faziam bondade foram poupados dos cães; e o §9, em que D'us "busca mérito" até para figuras manchadas da história. Os sábios extraem o princípio: nenhum ato bom se perde, venha de quem vier — assim como nenhum mal escapa. O bem tem peso próprio, e D'us, juiz exato, o reconhece onde quer que esteja.

Honrar até o rival: Shaul e a chuva

O episódio da fome (baseado em Shmuel II 21) é uma lição de grandeza moral. David descobre que a seca não vinha dos grandes pecados, mas da falta de sepultura digna para Shaul — o rei que o perseguira. E David honra o antigo rival com toda a pompa, fazendo o povo inteiro participar da bondade. Os comentadores notam o que isso ensina: a gemilut chassadim ultrapassa rivalidades, e a bondade coletiva "enche D'us de misericórdia" — a ponto de devolver a chuva à terra. A ética move o Céu.

Os dois portões e o consolo de hoje

O fecho desenha uma das mais belas instituições de Israel. No Templo, Shelomó fez portões para os noivos e para os enlutados e excomungados, de modo que ninguém passasse despercebido: ao noivo, alegria; ao enlutado, consolo; e ao afastado, palavras de reconciliação — um caminho de volta à comunidade. Destruído o Templo, os sábios transferiram tudo isso para a sinagoga: alegrar o noivo, sentar-se com o enlutado. E selaram o capítulo com a bênção que ainda se diz: "Bendito... que dá boa recompensa aos que praticam a bondade". A santidade não se perdeu com o Templo — mudou de lugar, para o coração da comunidade.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 18

O Shabat: o descanso, o sinal e o dia escolhido

פֶּרֶק י״ח

Céus ou terra — o que veio primeiro? E por que o sétimo dia não tem "tarde e manhã"? Um capítulo sobre o Shabat: a herança preciosa de Israel, o sinal eterno entre D'us e o Seu povo.

1
A escola de Shamai diz: os céus foram criados primeiro, e depois a terra, como está dito: "no princípio criou D'us os céus e a terra" (Bereshit 1:1). A escola de Hilel diz: a terra foi criada primeiro, como está dito: "outrora fundaste a terra, e os céus são obra das Tuas mãos" (Tehilim 102:26). A escola de Shamai diz: os céus, como está dito: "também a Minha mão fundou a terra, e a Minha direita estendeu os céus" (Yeshayahu 48:13). Surgiu uma disputa entre eles sobre esta questão — até que a Shechiná repousou entre eles, e concordaram uns com os outros que ambos os céus e a terra foram criados numa só hora e num só instante.
בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים: הַשָּׁמַיִם נִבְרְאוּ תְּחִלָּה וְאַחַר כָּךְ הָאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ״. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים: הָאָרֶץ נִבְרֵאת תְּחִלָּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לְפָנִים הָאָרֶץ יָסַדְתָּ וּמַעֲשֵׂה יָדֶיךָ שָׁמָיִם״. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמֵר: שָׁמַיִם נִבְרֵאת תְּחִלָּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַף יָדִי יָסְדָה אֶרֶץ וִימִינִי טִפְּחָה שָׁמָיִם״. נִכְנַס תַּחֲרוּת בֵּינֵיהֶם עַל הַדָּבָר הַזֶּה עַד שֶׁשָּׁרְתָה שְׁכִינָה בֵּינֵיהֶם וְהִסְכִּימוּ אֵלּוּ עִם אֵלּוּ שֶׁשְּׁנֵיהֶם נִבְרְאוּ בְּשָׁעָה אַחַת וּבְרֶגַע אֶחָד.
Nota. A disputa entre Shamai e Hilel sobre o que foi criado "primeiro" não se resolve com um vencedor, mas com a percepção de que ambos os céus e a terra foram criados juntos, "numa só hora". A "primazia" de que falavam não é temporal, mas de perspectiva — cada escola via uma face da verdade. É um exemplo vivo de "estas e aquelas são palavras do D'us vivo" (cf. o ensaio sobre as "setenta faces"): o debate honesto leva a uma compreensão mais alta.
2
Que fez o Santo, bendito seja? Estendeu a Sua mão direita e desdobrou os céus, e estendeu a Sua mão esquerda e fundou a terra, como está dito: "também a Minha mão fundou a terra, e a Minha direita estendeu os céus" (Yeshayahu 48:13); e ergueram-se juntos a terra e os céus, como está dito: "e foram concluídos os céus e a terra e todo o seu exército" (Bereshit 2:1). E acaso os céus e a terra "acabaram" de existir e de subsistir? Não foi já dito a respeito deles: "porventura não encho eu os céus e a terra?" (Yirmiyahu 23:24)! Antes, o sentido é que cessaram da obra, da ação e do comando criadores; por isso se diz: "e foram concluídos os céus e a terra".
מָה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? פָּשַׁט יַד יְמִינוֹ וְנָטָה שָׁמַיִם, וּפָשַׁט יַד שְׂמֹאלוֹ וְיָסַד אֶרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַף יָדִי יָסְדָה אֶרֶץ וִימִינִי טִפְּחָה שָׁמָיִם״, וְעָמְדוּ יַחְדָּיו אֶרֶץ וְשָׁמַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְכֻלּוּ הַשָּׁמַיִם וְהָאָרֶץ וְכָל צְבָאָם״. וְכִי כָּלוּ שָׁמַיִם וָאָרֶץ מִלִּהְיוֹת וּמִלַּעֲמֹד עוֹד, וַהֲלֹא כְּבָר נֶאֱמַר עֲלֵיהֶם: ״הֲלוֹא אֶת הַשָּׁמַיִם וְאֶת הָאָרֶץ אֲנִי מָלֵא״. אֶלָּא שֶׁכָּלוּ מִמְּלָאכָה מִפֹּעַל וּמִצִּוּוּי, לְכָךְ נֶאֱמַר וַיְכֻלּוּ הַשָּׁמַיִם וְהָאָרֶץ.
3
Disseram os de Israel diante do Santo, bendito seja: "Senhor de todos os mundos, os céus e a terra cessaram da obra, da ação e do comando desde os seis dias da criação; mas a Tua misericórdia e a Tua bondade não cesses! Pois, se cessares a Tua misericórdia e a Tua bondade, não poderemos subsistir — porque é sobre a Tua misericórdia e a Tua bondade que o mundo se sustenta", como está dito: "pois os montes se removerão mas a Minha bondade de ti não se afastará" (Yeshayahu 54:10).
אָמְרוּ יִשְׂרָאֵל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, הַשָּׁמַיִם וְהָאָרֶץ כָּלִים מִמְּלָאכָה מִפֹּעַל וּמִצִּוּוּי מִשֵּׁשֶׁת יְמֵי בְרֵאשִׁית, רַחֲמֶיךָ וַחֲסָדֶיךָ אַל תִּכְלָא, שֶׁאִם תִּכְלָא רַחֲמְךָ וַחֲסָדֶיךָ אֵין אָנוּ יְכוֹלִין לַעֲמֹד, שֶׁעַל רַחֲמֶיךָ וַחֲסָדֶיךָ הָעוֹלָם עוֹמֵד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי הֶהָרִים יָמוּשׁוּ״ וְכוּ'.
Nota. Uma distinção fina e importante: a criação "concluiu-se" (vaichulu) — mas só no sentido de que cessou a obra criadora. O mundo continua dependendo de D'us a cada instante para subsistir ("não encho eu os céus e a terra?", Yirmiyahu 23:24). Por isso Israel pede que "a misericórdia e a bondade não cessem": a existência contínua do mundo é um ato permanente de chesed divino, não um relógio que, dado corda, gira sozinho.
4
"E concluiu D'us no sétimo dia a Sua obra" (Bereshit 2:2). Sete "inaugurações" criou o Santo, bendito seja: seis delas inaugurou, e uma está reservada para as gerações futuras. Criou o primeiro dia, inaugurou-o e concluiu toda a sua obra, como está dito: "e foi tarde e foi manhã, dia um" (Bereshit 1:5); e assim em todos os dias da obra. Criou o sétimo dia, e nele não se menciona obra, e nele não se diz "e foi tarde e foi manhã" — porque está reservado para as gerações, como está dito: "e haverá um dia, conhecido só do Eterno, que não é dia nem noite" (Zecharyá 14:7).
״וַיְכַל אֱלֹהִים בַּיּוֹם הַשְּׁבִיעִי״ וְכוּ'. שֶׁבַע חֲנֻכּוֹת בָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: שֵׁשׁ מֵהֶן חִנֵּךְ וְאֶחָד שְׁמוּרָה לַדּוֹרוֹת. בָּרָא יוֹם רִאשׁוֹן וְחִנְּכוֹ וְגָמַר כָּל מְלַאכְתּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי עֶרֶב וַיְהִי בֹקֶר יוֹם אֶחָד״, וְכָךְ כָּל יְמֵי הַמַּעֲשֶׂה. בָּרָא יוֹם שְׁבִיעִי, לֹא נֶאֱמַר בּוֹ מְלָאכָה וְלֹא נֶאֱמַר בּוֹ וַיְהִי עֶרֶב וַיְהִי בֹקֶר שֶׁהוּא שָׁמוּר לַדּוֹרוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיָה יוֹם אֶחָד הוּא יִוָּדַע לַה' לֹא יוֹם וְלֹא לָיְלָה״.
Nota. Por que o sétimo dia, sozinho, não tem "tarde e manhã" na narrativa da criação? Porque, diz o midrash, ele é "reservado para as gerações" — o Shabat não se esgota numa data: renova-se a cada semana e aponta para o "dia que é todo Shabat", o mundo vindouro (Zecharyá 14:7). Os seis dias terminam; o sétimo, em certo sentido, nunca termina.
5
A que se assemelha a coisa? A alguém que tinha um utensílio precioso, e não quis dá-lo em herança senão ao filho que o servia. Assim o Santo, bendito seja: o dia de descanso e santidade que estava diante Dele, não quis dá-lo em herança senão a Israel. Sabe que é assim: quando saíram do Egito, antes ainda de lhes ser dada a Torá, deu o Shabat em herança a Israel — e os de Israel guardaram dois Shabatot antes de lhes ser dada a Torá, como está dito: "mandamentos, estatutos e Torá lhes deste por meio de Moshé, Teu servo" (Nechemiá 9:14).
לְמָה הַדָּבָר דּוֹמֶה? לְאֶחָד שֶׁהָיָה לוֹ כְּלִי חֶמְדָּה וְלֹא רָצָה לְהַנְחִילָהּ אֶלָּא לִבְנוֹ הָעוֹבֵד אוֹתוֹ. כָּךְ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, יוֹם שַׁבָּת מְנוּחָה וּקְדוּשָׁה שֶׁהָיָה לְפָנָיו לֹא רָצָה לְהַנְחִילָהּ אֶלָּא לְיִשְׂרָאֵל. תֵּדַע לְךָ שֶׁהוּא כֵּן: כְּשֶׁיָּצְאוּ מִמִּצְרַיִם עַד שֶׁלֹּא נָתַן לָהֶם אֶת הַתּוֹרָה, הִנְחִיל אֶת הַשַּׁבָּת לְיִשְׂרָאֵל. וּשְׁתֵּי שַׁבָּתוֹת שָׁבְתוּ יִשְׂרָאֵל עַד שֶׁלֹּא נָתַן לָהֶם אֶת הַתּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מִצְווֹת וְחֻקִּים וְתוֹרָה נָתַתָּ לָהֶם בְּיַד מֹשֶׁה עַבְדֶּךָ״.
6
O Santo, bendito seja, guardou e santificou o Shabat; e Israel não é obrigado senão a guardar e santificar o Shabat. Sabe que é assim, vem e vê: quando lhes dava o maná, durante quarenta anos, dava-o nos seis dias da obra, e no Shabat não dava. E, para que não digas que não tinha poder de dar a cada dia — antes, foi que também Ele "descansou"; por isso lhes dava pão para dois dias no sexto dia, como está dito: "vede que o Eterno vos deu o Shabat; por isso, no sexto dia, vos dá pão para dois dias" (Shemot 16:29). Quando viu Israel que o Shabat era guardado diante Dele, também eles descansaram, como está dito: "e o povo descansou no sétimo dia" (Shemot 16:30).
הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שָׁמַר וְקִדֵּשׁ אֶת הַשַּׁבָּת, וְיִשְׂרָאֵל אֵינָן חַיָּבִין אֶלָּא לִשְׁמֹר וּלְקַדֵּשׁ אֶת הַשַּׁבָּת. תֵּדַע שֶׁהוּא כֵּן, בֹּא וּרְאֵה: כְּשֶׁהָיָה נוֹתֵן לָהֶם אֶת הַמָּן אַרְבָּעִים שָׁנָה, הָיָה נוֹתֵן לָהֶם בְּשֵׁשֶׁת יְמֵי הַמַּעֲשֶׂה וּבְשַׁבָּת לֹא הָיָה נוֹתֵן. שֶׁמָּא תֹּאמַר לֹא הָיָה בּוֹ כֹּחַ לִיתֵּן בְּכָל יוֹם וָיוֹם, אֶלָּא שֶׁשָּׁבַת. לְפִיכָךְ הָיָה נוֹתֵן לָהֶם לֶחֶם יוֹמַיִם בַּשִּׁשִּׁי, שֶׁנֶּאֱמַר: ״רְאוּ כִּי ה' נָתַן לָכֶם הַשַּׁבָּת עַל כֵּן הוּא נֹתֵן לָכֶם בַּיּוֹם הַשִּׁשִּׁי לֶחֶם יוֹמָיִם״. כֵּיוָן שֶׁרָאוּ יִשְׂרָאֵל שֶׁשָּׁבַת לְפָנָיו, שָׁבְתוּ גַּם הֵם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשְׁבְּתוּ הָעָם בַּיּוֹם הַשְּׁבִיעִי״.
Nota — o Shabat como imitação de D'us. O descanso de Israel é um eco do "descanso" de D'us (que, é claro, não Se cansa — "descansar" aqui é cessar a obra criadora). O maná ensina isso na prática: nada cai no Shabat, e cai em dobro na sexta — a confiança (bitachon) e o descanso são possíveis porque a provisão já foi dada. Guardar o Shabat é testemunhar que D'us é o Criador, e que o ser humano não precisa dominar o mundo sem cessar.
7
"E abençoou D'us o sétimo dia e o santificou" (Bereshit 2:3). O Santo, bendito seja, abençoou e santificou o dia do Shabat, e Israel não é obrigado senão a guardar e santificar o dia do Shabat. Daqui disseram: todo aquele que recita a bênção sobre o vinho nas noites de Shabat o kidush, prolongam-se os seus dias e os seus anos neste mundo, e acrescentam-lhe anos de vida no mundo vindouro.
״וַיְבָרֶךְ אֱלֹהִים אֶת יוֹם הַשְּׁבִיעִי וַיְקַדֵּשׁ אֹתוֹ״, הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בֵּרַךְ וְקִדֵּשׁ אֶת יוֹם הַשַּׁבָּת וְיִשְׂרָאֵל אֵינָן חַיָּבִין אֶלָּא לִשְׁמֹר וּלְקַדֵּשׁ אֶת יוֹם הַשַּׁבָּת. מִכָּאן אָמְרוּ: כָּל הַמְבָרֵךְ עַל הַיַּיִן בְּלֵילֵי שַׁבָּתוֹת מַאֲרִיכִין לוֹ יָמָיו וּשְׁנוֹתָיו בָּעוֹלָם הַזֶּה וְיוֹסִיפוּ לוֹ שְׁנוֹת חַיִּים לָעוֹלָם הַבָּא.
8
"E guardareis o Shabat, pois ele é santo para vós" (Shemot 31:14). Que é a guarda do Shabat? Não acender nele fogo, não fazer nele trabalho melachá, não sair nem entrar para fora do limite techum sequer um pé, não levar algo na mão e transportá-lo quatro côvados em domínio público, nem transferir de um domínio para outro. E esta é a guarda do Shabat.
״וּשְׁמַרְתֶּם אֶת הַשַּׁבָּת כִּי קֹדֶשׁ הִוא לָכֶם״, מַה הִיא שִׁמּוּר שֶׁל שַׁבָּת? מִלְּהַבְעִיר בָּהּ אֵשׁ וּמִלַּעֲשׂוֹת בּוֹ מְלָאכָה וּמִלָּצֵאת וּמִלָּבֹא חוּץ לַתְּחוּם אֲפִלּוּ רֶגֶל אַחַת, וּמִלְּהָבִיא דָּבָר בְּיָדוֹ וּלְהַעֲבִירוֹ אַרְבַּע אַמּוֹת בִּרְשׁוּת הָרַבִּים וּלְהוֹצִיא מֵרְשׁוּת לִרְשׁוּת. וְזוֹ הִיא שְׁמִירָתָהּ שֶׁל שַׁבָּת.
9
"Entre Mim e os filhos de Israel é sinal para sempre" (Shemot 31:17). Disse o Santo, bendito seja: este Shabat dei a Israel como sinal entre Mim e eles. Nos seis dias da obra fiz o mundo; no Shabat descansei. Por isso lhes dei os seis dias de trabalho, e o sétimo dia como bênção, santidade e descanso — para Mim e para eles. Por isso se diz: "entre Mim e os filhos de Israel".
״בֵּינִי וּבֵין בְּנֵי יִשְׂרָאֵל, אוֹת הִיא לְעוֹלָם״. אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: הַשַּׁבָּת הַזֶּה נָתַתִּי לְיִשְׂרָאֵל בֵּינִי לְבֵינָם. בְּשֵׁשֶׁת יְמֵי הַמַּעֲשֶׂה פָּעַלְתִּי אֶת הָעוֹלָם, בְּשַׁבָּת נַחְתִּי. לְפִיכָךְ נָתַתִּי לָהֶם שֵׁשֶׁת יְמֵי מְלָאכָה, וְיוֹם הַשְּׁבִיעִי בְּרָכָה וּקְדֻשָּׁה וּמְנוּחָה לִי וְלָהֶם. לְכָךְ נֶאֱמַר: ״בֵּינִי וּבֵין יִשְׂרָאֵל״.
Nota — o sinal. O Shabat é o sinal (ot) da aliança entre D'us e Israel — uma "assinatura" semanal de que o mundo tem um Criador que descansou. Quanto à "guarda" (§8), os sábios contam aqui as raízes das categorias de melachá (trabalho criativo proibido): acender fogo, transferir entre domínios, exceder o limite. O ponto não é o ócio, mas cessar o domínio criativo sobre o mundo — reconhecer, um dia em sete, que o mundo é de D'us.
10
Sete firmamentos criou o Santo, bendito seja, e de todos eles não escolheu para o lugar do Seu trono senão Aravot o sétimo céu, como está dito: "abri caminho ao que cavalga sobre Aravot; Yah é o Seu nome" (Tehilim 68:5). Sete terras criou o Santo, bendito seja, e de todas elas não escolheu senão a Terra de Israel, como está dito: "uma terra que continuamente os olhos do Eterno teu D'us estão sobre ela" (Devarim 11:12). Sete montes criou o Santo, bendito seja, e de todos eles não escolheu senão o Monte Sinai, como está dito: "o monte que D'us desejou para a Sua morada" (Tehilim 68:17).
שִׁבְעָה רְקִיעִים בָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וּמִכֻּלָּם לֹא בָחַר לִמְכוֹן שִׁבְתּוֹ אֶלָּא עֲרָבוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״סֹלּוּ לָרֹכֵב בָּעֲרָבוֹת בְּיָהּ שְׁמוֹ״. שִׁבְעָה אֲרָצוֹת בָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וּמִכֻּלָּם לֹא בָחַר אֶלָּא אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״תָּמִיד עֵינֵי ה' אֱלֹהֶיךָ בָּהּ״. שִׁבְעָה הָרִים בָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וּמִכֻּלָּם לֹא בָחַר אֶלָּא בְּהַר סִינַי, שֶׁנֶּאֱמַר: ״חָמַד אֱלֹהִים לְשִׁבְתּוֹ״.
11
Sete mares criou o Santo, bendito seja, e de todos eles não escolheu senão o Mar de Kineret, e o deu em herança à tribo de Naftali, como está dito: "Naftali, saciado de favor e cheio da bênção do Eterno; possui o mar e o sul" (Devarim 33:23).
שִׁבְעָה יַמִּים בָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וּמִכֻּלָּם לֹא בָחַר אֶלָּא יָם כִּנֶּרֶת וְהִנְחִילוֹ לְשֵׁבֶט נַפְתָּלִי, שֶׁנֶּאֱמַר: ״נַפְתָּלִי שְׂבַע רָצוֹן וּמָלֵא בִּרְכַּת ה' יָם וְדָרוֹם יְרָשָׁה״.
12
Sete desertos criou o Santo, bendito seja, e de todos eles não escolheu senão o deserto de Kadesh, e por ele fez passar Israel quando saíram do Egito. Sete "mundos" eras criou o Santo, bendito seja, e de todos eles não escolheu senão o sétimo: seis para o sair e o vir a história, e um que é todo Shabat e descanso, para a vida do mundo eterno. Sete dias criou o Santo, bendito seja, e de todos eles não escolheu senão o sétimo dia, como está dito: "e abençoou D'us o sétimo dia e o santificou" (Bereshit 2:3). Sete anos criou o Santo, bendito seja, e de todos eles não escolheu senão o ano da shemitá o sétimo ano sabático.
שִׁבְעָה מִדְבָּרוֹת בָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וּמִכֻּלָּם לֹא בָחַר אֶלָּא מִדְבַּר קֹדֶשׁ וְהֶעֱבִיר בּוֹ יִשְׂרָאֵל כְּשֶׁיָּצְאוּ מִמִּצְרַיִם. שִׁבְעָה עוֹלָמוֹת בָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וּמִכֻּלָּם לֹא בָחַר אֶלָּא עוֹלָם שְׁבִיעִי: שִׁשָּׁה לָצֵאת וְלָבוֹא וְאֶחָד שֶׁכֻּלּוֹ שַׁבָּת וּמְנוּחָה לְחַיֵּי הָעוֹלָם. שִׁבְעָה יָמִים בָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וּמִכֻּלָּן לֹא בָחַר אֶלָּא יוֹם הַשְּׁבִיעִי, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְבָרֶךְ אֱלֹהִים אֶת יוֹם הַשְּׁבִיעִי וַיְקַדֵּשׁ אֹתוֹ״. שִׁבְעָה שָׁנִים בָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וּמִכֻּלָּן לֹא בָחַר אֶלָּא שְׁנַת שְׁמִטָּה.
Nota — "sete, e escolheu apenas". Esta série elegante (firmamentos, terras, montes, mares, desertos, eras, dias, anos) ensina o que é a santidade na visão da Torá: dentro de cada categoria há um eleito — o sétimo céu, a Terra de Israel, o Sinai, o sétimo dia, a shemitá. O santo (kadosh) é o separado e escolhido dentro do comum. E o clímax de todas as séries é o sétimo: o Shabat semanal, o ano sabático, e a "era que é toda Shabat" — o mundo vindouro. O sete é o selo do sagrado.
13
E todo aquele que guarda o Shabat neste mundo, o Santo, bendito seja, perdoa-lhe todas as suas faltas, como está dito: "feliz o homem... que guarda o Shabat de profaná-lo" (Yeshayahu 56:2). Não leias "que guarda o Shabat mechalelo de profaná-lo", mas "machul lo é-lhe perdoado" — ensinando que lhe perdoam todas as suas faltas.
וְכָל מִי שֶׁהוּא שׁוֹמֵר אֶת הַשַּׁבָּת בָּעוֹלָם הַזֶּה, הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מוֹחֵל לוֹ כָּל עֲוֹנוֹתָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שֹׁמֵר שַׁבָּת מֵחַלְּלוֹ״, אַל תִּקְרֵי שׁוֹמֵר שַׁבָּת מֵחַלְּלוֹ אֶלָּא מָחוּל לוֹ, מְלַמֵּד שֶׁמּוֹחֲלִין לוֹ עַל כָּל עֲוֹנוֹתָיו.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

Céus e terra: a disputa que se eleva

A abertura — Shamai e Hilel sobre o que veio "primeiro" — é resolvida de modo exemplar: ambos foram criados "numa só hora", e a Presença divina repousa sobre o debate. Os comentadores leem aqui que a "primazia" discutida não era cronológica, mas de perspectiva (a finalidade, simbolizada pela terra, ou a origem, pelos céus). É a forma viva de "estas e aquelas são palavras do D'us vivo": o desacordo honesto, buscado por amor à verdade, conduz a uma compreensão mais alta — não à divisão.

O mundo que continua a ser sustentado

O "vaichulu" (Bereshit 2:1) poderia sugerir um mundo "pronto", autônomo. O capítulo corrige: cessou a obra criadora, mas a existência continua dependendo de D'us, que "enche os céus e a terra" (Yirmiyahu 23:24). Por isso Israel pede que "a misericórdia não cesse". Para a tradição racionalista, isto é fundamental: a criação não é um relógio abandonado, mas uma realidade sustentada a cada instante pela vontade divina — o Shabat celebra justamente esse Criador.

O Shabat: imitação de D'us e testemunho da criação

O coração do capítulo é o Shabat como herança preciosa (a parábola do utensílio dado ao filho amado) e como sinal (ot) entre D'us e Israel. Descansar é imitar D'us, que "descansou" (isto é, cessou a obra — pois não Se cansa); e é testemunhar que o mundo foi criado. O maná ensina a confiança que torna o descanso possível. E "guardar o Shabat" (as categorias de melachá) significa, no fundo, abdicar um dia em sete do domínio criativo sobre o mundo — reconhecendo de Quem ele é.

O sete, selo do sagrado, e o perdão

A série "sete, e escolheu apenas" desenha a lógica da kedushá: o santo é o eleito dentro do comum — o sétimo céu, a Terra, o Sinai, o sétimo dia, a shemitá. E todas as séries culminam no sétimo, que aponta para "a era que é toda Shabat", o mundo vindouro. O fecho — "quem guarda o Shabat, machul lo, é-lhe perdoado" — ensina que o Shabat não é só descanso: é reconciliação. Quem para, reconhece o Criador e reordena a vida; e nessa volta há perdão.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 19

O crepúsculo da criação e o cântico do Shabat

פֶּרֶק י״ט

As dez "exceções" embutidas na criação, no último crepúsculo antes do primeiro Shabat — e como Adam, salvo pelo mérito do Shabat, compôs o cântico que abre cada sábado: "Salmo, cântico para o dia do Shabat".

1
Dez coisas foram criadas na véspera do Shabat, no crepúsculo (Avot 5:6), e são estas: a boca da terra que engoliu Korach, a boca do poço de Miriam, a boca da jumenta de Bilam, o arco-íris, o maná, o cajado de Moshé, o shamir a criatura que cortava a pedra, a escrita, o estilo da escrita e as Tábuas da Lei. E há quem diga: também os espíritos daninhos, a sepultura de Moshé e o carneiro de Yitzchak; e há quem diga: também a tenaz com a qual se faz a primeira tenaz.
עֲשָׂרָה דְבָרִים נִבְרְאוּ בְּעֶרֶב שַׁבָּת בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת וְאֵלּוּ הֵן: פִּי הָאָרֶץ, פִּי הַבְּאֵר, פִּי הָאָתוֹן, הַקֶּשֶׁת, וְהַמָּן, וְהַמַּטֶּה, וְהַשָּׁמִיר, וְהַכְּתָב, וְהַמִּכְתָּב, וְהַלּוּחוֹת. וְיֵשׁ אוֹמְרִים אַף מַזִּיקִין וּקְבוּרָתוֹ שֶׁל מֹשֶׁה וְאֵילוֹ שֶׁל יִצְחָק, וְיֵשׁ אוֹמְרִים אַף הַצְּבָת.
Nota — os milagres "embutidos" na criação. Esta lista (de Pirkei Avot 5:6) reúne dez fenômenos que mais tarde apareceriam como "milagres" na história. Que tenham sido criados no último crepúsculo da criação ensina algo profundo, e os comentadores racionalistas (na linha do Rambam, comentário a Avot 5:6) o destacam: os milagres não são uma mudança de ideia de D'us nem uma quebra arbitrária das leis — foram previstos e inscritos na própria ordem da criação desde o início. A natureza e a exceção vêm da mesma vontade, planejada de antemão.
2
À sétima hora do dia, na véspera do Shabat, o primeiro homem entrou no Gan Éden, e os anjos servidores o louvavam e o conduziam ao Gan Éden. E, no crepúsculo da véspera do Shabat, foi expulso e saiu, e os anjos servidores proclamavam sobre ele, dizendo: "o homem, na sua glória, não passa a noite; é comparado aos animais que perecem" (Tehilim 49:13). Não está escrito "como o animal singular perece", mas "como os animais plural perecem" — Adam e Chavá ambos.
בְּשֶׁבַע שָׁעוֹת בַּיּוֹם בְּעֶרֶב שַׁבָּת נִכְנַס אָדָם הָרִאשׁוֹן בְּגַן עֵדֶן, וְהָיוּ מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת מְקַלְּסִין אוֹתוֹ וּמַכְנִיסִין אוֹתוֹ לְגַן עֵדֶן. וּבֵין הַשְּׁמָשׁוֹת בְּעֶרֶב שַׁבָּת גֹּרַשׁ וְיָצָא, וְהָיוּ מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת קוֹרְאִין עָלָיו וְאוֹמְרִים: ״וְאָדָם בִּיקָר בַּל יָלִין נִמְשַׁל כַּבְּהֵמוֹת נִדְמוּ״. ״כַּבְּהֵמָה נִדְמוּ״ אֵין כְּתִיב כָּאן, אֶלָּא ״כַּבְּהֵמוֹת נִדְמוּ״ שְׁנֵיהֶם.
3
Veio o dia do Shabat e tornou-se advogado do primeiro homem. Disse diante Dele: "Senhor dos mundos, nos seis dias da criação não houve morte no mundo — e comigo Tu começas? É esta a minha santidade? É esta a minha bênção?" — como está dito: "e abençoou D'us o sétimo dia e o santificou" (Bereshit 2:3). E, pelo mérito do dia do Shabat, Adam foi salvo do juízo do Guehinom. E viu Adam a força do Shabat, e disse: "não foi à toa que o Santo, bendito seja, abençoou e santificou o Shabat". Começou a cantar e a entoar para o dia do Shabat, como está dito: "salmo, cântico para o dia do Shabat" (Tehilim 92:1). Rabi Yishmael diz: este salmo, o primeiro homem o disse, e foi esquecido em todas as gerações até que veio Moshé e o renovou — "salmo, cântico para o dia do Shabat": para o dia que é todo Shabat e descanso, para a vida do mundo vindouro.
בָּא יוֹם הַשַּׁבָּת וְנַעֲשָׂה סָנֵגוֹר לָאָדָם הָרִאשׁוֹן, אָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹן הָעוֹלָמִים, בְּשֵׁשֶׁת יְמֵי בְרֵאשִׁית לֹא נֶהֱרַג הֶרֶג בָּעוֹלָם וּבִי אַתָּה מַתְחִיל? זוֹ הִיא קְדֻשָּׁתִי וְזוֹ הִיא בִּרְכָתִי?״ שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְבָרֶךְ אֱלֹהִים אֶת יוֹם הַשְּׁבִיעִי וַיְקַדֵּשׁ אֹתוֹ״. וּבִזְכוּת יוֹם הַשַּׁבָּת נִצַּל אָדָם מִדִּינָהּ שֶׁל גֵּיהִנֹּם. וְרָאָה אָדָם כֹּחָהּ שֶׁל שַׁבָּת, אָמַר: ״לֹא לְחִנָּם בֵּרַךְ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת הַשַּׁבָּת וְקִדֵּשׁ אוֹתוֹ״. הִתְחִיל מְשׁוֹרֵר וּמְזַמֵּר לְיוֹם הַשַּׁבָּת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מִזְמוֹר שִׁיר לְיוֹם הַשַּׁבָּת״. רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: הַמִּזְמוֹר הַזֶּה אָדָם הָרִאשׁוֹן אֲמָרוֹ וְנִשְׁכַּח בְּכָל הַדּוֹרוֹת עַד שֶׁבָּא מֹשֶׁה וְחִדְּשׁוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מִזְמוֹר שִׁיר לְיוֹם הַשַּׁבָּת״ – לְיוֹם שֶׁכֻּלּוֹ שַׁבָּת וּמְנוּחָה לְחַיֵּי הָעוֹלָם הַבָּא.
Nota — o Shabat que defende. Eis um quadro comovente: Adam, condenado, é "salvo do juízo" pela chegada do Shabat — o dia da bênção não combina com a morte. E a sua reação não é só alívio, mas cântico: ele compõe o Salmo 92, o "Mizmor Shir leYom haShabat" que ainda hoje abre o Shabat. A tradição vê nisso a essência do dia: o Shabat é misericórdia, e desperta no ser humano o louvor e o arrependimento (§4).
4
"É bom render graças (lehodot) ao Eterno" (Tehilim 92:2). Disse o primeiro homem: por mim aprenderão todas as gerações que todo aquele que confessa as suas faltas e as abandona é salvo do juízo do Guehinom, como está dito: "é bom render graças / confessar ao Eterno".
״טוֹב לְהֹדוֹת לַה'״. אָדָם הָרִאשׁוֹן אָמַר: בִּי יִלְמְדוּ כָּל הַדּוֹרוֹת שֶׁכָּל מִי שֶׁיּוֹדֶה פְּשָׁעָיו וְעוֹזֵב נִיצּוֹל מִדִּינָהּ שֶׁל גֵּיהִנֹּם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״טוֹב לְהֹדוֹת לַה'״.
Nota. A palavra lehodot tem duplo sentido em hebraico: "render graças" e "confessar/reconhecer". O midrash explora ambos: Adam, ao louvar o Shabat, ensina a teshuvá — quem reconhece a falta e a abandona é salvo (cf. Mishlê 28:13). É o oposto da cadeia de culpas do cap. 14: ali ninguém assumiu o erro; aqui, Adam o assume e canta.
5
"Anunciar pela manhã a Tua bondade e a Tua fidelidade nas noites" (Tehilim 92:3). A "manhã" alude a todos os que entram no mundo vindouro, que é semelhante à manhã; e "a Tua fidelidade nas noites", a todos os que vêm a este mundo, que é semelhante à noite — anunciem e declarem a fidelidade e a bondade do Santo, bendito seja, que fez comigo e me salvou do juízo do Guehinom.
״לְהַגִּיד בַּבֹּקֶר חַסְדֶּךָ״. לְכָל בָּאֵי הָעוֹלָם הַבָּא שֶׁהוּא דּוֹמֶה לַבֹּקֶר. ״וֶאֱמוּנָתְךָ בַּלֵּילוֹת״ לְכָל בָּאֵי הָעוֹלָם הַזֶּה שֶׁהוּא דּוֹמֶה לַלַּיְלָה. יַגִּידוּ וְיֹאמְרוּ אֱמוּנָתוֹ וְחַסְדּוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שֶׁעָשָׂה עִמִּי וְהִצִּילַנִי מִדִּינָהּ שֶׁל גֵּיהִנֹּם.
6
"Sobre o instrumento de dez cordas e sobre o saltério" (Tehilim 92:4). Todos os testemunhos confiáveis em Israel fazem-se com dez: a lira em que David tocava tinha dez cordas; o testemunho da circuncisão faz-se com dez; o acompanhamento do morto, com dez; o testemunho da bênção pública do Nome, com dez; o testemunho da chalitsá, com dez; a bênção do casamento, com dez — como está dito: "e tomou Boaz dez homens dos anciãos da cidade" (Rut 4:2).
״עֲלֵי עָשׂוֹר וַעֲלֵי נָבֶל״. כָּל עֵדוּת נֶאֱמָנוֹת לְיִשְׂרָאֵל בַּעֲשָׂרָה. הַכִּנּוֹר שֶׁהָיָה מְנַגֵּן בּוֹ דָּוִד בַּעֲשָׂרָה נִימִין, עֵדוּת בְּרִית מִילָה בַּעֲשָׂרָה, עֵדוּת הַמֵּת בַּעֲשָׂרָה, עֵדוּת בִּרְכַּת הַשֵּׁם בַּעֲשָׂרָה, עֵדוּת חֲלִיצָה בְּעֲשָׂרָה, עֵדוּת בִּרְכַּת נִשּׂוּאִין בַּעֲשָׂרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּקַּח בֹּעַז עֲשָׂרָה אֲנָשִׁים מִזִּקְנֵי הָעִיר״.
7
Disse o Santo, bendito seja: eu desejo de Israel a meditação da sua boca a oração e o estudo mais do que o saltério e a lira, como está dito: "com a meditação, na lira" (Tehilim 92:4).
אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: אֲנִי רוֹצֶה מִיִּשְׂרָאֵל הִגָּיוֹן פִּיהֶם מִנֵּבֶל וְכִנּוֹר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עֲלֵי הִגָּיוֹן בְּכִנּוֹר״.
8
"Pois me alegraste, ó Eterno, com a Tua obra" (Tehilim 92:5). Disse Adam: alegrou-me o Santo, bendito seja, e me introduziu no Gan Éden, e mostrou-me as quatro monarquias dominando e perecendo, e mostrou-me David, filho de Yishai, dominando no porvir. E tomei dos meus anos setenta anos e os acrescentei aos seus dias, como está dito: "dias acrescentarás aos dias do rei; os seus anos serão como geração após geração" (Tehilim 61:7). E dei a D'us júbilo, louvor e cântico pelas Suas obras, como está dito: "com as obras das Tuas mãos exultarei" (Tehilim 92:5).
״כִּי שִׂמַּחְתַּנִי ה' בְּפָעֳלֶךָ״. אָמַר אָדָם: שִׂמְּחַנִי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְהִכְנִיסַנִי בְּגַן עֵדֶן, וְהֶרְאַנִי אַרְבַּע מַלְכֻיּוֹת מוֹשְׁלִין וְאוֹבְדִין, וְהֶרְאַנִי דָּוִד בֶּן יִשַׁי מוֹשֵׁל לֶעָתִיד לָבֹא. וְלָקַחְתִּי מִשְּׁנוֹתַי שִׁבְעִים שָׁנָה וְהוֹסַפְתִּי עַל יָמָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יָמִים עַל יְמֵי מֶלֶךְ תּוֹסִיף שְׁנוֹתָיו כְּמוֹ דֹר וָדֹר״. וְנָתַתִּי לָאֵל רְנָן וְשֶׁבַח וְזֶמֶר מִמַּעֲשָׂיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּמַעֲשֵׂי יָדֶיךָ אֲרַנֵּן״.
Nota — Adam deu setenta anos a David. Segundo a tradição, Adam viu (numa visão) que David estava destinado a morrer ao nascer; por compaixão, deu-lhe setenta dos seus próprios anos. É por isso que Adam viveu 930 anos, e não 1000 (Bereshit 5:5), e David viveu setenta (Shmuel II 5:4). É uma aggadá sobre o chesed que atravessa as gerações — e sobre o vínculo entre o primeiro homem e a casa de David, de onde virá o Mashiach (tema dos versos seguintes).
9
"Quão grandes são as Tuas obras, ó Eterno!" (Tehilim 92:6). Começou Adam a glorificar e louvar o Nome Altíssimo, dizendo: "quão grandes são as Tuas obras, ó Eterno; mas, quanto à profundidade dos Teus pensamentos, é um grande abismo, profundíssimo" — como está dito: "muito profundos são os Teus pensamentos" (Tehilim 92:6). "O homem bruto não o conhece" (Tehilim 92:7): o homem de Israel que é ignorante e não aprendeu — que os sábios de Israel o ensinem entendimento, como está dito: "entendei, ó brutos do povo" (Tehilim 94:8); mas o homem muito versado na sabedoria das nações e que ignora a Torá é tolo, pois não conhece as palavras da Torá, como está dito: "e o néscio não entende isto" (Tehilim 92:7).
״מַה גָּדְלוּ מַעֲשֶׂיךָ ה'״. הִתְחִיל מְפָאֵר וּמְהַלֵּל לַשֵּׁם עֶלְיוֹן וְאוֹמֵר מַה גָּדְלוּ מַעֲשֶׂיךָ ה', אֲבָל לְעֹמֶק מַחְשְׁבוֹתֶיךָ תְּהוֹם רַבָּה לִמְאֹד מְאֹד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מְאֹד עָמְקוּ מַחְשְׁבֹתֶיךָ״; ״אִישׁ בַּעַר לֹא יֵדָע״, אָדָם שֶׁהוּא בַּעַר מִיִּשְׂרָאֵל וְלֹא לָמַד בִּינָה חַכְמֵי יִשְׂרָאֵל יְלַמְּדוּהוּ בִּינָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בִּינוּ בֹּעֲרִים בָּעָם״, אֲבָל אָדָם בָּקִי בְּעַכּוּ״ם הוּא כְּסִיל לָמָּה שֶׁאֵינוֹ יוֹדֵעַ דִּבְרֵי תוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּכְסִיל לֹא יָבִין אֶת זֹאת״.
10
"Quando os ímpios florescem como a erva" (Tehilim 92:8). Quando vês que os ímpios se multiplicaram como a erva a cobrir a face da terra — e floresceram todos os que fazem o mal — saiba-se que o Santo, bendito seja, só os multiplicou para fazê-los perecer "para todo o sempre" (Tehilim 92:8). "Mas Tu, Eterno, és excelso para sempre" (Tehilim 92:9). Viu David que os ímpios se multiplicaram como a erva, e não disse "Haleluyá" senão quando viu que estavam destinados a que o mal fosse extinto, como está dito: "consumam-se os pecados da terra... bendize, ó minha alma, ao Eterno, Haleluyá" (Tehilim 104:35). E então o Santo, bendito seja, é Rei exaltado nas alturas e nas profundezas, como está dito: "mas Tu, Eterno, és excelso para sempre".
״בִּפְרֹחַ רְשָׁעִים כְּמוֹ עֵשֶׂב״. בִּזְמַן שֶׁאַתָּה רוֹאֶה רְשָׁעִים שֶׁרָבוּ כְּמוֹ עֵשֶׂב לְכַסּוֹת אֶת פְּנֵי הָאָרֶץ, הַרְשָׁעִים שֶׁרָבוּ כְּמוֹ עֵשֶׂב לֹא הִרְבָּן הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶלָּא לְאַבְּדָן מִן הָעוֹלָם הַזֶּה וּמִן הָעוֹלָם הַבָּא, ״לְהִשָּׁמְדָם עֲדֵי עַד״, ״וְאַתָּה מָרוֹם לְעֹלָם ה'״. רָאָה דָּוִד שֶׁרָבוּ רְשָׁעִים כְּמוֹ עֵשֶׂב, וְלֹא אָמַר הַלְלוּיָהּ עַד שֶׁרָאָה שֶׁהֵן עֲתִידִין לְהִשָּׁמֵד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יִתַּמּוּ חַטָּאִים מִן הָאָרֶץ״, וְאָז הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מֶלֶךְ מְרוֹמָם בָּעֶלְיוֹנִים וּבַתַּחְתּוֹנִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאַתָּה מָרוֹם לְעֹלָם ה'״.
Nota — "que cessem os pecados, não os pecadores". O verso "consumam-se os pecados da terra" (Tehilim 104:35) é lido pelos sábios com cuidado decisivo. O Talmud (Berachot 10a) conta que Beruria corrigiu Rabi Meir: está escrito chataim (pecados), não chot'im (pecadores) — o desejo não é a destruição das pessoas, mas o fim do mal; e o melhor fim do mal é que os ímpios se arrependam e o mal cesse. Assim deve ser entendida a linguagem deste salmo sobre o "perecer dos ímpios": é a esperança de um mundo livre da maldade, não o ódio a quem a pratica.
11
"Pois eis que os Teus inimigos, ó Eterno perecerão" (Tehilim 92:10). Disseram os de Israel diante do Santo, bendito seja: "Senhor de todos os mundos, os Teus inimigos puseram sobre nós um jugo pesado nos nossos pescoços, mas nós sabemos que estão destinados a perecer", como está dito: "pois eis que os Teus inimigos perecerão" — e todos os que fazem o mal "se dispersarão" como a palha diante do vento, como está dito: "dispersar-se-ão todos os que praticam a iniquidade" (Tehilim 92:10).
״כִּי הִנֵּה אֹיְבֶיךָ ה'״. אָמְרוּ יִשְׂרָאֵל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, נָתְנוּ אוֹיְבֶיךָ עָלֵינוּ עֹל קָשֶׁה עַל צַוָּארֵינוּ, אֲבָל אָנוּ יוֹדְעִין שֶׁהֵן לַאֲבַדָּן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי הִנֵּה אֹיְבֶיךָ יֹאבֵדוּ״, יִתְפָּרְדוּ כְּמוֹץ לִפְנֵי רוּחַ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יִתְפָּרְדוּ כָּל פֹּעֲלֵי אָוֶן״.
12
"E exaltaste o meu chifre como o do reem o boi selvagem" (Tehilim 92:11). Assim como os chifres do reem são mais altos que os de todo animal, e ele investe à sua direita e à sua esquerda, assim no porvir o líder de Israel terá força acima de todos, e defenderá Israel aos quatro ventos do mundo; e sobre isso disse Moshé: "o seu touro primogênito, a ele a majestade, e os seus chifres são chifres de reem; com eles escornará os povos" (Devarim 33:17), e com ele as miríades de Efraim e os milhares de Menashé. E sobre ele se levantarão reis para combatê-lo, como está dito: "levantam-se os reis da terra" (Tehilim 2:2); e Israel que estiver na Terra passará por grande aflição — mas a sua aflição será como a de uma oliveira verdejante, como está dito: "fui ungido com óleo fresco" (Tehilim 92:11).
״וַתָּרֶם כִּרְאֵים קַרְנִי״. מָה רְאֵם קַרְנוֹתָיו גְּבוֹהוֹת מִכָּל בְּהֵמָה וְהוּא מְנַגֵּחַ לִימִינוֹ וְלִשְׂמֹאלוֹ, כָּךְ מְנַחֵם בֶּן עַמִּיאֵל בֶּן יוֹסֵף קַרְנוֹתָיו גְּבוֹהוֹת וּמְנַגֵּחַ לְד' רוּחוֹת הָעוֹלָם, וְעָלָיו אָמַר מֹשֶׁה: ״בְּכוֹר שׁוֹרוֹ הָדָר לוֹ וְקַרְנֵי רְאֵם קַרְנָיו״, וְעִמּוֹ רִבְבוֹת אֶפְרַיִם וְאַלְפֵי מְנַשֶּׁה. וְעָלָיו יִתְיַצְּבוּ מְלָכִים לְהָרְגוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יִתְיַצְּבוּ מַלְכֵי אֶרֶץ״, וְיִשְׂרָאֵל שֶׁבָּאָרֶץ בְּצָרָה גְדוֹלָה אֲבָל צָרָתָהּ כְּזַיִת רַעֲנָן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בַּלֹּתִי בְּשֶׁמֶן רַעֲנָן״.
Nota — a esperança messiânica. A partir daqui o midrash lê o Salmo 92 como uma visão da redenção: "Menachem ben Amiel ben Yossef" é uma das figuras messiânicas da tradição (associada a "Mashiach ben Yossef"). As imagens de "investir" e de "reis que se levantam" (Tehilim 2) são a linguagem profética da resistência ao mal e do triunfo final do bem — não uma exaltação de violência. O alvo, como em todo o salmo, é o fim da iniquidade e a manifestação do reino de D'us, com Israel "como uma oliveira verdejante" mesmo em meio à aflição.
13
"E os meus olhos contemplaram a queda dos que me espreitavam" (Tehilim 92:12). Os de Israel que estiverem na Terra verão a queda dos que os odeiam, como está dito: "e os meus olhos contemplaram os meus adversários".
״וַתַּבֵּט עֵינִי בְּשׁוּרָי״. יִשְׂרָאֵל שֶׁבָּאָרֶץ רוֹאִין בְּמַפַּלְתָּן שֶׁל שׂוֹנְאִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתַּבֵּט עֵינִי בְּשׁוּרָי״.
14
"O justo florescerá como a tamareira" (Tehilim 92:13). Assim como a tamareira é bela na aparência e todos os seus frutos são doces e bons, assim o filho de David é belo na sua aparência e na sua glória, e todas as suas obras são boas e doces diante do Santo, bendito seja. "Como o cedro no Líbano crescerá": assim como o cedro do Líbano tem raízes profundas na terra, e ainda que todos os ventos do mundo venham e soprem sobre ele não o movem do seu lugar, assim o filho de David — a sua força e as suas obras diante do Santo, bendito seja, são abundantes, e ainda que todas as nações venham contra ele não o movem do seu lugar. "Plantados na casa do Eterno" (Tehilim 92:14): no porvir, o Santo, bendito seja, reunirá todo o Israel dos quatro cantos da terra; como o jardineiro que transplanta de canteiro a canteiro, assim Ele os transplantará de uma terra impura para uma terra pura; "plantados na casa do Eterno" — e, como a erva do campo, florescerão e brotarão no Templo, como está dito: "nos átrios do nosso D'us florescerão" (Tehilim 92:14).
״צַדִּיק כַּתָּמָר יִפְרָח״. מַה תְּמָרָה זוֹ נָאָה בְּמַרְאֶיהָ וְכָל פֵּרוֹתֶיהָ מְתוּקִים וְטוֹבִים, כָּךְ בֶּן דָּוִד נָאֶה בְּמַרְאֵהוּ וּכְבוֹדוֹ וְכָל מַעֲשָׂיו טוֹבִים וּמְתוּקִים לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא. ״כְּאֶרֶז בַּלְּבָנוֹן יִשְׂגֶּה״, מַה הָאֶרֶז שֶׁבַּלְּבָנוֹן שָׁרָשָׁיו מְרֻבִּים לְמַטָּה בָּאָרֶץ וַאֲפִלּוּ כָּל רוּחוֹת שֶׁבָּעוֹלָם בָּאוֹת וְנוֹשְׁבוֹת בּוֹ אֵין מְזִיזִין אוֹתוֹ מִמְּקוֹמוֹ, כָּךְ בֶּן דָּוִד כֹּחוֹ וּמַעֲשָׂיו לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מְרֻבִּים. ״שְׁתוּלִים בְּבֵית ה'״, עָתִיד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְקַבֵּץ כָּל יִשְׂרָאֵל מֵאַרְבַּע כַּנְפוֹת הָאָרֶץ, כְּגוֹן הַגַּנָּן הַזֶּה שֶׁנּוֹטֵעַ מֵעֲרוּגָה לַעֲרוּגָה כָּךְ עָתִיד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לִטַּע אוֹתָם מֵאֶרֶץ טְמֵאָה לְאֶרֶץ טְהוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר שְׁתוּלִים בְּבֵית ה' וְיִצְמְחוּ בְּבֵית הַמִּקְדָּשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּחַצְרוֹת אֱלֹהֵינוּ יַפְרִיחוּ״.
15
"Ainda darão fruto na velhice" (Tehilim 92:15). Assim como a velhice é esplendor e honra para os anciãos, assim eles os justos serão esplendor e honra diante de D'us, como está dito: "cheios de seiva e verdejantes serão" (Tehilim 92:15). "Para anunciar que o Eterno é reto" (Tehilim 92:16) — para que serve tudo isto? Para anunciar, louvar e proclamar a força das obras do Santo, bendito seja, e declarar que Ele é justo e reto, e que não há injustiça n'Ele, como está dito: "a minha Rocha, e n'Ele não há injustiça" (Tehilim 92:16).
״עוֹד יְנוּבוּן בְּשֵׂיבָה״. מָה הַשֵּׂיבָה הַזּוֹ הָדָר וְכָבוֹד לַזְּקֵנִים, כָּךְ הֵם הָדָר וְכָבוֹד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״דְּשֵׁנִים וְרַעֲנַנִּים יִהְיוּ״. ״לְהַגִּיד כִּי יָשָׁר ה'״, כָּל אֵלּוּ לָמָּה? לְהַגִּיד, לְהַלֵּל וּלְשַׁנֵּן כֹּחַ מַעֲשָׂיו שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וּלְהַגִּיד שֶׁהוּא צַדִּיק וְיָשָׁר וְאֵין עָוֶל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״צוּרִי וְלֹא עַוְלָתָה בּוֹ״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

As dez coisas do crepúsculo: milagre e ordem

A lista das dez criações "no crepúsculo da véspera do Shabat" (Avot 5:6) é lida pela tradição racionalista como uma afirmação notável: os grandes milagres da história — a terra que engole, a jumenta que fala, o maná, as Tábuas — não são improvisos nem mudanças de plano divino. Foram inscritos na criação desde o início. O Rambam (comentário a Avot 5:6) entende daí que mesmo a exceção faz parte da ordem: D'us, que estabeleceu a natureza, também estabeleceu de antemão as suas raras suspensões. Não há capricho no cosmos.

O Shabat, o arrependimento e o cântico de Adam

O coração do capítulo é a teshuvá de Adam. Condenado, ele é "salvo do juízo" pela chegada do Shabat — e responde com louvor, compondo o Salmo 92. Os sábios extraem a lição: lehodot é confessar e agradecer ao mesmo tempo; quem reconhece a falta e a abandona é salvo (cf. Mishlê 28:13). É o avesso do cap. 14, onde a culpa era empurrada de um a outro. O Shabat, dia da bênção, é também o dia em que o coração se abre ao reconhecimento e ao recomeço.

"Que cessem os pecados, não os pecadores"

A longa exposição do Salmo 92 fala da queda dos "ímpios" e dos "inimigos". É essencial ler isso com a chave que os próprios sábios deram: Beruria corrigiu Rabi Meir (Berachot 10a) — o salmo deseja que cessem os pecados (chataim), não os pecadores; e o melhor fim do mal é a teshuvá de quem o faz. As imagens messiânicas (o reem, os reis que se levantam) são a linguagem profética da vitória do bem sobre o mal — esperança de um mundo reto, não ódio a pessoas. Tudo conflui para o verso final: D'us é "justo e reto, e n'Ele não há injustiça".

O justo como tamareira e cedro

O fecho do salmo dá duas imagens do justo: a tamareira, bela e de frutos doces — toda a sua vida dá bem —; e o cedro do Líbano, de raízes profundas, que nenhum vento arranca. Os comentadores veem aí o retrato da firmeza enraizada: quem está "plantado na casa do Eterno" — ligado à Torá e a D'us — floresce e não se deixa abater pelas tempestades. E a promessa do reagrupamento ("de uma terra impura para uma terra pura, como o jardineiro que transplanta") sela o cântico com esperança: o justo, e Israel, florescerão "nos átrios do nosso D'us".

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 20

A penitência de Adam: a Havdalá e a teshuvá

פֶּרֶק כ׳

A primeira noite fora do Éden: do medo do escuro nasce a Havdalá; e do peso da falta nasce a teshuvá. Adam torna-se o paradigma do arrependimento — "para que todas as gerações aprendam que há retorno".

1
"E expulsou o homem" (Bereshit 3:24): foi expulso e saiu do Gan Éden, e estabeleceu-se no Monte Moriá — pois a entrada do Gan Éden é próxima ao Monte Moriá. De lá D'us o tomara, e para lá o fez voltar, ao lugar de onde fora tomado, como está dito: "para lavrar o solo de que fora tomado" (Bereshit 3:23). De que lugar o tomara? Do lugar do Templo.
״וַיְגָרֶשׁ אֶת הָאָדָם״, גֹּרַשׁ וַיֵּצֵא מִגַּן עֵדֶן וַיֵּשֶׁב לוֹ בְּהַר הַמּוֹרִיָּה שֶׁשַּׁעַר גַּן עֵדֶן סָמוּךְ לְהַר הַמּוֹרִיָּה, מִשָּׁם לְקָחוֹ וּלְשָׁם הֶחֱזִירוֹ בַּמָּקוֹם שֶׁנִּלְקַח, שֶׁנֶּאֱמַר ״לַעֲבֹד אֶת הָאֲדָמָה אֲשֶׁר לֻקַּח מִשָּׁם״. מֵאֵי זֶה מָקוֹם לְקָחוֹ? מִמְּקוֹם בֵּית הַמִּקְדָּשׁ.
2
Rabi Yehudá diz: o Santo, bendito seja, guardou o primeiro Shabat nas regiões superiores, e Adam o guardou primeiro nas regiões de baixo. E o dia do Shabat o protegia de todo mal e o consolava de todas as inquietações do seu coração, como está dito: "na multidão dos meus cuidados dentro de mim, os Teus consolos deleitam a minha alma" (Tehilim 94:19).
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שָׁמַר שַׁבָּת רִאשׁוֹן, וְאָדָם שָׁמַר אוֹתוֹ תְּחִלָּה בַּתַּחְתּוֹנִים. וְהָיָה יוֹם הַשַּׁבָּת מְשַׁמְּרוֹ מִכָּל רַע וּמְנַחֲמוֹ מִכָּל שַׂרְעַפֵּי לִבּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּרֹב שַׂרְעַפַּי בְּקִרְבִּי תַּנְחוּמֶיךָ יְשַׁעַשְׁעוּ נַפְשִׁי״.
3
Rabi Yehoshua ben Korchá diz: da árvore sob a qual se esconderam, tomaram folhas e costuraram, como está dito: "e costuraram folhas de figueira" (Bereshit 3:7). Rabi Eliezer diz: da pele que a serpente trocou ao mudar de pele, fez o Santo, bendito seja, uma túnica de glória para Adam e a sua companheira, como está dito: "e fez o Eterno D'us para Adam e para a sua mulher túnicas de pele, e os vestiu" (Bereshit 3:21).
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה אוֹמֵר: מִן הָאִילָן שֶׁנֶּחְבְּאוּ שָׁם תַּחְתָּיו, לָקְחוּ עָלִים וְתָפְרוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּתְפְּרוּ עֲלֵי תְאֵנָה״. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: מִן הָעוֹר שֶׁהִפְשִׁיט הַנָּחָשׁ עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא כְּתֹנֶת כָּבוֹד לְאָדָם וּלְעֶזְרוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּעַשׂ ה' אֱלֹהִים לְאָדָם וּלְאִשְׁתּוֹ כָּתְנוֹת עוֹר וַיַּלְבִּשֵׁם״.
Nota — túnicas de "pele" ou de "luz"? O versículo diz kotnot or (כָּתְנוֹת עוֹר), "túnicas de pele"; mas há uma tradição que lia, com outra grafia, kotnot or (כתנות אור), "túnicas de luz". O midrash, ao chamá-las "túnicas de glória", recolhe esse eco: mesmo após a queda, D'us não abandona o ser humano nu — veste-o com dignidade. A bondade divina cobre a vergonha do erro.
4
No crepúsculo da saída do Shabat, Adam estava sentado, refletindo no coração e dizendo: "ai de mim! Talvez venha a serpente que me enganou na véspera do Shabat e me morda o calcanhar!" Foi-lhe enviada uma coluna de fogo para iluminá-lo e protegê-lo de todo mal. Viu Adam a coluna de fogo e alegrou-se no coração, e disse: "agora sei que o Onipresente está comigo"; e estendeu as mãos à luz do fogo e abençoou: "Bendito... que cria as luzes do fogo". E, ao afastar as mãos do fogo, disse Adam: "agora sei que o dia santo se separou do dia comum, pois não se acende fogo no Shabat". E disse: "Bendito seja Aquele que separa entre o sagrado e o comum".
בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת שֶׁל שַׁבָּת הָיָה אָדָם יוֹשֵׁב וּמְהַרְהֵר בְּלִבּוֹ וְאוֹמֵר: ״אוֹי לִי, שֶׁמָּא יָבֹא הַנָּחָשׁ שֶׁהִטְעָה אוֹתִי בְּעֶרֶב שַׁבָּת וִישׁוּפֵנִי עָקֵב!״ נִשְׁתַּלַּח לוֹ עַמּוּד שֶׁל אֵשׁ לְהָאִיר לוֹ וּלְשָׁמְרוֹ מִכָּל רַע. רָאָה אָדָם לְעַמּוּד שֶׁל אֵשׁ וְשָׂמַח בְּלִבּוֹ וְאָמַר: ״עַכְשָׁיו אֲנִי יוֹדֵעַ שֶׁהַמָּקוֹם עִמִּי״, וּפָשַׁט יָדָיו לְאוֹר הָאֵשׁ וּבֵרַךְ: ״מְאוֹרֵי הָאֵשׁ״. וּכְשֶׁהִרְחִיק יָדָיו מֵהָאֵשׁ אָמַר אָדָם: ״עַכְשָׁיו אֲנִי יוֹדֵעַ שֶׁנִּבְדַּל יוֹם הַקֹּדֶשׁ מִיּוֹם הַחוֹל, שֶׁאֵין לְבַעֵר אֵשׁ בְּשַׁבָּת״. אָמַר: ״בָּרוּךְ הַמַּבְדִּיל בֵּין קֹדֶשׁ לְחוֹל״.
Nota — a origem da Havdalá. Aqui o midrash revela a raiz de duas bênçãos que dizemos até hoje na Havdalá (a cerimônia que encerra o Shabat): a bênção sobre o fogo ("borê me'orei ha'esh") e a da separação ("hamavdil bein kódesh lechol"). Os sábios (Pessachim 54a) ensinam que foi ao cair da primeira noite — quando, pela primeira vez, sobreveio a escuridão — que D'us deu a Adam a sabedoria de produzir o fogo. Por isso bendizemos o fogo na saída do Shabat: ele nasceu naquele instante, e simboliza a luz da razão que afasta o medo do escuro.
5
Rabi Mana diz: como deve a pessoa fazer a bênção da Havdalá? Sobre um cálice de vinho, à luz do fogo, e diz: "Bendito... que cria as luzes do fogo"; e, ao afastar a mão do fogo, diz: "Bendito seja Aquele que separa entre o sagrado e o comum".
רַבִּי מָנָא אוֹמֵר: כֵּיצַד חַיָּב אָדָם לְבָרֵךְ עַל כּוֹס שֶׁל יַיִן לְאוֹר הָאֵשׁ? וְאוֹמֵר: ״בָּרוּךְ מְאוֹרֵי הָאֵשׁ״, וּכְשֶׁמַּחֲזִיר יָדוֹ מִן הָאֵשׁ אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ הַמַּבְדִּיל בֵּין קֹדֶשׁ לְחוֹל״.
6
E, se não tem vinho, estende as mãos à luz do fogo e olha para as suas unhas, que são mais claras que o restante do corpo, e diz: "Bendito... que cria as luzes do fogo"; e, ao afastar a mão do fogo, diz: "Bendito seja Aquele que separa entre o sagrado e o comum".
וְאִם אֵין לוֹ יַיִן, פּוֹשֵׁט אֶת יָדָיו לְאוֹר הָאֵשׁ וּמִסְתַּכֵּל בְּצִפָּרְנָיו שֶׁהֵן לְבָנוֹת מִן הַגּוּף, וְאוֹמֵר: ״בָּרוּךְ בּוֹרֵא מְאוֹרֵי הָאֵשׁ״, וְכֵיוָן שֶׁמַּרְחִיק יָדוֹ מִן הָאֵשׁ אוֹמֵר: ״בָּרוּךְ הַמַּבְדִּיל בֵּין קֹדֶשׁ לְחוֹל״.
7
E, se não tem fogo, estende a mão à luz das estrelas, que são de fogo, e olha para as suas unhas, que são mais claras que o corpo, e diz: "Bendito... as luzes do fogo". E, se os céus estiverem encobertos, levanta uma pedra da terra e faz a separação, dizendo: "Bendito seja Aquele que separa entre o sagrado e o comum". Rabi Eliezer diz: depois de beber o cálice da Havdalá, é uma mitsvá pôr um pouco de água no cálice e beber, para demonstrar apreço pela mitsvá; e o que restar de água no cálice, passa-o sobre os olhos. Por quê? Porque disseram os sábios: "os restos de uma mitsvá afastam a desgraça".
וְאִם אֵין לוֹ אֵשׁ, פּוֹשֵׁט יָדוֹ לְאוֹר הַכּוֹכָבִים שֶׁהֵן שֶׁל אֵשׁ, וְיִסְתַּכֵּל בְּצִפָּרְנָיו שֶׁהֵן לְבָנוֹת מִן הַגּוּף, וְאוֹמֵר: ״בָּרוּךְ מְאוֹרֵי הָאֵשׁ״. וְאִם נִתְקַדְּרוּ הַשָּׁמַיִם, תּוֹלֶה אֶבֶן מִן הָאָרֶץ וּמַבְדִּיל וְאוֹמֵר: ״בָּרוּךְ הַמַּבְדִּיל בֵּין קֹדֶשׁ לְחוֹל״. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: לְאַחַר שֶׁשּׁוֹתֶה כּוֹס שֶׁל הַבְדָּלָה, מִצְוָה לְהַטִּיל מְעַט מַיִם בְּכוֹס שֶׁל הַבְדָּלָה וְשׁוֹתֶה כְּדֵי לְחַבֵּב אֶת הַמִּצְוָה. וּמַה שֶׁיִּשָּׁאֵר מִן הַכּוֹס מִן הַמַּיִם, מַעֲבִירוֹ עַל גַּבֵּי עֵינָיו. לָמָּה? מִשּׁוּם שֶׁאָמְרוּ חֲכָמִים: שְׁיָרֵי מִצְוָה מְעַכְּבִין אֶת הַפֻּרְעָנוּת.
8
Rabi Tzadok diz: todo aquele que não faz a Havdalá sobre o vinho na saída do Shabat, ou não a ouve dos que a fazem, nunca verá sinal de bênção. E todo aquele que a ouve dos que a fazem, ou a faz sobre o vinho, o Santo, bendito seja, o adquire como Seu tesouro segulá, como está dito: "e Eu vos separei (va'avdil) dos povos, para serdes Meus" (Vayikrá 20:26).
רַבִּי צָדוֹק אוֹמֵר: כָּל מִי שֶׁאֵינוֹ מַבְדִּיל עַל הַיַּיִן בְּמוֹצָאֵי שַׁבָּתוֹת אוֹ אֵינוֹ שׁוֹמֵעַ מִן הַמַּבְדִּילִים, אֵינוֹ רוֹאֶה סִימַן בְּרָכָה לְעוֹלָם. וְכָל מִי שֶׁהוּא שׁוֹמֵעַ מִן הַמַּבְדִּילִים אוֹ מַבְדִּיל עַל הַיַּיִן, הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא קוֹנֶה אוֹתוֹ לִסְגֻלָּתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וָאַבְדִּל אֶתְכֶם מִן הָעַמִּים וִהְיִיתֶם לִי סְגֻלָּה״.
Nota. Há um belo jogo de palavras: Havdalá (separação) e va'avdil (Eu vos separei). Quem distingue, no fim do Shabat, o sagrado do comum, espelha em si a própria vocação de Israel — "separado para D'us". Distinguir os tempos santos dos comuns é viver com discernimento: não tratar tudo como igual, mas reconhecer o que é elevado e guardá-lo.
9
No domingo após a expulsão, Adam entrou nas águas do alto Guichon, até que as águas lhe chegaram ao pescoço, e jejuou sete semanas de dias, até que o seu corpo ficou como uma peneira esquálido. Disse Adam diante do Santo, bendito seja: "Senhor de todos os mundos, faze passar de mim a minha falta e aceita o meu arrependimento, e que todas as gerações aprendam que há teshuvá, e que Tu aceitas o arrependimento dos que voltam". Que fez o Santo, bendito seja? Estendeu a Sua mão direita, fez passar dele a sua falta e aceitou o seu arrependimento, como está dito: "a minha falta Te dei a conhecer, e a minha iniquidade não encobri... e Tu perdoaste a culpa do meu pecado, Selá" (Tehilim 32:5) — "Selá" neste mundo e "Selá" no mundo vindouro. Sentou-se Adam e meditou no coração: "ainda que eu diga que a morte me levará à 'casa destinada a todo vivente'" (cf. Iyov 30:23). Disse Adam: "enquanto estou no mundo, edificarei para mim um lugar de repouso". E cavou e construiu para si um sepulcro. Disse Adam: "ora, se as Tábuas, que hão de ser escritas pelo dedo do Santo, bendito seja, têm tanto poder que as águas do Jordão hão de fugir diante delas, quanto mais o meu corpo, que as Suas duas mãos modelaram e em cujas narinas Ele soprou o alento do Seu sopro! Depois da minha morte, não tomarão a mim e aos meus ossos e farão deles idolatria? Antes, hei de aprofundar o meu jazigo, abaixo da gruta e dentro da gruta". Por isso se chama Mearat HaMachpelá (a "Gruta Dupla"), porque é dobrada; e ali estão postos: Adam e Chavá, Avraham e Sará, Yitzchak e Rivká, Yaakov e Lea. E por isso se chama Kiryat Arbá (a "Cidade dos Quatro"), porque nela foram sepultados quatro casais; e sobre eles diz o versículo: "venha a paz, descansem nos seus leitos, cada um que anda na sua retidão" (Yeshayahu 57:2).
בְּאֶחָד בַּשַּׁבָּת נִכְנַס אָדָם בְּמֵי גִּיחוֹן הָעֶלְיוֹן עַד שֶׁהִגִּיעוּ מַיִם עַד צַוָּארוֹ וְנִתְעַנָּה שִׁבְעָה שַׁבָּתוֹת יָמִים עַד שֶׁנַּעֲשָׂה גוּפוֹ כְּמִין כְּבָרָה. אָמַר אָדָם לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, הַעֲבֵר נָא חַטָּאתִי מֵעָלַי וְקַבֵּל אֶת תְּשׁוּבָתִי, וְיִלְמְדוּ כָּל הַדּוֹרוֹת שֶׁיֵּשׁ תְּשׁוּבָה וְאַתָּה מְקַבֵּל תְּשׁוּבַת הַשָּׁבִים״. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? פָּשַׁט יַד יְמִינוֹ וְהֶעֱבִיר אֶת חַטָּאתוֹ מֵעָלָיו וְקִבֵּל אֶת תְּשׁוּבָתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״חַטָּאתִי אוֹדִיעֲךָ וַעֲוֹנִי לֹא כִסִּיתִי, סֶלָה״ – מִן הָעוֹלָם הַזֶּה וְסֶלָה מִן הָעוֹלָם הַבָּא. יָשַׁב וְדָרַשׁ בְּלִבּוֹ: ״וְאִם כִּי אָמַרְתִּי מָוֶת תְּשִׁיבֵנִי וּבֵית מוֹעֵד לְכָל חָי״. אָמַר אָדָם: ״עַד שֶׁאֲנִי בָּעוֹלָם אֶבְנֶה לִי בֵּית מָלוֹן לְרִבְצִי חוּץ לְהַר הַמּוֹרִיָּה״, וְחָצַב וּבָנָה לוֹ מָלוֹן לְרִבְצוֹ. אָמַר אָדָם: ״מָה הַלּוּחוֹת שֶׁהֵן עֲתִידִין לְהִכָּתֵב בְּאֶצְבָּעוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וַעֲתִידִין מֵימֵי הַיַּרְדֵּן לִבְרֹחַ מִפְּנֵיהֶם, וְגוּפִי שֶׁנִּבַּל בִּשְׁתֵּי יָדָיו וְרוּחַ נִשְׁמַת פִּיו נָפַח בְּאַפִּי, וְאַחַר מוֹתִי יִקְּחוּ אוֹתִי וְאֶת עַצְמוֹתַי וְיַעֲשׂוּ לָהֶם עֲבוֹדָה זָרָה? אֶלָּא אַעֲמִיק אֲנִי אֲרוֹנִי לְמַטָּה מִן הַמְּעָרָה וְלִפְנִים מִן הַמְּעָרָה״. לְפִיכָךְ נִקְרֵאת מְעָרַת הַמַּכְפֵּלָה, שֶׁהִיא כְּפוּלָה, וְשָׁם הוּא נָתוּן: אָדָם וְחַוָּה, אַבְרָהָם וְשָׂרָה, יִצְחָק וְרִבְקָה, יַעֲקֹב וְלֵאָה. וּלְפִיכָךְ נִקְרֵאת קִרְיַת אַרְבַּע, שֶׁנִּקְבְּרוּ בָּהּ אַרְבַּע זוּגוֹת. וַעֲלֵיהֶם הַכָּתוּב אוֹמֵר: ״יָבֹא שָׁלוֹם יָנוּחוּ עַל מִשְׁכְּבוֹתָם הֹלֵךְ נְכֹחוֹ״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

Adam no Monte Moriá: voltar à fonte

Expulso do Éden, Adam não vai a qualquer lugar: estabelece-se no Monte Moriá, o futuro lugar do Templo, "próximo à porta do Éden". Os comentadores veem aí um sinal: o exilado retorna ao centro espiritual do mundo — o mesmo ponto de onde foi formado (cap. 11) e onde, mais tarde, Avraham ligará Yitzchak e Shelomó erguerá o Templo. A teshuvá começa por voltar à origem.

O fogo, o medo e a Havdalá

O coração do capítulo é a origem da Havdalá. Na primeira noite após a saída do Éden, Adam teme o escuro e a serpente; D'us lhe dá o fogo. Os sábios (Pessachim 54a) ensinam que a sabedoria de produzir fogo foi dada ao homem justamente ao cair daquela noite — por isso bendizemos o fogo no fim do Shabat. Para a leitura racionalista, o fogo é a imagem da luz da razão e da técnica, dom divino que afasta o terror das trevas. E o duplo gesto de Adam — aproximar e afastar a mão da chama — ensina a distinguir: o santo do comum, o Shabat do dia útil.

Distinguir: a sabedoria da separação

A Havdalá, com o seu jogo de palavras (havdalá / va'avdil), ensina que discernir é santidade. Quem não distingue o sagrado do comum vive tudo no mesmo nível cinzento; quem separa reconhece o que é elevado e o guarda. Rabi Tzadok vai além: quem cumpre a Havdalá é "adquirido como tesouro" de D'us — pois imita a própria vocação de Israel, "separado" para uma tarefa. A vida sábia é uma vida de distinções.

Adam, o paradigma do arrependimento

O capítulo culmina na teshuvá completa de Adam: imerso nas águas, em jejum, ele pede perdão não só para si, mas "para que todas as gerações aprendam que há teshuvá". E D'us "estende a mão direita" e o aceita (Tehilim 32:5). É a afirmação mais consoladora da tradição: o arrependimento é real, e nenhuma falta fecha a porta do retorno (cf. Rambam, Hilchot Teshuvá). O fecho — Adam que escolhe o seu lugar na Mearat HaMachpelá, ao lado dos patriarcas — liga o primeiro homem ao povo que dele descenderá, "venha a paz, descansem nos seus leitos".

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 21

Caim e Hevel: a primeira oferenda e o primeiro sangue

פֶּרֶק כ״א

A primeira oferenda, o primeiro ciúme, o primeiro homicídio — e "a voz do sangue que clama da terra". Mas também a primeira teshuvá depois do crime, e a primeira sepultura, ensinada por um corvo.

1
Sobre o nascimento de Caim, os sábios leem os versos com linguagem velada. Rabi Zeirá ensinou: a "árvore" a que a Torá alude é o ser humano, que é comparado a uma árvore, como está dito: "pois o homem é como a árvore do campo" (Devarim 20:19). E o "jardim" é a mulher, que é comparada a um jardim, como está dito: "jardim fechado é a minha irmã, esposa" (Shir HaShirim 4:12) — pois, assim como o jardim, tudo o que nele se semeia brota e produz, assim a mulher, do que recebe, concebe e dá à luz do seu marido.
תָּנָא: רַבִּי זְעִירָא אוֹמֵר, ״מִפְּרִי הָעֵץ״ – אֵין הָעֵץ הַזֶּה אֶלָּא אָדָם שֶׁנִּמְשַׁל כְּעֵץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי הָאָדָם עֵץ הַשָּׂדֶה״. וְאֵין ״גָּן״ אֶלָּא הָאִשָּׁה שֶׁנִּמְשְׁלָה לְגָן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״גַּן נָעוּל אֲחֹתִי כַלָּה״. מַה הַגִּנָּה כָּל מַה שֶּׁנִּזְרְעָה הִיא צוֹמַחַת וּמוֹצִיאָה, כָּךְ הָאִשָּׁה הַזֹּאת כָּל מַה שֶּׁנִּזְרַע הָרָה וְיוֹלֶדֶת מִבַּעְלָהּ.
2
Há uma tradição aggádica de que a influência da serpente Samael alcançou Chavá antes, e dela veio Caim; e depois Adam a conheceu, e dela veio Hevel, como está dito: "e o homem conheceu Chavá, sua mulher" (Bereshit 4:1). Rabi Yishmael diz: dali de Caim subiram e descenderam todas as gerações dos ímpios, que se rebelam e transgridem contra o Alto e dizem: "não precisamos da gota da Tua chuva", como está dito: "e disseram a D'us: afasta-te de nós" (Iyov 21:14).
בָּא אֵלֶיהָ רוֹכֵב הַנָּחָשׁ וְעִבְּרָה אֶת קַיִן, וְאַחַר כָּךְ עִבְּרָה אֶת הֶבֶל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָאָדָם יָדַע אֶת חַוָּה אִשְׁתּוֹ״. רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: מִשָּׁם עָלוּ וְנִתְיַחֲסוּ כָּל דּוֹרוֹת הָרְשָׁעִים הַמּוֹרְדִים וְהַפּוֹשְׁעִים בַּמָּרוֹם וְאוֹמְרִים: ״אֵין אָנוּ צְרִיכִין לְטִפַּת גַּשְׁמֶיךָ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמְרוּ לָאֵל סוּר מִמֶּנּוּ״.
Nota — leitura honesta. A imagem de "Samael montado na serpente" como origem de Caim é aggádica e simbólica, não uma genealogia demoníaca literal. Na linha racionalista (que identifica a serpente e Samael com o yetzer hará, a inclinação ao mal — cf. cap. 13), a passagem ensina que Caim trazia em si, desde a origem, a marca do impulso destrutivo — em contraste com Hevel. É um modo poético de dizer que do mal voluntário descende uma "linhagem" de rebeldia, e do bem, uma de retidão; não uma doutrina sobre seres híbridos.
3
Rabi Meiashá diz: Caim nasceu, e a sua irmã gêmea com ele; Hevel nasceu, e a sua irmã gêmea com ele. Disse-lhe Rabi Yishmael: mas não está dito "o homem que tomar a sua irmã, filha de seu pai, é vergonha" (Vayikrá 20:17)?! Respondeu-lhe: destas palavras aprende que não havia outras mulheres no mundo com quem se casarem, e por isso lhes foi permitido. E sobre isso se diz: "pois Eu disse: o mundo se edifica pela bondade (chesed)" (Tehilim 89:3) — com bondade e providência foi o mundo edificado, antes de ser dada a Torá.
רַבִּי מְיָאשָׁא אוֹמֵר: נוֹלַד קַיִן וּתְאוֹמָתוֹ עִמּוֹ. נוֹלַד הֶבֶל וּתְאוֹמָתוֹ עִמּוֹ. אָמַר לוֹ רַבִּי יִשְׁמָעֵאל: וַהֲלֹא כְּבָר נֶאֱמַר ״וְאִישׁ אֲשֶׁר יִקַּח אֶת אֲחֹתוֹ בַּת אָבִיו״! אָמַר לוֹ: מִתּוֹךְ הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה תֵּדַע לְךָ שֶׁלֹּא הָיוּ נָשִׁים אֲחֵרוֹת בָּעוֹלָם שֶׁיִּשָּׂאוּ לָהֶן, וְהִתִּירָן לָהֶם. וְעַל זֶה נֶאֱמַר ״כִּי אָמַרְתִּי עוֹלָם חֶסֶד יִבָּנֶה״, בְּחֶסֶד נִבְרָא הָעוֹלָם עַד שֶׁלֹּא נִתְּנָה תּוֹרָה.
4
E Caim amava lavrar a terra e semear, e Hevel amava apascentar o rebanho. Este dava da sua produção para alimentar aquele, e aquele dava da sua para alimentar este. Chegou o dia festivo de Pessach. Disse Adam aos seus filhos: "nesta noite, no futuro, Israel oferecerá os sacrifícios de Pessach; oferecei também vós diante do vosso Criador".
וְהָיָה קַיִן אוֹהֵב לַעֲבֹד אֲדָמָה לִזְרֹעַ, וְהֶבֶל הָיָה אוֹהֵב לִרְעוֹת צֹאן. זֶה נוֹתֵן מִמְּלַאכְתּוֹ מַאֲכִיל לָזֶה, וְזֶה נוֹתֵן מִמְּלַאכְתּוֹ מַאֲכִיל לָזֶה. הִגִּיעַ יוֹם טוֹב שֶׁל פֶּסַח. אָמַר לָהֶם אָדָם לְבָנָיו: ״בַּלַּיְלָה זֶה עֲתִידִין יִשְׂרָאֵל לְהַקְרִיב קָרְבְּנוֹת פְּסָחִים, הַקְרִיבוּ גַּם אַתֶּם לִפְנֵי בּוֹרַאֲכֶם״.
5
Trouxe Caim o que sobrava do seu alimento, grãos torrados, semente de linho. E trouxe Hevel dos primogênitos do seu rebanho e das suas gorduras, cordeiros que não tinham sido tosquiados. E foi rejeitada a oferenda de Caim, e aceita a oferenda de Hevel, como está dito: "e atentou o Eterno para Hevel e para a sua oferenda" (Bereshit 4:4).
הֵבִיא קַיִן מוֹתַר מַאֲכָלוֹ קְלָיוֹת, זֶרַע פִּשְׁתָּן. וְהֵבִיא הֶבֶל מִבְּכוֹרוֹת צֹאנוֹ וּמֵחֶלְבֵיהֶן, כְּבָשִׂים שֶׁלֹּא נִגְזְזוּ לְצֶמֶר. וְנִתְעַב מִנְחַת קַיִן, וְנִרְצֵית מִנְחַת הֶבֶל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשַׁע ה' אֶל הֶבֶל וְאֶל מִנְחָתוֹ״.
Nota — por que a oferenda de Caim foi rejeitada. O texto é preciso: Caim trouxe "o que sobrava do seu alimento" — restos —, enquanto Hevel trouxe "os primogênitos e as gorduras", o melhor. A diferença não está no tipo de oferenda (vegetal × animal), mas na atitude do coração: Hevel deu o que tinha de melhor; Caim, o que lhe era indiferente. D'us "olha para o coração" — e a oferenda relutante não é oferenda. (O §6 acrescenta, com base em Hevel × Caim, a raiz da proibição do shaatnez: não misturar lã de Hevel, o pastor e linho de Caim, o lavrador.)
6
Rabi Yehoshua ben Korchá diz: disse o Santo, bendito seja: "nunca se misturem as oferendas de Caim e de Hevel, nem mesmo na tecitura de uma veste" — como está dito: "não vestirás shaatnez mistura de lã e linho" (Devarim 22:11); e ainda que as fibras estejam fiadas juntas, "não subirá sobre ti", como está dito: "nem veste de duas espécies misturadas, shaatnez, subirá sobre ti" (Vayikrá 19:19).
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה אוֹמֵר: אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, ״אַל יִתְעָרְבוּ מִנְחַת קַיִן וְהֶבֶל לְעוֹלָם״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לֹא תִלְבַּשׁ שַׁעַטְנֵז״, וְאֲפִלּוּ הִיא מְעֹרֶבֶת לֹא יַעֲלֶה עָלֶיךָ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּבֶגֶד כִּלְאַיִם שַׁעַטְנֵז לֹא יַעֲלֶה עָלֶיךָ״.
7
Rabi Tzadok diz: entrou inveja e grande rancor no coração de Caim, por ter sido aceita a oferenda de Hevel. E não só isso, mas a mulher gêmea de Hevel era a mais bela das mulheres. Disse Caim: "matarei Hevel, meu irmão, e tomarei a sua mulher", como está dito: "e disse Caim a Hevel, seu irmão; e sucedeu que, estando eles no campo..." (Bereshit 4:8).
רַבִּי צָדוֹק אוֹמֵר: נִכְנְסָה קִנְאָה וְשִׂטְנָה גְּדוֹלָה בְּלִבּוֹ שֶׁל קַיִן עַל שֶׁנִּרְצֵית מִנְחָתוֹ שֶׁל הֶבֶל. וְלֹא עוֹד, אֶלָּא שֶׁהָיְתָה אִשְׁתּוֹ תְּאוֹמָתוֹ יָפָה בַּנָּשִׁים. אָמַר: ״אֲנִי אֶהֱרֹג אֶת הֶבֶל אָחִי וְאֶקַּח אֶת אִשְׁתּוֹ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר קַיִן אֶל הֶבֶל אָחִיו וַיְהִי בִּהְיוֹתָם בַּשָּׂדֶה״.
Nota. Os sábios apontam as três forças que armaram a mão de Caim — exatamente "a inveja, o desejo e a honra" que "tiram o homem do mundo" (Avot 4:21; cf. cap. 13): inveja (a oferenda de Hevel aceita), desejo (a esposa de Hevel) e o ferimento do orgulho. O primeiro homicídio da história não nasce de necessidade, mas dessas paixões não dominadas. É o aviso permanente da Torá: quem não governa a inveja acaba governado por ela.
8
Tomou a pedra e a cravou na testa de Hevel e o matou, como está dito: "e levantou-se Caim contra Hevel, seu irmão, e o matou" (Bereshit 4:8).
לָקַח הָאֶבֶן וְטָבַע בְּמִצְחוֹ שֶׁל הֶבֶל וַהֲרָגוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּקָם קַיִן אֶל הֶבֶל אָחִיו וַיַּהַרְגֵהוּ״.
9
Rabi Yochanan disse: não sabia Caim que o oculto está revelado diante do Onipresente. Que fez? Tomou o cadáver do seu irmão e o enterrou na terra. Disse-lhe o Santo, bendito seja: "onde está Hevel, teu irmão?" Respondeu: "Senhor do mundo, puseste-me por guarda de campo e vinha; acaso sou guarda do meu irmão?", como está dito: "acaso sou eu o guarda do meu irmão?" (Bereshit 4:9). Disse-lhe o Santo, bendito seja: "mataste e também tomaste posse? A voz do sangue do teu irmão clama a Mim desde a terra" (cf. Melachim I 21:19; Bereshit 4:10). Quando Caim ouviu isto, ficou apavorado. E D'us o amaldiçoou a ser errante na terra, pelo derramamento de sangue.
רַבִּי יוֹחָנָן אָמַר: לֹא הָיָה יוֹדֵעַ קַיִן שֶׁהַנִּסְתָּרוֹת גְּלוּיוֹת לִפְנֵי הַמָּקוֹם. מֶה עָשָׂה? נָטַל אֶת נִבְלָתוֹ שֶׁל אָחִיו וְחָפַר וְטָמַן אוֹתוֹ בָּאָרֶץ. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״אֵי הֶבֶל אָחִיךָ?״ אָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, שׁוֹמֵר שָׂדֶה וְכֶרֶם שַׂמְתַּנִי, הֲשֹׁמֵר אָחִי אָנֹכִי?״ אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״הֲרָצַחְתָּ וְגַם יָרַשְׁתָּ? קוֹל דְּמֵי אָחִיךָ צוֹעֲקִים אֵלַי״. כֵּיוָן שֶׁשָּׁמַע קַיִן הַדָּבָר, נִבְהַל. וַאֲרָרוֹ שֶׁיִּהְיֶה נוֹדֵד בָּאָרֶץ עַל שְׁפִיכוּת דָּמִים.
10
Disse Caim diante Dele: "Senhor dos mundos, grande é a minha culpa, demais para ser carregada" (Bereshit 4:13). E isto lhe foi considerado como um princípio de teshuvá. Que fez o Santo, bendito seja? Tomou uma letra das vinte e duas da Torá e a inscreveu no braço de Caim, para que não fosse morto, como está dito: "e pôs o Eterno em Caim um sinal" (Bereshit 4:15). E Adam e a sua companheira sentavam-se, choravam e pranteavam por Hevel, e não sabiam o que fazer com ele, pois não conheciam a sepultura. Veio um corvo cujo companheiro morrera; tomou-o, cavou na terra e o enterrou diante deles. Disse Adam: "farei como o corvo". De imediato tomou o cadáver de Hevel, cavou na terra e o enterrou. E o Santo, bendito seja, deu boa recompensa aos corvos neste mundo: quando clamam por chuva e alimento, Ele os atende, como está dito: "Ele dá ao animal o seu sustento, e aos filhotes do corvo que clamam" (Tehilim 147:9).
אָמַר קַיִן לְפָנָיו: ״רִבּוֹן הָעוֹלָמִים, גָּדוֹל עֲוֹנִי מִנְּשׂוֹא״. וְנֶחְשַׁב לוֹ הַדָּבָר הַזֶּה כִּתְשׁוּבָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״גָּדוֹל עֲוֹנִי מִנְּשׂוֹא״. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? נָטַל אוֹת אַחַת מֵעֶשְׂרִים וּשְׁתַּיִם אוֹתִיּוֹת שֶׁבַּתּוֹרָה וְכָתַב עַל זְרוֹעוֹ שֶׁל קַיִן שֶׁלֹּא יֵהָרֵג, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּשֶׂם ה' לְקַיִן אוֹת״. וְהָיוּ אָדָם וְעֶזְרוֹ יוֹשְׁבִים וּבוֹכִים וּמִתְאַבְּלִים עָלָיו, וְלֹא הָיוּ יוֹדְעִים מַה לַּעֲשׂוֹת לְהֶבֶל שֶׁלֹּא הָיוּ נְהוּגִים בִּקְבוּרָה. בָּא עוֹרֵב אֶחָד שֶׁמֵּת לוֹ אֶחָד מֵחֲבֵרָיו, לָקַח אוֹתוֹ וְחָפַר בָּאָרֶץ וְטָמְנוֹ לְעֵינֵיהֶם. אָמַר אָדָם: ״כָּעוֹרֵב אֲנִי עוֹשֶׂה״. מִיָּד לָקַח נִבְלָתוֹ שֶׁל הֶבֶל וְחָפַר בָּאָרֶץ וּטְמָנָהּ. וְשִׁלֵּם הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שָׂכָר טוֹב לָעוֹרְבִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״נוֹתֵן לִבְהֵמָה לַחְמָהּ לִבְנֵי עֹרֵב אֲשֶׁר יִקְרָאוּ״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A oferenda do coração

A diferença entre as duas oferendas é a chave moral do capítulo. Hevel trouxe "os primogênitos e as gorduras" — o seu melhor; Caim, "o que sobrava" — restos. A Torá ensina que D'us não pesa o tamanho do dom, mas a intenção: "o Misericordioso quer o coração" (cf. Sanhedrin 106b). A mesma oferenda, dada com amor ou com indiferença, é aceita ou rejeitada. E quando a sua foi rejeitada, Caim não corrigiu o coração — alimentou a inveja.

As três forças e o primeiro crime

Os sábios mostram que o primeiro homicídio nasceu de "a inveja, o desejo e a honra" (Avot 4:21) — as mesmas forças da queda (cap. 13). Caim foi advertido por D'us antes do ato: "à porta jaz o pecado... mas tu o dominarás" (Bereshit 4:7). Tinha livre-arbítrio; escolheu não dominar. O capítulo é, assim, um estudo da responsabilidade: ninguém é arrastado ao mal — a inclinação convida, mas a mão é nossa.

"Acaso sou o guarda do meu irmão?"

A resposta de Caim a D'us tornou-se o emblema da indiferença moral — e a tradição responde com um sonoro sim: somos, sim, guardas uns dos outros. "A voz do sangue do teu irmão clama" ensina que o crime contra um ser humano não é privado: clama ao céu. E a Mishná (Sanhedrin 4:5) extrai da forma plural "os sangues de teu irmão" que quem destrói uma vida destrói um mundo inteiro — pois cada pessoa é única.

A teshuvá de Caim e o corvo

Mesmo Caim, o primeiro assassino, encontra uma porta: "grande é a minha culpa" é lido como princípio de arrependimento, e D'us mitiga a sua pena. É a afirmação radical da tradição: nenhuma falta fecha de todo o caminho do retorno (cf. cap. 15, as quatro portas). E o fecho — o corvo que ensina Adam a sepultar — mostra D'us instruindo a humanidade, por meio da própria natureza, no respeito devido ao morto (a raiz da kevurá e do chesed shel emet do cap. 17). Do primeiro luto nasce a primeira sepultura.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 22

A geração do dilúvio: a corrupção e o aviso de Noach

פֶּרֶק כ״ב

De Shet, a linhagem dos justos; de Caim, a dos rebeldes. O capítulo descreve a corrupção que precedeu o dilúvio — e o aviso de Noach, recusado por uma geração que se julgava invencível.

1
Está escrito: "e viveu Adam cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem" (Bereshit 5:3). Daqui aprendes que Caim não era da verdadeira linhagem de Adam, nem da sua semelhança, nem da sua imagem, e que os seus atos não se assemelhavam aos de Hevel, seu irmão — até que nasceu Shet, que era da sua linhagem e da sua semelhança, e cujos atos se assemelhavam aos de Hevel, como está dito: "e gerou à sua semelhança, conforme a sua imagem".
כְּתִיב: ״וַיְחִי אָדָם שְׁלֹשִׁים וּמְאַת שָׁנָה וַיּוֹלֶד בִּדְמוּתוֹ כְּצַלְמוֹ״. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁלֹּא הָיָה קַיִן מִזַּרְעוֹ וְלֹא מִדְּמוּתוֹ וְלֹא מִצַּלְמוֹ שֶׁל אָדָם, וְלֹא מַעֲשָׂיו דּוֹמִים לְמַעֲשֵׂה הֶבֶל אָחִיו, עַד שֶׁנּוֹלַד שֵׁת שֶׁהָיָה מִזַּרְעוֹ וּדְמוּתוֹ וּמַעֲשָׂיו דּוֹמִין לְמַעֲשֵׂה הֶבֶל אָחִיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיּוֹלֶד בִּדְמוּתוֹ כְּצַלְמוֹ״.
2
Rabi Yishmael diz: de Shet subiram e descenderam todas as criaturas e todas as gerações dos justos; e de Caim subiram e descenderam todas as gerações dos ímpios, que transgridem e se rebelam, que se revoltaram contra o Onipresente e disseram: "não precisamos da gota da Tua chuva, nem de conhecer os Teus caminhos", como está dito: "e disseram a D'us: afasta-te de nós" (Iyov 21:14).
רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: מִשֵּׁת עָלוּ וְנִתְיַחֲסוּ כָּל הַבְּרִיּוֹת וְכָל דּוֹרוֹת הַצַּדִּיקִים, וּמִקַּיִן עָלוּ וְנִתְיַחֲסוּ כָּל דּוֹרוֹת הָרְשָׁעִים הַפּוֹשְׁעִים וְהַמּוֹרְדִים, שֶׁמָּרְדוּ בַּמָּקוֹם וְאָמְרוּ: ״אֵין אָנוּ צְרִיכִין לְטִפַּת גְּשָׁמֶיךָ וְלֹא לָדַעַת אֶת דְּרָכֶיךָ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמְרוּ לָאֵל סוּר מִמֶּנּוּ״.
Nota. A "imagem e semelhança" (cap. 11) reaparece aqui como categoria moral, não biológica: dizer que Caim "não era da imagem de Adam" significa que ele abandonou o que define o humano — a razão posta a serviço do bem. Shet "à semelhança" é quem retoma a vocação. As duas "linhagens" (de Shet e de Caim) são, no fundo, dois caminhos (cf. cap. 15): o da retidão e o da rebeldia que diz a D'us "afasta-te de nós".
3
Rabi Meir diz: as gerações descendentes de Caim andavam na desnudez e na devassidão — homens e mulheres como animais —, e contaminavam-se com toda imoralidade, abertamente, nas ruas, conforme a inclinação ao mal e os pensamentos do seu coração, como está dito: "e viu o Eterno que era grande a maldade do homem na terra" (Bereshit 6:5).
רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר: גִּלּוּי בָּשָׂר עֶרְוָה הָיוּ הוֹלְכִין דּוֹרוֹת שֶׁל קַיִן, הָאֲנָשִׁים וְהַנָּשִׁים כַּבְּהֵמָה, וּמְטַמְּאִין בְּכָל זְנוּת, גִּלּוּי בָּרְחוֹבוֹת בְּיֵצֶר הָרַע וּבְמַחְשְׁבוֹת לִבָּם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּרְא ה' כִּי רַבָּה רָעַת הָאָדָם בָּאָרֶץ״.
4
Rabi Yehudá haNassi diz: aqueles que a Torá chama "os que caíram do seu lugar de santidade" viram as filhas da geração de Caim andarem na desnudez, com os olhos pintados como prostitutas, e se desviaram após elas, e delas tomaram mulheres, como está dito: "e viram os filhos de Elohim as filhas do homem, que eram formosas..." (Bereshit 6:2).
רַבִּי אוֹמֵר: רָאוּ אֵלֶּה שֶׁנָּפְלוּ מִמְּקוֹם קְדֻשָּׁתָן אֶת בְּנוֹת קַיִן מְהַלְּכוֹת גְּלוּיוֹת בָּשָׂר עֶרְוָה וּמְכַחֲלוֹת עֵינֵיהֶן כְּזוֹנוֹת, וְתָעוּ אַחֲרֵיהֶן וַיִּקְחוּ מֵהֶן נָשִׁים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּרְאוּ בְנֵי הָאֱלֹהִים אֶת בְּנוֹת הָאָדָם״ וְכוּ'.
Nota — quem são os "filhos de Elohim". O midrash usa a linguagem dramática de "anjos que caíram". É essencial a leitura racionalista: para o Rambam, os anjos são intelectos separados, sem corpo, sem matéria e sem apetites — não podem, literalmente, "tomar mulheres". Por isso a tradição filosófica (e Ibn Ezra) explica "bnei ha'Elohim" como "os filhos dos poderosos/juízes" ou os descendentes nobres da linhagem de Shet que caíram moralmente ao se misturarem com a corrupção. A "queda" é uma queda ética — homens elevados que se rebaixaram —, não a fábula de seres celestes copulando. O próprio §7 nota que "bnei Elohim" é título dado também a Israel e aos justos (Devarim 14:1), confirmando o sentido humano.
5
Rabi Yehoshua ben Korchá diz: os anjos são fogo flamejante, como está dito: "Ele faz dos Seus servos fogo flamejante" (Tehilim 104:4); e o fogo não se une, na corporeidade, à carne e ao sangue sem queimar o corpo. Antes, trata-se de que, ao caírem moralmente do seu lugar de santidade, a sua força e estatura tornaram-se como as dos filhos do homem, e a sua veste como um torrão de pó, como está dito: "vestiu-se a minha carne de corrupção e de torrão de pó" (Iyov 7:5).
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה אוֹמֵר: הַמַּלְאָכִים אֵשׁ לוֹהֲטִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מְשָׁרְתָיו אֵשׁ לֹהֵט״, וְהָאֵשׁ בָּאָה בִּבְעִילָה בְּבָשָׂר וָדָם וְאֵינָהּ שׂוֹרֶפֶת אֶת הַגּוּף. אֶלָּא בְּשָׁעָה שֶׁנָּפְלוּ מִן הַשָּׁמַיִם מִמְּקוֹם קְדֻשָּׁתָן, כֹּחָן וְקוֹמָתָן כִּבְנֵי אָדָם, וּלְבוּשָׁן גּוּשׁ עָפָר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לָבַשׁ בְּשָׂרִי רִמָּה וְגוּשׁ עָפָר״.
6
Rabi Tzadok diz: deles nasceram os gigantes (anakim), que andavam com altivez de estatura, e estendiam a mão a todo roubo, violência e derramamento de sangue, como está escrito: "e ali vimos os Nefilim os filhos de Anak..." (Bemidbar 13:33); e diz: "os Nefilim estavam na terra naqueles dias" (Bereshit 6:4).
רַבִּי צָדוֹק אוֹמֵר: מֵהֶם נוֹלְדוּ הָעֲנָקִים הַמְהַלְּכִים בְּגֹבַהּ קוֹמָה, וּמְשַׁלְּחִים יָדָם בְּכָל גָּזֵל וְחָמָס וּשְׁפִיכוּת דָּמִים, דִּכְתִיב: ״וְשָׁם רָאִינוּ אֶת הַנְּפִילִים״ וְכוּ', וְאוֹמֵר: ״הַנְּפִילִים הָיוּ בָאָרֶץ״.
7
Disse Rabi Yehoshua ben Korchá: também Israel é chamado "filhos de Elohim", como está dito: "filhos sois do Eterno, vosso D'us" (Devarim 14:1). E os anjos, enquanto estavam no seu lugar de santidade nos céus, eram chamados "filhos de Elohim", como está dito: "quando juntas cantavam as estrelas da manhã, e exultavam todos os filhos de Elohim" (Iyov 38:7).
אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה: יִשְׂרָאֵל נִקְרְאוּ בְּנֵי אֱלֹהִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בָּנִים אַתֶּם לַה' אֱלֹהֵיכֶם״. וְהַמַּלְאָכִים עַד שֶׁהָיוּ בִּמְקוֹם קְדֻשָּׁתָן בַּשָּׁמַיִם נִקְרְאוּ בְּנֵי אֱלֹהִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּרָן יַחַד כּוֹכְבֵי בֹקֶר וַיָּרִיעוּ כָּל בְּנֵי אֱלֹהִים״.
8
Rabi Leví diz: geravam os seus filhos e multiplicavam-se em grande número; e as crianças logo se punham de pé, falavam a língua sagrada e dançavam diante deles, como está dito: "soltam como rebanho os seus pequeninos, e os seus filhos saltam" (Iyov 21:11).
רַבִּי לֵוִי אוֹמֵר: הָיוּ מוֹלִידִים אֶת בְּנֵיהֶן וּפָרִין וְרָבִין, וְעוֹמְדִים עַל רַגְלֵיהֶן וּמְדַבְּרִים בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ וּמְרַקְּדִים לִפְנֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יְשַׁלְּחוּ כַצֹּאן עֲוִילֵיהֶם״.
9
Disse-lhes Noach: "voltai dos vossos caminhos e das vossas más obras, para que não venha sobre vós as águas do dilúvio e não extermine toda a semente dos filhos do homem". E a geração, na sua corrupção e arrogância, recusou e zombou. Diziam: "se vierem sobre nós as águas do dilúvio, eis que somos de alta estatura, e a água não chegará ao nosso pescoço; e se subirem as águas dos abismos, eis as plantas dos nossos pés para tapar os abismos". Que fizeram? Estenderam as plantas dos pés e taparam os abismos. Que fez o Santo, bendito seja? Aqueceu as águas dos abismos, e elas escaldaram a sua carne, como está dito: "no tempo em que se aquecem, desaparecem; quando calorento, somem do seu lugar" (Iyov 6:17).
אָמַר לָהֶם נֹחַ: ״שׁוּבוּ מִדַּרְכֵיכֶם וּמִמַּעֲשֵׂיכֶם הָרָעִים, שֶׁלֹּא יָבוֹא עֲלֵיכֶם מֵי הַמַּבּוּל וְיַכְרִית כָּל זֶרַע בְּנֵי אָדָם״. אָמְרוּ: ״אִם מֵי הַמַּבּוּל יָבֹא עָלֵינוּ, הֲרֵי אָנוּ גְּבוֹהֵי קוֹמָה וְאֵין הַמַּיִם מַגִּיעִים עַד צַוָּארֵינוּ, וְאִם מֵי תְהוֹמוֹת מַעֲלֶה עָלֵינוּ, הֲרֵי פַּרְסוֹת רַגְלֵינוּ לִסְתֹּם אֶת הַתְּהוֹמוֹת״. מָה הָיוּ עוֹשִׂין? פּוֹשְׁטִין כַּפּוֹת רַגְלֵיהֶם וְסָתְמוּ אֶת כָּל הַתְּהוֹמוֹת. מָה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? הִרְתִּיחַ מֵי תְהוֹמוֹת וְהָיוּ שׁוֹלְקִין אֶת בְּשָׂרָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּעֵת יְזֹרְבוּ נִצְמָתוּ בְּחֻמּוֹ נִדְעֲכוּ מִמְּקוֹמָם״.
Nota — a arrogância que precede a queda. O retrato da geração do dilúvio é, no fundo, um estudo da soberba: gente "de alta estatura" que confia na própria força ("a água não chega ao nosso pescoço", "tapamos os abismos com os pés") e zomba do aviso. Os sábios (cf. Sanhedrin 108a) ensinam que o seu pecado central foi o chamás — a violência e o roubo —, fruto de uma sociedade sem freios morais. E Noach os adverte longamente: a destruição não é um capricho, mas a consequência recusada de gerações de aviso. A soberba que despreza o limite acaba consumida por ele.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

Dois caminhos, duas linhagens

O capítulo desenha a humanidade pré-diluviana em duas correntes: a de Shet, "à imagem", de onde vêm os justos; e a de Caim, a dos que dizem a D'us "afasta-te de nós". A "imagem" (cf. cap. 11) é entendida moralmente: ser humano de verdade é viver à altura da razão e do bem; quem a abandona "sai" da imagem. Não é determinismo de sangue — é a escolha de cada geração entre os dois caminhos (cap. 15).

Os "filhos de Elohim": uma leitura honesta

A passagem dos "filhos de Elohim" e das "filhas do homem" (Bereshit 6) é das mais debatidas. A tradição racionalista, fiel ao princípio de que os anjos são intelectos incorpóreos (Rambam), rejeita a leitura literal de seres celestes que se unem a mulheres. O sentido é humano e moral: "bnei ha'Elohim" são os nobres, os poderosos, os filhos dos juízes — ou a linhagem elevada de Shet — que "caíram" ao abandonar a retidão e usar a força para tomar o que queriam. O próprio capítulo (§7) lembra que "filhos de Elohim" é título de Israel e dos justos. A "queda dos anjos" é a queda de homens que poderiam ter sido luz.

O chamás: quando a sociedade se corrompe

Os "Nefilim/gigantes" que "estendem a mão ao roubo, à violência e ao sangue" personificam o pecado que a Torá nomeia como causa do dilúvio: "encheu-se a terra de chamás" (violência, Bereshit 6:11). Os sábios sublinham que não foi a idolatria, mas a injustiça entre as pessoas, que selou o destino daquela geração — pois a corrupção da convivência humana destrói o mundo por dentro. É o reverso do ensino dos capítulos anteriores: onde falta o chesed e a justiça, o mundo não se sustenta.

O aviso recusado

Noach adverte; a geração zomba, confiante na própria estatura. O capítulo é um retrato atemporal da soberba: a ilusão de invencibilidade ("tapamos os abismos com os pés") que despreza todo limite e todo chamado ao retorno. A tradição vê em Noach, que prega por longos anos sem ser ouvido, o paradoxo do aviso profético — dado com amor, recusado com arrogância. E a lição permanece: a porta da teshuvá estava aberta (cf. cap. 15); foi a geração que escolheu não atravessá-la.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 23

A arca e o dilúvio: o aviso, o refúgio e o arco-íris

פֶּרֶק כ״ג

Cinquenta e dois anos de aviso, uma arca que é refúgio e os animais que vêm por si; a pomba que prefere o amargo da mão de D'us; e, ao fim, o arco-íris — a promessa de que o mundo não será mais destruído.

1
"E assim a farás" (Bereshit 6:15). Ensinou Rabi Shemaiá: com o dedo o Santo, bendito seja, mostrou a Noach e lhe disse: "assim e assim farás a arca". Seguem as medidas dos compartimentos da arca, em três andares, com depósitos para o alimento e canais para a água, que se abriam e fechavam.
״וְזֶה אֲשֶׁר תַּעֲשֶׂה אוֹתָהּ״, תָּאנִי רַבִּי שְׁמַעְיָה: בְּאֶצְבַּע הֶרְאָהוּ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְנֹחַ וְאָמַר לוֹ, ״כָּזֶה וְכָזֶה תַּעֲשֶׂה לַתֵּבָה״. הֲרֵי אֵלּוּ לְאוֹצָרוֹת שֶׁל מַאֲכָל. וְהַמַּכְנִיסִים אַמַּת הַמַּיִם נִפְתָּחִים וְנִסְגָּרִים, וְכֵן בַּיָּצִיעַ הַתַּחְתּוֹנָה, וְכֵן בַּמַּעֲלָה שְׁנִיָּה, וְכֵן בַּמַּעֲלָה שְׁלִישִׁית.
2
A morada de todo gado e animal selvagem era no andar inferior; a morada de todas as aves, no andar do meio; e a morada dos répteis e dos seres humanos, no andar superior, como está dito: "com andares inferior, segundo e terceiro a farás" (Bereshit 6:16).
מְדוֹר כָּל בְּהֵמָה וְחַיָּה בַּיָּצִיעַ הַתַּחְתּוֹן. מְדוֹר לְכָל הָעוֹפוֹת בַּיָּצִיעַ הַשְּׁנִיָּה. מְדוֹר שְׁקָצִים וּרְמָשִׂים וּבְנֵי אָדָם בַּיָּצִיעַ הַשְּׁלִישִׁית, שֶׁנֶּאֱמַר: ״תַּחְתִּיִּם שְׁנִיִּם וּשְׁלִשִׁים תַּעֲשֶׂהָ״.
3
Rabi Tanchuma diz: cinquenta e dois anos Noach trabalhou na arca, para que as pessoas se arrependessem dos seus caminhos e das suas más obras — mas não se arrependeram. E, antes de vir o dilúvio, os animais impuros eram mais numerosos que os puros. Quis o Santo, bendito seja, multiplicar os puros e reduzir os impuros; chamou Noach e disse-lhe: "leva contigo à arca, de todo animal puro, sete a sete" (Bereshit 7:2).
רַבִּי תַּנְחוּמָא אוֹמֵר: חֲמִשִּׁים וּשְׁתַּיִם שָׁנָה עָשָׂה נֹחַ בַּתֵּבָה, כְּדֵי שֶׁיָּשׁוּבוּ בִּתְשׁוּבָה מִדַּרְכֵיהֶם וּמִמַּעֲשֵׂיהֶם הָרָעִים. וְעַד שֶׁלֹּא בָּא הַמַּבּוּל, הָיוּ הַטְּמֵאִין מְרֻבִּין מִן הַטְּהוֹרִים. רָצָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְהַרְבּוֹת אֶת הַטְּהוֹרִים וּלְמַעֵט אֶת הַטְּמֵאִין. קָרָא לְנֹחַ וְאָמַר לוֹ: ״הָבֵא לְךָ אֶל הַתֵּבָה מִכָּל בְּהֵמָה טְהוֹרָה שִׁבְעָה שִׁבְעָה״.
Nota — os anos de aviso. Noach construiu a arca por décadas, à vista de todos — uma pregação silenciosa que dava tempo ao arrependimento. A tradição (cf. Sanhedrin 108b) sublinha que a destruição nunca foi súbita nem inevitável: foi precedida de gerações de paciência. A porta da teshuvá esteve aberta o tempo todo (cf. cap. 15); a geração escolheu não atravessá-la.
4
Disse Noach diante do Santo, bendito seja: "tenho eu força para reuni-los a mim na arca?" Desceram todos os anjos encarregados de cada espécie e os reuniram, com todo o seu alimento. Não está escrito "e Noach trouxe", mas "e vieram a Noach" (Bereshit 7:9) — vieram por si mesmos.
אָמַר נֹחַ לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״וְכִי יֵשׁ בִּי כֹּחַ לְקַבְּצָן אֵלַי אֶל הַתֵּבָה?״ יָרְדוּ כָּל מַלְאָכִים הַמְמֻנִּים עַל כָּל מִין וָמִין וְקִבְּצוּ אוֹתָן וְכָל מְזוֹנוֹתָן. ״וַיָּבֹא נֹחַ״ אֵין כְּתִיב אֶלָּא ״וַיָּבֹאוּ אֶל נֹחַ״ – בָּאוּ מֵאֲלֵיהֶן.
5
Rabi Mana diz: quando todas as criaturas entraram na arca, o Santo, bendito seja, fechou e selou com a Sua mão a porta da arca, como está dito: "e o Eterno o fechou por dentro" (Bereshit 7:16).
רַבִּי מָנָא אוֹמֵר: כֵּיוָן שֶׁנִּכְנְסוּ כָּל הַבְּרִיּוֹת אֶל הַתֵּבָה, סָגַר וְחָתַם הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּיָדוֹ שַׁעַר הַתֵּבָה, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּסְגֹּר ה' בַּעֲדוֹ״.
6
E uma pérola estava pendurada na arca, e iluminava todas as criaturas como uma lâmpada que brilha com força, como está dito: "uma claridade (tzohar) farás à arca" (Bereshit 6:16).
וּמַרְגָּלִית אַחַת הָיְתָה תְּלוּיָה בַּתֵּבָה, וּמְאִירָה לְכָל הַבְּרִיּוֹת כְּנֵר שֶׁהוּא מֵאִיר בִּגְבוּרָתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״צֹהַר תַּעֲשֶׂה לַתֵּבָה״.
7
Rabi Tzadok diz: no décimo dia de Marcheshvan entraram todas as criaturas na arca; no décimo sétimo dele desceram as águas do dilúvio sobre a terra — as "águas masculinas" de cima — e subiram as dos abismos — as "águas femininas" de baixo —, e uniram-se umas às outras e prevaleceram para destruir o mundo, como está dito: "e as águas prevaleceram fortíssimamente sobre a terra" (Bereshit 7:19).
רַבִּי צָדוֹק אוֹמֵר: בַּעֲשָׂרָה בְמַרְחֶשְׁוָן נִכְנְסוּ כָּל הַבְּרִיּוֹת אֶל הַתֵּיבָה. בְּשִׁבְעָה עָשָׂר בּוֹ יָרְדוּ מֵי הַמַּבּוּל עַל הָאָרֶץ, שֶׁהֵן מַיִם זְכָרִים, וְעָלוּ מִן הַתְּהוֹמוֹת, שֶׁהֵן מַיִם נְקֵבוֹת, וְנִתְחַבְּרוּ אֵלּוּ עִם אֵלּוּ וְגָבְרוּ לְהַחֲרִיב אֶת הָעוֹלָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהַמַּיִם גָּבְרוּ מְאֹד מְאֹד עַל הָאָרֶץ״.
8
E foi apagado todo o ser vivente da terra, como está dito: "e apagou todo o ser que havia sobre a face do solo" (Bereshit 7:23) — exceto Noach e todos os que com ele estavam na arca. A tradição acrescenta exceções aggádicas: Og, rei de Bashan, que se agarrou à arca e jurou servir a Noach e aos seus filhos para sempre; e a Terra de Israel, sobre a qual não desceram as chuvas do dilúvio — "tu és uma terra não purificada, não chovida no dia da indignação" (Yechezkel 22:24) —, embora as águas das outras terras a tenham alcançado.
וְנִמְחוּ כָּל הַיְקוּם שֶׁבָּאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּמַח אֶת כָּל הַיְקוּם אֲשֶׁר עַל פְּנֵי הָאֲדָמָה״, חוּץ מִנֹּחַ וְכָל אֲשֶׁר אִתּוֹ בַּתֵּבָה. וְחוּץ מֵעוֹג מֶלֶךְ הַבָּשָׁן שֶׁיָּשַׁב לוֹ עַל עֵץ אֶחָד מִן הַסּוּלָמוֹת שֶׁל הַתֵּבָה, וְנִשְׁבַּע לְנֹחַ וּלְבָנָיו שֶׁיִּהְיֶה לָהֶם עֶבֶד עוֹלָם. וְחוּץ מֵאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל שֶׁלֹּא יָרְדוּ עָלֶיהָ גְּשָׁמִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בֶּן אָדָם אֱמֹר לָהּ: אַתְּ אֶרֶץ לֹא מְטֹהָרָה הִיא, לֹא גֻשְׁמָה בְּיוֹם זָעַם״.
9
Enviou Noach o corvo para saber o estado do mundo. Foi e achou um cadáver nos cumes dos montes, e pousou para se alimentar, e não cumpriu a sua missão. Enviou a pomba, e ela cumpriu a sua missão, como está dito: "e veio a ele a pomba ao entardecer, e eis uma folha de oliveira arrancada no seu bico" (Bereshit 8:11). E por que uma folha de oliveira amarga? Disse a pomba diante do Santo, bendito seja: "Senhor de todos os mundos, sejam os meus alimentos amargos como esta oliveira, mas postos na Tua mão, e não doces, postos na mão de carne e sangue". Daqui disseram: enviar uma mensagem por meio de um mensageiro impuro é como enviá-la por um tolo; e enviá-la por um puro é como enviá-la por um mensageiro fiel a quem o envia.
שָׁלַח נֹחַ אֶת הָעוֹרֵב לֵידַע מַה בָּעוֹלָם. הָלַךְ לוֹ וּמָצָא נִבְלַת אָדָם בְּרָאשֵׁי הֶהָרִים, וַיֵּשֶׁב לוֹ עַל מַאֲכָלוֹ וְלֹא הֵשִׁיב שְׁלִיחוּתוֹ. שָׁלַח אֶת הַיּוֹנָה וְהֵשִׁיבָה שְׁלִיחוּתָהּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתָּבֹא אֵלָיו הַיּוֹנָה לְעֵת עֶרֶב וְהִנֵּה עֲלֵה זַיִת טָרָף בְּפִיהָ״. וְלָמָּה עֲלֵה זַיִת? אֶלָּא אָמְרָה הַיּוֹנָה: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, יִהְיוּ מְזוֹנוֹתַי מְרוֹרִין כַּזַּיִת הַזֶּה וּנְתוּנִים בְּיָדֶיךָ, וְאַל יִהְיוּ מְתוּקִים וּנְתוּנִים בְּיַד בָּשָׂר וָדָם״. מִכָּאן אָמְרוּ: שׁוֹלֵחַ דְּבָרִים בְּיַד טָמֵא כְּשׁוֹלֵחַ בְּיַד כְּסִיל, וְשׁוֹלֵחַ בְּיַד טָהוֹר כְּשׁוֹלֵחַ בְּיַד צִיר נֶאֱמָן.
Nota — a pomba e a oliveira. A frase da pomba é uma das mais belas do livro: prefere alimento amargo da mão de D'us ao doce da mão humana. É um ideal de bitachon e de dignidade: melhor o pouco honesto e direto do Alto do que o muito que depende do favor incerto dos homens. E o contraste corvo/pomba ensina o valor do mensageiro fiel — quem cumpre o que lhe é confiado, em vez de se distrair com o próprio apetite.
10
Rabi Tzadok diz: doze meses estiveram todas as criaturas na arca, e Noach orava diante do Santo, bendito seja: "Senhor de todos os mundos, tira-me deste cárcere, pois a minha alma desfalece com o cheiro dos leões, dos ursos e das panteras; e todos os justos Te coroarão por me teres tirado deste cárcere", como está dito: "tira da prisão a minha alma, para que eu louve o Teu nome; os justos me coroarão, pois me terás feito bem" (Tehilim 142:8).
רַבִּי צָדוֹק אוֹמֵר: שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ עָשׂוּ כָל הַבְּרִיּוֹת בַּתֵּבָה, וְהָיָה נֹחַ עוֹמֵד וּמִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאוֹמֵר: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, הוֹצִיאֵנִי מִן הַמַּסְגֵּר הַזֶּה, כִּי עָיְפָה נַפְשִׁי מֵרֵיחַ אֲרָיוֹת וְדֻבִּים וּנְמֵרִים, וְיַכְתִּירוּ לְךָ כָּל הַצַּדִּיקִים״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הוֹצִיאָה מִמַּסְגֵּר נַפְשִׁי לְהוֹדוֹת אֶת שְׁמֶךָ, בִּי יַכְתִּרוּ צַדִּיקִים כִּי תִגְמֹל עָלָי״.
11
Rabi Levitás, homem de Yavne, diz: todos os que entraram na arca, Noach separou os machos das fêmeas, como está dito: "e entrou Noach, e seus filhos, e sua mulher, e as mulheres de seus filhos" (Bereshit 7:7) — eis os machos de um lado e as fêmeas de outro um sinal de contenção e luto enquanto o mundo perecia. E, quando saíram, reuniu os machos com as fêmeas, como está dito: "sai da arca, tu, e tua mulher, e teus filhos, e as mulheres de teus filhos contigo" (Bereshit 8:16) — eis o homem com a sua mulher. E os abençoou D'us a frutificar e multiplicar-se na terra (Bereshit 9:1).
רַבִּי לְוִיטָס אִישׁ יַבְנֶה אוֹמֵר: כָּל הַבָּאִים אֶל הַתֵּבָה הִפְרִישׁ זְכָרִים מִן הַנְּקֵבוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּבֹא נֹחַ וּבָנָיו וְאִשְׁתּוֹ וּנְשֵׁי בָנָיו״. וּכְשֶׁיָּצְאוּ הִצְמִיד זְכָרִים בְּצַד נְקֵבוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״צֵא מִן הַתֵּבָה אַתָּה וְאִשְׁתְּךָ וּבָנֶיךָ וּנְשֵׁי בָנֶיךָ״. וַיְבָרֵךְ אוֹתָם אֱלֹהִים לִפְרוֹת וְלִרְבּוֹת בָּאָרֶץ.
12
Achou Noach uma videira que fora expulsa do Gan Éden, com os seus cachos; tomou dos seus frutos, comeu, e a desejou no coração, e plantou dela uma vinha na terra. No mesmo dia ela brotou e amadureceu os seus frutos. Bebeu do seu vinho e desnudou-se dentro da tenda. Cham e Canaã agiram com gravíssima desonra contra o pai; Cham viu a nudez do pai e não guardou no coração a mitsvá de honrar o pai, e saiu a contá-lo aos irmãos no mercado, como quem zomba do próprio pai. Repreenderam-no os seus irmãos Shem e Yefet, tomaram uma veste, andaram de costas e cobriram a nudez do pai, como está dito: "e tomaram Shem e Yefet a veste..." (Bereshit 9:23).
מָצָא נֹחַ גֶּפֶן שֶׁגֹּרְשָׁה וְיָצְאָה מִגַּן עֵדֶן וְאֶשְׁכּוֹלוֹתֶיהָ עִמָּהּ. נָטַל מִפֵּרוֹתֶיהָ וְאָכַל וְחָמַד אוֹתָם בְּלִבּוֹ וְנָטַע מִמֶּנָּה כֶּרֶם בָּאָרֶץ. בּוֹ בַיּוֹם נִשְׂתַּגְשְׂגוּ פֵּרוֹתֶיהָ. שָׁתָה מִמֶּנָּה יַיִן וְנִתְגַּל בְּתוֹךְ הָאֹהֶל. נִכְנַס חָם וּמָצָא לְעֶרְוַת אָבִיו וְלֹא שָׂם עַל לִבּוֹ מִצְוַת כִּבּוּד אָב. יָצָא וְהִגִּיד לִשְׁנֵי אֶחָיו בַּשּׁוּק כִּמְשַׂחֵק בְּאָבִיו. גָּעֲרוּ בּוֹ אֶחָיו וְלָקְחוּ כְּסוּת עִמָּהֶם וְהָלְכוּ לָהֶם אֲחוֹרַנִּית וְכִסּוּ אֶת עֶרְוַת אֲבִיהֶן, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּקַּח שֵׁם וָיֶפֶת אֶת הַשִּׂמְלָה״ וְכוּ'.
Nota. O contraste é a lição: diante da fraqueza do pai, Cham expõe e zomba; Shem e Yefet cobrem e honram, andando de costas para não ver. A Torá faz disso o paradigma do kibud av (cap. 16 sobre a honra) e da discrição: o amor cobre a vergonha do outro; a maldade a divulga. E a queda de Noach é também um aviso sóbrio sobre o vinho — o mesmo justo que salvou o mundo tropeça na embriaguez.
13
Sentou-se Noach e meditou no coração: "o Santo, bendito seja, salvou-me das águas do dilúvio e tirou-me daquele cárcere — e não devo oferecer diante Dele um sacrifício?" De imediato trouxe Noach, dos animais puros, boi, cordeiro e cabra, e das aves puras, rolas e pombos, e edificou o altar — o primeiro altar, sobre o qual Caim e Hevel haviam oferecido — e ofereceu oferendas de elevação (Bereshit 8:20). E subiu um aroma agradável diante do Santo, bendito seja, como está dito: "e aspirou o Eterno o aroma agradável" (Bereshit 8:21). Que fez o Santo, bendito seja? Estendeu a Sua mão direita e jurou a Noach não trazer mais águas de dilúvio sobre a terra, como está dito: "pois isto é para Mim como as águas de Noach: assim como jurei que não passariam mais sobre a terra..." (Yeshayahu 54:9); e deu o arco-íris por sinal de aliança, como está dito: "o Meu arco pus na nuvem, e será por sinal de aliança" (Bereshit 9:13).
יָשַׁב נֹחַ וְדָרַשׁ בְּלִבּוֹ וְאָמַר: ״הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא הִצִּילַנִי מִמֵּי הַמַּבּוּל וְהוֹצִיאַנִי מִן הַמַּסְגֵּר הַהוּא, וְאֵינִי חַיָּב לְהַקְרִיב לְפָנָיו קָרְבָּן?״ מִיָּד הֵבִיא נֹחַ מִמִּין בְּהֵמָה טְהוֹרָה שׁוֹר וְכֶשֶׂב וָעֵז, מִמִּין עוֹף טָהוֹר תּוֹרִים וּבְנֵי יוֹנָה, וּבָנָה אֶת הַמִּזְבֵּחַ הָרִאשׁוֹן שֶׁהִקְרִיב עָלָיו עוֹלוֹת קַיִן וְהֶבֶל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּבֶן נֹחַ מִזְבֵּחַ לַה'״, וְעָלָה רֵיחַ נִיחוֹחַ לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּרַח ה' אֶת רֵיחַ הַנִּיחֹחַ״. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? פָּשַׁט יַד יְמִינוֹ וְנִשְׁבַּע לוֹ שֶׁלֹּא לְהָבִיא מֵי הַמַּבּוּל עוֹד עַל הָאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי מֵי נֹחַ זֹאת לִי אֲשֶׁר נִשְׁבַּעְתִּי״, וְנָתַן קֶשֶׁת לְאוֹת בְּרִית, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֶת קַשְׁתִּי נָתַתִּי בֶּעָנָן וְהָיְתָה לְאוֹת בְּרִית״.
14
E instituíram os sábios que se mencione a aliança a promessa de Noach todos os dias, como está dito: "para que se multipliquem os vossos dias e os dias dos vossos filhos sobre o solo que o Eterno jurou aos vossos pais" (Devarim 11:21).
וְהִתְקִינוּ חֲכָמִים שֶׁיְּהוּ מַזְכִּירִין שְׁבוּעַת נֹחַ בְּכָל יוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לְמַעַן יִרְבּוּ יְמֵיכֶם וִימֵי בְנֵיכֶם עַל הָאֲדָמָה״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A arca como refúgio — e a paciência divina

A arca não é só um navio: é a imagem do refúgio preparado por D'us em meio ao juízo, iluminado por uma luz própria (o tzohar). E os longos anos de construção mostram a paciência divina — o aviso dado por gerações, a porta da teshuvá aberta até o fim. Os sábios extraem daqui que a destruição nunca é arbitrária: é a consequência longamente adiada de um mal que se recusou a mudar.

O corvo e a pomba: o mensageiro fiel

O corvo distrai-se com o cadáver e falha; a pomba cumpre a missão e traz a folha de oliveira. E a fala da pomba — preferir o amargo da mão de D'us ao doce da mão humana — tornou-se um lema de bitachon e dignidade. Daqui os sábios ensinam o valor do shaliach ne'eman, o emissário fiel: quem antepõe a tarefa ao próprio apetite.

Noach e o vinho: a queda do justo

O capítulo não esconde a fragilidade do herói: o mesmo Noach que salvou a vida tropeça na embriaguez. E o episódio com os filhos ensina, por contraste, a ética da discrição e da honra: Cham expõe e zomba; Shem e Yefet cobrem e respeitam. O amor cobre a falta do próximo (cf. Mishlê 10:12); a maldade a divulga. É um aviso atemporal sobre o poder do vinho e sobre o modo de tratar a fraqueza alheia.

O arco-íris: a aliança de não destruir

O clímax é a aliança do arco-íris — a promessa divina de que o mundo não será mais destruído pelas águas. Para a tradição, o arco é um sinal de misericórdia e compromisso: D'us "ata as Suas mãos", por assim dizer, ligando-Se à continuidade do mundo. E os sábios fazem lembrar essa promessa "todos os dias" — porque ela funda a esperança de que a história tem futuro, e que o Criador não abandona a Sua criação.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 24

Nimrod e a Torre de Bavel: a rebelião e a escolha de Avraham

פֶּרֶק כ״ד

A humanidade reunida em torno de uma torre que pretende "subir ao céu" — e a soberba que se dispersa em mil línguas. No meio do tumulto, um homem ergue a voz: Avram, que reconhece o Criador.

1
Abençoou Noach os seus filhos, como está dito: "e D'us os abençoou" (Bereshit 9:1), e deu-lhes em herança toda a terra: a Shem e aos seus filhos, a terra habitada e central; a Cham e aos seus filhos, as terras do litoral e do sul; a Yefet e aos seus filhos, as terras do norte e os campos. Estas são as heranças que lhes deu. O texto descreve também a aparência das linhagens conforme as suas regiões — leia-se a nota abaixo.
בֵּרַךְ נֹחַ וּבָנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְבָרֶךְ אֹתָם אֱלֹהִים״, בְּמַתְּנוֹתֵיהֶם וְהִנְחִילָם אֶת כָּל הָאָרֶץ. בֵּרַךְ לְשֵׁם וּלְבָנָיו, וְהִנְחִילָם אֶת כָּל אֶרֶץ נוֹשֶׁבֶת. בֵּרַךְ לְחָם וּבָנָיו, וְהִנְחִילָם חוֹף הַיָּם. בֵּרַךְ לְיֶפֶת וּבָנָיו, וְהִנְחִילָם מִדְבָּר וְשָׂדוֹת. אֵלֶּה הַנַּחֲלוֹת שֶׁהִנְחִילָם.
Nota — leitura honesta e necessária. O texto deste midrash descreve as três linhagens (Shem, Cham, Yefet) também por traços físicos ligados às regiões que herdaram, e a tradição associou a Cham/Canaã a "maldição do escravo" (Bereshit 9:25, a maldição específica de Canaã após o ato narrado no cap. 23). É preciso dizer com toda a clareza: isto NÃO é uma doutrina de hierarquia racial. Trata-se de uma etnografia antiga — o modo como o mundo de então explicava a divisão dos povos pela terra (a "tábua das nações", Bereshit 10) — e de uma maldição dirigida a uma linhagem específica por um ato moral, não à cor da pele de ninguém. O princípio da Torá, que esta tradição também ensina, é o oposto de qualquer racismo: toda a humanidade descende de um só Adam, formado "do pó dos quatro cantos do mundo" e de várias cores (cap. 11), e cada pessoa é igualmente criada à imagem de D'us (Bereshit 1:27; Avot 3:14) — "para que ninguém diga: meu pai é maior que o teu" (Mishná Sanhedrin 4:5). Trechos como este foram tragicamente distorcidos na história para justificar a escravidão e o ódio — uma distorção que os próprios fundamentos da Torá condenam.
2
Rabi Elai diz: geravam os seus filhos e multiplicavam-se em grande número, e eram todos "um só povo, um só coração, uma só língua e palavras comuns". E desprezaram a terra agradável, como está dito: "e sucedeu que, partindo do oriente..." (Bereshit 11:2). Foram à terra de Shinar e acharam uma terra grande, espaçosa e toda plana, e ali habitaram, como está dito: "e acharam uma planície na terra de Shinar, e ali habitaram" (Bereshit 11:2).
רַבִּי אֶלְעָאי אוֹמֵר: הָיוּ מוֹלִידִין אֶת בְּנֵיהֶם וּפָרִין וְרָבִין, וְהָיוּ כֻלָּם עַם אֶחָד וְלֵב אֶחָד וְשָׂפָה אַחַת וּדְבָרִים אֲחָדִים. וּמָאֲסוּ אֶרֶץ חֶמְדָּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי בְּנָסְעָם מִקֶּדֶם״. הָלְכוּ לְאֶרֶץ שִׁנְעָר וּמָצְאוּ אֶרֶץ גְּדוֹלָה וְרַחֲבַת יָדַיִם וְכֻלָּהּ מִישׁוֹר, וַיֵּשְׁבוּ שָׁם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּמְצְאוּ בִקְעָה בְּאֶרֶץ שִׁנְעָר וַיֵּשְׁבוּ שָׁם״.
3
Rabi Akivá diz: lançaram de si o jugo do Reino dos Céus e fizeram reinar sobre si Nimrod. E "ai da terra quando sobre ela reina um senhor injusto", como está dito: "debaixo do servo, quando reina e do néscio, quando se farta de pão" (Mishlê 30:22).
רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר: הִשְׁלִיכוּ מַלְכוּת שָׁמַיִם מֵעֲלֵיהֶם וְהִמְלִיכוּ עֲלֵיהֶם, וְאוֹי לָאָרֶץ שֶׁיִּמְלֹךְ עָלֶיהָ עֶבֶד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״תַּחַת עֶבֶד כִּי יִמְלוֹךְ״.
4
Rabi Chanina diz: Nimrod era um valente de força, como está dito: "e Cush gerou Nimrod" (Bereshit 10:8). Rabi Yehudá diz: a túnica que o Santo, bendito seja, fez para Adam e a sua mulher estava com eles na arca; e, quando saíram dela, tomou-a Cham e a transmitiu a Nimrod. E, na hora em que Nimrod a vestia, todo gado, animal selvagem e ave vinham e caíam diante dele, supondo que era pela força do seu poder; por isso o fizeram rei sobre si, como está dito: "por isso se diz: como Nimrod, valente caçador diante do Eterno" (Bereshit 10:9).
רַבִּי חֲנִינָא אוֹמֵר: נִמְרוֹד גִּבּוֹר כֹּחַ הָיָה, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְכוּשׁ יָלַד אֶת נִמְרֹד״. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: הַכֻּתֹּנֶת שֶׁעָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְאָדָם וּלְאִשְׁתּוֹ הָיְתָה עִמָּם בַּתֵּיבָה. וּכְשֶׁיָּצְאוּ, לְקָחָהּ חָם וְהִנְחִילָהּ לְנִמְרוֹד. וּבְשָׁעָה שֶׁהָיָה לוֹבֵשׁ אוֹתָהּ, הָיוּ כָּל בְּהֵמָה חַיָּה וָעוֹף בָּאִין וְנוֹפְלִין לְפָנָיו, כִּסְבוּרִין שֶׁהוּא מִכֹּחַ גְּבוּרָתוֹ. לְפִיכָךְ הִמְלִיכוּהוּ עֲלֵיהֶם מֶלֶךְ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עַל כֵּן יֵאָמַר כְּנִמְרֹד גִּבּוֹר צַיִד לִפְנֵי ה'״.
5
Disse Nimrod ao seu povo: "vinde, edifiquemos para nós uma grande cidade e habitemos nela, para que não nos espalhemos sobre a face de toda a terra como os primeiros da geração do dilúvio; e edifiquemos uma grande torre no seu meio, e subamos ao céu — pois a força do Santo, bendito seja, está só na água — e façamos para nós um grande nome na terra", como está dito: "e façamos para nós um nome" (Bereshit 11:4).
אָמַר נִמְרוֹד לְעַמּוֹ: ״בֹּאוּ נִבְנֶה לָנוּ עִיר גְּדוֹלָה וְנֵשֵׁב שָׁם בְּתוֹכָהּ, פֶּן נָפוּץ עַל פְּנֵי כָל הָאָרֶץ כָּרִאשׁוֹנִים. וְנִבְנֶה מִגְדָּל גָּדוֹל בְּתוֹכָהּ וְנַעֲלֶה לַשָּׁמַיִם, שֶׁאֵין כֹּחוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶלָּא בַּמַּיִם, וְנִקְנֶה לָנוּ שֵׁם גָּדוֹל בָּאָרֶץ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְנַעֲשֶׂה לָּנוּ שֵׁם״.
Nota — o pecado da torre. O erro de Bavel não foi a tecnologia, mas a soberba: "façamos para nós um nome" — a glória do homem posta no lugar de D'us. Nimrod ("o rebelde") personifica o poder que "lança de si o jugo do Céu". A torre é a tentativa de "subir aos céus" pela própria força e desafiar o Criador — e a sua queda mostra o limite de toda arrogância humana, como na geração do dilúvio (cap. 22).
6
Rabi Pinchás diz: não havia ali pedras para edificar a cidade e a torre. Que fizeram? Moldavam tijolos e os queimavam como o oleiro faz com o barro, até a construírem com setenta milhas de altura. E tinha rampas a leste e a oeste: os que subiam os tijolos subiam pelo lado leste, e os que desciam, pelo lado oeste. E, se um homem caía e morria, não davam atenção a ele; mas, se caía um tijolo, sentavam-se, choravam e diziam: "ai de nós! Quando subirá outro em seu lugar?"
רַבִּי פִּנְחָס אוֹמֵר: לֹא הָיוּ שָׁם אֲבָנִים לִבְנוֹת אֶת הָעִיר וְאֶת הַמִּגְדָּל. מָה הָיוּ עוֹשִׂין? הָיוּ מְלַבְּנִים לְבֵנִים וְשׂוֹרְפִין אוֹתָן כְּיוֹצֵר חֶרֶשׂ, עַד שֶׁבָּנוּ אוֹתוֹ גָּבוֹהַּ שִׁבְעִים מִיל. וּמַעֲלוֹת הָיוּ לוֹ מִמִּזְרָחוֹ וּמִמַּעֲרָבוֹ. אֵלּוּ שֶׁהָיוּ מַעֲלִין אֶת הַלְּבֵנִים הָיוּ עוֹלִים מִמִּזְרָחוֹ, וְאֵלּוּ שֶׁהָיוּ יוֹרְדִין מִמַּעֲרָבוֹ. וְאִם נָפַל אָדָם וָמֵת, לֹא שָׂמוּ אֶת לִבָּם עָלָיו. וְאִם נָפְלָה לְבֵנָה אַחַת, הָיוּ יוֹשְׁבִין וּבוֹכִין וְאוֹמְרִין: ״אוֹי לָנוּ! אֵימָתַי תַּעֲלֶה אַחֶרֶת תַּחְתֶּיהָ?״
Nota — a vida que vale menos que um tijolo. Eis o coração ético do midrash: numa sociedade obcecada com o seu "grande projeto", choravam por um tijolo caído e ignoravam o ser humano morto. Os sábios denunciam aí a perversão de toda tirania e de todo idolatria do progresso: quando a obra coletiva vale mais que a pessoa, a "imagem de D'us" foi esquecida. É o oposto exato de "quem destrói uma vida destrói um mundo" (Sanhedrin 4:5).
7
E passou Avram, filho de Térach, e os viu construindo a cidade, e os repreendeu em nome do seu D'us, e disse: "confunde, ó Eterno, divide a sua língua" (Tehilim 55:10). Mas eles desprezaram a sua palavra como se despreza uma pedra lançada ao chão. Ora, toda pedra escolhida e boa não se põe senão nos cantos esquinas do edifício? E sobre ele Avram diz o versículo: "a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se cabeça de esquina" (Tehilim 118:22).
וְעָבַר אַבְרָם בֶּן תֶּרַח וְרָאָה אוֹתָם בּוֹנִים אֶת הָעִיר, וְקִלְּלָם בְּשֵׁם אֱלֹהָיו וְאָמַר: ״בַּלַּע ה' פַּלַּג לְשׁוֹנָם״. וּמָאֲסוּ אֶת דְּבָרוֹ כְּאֶבֶן מֻשְׁלָךְ עַל גַּבֵּי קַרְקַע. וַהֲלֹא כָּל אֶבֶן בָּחוּר וְטוֹב אֵין נוֹתְנִים אוֹתוֹ אֶלָּא עַל פִּנּוֹת הַבַּיִת? וְעָלָיו הַכָּתוּב אוֹמֵר: ״אֶבֶן מָאֲסוּ הַבּוֹנִים״ וְכוּ'.
8
Rabi Shimon diz: chamou o Santo, bendito seja, os setenta anjos que rodeiam o trono da Sua glória e disse-lhes: "vinde, e confundamos a sua língua".
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: קָרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְשִׁבְעִים מַלְאָכִים הַמְּסוֹבְבִים כִּסֵּא כְּבוֹדוֹ וְאָמַר לָהֶם: ״בֹּאוּ וּנְבַלְבֵּל אֶת לְשׁוֹנָם״.
9
E de onde sabemos que o Santo, bendito seja, falou a eles no plural? Do que está dito: "vinde, desçamos" (Bereshit 11:7) — não está escrito "descerei", mas "desçamos". E de onde sabemos que lançou sortes entre eles as nações? Do que está dito: "quando o Altíssimo deu às nações a sua herança" (Devarim 32:8); e a sorte do Santo, bendito seja, caiu sobre Avraham e a sua descendência, como está dito: "pois a porção do Eterno é o Seu povo" (Devarim 32:9).
וּמִנַּיִן שֶׁהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא יָרַד אֲלֵיהֶם? שֶׁנֶּאֱמַר: ״הָבָה נֵרְדָה״. ״אֵרְדָה״ אֵין כְּתִיב, אֶלָּא ״נֵרְדָה״. וּמִנַּיִן שֶׁהִפִּיל גּוֹרָלוֹת בֵּינֵיהֶם? שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּהַנְחֵל עֶלְיוֹן גּוֹיִם״. וְנָפַל גּוֹרָלוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל אַבְרָהָם וְעַל זַרְעוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי חֵלֶק ה' עַמּוֹ״.
10
Disse o Santo, bendito seja: "esta porção e sorte que Me coube, deleitou-se a Minha alma", como está dito: "as cordas da medição me caíram em lugares agradáveis" (Tehilim 16:6). E desceu o Santo, bendito seja, com os setenta anjos que rodeiam o trono da Sua glória, e confundiu a sua língua em setenta nações e setenta línguas — cada uma com a sua nação, a sua escrita e a sua língua —, e designou um anjo ministro sobre cada nação; e Israel coube na Sua porção e na Sua parte. De onde sabemos que o Santo, bendito seja, desceu? Do que está dito: "e desceu o Eterno para ver a cidade e a torre" (Bereshit 11:5) — e esta foi a segunda "descida".
אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״חֶבֶל וְגוֹרָל זֶה שֶׁנָּפַל עָלַי, רָצְתָה נַפְשִׁי״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״חֲבָלִים נָפְלוּ לִי בַּנְּעִימִים״. וְיָרַד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְשִׁבְעִים הַמַּלְאָכִים, וּבִלְבֵּל אֶת לְשׁוֹנָם לְשִׁבְעִים גּוֹיִם וּלְשִׁבְעִים לָשׁוֹן, כָּל אֶחָד וְאֶחָד גּוֹי וּכְתָבוֹ וּלְשׁוֹנוֹ, וּמִנָּה מַלְאָךְ עַל כָּל אֻמָּה וְאֻמָּה. וְיִשְׂרָאֵל נָפַל בְּחֶלְקוֹ וְחֶבְלוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי חֵלֶק ה' עַמּוֹ״. וּמִנַּיִן שֶׁיָּרַד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּרֶד ה' לִרְאוֹת אֶת הָעִיר וְאֶת הַמִּגְדָּל״, וְזוֹ יְרִידָה שְׁנִיָּה.
11
E queriam falar um ao outro na língua sagrada comum, e já não reconheciam a língua um do outro. Que fizeram? Cada um tomou a sua espada, e guerrearam uns com os outros para destruir, e metade do mundo ali caiu pela espada. E dali os dispersou o Eterno sobre a face de toda a terra, como está dito: "e dali os dispersou o Eterno sobre a face de toda a terra" (Bereshit 11:8).
וְהָיוּ רוֹצִין לְדַבֵּר אִישׁ אֶל רֵעֵהוּ בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ וְלֹא מַכִּירִין אִישׁ לְשׁוֹן רֵעֵהוּ. מֶה עָשׂוּ? לָקַח אִישׁ חַרְבּוֹ וְנִלְחֲמוּ אֵלּוּ עִם אֵלּוּ לְהַשְׁחִית, וַחֲצִי הָעוֹלָם שָׁם נָפְלוּ בֶּחָרֶב. וּמִשָּׁם הֱפִיצָם ה' עַל פְּנֵי כָל הָאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּפֶץ ה' אֹתָם מִשָּׁם עַל פְּנֵי כָל הָאָרֶץ״.
12
Rabi Meir diz: Essav, irmão de Yaakov, viu a túnica de Adam que estava com Nimrod, e a desejou no coração, e o matou, e a tomou dele. E de onde sabemos que eram desejáveis aos seus olhos? Do que está dito: "e tomou Rivká as vestes de Essav, seu filho mais velho, as preciosas" (Bereshit 27:15). E, quando as vestia, tornava-se também ele um aparente valente, como está dito: "e foi Essav homem perito na caça" (Bereshit 25:27). E, quando Yaakov saiu de diante de Yitzchak, seu pai com as bênçãos, disse: "não é digno o ímpio Essav de vestir esta túnica", e cavou e a escondeu na terra, como está dito: "escondido na terra está o seu laço" (Iyov 18:10).
רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר: עֵשָׂו אָחִיו שֶׁל יַעֲקֹב רָאָה אֶת הַכֻּתֹּנֶת שֶׁעָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְאָדָם וְחַוָּה עַל נִמְרוֹד, וְחָמַד אוֹתָם בְּלִבּוֹ וַהֲרָגוֹ וְלָקַח אוֹתָהּ מִמֶּנּוּ. וּמִנַּיִן שֶׁהָיוּ חֲמוּדוֹת בְּעֵינָיו? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתִּקַּח רִבְקָה אֶת בִּגְדֵי עֵשָׂו בְּנָהּ הַגָּדֹל הַחֲמֻדֹת״. וּכְשֶׁלָּבַשׁ אוֹתָם נַעֲשָׂה גַּם הוּא גִּבּוֹר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי עֵשָׂו אִישׁ יֹדֵעַ צַיִד״. וּכְשֶׁבָּא יַעֲקֹב, אָמַר: ״אֵין עֵשָׂו הָרָשָׁע רָאוּי לִלְבֹּשׁ אֶת הַכֻּתֹּנֶת הַלָּזֶה״, וְחָפַר וּטְמָנָם שָׁם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״טָמוּן בָּאָרֶץ חַבְלוֹ״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A divisão dos povos — e a unidade da humanidade

O capítulo abre com a "tábua das nações" (Bereshit 10) em forma midráshica: a distribuição da terra entre as três linhagens de Noach. É etnografia antiga, não doutrina racial — e a leitura honesta (ver a nota ao §1) exige dizer que os fundamentos da Torá afirmam a unidade e a igual dignidade de todos: um só Adam, todos à imagem de D'us. Quem usou estes textos para justificar racismo ou escravidão traiu o seu próprio ensino. A diversidade dos povos é fato da história; a hierarquia entre eles, não.

Bavel: a soberba que se confunde

O pecado de Bavel é a idolatria do "nome": "façamos para nós um nome", erguendo uma torre "para subir ao céu" e desafiar D'us. Nimrod (o "rebelde") é o tipo do poder que "lança de si o jugo do Céu". E o detalhe mais agudo — chorar por um tijolo caído e ignorar o homem que morreu — denuncia toda sociedade que idolatra a sua obra e despreza a pessoa. A confusão das línguas é a consequência natural: a unidade fundada na arrogância não se sustenta.

Avram: a pedra rejeitada

No meio do tumulto, surge Avram, que "repreende em nome do seu D'us" e é desprezado "como uma pedra lançada ao chão". Os sábios aplicam-lhe "a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se cabeça de esquina" (Tehilim 118:22): o que a geração de Bavel descartou — o reconhecimento do Criador — torna-se o alicerce de tudo. Avram é a resposta a Nimrod: contra a soberba do "nome" humano, o homem que faz conhecido o Nome de D'us.

"A porção do Eterno é o Seu povo"

O capítulo lê a dispersão de Bavel junto com Devarim 32:8-9: ao dividir as nações, "a sorte do Santo coube sobre Avraham". Não como privilégio, mas como vocação (cf. o ensaio "O povo escolhido"): de um mundo que se fragmentou em busca de um nome próprio, D'us escolhe uma família que levará o Seu Nome — e, por meio dela, a bênção a "todas as famílias da terra" (Bereshit 12:3). Da torre que cai nasce o chamado de Avraham.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 25

O pecado de Sodoma: a riqueza sem bondade

פֶּרֶק כ״ה

Uma terra riquíssima onde dar pão a um pobre era crime. O pecado de Sodoma não foi a falta de bens, mas a crueldade erguida em lei — e o seu contraste é a hospitalidade de Avraham, que faz do lar uma casa aberta.

1
A terceira "descida" de D'us foi sobre Sodoma, como está dito: "descerei agora e verei" (Bereshit 18:21). Disse o Santo, bendito seja: "uma coisa grande que estou para fazer — não a contarei a Avraham, Meu amigo?", como está dito: "e o Eterno disse: acaso encobrirei de Avraham o que vou fazer?" (Bereshit 18:17). Rabi Chanina ben Dossa diz: revelou-se o Santo, bendito seja, e três anjos a Avraham, nosso pai, como está dito: "e ergueu os olhos, e viu, e eis três homens" (Bereshit 18:2). Começou o anjo a anunciar-lhe a concepção de Sará, sua mulher (Bereshit 18:10); e depois lhe contou o destino de Sodoma, como está dito: "e disse o Eterno: o clamor de Sodoma e Amorá é grande" (Bereshit 18:20).
יְרִידָה שְׁלִישִׁית שֶׁיָּרַד לִסְדֹם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֵרְדָה נָּא וְאֶרְאֶה״. אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״דָּבָר גָּדוֹל שֶׁאֲנִי עָתִיד לַעֲשׂוֹת, אֵינִי מַגִּיד לְאַבְרָהָם אוֹהֲבִי?״ שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַה' אָמַר הַמְכַסֶּה אֲנִי מֵאַבְרָהָם״. רַבִּי חֲנִינָא בֶּן דּוֹסָא אוֹמֵר: נִגְלָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וּשְׁלֹשָׁה מַלְאָכִים עַל אַבְרָהָם אָבִינוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשָּׂא אֶת עֵינָיו וַיַּרְא וְהִנֵּה שְׁלֹשָׁה אֲנָשִׁים״. הִתְחִיל מְבַשֵּׂר אוֹתוֹ עַל הֵרָיוֹן שָׂרָה אִשְׁתּוֹ, וְאַחַר כָּךְ הִגִּיד לוֹ אֶת מַעֲשֵׂה סְדֹם.
2
Daqui aprendes que todo aquele que quer dizer ao seu companheiro algo que lhe é desagradável começa com uma coisa boa e termina com a desagradável. De onde aprendemos? Do Santo, bendito seja, que, ao revelar-Se a Avraham, primeiro lhe anunciou a boa-nova da concepção de Sará, e só depois lhe contou o destino de Sodoma. E Avraham começou a pedir e a suplicar diante Dele: "Senhor dos mundos, será a morte do justo como a do ímpio? Destruirás o justo com o ímpio?" (Bereshit 18:23). Disse-lhe o Santo, bendito seja: "Avraham, pelo mérito dos justos perdoarei Sodoma", como está dito: "se eu achar em Sodoma cinquenta justos, perdoarei a todo o lugar por causa deles" (Bereshit 18:26).
מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁכָּל מִי שֶׁרוֹצֶה לְדַבֵּר עִם חֲבֵרוֹ דָּבָר שֶׁהוּא לוֹ גְּנַאי, מַתְחִיל בְּדָבָר טוֹב וְגוֹמֵר בְּדָבָר רַע. מִנַּיִן אָנוּ לְמֵדִין? מֵהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, שֶׁנִּגְלָה עַל אַבְרָהָם אָבִינוּ. הִתְחִיל מְבַשֵּׂר אוֹתוֹ עַל הֵרָיוֹן אִשְׁתּוֹ שָׂרָה, וְאַחַר כָּךְ הִגִּיד אֶת מַעֲשֵׂה סְדוֹם. הִתְחִיל מְבַקֵּשׁ וּמִתְחַנֵּן לְפָנָיו: ״רִבּוֹן הָעוֹלָמִים, כְּמוֹת רָשָׁע כֵּן מוֹת צַדִּיק? הַאַף תִּסְפֶּה צַדִּיק עִם רָשָׁע?״ אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״אַבְרָהָם, בִּזְכוּת צַדִּיק אֶסְלַח לִסְדוֹם״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אִם אֶמְצָא בִסְדֹם חֲמִשִּׁים צַדִּיקִם, אֶסְלַח לָהּ עַל כָּל עֲוֹנוֹתֶיהָ״.
Nota — a arte de falar e de interceder. Os sábios extraem do próprio modo de D'us uma lição de tato: comunicar primeiro o bem, depois o difícil. E a intercessão de Avraham por Sodoma — uma cidade que o detestava — é o paradigma da compaixão universal: ele suplica pelos ímpios, descendo de cinquenta a dez justos. Daqui os sábios dizem que o mundo se sustenta pelo mérito de poucos justos — e que "dez justos num lugar o salvam".
3
Daqui disseram: se há cinquenta justos no mundo, pela sua retidão o mundo subsiste. Avraham continuou pedindo e suplicando diante Dele até chegar a dez. Daqui disseram: dez justos num lugar — pela sua retidão o lugar é salvo, como está dito: "não a destruirei por causa dos dez" (Bereshit 18:32).
מִכָּאן אָמְרוּ: אִם חֲמִשִּׁים בָּעוֹלָם – בְּצִדְקָתָם הָעוֹלָם עוֹמֵד. הִתְחִיל מְבַקֵּשׁ וּמִתְחַנֵּן לְפָנָיו עַד שֶׁבָּא לַעֲשָׂרָה. מִכָּאן אָמְרוּ: עֲשָׂרָה צַדִּיקִים בַּמָּקוֹם – בְּצִדְקָתָם הַמָּקוֹם נִצּוֹל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לֹא אַשְׁחִית בַּעֲבוּר הָעֲשָׂרָה״.
4
Rabi Zeirá diz: os homens de Sodoma eram riquíssimos e tranquilos, vivendo da terra boa e fértil sobre a qual habitavam — tudo o que o mundo precisa, dela extraíam: ouro ("e pó de ouro tem ela", Iyov 28:6), prata ("pois há lugar de onde se extrai a prata", Iyov 28:1), pedras preciosas ("o lugar das suas pedras é safira", Iyov 28:6), pão ("a terra, dela sai o pão", Iyov 28:5). E não confiaram à sombra do seu Criador, mas na abundância da sua riqueza — e a riqueza afasta o seu dono do temor do Céu, como está dito: "os que confiam na sua riqueza" (Tehilim 49:7).
רַבִּי זְעִירָא אוֹמֵר: עֲשִׁירֵי שַׁלְוָה הָיוּ אַנְשֵׁי סְדוֹם מִן הָאָרֶץ הַטּוֹבָה וְהַשְּׁמֵנָה שֶׁהָיוּ יוֹשְׁבִים עָלֶיהָ, שֶׁכָּל שֶׁצָּרִיךְ לָעוֹלָם הָיוּ מוֹצִיאִין מִמֶּנָּה. זָהָב מוֹצִיאִין, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְעַפְרוֹת זָהָב לוֹ״. כֶּסֶף, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי יֵשׁ לַכֶּסֶף מוֹצָא״. אֲבָנִים טוֹבוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מְקוֹם סַפִּיר אֲבָנֶיהָ״. לֶחֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֶרֶץ מִמֶּנָּה יֵצֵא לָחֶם״. וְלֹא בָטְחוּ בְּצֵל יוֹצְרָם אֶלָּא עַל רֹב עָשְׁרָם, וְהָעֹשֶׁר דּוֹחֶה אֶת בְּעָלָיו מִיִּרְאַת שָׁמַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הַבֹּטְחִים עַל חֵילָם״.
Nota — riqueza sem temor do Céu. O retrato é preciso: Sodoma não era pobre — era riquíssima. E foi justamente a abundância que a perdeu: "a riqueza afasta o seu dono do temor do Céu". A prosperidade, quando não vem acompanhada de gratidão e generosidade, endurece o coração. O profeta resume o pecado de Sodoma sem mencionar perversões sexuais: "soberba, fartura de pão e tranquilidade despreocupada — e não fortaleceu a mão do pobre e do necessitado" (Yechezkel 16:49).
5
Rabi Netanel diz: os homens de Sodoma não tinham consideração pela honra do seu Criador a ponto de partir o pão para o forasteiro e o estrangeiro; antes, cercavam todas as árvores por cima dos seus frutos, para que não fossem dados nem sequer à ave do céu, como está dito: "a vereda que ave de rapina não conhece" (Iyov 28:7).
רַבִּי נְתַנְאֵל אוֹמֵר: אַנְשֵׁי סְדֹם לֹא חָסוּ עַל כְּבוֹד קוֹנָם לִשְׁבֹּר אֹכֶל לָאוֹרֵחַ וְלַגֵּר, אֶלָּא סָבְבוּ אֶת כָּל הָאִילָנוֹת לְמַעְלָה מִפֵּרוֹתֵיהֶם כְּדֵי שֶׁלֹּא יִהְיוּ מְסוּרִין אֲפִלּוּ לְעוֹף הַשָּׁמַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״נָתִיב לֹא יְדָעוֹ עָיִט״.
6
Rabi Yehoshua ben Korchá diz: estabeleceram sobre si juízes — juízes da mentira —, e todo forasteiro e estrangeiro que entrava em Sodoma eles o lesavam em julgamentos fraudulentos, tomavam o seu dinheiro e o despachavam nu, como está dito: "e ao estrangeiro oprimiram sem justiça" (Yechezkel 22:29).
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה אוֹמֵר: הֵקִימוּ עֲלֵיהֶם שׁוֹפְטִים, שׁוֹפְטֵי שֶׁקֶר, וְכָל אוֹרֵחַ וְגֵר שֶׁהָיוּ נִכְנָסִים לִסְדוֹם הָיוּ עוֹשְׁקִים אוֹתָם בְּדִינִים וְלוֹקְחִים מִמֶּנּוּ הַמָּעוֹת וּמוֹצִיאִין אוֹתָם עֲרוּמִּים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאֶת הַגֵּר עָשְׁקוּ בְּלֹא מִשְׁפָּט״.
7
E viviam seguros, tranquilos e em paz, sem temor de guerra de todos os arredores, como está dito: "as suas casas estão em paz, sem temor" (Iyov 21:9). E eram fartos de toda a produção da terra, mas não estendiam a mão com um pedaço de pão nem ao pobre nem ao necessitado, como está dito: "eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e tranquilidade despreocupada havia nela e nas suas filhas, e ela não fortaleceu a mão do pobre e do necessitado" (Yechezkel 16:49).
וְהָיוּ יוֹשְׁבִין בֶּטַח שַׁאֲנָן וְשָׁלֵו בְּלִי פַּחַד מִלְחָמָה מִכָּל סְבִיבוֹתֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בָּתֵּיהֶם שָׁלוֹם מִפָּחַד״. וְהָיוּ שְׂבֵעִים בְּכָל תְּבוּאוֹת הָאָרֶץ וְלֹא הֶחֱזִיקוּ יָדָם בְּפַת לֹא לְעָנִי וְלֹא לְאֶבְיוֹן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִנֵּה זֶה הָיָה עֲוֹן סְדֹם אֲחוֹתֵךְ גָּאוֹן שִׂבְעַת לֶחֶם״ וְכוּ'.
8
Rabi Yehudá diz: proclamaram em Sodoma: "todo aquele que sustentar com pão um pobre ou um necessitado será queimado no fogo". Pelitit, filha de Lot, era casada com um dos grandes da cidade. Viu um pobre que definhava na rua, e a sua alma compadeceu-se dele, como está dito: "compadeceu-se a minha alma do necessitado" (Iyov 30:25). Que fez ela? A cada dia, ao sair para tirar água, punha no seu cântaro do alimento de sua casa e alimentava aquele pobre. Disseram os homens de Sodoma: "este pobre, de onde vive?" E, quando descobriram, levaram-na para ser queimada. Disse ela: "Senhor de todos os mundos, faze o meu juízo e a minha causa contra os homens de Sodoma". E o seu clamor subiu diante do Trono da Glória. Naquela hora disse o Santo, bendito seja: "descerei agora e verei se conforme o clamor desta jovem agiram os homens de Sodoma — e então virarei os seus fundamentos para cima e a sua face para baixo", como está dito: "descerei agora e verei se conforme o clamor dela que vem a Mim agiram, farei destruição" (Bereshit 18:21) — não está escrito "o clamor deles", mas "o clamor dela".
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: הִכְרִיזוּ בִּסְדוֹם, ״כָּל מִי שֶׁהוּא מַחֲזִיק בְּפַת לֶחֶם עָנִי וְאֶבְיוֹן יִשָּׂרֵף בָּאֵשׁ״. פְּלִיטִת, בִּתּוֹ שֶׁל לוֹט, הָיְתָה נְשׂוּאָה לְאֶחָד מִגְּדוֹלֵי הָעִיר, וְרָאֲתָה עָנִי אֶחָד מְדַקְדֵּק בִּרְחוֹב הָעִיר, וְעָגְמָה נַפְשָׁהּ עָלָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עָגְמָה נַפְשִׁי לָאֶבְיוֹן״. מֶה עָשְׂתָה? בְּכָל יוֹם הָיְתָה יוֹצֵאת לִשְׁאֹב, הָיְתָה נוֹתֶנֶת בַּכַּד שֶׁלָּהּ מִכָּל מְזוֹן בֵּיתָהּ וּמַאֲכֶלֶת לְאוֹתוֹ עָנִי. אָמְרוּ אַנְשֵׁי סְדוֹם: ״הֶעָנִי הַזֶּה מֵאַיִן הוּא חַי?״ וּכְשֶׁיָּדְעוּ בַּדָּבָר, הוֹצִיאוּ אוֹתָהּ לְהִשָּׂרֵף. אָמְרָה: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, עֲשֵׂה מִשְׁפָּטִי וְדִינִי מֵאַנְשֵׁי סְדוֹם״. וְעָלְתָה צַעֲקָתָהּ לִפְנֵי כִּסֵּא הַכָּבוֹד. בְּאוֹתָהּ שָׁעָה אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״אֵרְדָה נָּא וְאֶרְאֶה הַכְּצַעֲקָתָהּ הַבָּאָה אֵלַי עָשׂוּ כָּלָה״. ״הַכְּצַעֲקָתָם״ אֵין כְּתִיב כָּאן, אֶלָּא ״הַכְּצַעֲקָתָהּ״.
Nota — o clamor de uma só jovem. Esta é uma das passagens mais poderosas do livro. O versículo "descerei e verei conforme o clamor dela" (no feminino singular) é lido como o grito de uma única moça — Pelitit — queimada por ter dado pão a um faminto. O destino de toda uma civilização selou-se por um ato de crueldade contra um ser humano que ousou ter compaixão. Os sábios ensinam: o pecado de Sodoma não foi só a avareza, mas a criminalização da bondade — fazer da generosidade um delito capital.
9
E assim diz a Escritura: "quem anda com sábios, sábio se torna" (Mishlê 13:20). A que se assemelha? A um homem que entra na loja do perfumista: ainda que nada compre nem venda, leva consigo um bom aroma ao sair. Assim, todo aquele que anda com os justos toma dos seus caminhos e das suas boas obras. Por isso se diz na continuação: "mas o companheiro dos tolos sai quebrantado" — como quem entra num curtume e, mesmo sem nada comprar, leva consigo o mau cheiro.
וְכֵן הוּא אוֹמֵר: ״הוֹלֵךְ אֶת חֲכָמִים יֶחְכָּם״. לְמָה הוּא דוֹמֶה? לְאָדָם שֶׁהוּא נִכְנָס לְבֵית הַמֶּרְקָחִים, אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא לָקַח וְלֹא נָתַן, רֵיחַ טוֹב לָקַח וְיָצָא. כָּךְ כָּל מִי שֶׁהוּא מְהַלֵּךְ עִם הַצַּדִּיקִים, לוֹקֵחַ מִדַּרְכֵיהֶם וּמִמַּעֲשֵׂיהֶם הַטּוֹבִים. לְכָךְ נֶאֱמַר: ״וְרֹעֶה כְסִילִים יֵרוֹעַ״.
10
Outra explicação: "quem anda com sábios, sábio se torna" — refere-se a Lot, que andava com Avraham, nosso pai, e aprendeu dos seus caminhos e das suas boas obras. Disseram: que fazia Avraham? Fez da sua casa uma casa de acolhimento aberta para todos os lados, e a todo o que entrava e saía recebia, alimentava e dava de beber, e dizia-lhes: "dizei: um só é o D'us de Avraham no mundo". E, quando Lot veio a Sodoma, assim fazia. E, como haviam proclamado em Sodoma que quem desse pão a um pobre seria queimado, Lot temia os homens da cidade e fazia a bondade de noite. Por isso "vieram os dois anjos a Sodoma ao entardecer, e Lot estava sentado à porta de Sodoma" (Bereshit 19:1) — sentava-se ali porque temia os homens da cidade. Viu os dois anjos andando pela rua, supôs que eram forasteiros, e correu ao seu encontro: "vinde, pernoitai na minha casa, comei e bebei, e segui o vosso caminho em paz". E eles a princípio não aceitaram, mas ele os constrangeu com insistência a entrar na sua casa, como está dito: "e instou muito com eles" (Bereshit 19:3).
דָּבָר אַחֵר: ״הוֹלֵךְ אֶת חֲכָמִים יֶחְכָּם״ – זֶה לוֹט, שֶׁהָיָה הוֹלֵךְ עִם אַבְרָהָם אָבִינוּ, וְלָמַד מִדְּרָכָיו וּמִמַּעֲשָׂיו הַטּוֹבִים. מָה עָשָׂה אַבְרָהָם? עָשָׂה בֵּיתוֹ בֵּית קִבּוּל, וְכָל מִי שֶׁהוּא נִכְנָס וְיָצָא הָיָה מְקַבְּלוֹ וּמַאֲכִילוֹ וּמַשְׁקֵהוּ, וְאוֹמֵר לָהֶם: ״אִמְרוּ, אֶחָד הוּא אֱלֹהֵי אַבְרָהָם בָּעוֹלָם״. וּכְשֶׁבָּא לוֹט, כָּךְ הָיָה עוֹשֶׂה. וְכֵיוָן שֶׁהִכְרִיזוּ בִּסְדוֹם, הָיָה מִתְיָרֵא מֵאַנְשֵׁי הָעִיר וְעוֹשֶׂה בַּלַּיְלָה. שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּבֹאוּ שְׁנֵי הַמַּלְאָכִים סְדֹמָה בָּעֶרֶב, וְלוֹט יֹשֵׁב בְּשַׁעַר סְדֹם״. וְרָאָה שְׁנֵי הַמַּלְאָכִים מְהַלְּכִים בִּרְחוֹב הָעִיר, וְהָיָה סָבוּר שֶׁהֵם אוֹרְחִים, וְרָץ לִקְרָאתָם. אָמַר לָהֶם: ״בּוֹאוּ וְלִינוּ בְּתוֹךְ בֵּיתִי וְאִכְלוּ וּשְׁתוּ״. וְהֶחֱזִיק בְּיָדָם שֶׁלֹּא בִרְצוֹנָם לְתוֹךְ בֵּיתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּפְצַר בָּם מְאֹד״.
Nota — a casa aberta de Avraham. Eis o contraponto luminoso de Sodoma: a tenda de Avraham, "casa de acolhimento" aberta a todos os ventos, onde o forasteiro come, bebe e ouve falar do D'us único. A hospitalidade (hachnasat orchim) é, para a tradição, uma das maiores expressões do chesed — "maior do que receber a Presença Divina" (Shabat 127a). E Lot, formado nessa escola, arrisca a vida para hospedar — "quem anda com sábios, sábio se torna" (Mishlê 13:20). O bem e o mal são contagiosos: convive-se com justos e se aprende o bem; com Sodoma, a crueldade.
11
Viu-os um dos homens da cidade, correu e o contou a todos os homens da cidade, e juntaram-se todos à porta da casa para agir conforme o seu costume de violência. Que fez Lot? Tentou proteger os hóspedes a todo custo. E os homens da cidade não desistiram. Que lhes fizeram os anjos? Feriram-nos de cegueira até o romper da aurora. E, assim como Lot havia segurado a mão dos anjos e os introduzira na sua casa, assim eles seguraram a mão dele, a da sua mulher e a das suas duas filhas, e os tiraram para fora da cidade, como está dito: "e ele se demorava, e os homens lhe pegaram a mão" (Bereshit 19:16). Disseram-lhes: "não olheis para trás, pois a Presença do Santo, bendito seja, desceu para fazer chover sobre Sodoma e Amorá enxofre e fogo". A mulher de Lot — compadecida das filhas casadas que ficaram — olhou para trás para ver se a seguiam, e viu atrás de si a Presença, e tornou-se uma coluna de sal, como está dito: "e a mulher de Lot olhou para trás dele, e tornou-se uma coluna de sal" (Bereshit 19:26).
רָאָה אוֹתָם אֶחָד מֵאַנְשֵׁי הָעִיר וְרָץ וְהִגִּיד לְכָל אַנְשֵׁי הָעִיר, וְנִקְבְּצוּ כֻּלָּם אֶל פֶּתַח הַבַּיִת לַעֲשׂוֹת כְּמִנְהָגָם. וּמֶה עָשָׂה לוֹט? וְלֹא קִבְּלוּ עֲלֵיהֶם אַנְשֵׁי הָעִיר. מֶה עָשׂוּ לָהֶם הַמַּלְאָכִים? הִכּוּ אוֹתָם בְּעִוָּרוֹן עַד שֶׁעָלָה עַמּוּד הַשַּׁחַר. וּכְשֵׁם שֶׁהֶחֱזִיק לוֹט בִּידֵיהֶם שֶׁל הַמַּלְאָכִים, כָּךְ הֶחֱזִיקוּ בְּיָדוֹ וּבְיַד אִשְׁתּוֹ וּבְיַד שְׁתֵּי בְנוֹתָיו וְהוֹצִיאוּ אוֹתָם מִחוּץ לָעִיר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּתְמַהְמָהּ וַיַּחֲזִיקוּ הָאֲנָשִׁים״. אָמְרוּ לָהֶם: ״אַל תַּבִּיטוּ לַאֲחוֹרֵיכֶם, שֶׁהֲרֵי יָרְדָה שְׁכִינָתוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְהַמְטִיר עַל סְדֹם וְעַל עֲמֹרָה גָּפְרִית וָאֵשׁ״. אִשְׁתּוֹ שֶׁל לוֹט נִכְמְרוּ רַחֲמֶיהָ עַל בְּנוֹתֶיהָ הַנְּשׂוּאוֹת, וְהִבִּיטָה לַאֲחָרֶיהָ, וְנַעֲשֵׂית נְצִיב מֶלַח, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתַּבֵּט אִשְׁתּוֹ מֵאַחֲרָיו וַתְּהִי נְצִיב מֶלַח״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

O verdadeiro pecado de Sodoma

O capítulo deixa claro, na linha do profeta Yechezkel (16:49), que o pecado de Sodoma não foi a pobreza nem só a imoralidade: foi a crueldade erguida em sistema. Uma terra de riqueza fabulosa que criminalizou a caridade — onde dar pão a um faminto era punível com a morte. Os sábios fazem de Sodoma o símbolo perene da maldade que se organiza em lei: "o meu é meu e o teu é teu" (Avot 5:10), levado ao extremo da hostilidade ao estranho. A prosperidade sem bondade não é virtude — é a véspera da ruína.

O clamor de Pelitit

A história da filha de Lot, queimada por alimentar um pobre, é o coração moral do capítulo. O versículo lido no feminino singular — "conforme o clamor dela" — ensina que o juízo de uma civilização inteira se decidiu por um ato de crueldade contra uma pessoa compassiva. É a contrapartida de "quem destrói uma vida destrói um mundo" (cap. 21): o clamor de um único inocente sobe até o Trono da Glória e abala o mundo. Nenhuma injustiça é pequena diante de D'us.

A hospitalidade de Avraham, o avesso de Sodoma

Contra a porta fechada de Sodoma, a tenda aberta de Avraham — "casa de acolhimento" onde o forasteiro encontra pão, água e o conhecimento do D'us único. A hospitalidade (hachnasat orchim) é, para os sábios, "maior do que receber a Presença Divina" (Shabat 127a). E Lot, discípulo de Avraham, arrisca-se para hospedar à noite, longe dos olhos da cidade cruel. O capítulo é, no fundo, um confronto entre dois modos de viver: a casa que se abre e a cidade que se fecha.

"Quem anda com sábios": a companhia que forma

A parábola do perfumista e do curtume (Mishlê 13:20) ensina que o caráter é contagioso: conviver com os bons impregna a alma de bem, como o aroma do perfumista; conviver com os maus impregna-a de mal, como o cheiro do curtume. Lot aprendeu a bondade andando com Avraham. É um princípio prático da ética racionalista: escolher as companhias e os ambientes é escolher o que nos tornaremos — porque absorvemos, quase sem perceber, os caminhos de quem nos rodeia.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 26

As provações de Avraham: a fé que se mantém firme

פֶּרֶק כ״ו

Dez provações, e em todas Avraham se manteve firme. Da fornalha de fogo à migração, da fome ao perigo no Egito — a história de uma fé que não vacila, e de um homem que reconheceu o Criador sozinho.

1
Com dez provações foi provado Avraham, nosso pai, e em todas se manteve firme. A primeira provação: quando Avraham nasceu, todos os grandes do reino e os magos procuraram matá-lo, e ele ficou escondido na casa de Harán treze anos, sem ver o sol nem a lua. E, depois de treze anos, saiu da casa de Harán falando a língua sagrada, e desprezou os ídolos e abominou as imagens, e confiou no nome do seu Criador, e disse: "feliz o homem que confia em Ti" (Tehilim 84:13).
עֲשָׂרָה נִסְיוֹנוֹת נִתְנַסָּה אַבְרָהָם אָבִינוּ, וְעָמַד בְּכֻלָּן. הַנֵּס הָרִאשׁוֹן, כְּשֶׁנּוֹלַד אַבְרָהָם בִּקְשׁוּ כָּל גְּדוֹלֵי מַלְכוּת וְהַקּוֹסְמִים לְהָרְגוֹ וְנֶחְבָּא בְּבֵית הָרָן שְׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה שָׁנָה, וּלְאַחַר שְׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה שָׁנָה יָצָא מִבֵּית הָרָן מְדַבֵּר בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ וּמָאַס בָּאֱלִילִים וּמְשַׁקֵּץ אֶת הַפְּסִילִים וּבָטַח בְּשֵׁם יוֹצְרוֹ וְאָמַר: ״אַשְׁרֵי אָדָם בּוֹטֵחַ בָּךְ״.
2
A segunda provação: foi encarcerado dez anos — três num lugar e sete noutro. E, depois de dez anos, mandaram trazê-lo e o lançaram na fornalha de fogo; e o Rei da Glória estendeu a Sua mão direita e o salvou da fornalha de fogo, como está dito: "e disse-lhe: Eu sou o Eterno que te tirei de Ur a fornalha dos Caldeus" (Bereshit 15:7); e outro versículo diz: "Tu és o Eterno D'us que escolheste Avram e o tiraste de Ur dos Caldeus" (Nechemiá 9:7).
הַנֵּס הַשֵּׁנִי, נֶחְבַּשׁ בְּבֵית הָאֲסוּרִים עֲשָׂרָה שָׁנִים: שְׁלֹשָׁה בְּכוּתִי וְשִׁבְעָה בְּבֵי דָרֵי. וּלְאַחַר עֶשֶׂר שָׁנִים שָׁלְחוּ וְהֵבִיאוּ אוֹתוֹ אֶצְלוֹ וְהִשְׁלִיכוּהוּ לְתוֹךְ כִּבְשַׁן הָאֵשׁ, וּמֶלֶךְ הַכָּבוֹד פָּשַׁט יַד יְמִינוֹ וְהִצִּילוֹ מִכִּבְשַׁן הָאֵשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר אֵלָיו אֲנִי ה' אֲשֶׁר הוֹצֵאתִיךָ מֵאוּר כַּשְׂדִּים״.
Nota — a fornalha de Ur e a descoberta de Avraham. A tradição lê "Ur Kasdim" como "a fornalha dos Caldeus" (ur = fogo/chama), de onde Avraham foi salvo por recusar a idolatria de Nimrod. O essencial, na leitura racionalista, está no §1: Avraham "abominou os ídolos e confiou no seu Criador". O Rambam (Hilchot Avodá Zará 1:3) descreve-o como o homem que, sozinho e pela razão, ainda criança, raciocinou que o mundo tem um Criador único — contra toda a idolatria da sua época. A primeira provação de Avraham foi pensar contra todos.
3
A terceira provação: o seu deslocamento da casa de seu pai e da terra do seu nascimento, e D'us o trouxe a Charan, e ali morreram Térach, seu pai, e sua mãe. E o deslocamento o desenraizamento é mais difícil para o ser humano do que tudo. E de onde sabemos do seu deslocamento? Do que está dito: "e disse o Eterno a Avram: vai-te da tua terra..." (Bereshit 12:1).
הַנֵּס הַשְּׁלִישִׁי, טִלְטוּלוֹ מִבֵּית אָבִיו וּמֵאֶרֶץ מוֹלַדְתּוֹ וַהֲבִיאוֹ לְחָרָן, וְשָׁם מֵת תֶּרַח אָבִיו וְאִמּוֹ. וְהַטִּלְטוּל קָשֶׁה לָאָדָם יוֹתֵר מִכֹּל. וּמִנַּיִן טִלְטוּלוֹ? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר ה' אֶל אַבְרָם לֶךְ לְךָ״.
4
A quarta provação: desde o dia em que foram criados os céus e a terra, o Santo, bendito seja, não trouxe fome ao mundo senão nos dias de Avraham — e não em todas as terras, mas só na terra de Canaã —, para o provar e fazê-lo descer ao Egito, como está dito: "e houve fome na terra, e desceu Avram ao Egito" (Bereshit 12:10).
הַנֵּס הָרְבִיעִי, מִיּוֹם שֶׁנִּבְרְאוּ שָׁמַיִם וָאָרֶץ לֹא הֵבִיא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא רָעָב בָּעוֹלָם אֶלָּא בִּימֵי אַבְרָהָם, וְלֹא בְּכָל הָאֲרָצוֹת אֶלָּא בְּאֶרֶץ כְּנַעַן לְנַסּוֹתוֹ וּלְהוֹרִידוֹ לְמִצְרַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי רָעָב בָּאָרֶץ וַיֵּרֶד אַבְרָם מִצְרָיְמָה״.
Nota — a fome como prova. A fome que assola justamente a Terra prometida, logo após Avraham nela chegar por ordem de D'us, é uma provação fina: poderia ele duvidar da promessa? A tradição vê aqui o teste da perseverança da fé diante da contradição aparente entre a promessa e a realidade. Avraham desce ao Egito sem reclamar contra D'us — confia que a promessa se cumprirá apesar do revés (cf. o ensaio sobre o bitachon).
5
A quinta provação: Sará, sua mulher, foi levada a Faraó. E há algum homem que, vendo a sua mulher levada a outro, não rasgue as suas vestes? Mas Avraham confiou em D'us que ele Faraó não se aproximaria dela. E de onde sabemos que Sará foi levada a Faraó? Do que está dito: "e viram-na os oficiais de Faraó e a louvaram diante dele, e a mulher foi levada à casa de Faraó" (Bereshit 12:15).
הַנֵּס הַחֲמִישִׁי, נִלְקְחָה שָׂרָה אִשְׁתּוֹ לְפַרְעֹה לְאִשָּׁה. וְכִי יֵשׁ אָדָם שֶׁרוֹאֶה אֶת אִשְׁתּוֹ נִלְקְחָה לְאִישׁ אַחֵר וְאֵינוֹ קוֹרֵעַ אֶת בְּגָדָיו? אֶלָּא שֶׁלֹּא קָרַב אֵלֶיהָ. וּמִנַּיִן שֶׁנִּלְקְחָה שָׂרָה לְפַרְעֹה? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּרְאוּ אֹתָהּ שָׂרֵי פַרְעֹה״.
6
Rabi Yehoshua ben Korchá diz: naquela noite em que Sará, nossa mãe, foi levada, era a noite festiva de Pessach; e o Santo, bendito seja, trouxe sobre Faraó e sobre a sua casa grandes pragas, para dar a conhecer que assim, no futuro, feriria o povo da sua terra, como está dito: "e o Eterno feriu Faraó com grandes pragas..." (Bereshit 12:17). E sobre o Egito está escrito: "ainda uma praga trarei sobre Faraó", referindo-se à praga dos primogênitos.
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה אוֹמֵר: בְּאוֹתָהּ הַלַּיְלָה שֶׁנִּלְקְחָה שָׂרָה אִמֵּנוּ, לֵיל יוֹם טוֹב הַפֶּסַח הָיָה, וְהֵבִיא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל פַּרְעֹה וְעַל בֵּיתוֹ נְגָעִים גְּדוֹלִים לְהוֹדִיעַ שֶׁכָּךְ הוּא עָתִיד לְהַכּוֹת אֶת עַם אַרְצוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְנַגַּע ה' אֶת פַּרְעֹה נְגָעִים גְּדֹלִים״ וְכוּ'.
Nota. Os sábios veem nas "grandes pragas" sobre Faraó por causa de Sará um prenúncio das dez pragas do Egito no tempo de Moshé — e a coincidência da noite de Pessach liga as duas libertações. É um princípio da leitura rabínica: "os atos dos pais são sinal para os filhos" (maassê avot siman labanim). O que acontece a Avraham e Sará prefigura a história de Israel.
7
Rabi Yehoshua ben Korchá diz: por amor a ela, Faraó registrou-lhe, no documento do seu casamento ketubá, todo o seu patrimônio — prata, ouro, servos e terras —, e deu-lhe a terra de Góshen por propriedade. Por isso os filhos de Israel habitaram na terra de Góshen, na terra de Sará, sua mãe. E deu-lhe Hagar, sua filha de uma concubina, por serva. E de onde sabemos que Hagar era filha de Faraó? Do que está dito: "e Sarai, mulher de Avram, não lhe dava filhos; e ela tinha uma serva egípcia, cujo nome era Hagar" (Bereshit 16:1). E Faraó madrugou, assustado por não se ter aproximado dela, e mandou chamar Avraham e disse-lhe: "eis a tua mulher Sarai diante de ti, e todo o documento do seu casamento com ela; toma-a e vai, e não fiques nesta terra", como está dito: "e agora, eis a tua mulher; toma-a e vai" (Bereshit 12:19). E mais tarde, em outra terra, tudo está revelado diante do Santo, bendito seja: Avimélech mandou tomar Sará, supondo levantar dela filhos (Bereshit 20:2).
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה אוֹמֵר: מֵאַהֲבָתוֹ אוֹתָהּ כָּתַב לָהּ בִּשְׁטַר כְּתֻבָּתָהּ כָּל מָמוֹנוֹ, בֵּין כֶּסֶף בֵּין זָהָב בֵּין עֲבָדִים וְקַרְקָעוֹת, וְכָתַב לָהּ אֶת אֶרֶץ גֹּשֶׁן לַאֲחֻזָּה. לְפִיכָךְ יָשְׁבוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל בְּאֶרֶץ גֹּשֶׁן, בְּאֶרֶץ שָׂרָה אִמָּם. וְכָתַב לָהּ אֶת הָגָר בִּתּוֹ מִפִּלַגְשׁוֹ שִׁפְחָה. וּמִנַּיִן שֶׁהָיְתָה הָגָר בִּתּוֹ שֶׁל פַּרְעֹה? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְלָהּ שִׁפְחָה מִצְרִית וּשְׁמָהּ הָגָר״. וְהִשְׁכִּים פַּרְעֹה וְנִבְהַל שֶׁלֹּא קָרַב אֵלֶיהָ, וְקָרָא לְאַבְרָהָם וְאָמַר: ״הִנֵּה אִשְׁתְּךָ קַח וָלֵךְ״. וְהַכֹּל צָפוּי לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וְשָׁלַח אֲבִימֶלֶךְ וַיִּקַּח אֶת שָׂרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשְׁלַח אֲבִימֶלֶךְ וַיִּקַּח אֶת שָׂרָה״.
8
E tornaram-se Avimélech e todas as fêmeas da sua casa estéreis, como está dito: "porque o Eterno havia fechado todas as madres da casa de Avimélech" (Bereshit 20:18). E desceu o anjo Michael e desembainhou a sua espada contra ele. Disse-lhe Avimélech: "é este um juízo verdadeiro e uma sentença justa, matar-me sem que eu soubesse? Acaso matarás também uma nação justa inocente?" (Bereshit 20:4). Disse-lhe D'us: "devolve a mulher do homem, pois ele é profeta e orará por ti, e viverás" (Bereshit 20:7).
וְנַעֲשָׂה אֲבִימֶלֶךְ וְכָל נְקֵבוֹת בֵּיתוֹ עֲקָרוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי עָצֹר עָצַר ה'״. וַיֵּרֶד מִיכָאֵל הַמַּלְאָךְ וְשָׁלַף אֶת חַרְבּוֹ עָלָיו. אָמַר לוֹ אֲבִימֶלֶךְ: ״זֶה דִּין אֱמֶת וּמִשְׁפָּט אֱמֶת לְהָרְגֵנִי עַד שֶׁלֹּא יָדַעְתִּי? הֲגוֹי גַּם צַדִּיק תַּהֲרֹג?״ אָמַר לוֹ: ״הָשֵׁב אֵשֶׁת הָאִישׁ כִּי נָבִיא הוּא״.
9
Rabi Yehoshua ben Korchá disse a Rabi Tarfon: tudo o que Avimélech deu, deu a Avraham por causa de Sará, como está dito: "e tomou Avimélech ovelhas e bois e servos e os deu a Avraham" (Bereshit 20:14). E levantou-se Avraham e orava diante do Santo, bendito seja, e disse perante Ele: "Senhor do mundo, criaste o mundo para a fecundidade e a multiplicação; que Avimélech e todas as fêmeas da sua casa frutifiquem e se multipliquem". E o Santo, bendito seja, atendeu-o, como está dito: "e orou Avraham a D'us, e D'us curou Avimélech, e a sua mulher e as suas servas, e tiveram filhos" (Bereshit 20:17).
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה אוֹמֵר לְרַבִּי טַרְפוֹן: כָּל מַה שֶּׁנָּתַן אֲבִימֶלֶךְ לְאַבְרָהָם בַּעֲבוּר שָׂרָה נָתַן, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּקַּח אֲבִימֶלֶךְ צֹאן וּבָקָר וַיִּתֵּן לְאַבְרָהָם״. וְעָמַד אַבְרָהָם וְהָיָה מִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, בָּרָאתָ אֶת הָעוֹלָם לְפִרְיָה וְרִבְיָה. אֲבִימֶלֶךְ וְכָל נְקֵבוֹת בֵּיתוֹ יִפְרוּ וְיִרְבּוּ״. וְנֶעְתַּר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּתְפַּלֵּל אַבְרָהָם אֶל הָאֱלֹהִים וַיִּרְפָּא אֱלֹהִים אֶת אֲבִימֶלֶךְ וְאֶת אַמְהֹתָיו וַיֵּלֵדוּ״.
Nota — orar por quem nos feriu. O fecho é de uma grandeza moral notável: Avraham, cuja esposa fora tomada por Avimélech, ora por ele e pela sua cura. É o mesmo Avraham que suplicou por Sodoma (cap. 25). Os sábios (Bava Kama 92a) extraem daqui um princípio: "quem pede misericórdia pelo seu próximo, estando ele próprio na mesma necessidade, é respondido primeiro" — e, de fato, logo após orar por Avimélech, anuncia-se o nascimento de Yitzchak. A bondade para com quem nos feriu é o cume da virtude.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

As dez provações: a fé sob teste

"Com dez provações foi provado Avraham, e em todas se manteve firme" (Avot 5:3). O capítulo abre o relato — do nascimento ameaçado à fornalha de Ur, da migração à fome, dos perigos no Egito e em Gerar. Para os sábios, as provações não eram para D'us descobrir algo (Ele tudo sabe), mas para revelar e realizar a grandeza de Avraham — o teste que faz a virtude passar do potencial ao ato. A emuná não se prova no conforto, mas na adversidade.

Avraham, o que reconheceu o Criador

O traço que define Avraham desde a primeira provação é a recusa da idolatria e a confiança no Criador. O Rambam (Hilchot Avodá Zará 1:3) o descreve como o filósofo solitário que, pela própria razão, desde jovem, raciocinou que o mundo tem um único Criador — e enfrentou Nimrod e toda a sua geração por essa verdade. Avraham é, para a tradição racionalista, o primeiro monoteísta por convicção: não herdou a fé, descobriu-a; e por isso é "o pai" de todos os que creem (cf. o ensaio sobre a ordem da natureza).

A promessa e a contradição

As provações de Avraham têm um padrão: D'us promete, e a realidade parece contradizer. Ele é chamado a uma terra — e ali há fome. É prometido descendência — e a sua esposa é levada por reis. Os sábios veem nisso a essência do bitachon (cf. o ensaio): confiar não é exigir que tudo ocorra como esperamos, mas permanecer fiel a D'us apesar do que parece desmenti-Lo. Avraham nunca "rasga as vestes" contra o Céu; age, confia e espera.

A magnanimidade de Avraham

O capítulo culmina com Avraham orando pela cura de Avimélech — o rei que tomara a sua esposa. É o mesmo coração que intercedeu por Sodoma (cap. 25). Daqui os sábios extraem que rezar pelo próximo, mesmo por quem nos prejudicou, é uma virtude que se volta em bênção sobre quem reza (Bava Kama 92a): foi após orar por Avimélech que Avraham foi abençoado com Yitzchak. A grandeza de Avraham não está só em suportar as provações, mas em responder ao mal com bondade.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 27

A guerra dos reis: o resgate de Lot e o escudo de Avraham

פֶּרֶק כ״ז

A sexta provação. Quando os reis do mundo se aliaram, Avraham partiu com um punhado de homens para salvar o sobrinho que dele se separara — e venceu numa só noite. Mas, no auge do triunfo, não creditou a vitória à própria força: ergueu os olhos e disse que tudo fora pela mão de D'us.

1
A sexta provação: vieram contra ele todos os reis para o matar. E disseram: "Comecemos primeiro pelo filho do seu irmão Lot, e depois passemos a ele". E por causa de Lot tomaram todo o patrimônio de Sodoma e de Gomorra, como está dito: "e tomaram Lot e o seu patrimônio" (Bereshit 14:12).
נִסָּיוֹן הַשִּׁשִּׁי, בָּאוּ עָלָיו כָּל הַמְּלָכִים לְהָרְגוֹ, וְאָמְרוּ: ״נַתְחִיל רִאשׁוֹן בְּבֶן אָחִיו וְאַחַר כָּךְ נַתְחִיל בּוֹ״. וּבִשְׁבִיל לוֹט לָקְחוּ אֶת כָּל רְכוּשׁ סְדוֹם וַעֲמוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּקְחוּ אֶת לוֹט וּרְכֻשׁוֹ״.
2
E veio Michael e o anunciou a Avraham, como está dito: "e veio o fugitivo e anunciou a Avram, o hebreu" (Bereshit 14:13). E é ele o anjo o príncipe do mundo que anuncia, como está dito: "também no teu pensamento não amaldiçoes o rei... pois a ave dos céus levará a voz, e o que tem asas relatará a coisa" (Kohelet 10:20). E por que foi chamado o seu nome Palit "o que escapou"? Porque, na hora em que o Santo, bendito seja, fez descer Samael e o seu bando do lugar da sua santidade, dos céus, agarrou-se Samael às asas de Michael para o derrubar consigo, e o Santo, bendito seja, o livrou (pelató) da sua mão. Por isso foi chamado o seu nome Palit. E sobre ele disse Yechezkel: "veio a mim o fugitivo de Jerusalém, dizendo: a cidade foi ferida" (Yechezkel 33:21).
וּבָא מִיכָאֵל וְהִגִּיד לְאַבְרָהָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּבֹא הַפָּלִיט וַיַּגֵּד לְאַבְרָם הָעִבְרִי״. וְשֶׁל עוֹלָם הוּא מַגִּיד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״גַּם בְּמַדָּעֲךָ מֶלֶךְ אַל תְּקַלֵּל, כִּי עוֹף הַשָּׁמַיִם יוֹלִיךְ אֶת הַקּוֹל וּבַעַל כְּנָפַיִם יַגֵּיד דָּבָר״. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ פָּלִיט? שֶׁבְּשָׁעָה שֶׁהוֹרִיד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא סָמָאֵל וְאֶת כַּת שֶׁלּוֹ מִמְּקוֹם קְדֻשָּׁתוֹ מִן הַשָּׁמַיִם, אָחַז בִּכְנָפָיו שֶׁל מִיכָאֵל לְהַפִּילוֹ עִמּוֹ, וּפְלָטוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מִיָּדוֹ. לְפִיכָךְ נִקְרָא שְׁמוֹ פָּלִיט. וְעָלָיו אָמַר יְחֶזְקֵאל: ״בָּא אֵלַי הַפָּלִיט מִירוּשָׁלִַם לֵאמֹר הֻכְּתָה הָעִיר״ וְכוּ׳.
Nota — o "fugitivo", os anjos e a leitura racionalista. No sentido simples, o "palit" (Bereshit 14:13) é apenas um sobrevivente humano que escapou da batalha e trouxe a notícia a Avraham. A aggadá eleva a cena: identifica o fugitivo com o anjo Michael e narra a queda de Samael. Na tradição racionalista, os anjos (malachim) não são seres alados de carne, mas inteligências incorpóreas — as forças e mensageiros pelos quais D'us age no mundo (Rambam, Hilchot Yesodei haTorá 2; Guia II). "Asas", "queda" e "agarrar" são imagens; "Michael" e "Samael" nomeiam, na leitura filosófica, forças de preservação e de destruição. A própria palavra malach significa "mensageiro": o que anuncia. A lição que fica é sóbria: a notícia chegou a Avraham, e ele agiu.
3
Madrugou Avraham e tomou consigo os seus três discípulos — Aner, Eshcol e Mamre — e Eliezer, seu servo, com eles, e perseguiu-os até Dan, que é Pamias Banias, como está dito: "e perseguiu-os até Dan" (Bereshit 14:14). E ali o justo se deteve, pois ali lhe foi dito: "Avraham, fica sabendo que, no futuro, os filhos dos teus filhos hão de servir ali à idolatria" — como está dito: "e fez dois bezerros de ouro... e pôs um em Bet-El e o outro em Dan" (Melachim I 12:28–29). E ali deixou os seus três discípulos e tomou só o seu servo Eliezer — cujo nome, em valor numérico, equivale a trezentos e dezoito — e perseguiu-os até à esquerda de ao norte de Damasco, como está dito: "e os perseguiu até Chová" (Bereshit 14:15).
הִשְׁכִּים אַבְרָהָם בַּבֹּקֶר וְלָקַח אֶת שְׁלֹשֶׁת תַּלְמִידָיו עִמּוֹ, עָנֵר אֶשְׁכּוֹל וּמַמְרֵא וְאֶת אֱלִיעֶזֶר עַבְדּוֹ עִמָּם, וְרָדַף אַחֲרֵיהֶם עַד דָּן, זוֹ פַּמְיָאס, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּרְדֹּף עַד דָּן״. וְשָׁם נִתְעַכֵּב הַצַּדִּיק שֶׁשָּׁם נֶאֱמַר לוֹ: ״אַבְרָהָם, תְּהִי יוֹדֵעַ שֶׁמִּבְּנֵי בָנֶיךָ עֲתִידִים לַעֲבֹד עֲבוֹדָה זָרָה שָׁם״, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיַּעַשׂ שְׁנֵי עֶגְלֵי זָהָב וַיָּשֶׂם אֶת הָאֶחָד בְּבֵית אֵל וְאֶת הָאֶחָד בְּדָן״. וְשָׁם הִנִּיחַ אֶת שְׁלֹשָׁה תַּלְמִידָיו וְלָקַח אֶת עַבְדּוֹ אֱלִיעֶזֶר שֶׁבְּמִנְיַן שְׁמוֹ שְׁמֹנָה עָשָׂר וּשְׁלֹשׁ מֵאוֹת, וַיִּרְדֹּף אַחֲרֵיהֶם עַד מִשְּׂמֹאל לְדַמֶּשֶׂק, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּרְדְּפֵם עַד חוֹבָה״.
Nota — "trezentos e dezoito": a força não está no número. A Torá diz que Avraham armou "trezentos e dezoito" dos seus homens (Bereshit 14:14). Os sábios (Nedarim 32a) observam que 318 é o valor numérico das letras do nome Eliézer (א־ל־י־ע־ז־ר) — e leem, como ensinamento, que toda aquela força se resumia, na verdade, a um só servo fiel ao lado de Avraham, e a Quem estava com eles. Não é um "código secreto": é um recurso homilético (cf. o ensaio sobre guematria) para dizer que a vitória de poucos sobre muitos não veio do número, mas da confiança. O detalhe geográfico também ensina: Avraham se detém em Dan porque ali, no futuro, se ergueria um bezerro de ouro — o justo pressente que a vitória física não é o fim, e o que mais o pesa é o desvio espiritual dos seus descendentes.
4
Shmuel haKatan diz: ali se dividiu a noite. A noite em que Israel saiu do Egito — essa é a noite em que o Santo, bendito seja, feriu os primogênitos do Egito; e essa é a noite em que Avraham feriu os reis e os seus exércitos com eles, como está dito: "e dividiu-se contra eles de noite, ele e os seus servos" (Bereshit 14:15).
שְׁמוּאֵל הַקָּטָן אוֹמֵר: שָׁם נֶחְלְקָה הַלַּיְלָה שֶׁיָּצְאוּ יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם, הוּא הַלַּיְלָה שֶׁהִכָּה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת בְּכוֹרֵי מִצְרַיִם, הוּא הַלַּיְלָה שֶׁהִכָּה אַבְרָהָם אֶת הַמְּלָכִים וְאֶת מַחֲנֵיהֶם עִמָּם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּחָלֵק עֲלֵיהֶם לַיְלָה הוּא וַעֲבָדָיו״.
Nota — a noite da redenção. Os sábios entrelaçam as noites da história: a noite em que Avraham venceu os reis é a mesma data — a noite de Pessach — em que, gerações depois, D'us feriria os primogênitos do Egito e libertaria Israel. É o princípio "os atos dos pais são sinal para os filhos" (maassê avot siman labanim): a vitória do pai prefigura a redenção dos filhos. A leitura do verbo "vayechalek" ("dividiu-se contra eles de noite") como "nechleká halaylah" ("dividiu-se a noite") é homilética — liga este episódio à noite partida ao meio em que o Egito foi ferido (cf. o cap. 26).
5
Hillel, o Ancião, diz: Avraham tomou todo o patrimônio de Sodoma e de Gomorra e todo o patrimônio de Lot, filho do seu irmão, e voltou em paz, e nem um só dos seus homens lhe faltou, como está dito: "e fez voltar todo o patrimônio, e também Lot, seu parente, e o seu patrimônio..." (Bereshit 14:16).
הִלֵּל הַזָּקֵן אוֹמֵר: לָקַח אַבְרָהָם אֶת כָּל רְכוּשׁ סְדוֹם וַעֲמוֹרָה וְאֶת כָּל רְכוּשׁוֹ שֶׁל לוֹט בֶּן אָחִיו, וְחָזַר לְשָׁלוֹם וְלֹא נֶעְדַּר לוֹ אֲפִלּוּ אָדָם אֶחָד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּשֶׁב אֵת הָרְכֻשׁ וְגַם אֶת לוֹט וּרְכֻשׁוֹ״ וְכוּ׳.
6
Rabi Meir diz: Avraham foi o primeiro a começar a dizimar. Tomou o dízimo de tudo o que recuperou do patrimônio de Sodoma e de Gomorra, e todo o dízimo do patrimônio de Lot, filho do seu irmão, e o deu a Shem, filho de Noach, como está dito: "e deu-lhe o dízimo de tudo" (Bereshit 14:20).
רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר: אַבְרָהָם הִתְחִיל רִאשׁוֹן לְעַשֵּׂר. לָקַח הַמַּעֲשֵׂר מִכָּל מַה שֶּׁהֵשִׁיב מִן הָרְכוּשׁ שֶׁל סְדֹם וַעֲמֹרָה וְאֶת כָּל מַעְשַׂר רְכוּשׁ לוֹט בֶּן אָחִיו וְנָתַן לְשֵׁם בֶּן נֹחַ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּתֶּן לוֹ מַעֲשֵׂר מִכֹּל״.
Nota — Shem, filho de Noach, é Malki-Tzedek. A tradição identifica "Shem, filho de Noach" com Malki-Tzedek, rei de Shalem Jerusalém, sacerdote do D'us Altíssimo, a quem Avraham entrega o dízimo (Bereshit 14:18–20). Avraham é, assim, o primeiro a separar o dízimo — não por obrigação imposta, mas por gratidão: reconhece que a vitória e os bens vêm de D'us, e devolve uma parte ao serviço do Céu. O gesto antecipa a mitsvá do dízimo e ensina que a riqueza recém-conquistada não pertence inteiramente a quem a ganha.
7
Saiu Shem, filho de Noach, ao seu encontro, e viu todos os feitos que Avraham realizara e todo o patrimônio que recuperara, e maravilhou-se no seu coração. Começou a louvar, a glorificar e a exaltar o nome do Altíssimo, dizendo: "e bendito seja o D'us Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos" (Bereshit 14:20). Levantou-se Avraham e orava diante do Santo, bendito seja, e disse: "Senhor de todos os mundos! Não foi pela força da minha mão nem pela força da minha destra que fiz tudo isto, mas pela força da Tua destra, com que me escudas neste mundo e no mundo vindouro" — como está dito: "mas Tu, ó Eterno, és um escudo ao meu redor" (Tehilim 3:4), neste mundo; "minha glória, e o que ergue a minha cabeça", no mundo vindouro. E responderam os seres supernos e disseram: "Bendito és Tu, ó Eterno, escudo de Avraham".
יָצָא שֵׁם בֶּן נֹחַ לִקְרָאתוֹ, וְרָאָה אֶת כָּל הַמַּעֲשִׂים שֶׁעָשָׂה וְאֶת כָּל הָרְכוּשׁ שֶׁהֵשִׁיב, וְהָיָה תָּמֵהַּ בְּלִבּוֹ. הִתְחִיל מְהַלֵּל וּמְפָאֵר וּמְשַׁבֵּחַ לְשֵׁם עֶלְיוֹן, וְאוֹמֵר: ״בָּרוּךְ אֵל עֶלְיוֹן אֲשֶׁר מִגֵּן צָרֶיךָ בְּיָדֶיךָ״. עָמַד אַבְרָהָם וְהָיָה מִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאָמַר: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים! לֹא בְּכֹחַ יָדִי וְלֹא בְּכֹחַ יְמִינִי עָשִׂיתִי אֶת כָּל אֵלֶּה, אֶלָּא בְּכֹחַ יְמִינְךָ שֶׁאַתָּה מָגֵן לִי בָּעוֹלָם הַזֶּה וּבָעוֹלָם הַבָּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאַתָּה ה׳ מָגֵן בַּעֲדִי״ – בָּעוֹלָם הַזֶּה; ״כְּבוֹדִי וּמֵרִים רֹאשִׁי״ – לָעוֹלָם הַבָּא. וְעָנוּ הָעֶלְיוֹנִים וְאָמְרוּ: בָּרוּךְ אַתָּה ה׳, מָגֵן אַבְרָהָם.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A guerra dos reis e a lealdade que arrisca tudo

Lot havia se separado de Avraham e escolhido viver junto a Sodoma (cap. 25). Quando os quatro reis o levam cativo, Avraham não diz "ele escolheu o seu caminho": parte de imediato, com pouquíssimos homens, contra exércitos vitoriosos, para resgatar o parente. Os sábios veem aqui o chesed de Avraham levado ao extremo — a bondade que não calcula méritos nem segurança. Salvar uma vida está acima de antigas desavenças.

Os anjos: mensageiros, não criaturas aladas

O capítulo identifica o "fugitivo" com Michael e narra a queda de Samael — linguagem da aggadá. A tradição racionalista lê os anjos como inteligências incorpóreas, forças pelas quais D'us conduz o mundo (Rambam, Hilchot Yesodei haTorá 2 e o Guia dos Perplexos II): não têm corpo nem asas, e os relatos de "subir" e "cair" são figuras. O essencial do verso é simples e humano: alguém escapou da batalha e levou a notícia, e Avraham respondeu. As imagens servem ao ensino moral, não a uma mitologia.

Guematria: a vitória dos poucos

Que os "318" homens sejam o valor numérico de "Eliézer" (Nedarim 32a) não transforma a Torá num enigma cifrado. É um derash: um modo de dizer que a força de Avraham não estava no número de soldados, mas na sua fé — quase sozinho, com um único servo, venceu reis (cf. o ensaio sobre guematria e "códigos"). A mesma lição atravessa a Bíblia: "não pela força nem pelo poder, mas pelo Meu espírito" (Zechariá 4:6).

O escudo de Avraham e a humildade do vencedor

O ponto culminante é moral. No auge da vitória — quando seria mais natural orgulhar-se —, Avraham recusa todo crédito: "não foi pela força da minha mão... mas pela Tua destra". Primeiro separa o dízimo a Shem (Malki-Tzedek), em gratidão; depois atribui tudo a D'us. Os sábios ligam esse momento à primeira bênção da Amidá, que se sela com "Magen Avraham" — "escudo de Avraham": o herói que sabe que o verdadeiro escudo não é o seu braço. Para o Rambam (Hilchot Deot), a humildade é a virtude do homem grande que conhece o seu lugar diante do Criador. A maior conquista de Avraham, neste capítulo, não foi a batalha — foi não se gloriar dela.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 28

A Aliança entre as Partes: os impérios e a luz ao entardecer

פֶּרֶק כ״ח

A sétima provação. Numa visão noturna, Avraham vê toda a história à frente: os grandes impérios que hão de erguer-se e cair, a longa noite do exílio — e a promessa de que, justamente ao entardecer, virá a luz. Uma meditação sobre a impermanência de todo poder terreno e a permanência de um povo.

1
A sétima provação: "depois destas coisas, veio a palavra do Eterno a Avram numa visão, dizendo: não temas, Avram" (Bereshit 15:1). A todos os profetas D'us se revelou em visão (chazon); mas a Avraham revelou-se em visão e em aparição (mareh). De onde sabemos da aparição? Do que está dito: "e apareceu-lhe o Eterno nos carvalhais de Mamre" (Bereshit 18:1). E da visão? Do que está dito: "depois destas coisas, veio a palavra do Eterno a Avram numa visão". Disse o Santo, bendito seja, a Avraham: fica sabendo que a Minha destra te protege em todo lugar aonde fores, como um escudo diante do infortúnio; e dei boa recompensa a ti e aos teus filhos, neste mundo e no mundo vindouro, como está dito: "a tua recompensa é muito grande" (Bereshit 15:1).
הַנִּסָּיוֹן הַשְּׁבִיעִי, ״אַחַר הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה הָיָה דְבַר ה׳ אֶל אַבְרָם בַּמַּחֲזֶה לֵאמֹר אַל תִּירָא אַבְרָם״. לְכָל הַנְּבִיאִים נִגְלָה בְּחָזוֹן וּלְאַבְרָהָם נִגְלָה בְּחָזוֹן וּבְמַרְאֶה. בְּמַרְאֶה מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּרָא אֵלָיו ה׳ בְּאֵלֹנֵי מַמְרֵא״. בְּחָזוֹן מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַחַר הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה הָיָה דְבַר ה׳ אֶל אַבְרָם בַּמַּחֲזֶה לֵאמֹר״. אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְאַבְרָהָם: דַּע כִּי יְמִינִי מְגִנָּה לְךָ בְּכָל מָקוֹם שֶׁאַתָּה הוֹלֵךְ, כִּתְרִיס לִפְנֵי הַפּוּרְעָנוּת, וְנָתַתִּי שָׂכָר טוֹב לְךָ וּלְבָנֶיךָ בָּעוֹלָם הַזֶּה וּבָעוֹלָם הַבָּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שְׂכָרְךָ הַרְבֵּה מְאֹד״.
2
Rabi Yehudá haNassi diz: o Santo, bendito seja, levou Avraham para fora da sua tenda na noite festiva de Pessach, e disse-lhe: "Avraham, tens força para contar todo o exército dos céus?". Disse Avraham perante Ele: "Senhor de todos os mundos, acaso há número para as Tuas legiões?". Disse-lhe D'us: "assim a tua descendência não se poderá contar, de tão numerosa", como está dito: "e disse-lhe: assim será a tua descendência" (Bereshit 15:5).
רַבִּי אוֹמֵר: הוֹצִיא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְאַבְרָהָם הַחוּצָה בְּלֵילֵי יוֹם טוֹב הַפֶּסַח. אָמַר לוֹ: ״אַבְרָהָם, יֵשׁ לְךָ כֹּחַ לִסְפֹּר כָּל צְבָא הַשָּׁמַיִם?״ אָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, וְכִי יֵשׁ מִסְפָּר לִגְדוּדֶיךָ?״ אָמַר לוֹ: ״כָּךְ לֹא יִסָּפֵר זַרְעֲךָ מֵרֹב״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר לוֹ כֹּה יִהְיֶה זַרְעֶךָ״.
3
Rabi Eliezer diz: o Santo, bendito seja, mostrou a Avraham, nosso pai, na aliança entre as partes, os quatro reinos impérios — o seu domínio e a sua queda —, como está dito: "e disse-lhe: toma para Mim uma novilha de três anos..." (Bereshit 15:9). "Uma novilha de três anos" — este é o reino de Edom Roma, que é como a novilha que pisa o trigo. "Uma cabra de três anos" — este é o reino da Grécia, como está dito: "e o bode magnificou-se sobremaneira" (Daniel 8:8). "E um carneiro de três anos" — este é o reino da Média e da Pérsia, como está dito: "o carneiro que viste, o de dois chifres, são os reis da Média e da Pérsia" (Daniel 8:20). "E uma rola (tor)" — estes são os impérios ligados aos filhos de Yishmael; e este termo não está no sentido de "rola", mas no aramaico tor significa "boi" a quarta besta de Daniel 7:19. "E um filhote de pomba (gozal)" — este é Israel, que foi comparado a um filhote de pomba, como está dito: "minha pomba, que estás nas fendas da rocha" (Shir haShirim 2:14) — pois a tua voz é doce na oração e a tua aparência é formosa nas boas ações; e ainda: "uma só é a minha pomba, a minha perfeita" (Shir haShirim 6:9).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: הֶרְאָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְאַבְרָהָם אָבִינוּ בֵּין הַבְּתָרִים אַרְבַּע מַלְכֻיּוֹת, מוֹשְׁלָן וְאָבְדָן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר אֵלָיו קְחָה לִי עֶגְלָה מְשֻׁלֶּשֶׁת״ וְכוּ׳. ״עֶגְלָה מְשֻׁלֶּשֶׁת״ – זוֹ מַלְכוּת אֱדוֹם שֶׁהִיא כְּעֶגְלָה דָּשָׁא. ״עֵז מְשֻׁלֶּשֶׁת״ – זוֹ מַלְכוּת יָוָן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּצְפִיר הָעִזִּים הִגְדִּיל עַד מְאֹד״. ״וְאַיִל מְשֻׁלָּשׁ״ – זוֹ מַלְכוּת מָדַי וּפָרַס, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הָאַיִל בַּעַל הַקְּרָנַיִם אֲשֶׁר רָאִיתָ – מַלְכֵי מָדַי וּפָרָס״. ״וְתֹר״ – אֵלּוּ בְּנֵי יִשְׁמָעֵאל. אֵין הַלָּשׁוֹן הַזֶּה לְשׁוֹן תּוֹר, אֶלָּא בִּלְשׁוֹן אֲרַמִּית ״תּוֹר״ זֶה שׁוֹר. ״וְגוֹזָל״ – אֵלּוּ יִשְׂרָאֵל שֶׁנִּמְשְׁלוּ כְּגוֹזָל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יוֹנָתִי בְּחַגְוֵי הַסֶּלַע״, כִּי קוֹלֵךְ עָרֵב בִּתְפִלָּה וּמַרְאֵךְ נָאוֶה בְּמַעֲשִׂים טוֹבִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַחַת הִיא יוֹנָתִי תַמָּתִי״.
Nota essencial — os "quatro reinos" e a leitura responsável. Esta é a célebre visão dos impérios de Daniel (cap. 2 e 7): os grandes poderes que, ao longo da história, dominaram a Terra e subjugaram Israel. Na linguagem dos sábios, "Edom" passou a designar Roma (e, mais tarde, o Ocidente que dela herdou); "Yishmael", os impérios do tempo em que esta obra foi compilada (período dos Gueonim, já sob o califado). São nomes simbólico-históricos de potências políticas, nascidos da experiência do exílio — não categorias raciais nem um juízo sobre qualquer povo vivo de hoje. A leitura racionalista vê aqui uma meditação sobre a impermanência de todo império: nações se erguem, dominam e caem; só os valores eternos perduram. Avraham é pai tanto de Yitzchak quanto de Yishmael — e orou também por Yishmael (Bereshit 17:18) —, e a Torá afirma a unidade e a dignidade de toda a humanidade. Nada aqui autoriza inimizade; ao contrário, ensina que a aspiração final é a paz entre as nações (Yeshayá 2:4).
4
Rabi Acha ben Yaakov diz: este termo "meshuléshet" de três anos foi dito apenas para indicar os poderosos em força, conforme se diz: "e o cordão de três fios não se rompe depressa" (Kohelet 4:12).
רַבִּי אַחָא בֶּן יַעֲקֹב אוֹמֵר: לֹא נֶאֱמַר לָשׁוֹן זֶה ״מְשֻׁלֶּשֶׁת״ אֶלָּא גִּבּוֹרֵי כֹּחַ, כְּמָה דְאָמַר ״וְהַחוּט הַמְשֻׁלָּשׁ לֹא בִמְהֵרָה יִנָּתֵק״.
5
Rabi Meyashá diz: "meshuléshet" significa que serão triplicados no seu domínio: três vezes, no futuro, hão de querer dominar a terra de Israel. Na primeira vez, cada um por si; na segunda vez, dois juntos; na terceira vez, todos como um só, para guerrear contra a casa de David, como está dito: "levantam-se os reis da terra e os príncipes conspiram juntos contra o Eterno e contra o Seu ungido" (Tehilim 2:2).
רַבִּי מְיָאשָׁא אוֹמֵר: ״מְשֻׁלֶּשֶׁת״ — מְשֻׁלָּשִׁים יִהְיוּ. שָׁלֹשׁ פְּעָמִים עֲתִידִין יִהְיוּ לִמְשֹׁל בְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל, פַּעַם רִאשׁוֹנָה כָּל אֶחָד וְאֶחָד בִּפְנֵי עַצְמוֹ, פַּעַם שְׁנִיָּה בִּשְׁנַיִם, פַּעַם שְׁלִישִׁית כֻּלָּם כְּאֶחָד לְהִלָּחֵם עַל בֵּית דָּוִד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יִתְיַצְּבוּ מַלְכֵי אֶרֶץ״.
6
Rabi Yehoshua diz: tomou Avraham a sua espada e dividiu-os, cada um em dois, como está dito: "e tomou para si todos estes, e dividiu-os pelo meio" (Bereshit 15:10). E se ele não os tivesse dividido, o mundo não poderia subsistir; mas, porque os dividiu, enfraqueceu a sua força, e aproximou cada parte da que lhe correspondia, como está dito: "e pôs cada parte defronte da outra" (ibid.). E o filhote de pomba Israel deixou-o vivo, como está dito: "mas a ave não dividiu" (ibid.). Daqui aprendes que não havia ali outra ave senão o filhote de pomba. Desceu sobre eles a ave de rapina (ayit) para dispersá-los e destruí-los — e essa ave de rapina não é senão David, filho de Yishai, que foi comparado a uma ave de rapina, como está dito: "acaso é a Minha herança para Mim como ave de rapina malhada?" (Yirmiyá 12:9).
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר: לָקַח אַבְרָהָם חַרְבּוֹ וְכָתַר אוֹתָם אֶחָד לִשְׁנַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּקַּח לוֹ אֶת כָּל אֵלֶּה וַיְבַתֵּר אֹתָם בַּתָּוֶךְ״. וְאִלּוּ לֹא בָתַר אוֹתָם, לֹא הָיָה הָעוֹלָם יָכוֹל לַעֲמֹד. אֶלָּא הוֹאִיל וּבָתַר אוֹתָם, תָּשַׁשׁ כֹּחָם, וְהִקְרִיב כָּל בֶּתֶר וּבֶתֶר לִקְרַאת רֵעֵהוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּתֵּן אִישׁ בִּתְרוֹ לִקְרַאת רֵעֵהוּ״. וְגוֹזָל בֶּן יוֹנָה הִנִּיחַ בַּחַיִּים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאֶת הַצִּפֹּר לֹא בָתָר״. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁלֹּא הָיָה שָׁם גּוֹזָל אַחֵר אֶלָּא בֶּן יוֹנָה בִּלְבַד. יָרַד עֲלֵיהֶם הָעַיִט לְפַזְּרָן וּלְאַבְּדָן, וְאֵין הָעַיִט זֶה אֶלָּא בֶּן דָּוִד בֶּן יִשַׁי, שֶׁנִּמְשַׁל כְּעַיִט, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הַעַיִט צָבוּעַ נַחֲלָתִי לִי״ וְכוּ׳.
Nota — as partes divididas e a pomba inteira. O símbolo é límpido: os impérios são divididos ao meio — internamente fraturados, gastando a própria força um contra o outro —, e por isso o mundo "pode subsistir": nenhuma tirania domina para sempre. Mas Israel, o "filhote de pomba", não é dividido: permanece inteiro através de toda a história. A ave de rapina que desce e os afugenta é lida como a casa de David — a força que defende e, no fim, o ungido que traz a redenção. A lição: enquanto as nações se despedaçam, a tarefa de Israel é permanecer fiel e inteiro.
7
Ao despontar o sol no oriente, Avraham sentava-se e agitava sobre eles a sua manta, para que a ave de rapina não os dominasse até que viesse o corvo o tempo determinado.
כְּצֵאת הַשֶּׁמֶשׁ מִן הַמִּזְרָח, הָיָה אַבְרָהָם יוֹשֵׁב וּמֵנִיף עֲלֵיהֶם בְּסוּדָרוֹ, כְּדֵי שֶׁלֹּא יִמְשֹׁל בָּם הָעַיִט עַד שֶׁיָּבֹא הָעוֹרֵב.
8
Rabi Elazar ben Azariá diz: daqui aprendes que o domínio destes quatro reinos não dura senão um dia, medido pelo dia do Santo, bendito seja um "dia" de mil anos. Disse-lhe Rabi Elazar ben Arach: certamente, como dizes — como está dito: "tornou-me desolada, definhando o dia inteiro" (Eichá 1:13) —, exceto por duas terças partes de uma hora. Sabe que é assim: vem e vê — quando o sol se inclina ao poente por cerca de duas mãos de medida, enfraquece a sua luz e já não tem fulgor; e assim também, antes que venha a noite, despontará a luz de Israel, como está dito: "e acontecerá que, ao tempo do entardecer, haverá luz" (Zechariá 14:7).
רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה אוֹמֵר: מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁאֵין מָשְׁלָן שֶׁל אַרְבַּע מַלְכֻיּוֹת הַלָּלוּ אֶלָּא יוֹם אֶחָד מִיּוֹמוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא. אָמַר לוֹ רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲרָךְ: בְּוַדַּאי כִּדְבָרֶיךָ, שֶׁנֶּאֱמַר ״נְתָנַנִי שׁוֹמֵמָה כָּל הַיּוֹם דָּוָה״, חוּץ מִשְּׁתֵּי יָדוֹת שָׁעָה. תֵּדַע לְךָ שֶׁהוּא כֵּן, בֹּא וּרְאֵה: כְּשֶׁהַחַמָּה נוֹטָה בַמַּעֲרָב שְׁתֵּי יָדוֹת, תָּשַׁשׁ אוֹרוֹ וְאֵין נֹגַהּ לוֹ. וְכֵן, עַד שֶׁלֹּא יָבֹא הָעֶרֶב, יִשְׂמַח אוֹרָן שֶׁל יִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְהָיָה לְעֵת עֶרֶב יִהְיֶה אוֹר״.
Nota — "ao entardecer haverá luz". O coração espiritual do capítulo. O domínio dos impérios é "um só dia" diante de D'us (cf. "mil anos aos Teus olhos são como o dia de ontem", Tehilim 90:4): por mais longo que pareça ao homem, é breve na escala da eternidade. E a imagem final é de esperança: assim como a luz do sol parece extinguir-se justamente antes do pôr, e ainda há claridade, também a redenção de Israel virá na hora mais escura — "ao tempo do entardecer haverá luz" (Zechariá 14:7). A leitura racionalista não fixa datas: afirma que a história tem um sentido moral, que a tirania é passageira, e que a luz da verdade e da justiça prevalecerá.
9
Levantou-se Avraham e orava diante do Santo, bendito seja, para que os seus filhos não fossem escravizados por estes quatro reinos; e caiu sobre ele um sono profundo (tardemá) e adormeceu, como está dito: "e um sono profundo caiu sobre Avram" (Bereshit 15:12). E acaso há quem esteja sentado, dormindo, e possa orar? Mas isto vem ensinar-te que Avram jazia adormecido pela própria força da oração — para que, no fim, estes quatro reinos é que fossem subjugados diante de Israel —, como está dito: "e eis que um terror, e uma grande escuridão, caía sobre ele" (Bereshit 15:12). "Terror" — este é o reino de Edom, como está dito: "uma quarta besta terrível, pavorosa e fortíssima" (Daniel 7:7). "Escuridão" — este é o reino da Grécia, que escureceu os olhos de Israel afastando-o de todos os mandamentos da Torá. "Grande" — este é o reino da Pérsia e da Média, que foi grande a ponto de vender Israel por nada como no decreto de Hamán. "Caía" — este é o reino da Babilônia, em cuja mão caiu Israel. "Sobre ele" — estes são os impérios ligados aos yishmaelim, sobre os quais no fim florescerá o filho de David, como está dito: "aos seus inimigos vestirei de vergonha, mas sobre ele florescerá a sua coroa" (Tehilim 132:18).
עָמַד אַבְרָהָם וְהָיָה מִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא כְּדֵי שֶׁלֹּא יִשְׁתַּעְבְּדוּ בָּנָיו בְּאַרְבַּע מַלְכֻיּוֹת הַלָּלוּ, וְנָפְלָה עָלָיו שְׁנַת תַּרְדֵּמָה וַיִּישַׁן לוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְתַרְדֵּמָה נָפְלָה עַל אַבְרָם״. וְכִי יֵשׁ לְךָ אָדָם שֶׁהוּא יוֹשֵׁב וְיָשֵׁן וְיוּכַל לְהִתְפַּלֵּל? אֶלָּא לְלַמֶּדְךָ שֶׁהָיָה אַבְרָם שׁוֹכֵב וְיָשֵׁן מִכֹּחַ תְּפִלָּה כְּדֵי שֶׁיִּשְׁתַּעְבְּדוּ אַרְבַּע מַלְכֻיּוֹת הַלָּלוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהִנֵּה אֵימָה חֲשֵׁכָה גְדֹלָה נֹפֶלֶת עָלָיו״. ״אֵימָה״ – זוֹ מַלְכוּת אֱדוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״דְּחִילָא וְאֵימְתָנִי וְתַקִּיפָא״. ״חֲשֵׁכָה״ – זוֹ מַלְכוּת יָוָן שֶׁהֶחְשִׁיכָה עֵינֵיהֶם שֶׁל יִשְׂרָאֵל מִכָּל מִצְווֹת הַתּוֹרָה. ״גְּדוֹלָה״ – זוֹ מַלְכוּת פָּרַס וּמָדַי שֶׁגָּדְלָה לִמְכֹּר אֶת יִשְׂרָאֵל חִנָּם. ״נֹפֶלֶת״ – זוֹ מַלְכוּת בָּבֶל שֶׁנָּפְלָה בְּיָדָם יִשְׂרָאֵל. ״עָלָיו״ – אֵלּוּ יִשְׁמְעֵאלִים שֶׁעֲלֵיהֶם בֶּן דָּוִד יִצְמַח, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אוֹיְבָיו אַלְבִּישׁ בֹּשֶׁת״.
10
Rabi Zeerá diz: estes reinos não foram criados senão como lenha para o Guehinom, como está dito: "e eis um forno fumegante e uma tocha de fogo que passou entre aquelas partes" (Bereshit 15:17); e "forno" não é senão o Guehinom, que foi comparado a um forno, como está dito: "diz o Eterno, cujo fogo está em Tziyon e cujo forno está em Jerusalém" (Yeshayá 31:9).
רַבִּי זְעֵירָא אוֹמֵר: לֹא נִבְרְאוּ מַלְכֻיּוֹת הַלָּלוּ אֶלָּא עֵצִים לַגֵּיהִנֹּם, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְהִנֵּה תַנּוּר עָשָׁן וְלַפִּיד אֵשׁ״. וְאֵין תַּנּוּר אֶלָּא גֵּיהִנֹּם שֶׁנִּמְשְׁלָה כְּתַנּוּר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״נְאֻם ה׳ אֲשֶׁר אוּר לוֹ בְּצִיּוֹן וְתַנּוּר לוֹ בִּירוּשָׁלִָם״.
Nota — "lenha para o Guehinom". Na tradição racionalista, o Guehinom não é um lugar de fogo material, mas a consequência moral do mal (cf. o ensaio sobre o céu e o inferno): a injustiça é, em última análise, autodestrutiva. Dizer que "os impérios foram criados como lenha para o Guehinom" é dizer que todo poder erguido sobre a crueldade acaba por consumir a si mesmo: a tocha de fogo que passa entre as partes da Aliança é o juízo da história sobre a tirania. O que permanece, depois que o fogo se apaga, é a aliança de D'us com Avraham e a sua descendência.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A Aliança entre as Partes: a história revelada

A sétima provação de Avraham não é uma batalha, mas uma visão: D'us lhe mostra, na brit bein habetarim (Bereshit 15), toda a história à frente — o exílio, os impérios, a opressão e, no fim, a redenção. Provar Avraham aqui é confiá-lo com a verdade dura: os seus filhos atravessarão noites longas. E a fé de Avraham consiste em receber essa visão sem desesperar, porque ela termina em luz. Os sábios leem o capítulo como uma teologia da história: nada do que acontece a Israel está fora do plano da Aliança.

Os impérios — e por que são "divididos"

Os animais partidos ao meio representam, segundo Rabi Eliezer, os grandes reinos de Daniel. O Radal e os comentadores clássicos sublinham o detalhe decisivo: as feras são divididas, mas a pomba (Israel) não. Toda potência terrena carrega em si a própria fratura — guerras internas, decadência, queda; só por isso "o mundo pode subsistir". É a leitura racionalista da impermanência: o que se ergue sobre a força perece pela força. A lição não é ódio a nenhum povo (a nota essencial acima é clara), mas lucidez sobre a fragilidade de todo império diante do tempo.

"Ao tempo do entardecer haverá luz"

O verso de Zechariá (14:7) é o fio de ouro do capítulo. Rabi Elazar ben Azariá ensina que o domínio dos reinos é "um só dia" diante de D'us — breve na escala da eternidade. E a luz não vem ao meio-dia, mas ao entardecer: na hora mais escura. Para a tradição, esta é a estrutura da esperança judaica — não um otimismo ingênuo, mas a convicção de que a história tem um sentido moral e que a redenção amadurece justamente na adversidade. "Tornou-me desolada o dia inteiro" (Eichá 1:13) — mas o dia tem fim.

A oração que vence a noite

O capítulo fecha com Avraham orando, em pleno sono profundo, para que os seus filhos não fossem escravizados — e, no fim, para que os próprios impérios fossem subjugados. Os sábios extraem daqui que a história não é um destino cego: a tefilá de Avraham age através das gerações. O "forno fumegante" da Aliança não consome Israel — consome a tirania (Rabi Zeerá). A última palavra não é dos impérios, mas da Aliança: é a fé de Avraham, e não o poder dos reinos, que define o fim da história.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 29

A circuncisão: a aliança na carne e no coração

פֶּרֶק כִּ״ט

A oitava provação. Aos noventa e nove anos, Avraham recebe a ordem da circuncisão — o selo da aliança na própria carne. Mas o capítulo logo se eleva: da marca no corpo à “circuncisão do coração”, do rito à bondade — pois é enquanto Avraham convalesce que o próprio D’us o vem visitar, ensinando que a maior santidade é a compaixão.

1
A oitava provação: “e Avram tinha noventa e nove anos” (Bereshit 17:1); disse-lhe o Santo, bendito seja: “anda diante de Mim e sê íntegro (tamim)”. Disse-lhe: até agora não eras íntegro completo; circuncida, pois, a carne do teu prepúcio (orlá) e anda diante de Mim e sê íntegro. Pois a orlá é tratada como impura entre as impurezas, como está dito: “não tornará a entrar em ti o incircunciso nem o impuro” (Yeshayá 52:1); a orlá é como um defeito entre os defeitos. Circuncida a carne do teu prepúcio e sê íntegro.
נִסָּיוֹן הַשְּׁמִינִי, (בראשית יז, א): ״וַיְהִי אַבְרָם בֶּן תִּשְׁעִים שָׁנָה וְתֵשַׁע שָׁנִים״, אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא ״הִתְהַלֵּךְ לְפָנַי וֶהְיֵה תָמִים״. אָמַר לוֹ: עַד עַכְשָׁו לֹא הָיִיתָ תָמִים, אֶלָּא מוֹל בְּשַׂר עָרְלָתְךָ מֵעָלֶיךָ, וְהִתְהַלֵּךְ לְפָנַי וֶהְיֵה תָמִים. שֶׁהָעָרְלָה טְמֵאָה הִיא מִכָּל הַטֻּמְאוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר (ישעיהו נב, א): ״לֹא יוֹסִיף יָבֹא בָךְ עוֹד עָרֵל וְטָמֵא״. שֶׁהָעָרְלָה מוּם מִכָּל מוּמִים. מוֹל בְּשַׂר עָרְלָתְךָ וֶהְיֵה תָמִים.
2
Rabban Gamliel diz: Avraham mandou chamar Shem, filho de Noach, e este circuncidou a carne do prepúcio dele e a carne do prepúcio de Yishmael, seu filho, como está dito: “naquele mesmo dia (be’étzem hayom) foram circuncidados Avraham e Yishmael, seu filho” (Bereshit 17:26). Que é “naquele mesmo dia”? No vigor do sol, ao meio-dia. E mais: deriva-se “étzem” daqui de “étzem” dito a respeito do Yom Kipur — como ali se diz “nenhuma obra fareis naquele mesmo dia, pois é o dia da expiação” (Vayikrá 23:28) —, ensinando que foi no Yom Kipur que Avraham se circuncidou. E, a cada ano, o Santo, bendito seja, vê o sangue da aliança da circuncisão de Avraham, nosso pai, e expia todas as nossas iniquidades, como está dito: “porque neste dia Ele expiará por vós, para vos purificar” (Vayikrá 16:30). E no lugar em que Avraham foi circuncidado e onde ficou o seu sangue, ali foi construído o altar; por isso se diz: “e todo o seu sangue derramará no fundamento do altar” (Vayikrá 4:30); “e Eu te disse: no teu sangue, vive; e te disse: no teu sangue, vive” (Yechezkel 16:6).
רַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: שָׁלַח וְקָרָא לְשֵׁם בֶּן נֹחַ וּמָל אֶת בְּשַׂר עָרְלָתוֹ וּבְשַׂר עָרְלַת יִשְׁמָעֵאל בְּנוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר (בראשית יז, כו): ״בְּעֶצֶם הַיּוֹם הַזֶּה נִמּוֹל אַבְרָהָם וְיִשְׁמָעֵאל בְּנוֹ״. מַה הוּא ״בְּעֶצֶם הַיּוֹם הַזֶּה״? בִּגְבוּרַת הַשֶּׁמֶשׁ בַּחֲצִי הַיּוֹם. וְלֹא עוֹד, אָתְיָא ״עֶצֶם״ מִ״עֶצֶם״ מִיּוֹם הַכִּפּוּרִים, מַה לְּהַלָּן (ויקרא כג, כח): ״כָּל מְלָאכָה לֹא תַעֲשׂוּ בְּעֶצֶם הַיּוֹם הַזֶּה כִּי יוֹם כִּפֻּרִים הוּא״, שֶׁבְּיוֹם הַכִּפּוּרִים נִמּוֹל אַבְרָהָם, וּבְכָל שָׁנָה וְשָׁנָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא רוֹאֶה דַּם הַבְּרִית שֶׁל מִילָה שֶׁל אַבְרָהָם אָבִינוּ, וּמְכַפֵּר עַל כָּל עֲוֹנוֹתֵינוּ, שֶׁנֶּאֱמַר (ויקרא טז, ל): ״כִּי בַיּוֹם הַזֶּה יְכַפֵּר עֲלֵיכֶם לְטַהֵר אֶתְכֶם״. וּבְאוֹתוֹ מָקוֹם שֶׁנִּמּוֹל אַבְרָהָם וְנִשְׁאַר דָּמוֹ, שָׁם נִבְנָה הַמִּזְבֵּחַ, וּלְכָךְ נֶאֱמַר (ויקרא ד, כה): ״וְאֶת כָּל דָּמוֹ יִשְׁפֹּךְ אֶל יְסוֹד הַמִּזְבֵּחַ״, (יחזקאל טז, ו): ״וָאֹמַר לָךְ בְּדָמַיִךְ חֲיִי וָאֹמַר לָךְ בְּדָמַיִךְ חֲיִי״.
Nota — a circuncisão, o Yom Kipur e a expiação. A obra liga, por um jogo de palavras (étzemétzem), a circuncisão de Avraham ao Yom Kipur, e o “sangue da aliança” à expiação. A leitura racionalista não vê aqui magia do sangue: o que “protege” e “expia” é o mérito da devoção e a aliança que o sangue sela — a escolha da vida e da consagração a D’us (“no teu sangue, vive”, Yechezkel 16:6). O sinal na carne aponta para um compromisso interior, e é esse compromisso, renovado a cada geração, que tem valor diante do Céu (cf. o ensaio sobre o Yom Kipur e a expiação).
3
Rabi Chanina ben Dosá diz: todos os que são circuncidados sentem dor ao terceiro dia, como está dito: “e sucedeu, ao terceiro dia, estando eles ainda doloridos” (Bereshit 34:25). Por isso ensinaram os sábios: lava-se a criança no seu terceiro dia após a milá mesmo quando cai em Shabat, e todas as necessidades da circuncisão se fazem em Shabat.
רַבִּי חֲנִינָא בֶּן דּוֹסָא אוֹמֵר: כָּל הַנִּמּוֹלִים בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי כָּאֵב לָהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר (בראשית לד, כה): ״וַיְהִי בַיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי בִּהְיוֹתָם כֹּאֲבִים״. וּלְכָךְ שָׁנוּ חֲכָמִים: מַרְחִיצִין אֶת הַקָּטָן בַּשְּׁלִישִׁי שֶׁלּוֹ שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת, וְכָל צָרְכֵי מִילָה עוֹשִׂין בְּשַׁבָּת.
4
“E nenhum incircunciso comerá dela da oferta de Pessach” (Shemot 12:48), nem tocará no Santuário. Aquele que se desliga do prepúcio ao circuncidar-se é como quem sai do túmulo da morte para a vida.
(שמות יב, מח): ״וְכָל עָרֵל לֹא יֹאכַל בּוֹ״. וְלֹא יִגַּע בַּמִּקְדָּשׁ, הַפּוֹרֵשׁ מִן הָעָרְלָה כְּפוֹרֵשׁ מִן הַקֶּבֶר.
5
Rabban Gamliel, filho de Rabi Yehudá haNassí, diz: no dia em que Avraham, nosso pai, foi circuncidado, ao terceiro dia, sentia dor intensa — para o provar. Que fez o Santo, bendito seja? Abriu uma fresta no Guehinom e aqueceu o dia tornando-o ardente, de modo que ninguém saísse aos caminhos e Avraham não se cansasse com visitas. E Avraham saiu e sentou-se à entrada da tenda, ao ar do calor do dia, como está dito: “e ele estava sentado à porta da tenda, no calor do dia” (Bereshit 18:1). Disse o Santo, bendito seja, aos anjos do serviço: “vinde, visitemos o enfermo, pois grande é diante de Mim a virtude da gemilut chassadim a prática da bondade”. Imediatamente desceram os anjos e visitaram Avraham. Vem e vê o poder da circuncisão: antes de Avraham ser circuncidado, ele caía (sobre o rosto) e só depois Eu falava com ele, como está dito: “e caiu Avraham sobre o seu rosto” (Bereshit 17:17); agora que está circuncidado, ele está sentado e Eu por assim dizer de pé, como está dito: “e ele estava sentado à porta da tenda” etc. E está escrito: “e levantou os olhos e viu, e eis três homens de pé diante dele” (Bereshit 18:2).
רַבָּן גַּמְלִיאֵל בְּנוֹ שֶׁל רַבִּי יְהוּדָה הַנָּשִׂיא אוֹמֵר: בַּיּוֹם שֶׁנִּמּוֹל אַבְרָהָם אָבִינוּ, בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי, כְּאֵב הָיָה לוֹ מְאֹד כְּדֵי לְנַסּוֹתוֹ. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? נָקַב חוֹר אֶחָד בַּגֵּיהִנֹּם, וְהִרְתִּיחַ אֶת הַיּוֹם כְּיוֹמָן שֶׁל רְשָׁעִים. וְיָצָא וְיָשַׁב לוֹ בְּפֶתַח הָאֹהֶל לְרוּחַ הַיּוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר (בראשית יח, א): ״וְהוּא יֹשֵׁב פֶּתַח הָאֹהֶל כְּחֹם הַיּוֹם״. אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת: ״בּוֹאוּ וּנְבַקֵּר אֶת הַחוֹלֶה, שֶׁמִּדַּת גְּמִילוּת חֲסָדִים גְּדוֹלָה לְפָנַי״. מִיָּד יָרְדוּ הַמַּלְאָכִים וּבִקְּרוּ אֶת אַבְרָהָם. בּוֹא וּרְאֵה כֹּחָהּ שֶׁל מִילָה, שֶׁעַד שֶׁלֹּא נִימּוֹל אַבְרָהָם הָיָה נוֹפֵל (עַל פָּנָיו), וְאַחַר כָּךְ אֲנִי מְדַבֵּר עִמּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר (בראשית יז, יז): ״וַיִּפֹּל אַבְרָהָם עַל פָּנָיו״. עַכְשָׁו שֶׁנִּמּוֹל הוּא יוֹשֵׁב וַאֲנִי עוֹמֵד, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְהוּא יֹשֵׁב פֶּתַח הָאֹהֶל״ וְכוּ'. וּכְתִיב ״וַיִּשָּׂא עֵינָיו וַיַּרְא וְהִנֵּה שְׁלֹשָׁה אֲנָשִׁים נִצָּבִים עָלָיו״.
Nota — o dia em que D’us visitou o doente. Uma das passagens mais belas do midrash: o próprio D’us “visita o enfermo” (Avraham, convalescente da milá) e interrompe, por assim dizer, a grandeza da revelação para ensinar a bondade. Daqui os sábios derivam o dever de imitar os caminhos de D’us (Sotá 14a): “assim como Ele veste os nus, visita os doentes, conforta os enlutados e sepulta os mortos — assim faze tu”. A circuncisão de Avraham torna-se a ocasião para a maior lição ética: a santidade não está só no rito, mas na compaixão concreta pelo próximo (cf. os ensaios sobre a bondade e o amor ao próximo).
6
Rabi Ze’erá diz: há cinco “orlot” (incircuncisões) no mundo — quatro no homem e uma na árvore. As quatro no homem: a orlá do ouvido, como está dito “eis que o seu ouvido é incircunciso” (Yirmiyá 6:10); a orlá dos lábios, como está dito “eis que sou incircunciso de lábios” (Shemot 6:12); a orlá do coração, como está dito “circuncidai o prepúcio do vosso coração” (Devarim 10:16); e a orlá da carne, como está dito “e o incircunciso, o varão que não circuncidar a carne do seu prepúcio” (Bereshit 17:14). E diz: “porque todas as nações são incircuncisas, e toda a casa de Israel é incircuncisa de coração” (Yirmiyá 9:25). E a orlá do coração não deixa a pessoa fazer a vontade do seu Criador; e, no futuro, o Santo, bendito seja, removerá deles a orlá do coração, e não endurecerão mais a sua cerviz diante do seu Criador, como está dito: “e removerei o coração de pedra da vossa carne e vos darei um coração de carne” (Yechezkel 36:26). E uma orlá na árvore, como está dito: “quando entrardes na terra e plantardes toda árvore frutífera, tereis o seu fruto por interdito (orlá) por três anos” (Vayikrá 19:23).
רַבִּי זְעֵירָא אוֹמֵר: חָמֵשׁ עָרְלוֹת בָּעוֹלָם, אַרְבַּע בָּאָדָם וְאַחַת בָּאִילָן. אַרְבַּע בָּאָדָם מִנַּיִן? עָרְלַת הָאֹזֶן, שֶׁנֶּאֱמַר ״הִנֵּה עֲרֵלָה אָזְנָם״. עָרְלַת שְׂפָתַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַאֲנִי עֲרַל שְׂפָתָיִם״. עָרְלַת הַלֵּב, שֶׁנֶּאֱמַר ״וּמַלְתֶּם אֵת עָרְלַת לְבַבְכֶם״. עָרְלַת בָּשָׂר מִנַּיִן? ״וְעָרֵל זָכָר אֲשֶׁר לֹא יִמּוֹל אֶת בְּשַׂר עָרְלָתוֹ״. וְאוֹמֵר ״כִּי כָל הַגּוֹיִם עֲרֵלִים וְכָל בֵּית יִשְׂרָאֵל עַרְלֵי לֵב״. וְעָרְלַת הַלֵּב אֵינָהּ מַנַּחַת לַעֲשׂוֹת רְצוֹן בּוֹרְאוֹ, וּלְעָתִיד לָבֹא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מֵסִיר אֶת עָרְלַת הַלֵּב מֵעֲלֵיהֶן, וְאֵינָן מַקְשִׁין אֶת עָרְפָּם לִפְנֵי בּוֹרְאָם, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַהֲסִרֹתִי אֶת לֵב הָאֶבֶן מִבְּשַׂרְכֶם וְנָתַתִּי לָכֶם לֵב בָּשָׂר״. וְאוֹמֵר ״וּנְמַלְתֶּם אֵת עָרְלַת בְּשַׂרְכֶם״. אַחַת בָּאִילָן, (מִנַּיִן?), שֶׁנֶּאֱמַר ״כִּי תָבֹאוּ אֶל הָאָרֶץ וּנְטַעְתֶּם כָּל עֵץ מַאֲכָל וַעֲרַלְתֶּם עָרְלָתוֹ אֶת פִּרְיוֹ״.
Nota — a circuncisão do coração. Aqui está o coração filosófico do capítulo. A tradição enumera várias “incircuncisões” — do ouvido (que não escuta), dos lábios (que não falam o bem) e, sobretudo, do coração. A “orlá do coração” é a barreira interior — a dureza, a soberba, a escravidão ao desejo — que impede a pessoa de fazer o bem. A milá da carne é o sinal; a milá do coração é a meta: “circuncidai o prepúcio do vosso coração” (Devarim 10:16). Para o Rambam (Guia dos Perplexos III:49), a circuncisão tem dois sentidos racionais: disciplinar o apetite físico, ensinando o domínio de si, e servir de sinal comum a todos os que se unem na crença na unidade de D’us. O fim último não é uma marca no corpo, mas a transformação do caráter.
7
Rabi Zeriká diz: a árvore mencionada aqui não é senão a videira. Se não cortarem da árvore o fruto-orlá dos primeiros três anos, todos os frutos que ela produzir serão cachos ralos e maus de aspecto, e o seu vinho fica inválido para o altar; mas, se cortarem o fruto-orlá, todos os frutos que produzir serão bons de aspecto, e o seu vinho será escolhido para se oferecer sobre o altar. Assim foi Avraham, nosso pai: antes de circuncidado, o fruto a obra que produzia não era pleno nos seus atos e era recusado de sobre o altar; e, quando foi circuncidado, o fruto que produziu foi bom nos seus atos e foi escolhido para se oferecer sobre o altar, como vinho de libação, como está dito: “e vinho para a libação” (Bamidbar 15:5).
רַבִּי זְרִיקָא אוֹמֵר: אֵין עֵץ הָאָמוּר כָּאן אֶלָּא עֵץ הַגֶּפֶן. אִם אֵינָן כּוֹרְתִין עֵץ עָרְלָתוֹ, כָּל הַפֵּרוֹת שֶׁהוּא עוֹשֶׂה עוֹלְלוֹת קְטוּפִין וְלֹא טוֹבִים לְמַרְאֶה, וְנִפְסָל יֵינוֹ עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ. וְאִם כּוֹרְתִין עֵץ עָרְלָתוֹ, כָּל פֵּרוֹת שֶׁהוּא עוֹשֶׂה טוֹבִים לְמַרְאֶה, וְנִבְחַר יֵינָם לְהַקְרִיב עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ. כָּךְ אָבִינוּ אַבְרָהָם, עַד שֶׁלֹּא נִמּוֹל, הַפְּרִי שֶׁעָשָׂה לֹא הָיָה טוֹב בְּמַעֲשָׂיו וְנִפְסַל מֵעַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ, וּכְשֶׁנִּמּוֹל הַפְּרִי שֶׁעָשָׂה הָיָה טוֹב בְּמַעֲשָׂיו וְנִבְחַר לְהַקְרִיב עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ כְּיֵין נֶסֶךְ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְיַיִן לַנֶּסֶךְ״ וְכוּ'.
8
Rabi Yishmael diz: Avraham não adiou nada de tudo o que D’us lhe ordenara; e, quando nasceu Yitzchak, ao oitavo dia trouxe-o à circuncisão, como está dito: “e Avraham circuncidou Yitzchak, seu filho, ao oitavo dia” (Bereshit 21:4). E o apresentou como oferenda sobre o altar figuradamente, e fez festa e banquete. Daqui disseram os sábios: é dever do homem fazer festa e banquete no dia em que tem o mérito de circuncidar o seu filho, como Avraham, nosso pai, como está dito: “e Avraham fez um grande banquete no dia em que Yitzchak foi desmamado”.
רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: לֹא עִכֵּב אַבְרָהָם מִכָּל אֲשֶׁר צִוָּהוּ, וּכְשֶׁנּוֹלַד יִצְחָק בֶּן שְׁמוֹנַת יָמִים הִגִּישׁוֹ לַמִּילָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּמָל אַבְרָהָם אֶת יִצְחָק בְּנוֹ בֶּן שְׁמֹנַת יָמִים״. וְהִגִּישׁוֹ לַמִּנְחָה עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ, וְעָשָׂה שִׂמְחָה וּמִשְׁתֶּה. מִכָּאן אָמְרוּ חֲכָמִים: חַיָּב אָדָם לַעֲשׂוֹת שִׂמְחָה וּמִשְׁתֶּה בְּאוֹתוֹ הַיּוֹם שֶׁזָּכָה לָמוּל אֶת בְּנוֹ כְּאַבְרָהָם אָבִינוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּעַשׂ אַבְרָהָם מִשְׁתֶּה גָדוֹל בְּיוֹם הִגָּמֵל אֶת יִצְחָק״.
9
Rabi Yochanan diz: todos os gentios que se achegam a Israel convertendo-se circuncidam-se por sua própria vontade e bom grado, e no temor do Céu se circuncidam; ainda assim, não se confia plenamente no convertido até passadas sete gerações, para que as “águas não retornem à sua nascente”. Mas os escravos circuncidam-se sem o seu bom grado e sem a sua vontade, e não há a mesma confiança neles. Assim, todos os escravos que se circuncidaram com Avraham, nosso pai, não se firmaram em Israel, nem eles nem a sua descendência. E de onde sabemos que ele os circuncidou? Do que está dito: “e todos os homens da sua casa, os nascidos em casa e os adquiridos, foram circuncidados” (Bereshit 17:27). E por que os circuncidou? Por causa da pureza da sua casa. O texto prossegue numa retórica polêmica e hiperbólica — ver a nota abaixo: que o incircunciso não tornasse impuro o seu senhor com a comida e a bebida; pois “quem come com o incircunciso é como quem come com o cão” — assim como o cão não é circuncidado, assim o incircunciso —; e “quem toca no incircunciso é como quem toca num morto”, e “quem se banha com ele é como quem se banha com o leproso”; “pois em vida são como mortos”, e sobre eles se diz “não são os mortos que louvam a D’us” (Tehilim 115:17). Mas Israel, que é circuncidado, a sua oração entra diante do Santo, bendito seja, e sobre eles se diz: “mas nós bendiremos a D’us, desde agora e para sempre, haleluyá” (Tehilim 115:18).
רַבִּי יוֹחָנָן אוֹמֵר: כָּל הַגּוֹיִם הַבָּאִים בְּיִשְׂרָאֵל נִמּוֹלִים בְּטוֹבָתָם וּבִרְצוֹנָם וּבְיִרְאַת שָׁמַיִם הֵם נִמּוֹלִים, וְאַף עַל פִּי כֵן אֵין מַאֲמִינִים בַּגּוֹיִם עַד שִׁבְעָה דוֹרוֹת שֶׁלֹּא יָשׁוּבוּ הַמַּיִם לְמוֹצָאֵיהֶם. אֲבָל עֲבָדִים נִמּוֹלִים שֶׁלֹּא בְּטוֹבָתָם וְשֶׁלֹּא בִּרְצוֹנָם, וְאֵין אֱמוּנָה בָּעֲבָדִים. כָּךְ כָּל עֲבָדִים שֶׁנִּמּוֹלוּ עִם אַבְרָהָם אָבִינוּ לֹא נִתְקַיְּמוּ לֹא הֵם וְלֹא זַרְעָם בְּיִשְׂרָאֵל. וּמִנַּיִן שֶׁמָּלָן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְכָל אַנְשֵׁי בֵיתוֹ יְלִיד בַּיִת נִמּוֹלוּ״. וְלָמָּה מָלָן? בִּשְׁבִיל הַטָּהֳרָה שֶׁלֹּא יְטַמְּאוּ אֶת אֲדֹנֵיהֶם בְּמַאֲכָלֵיהֶם וּבְמִשְׁתֵּיהֶם, שֶׁכָּל מִי שֶׁאוֹכֵל עִם הֶעָרֵל כְּאִלּוּ אוֹכֵל עִם הַכֶּלֶב. מָה הַכֶּלֶב שֶׁלֹּא נִמּוֹל כָּךְ הֶעָרֵל שֶׁלֹּא נִמּוֹל, וְכָל הַנּוֹגֵעַ בֶּעָרֵל כְּנוֹגֵעַ בַּמֵּת. וְכָל הָרוֹחֵץ עִמּוֹ כְּרוֹחֵץ עִם הַמְּצֹרָע שֶׁהֵם בְּחַיֵּיהֶם כְּמֵתִים, וּבְמוֹתָם כְּנִבְלַת הַשָּׂדֶה וְאֵין תְּפִלָּתָן נִכְנֶסֶת לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וַעֲלֵיהֶם הוּא אוֹמֵר: ״לֹא הַמֵּתִים יְהַלְלוּ יָהּ״. אֲבָל יִשְׂרָאֵל שֶׁהֵן נִמּוֹלִין תְּפִלָּתָן נִכְנֶסֶת לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וַעֲלֵיהֶם הוּא אוֹמֵר: ״וַאֲנַחְנוּ נְבָרֵךְ יָהּ מֵעַתָּה וְעַד עוֹלָם הַלְלוּיָהּ״.
Nota essencial — sobre a linguagem dura deste trecho. Este parágrafo emprega uma retórica polêmica e hiperbólica, própria de um tempo de perseguição em que a circuncisão foi proibida e se tornou a fronteira da sobrevivência do povo. As comparações (“como o cão”, “como os mortos”) são ênfase retórica sobre o valor da aliança — não um juízo sobre o valor humano de quem quer que seja. A tradição racionalista é inequívoca em sentido contrário: todo ser humano é criado à imagem de D’us (tzelem Elokim) e possui dignidade igual — “amado é o homem, criado à imagem” (Avot 3:14). O Rambam ensina expressamente que os justos de todas as nações (chassidé umot ha’olam) têm parte no mundo vindouro (Hilchot Teshuvá 3:5; Hilchot Melachim 8:11). A própria gloria de Avraham foi ser bênção para “todas as famílias da terra” (Bereshit 12:3) e orar até pela ímpia Sodoma. Nada aqui autoriza desprezo por qualquer pessoa; o que o texto exalta, na linguagem da sua época, é a fidelidade à aliança.
10
Rabi diz: Yitzchak circuncidou Yaakov e Esav; e Esav desprezou a circuncisão, assim como desprezou a primogenitura, como está dito: “e Esav desprezou a primogenitura” (Bereshit 25:34). E Yaakov apegou-se à aliança da circuncisão e circuncidou os seus filhos e os filhos dos seus filhos. E de onde sabemos que os filhos de Yaakov eram circuncidados? Do que está dito: “somente com esta condição os homens consentirão em habitar conosco: se todo varão entre nós for circuncidado, como eles são circuncidados” (Bereshit 34:22). Daqui aprendes que os filhos de Yaakov eram circuncidados, circuncidaram os seus filhos e o legaram como estatuto eterno — até que se levantou o Faraó e decretou contra eles decretos duros, e os impediu da aliança da circuncisão. E no dia em que Israel saiu do Egito, todos se circuncidaram, do maior ao menor, como está dito: “porque circuncidados estavam todos os que saíram” (Yehoshua 5:5).
רַבִּי אָמַר: יִצְחָק מָל אֶת יַעֲקֹב וְעֵשָׂו, וְעֵשָׂו מָאַס בַּמִּילָה כְּשֵׁם שֶׁמָּאַס אֶת הַבְּכוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּבֶז עֵשָׂו אֶת הַבְּכֹרָה״. וְיַעֲקֹב דָּבַק בִּבְרִית מִילָה וּמָל אֶת בָּנָיו וְאֶת בְּנֵי בָנָיו. וּמִנַּיִן שֶׁהָיוּ בְּנֵי יַעֲקֹב נִמּוֹלִין? שֶׁנֶּאֱמַר ״אַךְ בְּזֹאת יֵאֹתוּ לָנוּ הָאֲנָשִׁים״ וְכוּ'. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁבְּנֵי יַעֲקֹב הָיוּ נִמּוֹלִין וּמָלוּ לִבְנֵיהֶם וְהִנְחִילוּם לְחֹק עוֹלָם, עַד שֶׁעָמַד פַּרְעֹה וְגָזַר עֲלֵיהֶם גְּזֵרוֹת קָשׁוֹת וּמָנַע מֵהֶם בְּרִית מִילָה. וּבְיוֹם שֶׁיָּצְאוּ יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם נִמּוֹלוּ כֻּלָּם מִגָּדוֹל וְעַד קָטָן, שֶׁנֶּאֱמַר ״כִּי מֻלִים הָיוּ כָּל הָעָם הַיֹּצְאִים״ וְכוּ'.
11
E tomavam o sangue da circuncisão e o sangue do cordeiro de Pessach, e os punham sobre a verga das suas casas; e, quando o Santo, bendito seja, passou para ferir o Egito e viu o sangue da aliança e o sangue de Pessach, encheu-se de misericórdia por Israel, como está dito: “e passei junto a ti e te vi a debater-te no teu sangue, e disse-te: no teu sangue, vive” (Yechezkel 16:6).
וְהָיוּ לוֹקְחִים דַּם מִילָה וְדַם פֶּסַח, וְהָיוּ נוֹתְנִין עַל מַשְׁקוֹף בָּתֵּיהֶן, וּכְשֶׁעָבַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לִנְגֹּף אֶת מִצְרַיִם וְרָאָה דַּם הַבְּרִית וְדַם הַפֶּסַח, נִתְמַלֵּא רַחֲמִים עַל יִשְׂרָאֵל שֶׁנֶּאֱמַר: ״וָאֶעֱבֹר עָלַיִךְ וָאֶרְאֵךְ מִתְבּוֹסֶסֶת בְּדָמָיִךְ וָאֹמַר לָךְ בְּדָמַיִךְ חֲיִי״.
12
Disse Rabi Elazar: e por que viu o texto a necessidade de dizer duas vezes “no teu sangue, vive”? Mas é que disse o Santo, bendito seja: “pelo mérito do sangue da aliança da circuncisão e do sangue de Pessach vos redimi do Egito; e pelo mérito deles estais destinados a ser redimidos no fim do quarto reino”. Por isso se diz duas vezes “no teu sangue, vive”.
אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: וְכִי מָה רָאָה הַכָּתוּב לוֹמַר שְׁנֵי פְּעָמִים ״בְּדָמַיִךְ חֲיִי״? אֶלָּא אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״בִּזְכוּת דַּם בְּרִית מִילָה וְדַם פֶּסַח גָּאַלְתִּי אֶתְכֶם מִמִּצְרַיִם, וּבִזְכוּתָם אַתֶּם עֲתִידִין לִיגָּאֵל בְּסוֹף מַלְכוּת רְבִיעִית״. לְכָךְ נֶאֱמַר שְׁנֵי פְּעָמִים ״בְּדָמַיִךְ חֲיִי״.
13
Há três aflições (inuyim): a aflição do jejum, a aflição do cárcere e a aflição do caminho. A aflição do jejum, de onde? “Afligi a minha alma com o jejum” (Tehilim 35:13). A aflição do cárcere, de onde? “Afligiram com grilhões o seu pé” (Tehilim 105:18). A aflição do caminho, de onde? “Abateu no caminho a minha força” (Tehilim 102:24). E por causa da aflição do caminho no deserto os filhos de Israel não se circuncidaram, pois não os circuncidaram pelo caminho.
שָׁלֹשׁ עִנּוּיִין הֵן: עִנּוּי הַצּוֹם, וְעִנּוּי בֵּית הָאֲסוּרִין, וְעִנּוּי הַדֶּרֶךְ. עִנּוּי הַצּוֹם מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״עִנֵּיתִי בַצּוֹם נַפְשִׁי״. עִנּוּי בֵּית הָאֲסוּרִים מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״עִנּוּ בַכֶּבֶל רַגְלוֹ״. עִנּוּי הַדֶּרֶךְ מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״עִנָּה בַדֶּרֶךְ כֹּחִי״. וּמֵעִנּוּי הַדֶּרֶךְ לֹא מָלוּ בְּנֵי יִשְׂרָאֵל, כִּי לֹא מָלוּ אוֹתָם בַּדֶּרֶךְ.
14
Rabi Yishmael diz: acaso incircuncisos ouviram a voz do Santo, bendito seja, no monte Sinai, e a Israel foi dada a Torá? D’us nos livre de pensar tal coisa — circuncidados estavam; só que não tinham a peri’á o descobrimento completo da circuncisão. E todo aquele que circuncida mas não faz a peri’á da milá é como se não tivesse circuncidado.
רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: וְכִי עֲרֵלִים שָׁמְעוּ קוֹלוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל הַר סִינַי, וְנָתַן לָהֶם אֶת הַתּוֹרָה? אֶלָּא חַס וְשָׁלוֹם, נִמּוֹלִין הָיוּ, אֶלָּא שֶׁלֹּא הָיָה לָהֶם פְּרִיעָה. וְכָל מִי שֶׁמָּל וְלֹא פָרַע אֶת הַמִּילָה, כְּאִלּוּ לֹא מָל.
15
E, quando Israel chegou à terra de Israel, disse o Santo, bendito seja, a Yehoshua: “não sabes que Israel não está circuncidado como deve? Volta e circuncida-os uma segunda vez”, como está dito: “circuncida os filhos de Israel pela segunda vez” (Yehoshua 5:2). E juntou todos os prepúcios até fazer deles um monte como uma colina, como está dito: “e circuncidou os filhos de Israel junto à colina dos prepúcios (Givat haAralot)” (Yehoshua 5:3). E Israel tomava o prepúcio e o sangue e os cobria com o pó do deserto; e, quando veio Bilaam, o adivinho, e viu todo o deserto cheio dos prepúcios de Israel, disse: “quem poderá resistir ao mérito da aliança do sangue da circuncisão, que está coberto pelo pó?”, como está dito: “quem contará o pó de Yaakov?” (Bamidbar 23:10).
וּכְשֶׁבָּאוּ יִשְׂרָאֵל לְאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל, אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לִיהוֹשֻׁעַ: ״אִי אַתָּה יוֹדֵעַ שֶׁאֵין יִשְׂרָאֵל נִמּוֹלִין כְּתִקְנָן? חֲזוֹר וּמוֹל אוֹתָם פַּעַם שְׁנִיָּה״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מוֹל אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל שֵׁנִית״. וְקִבֵּץ כָּל הָעֲרָלוֹת עַד שֶׁעָשָׂה אוֹתָם כְּגִבְעָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּמָל אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל אֶל גִּבְעַת הָעֲרָלוֹת״. וְהָיוּ יִשְׂרָאֵל לוֹקְחִין אֶת הָעָרְלָה וְאֶת הַדָּם וּמְכַסִּין אוֹתָן בַּעֲפַר הַמִּדְבָּר, וּכְשֶׁבָּא בִּלְעָם הַקּוֹסֵם רָאָה אֶת כָּל הַמִּדְבָּר מָלֵא מֵעָרְלָתָן שֶׁל יִשְׂרָאֵל, אָמַר: ״מִי יוּכַל לַעֲמֹד בִּזְכוּת בְּרִית דַּם מִילָה, שֶׁהוּא מְכֻסֶּה בַּעֲפַר (הָאָרֶץ)?״ שֶׁנֶּאֱמַר: ״מִי מָנָה עֲפַר יַעֲקֹב״.
16
Daqui disseram os sábios: cobre-se o prepúcio e o sangue com o pó da terra, como está dito: “e a tua descendência será como o pó da terra” (Bereshit 28:14). E assim Israel costumava circuncidar, até que se dividiram em dois reinos, e o reino de Efraim o reino do norte impediu deles a circuncisão. Levantou-se Eliyahu, de abençoada memória, e teve um grande zelo, e jurou pelos céus que não desceria orvalho nem chuva sobre a terra. Ouviu-o Izével e procurou matá-lo; levantou-se Eliyahu e orava diante do Santo, bendito seja.
מִכָּאן אָמְרוּ חֲכָמִים, מְכַסִּין אֶת הָעָרְלָה וְאֶת הַדָּם בַּעֲפַר הָאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיָה זַרְעֲךָ כַּעֲפַר הָאָרֶץ״. וְכָךְ הָיוּ יִשְׂרָאֵל נְהוּגִין לָמוּל עַד שֶׁנֶּחְלְקוּ לִשְׁנֵי מַמְלָכוֹת, וּמַלְכוּת אֶפְרַיִם מָנְעוּ מֵהֶם אֶת הַמִּילָה, וְעָמַד אֵלִיָּהוּ זָכוּר לַטּוֹב וְקִנֵּא קִנְאָה גְּדוֹלָה, וְנִשְׁבַּע עַל הַשָּׁמַיִם שֶׁלֹּא לְהוֹרִיד טַל וּמָטָר עַל הָאָרֶץ, וְשָׁמְעָה אִיזֶבֶל וּבִקְּשָׁה לַהֲרֹג אוֹתוֹ, עָמַד אֵלִיָּהוּ וְהָיָה מִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא.
17
Disse-lhe o Santo, bendito seja: “és tu melhor do que os teus pais? Esav procurou matar Yaakov — como está dito ‘aproximam-se os dias de luto de meu pai, e então matarei Yaakov, meu irmão’ (Bereshit 27:41) — e Yaakov fugiu de diante dele e se salvou, como está dito ‘e fugiu Yaakov para o campo de Aram’ (Hoshea 12:13). O Faraó procurou matar Moshe, e este fugiu de diante dele e se salvou, como está dito ‘e fugiu Moshe de diante do Faraó’ (Shemot 2:15). Shaul procurou matar David, e este fugiu de diante dele e se salvou, como está dito ‘e David fugiu e se salvou’ (Shmuel I 19:18) — para ensinar-te que todo aquele que foge, salva-se”. Levantou-se Eliyahu e fugiu da terra de Israel e se salvou chegando ao monte Chorev, como está dito: “e levantou-se, e comeu, e bebeu” (Melachim I 19:8). E ali se lhe revelou o Santo, bendito seja, e disse-lhe: “que fazes aqui, Eliyahu?” (Melachim I 19:9). Respondeu: “tenho tido grande zelo” (Melachim I 19:10). Disse-lhe o Santo, bendito seja: “sempre tens zelo. Tiveste zelo em Shitim, por causa da imoralidade — como está dito ‘Pinchas, filho de Elazar, filho de Aharon, o sacerdote desviou a Minha ira’ (Bamidbar 25:11) — e aqui também tens zelo? Pela tua vida: Israel não fará a aliança da circuncisão sem que tu a vejas com os teus olhos”.
אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, (אֵלִיָּהוּ) טוֹב אַתָּה מֵאֲבוֹתֶיךָ? עֵשָׂו בִּקֵּשׁ אֶת יַעֲקֹב לַהֲרֹגוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר ״יִקְרְבוּ יְמֵי אֵבֶל אָבִי וְאַהַרְגָה אֶת יַעֲקֹב אָחִי״. וּבָרַח מִלְּפָנָיו וְנִמְלַט, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּבְרַח יַעֲקֹב שְׂדֵה אֲרָם״. פַּרְעֹה בִּקֵּשׁ לַהֲרֹג אֶת מֹשֶׁה, וּבָרַח מִלְּפָנָיו וְנִמְלַט, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּבְרַח מֹשֶׁה מִפְּנֵי פַרְעֹה״. שָׁאוּל בִּקֵּשׁ לַהֲרֹג אֶת דָּוִד, וּבָרַח מִלְּפָנָיו וְנִמְלַט, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְדָוִד בָּרַח וַיִּמָּלֵט״. לְלַמֶּדְךָ שֶׁכָּל מִי שֶׁהוּא בּוֹרֵחַ נִמְלָט. עָמַד אֵלִיָּהוּ וּבָרַח מֵאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל וְנִמְלַט, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיָּקָם וַיֹּאכַל וַיִּשְׁתֶּה״. (וְשָׁם) נִגְלָה עָלָיו הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאָמַר לוֹ, ״מַה לְּךָ פֹה אֵלִיָּהוּ? קַנֹּא קִנֵּאתִי״. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, ״לְעוֹלָם אַתָּה מְקַנֵּא. קִנֵּאתָ בַּשִּׁטִּים עַל גִּלּוּי עֲרָיוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר ״פִּינְחָס בֶּן אֶלְעָזָר בֶּן אַהֲרֹן הַכֹּהֵן״. וְכָאן אַתָּה מְקַנֵּא? חַיֶּיךָ שֶׁאֵין יִשְׂרָאֵל עוֹשִׂין בְּרִית מִילָה עַד שֶׁאַתָּה רוֹאֶה בְּעֵינֶיךָ״.
Nota — o zelo temperado e a Cadeira de Eliyahu. D’us repreende, com firmeza e ternura, o excesso de zelo de Eliyahu — que, indignado com o abandono da aliança, quase desistira do seu próprio povo. A lição é fina: mesmo o zelo justo pode ir longe demais quando se converte em desespero ou em condenação dos outros (a fuga e o encontro no Chorev são a cura do profeta). E a “punição” torna-se bênção: já que Eliyahu zela tanto pela circuncisão, presenciá-la-á para sempre — e daí o belíssimo costume da Cadeira de Eliyahu (kissé shel Eliyahu) em cada brit milá.
18
Daqui instituíram os sábios que se prepare um assento de honra para o “mensageiro da aliança” — pois Eliyahu, de abençoada memória, é chamado o mensageiro da aliança —, como está dito: “e o mensageiro da aliança, a quem desejais, eis que vem” (Malachi 3:1). Que o D’us de Israel apresse e traga, em nossos dias, o Mashiach, para nos consolar e renovar o nosso coração, como está dito: “e fará voltar o coração dos pais aos filhos” (Malachi 3:24).
מִכָּאן הִתְקִינוּ חֲכָמִים שֶׁיִּהְיוּ עוֹשִׂין מוֹשָׁב כָּבוֹד לְמַלְאַךְ הַבְּרִית, (שֶׁנִּקְרָא אֵלִיָּהוּ זָכוּר לַטּוֹב מַלְאַךְ הַבְּרִית), שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמַלְאַךְ הַבְּרִית אֲשֶׁר אַתֶּם חֲפֵצִים הִנֵּה בָא״ וְכוּ'. אֱלֹהֵי יִשְׂרָאֵל יָחִישׁ וְיָבִיא בְחַיֵּינוּ מָשִׁיחַ לְנַחֲמֵנוּ וִיחַדֵּשׁ לְבָבֵנוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהֵשִׁיב לֵב אָבוֹת עַל בָּנִים״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A oitava provação: a aliança na carne

Aos noventa e nove anos, Avraham recebe a ordem “anda diante de Mim e sê íntegro” (Bereshit 17:1) e cumpre-a sem demora (Rabi Yishmael). A circuncisão é o selo da aliança (brit) inscrito no próprio corpo — um compromisso que não se reduz a palavras. Os sábios sublinham a prontidão de Avraham: a integridade (temimut) que D’us lhe pede é a do homem inteiro, que faz o que reconhece ser certo sem adiar.

A circuncisão do coração

O capítulo não se detém na carne. As “cinco orlot” — do ouvido, dos lábios, do coração, da carne e da árvore — apóiam, segundo o Radal e os comentadores clássicos, uma só ideia: há sempre uma barreira a remover entre o ser humano e o bem. A mais profunda é a do coração (Devarim 10:16). Para o Rambam (Guia III:49), a milá ensina o domínio do desejo e é o sinal da fraternidade dos que creem na unidade de D’us. O rito aponta sempre para a ética.

O dia em que D’us visitou o doente

A joia ética do capítulo: D’us vem visitar Avraham convalescente, e daí os sábios derivam a imitação de D’us (Sotá 14a) — visitar enfermos, vestir os nus, consolar os enlutados. A santidade maior não está no gáudio do rito, mas na compaixão pelo próximo. Que a circuncisão de Avraham se torne ocasião para ensinar a bondade é a lição central da tradição.

A dignidade de toda pessoa

O capítulo contém um trecho de retórica polêmica dura (§8), nascido de tempos de perseguição. É indispensável lê-lo à luz do conjunto da tradição racionalista: todo ser humano é imagem de D’us, e os justos de todas as nações têm parte no mundo vindouro (Rambam, Hilchot Teshuvá 3:5; Hilchot Melachim 8:11). O que o texto exalta é a fidelidade à aliança, não o desprezo por ninguém — Avraham foi chamado a ser bênção para “todas as famílias da terra”.

O zelo temperado e a Cadeira de Eliyahu

O fecho é surpreendente: D’us repreende Eliyahu pelo excesso de zelo. Mesmo a indignação justa, quando vira desespero do próximo, precisa ser curada. E, num gesto de graça, o zelo do profeta vira bênção perpétua: Eliyahu, “mensageiro da aliança”, está presente em cada circuncisão — daí a Cadeira de Eliyahu. O capítulo que começa na carne termina na esperança: “fará voltar o coração dos pais aos filhos” (Malachi 3:24).

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 30

A partida de Hagar e Yishmael: a separação e o amor que permanece

פֶּרֶק ל׳

A nona provação. Por causa de Yitzchak, Avraham precisa separar-se de Hagar e de Yishmael — e nenhuma das suas provações o feriu tanto. Mas o capítulo não abandona Yishmael: conta as visitas de Avraham ao filho, a sua oração pela casa dele, o amor de pai que não cessa — e olha, ao fim, para os últimos dias.

1
A nona provação: Yishmael nasceu destinado ao arco e cresceu com o arco, como está dito: “e D’us estava com o jovem, e ele cresceu e habitou no deserto e tornou-se flecheiro” (Bereshit 21:20). E tomava arco e flechas e atirava na direção dos alvos; e viu Yitzchak sentado sozinho e disparou-lhe uma flecha para o matar. Viu Sará essa coisa e contou a Avraham, e disse-lhe: “assim e assim fez Yishmael a Yitzchak; levanta-te, pois, e escreve para Yitzchak o testamento de tudo o que o Santo, bendito seja, jurou a ti e à tua descendência, pois o filho da serva não herdará com o meu filho, com Yitzchak”, como está dito: “e disse a Avraham: expulsa esta serva e o seu filho, porque o filho desta serva não herdará com o meu filho, com Yitzchak” (Bereshit 21:10).
הַנִּסָּיוֹן הַתְּשִׁיעִי, נוֹלַד יִשְׁמָעֵאל בַּקֶּשֶׁת וְנִתְרַבָּה בַּקֶּשֶׁת שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיְהִי אֱלֹהִים אֶת הַנַּעַר וַיִּגְדָּל״ וְנָטַל קֶשֶׁת וְחִצִּים וְהָיָה יוֹרֶה אַחַר הַפִּנּוֹת וְרָאָה אֶת יִצְחָק יוֹשֵׁב לְבַדּוֹ וְיָרָה חֵץ לְהָרְגוֹ. וְרָאֲתָה זֶה הַדָּבָר שָׂרָה וְהִגִּידָה לְאַבְרָהָם וְאָמְרָה לוֹ: ״כָּזֶה וְכָזֶה עָשָׂה יִשְׁמָעֵאל לְיִצְחָק, אֶלָּא עֲמֹד וּכְתֹב לְיִצְחָק כָּל מַה שֶּׁנִּשְׁבַּע הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְךָ וּלְזַרְעֲךָ, שֶׁאֵין בֶּן הָאָמָה יוֹרֵשׁ עִם בְּנִי עִם יִצְחָק״, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַתֹּאמֶר לְאַבְרָהָם גָּרֵשׁ אֶת הָאָמָה הַזֹּאת וְאֶת בְּנָהּ כִּי לֹא יִירַשׁ בֶּן הָאָמָה הַזֹּאת עִם בְּנִי עִם יִצְחָק״.
2
Yehudá ben Teimá diz: disse Sará a Avraham: “escreve um documento de divórcio (get) para a serva, e despede esta serva de junto de mim e de junto de Yitzchak, meu filho”. E, de todos os males que sobrevieram a Avraham, nenhum lhe pareceu tão mau aos olhos como esta coisa, como está dito: “e pareceu muito mau aos olhos de Avraham, por causa do seu filho” (Bereshit 21:11).
יְהוּדָה בֶּן תֵּימָא אוֹמֵר: אָמְרָה שָׂרָה לְאַבְרָהָם, ״כְּתֹב גֵּט גֵּרוּשִׁין לָאָמָה וְשַׁלַּח אֶת הָאָמָה הַזֹּאת מֵעָלַי וּמֵעַל יִצְחָק בְּנִי מִן הָעוֹלָם הַזֶּה וּמִן הָעוֹלָם הַבָּא״. וּמִכָּל הָרָעוֹת שֶׁבָּאוּ עַל אַבְרָהָם הֵרַע בְּעֵינָיו הַדָּבָר הַזֶּה מְאֹד, שֶׁנֶּאֱמַר (בראשית כא, יא): ״וַיֵּרַע הַדָּבָר מְאֹד בְּעֵינֵי אַבְרָהָם עַל אוֹדֹת בְּנוֹ״.
3
Rabi Yehudá diz: revelou-se-lhe o Santo, bendito seja, e disse-lhe: “Avraham, não sabes que Sará te era destinada por esposa desde o ventre de sua mãe? Ela é a tua companheira e a esposa da tua aliança. Sará não é chamada serva, mas tua esposa; Hagar não é chamada tua esposa, mas tua serva. Tudo o que Sará falou, falou com verdade. Não te pareça mau aos olhos”.
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: נִגְלָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עָלָיו, אָמַר לוֹ: ״אַבְרָהָם, אֵין אַתָּה יוֹדֵעַ שֶׁהָיְתָה שָׂרָה רְאוּיָה לְךָ לְאִשָּׁה מִמְּעֵי אִמָּהּ? וְהִיא חֲבֶרְתְּךָ וְאֵשֶׁת בְּרִיתֶךָ. לֹא נִקְרֵאת שָׂרָה שִׁפְחָה אֶלָּא אִשְׁתְּךָ, לֹא נִקְרֵאת הָגָר אִשְׁתְּךָ אֶלָּא שִׁפְחָתֶךָ. כָּל מַה שֶּׁדִּבְּרָה שָׂרָה בֶּאֱמֶת הִגִּידָה. אַל יֵרַע בְּעֵינֶיךָ״.
4
Madrugou Avraham, escreveu um documento de divórcio e o deu a Hagar, e a despediu, a ela e ao seu filho, de junto de si e de junto de Yitzchak, seu filho, como está dito: “e madrugou Avraham pela manhã e tomou pão e um odre de água...” etc. (Bereshit 21:14). E despediu-a com um documento de divórcio, e atou-lhe uma faixa à cintura, que se arrastasse atrás dela, indicando que era serva. E não só isso, mas Avraham, nosso pai, ficou de pé a olhar para Yishmael, seu filho, e a olhar para o caminho por onde foram.
הִשְׁכִּים אַבְרָהָם וְכָתַב גֵּט גֵּרוּשִׁין וְנָתַן לְהָגָר, וְשִׁלַּח אוֹתָהּ וְאֶת בְּנָהּ מֵעָלָיו וּמֵעַל יִצְחָק בְּנוֹ מֵהָעוֹלָם הַזֶּה וּמֵהָעוֹלָם הַבָּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּשְׁכֵּם אַבְרָהָם בַּבֹּקֶר וַיִּקַּח״ וְכוּ'. וַיְשַׁלְּחֶהָ בְּגֵט גֵּרוּשִׁין, וְלָקַח בֶּגֶד אֶחָד וְקָשַׁר בְּמָתְנֶיהָ כְּדֵי שֶׁיְּהֵא שׂוֹחֵף אַחֲרֶיהָ לֵידַע שֶׁהִיא שִׁפְחָה. וְלֹא עוֹד, אֶלָּא שֶׁעָמַד אַבְרָהָם אָבִינוּ לִרְאוֹת אֶת יִשְׁמָעֵאל בְּנוֹ וְלִרְאוֹת אֶת הַדֶּרֶךְ שֶׁהָלְכוּ בָהּ.
Nota — a separação que dói. A Torá não esconde a angústia: “e pareceu muito mau aos olhos de Avraham, por causa do seu filho” (Bereshit 21:11). A expulsão não é um triunfo, mas uma ferida — e o midrash a torna ainda mais comovente ao mostrar Avraham “de pé, a olhar para o caminho por onde foram”. A separação se dá para preservar o caminho distinto da aliança através de Yitzchak; mas o pai que se separa fica olhando a estrada. Mesmo a decisão necessária pode partir o coração.
5
E, pelo mérito de Avraham, não faltou a água do odre; mas, quando Hagar chegou à entrada do deserto, começou a desviar-se atrás da idolatria da casa de seu pai, e imediatamente faltou a água do odre. Por isso “lançou o menino debaixo de um dos arbustos” (Bereshit 21:15). E Yishmael tinha vinte e sete anos (há quem leia: vinte e quatro) quando saiu da casa de seu pai, e Yitzchak tinha dez anos.
וּבִזְכוּת אַבְרָהָם לֹא חָסְרוּ הַמַּיִם מִן הַחֵמֶת, וְכֵיוָן שֶׁהִגִּיעַ לְפֶתַח הַמִּדְבָּר הִתְחִילָה תּוֹעָה אַחֲרֵי עֲבוֹדָה זָרָה שֶׁל בֵּית אָבִיהָ וּמִיָּד חָסְרוּ הַמַּיִם מִן הַחֵמֶת. לְפִיכָךְ ״וַתַּשְׁלֵךְ אֶת הַיֶּלֶד״. וּבֶן כ״ז (יש גורסים: כ״ד) שָׁנָה הָיָה יִשְׁמָעֵאל כְּשֶׁיָּצָא מִבֵּית אָבִיו וְיִצְחָק בֶּן עֶשֶׂר שָׁנִים הָיָה.
6
“E ela foi e se desviou (vatetá)” etc. (Bereshit 21:14): “vatetá” não é senão idolatria, pois a respeito dessa raiz está escrito “vaidade são, obra de enganos (tatuim)” (Yirmiyá 10:15). E desfaleceu de sede a alma de Yishmael; foi e lançou-se sob os arbustos do deserto, para que houvesse alguma umidade sobre ele, e disse: “D’us de Avraham, meu pai, Tens em Teu poder as saídas da morte; toma a minha alma, e que eu não morra de sede”. E D’us o atendeu, como está dito: “porque D’us ouviu a voz do jovem, onde ele estava” (Bereshit 21:17). E ali se lhes abriu o poço que fora criado no crepúsculo da criação, e foram, beberam e encheram o odre de água, como está dito: “e D’us abriu-lhe os olhos e ela viu um poço de água” (Bereshit 21:19). E dali levantaram os pés e foram por todo o deserto, até chegarem ao deserto de Parã, e ali encontraram nascentes de água e habitaram, como está dito: “e habitou no deserto de Parã” (Bereshit 21:21). Mandou Yishmael e tomou para si uma mulher dentre as filhas de Moav, cujo nome era Ayeshá. Depois de três anos, foi Avraham ver Yishmael, seu filho, tendo jurado a Sará que não desceria do camelo no lugar em que Yishmael habitava. Chegou lá ao meio-dia e encontrou a mulher de Yishmael. Disse-lhe: “onde está Yishmael?”. Disse-lhe ela: “foi, ele e a sua mãe, buscar frutos e tâmaras do deserto”. Disse-lhe: “dá-me um pouco de pão e água, pois a minha alma está exausta do caminho do deserto”. Disse-lhe ela: “não tenho pão nem água”. Disse-lhe: “quando vier Yishmael, conta-lhe estas coisas e dize-lhe: um ancião da terra de Canaã veio ver-te e disse — troca a soleira da tua casa, pois ela não é boa para ti”. E, quando Yishmael veio do deserto, ela lhe contou; e — o filho do sábio é como meio sábio — Yishmael entendeu, e sua mãe mandou e tomou para ele uma mulher da casa de seu próprio pai, cujo nome era Fátima.
״וַתֵּלֶךְ וַתֵּתַע״ וְכוּ'. אֵין וַתֵּתַע אֶלָּא עֲבוֹדָה זָרָה דִּכְתִיב בָּהּ (יִרְמְיָה י טו) ״הֶבֶל הֵמָּה מַעֲשֵׂה תַּעְתֻּעִים״. וְעָיְפָה נַפְשׁוֹ שֶׁל יִשְׁמָעֵאל בַּצָּמָא וְהָלַךְ וְהִשְׁלִיךְ אֶת עַצְמוֹ תַּחַת חֲרוּלֵי הַמִּדְבָּר לִהְיוֹת חַרְשָׁן עָלָיו וְאָמַר: ״אֱלֹהֵי אַבְרָהָם אָבִי, יֵשׁ לְפָנֶיךָ תּוֹצָאוֹת מָוֶת, קַח אֶת נַפְשִׁי מִמֶּנִּי וְאַל אָמוּת בַּצָּמָא״. וַיֵּעָתֶר לוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי שָׁמַע אֱלֹהִים אֶת קוֹל הַנַּעַר בַּאֲשֶׁר הוּא שָׁם״. וְשָׁם נִפְתְּחוּ לָהֶם הַבְּאֵר שֶׁנִּבְרֵאת בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת וְהָלְכוּ וְשָׁתוּ וּמִלְּאוּ אֶת הַחֵמֶת מַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּפְקַח אֱלֹהִים אֶת עֵינֶיהָ״. וְשָׁם הִנִּיחוּ הַבְּאֵר וּמִשָּׁם נָשְׂאוּ אֶת רַגְלֵיהֶם וְהָלְכוּ אֶל הַמִּדְבָּר כֻּלּוֹ עַד שֶׁהִגִּיעוּ לְמִדְבַּר פָּארָן וּמָצְאוּ שָׁם מוֹצָאֵי מַיִם וְיָשְׁבוּ שָׁם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּשֶׁב בְּמִדְבַּר פָּארָן״. שָׁלַח יִשְׁמָעֵאל וְלָקַח לוֹ אִשָּׁה מִבְּנוֹת מוֹאָב וְעַיְשָׁה שְׁמָהּ. לְאַחַר שָׁלֹשׁ שָׁנִים הָלַךְ אַבְרָהָם לִרְאוֹת אֶת יִשְׁמָעֵאל בְּנוֹ, וְנִשְׁבַּע לְשָׂרָה שֶׁלֹּא יֵרֵד מֵעַל הַגָּמָל בַּמָּקוֹם שֶׁיִּשְׁמָעֵאל שָׁרוּי תַּמָּן, וְהִגִּיעַ לְשָׁם בַּחֲצִי הַיּוֹם וּמָצָא שָׁם אֶת אִשְׁתּוֹ שֶׁל יִשְׁמָעֵאל. אָמַר לָהּ: ״הֵיכָן הוּא יִשְׁמָעֵאל?״ אָמְרָה לוֹ: ״הָלַךְ הוּא וְאִמּוֹ לְהָבִיא פֵּרוֹת וּתְמָרִים מִן הַמִּדְבָּר״. אָמַר לָהּ: ״תְּנִי לִי מְעַט לֶחֶם וּמַיִם כִּי עָיְפָה נַפְשִׁי מִדֶּרֶךְ הַמִּדְבָּר״. אָמְרָה לוֹ: ״אֵין לִי לֶחֶם וְלֹא מַיִם״. אָמַר לָהּ: ״כְּשֶׁיָּבֹא יִשְׁמָעֵאל הַגִּידִי לוֹ אֶת הַדְּבָרִים הַלָּלוּ וְאִמְרִי לוֹ: זָקֵן אֶחָד מֵאֶרֶץ כְּנַעַן בָּא לִרְאוֹתְךָ וְאָמַר: חַלֵּף מִפְתַּן בֵּיתְךָ, שֶׁאֵינָהּ טוֹבָה לְךָ״. וּכְשֶׁבָּא יִשְׁמָעֵאל מִן הַמִּדְבָּר הִגִּידָה לוֹ אֶת הַדְּבָרִים הַלָּלוּ, וּבֵן חָכָם כַּחֲצִי חָכָם, וְהֵבִין יִשְׁמָעֵאל וְשָׁלְחָה אִמּוֹ וְלָקְחָה לוֹ אִשָּׁה מִבֵּית אָבִיהָ, וּפָטִימָה שְׁמָהּ.
Nota — “D’us ouviu a voz do jovem, onde ele estava”. Quando Yishmael está prestes a morrer de sede, D’us o atende. Os sábios (Rosh Hashaná 16b) destacam as palavras “onde ele estava” (ba’asher hu sham): D’us o julga pelo que ele é naquele instante, não pelo que os seus descendentes viriam a ser — um ensino de misericórdia e de juízo justo, pessoa por pessoa, momento a momento. O “poço criado no crepúsculo” é um dos itens que a tradição diz terem sido preparados na véspera do primeiro Shabat (Avot 5:6): a salvação já estava prevista. E a parábola da “soleira” é a sabedoria velada de um pai que, sem quebrar o juramento à esposa, ainda zela pelo lar do filho.
7
E, ainda depois de três anos, foi Avraham ver Yishmael, seu filho, e jurou a Sará, como da primeira vez, que não desceria do camelo no lugar em que Yishmael habitava. Chegou lá ao meio-dia e encontrou a mulher de Yishmael, e disse-lhe: “onde está Yishmael?”. Disse-lhe ela: “ele e a sua mãe foram apascentar os camelos no deserto”. Disse-lhe: “dá-me um pouco de pão e água, pois a minha alma está exausta do caminho do deserto”. E ela trouxe pão e água e lhe deu. Levantou-se Avraham e orou diante do Santo, bendito seja, pelo seu filho, e encheu-se a casa de Yishmael de todo o bem, de toda sorte de bênçãos. E, quando Yishmael veio, ela lhe contou o sucedido, e Yishmael soube que até agora a misericórdia de seu pai estava sobre ele, como a misericórdia de um pai para com os filhos. Depois da morte de Sará, Avraham voltou e tomou a sua repudiada Hagar, como está dito: “e Avraham tornou a tomar uma mulher” (Bereshit 25:1); e, do dizer “tornou (vayósef)”, depreende-se que da primeira vez ela fora sua mulher. “E o seu nome era Keturá”, porque era perfumada (mekuteret) com toda sorte de especiarias.
וְעוֹד אַחַר שָׁלֹשׁ שָׁנִים הָלַךְ אַבְרָהָם לִרְאוֹת אֶת יִשְׁמָעֵאל בְּנוֹ, וְנִשְׁבַּע לְשָׂרָה כְּפַעַם רִאשׁוֹנָה שֶׁאֵינוֹ יוֹרֵד מִן הַגָּמָל בַּמָּקוֹם שֶׁיִּשְׁמָעֵאל שָׁרוּי שָׁם. וְהִגִּיעַ לְשָׁם בַּחֲצִי הַיּוֹם וּמָצָא שָׁם אִשְׁתּוֹ שֶׁל יִשְׁמָעֵאל, וְאָמַר לָהּ: ״הֵיכָן הוּא יִשְׁמָעֵאל?״ אָמְרָה לוֹ: ״הוּא וְאִמּוֹ הָלְכוּ לִרְעוֹת אֶת הַגְּמַלִּים בַּמִּדְבָּר״. אָמַר לָהּ: ״תְּנִי לִי מְעַט לֶחֶם וּמַיִם כִּי עֲיֵפָה נַפְשִׁי מִדֶּרֶךְ הַמִּדְבָּר״. וְהוֹצִיאָה לֶחֶם וּמַיִם וְנָתְנָה לוֹ. עָמַד אַבְרָהָם וְהָיָה מִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל בְּנוֹ, וְנִתְמַלֵּא בֵּיתוֹ שֶׁל יִשְׁמָעֵאל מִכָּל טוּב מִמִּין הַבְּרָכוֹת. וּכְשֶׁבָּא יִשְׁמָעֵאל הִגִּידָה לוֹ אֶת הַדָּבָר, וְיָדַע יִשְׁמָעֵאל שֶׁעַד עַכְשָׁו רַחֲמֵי אָבִיו עָלָיו כְּרַחֵם אָב עַל בָּנִים. לְאַחַר מִיתָתָהּ שֶׁל שָׂרָה חָזַר אַבְרָהָם וְלָקַח אֶת גְּרוּשָׁתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּסֶף אַבְרָהָם וַיִּקַּח אִשָּׁה״. וּמִדְּקָאָמַר ״וַיֹּסֶף״ מַשְׁמַע שֶׁפַּעַם רִאשׁוֹנָה הָיְתָה אִשְׁתּוֹ, וְעוֹד לֹא הוֹסִיף לָבֹא עָלֶיהָ. ״וּשְׁמָהּ קְטוּרָה״, שֶׁהָיְתָה מְקֻטֶּרֶת מִכָּל מִינֵי בְּשָׂמִים.
Nota essencial — o amor que não cessa. Este é o coração do capítulo, e o seu contrapeso indispensável: apesar da separação, “a misericórdia de seu pai estava sobre Yishmael, como a misericórdia de um pai para com os filhos”. Avraham visita o filho duas vezes, ora a D’us pela prosperidade da sua casa — e, depois da morte de Sará, reata com Hagar (que a tradição identifica com Keturá). Yishmael também é filho amado de Avraham, e a Torá o abençoa expressamente (Bereshit 17:20). O midrash, longe de rejeitar Yishmael, retrata uma paternidade que atravessa a dor e permanece.
8
Outra interpretação: “Keturá” — porque os seus atos eram tão belos como o incenso (ketoret). Ela lhe deu seis filhos, cujas descendências foram associadas às nações orientais, como está dito: “e ela lhe deu à luz Zimrán e Yokshán e Medán e Midyán e Yishbak e Shuach” (Bereshit 25:2).
דָּבָר אַחֵר, ״קְטוּרָה״ — שֶׁהָיוּ נָאִים מַעֲשֶׂיהָ כַּקְּטֹרֶת. יָלְדָה לוֹ שִׁשָּׁה בָּנִים וְכֻלָּם נִקְרְאוּ עַל שְׁמוֹ שֶׁל יִשְׁמָעֵאל, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַתֵּלֶד לוֹ אֶת זִמְרָן וְאֶת יָקְשָׁן״.
9
E como uma mulher que se divorcia do seu marido, assim Avraham se levantou e despediu os filhos das concubinas de junto de Yitzchak, seu filho, como está dito: “mas aos filhos das concubinas que Avraham tinha, deu Avraham presentes e os enviou para longe de Yitzchak, seu filho” etc. (Bereshit 25:6) — e os despediu com um documento de divórcio.
וּכְאִשָּׁה שֶׁהִיא מִתְגָּרֶשֶׁת מִן בַּעְלָהּ, כָּךְ עָמַד אַבְרָהָם וְשִׁלְּחָן מֵעַל יִצְחָק בְּנוֹ מִן הָעוֹלָם הַזֶּה וּמִן הָעוֹלָם הַבָּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְלִבְנֵי הַפִּילַגְשִׁים אֲשֶׁר לְאַבְרָהָם״ וְכוּ' וַיְשַׁלְּחֵם בְּגֵט גֵּרוּשִׁין.
10
Pelo nome do filho de Yishmael, Kedar, foram chamados os “bnei Kedar”, como está dito: “a Kedar e aos reinos de Chatzor” etc. (Yirmiyá 49:28). Pelo nome do filho de Yishmael, Kedmá, foram chamados os “bnei Kédem” (filhos do Oriente), como está dito: “aos filhos do Oriente”. E, por terem habitado nas possessões de Caim, foram alguns dos seus chamados “quenitas” (bnei Kayin), como está dito: “e Chéver, o quenita, separou-se” (Shoftim 4:11) — pois, na verdade, todos os filhos de Caim foram exterminados nas águas do dilúvio; foram assim chamados apenas por terem habitado nas possessões de Caim, como está dito: “até que Caim seja consumido ...” (Bamidbar 24:22).
עַל שֵׁם בְּנוֹ שֶׁל יִשְׁמָעֵאל, קֵדָר, נִקְרְאוּ בְּנֵי קֵדָר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לְקֵדָר וּלְמַמְלְכוֹת חָצוֹר״ וְכוּ'. עַל שֵׁם בְּנוֹ שֶׁל יִשְׁמָעֵאל, קֵדְמָה, נִקְרְאוּ בְּנֵי קֶדֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֶל בְּנֵי קֶדֶם״. עַל שֵׁם שֶׁיָּשְׁבוּ בַּאֲחֻזּוֹת קַיִן נִקְרְאוּ בָנָיו בְּנֵי קַיִן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְחֶבֶר הַקֵּינִי נִפְרָד״, וַהֲלֹא כָּל בְּנֵי קַיִן נִכְרְתוּ בְּמֵי הַמַּבּוּל, אֶלָּא עַל שֵׁם שֶׁיָּשְׁבוּ בַּאֲחֻזּוֹת קַיִן שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי אִם יִהְיֶה לְבָעֵר קָיִן״, כִּי אִם יִהְיֶה לְבָעֵר אֵשׁ מִזַּרְעוֹ שֶׁל יִשְׁמָעֵאל הֵם יִשְׁבְּתוּ מַלְכוּת אַשּׁוּר.
11
Disse Bilaam: das setenta línguas nações que o Santo, bendito seja, criou no Seu mundo, não pôs o Seu nome em nenhuma delas senão em Israel; e, visto que o Santo, bendito seja, tornou o nome de Yishmael semelhante ao nome de Israel ambos trazem “El”, “ai, quem viverá nos seus dias?”, como está dito: “ai, quem viverá quando D’us o estabelecer” (Bamidbar 24:23).
אָמַר בִּלְעָם: מִשִּׁבְעִים לְשׁוֹנוֹת שֶׁבָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּעוֹלָמוֹ, לֹא שָׂם שְׁמוֹ לְאֶחָד מֵהֶם אֶלָּא לְיִשְׂרָאֵל. הוֹאִיל וְהִשְׁוָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שְׁמוֹ שֶׁל יִשְׁמָעֵאל לִשְׁמוֹ שֶׁל יִשְׂרָאֵל, אוֹי מִי יִחְיֶה בְּיָמָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אוֹי מִי יִחְיֶה מִשֻּׂמוֹ אֵל״.
12
Rabi Yishmael diz: quinze coisas estão destinados os filhos de Yishmael a fazer na terra de Israel no fim dos dias, e são estas: medirão a terra com cordas; farão do cemitério um curral para rebanhos e um monturo; medirão com elas e a partir delas sobre os cumes dos montes; multiplicar-se-á a mentira e ocultar-se-á a verdade; afastar-se-á o estatuto da Torá de Israel; multiplicar-se-ão as iniquidades em Israel; haverá o carmesim do verme tola’at na lã, e a praga de insetos cobrirá o papel e a pena da escrita; talhar-se-á a rocha do reino cunhar-se-á nova moeda; reconstruirão as cidades arruinadas e desimpedirão os caminhos; plantarão jardins e pomares e cercarão as brechas dos muros do Templo; edificarão uma construção no recinto do Santuário (Heichal); e dois irmãos se levantarão sobre eles como príncipes, ao fim; e, em seus dias, levantar-se-á o Rebento, filho de David, como está dito: “e nos dias daqueles reis o D’us dos céus suscitará um reino que jamais será destruído” (Daniel 2:44).
רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: חֲמִשָּׁה עָשָׂר דְּבָרִים עֲתִידִין בְּנֵי יִשְׁמָעֵאל לַעֲשׂוֹת בָּאָרֶץ בְּאַחֲרִית הַיָּמִים, וְאֵלּוּ הֵן: יָמֹדּוּ הָאָרֶץ בַּחֲבָלִים, וְיַעֲשׂוּ בֵּית הַקְּבָרוֹת לְמַרְבֵּץ צֹאן אַשְׁפָּתוֹת, וּמָדְדוּ בָהֶן וּמֵהֶן עַל רָאשֵׁי הֶהָרִים, וְיִרְבֶּה הַשֶּׁקֶר וְיִגָּנֵז הָאֱמֶת, וְיִרְחַק חֹק מִיִּשְׂרָאֵל, וְתִרְבֶּה עֲוֹנוֹת בְּיִשְׂרָאֵל, שָׁנִי תּוֹלַעַת כַּצֶּמֶר, וְיִקְמֹל הַנְּיָר וְהַקּוּלְמוּס, וְיִפְסֹל סֶלַע מַלְכוּת, וְיִבְנוּ הֶהָרִים הֶעָרִים הַחֲרֵבוֹת, וִיפַנּוּ הַדְּרָכִים, וְיִטְּעוּ גַּנּוֹת וּפַרְדֵּסִים, וְיִגְדְּרוּ פְּרוּצוֹת חוֹמוֹת בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, וְיִבְנוּ בִּנְיָן בַּהֵיכָל, וּשְׁנֵי אַחִים יַעַמְדוּ עֲלֵיהֶם נְשִׂיאִים בְּסוֹפָן, וּבִימֵיהֶן יַעֲמֹד צֶמַח בֶּן דָּוִד, שֶׁנֶּאֱמַר (דניאל ב, מד): ״וּבְיוֹמֵיהוֹן דִּי מַלְכַיָּא אִנּוּן יְקִים אֱלָהּ שְׁמַיָּא מַלְכוּ דִּי לְעָלְמִין לָא תִתְחַבַּל״.
13
E ainda dizia Rabi Yishmael: três guerras de tumulto estão destinados os filhos de Yishmael a travar na terra, no fim dos dias, como está dito: “porque fugiram de diante das espadas” (Yeshayá 21:15) — e “espadas” não são senão guerras. Uma na floresta da Arábia, “de diante da espada desembainhada”; outra no mar, “de diante do arco retesado”; e outra na grande cidade, que é mais pesada do que as duas, como está dito: “de diante do peso da guerra”. E dali o filho de David brotará e verá a ruína de uns e de outros, e dali virá à terra de Israel, como está dito: “quem é este que vem de Edom, de vestes tintas de vermelho, de Botzrá? este, ornado na sua veste, marchando na grandeza da sua força? Eu, que falo em justiça, poderoso para salvar” (Yeshayá 63:1).
וְעוֹד הָיָה רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: שָׁלֹשׁ מִלְחָמוֹת שֶׁל מְהוּמָה עֲתִידִין בְּנֵי יִשְׁמָעֵאל לַעֲשׂוֹת בָּאָרֶץ בְּאַחֲרִית הַיָּמִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי מִפְּנֵי חֲרָבוֹת נָדָדוּ״. וְאֵין חֲרָבוֹת אֶלָּא מִלְחָמוֹת. אַחַת בַּיַּעַר בַּעֲרָב, ״מִפְּנֵי חֶרֶב נְטוּשָׁה״; וְאַחַת בַּיָּם, ״מִפְּנֵי קֶשֶׁת דְּרוּכָה״; וְאַחַת בַּכְּרַךְ גָּדוֹל שֶׁהוּא כָּבֵד מִשְּׁנֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי מִפְּנֵי כֹּבֶד מִלְחָמָה״. וּמִשָּׁם בֶּן דָּוִד יִצְמַח וְיִרְאֶה בְּאָבְדָן שֶׁל אֵלּוּ וָאֵלּוּ, וּמִשָּׁם יָבֹא לְאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מִי זֶה בָּא מֵאֱדוֹם, חֲמוּץ בְּגָדִים מִבָּצְרָה, זֶה הָדוּר בִּלְבוּשׁוֹ, צֹעֶה בְּרֹב כֹּחוֹ, אֲנִי מְדַבֵּר בִּצְדָקָה רַב לְהוֹשִׁיעַ״.
Nota essencial — a coda dos últimos dias e a leitura responsável. Os §§10–12 mudam de gênero: passam à apocalíptica — visões do “fim dos dias”. Esta seção foi composta na era das primeiras conquistas árabes (séculos VII–VIII), e lê os acontecimentos daquele tempo — o domínio sobre a Terra, a reconstrução de cidades, a edificação sobre o Monte do Templo (“uma construção no recinto do Santuário”) — pela lente da esperança messiânica. Trata-se de um documento histórico do seu tempo, não de um juízo sobre qualquer povo de hoje nem de um chamado à inimizade. “Bnei Yishmael” designa, aqui, o poder político daquela época. Aliás, várias das “quinze coisas” são neutras ou até construtivas (reconstruir cidades, plantar jardins, abrir caminhos). O próprio capítulo mostra o amor de Avraham por Yishmael e a bênção de D’us sobre ele. A leitura racionalista vê na apocalíptica a voz do anseio por redenção em tempos de turbulência — cujo horizonte último é a paz entre as nações (Yeshayá 2:4), não a discórdia.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A nona provação: a separação que fere

A Torá diz que Sará viu Yishmael “a brincar/zombar” (metzachek, Bereshit 21:9), e o midrash lê nessa palavra um perigo a Yitzchak. Seja qual for a leitura, o ponto dos sábios é claro: a separação se dá para resguardar o caminho distinto da aliança por meio de Yitzchak — não por desamor. E a maior prova disso é a dor de Avraham: de todas as suas provações, “nenhuma lhe pareceu tão má”. Provar Avraham aqui é pedir-lhe que faça o duro sem endurecer o coração.

O amor que não cessa

Contra qualquer leitura de simples rejeição, o capítulo insiste no amor permanente de Avraham por Yishmael: ele o procura, ora pela sua casa, e reata com Hagar após a morte de Sará. A tradição lembra que Yishmael é filho amado de Avraham e abençoado por D’us (Bereshit 17:20), e que os dois irmãos se reuniriam para sepultar o pai (Bereshit 25:9). O midrash retrata, com ternura, uma paternidade maior do que a separação.

D’us ouve “onde ele está”

O clamor de Yishmael moribundo é atendido “onde ele está” (Bereshit 21:17). Daqui os sábios (Rosh Hashaná 16b) extraem um princípio de misericórdia: D’us julga cada pessoa pelo seu estado presente, e não pelo que outros — ou os seus próprios descendentes — viriam a fazer. É a justiça pessoa por pessoa, e a compaixão que prefere a vida.

A coda dos últimos dias: ler com responsabilidade

A parte final (§§10–12) é apocalíptica, escrita na era das conquistas árabes, e exprime, na linguagem do seu tempo, o anseio pela redenção. Não é um veredicto sobre povos vivos nem um incitamento à inimizade (ver a nota). A tradição racionalista a lê como esperança em meio à turbulência da história — cujo termo é a vinda do filho de David e a paz das nações. O capítulo que se abre numa separação dolorosa termina olhando para a reconciliação final.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 31

A Ligação de Yitzchak (Akedat Yitzchak): a prova suprema

פֶּרֶק ל״א

A décima e maior provação. D’us pede a Avraham o que ele tem de mais querido — e Avraham, que discutira por Sodoma, aqui obedece em silêncio. Mas a história não termina em sangue: um anjo detém o cutelo, um carneiro toma o lugar de Yitzchak, e a Torá proclama, para todas as gerações, que D’us não quer o sacrifício humano. Pai e filho descem do monte vivos.

1
A décima provação: “e sucedeu, depois destas coisas, que D’us provou Avraham” etc. (Bereshit 22:1). D’us o provava a cada vez, para conhecer o seu coração — se seria capaz de se manter firme e guardar os mandamentos da Torá, ou não. E, ainda antes de a Torá ser dada, Avraham guardou os seus mandamentos, como está dito: “porque (ékev) Avraham ouviu a Minha voz e guardou a Minha guarda, os Meus mandamentos, os Meus estatutos e as Minhas leis” (Bereshit 26:5). E Yishmael saíra do deserto para ver Avraham, seu pai.
הַנִּסָּיוֹן הָעֲשִׂירִי, ״וַיְהִי אַחַר הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה וְהָאֱלֹהִים נִסָּה אֶת אַבְרָהָם״ וְכוּ', הָיָה מְנַסֶּה בְּכָל פַּעַם וּפַעַם לֵידַע אֶת לִבּוֹ אִם יָכוֹל לַעֲמֹד וְלִשְׁמֹר הַמִּצְווֹת שֶׁל תּוֹרָה וְאִם לָאו. וְעַד שֶׁנִּתְּנָה הַתּוֹרָה שָׁמַר אַבְרָהָם מִצְווֹתֶיהָ, שֶׁנֶּאֱמַר ״עֵקֶב אֲשֶׁר שָׁמַע אַבְרָהָם בְּקוֹלִי״. וַיֵּצֵא יִשְׁמָעֵאל מִן הַמִּדְבָּר לִרְאוֹת אֶת אַבְרָהָם אָבִיו.
2
Rabi Yehudá diz: naquela noite revelou-se-lhe o Santo, bendito seja, e disse-lhe: “Avraham, toma agora o teu filho”. E Avraham, compadecido de Yitzchak, disse perante Ele: “Senhor de todos os mundos, a respeito de qual filho me ordenas? Ao filho incircunciso Yishmael ou ao filho da circuncisão Yitzchak?”. Disse-lhe: “o teu único”. Disse-lhe: “este é único para a sua mãe e aquele é único para a sua mãe”. Disse-lhe: “aquele que amas”. Disse-lhe: “a ambos eu amo”. Disse-lhe: “a Yitzchak”.
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: בְּאוֹתָהּ הַלַּיְלָה נִגְלָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עָלָיו וְאָמַר לוֹ, ״אַבְרָהָם, קַח נָא אֶת בִּנְךָ״. וְאַבְרָהָם חָס עַל יִצְחָק, אָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, לְאֵי זֶה בֵּן אַתָּה גּוֹזֵר אֵלַי? לַבֵּן הֶעָרֵל אוֹ לַבֵּן הַמִּילָה?״ אָמַר לוֹ: ״אֶת יְחִידְךָ״. אָמַר לוֹ: ״זֶה יָחִיד לְאִמּוֹ וְזֶה יָחִיד לְאִמּוֹ״. אָמַר לוֹ: ״אֲשֶׁר אָהַבְתָּ״. אָמַר לוֹ: ״שְׁנֵיהֶם אֲנִי אוֹהֵב״. אָמַר לוֹ: ״אֶת יִצְחָק״.
Nota — o sentido da provação. Por que D’us “prova” quem tudo sabe? Os sábios e o Rambam explicam que a provação não serve para D’us descobrir algo, mas para revelar e realizar a grandeza de Avraham — fazê-la passar do potencial ao ato, como modelo para as gerações (cf. o cap. 26). O diálogo, em que D’us nomeia o filho aos poucos (“o teu filho, o teu único, aquele que amas, Yitzchak”), não é tormento gratuito: é o modo de o texto medir, palavra a palavra, a gravidade do que se pede — e a serenidade com que Avraham a recebe.
3
“E oferece-o ali em holocausto” (Bereshit 22:2). Disse-lhe: “Senhor de todos os mundos, em qual monte me disseste?”. Disse-lhe: “no lugar em que vires a Minha Glória de pé, esperando por ti; ali se dirá: este é o monte Moriá”, como está dito: “sobre um dos montes que Eu te direi” (Bereshit 22:2).
וְהַעֲלֵהוּ שָׁם לְעוֹלָה, אָמַר לוֹ: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, בְּאֵי זֶה הַר אָמַרְתָּ לִי?״ אָמַר לוֹ: ״בְּכָל מָקוֹם שֶׁתִּרְאֶה אֶת כְּבוֹדִי עוֹמֵד וּמַמְתִּין לְךָ שָׁם, וְאוֹמֵר: זֶה הוּא הַר הַמּוֹרִיָּה״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עַל אַחַד הֶהָרִים אֲשֶׁר אֹמַר אֵלֶיךָ״.
4
Madrugou Avraham pela manhã e tomou consigo Yishmael, Eliezer e Yitzchak, seu filho, e albardou o jumento. Este é o jumento sobre o qual Avraham montou; é o jumento, filho da jumenta, que foi criado no crepúsculo da criação, como está dito: “e madrugou Avraham pela manhã” (Bereshit 22:3). É o mesmo jumento sobre o qual montou Moshe ao voltar ao Egito, como está dito: “e tomou Moshe a sua mulher e os seus filhos e os fez montar no jumento” (Shemot 4:20). É o jumento sobre o qual o filho de David há de montar, como está dito: “humilde e montado num jumento” (Zechariá 9:9).
הִשְׁכִּים אַבְרָהָם בַּבֹּקֶר וְלָקַח אֶת יִשְׁמָעֵאל וְאֶת אֱלִיעֶזֶר וְאֶת יִצְחָק בְּנוֹ עִמּוֹ, וְחָבַשׁ אֶת הַחֲמוֹר. הוּא שֶׁרָכַב עָלָיו אַבְרָהָם, הוּא הַחֲמוֹר בֶּן הָאָתוֹן שֶׁנִּבְרֵאת בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּשְׁכֵּם אַבְרָהָם בַּבֹּקֶר״. הוּא הַחֲמוֹר שֶׁרָכַב עָלָיו מֹשֶׁה בְּבֹאוֹ לְמִצְרַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּקַּח מֹשֶׁה אֶת אִשְׁתּוֹ וְאֶת בָּנָיו וַיַּרְכִּבֵם עַל הַחֲמוֹר״. הוּא הַחֲמוֹר שֶׁעָתִיד בֶּן דָּוִד לִרְכֹּב עָלָיו, שֶׁנֶּאֱמַר (זכריה ט, ט): ״עָנִי וְרֹכֵב עַל חֲמוֹר״.
5
Yitzchak tinha trinta e sete anos quando foi ao monte Moriá, e Yishmael, cinquenta anos. Surgiu uma contenda entre Eliezer e Yishmael. Disse Yishmael a Eliezer: “agora Avraham oferecerá Yitzchak, seu filho, em chamas sobre o altar, e eu, o seu primogênito, herdarei Avraham”. Disse-lhe Eliezer: “ele já te expulsou, como a mulher que é divorciada do seu marido, e te enviou ao deserto; mas eu sou o seu servo, que o serve de dia e de noite, e eu é que herdarei Avraham”. E o espírito santo (rúach hakódesh) lhes responde, dizendo: “nem este herda nem aquele herda”.
בֶּן שְׁלֹשִׁים וָשֶׁבַע שָׁנָה הָיָה יִצְחָק בְּלֶכְתּוֹ אֶל הַר הַמּוֹרִיָּה, וְיִשְׁמָעֵאל בֶּן חֲמִשִּׁים שָׁנָה. נִכְנַס תַּחֲרוּת בֵּין אֱלִיעֶזֶר וְיִשְׁמָעֵאל. אָמַר יִשְׁמָעֵאל לֶאֱלִיעֶזֶר: ״עַכְשָׁו אַבְרָהָם הִקְרִיב אֶת יִצְחָק בְּנוֹ מוֹקְדָה עַל הַמִּזְבֵּחַ, וַאֲנִי בְּכוֹרוֹ יוֹרֵשׁ אַבְרָהָם״. אָמַר לוֹ אֱלִיעֶזֶר: ״כְּבָר גֵּרְשָׁךְ כְּאִשָּׁה שֶׁהִיא מְגֹרֶשֶׁת מִבַּעְלָהּ וְשִׁלְּחֲךָ לַמִּדְבָּר, אֲבָל אֲנִי עַבְדּוֹ מְשָׁרֵת אוֹתוֹ בַּיּוֹם וּבַלַּיְלָה, וַאֲנִי הוּא הַיּוֹרֵשׁ אֶת אַבְרָהָם״. וְרוּחַ הַקֹּדֶשׁ מְשִׁיבָה אוֹתָם וְאוֹמֶרֶת לָהֶם: ״לֹא זֶה יוֹרֵשׁ וְלֹא זֶה יוֹרֵשׁ״.
6
Ao terceiro dia, chegaram a Tzofim; e, ao chegarem a Tzofim, Avraham viu a Glória da Shechiná de pé sobre o monte, como está dito: “ao terceiro dia, levantou Avraham os seus olhos e viu o lugar de longe” (Bereshit 22:4). E o que viu? Uma coluna de fogo de pé, da terra até aos céus. E entendeu Avraham que o jovem Yitzchak havia de ser aceito como holocausto perfeito. Disse a Yishmael e a Eliezer: “vedes algo sobre algum destes montes?”. Disseram-lhe: “não”. E os considerou como o jumento. Disse: “visto que nada vedes, ficai aqui com o jumento” — com os que neste momento se assemelham ao jumento no não perceber, como está dito: “ficai-vos aqui com o jumento” (Bereshit 22:5).
בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי הִגִּיעוּ לַצּוֹפִים, וְכֵיוָן שֶׁהִגִּיעוּ לַצּוֹפִים רָאָה כְּבוֹד הַשְּׁכִינָה עוֹמֵד עַל גַּבֵּי הָהָר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי וַיִּשָּׂא אַבְרָהָם אֶת עֵינָיו וַיַּרְא אֶת הַמָּקוֹם״. וּמָה רָאָה? עַמּוּד שֶׁל אֵשׁ עוֹמֵד מִן הָאָרֶץ וְעַד הַשָּׁמַיִם. וְהֵבִין אַבְרָהָם שֶׁנִּתְרַצָּה הַנַּעַר לְעוֹלָה תְּמִימָה. אָמַר לְיִשְׁמָעֵאל וְלֶאֱלִיעֶזֶר: ״רוֹאִים אַתֶּם מְאוּמָה בְּאַחַד מִן הֶהָרִים הַלָּלוּ?״ אָמְרוּ לוֹ: ״לָאו״. וְחָשַׁב אוֹתָם כַּחֲמוֹר. אָמַר: ״הוֹאִיל וְאֵין אַתֶּם רוֹאִים מְאוּמָה, שְׁבוּ לָכֶם פֹּה עִם הַחֲמוֹר״, עִם הַדּוֹמִים לַחֲמוֹר.
Nota — a coluna de fogo e “os que ficam com o jumento”. Avraham e Yitzchak percebem a coluna de fogo (a presença da Shechiná) sobre o monte; Yishmael e Eliezer nada veem. A expressão dura — “ficai com o jumento, com os que se assemelham ao jumento” — é um jogo de palavras sobre o versículo “ficai aqui com o jumento” (Bereshit 22:5): refere-se à percepção espiritual naquele momento, não ao valor humano de ninguém (o próprio capítulo anterior exaltou o amor de Avraham por Yishmael). O que o midrash ensina é que há visões que só se abrem a quem está pronto para elas.
7
Tomou a lenha e a pôs sobre Yitzchak, seu filho, e tomou o fogo e o cutelo na sua mão, e iam ambos juntos. Disse Yitzchak a seu pai: “meu pai, eis o fogo e a lenha; onde está o cordeiro para o holocausto?”. Disse-lhe: “meu filho, tu és o cordeiro para o holocausto”, como está dito: “e disse Avraham: D’us proverá para Si o cordeiro para o holocausto, meu filho” (Bereshit 22:8).
נָטַל אֶת הָעֵצִים וְנָתְנָן עַל גַּבֵּי יִצְחָק בְּנוֹ, וְלָקַח אֶת הָאֵשׁ וְאֶת הַמַּאֲכֶלֶת בְּיָדוֹ וְהָיוּ מְהַלְּכִין שְׁנֵיהֶם יַחְדָּו. אָמַר יִצְחָק לְאָבִיו: ״אַבָּא, הֲרֵי הָאֵשׁ וְהָעֵצִים, הֵיכָן הוּא הַכֶּבֶשׂ לָעֹלָה?״ אָמַר לוֹ: ״בְּנִי, אַתָּה הוּא הַכֶּבֶשׂ לָעֹלָה״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר אַבְרָהָם אֱלֹהִים יִרְאֶה לּוֹ הַשֶּׂה״.
8
Rabi Shimon diz: com o dedo mostrou o Santo, bendito seja, a Avraham, nosso pai, o altar, e disse-lhe: “este é o altar”. E era o altar em que ofereceram Caim e Hevel, e o altar em que ofereceram Noach e os seus filhos, como está dito: “e edificou ali Avraham o altar” (Bereshit 22:9) — não está escrito aqui “edificou um altar”, mas “edificou ali o altar” — é o altar em que ofereceram os primeiros.
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: בָּאֶצְבַּע הֶרְאָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְאַבְרָהָם אָבִינוּ הַמִּזְבֵּחַ וְאָמַר לוֹ ״זֶה הוּא הַמִּזְבֵּחַ״. וְהוּא הָיָה הַמִּזְבֵּחַ שֶׁהִקְרִיבוּ קַיִן וְהֶבֶל, וְהוּא הַמִּזְבֵּחַ שֶׁהִקְרִיבוּ נֹחַ וּבָנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּבֶן שָׁם אַבְרָהָם אֶת הַמִּזְבֵּחַ״. אֵין כְּתִיב כָּאן אֶלָּא ״וַיִּבֶן שָׁם אַבְרָהָם אֶת הַמִּזְבֵּחַ״ – הוּא הַמִּזְבֵּחַ שֶׁהִקְרִיבוּ בּוֹ הָרִאשׁוֹנִים.
9
Disse Yitzchak a seu pai: “meu pai, ata-me as duas mãos e os dois pés, para que eu não me debata involuntariamente, por causa da angústia da morte, e me ache profanando a honra do pai”. E Avraham atou-lhe as duas mãos e os dois pés e o ligou (akad) sobre o altar, e firmou os seus dois braços e os seus dois joelhos sobre ele, e dispôs o fogo e a lenha, e estendeu a mão e tomou o cutelo. E, como um sumo sacerdote, apresentou a sua oferenda e a sua libação; e o Santo, bendito seja, está sentado e vê o pai ligando de todo o coração e o filho sendo ligado de todo o seu coração. E os anjos do serviço clamam e choram, como está dito: “eis que os seus heróis (erelim) clamam de fora” (Yeshayá 33:7). E disseram os anjos do serviço diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, és chamado misericordioso e clemente, cuja misericórdia é sobre todas as Suas obras; tem misericórdia de Yitzchak, que é homem e filho de homem, e está ligado diante de Ti como um animal. ‘Ao homem e ao animal Tu salvas, ó Eterno’”, como está dito: “a Tua justiça é como os montes de D’us, os Teus juízos são um grande abismo; ao homem e ao animal Tu salvas, ó Eterno” (Tehilim 36:7).
אָמַר יִצְחָק לְאָבִיו: ״אַבָּא, קְשֹׁר לִי שְׁתֵּי יָדַי וּשְׁתֵּי רַגְלַי, שֶׁלֹּא אוֹתְךָ כְּגוֹן הַדִּבּוּר הַיּוֹצֵא מִן הַפֶּה עַל שׁוּם אֹנֶס מִיתָה, וְנִמְצֵאתִי מְחַלֵּל כְּבוֹד אָב״. וְקָשַׁר שְׁתֵּי יָדָיו וּשְׁתֵּי רַגְלָיו וַעֲקָדוֹ עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ, וְאִמֵּץ אֶת שְׁתֵּי זְרוֹעוֹתָיו וְאֶת שְׁתֵּי אַרְכֻּבּוֹתָיו עָלָיו, וְעָרַךְ אֶת הָאֵשׁ וְאֶת הָעֵצִים, וְשָׁלַח יָדוֹ וְלָקַח אֶת הַמַּאֲכֶלֶת. וּכְכֹהֵן גָּדוֹל הִגִּישׁ אֶת מִנְחָתוֹ וְאֶת נִסְכּוֹ, וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא יוֹשֵׁב וְרוֹאֶה הָאָב מְעַקֵּד בְּכָל לֵב וְהַבֵּן נֶעֱקָד בְּכָל לִבּוֹ. וּמַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת צוֹעֲקִים וּבוֹכִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הֵן אֶרְאֶלָּם צָעֲקוּ חֻצָה״. וְאָמְרוּ מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, נִקְרֵאתָ רַחוּם וְחַנּוּן, מִי שֶׁרַחֲמָיו עַל מַעֲשָׂיו, רַחֵם עַל יִצְחָק שֶׁהוּא אָדָם וּבֶן אָדָם וְנֶעֱקַד לְפָנֶיךָ כִּבְהֵמָה. אָדָם וּבְהֵמָה תּוֹשִׁיעַ ה'״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״צִדְקָתְךָ כְּהַרְרֵי אֵל, מִשְׁפָּטֶיךָ תְּהוֹם רַבָּה, אָדָם וּבְהֵמָה תּוֹשִׁיעַ ה'״.
Nota — a ligação de dois corações. Yitzchak não é uma criança levada à força: tem, segundo a tradição, trinta e sete anos, e pede ele mesmo para ser atado, “para não me debater e profanar a honra do meu pai”. A Akedá é, por isso, a ligação de dois: “o pai ligando de todo o coração e o filho sendo ligado de todo o coração”. É um ato de devoção mútua e consentida — pai e filho juntos diante de D’us —, e não a vitimização de um inocente. Por isso os próprios anjos choram e clamam por misericórdia.
10
Rabi Yehudá diz: quando o cutelo tocou o seu pescoço, voou e saiu a alma de Yitzchak. E, quando D’us fez ouvir a Sua voz dentre os querubins e lhe disse “não estendas a tua mão contra o jovem” (Bereshit 22:12), a sua alma voltou ao seu corpo; e Yitzchak levantou-se e pôs-se de pé. E soube Yitzchak que assim os mortos hão de reviver no futuro, e abriu a boca e disse: “Bendito és Tu, ó Eterno, que ressuscita os mortos”.
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: כֵּיוָן שֶׁהִגִּיעַ הַחֶרֶב עַל צַוָּארוֹ, פָּרְחָה וְיָצְאָה נַפְשׁוֹ שֶׁל יִצְחָק. וְכֵיוָן שֶׁהִשְׁמִיעַ קוֹלוֹ מִבֵּין הַכְּרוּבִים וְאָמַר לוֹ ״אַל תִּשְׁלַח יָדְךָ״, נַפְשׁוֹ חָזְרָה לְגוּפוֹ, וְקָם וְעָמַד יִצְחָק עַל רַגְלָיו. וְיָדַע יִצְחָק שֶׁכָּךְ הַמֵּתִים עֲתִידִים לְהֵחָיוֹת, וּפָתַח וְאָמַר: ״בָּרוּךְ אַתָּה ה' מְחַיֵּה הַמֵּתִים״.
Nota — a alma que parte e retorna. No sentido simples da Torá, Yitzchak não é ferido: a voz o detém a tempo. O midrash, porém, ousa dizer que a sua alma “saiu e voltou” — uma imagem para ensinar a imortalidade da alma e a ressurreição dos mortos: tendo chegado às portas da morte e regressado, Yitzchak teria sido o primeiro a proclamar “Bendito és Tu... que ressuscita os mortos”. A Akedá torna-se, assim, também uma meditação sobre a vida que não termina na morte.
11
Rabi Zecharyá diz: aquele carneiro que foi criado no crepúsculo da criação veio para ser oferecido em lugar de Yitzchak; e Samael a força acusadora estava de pé e o acusava, para anular a oferenda de Avraham, nosso pai; e o carneiro ficou preso pelos seus dois chifres entre as árvores no matagal. Que fez aquele carneiro? Estendeu a sua pata e segurou o talit de Avraham, nosso pai, chamando a sua atenção, e ficou preso pelos seus dois chifres entre as árvores, como está dito: “e levantou Avraham os seus olhos e viu, e eis um carneiro preso depois, pelos seus chifres, num matagal” (Bereshit 22:13). E olhou Avraham e viu o carneiro, e foi e o soltou e o ofereceu em lugar de Yitzchak, seu filho, como está dito: “e foi Avraham e tomou o carneiro e o ofereceu em holocausto em lugar de seu filho” (Bereshit 22:13).
רַבִּי זְכַרְיָה אוֹמֵר: אוֹתוֹ הָאַיִל שֶׁנִּבְרָא בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת הָיָה, וּבָא לְהִתְקָרֵב תַּחַת יִצְחָק, וְהָיָה סָמָאֵל עוֹמֵד וּמַסְטִינוֹ כְּדֵי לְבַטֵּל קָרְבָּנוֹ שֶׁל אַבְרָהָם אָבִינוּ, וְנֶאֱחַז בִּשְׁנֵי קַרְנוֹתָיו בֵּין הָאִילָנוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשָּׂא אַבְרָהָם אֶת עֵינָיו וַיַּרְא וְהִנֵּה אַיִל אַחַר נֶאֱחַז בַּסְּבַךְ בְּקַרְנָיו״. מֶה עָשָׂה אוֹתוֹ הָאַיִל? פָּשַׁט אֶת יָדוֹ וְאָחַז בְּטַלִּיתוֹ שֶׁל אַבְרָהָם אָבִינוּ וְנֶאֱחַז בִּשְׁתֵּי קַרְנוֹתָיו בֵּין הָאִילָנוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשָּׂא אַבְרָהָם אֶת עֵינָיו וַיַּרְא וְהִנֵּה אַיִל אַחַר״. וְהִבִּיט אַבְרָהָם וְרָאָה הָאַיִל וְהָלַךְ וְהִתִּירוֹ וְהִקְרִיבוֹ תַּחַת יִצְחָק בְּנוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּלֶךְ אַבְרָהָם וַיִּקַּח אֶת הָאַיִל״ וְכוּ'.
Nota essencial — o carneiro que encerra a prova. Aqui está o coração de tudo: a Akedá não termina em sangue. A voz do Céu detém o cutelo, e um carneiro toma o lugar de Yitzchak. Para a leitura racionalista (Rambam, Guia III:24), este é o sentido decisivo da provação: num mundo em que se sacrificavam crianças aos ídolos, a Torá proclama, de uma vez por todas, que D’us não quer o sacrifício humano — Ele quer a entrega do coração, não a morte do filho. A prova mediu a devoção de Avraham; o desfecho ensinou a todos que a verdadeira oferenda é a vida consagrada, não destruída. (“Samael”, a “força acusadora”, é, na leitura filosófica, a imagem da dúvida e do obstáculo, não um demônio literal.)
12
Rabi Berechiá diz: subiu a oferenda do carneiro como aroma agradável diante do Santo, bendito seja, como se fosse o aroma agradável de Yitzchak; e D’us jurou abençoá-lo neste mundo e no mundo vindouro, como está dito: “por Mim mesmo jurei, diz o Eterno, que, certamente, te abençoarei e multiplicarei grandemente a tua descendência como as estrelas dos céus” (Bereshit 22:16-17). “Certamente te abençoarei” — neste mundo; “e multiplicarei” — no mundo vindouro; “a tua descendência como as estrelas dos céus” — no porvir.
רַבִּי בְּרֶכְיָה אוֹמֵר: עָלָה קָרְבַּן הָאַיִל לְרֵיחַ נִיחוֹחַ לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא כְּאִלּוּ הָיָה רֵיחַ נִיחוֹחַ שֶׁל יִצְחָק, וְנִשְׁבַּע לְבָרְכוֹ בָּעוֹלָם הַזֶּה וּבָעוֹלָם הַבָּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בִּי נִשְׁבַּעְתִּי נְאֻם ה' כִּי בָרֵךְ אֲבָרֶכְךָ וְהַרְבָּה אַרְבֶּה אֶת זַרְעֲךָ כְּכוֹכְבֵי הַשָּׁמַיִם״. ״כִּי בָרֵךְ״ – בָּעוֹלָם הַזֶּה, ״אֲבָרֶכְךָ״ – לָעוֹלָם הַבָּא, ״וְהַרְבָּה אַרְבֶּה אֶת זַרְעֲךָ כְּכוֹכְבֵי הַשָּׁמַיִם״ – לֶעָתִיד לָבֹא.
13
Rabi Chananyá ben Dosa diz: daquele carneiro que foi criado no crepúsculo nada saiu em vão. A cinza do carneiro é o fundamento sobre o altar interior; os tendões do carneiro são as dez cordas da lira com que David tocava; a pele do carneiro é o cinto dos lombos de Eliyahu, de abençoada memória, como está dito: “um homem vestido de pelos e cingido com um cinto de couro nos lombos” (Melachim II 1:8); o chifre do carneiro — o esquerdo, com o qual se tocou no monte Sinai, como está dito: “e sucedeu, ao prolongar-se o toque do chifre do jubileu” (Shemot 19:13); e o direito, que é maior do que o esquerdo, com o qual Ele há de tocar no porvir, como está dito: “e sucederá, naquele dia, que se tocará um grande shofar ... e o Eterno será Rei sobre toda a terra” (Yeshayá 27:13; Zechariá 14:9).
רַבִּי חֲנַנְיָא בֶּן דּוֹסָא אוֹמֵר: אוֹתוֹ הָאַיִל שֶׁנִּבְרָא בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת לֹא יָצָא מִמֶּנּוּ דָּבָר לְבַטָּלָה. אֶפְרוֹ שֶׁל אַיִל הוּא יְסוֹד עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ הַפְּנִימִי, גִּידֵי הָאַיִל אֵלּוּ עֲשָׂרָה נְבָלִים שֶׁל כִּנּוֹר שֶׁהָיָה דָּוִד מְנַגֵּן בָּהֶם, עוֹרוֹ שֶׁל אַיִל הוּא אֵזוֹר מָתְנָיו שֶׁל אֵלִיָּהוּ זָכוּר לַטּוֹב, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אִישׁ בַּעַל שֵׂעָר״ וְכוּ', קַרְנָיו שֶׁל אַיִל, שֶׁל שְׂמֹאל שֶׁתָּקַע בּוֹ בְּהַר סִינַי שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי בִּמְשֹׁךְ בְּקֶרֶן הַיּוֹבֵל״, וְשֶׁל יָמִין שֶׁהִיא גְּדוֹלָה מִשֶּׁל שְׂמֹאל שֶׁהוּא עָתִיד לִתְקֹעַ בָּהּ לֶעָתִיד לָבֹא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיָה בַּיּוֹם הַהוּא יִתָּקַע בְּשׁוֹפָר גָּדוֹל וְהָיָה ה' לְמֶלֶךְ עַל כָּל הָאָרֶץ״.
Nota — o carneiro, o shofar e a memória. Nada do carneiro se perdeu: a tradição vê nos seus restos símbolos que atravessam a história — até os seus dois chifres. O chifre esquerdo teria soado no Sinai; o direito, maior, será o “grande shofar” da redenção futura. Daqui o costume: tocamos o shofar de carneiro em Rosh haShaná para recordar a Akedá (zichron Akedá) — a devoção de Avraham e de Yitzchak invocada como mérito diante de D’us. O monte Moriá, onde tudo se deu, será o lugar do Templo.
14
Rabi Yitzchak diz: tudo foi criado apenas por causa das prostrações da reverência humilde. Avraham não saiu do monte Moriá senão pelo mérito da prostração, como está dito: “e nos prostraremos e voltaremos a vós” (Bereshit 22:5). O Templo não foi estabelecido senão pelo mérito da prostração, como está dito: “exaltai o Eterno, nosso D’us, e prostrai-vos diante do escabelo dos Seus pés” (Tehilim 99:5).
רַבִּי יִצְחָק אוֹמֵר: הַכֹּל לֹא נִבְרָא אֶלָּא בִּשְׁבִיל הַשְׁתַּחֲוָיוֹת. אַבְרָהָם לֹא יָצָא מֵהַר הַמּוֹרִיָּה אֶלָּא בִּזְכוּת הַשְׁתַּחֲוָיָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְנִשְׁתַּחֲוֶה וְנָשׁוּבָה אֲלֵיכֶם״. בֵּית הַמִּקְדָּשׁ לֹא נִבְרָא אֶלָּא בִּזְכוּת הַשְׁתַּחֲוָיָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״רוֹמְמוּ ה' אֱלֹהֵינוּ וְהִשְׁתַּחֲווּ לַהֲדֹם רַגְלָיו״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A décima provação: o que a Akedá ensina

A Ligação de Yitzchak é a prova suprema — e a mais difícil de ler. A tradição racionalista (Rambam, Guia III:24) extrai dela dois ensinamentos. Primeiro, o limite extremo a que pode chegar o amor e o temor de D’us: Avraham, que ousara discutir com D’us por Sodoma, aqui obedece em silêncio ao que mais lhe custa. Segundo — e decisivo —, o desfecho: D’us detém o sacrifício. Num mundo que imolava crianças aos seus deuses, a Torá grava para sempre que o D’us de Avraham abomina o sacrifício humano. A prova revelou a grandeza de um homem; o seu fim revelou a vontade de D’us.

A ligação de dois

O midrash insiste que Yitzchak não é vítima passiva: adulto, ele pede para ser atado, e pai e filho agem “de todo o coração”. A Akedá é a entrega conjunta de dois justos. O Radal e os comentadores clássicos sublinham que essa é a sua força moral: não a violência de um sobre o outro, mas a devoção partilhada — e, ainda assim, os anjos choram, porque a tradição nunca celebra a morte, mesmo a mais santa.

A morte vencida

Que a alma de Yitzchak “saia e volte” é leitura homilética — no texto, ele permanece vivo. Mas os sábios usam a imagem para ensinar a ressurreição e a continuidade da alma: quem se entregou inteiramente recebe a vida de volta. A Akedá, que parecia caminhar para a morte, termina em vida — e por isso Yitzchak é ligado, na tradição, à bênção “que ressuscita os mortos”.

O carneiro, o shofar e o monte

O carneiro do crepúsculo (Avot 5:6) substitui Yitzchak, e dele “nada se perde”: o seu chifre direito será o “grande shofar” do porvir. Daí soarmos o shofar de carneiro em Rosh haShaná, para recordar a Akedá. E tudo se deu no monte Moriá, futuro lugar do Templo, “pelo mérito da prostração” (§13): a reverência humilde diante de D’us é, para os sábios, o eixo invisível sobre o qual o mundo se sustenta.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 32

Os nomes anunciados e a bênção de Yaakov

פֶּרֶק ל״ב

Nomes e destino. Seis foram chamados pelo nome antes mesmo de nascer — entre eles, o Mashiach. Depois o capítulo passa à geração seguinte: a morte de Sará, o casamento de Yitzchak com Rivka, o nascimento dos gêmeos que lutam desde o ventre e a noite das bênçãos — onde a Torá ensina que a verdadeira força de Yaakov é “a voz”, não “as mãos”.

1
Seis foram chamados pelos seus nomes antes de nascerem, e são estes: Yitzchak, Yishmael, Moshe, nosso mestre, Shlomo, Yoshiyahu, e o nome do Mashiach, que o Santo, bendito seja, há de trazer em breve, em nossos dias.
שִׁשָּׁה נִקְרְאוּ בִּשְׁמוֹתָן עַד שֶׁלֹּא נוֹלְדוּ, וְאֵלּוּ הֵן: יִצְחָק, וְיִשְׁמָעֵאל, וּמֹשֶׁה רַבֵּינוּ, וּשְׁלֹמֹה, וְיֹאשִׁיָּהוּ, וּשְׁמוֹ שֶׁל מָשִׁיחַ שֶׁיָּבִיא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בִּמְהֵרָה בְיָמֵינוּ.
2
Yitzchak, de onde? Do que está dito: “e chamarás o seu nome Yitzchak” (Bereshit 17:19). E por que foi chamado o seu nome Yitzchak יצחק? O yod (=10) — as dez provações com que foi provado Avraham, nosso pai; o tzadi (=90) — os noventa anos que tinha Sará, nossa mãe; o chet (=8) — os oito dias em que foi circuncidado; o kuf (=100) — os cem anos que tinha Avraham, nosso pai, como está dito: “e Avraham tinha cem anos quando lhe nasceu Yitzchak, seu filho” (Bereshit 21:5).
יִצְחָק מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְקָרָאתָ אֶת שְׁמוֹ יִצְחָק״. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ יִצְחָק? י' – עֲשָׂרָה נִסְיוֹנוֹת שֶׁנִּתְנַסָּה אַבְרָהָם אָבִינוּ. צ' – תִּשְׁעִים שָׁנָה, שֶׁהָיְתָה שָׂרָה אִמֵּנוּ בַּת תִּשְׁעִים. ח' – לִשְׁמוֹנָה יָמִים שֶׁנִּמּוֹל. ק' – מֵאָה שָׁנָה שֶׁהָיוּ לְאַבְרָהָם אָבִינוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאַבְרָהָם בֶּן מְאַת שָׁנָה״.
3
Yishmael, de onde? Do que está dito: “e chamarás o seu nome Yishmael” (Bereshit 16:11). E por que foi chamado o seu nome Yishmael? Porque o Santo, bendito seja, há de ouvir (yishmá) o clamor do povo, aflito pelo que os filhos de Yishmael viriam a fazer na terra no fim dos dias. Por isso foi chamado o seu nome Yishmael, como está dito: “D’us ouvirá (yishmá El) e os responderá” (Tehilim 55:20).
יִשְׁמָעֵאל מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְקָרָאת שְׁמוֹ יִשְׁמָעֵאל״. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ יִשְׁמָעֵאל? שֶׁעָתִיד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לִשְׁמֹעַ נַאֲקַת הָעָם מִמַּה שֶּׁעֲתִידִין בְּנֵי יִשְׁמָעֵאל לַעֲשׂוֹת בָּאָרֶץ בְּאַחֲרִית הַיָּמִים. לְפִיכָךְ נִקְרָא שְׁמוֹ יִשְׁמָעֵאל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יִשְׁמַע אֵל וְיַעֲנֵם״.
Nota — o nome “Yishmael” e a leitura responsável. O nome significa “D’us ouvirá” (yishmá El). O midrash, composto na era das primeiras conquistas árabes, lê nele também o clamor por socorro em meio à turbulência daquele tempo — uma leitura apocalíptica do seu próprio momento histórico, não um juízo sobre qualquer povo de hoje (ver a nota detalhada no cap. 30). O sentido raiz permanece luminoso: D’us ouve — o grito do aflito não passa despercebido ao Céu.
4
Moshe, de onde? Do que está dito: “não contenderá o Meu espírito com o homem para sempre, porquanto (beshagam) ele também é carne” (Bereshit 6:3). “Beshagam” בשגם, em valor numérico, equivale a “Moshe” (345), cujos dias foram cento e vinte anos, como está dito: “e os seus dias serão cento e vinte anos” (ibid.).
מֹשֶׁה מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״לֹא יָדוֹן רוּחִי בָאָדָם לְעוֹלָם בְּשַׁגַּם״. בְּשַׁגַּם בְּגִימַטְרִיָּא מֹשֶׁה, שֶׁהָיוּ חַיָּיו מֵאָה וְעֶשְׂרִים שָׁנָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיוּ יָמָיו מֵאָה וְעֶשְׂרִים שָׁנָה״.
5
Shlomo, de onde? Do que está dito: “eis que te nascerá um filho ... Shlomo será o seu nome” (Divrei haYamim I 22:9). E por que foi chamado o seu nome Shlomo? Pelo que está dito: “paz (shalom) e tranquilidade darei a Israel nos seus dias” (ibid.).
שְׁלֹמֹה מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִנֵּה בֵן נוֹלָד לָךְ (וְקָרָאתָ אֶת שְׁמוֹ שְׁלֹמֹה) [כִּי שְׁלֹמֹה יִהְיֶה שְׁמוֹ]״. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ שְׁלֹמֹה בִּלְשׁוֹן אֲרַמִּית? עַל שֵׁם שֶׁנֶּאֱמַר: ״שָׁלוֹם וָשֶׁקֶט אֶתֵּן עַל יִשְׂרָאֵל בְּיָמָיו״.
6
Yoshiyahu, de onde? Do que está dito: “eis que nascerá um filho à casa de David, Yoshiyahu será o seu nome” (Melachim I 13:2). E por que foi chamado o seu nome Yoshiyahu? Porque foi aceito como dádiva agradável ao altar — “yaê shai hu” (formosa dádiva é ele) diante de Ti.
יֹאשִׁיָּהוּ מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִנֵּה בֵן נוֹלָד לְבֵית דָּוִד, יֹאשִׁיָּהוּ שְׁמוֹ״. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ יֹאשִׁיָּהוּ? שֶׁנִּרְצָה כְּשַׁי לַמִּזְבֵּחַ, יָאֵי שַׁי הוּ לְפָנֶיךָ.
7
O Rei Mashiach, de onde? Do que está dito: “diante do sol, o seu nome se perpetuará (yinnon)” (Tehilim 72:17). E por que foi chamado o seu nome Yinnon? Porque ele há de reavivar (leyanen) os que dormem no pó.
מֶלֶךְ הַמָּשִׁיחַ מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״לִפְנֵי שֶׁמֶשׁ יִנּוֹן שְׁמוֹ״. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ יִנּוֹן? שֶׁהוּא עָתִיד לְיַנֵּן יְשֵׁנֵי עָפָר.
8
E, quando Avraham voltou do monte Moriá, irou-se Samael a força acusadora, ao ver que não lograra o desejo do seu coração de anular a oferenda de Avraham. Que fez? Foi e disse a Sará: “ó Sará, não ouviste o que se fez no mundo?”. Disse-lhe ela: “não”. Disse-lhe: “o teu velho marido tomou o jovem Yitzchak e o ofereceu em holocausto, e o jovem chorava e gemia, sem poder salvar-se”. Imediatamente ela começou a chorar e a gemer: chorou três prantos, correspondentes aos três toques do shofar, e três gemidos, correspondentes às três notas entrecortadas (yevavot); e voou a sua alma e morreu.
וּכְשֶׁבָּא אַבְרָהָם מֵהַר הַמּוֹרִיָּה, חָרָה אַפּוֹ שֶׁל סָמָאֵל, שֶׁרָאָה שֶׁלֹּא עָלְתָה בְּיָדוֹ תַּאֲוַת לִבּוֹ לְבַטֵּל קָרְבָּנוֹ שֶׁל אַבְרָהָם. מֶה עָשָׂה? הָלַךְ וְאָמַר לְשָׂרָה: ״אִי שָׂרָה, לֹא שָׁמַעַתְּ מַה שֶּׁנַּעֲשָׂה בָּעוֹלָם?״ אָמְרָה לוֹ: ״לָאו״. אָמַר לָהּ: ״לָקַח אִישֵׁךְ הַזָּקֵן לַנַּעַר יִצְחָק וְהִקְרִיבוֹ לְעוֹלָה, וְהַנַּעַר בּוֹכֶה וּמְיַלֵּל שֶׁלֹּא יָכוֹל לְהִנָּצֵל״. מִיָּד הִתְחִילָה בּוֹכָה וּמְיַלֶּלֶת, בָּכְתָה שָׁלֹשׁ בְּכִיּוֹת כְּנֶגֶד שָׁלֹשׁ תְּקִיעוֹת, שָׁלֹשׁ יְלָלוֹת כְּנֶגֶד שָׁלֹשׁ יְבָבוֹת, וּפָרְחָה נִשְׁמָתָהּ וּמֵתָה.
Nota — a morte de Sará e o som do shofar. Samael (a “força acusadora”) leva a Sará a notícia, descrita de modo cruel, de que Yitzchak fora sacrificado — e o choque a mata. A tradição extrai daqui o quanto uma palavra pode ferir e até matar. E há um fio comovente: os três prantos e os três gemidos de Sará são ligados, pelos sábios, às notas do shofar (os toques inteiros e as notas entrecortadas). Assim a Akedá, a morte de Sará e o shofar de Rosh haShaná se entrelaçam: o som que tocamos carrega a memória do amor e da dor dos patriarcas. (“Samael” é, na leitura racionalista, a imagem da acusação e da crueldade, não um demônio literal.)
9
Veio Avraham, nosso pai, e a encontrou morta, como está dito: “e veio Avraham para prantear Sará e para chorá-la” (Bereshit 23:2). De onde veio? Do monte Moriá.
בָּא אַבְרָהָם אָבִינוּ וּמְצָאָהּ שֶׁמֵּתָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּבֹא אַבְרָהָם לִסְפֹּד לְשָׂרָה וְלִבְכֹּתָהּ״. מֵהֵיכָן בָּא? מֵהַר הַמּוֹרִיָּה.
10
Rabi Yossi diz: três anos fez Yitzchak luto por Sará, sua mãe. Depois de três anos, tomou Rivka e consolou-se do luto de sua mãe. Daqui aprendes: antes de o homem tomar esposa, o seu amor segue os seus pais; tomada a esposa, o seu amor segue a sua esposa, como está dito: “por isso o homem deixa o seu pai e a sua mãe e se apega à sua mulher” (Bereshit 2:24). E acaso deixa o homem o seu pai e a sua mãe eximindo-se da mitsvá de honrá-los? Não, mas que o amor da sua alma se apega à sua esposa, como está dito: “e se apega à sua mulher”.
רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: שָׁלֹשׁ שָׁנִים עָשָׂה יִצְחָק אֵבֶל עַל שָׂרָה אִמּוֹ. לְאַחַר שָׁלֹשׁ שָׁנִים לָקַח אֶת רִבְקָה וְשָׁכַח אֵבֶל אִמּוֹ. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד, עַד שֶׁלֹּא לָקַח אָדָם אִשָּׁה, אַהֲבָתוֹ הוֹלֶכֶת אַחַר הוֹרָיו. לָקַח אִשָּׁה, אַהֲבָתוֹ הוֹלֶכֶת אַחַר אִשְׁתּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עַל כֵּן יַעֲזֹב אִישׁ אֶת אָבִיו וְאֶת אִמּוֹ וְדָבַק בְּאִשְׁתּוֹ״. וְכִי יַעֲזֹב אִישׁ אֶת אָבִיו וְאֶת אִמּוֹ מִמִּצְוַת כִּבּוּד? אֶלָּא שֶׁאַהֲבַת נַפְשׁוֹ דּוֹבֶקֶת אַחֲרֵי אִשְׁתּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְדָבַק בְּאִשְׁתּוֹ״.
Nota — o amadurecimento do amor. Yitzchak consola-se do luto por Sará ao casar-se com Rivka, e daqui os sábios leem o versículo “por isso o homem deixa o pai e a mãe e se apega à sua mulher” (Bereshit 2:24): não que cesse a honra devida aos pais (que é mitsvá perene), mas que o vínculo central do amor adulto passa a ser o do casamento (cf. o ensaio sobre o casamento como aliança). O amor não se perde — amadurece e se redireciona.
11
Rabi Yehudá diz: vinte anos foi Rivka estéril. Depois de vinte anos, tomou-a Yitzchak e foi com ela ao monte Moriá, ao lugar em que fora ligado, e orou pela concepção, e D’us o atendeu, como está dito: “e o Eterno o atendeu” etc. (Bereshit 25:21). Veio a dar à luz, e, pelas suas dores, a sua alma chegou a querer morrer, e foi orar num lugar puro, como está dito: “e foi consultar o Eterno” (Bereshit 25:22). E os filhos estavam no seu ventre como poderosos em força, como está dito: “e os filhos se empurravam dentro dela” (ibid.). Que fez Yaakov, nosso pai? Segurou o calcanhar de Esav, para o derrubar, como está dito: “e a sua mão segurava o calcanhar de Esav” (Bereshit 25:26). Daqui aprendes que os filhos de Esav não cairão até que venha um remanescente de Yaakov e corte os pés de Esav do monte Seir, como está dito: “estiveste olhando, até que uma pedra se desprendeu sem auxílio de mãos” (Daniel 2:34); e outro escrito diz: “Minha é a vingança e a retribuição, ao tempo em que resvalar o seu pé” (Devarim 32:35).
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: עֶשְׂרִים שָׁנָה הָיְתָה רִבְקָה עֲקָרָה. לְאַחַר עֶשְׂרִים שָׁנָה לָקַח יִצְחָק וְהָלַךְ עִמָּהּ לְהַר הַמּוֹרִיָּה לַמָּקוֹם שֶׁנֶּעֱקַד שָׁם, וְהִתְפַּלֵּל עַל הַהֵרָיוֹן וְנֶעְתַּר לוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיֵּעָתֶר לוֹ ה'״ וְכוּ'. בָּאָה לָלֶדֶת וּמֵחֶבְלֶיהָ הִגִּיעָה נַפְשָׁהּ לָמוּת, וְהָלְכָה לְהִתְפַּלֵּל בְּמָקוֹם טָהוֹר, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַתֵּלֶךְ לִדְרֹשׁ אֶת ה'״. וְהָיוּ הַבָּנִים בְּתוֹךְ מֵעֶיהָ כְּגִבּוֹרֵי כֹּחַ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּתְרֹצְצוּ הַבָּנִים בְּקִרְבָּהּ״. מֶה עָשָׂה יַעֲקֹב אָבִינוּ? אָחַז בַּעֲקֵב עֵשָׂו לְהַפִּילוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְיָדוֹ אֹחֶזֶת בַּעֲקֵב עֵשָׂו״. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁאֵין בְּנֵי עֵשָׂו נוֹפְלִים עַד שֶׁיָּבֹא שָׂרִיד מִיַּעֲקֹב וִיקַצֵּץ רַגְלָיו שֶׁל עֵשָׂו מֵהַר שֵׂעִיר, שֶׁנֶּאֱמַר ״חָזֵה הֲוֵית עַד דִּי הִתְנְזֶרֶת אֶבֶן״. וְכָתוּב אַחֵר אוֹמֵר ״לִי נָקָם וְשִׁלֵּם לְעֵת תָּמוּט רַגְלָם״.
12
Disse Rabi Acha: “cresceram os jovens” (Bereshit 25:27) — este foi pelo caminho da vida e aquele pelo caminho da morte. Yaakov, nosso pai, foi pelo caminho da vida, pois habitava em tendas e se ocupava da Torá todos os seus dias; e Esav, o ímpio, ia pelo caminho da morte, chegando a querer matar Yaakov, nosso pai, como está dito: “aproximam-se os dias de luto de meu pai, e então matarei Yaakov, meu irmão” (Bereshit 27:41).
אָמַר רַבִּי אַחָא: גָּדְלוּ הַנְּעָרִים, זֶה הָלַךְ בְּדֶרֶךְ חַיִּים וְזֶה הָלַךְ בְּדֶרֶךְ הַמָּוֶת, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּגְדְּלוּ הַנְּעָרִים״. יַעֲקֹב אָבִינוּ הָלַךְ בְּדֶרֶךְ הַחַיִּים, שֶׁהָיָה יוֹשֵׁב אֹהָלִים וְעוֹסֵק בַּתּוֹרָה כָּל יָמָיו, וְעֵשָׂו הָרָשָׁע הָיָה הוֹלֵךְ בְּדֶרֶךְ הַמָּוֶת, לַהֲרֹג אֶת יַעֲקֹב אָבִינוּ, שֶׁנֶּאֱמַר ״יִקְרְבוּ יְמֵי אֵבֶל אָבִי וְאַהַרְגָה אֶת יַעֲקֹב אָחִי״.
Nota — Esav, “Edom” e os dois caminhos. A contenda dos gêmeos é lida como o contraste de dois caminhos: Yaakov, “que habita em tendas e se ocupa da Torá” (o caminho da vida); Esav, que busca a violência (o caminho da morte) — e isso tem base no próprio texto (Esav quis matar Yaakov, Bereshit 27:41). Na linguagem dos sábios, “Esav/Edom” veio a designar também o poder imperial hostil (Roma e seus herdeiros), e não um povo vivo de hoje. O ensino é moral, não étnico: a oposição é entre a via da sabedoria e a via da força bruta.
13
Rabi Shimon diz: no momento em que Yitzchak foi ligado na Akedá, ergueu os olhos para o alto e viu a Shechiná; ora, está escrito: “porque o homem não Me verá e viverá” (Shemot 33:20). Como Yitzchak não morreu então, em lugar da morte, os seus olhos se ofuscaram na velhice, como está dito: “e sucedeu que, sendo Yitzchak velho, os seus olhos se ofuscaram, de modo que não via” (Bereshit 27:1). Daqui aprendes que o cego é considerado como se já tivesse provado a morte.
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: בְּשָׁעָה שֶׁנֶּעֱקַד יִצְחָק, נָשָׂא אֶת עֵינָיו לְמַעְלָה וְרָאָה אֶת הַשְּׁכִינָה, וְכָתוּב ״כִּי לֹא יִרְאַנִי הָאָדָם וָחָי״. אֶלָּא תַּחַת הַמִּיתָה כָּהוּ עֵינָיו לְעֵת זִקְנָתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיְהִי כִּי זָקֵן יִצְחָק וַתִּכְהֶיןָ עֵינָיו מֵרְאוֹת״. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁהַסּוּמָא חָשׁוּב כְּמֵת.
14
Chegou a noite do dia de Pessach, e Yitzchak chamou Esav, seu filho mais velho, e disse-lhe: “meu filho, nesta noite o mundo inteiro recita o Halel, e os tesouros dos orvalhos se abrem nesta noite; faze-me um prato saboroso, para que, enquanto ainda vivo, eu te abençoe”. E o espírito santo responde e diz: “não comas o pão do homem de olhar mau avarento” (Mishlei 23:6). Foi Esav buscar a caça e demorou-se ali. Disse Rivka a Yaakov: “meu filho, nesta noite os tesouros dos orvalhos se abrem, os seres supernos entoam cânticos; nesta noite os teus filhos hão de ser redimidos da servidão, nesta noite hão de entoar o cântico. Faze um prato saboroso a teu pai, para que, enquanto ainda vivo, ele te abençoe”.
הִגִּיעַ לֵיל יוֹם הַפֶּסַח, וְקָרָא יִצְחָק לְעֵשָׂו בְּנוֹ הַגָּדוֹל וְאָמַר לוֹ: ״בְּנִי, זֶה הַלַּיְלָה כָּל הָעוֹלָם כֻּלּוֹ אוֹמְרִים בּוֹ הַלֵּל, וְאוֹצָרוֹת טְלָלִים נִפְתָּחִים בְּזוֹ הַלַּיְלָה. עֲשֵׂה לִי מַטְעַמִּים, עַד שֶׁאֲנִי בְּעוֹדִי אֲבָרֶכְךָ״. וְרוּחַ הַקֹּדֶשׁ מְשִׁיבָה וְאוֹמֶרֶת: ״אַל תִּלְחַם אֶת לֶחֶם רַע עַיִן״. הָלַךְ לְהָבִיא וְנִתְעַכֵּב שָׁם. אָמְרָה רִבְקָה לְיַעֲקֹב: ״בְּנִי, הַלַּיְלָה הַזֶּה אוֹצָרוֹת טְלָלִים נִפְתָּחִים בּוֹ, הָעֶלְיוֹנִים אוֹמְרִין שִׁירָה. הַלַּיְלָה הַזֶּה עֲתִידִין בָּנֶיךָ לְהִגָּאֵל מִיַּד שִׁעְבּוּד, הַלַּיְלָה הַזֶּה עֲתִידִין לוֹמַר שִׁירָה. עֲשֵׂה מַטְעַמִּים לְאָבִיךָ עַד שֶׁהוּא בְּעוֹדוֹ יְבָרֶכְךָ״.
15
Yaakov era versado na Torá, e o seu coração temeu a maldição de seu pai. Disse-lhe a sua mãe: “meu filho, se vierem bênçãos, sobre ti e sobre a tua descendência; e, se maldições, sobre mim e sobre a minha alma”, como está dito: “sobre mim recaia a tua maldição, meu filho” (Bereshit 27:13). Foi e trouxe dois cabritos. E acaso dois cabritos eram a refeição de Yitzchak — não lhe bastaria um, como está dito “o justo come para saciar a sua alma” (Mishlei 13:25)? Mas um era para o cordeiro de Pessach e o outro para fazer-lhe o prato saboroso de comer — pois aprendemos que o sacrifício de Pessach só se come sobre o estômago saciado. Entrou e disse-lhe: “levanta-te, assenta-te e come da minha caça”. Disse Yitzchak: “a voz é a voz de Yaakov” — na proclamação da unidade do Nome de D’us; “a voz é a voz de Yaakov” — no estudo da Torá; “e as mãos são as mãos de Esav” — em todo derramamento de sangue e em toda violência. E não só isso: quando se proclama nos céus “a voz é a voz de Yaakov”, os céus estremecem; e, quando se proclama na terra, todo aquele que ouve e cumpre a Torá tem a sua parte com “a voz de Yaakov”, e todo aquele que não ouve nem cumpre tem a sua parte com “as mãos de Esav”.
יַעֲקֹב הָיָה בָּקִי בַּתּוֹרָה, פָּחַד לִבּוֹ עַל קִלְלַת אָבִיו. אָמְרָה לוֹ אִמּוֹ: ״בְּנִי, בְּרָכוֹת – עָלֶיךָ וְעַל זַרְעֲךָ, וְאִם קְלָלוֹת – עָלַי וְעַל נַפְשִׁי״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עָלַי קִלְלָתְךָ בְּנִי״. הָלַךְ וְהֵבִיא שְׁנֵי גְּדָיֵי עִזִּים, וְכִי שְׁנֵי גְּדָיֵי עִזִּים הָיָה מַאֲכָלוֹ שֶׁל יִצְחָק? וַהֲלֹא דַּי לוֹ בְּאֶחָד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״צַדִּיק אֹכֵל לְשֹׂבַע נַפְשׁוֹ״. אֶלָּא אֶחָד כְּנֶגֶד הַפֶּסַח וְאֶחָד לַעֲשׂוֹת לוֹ מַטְעַמִּים לֶאֱכֹל, דְּתָנִינַן הַפֶּסַח אֵינוֹ בָּא אֶלָּא עַל הַשָּׂבַע. נִכְנַס וְאָמַר לוֹ: ״קוּם נָא שְׁבָה וְאָכְלָה מִצֵּידִי״. אָמַר יִצְחָק: ״הַקֹּל קוֹל יַעֲקֹב״ בְּיִחוּד הַשֵּׁם, ״הַקֹּל קוֹל יַעֲקֹב״ בְּהֶגְיוֹן תּוֹרָה, ״וְהַיָּדַיִם יְדֵי עֵשָׂו״ בְּכָל שְׁפִיכוּת דָּמִים וּבְכָל מָוֶת רַע. וְלֹא עוֹד, אֶלָּא כְּשֶׁמַּכְרִיזִין בַּשָּׁמַיִם ״הַקֹּל קוֹל יַעֲקֹב״, הַשָּׁמַיִם רוֹעֲשִׁים, וּכְשֶׁמַּכְרִיזִין בָּאָרֶץ ״הַקֹּל קוֹל יַעֲקֹב״, כָּל מִי שֶׁהוּא שׁוֹמֵעַ וְעוֹשֶׂה חֶלְקוֹ עִם ״הַקֹּל קוֹל יַעֲקֹב״, וְכָל מִי שֶׁאֵינוֹ שׁוֹמֵעַ וְאֵינוֹ עוֹשֶׂה חֶלְקוֹ עִם ״הַיָּדַיִם יְדֵי עֵשָׂו״.
Nota essencial — “a voz é a voz de Yaakov”. Eis o coração do capítulo. Yitzchak distingue duas forças: a voz (de Yaakov) e as mãos (de Esav). A força de Israel está na voz — na Torá, na oração, na proclamação da unidade de D’us, na palavra que apela à verdade —, não nas mãos, na violência. É uma das mais profundas afirmações da tradição: o poder do espírito sobre a força bruta. Quanto à tomada da bênção: os sábios observam que Yaakov, “versado na Torá”, temia agir assim — não é um trapaceiro por índole; Rivka age guiada pela palavra que recebera, “o maior servirá o menor” (Bereshit 25:23), e a bênção recai sobre quem trilha “o caminho da vida”.
16
Rabi Yehudá diz: dez bênçãos abençoou Yitzchak a Yaakov — sobre os orvalhos dos céus e sobre o trigo da terra —, correspondentes às dez palavras (maamarot) com que o mundo foi criado, como está dito: “D’us te dê do orvalho dos céus e da gordura da terra, e abundância de trigo e mosto” etc. (Bereshit 27:28). E, quando Yaakov saiu de diante de Yitzchak, seu pai, saiu coroado como um noivo e como uma noiva nos seus adornos; e desceu sobre ele um orvalho de vida dos céus, e revigoraram-se os seus ossos, e tornou-se também ele um homem de força e poder; por isso se diz: “pelas mãos do Poderoso de Yaakov, dali vem o Pastor, a Pedra de Israel” (Bereshit 49:24).
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: עֲשָׂרָה בְרָכוֹת בֵּרַךְ יִצְחָק לְיַעֲקֹב, עַל טַלְלֵי שָׁמַיִם וְעַל דְּגַן הָאָרֶץ, כְּנֶגֶד עֲשָׂרָה מַאֲמָרוֹת שֶׁבָּהֶם נִבְרָא הָעוֹלָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְיִתֶּן לְךָ הָאֱלֹהִים מִטַּל הַשָּׁמַיִם״ וְכוּ'. וּכְשֶׁיָּצָא יַעֲקֹב מֵאֵת פְּנֵי יִצְחָק אָבִיו, יָצָא מְעֻטָּר כְּחָתָן וְכַכַּלָּה בְּקִשּׁוּרֶיהָ, וְיָרַד עָלָיו תְּחִיַּת טַל מִן הַשָּׁמַיִם, וְנִדְשְׁנוּ עַצְמוֹתָיו וְנַעֲשָׂה גַּם הוּא גִּבּוֹר חַיִל וָכֹחַ, לְכָךְ נֶאֱמַר: ״מִידֵי אֲבִיר יַעֲקֹב מִשָּׁם רֹעֶה אֶבֶן יִשְׂרָאֵל״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

Os nomes anunciados antes do nascimento

Seis nomes foram dados antes de quem os levaria existir — culminando no nome do Mashiach. Os sábios leem nas letras desses nomes um sentido (a guematria de “Yitzchak”, de “beshagam” = Moshe): não como um código cifrado, mas como derash — um modo de extrair significado e ligar o nome ao destino e à missão de cada um. O capítulo ensina que há, na história, um desígnio: certos homens vêm ao mundo com um chamado já inscrito, e o último deles trará a redenção e “reavivará os que dormem no pó”.

A morte de Sará e o shofar

Sará morre ao ouvir, de modo cruel, a notícia da Akedá — lição sobre o poder mortífero de uma palavra. E os seus prantos e gemidos são ligados, pela tradição, às notas do shofar: a Akedá, a morte de Sará e o toque de Rosh haShaná entrelaçam-se. Avraham desce do monte Moriá e a encontra já partida — e é assim que se abre a parashá de Chayei Sará, “a vida de Sará”, justamente ao narrar a sua morte: porque o valor de uma vida não se mede pela sua duração, mas pelo que ela deixa.

“A voz é a voz de Yaakov”

O ponto culminante. Yitzchak, mesmo sem ver, distingue a essência: a voz de Yaakov — Torá, oração, a unidade de D’us — e as mãos de Esav — a violência. Para os sábios, esta é a vocação de Israel: vencer pela palavra e pelo espírito, não pela força. “Quando a voz de Yaakov se faz ouvir, as mãos de Esav não prevalecem.” É um programa moral para todas as gerações.

A bênção e a providência

O episódio da bênção é delicado, e a tradição o lê à luz da providência: Rivka recebera a palavra “o maior servirá o menor” (Bereshit 25:23), e Yaakov — que “temia a maldição” — é, dos dois, o que trilha “o caminho da vida”. As dez bênçãos do orvalho e do trigo correspondem às dez palavras da criação: a bênção que recai sobre Yaakov é a do mundo bem-ordenado, confiado a quem o serve com a voz, e não com a espada.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 33

O poder da tzedacá e a ressurreição dos mortos

פֶּרֶק ל״ג

Dois grandes temas se entrelaçam: o poder da tzedacá (a caridade, a justiça) e a ressurreição dos mortos. De Yitzchak, que “semeou” caridade, às crianças revividas por Eliyahu e Elishá, até o vale dos ossos secos de Yechezkel — o capítulo afirma que a bondade tem poder de dar vida, e que a morte não é a última palavra.

1
“E Yitzchak semeou naquela terra” (Bereshit 26:12). Rabi Eliezer diz: acaso Yitzchak semeou grão? D’us nos livre! Mas tomou todo o dízimo do seu dinheiro e semeou tzedacá (caridade) aos pobres e necessitados, conforme dizes: “semeai para vós em justiça (tzedacá), colhei à medida da bondade (chéssed)” (Hoshea 10:12). E, por cada coisa que dizimou, o Santo, bendito seja, abriu-lhe cem portas de toda sorte de bênçãos, como está dito: “e achou, naquele ano, cem medidas” (Bereshit 26:12).
״וַיִּזְרַע יִצְחָק בָּאָרֶץ הַהִיא״, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: וְכִי זֶרַע דָּגָן זָרַע יִצְחָק? חַס וְשָׁלוֹם! אֶלָּא לָקַח כָּל מַעְשַׂר מָמוֹנוֹ וְזָרַע צְדָקָה לַעֲנִיִּים וְלָאֶבְיוֹנִים, כְּשֵׁם שֶׁאַתָּה אוֹמֵר: ״זִרְעוּ לָכֶם לִצְדָקָה, קִצְרוּ לְפִי חֶסֶד״. וְכָל דָּבָר וְדָבָר שֶׁעִשֵּׂר פָּתַח לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מֵאָה שְׁעָרִים שֶׁל מִינֵי בְרָכוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּמְצָא בַּשָּׁנָה הַהִיא מֵאָה שְׁעָרִים״.
2
Rabi Shimon diz: pela força da tzedacá os mortos hão de reviver. De onde aprendemos? De Eliyahu, o tishbita, que foi a Tzarefat e o recebeu uma mulher viúva com grande honra — a mãe de Yoná —, e do seu pão e do seu azeite comiam e bebiam, ele, ela e o seu filho, como está dito: “e comeram, ela e ele e a sua casa, por muitos dias” (Melachim I 17:15).
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: מִכֹּחַ צְדָקָה הַמֵּתִים עֲתִידִים לְהַחֲיוֹת. מִנַּיִן אָנוּ לְמֵדִין? מֵאֵלִיָּהוּ הַתִּשְׁבִּי, שֶׁהָלַךְ לוֹ לְצָרְפַת וְקִבְּלַתּוֹ אִשָּׁה אַלְמָנָה בְּכָבוֹד גָּדוֹל. אִמּוֹ שֶׁל יוֹנָה, וּמִפִּתּוֹ וּמִשֶּׁמֶן יִצְהָרוֹ הָיוּ אוֹכְלִין וְשׁוֹתִין הוּא וְהִיא וּבְנָהּ, שֶׁנֶּאֱמַר (מלכים א יז, טו): ״וַתֹּאכַל הִיא וָהוּא״.
Nota — “Yitzchak semeou tzedacá”. O capítulo abre dando à palavra “semear” um sentido moral: Yitzchak não plantou trigo, mas caridade — e colheu cem vezes. Para a tradição racionalista, o “poder” da tzedacá não é mágico: é o valor real da justiça e da bondade no plano moral e providencial — “a tzedacá salva da morte” (Mishlei 10:2). A caridade que dá vida ao necessitado torna-se, no capítulo, a imagem da própria força que vence a morte (cf. os ensaios sobre a tzedacá e a bondade).
3
Disse Rabi Levi: está escrito “ele e ela” no texto e lê-se “ela e ele” — pelo mérito de Eliyahu comeram. Depois de alguns dias, adoeceu o filho da mulher e morreu, como está dito: “e sucedeu, depois destas coisas, que adoeceu o filho da mulher” etc. (Melachim I 17:17). Disse-lhe a mulher: “vieste a mim como hóspede e com a tua presença recordaste a minha culpa, e o meu filho morreu; toma, pois, tudo o que me trouxeste e devolve-me o meu filho”. Levantou-se Eliyahu, de abençoada memória, e orava diante do Santo, bendito seja, e disse perante Ele: “Senhor de todos os mundos! Não bastam todos os males que passaram sobre a minha cabeça, mas ainda esta mulher — que eu sei que, na aflição do seu filho, falou o que não era — me acusa? Agora, que aprendam todas as gerações que há ressurreição dos mortos: devolve a alma deste menino ao seu corpo!”. E D’us o atendeu, como está dito: “e o Eterno ouviu a voz de Eliyahu” etc. (Melachim I 17:22).
אָמַר רַבִּי לֵוִי: ״הוּא וְהִיא״ כְּתִיב, וְ״הִיא וָהוּא״ קָרִינַן, בִּזְכוּת אֵלִיָּהוּ אָכְלוּ. לְאַחַר יָמִים חָלָה בֶּן הָאִשָּׁה וָמֵת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי אַחֲרֵי הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה חָלָה בֶּן הָאִשָּׁה״ וְכוּ'. אָמְרָה לוֹ הָאִשָּׁה: ״בָּאתָ אֵלַי בְּתַשְׁמִישׁ הַמִּטָּה וְהִזְכַּרְתָּ עֲוֹנִי עָלַי וּמֵת בְּנִי, אֶלָּא טוֹל כָּל מַה שֶּׁהֵבֵאתָ לִי וְתֵן לִי אֶת בְּנִי״. עָמַד אֵלִיָּהוּ זָכוּר לַטּוֹב וְהָיָה מִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים! לֹא דַּי כָּל הָרָעוֹת שֶׁעָבְרוּ עַל רֹאשִׁי, אֶלָּא אַף הָאִשָּׁה הַזֹּאת שֶׁאֲנִי יוֹדֵעַ שֶׁמִּתּוֹךְ צָרַת בְּנָהּ דִּבְּרָה דָּבָר שֶׁלֹּא נַעֲשָׂה, הֵבִיאָה עָלַי לְעָשְׁקֵנִי. עַכְשָׁו יִלְמְדוּ כָל הַדּוֹרוֹת שֶׁיֵּשׁ תְּחִיַּת הַמֵּתִים. הָשֵׁב הַנֶּפֶשׁ הַיֶּלֶד הַזֶּה לְקִרְבּוֹ!״. וְנֶעְתַּר לוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשְׁמַע ה' בְּקוֹל אֵלִיָּהוּ״ וְכוּ'. וְכָתוּב אַחֵר אוֹמֵר: ״וַיִּקַּח אֵלִיָּהוּ אֶת הַיֶּלֶד״ וְכוּ'.
Nota — os profetas e a ressurreição. Eliyahu, ao reviver o filho da viúva, declara o propósito: “que aprendam todas as gerações que há ressurreição dos mortos”. Os profetas não agem por poder próprio, mas como instrumentos de D’us, que “faz morrer e faz viver” (Shmuel I 2:6). A ressurreição (techiyat hametim) é, para o Rambam, um dos princípios da fé — embora o “como” permaneça velado (cf. o ensaio sobre o que acontece à alma). O capítulo reúne os relatos bíblicos para firmar essa esperança.
4
Rabi Yehoshua ben Korchá diz: e disso te admiras? Não te admires! Vem e vê de Elishá ben Shafat, tão santo que nenhuma mulher conseguia fitar o seu rosto sem temer morrer. E ia de monte em monte e de caverna em caverna, e foi a Shunem, e o recebeu uma mulher com grande honra — irmã de Avishag, a sunamita, mãe de Odéd, o profeta —, como está dito: “e sucedeu um dia que Elishá passou por Shunem” (Melachim II 4:8). Disse a mulher ao seu marido: “este homem de D’us — nenhuma mulher consegue fitá-lo sem temer morrer; façamos, pois, um pequeno quarto de paredes e ponhamos-lhe ali uma cama, uma mesa, uma cadeira e um candeeiro, e, cada vez que passar, recolher-se-á ali” (cf. Melachim II 4:10). ... Chamou a sunamita, e ela ficou de pé à porta. E por que ficou à porta? Porque não conseguia ficar diante dele sem temer morrer. Disse-lhe:
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה אוֹמֵר: וְעַל זֶה אַתָּה תָּמֵהַּ? אַל תִּתְמַהּ! בֹּא וּרְאֵה מֵאֱלִישָׁע בֶּן שָׁפָט, שֶׁלֹּא הָיְתָה אִשָּׁה יְכוֹלָה לְהִסְתַּכֵּל בְּפָנָיו שֶׁלֹּא תָּמוּת. וְהָיָה מְהַלֵּךְ מֵהַר אֶל הַר וּמִמְּעָרָה אֶל מְעָרָה, וְהָלַךְ לְשׁוּנֵם וְקִבְּלַתּוּ אִשָּׁה בְּכָבוֹד גָּדוֹל. אֲחוֹתָהּ שֶׁל אֲבִישַׁג הַשּׁוּנַמִּית, אִמּוֹ שֶׁל עוֹדֵד הַנָּבִיא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי הַיּוֹם וַיַּעֲבֹר אֱלִישָׁע אֶל שׁוּנֵם״. אָמְרָה הָאִשָּׁה לְבַעְלָהּ: ״אִישׁ הָאֱלֹהִים הַזֶּה, אֵין אִשָּׁה יְכוֹלָה לְהִסְתַּכֵּל לְפָנָיו שֶׁלֹּא תָּמוּת. אֶלָּא נַעֲשֶׂה נָּא עֲלִיַּת קִיר קְטַנָּה וְנָשִׂים לוֹ שָׁם מִטָּה וְשֻׁלְחָן וְכִסֵּא וּמְנוֹרָה, וְכָל פַּעַם שֶׁהוּא עוֹבֵר יָסוּר שָׁם אֶל הָעֲלִיָּה״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי הַיּוֹם וַיָּבֹא שָׁמָּה״. קָרָא לַשּׁוּנַמִּית, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר קְרָא לָהּ, וַיִּקְרָא לָהּ וַתַּעֲמֹד בַּפָּתַח״. וְלָמָּה עָמְדָה בַּפֶּתַח? אֶלָּא שֶׁלֹּא הָיְתָה יְכוֹלָה לַעֲמֹד בְּפָנָיו שֶׁלֹּא תָּמוּת. אָמַר לָהּ:
5
“neste tempo determinado, daqui a um ano, abraçarás um filho” (Melachim II 4:16), do fruto do teu ventre. Disse-lhe ela: “meu senhor é muito velho, e cessou de mim o costume das mulheres, e é impossível acontecer esta coisa. Não, meu senhor, homem de D’us, não mintas à tua serva”.
״לַמּוֹעֵד הַזֶּה כָּעֵת חַיָּה אַתְּ חוֹבֶקֶת בֵּן״, מִפְּרִי מֵעֶיךְ. אָמְרָה לוֹ: ״אֲדֹנִי זָקֵן מְאֹד וְחָדְלָה מִמֶּנִּי אֹרַח נָשִׁים וְאִי אֶפְשָׁר לַעֲשׂוֹת הַדָּבָר הַזֶּה. אַל, אֲדֹנִי, אִישׁ הָאֱלֹהִים, אַל תְּכַזֵּב בְּשִׁפְחָתֶךָ״.
6
Rabi Zecharyá diz: “a vontade dos que O temem Ele faz” (Tehilim 145:19) — fez o Santo, bendito seja, a vontade do profeta, e ela concebeu e deu à luz, e cresceu o menino. E saiu um dia para tomar ar, para ver os ceifeiros, e sobreveio-lhe um mal e morreu, como está dito: “e sucedeu um dia que ele saiu a seu pai, aos ceifeiros” (Melachim II 4:18) ... “e sentou-se sobre os seus joelhos até o meio-dia, e morreu” (Melachim II 4:20).
רַבִּי זְכַרְיָה אוֹמֵר: ״רְצוֹן יְרֵאָיו יַעֲשֶׂה״, עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא רְצוֹנוֹ שֶׁל נָבִיא וְהָרְתָה וְיָלְדָה וְגָדַל הַנַּעַר. וְיָצָא לוֹ לְפוּגַת נֶפֶשׁ לִרְאוֹת בַּקּוֹצְרִים וְקָרָהוּ אָסוֹן וָמֵת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי הַיּוֹם וַיֵּצֵא אֶל אָבִיו אֶל הַקּוֹצְרִים״. הֲדָא כָּלְהוֹן עַד מָטֵי, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּשֶׁב עַל בִּרְכֶּיהָ עַד הַצָּהֳרַיִם וַיָּמֹת״.
7
Foi a mulher ao monte Carmel e prostrou o rosto em terra diante de Elishá, e clamou, como quem diz: “quem dera nunca me tivesses dado um filho, em vez de me dar e vê-lo tirado”. Disse o profeta: “toda coisa que o Santo, bendito seja, faz, Ele me anuncia, mas esta coisa Ele me ocultou, como está dito: e veio ao homem de D’us, ao monte...” (Melachim II 4:27). Gueichazi quis afastá-la, e a tradição lê que a tratou de modo indevido; por isso disse o homem de D’us: “deixa-a, porque a sua alma está amargurada, e o Eterno mo ocultou e não mo anunciou” (Melachim II 4:27). Tomou o báculo que tinha na mão e o deu a Gueichazi, e disse-lhe: “não fales palavra alguma com a tua boca, até ires e pores este báculo sobre o rosto do menino, e ele viverá”.
הָלְכָה הָאִשָּׁה לְהַר הַכַּרְמֶל וְנָפְלָה פָנֶיהָ אַרְצָה לִפְנֵי אֱלִישָׁע, וְאָמְרָה: ״הַלְוַאי שֶׁיִּהְיֶה כְּלִי רֵיקָם אֶלָּא שֶׁנִּתְמַלֵּא וְנִשְׁפַּךְ״. אָמַר הַנָּבִיא: ״כָּל דָּבָר שֶׁהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עוֹשֶׂה הוּא מַגִּיד לִי וְזֶה הַדָּבָר הֶעֱלִים מִמֶּנִּי, שֶׁנֶּאֱמַר: וַתָּבֹא אֶל אִישׁ״ וְכוּ'. מַה הוּא ״לְהָדְפָהּ״? מְלַמֵּד שֶׁנָּתַן אֶת יָדוֹ בַּהוֹד שֶׁעַל גַּבֵּי דַּדֶּיהָ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר אִישׁ הָאֱלֹהִים הֶעְלִים מִמֶּנִּי וְלֹא אָמַר לִי״. לָקַח אֶת הַמִּשְׁעֶנֶת אֲשֶׁר בְּיָדוֹ וְנָתַן לְגֵיחֲזִי, וְאָמַר לוֹ: ״אַל תְּדַבֵּר בְּפִיךָ כָּל דָּבָר מְאוּמָה, עַד שֶׁאַתָּה הוֹלֵךְ וְנוֹתֵן אֶת הַמִּשְׁעֶנֶת הַזֹּאת עַל פְּנֵי הַנַּעַר וְיִחְיֶה״.
8
Mas a coisa era como motivo de riso aos olhos de Gueichazi, e a todo homem que encontrava dizia: “acreditas que este báculo ressuscita o morto?”. Por isso não logrou êxito, até que Elishá mesmo foi com os seus próprios pés e pôs a sua boca sobre a boca do menino e os seus olhos sobre os seus olhos, e começou a orar diante do Santo, bendito seja, dizendo: “Senhor de todos os mundos! Assim como fizeste milagres por meio do meu senhor Eliyahu, e ele ressuscitou o morto, assim viva este menino!”. E o Santo, bendito seja, o atendeu, como está dito: “e voltou e andou pela casa de uma a outra parte ... e se debruçou sobre ele, e o menino espirrou até sete vezes” (Melachim II 4:35).
הָיָה הַדָּבָר כִּשְׂחוֹק בְּעֵינָיו, וְכָל אָדָם שֶׁהָיָה פּוֹגֵעַ הָיָה אוֹמֵר: ״הֲתַאֲמִין שֶׁהַמַּטֶּה הַזֶּה מְחַיֶּה אֶת הַמֵּת?״ לְפִיכָךְ לֹא עָלְתָה בְּיָדוֹ עַד שֶׁהָלַךְ הוּא בְּרַגְלָיו וְנָתַן פִּיו עַל פִּיו וְעֵינָיו עַל עֵינָיו, וְהִתְחִיל מִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאוֹמֵר לְפָנָיו: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים! כְּשֵׁם שֶׁעָשִׂיתָ נִסִּים עַל יְדֵי אֲדֹנִי אֵלִיָּהוּ וְהֶחֱיָה אֶת הַמֵּת, כָּךְ יִחְיֶה הַנַּעַר הַזֶּה!״ וְנֶעְתַּר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּשָׁב וַיֵּלֶךְ בַּבַּיִת אַחַת הֵנָּה וְאַחַת הֵנָּה״ ״וַיִּגְהַר עָלָיו, וַיְזוֹרֵר הַנַּעַר עַד שֶׁבַע פְּעָמִים״.
9
Rabi Zeirá diz: conhece o poder da tzedacá. Vem e vê de Shalum ben Tikvá, que era dos grandes da sua geração e fazia tzedacá todos os dias. E o que fazia? Enchia o odre de água e sentava-se à porta da cidade, e a todo aquele que vinha do caminho dava de beber e lhe restaurava a alma. E pelo mérito das tzedacot que fazia, repousou o espírito santo sobre a sua mulher, como está dito: “e foi Chilkiyahu, o sacerdote ... a Chuldá, a profetisa, mulher de Shalum ben Tikvá” (Melachim II 22:14). E, quando o seu marido morreu, faltaram as suas tzedacot à cidade, e saíram todos os de Israel para prestar-lhe bondade (gemilut chéssed); e viram a tropa inimiga que vinha contra eles, e às pressas lançaram o homem morto na sepultura de Elishá. Tocou o homem nos ossos de Elishá e reviveu, como está dito: “e tocou o homem nos ossos de Elishá, e reviveu e se pôs em pé” (Melachim II 13:21). E depois gerou Chanamel, como está dito: “eis que Chanamel, filho de Shalum, teu tio” etc. (Yirmiyá 32:7).
רַבִּי זְעִירָא אוֹמֵר: תֵּדַע לְךָ כֹּחַ הַצְּדָקָה. בֹּא וּרְאֵה מִשַּׁלּוּם בֶּן תִּקְוָה שֶׁהָיָה מִגְּדוֹלֵי הַדּוֹר וְהָיָה עוֹשֶׂה צְדָקוֹת בְּכָל יוֹם. וּמֶה הָיָה עוֹשֶׂה? הָיָה מְמַלֵּא אֶת הַחֵמֶת מַיִם וְהָיָה יוֹשֵׁב עַל פֶּתַח הָעִיר, וְכָל אָדָם שֶׁהָיָה בָּא מִן הַדֶּרֶךְ הָיָה מַשְׁקֶה אוֹתוֹ וּמֵשִׁיב נַפְשׁוֹ עָלָיו. וּבִזְכוּת צְדָקוֹת שֶׁעָשָׂה שָׁרְתָה רוּחַ הַקֹּדֶשׁ עַל אִשְׁתּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר (מלכים ב כב, יד): ״וַיֵּלֶךְ חִלְקִיָּהוּ הַכֹּהֵן... אֶל חֻלְדָּה הַנְּבִיאָה אֵשֶׁת שַׁלֻּם בֶּן תִּקְוָה״. וּלְמַפְרֵעַ נִקְרָא שְׁמוֹ בֶּן סַחְרָה, כְּשֵׁם שֶׁאַתָּה אוֹמֵר ״כִּי טוֹב סַחְרָהּ״, וְכָתוּב אַחֵר אוֹמֵר ״בֶּן סַחְרָה״. וּכְשֶׁמֵּת בַּעְלָהּ חָסְרָה צְדָקוֹת בְּעָלֶיהָ וְיָצְאוּ כָל יִשְׂרָאֵל לִגְמֹל חֶסֶד עִם שַׁלּוּם בֶּן תִּקְוָה, וְרָאוּ אֶת הַגְּדוּד שֶׁבָּא אֲלֵיהֶם, וְהִשְׁלִיכוּ אֶת הָאִישׁ בְּקֶבֶר אֱלִישָׁע. הָלַךְ הָאִישׁ וְנָגַע בְּעַצְמוֹת אֱלִישָׁע וְחָיָה, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּגַּע הָאִישׁ״ וְכוּ'. וְאַחַר כָּךְ הוֹלִיד אֶת חֲנַמְאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר ״הִנֵּה חֲנַמְאֵל בֶּן שַׁלֻּם דֹּדְךָ״ וְכוּ'.
10
Rabi Eliezer diz: conhece também outro sinal do poder do Céu sobre a morte. Vem e vê de Shaul ben Kish, que removera da terra os necromantes (ovot) e os adivinhos (yidonim), e no fim voltou a buscar aquilo que antes aborrecera, e foi a Ein Dor ..., e ela consultou para ele o ov, e fez subir Shmuel, o profeta. E os mortos viram Shmuel subir e subiram com ele, supondo que chegara a ressurreição dos mortos. E viu aquilo a mulher e assustou-se muito, como está dito: “e disse-lhe o rei: não temas; que vês?” (Shmuel I 28:13). E há quem diga: muitos justos como ele subiram com ele naquela hora.
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: תֵּדַע לְךָ כֹּחַ הַצְּדָקָה. בֹּא וּרְאֵה מִשָּׁאוּל בֶּן קִישׁ שֶׁהֵסִיר אֶת הָאוֹבוֹת וְהַיִּדְּעוֹנִים מִן הָאָרֶץ, וְחָזַר וְאָהַב אֲשֶׁר שָׂנָא, וְהָלַךְ לוֹ לְעֵין דּוֹר לְאֵשֶׁת צְפַנְיָה אִמּוֹ שֶׁל אַבְנֵר, וְשָׁאֲלָה לוֹ בָּאוֹב. וְהֶעֱלָה אֶת שְׁמוּאֵל הַנָּבִיא, וְרָאוּ הַמֵּתִים אֶת שְׁמוּאֵל עוֹלֶה וְעָלוּ עִמּוֹ, סְבוּרִים שֶׁהִגִּיעַ תְּחִיַּת הַמֵּתִים. וְרָאֲתָה הָאִשָּׁה וְנִבְהֲלָה הַרְבֵּה מְאֹד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר לָהּ הַמֶּלֶךְ אַל תִּירְאִי כִּי מָה רָאִית״. וְיֵשׁ אוֹמְרִים: צַדִּיקִים רַבִּים כַּיּוֹצֵא בּוֹ עָלוּ עִמּוֹ בְּאוֹתָהּ שָׁעָה.
Nota — Ein Dor e a necromancia proibida. A Torá proíbe terminantemente consultar os mortos e praticar a necromancia (o ov e o yidoni — Vayikrá 19:31; Devarim 18:11), e a tradição racionalista vê nessas práticas ilusão e engano, não verdadeiro poder. O episódio de Ein Dor é discutido pelos sábios e comentadores: muitos o leem com cautela — não como aprovação da necromancia, mas como um sinal extraordinário concedido para repreender o próprio Shaul (que abolira essas práticas e a elas recorreu na aflição). A lição do capítulo não é o ov, mas que a vida e a morte estão na mão de D’us (cf. o ensaio sobre a necromancia).
11
Rabi Eliezer diz: todos os mortos se erguerão, na ressurreição, vestidos com as suas mortalhas. Conhece que é assim: vem e vê daquele que semeia na terra — semeia as sementes nuas, e elas sobem vestidas de muitas cascas. Ora, os que descem à sepultura vestidos, não subirão vestidos? E não só isso: vem e vê de Chananyá, Mishael e Azaryá, que desceram à fornalha de fogo vestidos com as suas vestes, como está dito: “e se ajuntaram os sátrapas” etc. (Daniel 3:27). Aprenderam de Shmuel, o profeta, que subiu envolto no seu manto, como está dito: “e disse a mulher: um homem velho sobe, e ele está envolto num manto” (Shmuel I 28:14).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: כָּל הַמֵּתִים עוֹמְדִים בִּתְחִיַּת הַמֵּתִים לְבוּשִׁים תַּכְרִיכֵיהֶם. תֵּדַע לְךָ שֶׁהוּא כֵּן, בֹּא וּרְאֵה מִן הַזּוֹרֵעַ בָּאָרֶץ שֶׁהוּא זוֹרֵעַ עֲרֻמִּים וְעוֹלִים לְבוּשִׁים כַּמָּה קְלִפּוֹת. וְהַיּוֹרְדִים לְבוּשִׁים אֵין עוֹלִין לְבוּשִׁים? וְלֹא עוֹד, אֶלָּא בֹּא וּרְאֵה מִן חֲנַנְיָה מִישָׁאֵל וַעֲזַרְיָה שֶׁיָּרְדוּ לְתוֹךְ כִּבְשַׁן שֶׁל אֵשׁ לְבוּשִׁים בְּתַכְרִיכֵיהֶן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמִתְכַּנְּשִׁין אֲחַשְׁדַּרְפְּנַיָּא״ וְכוּ'. לִמְדוּ מִשְּׁמוּאֵל הַנָּבִיא שֶׁעָלָה וְהוּא מְעֻטָּף מְעִילוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתֹּאמֶר אִישׁ זָקֵן עֹלֶה וְהוּא עֹטֶה מְעִיל״ וְכוּ'.
Nota — a ressurreição e o grão semeado. A tradição prova a ressurreição com uma imagem da própria natureza: o grão é semeado nu e brota vestido; o que parece morto na terra ressurge com vida nova. É uma analogia cara à leitura racionalista — D’us, que faz a semente reviver a cada estação, pode fazer reviver os que dormem no pó. A natureza, com a sua ordem constante, é a primeira testemunha do poder do Criador sobre a morte.
12
Rabi Yochanan diz: todos os profetas profetizaram em vida; mas Shmuel profetizou em vida e depois da morte, pois disse Shmuel a Shaul: “se ouvires o meu conselho de cair pela espada, a tua morte será expiação por ti, e o teu quinhão será comigo, no lugar em que eu estou”. E Shaul ouviu o seu conselho e caiu pela espada, ele e os seus filhos, como está dito: “e morreu Shaul e os seus três filhos” (Shmuel I 31:6). Por quê? Para que o seu quinhão fosse com Shmuel, o profeta, no porvir, como está dito: “e amanhã tu e os teus filhos estareis comigo” (Shmuel I 28:19). Que é “comigo”? Rabi Yochanan diz: comigo, na minha morada.
רַבִּי יוֹחָנָן אוֹמֵר: כָּל הַנְּבִיאִים נִתְנַבְּאוּ בְּחַיֵּיהֶם, וּשְׁמוּאֵל נִתְנַבֵּא בְּחַיָּיו וּלְאַחַר מוֹתוֹ, שֶׁאָמַר שְׁמוּאֵל לְשָׁאוּל ״אִם אַתָּה שׁוֹמֵעַ לַעֲצָתִי לִנְפֹּל בַּחֶרֶב וּתְהֵא מִיתָתְךָ כַּפָּרָה עָלֶיךָ וִיהֵא גוֹרָלְךָ עִמִּי בַּמָּקוֹם שֶׁאֲנִי שָׁם״, וְשָׁמַע שָׁאוּל לַעֲצָתוֹ וְנָפַל בַּחֶרֶב הוּא וְכָל בָּנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיָּמָת שָׁאוּל וּשְׁלֹשֶׁת בָּנָיו״. לָמָּה? שֶׁיְּהֵא חֶלְקוֹ עִם שְׁמוּאֵל הַנָּבִיא לֶעָתִיד לָבֹא, שֶׁנֶּאֱמַר ״וּמָחָר אַתָּה וּבָנֶיךָ עִמִּי״. מַה הוּא ״עִמִּי״? רַבִּי יוֹחָנָן אוֹמֵר: עִמִּי בִּמְחִיצָתִי.
13
Hilel, o Ancião, diz: disse Shmuel a Shaul: “não te bastou não teres ouvido a Sua voz nem executado o Seu furor contra Amalek, mas ainda foste consultar o ov? Ai do pastor, ai do seu rebanho! Por tua causa entregou o Santo, bendito seja, Israel, o teu povo, na mão dos filisteus”, como está dito: “e entregou o Eterno também Israel contigo na mão dos filisteus” (Shmuel I 28:19).
הִלֵּל הַזָּקֵן אוֹמֵר: אָמַר שְׁמוּאֵל לְשָׁאוּל, ״לֹא דַיֶּךָ שֶׁלֹּא שָׁמַעְתָּ בְּקוֹלוֹ וְלֹא עָשִׂיתָ חֲרוֹן אַפּוֹ בַּעֲמָלֵק, אֶלָּא גַּם לִשְׁאוֹל לְךָ בָּאוֹב? אוֹי לָרוֹעֶה, אוֹי לַצֹּאנוֹ! בִּשְׁבִילְךָ נָתַן הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת יִשְׂרָאֵל עַמְּךָ בְּיַד פְּלִשְׁתִּים״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּתֵּן ה' גַּם אֶת יִשְׂרָאֵל״.
14
Rabi Tachaná diz: foram Israel exilados para Bavel e não abandonaram os seus maus feitos. Achav ben Kolayá e Tzidkiyahu ben Maasseyá fizeram-se médicos — médicos da mentira — e, a pretexto de cura, pecavam com as mulheres dos caldeus. Ouviu o rei e ordenou queimá-los. Disseram ambos: “digamos que Yehoshua ben Yehotzadak estava conosco, e ele nos salvará da queima do fogo”. Disseram ao rei: “meu senhor rei, este homem estava conosco em tudo”. E ordenou o rei queimar os três; e desceu Michael, o anjo, e salvou Yehoshua ben Yehotzadak da queima do fogo, e o elevou diante do Trono da Glória, como está dito: “e mostrou-me Yehoshua ben Yehotzadak o sumo sacerdote” (Zechariá 3:1); e os dois falsos foram queimados no fogo. Não está escrito “a quem o rei de Bavel queimou (kelalam) no fogo”, mas “a quem ele assou (kalam)” (Yirmiyá 29:22). Daqui aprendemos que a Yehoshua foram apenas chamuscados os cabelos, pelas iniquidades deles — “não é este um tição arrancado do fogo?” (Zechariá 3:2).
רַבִּי תַּחֲנָא אוֹמֵר: גָּלוּ יִשְׂרָאֵל לְבָבֶל וְלֹא הִנִּיחוּ מַעֲשֵׂיהֶם הָרָעִים. אַחְאָב בֶּן קוֹלָיָה וְצִדְקִיָּה בֶּן מַעֲשֵׂיָּה נַעֲשׂוּ רוֹפְאִים רוֹפְאֵי שֶׁקֶר, וְהָיוּ מְרַפְּאִים אֶת נְשֵׁי כַשְׂדִּים וּבָאִין עֲלֵיהֶם בְּתַשְׁמִישׁ הַמִּטָּה. שָׁמַע הַמֶּלֶךְ וְצִוָּה לְשָׂרְפָן. אָמְרוּ שְׁנֵיהֶם: ״יְהוֹשֻׁעַ בֶּן יְהוֹצָדָק נֹאמַר שֶׁהָיָה עִמָּנוּ, וְהוּא מַצִּילֵנוּ מִשְּׂרֵפַת הָאֵשׁ״. אָמְרוּ לוֹ: ״אֲדֹנִי הַמֶּלֶךְ, הָאִישׁ הַזֶּה הָיָה עִמָּנוּ בְּכָל דָּבָר״. וְצִוָּה הַמֶּלֶךְ לִשְׂרֹף אֶת שְׁלָשְׁתָּן, וְיָרַד מִיכָאֵל הַמַּלְאָךְ וְהִצִּיל אֶת יְהוֹשֻׁעַ בֶּן יְהוֹצָדָק מִשְּׂרֵפַת הָאֵשׁ, וְהֶעֱלָהוּ לִפְנֵי כִּסֵּא הַכָּבוֹד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּרְאֵנִי אֶת יְהוֹשֻׁעַ בֶּן יְהוֹצָדָק״ וְכוּ', וּשְׁנֵיהֶם נִשְׂרְפוּ בָאֵשׁ וְלֻקַּח מֵהֶם קְלָלָה. ״אֲשֶׁר קְלָלָם מֶלֶךְ בָּבֶל בָּאֵשׁ״ אֵין כְּתִיב כָּאן, אֶלָּא ״אֲשֶׁר קָלָם״. הָא לָמַדְנוּ שֶׁנִּתְחַתּוּ שַׂעֲרוֹתָיו בַּעֲוֹנוֹתֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּגַאֲוַת רָשָׁע יִדְלַק עָנִי״ וְכוּ'. הֲלֹא זֶה אוּד מֻצָּל מֵאֵשׁ.
15
Rabi Yehoshua diz: quando Nevuchadnetzar trouxe acusações falsas contra Israel para matá-los, ergueu uma estátua um ídolo no vale de Dura e mandou proclamar: “todo aquele que não se prostrar diante desta estátua será queimado no fogo”. E Israel não confiou na sombra proteção do seu Criador, e vieram eles e as suas mulheres e se prostraram à idolatria. E a Daniel, a quem os gentios chamavam “o seu deus”, era-lhes vergonha queimá-lo no fogo (cf. Daniel 3). E tomaram Chananyá, Mishael e Azaryá e os lançaram na fornalha de fogo, e veio Gavriel, o anjo, e os salvou da fornalha. Disse-lhes o rei: “sabíeis que tendes um D’us que livra e salva — por que abandonastes o vosso D’us e vos prostrastes à idolatria, que não tem poder de salvar? Pois, do mesmo modo que fizestes na vossa terra, ao destruí-la pelos pecados, assim quereis fazer nesta terra”. E ordenou o rei, e mataram muitos. E de onde sabemos que foram mortos pela espada? Do que está dito: “e disse-me: filho do homem, profetiza sobre estes mortos, e que vivam”.
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר: כְּשֶׁהֵבִיא נְבוּכַדְנֶצַּר עֲלִילוֹת שֶׁל דְּבָרִים עַל יִשְׂרָאֵל לְהָרְגָן, הֶעֱמִיד צֶלֶם בְּבִקְעַת דּוּרָא וְהוֹצִיא כָּרוֹז וְאָמַר: ״כָּל מִי שֶׁלֹּא יִשְׁתַּחֲוֶה לַצֶּלֶם הַזֶּה יִשָּׂרֵף בָּאֵשׁ״. וְיִשְׂרָאֵל לֹא בָטְחוּ בְּצֵל יוֹצְרָם וּבָאוּ הֵם וּנְשֵׁיהֶם וְהִשְׁתַּחֲווּ לַעֲבוֹדָה זָרָה. וְדָנִיֵּאל, שֶׁהָיוּ קוֹרְאִים אוֹתוֹ אֱלֹהֵיהֶם, הָיָה גְּנַאי לָהֶם לְשָׂרְפוֹ בָאֵשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְעַד אָחֳרָן״ וְכוּ'. וְנָטְלוּ אֶת חֲנַנְיָה מִישָׁאֵל וַעֲזַרְיָה וְנָתְנוּ אוֹתָם לְתוֹךְ כִּבְשַׁן הָאֵשׁ, וּבָא גַּבְרִיאֵל הַמַּלְאָךְ וְהִצִּילוֹ מִכִּבְשַׁן הָאֵשׁ. אָמַר לָהֶם הַמֶּלֶךְ: ״הֱיִיתֶם יוֹדְעִים שֶׁיֵּשׁ לָכֶם אֱלוֹהַּ מְשֵׁזִיב וּמַצִּיל, לָמָּה שְׁבַקְתּוֹן לֵאלֹהֵיכֶם וְהִשְׁתַּחֲוִיתֶם לַעֲבוֹדָה זָרָה שֶׁאֵין בּוֹ כֹּחַ לְהַצִּיל? אֶלָּא כְּדֶרֶךְ שֶׁעֲשִׂיתֶם בְּאַרְצְכֶם וְהֶחֱרַבְתֶּם אוֹתָהּ, כֵּן אַתֶּם מְבַקְּשִׁים לַעֲשׂוֹת בָּאָרֶץ הַזֹּאת וּלְהַחֲרִיב אוֹתָהּ״. וְצִוָּה הַמֶּלֶךְ וְהָרְגוּ כֻּלָּם. וּמִנַּיִן שֶׁהָיוּ כֻלָּם הֲרוּגֵי חֶרֶב? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר אֵלַי בֶּן אָדָם, הִנָּבֵא בַּהֲרוּגִים הָאֵלֶּה וְחָיוּ״.
Nota — a honestidade da tradição sobre a própria falha. O texto não embeleza: diz claramente que “Israel não confiou na sombra do seu Criador, e se prostrou à idolatria” diante da estátua de Dura — só Chananyá, Mishael e Azaryá resistiram. A tradição registra os seus próprios fracassos sem disfarce: é sinal de verdade, não de derrota. E é justamente dessa geração de mortos que nascerá, no capítulo seguinte, a visão da ressurreição — porque mesmo a queda não está além do alcance da esperança.
16
Rabi Pinchas diz: vinte anos depois de mortos os mortos em Bavel, repousou o espírito santo sobre Yechezkel, e o levou ao vale de Dura e lhe mostrou muitíssimos ossos secos. Disse-lhe: “filho do homem, que vês?”. Disse: “vejo aqui ossos secos”. Disse-lhe D’us: “tenho poder de ressuscitar ainda mais do que estes”; mas, como Yechezkel respondeu “ó Eterno D’us, Tu o sabes” (Yechezkel 37:3) — como quem hesita em acreditar —, por isso os seus ossos não foram sepultados em terra pura, mas em terra impura, conforme se diz: “e tu morrerás sobre terra impura” (Amós 7:17). E começaram a aproximar-se “osso ao seu osso” (Yechezkel 37:7).
רַבִּי פִּינְחָס אוֹמֵר: לְאַחַר עֶשְׂרִים שָׁנָה שֶׁנֶּהֶרְגוּ הֲרוּגִים בְּבָבֶל, שָׁרְתָה רוּחַ הַקֹּדֶשׁ עַל יְחֶזְקֵאל, וְהוֹצִיאוֹ לְבִקְעַת דּוּרָא וְהֶרְאָהוּ עֲצָמוֹת יְבֵשׁוֹת הַרְבֵּה מְאֹד. אָמַר לוֹ: בֶּן אָדָם מָה אַתָּה רוֹאֶה? אָמַר לוֹ: אֲנִי רוֹאֶה כָּאן עֲצָמוֹת יְבֵשׁוֹת. אָמַר לוֹ: יֵשׁ בִּי כֹּחַ לְהַחֲיוֹת יוֹתֵר מִכָּאן, אֶלָּא ״אָמַר ה' אֱלֹהִים אַתָּה יָדַעְתָּ״, כְּאִלּוּ לֹא הֶאֱמִין. לְפִיכָךְ לֹא נִקְבְּרוּ עַצְמוֹתָיו בְּאֶרֶץ טְהוֹרָה אֶלָּא בְּאֶרֶץ טְמֵאָה, כְּמָה דְאַתְּ אָמַר ״וְאַתָּה עַל אֶרֶץ טְמֵאָה תָּמוּת״. אָמַר לוֹ: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים! מָה הַנְּבוּאָה מְבִיאָה עֲלֵיהֶם עֶצֶם וּבָשָׂר, שֶׁאָכְלוּ מֵהֶם וּמֵתוּ בְּאֶרֶץ אַחֶרֶת הָיְתָה מְקָרֶבֶת ״עֶצֶם אֶל עַצְמוֹ״.
17
Rabi Yehoshua ben Korchá diz: desceu sobre eles um orvalho de ressurreição (tal techiyá) dos céus; e, como uma fonte que jorra e faz brotar água, assim brotavam e subiam sobre eles carne, ossos e tendões, como está dito: “e olhei, e eis sobre eles tendões” etc. (Yechezkel 37:8). Disse-lhe: “profetiza ao espírito (rúach)”, como está dito: “e disse-me: profetiza ao espírito ... dos quatro ventos vem, ó espírito, e sopra sobre estes mortos, e viverão” (Yechezkel 37:9). Naquela hora saíram os quatro ventos dos céus e abriram os tesouros das almas (otzrot haneshamot), e devolveu-se cada espírito ao seu corpo, como era, como está dito: “e profetizei como Ele me ordenara, e o espírito entrou neles, e viveram” (Yechezkel 37:10). Está escrito a respeito do Egito: “e os filhos de Israel frutificaram e pululavam e se fortaleceram em extremo (bime’od me’od)” (Shemot 1:7); que é “em extremo”? Assim como ali se entende seiscentos mil, também aqui seiscentos mil reviveram. E todos se ergueram sobre os seus pés, exceto um homem. Disse o profeta: “Senhor de todos os mundos, qual a natureza deste homem por que não revive?”. Disse-lhe: “emprestou a juros (néshech) e tomou com usura (tarbit); e — vivo Eu — não viverá!”. Naquela hora estavam os de Israel sentados e chorando, dizendo: “esperávamos a luz e veio a escuridão; esperávamos erguer-nos com todo o Israel na ressurreição, e agora se perdeu a nossa esperança”. Naquela hora disse o Santo, bendito seja, ao profeta: “pois dize-lhes: vivo Eu, que vos erguerei na ressurreição dos mortos no porvir e vos reunirei com todo o Israel à vossa terra”, como está dito: “eis que abrirei as vossas sepulturas e vos farei subir ... e porei em vós o Meu espírito” (Yechezkel 37:12-14).
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה אוֹמֵר: יָרַד עֲלֵיהֶם טַל תְּחִיָּה מִן הַשָּׁמַיִם, וּכְמַעְיָן שֶׁהוּא נוֹבֵעַ וְהוֹצִיא מַיִם, כָּךְ הָיוּ נוֹבְעִים וְעוֹלִים עֲלֵיהֶם בָּשָׂר וַעֲצָמוֹת וְגִידִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְרָאִיתִי וְהִנֵּה עֲלֵיהֶם גִּידִים״ וְכוּ'. אָמַר לוֹ: ״הִנָּבֵא אֶל הָרוּחַ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר אֵלַי הִנָּבֵא אֶל הָרוּחַ, מֵאַרְבַּע רוּחוֹת בֹּאִי הָרוּחַ וּפְחִי בַּהֲרוּגִים הָאֵלֶּה וְיִחְיוּ״. בְּאוֹתָהּ שָׁעָה יָצְאוּ אַרְבַּע רוּחוֹת הַשָּׁמַיִם וּפָתְחוּ אוֹצְרוֹת הַנְּשָׁמוֹת וְהֶחְזִיר כָּל רוּחַ וְרוּחַ לְגוּף כַּאֲשֶׁר הָיָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהִתְנַבֵּאתִי כַּאֲשֶׁר צִוָּנִי וַתָּבוֹא בָהֶם הָרוּחַ וַיִּחְיוּ״ וְכוּ'. כָּתוּב בְּמִצְרַיִם: ״וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל פָּרוּ וַיִּשְׁרְצוּ וַיִּרְבּוּ וַיַּעַצְמוּ בִּמְאֹד מְאֹד״, מַהוּ ״בִּמְאֹד מְאֹד״? מָה לְהַלָּן שִׁשִּׁים רִבּוֹא, אַף כָּאן שִׁשִּׁים רִבּוֹא. וְכֻלְּהוֹן עָמְדוּ עַל רַגְלֵיהוֹן חוּץ מֵאִישׁ אֶחָד. אָמַר הַנָּבִיא: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, מַה טִּיבוֹ שֶׁל זֶה הָאִישׁ?״ אָמַר לוֹ: ״בְּנֶשֶׁךְ נָתַן וּבְתַרְבִּית לָקַח. וְחַי אֲנִי – לֹא יִחְיֶה!״ בְּאוֹתָהּ שָׁעָה הָיוּ יִשְׂרָאֵל יוֹשְׁבִים וּבוֹכִים וְאוֹמְרִים: ״הָיִינוּ מְקַוִּים לְאוֹר וּבָא חֹשֶׁךְ, וְהָיִינוּ מְקַוִּים לַעֲמֹד עִם כָּל יִשְׂרָאֵל בִּתְחִיַּת הַמֵּתִים וְעַכְשָׁו אָבְדָה תִּקְוָתֵנוּ. הָיִינוּ מְקַוִּים לְהִתְקַבֵּץ עִם כָּל יִשְׂרָאֵל וְעַכְשָׁו נִגְזַרְנוּ לָנוּ״. בְּאוֹתָהּ שָׁעָה אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לַנָּבִיא: ״לָכֵן אֱמֹר אֲלֵיהֶם: חַי אֲנִי שֶׁאֲנִי מַעֲמִיד אֶתְכֶם בִּתְחִיַּת הַמֵּתִים לֶעָתִיד לָבוֹא וּמְקַבֵּץ אֶתְכֶם עִם כָּל יִשְׂרָאֵל לָאָרֶץ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִנֵּה אָנֹכִי פֹתֵחַ אֶת קִבְרוֹתֵיכֶם וְהַעֲלֵיתִי אֶתְכֶם וְנָתַתִּי אֶת רוּחִי בָכֶם״.
Nota — o vale dos ossos secos. A visão de Yechezkel (cap. 37) é a grande imagem da ressurreição. O Talmud (Sanhedrin 92b) debate se os ossos reviveram literalmente ou se a visão é uma parábola da restauração nacional de Israel — e ambas as leituras convivem na tradição: o renascimento do povo após o exílio e o sinal da ressurreição futura. O detalhe do homem que não revive — punido por usura (néshech) — ensina que a injustiça econômica corrói a alma. Mas a última palavra é de esperança: “eis que abrirei as vossas sepulturas” — a promessa de vida e de retorno (Yechezkel 37:12-14).

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A tzedacá que dá vida

“Yitzchak semeou” — e os sábios leem: semeou caridade. O capítulo faz da tzedacá o seu fio condutor: ela “salva da morte” (Mishlei 10:2), e a sua força moral é tão real que se torna a imagem da própria ressurreição. Dar de beber ao viajante, sustentar a viúva, repartir o dízimo — esses atos, na leitura da tradição, não passam: tecem o mérito que sustenta o mundo e o próprio futuro de quem os pratica.

A ressurreição dos mortos

O capítulo encadeia os relatos bíblicos de revivificação — a viúva de Tzarefat, o menino sunamita, o morto que toca os ossos de Elishá — para firmar um princípio: D’us “faz morrer e faz viver” (Shmuel I 2:6), e a techiyat hametim é parte da fé (Rambam, 13 princípios). Os profetas não têm poder próprio; são instrumentos. E a prova mais serena vem da natureza: o grão semeado nu ressurge vestido.

Ein Dor e os limites do permitido

O episódio de Shaul em Ein Dor exige cuidado: a Torá proíbe a necromancia (Devarim 18:11), e a tradição racionalista nela vê engano, não poder verdadeiro. Os sábios leem a cena como repreensão ao próprio Shaul — que abolira tais práticas e a elas recorreu — e não como aprovação. A vida e a morte estão na mão de D’us, não na do adivinho.

Os ossos secos e a esperança

A visão de Yechezkel coroa o capítulo. Lida como parábola da restauração de Israel (Sanhedrin 92b) e como sinal da ressurreição futura, ela nasce, significativamente, da geração que falhara em Dura — pois a tradição não esconde os seus erros, e ensina que nem a queda fecha a porta da esperança. O homem que não revive, punido pela usura, lembra que a injustiça custa caro; mas a promessa final — “abrirei as vossas sepulturas” — é de vida e de retorno.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 34

A alma, a morte e o mundo vindouro

פֶּרֶק ל״ד

Uma meditação sobre a alma e o seu destino: o que é a morte, para onde vai a alma, e a promessa da ressurreição. O capítulo ensina que “Eu faço morrer e faço viver” é a obra de um só D’us; que, na hora final, só as nossas boas ações nos acompanham; e que a alma, como o seu Criador, não morre.

1
“Vede, agora, que Eu, Eu sou Ele” (Devarim 32:39). Rabi Eliezer diz: e por que viu o texto a necessidade de dizer duas vezes “Eu, Eu sou Ele”? Mas é que disse o Santo, bendito seja: Eu sou Ele neste mundo e Eu sou Ele no mundo vindouro; Eu sou Ele que redimi Israel do Egito, e Eu sou Ele que hei de redimi-los no fim do quarto reino. Por isso disse “Eu, Eu sou Ele”. Todo aquele que disser que há outros deuses, Eu o farei morrer de uma morte sem ressurreição; e toda nação que disser que não há D’us senão Eu, Eu a farei reviver, livrando-a da segunda morte, para a vida do mundo vindouro — pois Eu faço morrer e faço viver, como está dito: “Eu faço morrer e faço viver” (Devarim 32:39). “Feri” Jerusalém e o seu povo no dia do Meu furor, e, com grande misericórdia, “hei de curá-los”, como está dito: “feri, e Eu curarei” (Devarim 32:39). E nenhum anjo nem serafim livrará os ímpios do juízo do Guehinom, como está dito: “e não há quem livre da Minha mão” (ibid.).
״רְאוּ עַתָּה כִּי אֲנִי אֲנִי הוּא״ (דברים לב, לט), רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: וְכִי מָה רָאָה הַכָּתוּב לוֹמַר שְׁנֵי פְּעָמִים ״כִּי אֲנִי אֲנִי הוּא״? אֶלָּא אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: אֲנִי הוּא בָּעוֹלָם הַזֶּה וַאֲנִי הוּא בָּעוֹלָם הַבָּא, אֲנִי הוּא שֶׁגָּאַלְתִּי אֶת יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם וַאֲנִי הוּא שֶׁעָתִיד לִגְאוֹל אוֹתָם סוֹף מַלְכוּת הָרְבִיעִי. לְכָךְ אָמַר ״אֲנִי אֲנִי הוּא״. כָּל מִי שֶׁיֹּאמַר שֶׁיֵּשׁ אֱלֹהִים אֲחֵרִים אֲנִי אֲמִיתֶנּוּ בְּמָוֶת שֶׁאֵין תְּחִיָּה, וְכָל גּוֹי שֶׁיֹּאמַר שֶׁאֵין אֱלוֹהַּ אֶלָּא אֲנִי, אֲנִי אֲחַיֵּהוּ בְּמָוֶת שֵׁנִי לְחַיֵּי הָעוֹלָם הַבָּא. שֶׁאֲנִי מֵמִית וּמְחַיֶּה, לְכָךְ נֶאֱמַר ״אֲנִי אָמִית וַאֲחַיֶּה״. מָחַצְתִּי אֶת יְרוּשָׁלַיִם וְאֶת עַמָּהּ בְּיוֹם חֲרוֹן אַפּוֹ וּבְרַחֲמִים גְּדוֹלִים אֶרְפָּא לָהֶם, לְכָךְ נֶאֱמַר ״מָחַצְתִּי אֶת יְרוּשָׁלַיִם וַאֲנִי אֶרְפָּא״. וְכָל מַלְאָךְ וְשָׂרָף לֹא יַצִּילוּ אֶת הָרְשָׁעִים מִדִּינָהּ שֶׁל גֵּיהִנֹּם, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְאֵין מִיָּדִי מַצִּיל״.
Nota — “Eu faço morrer e faço viver”. O versículo “Eu, Eu sou Ele” (Devarim 32:39) afirma a unidade de D’us sobre os dois mundos e sobre a própria vida e morte: não há outro poder. Note-se o contrapeso universalista, dito pelo próprio texto: “toda nação que disser que não há D’us senão Eu, Eu a farei reviver” — o reconhecimento do D’us único traz vida, e não apenas a Israel. A “morte sem ressurreição” recai, na leitura racionalista, sobre a negação da verdade (a idolatria) e sobre a maldade, não sobre este ou aquele povo: é uma afirmação sobre a orientação moral e a verdade, não sobre etnia.
2
Rabi Yonatan diz: todos os mortos sobem para a ressurreição, exceto a geração do dilúvio, como está dito: “os mortos não viverão” (Yeshayá 26:14). Quanto às nações ímpias, que a imagem do versículo compara à carcaça do animal — essas se erguerão apenas para o dia do juízo; mas a geração do dilúvio, nem mesmo no dia do juízo se erguerá, como está dito: “os refaim não se levantarão” (ibid.). E diz-se que todas as suas almas se tornam espíritos errantes, conforme se diz: “por isso os puniste e os destruíste, e apagaste toda a sua memória” (ibid.).
רַבִּי יְהוֹנָתָן אוֹמֵר: כָּל הַמֵּתִים עוֹלִין לַתְּחִיָּה חוּץ מִדּוֹר הַמַּבּוּל, שֶׁנֶּאֱמַר ״מֵתִים בַּל יִחְיוּ״. אֵלּוּ הַגּוֹיִם שֶׁהֵם כְּנִבְלַת הַבְּהֵמָה שֶׁיָּקוּמוּ בְּיוֹם הַדִּין, אֲבָל דּוֹר הַמַּבּוּל אַף בְּיוֹם הַדִּין אֵינָם עוֹמְדִים, שֶׁנֶּאֱמַר ״רְפָאִים בַּל יָקוּמוּ״. וְכָל נַפְשׁוֹתֵיהֶם נַעֲשִׂים רוּחוֹת וּמַזִּיקִין לְאָדָם מִיִּשְׂרָאֵל. עוֹד שֶׁנֶּאֱמַר ״לָכֵן פָּקַדְתָּ וַתַּשְׁמִידֵם וַתְּאַבֵּד כָּל זֵכֶר לָמוֹ״.
Nota essencial — sobre a linguagem dura quanto às “nações”. Este parágrafo (e os §§5 e 13) usa uma retórica polêmica em que “as nações como carcaça” designa os ímpios e idólatras — não a humanidade em geral. É indispensável lê-lo à luz da própria tradição: o §0, acima, declara que quem reconhece o D’us único recebe a vida do mundo vindouro; e o Rambam ensina expressamente que os justos de todas as nações (chassidé umot ha’olam) têm parte no olam habá (Hilchot Teshuvá 3:5; Melachim 8:11; cf. o ensaio “Por que o judaísmo não converte o mundo”). “A geração do dilúvio” é o paradigma da corrupção total. E os “espíritos” (mazikin) dos ímpios são, na leitura racionalista (Rambam), imagem do mal que perdura, não uma demonologia literal. O alvo é a maldade, não os povos.
3
Rabi Zecharyá diz: o sono da noite assemelha-se a este mundo, e o despertar da manhã, ao mundo vindouro. E o que é o sono da noite? O homem se deita e dorme, e o seu espírito vagueia como que por toda a terra e lhe anuncia, em sonho, algo do que há de ser, como está dito: “em sonho, em visão noturna ... então abre o ouvido dos homens e sela a sua instrução” (Iyov 33:15-16). Assim os mortos: as suas almas vagueiam por toda a terra e lhes anunciam tudo o que foi; e eles dão louvor e cântico ao Santo, bendito seja, que há de revivê-los, como está dito: “exultem os piedosos na glória, cantem sobre os seus leitos” (Tehilim 149:5). E o despertar da manhã assemelha-se ao porvir, como está dito: “sacia-nos pela manhã da Tua bondade, e exultaremos e nos alegraremos” etc. (Tehilim 90:14).
רַבִּי זְכַרְיָה אוֹמֵר: שְׁנַת הַלַּיְלָה דּוֹמָה לָעוֹלָם הַזֶּה, וְקִיצַת הַבֹּקֶר דּוֹמָה לָעוֹלָם הַבָּא. וּמַה שְּׁנַת הַלַּיְלָה? אָדָם שׁוֹכֵב וְיָשֵׁן וְרוּחוֹ שׁוֹטֶטֶת בְּכָל הָאָרֶץ וּמַגֶּדֶת לוֹ בַּחֲלוֹם כָּל דָּבָר שֶׁיִּהְיֶה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בַּחֲלוֹם בְּחֶזְיוֹן לַיְלָה... אָז יִגְלֶה אֹזֶן אֲנָשִׁים וּבְמֻסָרָם יַחְתֹּם״. כָּךְ הַמֵּתִים, רוּחוֹת מְשׁוֹטְטוֹת בְּכָל הָאָרֶץ וּמַגֶּדֶת לָהֶם כָּל דָּבָר שֶׁהָיָה, אֲבָל הֵם נוֹתְנִין שֶׁבַח וְרֶנֶן לְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שֶׁהוּא עָתִיד לְהַחֲיוֹתָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יַעְלְזוּ חֲסִידִים בְּכָבוֹד יְרַנְּנוּ עַל מִשְׁכְּבוֹתָם״. וִיקִיצַת הַבֹּקֶר דּוֹמָה לֶעָתִיד לָבוֹא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שַׂבְּעֵנוּ בַבֹּקֶר חַסְדֶּךָ וּנְרַנְּנָה וְנִשְׂמְחָה״ וְכוּ'.
4
Cinco coisas há cujo som sai de uma extremidade do mundo à outra, e o som não é ouvido: no momento em que se corta a árvore que dá fruto, o som sai de uma ponta do mundo à outra, e não é ouvido; e no momento em que a serpente troca a sua pele; e no momento em que a mulher é divorciada do seu marido; e, segundo uma variante do texto, mais um; e no momento em que o nascituro sai do corpo da mãe, até que a alma contemple a Shechiná.
חֲמִשָּׁה קוֹלָן יוֹצֵא מִסּוֹף הָעוֹלָם וְעַד סוֹפוֹ וְאֵין הַקּוֹל נִשְׁמָע. בְּשָׁעָה שֶׁכּוֹרְתִין אֶת הָאִילָן שֶׁהוּא עוֹשֶׂה פְּרִי הַקּוֹל יוֹצֵא מִסּוֹף הָעוֹלָם וְעַד סוֹפוֹ וְאֵין הַקּוֹל נִשְׁמָע, וּבְשָׁעָה שֶׁהַנָּחָשׁ נִפְשָׁט, וּבְשָׁעָה שֶׁהָאִשָּׁה מִתְגָּרֶשֶׁת מִבַּעְלָהּ, (ובשעה שהאשה עם בעלה בעילה ראשונה, אבל אין קולה נשמע) וּבְשָׁעָה שֶׁהַוָּלָד יוֹצֵא מִן הַגּוּף עַד שֶׁתִּרְאֶה אֶת הַשְּׁכִינָה.
5
Rabi Azaryá diz: todas as almas tornam a ser recolhidas, cada uma à geração de seus pais e ao seu povo — os justos com os justos e os ímpios com os ímpios. Pois assim disse o Santo, bendito seja, a Avraham, nosso pai: “e tu virás a teus pais em paz” (Bereshit 15:15) — daqui se aprende que Térach, seu pai, fez teshuvá arrependeu-se. E acaso, quando a alma sai do corpo, isto é “paz”? Mas significa que os justos o recebem com paz (shalom), como está dito: “venha a paz, descansem nos seus leitos” (Yeshayá 57:2); e outro escrito diz: “e serás recolhido à tua sepultura em paz” (Melachim II 22:20).
רַבִּי עֲזַרְיָה אָמַר: כָּל הַנְּפָשׁוֹת חוֹזְרוֹת וְנֶאֱסָפוֹת אִישׁ אֶל דּוֹר אֲבוֹתָיו וְאֶל עַמָּיו, צַדִּיקִים עִם הַצַּדִּיקִים וּרְשָׁעִים עִם הָרְשָׁעִים. שֶׁכֵּן אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְאַבְרָהָם אָבִינוּ: ״וְאַתָּה תָּבוֹא אֶל אֲבֹתֶיךָ בְּשָׁלוֹם״. מִכָּאן שֶׁתֶּרַח אָבִיו עָשָׂה תְּשׁוּבָה. וְכִי כְּשֶׁהַנֶּפֶשׁ יוֹצֵאת מִן הַגּוּף זֶה הוּא הַשָּׁלוֹם? אֶלָּא שֶׁהַצַּדִּיקִים מַקְדִּימִין לוֹ שָׁלוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יָבֹא שָׁלוֹם יָנוּחוּ עַל מִשְׁכְּבוֹתָם״. וְכָתוּב אֶחָד אוֹמֵר: ״וְנֶאֱסַפְתָּ אֶל קִבְרֹתֶיךָ בְּשָׁלוֹם״.
Nota — “virás a teus pais em paz”. A ideia de que as almas são “recolhidas” aos seus, justos com justos, pressupõe a sobrevivência da alma após a morte do corpo. E há aqui um lampejo de esperança e perdão: do “virás a teus pais em paz” os sábios deduzem que Térach, o pai idólatra de Avraham, arrependeu-se no fim — ninguém está além do alcance da teshuvá. A morte do justo não é terror, mas “paz”: “venha a paz, descansem nos seus leitos” (Yeshayá 57:2).
6
Rabi Chanina diz: todos os de Israel que morrem fora da Terra de Israel, as suas almas são recolhidas à Terra, como está dito: “e a alma do meu senhor estará atada no feixe da vida junto ao Eterno, teu D’us” (Shmuel I 25:29). E quanto aos ímpios inimigos que morrem na Terra, as suas almas são lançadas para longe, como está dito: “e a alma dos teus inimigos, Ele a arremessará como do côncavo de uma funda” (ibid.).
רַבִּי חֲנִינָא אוֹמֵר: כָּל יִשְׂרָאֵל שֶׁמֵּתִים בְּחוּצָה לָאָרֶץ נַפְשׁוֹתָם נֶאֱסָפוֹת אֶל הָאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְהָיְתָה נֶפֶשׁ אֲדֹנִי צְרוּרָה בִּצְרוֹר הַחַיִּים״. וְכָל הַמֵּתִים מִן הַגּוֹיִם בָּאָרֶץ נַפְשׁוֹתָם נִשְׁלָכוֹת בַּקֶּלַע חוּצָה לָאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְאֵת נֶפֶשׁ אוֹיְבֶיךָ יְקַלְּעֶנָּה בְּתוֹךְ כַּף הַקָּלַע״.
7
No porvir, o Santo, bendito seja, segura as bordas da terra e a sacode de toda impureza, como o homem que sacode a veste e lança fora tudo o que nela há, como está dito: “para segurar as bordas da terra, e os ímpios sejam sacudidos dela” (Iyov 38:13).
לֶעָתִיד לָבֹא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אוֹחֵז בְּכַנְפוֹת הָאָרֶץ וּמְנַעֵר אוֹתָהּ מִכָּל טֻמְאָה, כְּאָדָם שֶׁמְּנַעֵר אֶת הַבֶּגֶד וּמַשְׁלִיךְ כָּל מַה שֶּׁבְּתוֹכָהּ וּמַשְׁלִיךְ אוֹתָהּ לַחוּץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לֶאֱחֹז בְּכַנְפוֹת הָאָרֶץ וְיִנָּעֲרוּ רְשָׁעִים מִמֶּנָּה״.
8
Três amados tem o homem em vida, e são estes: os seus filhos e a sua casa; o seu dinheiro os seus bens; e as suas boas ações. E, na hora da sua partida deste mundo, chama os seus filhos e a sua casa e lhes diz: “por favor, livrai-me deste juízo da morte cruel!”. E eles lhe respondem: “não ouviste que não há domínio sobre o dia da morte? E não está escrito: ‘irmão algum, de modo algum, poderá remir o outro’ (Tehilim 49:8)?”. E até o seu dinheiro, que ele ama, não o pode remir, como está dito: “e não dará a D’us o seu resgate” (ibid.); por quê? “Pois o resgate da sua alma é caro demais, e cessa para sempre” (Tehilim 49:9). Dizem-lhe: “vai em paz, descansa no teu leito e te ergue para o teu quinhão no fim dos dias, e seja a tua parte com os piedosos do mundo”. E, vendo ele que de nada vale, chama o seu dinheiro e lhe diz: “muito me afadiguei por ti, noite e dia, na planície e nos montes; por favor, resgata-me desta morte!”. E ele lhe responde: “não ouviste — ‘não aproveita a riqueza no dia da ira’ (Mishlei 11:4)?”. Depois disso, chama as suas boas ações e lhes diz: “vinde e salvai-me desta morte; firmai-vos comigo e não me deixeis sair do mundo!”. E assim lhe respondem as suas boas ações: “vai em paz; antes que tu chegues lá, nós já te precedemos”, como está dito: “e a tua justiça (tzédek) irá adiante de ti” (Yeshayá 58:8).
שְׁלֹשָׁה אֲהוּבִים יֵשׁ לוֹ לָאָדָם בְּחַיָּיו, וְאֵלּוּ הֵן: בָּנָיו וּבְנֵי בֵיתוֹ וּמָמוֹנוֹ וּמַעֲשִׂים טוֹבִים. וּבְשָׁעַת פְּטִירָתוֹ מִן הָעוֹלָם קוֹרֵא לְבָנָיו וּבְנֵי בֵיתוֹ וְאוֹמֵר לָהֶם: ״בְּבַקָּשָׁה מִכֶּם, הוֹצִיאוּנִי מִדִּין הַמָּוֶת הָרַע הַזֶּה!״ וְהֵם אוֹמְרִים לוֹ: ״וַהֲלֹא שָׁמַעְתָּ וְאֵין שִׁלְטוֹן בְּיוֹם הַמָּוֶת? וְלֹא כָּךְ כָּתוּב 'אָח לֹא פָדֹה יִפְדֶּה אִישׁ'?״ וַאֲפִלּוּ מָמוֹנוֹ שֶׁהוּא אוֹהֵב אוֹתוֹ אֵינוֹ יָכוֹל לִפְדּוֹתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְלֹא יִתֵּן לֵאלֹהִים כָּפְרוֹ״. לָמָּה? ״וְיֵקַר פִּדְיוֹן נַפְשָׁם וְחָדַל לְעוֹלָם״. מִדָּבָר זֶה לְעוֹלָם אֶלָּא ״לֵךְ לְשָׁלוֹם, תָּנוּחַ עַל מִשְׁכָּבְךָ וְתַעֲמֹד לְגוֹרָלְךָ לְקֵץ הַיָּמִין, וִיהֵא חֶלְקְךָ עִם חֲסִידֵי עוֹלָם״. וּכְשֶׁהוּא רוֹאֶה כֵּן, מַכְנִיס אֶת מָמוֹנוֹ וְאוֹמֵר לוֹ: ״הַרְבֵּה טָרַחְתִּי עָלֶיךָ לַיְלָה וָיוֹם, בַּמִּישׁוֹר וּבֶהָרִים. בְּבַקָּשָׁה מִמְּךָ, פְּדֵנִי מִן הַמָּוֶת הַזֶּה וְהַצִּילֵנִי מִן הַמִּיתָה!״ וְהוּא מְשִׁיבוֹ: ״וַהֲלֹא שָׁמַעְתָּ 'לֹא יוֹעִיל הוֹן בְּיוֹם עֶבְרָה'?״ אַחֲרֵי כֵן הוּא מַכְנִיס מַעֲשָׂיו הַטּוֹבִים וְאוֹמֵר לָהֶם: ״בּוֹאוּ וְהַצִּילוּנִי מִן הַמָּוֶת הַזֶּה, וְתִחְזְקוּ עִמִּי וְאַל תַּנִּיחוּנִי לָצֵאת מִן הָעוֹלָם, שֶׁעֲדַיִן יֵשׁ לָכֶם תּוֹחֶלֶת עָלַי אִם אִנָּצֵל״. וְכֵן מְשִׁיבִים לוֹ מַעֲשָׂיו הַטּוֹבִים: ״לֵךְ לְשָׁלוֹם, עַד שֶׁלֹּא תֵּלֵךְ לְשָׁם אָנוּ מַקְדִּימִין אוֹתְךָ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָלַךְ לְפָנֶיךָ צִדְקֶךָ״.
Nota — o que nos acompanha. Esta é uma das parábolas mais belas da tradição. O homem tem três “amados”: a família, os bens e as boas ações. Na hora da morte, a família o acompanha apenas até a sepultura, e os bens nem isso — “não aproveita a riqueza no dia da ira” (Mishlei 11:4). Só as boas ações seguem adiante dele: “a tua justiça irá adiante de ti” (Yeshayá 58:8). É o ensino central do capítulo, e da própria ética da Torá: o que de nós permanece não é o que tivemos, mas o bem que fizemos (cf. os ensaios sobre a alma após a morte e sobre ser uma boa pessoa).
9
Nos sete dias do luto, o corpo começa a decompor-se, e o corpo torna a ser pó como era, como está dito: “e o pó volta à terra como era” (Kohelet 12:7). E de onde aprendemos que a alma foi dada dos céus? Vem e vê: quando o Santo, bendito seja, formou o homem, que fez? Soprou na sua face, e nele foi lançada a alma (neshamá), como está dito: “e soprou nas suas narinas o sopro da vida” (Bereshit 2:7).
שִׁבְעַת יְמֵי הָאֵבֶל מַתְחִיל הַגּוּף לְהִתְלִיעַ רִמָּה וְחוֹזֵר הַגּוּף לֶעָפָר כְּשֶׁהָיָה, שֶׁנֶּאֱמַר (קהלת יב, ז) ״וְיָשֹׁב הֶעָפָר עַל הָאָרֶץ כְּשֶׁהָיָה״. וּמִנַּיִן אָנוּ לְמֵדִין שֶׁהַנֶּפֶשׁ נִתְּנָה מִן הַשָּׁמַיִם? בֹּא וּרְאֵה: כְּשֶׁיָּצַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת הָאָדָם, מֶה עָשָׂה? נָשַׁם אֶת פִּיו וְנִזְרְקָה בּוֹ נְשָׁמָה, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּפַּח בְּאַפָּיו נִשְׁמַת חַיִּים״.
10
Rabi Yishmael diz: todos os mortos tornam-se como o pó da terra, até que do corpo não reste senão como uma colher cheia de matéria em decomposição, e ela se mistura ao pó como o fermento que se mistura à massa. No porvir, quando o Santo, bendito seja, ordenar restituir os depósitos confiados — todos os corpos —, Ele a partir desse resíduo embeleza e multiplica o corpo. Imediatamente toda a terra estremece, e os montes se abalam, e as sepulturas se abrem ..., como está dito: “e o Eterno, seu D’us, os salvará naquele dia” (Zechariá 9:16).
רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: כָּל הַמֵּתִים כַּעֲפַר הָאָרֶץ, עַד שֶׁלֹּא נִשְׁתַּיֵּר מִן הַגּוּף אֶלָּא כִּמְלֹא תַרְוָד רָקָב, וְהוּא מִתְעָרֵב בֶּעָפָר כִּשְׂאוֹר שֶׁהוּא מִתְעָרֵב בָּעִסָּה. לֶעָתִיד לָבֹא, כְּשֶׁיִּפְקֹד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לִיתֵּן פִּקְדוֹנוֹת כָּל גּוּפוֹת, הוּא מְעָרֵב בָּאָרֶץ כֶּעָפָר, מְיַפֶּה וּמַרְבֶּה אוֹתָהּ. מִיָּד כָּל הָאָרֶץ רָעֲשָׁה וְהֶהָרִים מִזְדַּעְזְעִים וּקְבָרוֹת נִפְתָּחוֹת, וַאֲנִי אוֹמֵר: קְבָרוֹת מִתְפָּרְדוֹת אִשָּׁה מֵאֵת רְעוּתָהּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהוֹשִׁיעָם ה' אֱלֹהֵיהֶם בַּיּוֹם הַהוּא״.
11
Rabi Azaryá diz: todas as almas estão na mão do Santo, bendito seja, como está dito: “em cuja mão está a alma de todo vivente” (Iyov 12:10). A que se assemelha a coisa? A alguém que andava pelo mercado com uma chave na mão: enquanto a chave está na sua mão, todo o seu tesouro está seguro em sua mão. Assim o Santo, bendito seja: a chave do cemitério e a chave dos tesouros das almas (otzrot haneshamá) estão na Sua mão. No porvir, o Santo, bendito seja, abre as sepulturas e abre os tesouros das almas, e devolve cada espírito ao corpo de carne, como está dito: “envias o Teu espírito, e são criados, e renovas a face da terra” (Tehilim 104:30).
רַבִּי עֲזַרְיָה אוֹמֵר: כָּל הַנְּפָשׁוֹת בְּיָדוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא הֵם, שֶׁנֶּאֱמַר ״אֲשֶׁר בְּיָדוֹ נֶפֶשׁ כָּל חָי״. לְמָה הַדָּבָר דּוֹמֶה? לְאֶחָד שֶׁהָיָה מְהַלֵּךְ בַּשּׁוּק וּמַפְתֵּחַ בְּיָדוֹ. כָּל זְמַן שֶׁהַמַּפְתֵּחַ בְּיָדוֹ, כָּל מָמוֹנוֹ בְּיָדוֹ. כָּךְ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, מַפְתֵּחַ שֶׁל בֵּית הַקְּבָרוֹת וּמַפְתֵּחַ אוֹצְרוֹת הַנְּשָׁמָה בְּיָדוֹ. לֶעָתִיד לָבֹא, הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא פּוֹתֵחַ אֶת הַקְּבָרוֹת וּפוֹתֵחַ אֶת אוֹצְרוֹת הַנְּשָׁמָה, וּמַחֲזִיר כָּל רוּחַ וְרוּחַ בְּגוּף בָּשָׂר אִישׁ, שֶׁנֶּאֱמַר ״תְּשַׁלַּח רוּחֲךָ יִבָּרֵאוּן וּתְחַדֵּשׁ פְּנֵי אֲדָמָה״.
12
A alma assemelha-se ao seu Criador. Assim como o Santo, bendito seja, vê e não é visto, assim a alma vê e não é vista. Assim como diante do Santo, bendito seja, não há sono, assim a alma em sua essência não dorme. Assim como o Santo, bendito seja, sustenta o Seu mundo, assim a alma sustenta todo o corpo. E todas as almas são Suas, como está dito: “eis que todas as almas são Minhas” (Yechezkel 18:4).
הַנֶּפֶשׁ דּוֹמָה לְיוֹצְרָהּ. מָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא רוֹאֶה וְאֵינוֹ נִרְאֶה, כָּךְ הַנֶּפֶשׁ רוֹאָה וְאֵינָהּ נִרְאֵית. מָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְפָנָיו אֵין שֵׁנָה, כָּךְ הַנֶּפֶשׁ אֵינָהּ יְשֵׁנָה. מָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא סוֹבֵל אֶת עוֹלָמוֹ, כָּךְ הַנֶּפֶשׁ סוֹבֶלֶת לְכָל הַגּוּף. וְכָל הַנְּפָשׁוֹת שֶׁלּוֹ הֵן, שֶׁנֶּאֱמַר (יחזקאל יח, ד) ״הֵן כָּל הַנְּפָשׁוֹת לִי הֵנָּה״.
Nota — a alma à semelhança do seu Criador. O capítulo descreve a alma por analogia com D’us: vê e não é vista, não dorme, e sustenta o corpo como D’us sustenta o mundo. Na tradição racionalista, isto aponta para a natureza incorpórea e espiritual da alma — a parte mais elevada do ser humano, ligada ao intelecto e ao conhecimento de D’us. “Eis que todas as almas são Minhas” (Yechezkel 18:4): a alma vem do alto e ao alto retorna (cf. o ensaio sobre o que acontece à alma ao morrer).
13
Rabi Yehudá diz: desde o dia em que o Templo foi destruído, a terra está enlanguescida pela maldade de todos os seus habitantes, como o homem que está doente e não tem força, como está dito: “embruteceu-se todo homem” (Yirmiyá 10:14); e a terra se corrompeu sob os seus habitantes, e não tem força para se erguer e dar os seus frutos.
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: מִיּוֹם שֶׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, אֶרֶץ אֻמְלְלָה מֵרָעַת כָּל דָּרֶיהָ, כְּאָדָם שֶׁהוּא חוֹלֶה וְאֵין בּוֹ כֹּחַ. שֶׁנֶּאֱמַר: ״נִבְעַר כָּל אָדָם״, וְהָאָרֶץ חָנְפָה תַּחַת יוֹשְׁבֶיהָ וְאֵין בָּהּ כֹּחַ לַעֲמֹד וְלִתֵּן פֵּרוֹתֶיהָ.
14
No porvir, o Santo, bendito seja, faz descer o orvalho da ressurreição (tal techiyá) e revive os mortos, como está dito: “viverão os teus mortos, os meus cadáveres se levantarão” (Yeshayá 26:19). “Viverão os teus mortos” — estes são os de Israel que morreram confiantes no Seu nome. “Os meus cadáveres se levantarão” — na imagem do versículo, os ímpios das nações, que se erguerão para o juízo, mas não para a vida eterna. “Despertai e cantai, ó habitantes do pó” — estes são os justos, que repousam no pó da terra. “Pois o teu orvalho é orvalho de luzes” — para os justos não há senão orvalho de luzes; e Ele dá cura à terra. E como Ele dá cura à terra?
לֶעָתִיד לָבֹא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מוֹרִיד טַל תְּחִיָּה וּמְחַיֶּה אֶת הַמֵּתִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יִחְיוּ מֵתֶיךָ נְבֵלָתִי יְקוּמוּן״. ״יִחְיוּ מֵתֶיךָ״ – אֵלּוּ יִשְׂרָאֵל שֶׁמֵּתוּ בְּטוּחִים עַל שְׁמוֹ. ״נְבֵלָתִי יְקוּמוּן״ – אֵלּוּ הַגּוֹיִם שֶׁהֵם כְּנִבְלַת בְּהֵמוֹת, שֶׁיָּקוּמוּ לִפְנֵי הַדִּין אֲבָל לֹא יִחְיוּ. ״הָקִיצוּ וְרַנְּנוּ שֹׁכְנֵי עָפָר״ – אֵלּוּ הַצַּדִּיקִים שֶׁהֵם שׁוֹכְנֵי עָפָר אֶרֶץ. ״כִּי טַל אוֹרוֹת טַלֶּךָ״ – אֵין לַצַּדִּיקִים אֶלָּא טַל אוֹרוֹת, וְהוּא נוֹתֵן רְפוּאוֹת לָאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וָאָרֶץ רְפָאִים תַּפִּיל״. וּמַה הוּא נוֹתֵן רְפוּאוֹת לָאָרֶץ?
15
Disse Rabi Tanchum: a terra outrora endurecida os expelirá — e isto é “e a terra fará reviver (cair) os refaim” (Yeshayá 26:19): porque a terra está cheia do orvalho da ressurreição dos mortos. E, no porvir, como que Ele sacode o orvalho e o faz descer, e revive os mortos. E de onde sabemos que está cheia do orvalho da ressurreição? Do que está dito: “abre-me, minha irmã, minha amada, minha pomba, minha perfeita, pois a minha cabeça está cheia de orvalho” (Shir haShirim 5:2).
אָמַר רַבִּי תַּנְחוּם: אַדְמָא תַּקִּיפְדְּתָא תַּפְלוֹט, וְהַיְינוּ ״וְאֶרֶץ רְפָאִים תַּפִּיל״. שֶׁמָּלֵא טַל תְּחִיַּת הַמֵּתִים. וּלְעָתִיד לָבוֹא מְנַעֵר שְׂעַר רֹאשׁוֹ וּמוֹרִיד טַל תְּחִיַּת הַמֵּתִים וּמְחַיֶּה אֶת הַמֵּתִים. מָלֵא טַל תְּחִיַּת הַמֵּתִים מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״פִּתְחִי לִי אֲחֹתִי רַעְיָתִי יוֹנָתִי תַמָּתִי שֶׁרֹּאשִׁי נִמְלָא טָל״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

“Eu faço morrer e faço viver”

O capítulo abre no versículo “Eu, Eu sou Ele” (Devarim 32:39): a vida e a morte, este mundo e o vindouro, estão na mão de um só D’us. E, contra qualquer leitura estreita, o próprio texto afirma o universal: quem reconhece o D’us único recebe a vida do porvir. As passagens duras sobre “as nações” visam, na tradição, a idolatria e a maldade — não os povos —, pois “os justos de todas as nações têm parte no mundo vindouro” (Rambam).

A alma que não morre

“E soprou nas suas narinas o sopro da vida” (Bereshit 2:7): a alma vem dos céus. O capítulo a descreve à semelhança do Criador — vê sem ser vista, não dorme, sustenta o corpo. Para a leitura racionalista, é a parte incorpórea e intelectual do homem, que não perece com a carne: “o pó volta à terra ... e o espírito volta a D’us que o deu” (Kohelet 12:7). Todas as almas são Suas, guardadas “nos tesouros das almas”, e Dele tornam a receber a vida.

O que levamos conosco

A parábola dos três amados é o coração ético do capítulo: a família acompanha o morto até a sepultura, os bens nem isso, e só as boas ações vão adiante dele. É a tradução exata da visão da Torá sobre o valor de uma vida — não se mede pelo que se acumulou, mas pelo bem que se fez. “A tua justiça irá adiante de ti” (Yeshayá 58:8).

O orvalho da ressurreição

O capítulo culmina na esperança: D’us fará descer o “orvalho da ressurreição” e reviverá os mortos (Yeshayá 26:19). A ressurreição (techiyat hametim) é princípio da fé; o “como” permanece velado, mas a promessa é firme. O sono da noite prefigura o despertar da manhã: assim como acordamos a cada amanhecer, o capítulo confia que os que dormem no pó hão de despertar — “despertai e cantai, ó habitantes do pó”.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 35

A escada de Yaakov: o sonho em Beit El e a Pedra Fundamental

פֶּרֶק ל״ה

Fugindo de Esav, Yaakov detém-se no “Lugar” e sonha com uma escada que une a terra e o céu, anjos que sobem e descem, e os impérios que se erguem e caem. Desperta tomado de temor — “esta é a porta do céu” —, unge a pedra que se torna a Pedra Fundamental do Templo, e o capítulo encerra com a bênção do “D’us santo”.

1
“Melhor o fim de uma coisa do que o seu princípio” (Kohelet 7:8). As primeiras bênçãos, que Yitzchak abençoou a Yaakov, foram sobre os orvalhos dos céus e sobre o trigo da terra, como está dito: “D’us te dê do orvalho dos céus” (Bereshit 27:28). Mas as bênçãos últimas ao enviá-lo foram bênçãos de fundamento do mundo, sem interrupção, nem neste mundo nem no mundo vindouro, como está dito: “e o D’us Todo-Poderoso (El Shadai) te abençoe” (Bereshit 28:3); e ainda lhe acrescentou a bênção de Avraham, como está dito: “e te dê a bênção de Avraham, a ti e à tua descendência contigo” (Bereshit 28:4). Eis: “melhor o fim de uma coisa do que o seu princípio”. “Melhor o paciente (érech apayim) do que o de espírito altivo” (Kohelet 7:8): isto se aplica a Yaakov, nosso pai, que a cada dia alongava o seu espírito com paciência e proferia palavras de louvor. “Do que o de espírito altivo”: este é Esav, o ímpio, que a cada dia comia da sua caça e, pela sua arrogância, nada do seu alimento dava a Yaakov. Certa vez, saiu a caçar e nada conseguiu, e viu Yaakov comendo um prato de lentilhas, e o cobiçou no seu coração, e disse-lhe: “deixa-me, peço-te, engolir desse guisado vermelho, vermelho” (Bereshit 25:30). Disse-lhe Yaakov: vermelho saíste do ventre de tua mãe, e alimento vermelho cobiçaste comer; por isso se chamou o seu nome Edom.
״טוֹב אַחֲרִית דָּבָר מֵרֵאשִׁיתוֹ״ (קהלת ז, ח), הַבְּרָכוֹת הָרִאשׁוֹנוֹת שֶׁבֵּרַךְ יִצְחָק לְיַעֲקֹב עַל טַלְלֵי שָׁמַיִם וְעַל דְּגַן הָאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְיִתֶּן לְךָ הָאֱלֹהִים מִטַּל הַשָּׁמַיִם״. הַבְּרָכוֹת הָאַחֲרוֹנוֹת בִּרְכוֹת יְסוֹד עוֹלָם וְאֵין בָּהֶם הֶפְסֵק לֹא בָּעוֹלָם הַזֶּה וְלֹא בָּעוֹלָם הַבָּא, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְאֵל שַׁדַּי יְבָרֵךְ אֹתְךָ״, וְעוֹד הוֹסִיף לוֹ אֶת בִּרְכַּת אַבְרָהָם שֶׁנֶּאֱמַר ״וְיִתֶּן לְךָ אֶת בִּרְכַּת אַבְרָהָם לְךָ וּלְזַרְעֲךָ אִתָּךְ״ הֱוֵי אוֹמֵר טוֹב אַחֲרִית דָּבָר מֵרֵאשִׁיתוֹ. ״טוֹב אֶרֶךְ אַפַּיִם מִגְּבַהּ רוּחַ״, דָּבָר זֶה אָמַר יַעֲקֹב אָבִינוּ שֶׁבְּכָל יוֹם וָיוֹם הוּא מַאֲרִיךְ אֶת רוּחוֹ וְאוֹמֵר כָּל דִּבְרֵי נְגִינוֹת. ״מִגְּבַהּ רוּחַ״ זֶה עֵשָׂו הָרָשָׁע שֶׁבְּכָל יוֹם וָיוֹם הָיָה אוֹכֵל מִצֵּידוֹ וּמִגַּסּוּת רוּחוֹ לֹא הָיָה נוֹתֵן מִמַּאֲכָלוֹ לְיַעֲקֹב מְאוּמָה. פַּעַם אַחַת יָצָא לָצוּד צַיִד וְלֹא עָלְתָה בְיָדוֹ וְרָאָה יַעֲקֹב אוֹכֵל מַאֲכַל עֲדָשִׁים וְחָמַד אוֹתָם בְּלִבּוֹ וְאָמַר לוֹ ״הַלְעִיטֵנִי נָא מִן הָאָדֹם הָאָדֹם הַזֶּה״. אָמַר לוֹ יַעֲקֹב: אָדֹם יָצָאתָ מִמְּעֵי אִמֶּךָ וּמַאֲכָל אָדֹם חָמַדְתָּ לֶאֱכֹל, עַל כֵּן קָרָא שְׁמוֹ אֱדוֹם.
2
Rabi Eliezer diz: as lentilhas são alimento de aflição e de luto. Conhece isto: quando Hevel foi morto, os seus pais comeram, no luto por ele, alimento de lentilhas, em luto e aflição; e quando Harán foi queimado em Ur dos Caldeus, os seus pais comeram, no luto por ele, alimento de lentilhas; e Yaakov comia alimento de lentilhas em luto e aflição — pois naquele dia morreu Avraham, nosso pai, seu avô. E também Israel come alimento de lentilhas em luto e aflição pelo luto do Templo e pelo exílio de Israel. Daqui aprendes que os filhos de Esav não cairão até que venha um remanescente de Yaakov e tome deles a soberania do reino e a primogenitura que Yaakov dele adquiriu por juramento, como está dito: “e disse Yaakov: jura-me hoje; e ele lhe jurou” (Bereshit 25:33).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: הָעֲדָשִׁים מַאֲכַל צָרָה הֵם וְאֵבֶל. תֵּדַע לְךָ, כְּשֶׁנֶּהֱרַג הֶבֶל הָיוּ אֲבוֹתָיו אוֹכְלִין עַל אֶבְלוֹ מַאֲכַל עֲדָשִׁים בְּאֵבֶל וּבְצָרָה. וּכְשֶׁנִּשְׂרַף הָרָן בְּאוּר הַכַּשְׂדִּים, הָיוּ הוֹרָיו אוֹכְלִין עַל אֶבְלוֹ מַאֲכַל עֲדָשִׁים בְּאֵבֶל וּבְצָרָה. וְיַעֲקֹב הָיָה אוֹכֵל מַאֲכַל עֲדָשִׁים בְּאֵבֶל וְצָרָה עַל שֶׁהָיְתָה מַלְכוּת וְשְׂרָרָה וּבְכוֹרָה שֶׁל עֵשָׂו, וּבְאוֹתוֹ הַיּוֹם מֵת אַבְרָהָם אָבִינוּ זְקֵנוֹ. וְיִשְׂרָאֵל אוֹכְלִין מַאֲכַל עֲדָשִׁים בְּאֵבֶל וְצָרָה עַל אֵבֶל בֵּית הַמִּקְדָּשׁ וְעַל גָּלוּת יִשְׂרָאֵל. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁאֵין בְּנֵי עֵשָׂו נוֹפְלִין עַד שֶׁיָּבֹא שָׂרִיד מִיַּעֲקֹב וְיִתֵּן לִבְנֵי עֵשָׂו מַאֲכַל עֲדָשִׁים בְּאֵבֶל וּבְצָרָה, וְיִקַּח מֵהֶם שְׂרָרַת מַלְכוּת וּבְכוֹרָה שֶׁקָּנָה יַעֲקֹב מִמֶּנּוּ בִּשְׁבוּעָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר יַעֲקֹב הִשָּׁבְעָה לִּי כַּיּוֹם וַיִּשָּׁבַע לוֹ״.
Nota — as lentilhas, o luto e Edom. As lentilhas, redondas e “sem boca”, são na tradição o alimento do enlutado (que, como elas, fica sem palavras) e a imagem da roda que gira — hoje em cima, amanhã embaixo. O capítulo contrasta o paciente (Yaakov, que “alonga o espírito”) e o arrogante (Esav). Na linguagem dos sábios, “Esav/Edom” veio a designar o poder imperial hostil (Roma e seus herdeiros), e não um povo vivo de hoje: o contraste é moral — entre a via da humildade e da Torá e a via da soberba e da força.
3
Rabi Akiva diz: em todo lugar aonde iam os nossos pais, o poço caminhava diante deles. E cavavam, e o faziam aflorar diante deles. E Yitzchak cavou na terra e o achou diante de si, como está dito: “e Yitzchak tornou a cavar os poços de água” (Bereshit 26:18); cavaram os servos de Yitzchak no vale e o acharam diante de si, como está dito: “e cavaram os servos de Yitzchak no vale” (Bereshit 26:19). E está escrito sobre Jerusalém: “e sucederá, naquele dia, que sairão águas vivas de Jerusalém” (Zechariá 14:8): é o poço que há de subir em Jerusalém e regar todos os seus arredores. E, por o terem encontrado associado ao número sete, chamaram-no “Shivá” (sete), como está dito: “e chamou-o Shivá” (Bereshit 26:33); e, pelo nome do poço, chamou-se a cidade Be’er Sheva até hoje.
רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר: כָּל מָקוֹם שֶׁהָיוּ אֲבוֹתֵינוּ הוֹלְכִים, הָיְתָה הַבְּאֵר מְהַלֶּכֶת לִפְנֵיהֶם. וְחוֹפְרִין שָׁלֹשׁ פְּעָמִים וּמוֹצִיאִין אוֹתָהּ לִפְנֵיהֶם. וְחָפַר יִצְחָק בָּאָרֶץ שָׁלֹשׁ פְּעָמִים וּמָצָא אוֹתָהּ לְפָנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּשָׁב יִצְחָק וַיַּחְפֹּר אֶת בְּאֵרֹת הַמַּיִם״. חָפַר בָּאָרֶץ שְׁנֵי פְעָמִים וּמָצָא אוֹתָהּ לְפָנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּחְפְּרוּ עַבְדֵי יִצְחָק בַּנָּחַל״. וְכָתוּב בִּירוּשָׁלַיִם: ״וְהָיָה בַּיּוֹם הַהוּא יֵצְאוּ מַיִם חַיִּים מִירוּשָׁלַיִם״. הִיא הַבְּאֵר שֶׁעֲתִידָה לַעֲלוֹת בִּירוּשָׁלַיִם וּלְהַשְׁקוֹת אֶת כָּל סְבִיבוֹתֶיהָ. וְעַל שֶׁמָּצְאוּ אוֹתָהּ שֶׁבַע פְּעָמִים, קָרְאוּ אוֹתָהּ שִׁבְעָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּקְרָא אֹתָהּ שִׁבְעָה״. וְעַל שֵׁם הַבְּאֵר נִקְרֵאת הָעִיר בְּאֵר שֶׁבַע עַד הַיּוֹם הַזֶּה.
4
Tinha setenta e sete anos Yaakov ao sair da casa de seu pai, e o poço caminhava diante dele, de Be’er Sheva até o monte Moriá, caminho de dois dias. E chegou lá ao meio-dia, e o Santo, bendito seja, o encontrou, como está dito: “e encontrou o Lugar (haMakom) e ali pernoitou, porque o sol se pusera” (Bereshit 28:11). E por que D’us é chamado “Makom” (Lugar)? Porque, em todo lugar em que estão os justos, Ele se encontra com eles, como está dito: “em todo lugar em que Eu fizer recordar o Meu Nome virei a ti e te abençoarei” (Shemot 20:21). Disse-lhe o Santo, bendito seja: “Yaakov, o pão está no teu alforje e o poço diante de ti, para comeres e beberes neste lugar”. Disse perante Ele: “Senhor do mundo, ainda não é a hora, e eu haveria de deitar-me já neste lugar?”. E eis que fora do seu tempo veio o sol no poente; e olhou Yaakov e viu o sol pôr-se, e ali pernoitou, como está dito: “e ali pernoitou, porque o sol se pusera”.
בֶּן שִׁבְעִים וָשֶׁבַע שָׁנָה הָיָה יַעֲקֹב בְּצֵאתוֹ מִבֵּית אָבִיו, וְהָיְתָה הַבְּאֵר מְהַלֶּכֶת לְפָנָיו מִבְּאֵר שֶׁבַע עַד הַר הַמּוֹרִיָּה מַהֲלַךְ שְׁנֵי יָמִים. וְהִגִּיעַ בַּחֲצִי הַיּוֹם לְשָׁם, וּפָגַע בּוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּפְגַּע בַּמָּקוֹם וַיָּלֶן שָׁם כִּי בָא הַשֶּׁמֶשׁ״. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ מָקוֹם? אֶלָּא בְּכָל מָקוֹם שֶׁהַצַּדִּיקִים שָׁם, הוּא נִמְצָא עִמָּהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּכָל הַמָּקוֹם אֲשֶׁר אַזְכִּיר אֶת שְׁמִי״. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״יַעֲקֹב, הַלֶּחֶם בְּצִקְלוֹנְךָ וְהַבְּאֵר לְפָנֶיךָ, לֶאֱכֹל וְלִשְׁתּוֹת בַּמָּקוֹם הַזֶּה״. אָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, עַד עַכְשָׁו לֹא יָרַד הַשֶּׁמֶשׁ חֲמִשִּׁים יְרִידוֹת, וַאֲנִי שׁוֹכֵב בַּמָּקוֹם, וּבְלֹא עִתּוֹ בָּא הַשֶּׁמֶשׁ בַּמַּעֲרָב״. וְהִבִּיט יַעֲקֹב וְרָאָה אֶת הַשֶּׁמֶשׁ בָּא בַּמַּעֲרָב, וַיָּלֶן שָׁם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּלֶן שָׁם כִּי בָא הַשֶּׁמֶשׁ״.
Nota — por que D’us é “o Lugar” (haMakom). Um dos nomes de D’us na tradição é haMakom, “o Lugar”. Por quê? Porque “Ele é o Lugar do mundo, e o mundo não é o Seu lugar” (Bereshit Rabá 68): D’us não está contido no espaço — é o espaço que existe Nele. Para a leitura racionalista, isto exprime a Sua incorporeidade e a Sua presença em toda parte: “em todo lugar em que estão os justos, Ele se encontra com eles” (cf. o ensaio sobre por que D’us não tem forma). D’us não está num ponto do mapa; está onde o coração O busca.
5
Tomou Yaakov doze pedras das pedras do altar sobre o qual fora ligado Yitzchak, seu pai, e as pôs à sua cabeceira naquele lugar, para lhe dar a conhecer que dele haveriam de surgir doze tribos. E todas se tornaram uma só pedra, para lhe dar a conhecer que todas haveriam de ser uma só nação na terra, como está dito: “e quem é como o teu povo Israel, uma só nação na terra?” (Divrei haYamim I 17:21).
לָקַח יַעֲקֹב שְׁתֵּים עֶשְׂרֵה אֲבָנִים מֵאַבְנֵי הַמִּזְבֵּחַ שֶׁנֶּעֱקַד עָלָיו יִצְחָק אָבִיו, וַיָּשֶׂם אוֹתָם מְרַאֲשֹׁתָיו בְּאוֹתוֹ הַמָּקוֹם לְהוֹדִיעוֹ שֶׁעֲתִידִין לַעֲמֹד מִמֶּנּוּ שְׁנֵים עָשָׂר שְׁבָטִים. וְנַעֲשׂוּ כֻלָּן אֶבֶן אַחַת לְהוֹדִיעוֹ שֶׁכֻּלָּם עֲתִידִין לִהְיוֹת גּוֹי אֶחָד בָּאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמִי כְּעַמְּךָ יִשְׂרָאֵל גּוֹי אֶחָד בָּאָרֶץ״.
6
Rabi Levi diz: naquela noite o Santo, bendito seja, mostrou-lhe todos os sinais. Mostrou-lhe uma escada (sulam) de pé, da terra até os céus, como está dito: “e sonhou, e eis uma escada” (Bereshit 28:12); e os anjos do serviço subiam e desciam por ela, e viam o rosto de Yaakov e diziam: “este é o rosto semelhante ao da figura que está no Trono da Glória”. Estes subiam e aqueles desciam, como está dito: “e eis os anjos de D’us subindo e descendo por ela” (ibid.). E mostrou-lhe o Santo, bendito seja, os quatro reinos, o seu domínio e a sua queda: mostrou-lhe o anjo príncipe do reino de Bavel subindo setenta degraus e descendo; e o anjo do reino da Média subindo cinquenta e dois degraus e descendo; e o anjo do reino da Grécia subindo cento e oitenta degraus e descendo; e o anjo do reino de Edom subindo, sem descer, e dizendo: “subirei acima das alturas das nuvens, serei semelhante ao Altíssimo” (Yeshayá 14:14). Disse-lhe Yaakov: “mas serás derrubado ao Sheol, aos confins da cova” (Yeshayá 14:15). Disse-lhe o Santo, bendito seja: “ainda que te eleves como a águia ... dali te farei descer” (Ovadiá 1:4).
רַבִּי לֵוִי אוֹמֵר: בְּאוֹתָהּ הַלַּיְלָה הֶרְאָה לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת כָּל הָאוֹתוֹת. הֶרְאָהוּ סֻלָּם עוֹמֵד מִן הָאָרֶץ וְעַד הַשָּׁמַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּחֲלֹם וְהִנֵּה סֻלָּם״ וּמַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת עוֹלִים וְיוֹרְדִים בּוֹ, וְרוֹאִין פָּנָיו שֶׁל יַעֲקֹב וְאוֹמְרִים: ״זֶה הַפָּנִים כִּפְנֵי הַחַיָּה שֶׁבְּכִסֵּא הַכָּבוֹד״. אֵלּוּ עוֹלִים וְאֵלּוּ יוֹרְדִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהִנֵּה מַלְאֲכֵי אֱלֹהִים עֹלִים וְיֹרְדִים בּוֹ״. וְהֶרְאָהוּ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אַרְבַּע מַלְכֻיּוֹת מוֹשְׁלָן וְאוֹבְדָן, וְהֶרְאָהוּ שַׂר מַלְכוּת בָּבֶל עוֹלֶה שִׁבְעִים עֲוָקִים וְיוֹרֵד, וְהֶרְאָהוּ שַׂר מַלְכוּת מָדַי עוֹלֶה חֲמִשִּׁים וּשְׁנַיִם עֲוָקִים וְיוֹרֵד. וְהֶרְאָהוּ שַׂר מַלְכוּת יָוָן עוֹלֶה מֵאָה וּשְׁמוֹנִים עֲוָקִים וְיוֹרֵד. וְהֶרְאָהוּ שַׂר מַלְכוּת אֱדוֹם עוֹלֶה וְאֵינוֹ יוֹרֵד וְאוֹמֵר: ״אֶעֱלֶה עַל בָּמֳתֵי עָב אֶדַּמֶּה לְעֶלְיוֹן״. אָמַר לוֹ יַעֲקֹב: ״אַךְ אֶל שְׁאוֹל תּוּרַד אֶל יַרְכְּתֵי בוֹר״. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״אִם תַּגְבִּיהַּ כַּנֶּשֶׁר״.
Nota — a escada de Yaakov. A escada que une a terra ao céu é uma das grandes imagens da Torá. O Rambam (Guia I:15) lê-a como visão da ordem do ser e da profecia: os “anjos” — forças e inteligências, ou os próprios profetas e sábios — sobem em conhecimento rumo a D’us e descem para agir no mundo; a escada é o vínculo entre o alto e o baixo. E, no mesmo sonho, mostram-se os quatro impérios (cf. cap. 28) que sobem e caem — pois todo poder terreno tem o seu termo. A soberba de “Edom” (“serei semelhante ao Altíssimo”) recebe a sua resposta: nenhum império se faz D’us.
7
Madrugou Yaakov com grande temor e disse: “a casa do Santo, bendito seja, está neste lugar”, como está dito: “e temeu, e disse: quão temível é este lugar!” (Bereshit 28:17). Daqui aprendes que todo aquele que ora neste lugar, em Jerusalém, é como se orasse diante do Trono da Glória, pois ali está a porta dos céus e uma entrada aberta para ouvir a oração, como está dito: “e esta é a porta dos céus” (ibid.).
הִשְׁכִּים יַעֲקֹב בְּפַחַד גָּדוֹל וְאָמַר: ״בֵּיתוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בַּמָּקוֹם הַזֶּה״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּירָא וַיֹּאמַר מַה נּוֹרָא הַמָּקוֹם הַזֶּה״. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁכָּל הַמִּתְפַּלֵּל בַּמָּקוֹם הַזֶּה בִּירוּשָׁלַיִם כְּאִלּוּ הִתְפַּלֵּל לִפְנֵי כִּסֵּא הַכָּבוֹד, שֶׁשַּׁעַר הַשָּׁמַיִם שָׁם הוּא וּפֶתַח פָּתוּחַ לִשְׁמֹעַ תְּפִלָּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְזֶה שַׁעַר הַשָּׁמָיִם״.
8
E Yaakov voltou a recolher as pedras, e encontrou-as todas tornadas uma só pedra, e a pôs por estela (matzevá) no meio do lugar; e desceu sobre ela óleo dos céus, e ele o derramou sobre ela, como está dito: “e derramou óleo sobre a sua cabeça da pedra” (Bereshit 28:18). Que fez o Santo, bendito seja? Estendeu o pé da Sua direita e firmou a pedra até as profundezas dos abismos, e fez dela o esteio da terra, como o homem que põe a pedra de remate de uma abóbada. Por isso é chamada Éven haShetiyá (a Pedra Fundamental), pois dali está o umbigo da terra, e dali se estendeu toda a terra, e sobre ela se ergue o Templo do Eterno, como está dito: “e esta pedra, que pus por estela, será casa de D’us” (Bereshit 28:22).
וַיָּשָׁב יַעֲקֹב לִלְקֹט אֶת הָאֲבָנִים, וּמָצָא אוֹתָם כֻּלָּם אֶבֶן אַחַת, וְשָׂם אוֹתָהּ מַצֵּבָה בְּתוֹךְ הַמָּקוֹם, וַיֵּרֶד לוֹ שֶׁמֶן מִן הַשָּׁמַיִם וַיִּצֹק עָלֶיהָ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּצֹק שֶׁמֶן עַל רֹאשָׁהּ״. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? נָטָה רֶגֶל יְמִינוֹ וְטָבְעָה הָאֶבֶן עַד עִמְקֵי תְהוֹמוֹת, וְעָשָׂה אוֹתָהּ סְנִיף לָאָרֶץ כְּאָדָם שֶׁעוֹשֶׂה סְנִיף לְכִפָּה. לְפִיכָךְ נִקְרָא אֶבֶן הַשְּׁתִיָּה, שֶׁמִּשָּׁם הוּא טַבּוּר הָאָרֶץ, וּמִשָּׁם נִמְתְּחָה כָּל הָאָרֶץ, וְעָלֶיהָ הֵיכַל ה' עוֹמֵד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָאֶבֶן הַזֹּאת אֲשֶׁר שַׂמְתִּי מַצֵּבָה יִהְיֶה בֵּית אֱלֹהִים״.
Nota — a Pedra Fundamental e o portão do céu. A pedra que Yaakov unge torna-se a Éven haShetiyá, a “Pedra Fundamental” sobre a qual, na tradição, se ergue o Templo, no monte Moriá. Chamá-la “umbigo da terra” é uma imagem: não uma afirmação de geografia, mas do eixo espiritual do mundo — o ponto para onde se volta a oração (Rambam, Hilchot Tefilá). E as doze pedras que se tornam uma (§4) ensinam a unidade de Israel: muitas tribos, “uma só nação na terra”. Beit El é “a porta do céu” — não um lugar onde D’us mora, mas onde o coração se abre para o alto.
9
E Yaakov caiu sobre o seu rosto, em terra, diante da Pedra Fundamental, e orava diante do Santo, bendito seja, e dizia: “Senhor de todos os mundos, se me fizeres voltar a este lugar em paz, oferecerei diante de Ti sacrifícios de ações de graças e holocaustos”, como está dito: “e Yaakov fez um voto, dizendo” (Bereshit 28:20). E ali deixou o poço, e dali levantou os pés, e num abrir e fechar de olhos kefitzat haderech chegou a Charan, como está dito: “e Yaakov levantou os pés” (Bereshit 29:1); e diz: “e saiu Yaakov de Be’er Sheva” etc. (Bereshit 28:10). E o D’us santo foi santificado em justiça (tzedacá), e responderam os seres supernos e disseram: “Bendito és Tu, ó Eterno, o D’us santo (haEl haKadosh)”.
וַיִּפֹּל יַעֲקֹב עַל פָּנָיו אַרְצָה לִפְנֵי אֶבֶן הַשְּׁתִיָּה, וְהָיָה מִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאוֹמֵר: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, אִם תְּשִׁיבֵנִי לַמָּקוֹם הַזֶּה בְּשָׁלוֹם אֶזְבְּחָה לְפָנֶיךָ זִבְחֵי תוֹדוֹת וְעוֹלוֹת״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּדַּר יַעֲקֹב נֶדֶר לֵאמֹר״. וְשָׁם הִנִּיחַ אֶת הַבְּאֵר וּמִשָּׁם נָשָׂא רַגְלָיו, וּכְהֶרֶף עַיִן בָּא לְחָרָן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשָּׂא יַעֲקֹב רַגְלָיו״, וְאוֹמֵר: ״וַיֵּצֵא יַעֲקֹב מִבְּאֵר שֶׁבַע״ וְכוּ'. וְהָאֵל הַקָּדוֹשׁ נִקְדָּשׁ בִּצְדָקָה, וְעָנוּ הָעֶלְיוֹנִים וְאָמְרוּ: בָּרוּךְ אַתָּה ה', הָאֵל הַקָּדוֹשׁ.
Nota — “o D’us santo” e as bênçãos da Amidá. O capítulo encerra, de modo notável, com a fórmula “Bendito és Tu, ó Eterno, o D’us santo” — o selo da terceira bênção da Amidá. Tal como o cap. 27 terminou com “escudo de Avraham” (a primeira bênção), aqui a santificação do Nome por meio de Yaakov ecoa na bênção da santidade. A tradição enraíza assim a oração de Israel nos atos dos patriarcas. E a chegada instantânea a Charan (kefitzat haderech, “o saltar do caminho”) é a imagem de que, para quem caminha com D’us, a distância se encurta.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A escada que une o céu e a terra

O sonho de Yaakov é uma das visões fundadoras da Torá. Para o Rambam (Guia I:15), a escada figura a ordem do ser e o caminho da profecia: o que sobe em conhecimento rumo a D’us torna a descer para agir no mundo. Não há, na visão racionalista, dois mundos separados — há um vínculo, uma escada: o céu inspira, e a vida terrena realiza. E a presença de D’us no alto da escada lembra que toda elevação tem a sua origem e o seu fim Nele.

D’us, “o Lugar” do mundo

Que D’us seja chamado haMakom — “o Lugar” — encerra uma das ideias mais profundas da tradição: “Ele é o Lugar do mundo, e o mundo não é o Seu lugar” (Bereshit Rabá). D’us não habita um ponto do espaço; é incorpóreo e onipresente, e “encontra-se” onde os justos O buscam. Por isso Yaakov pôde achá-Lo num descampado, ao anoitecer, a caminho do exílio: nenhum lugar está fora do Seu alcance.

A Pedra Fundamental e a unidade de Israel

As doze pedras que se fundem em uma anunciam que as doze tribos serão “uma só nação na terra”. E essa pedra única torna-se a Éven haShetiyá, o eixo do mundo sobre o qual se erguerá o Templo — “a porta do céu”, para onde a oração se volta. A tradição não descreve uma geografia, mas uma orientação: há um centro para o qual o coração de Israel se dirige, e a partir do qual a santidade se difunde.

Os impérios e a oração dos pais

No mesmo sonho, Yaakov vê os quatro reinos subirem e caírem — e a soberba do último, que se quer “semelhante ao Altíssimo”, recebe a sua resposta: nenhum império se faz D’us. O capítulo, que começou no contraste entre o paciente e o arrogante, fecha-se com a santificação do Nome e a fórmula “o D’us santo” — a terceira bênção da Amidá. Assim, como o “escudo de Avraham” (cap. 27), a oração de Israel nasce dos passos dos seus pais.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 36

Yaakov e Lavan: o nascimento das tribos e as alianças dos pais

פֶּרֶק ל״ו

Yaakov chega a Charan, rola sozinho a pedra do poço e encontra Rachel. O capítulo acompanha os seus anos com Lavan — os casamentos, o nascimento das tribos, a fuga, os terafim — e depois volta-se a um grande tema: as alianças que os patriarcas firmaram com os povos da terra, e por que Israel só veio a possuir Jerusalém, a Filístia e Aram mais tarde, nos dias de David, por direito e não apenas pela força.

1
“Quando caminhares, não se embaraçará o teu passo; e, se correres, não tropeçarás” (Mishlei 4:12).
״בְּלֶכְתְּךָ לֹא יֵצַר צַעֲדֶךָ, וְאִם תָּרוּץ לֹא תִכָּשֵׁל״ (משלי ד, יב).
2
Não se embaraçaram os passos de Yaakov nem a sua força tropeçou; e, como um valente, rolou a pedra de sobre a boca do poço, e o poço subiu e transbordou água para fora; e viram os pastores e se admiraram, pois todos eles juntos não conseguiam rolar a pedra de sobre a boca do poço, como está dito: “e Yaakov se aproximou e rolou a pedra” (Bereshit 29:10).
לֹא צָרוּ צְעָדָיו שֶׁל יַעֲקֹב וְלֹא נִכְשַׁל כֹּחוֹ, וּכְגִבּוֹר גָּלַל הָאֶבֶן מֵעַל פִּי הַבְּאֵר, וְהָיְתָה הַבְּאֵר עוֹלָה וְשׁוֹפַעַת מַיִם חוּצָה לָהּ, וְרָאוּ הָרוֹעִים וְתָמְהוּ, שֶׁכֻּלָּם לֹא הָיוּ יְכוֹלִין לְגָלוֹל אֶת הָאֶבֶן מֵעַל פִּי הַבְּאֵר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּגַּשׁ יַעֲקֹב וַיָּגֶל אֶת הָאָבֶן״.
3
Rabi Akiva diz: todo aquele que entra numa cidade e encontra moças saindo diante dele — o seu caminho prospera diante dele. E de onde sabes que é assim? Vem e vê de Eliezer, servo de Avraham, que, ainda antes de entrar na cidade, encontrou moças saindo diante dele, como está dito: “eis que estou de pé junto à fonte de água, e a moça que sair...” (Bereshit 24:43); e o Santo, bendito seja, fez prosperar o seu caminho, como está dito: “e o Eterno fez prosperar o meu caminho” (Bereshit 24:56).
רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר: כָּל מִי שֶׁהוּא נִכְנָס לָעִיר וּמָצָא נְעָרוֹת יוֹצְאוֹת לְפָנָיו – דַּרְכּוֹ מַצְלַחַת לְפָנָיו. וּמִנַּיִן תֵּדַע לְךָ שֶׁהוּא כֵּן? בֹּא וּרְאֵה מֵאֱלִיעֶזֶר עֶבֶד אַבְרָהָם, שֶׁעַד שֶׁלֹּא נִכְנַס לָעִיר וּמָצָא נְעָרוֹת יוֹצְאוֹת לְפָנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִנֵּה אָנֹכִי נִצָּב עַל עֵין הַמָּיִם וְהָיָה הַנַּעֲרָה הַיֹּצֵאת״. וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא הִצְלִיחַ דַּרְכּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַה' הִצְלִיחַ דַּרְכִּי״.
4
E ainda de quem aprendes? De Moshe, nosso mestre, sobre ele a paz, que, ainda antes de entrar na cidade, encontrou moças saindo diante dele, como está dito: “e o sacerdote de Midyan tinha sete filhas” (Shemot 2:16), e prosperou o seu caminho e redimiu Israel do Egito. E de Shaul, que, ainda antes de entrar na cidade, encontrou moças saindo diante dele, como está dito: “enquanto subiam a encosta da cidade encontraram moças que saíam” (Shmuel I 9:11), e prosperou o seu caminho e subiu à realeza. E de Yaakov, que, ainda antes de entrar na cidade, encontrou moças saindo, como está dito: “e eis Rachel, sua filha, que vinha com o rebanho” (Bereshit 29:6).
וְעוֹד מִמִּי אַתָּה לָמֵד? מִמֹּשֶׁה רַבֵּינוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם, שֶׁעֲדַיִן לֹא נִכְנַס לָעִיר מָצָא נְעָרוֹת יוֹצְאוֹת לְפָנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּלְכֹהֵן מִדְיָן שֶׁבַע בָּנוֹת״, וְהִצְלִיחַ דַּרְכּוֹ וְגָאַל אֶת יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם. וּמִנַּיִן תֵּדַע לְךָ שֶׁהוּא כֵּן? בֹּא וּרְאֵה מִשָּׁאוּל, עַד שֶׁלֹּא נִכְנַס לָעִיר מָצָא נְעָרוֹת יוֹצְאוֹת לְפָנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הֵמָּה עוֹלִים בְּמַעֲלֵה הָעִיר״ וְכוּ', וְהִצְלִיחַ דַּרְכּוֹ וְעָלָה לַמְּלוּכָה. וּמִנַּיִן? מִיַּעֲקֹב, עַד שֶׁלֹּא נִכְנַס לָעִיר מָצָא נְעָרוֹת יוֹצְאוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהִנֵּה רָחֵל בִּתּוֹ בָּאָה״.
5
Rav Huna diz: tudo é previsto diante do Santo, bendito seja. Antes de Yaakov chegar a Charan, que fez o Santo, bendito seja? Enviou uma praga ao rebanho de Lavan, e dele restou pouco de muito — o que Rachel pastoreava, como está dito: “porque ela era pastora” (Bereshit 29:9). E de onde sabemos que restou pouco de muito? Do que está dito: “e Yaakov pastoreava o rebanho de Lavan, o que restara” — isto é, o que restara da praga. “E o Eterno te abençoou por causa do meu pé da minha vinda” (Bereshit 30:30): e acaso o pé de Yaakov fazia frutificar e multiplicar o rebanho de Lavan? Mas daqui se aprende que há um “pé” uma presença de pessoa que traz bênção; e assim disse Lavan a Yaakov: “tenho experimentado que o Eterno me abençoou por tua causa” (Bereshit 30:27).
רַב הוּנָא אָמַר: הַכֹּל צָפוּי לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא. קֹדֶם שֶׁיָּבֹא יַעֲקֹב לְחָרָן, מָה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? שָׁלַח מַגֵּפָה בְּצֹאנוֹ שֶׁל לָבָן וְנִשְׁתַּיְּרוּ מִמֶּנּוּ מְעַט מֵהַרְבֵּה, מַה שֶּׁהָיְתָה רָחֵל רוֹעָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי רֹעָה הִיא״. וּמִנַּיִן שֶׁנִּשְׁתַּיֵּר מְעַט מֵהַרְבֵּה? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְיַעֲקֹב רֹעֶה אֶת צֹאן לָבָן הַנּוֹתָרוֹת״, רְצוֹנוֹ לוֹמַר הַנּוֹתָרוֹת מִן הַמַּגֵּפָה. ״וַיְבָרֶךְ ה' אֹתְךָ לְרַגְלִי״, וְכִי רַגְלוֹ שֶׁל יַעֲקֹב לְהַפְרוֹת וּלְהַרְבּוֹת צֹאנוֹ שֶׁל לָבָן? אֶלָּא מִכָּאן שֶׁיֵּשׁ רֶגֶל לְאָדָם מְבֹרֶכֶת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְבָרֶךְ ה' אֹתְךָ לְרַגְלִי״, וְכֵן לָבָן אָמַר לְיַעֲקֹב: ״נִחַשְׁתִּי וַיְבָרְכֵנִי ה' בִּגְלָלֶךָ״.
Nota — a providência que prepara o caminho. Rav Huna ensina que “tudo é previsto” diante de D’us: até a praga que reduziu o rebanho de Lavan teria preparado o encontro de Yaakov com Rachel. Para a leitura racionalista, a providência costuma operar através das causas naturais — não como capricho, mas como a ordem em que o bem se realiza —, e isto convive com a liberdade humana: “tudo é previsto, e a permissão o livre-arbítrio é dada” (Avot 3:15). O “pé que traz bênção” lembra que a presença de um justo abençoa o lugar onde está.
6
Quando Lavan ouviu a fama de Yaakov, filho de sua irmã, e a força do feito que realizara sobre o poço, correu ao seu encontro para o beijar e abraçar, como está dito: “e sucedeu que, ouvindo Lavan a fama de Yaakov, filho de sua irmã” etc. (Bereshit 29:13). “E disse Lavan a Yaakov: por seres meu irmão (parente), servir-me-ias de graça?” (Bereshit 29:15) — e acaso era seu irmão? Não era filho de sua irmã! Mas isto vem ensinar-te que o filho da irmã de uma pessoa é chamado como seu filho, e o filho do irmão de uma pessoa, como seu irmão. De onde aprendemos? De Avraham, como está dito: “e disse Avram a Lot: não haja contenda entre mim e ti ... pois somos homens irmãos” (Bereshit 13:8); e outro escrito diz: “e ouviu Avram que o seu irmão fora levado cativo” (Bereshit 14:14) — e acaso era seu irmão? Não era filho de seu irmão! Mas vem ensinar-te que o filho do irmão de uma pessoa é como seu irmão.
כְּשֶׁשָּׁמַע לָבָן אֶת שֵׁמַע יַעֲקֹב בֶּן אֲחֹתוֹ וְכֹחַ גְּבוּרָתוֹ שֶׁעָשָׂה עַל הַבְּאֵר, רָץ לִקְרָאתוֹ לְנַשְּׁקוֹ וּלְחַבְּקוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר (בראשית כט יג): ״וַיְהִי כִשְׁמֹעַ לָבָן אֶת שֵׁמַע יַעֲקֹב בֶּן אֲחֹתוֹ״ וְכוּ'. ״וַיֹּאמֶר לָבָן לְיַעֲקֹב הֲכִי אָחִי אַתָּה וַעֲבַדְתַּנִי חִנָּם״ (בראשית כט טו), וְכִי אָחִיו הָיָה? וַהֲלֹא בֶּן אֲחוֹתוֹ הָיָה! אֶלָּא לְלַמֶּדְךָ שֶׁבֶּן אֲחוֹתוֹ שֶׁל אָדָם קָרוּי כִּבְנוֹ וּבֶן אָחִיו שֶׁל אָדָם כְּאָחִיו. מֵאַיִן אָנוּ לְמֵדִים? מֵאַבְרָהָם אָבִינוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר אַבְרָם אֶל לוֹט אַל נָא תְהִי מְרִיבָה בֵּינִי וּבֵינֶךָ וּבֵין רֹעַי וּבֵין רֹעֶיךָ כִּי אֲנָשִׁים אַחִים אֲנָחְנוּ״. וְכָתוּב אַחֵר אוֹמֵר: ״וַיִּשְׁמַע אַבְרָם כִּי נִשְׁבָּה אָחִיו״. וְכִי אָחִיו הָיָה? וַהֲלֹא בֶּן אָחִיו הָיָה! אֶלָּא לְלַמֶּדְךָ שֶׁבְּנֵי אָחִיו שֶׁל אָדָם כְּאֶחָיו.
7
E os netos de uma pessoa são como os seus filhos. De onde sabemos? De Yaakov, que disse: “Efraim e Menashe, como Reuven e Shimon, serão meus” (Bereshit 48:5) — e acaso eram seus filhos? Não eram seus netos! Mas vem ensinar-te que os netos de uma pessoa são como os seus filhos.
וּבְנֵי בָנָיו שֶׁל אָדָם כְּבָנָיו, מִנַּיִן שֶׁהֵם כְּבָנָיו? מִיַּעֲקֹב, שֶׁאָמַר: ״אֶפְרַיִם וּמְנַשֶּׁה כִּרְאוּבֵן וְשִׁמְעוֹן יִהְיוּ לִי״. וְכִי בָּנָיו הָיוּ? וַהֲלֹא בְּנֵי בָנָיו הָיוּ! אֶלָּא לְלַמֶּדְךָ שֶׁבְּנֵי בָנָיו שֶׁל אָדָם כְּבָנָיו.
Nota — os laços de família que se estendem. O capítulo extrai dos versículos uma lição sobre o parentesco: o sobrinho é “como um filho”, o filho do irmão “como um irmão”, os netos “como filhos”. É a visão da Torá sobre a responsabilidade familiar ampliada — Avraham chama Lot de “irmão” e arrisca-se para o resgatar. A família, no judaísmo, não é um círculo estreito, mas uma rede de cuidado e obrigação mútua.
8
Começou Yaakov a servir pela mulher sete anos. Depois de sete anos, fez um banquete de sete dias e tomou Leá; e ainda acrescentou outros sete dias de banquete e alegria e tomou Rachel, como está dito: “cumpre a semana desta” (Bereshit 29:27); e fez Yaakov assim, e cumpriu a semana desta. E ajuntaram-se todos os homens do lugar para prestar bondade (chéssed) a Yaakov, nosso pai, como está escrito: “e ajuntou Lavan todos os homens do lugar e fez um banquete” (Bereshit 29:22).
הִתְחִיל יַעֲקֹב לַעֲבֹד בָּאִשָּׁה שֶׁבַע שָׁנִים. לְאַחַר שֶׁבַע שָׁנִים, עָשָׂה מִשְׁתֶּה שִׁבְעַת יָמִים וְלָקַח אֶת לֵאָה, וְעוֹד הוֹסִיף שִׁבְעַת יָמִים אֲחֵרִים מִשְׁתֶּה וְשִׂמְחָה וְלָקַח אֶת רָחֵל, שֶׁנֶּאֱמַר ״מַלֵּא שְׁבֻעַ זֹאת״ וַיַּעַשׂ יַעֲקֹב כֵּן וַיְמַלֵּא שְׁבֻעַ זֹאת, וְנֶאֶסְפוּ כָּל אַנְשֵׁי הַמָּקוֹם לִגְמֹל חֶסֶד עִם יַעֲקֹב אָבִינוּ, הֲדָא הוּא דִכְתִיב ״וַיֶּאֱסֹף לָבָן אֶת כָּל אַנְשֵׁי הַמָּקוֹם וַיַּעַשׂ מִשְׁתֶּה״.
9
Disse o Santo, bendito seja: vós prestastes bondade a Yaakov, Meu servo; também Eu darei a vós e aos vossos filhos a vossa recompensa neste mundo ..., como está dito: “e Naamán, chefe do exército do rei de Aram era um grande homem...” (Melachim II 5:1).
אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: אַתֶּם גְּמַלְתֶּם חֶסֶד עִם יַעֲקֹב עַבְדִּי, אַף אֲנִי אֶתֵּן לָכֶם וְלִבְנֵיכֶם שְׂכַרְכֶם בָּעוֹלָם הַזֶּה בִּשְׁבִיל שֶׁלֹּא יִהְיֶה לָרְשָׁעִים נַחַת לֶעָתִיד לָבֹא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְנַעֲמָן שַׂר צְבָא מֶלֶךְ אֲרָם״ וְכוּ'.
10
Lavan tomou as suas duas servas e as deu às suas duas filhas. E acaso eram meras servas? Não eram suas filhas? Mas as filhas de uma pessoa, havidas de uma concubina, são chamadas servas, como está dito: “e deu Lavan a Rachel, sua filha, Bilhá, sua serva, por serva” (Bereshit 29:29).
לָבָן לָקַח אֶת שְׁתֵּי שִׁפְחוֹתָיו וְנָתַן לִשְׁתֵּי בְנוֹתָיו. וְכִי שִׁפְחוֹתָיו הָיוּ? וַהֲלֹא בְּנוֹתָיו הָיוּ? אֶלָּא בְּנוֹתָיו שֶׁל אָדָם מִפִּילֶגֶשׁ נִקְרְאוּ שְׁפָחוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּתֵּן לָבָן לְרָחֵל בִּתּוֹ״.
11
Rabi Levi diz: viu o Santo, bendito seja, a aflição de Leá e lhe deu concepção no ventre e consolo para a sua alma; e ela deu à luz um filho de boa aparência e sábio, e disse: “vede o filho que me deu o Santo, bendito seja”, como está dito: “e concebeu Leá e deu à luz a Yaakov um filho, e chamou o seu nome Reuven” (Bereshit 29:32) — e por isso chamou o seu nome Reuven (re’u ben, “vede um filho”).
רַבִּי לֵוִי אוֹמֵר: רָאָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּצָרָתָהּ שֶׁל לֵאָה וְנָתַן לָהּ הֵרָיוֹן בֶּטֶן וְנִחוּמִין לְנַפְשָׁהּ, וְיָלְדָה אִישׁ טוֹב תֹּאַר וְחָכָם, וְאָמְרָה: ״רְאוּ בֵּן שֶׁנָּתַן לִי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתַּהַר וַתֵּלֶד לֵאָה לְיַעֲקֹב בֵּן וַתִּקְרָא שְׁמוֹ רְאוּבֵן״. וְעַל כֵּן קָרְאָה שְׁמוֹ רְאוּבֵן.
12
Rabi Eliezer diz: aos sete meses deu Leá à luz os seus filhos; e em períodos de sete meses nasceram a Yaakov onze filhos e uma filha, e todos nasceram, cada um, com a sua gêmea, exceto Yosef, cuja par não nasceu com ele — pois Asnat, filha de Diná, era a que lhe convinha por esposa — e exceto Diná, cuja par não nasceu com ela. Disse Leá: “esta menina é, para nós, motivo de juízo e questão (din)”; por isso chamou o seu nome Diná.
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: מִשִּׁבְעָה חֳדָשִׁים יָלְדָה לֵאָה אֶת בָּנֶיהָ, וּלְשִׁבְעָה חֳדָשִׁים נוֹלְדוּ לְיַעֲקֹב אַחַת עֶשְׂרֵה בָּנִים וּבַת אַחַת, וְכֻלָּם נוֹלְדוּ וְזוּגוֹ עִמּוֹ, חוּץ מִיּוֹסֵף שֶׁלֹּא נוֹלְדָה זוּגָתוֹ עִמּוֹ שֶׁהָיְתָה אָסְנַת בַּת דִּינָה רְאוּיָה לוֹ לְאִשָּׁה, וְחוּץ מִדִּינָה שֶׁלֹּא נוֹלְדָה זוּגָהּ עִמָּהּ. אָמְרָה: ״הַיַּלְדָּה הַזֹּאת לָנוּ דִּין וּמִשְׁפָּט״, עַל כֵּן קָרָא שְׁמָהּ דִּינָה.
Nota — o nascimento das tribos. Aqui nasce o povo: os filhos de Yaakov, que serão as doze tribos de Israel. A tradição lê com ternura a gratidão de Leá (“vede um filho”, Reuven) e o nome de Diná, ligado ao “juízo”. As genealogias da Torá não são listas frias: cada nome carrega uma história e um sentido, e juntos formam o alicerce humano da nação que se erguerá.
13
E ainda dizia Rabi Eliezer: Yaakov fugiu para vir a Lavan, e fugiu para sair de diante de Lavan. E por que fugiu de Charan? Porque lhe disse o Santo, bendito seja: “Yaakov, Yaakov, não posso fazer repousar a Minha Shechiná sobre ti fora da Terra; volta, pois, à terra de teus pais e à tua pátria, e Eu estarei contigo”; por isso fugiu. E tomou Lavan todos os homens da sua cidade, valentes, e o perseguiu para o matar. Desceu o anjo Michael e desembainhou a sua espada contra Lavan; e D’us disse a Lavan: “não fales com Yaakov nem bem nem mal”, como está dito: “e veio D’us a Lavan, em sonho, de noite” (Bereshit 31:24). Madrugou Lavan pela manhã e viu tudo o que era de Yaakov, e disse: “todos estes são meus; e, já que tomaste tudo isto, por que furtaste os meus deuses, os terafim, a que eu me prostrava?”.
וְעוֹד הָיָה רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: בָּרַח יַעֲקֹב לָבֹא אֶל לָבָן וּבָרַח לָצֵאת מִפְּנֵי לָבָן. בָּרַח לָבֹא אֶל לָבָן מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּבְרַח יַעֲקֹב שְׂדֵה אֲרָם״. וּבָרַח מִפְּנֵי לָבָן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֻּגַּד לְלָבָן בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי כִּי בָרַח יַעֲקֹב״. וְלָמָּה בָּרַח? שֶׁאָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״יַעֲקֹב, יַעֲקֹב, אֵינִי יָכוֹל לְשַׁכֵּן שְׁכִינָתִי עָלֶיךָ בְּחוּצָה לָאָרֶץ, אֶלָּא שׁוּב אֶל אֶרֶץ אֲבוֹתֶיךָ וּלְמוֹלַדְתְּךָ וְאֶהְיֶה עִמָּךְ״, לְפִיכָךְ בָּרַח. וְלָקַח לָבָן אֶת כָּל אַנְשֵׁי עִירוֹ גִּבּוֹרֵי כֹּחַ וְרָדַף אַחֲרָיו לְהָרְגוֹ. יָרַד מִיכָאֵל הַמַּלְאָךְ וְשָׁלַף חַרְבּוֹ אַחֲרָיו וּבִקֵּשׁ לְהָרְגוֹ, וְאָמַר לוֹ: ״אַל תְּדַבֵּר עִם יַעֲקֹב מִטּוֹב עַד רָע״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּבֹא אֱלֹהִים אֶל לָבָן בַּחֲלוֹם הַלַּיְלָה״. הִשְׁכִּים לָבָן בַּבֹּקֶר וְרָאָה אֶת כָּל אֲשֶׁר לְיַעֲקֹב וְאָמַר: ״כָּל אֵלּוּ מִשֶּׁלִּי הֵם. הוֹאִיל וְלָקַחְתָּ אֶת כָּל אֵלֶּה, לָמָּה גָנַבְתָּ אֶת אֱלֹהַי הַתְּרָפִים שֶׁלִּי שֶׁהָיִיתִי מִשְׁתַּחֲוֶה לָהֶם?״
14
E o que são os terafim? Eram um objeto de uma prática idólatra abominável: tomavam um homem primogênito e matavam-no e tratavam a sua cabeça com sal e óleo; e escreviam, numa lâmina de ouro, um nome de espírito de impureza, e a punham junto a ele, e acendiam-lhe luzes e prostravam-se diante dele, e diziam que ele falava com eles. E de onde se sabe que diziam que os terafim falam? Do que está dito: “porque os terafim falam falsidade” (Zechariá 10:2). Por isso Rachel os furtou — para que não anunciassem a Lavan que Yaakov fugira; e, mais do que isso, para extirpar a idolatria da casa de seu pai.
וּמָה הֵם הַתְּרָפִים? שׁוֹחֲטִין אָדָם בְּכוֹר וּמוֹלְקִין אֶת רֹאשׁוֹ וּמוֹלְחִין אוֹתוֹ בְּמֶלַח וּבְשֶׁמֶן טוֹב, וְכוֹתְבִין עַל טַס זָהָב שֵׁם רוּחַ טֻמְאָה וּמַנִּיחִין אוֹתוֹ בַּכַּר וּמַדְלִיקִין נֵרוֹת לְפָנָיו וּמִשְׁתַּחֲוִין לוֹ, וְהוּא מְדַבֵּר עִמָּהֶן. וּמִנַּיִן שֶׁהַתְּרָפִים מְדַבְּרִים? שֶׁנֶּאֱמַר (זכריה י, ב) ״כִּי הַתְּרָפִים דִּבְּרוּ אָוֶן״, לְפִיכָךְ גְּנָבָתַם רָחֵל שֶׁלֹּא יַגִּידוּ לְלָבָן שֶׁבָּרַח יַעֲקֹב. וְלֹא עוֹד, אֶלָּא לְהַכְרִית עֲבוֹדָה זָרָה מִבֵּית אָבִיהָ.
Nota — os terafim: uma abominação, e a coragem de Rachel. A descrição dos terafim é deliberadamente sombria: o midrash pinta a idolatria associada a práticas abomináveis — incluindo o derramamento de sangue — para mostrar o quanto ela é vil. A Torá proíbe terminantemente tudo isso: a idolatria, a necromancia e, acima de tudo, o assassínio. Não há aqui aprovação alguma — ao contrário: é condenação. E o sentido da cena é o oposto da idolatria: Rachel furta os terafim para extirpar a idolatria da casa de seu pai — um ato de coragem moral. (Sobre os terafim que “falam”, cf. a leitura racionalista da magia: o que “fala” não é o ídolo, mas a ilusão e o engano dos que nele creem.)
15
E Yaakov não sabia de nada disto que Rachel os tomara, e disse: “aquele que furtou os terafim morrerá fora do seu tempo”. E o que sai da boca de um justo é como o que sai da boca de um anjo; e por isso Rachel deu à luz e morreu, como está dito: “e sucedeu que, ao sair-lhe a alma, pois morreu” (Bereshit 35:18).
וְלֹא יָדַע יַעֲקֹב בְּכָל אֵלֶּה, אָמַר: ״כָּל מִי שֶׁיִּגְנֹב הַתְּרָפִים יָמוּת בְּלֹא עִתּוֹ״. וְהַיּוֹצֵא מִפִּי צַדִּיק כְּיוֹצֵא מִפִּי הַמַּלְאָךְ, וְיָלְדָה רָחֵל וָמֵתָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי בְּצֵאת נַפְשָׁהּ כִּי מֵתָה״.
Nota — a palavra involuntária e a morte de Rachel. Yaakov, sem saber que fora Rachel, declara que “quem furtou os terafim morrerá” — e a tradição liga essa palavra à morte de Rachel no parto. A lição é grave: a palavra tem poder, mesmo quando dita sem intenção de ferir (“o que sai da boca do justo é como a palavra de um anjo”). Daqui o cuidado extremo da tradição com a fala — não se amaldiçoa, nem por suposição, pois as palavras deixam marcas no mundo.
16
Rabi Yehudá diz: três pais firmaram aliança com os povos da terra, e são estes: Avraham, Yitzchak e Yaakov. Avraham firmou aliança com os povos da terra quando lhe apareceram os anjos: pensava ele que eram viajantes da terra, e correu ao seu encontro e quis fazer-lhes um grande banquete, e disse a Sará que o preparasse. Naquela hora Sará ficou impedida, e por isso ele não lhes apresentou dos pães. E correu a trazer um bezerro, e o bezerro fugiu de diante dele e entrou na caverna de Machpelá; e Avraham entrou após ele e ali encontrou Adam, o primeiro, e a sua companheira, deitados sobre os leitos e adormecidos, com luzes acesas sobre eles e um bom aroma sobre eles, como aroma agradável. Por isso cobiçou a caverna como propriedade de sepultura. Disse aos habitantes de Yevus que lhe vendessem a caverna de Machpelá, por bom preço, em ouro e por escrito, como propriedade de sepultura perpétua. E acaso eram yevusitas? Não eram hititas? Mas a cidade de Yevus chamava-os também “yevusitas”. E os homens não aceitaram de início; começou ele a curvar-se e a prostrar-se diante deles, como está dito: “e prostrou-se Avraham diante do povo da terra” (Bereshit 23:12).
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: שְׁלֹשָׁה אָבוֹת כָּרְתוּ בְּרִית עִם עַמֵּי הָאָרֶץ, וְאֵלּוּ הֵם: אַבְרָהָם, יִצְחָק וְיַעֲקֹב. אַבְרָהָם כָּרַת בְּרִית עִם עַמֵּי הָאָרֶץ כְּשֶׁנִּגְלוּ עָלָיו הַמַּלְאָכִים. הָיָה סָבוּר שֶׁהֵם אוֹרְחֵי הָאָרֶץ וְרָץ לִקְרָאתָם וְרָצָה לַעֲשׂוֹת לָהֶם סְעוּדָה גְּדוֹלָה, וְאָמַר לְשָׂרָה לַעֲשׂוֹת לָהֶם סְעוּדָה גְּדוֹלָה. וּבְאוֹתָהּ שָׁעָה רָאֲתָה דַּם נִדָּה, לְפִיכָךְ לֹא הִגִּישׁ לָהֶם מִן הָעוּגוֹת. וְרָץ לְהָבִיא בֶּן בָּקָר וּבָרַח מִלְּפָנָיו בֶּן הַבָּקָר וְנִכְנַס לִמְעָרַת הַמַּכְפֵּלָה. וְנִכְנַס אַבְרָהָם אַחֲרָיו וּמָצָא שָׁם אָדָם הָרִאשׁוֹן וְעֶזְרוֹ שׁוֹכְבִים עַל הַמִּטּוֹת וִישֵׁנִים, וְנֵרוֹת דּוֹלְקוֹת עֲלֵיהֶן, וְרֵיחַ טוֹב עֲלֵיהֶם כְּרֵיחַ נִיחוֹחַ. לְפִיכָךְ חָמַד הַמְּעָרָה לַאֲחֻזַּת קֶבֶר. אָמַר לִבְנֵי יְבוּס לִקְנוֹת מֵהֶם אֶת מְעָרַת הַמַּכְפֵּלָה בְּמֶכֶר טוֹב בְּזָהָב וּבִכְתָב לַאֲחֻזַּת קֶבֶר עוֹלָם. וְכִי יְבוּסִים הָיוּ? וַהֲלֹא חִתִּיִּים הָיוּ? אֶלָּא עִיר יְבוּס נִקְרָא יְבוּסִים. וְלֹא קִבְּלוּ הָאֲנָשִׁים עֲלֵיהֶם. הִתְחִיל כּוֹרֵעַ וּמִשְׁתַּחֲוֶה אֲלֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשְׁתַּחוּ אַבְרָהָם לִפְנֵי עַם הָאָרֶץ״.
17
Disseram: “sabemos que o Santo, bendito seja, há de dar a ti e à tua descendência todas estas terras; firma conosco juramento de que Israel não tomará a cidade de Yevus senão com o consentimento dos seus habitantes”. E só depois comprou a caverna de Machpelá, por venda em ouro e por escrito perpétuo, como propriedade eterna, como está dito: “e ouviu Avraham a Efron e pesou-lhe a prata” (Bereshit 23:16).
אָמְרוּ: ״אָנוּ יוֹדְעִים שֶׁעָתִיד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לִיתֵּן לְךָ וּלְזַרְעֲךָ אֶת כָּל הָאֲרָצוֹת הָאֵלֶּה, כְּרוֹת עִמָּנוּ שְׁבוּעָה שֶׁאֵין יִשְׂרָאֵל יוֹרְשִׁים אֶת עִיר יְבוּס, כִּי אִם בִּרְצוֹנָם״. וְאַחַר כָּךְ קָנָה אֶת הַמַּכְפֵּלָה בְּמֶכֶר זָהָב וּבִכְתָב עוֹלָם לַאֲחֻזַּת עוֹלָם. ״וַיִּשְׁמַע אַבְרָהָם אֶל עֶפְרוֹן״.
Nota — possuir a terra com justiça. Esta é a chave das alianças dos patriarcas: a terra é adquirida com direito, não só pela força. Avraham compra a caverna de Machpelá pagando o preço integral, registrado por escrito; e David, mais tarde, compra o lugar do Templo por seiscentos siclos, sem tomá-lo à força. O midrash explica assim por que Jerusalém, a Filístia e Aram só vieram a Israel nos dias de David: a aquisição justa, o respeito ao juramento e a compra honesta precedem a posse. Mesmo a terra prometida se recebe com retidão.
18
Que fizeram os homens de Yevus? Fizeram estátuas de bronze e as ergueram na praça da cidade, e escreveram sobre elas o juramento de Avraham. E, quando Israel veio, quis entrar na cidade dos yevusitas e não pôde, por causa da aliança de Avraham, como está dito: “e os yevusitas, habitantes de Jerusalém, os filhos de Israel não os desalojaram” (Yehoshua 15:63). E, quando reinou David, quis entrar na cidade dos yevusitas e não o deixaram, como está dito: “e falaram a David, dizendo: não entrarás aqui” (Shmuel II 5:6).
מָה עָשׂוּ אַנְשֵׁי יְבוּס? עָשׂוּ צַלְמֵי נְחֹשֶׁת וְהֶעֱמִידוּ אוֹתָם בִּרְחוֹב הָעִיר, וְכָתְבוּ עֲלֵיהֶם שְׁבוּעַת אַבְרָהָם. וּכְשֶׁבָּאוּ יִשְׂרָאֵל רָצוּ לְהִכָּנֵס בָּעִיר הַיְבוּסִי וְלֹא הָיָה יָכוֹל מִפְּנֵי בְּרִית אַבְרָהָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאֶת הַיְבוּסִי יֹשְׁבֵי יְרוּשָׁלִַם לֹא הוֹרִישׁוּ בְּנֵי יִשְׂרָאֵל״. וּכְשֶׁמָּלַךְ דָּוִד בִּקֵּשׁ לְהִכָּנֵס לְעִיר הַיְבוּסִי וְלֹא הִנִּיחוּ אוֹתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר לְדָוִד לֹא תָבֹא הֵנָּה״ וְכוּ'.
19
E Israel era numeroso como a areia do mar; mas, pela força do juramento e da aliança de Avraham, David viu as estátuas e recuou, como está dito: “e habitou David na fortaleza” etc. (Shmuel II 5:9). E não se podia entrar na cidade dos yevusitas senão removendo todas aquelas estátuas, sobre as quais estava escrito o juramento do sinal da aliança de Avraham, como está dito: “a menos que removas os ‘cegos e coxos’” (Shmuel II 5:6) — não que pessoas cegas e coxas não entrassem no Templo, D’us nos livre, mas são estas as estátuas que “têm olhos e não veem, têm pés e não andam” (cf. Tehilim 115); “os aborrecidos da alma de David” — pois David aborrecia ouvir e ver a idolatria, como está dito: “por isso se diz: o cego e o coxo não entrarão na casa” (Shmuel II 5:8).
וְהָיוּ יִשְׂרָאֵל כְּחוֹל הַיָּם, אֶלָּא בְּכֹחַ הַשְּׁבוּעָה וּבְרִית אַבְרָהָם רָאָה דָוִד וְחָזַר לַאֲחוֹרָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּשֶׁב דָּוִד בַּמְּצוּדָה״ וְכוּ'. וְאֵין אַתָּה יָכוֹל לִיכָּנֵס בָּעִיר הַיְבוּסִי עַד שֶׁהִתִּיר כָּל הַצְּלָמִים הַלָּלוּ שֶׁכָּתוּב עֲלֵיהֶם שְׁבוּעַת אוֹת בְּרִית אַבְרָהָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי אִם הֲסִירְךָ הָעִוְרִים וְהַפִּסְחִים״. לֹא הָיוּ נִכְנָסִים בַּמִּקְדָּשׁ חַס וְשָׁלוֹם, אֶלָּא אֵלּוּ הַצְּלָמִים שֶׁעֵינַיִם לָהֶם וְלֹא יִרְאוּ, רֶגֶל לָהֶם וְלֹא יְהַלֵּכוּ. שֶׁנֶּאֱמַר: ״שְׂנוּאֵי נֶפֶשׁ דָּוִד״ – שֶׁהָיָה דָוִד שׂוֹנֵא לִשְׁמֹעַ וְלִרְאוֹת עֲבוֹדָה זָרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עַל כֵּן יֹאמְרוּ עִוֵּר וּפִסֵּחַ״.
20
Disse David aos seus homens: “aquele que subir primeiro e remover estas estátuas, sobre as quais está escrito o sinal da aliança do juramento de Avraham, será chefe”. E subiu primeiro Yoav ben Tzeruyá, e tornou-se chefe. E depois comprou a cidade dos yevusitas para Israel, por venda em ouro e por escrito perpétuo, como propriedade eterna. Que fez? Tomou de cada tribo cinquenta siclos, perfazendo ao todo seiscentos siclos, como está dito: “e deu David a Arnán pelo lugar seiscentos siclos de ouro de peso” (Divrei haYamim I 21:25).
אָמַר דָּוִד לַאֲנָשָׁיו: ״כָּל מִי שֶׁיַּעֲלֶה בָּרִאשׁוֹנָה וְיָסִיר אֶת הַצְּלָמִים הַלָּלוּ שֶׁכָּתוּב עֲלֵיהֶם אוֹת בְּרִית שְׁבוּעַת אַבְרָהָם – יִהְיֶה לְרֹאשׁ״. וְעָלָה בָּרִאשׁוֹנָה יוֹאָב בֶּן צְרוּיָה וַיְהִי לְרֹאשׁ. וְאַחַר כָּךְ קָנָה אֶת עִיר הַיְבוּסִי לְיִשְׂרָאֵל בְּמֶכֶר זָהָב וּבִכְתָב עוֹלָם לַאֲחֻזַּת עוֹלָם. מֶה עָשָׂה? לָקַח מִכָּל שֵׁבֶט חֲמִשִּׁים שְׁקָלִים, הֲרֵי כֻּלָּם שֵׁשׁ מֵאוֹת שְׁקָלִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּתֵּן דָּוִד לְאָרְנָן״.
21
E Yitzchak firmou aliança com os povos da terra quando habitou na terra dos filisteus. Viu que eles haviam voltado o rosto contra ele, e saiu deles em paz; e foram atrás dele Avimélech e todos os seus grandes. Disse-lhes: “voltastes o vosso rosto contra mim, e agora vindes a mim?”, como está dito: “e disse-lhes Yitzchak: por que viestes a mim ...?” (Bereshit 26:27); “vimos claramente que o Eterno estava contigo” (Bereshit 26:28). Disseram: “sabemos que o Santo, bendito seja, há de dar à tua descendência todas estas terras; firma conosco aliança de juramento de que Israel não tomará a terra dos filisteus”. Que fez Yitzchak? Cortou um pedaço (uma “ama”) do freio do jumento sobre o qual cavalgava e lho deu por sinal da aliança do juramento.
וְיִצְחָק כָּרַת בְּרִית עִם עַמֵּי הָאָרֶץ כְּשֶׁגָּר בְּאֶרֶץ פְּלִשְׁתִּים. רָאָה אוֹתָם שֶׁהָפְכוּ פְנֵיהֶם וְיָצָא מֵהֶם בְּשָׁלוֹם וְהָלְכוּ אַחֲרָיו אֲבִימֶלֶךְ וְכָל גְּדוֹלָיו, אָמַר לָהֶם: ״הֲפַכְתֶּם אַתֶּם אֶת פְּנֵיכֶם מִמֶּנִּי וְעַכְשָׁיו בָּאתֶם אֵלַי״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר אֲלֵהֶם יִצְחָק מַדּוּעַ בָּאתֶם אֵלַי״ וְכוּ' ״רָאֹה רָאִינוּ כִּי הָיָה ה' עִמָּךְ״. אָמְרוּ: ״אָנוּ יוֹדְעִים שֶׁעָתִיד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לִיתֵּן לְזַרְעֲךָ אֶת כָּל הָאֲרָצוֹת הָאֵלֶּה, כְּרֹת עִמָּנוּ בְּרִית שְׁבוּעָה שֶׁאֵין לְיִשְׂרָאֵל יוֹרְשִׁין אֶת אֶרֶץ פְּלִשְׁתִּים״. מֶה עָשָׂה יִצְחָק? כָּרַת אַמָּה מִמֶּתֶג הַחֲמוֹר שֶׁהָיָה רוֹכֵב עָלָיו וְנָתַן לוֹ לְאוֹת בְּרִית שְׁבוּעָה.
22
E, quando reinou David, quis entrar na terra dos filisteus, e não pôde por causa da aliança de Yitzchak, até que tomou deles o sinal da aliança do juramento de Yitzchak, como está dito: “e tomou David o Méteg-Amá da mão dos filisteus” (Shmuel II 8:1); “da mão dos filisteus”, como está dito: “e foram subjugados os filisteus, e não tornaram mais a entrar no território de Israel” (Shmuel I 7:13).
וּכְשֶׁמָּלַךְ דָּוִד רָצָה לָבֹא בְּאֶרֶץ פְּלִשְׁתִּים, וְלֹא הָיָה יָכוֹל מִפְּנֵי בְּרִית יִצְחָק, עַד שֶׁלָּקַח מֵהֶם אוֹת בְּרִית שְׁבוּעַת יִצְחָק, שֶׁנֶּאֱמַר (שמואל ב ח, א) ״וַיִּקַּח דָּוִד אֶת מֶתֶג הָאַמָּה מִיַּד פְּלִשְׁתִּים״ מִיַּד פְּלִשְׁתִּים, שֶׁנֶּאֱמַר (שמואל א ז, יג) ״וַיִּכָּנְעוּ הַפְּלִשְׁתִּים וְלֹא (יכלו) [יָסְפוּ] עוֹד לָבוֹא בִּגְבוּל יִשְׂרָאֵל״.
23
Yaakov firmou aliança com os povos da terra, pois Lavan lhe disse: “sei que o Santo, bendito seja, há de dar à tua descendência todas estas terras; firma comigo aliança de juramento de que Israel não tomará a terra de Aram”. Firmou com ele aliança de juramento e ergueu-lhe uma estela de pedras e trouxe os seus filhos consigo na aliança do juramento, como está dito: “e disse Yaakov a seus irmãos: ajuntai pedras” (Bereshit 31:46) — e acaso eram seus irmãos? Não eram seus filhos? Mas vem ensinar-te que os filhos de uma pessoa são como os seus irmãos. Disse Lavan a Yaakov: “se Israel herdar estas terras, que não venham à terra de Aram para fazer mal”, como está dito: “que eu não passarei a ti este montão para o mal” (Bereshit 31:52).
יַעֲקֹב כָּרַת בְּרִית עִם עַמֵּי הָאָרֶץ, שֶׁאָמַר לוֹ לָבָן: ״יוֹדֵעַ אֲנִי שֶׁהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עָתִיד לִיתֵּן לְזַרְעֲךָ אֶת כָּל הָאֲרָצוֹת הָאֵל, תִּכְרֹת עִמִּי בְּרִית שְׁבוּעָה שֶׁאֵין יִשְׂרָאֵל יוֹרְשִׁין אֶת אֶרֶץ אֲרָם״. כָּרַת עִמּוֹ בְּרִית שְׁבוּעָה וְהִצִּיב לוֹ מַצֶּבֶת אֲבָנִים וְהֵבִיא אֶת בָּנָיו עִמּוֹ בִּבְרִית שְׁבוּעָה, שֶׁנֶּאֱמַר (בראשית לא, מו): ״וַיֹּאמֶר יַעֲקֹב לְאֶחָיו לִקְטוּ אֲבָנִים״. וְכִי אֶחָיו הָיוּ? וַהֲלֹא בָּנָיו הָיוּ! אֶלָּא לְלַמֶּדְךָ שֶׁבָּנָיו שֶׁל אָדָם כְּאֶחָיו. אָמַר לוֹ לָבָן לְיַעֲקֹב: ״אִם יִשְׂרָאֵל יוֹרְשִׁין אֶת הָאֲרָצוֹת הָאֵלֶּה אַל יָבֹאוּ בְּאֶרֶץ אֲרָם לְרָעָה״, שֶׁנֶּאֱמַר (בראשית לא, נב): ״אִם אָנִי לֹא אֶעֱבֹר אֵלֶיךָ אֶת הַגַּל הַזֶּה״.
24
E, quando reinou David, quis entrar na terra de Aram, e não pôde pela força da aliança do juramento de Yaakov, até que quebrou aquela estela (matzevá); e sobre isto disse Moshe, nosso mestre, sobre ele a paz: “despedaçarás as suas estelas” (Shemot 23:24); e só depois conquistou a terra de Aram, como está dito: “e feriu David a Hadadézer, filho de Rechov, rei de Tzová” (Shmuel II 8:3).
וּכְשֶׁמָּלַךְ דָּוִד רָצָה לָבוֹא בְּאֶרֶץ אֲרָם, וְלֹא יָכוֹל מִכֹּחַ בְּרִית שְׁבוּעַת יַעֲקֹב, עַד שֶׁשָּׁבַר אֶת הַמַּצֵּבָה הַהִיא, וְעָלָיו אָמַר מֹשֶׁה רַבֵּנוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם (שמות כג, כד) ״שַׁבֵּר תְּשַׁבֵּר מַצֵּבֹתֵיהֶם״, וְאַחַר כָּךְ כָּבַשׁ אֶרֶץ אֲרָם, שֶׁנֶּאֱמַר (שמואל ב ח, ג) ״וַיַּךְ דָּוִד אֶת הֲדַדְעֶזֶר בֶּן רְחֹב מֶלֶךְ צוֹבָה״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A providência e os laços de bondade

O capítulo abre com Yaakov chegando a Charan “sem tropeçar” — e os sábios veem nisso a mão da providência, que prepara o caminho do justo (Rav Huna) e abençoa o lugar onde ele está. A hospitalidade dos homens do lugar, que prestam chéssed a Yaakov, é recompensada; e dos versículos sobre Lavan extrai-se a lição dos laços de família que se estendem — o sobrinho como filho, o filho do irmão como irmão. A Torá tece uma rede de responsabilidade mútua.

O nascimento das tribos

Dos anos de Yaakov com Lavan nasce o povo: as doze tribos. A tradição lê com cuidado cada nome — a gratidão de Leá em “Reuven”, o “juízo” em “Diná” — porque a história de Israel começa nessas vidas concretas. Os casamentos, as alegrias e as dores dessa casa são o alicerce humano da nação.

Os terafim e a coragem de Rachel

A descrição sombria dos terafim serve para condenar a idolatria, não para aprová-la: a Torá proíbe a idolatria, a necromancia e o derramamento de sangue. E o gesto de Rachel é de coragem — furta os ídolos para livrar a casa do pai da idolatria. O capítulo encerra esse episódio com uma advertência sobre a fala: a palavra de Yaakov, dita sem saber, recai trágica sobre Rachel — lembrando que as palavras têm peso real, mesmo as involuntárias.

As alianças dos pais e a posse com justiça

A segunda metade do capítulo é uma só lição: a terra se recebe com direito. Avraham paga o preço integral por Machpelá; David compra o lugar do Templo sem o tomar à força; os patriarcas firmam alianças e juramentos com os povos da terra, que só se desfazem, mais tarde, quando ligados à idolatria. O midrash ensina que mesmo a terra prometida por D’us deve ser possuída com retidão, juramento honrado e compra justa — a santidade não dispensa a justiça.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 37

A luta de Yaakov e o reencontro com Esav

פֶּרֶק ל״ז

A caminho de casa, Yaakov enfrenta dois perigos — Lavan atrás, Esav adiante. Na noite junto ao Yabok, luta com um “homem” misterioso até a aurora e dela sai com um novo nome, Israel — “o que luta com D’us e prevalece” — e com uma ferida que se torna memorial. Depois reencontra Esav, e sobrevive pela humildade e pela prudência.

1
“Como quando alguém foge de diante do leão, e o encontra o urso; ou, entrando em casa, encosta a mão na parede, e o morde uma serpente” (Amós 5:19). “O leão” é Lavan, que o perseguiu como um leão para arrebatar a sua vida; e “o urso” é Esav, que se pôs no seu caminho como um urso, para matar a mãe sobre os filhos. E o leão tem alguma vergonha no rosto, mas o urso não tem vergonha alguma. Levantou-se Yaakov e orava diante do Santo, bendito seja, e disse: “Senhor de todos os mundos, não me disseste assim: ‘volta à terra de teus pais e à tua pátria, e Eu estarei contigo’?”.
״כַּאֲשֶׁר יָנוּס אִישׁ מִפְּנֵי הָאֲרִי וּפְגָעוֹ הַדֹּב וּבָא הַבַּיִת וְסָמַךְ יָדוֹ עַל הַקִּיר וּנְשָׁכוֹ הַנָּחָשׁ״ (עמוס ה, יט). ״הָאֲרִי״ זֶה לָבָן שֶׁרָדַף אַחֲרָיו כְּאַרְיֵה לַחֲטֹף אֶת נַפְשׁוֹ, וְ״הַדֹּב״ זֶה עֵשָׂו שֶׁעָמַד לוֹ עַל דֶּרֶךְ כְּדֹב לְהָמִית הָאֵם עַל הַבָּנִים, וַאֲרִי יֵשׁ בּוֹ בֹּשֶׁת פָּנִים וְהַדֹּב אֵין בּוֹ בֹּשֶׁת פָּנִים. עָמַד יַעֲקֹב וְהָיָה מִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאָמַר: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים לֹא כָּךְ אָמַרְתָּ לִי ״שׁוּב אֶל אֶרֶץ אֲבוֹתֶיךָ וְאֶל אֶרֶץ מוֹלַדְתְּךָ וְאֶהְיֶה עִמָּךְ״?
2
“E eis que Esav, o ímpio, vem para me matar, e ele não Te teme — e eu o temo a ele!” Daqui disseram: não temas tanto o homem que é oficial e governante quanto o homem em quem não há temor do Céu. E Esav pôs-se no seu caminho como um urso desfilhado, para matar a mãe sobre os filhos.
וַהֲלֹא עֵשָׂו הָרָשָׁע בָּא לְהָרְגֵנִי, וְאֵינוֹ מִתְיָרֵא מִמְּךָ וַאֲנִי מִתְיָרֵא מִמֶּנּוּ. מִכָּאן אָמְרוּ: אַל תִּתְיָרֵא מִפְּנֵי אִישׁ שׁוֹטֵר וּמוֹשֵׁל אֶלָּא מִפְּנֵי אִישׁ שֶׁאֵין בּוֹ יִרְאַת שָׁמַיִם. וְעָמַד לוֹ עַל הַדֶּרֶךְ כְּדֹב שַׁכּוּל לְהָמִית אֵם עַל הַבָּנִים.
Nota — a quem se deve temer. Yaakov teme Esav, que “não teme a D’us”, e daqui os sábios extraem um ensino agudo: não é o poderoso, o oficial ou o governante que mais se deve temer, mas aquele em quem não há temor do Céu — pois quem não tem freio moral é capaz de tudo. A verdadeira ameaça não é a força, mas a ausência de consciência. (Na tradição, “Esav/Edom” veio a designar o poder imperial hostil — Roma e seus herdeiros —, e não um povo vivo de hoje: o contraste é moral.)
3
Que fez o Santo, bendito seja? Enviou-lhe um anjo para o socorrer, para o livrar da mão de Esav, e o anjo apareceu-lhe como um homem, como está dito: “e lutou um homem com ele até subir a aurora” (Bereshit 32:25). E, quando subiu a coluna da aurora, disse-lhe o anjo: “deixa-me ir, pois chegou a hora de eu me apresentar para servir e dizer o cântico diante do Santo, bendito seja”; mas Yaakov não quis deixá-lo ir. Que fez o anjo? Começou a cantar já desde a terra. E, quando os seres supernos ouviram a voz do anjo, que cantava e entoava desde a terra, disseram: “é por causa da honra do justo que ouvimos daqui o anjo”. E sobre isto diz o versículo: “desde a extremidade da terra ouvimos cânticos: glória ao justo” (Yeshayá 24:16).
מָה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? שָׁלַח לוֹ מַלְאָךְ לְהוֹשִׁיעוֹ, לְהַצִּילוֹ מִיַּד עֵשָׂו, וְנִרְאָה לוֹ כְּאִישׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּאָבֵק אִישׁ עִמּוֹ עַד עֲלוֹת הַשָּׁחַר״. וְכֵיוָן שֶׁעָלָה עַמּוּד הַשַּׁחַר, אָמַר לוֹ הַמַּלְאָךְ: ״שַׁלְּחֵנִי, שֶׁהִגִּיעַ עֵת עֲמִידָתִי לְשָׁרֵת לוֹמַר לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שִׁירָה״, וְלֹא רָצָה לְשַׁלְּחוֹ. מָה עָשָׂה הַמַּלְאָךְ? הִתְחִיל לְשׁוֹרֵר מִן הָאָרֶץ. וּכְשֶׁשָּׁמְעוּ הָעֶלְיוֹנִים אֶת קוֹל הַמַּלְאָךְ שֶׁהוּא מְשׁוֹרֵר וּמְזַמֵּר מִן הָאָרֶץ, אָמְרוּ: ״בִּשְׁבִיל כְּבוֹד הַצַּדִּיק אָנוּ שׁוֹמְעִין הַמַּלְאָךְ״. וְעָלָיו הַכָּתוּב אוֹמֵר (ישעיהו כד, טז): ״מִכְּנַף הָאָרֶץ זְמִרֹת שָׁמַעְנוּ צְבִי לַצַּדִּיק״.
4
E de novo lhe disse o anjo: “deixa-me ir”. Disse-lhe Yaakov: “não te deixarei ir, a menos que me abençoes”, como está escrito: “e ali o abençoou” (Bereshit 32:30). E ainda lhe disse: “não te deixarei ir, a menos que me digas qual é o teu nome”; e foi-lhe declarado que o seu nome de Yaakov seria chamado Israel. Quis Yaakov sobrepujar o anjo, e o derrubou em terra. Que fez o anjo? Tocou no nervo ciático (gid hanashe) e o deixou insensível. Por isso é proibido aos filhos de Israel comer o nervo ciático que está sobre a articulação da coxa, como está dito: “por isso os filhos de Israel não comem o nervo ciático” (Bereshit 32:33).
וְעוֹד אָמַר לוֹ: ״שַׁלְּחֵנִי״. אָמַר לוֹ: ״אֵינִי מְשַׁלֵּחֲךָ עַד שֶׁתְּבָרְכֵנִי״, הָדָא הוּא דִּכְתִיב ״וַיְבָרֶךְ אֹתוֹ שָׁם״. וְעוֹד אָמַר לוֹ: ״אֵינִי מְשַׁלֵּחֲךָ עַד שֶׁתֹּאמַר לִי מַה שְּׁמֶךָ״, וַיִּקְרָא אֶת שְׁמוֹ יִשְׂרָאֵל כִּשְׁמוֹ שֶׁנִּקְרָא שְׁמוֹ יִשְׂרָאֵל. רָצָה לְהִתְגַּבֵּר עִם הַמַּלְאָךְ וְהִפִּילוֹ לָאָרֶץ. מֶה עָשָׂה הַמַּלְאָךְ? אָחַז בְּגִיד הַנָּשֶׁה וְעָשָׂה כְּחֵלֶב הַמֵּת. לְפִיכָךְ אָסוּר לִבְנֵי יִשְׂרָאֵל לֶאֱכֹל גִּיד הַנָּשֶׁה שֶׁעַל כַּף הַיָּרֵךְ, שֶׁנֶּאֱמַר ״עַל כֵּן לֹא יֹאכְלוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל אֶת גִּיד הַנָּשֶׁה״.
Nota — a luta noturna e o nome Israel. Yaakov luta a noite inteira com um “homem” e dela sai transformado: recebe o nome Israel — “o que luta com D’us e com os homens e prevalece” (Bereshit 32:29). Na leitura racionalista, o “anjo” é uma força, e a luta é também a luta interior do justo que enfrenta o medo e o adversário e não desiste, exigindo até a bênção. A ferida no nervo ciático (gid hanashe) torna-se um memorial perpétuo: Israel sai ferido, mas vivo — marcado pela luta e dela vitorioso.
5
Quis Yaakov atravessar o vau do Yabok e ali deter-se; disse-lhe o anjo: “não me disseste assim: ‘de tudo o que me deres, certamente Te darei o dízimo’ (Bereshit 28:22)?”. Que fez Yaakov? Tomou o gado da sua aquisição, que trouxera de Padan-Aram, e separou o dízimo das cinco mil e quinhentas cabeças. E ainda disse o anjo a Yaakov: “Yaakov, não deste o dízimo de tudo — pois tens filhos e não os dizimaste!”. Que fez Yaakov? Separou quatro primogênitos, das quatro mães que não entram na conta, e restaram oito filhos. Começou a contar de Shimon e terminou em Binyamin, que ainda estava no ventre de sua mãe; e, na contagem, subiu Levi como o dízimo, santo ao Eterno, como está dito: “o décimo será santo ao Eterno” (Vayikrá 27:32).
רָצָה לַעֲבוֹר יַעֲקֹב אֶת מַעֲבַר יַבֹּק וּלְהִתְעַכֵּב שָׁם, אָמַר לוֹ הַמַּלְאָךְ: לֹא כָּךְ אָמַרְתָּ לִי ״וְכֹל אֲשֶׁר תִּתֶּן לִי עַשֵּׂר אֲעַשְּׂרֶנּוּ לָךְ״? מֶה עָשָׂה יַעֲקֹב? לָקַח אֶת מִקְנֵה קִנְיָנוֹ שֶׁהֵבִיא מִפַּדַּן אֲרָם מֵחֲמִשָּׁה אֲלָפִים וַחֲמֵשׁ מֵאוֹת. וְעוֹד אָמַר הַמַּלְאָךְ לְיַעֲקֹב: ״יַעֲקֹב, לֹא נָתַתָּ מַעֲשֵׂר מִכֹּל, וַהֲלֹא יֵשׁ לְךָ בָּנִים וְלֹא עִשַּׂרְתָּ אוֹתָם לִי!״ מֶה עָשָׂה יַעֲקֹב? הִפְרִישׁ אַרְבָּעָה בְּכוֹרוֹת לְאַרְבַּע אִמָּהוֹת, וְנִשְׁתַּיְּרוּ שְׁמוֹנָה בָּנִים. הִתְחִיל מִשִּׁמְעוֹן וְגָמַר בְּבִנְיָמִין שֶׁבִּמְעֵי אִמּוֹ. וְעוֹד הִתְחִיל מִשִּׁמְעוֹן וְעָלָה לֵוִי מַעֲשֵׂר קֹדֶשׁ לַה', שֶׁנֶּאֱמַר ״הָעֲשִׂירִי יִהְיֶה קֹדֶשׁ לַה'״.
6
Rabi Yishmael diz: quanto à conta, Yaakov não dizimou senão de trás para diante: começou de Binyamin, que estava no ventre de sua mãe, e assim subiu Levi como santo ao Eterno.
רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: כָּל הַבְּכוֹרוֹת כְּשֶׁהֵן שְׁמִירַת הָעַיִן חַיָּבִין לְהִתְעַשֵּׂר מַעֲשֵׂר, וְלֹא עִשֵּׂר יַעֲקֹב אֶלָּא לְמַפְרֵעַ. הִתְחִיל מִבִּנְיָמִין שֶׁבִּמְעֵי אִמּוֹ, וְעָלָה לֵוִי קֹדֶשׁ לַה'.
7
Desceu o anjo Michael e tomou Levi e o elevou diante do Santo, bendito seja, e disse perante Ele: “Senhor de todos os mundos, este é o Teu quinhão e a Tua porção do dízimo”. E estendeu o Santo, bendito seja, a Sua mão direita e declarou que Levi e os seus filhos seriam ministros diante Dele na terra, como os anjos do serviço nos céus. Disse Michael diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, e os que servem ao rei, não lhes dá ele o sustento do seu alimento?”. Por isso deu aos filhos de Levi todo dom santo que subisse oferecido ao Seu nome, como está dito: “as oferendas do Eterno e a sua herança comerão” (Devarim 18:1).
יָרַד מִיכָאֵל הַמַּלְאָךְ וְנָטַל לֵוִי וְהֶעֱלָה לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, זֶה הוּא גּוֹרָלְךָ וְחֶלְקְךָ מִמַּעֲשֵׂר״. וּפָשַׁט הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא יַד יְמִינוֹ וְאָמַר שֶׁיִּהְיוּ לֵוִי וּבָנָיו מְשָׁרְתִים לְפָנָיו בָּאָרֶץ כְּמַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת בַּשָּׁמַיִם. אָמַר מִיכָאֵל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, הַמְּשָׁרְתִים לַמֶּלֶךְ אֵינוֹ נוֹתֵן לָהֶם טֶרֶף מְזוֹנָם?״ לְפִיכָךְ נָתַן לָהֶם לִבְנֵי לֵוִי כָּל קֹדֶשׁ שֶׁעָלָה לִשְׁמוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אִשֵּׁי ה' וְנַחֲלָתוֹ יֹאכֵלוּן״.
Nota — a escolha de Levi e o serviço. O “dízimo dos filhos” recai sobre Levi, que se torna a tribo do serviço — sacerdotes e levitas, dedicados a D’us “como os anjos do serviço”. Por isso a tribo de Levi não recebe quinhão de terra: “as oferendas do Eterno e a sua herança comerão” — D’us é a sua porção. A tradição vê aqui a dignidade da vida consagrada: quem se dedica inteiramente ao serviço do Céu é sustentado pela comunidade, e o seu “salário” é a própria proximidade de D’us.
8
Quando Yaakov passou para entrar na terra de Canaã, veio sobre ele Esav, do monte Seir, com fúria, tramando matá-lo, como está dito: “o ímpio trama contra o justo” (Tehilim 37:12). Disse Esav: “não matarei Yaakov com flechas e arco, mas com a boca o matarei e sugarei o seu sangue”, como está dito: “e correu Esav ao seu encontro e o beijou (vayishakehu)” (Bereshit 33:4) — não leias “vayishakehu” (beijou-o), mas “vayishachehu” (mordeu-o). E o pescoço de Yaakov tornou-se duro como uma coluna — “o teu pescoço é como a torre de marfim” (Shir haShirim 7:5) —, e embotaram-se os dentes daquele ímpio. E, vendo que não lograra o seu desejo, começou a irar-se e a ranger os dentes, como está dito: “o ímpio o verá e se irará, rangerá os dentes e se consumirá” (Tehilim 112:10).
כְּשֶׁעָבַר לָבֹא בְּאֶרֶץ כְּנַעַן, בָּא עָלָיו עֵשָׂו מֵהַר שֵׂעִיר בְּזַעַף אַף זוֹמֵם לְהָרְגוֹ שֶׁנֶּאֱמַר: ״זֹמֵם רָשָׁע לַצַּדִּיק״. אָמַר עֵשָׂו: ״אֵינִי הוֹרֵג אֶת יַעֲקֹב בְּחִצִּים וּבְקֶשֶׁת אֶלָּא בְּפִי אֲנִי הוֹרְגוֹ וּמוֹצֵץ אֶת דָּמוֹ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּרָץ עֵשָׂו לִקְרָאתוֹ וַיִּשָּׁקֵהוּ״. אַל תְּהִי קוֹרֵא ״וַיִּשָּׁקֵהוּ״ אֶלָּא ״וַיִּשָּׁכֵהוּ״. וְנַעֲשָׂה צַוָּארוֹ עַמּוּד ״כְּמִגְדַּל הַשֵּׁן צַוָּארֵךְ״, וְקָהוּ שִׁנָּיו שֶׁל אוֹתוֹ רָשָׁע. וְכֵיוָן שֶׁרָאָה שֶׁלֹּא עָלְתָה בְיָדוֹ תַּאֲוָתוֹ, הִתְחִיל כּוֹעֵס וְחוֹרֵק בְּשִׁנָּיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״רָשָׁע יִרְאֶה וְכָעָס שִׁנָּיו יַחֲרֹק וְנָמָס״.
Nota — o “beijo” que é mordida. A leitura de “beijou-o” (vayishakehu) como “mordeu-o” (vayishachehu) exprime, na linguagem da aggadá, a hostilidade de Esav sob a aparência de afeto. É a figura do inimigo cujo abraço esconde a agressão. A tradição não celebra violência alguma: lê com honestidade o ódio de Esav e mostra que Yaakov é protegido — mas a sua arma é a oração e a prudência, não a vingança (cf. o cap. 32, “a voz é a voz de Yaakov”).
9
E tomou Yaakov todo o dízimo da sua aquisição que trouxera de Padan-Aram, e o enviou pela mão dos seus servos, e o deu a Esav. Disse-lhes: “dizei-lhe: assim diz o teu servo Yaakov”. Disse o Santo, bendito seja: “Yaakov, tornaste profano o que era santo chamando-te servo de Esav!”. Disse perante Ele: “Senhor de todos os mundos, eu lisonjeio o ímpio para que não me mate!”. Daqui disseram: lisonjeia-se com cautela os ímpios neste mundo, por causa dos caminhos da paz (darchei shalom). Disse-lhe o Santo, bendito seja: “não te bastou tornares-te a ti mesmo profano? Eu disse ‘o maior servirá o menor’, e tu disseste ‘o teu servo Yaakov’? Pela tua vida: seja conforme as tuas palavras — ele dominará sobre ti neste mundo, e tu dominarás sobre ele no mundo vindouro”. Por isso disse Yaakov a Esav: “passe o meu senhor adiante do seu servo” (Bereshit 33:14). Daqui aprendes que os filhos de Esav não cairão até que venha um remanescente de Yaakov, como está dito: “e dominará um de Yaakov” (Bemidbar 24:19), e diz: “e não haverá remanescente para a casa de Esav, porque o Eterno falou” (Ovadiá 1:18).
וְלָקַח יַעֲקֹב אֶת כָּל מַעְשַׂר קִנְיָנוֹ שֶׁהֵבִיא מִפַּדַּן אֲרָם וְשָׁלַח בְּיַד עֲבָדָיו וְנָתַן לְעֵשָׂו. אָמַר לָהֶם: ״אִמְרוּ לוֹ: 'כֹּה אָמַר עַבְדְּךָ יַעֲקֹב'״. אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״יַעֲקֹב, עָשִׂיתָ הַקֹּדֶשׁ חוֹל!״ אָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, אֲנִי מַחֲנִיף לָרָשָׁע בִּשְׁבִיל שֶׁלֹּא יַהַרְגֵנִי!״ מִכָּאן אָמְרוּ: מַחֲנִיפִין אֶת הָרְשָׁעִים בָּעוֹלָם הַזֶּה מִפְּנֵי דַרְכֵי שָׁלוֹם. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״לֹא דַּיֶּךָ שֶׁעָשִׂיתָ אֶת עַצְמְךָ הַקֹּדֶשׁ חוֹל, אֶלָּא שֶׁאָמַרְתִּי 'וְרַב יַעֲבֹד צָעִיר', וְאַתָּה אָמַרְתָּ 'עַבְדְּךָ יַעֲקֹב'? חַיֶּיךָ, כִּדְבָרֶיךָ יִהְיֶה. הוּא יִמְשֹׁל עָלֶיךָ בָּעוֹלָם הַזֶּה וְאַתָּה תִּהְיֶה מוֹשֵׁל עָלָיו בָּעוֹלָם הַבָּא״. לְפִיכָךְ אָמַר לוֹ יַעֲקֹב: ״יַעֲבָר נָא אֲדֹנִי לִפְנֵי עַבְדּוֹ״. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁאֵין בְּנֵי עֵשָׂו נוֹפְלִים עַד שֶׁיָּבֹא שָׂרִיד מִיַּעֲקֹב וִיקַבֵּץ רַגְלֵיהֶם שֶׁל בְּנֵי עֵשָׂו מֵהַר שֵׂעִיר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְיֵרְדְּ מִיַּעֲקֹב״ (במדבר כד, יט), וְאוֹמֵר: ״וְלֹא יִהְיֶה שָׂרִיד לְבֵית עֵשָׂו כִּי ה' דִּבֵּר״ (עובדיה א, יח).
Nota — lisonjear o ímpio “pelos caminhos da paz”. Yaakov chama-se “servo” de Esav e lhe envia presentes — e a tradição admite que se pode lisonjear o malfeitor, com cautela, para evitar o derramamento de sangue (darchei shalom): a prudência que preserva a vida é legítima. Mas há uma repreensão delicada de D’us: Yaakov não devia rebaixar-se em excesso nem inverter a ordem da bênção. O equilíbrio é fino — prudência sem servilismo, humildade sem perder a dignidade. (Sobre “Esav/Edom”, ver a nota acima.)

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

O leão e o urso: entre dois perigos

O capítulo abre com o versículo de Amós — o que foge do leão encontra o urso —, lido como a situação de Yaakov: Lavan atrás, Esav adiante. E a sua resposta é a oração. Daqui os sábios extraem o ensino sobre o temor: deve-se recear, mais do que o poderoso, aquele “em quem não há temor do Céu”, pois é a ausência de freio moral, e não a força, que torna alguém perigoso.

A luta e o nome Israel

A luta noturna junto ao Yabok é uma das cenas fundadoras do povo. Para a leitura racionalista, é a imagem da luta do justo — interior e exterior — que enfrenta o medo e o adversário e prevalece, ganhando o nome “Israel”. Sai ferido (o gid hanashe, memorial perpétuo na alimentação de Israel), mas vivo e abençoado. A vitória não é a do mais forte, mas a do que não desiste e exige até a bênção.

O dízimo e a tribo de Levi

O episódio do dízimo dos filhos culmina na escolha de Levi para o serviço de D’us. A tribo dedicada não recebe terra: “D’us é a sua herança”. A tradição vê aqui a nobreza da vida consagrada — sustentada pela comunidade, voltada inteiramente ao sagrado — e o princípio de que quem serve é mantido com dignidade.

O reencontro: prudência e dignidade

Diante de Esav, Yaakov sobrevive não pela espada, mas pela humildade, pelos presentes e pela oração. A tradição admite a prudência de “lisonjear o ímpio pelos caminhos da paz” para evitar a violência — mas a suave repreensão de D’us marca o limite: não rebaixar-se em excesso. O capítulo, em chave moral, opõe a “voz de Yaakov” às “mãos de Esav”, e confia que, no fim, a justiça prevalece.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 38

Diná, a venda de Yossef e a força do cherem

פֶּרֶק ל״ח

Um capítulo longo, que entrelaça três fios: a tragédia de Diná e o zelo de Shimon e Levi; a morte de Yitzchak e a separação de Yaakov e Esav; e, sobretudo, a venda de Yossef e a grave força do cherem — o anátema, que é como um juramento —, traçada de Achan a Shaul e até a antiga ruptura com os kutim.

1
Está escrito: “e, entrando em casa, encosta a mão na parede, e o morde a serpente” (Amós 5:19). E, quando Yaakov chegou à terra da sua propriedade, em Canaã, mordeu-o a serpente. E quem é essa serpente? É Shechem, filho de Chamor. Pois a filha de Yaakov Diná habitava nas tendas e não saía para fora. Que fez Shechem, filho de Chamor? Trouxe moças que dançavam e tocavam tamborins do lado de fora. E saiu Diná para ver as filhas da terra que dançavam, e ele a violentou e a forçou; e ela concebeu e deu à luz Asnat. E alguns dos filhos de Israel quiseram matar a criança, pois diziam: “agora se dirá em toda a terra que há uma casa de imoralidade nas tendas de Yaakov”.
כְּתִיב, ״וּבָא הַבַּיִת וְסָמַךְ יָדוֹ עַל הַקִּיר וּנְשָׁכוֹ הַנָּחָשׁ״ (עמוס ה, יט). וּכְשֶׁבָּא יַעֲקֹב לְאֶרֶץ אֲחֻזָּתוֹ שֶׁבְּאֶרֶץ כְּנַעַן נְשָׁכוֹ הַנָּחָשׁ, וְאֵי זֶה הוּא הַנָּחָשׁ? זֶה שְׁכֶם בֶּן חֲמוֹר. שֶׁהָיְתָה בִּתּוֹ שֶׁל יַעֲקֹב יוֹשֶׁבֶת אֹהָלִים וְלֹא הָיְתָה יוֹצְאָה לַחוּץ. מֶה עָשָׂה שְׁכֶם בֶּן חֲמוֹר? הֵבִיא נַעֲרוֹת מְשַׂחֲקוֹת חוּצָה לוֹ מְתוֹפְפוֹת. וְיָצְאָה דִינָה לִרְאוֹת בִּבְנוֹת הָאָרֶץ הַמְשַׂחֲקוֹת, וּשְׁלָלָהּ וְשָׁכַב עִמָּהּ, וְהָרְתָה וְיָלְדָה אֶת אָסְנַת. וְאָמְרוּ בְּנֵי יִשְׂרָאֵל לְהָרְגָהּ, שֶׁאָמְרוּ: ״עַכְשָׁו יֹאמְרוּ בְּכָל הָאָרֶץ שֶׁיֵּשׁ בֵּית זְנוּת בְּאָהֳלֵי יַעֲקֹב״.
2
Que fez Yaakov? Trouxe uma lâmina de ouro, com o Nome sagrado escrito nela, e a pendurou no pescoço da menina, e a enviou para longe, e ela partiu. E tudo é previsto diante do Santo, bendito seja: desceu o anjo Michael e a fez descer ao Egito, à casa de Potífera, pois Asnat estava destinada a Yossef por esposa. E a mulher de Potífera era estéril, e a criou consigo como se fosse sua filha. E, quando Yossef desceu ao Egito, tomou-a por esposa, como está dito: “e deu-lhe por mulher Asnat, filha de Potífera” (Bereshit 41:45).
מָה עָשָׂה יַעֲקֹב? הֵבִיא שֶׁרֶץ שֶׁל זָהָב, שֵׁם הַקֹּדֶשׁ כָּתוּב בּוֹ, וְתָלָה עַל צַוָּארָהּ, וְשִׁלְּחָהּ וְהָלְכָה. וְהַכֹּל צָפוּי לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא. וְיָרַד מִיכָאֵל הַמַּלְאָךְ וְהוֹרִידָהּ לְמִצְרַיִם לְבֵית פּוֹטִיפֶרַע, שֶׁהָיְתָה אָסְנַת רְאוּיָה לְיוֹסֵף לְאִשָּׁה. וְהָיְתָה אִשְׁתּוֹ שֶׁל פּוֹטִיפֶרַע עֲקָרָה, וְגִדְּלָה עִמָּהּ כְּבַת. וּכְשֶׁיָּרַד יוֹסֵף לְמִצְרַיִם לְקָחָהּ לוֹ לְאִשָּׁה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּתֶּן לוֹ אֶת אָסְנַת בַּת פּוֹטִיפֶרַע״.
Nota — Diná, a vítima, e a criança salva. O capítulo abre com um crime de violência sexual contra Diná. A tradição não culpa a vítima: a “serpente” é o agressor, Shechem. E o gesto seguinte de Yaakov é de compaixão: salva a criança inocente, nascida da tragédia, enviando-a protegida ao Egito — onde, na leitura do midrash, ela virá a ser Asnat, a esposa de Yossef. A aggadá transforma uma ferida em começo: a inocente é resgatada, e do mal não se faz a sua perdição. A dignidade da vítima e da criança é preservada.
3
Shimon e Levi indignaram-se muito pela violência sofrida pela irmã, como está dito: “acaso será tratada a nossa irmã como uma prostituta?” (Bereshit 34:31); e cada um tomou a sua espada e mataram todos os homens de Shechem. E, quando Yaakov ouviu, temeu muito, pois disse: “agora dir-se-á a todos os povos da terra, e eles se ajuntarão contra mim e me matarão”. E começou a censurar o furor dos seus filhos, como está dito: “maldita a sua ira, porque foi violenta” (Bereshit 49:7). Ouviram todos os povos e temeram muito, e disseram: “se dois filhos de Yaakov fizeram tudo isto, se todos se ajuntarem, poderão destruir o mundo”. E caiu sobre eles o terror do Santo, bendito seja, como está dito: “e partiram, e foi o terror de D’us sobre as cidades ao redor” (Bereshit 35:5).
שִׁמְעוֹן וְלֵוִי קִנְּאוּ עַל הַזְּנוּת הַרְבֵּה מְאֹד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הַכְזוֹנָה יַעֲשֶׂה אֶת אֲחוֹתֵנוּ?״, וְלָקְחוּ אִישׁ חַרְבּוֹ וְהָרְגוּ אֶת כָּל אַנְשֵׁי שְׁכֶם. וּכְשֶׁשָּׁמַע יַעֲקֹב נִתְיָרֵא מְאֹד, שֶׁאָמַר: ״עַכְשָׁו יֹאמְרוּ לְכָל עַמֵּי הָאָרֶץ וְיֵאָסְפוּ עָלַי וְיַהַרְגוּנִי״. הִתְחִיל לְקַלֵּל רָגְזָם שֶׁל בָּנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אָרוּר אַפָּם כִּי עָז״. וְעוֹד שֶׁקִּלֵּל אֶת חַרְבָּם בִּלְשׁוֹן יְוָנִית, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כְּלֵי חָמָס מְכֵרֹתֵיהֶם״. שָׁמְעוּ כָּל עַמֵּי וְנִתְיָרְאוּ מְאֹד, וְאָמְרוּ: ״אִם שְׁנֵי בְּנֵי יַעֲקֹב עָשׂוּ אֶת כָּל הַדָּבָר הַזֶּה, אִם יֵאָסְפוּ כֻּלָּם יְכוֹלִים הֵם לְהַחֲרִיב אֶת הָעוֹלָם״. וְנָפַל פַּחְדּוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עֲלֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּסְּעוּ וַיְהִי חִתַּת אֱלֹהִים״.
Nota — o zelo de Shimon e Levi. Shimon e Levi vingam a irmã — e Yaakov, longe de louvá-los, censura o seu furor: “maldita a sua ira, porque foi violenta” (Bereshit 49:7). A tradição reconhece a justiça da indignação, mas adverte contra a vingança desmedida: mesmo a ira justa, quando se torna violência cega, é condenada. É o mesmo princípio do zelo de Eliyahu (cap. 29): a paixão pelo certo precisa ser governada pela razão e pela responsabilidade.
4
E tomou Yaakov os seus filhos, os seus netos e as suas mulheres, e foi a Kiryat-Arba, para junto de Yitzchak, seu pai. E encontrou ali Esav, os seus filhos e as suas mulheres, habitando na tenda de Yitzchak; e Yaakov armou a sua tenda do lado de fora. E viu Yitzchak a Yaakov, as suas mulheres, os seus filhos e as suas filhas, e tudo o que era seu, fruto dos seus dois filhos, e alegrou-se muito no seu coração; e sobre ele se diz: “e vê filhos a teus filhos; paz sobre Israel” (Tehilim 128:6).
וַיִּקַּח יַעֲקֹב בָּנָיו וּבְנֵי בָנָיו וְנָשָׁיו, וַיֵּלֶךְ לְקִרְיַת אַרְבַּע אֵצֶל יִצְחָק אָבִיו. וַיִּמְצָא שָׁם אֶת עֵשָׂו וְאֶת בָּנָיו וְאֶת נָשָׁיו יוֹשְׁבִים בְּאֹהֶל יִצְחָק, וַיִּתְקַע לוֹ אָהֳלוֹ חוּצָה לָהּ. וַיַּרְא יִצְחָק אֶת יַעֲקֹב וְאֶת נָשָׁיו וְאֶת בָּנָיו וְאֶת בְּנוֹתָיו וְאֶת כָּל אֲשֶׁר לוֹ לִשְׁנֵ״י בָנָי״ו, וַיִּשְׂמַח בְּלִבּוֹ מְאֹד. וְעָלָיו הוּא אוֹמֵר: ״וּרְאֵה בָנִים לְבָנֶיךָ, שָׁלוֹם עַל יִשְׂרָאֵל״.
5
Rabi Levi diz: na hora do recolhimento da morte de Yitzchak, ele deixou o seu gado, toda a sua aquisição e tudo o que tinha aos seus dois filhos. Por isso ambos lhe prestaram bondade sepultando-o, como está dito: “e sepultaram-no Esav e Yaakov, seus filhos” (cf. Bereshit 35:29).
רַבִּי לֵוִי אוֹמֵר: בִּשְׁעַת אֲסִיפָתוֹ שֶׁל יִצְחָק, הִנִּיחַ אֶת מִקְנֵהוּ וְאֶת כָּל קִנְיָנוֹ וְאֶת כָּל אֲשֶׁר לוֹ לִשְׁנֵי בָנָיו. לְפִיכָךְ גָּמְלוּ חֶסֶד לוֹ שְׁנֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּקְבְּרוּ אֹתוֹ עֵשָׂו וְיַעֲקֹב בָּנָיו״.
6
Disse Esav a Yaakov: dividamos em dois tudo o que nosso pai nos deixou, e eu escolho primeiro, pois sou o primogênito. Disse Yaakov consigo: este ímpio não se sacia da riqueza, como está dito: “e o seu olho não se farta de riqueza” (Kohelet 4:8). Que fez Yaakov, nosso pai? Dividiu em duas partes tudo o que o pai deixara: uma parte os bens, e a terra de Israel como outra parte. Que fez Esav? Foi ter com Yishmael, ao deserto, para se aconselhar com ele, como está dito: “e foi Esav a Yishmael” (Bereshit 28:9). Disse Yishmael a Esav: o emori e o kenaani estão então na terra, e Yaakov confia em herdá-la; toma, pois, tu o que o teu pai deixou, e que Yaakov não tenha nada de material.
אָמַר עֵשָׂו לְיַעֲקֹב: נַחֲלֹק כָּל מַה שֶׁהִנִּיחַ לָנוּ אַבָּא לִשְׁנַיִם, וַאֲנִי בּוֹרֵר שֶׁאֲנִי בְּכוֹר. אָמַר יַעֲקֹב: הָרָשָׁע הַזֶּה לֹא מִלֵּא עֵינוֹ מִן הָעֹשֶׁר, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְגַם עֵינוֹ לֹא תִשְׂבַּע עֹשֶׁר״. מֶה עָשָׂה יַעֲקֹב אָבִינוּ? חִלֵּק לִשְׁנֵי חֲלָקִים כָּל מַה שֶׁהִנִּיחַ אָבִיו: חֵלֶק אֶחָד וְאֶת אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל חֵלֶק אַחֵר. מֶה עָשָׂה עֵשָׂו? הָלַךְ אֵצֶל יִשְׁמָעֵאל לַמִּדְבָּר לְהִמָּלֵךְ בּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר "וַיֵּלֶךְ עֵשָׂו אֶל יִשְׁמָעֵאל" (בראשית כח ט). אָמַר לוֹ יִשְׁמָעֵאל לְעֵשָׂו: הָאֱמוֹרִי וְהַכְּנַעֲנִי אָז בָּאָרֶץ וְיַעֲקֹב בּוֹטֵחַ לָרֶשֶׁת אֶת הָאָרֶץ, וְלָכֵן טֹל אַתָּה מַה שֶׁהִנִּיחַ אָבִיךָ וְאֵין לְיַעֲקֹב מְאוּמָה.
7
E tomou Esav tudo o que o pai deixara, e a terra de Israel e a caverna de Machpelá tomou Yaakov; e escreveram entre si um documento perpétuo. Disse Yaakov a Esav: “vai da terra da minha propriedade, da terra de Canaã”. E tomou Esav as suas mulheres, os seus filhos e tudo o que era seu, como está dito: “e foi para outra terra, de diante de Yaakov, seu irmão” (Bereshit 36:6). E, em recompensa por ter cedido retirado todos os seus bens por causa de Yaakov, seu irmão, deram-se-lhe cem províncias, de Seir até Magdiel, como está dito: “o chefe Magdiel, o chefe Iram” (Bereshit 36:43) — este é Roma.
וְלָקַח עֵשָׂו כָּל מַה שֶּׁהִנִּיחַ אָבִיו, וְאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל וּמְעָרַת הַמַּכְפֵּלָה לָקַח יַעֲקֹב, וְכָתְבוּ כְּתַב עוֹלָם בֵּינֵיהֶם. אָמַר לוֹ יַעֲקֹב לְעֵשָׂו: ״לֵךְ מֵאֶרֶץ אֲחֻזָּתִי מֵאֶרֶץ כְּנָעַן״. וְלָקַח עֵשָׂו אֶת נָשָׁיו וְאֶת בָּנָיו וְאֶת כָּל אֲשֶׁר לוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּלֶךְ אֶל אֶרֶץ מִפְּנֵי יַעֲקֹב אָחִיו״. וּבִשְׂכַר שֶׁפִּנָּה אֶת כָּל כֵּלָיו בִּשְׁבִיל יַעֲקֹב אָחִיו, נָתַן לוֹ מֵאָה מְדִינוֹת מִשֵּׂעִיר וְעַד מַגְדִּיאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַלּוּף מַגְדִּיאֵל אַלּוּף עִירָם״ – זֶה רוֹמִי.
Nota — Yaakov escolhe a Terra; “Magdiel é Roma”. Na partilha, Esav fica com a riqueza, e Yaakov com a terra de Israel e a caverna de Machpelá — a herança duradoura e espiritual. A leitura racionalista vê aqui a escolha do que permanece sobre o que passa. A glosa “Magdiel é Roma” usa, como em outros capítulos, “Esav/Edom” como nome histórico-simbólico do poder imperial (Roma e seus herdeiros), e não um juízo sobre qualquer povo vivo.
8
Então habitou Yaakov seguro, tranquilo e sereno na terra de Canaã, na terra do seu nascimento e na terra das peregrinações de seu pai, como está dito: “e habitou Yaakov na terra das peregrinações de seu pai” (Bereshit 37:1).
אָז יָשַׁב יַעֲקֹב בֶּטַח וְשַׁאֲנָן וְשָׁלֵו בְּאֶרֶץ כְּנַעַן וּבְאֶרֶץ מוֹלַדְתּוֹ וּבְאֶרֶץ מְגוּרֵי אָבִיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּשֶׁב יַעֲקֹב בְּאֶרֶץ מְגוּרֵי אָבִיו״.
9
Rabi Yishmael diz: todo filho da velhice é excessivamente querido a seu pai, como está dito: “e Israel amava a Yossef mais que a todos os seus filhos, porque era para ele filho da velhice” (Bereshit 37:3). E acaso só ele era filho da velhice? Não era Binyamin também? Mas, por ter visto, na sua intuição profética, que ele Yossef viria a reinar, por isso o amava mais que a todos os seus irmãos; e os irmãos tiveram dele grande inveja. “E viram os seus irmãos que o pai o amava mais que a todos os seus irmãos” etc. (Bereshit 37:4). E, mais ainda, viu Yossef no seu sonho que viria a reinar e o contou a seu pai, e eles acrescentaram um ódio forte, como está dito: “e tornaram a odiá-lo ainda mais” (Bereshit 37:5). Disse Yaakov a Yossef: “meu filho, já há muitos dias que não tenho notícia do bem-estar dos teus irmãos; vai e vê-os”. E o jovem ia errante pelo caminho, e o encontrou o anjo Gavriel, como está dito: “e encontrou-o um homem, e eis que andava errante no campo” (Bereshit 37:15) — e “homem” não é senão Gavriel, como está dito: “e o homem Gavriel” (Daniel 9:21).
רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: כָּל בֶּן זוֹקֶן חָבִיב לְאָבִיו יוֹתֵר מִדַּאי, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְיִשְׂרָאֵל אָהַב אֶת יוֹסֵף מִכָּל בָּנָיו כִּי בֶן זְקֻנִים הוּא לוֹ״. וְכִי בֶּן זְקוּנִים הָיָה לוֹ? וַהֲלֹא בִּנְיָמִין הָיָה בֶּן זְקוּנִים! אֶלָּא עַל יְדֵי שֶׁרָאָה בִּנְבוּאָתוֹ שֶׁהוּא עָתִיד לִמְלֹךְ, לְפִיכָךְ הָיָה אוֹהֵב אוֹתוֹ מִכָּל אֶחָיו, וְקִנְאוּ בּוֹ קִנְאָה גְּדוֹלָה. ״וַיִּרְאוּ אֶחָיו כִּי אֹתוֹ אָהַב אֲבִיהֶם מִכָּל אֶחָיו״ וְכוּ'. וְעוֹד שֶׁרָאָה אוֹתוֹ בַּחֲלוֹמוֹ שֶׁעָתִיד לִמְלֹךְ וְהִגִּיד לְאָבִיו, וְהוֹסִיפוּ לוֹ שִׂנְאָה קָשָׁה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיּוֹסִפוּ עוֹד שְׂנֹא אֹתוֹ״. וְעוֹד שֶׁרָאָה בְּנֵי פִּלַגְשֵׁי אָבִיו אוֹכְלִים בְּשַׂר אַיִל וּבְשַׂר כְּבָשִׂים כְּשֶׁהֵם חַיִּים, וְהוֹצִיא עֲלֵיהֶם דּוֹפִי אֶל יַעֲקֹב אֲבִיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְלֹא יָכְלוּ דַּבְּרוֹ לְשָׁלוֹם״. אָמַר יַעֲקֹב לְיוֹסֵף: ״בְּנִי, הֲרֵי יֵשׁ לִי כַּמָּה יָמִים שֶׁלֹּא שָׁמַעְתִּי אֶת שְׁלוֹם אַחֶיךָ וְאֶת שְׁלוֹם הַצֹּאן וְתִרְאֵם״. וְהַנַּעַר הָיָה הוֹלֵךְ וְתוֹעֶה בַּדֶּרֶךְ, וּפָגַע גַּבְרִיאֵל הַמַּלְאָךְ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּמְצָאֵהוּ אִישׁ וְהִנֵּה תֹעֶה בַּשָּׂדֶה״. וְאֵין אִישׁ אֶלָּא גַּבְרִיאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָאִישׁ גַּבְרִיאֵל״.
Nota — o favoritismo e a inveja que destroem. A raiz da tragédia de Yossef é uma cadeia: o favoritismo de Yaakov gera a inveja dos irmãos, a inveja gera o ódio, e o ódio quase chega ao assassínio e à venda. A Torá, com o seu realismo moral, não esconde a falha dos seus maiores: o amor excessivo a um filho e a inveja entre irmãos quase desfazem a família (cf. o ensaio sobre a inveja). É um aviso eterno sobre o poder destrutivo desses sentimentos.
10
Disse-lhe: “que procuras?”. Disse-lhe: “os meus irmãos eu procuro”. E o conduziu até os seus irmãos; e eles o viram e quiseram matá-lo, como está dito: “e o viram de longe, e, antes que se aproximasse deles, conspiraram contra ele para o matar” (Bereshit 37:18). Disse-lhes Reuven: “não derrameis sangue; lançai-o neste poço que está no deserto, e não derrameis sangue”. E os seus irmãos lhe ouviram e tomaram Yossef e o lançaram no poço, como está dito: “e o lançaram no poço” (Bereshit 37:24). Que fez Reuven? Foi e sentou-se num dos montes, para descer de noite e tirar Yossef do poço. E os demais irmãos estavam sentados num mesmo lugar, com um só coração e um só conselho, e passou por eles uma caravana de ismaelitas, e disseram: “vinde, vendamo-lo aos ismaelitas, que o levarão para a extremidade do deserto, e Yaakov, nosso pai, não ouvirá mais notícia dele”.
אָמַר לוֹ: ״מַה תְּבַקֵּשׁ?״ אָמַר לוֹ: ״אֶת אַחַי אָנֹכִי מְבַקֵּשׁ״. וְהוֹלִיכוֹ אֵצֶל אֶחָיו, וְרָאוּ אוֹתוֹ וּבִקְּשׁוּ לְהָרְגוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּרְאוּ אֹתוֹ מֵרָחֹק וַיִּתְנַכְּלוּ אֹתוֹ לַהֲמִיתוֹ״. אָמַר לָהֶם רְאוּבֵן: ״אַל תִּשְׁפְּכוּ דָם, הַשְׁלִיכוּ אוֹתוֹ אֶל הַבּוֹר הַזֶּה אֲשֶׁר בַּמִּדְבָּר וְיָמוּת שָׁם, וְאַל תִּשְׁפְּכוּ דָם״. וַיִּשְׁמְעוּ לוֹ אֶחָיו וְלָקְחוּ אֶת יוֹסֵף וְהִשְׁלִיכוּ אוֹתוֹ אֶל הַבּוֹר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּשְׁלִכוּ אֹתוֹ הַבֹּרָה״. מֶה עָשָׂה רְאוּבֵן? הָלַךְ וְיָשַׁב לוֹ בְּאַחַד הֶהָרִים לָרֶדֶת בַּלַּיְלָה וּלְהַעֲלוֹת אֶת יוֹסֵף מֵהַבּוֹר. וּבְשָׁעָה אַחַת אֶחָיו הָיוּ יוֹשְׁבִים בְּמָקוֹם אֶחָד וְלֵב אֶחָד וְעֵצָה אַחַת, וְעָבְרוּ עֲלֵיהֶם אֹרְחַת יִשְׁמְעֵאלִים וְאָמְרוּ: ״בּוֹאוּ וְנִמְכְּרֶנּוּ לַיִּשְׁמְעֵאלִים וְיִהְיוּ מוֹלִיכִין אוֹתוֹ לִקְצֵה הַמִּדְבָּר וְאֵין יַעֲקֹב אָבִינוּ שׁוֹמֵעַ שִׁמְעוֹ עוֹד״.
11
E venderam-no aos ismaelitas por vinte moedas de prata; cada um tomou duas moedas de prata para comprar sandálias para os seus pés, como está dito: “por venderem o justo por prata, e o necessitado por um par de sandálias” (Amós 2:6). Disseram: “ponhamos um anátema (cherem) entre nós, de que nenhum de nós conte a coisa a Yaakov, nosso pai”. Disseram entre si: “Reuven não está aqui, Binyamin não está aqui, e o anátema só se sustenta com dez, e nós somos nove. Sendo assim, como faremos?”. Associaram o Onipresente (haMakom) a eles, e assim foram dez, e impuseram entre si o anátema de que nenhum deles revelasse este segredo a Yaakov.
וּמָכְרוּ אוֹתוֹ לַיִּשְׁמְעֵאלִים בְּעֶשְׂרִים כָּסֶף. כָּל אֶחָד וְאֶחָד נָטַל שְׁנֵי כְסָפִים לִקְנוֹת מִנְעָלִים בְּרַגְלֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עַל מִכְרָם בַּכֶּסֶף צַדִּיק וְאֶבְיוֹן בַּעֲבוּר נַעֲלָיִם״. אָמְרוּ: ״נָשִׂים חֵרֶם בֵּינֵינוּ שֶׁאֵין אֶחָד מִמֶּנּוּ מַגִּיד הַדָּבָר לְיַעֲקֹב אָבִינוּ״. אָמְרוּ בֵּינֵיהֶם: ״רְאוּבֵן אֵין כָּאן, בִּנְיָמִין אֵין כָּאן, וְאֵין הַחֵרֶם מִתְקַיֵּם אֶלָּא בַּעֲשָׂרָה, וַאֲנַחְנוּ תִּשְׁעָה. אִם כֵּן, הֵיאַךְ נַעֲשֶׂה?״ שִׁתְּפוּ הַמָּקוֹם עִמָּהֶם וְהָיוּ עֲשָׂרָה, וְהֶחֱרִימוּ בֵּינֵיהֶם שֶׁלֹּא יַגִּיד שׁוּם אֶחָד מֵהֶם סוֹד זֶה לְיַעֲקֹב.
12
Desceu Reuven, de noite, para tirar Yossef do poço, e não o achou ali. Disse-lhes Reuven: “matastes Yossef? E eu — para onde irei, fugindo da aflição de nosso pai?”. E os seus irmãos lhe contaram o que tinham feito e o anátema que haviam imposto, e ele também se calou. E também o Santo, bendito seja, por assim dizer silenciou, e, por causa do anátema, não revelou a coisa a Yaakov — embora esteja escrito sobre Ele “que anuncia as Suas palavras a Yaakov” (Tehilim 147:19). Por isso Yaakov não soube do que se fizera a Yossef, e disse: “certamente Yossef foi despedaçado” (Bereshit 37:33).
יָרַד רְאוּבֵן בַּלַּיְלָה לְהַעֲלוֹת יוֹסֵף מִן הַבּוֹר וְלֹא מְצָאוֹ שָׁם. אָמַר לָהֶם רְאוּבֵן: ״הֲרַגְתֶּם אֶת יוֹסֵף וַאֲנִי אָנָה אֲנִי בָא מִצָּרַת אָבִינוּ?״ וַיַּגִּידוּ לוֹ אֶחָיו הַדָּבָר שֶׁעָשׂוּ וְאֶת הַחֵרֶם שֶׁהֶחֱרִימוּ, וְשָׁתַק. וְגַם הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שָׁתַק, וּמִפְּנֵי הַחֵרֶם לֹא הִגִּיד הַדָּבָר לְיַעֲקֹב. וּכְתִיב בּוֹ ״מַגִּיד דְּבָרָיו לְיַעֲקֹב״, לְפִיכָךְ לֹא יָדַע יַעֲקֹב אֶת הַדָּבָר שֶׁנַּעֲשָׂה לְיוֹסֵף, וְלָכֵן אָמַר: ״טָרֹף טֹרַף יוֹסֵף״.
13
Rabi Yanai diz: a culpa que cometeram as tribos na venda de Yossef não lhes foi expiada até a hora da sua morte, como está dito: “aos Meus ouvidos revelou o Eterno dos exércitos: certamente não vos será perdoada esta iniquidade até morrerdes” (Yeshayá 22:14). E, pela culpa da venda de Yossef, veio fome à terra de Israel por sete anos; e desceram os irmãos de Yossef a comprar mantimento no Egito, e acharam Yossef vivo. E desfizeram o anátema, e Yaakov ouviu sobre Yossef que estava vivo, e reviveu o espírito de Yaakov, como está dito: “e reviveu o espírito de Yaakov, seu pai” (Bereshit 45:27). E acaso estivera morto o espírito de Yaakov, seu pai? Mas é que a Shechiná, que dele se retirara na aflição, voltou.
רַבִּי יַנַּאי אוֹמֵר: עָוֹן שֶׁעָשׂוּ הַשְּׁבָטִים בִּמְכִירַת יוֹסֵף לֹא נִתְכַּפֵּר לָהֶם עַד עֵת מִיתָתָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּאָזְנָי ה' צְבָאוֹת אִם יְכֻפַּר הֶעָוֹן הַזֶּה עַד תְּמֻתוּן״. וּבַעֲוֹן מְכִירַת יוֹסֵף בָּא רָעָב לְאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל שֶׁבַע שָׁנִים, וְיָרְדוּ אֲחֵי יוֹסֵף לִשְׁבֹּר אֹכֶל בְּמִצְרַיִם וּמָצְאוּ אֶת יוֹסֵף שֶׁהוּא חַי. וְהִתִּירוּ אֶת הַחֵרֶם, וְשָׁמַע יַעֲקֹב עַל יוֹסֵף שֶׁהוּא חַי, וְהָיְתָה רוּחוֹ שֶׁל יַעֲקֹב, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתְּחִי רוּחַ יַעֲקֹב אֲבִיהֶם״. וְכִי מֵת הָיְתָה רוּחוֹ שֶׁל יַעֲקֹב אֲבִיהֶם?
14
Rabi Akiva diz: o anátema (cherem) é como um juramento, e o juramento é como o anátema: todo aquele que o conhece e quebra o anátema é como quem quebra um juramento; e todo aquele que conhece a coisa e não a revela quando devido — cai sobre ele o anátema, e este consome as suas madeiras e as suas pedras, como está dito: “e consumirá a casa, as suas madeiras e as suas pedras” (Zechariá 5:4).
רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר: הַחֵרֶם הוּא שְׁבוּעָה וְהַשְּׁבוּעָה הוּא הַחֵרֶם, שֶׁכָּל מִי שֶׁהוּא יוֹדֵעַ וּמֵפֵר הַחֵרֶם כְּאִלּוּ הוּא מֵפֵר אֶת הַשְּׁבוּעָה, וְכָל מִי שֶׁיּוֹדֵעַ הַדָּבָר וְאֵינוֹ מַגִּיד יִפֹּל עָלָיו הַחֵרֶם, וּמְכַלֶּה אֶת עֵצָיו וְאֶת אֲבָנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְכִלַּתּוּ אֶת עֵצָיו וְאֶת אֲבָנָיו״.
15
Conhece quão difícil e pesado é o anátema. Vem e vê o poder do anátema, quão grande é: Yehoshua ben Nun pôs sob anátema (cherem) Jericó, e tudo o que nela havia queimou no fogo; e Achan ben Zerach ben Karmi viu os terafim e a prata que diante deles ofereciam, e o manto que estava estendido, e uma língua barra de ouro, e os cobiçou no seu coração, e foi e os tomou e os escondeu dentro da sua tenda. E, pelo pouco em que prevaricou no anátema, morreram trinta e seis homens justos, como está dito: “e mataram deles os homens de Ai” etc. (Yehoshua 7:5).
תֵּדַע לְךָ שֶׁהַחֵרֶם הוּא דָּבָר קָשֶׁה וְכָבֵד. בֹּא וּרְאֵה כֹּחַ הַחֵרֶם כַּמָּה הוּא גָּדוֹל, שֶׁיְּהוֹשֻׁעַ בֶּן נוּן הֶחֱרִים יְרִיחוֹ וְאֶת כָּל אֲשֶׁר בָּהּ שָׂרַף בָּאֵשׁ, וְעָכָן בֶּן זֶרַח בֶּן כַּרְמִי רָאָה אֶת הַתְּרָפִים וְאֶת הַכֶּסֶף שֶׁהָיוּ מַקְרִיבִים לְפָנָיו וְאֶת הָאַדֶּרֶת שֶׁהָיְתָה פְּרוּשָׂה לְפָנָיו וּלְשׁוֹן הַזָּהָב אֶחָד בְּפִיו, וְחָמַד אוֹתָן בְּלִבּוֹ וְהָלַךְ וּלְקָחָם וּטְמָנָם בְּתוֹךְ אָהֳלוֹ. וְעַל מְעַט אֲשֶׁר מָעַל מֵתוּ שְׁלֹשִׁים וְשֵׁשׁ אֲנָשִׁים צַדִּיקִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּכּוּ מֵהֶם אַנְשֵׁי הָעַי״ וְכוּ'.
16
E foi Yehoshua e rasgou as suas vestes e caiu sobre o rosto em terra diante da arca do Eterno, e buscou o caminho do arrependimento; e o Santo, bendito seja, aceitou-o e disse-lhe: “Yehoshua, fica sabendo que Israel prevaricou no anátema”, como está dito: “pecou Israel, e também transgrediram a Minha aliança” (Yehoshua 7:11). E lançou sortes, e foi apanhado Achan ben Karmi. E tomou Yehoshua a Achan ben Karmi, a prata, o manto, a língua de ouro, os seus filhos, as suas filhas e tudo o que era seu, e os fez subir ao vale de Achor, e os apedrejou e os queimou ali. Ora, não está escrito “os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais” (Devarim 24:16)? Sendo assim, os filhos e as filhas de Achan, que pecado cometeram, para que os apedrejasse e queimasse? Devia ter apedrejado e queimado apenas Achan, que prevaricou no anátema! Mas foi porque sabiam da coisa e não a revelaram — por isso foram responsabilizados também eles.
וְהָלַךְ יְהוֹשֻׁעַ וְקָרַע בְּגָדָיו וְנָפַל עַל פָּנָיו אַרְצָה לִפְנֵי אֲרוֹן ה', וּבִקֵּשׁ תְּשׁוּבָה וְנִרְצָה לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאָמַר לוֹ: ״יְהוֹשֻׁעַ, דַּע כִּי מָעַל יִשְׂרָאֵל בַּחֵרֶם״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״חָטָא יִשְׂרָאֵל וְגַם עָבְרוּ אֶת בְּרִיתִי״. רָאָה יְהוֹשֻׁעַ בִּשְׁנֵים עָשָׂר אֲבָנִים שֶׁל כֹּהֵן גָּדוֹל שֶׁהֵם כְּנֶגֶד שְׁנֵים עָשָׂר שְׁבָטִים, וְכָל שֵׁבֶט וָשֵׁבֶט שֶׁהָיָה עוֹשֶׂה דְּבַר עֲבֵרָה לֹא הָיְתָה מַגִּיהַּ אוֹרָהּ. וְיָדַע שֶׁשֵּׁבֶט יְהוּדָה מָעַל בַּחֵרֶם, וְהִפִּיל גּוֹרָלוֹת וְנִלְכַּד עָכָן בֶּן כַּרְמִי, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּלָּכֵד עָכָן בֶּן כַּרְמִי״. וְלָקַח יְהוֹשֻׁעַ אֶת עָכָן בֶּן כַּרְמִי וְאֶת הַכֶּסֶף וְאֶת הָאַדֶּרֶת וְאֶת לְשׁוֹן הַזָּהָב וְאֶת בָּנָיו וְאֶת בְּנוֹתָיו וְאֶת כָּל אֲשֶׁר לוֹ, וְהֶעֱלָם לְעֵמֶק עָכוֹר וּסְקָלָם וּשְׂרָפָם שָׁם. וַהֲלֹא כָּתוּב: ״לֹא יוּמְתוּ אָבוֹת עַל בָּנִים וּבָנִים לֹא יוּמְתוּ עַל אָבוֹת״! אִם כֵּן, הַבָּנִים וְהַבָּנוֹת שֶׁל עָכָן מַה חָטְאוּ שֶׁהֶעֱלָם לְעֵמֶק עָכוֹר וּסְקָלָם וּשְׂרָפָם שָׁם? הָיָה לוֹ לִסְקֹל וְלִשְׂרֹף עָכָן לְבַדּוֹ שֶׁמָּעַל בַּחֵרֶם. אֶלָּא עַל שֶׁיָּדְעוּ בַּדָּבָר וְלֹא הִגִּידוּ, סְקָלָם וּשְׂרָפָם גַּם הֵם. וְלָמָּה שְׂרָפָם? עַל שֶׁמֵּתוּ עָלָיו שִׁשָּׁה וּשְׁלֹשִׁים צַדִּיקִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּכּוּ מֵהֶם אַנְשֵׁי הָעַי כִּשְׁלֹשִׁים וְשִׁשָּׁה אִישׁ״.
Nota — Achan, o anátema e a justiça individual. O caso de Achan levanta uma dificuldade que o próprio texto enuncia: “os pais não morrerão pelos filhos” (Devarim 24:16) — a Torá afirma a responsabilidade individual. Como, então, a família de Achan foi punida? A resposta do midrash não anula o princípio: diz que os familiares sabiam e ocultaram — responderam, portanto, pela própria cumplicidade, não pelo pecado alheio. A leitura racionalista insiste nisto: ninguém é punido pela culpa de outro; o que se pune é o silêncio diante do mal de que se é cúmplice. E até Achan, por confessar, “tem parte no mundo vindouro”.
17
E, por ter dado confissão (reconhecimento da culpa) diante do Santo, bendito seja, Achan tem parte no mundo vindouro, como está dito: “turbar-te-á o Eterno neste dia” (Yehoshua 7:25) — neste dia és turbado, mas não serás turbado no porvir.
וְעַל שֶׁנָּתַן הוֹדָאָה לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, יֵשׁ לוֹ חֵלֶק לָעוֹלָם הַבָּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יַעְכָּרְךָ ה' בַּיּוֹם הַזֶּה״. בַּיּוֹם הַזֶּה אַתָּה עָכוּר וְאֵין אַתָּה עָכוּר לֶעָתִיד לָבֹא.
18
E conhece ainda o poder do anátema. Vem e vê das tribos, que se indignaram pelo crime de Givah contra a tribo de Binyamin. Disse-lhes o Santo, bendito seja: indignastes-vos pela imoralidade contra Binyamin, mas não vos indignastes pela idolatria do ídolo de Michá; por isso na guerra caíram muitos deles, por causa de Binyamin, na primeira, na segunda e na terceira vez, até que foram e caíram sobre os seus rostos em terra diante da arca do Eterno e fizeram grande arrependimento, e D’us os aceitou. E impuseram anátema de que todo o Israel se reunisse e fizesse teshuvá, do pequeno ao grande, como está dito: “porque o grande juramento” etc. (cf. Shoftim 21) — e acaso jurou um juramento todo o Israel? Mas este anátema é equivalente a o juramento.
וְתֵדַע לְךָ כֹּחַ הַחֵרֶם. בֹּא וּרְאֵה מִן הַשְּׁבָטִים שֶׁקִּנְּאוּ עַל הַזְּנוּת עַל שֵׁבֶט בִּנְיָמִין. אָמַר לָהֶם הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: קִנֵּאתֶם עַל הַזְּנוּת עַל שֵׁבֶט בִּנְיָמִין וְלֹא קִנֵּאתֶם עַל פֶּסֶל מִיכָה, לְפִיכָךְ הָרְגוּ בָּהֶם עַל בִּנְיָמִין פַּעַם רִאשׁוֹנָה וּשְׁנִיָּה וּשְׁלִישִׁית עַד שֶׁהָלְכוּ וְנָפְלוּ עַל פְּנֵיהֶם אַרְצָה לִפְנֵי אֲרוֹן ה' וְעָשׂוּ תְּשׁוּבָה גְּדוֹלָה וְנִרְצָה לָהֶם. וְחָרְמוּ שֶׁיִּהְיֶה כָּל יִשְׂרָאֵל עוֹלִים (נ״א: שָׁלוֹם) אַחֲרֵיהֶם, וְעָשׂוּ תְּשׁוּבָה מִקָּטֹן וְעַד גָּדוֹל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי הַשְּׁבוּעָה הַגְּדוֹלָה״ וְכוּ', וְכִי נִשְׁבְּעוּ שְׁבוּעָה כָּל יִשְׂרָאֵל? אֶלָּא שֶׁחֵרֶם זוֹ הִיא הַשְּׁבוּעָה.
19
Os homens de Yavesh-Guilad não subiram nem vieram com eles à assembleia, e por isso tornaram-se passíveis de pena, como está dito: “quem é o que não subiu à assembleia, dentre todas as tribos de Israel ...: aquele que não subiu ao Eterno, a Mitzpá, certamente morrerá” (Shoftim 21:5).
אַנְשֵׁי יָבֵשׁ גִּלְעָד לֹא עָלוּ וְלֹא בָאוּ עִמָּהֶם בַּקָּהָל, וְנִתְחַיְּבוּ מִיתָה, שֶׁנֶּאֱמַר (שופטים כא, ה): ״מִי אֲשֶׁר לֹא עָלָה בַקָּהָל מִכָּל שִׁבְטֵי יִשְׂרָאֵל וְכוּ' לַאֲשֶׁר לֹא עָלָה אֶל ה' הַמִּצְפָּה לֵאמֹר מוֹת יוּמָת״.
20
Conhece o poder do anátema. Vem e vê de Shaul ben Kish, que pôs sob anátema que todo o povo jejuasse, do pequeno ao grande, como está dito: “maldito o homem que comer pão hoje” etc. (Shmuel I 14:24). E Yehonatan não ouvira o anátema e comeu um pouco de mel, e iluminaram-se os seus olhos, como está dito: “e iluminaram-se os seus olhos” (Shmuel I 14:27). Viu Shaul os filisteus prevalecendo sobre Israel, e soube que Israel prevaricara no anátema; e viu nas doze pedras do peitoral do sumo sacerdote que cada tribo que fazia uma mitsvá tinha a sua pedra a iluminar, e a que fazia transgressão não a tinha a iluminar; e soube que alguém da tribo de Binyamin prevaricara no anátema, e lançou sortes, e foram apanhados Shaul e Yehonatan, como está dito: “e foram apanhados Shaul e Yonatan” (Shmuel I 14:41). E tomou Shaul a sua espada para executar o seu filho, como está dito: “assim me faça D’us, e outro tanto: certamente morrerás, Yehonatan” (Shmuel I 14:44). Disse-lhe o povo: “nosso senhor rei, foi um erro involuntário!”; e ofereceram por ele um holocausto pelo seu erro, e D’us o atendeu, e o povo o resgatou da morte, como está dito: “e o povo resgatou Yehonatan, e ele não morreu” (Shmuel I 14:45).
תֵּדַע לְךָ כֹּחַ הַחֵרֶם. בֹּא וּרְאֵה מִשָּׁאוּל בֶּן קִישׁ שֶׁהֶחֱרִים שֶׁיָּצוּמוּ כָּל הָעָם מִקָּטֹן וְעַד גָּדוֹל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אָרוּר הָאִישׁ אֲשֶׁר יֹאכַל לֶחֶם״ וְכוּ'. וִיהוֹנָתָן לֹא שָׁמַע וְאָכַל מְעַט דְּבַשׁ וַנָּהֲרוּ עֵינָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתָּאֹרְנָה עֵינָיו״. רָאָה שָׁאוּל אֶת הַפְּלִשְׁתִּים חוֹזְרִים עַל יִשְׂרָאֵל וְיָדַע שֶׁמָּעֲלוּ יִשְׂרָאֵל בַּחֵרֶם, וְרָאָה בִּשְׁתֵּים עֶשְׂרֵה אֲבָנִים שֶׁכָּל שֵׁבֶט וָשֵׁבֶט שֶׁהָיָה עוֹשֶׂה דְּבַר מִצְוָה הָיָה אַבְנוֹ מַגִּיהַּ אוֹרָה, וְכָל שֵׁבֶט וָשֵׁבֶט שֶׁהָיָה עוֹשֶׂה דְּבַר עֲבֵרָה לֹא הָיְתָה אַבְנוֹ מַגִּיהַּ אוֹרָה. וְיָדַע שֶׁשֵּׁבֶט בִּנְיָמִין מָעַל בַּחֵרֶם וְהִפִּיל גּוֹרָלוֹת וְנִלְכַּד שָׁאוּל וִיהוֹנָתָן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּלָּכֵד שָׁאוּל וְיוֹנָתָן״. וְלָקַח שָׁאוּל אֶת חַרְבּוֹ לַהֲרֹג אֶת בְּנוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כֹּה יַעֲשֶׂה אֱלֹהִים לִי וְכֹה יוֹסִיף כִּי מוֹת תָּמוּת יְהוֹנָתָן״. אָמְרוּ לוֹ הָעָם: ״אֲדוֹנֵנוּ הַמֶּלֶךְ, שְׁגָגָה הִיא!״ וְהִקְרִיבוּ עָלָיו קָרְבַּן עוֹלָה עַל שִׁגְגָתוֹ וַיֵּעָתֶר לוֹ, וּפְדָאוּהוּ הָעָם מִמָּוֶת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּפְדּוּ הָעָם אֶת יְהוֹנָתָן וְלֹא מֵת״.
21
Os kutim não são contados como parte de uma das nações das setenta línguas, mas de outras cinco nações transplantadas, como está dito: “e trouxe o rei da Assíria gente de Bavel... e os fez habitar nas cidades de Shomron” (Melachim II 17:24).
הַכּוּתִים אֵינָן נֶחְשָׁבִים לְגוֹי מִשִּׁבְעִים לְשׁוֹנוֹת, אֶלָּא מִיֶּתֶר חֲמִשָּׁה גּוֹיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּבֵא מֶלֶךְ אַשּׁוּר״ וְכוּ'.
22
Rabi Yossi diz: acrescentou sobre eles ainda outras quatro nações, e todas elas também ali vieram, como está dito: “os dinaítas, os afarsatquitas” etc. (Ezra 4:9).
רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: הוֹסִיף עֲלֵיהֶם עוֹד אַרְבָּעָה גּוֹיִם, וְכֻלָּם גַּם הֵם, שֶׁנֶּאֱמַר (עזרא ד ט): ״דִּינָיֵא וַאֲפַרְסַתְכָיֵא״ וְכוּ'.
23
E, quando Israel foi exilado do seu lugar, de Shomron para Bavel, enviou o rei da Assíria os seus servos e os assentou em Shomron, para pagarem tributo ao reino. Que fez o Santo, bendito seja? Enviou contra eles os leões, e estes os matavam. Enviaram e disseram ao rei: “nosso senhor rei, a terra a que nos enviaste não nos aceita, pois restamos poucos de muitos”. Enviou o rei e chamou os anciãos de Israel e lhes disse: “todos os anos em que estivestes na vossa terra, a fera do campo não vos desfilhava, e agora ela não os aceita?”. Disseram-lhe os anciãos uma palavra de conselho, na esperança de que talvez os fizesse voltar à sua terra. Disseram-lhe: “nosso senhor rei, aquela terra não aceita uma nação que não seja circuncidada”. Disse-lhes: “dai dois dentre vós, e vão e os ensinem a Torá; e a palavra do rei não se pode revogar”. E enviaram e chamaram Rabi Dostai e Rabi Yanai, e estes os circuncidaram e lhes ensinavam a Torá escrita, por meio de notarikon, e choravam. E essas nações andavam nos estatutos da Torá e também nos estatutos dos seus próprios deuses — ao Eterno temiam, e aos seus deuses serviam.
וּכְשֶׁגָּלוּ יִשְׂרָאֵל מִמְּקוֹמָם מִשּׁוֹמְרוֹן לְבָבֶל, שָׁלַח הַמֶּלֶךְ עֲבָדָיו וְהוֹשִׁיבוּ אוֹתָם בְּשׁוֹמְרוֹן לְהַעֲלוֹת מַס לַמַּלְכוּת. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? שָׁלַח בָּהֶם אֶת הָאֲרָיוֹת וְהָיוּ הוֹרְגִים בָּהֶם. שָׁלְחוּ וְאָמְרוּ לְמֶלֶךְ בָּבֶל: ״אֲדוֹנֵנוּ הַמֶּלֶךְ, הָאָרֶץ שֶׁשָּׁלַחְנוּ עָלֶיהָ אֵינָהּ מְקַבֶּלֶת אוֹתָנוּ כִּי נִשְׁאַרְנוּ מְעַט מֵהַרְבֵּה״. שָׁלַח הַמֶּלֶךְ וְקָרָא לְכָל זִקְנֵי יִשְׂרָאֵל וְאָמַר לָהֶם: ״כָּל הַשָּׁנִים הַלָּלוּ שֶׁהֱיִיתֶם בְּאַרְצְכֶם לֹא שִׁכְּלָה אֶתְכֶם חַיַּת הַשָּׂדֶה, וְעַכְשָׁו אֵינָהּ מְקַבֶּלֶת אֶתְכֶם?״ אָמְרוּ לוֹ דָּבָר שֶׁל עֵצָה, אוּלַי יָשִׁיב אוֹתָם לְאַרְצָם. אָמְרוּ לוֹ: ״אֲדוֹנֵנוּ הַמֶּלֶךְ, הָאָרֶץ הַהִיא אֵינָהּ מְקַבֶּלֶת גּוֹי שֶׁאֵינוֹ נִמּוֹל״. אָמַר לָהֶם: ״תְּנוּ שְׁנַיִם מִכֶּם וְיֵלְכוּ וִילַמְּדוּ תּוֹרָה, וּדְבַר הַמֶּלֶךְ אֵין לְהָשִׁיב״. וְשָׁלְחוּ וְקָרְאוּ אֶת רַבִּי דּוֹסְתַּאי וְאֶת רַבִּי יַנַּאי, וּמָלוּ אוֹתָם וְהָיוּ מְלַמְּדִים אוֹתָם תּוֹרָה שֶׁבִּכְתָב נוֹטָרִיקוֹן, וּבוֹכִים. וְהַגּוֹיִם הָאֵלֶּה הָיוּ הוֹלְכִים בְּחֻקּוֹת הַתּוֹרָה וּבְחֻקּוֹת אֱלֹהֵיהֶם – אֶת ה' הָיוּ יְרֵאִים וֵאלֹהֵיהֶן הָיוּ עוֹבְדִין.
24
E, quando subiram Ezra de Bavel, e Zerubavel ben Shealtiel e Yehoshua ben Yehotzadak, começaram a construir no Templo (Heichal), como está dito: “então Zerubavel ben Shealtiel ... começaram a construir a casa de D’us” (Ezra 5:2). E vieram contra eles os shomronim, para a guerra, em cento e oitenta mil. E acaso eram legitimamente shomronim? Mas pelo nome da cidade de Shomron foram assim chamados. E, mais ainda, procuraram matar Nechemiá, como está dito: “vem, e reunamo-nos juntos” (Nechemiá 6:2). E, mais ainda, procuraram anular a obra do Céu a construção por dois anos, e ela ficou suspensa até próximo do ano do jubileu.
וּכְשֶׁעָלָה עֶזְרָא מִבָּבֶל וּזְרֻבָּבֶל בֶּן שְׁאַלְתִּיאֵל וִיהוֹשֻׁעַ בֶּן יְהוֹצָדָק, וְהִתְחִילוּ בּוֹנִים בַּהֵיכָל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בֵּאדַיִן זְרֻבָּבֶל בֶּן שְׁאַלְתִּיאֵל״ וְכוּ'. וּבָאוּ עֲלֵיהֶם הַשּׁוֹמְרוֹנִים לַמִּלְחָמָה מֵאָה וּשְׁמוֹנִים אֶלֶף. וְכִי שׁוֹמְרוֹנִים הָיוּ? וַהֲלֹא כּוּתִיִּים הָיוּ! אֶלָּא עַל שֵׁם עִיר שׁוֹמְרוֹן נִקְרְאוּ שׁוֹמְרוֹנִים. וְעוֹד שֶׁבִּקְּשׁוּ לַהֲרֹג נְחֶמְיָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לְכָה וְנִוָּעֲדָה יַחְדָּו״. וְעוֹד שֶׁבִּקְּשׁוּ לְבַטֵּל מְלֶאכֶת שָׁמַיִם שְׁתֵּי שָׁנִים, וְהָיְתָה בְּטֵלָה עַד שְׁנַת הַיּוֹבֵל.
25
Que fizeram Ezra, e Zerubavel ben Shealtiel, e Yehoshua ben Yehotzadak? Reuniram todo o Israel ao Templo do Eterno, e trouxeram trezentos sacerdotes, trezentos shofarot e trezentos rolos da Torá, e tocavam os shofarot, e os levitas cantavam e entoavam, e proclamaram o anátema (cherem) contra os kutim daquele tempo, pelo segredo do Nome Explícito, pela escrita gravada nas Tábuas, e pelo anátema do tribunal celeste e do tribunal terreno — que ninguém comesse pão dos kutim. Daqui disseram: o que come da carne do abate de um kuti é como se comesse carne de porco; e que um kuti não seja recebido para se converter a Israel; e que não têm parte na ressurreição dos mortos, como está dito: “não convosco cabe a vós e a nós edificar a casa” (Ezra 4:3) — nem neste mundo nem no mundo vindouro; e, mais, que não tenham parte nem herança em Jerusalém, como está dito: “e vós não tendes parte, nem direito, nem memória em Jerusalém” (Nechemiá 2:20).
מָה עָשָׂה עֶזְרָא וּזְרֻבָּבֶל בֶּן שְׁאַלְתִּיאֵל וִיהוֹשֻׁעַ בֶּן יְהוֹצָדָק? קִבְּצוּ כָּל יִשְׂרָאֵל אֶל הֵיכַל ה', וְהֵבִיאוּ שְׁלֹשׁ מֵאוֹת כֹּהֲנִים וּשְׁלֹשׁ מֵאוֹת שׁוֹפָרוֹת וּשְׁלֹשׁ מֵאוֹת סִפְרֵי תוֹרוֹת, וְהָיוּ תּוֹקְעִים בָּהֶם, וְהַלְוִיִּם מְשׁוֹרְרִין וּמְזַמְּרִין וּמְנַדִּין אֶת הַכּוּתִים בְּסוֹד שֵׁם הַמְפֹרָשׁ, בִּכְתָב הַנִּכְתָּב עַל הַלּוּחוֹת וּבְחֵרֶם בֵּית דִּין הָעֶלְיוֹן וּבְחֵרֶם בֵּית דִּין הַתַּחְתּוֹן, שֶׁלֹּא יֹאכַל אָדָם פַּת כּוּתִים עַד עוֹלָם. מִכָּאן אָמְרוּ כָּל הָאוֹכֵל בָּשָׂר מִשְּׁחִיטַת כּוּתִי כְּאִלּוּ אוֹכֵל בְּשַׂר חֲזִיר, וְאַל יִתְגַּיֵּר אָדָם כּוּתִי יִשְׂרָאֵל, וְאֵין לָהֶם חֵלֶק בִּתְחִיַּת הַמֵּתִים, שֶׁנֶּאֱמַר (עזרא ד, ג) ״לֹא לָכֶם וָלָנוּ״, לֹא בָּעוֹלָם הַזֶּה וְלֹא בָּעוֹלָם הַבָּא, וְעוֹד שֶׁלֹּא יִהְיֶה לָהֶם חֵלֶק וְנַחֲלָה בִּירוּשָׁלַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר (נחמיה ב, כ) ״וְלָכֶם אֵין חֵלֶק וּצְדָקָה וְזִכָּרוֹן בִּירוּשָׁלָ‍ִם״.
Nota essencial — sobre os kutim (samaritanos) e a leitura responsável. Os §§20–25 refletem uma antiga ruptura histórica — o conflito, no tempo de Ezra e Nechemiá, entre os repatriados de Bavel e os kutim (povos reassentados em Shomron), que se opuseram à reconstrução do Templo. A linguagem dura (o cherem, a exclusão) é polêmica daquele momento específico, não um veredicto a aplicar a qualquer pessoa ou comunidade viva de hoje. Os samaritanos são, ainda hoje, uma pequena comunidade real, e a própria halachá modulou o seu estatuto ao longo dos séculos. A tradição racionalista afirma a dignidade igual de todo ser humano (tzelem Elokim) e que os justos de todas as nações têm parte no mundo vindouro (Rambam, Hilchot Teshuvá 3:5; Melachim 8:11). O alvo do texto é uma disputa religiosa e política da sua época — não um povo, nem hoje.
26
E enviaram o teor do anátema a todo Israel, e ainda acrescentaram sobre eles anátema sobre anátema; e o rei Koresh Ciro estabeleceu sobre eles um anátema perpétuo, como está dito: “e o D’us que fez habitar ali o Seu Nome derribe todo rei e povo que estender a mão para o alterar” (Ezra 6:12).
וְשָׁלְחוּ הַחֵרֶם אֵצֶל יִשְׂרָאֵל, וְעוֹד הוֹסִיפוּ עֲלֵיהֶם חֵרֶם עַל חֵרֶם, וְהַמֶּלֶךְ כּוֹרֶשׁ קָבַע עֲלֵיהֶם חֵרֶם עוֹלָם, שֶׁנֶּאֱמַר (עזרא ו, יב) ״וֵאלָהָא דִּי שַׁכִּן שְׁמֵהּ תַּמָּה״ וְכוּ'.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

Diná, o zelo e a compaixão

O capítulo abre numa tragédia — a violência contra Diná — e a tradição a lê sem culpar a vítima: o agressor é “a serpente”. Yaakov salva a criança inocente, e censura o furor desmedido de Shimon e Levi (“maldita a sua ira”). Os sábios extraem daqui o equilíbrio: há indignação justa diante do mal, mas a vingança cega é condenada — a paixão pelo certo precisa de medida.

A herança que permanece

Na separação de Esav e Yaakov, cada um revela o seu coração: Esav “não se sacia de riqueza”; Yaakov escolhe a terra de Israel e Machpelá — a herança duradoura. Os sábios veem aqui a sabedoria de preferir o que permanece ao que passa, e a serenidade de Yaakov ao “habitar a terra das peregrinações de seu pai”.

A venda de Yossef: a cadeia da inveja

A maior dor do capítulo nasce de uma sequência moral: favoritismo, inveja, ódio, e quase o crime. A Torá não embeleza os seus maiores — e por isso ensina: a culpa da venda “não foi expiada até a morte” das tribos. Mas a história não termina ali: ela caminha, nos capítulos seguintes, para a reconciliação — porque a teshuvá e o reencontro são sempre possíveis.

A força do cherem e a justiça individual

A segunda metade do capítulo medita sobre o cherem — o anátema que é como um juramento. O caso de Achan ensina que ninguém morre pela culpa alheia (Devarim 24:16): a família responde pela própria cumplicidade, não pelo pecado de Achan. E o duro episódio dos kutim reflete uma disputa histórica do tempo de Ezra — não um juízo sobre povos vivos (ver a nota). Acima de tudo, fica o peso da palavra dada e o valor da responsabilidade — pessoal e comunitária.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 39

A descida ao Egito e a sabedoria de Yossef

פֶּרֶק ל״ט

Yaakov hesita em deixar a Terra para descer ao Egito, e D’us o tranquiliza: “Eu descerei contigo”. O capítulo então desdobra a grandeza de Yossef — o seu domínio de si, a sabedoria que falava todas as línguas, a administração honesta na fome — e encerra com a sepultura de Yaakov na caverna de Machpelá.

1
A quarta descida que Israel desceu ao Egito, como está dito: “Eu descerei contigo ao Egito” (Bereshit 46:4). Ouviu Yaakov sobre Yossef que estava vivo, e refletia no seu coração, dizendo: como deixarei a terra de meus pais, a terra do meu nascimento, e a terra em cujo meio está a Shechiná do Santo, bendito seja, e irei a uma terra impura, a terra dos servos, os filhos de Cham, a uma terra em que não há temor do Céu entre eles? Disse-lhe o Santo, bendito seja: “Yaakov, não temas descer ao Egito, Eu descerei contigo” (Bereshit 46:3-4).
יְרִידָה רְבִיעִית שֶׁיָּרַד לְמִצְרַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אָנֹכִי אֵרֵד עִמְּךָ מִצְרַיְמָה״. שָׁמַע יַעֲקֹב עַל יוֹסֵף שֶׁהוּא חַי וְהָיָה מְהַרְהֵר בְּלִבּוֹ וְאוֹמֵר: אֵיךְ אֶעֱזֹב אֶרֶץ אֲבוֹתַי וְאֶרֶץ מוֹלַדְתִּי וְאֶת אֶרֶץ שֶׁשְּׁכִינָתוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּקִרְבָּהּ וְאֵלֵךְ אֶל אֶרֶץ טְמֵאָה, לְתוֹךְ הָעֲבָדִים בְּנֵי חָם, בְּאֶרֶץ שֶׁאֵין יִרְאַת שָׁמַיִם בֵּינֵיהֶם? אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״יַעֲקֹב, אַל תִּירָא מֵרְדָה מִצְרַיְמָה, אָנֹכִי אֵרֵד עִמְּךָ״.
Nota — “Eu descerei contigo”. Yaakov teme deixar a Terra Santa por uma terra estrangeira, que descreve como “impura” e sem “temor do Céu”. É importante ler isto com cuidado: a expressão “terra dos servos, os filhos de Cham” não é um juízo racial — refere-se ao Egito (Mitzrayim, da linhagem de Cham) e ao seu ambiente moral e idólatra daquele tempo, não ao valor de qualquer povo (cf. a nota do cap. 24 sobre as linhagens; a Torá afirma a unidade e a dignidade de toda a humanidade). E a resposta de D’us é o coração do capítulo: “Eu descerei contigo” — a Shechiná acompanha Israel até no exílio. D’us não está confinado à Terra; está com o Seu povo onde quer que vá.
2
E ouviu Yaakov esta palavra, e tomou as suas mulheres, os seus filhos, as suas filhas e as filhas dos seus filhos. E um escrito diz: “e a Diná, sua filha” (Bereshit 46:15), e aqui diz “as suas filhas” (Bereshit 46:7) — isto vem ensinar-te que as “filhas” de Yaakov são também as mulheres dos seus filhos; pois com a descendência de Yaakov tomaram por esposas as suas próprias parentas, para que não se casassem com os povos das outras terras. Por isso foram chamados “semente de verdade”, toda ela semente de verdade.
וְשָׁמַע יַעֲקֹב אֶת הַדָּבָר הַזֶּה, וְלָקַח אֶת נָשָׁיו וְאֶת בָּנָיו וְאֶת בְּנוֹתָיו וּבְנוֹת בָּנָיו. וְכָתוּב אַחֵר אוֹמֵר: ״וְאֶת דִּינָה בִתּוֹ״. וְכָאן אוֹמֵר: ״בְּנוֹתָיו״. לְלַמֶּדְךָ שֶׁבְּנוֹתָיו שֶׁל יַעֲקֹב הֵם נְשֵׁי בָנָיו, וְעַל זַרְעוֹ שֶׁל יַעֲקֹב לָקְחוּ אֲחִיּוֹתֵיהֶם וּשְׁאֵר בְּשָׂרָם כְּדֵי שֶׁלֹּא יִתְחַתְּנוּ בְּעַמֵּי הָאֲרָצוֹת. לְפִיכָךְ נִקְרְאוּ זֶרַע אֱמֶת, כֻּלּוֹ זֶרַע אֱמֶת.
3
E, quando chegaram à fronteira do Egito, foram contados todos os varões: sessenta e seis homens; e Yossef e os seus dois filhos, no Egito, perfazem sessenta e nove. E está escrito: “com setenta almas” (Devarim 10:22). Que fez o Santo, bendito seja? Entrou na conta com eles, e assim subiram ao número de setenta almas, para cumprir o que está dito: “Eu descerei contigo ao Egito”. E, quando Israel subiu do Egito, foram contados todos os varões: seiscentos mil menos um. Que fez o Santo, bendito seja? Entrou na conta com eles e completou o número, para cumprir o que está dito: “e Eu certamente te farei também subir” (Bereshit 46:4).
וּכְשֶׁבָּאוּ לִגְבוּל מִצְרַיִם נִתְיַחֲסוּ כָּל הַזְּכָרִים שִׁשִּׁים וָשֵׁשׁ אִישׁ, וְיוֹסֵף וּשְׁנֵי בָנָיו בְּמִצְרַיִם הֲרֵי תִּשְׁעָה וְשִׁשִּׁים. וּכְתִיב ״בְּשִׁבְעִים נֶפֶשׁ״. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? נִכְנַס בַּמִּנְיָן עִמָּהֶם וְעָלוּ בְּמִסְפַּר שִׁבְעִים נֶפֶשׁ, לְקַיֵּם מַה שֶּׁנֶּאֱמַר ״אָנֹכִי אֵרֵד עִמְּךָ מִצְרַיְמָה״. וּכְשֶׁעָלוּ יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם נִתְיַחֲסוּ כָּל הַזְּכָרִים שִׁשִּׁים רִבּוֹא חָסֵר אֶחָד, מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? נִכְנַס בַּמִּנְיָן עִמָּהֶם וְעָלָה בְּמִסְפַּר עִמָּהֶם, לְקַיֵּם מַה שֶּׁנֶּאֱמַר ״וְאָנֹכִי אַעַלְךָ גַם עָלֹה״.
4
Rabi Yishmael diz: dez vezes disseram os filhos de Yaakov a Yossef “teu servo, nosso pai”, e Yossef ouviu e calou; e o silêncio é como um consentimento. Por isso foram encurtados dez anos da sua vida. E ouviu Yossef que o seu pai chegara à fronteira do Egito, e tomou consigo todos os homens e saiu ao encontro de seu pai. E todo o povo saía ao encontro com a honra devida ao rei — e acaso Yaakov era rei? Mas isto vem ensinar-te que o pai de uma pessoa é como o seu rei.
רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: עֲשָׂרָה פְּעָמִים אָמְרוּ בְּנֵי יַעֲקֹב לְיוֹסֵף ״עַבְדְּךָ אָבִינוּ״, וְשָׁמַע יוֹסֵף וְשָׁתַק, וּשְׁתִיקָה כְּהוֹדָאָה דָּמְיָיא. לְפִיכָךְ נִתְקַצְּרוּ מֵחַיָּיו עֲשָׂרָה שָׁנִים. וְשָׁמַע שֶׁבָּא אָבִיו לִגְבוּל מִצְרַיִם וְלָקַח אֶת כָּל הָאֲנָשִׁים עִמּוֹ וְיָצָא לִקְרַאת אָבִיו. וְכָל הָעָם יוֹצְאִים לִקְרַאת הַמֶּלֶךְ, וְכִי מֶלֶךְ הָיָה? אֶלָּא לְלַמֶּדְךָ שֶׁאַבָּא שֶׁל אָדָם כְּמַלְכּוֹ.
5
Rabi Pinchas diz: repousou o espírito santo e o espírito de sabedoria sobre Yossef, desde a sua juventude até o dia da sua morte, e o conduzia em toda obra de sabedoria, como um pastor que conduz o seu rebanho, como está dito: “Pastor de Israel, dá ouvidos, Tu que conduzes Yossef como a um rebanho” (Tehilim 80:2). E, em meio a toda a sua sabedoria, uma mulher a esposa de Potífar procurou desviá-lo; e, quando esteve a ponto de ceder ao erro, viu a imagem (a figura) de seu pai, e voltou atrás, e dominou o seu impulso (kavash et yitzro).
רַבִּי פִּינְחָס אוֹמֵר: שָׁרְתָה רוּחַ הַקֹּדֶשׁ וְרוּחַ חָכְמָה עַל יוֹסֵף מִנְּעוּרָיו וְעַד יוֹם מוֹתוֹ, וְהָיְתָה מַנְהֶגֶת אוֹתוֹ בְּכָל דְּבַר חָכְמָה, כְּרוֹעֶה שֶׁהוּא מַנְהִיג אֶת צֹאנוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״רֹעֵה יִשְׂרָאֵל הַאֲזִינָה נֹהֵג כַּצֹּאן יוֹסֵף״. וּבְכָל חָכְמָתוֹ הִטָּתוֹ אִשָּׁה, וּכְשֶׁבִּקֵּשׁ לְהַרְגִּיל עֲבֵרָה רָאָה דְּיוֹקְנוֹ שֶׁל אָבִיו וְחָזַר לְאַחֲרָיו וְכָבַשׁ אֶת יִצְרוֹ.
Nota — Yossef e o domínio de si. No auge da tentação, Yossef “vê a imagem de seu pai” e recua. Na leitura racionalista, essa “imagem” é a consciência moral interiorizada — a presença viva dos valores que o formaram, que o detém no limiar do erro. Yossef “domina o seu impulso” (kavash et yitzro) e por isso a tradição o chama Yossef haTzaddik, o justo: o modelo do autodomínio, “o herói que vence a sua inclinação” (Avot 4:1; cf. o ensaio sobre o yetzer hará). A grandeza não está em não sentir o impulso, mas em governá-lo.
6
Três dominaram o seu impulso diante do seu Criador, e são estes: Yossef, Boaz e Paltiel ben Layish. E Yossef era digno de que dele surgisse a semente das doze tribos; mas na luta contra o impulso dissipou-se parte dela, e restaram-lhe dois filhos, Menashe e Efraim. E a mulher trouxe contra ele acusações falsas para o matar, e foi encarcerado na prisão por dez anos; e ali interpretou os sonhos dos servos de Faraó, exatamente como as coisas vieram a ser, como está dito: “e, conforme ele nos interpretou, assim foi” (Bereshit 41:13).
שְׁלֹשָׁה כָּבְשׁוּ יִצְרָן לִפְנֵי יוֹצְרָן, וְאֵלּוּ הֵן: יוֹסֵף וּבֹעַז וּפַלְטִיאֵל בֶּן לַיִשׁ. וְהָיָה רָאוּי לַעֲמֹד מִיּוֹסֵף זֶרַע שֶׁל שְׁנֵים עָשָׂר שְׁבָטִים, וְיָצְאוּ מֵרָאשֵׁי אֶצְבְּעוֹתָיו זֶרַע שֶׁל עֲשָׂרָה שְׁבָטִים, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיָּפֹזּוּ זְרֹעֵי יָדָיו״. וְנִשְׁתַּיְּרוּ שְׁנַיִם מְנַשֶּׁה וְאֶפְרַיִם, וְהֵבִיאָה עָלָיו הָאִשָּׁה עֲלִילוֹת דְּבָרִים לְהָרְגוֹ, וְנֶחְבַּשׁ בְּבֵית הָאֲסוּרִים עֶשֶׂר שָׁנִים, וְשָׁם פָּתַר אֶת הַחֲלוֹמוֹת שֶׁל עַבְדֵי פַרְעֹה כְּשֵׁם שֶׁהָיוּ הַדְּבָרִים, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיְהִי כַּאֲשֶׁר פָּתַר לָנוּ כֵּן הָיָה״.
7
E interpretou o sonho de Faraó quando repousou sobre ele o espírito santo, como está dito: “acaso se acharia outro como este homem, em quem há o espírito de D’us?” (Bereshit 41:38).
וּפָתַר אֶת חֲלוֹם פַּרְעֹה כְּשֶׁשָּׁרְתָה עָלָיו רוּחַ הַקֹּדֶשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הֲנִמְצָא כָזֶה״ וְכוּ'.
8
E todas as línguas nações vinham a Yossef comprar mantimento, e Yossef falava a cada povo na sua própria língua, e sabia o que diziam. Por isso foi chamado o seu nome “Yehosef”, como está dito: “porque Yossef ouvia entendia, pois havia um intérprete entre eles” (cf. Bereshit 42:23; Tehilim 81:6).
וְכָל הַלְּשׁוֹנוֹת הָיוּ בָּאִים אֶל יוֹסֵף לִשְׁבֹּר אֹכֶל מִיּוֹסֵף, וְהָיָה יוֹסֵף מְדַבֵּר לְכָל עַם וָעַם כִּלְשׁוֹנוֹ, וְהָיָה יוֹדֵעַ מַה הֵם מְדַבְּרִים. לְפִיכָךְ נִקְרָא שְׁמוֹ יְהוֹסֵף, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי שֹׁמֵעַ יוֹסֵף כִּי הַמֵּלִיץ בֵּינוֹתָם״.
9
E mais: quando saía à praça, via os povos formando grupos e ajuntamentos, falando cada um na sua língua, e ele sabia o que diziam, como está dito: “pôs isto por testemunho em Yehosef ...” (Tehilim 81:6). E mais: andava na sua carruagem e passava por toda a fronteira do Egito, e as egípcias subiam aos muros e lançavam sobre ele anéis de ouro, na esperança de que ele as olhasse, para verem a beleza da sua aparência; mas nenhum olhar impróprio o seduziu, e ele permanecia íntegro e abençoado acima de todo olhar, como está dito: “filho frutífero é Yossef, filho frutífero junto à fonte” (Bereshit 49:22).
וְעוֹד, כְּשֶׁהָיָה יוֹצֵא לַשּׁוּק הָיָה רוֹאֶה אֶת הָעַמִּים עֲשׂוּיִים כִּתּוֹת כִּתּוֹת וַחֲבוּרוֹת חֲבוּרוֹת, וְהָיוּ מְדַבְּרִים אִישׁ כִּלְשׁוֹנוֹ וְהָיָה יוֹדֵעַ מַה הֵם מְדַבְּרִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עֵדוּת בִּיהוֹסֵף שָׁמַע״ וְכוּ'. וְעוֹד שֶׁהָיָה רוֹכֵב בְּמֶרְכַּבְתּוֹ וְעוֹבֵר בְּכָל גְּבוּל מִצְרַיִם, וּמִצְרִיּוֹת מְצַעֲדוֹת לוֹ עַל הַחוֹמוֹת וּמַשְׁלִיכוֹת עָלָיו טַבְּעוֹת זָהָב, אוּלַי יִסְתַּכֵּל בָּהֶן לִרְאוֹת אֶת יֹפִי תֹּאֲרוֹ, וְלֹא שְׁזָפַתּוּ עֵין אָדָם. וְהָיָה פָּרֶה וְרָבֶה בְּכָל עַיִן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בֵּן פֹּרָת יוֹסֵף בֵּן פֹּרָת עֲלֵי עָיִן״.
Nota — a sabedoria e a modéstia de Yossef. Yossef fala a língua de cada povo que vem ao Egito — daí o nome Yehosef e o epíteto de “intérprete”: o sábio que entende todos e a todos serve com justiça. E a sua integridade resiste à sedução: por mais que tentem atrair o seu olhar, ele não se deixa levar. A tradição vê em Yossef a união de duas virtudes do bom governante: a sabedoria que compreende e a integridade que não se corrompe pelo poder.
10
E todas as línguas vinham a Yossef comprar mantimento, e traziam o seu tributo e a sua oferenda para comprar de Yossef. E Yossef falava a cada povo na sua própria língua; por isso foi chamado “intérprete” (meturgeman), como está dito: “porque havia um intérprete entre eles” — por isso falava com eles na língua de cada um.
וְכָל הַלְּשׁוֹנוֹת הָיוּ בָּאִים אֶל יוֹסֵף לִשְׁבֹּר אֹכֶל, וְהָיוּ מְבִיאִין הַמַּס שֶׁלָּהֶם וּמִנְחָתָם לִשְׁבֹּר אֶל יוֹסֵף. וְהָיָה יוֹסֵף מְדַבֵּר לְכָל עַם וָעַם כִּלְשׁוֹנוֹ, לְפִיכָךְ נִקְרָא שְׁמוֹ מְתוּרְגְּמָן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי הַמֵּלִיץ בֵּינוֹתָם״, לְפִיכָךְ הָיָה מְדַבֵּר עִמָּהֶם.
11
E enquanto estes saciavam a fome das suas casas, e aqueles vinham comprar mantimento, perguntavam uns aos outros por quanto ele vendia na praça; e, quando vinham a Yossef, ele lhes dizia: “conforme ouvistes, assim é” — para não declarar o preço de venda falsamente mais baixo do que era. Daqui disseram: todo aquele que declara o preço de venda enganosamente mais baixo nunca verá sinal de bênção.
וְאֵלּוּ שׁוֹבְרִים רַעֲבוֹן בָּתֵּיהֶם, וְאֵלּוּ בָּאִין לִשְׁבֹּר אֹכֶל, וְהָיוּ שׁוֹאֲלִים אֵלּוּ אֶת אֵלּוּ בְּכַמָּה הוּא מַשְׁבִּיר בַּשּׁוּק, וּכְשֶׁהָיוּ בָּאִין אֶל יוֹסֵף הָיָה אוֹמֵר לָהֶם כְּשֵׁם שֶׁשְּׁמַעְתֶּם כֵּן הוּא, בִּשְׁבִיל שֶׁלֹּא לְהוֹצִיא שַׁעַר הַמֶּכֶר פָּחוּת. מִכָּאן אָמְרוּ, כָּל הַמּוֹצִיא שַׁעַר הַמֶּכֶר פָּחוּת אֵינוֹ רוֹאֶה סִימַן בְּרָכָה לְעוֹלָם.
Nota — a honestidade no comércio. Yossef declara o preço verdadeiro, “conforme ouvistes, assim é” — não engana sobre o valor de mercado. Daqui a tradição extrai um princípio de ética comercial: quem falseia o preço, ainda que para parecer generoso, “não vê sinal de bênção”. A honestidade no negócio — pesos justos, preços verdadeiros — é, para a Torá, parte da santidade da vida cotidiana (cf. o ensaio sobre o trabalho e a justiça social).
12
Rabi Tanchum diz: ordenou Yossef, e construíram os celeiros em cada cidade, e ajuntou todas as colheitas da terra nos celeiros. E os egípcios zombavam e diziam: “agora os vermes comerão os celeiros de Yossef!”. Mas não os atingiu corrupção (verme) nem faltaram os grãos até o dia da sua morte. E sustentou a terra na fome do pão; por isso foi chamado o seu nome “Kalkol” o que sustenta. E mais: sustentou seu pai com pão à saciedade, como está dito: “e sustentou Yossef seu pai e seus irmãos...” (Bereshit 47:12).
רַבִּי תַּנְחוּם אוֹמֵר: צִוָּה יוֹסֵף וּבָנוּ אֶת הָאוֹצָרוֹת בְּכָל עִיר וָעִיר, וְקִבֵּץ אֶת כָּל תְּבוּאוֹת הָאָרֶץ לָאוֹצָרוֹת. וְהָיוּ הַמִּצְרִיִּים מַלְעִיגִין וְאוֹמְרִים: עַכְשָׁו הַתּוֹלָעִים אוֹכְלִים אֶת אוֹצְרוֹת יוֹסֵף! וְלֹא שָׁלְטָה בָּהֶם רִמָּה וְלֹא חָסְרוּ עַד יוֹם מוֹתוֹ. וְכִלְכֵּל אֶת הָאָרֶץ בְּרַעֲבוֹן לֶחֶם, לְפִיכָךְ נִקְרָא שְׁמוֹ כַּלְכֹּל. וְעוֹד שֶׁכִּלְכֵּל אֶת אָבִיו לֶחֶם שֹׂבַע, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְכַלְכֵּל יוֹסֵף״.
13
Rabi Eliezer diz: na hora do recolhimento da morte de Yaakov, ele chamou Yossef, seu filho, e disse-lhe: “meu filho Yossef, jura-me pela aliança da circuncisão que me farás subir para me sepultar com os meus pais, na terra de Canaã, na caverna de Machpelá”. (No princípio, os primeiros juravam pela aliança da circuncisão, antes de a Torá ser dada, como está dito: “põe, peço-te, a tua mão debaixo da minha coxa”, Bereshit 47:29.) E Yossef lhe jurou, e guardou o juramento e o cumpriu. E subiram com ele todos os grandes do reino para o sepultar, prestando bondade a Yaakov, nosso pai, como está dito: “e subiu Yossef para sepultar seu pai, e subiram com ele todos os servos de Faraó, os anciãos da sua casa e todos os anciãos da terra do Egito” (Bereshit 50:7). Disse-lhes o Santo, bendito seja: vós prestastes bondade a Yaakov; também Eu darei a vós e aos vossos filhos a vossa recompensa neste mundo e no mundo vindouro. E por isso, quando os egípcios do Êxodo pereceram no Mar dos Juncos, não ficaram insepultos nas águas, mas mereceram ser sepultados na terra, como está dito: “estendeste a Tua mão direita, a terra os tragou” (Shemot 15:12).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: בִּשְׁעַת אֲסִיפָתוֹ שֶׁל יַעֲקֹב קָרָא לְיוֹסֵף בְּנוֹ וְאָמַר לוֹ, בְּנִי יוֹסֵף, הִשָּׁבְעָה לִי בִּבְרִית מִילָה שֶׁאַתָּה מַעֲלֶה אוֹתִי לִקְבּוֹר עִם אֲבוֹתַי לְאֶרֶץ כְּנַעַן לִמְעָרַת הַמַּכְפֵּלָה. מִתְּחִלָּה הָרִאשׁוֹנִים הָיוּ נִשְׁבָּעִין בִּבְרִית מִילָה עַד שֶׁלֹּא נִתְּנָה הַתּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שִׂים נָא יָדְךָ תַּחַת יְרֵכִי״. וְנִשְׁבַּע לוֹ וְשָׁמַר וְעָשָׂה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אָבִי הִשְׁבִּיעַנִי לֵאמֹר״ וְכוּ'. וְעָלוּ עִמּוֹ כָּל גִּבּוֹרֵי מַלְכוּת לְקָבְרוֹ לִגְמֹל חֶסֶד עִם אָבִינוּ יַעֲקֹב, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּעַל יוֹסֵף לִקְבֹּר אֶת אָבִיו. וַיַּעֲלוּ עִמּוֹ כָּל עַבְדֵי פַרְעֹה זִקְנֵי בֵיתוֹ וְכֹל זִקְנֵי אֶרֶץ מִצְרָיִם״. נִמְצָא מַחֲנֶה שֶׁל יוֹסֵף. אָמַר לָהֶם הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: אַתֶּם עוֹשִׂים חֶסֶד עִם יַעֲקֹב, אַף אֲנִי נוֹתֵן לָכֶם שְׂכַרְכֶם וְלִבְנֵיכֶם בָּעוֹלָם הַזֶּה וּבָעוֹלָם הַבָּא. וּכְשֶׁמֵּתוּ הַמִּצְרִיִּים בְּיַם סוּף לֹא נִשְׁאֲרוּ בַמַּיִם אֶלָּא זָכוּ לִיקָּבֵר בָּאָרֶץ, וְאָמַר לָהֶם הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: אַתֶּם צִדַּקְתֶּם עֲלֵיכֶם אֶת הַדִּין, אַף אֲנִי אֶתֵּן לָכֶם מָקוֹם לִקְבוּרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״נָטִיתָ יְמִינְךָ תִּבְלָעֵמוֹ אָרֶץ״.
14
E, quando chegaram à caverna de Machpelá, veio sobre eles Esav, do seu monte, para suscitar contenda, e disse: “minha é a caverna de Machpelá!”. Que fizeram? Enviaram Naftali — que é veloz como “uma corça solta” — para descer ao Egito e trazer o documento perpétuo que havia entre eles. Chushim, filho de Dan, tinha um defeito no ouvido e na fala era surdo, e perguntou: “por que estamos aqui parados?”. Mostraram-lhe por gestos: “por causa deste homem, que não nos deixa sepultar Yaakov”. Desembainhou a sua espada e feriu a cabeça de Esav; e a cabeça rolou para dentro da caverna de Machpelá, e o seu corpo enviaram à terra da sua propriedade, no monte Seir.
וּכְשֶׁבָּאוּ לִמְעָרַת הַמַּכְפֵּלָה, בָּא עֲלֵיהֶם עֵשָׂו מֵהַר חוֹרֵב לְחַרְחֵר רִיב, וְאָמַר: שֶׁלִּי הוּא מְעָרַת הַמַּכְפֵּלָה! מָה עָשָׂה יוֹסֵף? שָׁלַח לִכְבֹּשׁ בַּמַּזָּלוֹת וְלֵירֵד לְמִצְרַיִם, וְלַעֲלוֹת כְּתַב עוֹלָם שֶׁהָיָה בֵּינָם. לְכָךְ הָלַךְ נַפְתָּלִי שֶׁהוּא אַיָּלָה שְׁלוּחָה. חוּשִׁים בֶּן דָּן הָיָה פָּגוּם בְּאָזְנוֹ וּבִלְשׁוֹנוֹ, אָמַר לָהֶם: מִפְּנֵי מָה אֲנַחְנוּ יוֹשְׁבִין כָּאן? הֶרְאָהוּ בְּאֶצְבָּעוֹ. אָמְרוּ לוֹ: בִּשְׁבִיל הָאִישׁ הַזֶּה שֶׁאֵינוֹ מַנִּיחַ אוֹתָנוּ לִקְבּוֹר אֶת יַעֲקֹב. שָׁלַף אֶת חַרְבּוֹ וְהִתִּיז אֶת רֹאשׁוֹ שֶׁל עֵשָׂו, וְנִכְנַס הָרֹאשׁ לְתוֹךְ מְעָרַת הַמַּכְפֵּלָה, וְאֶת גְּוִיָּתוֹ שָׁלַח לְאֶרֶץ אֲחֻזָּתוֹ בְּהַר שֵׂעִיר.
Nota — a bondade da sepultura, e Esav no túmulo. O grande cortejo que sepulta Yaakov é um ato de chéssed (bondade) que D’us promete recompensar. E a cena de Esav contestando a caverna — e a sua cabeça que ali repousa enquanto o corpo volta a Seir — é aggadá: na tradição, “Esav/Edom” é o nome simbólico do poder hostil (Roma e seus herdeiros), e não um juízo sobre qualquer povo vivo. O detalhe de a sua cabeça ficar em Machpelá sugere que mesmo Esav guardava um vínculo com a herança dos pais — mas só a “cabeça”, o reconhecimento distante, não o coração inteiro da aliança.
15
Que fez Yitzchak? Segurou a cabeça de Esav e orava diante do Santo, bendito seja, dizendo perante Ele: “Senhor de todos os mundos, ‘use-se de graça com o ímpio, mas ele não aprendeu a justiça’ (Yeshayá 26:10)” — use-se de graça com este ímpio, que não aprendeu nenhum dos mandamentos da Torá, como está dito “não aprendeu a justiça”; e sobre a terra de Israel e sobre a caverna de Machpelá ele fala com iniquidade, como está dito “na terra da retidão ele age perversamente” (ibid.).
מָה עָשָׂה יִצְחָק? אָחַז בְּרֹאשׁוֹ שֶׁל עֵשָׂו וְהָיָה מִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאָמַר לְפָנָיו: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, ״יֻחַן רָשָׁע בַּל לָמַד צֶדֶק״ (ישעיהו כו, י). יֻחַן רָשָׁע זֶה שֶׁלֹּא לָמַד כָּל הַמִּצְווֹת שֶׁבַּתּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר ״בַּל לָמַד צֶדֶק״. וְעַל אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל וְעַל מְעָרַת הַמַּכְפֵּלָה בְּעָוֶל הוּא מְדַבֵּר, שֶׁנֶּאֱמַר ״בְּאֶרֶץ נְכֹחוֹת יְעַוֵּל״.
16
Respondeu-lhe o espírito santo, dizendo: “vivo Eu, este ímpio não verá a majestade do Eterno!”, como está dito: “e não verá a majestade do Eterno” (Yeshayá 26:10).
הֱשִׁיבָתוֹ רוּחַ הַקֹּדֶשׁ וְאוֹמֶרֶת: ״חַי אָנִי, לֹא יִרְאֶה גֵּאוּת ה'!״ שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּבַל יִרְאֶה גֵּאוּת ה'״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A descida ao Egito e a Shechiná no exílio

Yaakov hesita em deixar a Terra, e D’us o tranquiliza com a maior das promessas: “Eu descerei contigo”. Os sábios leem aqui um princípio central — a presença de D’us acompanha Israel no exílio. D’us não está preso a um lugar; está com o Seu povo onde quer que ele vá. E o “entrar na conta” das setenta almas exprime, em imagem, que D’us Se conta junto com Israel: cada alma é preciosa, e Ele está entre elas.

Yossef, o justo: o domínio de si

O coração do capítulo é Yossef diante da tentação: ele “vê a imagem de seu pai” e domina o seu impulso. A tradição faz dele o modelo do autodomínio — Yossef haTzaddik — porque a maior força não é a do braço, mas a do caráter que governa o desejo (Avot 4:1). A “imagem do pai” é a consciência moral que nos detém no instante decisivo.

A sabedoria a serviço de todos

Yossef compreende a língua de cada povo e administra a fome com honestidade — sem falsear preços, sem deixar a colheita apodrecer, sustentando a terra e o seu próprio pai. Os sábios veem nele o governante ideal: sábio o bastante para entender a todos, íntegro o bastante para não se corromper pelo poder, e bondoso o bastante para sustentar o necessitado.

O chéssed da sepultura

O capítulo fecha com a fidelidade de Yossef ao juramento feito ao pai e com o grande cortejo que sepulta Yaakov em Machpelá — um ato de bondade que D’us promete recompensar. A contenda de Esav, lida em chave simbólica, lembra que a herança dos patriarcas se conquista com fidelidade inteira, e não apenas com uma reivindicação distante.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 40

Moshé e a sarça ardente: o chamado e o Nome

פֶּרֶק מ׳

D’us desce a uma humilde sarça de espinhos — pois Israel está na angústia, e “em toda a angústia deles, Ele é angustiado”. Ali, Moshé, o pastor relutante, recebe o seu chamado, o báculo dos patriarcas, os sinais e a revelação do Nome divino. É o alvorecer da redenção.

1
A quinta descida, que D’us desceu à sarça, como está dito: “e desci para o livrar da mão do Egito” (Shemot 3:8). Deixou todo o monte e desceu à sarça e nela habitou; e a sarça é lugar de aperto e angústia, toda de espinhos e abrolhos. E por que habitou dentro da sarça, que é aperto e angústia? Porque viu Israel em grande angústia, e também Ele habitou com eles na sua angústia, como está dito: “em toda a sua angústia, foi Ele angustiado” (Yeshayá 63:9).
יְרִידָה חֲמִישִׁית, שֶׁיָּרַד לַסְּנֶה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וָאֵרֵד לְהַצִּילוֹ מִיַּד מִצְרַיִם״. הִנִּיחַ כָּל הָהָר וְיָרַד לַסְּנֶה וְשָׁכַן בָּהּ, וְהַסְּנֶה צָרָה וְצוּקָה וְכֻלּוֹ קוֹצִים וְדַרְדָּרִים. וְלָמָּה שָׁכַן בְּתוֹךְ הַסְּנֶה שֶׁהִיא צָרָה וְצוּקָה? אֶלָּא שֶׁרָאָה יִשְׂרָאֵל בְּצָרָה גְדוֹלָה וְאַף הוּא שָׁכַן עִמָּהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּכָל צָרָתָם לוֹ צָר״.
Nota — D’us na humilde sarça. Por que a Presença se revela numa sarça de espinhos, e não num cedro majestoso? A tradição responde com uma das ideias mais belas: porque “em toda a angústia de Israel, Ele é angustiado” (Yeshayá 63:9) — D’us está com os que sofrem, não na grandeza, mas no aperto. Na leitura racionalista, D’us não tem corpo e não “sofre” como um homem (a expressão é figurada, antropopática); o que ela ensina é a proximidade da providência aos aflitos: o Criador não é distante da dor do Seu povo. A redenção começa, simbolicamente, no lugar mais baixo.
2
Rabi Levi diz: aquele báculo (mateh) que foi criado no crepúsculo da criação foi entregue a Adam, o primeiro, ao sair do Jardim do Éden; e Adam o entregou a Chanoch, e Chanoch a Noach, e Noach a Shem, e Shem o entregou a Avraham, e Avraham a Yitzchak, e Yitzchak a Yaakov, e Yaakov o levou ao Egito e o entregou a Yossef, seu filho. Quando Yossef morreu e pilharam a sua casa, o báculo foi parar no palácio de Faraó. E Yitro era um dos magos (chartumim) do Egito, e viu o báculo e os sinais que nele havia, e o cobiçou no seu coração, e o tomou e o trouxe e o plantou dentro do jardim da sua casa; e ninguém mais conseguia aproximar-se dele.
רַבִּי לֵוִי אוֹמֵר: אוֹתוֹ הַמַּטֶּה שֶׁנִּבְרָא בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת נִמְסַר לְאָדָם הָרִאשׁוֹן מִגַּן עֵדֶן, וְאָדָם מְסָרוֹ לַחֲנוֹךְ, וַחֲנוֹךְ מְסָרוֹ לְנֹחַ, וְנֹחַ לְשֵׁם, וְשֵׁם מְסָרוֹ לְאַבְרָהָם, וְאַבְרָהָם לְיִצְחָק, וְיִצְחָק לְיַעֲקֹב, וְיַעֲקֹב הוֹרִיד אוֹתוֹ לְמִצְרַיִם, וּמְסָרוֹ לְיוֹסֵף בְּנוֹ. כְּשֶׁמֵּת יוֹסֵף וְשָׁלְלוּ בֵּיתוֹ, נִתְּנָה בְּפַלְטֵרִין שֶׁל פַּרְעֹה, וְהָיָה יִתְרוֹ אֶחָד מֵחַרְטֻמֵּי מִצְרַיִם, וְרָאָה אֶת הַמַּטֶּה וְאֶת הָאוֹתוֹת אֲשֶׁר עָלָיו, וְחָמַד אוֹתוֹ בְּלִבּוֹ, וּלְקָחוֹ וֶהֱבִיאוֹ וּנְטָעוֹ בְּתוֹךְ הַגָּן שֶׁל בֵּיתוֹ, וְלֹא הָיָה אָדָם יָכוֹל לִקְרֹב אֵלָיו עוֹד.
Nota — o báculo e a corrente da transmissão. O “báculo do crepúsculo”, passado de Adam a Moshé, é uma imagem da continuidade ininterrupta da missão e da tradição (mesorá) através das gerações — de mão em mão, dos primeiros aos redentores. Na leitura racionalista, o báculo não é uma varinha mágica: o poder é de D’us, não da madeira (mais adiante, quando Moshé erra ao bater na rocha, vê-se que o instrumento nada faz por si). O que o báculo carrega é o sinal de uma vocação confiada de geração a geração.
3
Quando Moshé veio à casa dele de Yitro, entrou no jardim da casa de Yitro e viu o báculo e leu os sinais que nele havia, e estendeu a mão e o tomou. E viu Yitro a Moshé e disse: “este há de redimir Israel do Egito”. Por isso lhe deu Tzipporá, sua filha, por esposa, como está dito: “e consentiu Moshé em habitar com aquele homem” (Shemot 2:21).
כְּשֶׁבָּא מֹשֶׁה לְתוֹךְ בֵּיתוֹ, נִכְנַס לְגַן בֵּיתוֹ שֶׁל יִתְרוֹ וְרָאָה אֶת הַמַּטֶּה וְקָרָא אֶת הָאוֹתוֹת אֲשֶׁר עָלָיו וְשָׁלַף יָדוֹ וּלְקָחוֹ. וְרָאָה יִתְרוֹ לְמֹשֶׁה וְאָמַר: ״זֶה עָתִיד לִגְאֹל אֶת יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם״. לְפִיכָךְ נָתַן לוֹ אֶת צִפֹּרָה בִּתּוֹ לְאִשָּׁה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיּוֹאֶל מֹשֶׁה לָשֶׁבֶת אֶת הָאִישׁ״.
4
E Moshé pastoreava o rebanho de Yitro por quarenta anos, e a fera do campo não os desfilhava, e eles frutificavam e se multiplicavam muitíssimo; e sobre eles diz o versículo: “como o rebanho das oferendas santas” (Yechezkel 36:38).
וְהָיָה מֹשֶׁה רוֹעֶה אֶת צֹאן יִתְרוֹ אַרְבָּעִים שָׁנָה, וְלֹא שִׁכְּלָה אוֹתָם חַיַּת הַשָּׂדֶה, וְהָיוּ פָּרִים וְרָבִים הַרְבֵּה מְאֹד, וַעֲלֵיהֶם הַכָּתוּב אוֹמֵר (יחזקאל לו, לח) ״כְּצֹאן קֳדָשִׁים״.
5
E conduziu o rebanho até chegar a Chorev, como está dito: “e conduziu o rebanho para além do deserto” (Shemot 3:1). E ali se lhe revelou o Santo, bendito seja, dentre a sarça; e viu Moshé a sarça a arder no fogo, e o fogo não consumia a sarça, e a sarça não apagava as chamas do fogo — e a sarça não brota na terra a não ser que haja água por baixo dela. E viu Moshé e admirou-se muito no seu coração. Disse: “que mistério há nela?”. Disse: “desviar-me-ei para lá e verei esta grande visão: por que a sarça não se queima” (Shemot 3:3). Disse-lhe o Santo, bendito seja: “Moshé, fica onde estás, pois aqui Eu hei de dar a Torá a Israel”, como está dito: “e disse: não te aproximes para cá” (Shemot 3:5). Disse-lhe o Santo, bendito seja: “tira as tuas sandálias dos teus pés” (Shemot 3:5). Daqui disseram: todo aquele que entra no Santuário precisa tirar as sandálias.
וְנָהַג אֶת הַצֹּאן עַד שֶׁבָּא לְחוֹרֵב, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּנְהַג אֶת הַצֹּאן אַחַר הַמִּדְבָּר״. וְשָׁם נִגְלָה עָלָיו הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מִתּוֹךְ הַסְּנֶה, וְרָאָה מֹשֶׁה אֶת הַסְּנֶה בּוֹעֵר בָּאֵשׁ וְהָאֵשׁ אֵינָהּ אוֹכֶלֶת אֶת הַסְּנֶה וְהַסְּנֶה אֵינוֹ מְכַבֶּה שַׁלְהֲבוֹתָיו שֶׁל אֵשׁ וְהַסְּנֶה אֵינֶנָּה נִצְמַחַת בָּאָרֶץ אֶלָּא אִם כֵּן יֵשׁ מַיִם תַּחְתֶּיהָ. וְרָאָה מֹשֶׁה וְהָיָה תָּמֵהַּ בְּלִבּוֹ הַרְבֵּה מְאֹד. אָמַר: ״מַאן יְקָרָא אִית לֵיהּ בְּגַוֵּהּ?״ אָמַר: ״אָסוּרָה נָּא וְאֶרְאֶה אֶת הַמַּרְאֶה הַגָּדוֹל הַזֶּה מַדּוּעַ לֹא יִבְעַר הַסְּנֶה״. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״מֹשֶׁה, עֲמֹד עַל עָמְדְּךָ, שֶׁשָּׁם אֲנִי עָתִיד לִיתֵּן אֶת הַתּוֹרָה לְיִשְׂרָאֵל״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר אַל תִּקְרַב הֲלוֹם״. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״לֵךְ מִכָּאן״. אָמְרוּ: כָּל מִי שֶׁנִּכְנָס לַמִּקְדָּשׁ צָרִיךְ לִשְׁלֹף נַעֲלוֹ, שֶׁכָּךְ אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה: ״שַׁל נְעָלֶיךָ מֵעַל רַגְלֶיךָ״.
Nota — a sarça que arde e não se consome. A grande visão: o fogo arde, mas a sarça não se queima. A tradição lê aí o próprio Israel — que atravessa o fogo da perseguição e não é destruído. E o lugar é santo porque ali, no mesmo monte (Chorev/Sinai), a Torá será dada; por isso “tira as tuas sandálias” — aproximar-se do sagrado pede humildade e reverência (daí o costume de descalçar-se no Santuário). Para o Rambam (Guia), tais cenas são apreensões proféticas, visões da mente elevada, não espetáculos para os olhos.
6
Disse-lhe o Santo, bendito seja: “vai, e Eu te enviarei a Faraó”. Disse perante Ele: “Senhor dos mundos! Não te disse já três e quatro vezes que não há em mim força para isso, pois sou impedido na minha fala”, como está dito: “e disse Moshé ao Eterno: não sou homem de palavras” (Shemot 4:10)? E, além disso, Tu me envias à mão do meu inimigo, que busca o meu mal — e por isso fugi de diante dele, como está dito: “e fugiu Moshé de diante de Faraó” (Shemot 2:15). Disse-lhe: “não temas dele, pois já morreram todos os homens que buscavam a tua alma” (Shemot 4:19).
אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״לֵךְ וְאֶשְׁלָחֲךָ אֶל פַּרְעֹה״. אָמַר לְפָנָיו: רִבּוֹן שֶׁל הָעוֹלָמִים! לֹא כָּךְ אָמַרְתִּי לְךָ שָׁלֹשׁ וְאַרְבַּע פְּעָמִים, אֲנִי אֵין בִּי כֹּחַ שֶׁאֲנִי נִפְגָּם בִּלְשׁוֹנִי, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה אֶל ה' לֹא אִישׁ דְּבָרִים אָנֹכִי״? וְלֹא עוֹד אֶלָּא שֶׁאַתָּה מְשַׁלְּחֵנִי לְיַד אוֹיְבִי וּמְבַקֵּשׁ רָעָתִי, וְעַל כֵּן בָּרַחְתִּי מִפָּנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּבְרַח מֹשֶׁה מִפְּנֵי פַרְעֹה״. אָמַר לוֹ: ״אַל תִּירָא מִמֶּנּוּ שֶׁכְּבָר מֵתוּ כָּל הָאֲנָשִׁים הַמְבַקְשִׁים אֶת נַפְשֶׁךָ״.
7
E acaso estavam mortos? Não estavam vivos? Mas é que decaíram dos seus bens. Daqui aprendes que todo aquele que decai dos seus bens é como se estivesse morto; por isso se diz “pois morreram todos os homens que buscavam a tua alma”. Disse-lhe: “vai, e Eu te enviarei a Faraó”. Disse perante Ele: “Senhor de todos os mundos, envia, peço-te, pela mão daquele que hás de enviar” (Shemot 4:13) — quer dizer, pela mão daquele homem que hás de enviar no futuro. Disse-lhe: não te disse “e te enviarei a Israel”, mas “vai, e te enviarei a Faraó”; e aquele homem de que falas, Eu o envio, no porvir, a Israel, como está dito: “eis que Eu vos envio Eliyahu, o profeta ... e ele fará voltar o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos aos pais” (Malachi 3:23-24).
וְכִי מֵתִים הָיוּ? וַהֲלֹא חַיִּים הָיוּ! אֶלָּא שֶׁיָּרְדוּ מִמָּמוֹנָם. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁכָּל הַיּוֹרֵד מִנְּכָסָיו כְּאִלּוּ מֵת, לְכָךְ נֶאֱמַר ״כִּי מֵתוּ כָּל הָאֲנָשִׁים הַמְבַקְשִׁים אֶת נַפְשֶׁךָ״. אָמַר לוֹ: ״לֵךְ וְאֶשְׁלָחֲךָ אֶל פַּרְעֹה״. אָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, שְׁלַח נָא בְּיַד תִּשְׁלָח״. רְצוֹנוֹ לוֹמַר, בְּיַד אוֹתוֹ הָאִישׁ שֶׁאַתָּה עָתִיד לִשְׁלֹחַ. אָמַר לוֹ: לֹא אָמַרְתִּי לְךָ ״וְאֶשְׁלָחֲךָ אֶל יִשְׂרָאֵל״ אֶלָּא ״לֵךְ וְאֶשְׁלָחֲךָ אֶל פַּרְעֹה״. וּלְאוֹתוֹ הָאִישׁ שֶׁאַתָּה אוֹמֵר אֲנִי שׁוֹלֵחַ לֶעָתִיד לָבֹא אֶל יִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר ״הִנֵּה אָנֹכִי שֹׁלֵחַ לָכֶם אֵת אֵלִיָּה הַנָּבִיא וְכוּ' וְהֵשִׁיב לֵב אָבוֹת עַל בָּנִים וְלֵב בָּנִים עַל אֲבוֹתָם״.
8
Disse perante Ele: “Senhor de todos os mundos, dá-me um sinal ou um prodígio”. Disse-lhe: “lança o teu báculo à terra”. E lançou o seu báculo à terra e tornou-se uma serpente ardente (saraf). E por que mostrou o Santo, bendito seja, a Moshé a serpente no báculo, e não lhe mostrou outra coisa? Porque a serpente morde e mata os filhos do homem; assim Faraó e o seu povo mordiam e matavam Israel. E o báculo voltou a ser como madeira seca. Disse-lhe: “assim serão Faraó e o seu povo, secos como a madeira seca”, como está dito: “e disse o Eterno a Moshé: estende a tua mão e pega-a pela cauda” (Shemot 4:4). Disse perante Ele: “dá-me outro sinal”. Disse-lhe: “mete a tua mão no teu seio”. E meteu a mão no seio e a tirou, e eis que estava leprosa. E por que mostrou a Moshé o sinal de Faraó numa coisa impura, e não numa coisa pura? Porque, assim como o leproso é impuro e contamina, assim Faraó e o seu povo eram impuros e contaminavam Israel. E a mão voltou a ficar pura. Disse-lhe: “assim se purificarão os de Israel da impureza dos egípcios”, como está dito: “e disse: mete, peço-te, a tua mão no teu seio” (Shemot 4:7).
אָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים! תֵּן לִי אוֹת אוֹ מוֹפֵת״. אָמַר לוֹ: ״הַשְׁלֵךְ אֶת מַטְּךָ אַרְצָה״. וְהִשְׁלִיךְ אֶת מַטֵּהוּ אַרְצָה וְנַעֲשָׂה נָחָשׁ שָׂרָף. וְלָמָּה הֶרְאָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה הַנָּחָשׁ שָׂרָף בַּמַּטֶּה וְלֹא הֶרְאָהוּ דָּבָר אַחֵר? אֶלָּא מִפְּנֵי שֶׁהַנָּחָשׁ נוֹשֵׁךְ וּמֵמִית לִבְנֵי אָדָם, כָּךְ הָיָה פַּרְעֹה וְעַמּוֹ נוֹשְׁכִין וּמְמִיתִין אֶת יִשְׂרָאֵל. וְחָזַר וְנַעֲשָׂה כְּעֵץ יָבֵשׁ. אָמַר לוֹ: ״כָּךְ יִהְיוּ פַרְעֹה וְעַמּוֹ יְבֵשִׁים כְּמוֹ הָעֵץ הַיָּבֵשׁ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר ה' אֶל מֹשֶׁה שְׁלַח יָדְךָ וֶאֱחֹז בִּזְנָבוֹ״. אָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, תֵּן לִי אוֹת אוֹ מוֹפֵת״. אָמַר לוֹ: ״הָבֵא יָדְךָ בְּחֵיקֶךָ״. וְהֵבִיא יָדוֹ בְּחֵיקוֹ וְהוֹצִיאָהּ וְהִנֵּה מְצֹרַעַת. וְלָמָּה הֶרְאָה לְמֹשֶׁה בְּדָבָר טָמֵא אוֹת פַּרְעֹה וְלֹא הֶרְאָהוּ בְּדָבָר טָהוֹר? אֶלָּא מָה הַמְּצֹרָע טָמֵא וּמְטַמֵּא, כָּךְ הָיוּ פַּרְעֹה וְעַמּוֹ טְמֵאִים וּמְטַמְּאִים אֶת יִשְׂרָאֵל. וְחוֹזֵר וְנִטְהָר. אָמַר לוֹ: ״כָּךְ יִטָּהֲרוּ יִשְׂרָאֵל מִטֻּמְאַת הַמִּצְרִיִּים״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר הָבֵא נָא יָדְךָ בְּחֵיקֶךָ״.
9
Por que mostrou o Santo, bendito seja, a revelação a Moshé dentre a sarça? Mas é que o fogo são Israel, comparados ao fogo, como está dito: “e será a casa de Yaakov fogo, e a casa de Yossef chama” (Ovadiá 1:18); e a sarça de espinhos são os povos hostis, comparados a espinhos e abrolhos. Disse-lhe: assim serão os de Israel entre os povos — por ora o fogo de Israel não consome os opressores comparados a espinhos, e os povos hostis não apagam a chama de Israel, que é feita das palavras da Torá; mas, no porvir, o fogo de Israel consumirá os opressores comparados a espinhos, como está dito: “e serão os povos como queima de cal, espinhos cortados que se queimam no fogo” (Yeshayá 33:12).
לָמָּה הֶרְאָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה מִתּוֹךְ הַסְּנֶה? אֶלָּא הָאֵשׁ אֵלּוּ יִשְׂרָאֵל שֶׁנִּמְשְׁלוּ כָּאֵשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיָה בֵית יַעֲקֹב אֵשׁ וּבֵית יוֹסֵף לֶהָבָה״, וְהַסְּנֶה אֵלּוּ אֻמּוֹת הָעוֹלָם שֶׁנִּמְשְׁלוּ כְּקוֹצִים וְדַרְדָּרִים. אָמַר לוֹ: כָּךְ יִהְיוּ יִשְׂרָאֵל בְּתוֹךְ הָעַמִּים, לֹא אֵשׁ שֶׁל יִשְׂרָאֵל אוֹכֶלֶת הָעַמִּים שֶׁנִּמְשְׁלוּ כְּקוֹצִים וְכַחֲרוּלִים, וְאֵין אֻמּוֹת הָעוֹלָם מְכַבִּין שַׁלְהֶבְתָּן שֶׁל יִשְׂרָאֵל שֶׁהֵן מִדִּבְרֵי תּוֹרָה. לֶעָתִיד לָבוֹא אִשָּׁן שֶׁל יִשְׂרָאֵל אוֹכֶלֶת הָעַמִּים שֶׁנִּמְשְׁלוּ כְּקוֹצִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיוּ הָעַמִּים מִשְׂרְפוֹת שִׂיד״.
Nota — o fogo de Israel e os espinhos. O midrash decifra a imagem: o fogo é Israel (“a casa de Yaakov será fogo”), e os espinhos são os povos hostis que o oprimem. A mensagem é de resistência: a chama de Israel — as palavras da Torá — não se apaga, por mais que o queiram extinguir. As passagens sobre “os povos” que ardem referem-se, na tradição, aos opressores de um tempo determinado, não a um juízo sobre a humanidade (cf. as notas dos caps. 28 e 34); o horizonte último da Torá é a paz entre as nações (Yeshayá 2:4).
10
Disse Moshé diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos! Faze-me conhecer, peço-te, o Teu grande e santo Nome, para que eu Te invoque pelo Teu grande e santo Nome e Tu me respondas”. E D’us lho fez conhecer, como está dito: “e disse D’us a Moshé: Eu Sou o que Sou (Ehyeh asher Ehyeh)” (Shemot 3:14); “e disse mais D’us a Moshé ...” (Shemot 3:15).
אָמַר מֹשֶׁה לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים! הוֹדִיעֵנִי נָא אֶת שִׁמְךָ הַגָּדוֹל וְהַקָּדוֹשׁ שֶׁאֶקְרָא בְּשִׁמְךָ הַגָּדוֹל וְהַקָּדוֹשׁ וְתַעֲנֵנִי״. וְהוֹדִיעוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר ה' אֶל מֹשֶׁה אֶהְיֶה אֲשֶׁר אֶהְיֶה״, ״וַיֹּאמֶר עוֹד אֱלֹהִים״ וְכוּ'.
Nota — “Eu Sou o que Sou” e a graça do conhecimento. Ao Nome que Moshé pede, D’us responde Ehyeh asher Ehyeh — “Eu Sou o que Sou”. Para o Rambam (Guia I:63), isto não é um nome como os outros, mas uma afirmação do Ser necessário e eterno de D’us: Aquele cuja existência é absoluta, não derivada de nada, a fonte de todo existir. Conhecer a D’us é, antes de tudo, compreender que Ele é — o fundamento de tudo o que há. Por isso o capítulo encerra com “chonen hada’at”, “que agracia com o conhecimento” (a quarta bênção da Amidá): a redenção começa com o dom da verdade sobre quem é D’us.
11
E viram os seres supernos que o Santo, bendito seja, entregou o segredo do Nome Explícito a Moshé, e responderam: “Bendito és Tu, ó Eterno, que agracia o homem com o conhecimento (chonen hada’at)”.
וְרָאוּ הָעֶלְיוֹנִים שֶׁמָּסַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא סוֹד שֵׁם הַמְפֹרָשׁ לְמֹשֶׁה, וְעָנוּ: ״בָּרוּךְ אַתָּה ה', חוֹנֵן הַדָּעַת״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

D’us entre os aflitos

O capítulo abre com uma imagem que define a teologia da redenção: D’us se revela na sarça, no espinho humilde, porque está com Israel na sua angústia. Os sábios leem nisto a essência da providência — D’us não é o distante das alturas, mas o próximo dos que sofrem. A redenção do Egito começa, simbolicamente, no lugar mais baixo, e por isso é segura.

A humildade do redentor

Moshé, o maior dos profetas, é também o mais relutante: “não sou homem de palavras”. Ele não busca o poder — recua, hesita, alega a sua fraqueza. A tradição vê nisso a marca do verdadeiro líder: não a ambição, mas o senso de dever que vence o próprio receio. O pastor fiel do rebanho de Yitro torna-se o pastor de Israel — pois quem cuida bem do pouco é confiado com o muito.

Os sinais e o seu sentido

O báculo que vira serpente, a mão que se torna leprosa e se cura — os sábios leem cada sinal como uma mensagem: o opressor que morde como a serpente e contamina como a lepra será dessecado e Israel será purificado. Os milagres não são espetáculo: são linguagem, ensino sobre o que há de acontecer. E o báculo, passado de Adam a Moshé, lembra que o poder é de D’us, não do instrumento.

O Nome e o conhecimento

O ápice é a revelação do Nome: Ehyeh asher Ehyeh, o Ser necessário e eterno (Rambam, Guia I:63). Conhecer a D’us — saber que Ele é, fonte de todo existir — é o fundamento de tudo. Por isso o capítulo se sela com a bênção “que agracia com o conhecimento”: a libertação verdadeira começa na mente que reconhece o Criador, e dela flui a coragem de enfrentar o Faraó.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 41

A entrega da Torá no Sinai

פֶּרֶק מ״א

No sexto dia de Sivan, D’us desce sobre o Sinai para dar a Torá. O capítulo narra a oferta da Torá a todas as nações e a sua aceitação por Israel — “faremos e ouviremos” —, o casamento de D’us e do Seu povo sob o dossel do monte, o trovão e as vozes, e os 613 mandamentos.

1
A sexta descida, que D’us desceu ao Sinai, como está dito: “e desceu o Eterno sobre o monte Sinai” (Shemot 19:20). No sexto dia de Sivan revelou-se o Santo, bendito seja, sobre Israel; e permanecendo no Seu trono supremo, revelou-se sobre o monte Sinai. Abriram-se os céus, e o cume do monte entrou dentro dos céus, e a névoa cobria o monte; e o Santo, bendito seja, por assim dizer, assentado no Seu trono, e os Seus “pés” como que pousados sobre a névoa, como está dito: “e inclinou os céus e desceu, e a névoa estava debaixo dos Seus pés” (Tehilim 18:10).
יְרִידָה שִׁשִּׁית שֶׁיָּרַד לְסִינַי, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּרֶד ה' עַל הַר סִינַי״ וְכוּ'. בְּשִׁשָּׁה בְּסִיוָן נִגְלָה עַל יִשְׂרָאֵל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וּבִמְקוֹמוֹ נִגְלָה עַל הַר סִינַי, וְנִפְתְּחוּ הַשָּׁמַיִם, וְנִכְנַס רֹאשׁ הָהָר בְּתוֹךְ הַשָּׁמַיִם, וְהָעֲרָפֶל מְכַסֶּה אֶת הָהָר, וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא יוֹשֵׁב עַל כִּסְאוֹ וְרַגְלָיו עוֹמְדוֹת עַל הָעֲרָפֶל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּט שָׁמַיִם וַיֵּרַד וַעֲרָפֶל תַּחַת רַגְלָיו״.
2
Rabi Tarfon diz: resplandeceu o Santo, bendito seja, e veio do monte Sinai, e revelou-se primeiro sobre os filhos de Esav, como está dito: “o Eterno veio do Sinai e resplandeceu desde Seir sobre eles” (Devarim 33:2) — e “Seir” não é senão os filhos de Esav. Disse-lhes o Santo, bendito seja: “aceitais sobre vós a Torá?”. Disseram-lhe: “que está escrito nela?”. Disse-lhes: “não matarás”. Disseram-lhe: “não podemos abandonar aquilo com que Yitzchak abençoou Esav, ao dizer-lhe ‘e pela tua espada viverás’ (Bereshit 27:40)”. E dali tornou e revelou-se sobre os filhos de Yishmael, como está dito: “resplandeceu desde o monte Parã” (Devarim 33:2). Disse-lhes: “aceitais a Torá?”. Disseram: “que está escrito nela?”. Disse-lhes: “não furtarás”. Disseram-lhe: “não podemos abandonar o costume que a tradição associa aos nossos pais que furtaram Yossef e o levaram ao Egito” (cf. Bereshit 40:15). E dali enviou mensageiros a todas as nações do mundo. Disse-lhes: “aceitais a Torá?”. Disseram: “que está escrito nela?”. Disse-lhes: “não terás outros deuses diante de Mim”. Disseram-lhe: “vemos que não podemos abandonar a religião dos nossos pais, que serviram aos ídolos; dá, pois, a Tua Torá ao Teu povo”, como está dito: “o Eterno dará força ao Seu povo, o Eterno abençoará o Seu povo com a paz” (Tehilim 29:11). E dali tornou e revelou-se sobre os filhos de Israel, como está dito: “e veio dentre as miríades de santidade” (Devarim 33:2); e à Sua direita estava a Torá, como está dito: “à Sua direita, uma lei de fogo para eles” (Devarim 33:2).
רַבִּי טַרְפוֹן אוֹמֵר: זָרַח הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וּבָא מֵהַר סִינַי וְנִגְלָה עַל בְּנֵי עֵשָׂו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמַר ה' מִסִּינַי בָּא וְזָרַח מִשֵּׂעִיר לָמוֹ״, וְאֵין שֵׂעִיר אֶלָּא בְּנֵי עֵשָׂו שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּשֶׁב עֵשָׂו בְּהַר שֵׂעִיר״. אָמַר לָהֶם הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: מְקַבְּלִים אַתֶּם עֲלֵיכֶם אֶת הַתּוֹרָה? אָמְרוּ לוֹ: וּמַה כָּתוּב בָּהּ? אָמַר לָהֶם: ״לֹא תִּרְצַח״. אָמְרוּ לוֹ: אֵין אָנוּ יְכוֹלִין לַעֲזֹב אֶת הַדָּבָר שֶׁבֵּרַךְ יִצְחָק אֶת עֵשָׂו שֶׁאָמַר לוֹ: ״וְעַל חַרְבְּךָ תִחְיֶה״. וּמִשָּׁם חָזַר וְנִגְלָה עַל בְּנֵי יִשְׁמָעֵאל שֶׁנֶּאֱמַר: ״הוֹפִיעַ מֵהַר פָּארָן״, וְאֵין פָּארָן אֶלָּא בְּנֵי יִשְׁמָעֵאל שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּמִדְבַּר פָּארָן״. אָמַר לָהֶם הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: מְקַבְּלִים אַתֶּם אֶת הַתּוֹרָה? אָמְרוּ לוֹ: וּמַה כָּתוּב בָּהּ? אָמַר לָהֶם: ״לֹא תִּגְנֹב״. אָמְרוּ לוֹ: אֵין אָנוּ יְכוֹלִין לַעֲזֹב אֶת הַדָּבָר שֶׁעָשׂוּ אֲבוֹתֵינוּ שֶׁגָּנְבוּ אֶת יוֹסֵף וְהוֹרִידוּהוּ לְמִצְרַיִם שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי גֻנֹּב גֻּנַּבְתִּי מֵאֶרֶץ הָעִבְרִים״. וּמִשָּׁם שָׁלַח מַלְאָכִים לְכָל אֻמּוֹת הָעוֹלָם. אָמַר לָהֶם: אַתֶּם מְקַבְּלִים עֲלֵיכֶם אֶת הַתּוֹרָה? אָמְרוּ לוֹ: וּמַה כְּתִיב בָּהּ? אָמַר לָהֶם: ״לֹא יִהְיֶה לְךָ אֱלֹהִים אֲחֵרִים עַל פָּנָי״. אָמְרוּ לוֹ: אָנוּ רוֹאִין שֶׁאֵין אָנוּ יְכוֹלִין לְהַנִּיחַ דַּת אֲבוֹתֵינוּ שֶׁעָבְדוּ אֶת הָאֱלִילִים, אֶלָּא תֵּן תּוֹרָתְךָ לְעַמְּךָ שֶׁנֶּאֱמַר: ״ה' עֹז לְעַמּוֹ יִתֵּן, ה' יְבָרֵךְ אֶת עַמּוֹ בַשָּׁלוֹם״. וּמִשָּׁם חָזַר וְנִגְלָה עַל בְּנֵי יִשְׂרָאֵל שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאָתָא מֵרִבְבֹת קֹדֶשׁ״, וְאֵין רִבְבוֹת אֶלָּא יִשְׂרָאֵל שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּבְנֻחֹה יֹאמַר שׁוּבָה ה' רִבְבוֹת אַלְפֵי יִשְׂרָאֵל״, וְעִמּוֹ אַלְפֵי שִׁנְאָן וְרֶכֶב רִבּוֹתַיִם מַלְאֲכֵי קֹדֶשׁ, וִימִינוֹ אוֹחֶזֶת אֶת הַתּוֹרָה שֶׁנֶּאֱמַר: ״מִימִינוֹ אֵשׁ דָּת לָמוֹ״.
Nota — a Torá oferecida a todos. Este célebre midrash ensina algo profundo: a Torá foi oferecida a todas as nações, não imposta nem reservada de antemão. Cada povo, na linguagem da aggadá, recusou por não querer abandonar o seu modo de vida (a violência, o furto, a idolatria — caracterizações histórico-simbólicas, na tradição, dos poderes daquele tempo, e não um juízo essencial sobre seres humanos). O ponto não é o desprezo pelas nações — a quem D’us, afinal, estendeu a oferta —, mas a grandeza da prontidão de Israel, que respondeu “faremos e ouviremos” antes mesmo de saber o conteúdo. A Torá pertence a quem a abraça; e os justos de todas as nações têm parte no mundo vindouro (Rambam).
3
Daqui aprendes que as palavras da Torá são como brasas de fogo, e foram dadas em linguagem de amor e em linguagem de juramento. Em linguagem de amor, como está dito: “a Sua esquerda está debaixo da minha cabeça e a Sua direita me abraça” (Shir haShirim 2:6). Em linguagem de juramento, como está dito: “jurou o Eterno pela Sua direita e pelo braço da Sua força” (Yeshayá 62:8).
מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁדִּבְרֵי תוֹרָה כְּגַחֲלֵי אֵשׁ, וְנִתַּן לָהֶם בִּלְשׁוֹן חִבָּה וּבִלְשׁוֹן שְׁבוּעָה. בִּלְשׁוֹן חִבָּה שֶׁנֶּאֱמַר: ״שְׂמֹאלוֹ תַּחַת לְרֹאשִׁי״. בִּלְשׁוֹן שְׁבוּעָה שֶׁנֶּאֱמַר: ״נִשְׁבַּע ה' בִּימִינוֹ וּבִזְרוֹעַ עֻזּוֹ״. וְאֵין יְמִינוֹ אֶלָּא שְׁבוּעָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״נִשְׁבַּע ה' בִּימִינוֹ״.
4
Rabi Eliezer diz: desde o dia em que Israel saiu do Egito, viajavam e acampavam em meio a discórdias, como está dito: “e partiram e acamparam” no plural — até que chegaram ao monte Sinai e acamparam todos diante do monte como um só, como está dito: “e acampou (vayichan, no singular) ali Israel diante do monte” (Shemot 19:2). Disse-lhes o Santo, bendito seja: “aceitais sobre vós a Torá?”. Responderam-lhe todos a uma só voz: “guardaremos a Torá e estamos prontos a fazer e a cumprir tudo o que está escrito nela”, como está dito: “tudo o que o Eterno falar, faremos e ouviremos” (cf. Shemot 24:7).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: מִיּוֹם שֶׁיָּצְאוּ יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם הָיוּ נוֹסְעִים וְחוֹנִים בַּחֲלַקְלַקּוּת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּסְעוּ וַיַּחֲנוּ״, עַד שֶׁבָּאוּ בְּהַר סִינַי וְחָנוּ כֻּלָּם נֶגֶד הָהָר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּחַן שָׁם יִשְׂרָאֵל נֶגֶד הָהָר״. אָמַר לָהֶם הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״מְקַבְּלִים אַתֶּם עֲלֵיכֶם אֶת הַתּוֹרָה?״ אָמְרוּ לוֹ כֻּלָּם בְּפֶה אֶחָד: ״אָנוּ שׁוֹמְרִים אֶת הַתּוֹרָה וּמוּכָנִים לַעֲשׂוֹת וּלְקַיֵּם כָּל הַכָּתוּב בָּהּ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כֹּל אֲשֶׁר יְדַבֵּר ה' נַעֲשֶׂה וְנִשְׁמָע״.
Nota — “faremos e ouviremos”, e o acampar como um só. No Sinai, Israel “acampa” no singular (vayichan) — “como um só homem, com um só coração”: a Torá só se recebe na unidade. E a resposta “naasse venishma” (“faremos e ouviremos”) inverte a ordem esperada: o compromisso precede a compreensão plena. Na leitura racionalista, isto não é fé cega, mas a confiança que se aprofunda pela prática e pelo estudo — aceita-se a aliança e, vivendo-a, vai-se entendendo (cf. o ensaio sobre Shavuot).
5
Rabi Elazar haModai diz: desde o dia em que foram criados os céus e a terra, o nome do monte era Chorev; e, quando se revelou o Santo, bendito seja, sobre Moshé dentre a sarça (sneh), pelo nome da sarça foi também chamado “monte Sinai” — e é o mesmo Chorev. E de onde sabemos que Israel recebeu a Torá em Chorev? Do que está dito: “o dia em que estiveste diante do Eterno, teu D’us, em Chorev” (Devarim 4:10).
רַבִּי אֶלְעָזָר הַמּוֹדָעִי אוֹמֵר: מִיּוֹם שֶׁנִּבְרְאוּ שָׁמַיִם וָאָרֶץ נִקְרָא שֵׁם הָהָר חוֹרֵב, וּכְשֶׁנִּגְלָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל מֹשֶׁה מִתּוֹךְ הַסְּנֶה, עַל שֵׁם הַסְּנֶה נִקְרָא הַר סִינַי, וְהוּא חוֹרֵב. וּמִנַּיִן שֶׁקִּבְּלוּ יִשְׂרָאֵל הַתּוֹרָה בְּהַר חוֹרֵב? שֶׁנֶּאֱמַר: ״יוֹם אֲשֶׁר עָמַדְתָּ לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ בְּחֹרֵב״.
6
Rabi Pinchas diz: na véspera do Shabat estiveram os de Israel no monte Sinai, dispostos os homens à parte e as mulheres à parte. Disse o Santo, bendito seja, a Moshé: “vai e dize às filhas de Israel se querem receber a Torá”. E por que se perguntou primeiro às mulheres? Porque é próprio dos homens seguirem também a orientação das mulheres na transmissão aos filhos, como está dito: “assim dirás à casa de Yaakov” — estas são as mulheres — “e anunciarás aos filhos de Israel” (Shemot 19:3) — estes são os homens. E responderam todos a uma só voz: “tudo o que o Eterno falou, faremos e ouviremos”.
רַבִּי פִּנְחָס אוֹמֵר: עֶרֶב שַׁבָּת עָמְדוּ יִשְׂרָאֵל בְּהַר סִינַי, עוֹרְכִין הָאֲנָשִׁים לְבַד וְהַנָּשִׁים לְבַד. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה: ״לֵךְ אֱמוֹר לָהֶן לִבְנוֹת יִשְׂרָאֵל אִם רוֹצוֹת הֵן לְקַבֵּל אֶת הַתּוֹרָה״. וְלָמָּה שָׁאֲלוּ לַנָּשִׁים? לְפִי שֶׁדַּרְכָּן שֶׁל אֲנָשִׁים הוֹלְכִין אַחֲרֵי דַעְתָּן שֶׁל נָשִׁים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כֹּה תֹאמַר לְבֵית יַעֲקֹב״ – אֵלּוּ הַנָּשִׁים, ״וְתַגֵּד לִבְנֵי יִשְׂרָאֵל״ – אֵלּוּ הָאֲנָשִׁים. וְעָנוּ כֻלָּם בְּפֶה אֶחָד וְאָמְרוּ: ״כֹּל אֲשֶׁר דִּבֶּר ה' נַעֲשֶׂה וְנִשְׁמָע״. ״וְשָׁרִים כְּחוֹלְלִים כָּל מַעְיָנַי בָּךְ״.
Nota — as mulheres, primeiro. D’us manda perguntar primeiro às mulheres (“a casa de Yaakov”) se aceitam a Torá, e só depois aos homens. A tradição vê nisso a honra e o papel decisivo das mulheres na transmissão da fé às gerações — são elas, muitas vezes, o alicerce sobre o qual a Torá se mantém viva no lar. A aliança não se firma sem elas.
7
Rabi Chanina diz: no terceiro mês Sivan, a noite era curta, e os de Israel dormiram até cerca de duas horas do dia, pois o sono da manhã do dia da Assembleia (Atzéret/Shavuot) é doce e a noite é curta. E saiu Moshé e veio ao acampamento de Israel, e os despertava do sono, dizendo-lhes: “levantai-vos do vosso sono, pois eis que o vosso D’us quer dar-vos a Torá! Já o noivo quer trazer a noiva e introduzi-la na chupá. Chegou a hora”, como está dito: “e Moshé fez sair o povo do acampamento ao encontro de D’us” (Shemot 19:17). E também o Santo, bendito seja, saiu ao encontro deles — como o noivo que sai ao encontro da noiva, assim o Santo, bendito seja, saiu ao encontro deles para lhes dar a Torá, como está dito: “ó Eterno, quando saíste de Seir” etc. (Shoftim 5:4).
רַבִּי חֲנִינָא אוֹמֵר: בַּחֹדֶשׁ הַשְּׁלִישִׁי הַיּוֹם כָּפוּל בַּלַּיְלָה, וַיִּישְׁנוּ יִשְׂרָאֵל עַד שְׁתֵּי שָׁעוֹת בַּיּוֹם, שֶׁשֵּׁנַת יוֹם הָעֲצֶרֶת עֲרֵבָה וְהַלַּיְלָה קְצָרָה. וַיֵּצֵא מֹשֶׁה וּבָא לְמַחֲנֵה יִשְׂרָאֵל, וְהָיָה מְעוֹרֵר יִשְׂרָאֵל מִשְּׁנָתָם וְאָמַר לָהֶם: ״עִמְדוּ מִשְּׁנַתְכֶם, שֶׁהֲרֵי אֱלֹהֵיכֶם מְבַקֵּשׁ לִיתֵּן לָכֶם אֶת הַתּוֹרָה. כְּבָר הֶחָתָן מְבַקֵּשׁ לְהָבִיא אֶת הַכַּלָּה לְהַכְנִיס לַחֻפָּה כְּדֵי לִיתֵּן לָכֶם אֶת הַתּוֹרָה. בָּאָה הַשָּׁעָה״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיּוֹצֵא מֹשֶׁה אֶת הָעָם״ וְכוּ'. וְאַף הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא יָצָא לִקְרָאתָן כְּחָתָן הַיּוֹצֵא לִקְרַאת כַּלָּה, כֵּן הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא יָצָא לִקְרָאתָן לִיתֵּן לָהֶם אֶת הַתּוֹרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״ה' בְּצֵאתְךָ מִשֵּׂעִיר״ וְכוּ'.
8
Rabi Yehoshua ben Korchá diz: os pés de Moshé estavam firmados no monte, e todo ele elevado, por assim dizer dentro dos céus; e ele observava e via na visão o que há nos céus. E o Santo, bendito seja, falava com ele como um homem que fala com o seu companheiro, como está dito: “e o Eterno falava com Moshé face a face” (Shemot 33:11). Disse-lhe o Santo, bendito seja: “vai e santifica o povo hoje e amanhã” (Shemot 19:10). E qual era a santificação a preparação de Israel no deserto? A separação conjugal, por causa da pureza ritual, para se prepararem.
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה אוֹמֵר: מֹשֶׁה הָיוּ רַגְלָיו עוֹמְדוֹת בָּהָר וְכֻלּוֹ בְּתוֹךְ הַשָּׁמַיִם, כְּאֹהֶל דְּנִדָּה שֶׁהִיא פְּרוּסָה וּבְנֵי אָדָם עוֹמְדִין בְּתוֹכָהּ וְרַגְלֵיהֶם עוֹמְדוֹת בָּאָרֶץ וְכֻלָּם בְּתוֹךְ הָאֹהֶל. כָּךְ מֹשֶׁה הָיוּ רַגְלָיו עוֹמְדוֹת בָּהָר וְכֻלּוֹ בְּתוֹךְ הַשָּׁמַיִם, צוֹפֶה וּמַבִּיט כָּל מַה שֶּׁיֵּשׁ בַּשָּׁמַיִם. וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מְדַבֵּר עִמּוֹ כְּאָדָם שֶׁהוּא מְדַבֵּר עִם חֲבֵרוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְדִבֶּר ה' אֶל מֹשֶׁה פָּנִים אֶל פָּנִים״. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״לֵךְ וְקִדַּשְׁתָּ אֶת הָעָם הַזֶּה הַיּוֹם וּמָחָר״. וְכִי מַה הָיְתָה קְדֻשָּׁתָן שֶׁל יִשְׂרָאֵל בַּמִּדְבָּר? אֶלָּא עַל טֻמְאַת תַּשְׁמִישׁ הַמִּטָּה.
Nota — “face a face” e a linguagem do corpo. O capítulo fala dos “pés” de D’us, da Sua “direita”, e de Moshé falando com D’us “face a face”. Na tradição racionalista, D’us não tem corpo nem forma: todas essas expressões são figuradas (cf. o ensaio “por que D’us não pode tornar-se homem”). “Face a face” significa que a profecia de Moshé foi a mais alta e mais clara de todas — direta, sem o véu da imaginação (Rambam, Hilchot Yesodei haTorá 7). E note-se a dignidade da razão: D’us “concordou” com o raciocínio de Moshé, que acrescentou um dia de preparação por iniciativa própria — o Céu honra a sabedoria humana.
9
Refletiu Moshé consigo mesmo, dizendo: “se um homem for ter com a sua mulher, eles ficarão impedidos de receber a Torá a tempo, por causa da pureza”. Que fez? Acrescentou-lhes um dia, por sua própria decisão — para que, havendo mais tempo, todos estivessem puros e prontos ao receberem a Torá. Por isso lhes acrescentou um dia, de sua própria iniciativa.
דָּן מֹשֶׁה בֵּינוֹ לְבֵין עַצְמוֹ, אָמַר: ״יֵלֵךְ אָדָם אֵצֶל אִשְׁתּוֹ וְנִמְצְאוּ מְעַכְּבִין מִלְּקַבֵּל אֶת הַתּוֹרָה״. מֶה עָשָׂה? הוֹסִיף לָהֶם יוֹם אֶחָד מִדַּעְתּוֹ, שֶׁאִם יֵלֵךְ אָדָם מִיִּשְׂרָאֵל אֵצֶל אִשְׁתּוֹ וְנִמְצְאוּ טְהוֹרִים שְׁנֵי יָמִים. לְפִיכָךְ הוֹסִיף לָהֶם יוֹם אֶחָד מִדַּעְתּוֹ.
10
Disse-lhe o Santo, bendito seja: “Moshé, ... o que fizeste está bem feito”. E o Santo, bendito seja, concordou com ele aprovou o seu raciocínio.
אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״מֹשֶׁה, כַּמָּה נְפָשׁוֹת בְּנֵי אָדָם הָיוּ בָּאוֹת מִיִּשְׂרָאֵל בְּאוֹתָהּ הַלַּיְלָה? אֶלָּא מַה שֶּׁעָשִׂיתָ עָשׂוּי״. וְהוֹדָה לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא.
11
Disse o Santo, bendito seja, a Moshé: “desce ao acampamento, e depois Eu farei ouvir a Minha Torá”. ... Moshé queria permanecer ali no alto; disse-lhe D’us: “desce e chama o teu irmão mais velho, Aharon”. Desceu Moshé ao acampamento ao encontro de Aharon, e o Santo, bendito seja, fez ouvir a Sua Torá ao Seu povo, como está dito: “e desceu Moshé ao povo” etc. (Shemot 19:25). Que está escrito a seguir? “E falou D’us todas estas palavras, dizendo: Eu sou o Eterno, teu D’us” (Shemot 20:1-2).
אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה: ״רֵד אֶל הַמַּחֲנֶה וְאַחַר כָּךְ אֲנִי מַשְׁמִיעַ אֶת תּוֹרָתִי״. ״רֵד הָעֵד בָּעָם״. מֹשֶׁה הָיָה רוֹצֶה לִהְיוֹת שָׁם, אָמַר לוֹ: ״כְּבָר הֵעִידֹתִי בָּעָם״. אָמַר לוֹ: ״לֵךְ וּקְרָא לְרַבְּךָ״. יָרַד מֹשֶׁה אֶל הַמַּחֲנֶה לִקְרַאת אַהֲרֹן, וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מַשְׁמִיעַ תּוֹרָתוֹ לְעַמּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּרֶד מֹשֶׁה אֶל הָעָם״ וְכוּ'. מַה כְּתִיב אַחֲרָיו? ״וַיְדַבֵּר אֱלֹהִים אֵת כָּל הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה: אָנֹכִי ה' אֱלֹהֶיךָ״.
12
Saiu a primeira voz o primeiro mandamento, e os céus estremeceram, e os mares e os rios fugiram, e os montes e as colinas se abalaram, e todas as árvores se curvaram, e os mortos que estavam no Sheol reviveram e se puseram de pé, como está dito: “com aquele que está aqui conosco, de pé hoje” (Devarim 29:14). E todos os que estavam destinados a ser criados, até o fim de todas as gerações, ali estiveram presentes com eles, como está dito: “e com aquele que não está aqui conosco hoje” (ibid.). E os de Israel, que estavam vivos, caíram sobre os seus rostos como que sem alma, de pavor.
יָצָא קוֹל רִאשׁוֹן וְהַשָּׁמַיִם רָעֲשׁוּ, וְהַיַּמִּים וְהַנְּהָרוֹת בָּרְחוּ, וְהֶהָרִים וְהַגְּבָעוֹת הִתְמוֹטְטוּ, וְכָל הָאִילָנוֹת כָּרְעוּ, וְהַמֵּתִים שֶׁבַּשְּׁאוֹל חָיוּ וְעָמְדוּ עַל רַגְלֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי אֶת אֲשֶׁר יֶשְׁנוֹ פֹּה עִמָּנוּ עֹמֵד הַיּוֹם״. וְכָל הָעֲתִידִים לְהִבָּרְאוֹת עַד סוֹף כָּל הַדּוֹרוֹת שָׁם עָמְדוּ עִמָּהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאֵת אֲשֶׁר אֵינֶנּוּ פֹּה״. וְיִשְׂרָאֵל שֶׁהָיוּ חַיִּים נָפְלוּ עַל פְּנֵיהֶם וָמֵתוּ.
13
E saiu a segunda voz, e os de Israel reviveram e se puseram de pé e disseram a Moshé: “Moshé, não podemos ouvir mais a voz do Santo, bendito seja, ou pereceremos como perecemos agora”, como está dito: “e disseram a Moshé: fala tu conosco, e ouviremos; e que não fale D’us conosco, para que não morramos” (Shemot 20:16). E ouviu o Santo, bendito seja, a voz deles, e isso Lhe foi agradável; e enviou Michael e Gavriel, e estes tomaram as duas mãos de Moshé — mesmo contra a hesitação dele — e o aproximaram da névoa, como está dito: “e Moshé se aproximou da névoa, onde D’us estava” (Shemot 20:18).
וַיָּצָא קוֹל שֵׁנִי וְחָיוּ וְעָמְדוּ עַל רַגְלֵיהֶם וְאָמְרוּ לְמֹשֶׁה: ״מֹשֶׁה, אֵין אָנוּ לִשְׁמֹעַ קוֹלוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עוֹד וּמַתְנוּ שָׁם כְּשֵׁם שֶׁמַּתְנוּ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמְרוּ אֶל מֹשֶׁה דַּבֵּר אַתָּה עִמָּנוּ וְנִשְׁמָעָה וְאַל יְדַבֵּר עִמָּנוּ אֱלֹהִים פֶּן נָמוּת״. וְעַתָּה לָמָּה נָמוּת כְּשֵׁם שֶׁמַּתְנוּ? וְשָׁמַע הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת קוֹלָן וְעָרַב עָלָיו, וְשָׁלַח מִיכָאֵל וְגַבְרִיאֵל, וְאָחֲזוּ בִּשְׁתֵּי יָדָיו שֶׁל מֹשֶׁה שֶׁלֹּא בִּרְצוֹנוֹ וְהִגִּישׁוּהוּ אֶל הָעֲרָפֶל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמֹשֶׁה נִגַּשׁ אֶל הָעֲרָפֶל אֲשֶׁר שָׁם הָאֱלֹהִים״.
14
Não está escrito aqui “foi forçado (nogash)”, mas “aproximou-se (nigash)”; e as demais palavras os outros mandamentos D’us falou pela boca de Moshé. E sobre ele diz o versículo: “como o frescor da neve no dia da colheita é o mensageiro fiel para quem o envia” (Mishlei 25:13).
[נוֹגֵשׂ] אֵין כְּתִיב כָּאן אֶלָּא נִגַּשׁ, וּשְׁאָר כָּל הַדִּבְּרוֹת דִּבֵּר עִם פִּי מֹשֶׁה, וְעָלָיו הַכָּתוּב אוֹמֵר (משלי כה יג) ״כְּצִנַּת שֶׁלֶג בְּיוֹם קָצִיר״.
15
“E sucedeu que, ao ouvirdes a voz dentre a treva” (Devarim 5:20). E por que fez o Santo, bendito seja, ouvir a Sua voz dentre a escuridão, e não dentre a luz? A que se assemelha a coisa? A um rei que casa o seu filho e pendura, na chupá do filho, cortinas escuras. Disse o rei: “sei que o meu filho não permanecerá sem tropeço com esta esposa senão quarenta dias; assim faço para que não digais, amanhã: ‘o rei era astrólogo e não sabia o que o filho viria a fazer’”. Assim este Rei — o Rei dos reis dos reis, o Santo, bendito seja —, e o filho são Israel, e a noiva é a Torá. E o Santo, bendito seja, sabia que Israel não permaneceria firme nos mandamentos senão quarenta dias antes da queda do bezerro de ouro; por isso fez ouvir a Sua voz dentre a escuridão, e não dentre a luz. Por isso se diz: “ao ouvirdes a voz”.
וַיְהִי כְּשָׁמְעֲכֶם אֶת קוֹל הַשּׁוֹפָר. וְלָמָּה הִשְׁמִיעַ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא קוֹלוֹ מִתּוֹךְ הַחֹשֶׁךְ וְלֹא מִתּוֹךְ הָאוֹר? מָשָׁל לְמָה הַדָּבָר דּוֹמֶה? לְמֶלֶךְ שֶׁהוּא מַשִּׂיא אֶת בְּנוֹ לְאִשָּׁה וְתוֹלֶה בְּחֻפַּת בְּנוֹ פַּרְכּוֹת שְׁחוֹרוֹת. אָמַר לָהֶם: יוֹדֵעַ אֲנִי שֶׁאֵין בְּנִי מַמְתִּין עִם זֹאת אֶלָּא אַרְבָּעִים יוֹם, שֶׁלֹּא תֹאמְרוּ לְמָחָר ״הַמֶּלֶךְ הָיָה אִסְטְרוֹלוֹגוֹס וְלֹא הָיָה יוֹדֵעַ מַה עָתִיד לַעֲשׂוֹת בְּנוֹ״. כָּךְ זֶה הַמֶּלֶךְ – מֶלֶךְ מַלְכֵי הַמְּלָכִים הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וְהַבֵּן – אֵלּוּ יִשְׂרָאֵל, וְהַכַּלָּה – זוֹ הַתּוֹרָה. וְהָיָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא יוֹדֵעַ שֶׁאֵין יִשְׂרָאֵל מַמְתִּינִין בַּדִּבְּרוֹת אֶלָּא אַרְבָּעִים יוֹם, לְפִיכָךְ הִשְׁמִיעַ קוֹלוֹ מִתּוֹךְ הַחֹשֶׁךְ וְלֹא מִתּוֹךְ הָאוֹר. לְכָךְ נֶאֱמַר: ״וַיְהִי כְּשָׁמְעֲכֶם אֶת הַקּוֹל״.
16
Rabi Yehudá diz: quando um homem fala com o seu companheiro, ouve-se a sua voz, mas não se vê a forma da sua voz. Mas Israel ouviu a voz do Santo, bendito seja, no monte Sinai, e viu a voz a sair da boca da Poderosa Presença como relâmpagos e como trovões, como está dito: “e todo o povo via as vozes e as chamas e o som do shofar” (Shemot 20:15); “e o som do shofar ia-se tornando cada vez mais forte” (Shemot 19:19). Todos os mandamentos da Torá são seiscentos e onze, mais dois que o próprio Santo, bendito seja, falou diretamente. Por isso se chama “Torá” תּוֹרָה, cujo valor numérico (guematria) é 611; e os dois que o Santo, bendito seja, falou perfazem 613, como está dito: “uma vez falou D’us, duas vezes foi o que ouvi” (Tehilim 62:12).
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: אָדָם מְדַבֵּר עִם חֲבֵרוֹ מִתְרַגֵּשׁ קוֹלוֹ, אֲבָל אֵינוֹ רוֹאֶה מְאוֹרוֹ. וְיִשְׂרָאֵל שָׁמְעוּ קוֹלוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּהַר סִינַי וְרָאוּ אֶת הַקּוֹל יוֹצֵא מִפִּי הַגְּבוּרָה כִּבְרָקִים וְכִרְעָמִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְכָל הָעָם רֹאִים אֶת הַקּוֹלֹת וְאֶת הַלַּפִּידִם וְאֵת קוֹל הַשֹּׁפָר״, ״וַיְהִי קוֹל הַשֹּׁפָר הוֹלֵךְ וְחָזֵק מְאֹד״ וְכוּ'. כָּל הַמִּצְווֹת שֶׁבַּתּוֹרָה תַּרְיַ״א, וּשְׁתַּיִם שֶׁדִּבֵּר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא. לְפִיכָךְ נִקְרֵאת תּוֹרָה, וְהַתּוֹרָה מִנְיָן תַּרְיַ״א בְּגִימַטְרִיָּא, וּשְׁתַּיִם שֶׁדִּבֵּר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַחַת דִּבֶּר אֱלֹהִים שְׁתַּיִם זוּ שָׁמָעְנוּ״.
Nota — “viram as vozes” e os 613. A revelação do Sinai foi pública — um povo inteiro, não um único fundador (cf. o ensaio sobre Shavuot). “E todo o povo via as vozes”: a tradição descreve uma experiência tão intensa que sinestesicamente se “via” o som. Para o Rambam (Guia II:33), o povo apreendeu diretamente apenas os dois primeiros mandamentos — a existência e a unidade de D’us, que a razão pode alcançar —, e os demais por meio de Moshé. Daqui a conta clássica: “Torá” em guematria é 611, e com os dois ditos diretamente, são os 613 mandamentos (taryag) — “uma vez falou D’us, duas foi o que ouvi” (Tehilim 62:12).
17
Rabi Pinchas diz: toda aquela geração que ouviu a voz do Santo, bendito seja, no monte Sinai mereceu ser pura como os anjos do serviço; e, na sua morte, não os dominou a corrupção. Felizes eles neste mundo, e felizes no mundo vindouro; e sobre eles diz o versículo: “feliz o povo que assim tem; feliz o povo cujo D’us é o Eterno” (Tehilim 144:15).
רַבִּי פִּנְחָס אוֹמֵר: כָּל אוֹתוֹ הַדּוֹר שֶׁשָּׁמְעוּ קוֹלוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּהַר סִינַי זָכוּ לִהְיוֹת כְּמַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת, וְלֹא רָאוּ טִפַּת קֶרִי בְּחַיֵּיהֶם, וְלֹא מָשַׁל בָּהֶם כָּל מִינֵי כִּנִּים, וּבְמוֹתָם לֹא שָׁלְטָה בָּהֶם רִמָּה וְתוֹלֵעָה. אַשְׁרֵיהֶם בָּעוֹלָם הַזֶּה וְאַשְׁרֵיהֶם בָּעוֹלָם הַבָּא, וַעֲלֵיהֶם הַכָּתוּב אוֹמֵר: ״אַשְׁרֵי הָעָם שֶׁכָּכָה לּוֹ״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A Torá oferecida a todos

O capítulo abre com a oferta da Torá a todas as nações — sinal de que ela não foi imposta nem arbitrariamente reservada, mas estendida a quem a quisesse abraçar. Os povos recusaram, na linguagem da aggadá, por apego ao seu modo de vida; e Israel aceitou. A grandeza não está num privilégio de nascimento, mas na prontidão de dizer “faremos e ouviremos” — e a oferta universal lembra que a sabedoria da Torá tem valor para toda a humanidade.

“Faremos e ouviremos”

Israel acampa “como um só” e responde em uníssono. Os sábios extraem duas lições: a Torá só se recebe na unidade, e o compromisso (naasse) precede a compreensão plena (venishma) — não como fé cega, mas como confiança que amadurece pela prática. E é significativo que se pergunte primeiro às mulheres: a aliança repousa também sobre elas.

O casamento de D’us e Israel

A imagem que atravessa o capítulo é nupcial: o Sinai é a chupá, a Torá é a noiva, D’us o noivo que sai ao encontro do Seu povo. Por isso a tradição vê na revelação um pacto de amor — e, lembrando que Israel “dormiu” na manhã de Shavuot, nasceu o costume de velar e estudar na noite da festa, para receber a Torá desperto e ansioso. A própria honestidade do midrash comove: D’us dá a Torá sabendo que virá a falha (o bezerro), e ainda assim a dá — porque o amor da aliança é maior que a queda.

“Viram as vozes”

A revelação foi pública e direta, um povo inteiro diante de D’us. A descrição de “ver as vozes” exprime a intensidade da experiência; o Rambam ensina que o povo apreendeu por si os dois primeiros mandamentos — a existência e a unidade de D’us, ao alcance da razão — e o resto por Moshé. E daqui a Torá com os seus 613 mandamentos: um caminho inteiro de vida, recebido naquele dia.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 42

A travessia do Mar Vermelho e o Cântico

פֶּרֶק מ״ב

Encurralado entre o exército do Faraó e o mar, Israel clama e lança fora os ídolos do Egito. O mar se divide, Nachshon salta às águas, e o povo atravessa em terra seca. Na outra margem, entoam o Cântico do Mar — e, mesmo então, os anjos são silenciados, “pois as obras das Minhas mãos se afogam”.

1
“E sucedeu que, quando Faraó deixou ir o povo” (Shemot 13:17). É isto o que diz o versículo: “os teus rebentos são um pomar de romãs” (Shir haShirim 4:13). Assim como este pomar está cheio de toda espécie de árvore que dá fruto, assim Israel saiu do Egito cheio de todo bem, de toda sorte de bênçãos. Por isso se diz: “os teus rebentos são um pomar de romãs”.
״וַיְהִי בְּשַׁלַּח פַּרְעֹה אֶת הָעָם״, זֶהוּ שֶׁאָמַר הַכָּתוּב ״שְׁלָחַיִךְ פַּרְדֵּס רִמּוֹנִים״. מָה הַפַּרְדֵּס הַזֶּה מָלֵא מִין עֵץ אִילָן עוֹשֶׂה פְּרִי, כָּךְ יָצְאוּ יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם מְלֵאִים כָּל טוּב, מִין בְּרָכוֹת. לְכָךְ נֶאֱמַר ״שְׁלָחַיִךְ פַּרְדֵּס רִמּוֹנִים״.
2
Rabban Gamliel diz: os egípcios perseguiram os filhos de Israel até o Mar dos Juncos (Yam Suf) e acamparam atrás deles. Os inimigos atrás deles e o mar à sua frente; e viram os de Israel os egípcios e temeram muitíssimo. E ali lançaram de si todas as abominações do Egito e fizeram grande arrependimento (teshuvá) e clamaram ao seu D’us, como está dito: “e Faraó se aproximou, e os filhos de Israel levantaram os olhos e eis o Egito marchando atrás deles, e temeram muito, e clamaram ao Eterno” (Shemot 14:10). Viu Moshé a angústia de Israel e pôs-se a orar por eles. Disse-lhe o Santo, bendito seja: “por que clamas a Mim? Fala aos filhos de Israel que se ponham a caminho” (Shemot 14:15).
רַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: הַמִּצְרִיִּים רָדְפוּ אַחֲרֵי בְּנֵי יִשְׂרָאֵל עַד יַם סוּף וְחָנוּ אַחֲרֵיהֶם. הָאוֹיְבִים מֵאַחֲרֵיהֶם וְהַיָּם מִלִּפְנֵיהֶם, וְרָאוּ יִשְׂרָאֵל הַמִּצְרִיִּים וְנִתְיָּרְאוּ הַרְבֵּה מְאֹד. וְשָׁם הִשְׁלִיכוּ כָּל תּוֹעֲבוֹת מִצְרַיִם מֵעֲלֵיהֶם וְעָשׂוּ תְּשׁוּבָה גְּדוֹלָה וְקָרְאוּ לֵאלֹהֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּפַרְעֹה הִקְרִיב וַיִּשְׂאוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל אֶת עֵינֵיהֶם״. רָאָה מֹשֶׁה בְּצָרָתָם שֶׁל יִשְׂרָאֵל, עָמַד לְהִתְפַּלֵּל עֲלֵיהֶם. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״מַה תִּצְעַק אֵלָי? דַּבֵּר אֶל בְּנֵי יִשְׂרָאֵל וְיִסָּעוּ״.
Nota — “por que clamas a Mim? Põe-te a caminho”. Diante do mar, Israel reza — e D’us responde com palavras surpreendentes: não é hora de só orar, mas de avançar. A tradição extrai daqui um princípio caro à leitura racionalista: a fé verdadeira não substitui a ação, mas a impulsiona. O mar não se abre para quem fica parado à beira, mas para quem dá o passo. E antes disso, Israel “lança fora as abominações do Egito” e faz teshuvá: a libertação exterior começa por uma mudança interior.
3
Disse Moshé diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, os inimigos atrás deles e o mar à sua frente — por que caminho hão de ir?”. Que fez o Santo, bendito seja? Enviou o anjo Michael, e fez-se uma muralha de fogo entre os egípcios e Israel. E os egípcios queriam vir atrás de Israel, e não podiam, por causa do fogo. E os seres supernos viram a angústia de Israel durante toda aquela noite, e não entoaram louvor nem ação de graças naquela noite, como está dito: “e não se aproximou um do outro durante toda a noite” (Shemot 14:20).
אָמַר מֹשֶׁה לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, הָאוֹיְבִים אַחֲרֵיהֶם וְהַיָּם מִלִּפְנֵיהֶם, לְאֵי זֶה דֶּרֶךְ יִסְעוּ?״ מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? שָׁלַח לְמִיכָאֵל הַשַּׂר, וְנַעֲשָׂה חוֹמַת שֶׁל אֵשׁ בֵּין הַמִּצְרִיִּים לְיִשְׂרָאֵל. וְהַמִּצְרִיִּים הָיוּ רוֹצִין לָבֹא אַחַר יִשְׂרָאֵל וְלֹא הָיוּ יְכוֹלִין לָבֹא מִפְּנֵי הָאֵשׁ. וְרָאוּ הָעֶלְיוֹנִים בְּצָרָתָן שֶׁל יִשְׂרָאֵל כָּל אוֹתָהּ הַלַּיְלָה, וְלֹא נָתְנוּ שֶׁבַח וְהוֹדָאָה לֵאלֹהֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְלֹא קָרַב זֶה אֶל זֶה כָּל הַלָּיְלָה״.
Nota essencial — quando os anjos se calam. Os “seres supernos” não entoam louvor naquela noite. A tradição (Meguilá 10b) dá a esta ideia a sua forma mais comovente: quando os egípcios se afogavam e os anjos quiseram cantar, D’us os deteve — “as obras das Minhas mãos os egípcios se afogam no mar, e vós quereis cantar?”. É um dos cumes da ética da Torá: D’us não se alegra com a queda dos ímpios, e nós tampouco devemos (“não te alegres quando cair o teu inimigo”, Mishlei 24:17; cf. o ensaio sobre a paz). A justiça pode exigir a derrota do opressor, mas a morte de um ser humano — mesmo do perseguidor — nunca é motivo de festa diante do Céu.
4
Disse o Santo, bendito seja, a Moshé: “Moshé, estende a tua mão sobre o mar e divide-o!”. E estendeu Moshé a sua mão sobre o mar; e as águas, por assim dizer, viram a face do Santo, bendito seja, e estremeceram e tremeram e desceram aos abismos, como está dito: “viram-Te as águas, ó D’us, viram-Te as águas e estremeceram” (Tehilim 77:17).
אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה: ״מֹשֶׁה, נְטֵה יָדְךָ עַל הַיָּם וּבְקָעֵהוּ!״. וְנָטָה מֹשֶׁה אֶת יָדוֹ עַל הַיָּם, וְרָאוּ הַמַּיִם פָּנָיו שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְרָגְזוּ וְחָלוּ וְיָרְדוּ לַתְּהוֹמוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״רָאוּךָ מַּיִם יָחִילוּ״.
5
Rabi Eliezer diz: no dia em que disse o Santo, bendito seja, “ajuntem-se as águas” (Bereshit 1:9), naquele mesmo dia já estava previsto que as águas se congelariam e se fariam doze divisões, correspondentes às doze tribos, e se formaram muralhas de água entre um caminho e outro. E os de cada tribo viam uns aos outros; e viram o Santo, bendito seja, por assim dizer caminhando à sua frente, mas as pegadas dos Seus pés não viram, como está dito: “no mar foi o Teu caminho, e a Tua vereda, em muitas águas, e as Tuas pegadas não se conheceram” (Tehilim 77:20).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: בַּיּוֹם שֶׁאָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא ״יִקָּווּ הַמַּיִם״, בּוֹ בַּיּוֹם נִקְפְּאוּ הַמַּיִם וְנַעֲשׂוּ שְׁנֵים עָשָׂר חֲלָקִים כְּנֶגֶד שְׁנֵים עָשָׂר שְׁבָטִים, וְעָשׂוּ חוֹמוֹת מַיִם בֵּין שְׁבִיל לִשְׁבִיל. וְהָיוּ רוֹאִין אֵלּוּ אֶת אֵלּוּ, וְרָאוּ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מְהַלֵּךְ לִפְנֵיהֶם, וְעִקְּבוֹת רַגְלָיו לֹא רָאוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בַּיָּם דַּרְכֶּךָ וּשְׁבִילְךָ בְּמַיִם רַבִּים וְעִקְּבוֹתֶיךָ לֹא נוֹדָעוּ״.
6
Rabi Akiva diz: foram os de Israel para entrar no Mar dos Juncos, mas recuaram, temendo que as águas voltassem sobre eles. E a tribo de Binyamin quis entrar primeiro, como está dito: “ali está Binyamin, o mais novo, dominando-os” (Tehilim 68:28). Começaram os príncipes da tribo de Yehudá a apedrejá-los a apressá-los, como está dito: “os príncipes de Yehudá e o seu ajuntamento” (ibid.). E saltou Nachshon primeiro e desceu ao mar, e santificaram assim o Seu grande Nome aos olhos de todos. E, sob a liderança de Nachshon, filho da tribo de Yehudá, entraram todos os de Israel atrás dele no mar, como está dito: “Yehudá tornou-se o Seu santuário, Israel, o Seu domínio” (Tehilim 114:2). E os egípcios queriam vir atrás de Israel, e recuavam, temendo que as águas voltassem sobre eles. Que fez o Santo, bendito seja? Apareceu diante deles na visão como um cavaleiro a montar uma égua, como está dito: “à égua dos carros de Faraó te comparo, minha amada” (Shir haShirim 1:9); e o cavalo que Faraó montava viu a égua e correu atrás dela e entrou após eles no mar.
רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר: הָלְכוּ יִשְׂרָאֵל לָבֹא אֶל יַם סוּף וְחָזְרוּ לַאֲחוֹרֵיהֶם יְרֵאִים שֶׁלֹּא יָשׁוּבוּ הַמַּיִם עֲלֵיהֶם. וְשִׁבְטוֹ שֶׁל בִּנְיָמִין רָצָה לִיכָּנֵס, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בִּנְיָמִין צָעִיר רֹדֵם״. יוֹרְדִים הִתְחִילוּ שִׁבְטוֹ שֶׁל יְהוּדָה שֶׁרוֹגְמִין, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שָׂרֵי יְהוּדָה רִגְמָתָם״. וְקָפַץ נַחְשׁוֹן תְּחִלָּה וְיָרַד לַיָּם וְקִדְּשׁוּ שְׁמוֹ הַגָּדוֹל לְעֵינֵי הַכֹּל. וּבְמֶמְשֶׁלֶת יַד בֶּן יְהוּדָה נַחְשׁוֹן נִכְנְסוּ כָּל יִשְׂרָאֵל אַחֲרֵיהֶם לַיָּם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הָיְתָה יְהוּדָה לְקָדְשׁוֹ יִשְׂרָאֵל מַמְשְׁלוֹתָיו״ שֶׁל יְהוּדָה. וְהָיוּ הַמִּצְרִיִּים רָצִים לָבֹא אַחַר יִשְׂרָאֵל וְחוֹזְרִין לַאֲחוֹרֵיהֶן יְרֵאִים שֶׁלֹּא יָשׁוּבוּ הַמַּיִם עֲלֵיהֶם. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? נִרְאָה לִפְנֵיהֶם כְּאִישׁ רוֹכֵב סוּסְיָא נְקֵבָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לְסֻסָתִי בְּרִכְבֵי פַרְעֹה דִּמִּיתִיךְ רַעְיָתִי״. וְהַסּוּס שֶׁהָיָה רוֹכֵב פַּרְעֹה רָאָה סוּסְיָא נְקֵבָה וְרָץ אַחֲרֶיהָ וְנִכְנַס אַחֲרֵיהֶם בַּיָּם.
Nota — o salto de Nachshon. O mar não se dividiu enquanto Israel hesitava na margem; abriu-se quando Nachshon saltou primeiro às águas, “santificando o Nome aos olhos de todos”. A tradição vê nele o herói da fé que age: enquanto se debatia quem entraria, ele entrou. O milagre veio ao encontro da coragem. É a tradução narrativa do “põe-te a caminho”: D’us abre o caminho para quem ousa dar o primeiro passo.
7
E, quando os egípcios viram Faraó entrar no mar, entraram todos no mar atrás dele, como está dito: “e os egípcios os perseguiram e entraram atrás deles, todos os cavalos de Faraó” (Shemot 14:23). Imediatamente voltaram as águas e subiram e os cobriram, como está dito: “e voltaram as águas e cobriram os carros e os cavaleiros” (Shemot 14:28).
וּכְשֶׁרָאוּ הַמִּצְרִיִּים לְפַרְעֹה שֶׁנִּכְנַס לַיָּם, נִכְנְסוּ כֻּלָּם אֶל הַיָּם אַחֲרֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּרְדְּפוּ מִצְרַיִם וַיָּבֹאוּ אַחֲרֵיהֶם כֹּל סוּס פַּרְעֹה״. מִיָּד שָׁבוּ הַמַּיִם וְעָלוּ וַיְכַסּוּם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּשֻׁבוּ הַמַּיִם וַיְכַסּוּ אֶת הָרֶכֶב״.
8
Ben Azzai diz: tudo é por medida. Assim como os egípcios se ensoberbeceram contra Israel e lançaram as crianças ao rio (Nilo), assim o Santo, bendito seja, os lançou ao mar, como está dito: “cantai ao Eterno, porque triunfou gloriosamente; lançou no mar o cavalo e o seu cavaleiro” (Shemot 15:1).
בֶּן עַזַּאי אוֹמֵר: הַכֹּל בְּמִדָּה. כְּשֵׁם שֶׁנִּתְגָּאוּ הַמִּצְרִיִּים עַל יִשְׂרָאֵל וְהִשְׁלִיכוּ הַיְּלָדִים לַיְּאוֹרָה, כָּךְ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא הִשְׁלִיךְ אוֹתָם לַיָּם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שִׁירוּ לַה' כִּי גָאֹה גָּאָה, סוּס וְרֹכְבוֹ רָמָה בַיָּם״.
Nota — “tudo é por medida”. Ben Azzai resume a justiça da história: midá kenegued midá, medida por medida. Como os egípcios afogaram as crianças de Israel no rio, assim foram afogados no mar. Na leitura racionalista, isto não é vingança arbitrária, mas a expressão de uma ordem moral tecida na realidade: a crueldade volta-se contra quem a pratica; a injustiça carrega em si a própria ruína. O castigo que “espelha” o crime ensina que o mal não fica sem resposta.
9
Rabi Shilá diz: todas as crianças que os egípcios lançaram ao rio não morreram, mas o rio as lançava ao deserto do Egito; e o Santo, bendito seja, trazia uma pedra na boca de cada uma e uma pedra ao seu lado; e a pedra que estava na sua boca as amamentava e as untava de azeite, como uma fera que amamenta o seu filhote, como está dito: “e o fez sugar mel da rocha, e azeite da dura pederneira” (Devarim 32:13). E, quando vieram os de Israel ao mar, esses, já crescidos, viram o Santo, bendito seja, e O reconheceram, e O louvaram e O santificaram, como está dito: “este é o meu D’us, e eu O glorificarei” (Shemot 15:2).
רַבִּי שִׁילָא אוֹמֵר: כָּל הַיְלָדִים שֶׁהִשְׁלִיכוּ הַמִּצְרִים לַיְּאוֹר לֹא מֵתוּ, אֶלָּא הַיְּאוֹר הָיָה מַפְלִיט אוֹתָם לְמִדְבַּר מִצְרַיִם. וְהָיָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מֵבִיא סֶלַע בְּפִי כָּל אֶחָד וְאֶחָד וְסֶלַע בְּצִדּוֹ. וְהַסֶּלַע שֶׁהָיָה בְּפִיו הָיָה מֵינִיק אוֹתָם וּמֵסִיךְ אוֹתָם שֶׁמֶן כְּחַיָּה שֶׁהִיא מַסֶּכֶת אֶת בְּנָהּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּנִקֵהוּ דְבַשׁ מִסֶּלַע וְשֶׁמֶן מֵחַלְמִישׁ צוּר״. וּכְשֶׁבָּאוּ יִשְׂרָאֵל רָאוּ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְהִכִּירוּהוּ וְקִלְּסוּהוּ וְקִדְּשׁוּהוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״זֶה אֵלִי וְאַנְוֵהוּ״.
10
Rabi Levi bar Simon diz: no quarto dia acamparam os de Israel à beira do mar, defronte do mar, e os egípcios boiavam como odres sobre a face das águas. E saiu um vento norte e os lançou e os trouxe à praia, e os de Israel diziam: “estes são os palacianos de Faraó, e estes os feitores”. Reconheciam cada um deles, como está dito: “e viu Israel os egípcios mortos à beira do mar” (Shemot 14:30).
רַבִּי לֵוִי בַּר סִימוֹן אוֹמֵר: בַּיּוֹם הָרְבִיעִי חָנוּ יִשְׂרָאֵל עַל שְׂפַת הַיָּם מִנֶּגֶד לַיָּם, וְהָיוּ הַמִּצְרִיִּים צָפִים כְּנוֹדוֹת עַל פְּנֵי הַמַּיִם. וְיָצָא רוּחַ צָפוֹן וְהִשְׁלִיךְ אוֹתָם וְהֵבִיא אוֹתָם, וְאָמְרוּ: ״אֵלּוּ פַּלְטֵרִין שֶׁל פַּרְעֹה, וְאֵלּוּ הַנּוֹגְשִׂים״. הָיוּ מַכִּירִין כָּל אֶחָד וְאֶחָד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּרְא יִשְׂרָאֵל אֶת מִצְרַיִם מֵת עַל שְׂפַת הַיָּם״.
11
Rabi Reuven diz: tudo segue a quem está à frente. Quando? No tempo em que o pastor se desvia, o rebanho se desvia atrás dele, como está dito: “pelos pecados de Yeravam ben Nevat, que pecou e fez Israel pecar” (Melachim I 15:30). E quando? No tempo em que o pastor é bom, o rebanho vai atrás dele e segue pelo caminho reto. E Moshé, nosso mestre, sobre ele a paz, era um pastor fiel, e começou a cantar e a entoar diante do Santo, bendito seja, e foram todos os de Israel atrás dele, como está dito: “então cantou Moshé e os filhos de Israel” (Shemot 15:1). Viu Miriam, e começou a cantar e a entoar diante do Santo, bendito seja, e foram todas as mulheres atrás dela, como está dito: “e tomou Miriam, a profetisa, irmã de Aharon, o tamboril na sua mão” (Shemot 15:20). E de onde tinham elas tamboris e danças no deserto? Mas é que os justos sempre sabem e confiam, e estão certos de que o Santo, bendito seja, lhes faz milagres e prodígios; por isso, ao saírem do Egito, prepararam para si tamboris e danças.
רַבִּי רְאוּבֵן אוֹמֵר: הַכֹּל הוֹלֵךְ אַחַר הָרֹאשׁ. אֵימָתַי? בִּזְמַן שֶׁהָרוֹעֶה תּוֹעֶה הַצֹּאן תּוֹעִין אַחֲרָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עַל חַטֹּאת יָרָבְעָם בֶּן נְבָט אֲשֶׁר חָטָא וַאֲשֶׁר הֶחֱטִיא אֶת יִשְׂרָאֵל״. וְאֵימָתַי? בִּזְמַן שֶׁהָרוֹעֶה טוֹב הַצֹּאן הוֹלְכִים אַחֲרָיו וְהוֹלְכִין בְּדֶרֶךְ יְשָׁרָה, וּמֹשֶׁה רַבֵּנוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם רוֹעֶה נֶאֱמָן הָיָה וְהִתְחִיל לְשׁוֹרֵר וּלְזַמֵּר לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְהָלְכוּ כָּל יִשְׂרָאֵל אַחֲרָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אָז יָשִׁיר מֹשֶׁה וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל״. רָאֲתָה מִרְיָם, הִתְחִילָה לְשׁוֹרֵר וּלְזַמֵּר לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְהָלְכוּ כָּל הַנָּשִׁים אַחֲרֶיהָ שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתִּקַּח מִרְיָם הַנְּבִיאָה אֲחוֹת אַהֲרֹן אֶת הַתֹּף בְּיָדָהּ״. וְכִי מִנַּיִן הָיָה לָהֶם תֻּפִּים וּמְחוֹלוֹת? אֶלָּא לְעוֹלָם הַצַּדִּיקִים יוֹדְעִין וּמִתְפַּיְּיסִין וּמַבְטִיחִין שֶׁהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עוֹשֶׂה לָהֶם נִסִּים וּגְבוּרוֹת. עַד יְצִיאָתָן מִמִּצְרַיִם הִתְקִינוּ לָהֶם תֻּפִּים וּמְחוֹלוֹת.
Nota — o cântico, Miriam e a responsabilidade de quem guia. O capítulo une duas lições. A primeira: “tudo segue quem está à frente” — o líder bom conduz o povo ao bem, e o mau o arrasta ao erro; a enorme responsabilidade de quem guia. A segunda é luminosa: Miriam e as mulheres saem do Egito já com os tamboris preparados — porque “os justos confiam que D’us fará milagres”. A esperança não espera de braços cruzados; prepara os instrumentos da alegria antes mesmo da salvação. O Cântico do Mar torna-se o modelo da gratidão que brota da fé.
12
Disseram os de Israel diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, estes que se ergueram contra nós para nos destruir do Teu mundo — e todos os que se erguem contra nós é como se contra Ti se erguessem —, consome-os na majestade da Tua força”, como está dito: “consome-os como restolho” (Shemot 15:7).
אָמְרוּ יִשְׂרָאֵל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, אֵלּוּ שֶׁקָּמוּ עָלֵינוּ לְאַבְּדֵנוּ מֵעוֹלָמְךָ, וְכָל הַקָּמִים עָלֵינוּ כְּאִלּוּ קָמִים עָלֶיךָ. כַּלֵּם בִּגְאוֹן עֻזְּךָ וּבַחֲרוֹן אַפְּךָ יֹאכְלֵמוֹ כַּקַּשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יֹאכְלֵמוֹ כַּקַּשׁ״.
13
E disseram os de Israel diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, não há quem seja como Tu entre os anjos do serviço” ...; “quem é como Tu entre os poderosos (elim), ó Eterno?” (Shemot 15:11). Não está escrito apenas isto, mas: “quem é como Tu, glorioso em santidade, terrível em louvores, operador de maravilhas” (ibid.) — pois os anjos do serviço O louvam do alto, e os louvores de Israel sobem de baixo. E assim se diz: “e Tu és santo, Tu que habitas entre os louvores de Israel” (Tehilim 22:4).
וְאָמְרוּ יִשְׂרָאֵל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, אֵין כָּמוֹךָ כְּמַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת, וְכֵן כָּל כִּנּוּיֵי שְׁמָן אֵלִים – מִיכָאֵל, גַּבְרִיאֵל. ״מִי כָמֹכָה בָּאֵלִים ה'״. וְעָנָה פַּרְעֹה אַחֲרֵיהֶם שִׁיר וְשִׁבְחָה בִּלְשׁוֹן מִצְרַיִם. אֵין כָּתוּב אֶלָּא ״מִי כָּמֹכָה נֶאְדָּר בַּקֹּדֶשׁ נוֹרָא תְהִלֹּת״, שֶׁמַּלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת מְקַלְּסִין אוֹתוֹ מִלְמַעְלָה וּתְהִלּוֹת יִשְׂרָאֵל מִלְּמַטָּה. וְכֵן הוּא אוֹמֵר: ״וְאַתָּה קָדוֹשׁ יוֹשֵׁב תְּהִלּוֹת יִשְׂרָאֵל״.
14
“Estendeste a Tua mão direita” (Shemot 15:12). Disse o Santo, bendito seja, à terra: “recebe estes corpos dos egípcios”. Disse ela perante Ele: “Senhor de todos os mundos, as águas os mataram, e só as águas os engulam!”. Disse-lhe: “desta vez, recebe-os tu; em outra ocasião, aqueles que forem mortos sobre ti, Eu os lançarei ao mar” — e estes foram os de Sisrá e todo o seu exército, que D’us lançou ao mar, como está dito: “a torrente de Kishon os arrastou” (Shoftim 5:21). Disse a terra perante Ele: “Senhor de todos os mundos, se pelo sangue de um só homem Hével, que Caim matou, fui amaldiçoada por causa dele, quanto mais se receber todas estas multidões! Dá-me, pois, o juramento da Tua mão direita de que não me pedirás conta deles”. E estendeu o Santo, bendito seja, a Sua mão direita e jurou que não lhos pediria conta. Por isso “estendeste a Tua direita, e a terra os tragou” (Shemot 15:12) — e “a Tua direita” não é senão referência a juramento, como está dito “jurou o Eterno pela Sua direita” (Yeshayá 62:8). Imediatamente abriu-se a terra e os tragou. E, quando todos os reis da terra ouviram da saída do Egito e da divisão do Mar dos Juncos, estremeceram, tremeram e fugiram, como está dito: “ouviram-no os povos e tremeram; angústia tomou os habitantes da Filístia” (Shemot 15:14).
״נָטִיתָ יְמִינְךָ״, אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לָאָרֶץ: קַבְּלִי חֲלָלִים הַלָּלוּ. אָמְרָה לְפָנָיו: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, הַמַּיִם הָרְגוּ אוֹתָם וְהַמַּיִם יִבְלְעוּ אוֹתָם! אָמַר לָהּ: הַפַּעַם הַזֹּאת קַבְּלִי אֶת אֵלֶּה. פַּעַם אַחֶרֶת, אוֹתָם שֶׁיִּהְיוּ נֶהֱרָגִים עָלַיִךְ אֲנִי מַשְׁלִיךְ אוֹתָם לַיָּם. וְאֵלּוּ הֵם: כְּשֶׁנֶּהֱרַג סִיסְרָא וְכָל מַחֲנֵהוּ, הִשְׁלִיךְ אוֹתָם לַיָּם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״נַחַל קִישׁוֹן גְּרָפָם״. אָמְרָה לְפָנָיו: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, מַה בָּשָׂר וָדָם שֶׁלֹּא הָרַג אֶלָּא אֶחָד נִתְאָרַרְתִּי בַּעֲבוּרוֹ, אִם אֲנִי מְקַבֶּלֶת אֶת כָּל הָאוֹכְלוֹסִין הַלָּלוּ, עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה! אָמְרָה לוֹ: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, תֵּן לִי שְׁבוּעַת יְמִינְךָ שֶׁאֵין אַתָּה תּוֹבֵעַ אוֹתָם מִיָּדִי. וְנָטָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא יַד יְמִינוֹ וְנִשְׁבַּע שֶׁאֵינוֹ תּוֹבֵעַ אוֹתָם מִיָּדָהּ. ״נָטִיתָ יְמִינְךָ תִּבְלָעֵמוֹ אָרֶץ״, וְאֵין יְמִינְךָ אֶלָּא שְׁבוּעָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״נִשְׁבַּע ה' בִּימִינוֹ״ וְכוּ'. מִיָּד פָּתְחָה הָאָרֶץ וּבָלְעָה אוֹתָם. וּכְשֶׁשָּׁמְעוּ כָּל מַלְכֵי הָאָרֶץ יְצִיאַת מִצְרַיִם וּקְרִיעַת יַם סוּף, רָגְזוּ וְחָלוּ וּבָרְחוּ מִמְּקוֹמָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שָׁמְעוּ עַמִּים יִרְגָּזוּן, חִיל אָחַז יֹשְׁבֵי פְּלָשֶׁת״.
15
Disse Moshé diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, põe o Teu terror e o Teu pavor sobre eles, de modo que o seu coração se torne imóvel como a pedra, até que o Teu povo, ó Eterno, atravesse o vale de Arnón e o Jordão”, como está dito: “até que passe o Teu povo, ó Eterno” (Shemot 15:16).
אָמַר מֹשֶׁה לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, תֵּן אֵימָתְךָ וּפַחְדְּךָ עֲלֵיהֶם עַד שֶׁיְּהֵא לָהֶם לֵב הָאֶבֶן עַד שֶׁיַּעַבְרוּ יִשְׂרָאֵל נַחַל אַרְנוֹן, וְיִהְיֶה לִבָּם כָּאֶבֶן עַד שֶׁיַּעַבְרוּ יִשְׂרָאֵל אֶת הַיַּרְדֵּן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עַד יַעֲבֹר עַמְּךָ ה'״ וְכוּ'.
16
“Tu os trarás e os plantarás no monte da Tua herança” (Shemot 15:17). Disse o Santo, bendito seja, a Moshé: “Moshé, não disseste ‘Tu nos trarás e nos plantarás’, mas ‘Tu os trarás e os plantarás’”. Como tu te excluíste, eis que assim será, conforme as tuas palavras: neste mundo Eu os trago, e no porvir Eu os planto como planta de verdade, que não mais será arrancada da sua terra; e diz: “o Eterno reinará para todo o sempre” (Shemot 15:18).
״תְּבִיאֵמוֹ וְתִטָּעֵמוֹ בְּהַר נַחֲלָתְךָ״, אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה: מֹשֶׁה, לֹא אָמַרְתָּ ״תְּבִיאֵנוּ וְתִטָּעֵנוּ״ אֶלָּא ״תְּבִיאֵמוֹ וְתִטָּעֵמוֹ״, וְהַמּוֹצִיא הוּא הַמֵּבִיא. אֶלָּא חַיֶּיךָ, כִּדְבָרְךָ כֵּן יִהְיֶה: בָּעוֹלָם הַזֶּה אֲנִי מֵבִיא אוֹתָם, וְלֶעָתִיד לָבוֹא אֲנִי נוֹטֵעַ אוֹתָם נֶטַע אֱמֶת שֶׁלֹּא יִנָּטְשׁוּ עוֹד מֵעַל אַדְמָתָם, וְאוֹמֵר: ״ה' יִמְלֹךְ לְעוֹלָם וָעֶד״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A fé que avança

O milagre do mar começa com uma exigência: “põe-te a caminho”. Israel reza, mas D’us pede o passo — e Nachshon o dá, entrando nas águas antes que elas se abrissem. Os sábios fazem disso o paradigma da fé madura: não a passividade que espera o prodígio, mas a coragem que se move confiando em D’us. E tudo se prepara por uma teshuvá: o povo lança fora os ídolos do Egito antes de atravessar.

Quando até os anjos se calam

O cume ético do capítulo: na noite em que os egípcios perecem, os anjos não cantam. A tradição ouve aqui a voz de D’us — “as obras das Minhas mãos se afogam, e vós cantais?”. A queda do opressor pode ser justa, mas não é festa: D’us não se alegra com a morte de ninguém, e nós aprendemos a não nos alegrar (Mishlei 24:17). A justiça e a compaixão caminham juntas, mesmo na vitória.

Medida por medida

“Tudo é por medida” (Ben Azzai): como os egípcios afogaram, foram afogados. Os sábios leem nisto a ordem moral do mundo — a crueldade retorna sobre quem a comete. Não é vingança caprichosa, mas a estrutura da justiça inscrita na realidade. E a aggadá das crianças salvas do Nile, que reconhecem D’us no mar, mostra que a providência guarda os inocentes através de tudo.

O Cântico do Mar

Salvos, Moshé e Miriam conduzem o povo no Cântico — a gratidão transbordante de quem foi redimido. As mulheres trazem os tamboris que prepararam na fé; o louvor sobe “de baixo” enquanto os anjos louvam “do alto”. E o cântico termina olhando adiante: “o Eterno reinará para todo o sempre” — a redenção do Egito é a promessa de uma redenção maior, “para que se plantem e não mais sejam arrancados”.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 43

O poder da teshuvá (o arrependimento)

פֶּרֶק מ״ג

Este capítulo é um hino à teshuvá — o poder do retorno. Por meio de Achav, David, Menashé, do salteador que se tornou sábio e até de Nínive, ensina que ninguém está além do retorno, que a porta do arrependimento está sempre aberta enquanto há vida — e que D’us “deseja a teshuvá”, e não o castigo.

1
A teshuvá (o arrependimento) e as boas ações são como um escudo diante do infortúnio. Rabi Yishmael diz: se a teshuvá não tivesse sido criada, o mundo não poderia subsistir; mas, visto que a teshuvá foi criada, o Santo, bendito seja, tem a Sua mão direita estendida para receber os que retornam, a cada dia, e diz: “voltai, ó filhos rebeldes” (Yirmiyá 3:22). Voltai, ó filhos do homem! E conhece o poder da teshuvá: vem e vê de Achav, rei de Israel, que roubou, cobiçou e matou, como está dito: “acaso mataste e também tomaste posse?” (Melachim I 21:19); e depois mandou chamar Yehoshafat, rei de Yehudá, e aceitava dele açoites castigo todos os dias, e em jejum e em oração madrugava e anoitecia diante do Santo, bendito seja, e ocupava-se da Torá todos os seus dias, e não tornou mais aos seus maus feitos; e a sua teshuvá foi aceita, como está dito: “viste como Achav se humilhou diante de Mim?” (Melachim I 21:29).
הַתְּשׁוּבָה וּמַעֲשִׂים טוֹבִים כְּתָרִיס בִּפְנֵי הַפֻּרְעָנוּת. רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: אִלּוּ לֹא נִבְרְאָת הַתְּשׁוּבָה לֹא הָיָה הָעוֹלָם עוֹמֵד, אֶלָּא הוֹאִיל וְנִבְרְאָת הַתְּשׁוּבָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא יְמִינוֹ פְּשׁוּטָה לְקַבֵּל שָׁבִים בְּכָל יוֹם, וְאוֹמֵר ״שׁוּבוּ בָנִים שׁוֹבָבִים״. שׁוּבוּ בְּנֵי אָדָם וְתֵדַע לְךָ כֹּחַ הַתְּשׁוּבָה. בֹּא וּרְאֵה מֵאַחְאָב מֶלֶךְ יִשְׂרָאֵל שֶׁגָּזַל וְחָמַד וְרָצַח, שֶׁנֶּאֱמַר ״הֲרָצַחְתָּ וְגַם יָרָשְׁתָּ״ וְשָׁלַח וְקָרָא לִיהוֹשָׁפָט מֶלֶךְ יְהוּדָה וְהָיָה נוֹתֵן לוֹ מַלְקוֹת אַרְבָּעִים בְּכָל יוֹם שָׁלֹשׁ פְּעָמִים וּבְצוֹם וּבִתְפִלָּה הָיָה מַשְׁכִּים וּמַעֲרִיב לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְעוֹסֵק בַּתּוֹרָה כָּל יָמָיו וְלֹא חָזַר עַל מַעֲשָׂיו הָרָעִים עוֹד וְנִרְצָה בִתְשׁוּבָתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר (מלכים א כא, כט) ״הֲרָאִיתָ כִּי נִכְנַע אַחְאָב מִלְּפָנָי״.
Nota — a teshuvá, anterior ao mundo. “Se a teshuvá não tivesse sido criada, o mundo não poderia subsistir”: a possibilidade do retorno é uma das fundações da realidade. Um mundo em que o erro fosse irreversível seria insuportável; a teshuvá é a porta sempre aberta. E o capítulo abre com Achav — um rei culpado de roubo e sangue — para dizer o mais radical: ninguém está além do retorno. Na leitura racionalista, a teshuvá é a expressão maior do livre-arbítrio: não somos prisioneiros do que fomos; podemos recriar-nos (cf. os ensaios sobre o Yom Kipur e o pecado). A “direita estendida” de D’us é a imagem de uma misericórdia estrutural no mundo.
2
Rabi Avahu diz: conhece o poder da teshuvá. Vem e vê de David, rei de Israel: o Santo, bendito seja, jurara aos patriarcas multiplicar a sua descendência como as estrelas dos céus, e David veio a contar o seu número num recenseamento indevido. Disse-lhe o Santo, bendito seja: “David, Eu jurei aos patriarcas multiplicar a sua descendência como as estrelas, e tu vens anular as Minhas palavras contando-os?”. ... E em três horas caíram de Israel setenta mil homens, como está dito: “e caíram de Israel setenta mil homens” (Shmuel II 24:15). Rabi Shimon diz: não caiu de Israel senão Avishai ben Tzeruyá, que valia, nos seus bons feitos e na sua Torá, tanto quanto setenta mil homens — “homem” no singular está escrito aqui, e não “homens”. E ouviu David e rasgou as suas vestes e vestiu saco e cinza e caiu sobre o rosto em terra diante da arca da aliança do Eterno.
רַבִּי אֲבָהוּ אוֹמֵר: תֵּדַע לְךָ כֹּחַ הַתְּשׁוּבָה. בֹּא וּרְאֵה מִדָּוִד מֶלֶךְ יִשְׂרָאֵל, שֶׁנִּשְׁבַּע הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לָאָבוֹת לְהַרְבּוֹת אֶת זַרְעָם כְּכוֹכְבֵי הַשָּׁמַיִם, וּבָא דָוִד לִמְנוֹת אֶת מִסְפָּרָם. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: דָּוִד, אֲנִי נִשְׁבַּעְתִּי לָאָבוֹת לְהַרְבּוֹת אֶת זַרְעָם כְּכוֹכְבֵי הַשָּׁמַיִם, וְאַתָּה בָּא לְבַטֵּל דְּבָרַי? בִּשְׁבִילְךָ נִתְּנָה הַצֹּאן לְמַאֲכָל. וּבִשְׁלֹשָׁה שָׁעוֹת נָפַל מִיִּשְׂרָאֵל שִׁבְעִים אֶלֶף אִישׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּפְּלוּ מִיִּשְׂרָאֵל שִׁבְעִים אֶלֶף אִישׁ״. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: לֹא נָפְלָה מִיִּשְׂרָאֵל אֶלָּא אֲבִישַׁי בֶּן צְרוּיָה בִּלְבַד, שֶׁהָיָה שָׁקוּל בְּמַעֲשָׂיו הַטּוֹבִים וּבְתוֹרָתוֹ כְּנֶגֶד שִׁבְעִים אֶלֶף אִישׁ. ״אִישׁ״ כָּתוּב כָּאן, וְאֵין כָּתוּב ״אֲנָשִׁים״. וְשָׁמַע דָּוִד וְקָרַע אֶת בְּגָדָיו, וְלָבַשׁ שַׂק וָאֵפֶר, וְנָפַל עַל פָּנָיו אַרְצָה לִפְנֵי אֲרוֹן בְּרִית ה'.
3
E buscava a teshuvá, e disse diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, eu é que pequei; passa, peço-te, a minha culpa”. E a sua teshuvá foi aceita, e D’us disse ao anjo que feria o povo: “basta! agora, retira a tua mão” (Shmuel II 24:16). Que fez o anjo? Tomou a sua espada e a limpou no manto de David. E viu David a espada do anjo e ficou tremendo em todos os membros, com temor até a sua morte, como está dito “e não pôde David ir diante dele” (cf. Divrei haYamim I 21:30).
וְהָיָה מְבַקֵּשׁ תְּשׁוּבָה וְאָמַר לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, אָנֹכִי הוּא שֶׁחָטָאתִי, הַעֲבֶר נָא אֶת חַטָּאתִי. וְנִרְצָה תְשׁוּבָתוֹ וְאָמַר לַמַּלְאָךְ הַמַּשְׁחִית בָּעָם ״רַב לָךְ, עַתָּה הֶרֶף יָדֶךָ״. וּמַה הוּא ״רַב״? אָמַר לוֹ: ״רַב נָפַל מִיִּשְׂרָאֵל״. מַה עָשָׂה הַמַּלְאָךְ? לָקַח אֶת חַרְבּוֹ וְקִנְּחָהּ בְּטַלִּיתוֹ שֶׁל דָּוִד. וְרָאָה דָּוִד אֶת חַרְבּוֹ שֶׁל מַלְאָךְ וְהָיָה מַרְתִּית, רוֹצֶה לוֹמַר בְּכָל אֵבָרָיו, עַד מוֹתוֹ, ״וְלֹא יָכוֹל דָּוִד לָלֶכֶת לְפָנָיו״.
4
Rabi Yehoshua diz: conhece o poder da teshuvá. Vem e vê de Menashé, filho de Chizkiyahu, que fez todas as piores abominações, muito mais que todas as nações .... E vieram os chefes dos exércitos do rei de Bavel e o prenderam ... e o desceram a Bavel e o puseram numa caldeira de fogo; e ali clamou a todos os deuses estranhos a que sacrificara, e nenhum deles lhe respondeu nem o salvou. Disse: “clamarei ao D’us de meus pais, de todo o meu coração; talvez Ele faça por mim como todas as maravilhas que fez por meu pai”. E clamou ao D’us de seus pais, de todo o coração, e D’us o atendeu e ouviu a sua súplica, como está dito: “e orou a Ele, e D’us o atendeu” (Divrei haYamim II 33:13). Naquela hora disse Menashé: “há um juízo e há um Juiz (it din ve’it Dayan)!”.
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר: תֵּדַע לְךָ כֹּחַ הַתְּשׁוּבָה, בֹּא וּרְאֵה מִמְּנַשֶּׁה בֶּן חִזְקִיָּהוּ שֶׁעָשָׂה כָּל תּוֹעֲבוֹת הָרָעוֹת הַרְבֵּה מְאֹד מִכָּל הַגּוֹיִם, וְהוּא הֶעֱבִיר אֶת בְּנוֹ בָּאֵשׁ לַבַּעַל חוּץ לִירוּשָׁלַיִם, מַפְרִיחַ יוֹנִים וְזוֹבֵחַ לְכָל צְבָא הַשָּׁמַיִם. וּבָאוּ שָׂרֵי גְדוּדִים מֶלֶךְ בָּבֶל וַאֲחָזוּהוּ בִּמְנִיקַת רֹאשׁוֹ וְהוֹרִידוּהוּ בָּבֶלָה וְנָתְנוּ אוֹתוֹ בְּמַחֲבַת אֵשׁ, וְשָׁם קָרָא לְכָל אֱלֹהִים אֲחֵרִים שֶׁזָּבַח וְאֵין אֶחָד מֵהֶם עוֹנֶה אוֹתוֹ וּמַצִּילוֹ. אָמַר: אֲנִי אֶקְרָא לֵאלֹהֵי אֲבוֹתַי בְּכָל לִבִּי אוּלַי יַעֲשֶׂה לִי כְּכָל נִפְלְאוֹתָיו שֶׁעָשָׂה לְאָבִי. וְקָרָא לֵאלֹהֵי אֲבוֹתָיו בְּכָל לִבּוֹ, וְנֶעְתַּר לוֹ וְשָׁמַע תְּחִנָּתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּתְפַּלֵּל אֵלָיו וַיֵּעָתֶר לוֹ״. בְּאוֹתָהּ שָׁעָה אָמַר מְנַשֶּׁה: אִית דִּין וְאִית דַּיָּן!
Nota — Menashé: do fundo, o retorno. Menashé é, na tradição, o paradigma do pior dos reis — e justamente por isso o capítulo o escolhe: se ele foi recebido, ninguém está perdido. No fundo do sofrimento, depois de clamar em vão aos ídolos, ele clama “de todo o coração” ao D’us dos seus pais e é atendido. “Há um juízo e há um Juiz” — a sua descoberta é dupla: há justiça no mundo, e há misericórdia para quem retorna. A teshuvá das profundezas é, para a tradição, a mais poderosa.
5
Ben Azzai diz: conhece o poder da teshuvá. Vem e vê de Rabi Shimon ben Lakish Reish Lakish, que em sua juventude era, ele e dois companheiros, um salteador nos montes, que roubava e despojava todo aquele que passasse pelo caminho. Que fez Rabi Shimon? Deixou os seus dois companheiros saqueando nos montes, e voltou-se ao D’us de seus pais, de todo o coração, em jejum e em oração; e madrugava e anoitecia na casa de oração diante do Santo, bendito seja, e ocupava-se da Torá todos os seus dias e praticava os dons aos pobres, e não tornou mais aos seus maus feitos. E a sua teshuvá foi aceita; e, no dia em que ele morreu, morreram também os seus dois companheiros, salteadores dos montes; e deram a Rabi Shimon lugar no tesouro da vida, e aos seus dois companheiros, no Sheol inferior.
בֶּן עַזַּאי אוֹמֵר: תֵּדַע לְךָ כֹּחַ הַתְּשׁוּבָה, בֹּא וּרְאֵה מֵרַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ שֶׁהָיָה הוּא וּשְׁנֵי רֵעָיו בֶּהָרִים גּוֹזְלִין וְחוֹמְסִין כָּל אֲשֶׁר יַעֲבֹר עֲלֵיהֶם בַּדֶּרֶךְ. מֶה עָשָׂה רַבִּי שִׁמְעוֹן? הִנִּיחַ לִשְׁנֵי רֵעָיו שׁוֹדְדִין בֶּהָרִים וְשָׁב לֵאלֹהֵי אֲבוֹתָיו בְּכָל לִבּוֹ בְּצוֹם וּבִתְפִלָּה. וְהָיָה מַשְׁכִּים וּמַעֲרִיב לְבֵית הַכְּנֶסֶת לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וְהָיָה עוֹסֵק בַּתּוֹרָה כָּל יָמָיו וּבְמַתְּנוֹת עֲנִיִּים, וְלֹא שָׁב עַל מַעֲשָׂיו הָרָעִים עוֹד. וְנִתְרַצֵּית תְּשׁוּבָתוֹ, וּבְיוֹם שֶׁמֵּת מֵתוּ שְׁנֵי רֵעָיו הַשּׁוֹדְדִים בֶּהָרִים, וְנָתְנוּ לְרַבִּי שִׁמְעוֹן בְּאוֹצַר הַחַיִּים וְלִשְׁנֵי רֵעָיו בִּשְׁאוֹל הַתַּחְתּוֹנָה.
6
E disseram os seus dois companheiros diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, há acepção de pessoas diante de Ti? Este esteve conosco salteando nos montes, e agora está no tesouro da vida, e nós no Sheol inferior!”. Disse-lhes: “este fez teshuvá em vida, e vós não fizestes teshuvá!”. Disseram-lhe: “deixa-nos voltar, e faremos grande teshuvá”. Disse-lhes: “não há teshuvá possível senão até o dia da morte”.
וְאָמְרוּ שְׁנֵי רֵעָיו לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, יֵשׁ לְפָנֶיךָ מַשּׂוֹא פָּנִים? זֶה הָיָה עִמָּנוּ שׁוֹדֵד בֶּהָרִים וְהוּא בְּאוֹצַר הַחַיִּים, וַאֲנַחְנוּ בִּשְׁאוֹל תַּחְתִּית! אָמַר לָהֶם: זֶה עָשָׂה תְּשׁוּבָה בְּחַיָּיו וְאַתֶּם לֹא עֲשִׂיתֶם תְּשׁוּבָה! אָמְרוּ לוֹ: הַנַּח לָנוּ וַאֲנַחְנוּ עוֹשִׂים תְּשׁוּבָה גְּדוֹלָה. אָמַר לָהֶם: אֵין תְּשׁוּבָה אֶלָּא עַד יוֹם הַמִּיתָה.
7
A que se assemelha a coisa? A um homem que quer navegar pelo mar: se não toma na sua mão pão da terra habitada e água doce, não achará no mar o que comer e beber. E, mais ainda, um homem que quer ir até a extremidade do deserto: se não toma do povoado pão e água, não achará no deserto o que comer e beber. Assim, se o homem não faz teshuvá em vida, depois da sua morte não há mais teshuvá para ele, mas resta dar-se a cada um conforme os seus caminhos e o fruto dos seus atos.
מָשָׁל לְמָה הַדָּבָר דּוֹמֶה? לְאָדָם שֶׁהוּא רוֹצֶה לִפְרֹשׂ בַּיָּם. אִם אֵינוֹ לוֹקֵחַ בְּיָדוֹ לֶחֶם מֵאֶרֶץ נוֹשֶׁבֶת וּמַיִם מְתוּקִים, בַּיָּם אֵינוֹ מוֹצֵא לֶאֱכֹל וְלִשְׁתּוֹת. וְלֹא עוֹד, אֶלָּא אָדָם שֶׁהוּא רוֹצֶה לֵילֵךְ לִקְצֵה הַמִּדְבָּר, אִם אֵינוֹ לוֹקֵחַ מִן הַיִּשּׁוּב לֶחֶם וּמַיִם, אֵינוֹ מוֹצֵא בַּמִּדְבָּר לֶאֱכֹל וְלִשְׁתּוֹת. כָּךְ אִם הָאָדָם אֵינוֹ עוֹשֶׂה תְּשׁוּבָה בְּחַיָּיו, לְאַחַר מִיתָתוֹ אֵין לוֹ תְּשׁוּבָה, אֶלָּא נְתִינַת הָאִישׁ כִּדְרָכָיו וְכִפְרִי מַעֲלָלָיו.
Nota — a teshuvá pertence à vida. A parábola do viajante é límpida: como quem parte para o mar ou o deserto deve levar provisões de onde há, assim a teshuvá deve ser feita enquanto há vida. “Não há teshuvá senão até o dia da morte.” Não é uma ameaça, mas um chamado à urgência e à dignidade da escolha: o tempo de mudar é agora, enquanto somos livres para agir. O que de nós permanece é o caráter que forjamos e o bem que fizemos (cf. o ensaio sobre o que acontece à alma ao morrer).
8
Rabi Nechunya ben haKaná diz: conhece o poder da teshuvá. Vem e vê de Faraó, rei do Egito, que se rebelou contra a Rocha suprema muitíssimo, como está dito: “quem é o Eterno, para que eu ouça a Sua voz?” (Shemot 5:2). E na mesma língua com que pecou, com essa língua fez teshuvá, como está dito: “quem é como Tu entre os poderosos, ó Eterno, quem é como Tu, glorioso em santidade?” (Shemot 15:11). E o Santo, bendito seja, o salvou dentre os mortos. De onde sabemos que não morreu? Do que está dito: “porque agora teria Eu estendido a Minha mão ...; mas, para isto, te mantive de pé te conservei” etc. (Shemot 9:15-16). E a tradição diz que ele foi reinar em Nínive. E os homens de Nínive escreviam documentos de opressão, e roubavam uns aos outros, e cometiam violências uns contra os outros; e o relato dos seus maus feitos subiu diante de D’us. E, quando o Santo, bendito seja, enviou Yoná a profetizar contra ela anunciando a sua destruição, ouviu o rei e levantou-se do seu trono e rasgou as suas vestes e vestiu saco e cinza, e proclamou em todo o seu povo que jejuassem dois dias. Que fez? Pôs os homens de um lado e as mulheres de outro, e os animais também à parte; e as crianças viam as suas mães e queriam mamar e choravam, e as mães viam os seus filhos e queriam amamentá-los e choravam. ... Quarenta anos teve D’us paciência com eles, correspondentes aos quarenta dias do aviso pelos quais enviou Yoná. E, depois de quarenta anos, voltaram aos seus maus feitos, mais do que os primeiros, e foram tragados como mortos no Sheol inferior, como está dito: “desde a cidade os moribundos gemem” (Iyov 24:12).
רַבִּי נְחוּנְיָא בֶּן הַקָּנָה אוֹמֵר: תֵּדַע לְךָ כֹּחַ הַתְּשׁוּבָה. בֹּא וּרְאֵה מִפַּרְעֹה מֶלֶךְ מִצְרַיִם שֶׁמָּרַד בְּצוּר עֶלְיוֹן הַרְבֵּה מְאֹד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מִי ה' אֲשֶׁר אֶשְׁמַע בְּקוֹלוֹ״. וּבַלָּשׁוֹן שֶׁחָטָא בּוֹ בַּלָּשׁוֹן עָשָׂה תְשׁוּבָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מִי כָמֹכָה בָּאֵלִם ה', מִי כָּמֹכָה נֶאְדָּר בַּקֹּדֶשׁ״. וְהִצִּילוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בֵּין הַמֵּתִים. מִנַּיִן שֶׁלֹּא מֵת? שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי עַתָּה שָׁלַחְתִּי אֶת יָדִי וָאַךְ אוֹתְךָ, וְאוּלָם בַּעֲבוּר זֹאת הֶעֱמַדְתִּיךָ״ וְכוּ'. וְהָלַךְ וּמָלַךְ בְּנִינְוֵה. וְהָיוּ אַנְשֵׁי נִינְוֵה כּוֹתְבִים מִכְתְּבֵי עָמָל וְגוֹזְלִים אִישׁ אֶת רֵעֵהוּ, וּבָאִים אִישׁ עַל רֵעֵהוּ בְּמִשְׁכַּב זָכוּר. וּבָא אֶצְלוֹ מַעֲשֵׂיהֶם הָרָעִים. וּכְשֶׁשָּׁלַח הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְיוֹנָה לְהִנָּבֵא עָלֶיהָ לְהַחֲרִיבָהּ, שָׁמַע פַּרְעֹה וְעָמַד מִכִּסְאוֹ וְקָרַע בְּגָדָיו וְלָבַשׁ שַׂק וָאֵפֶר, וְהִכְרִיז בְּכָל עַמּוֹ שֶׁיָּצוּמוּ כָּל הָעָם שְׁנֵי יָמִים, וְכָל מִי שֶׁיַּעֲשֶׂה אֶת הַדְּבָרִים הַלָּלוּ יִשָּׂרֵף בָּאֵשׁ. מֶה עָשָׂה? הֶעֱמִיד הָאֲנָשִׁים מִצַּד אֶחָד וְהַנָּשִׁים מִצַּד אַחֵר, וְכָל בְּהֵמָה טְהוֹרָה מִצַּד אַחֵר. וְהַיְלָדִים רוֹאִים אֶת אִמּוֹתֵיהֶם וְרוֹצִין לִינֹק וּבוֹכִין, וְאִמּוֹתֵיהֶם רוֹאוֹת אֶת בְּנֵיהֶם וְרוֹצוֹת לְהָנִיקָם וּבוֹכוֹת. הַיְלָדִים ק״כ אֶלֶף וְג' אֲלָפִים, הַרְבֵּה מִשְּׁנֵים עָשָׂר רִבּוֹא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַאֲנִי לֹא אָחוּס עַל נִינְוֵה הָעִיר הַגְּדוֹלָה״. אַרְבָּעִים שָׁנָה הֶאֱרִיךְ אַפּוֹ עִמָּהֶם כְּנֶגֶד אַרְבָּעִים יוֹם שֶׁשָּׁלַח אֶת יוֹנָה. וּלְאַחַר אַרְבָּעִים שָׁנָה שָׁבוּ לְמַעֲשֵׂיהֶם הָרָעִים הַרְבֵּה מִן הָרִאשׁוֹנִים, וְנִבְלְעוּ כַמֵּתִים בִּשְׁאוֹל תַּחְתִּיָּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מֵעִיר מְתִים יִנְאָקוּ״.
Nota — Nínive e a teshuvá das nações. Que uma cidade gentia — Nínive, mergulhada na violência (chamas) — se arrependa e seja poupada ensina que a teshuvá é universal: D’us deseja o retorno de toda pessoa, não a sua ruína (“não desejo a morte do ímpio... mas que se converta e viva”, Yechezkel 33:11; cf. o ensaio sobre o proselitismo). Mas há também uma advertência sóbria: a teshuvá precisa ser duradoura — Nínive recaiu, e a sua restauração não se firmou. O arrependimento que não muda a vida não basta.
9
Enviou o Santo, bendito seja, pela mão dos Seus servos, os profetas, uma palavra a Israel, e disse: “volta, ó Israel, até o Eterno, teu D’us” (Hoshea 14:2) — até Aquele cujo Nome ouvistes no monte Sinai dizer “Eu sou o Eterno, teu D’us”.
שָׁלַח הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּיַד עֲבָדָיו הַנְּבִיאִים אֶל יִשְׂרָאֵל וְאָמַר: ״שׁוּבָה יִשְׂרָאֵל עַד ה' אֱלֹהֶיךָ״, עַד הַהוּא שֶׁשְּׁמַעְכֶם בְּהַר סִינַי אוֹמֵר ״אָנֹכִי ה' אֱלֹהֶיךָ״.
10
“Porque tropeçaste na tua iniquidade” (Hoshea 14:2): não está escrito aqui “na tua glória ou na tua riqueza”, mas “tropeçaste na tua iniquidade”. “Tomai convosco palavras” (Hoshea 14:3): não está escrito aqui “tomai convosco prata e ouro”, mas “tomai convosco palavras”; e não está escrito “e pagaremos prata e ouro”, mas “e ofereceremos em lugar de novilhos a oferta dos nossos lábios” (ibid.).
״כִּי כָשַׁלְתָּ בַּעֲוֹנֶךָ״. ״בִּכְבוֹדְךָ וְחֵילֶךָ״ אֵין כְּתִיב כָּאן אֶלָּא ״כִּי כָשַׁלְתָּ בַּעֲוֹנֶךָ״. ״קְחוּ עִמָּכֶם דְּבָרִים״, ״קְחוּ עִמָּכֶם כֶּסֶף וְזָהָב״ אֵין כְּתִיב כָּאן אֶלָּא ״קְחוּ עִמָּכֶם דְּבָרִים״. וְאֵין כְּתִיב כָּאן ״וּנְשַׁלְּמָה כֶּסֶף וְזָהָב״ אֶלָּא ״וּנְשַׁלְּמָה פָרִים שְׂפָתֵינוּ״.
Nota — “tomai convosco palavras”. O profeta não diz “tomai prata e ouro”, mas “tomai convosco palavras” (Hoshea 14:3). A teshuvá não se compra: não há resgate material para a alma (cf. o ensaio sobre os “milagreiros”). O que D’us pede é o coração — o reconhecimento sincero, a palavra verdadeira da confissão e o compromisso de mudar (“ofereceremos a oferta dos nossos lábios”). Por isso a bênção se sela: “Bendito és Tu, ó Eterno, que deseja a teshuvá” — D’us não busca a punição, mas o retorno.
11
Rabi Yehudá diz: se Israel não fizer teshuvá, não será redimido. E Israel só faz teshuvá em meio à aflição, à opressão, ao desterro e à falta de sustento. E no fim Israel fará teshuvá também quando vier Eliyahu, o profeta, como está dito: “eis que Eu vos envio Eliyahu, o profeta, antes que venha o dia do Eterno, grande e temível; e ele fará voltar o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos aos pais” (Malachi 3:23-24).
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: אִם אֵין יִשְׂרָאֵל עוֹשִׂין תְּשׁוּבָה אֵין נִגְאָלִין. וְאֵין יִשְׂרָאֵל עוֹשִׂין תְּשׁוּבָה אֶלָּא מִתּוֹךְ צַעַר וּמִתּוֹךְ הַדְּחָק וּמִתּוֹךְ הַטִּלְטוּל וּמִתּוֹךְ שֶׁהוּא אֵין לָהֶם מִחְיָה. וְאֵין יִשְׂרָאֵל עוֹשִׂין תְּשׁוּבָה עַד שֶׁיָּבֹא אֵלִיָּהוּ הַנָּבִיא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִנֵּה אָנֹכִי שֹׁלֵחַ לָכֶם אֵת אֵלִיָּה הַנָּבִיא לִפְנֵי בּוֹא יוֹם ה' הַגָּדוֹל וְהַנּוֹרָא וְהֵשִׁיב לֵב אָבוֹת עַל בָּנִים וְלֵב בָּנִים עַל אֲבוֹתָם״.
12
Bendito és Tu, ó Eterno, que deseja a teshuvá o arrependimento.
בָּרוּךְ אַתָּה ה', הָרוֹצֶה בִּתְשׁוּבָה.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A porta sempre aberta

“Se a teshuvá não tivesse sido criada, o mundo não poderia subsistir.” O capítulo faz da possibilidade do retorno uma das fundações da realidade — sem ela, o erro seria uma prisão sem saída. Para a tradição racionalista, a teshuvá é a maior expressão da liberdade humana: não estamos condenados ao que fomos. E o desfile de penitentes — Achav, David, Menashé, o salteador que virou sábio — prega uma só verdade: ninguém está além do retorno.

Do fundo, o retorno

Menashé, o pior dos reis, é recebido quando clama das profundezas; Reish Lakish, o salteador, torna-se um dos grandes sábios. A tradição escolhe deliberadamente os casos extremos para dizer que a teshuvá alcança a todos. “Há um juízo e há um Juiz”: o mundo tem justiça e misericórdia — e a porta abre-se a quem bate com o coração inteiro.

O tempo da teshuvá é a vida

A parábola do viajante que precisa levar provisões ensina a urgência: a teshuvá pertence à vida, “até o dia da morte”. Não é ameaça, mas dignidade — o tempo de mudar é enquanto somos livres para agir. E o exemplo de Nínive acrescenta uma advertência: o arrependimento que não permanece não basta; a teshuvá verdadeira muda a vida, não só o momento.

O coração, não o ouro

“Tomai convosco palavras”, não prata e ouro: a teshuvá não se compra. D’us pede o reconhecimento sincero e o compromisso de mudar — “a oferta dos nossos lábios”. E o capítulo, que percorreu reis, salteadores e cidades inteiras, conclui na nota mais consoladora da fé: D’us deseja a teshuvá. Ele não busca a queda de ninguém, mas o seu regresso.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 44

Amalek: o ataque aos fracos e a guerra contra o mal

פֶּרֶק מ״ד

Depois dos milagres, Israel duvida — “estará o Eterno em nosso meio?” — e Amalek ataca, ferindo pela retaguarda os cansados e os fracos. O capítulo narra a batalha em Refidim, as mãos erguidas de Moshé e a ordem de “apagar Amalek” — que a tradição lê, acima de tudo, como a guerra eterna contra a crueldade gratuita e contra o mal.

1
Rabi Yochanan ben Nuri diz: depois de todas as obras poderosas e maravilhas que o Santo, bendito seja, fez por Israel no Egito e no Mar dos Juncos, os de Israel tornaram a provar o Santo, bendito seja, dez vezes, como está dito: “e provaram-Me já dez vezes” (Bemidbar 14:22). E ainda murmuraram contra o Santo, bendito seja, e disseram: “deixou-nos neste deserto, e a Sua Presença não está em nosso meio”, como está dito: “está o Eterno em nosso meio, ou não?” (Shemot 17:7).
רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי אוֹמֵר: [אַחַר] כָּל הַגְּבוּרוֹת וְהַנִּפְלָאוֹת שֶׁעָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְיִשְׂרָאֵל בְּמִצְרַיִם וּבְיַם סוּף, חָזְרוּ וְנִסּוּ אֶת הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עֶשֶׂר פְּעָמִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְנַסּוּ אֹתִי זֶה עֶשֶׂר פְּעָמִים״. וְעוֹד הִלְשִׁינוּ עַל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאָמְרוּ: ״עָזַב אוֹתָנוּ בַּמִּדְבָּר הַזֶּה וְאֵין שְׁכִינָתוֹ בְּקִרְבֵּנוּ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הֲיֵשׁ ה' בְּקִרְבֵּנוּ״.
2
Rabi Yishmael diz: depois desta passagem, que está escrito? “E veio Amalek e guerreou com Israel em Refidim” (Shemot 17:8). Veio Amalek sobre eles para guerreá-los e para se vingar deles. Ora, ao que vem cansado do caminho recebe-se com comida e bebida; mas ele viu-os exaustos e fatigados da servidão do Egito e da aflição do caminho, e não pôs no coração a virtude de honrar e acolher — mas pôs-se no caminho como um urso desfilhado, como um homem cruel, para matar a mãe sobre os filhos, como está dito: “que te saiu ao encontro no caminho e feriu na tua retaguarda todos os fracos que vinham atrás de ti” (Devarim 25:18).
רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: אַחַר הַפָּרָשָׁה הַזֹּאת מַה כְּתִיב? ״וַיָּבֹא עֲמָלֵק וַיִּלָּחֶם עִם יִשְׂרָאֵל בִּרְפִידִים״. בָּא עֲלֵיהֶם עֲמָלֵק לְהִלָּחֵם בָּהֶם וּלְהִפָּרַע מֵהֶם. וְהַבָּא מִן הַדֶּרֶךְ מַקְדִּימִין אוֹתוֹ בְּמַאֲכָל וּבְמִשְׁתֶּה, וְהוּא רָאָה אוֹתָם עֲיֵפִים וִיגֵעִים מִשִּׁעְבּוּד מִצְרַיִם וּמֵעִנּוּי הַדֶּרֶךְ, וְלֹא שָׂם עַל לִבּוֹ עַל מִצְוַת ״כַּבֵּד״, אֶלָּא שֶׁעָמַד עַל הַדֶּרֶךְ כְּדֹב שַׁכּוּל כְּאִישׁ לְהָמִית אֵם עַל בָּנִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֲשֶׁר קָרְךָ בַּדֶּרֶךְ וַיְזַנֵּב בְּךָ כָּל הַנֶּחֱשָׁלִים אַחֲרֶיךָ״.
3
Rabi Zecharyá diz: Amalek era um neto descendente de Esav, e veio sobre eles, no ódio do seu avô, para se vingar. E a coluna da nuvem rodeava o acampamento de Israel como uma cidade cercada de muralha, e nenhum adversário nem inimigo conseguia atingi-los. Mas todo aquele que estava necessitado de purificação a nuvem expelia para fora do acampamento de Israel, que era santo; e Amalek feria pela retaguarda e matava os que ficavam atrás da nuvem, como está dito: “e feriu na tua retaguarda todos os fracos que vinham atrás de ti” (Devarim 25:18).
רַבִּי זְכַרְיָה אוֹמֵר: נֶכֶד עֵשָׂו הָיָה עֲמָלֵק, וּבְאֵיבַת זְקֵנוֹ בָּא עֲלֵיהֶם לְהִפָּרַע מֵהֶם. וְהָיָה עַמּוּד הֶעָנָן סוֹבֵב אֶל מַחֲנֵה יִשְׂרָאֵל כְּעִיר מֻקֶּפֶת חוֹמָה, וְלֹא הָיָה צַר וְאוֹיֵב יָכוֹל לְהַגִּיעַ בָּהֶם. אֶלָּא כָּל מִי שֶׁהָיָה צָרִיךְ טְבִילָה הָיָה הֶעָנָן מְפַלֵּט אוֹתוֹ חוּץ מִמַּחֲנֵה יִשְׂרָאֵל שֶׁהָיָה קָדוֹשׁ, וַעֲמָלֵק מְזַנֵּב וְהוֹרֵג אֶת מַה שֶּׁאַחֲרֵי הֶעָנָן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְזַנֵּב בְּךָ כָּל הַנֶּחֱשָׁלִים אַחֲרֶיךָ״.
Nota — quem é Amalek. A Torá define o crime de Amalek com precisão: atacou Israel “na retaguarda”, ferindo “os fracos” e exaustos, “e não temeu a D’us” (Devarim 25:18). Amalek é, na leitura da tradição, o paradigma da crueldade gratuita e covarde — a violência contra os indefesos, sem provocação e sem temor moral. Não é o inimigo que enfrenta de frente, mas o que se vinga dos cansados e dos últimos da fila. É esta a essência de “Amalek”: o mal que escolhe o fraco, e a frieza de quem não reconhece nenhum limite diante de D’us.
4
Disse Moshé a Yehoshua: “escolhe para nós homens — homens dignos, filhos de bons pais, homens valentes e tementes ao Céu — e sai a guerrear contra Amalek”. E Moshé, Aharon e Chur puseram-se num lugar elevado, no meio do acampamento de Israel, um à direita e outro à esquerda de Moshé. Daqui aprendes que o oficiante da congregação (shaliach tzibur) não convém que ore no posto se não houver ali dois de pé a seu lado, um à sua direita e outro à sua esquerda.
אָמַר מֹשֶׁה לִיהוֹשֻׁעַ: ״בְּחַר לָנוּ אֲנָשִׁים, אֲנָשִׁים בְּנֵי אָבוֹת, אֲנָשִׁים גִּבּוֹרֵי חַיִל יִרְאֵי שָׁמַיִם, וְצֵא הִלָּחֵם בַּעֲמָלֵק״. וּמֹשֶׁה, אַהֲרֹן וְחוּר עָמְדוּ בְּמָקוֹם גָּבוֹהַּ בְּתוֹךְ מַחֲנֵה יִשְׂרָאֵל, אֶחָד מִימִינוֹ וְאֶחָד מִשְּׂמֹאלוֹ. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁשְּׁלִיחַ צִבּוּר אָסוּר לְהִתְפַּלֵּל אִם אֵין שָׁם שְׁנַיִם עוֹמְדִים, אֶחָד מִימִינוֹ וְאֶחָד מִשְּׂמֹאלוֹ.
5
E todo o Israel saiu para fora das suas tendas e viam Moshé ajoelhar-se e prostrar-se sobre os joelhos — e eles se ajoelhavam sobre os seus joelhos; viam-no cair sobre o rosto em terra — e eles caíam sobre os seus rostos em terra; estender as mãos aos céus — e eles estendiam as suas mãos aos céus. Daqui aprendes que, conforme o oficiante da congregação ora, assim todo o povo responde após ele.
וְכָל יִשְׂרָאֵל יָצְאוּ חוּץ לְאָהֳלֵיהֶם וְרָאוּ אֶת מֹשֶׁה כּוֹרֵעַ וּמִשְׁתַּחֲוֶה עַל בִּרְכָּיו וְהֵם כּוֹרְעִים עַל בִּרְכֵּיהֶם, נוֹפֵל עַל פָּנָיו אַרְצָה וְהֵם נוֹפְלִים עַל פְּנֵיהֶם אַרְצָה, פּוֹרֵשׂ אֶת כַּפָּיו לַשָּׁמַיִם וְהֵם פּוֹרְשִׂים אֶת יְדֵיהֶם לַשָּׁמַיִם. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁשְּׁלִיחַ צִבּוּר הַמִּתְפַּלֵּל כָּךְ כָּל הָעָם עוֹנִים אַחֲרָיו.
Nota — as mãos de Moshé e a oração da comunidade. Enquanto Yehoshua luta, Moshé ergue as mãos no alto, amparado por Aharon e Chur — e Israel reza com ele. A tradição (Rosh Hashaná 29a) ensina que não eram as mãos de Moshé que venciam a guerra, mas o que elas dirigiam: o coração de Israel voltado para o alto. Daqui derivam costumes da oração comunitária — o shaliach tzibur ladeado por dois, e o povo que responde após ele. A força de Israel, mesmo na batalha, está na voz e na fé, e na comunidade que ora unida (cf. cap. 32, “a voz é a voz de Yaakov”).
6
E lançou o Santo, bendito seja, Amalek e o seu povo ao fio da espada, como está dito: “e enfraqueceu Yehoshua a Amalek e ao seu povo ao fio da espada” (Shemot 17:13).
וְהִפִּיל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת עֲמָלֵק וְאֶת עַמּוֹ לְפִי חֶרֶב, שֶׁנֶּאֱמַר (שמות יז, יג): ״וַיַּחֲלֹשׁ יְהוֹשֻׁעַ אֶת עֲמָלֵק וְאֶת עַמּוֹ לְפִי חָרֶב״.
7
Rabi Shilá diz: quis o Santo, bendito seja, exterminar e extirpar toda a semente de Amalek deste mundo e do mundo vindouro, como está dito: “porque a mão se levanta sobre o trono do Eterno: guerra do Eterno contra Amalek de geração em geração” (Shemot 17:16).
רַבִּי שִׁילָא אוֹמֵר: רָצָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְהַשְׁמִיד וּלְהַכְרִית אֶת כָּל זֶרַע שֶׁל עֲמָלֵק מִן הָעוֹלָם הַזֶּה וּמִן הָעוֹלָם הַבָּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי יָד עַל כֵּס יָהּ מִלְחָמָה לַה' בַּעֲמָלֵק מִדֹּר דֹּר״.
8
Rabi Pinchas diz: depois de quarenta anos, quis Moshé fazer lembrar a Israel a sua falta, e pensou em dizer-lhes: lembrais-vos de que dissestes, neste deserto, “está o Eterno em nosso meio, ou não?”? Mas disse Moshé consigo: se eu lhes disser assim abertamente, eis que os envergonho em público; e quem envergonha o seu próximo publicamente não tem parte no mundo vindouro. Antes, dir-lhes-ei apenas o feito de Amalek, e eles entenderão o que está escrito antes a sua própria falta.
רַבִּי פִּנְחָס אוֹמֵר: אַחַר אַרְבָּעִים שָׁנָה רָצָה מֹשֶׁה לְהַזְכִּיר לְיִשְׂרָאֵל וְאוֹמֵר לָהֶם: זְכוּרִים אַתֶּם שֶׁאֲמַרְתֶּם בַּמִּדְבָּר הַזֶּה ״הֲיֵשׁ ה' בְּקִרְבֵּנוּ אִם אָיִן״? אֶלָּא אָמַר מֹשֶׁה: אִם אֲנִי אוֹמֵר לָהֶם כָּךְ, הֲרֵי אֲנִי מְגַלֶּה אֶת פְּנֵיהֶם, וְהַמְּגַלֶּה פָנִים לַחֲבֵרוֹ אֵין לוֹ חֵלֶק לָעוֹלָם הַבָּא. אֶלָּא אֲנִי אוֹמֵר לָהֶם כָּךְ מַעֲשֵׂה עֲמָלֵק וְהֵם מְבִינִים מַה שֶּׁכָּתוּב לְפָנָיו.
9
A que se assemelha a coisa? A um rei que tinha um pomar, e um cão amarrado à entrada do pomar, e o rei sentado nos seus aposentos altos, observando e vendo tudo o que há no pomar. Entrou o amigo do rei para furtar do pomar, e o rei açulou contra ele o cão, que lhe rasgou as vestes. Disse o rei: “se eu disser ao meu amigo ‘por que entraste no pomar?’, eis que o envergonho. Antes, dir-lhe-ei: ‘viste aquele cão louco, como rasgou as tuas vestes, e não percebeu que tu és meu amigo?’”. Assim disse Moshé: dir-lhes-ei apenas o feito de Amalek, e logo entenderão o que está escrito acima. Por isso lhes disse Moshé: “lembra-te do que te fez Amalek” (Devarim 25:17).
מָשָׁל לְמָה הַדָּבָר דּוֹמֶה? לְמֶלֶךְ שֶׁהָיָה לוֹ פַּרְדֵּס אֶחָד וְכֶלֶב קָשׁוּר בְּפֶתַח הַפַּרְדֵּס וְהַמֶּלֶךְ יוֹשֵׁב בַּעֲלִיּוֹתָיו צוֹפֶה וּמַבִּיט כָּל מַה שֶּׁבַּפַּרְדֵּס. נִכְנַס אוֹהֲבוֹ שֶׁל מֶלֶךְ לִגְנֹב מִן הַפַּרְדֵּס וְשִׁסָּה בּוֹ אֶת הַכֶּלֶב וְקָרַע אֶת בְּגָדָיו. אָמַר הַמֶּלֶךְ: אִם אֲנִי אוֹמֵר לְאוֹהֲבִי ״לָמָּה נִכְנַסְתָּ לְתוֹךְ הַפַּרְדֵּס?״ הֲרֵי אֲנִי מְגַלֶּה אֶת פָּנָיו. אֶלָּא הֲרֵינִי אוֹמֵר לוֹ: ״הֲרָאִיתָ אוֹתוֹ כֶּלֶב שׁוֹטֶה אֵיךְ קָרַע אֶת בְּגָדֶיךָ וְלֹא הָיָה מֵבִין שֶׁאַתָּה אוֹהֲבִי?״ כָּךְ אָמַר מֹשֶׁה: הֲרֵי אֲנִי אוֹמֵר לָהֶם לְיִשְׂרָאֵל מַעֲשֵׂה עֲמָלֵק וּמִיָּד הֵם מְבִינִים מַה שֶּׁכָּתוּב לְעֵיל. לְפִיכָךְ אָמַר לָהֶם מֹשֶׁה: ״זָכוֹר אֵת אֲשֶׁר עָשָׂה לְךָ עֲמָלֵק״.
Nota — não envergonhar, mesmo ao repreender. Moshé quer lembrar a Israel a sua falta, mas recusa-se a expô-los publicamente — “quem envergonha o próximo em público não tem parte no mundo vindouro” (Bava Metzia 59a). Por isso fala do “feito de Amalek”, e deixa que eles próprios entendam. A parábola do rei e do amigo é uma lição de delicadeza: até a repreensão merecida deve preservar a dignidade de quem a recebe. A verdade pode ser dita sem humilhar.
10
Disseram-lhe os de Israel: “Moshé, nosso mestre, um versículo diz ‘lembra-te do que te fez Amalek’, e outro versículo diz ‘lembra-te do dia do Shabat para o santificar’ (Shemot 20:8) — como se conciliam ambos?”. Disse-lhes: não se assemelha o cálice de vinho aromático ao cálice de vinagre. Este é um cálice e aquele é outro cálice: este, “lembra-te” para guardar e santificar o dia do Shabat; aquele, “lembra-te” para extirpar a semente de Amalek o mal, como está dito: “e será que, quando o Eterno te der descanso..., não te esquecerás” (Devarim 25:19). E Israel esqueceu-se da tarefa de erradicar o mal de Amalek, mas o Santo, bendito seja, não se esqueceu; e, quando reinou Shaul, disse-lhe Shmuel: “assim diz o Eterno dos exércitos: visitei recordei o que Amalek fez a Israel ...; e poreis sob anátema tudo o que é dele ... e não te compadeças dele” (Shmuel I 15:2-3). E tomou Shaul os homens de guerra e saiu ao encontro de Amalek; e, ao chegar ao meio do caminho, deteve-se e refletiu no seu coração ...: “se os homens pecaram, que pecaram as mulheres? E as crianças, que pecaram? E, se as crianças não pecaram, que pecou o gado?”. Saiu uma voz dos céus (bat kol) e lhe disse: “Shaul, não sejas justo em demasia, mais do que o teu Criador” (cf. Kohelet 7:16).
אָמְרוּ לוֹ יִשְׂרָאֵל: מֹשֶׁה רַבֵּנוּ, כָּתוּב אֶחָד אוֹמֵר ״זָכוֹר אֵת אֲשֶׁר עָשָׂה לְךָ עֲמָלֵק״, וְכָתוּב אַחֵר אוֹמֵר ״זָכוֹר אֶת יוֹם הַשַּׁבָּת לְקַדְּשׁוֹ״, הֵיאַךְ יִתְקַיְּמוּ שְׁנֵיהֶם? אָמַר לָהֶם: לֹא דּוֹמֶה כּוֹס שֶׁל קוֹנְדִיטוֹן לְכוֹס שֶׁל חֹמֶץ. זֶה כּוֹס וְזֶה כּוֹס. זֶה זָכוֹר לִשְׁמֹר וּלְקַדֵּשׁ אֶת יוֹם הַשַּׁבָּת, וְזֶה זָכוֹר לְהַשְׁמִיד וּלְהַכְרִית אֶת כָּל זַרְעוֹ שֶׁל עֲמָלֵק, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְהָיָה בְּהָנִיחַ ה' וְכוּ' לֹא תִּשְׁכָּח״. שָׁכְחוּ יִשְׂרָאֵל לְהַשְׁמִיד וּלְהַכְרִית אֶת כָּל זַרְעוֹ שֶׁל עֲמָלֵק וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לֹא שָׁכַח, וּכְשֶׁמָּלַךְ שָׁאוּל אָמַר לוֹ שְׁמוּאֵל (שמואל א טו, ב): ״כֹּה אָמַר ה' צְבָאוֹת פָּקַדְתִּי אֵת אֲשֶׁר עָשָׂה עֲמָלֵק לְיִשְׂרָאֵל וְכוּ' וְהַחֲרַמְתֶּם אֶת כָּל אֲשֶׁר לוֹ״. מַה הוּא ״אֶת כָּל אֲשֶׁר לוֹ״? עַד מַשְׁתִּין בְּקִיר, ״וְלֹא תַחְמֹל עָלָיו וְהֵמַתָּה״. וְלָקַח שָׁאוּל אֶת אַנְשֵׁי הַמִּלְחָמָה וַיֵּצֵא לִקְרַאת עֲמָלֵק, וּכְשֶׁבָּא שָׁאוּל לְאֶמְצַע הַדֶּרֶךְ עָמַד וְהִרְהֵר בְּלִבּוֹ שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיָּבֹא שָׁאוּל עַד עִיר עֲמָלֵק״. אָמַר שָׁאוּל: אִם הָאֲנָשִׁים חָטְאוּ הַנָּשִׁים מֶה חָטְאוּ? וְהַיְלָדִים מֶה חָטְאוּ? וְאִם הַיְלָדִים חָטְאוּ הַבְּהֵמָה מֶה חָטְאָה? יָצְתָה בַּת קוֹל וְאָמְרָה לוֹ: שָׁאוּל, אַל תְּהִי צַדִּיק הַרְבֵּה יוֹתֵר מִקּוֹנְךָ, שֶׁנֶּאֱמַר ״אַל תְּהִי צַדִּיק הַרְבֵּה״.
Nota essencial — “apagar Amalek”: como ler o mandamento mais difícil. A ordem de extirpar Amalek (Devarim 25:19; Shmuel I 15) está entre as passagens mais duras da Torá, e a tradição a lê com a maior seriedade moral — não como licença para violência. Três chaves são decisivas. Primeira: o Amalek histórico já não existe e não é identificável — “Sancheriv o assírio misturou as nações” (Berachot 28a; e este próprio capítulo, §11, diz que Amalek se confundiu com outros povos); o Rambam ensina que aquelas nações antigas se perderam e não podem ser apontadas. Portanto, nenhum povo ou pessoa de hoje é “Amalek” — quem o aplicasse a um grupo vivo distorceria a Torá. Segunda: o que permanece é a “guerra de geração em geração” contra aquilo que Amalek encarna — a crueldade gratuita, o ódio sem causa, a violência contra os fracos —, inclusive o “Amalek” interior, a frieza dentro de nós. Terceira: a própria Torá registra a tensão moral: Shaul pergunta “que pecaram as crianças?”, e o texto guarda a sua compaixão. Lemos esta página com a gravidade que ela exige, e a sua aplicação viva é construir um mundo em que a crueldade de Amalek não tenha lugar. (Por isso o contraste com o Shabat: um “lembrar” santifica a vida; o outro convoca a erradicar o mal.)
11
Rabi diz: quando Shaul chegou ao acampamento de Amalek, viu os filhos de Yitro os quenitas misturados entre os de Amalek. Disse-lhes: “separai-vos do meio de Amalek”, como está dito: “e disse Shaul aos quenitas: ide, retirai-vos, descei do meio de Amalek ... pois fizeste bondade (chéssed) com todos os filhos de Israel quando subiram do Egito” (Shmuel I 15:6). E acaso com todos os filhos de Israel fez Yitro bondade? Não a fez senão a Moshé apenas! Mas daqui aprendes que todo aquele que faz bondade a um dos grandes de Israel é como se a fizesse a todos os filhos de Israel. E, pelo mérito da bondade que Yitro fizera, escaparam os seus filhos do meio de Amalek.
רַבִּי אוֹמֵר: כְּשֶׁבָּא שָׁאוּל לְמַחֲנֵה עֲמָלֵק, רָאָה בְּנֵי יִתְרוֹ מִתְעָרְבִים בְּתוֹךְ בְּנֵי עֲמָלֵק. אָמַר לָהֶם: ״הִתְפָּרְדוּ מִתּוֹךְ עֲמָלֵק״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר שָׁאוּל אֶל הַקֵּינִי לְכוּ סֻרוּ רְדוּ מִתּוֹךְ עֲמָלֵקִי״. וְאַתָּה עָשִׂיתָ חֶסֶד עִם כָּל בְּנֵי יִשְׂרָאֵל. וְכִי עִם כָּל בְּנֵי יִשְׂרָאֵל עָשָׂה חֶסֶד יִתְרוֹ? וַהֲלֹא לֹא עָשָׂה אֶלָּא לְמֹשֶׁה בִּלְבַד! אֶלָּא מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁכָּל הָעוֹשֶׂה חֶסֶד עִם אֶחָד מִגְּדוֹלֵי יִשְׂרָאֵל כְּאִלּוּ עוֹשֶׂה חֶסֶד עִם כָּל בְּנֵי יִשְׂרָאֵל. וּבִשְׁבִיל הַחֶסֶד שֶׁעָשָׂה נִתְמַלְּטוּ בָנָיו מִתּוֹךְ בְּנֵי עֲמָלֵק.
12
Rabi Yossi diz: quando veio Sancheriv o assírio à terra, viram todos os povos ao redor da terra de Israel o acampamento de Sancheriv e temeram muitíssimo, e cada um fugiu do seu lugar, como está dito: “e removi os limites dos povos” (Yeshayá 10:13). E Amalek entrou no deserto e misturou-se com os filhos de Yishmael; e todos eram dez povos, como está dito: “as tendas de Edom e os yishmaelim, Moav e os hagrim; Geval, Amon e Amalek, a Filístia com os habitantes de Tzor; também Assur se uniu a eles” etc. (Tehilim 83:7-9). E todos esses poderes hostis estão destinados a cair, como diante do filho de David, como fogo em chamas, como está dito: “meu D’us, faze-os como um turbilhão de pó, como restolho diante do vento; como o fogo que queima a floresta ..., assim os persegue com a Tua tempestade” (Tehilim 83:14-16).
רַבִּי יוֹסִי אוֹמֵר: כְּשֶׁבָּא סַנְחֵרִיב לָאָרֶץ, רָאוּ כָּל הָעַמִּים שֶׁסְּבִיבוֹת אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל מַחֲנֵה סַנְחֵרִיב וְנִתְיָרְאוּ הַרְבֵּה מְאֹד, וּבָרְחוּ אִישׁ מִמְּקוֹמוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאָסִיר גְּבוּלֹת עַמִּים״ וְכוּ'. וַעֲמָלֵק נִכְנַס לַמִּדְבָּר וְנִתְעָרְבוּ עִם בְּנֵי יִשְׁמָעֵאל, וְכֻלָּם הָיוּ עֲשָׂרָה עַמִּים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אָהֳלֵי אֱדוֹם וְיִשְׁמְעֵאלִים מוֹאָב וְהַגְרִים. גְּבָל וְעַמּוֹן וַעֲמָלֵק, פְּלֶשֶׁת עִם יֹשְׁבֵי צוֹר. גַּם אַשּׁוּר נִלְוָה עִמָּם, הָיוּ זְרוֹעַ לִבְנֵי לוֹט סֶלָה״. וְכֻלָּם עֲתִידִים לִנְפֹּל בְּיַד בֶּן דָּוִד כְּאֵשׁ לֶהָבָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֱלֹהַי שִׁיתֵמוֹ כַגַּלְגַּל, כְּקַשׁ לִפְנֵי רוּחַ. כְּאֵשׁ תִּבְעַר יַעַר, וּכְלֶהָבָה תְּלַהֵט הָרִים. כֵּן תִּרְדְּפֵם בְּסַעֲרֶךָ״ וְכוּ'.
Nota — os povos hostis e a esperança final. Os “dez povos” do Salmo 83, e a sua queda “diante do filho de David”, são, na tradição, imagem da derrota do mal organizado contra Israel — termos histórico-simbólicos (“Edom”, “Yishmael” e os demais) dos poderes hostis de cada época, e não juízo sobre povos vivos de hoje (cf. as notas dos caps. 28, 30 e 34). O horizonte último não é a destruição de nações, mas o triunfo do bem e a paz entre os povos: “e forjarão das suas espadas arados ... e não aprenderão mais a guerra” (Yeshayá 2:4).

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

O crime de Amalek

A Torá não condena Amalek por ser inimigo, mas pelo modo como atacou: feriu “a retaguarda”, os exaustos e os fracos, “sem temer a D’us”. Amalek é o nome da crueldade covarde — a que escolhe o indefeso e não reconhece limite moral algum. Por isso a tradição faz dele o símbolo do mal gratuito, contra o qual a Torá declara uma guerra que atravessa as gerações.

As mãos erguidas e a comunidade que ora

A vitória não vem só da espada de Yehoshua, mas das mãos de Moshé voltadas para o alto, amparadas por Aharon e Chur, e do povo que reza com ele. Os sábios extraem daqui os costumes da oração comunitária e uma lição maior: a força de Israel está na fé e na união. E Moshé, ao repreender Israel pela sua dúvida, recusa-se a envergonhá-los — pois nem a verdade justifica humilhar o próximo.

“Apagar Amalek”: a leitura responsável

O mandamento de extirpar Amalek é dos mais difíceis, e a tradição o lê com seriedade moral, não como licença para violência. O Amalek histórico desapareceu — “as nações se misturaram” (Berachot 28a; §11) —, e nenhum povo de hoje é Amalek. O que permanece é a guerra contra o que ele encarna: a crueldade e o ódio sem causa, inclusive dentro de nós. E a própria Torá guarda a compaixão de Shaul (“que pecaram as crianças?”), recordando-nos a gravidade de cada vida.

A bondade que salva, e a esperança

No meio da dureza, brilha o chéssed: os descendentes de Yitro escapam por causa da bondade que ele fizera — “quem faz bem a um grande de Israel é como se o fizesse a todo Israel”. E o capítulo fecha olhando ao porvir: a queda do mal organizado e a esperança da redenção. O alvo último não é a ruína de povos, mas o triunfo do bem e a paz das nações.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 45

O bezerro de ouro

פֶּרֶק מ״ה

Apenas quarenta dias depois do Sinai, Israel faz um bezerro de ouro — o anseio por um deus visível. O capítulo narra o medo de Aharon após o assassínio de Chur, as mulheres que recusaram dar as suas joias, as tábuas quebradas e a intercessão desesperada de Moshé, que faz recuar os anjos da destruição.

1
Rabi Shimon ben Yochai diz: quando o Santo, bendito seja, se revelou a Moshé dentre a sarça, para enviá-lo ao Egito, disse Moshé diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, jura-me que tudo o que eu pedir que faças, Tu o farás — para que, se eu falar algo diante de Faraó e Tu não o cumprires, ele não me mate”. E o Santo, bendito seja, jurou-lhe que tudo o que ele pedisse Ele faria, exceto duas coisas: entrar na terra de Israel e o dia da morte. ... E, quando Israel recebeu a Torá — isto é, os Dez Mandamentos —, depois de quarenta dias esqueceram-se do seu D’us e disseram a Aharon: “os egípcios traziam o seu deus diante de si, cantando e entoando diante dele, e o viam à sua frente. Levanta-te, faze-nos um deus que vá adiante de nós”, como está dito: “levanta-te, faze-nos um deus que vá adiante de nós” (Shemot 32:1).
רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַאי אוֹמֵר: כְּשֶׁנִּגְלָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל מֹשֶׁה מִתּוֹךְ הַסְּנֶה לְשָׁלְחוֹ אֶל מִצְרַיִם, אָמַר מֹשֶׁה לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, הִשָּׁבַע לִי כָּל מַה שֶּׁאֲנִי מְבַקֵּשׁ לַעֲשׂוֹת אַתָּה עוֹשֶׂה לִי, שֶׁאִם אֲדַבֵּר דָּבָר לִפְנֵי פַּרְעֹה וְלֹא תַּעֲשֶׂה אוֹתָם וְיַהַרְגֵנִי״. וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא נִשְׁבַּע לוֹ שֶׁכָּל מַה שֶּׁהוּא מְבַקֵּשׁ הוּא עוֹשֶׂה, חוּץ מִשְּׁנֵי דְבָרִים: מִלְּהִכָּנֵס לְאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל וּמִיּוֹם הַמָּוֶת. וּמִנַּיִן שֶׁנִּשְׁבַּע לוֹ? שֶׁנֶּאֱמַר: ״בִּי נִשְׁבַּעְתִּי יָצָא מִפִּי דְּבַר צְדָקָה וְלֹא יָשׁוּב כִּי לִי תִּכְרַע כָּל בֶּרֶךְ תִּשָּׁבַע כָּל לָשׁוֹן״. וּכְשֶׁקִּבְּלוּ יִשְׂרָאֵל אֶת הַתּוֹרָה, רְצוֹנִי לוֹמַר עֲשֶׂרֶת הַדִּבְּרוֹת, לְאַחַר אַרְבָּעִים יוֹם שָׁכְחוּ אֶת אֱלֹהֵיהֶם וְאָמְרוּ לְאַהֲרֹן: ״הַמִּצְרִיִּים הָיוּ נוֹשְׂאִין אֶת אֱלֹהֵיהֶם וּמְשׁוֹרְרִין וּמְזַמְּרִין לְפָנָיו וְרוֹאִין אוֹתוֹ לִפְנֵיהֶם. קוּם עֲשֵׂה לָנוּ אֱלֹהִים אֲשֶׁר יֵלְכוּ לְפָנֵינוּ כְּשִׁקּוּץ הַמִּצְרִיִּים וְנִרְאֶה אוֹתוֹ לְפָנֵינוּ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״קוּם עֲשֵׂה לָנוּ אֱלֹהִים אֲשֶׁר יֵלְכוּ לְפָנֵינוּ״.
Nota — o anseio por um deus visível. O pecado do bezerro vem apenas quarenta dias depois do Sinai — e a sua raiz, no próprio pedido, é reveladora: “faze-nos um deus que vá adiante de nós”, como os egípcios “viam o seu deus à frente”. O povo não nega D’us; quer um D’us que possa ver e tocar. Para a leitura racionalista (Rambam, Hilchot Avodá Zará 1), é assim que a idolatria começa: na incapacidade de sustentar a verdade de um D’us incorpóreo e invisível, e na busca de um intermediário concreto. A queda do bezerro é a dificuldade humana de permanecer fiel a uma verdade abstrata (cf. o ensaio “por que D’us não pode tornar-se homem”).
2
Foram ter com os que executavam a palavra de Moshé — Aharon e Chur, filho de sua irmã de Miriam. (E de onde sabemos que Chur era filho de sua irmã? ... e por ser Chur da tribo de Yehudá, dos grandes da geração, começou a repreender Israel com palavras duras.) E os perversos que havia em Israel levantaram-se contra ele e o mataram.
הָלְכוּ לָהֶם אֵצֶל עוֹשֵׂי דְבָרוֹ שֶׁל מֹשֶׁה, אַהֲרֹן וְחוּר בֶּן אֲחוֹתוֹ. וּמִנַּיִן שֶׁהָיָה חוּר בֶּן אֲחוֹתוֹ? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּקַּח לוֹ כָלֵב אֶת אֶפְרָת וַתֵּלֶד לוֹ אֶת חוּר״. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמָהּ שֶׁל מִרְיָם אֶפְרָת? אֶלָּא פָּלָטִנִי שֶׁל בַּת מְלָכִים, גְּדוֹלֵי הַדּוֹר, שֶׁכָּל נָשִׂיא וְגָדוֹל שֶׁעָמַד בְּיִשְׂרָאֵל נִקְרָא שְׁמוֹ אֶפְרָתִי. וְכֵן ״וְדָוִד בֶּן אִישׁ אֶפְרָתִי״, וְכִי אֶפְרָתִי הָיָה? וַהֲלֹא מִשֵּׁבֶט יְהוּדָה הָיָה! אֶלָּא פָּלָטִנִי בֶּן מְלָכִים, גְּדוֹלֵי הַדּוֹר. וְ״יָרָבְעָם בֶּן נְבָט אִישׁ אֶפְרָתִי״. וּלְפִי שֶׁהָיָה חוּר מִשֵּׁבֶט יְהוּדָה, מִגְּדוֹלֵי הַדּוֹר, הִתְחִיל מוֹכִיחַ אֶת יִשְׂרָאֵל בִּדְבָרִים קָשִׁים. כַּזָּבִים שֶׁבְּיִשְׂרָאֵל עָמְדוּ עָלָיו וַהֲרָגוּהוּ.
3
E viu Aharon que Chur fora morto, e por temor edificou um altar para eles ganhando tempo, como está dito: “e viu Aharon, e edificou um altar diante dele” (Shemot 32:5). Que viu? Viu que fora morto Chur, ... e por isso lhes edificou um altar.
וְרָאָה אַהֲרֹן לְחוּר שֶׁנֶּהֱרַג וּבָנָה מִזְבֵּחַ לָהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּרְא אַהֲרֹן וַיִּבֶן מִזְבֵּחַ לְפָנָיו״. מָה רָאָה? רָאָה שֶׁנֶּהֱרַג חוּר בֶּן אַהֲרֹן, וּבָנָה לָהֶם מִזְבֵּחַ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּבֶן מִזְבֵּחַ״.
4
Refletiu Aharon consigo mesmo, dizendo: “se eu disser a Israel ‘dai-me prata e ouro’, imediatamente o trarão. Antes, dir-lhes-ei ‘dai-me os brincos das vossas mulheres e dos vossos filhos e filhas’, e a coisa se anulará por si”. Ouviram as mulheres e não aceitaram dar os seus brincos aos seus maridos, mas disseram-lhes: “quereis fazer uma abominação e um horror que não tem poder de salvar?”. Não lhes deram ouvidos; e deu o Santo, bendito seja, a recompensa das mulheres neste mundo e no mundo vindouro. E que recompensa lhes deu? Que as mulheres guardam especialmente os Rosh Chodesh (as luas novas), como está dito: “Ele que sacia de bem a tua boca, e se renova como a águia a tua juventude” (Tehilim 103:5).
דָּן אַהֲרֹן דִּין בֵּינוֹ לְבֵין עַצְמוֹ, אָמַר: אִם אֲנִי אוֹמֵר לְיִשְׂרָאֵל ״תְּנוּ לִי כֶּסֶף וְזָהָב״, מִיָּד הֵם מְבִיאִים. אֶלָּא הֲרֵינִי אוֹמֵר לָהֶם ״תְּנוּ לִי נִזְמֵי נְשֵׁיכֶם וְנִזְמֵי בְּנֵיכֶם וּבְנוֹתֵיכֶם״, וְהָיָה הַדָּבָר בָּטֵל מִמֶּנּוּ. שָׁמְעוּ הַנָּשִׁים וְלֹא קִבְּלוּ עֲלֵיהֶם לִתֵּן נִזְמֵיהֶן לְבַעֲלֵיהֶן, אֶלָּא אָמְרוּ לָהֶם: ״אַתֶּם רוֹצִים לַעֲשׂוֹת שִׁקּוּץ וְתוֹעֵבָה שֶׁאֵין בּוֹ כֹּחַ לְהַצִּיל?״ לֹא שָׁמְעוּ לָהֶם, וְנָתַן הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שְׂכָרָן שֶׁל נָשִׁים בָּעוֹלָם הַזֶּה וּבָעוֹלָם הַבָּא. וּמַה שָּׂכָר נָתַן לָהֶם לָעוֹלָם הַבָּא? לָעוֹלָם הַזֶּה שֶׁהֵן מְשַׁמְּרוֹת רָאשֵׁי חֳדָשִׁים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הַמַּשְׂבִּיעַ בַּטּוֹב עֶדְיֵךְ תִּתְחַדֵּשׁ כַּנֶּשֶׁר נְעוּרָיְכִי״.
Nota — a fidelidade das mulheres. As mulheres recusam dar as suas joias para o ídolo — “quereis fazer uma abominação que não tem poder de salvar?” — e por isso são recompensadas (a tradição liga a elas o Rosh Chodesh). Como no Sinai, em que foram consultadas primeiro (cap. 41), as mulheres aparecem aqui como guardiãs da fé, firmes quando os homens vacilam. A tradição honra essa lealdade serena, que vê adiante.
5
Viram os homens que as mulheres não aceitaram dar os seus brincos aos maridos; e, até aquela hora, os brincos estavam nas suas próprias orelhas, à maneira dos egípcios e à maneira dos árabes; e arrancaram os brincos que tinham nas orelhas e os deram, como está dito: “e arrancou todo o povo os brincos de ouro que tinham nas suas orelhas” (Shemot 32:3) — não está escrito “nas orelhas das suas mulheres”, mas “nas suas orelhas”. E achou Aharon entre os brincos uma lâmina de ouro, na qual estava escrito o Nome sagrado e gravada a forma de um bezerro; e supostamente, lançou-a só a ela ao forno de fogo, como está dito: “e saiu este bezerro” (Shemot 32:24). E diz a tradição que “saiu este bezerro” mugindo, e o viram todos os de Israel e desviaram-se atrás dele.
רָאוּ הָאֲנָשִׁים שֶׁלֹּא קִבְּלוּ הַנָּשִׁים לִיתֵּן אֶת נִזְמֵיהֶן לְבַעֲלֵיהֶן, וְעַד אוֹתָהּ שָׁעָה הָיוּ הַנְּזָמִים בְּאָזְנֵיהֶם כְּמַעֲשֵׂה הַמִּצְרִיִּים וּכְמַעֲשֵׂה הָעֲרָבִים, וּפָרְקוּ אֶת נִזְמֵיהֶם שֶׁבְּאָזְנֵיהֶם וְנָתְנוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּתְפָּרְקוּ כָּל הָעָם אֶת נִזְמֵי הַזָּהָב אֲשֶׁר בְּאָזְנֵיהֶם״. ״בְּאָזְנֵי נְשֵׁיהֶם״ אֵין כְּתִיב כָּאן אֶלָּא ״בְּאָזְנֵיהֶם״. וּמָצָא אַהֲרֹן בֵּין הַנְּזָמִים צִיץ שֶׁל זָהָב אֶחָד כָּתוּב עָלָיו שֵׁם הַקֹּדֶשׁ וְחָרוּת עָלָיו כְּצוּרַת עֵגֶל, וְאוֹתוֹ לְבַד הִשְׁלִיךְ לַכּוּר שֶׁל אֵשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּצֵא הָעֵגֶל הַזֶּה״. ״וַיֵּצֵא הָעֵגֶל הַזֶּה״ גּוֹעֶה, וְרָאוּ אוֹתוֹ כָּל יִשְׂרָאֵל וְתָעוּ אַחֲרָיו.
6
Rabi Yehudá diz: a força de Samael a sedução entrou e mugia para desviar Israel, como está dito: “o boi conhece o seu dono, e o jumento a manjedoura do seu senhor mas Israel não conhece” (Yeshayá 1:3). E viram todos os de Israel o bezerro e desviaram-se atrás dele, e prostraram-se a ele e lhe sacrificaram.
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: סָמָאֵל נִכְנַס וְהָיָה גּוֹעֶה לְהַתְעוֹת אֶת יִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר ״יָדַע שׁוֹר קוֹנֵהוּ וַחֲמוֹר אֵבוּס בְּעָלָיו״. וְרָאוּ כָל יִשְׂרָאֵל אֶת הָעֵגֶל וְתָעוּ אַחֲרָיו וַיִּשְׁתַּחֲווּ לוֹ וַיִּזְבְּחוּ לוֹ.
Nota — o bezerro que “mugia” e a ilusão. A imagem do bezerro a mugir, animado por “Samael”, é linguagem da aggadá. Na leitura racionalista, o ídolo não tem poder algum — é metal moldado; o que “mugia” era a ilusão e a sedução (cf. os ensaios sobre a magia e os cristais). “Samael” nomeia a força do engano e do impulso, não um demônio literal. A idolatria é, no fundo, um autoengano: atribuir vida e poder ao que não os tem.
7
Disse o Santo, bendito seja, a Moshé: esqueceram-se os de Israel da força do Meu poder, que fiz com eles no Egito e no Mar dos Juncos, e fizeram para si idolatria. Disse o Santo, bendito seja, a Moshé: “desce da tua grandeza, pois cavaram para si uma cova”. Disse Moshé diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, antes de Israel pecar diante de Ti, Tu os chamavas ‘Meu povo’, como está dito ‘e farei sair os Meus exércitos, o Meu povo’ (Shemot 7:4); e agora que pecaram diante de Ti, dizes-me ‘desce, porque corrompeu-se o teu povo’ (Shemot 32:7)? São o Teu povo, e não só o meu, como está dito: ‘e eles são o Teu povo e a Tua herança’ (Devarim 9:29)”.
אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה: שָׁכְחוּ יִשְׂרָאֵל לְכֹחַ גְּבוּרָתִי שֶׁעָשִׂיתִי עִמָּהֶם בְּמִצְרַיִם וְעַל יָם סוּף וְעָשׂוּ לָהֶם עֲבוֹדָה זָרָה. אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה: לֵךְ רֵד מִנַּחֲלָתְךָ כִּי כָּרוּ לָהֶם שׁוּחָה. אָמַר מֹשֶׁה לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, עַד שֶׁלֹּא חָטְאוּ יִשְׂרָאֵל לְפָנֶיךָ הָיִיתָ קוֹרֵא אוֹתָם ״עַמִּי״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהוֹצֵאתִי אֶת צִבְאוֹתַי אֶת עַמִּי״, וְעַכְשָׁיו שֶׁחָטְאוּ לְפָנֶיךָ אַתָּה אוֹמֵר לִי ״לֵךְ רֵד כִּי שִׁחֵת עַמְּךָ״. עַמְּךָ הֵם וְלֹא עַמִּי, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהֵם עַמְּךָ וְנַחֲלָתֶךָ״.
8
E tomou dali do monte as tábuas, e descia; e as tábuas carregavam a si mesmas e carregavam o próprio Moshé com elas. Mas, quando Moshé viu o bezerro e as danças, as letras gravadas fugiram de sobre as tábuas; e elas se acharam pesadas sobre as mãos de Moshé, e ele não conseguia carregar a si mesmo nem às tábuas, e lançou-as da sua mão, e elas se partiram ao pé do monte, como está dito: “e acendeu-se a ira de Moshé ... e quebrou-as ao pé do monte” (Shemot 32:19).
וְלָקַח מִשָּׁם אֶת הַלּוּחוֹת, וְהָיָה יוֹרֵד, וְהָיוּ הַלּוּחוֹת סוֹבְלִין אֶת עַצְמָן וְאֶת מֹשֶׁה עַצְמוֹ עִמָּן. וּכְשֶׁרָאוּ הָעֵגֶל וְאֶת הַמְּחוֹלוֹת, בָּרְחוּ הַכְּתוּבִים מֵעַל הַלּוּחוֹת. נִמְצְאוּ כְּבֵדִים עַל יָדוֹ מֹשֶׁה, וְלֹא הָיָה מֹשֶׁה יָכוֹל לִסְבֹּל אֶת עַצְמוֹ וְלֹא אֶת הַלּוּחוֹת, וְהִשְׁלִיכָן מִיָּדוֹ, וְנִשְׁתַּבְּרוּ תַּחַת הָהָר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּחַר לְמֹשֶׁה״.
Nota — as tábuas quebradas. Quando as letras “fogem”, as tábuas tornam-se pesadas e caem. A tradição vê aqui mais que um acidente: o pacto escrito não podia subsistir sobre a idolatria — a santidade (“as letras”) retira-se, e resta a pedra. Notavelmente, o Talmud (Shabat 87a) diz que D’us aprovou a quebra das tábuas por Moshé (“parabéns por teres quebrado!”): houve um momento em que era preciso interromper, não selar uma aliança traída. E, ainda assim, as tábuas quebradas foram guardadas na arca ao lado das segundas — pois mesmo o que se parte conserva a sua dignidade, e o pacto foi renovado.
9
Disse Moshé a Aharon: “que te fez este povo, que o deixaste desenfreado?”. Disse-lhe: “vi o que fizeram a Chur e temi muitíssimo”.
אָמַר מֹשֶׁה לְאַהֲרֹן: מֶה עָשִׂיתָ לָעָם הַזֶּה וּפְרַעְתָּ אוֹתָם כְּאִשָּׁה פְּרוּעָה מִזְּנוּת? אָמַר לוֹ: רָאִיתִי מַה שֶּׁעָשׂוּ לְחוּר וְנִתְיָרֵאתִי הַרְבֵּה מְאֹד.
10
Rabi Yehudá haNassí diz: os príncipes (nessiim) não participaram da obra do bezerro, como está dito: “e Ele não estendeu a Sua mão sobre os nobres dos filhos de Israel” (Shemot 24:11). Por isso mereceram ver a face da Shechiná, como está dito: “e viram o D’us de Israel” (ibid.).
רַבִּי אוֹמֵר: לֹא נִשְׁתַּתְּפוּ הַנְּשִׂיאִים בְּמַעֲשֵׂה הָעֵגֶל, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְאֶל אֲצִילֵי בְּנֵי יִשְׂרָאֵל לֹא שָׁלַח יָדוֹ״. לְפִיכָךְ זָכוּ לִרְאוֹת פְּנֵי הַשְּׁכִינָה, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּרְאוּ אֵת אֱלֹהֵי יִשְׂרָאֵל״.
11
Rabi Yehudá diz: também a tribo de Levi não participou da obra do bezerro, como está dito: “e pôs-se Moshé à porta do acampamento e disse: quem é do Eterno, venha a mim! E ajuntaram-se a ele todos os filhos de Levi” (Shemot 32:26). Viu Moshé que a tribo de Levi não se associara ao pecado e fortaleceu-se, e tomou o bezerro e o queimou no fogo e o triturou como o pó da terra e o espalhou sobre a face das águas, e fez beber os filhos de Israel, como está dito: “e tomou o bezerro que fizeram, e o queimou no fogo, e o moeu até ficar fino como pó, e o espalhou sobre a face das águas, e o deu a beber aos filhos de Israel” (Shemot 32:20). E, todo aquele que beijara o bezerro, os seus lábios ficavam marcados pelo ouro; e a tribo de Levi os punha à morte, até que caíram de Israel cerca de três mil homens, como está dito: “e caíram do povo, naquele dia, cerca de três mil homens” (Shemot 32:28).
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: אַף שֵׁבֶט לֵוִי לֹא שִׁתֵּף עַצְמוֹ בְּמַעֲשֵׂה הָעֵגֶל, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיַּעֲמֹד מֹשֶׁה בְּשַׁעַר הַמַּחֲנֶה״ וְכוּ'. רָאָה מֹשֶׁה אֶת שֵׁבֶט לֵוִי שֶׁלֹּא נִשְׁתַּתֵּף עִמָּהֶם וְנִתְגַּבֵּר בְּכֹחוֹ וְלָקַח אֶת הָעֵגֶל וּשְׂרָפוֹ בָּאֵשׁ וְכִתְּתוֹ כְּעֲפַר אֶרֶץ וְזָרְקוֹ עַל פְּנֵי הַמַּיִם, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּקַּח אֶת הָעֵגֶל אֲשֶׁר עָשׂוּ וַיִּשְׂרֹף בָּאֵשׁ וַיִּטְחַן עַד אֲשֶׁר דָּק לְעָפָר וַיִּזֶר עַל פְּנֵי הַמַּיִם וַיַּשְׁקְ אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל״. וְהָיָה מַשְׁקֶה אֶת יִשְׂרָאֵל, וְכָל מִי שֶׁנָּשַׁק אֶת הָעֵגֶל הָיוּ שִׂפְתוֹתָיו נִתְפָּשׂוֹת מֵהַזָּהָב, וְשֵׁבֶט לֵוִי הָיוּ הוֹרְגִים אוֹתוֹ עַד שֶׁנָּפְלוּ מִיִּשְׂרָאֵל כִּשְׁלֹשֶׁת אַלְפֵי אִישׁ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּפֹּל מִן הָעָם בַּיּוֹם הַהוּא כִּשְׁלֹשֶׁת אַלְפֵי אִישׁ״.
Nota — os que não se desviaram. Nem todos caíram: os príncipes e a tribo de Levi mantiveram-se firmes, e por isso mereceram, na tradição, uma proximidade especial com D’us. A lição é importante: mesmo numa falha coletiva, o indivíduo permanece livre e responsável — sempre é possível “estar do lado do Eterno” (Shemot 32:26). E o capítulo culmina não na ira, mas na intercessão: Moshé invoca o mérito dos patriarcas e os atributos de misericórdia, e a destruição é contida — porque D’us “perdoa a iniquidade e não destrói” (Tehilim 78:38).
12
Enviou o Santo, bendito seja, cinco anjos para destruir Israel, e são estes: Ketzef (cólera), Af (ira), Chemá (furor), Mashchit (destruição) e Charon (ardor). Ouviu Moshé e saiu ao encontro de Avraham, Yitzchak e Yaakov, à caverna de Machpelá. Disse-lhes: “se sois dos filhos do mundo vindouro, ponde-vos diante de mim nesta hora, pois eis que os vossos filhos foram entregues à matança como ovelhas”. E ali se puseram diante dele Avraham, Yitzchak e Yaakov. Disse Moshé diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos! Não juraste assim, multiplicar a sua descendência como as estrelas dos céus?”, como está dito: “lembra-te de Avraham, de Yitzchak e de Israel, Teus servos, a quem juraste por Ti mesmo” (Shemot 32:13).
שָׁלַח הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא חֲמִשָּׁה מַלְאָכִים לְהַשְׁחִית אֶת יִשְׂרָאֵל, וְאֵלּוּ הֵן: קֶצֶף, אַף, חֵמָה, מַשְׁחִית, וְחָרוֹן. שָׁמַע מֹשֶׁה וַיֵּצֵא לִקְרַאת אַבְרָהָם יִצְחָק וְיַעֲקֹב אֶל מְעָרַת הַמַּכְפֵּלָה. אָמַר לָהֶם, אִם אַתֶּם מִבְּנֵי הָעוֹלָם הַבָּא, עִמְדוּ לְפָנַי בְּשָׁעָה הַזֹּאת, שֶׁהֲרֵי בְּנֵיכֶם נִתְּנוּ לַטִּבְחָה כַּצֹּאן. וְשָׁם עָמְדוּ לְפָנָיו אַבְרָהָם וְיִצְחָק וְיַעֲקֹב. אָמַר מֹשֶׁה לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים! לֹא כָּךְ נִשְׁבַּעְתָּ לָנוּ לְהַרְבּוֹת זַרְעָם כְּכוֹכְבֵי הַשָּׁמַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״זְכֹר לְאַבְרָהָם לְיִצְחָק וּלְיִשְׂרָאֵל עֲבָדֶיךָ אֲשֶׁר נִשְׁבַּעְתָּ לָהֶם בָּךְ״.
13
E, pelo mérito destes três patriarcas, foram detidos três anjos destruidores — Ketzef, Af e Chemá —, e restaram dois, Charon e Mashchit. Disse Moshé diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, por causa do juramento que lhes juraste, detém o anjo Mashchit de Israel!”. E foi detido o Mashchit, como está dito: “e Ele, misericordioso, perdoa a iniquidade e não destrói; e muitas vezes retém a Sua ira e não desperta todo o Seu furor” (Tehilim 78:38). E ainda disse Moshé diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, por amor do Teu grande e santo Nome que me deste a conhecer, detém o ardor da Tua ira de Israel!”, como está dito: “torna-Te do ardor da Tua ira e arrepende-Te do mal que ameaçaste ao Teu povo” (Shemot 32:12). E a tradição narra, em imagem, que Moshé enterrou o “ardor da ira” na terra, e o seu poder foi contido — por isso o seu túmulo foi posto defronte de Beit Peor, como está dito: “e o sepultou no vale, defronte de Beit Peor” (Devarim 34:6).
וּבִזְכוּת שְׁלֹשָׁה אָבוֹת הַלָּלוּ נֶעֶצְרוּ שְׁלֹשָׁה מַלְאֲכֵי חַבָּלָה, קֶצֶף אַף חֵמָה, וְנִשְׁתַּיְּרוּ שְׁנַיִם, חָרוֹן וּמַשְׁחִית. אָמַר מֹשֶׁה לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, לְמַעַן הַשְּׁבוּעָה אֲשֶׁר נִשְׁבַּעְתָּ לָהֶם כָּךְ עֲצֹר מַשְׁחִית מִיִּשְׂרָאֵל!״ וְנֶעֱצַר הַמַּשְׁחִית, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהוּא רַחוּם יְכַפֵּר עָוֹן וְלֹא יַשְׁחִית וְהִרְבָּה לְהָשִׁיב אַפּוֹ וְלֹא יָעִיר כָּל חֲמָתוֹ״. וְעוֹד אָמַר מֹשֶׁה לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, לְמַעַן שִׁמְךָ הַגָּדוֹל וְהַקָּדוֹשׁ שֶׁהוֹדַעְתָּ לִי עֲצֹר חֲרוֹן אַף מִיִּשְׂרָאֵל!״ שֶׁנֶּאֱמַר: ״שׁוּב מֵחֲרוֹן אַפֶּךָ וְהִנָּחֵם עַל הָרָעָה לְעַמֶּךָ״. מֶה עָשָׂה מֹשֶׁה? חָפַר בָּאָרֶץ כְּבֵית דִּירָה גְדוֹלָה בְּנַחֲלַת בְּנֵי גָד וְטָמַן אֶת חֲרוֹן אַף בָּאָרֶץ כְּאָדָם שֶׁהוּא חָבוּשׁ בְּבֵית הָאֲסוּרִים. וּבְכָל זְמַן שֶׁהָיוּ חוֹטְאִין הָיָה עוֹלֶה וּפוֹעֵל בְּפִיו לִנְשֹׁךְ בְּרוּחוֹ לְהַשְׁחִית אֶת יִשְׂרָאֵל, וְהָיָה מֹשֶׁה מַזְכִּיר עָלָיו אֶת הַשֵּׁם וּמוֹרִידוֹ לְמַטָּה לָאָרֶץ. לְפִיכָךְ נִקְרָא שְׁמוֹ פְּעוֹר. וּכְשֶׁמֵּת מֹשֶׁה, מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? נָתַן אֶת קִבְרוֹ כְּנֶגְדָּן, וְכָל זְמַן שֶׁהֵם חוֹטְאִין וְהוּא רוֹצֶה לַעֲלוֹת וְלִפְעֹר אֶת פִּיו וְלִנְשֹׁךְ בְּרוּחוֹ לְהַשְׁחִית אֶת יִשְׂרָאֵל, וְהוּא רוֹאֶה אֶת קִבְרוֹ שֶׁל מֹשֶׁה כְּנֶגְדּוֹ, הוּא מִתְפַּחֵד וְיוֹרֵד לְמַטָּה לָאָרֶץ. וּלְכָךְ נֶאֱמַר: ״וַיִּקְבֹּר אֹתוֹ בַגַּיְא מוּל בֵּית פְּעוֹר״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A raiz do pecado: a busca do visível

O bezerro nasce do desejo de um “deus que vá adiante de nós” — algo que se possa ver e tocar. Para a tradição racionalista, esta é a essência da idolatria: a dificuldade de sustentar a verdade de um D’us incorpóreo. Tão perto do Sinai, e já a recaída no hábito egípcio do deus visível — sinal de quanto custa permanecer fiel a uma verdade que não se vê com os olhos, mas com a mente.

Quem ficou firme

O capítulo distingue cuidadosamente: Chur, que repreende e é morto; Aharon, que teme e busca ganhar tempo; as mulheres, que recusam dar as joias ao ídolo; os príncipes e a tribo de Levi, que não se associam ao pecado. A falha foi coletiva, mas não universal — e a tradição honra os que se mantiveram, lembrando que ninguém perde a sua liberdade e a sua responsabilidade na multidão.

As tábuas quebradas

Moshé quebra as tábuas, e os sábios veem nisso um ato necessário, até aprovado por D’us (Shabat 87a): não se sela uma aliança sobre a traição. Mas as tábuas partidas foram guardadas na arca junto às segundas — porque o pacto se renova, e mesmo o que se quebra conserva santidade. A história do bezerro não termina na ruína, mas na reconstrução.

A intercessão e a misericórdia

O ponto culminante não é o castigo, mas a oração de Moshé: ele corre ao mérito dos patriarcas e ao juramento de D’us, e detém os anjos da destruição. “Ele, misericordioso, perdoa a iniquidade e não destrói” (Tehilim 78:38). A tradição lê o episódio inteiro à luz do perdão: até a queda mais grave encontra, na teshuvá e na misericórdia, um caminho de volta.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 46

As segundas tábuas e o Yom Kipur do perdão

פֶּרֶק מ״ו

Das tábuas quebradas ao perdão: Moshé sobe de novo, talha as segundas tábuas e, no Yom Kipur, traz a aliança renovada. O capítulo desdobra o sentido do Dia da Expiação, a Torá dada aos homens (e não aos anjos), e os Treze Atributos de misericórdia — a resposta de D’us a “mostra-me a Tua glória”.

1
Rabi Elazar ben Azaryá diz: na véspera do Shabat, no sexto dia do mês, à sexta hora do dia, recebeu Israel os Dez Mandamentos, e à nona hora voltaram às suas tendas. E o maná estava preparado para eles para dois dias; e descansaram os de Israel naquele Shabat, alegres com a alegria da festa, por terem merecido ouvir a voz do Santo, bendito seja, como está dito: “porque, que é de toda a carne, que ouviu a voz do D’us vivo ... e viveu?” (Devarim 5:23). Disse o Santo, bendito seja, a Moshé, em linguagem delicada: “vai, dize a Israel: ide cada um à sua tenda” (Devarim 5:26). Poderias pensar que também tu Moshé voltarias? Mas daqui aprendes que, desde a hora em que Moshé foi advertido sobre a Torá para Israel, não tornou a achegar-se à sua esposa, como está dito: “e tu, fica aqui comigo” (Devarim 5:27).
רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה אוֹמֵר: עֶרֶב שַׁבָּת, בְּשִׁשָּׁה לַחֹדֶשׁ, בְּשֵׁשׁ שָׁעוֹת בַּיּוֹם קִבְּלוּ יִשְׂרָאֵל אֶת הַדִּבְּרוֹת, וּבְתֵשַׁע שָׁעוֹת בַּיּוֹם חָזְרוּ לְאָהֳלֵיהֶם. וְהָיָה הַמָּן מוּכָן לָהֶם לִשְׁנֵי יָמִים, וְשָׁבְתוּ יִשְׂרָאֵל בְּאוֹתָהּ שַׁבָּת שְׂמֵחִים כְּשִׂמְחַת הֶחָג שֶׁזָּכוּ לִשְׁמֹעַ קוֹלוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, שֶׁנֶּאֱמַר (דברים ה, כג): ״כִּי מִי כָל בָּשָׂר אֲשֶׁר שָׁמַע קוֹל אֱלֹהִים חַיִּים״. אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה בְּלָשׁוֹן נְקִיָּה: ״לֵךְ אֱמֹר לָהֶם לְיִשְׂרָאֵל לְכוּ אִישׁ לְאָהֳלוֹ״, שֶׁנֶּאֱמַר (שם, כו) ״לֵךְ אֱמֹר לָהֶם שׁוּבוּ לָכֶם לְאָהֳלֵיכֶם״. יָכוֹל אַף אַתָּה תָּשׁוּב? אֶלָּא מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁמִּשָּׁעָה שֶׁהִזְהִיר מֹשֶׁה אֶת הַתּוֹרָה לְיִשְׂרָאֵל לֹא קָרַב מֹשֶׁה אֵצֶל אִשְׁתּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר (שם, כז) ״וְאַתָּה פֹּה עֲמֹד עִמָּדִי״.
2
Rabi Yehoshua ben Korchá diz: quarenta dias passou Moshé no monte, lendo na Lei o Texto (Mikrá) de dia e repetindo a Lei a tradição oral de noite. E, depois de quarenta dias, tomou as tábuas e desceu ao acampamento; e, em dezessete de Tamuz, quebrou as tábuas e puniu os transgressores de Israel; e passou quarenta dias no acampamento, até queimar o bezerro e triturá-lo como o pó da terra, e punir todo aquele que beijara o bezerro, e extirpar a idolatria de Israel, e restabelecer cada tribo no seu lugar. E, no Rosh Chodesh de Elul, disse-lhe o Santo, bendito seja: “sobe a Mim, ao monte” (Shemot 24:12); e fizeram passar um shofar pelo acampamento anunciando que Moshé subira ao monte, para que Israel não tornasse a desviar-se atrás da idolatria; e o Santo, bendito seja, como que elevou-Se naquele dia com aquele shofar, como está dito: “subiu D’us com o toque do shofar” (Tehilim 47:6). Por isso instituíram os sábios que se toque o shofar no Rosh Chodesh de Elul, todos os anos.
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה אוֹמֵר: אַרְבָּעִים יוֹם עָשָׂה מֹשֶׁה בָּהָר, קוֹרֵא בַּדָּת מִקְרָא בַּיּוֹם וְשׁוֹנֶה בַּדָּת מִקְרָא בַּלַּיְלָה. וּלְאַחַר אַרְבָּעִים יוֹם לָקַח אֶת הַלּוּחוֹת וְיָרַד אֶל הַמַּחֲנֶה, וּבְשִׁבְעָה עָשָׂר בְּתַמּוּז שִׁבַּר אֶת הַלּוּחוֹת וְהָרַג אֶת לֵייטֵי יִשְׂרָאֵל, וְעָשָׂה אַרְבָּעִים יוֹם בַּמַּחֲנֶה עַד שֶׁשָּׂרַף אֶת הָעֵגֶל וְכִתְּתוֹ כַּעֲפַר הָאָרֶץ וְהָרַג אֶת כָּל אֲשֶׁר נָשַׁק לָעֵגֶל וְהִכְרִית עֲבוֹדָה זָרָה מִיִּשְׂרָאֵל וְהִתְקִין כָּל שֵׁבֶט בִּמְקוֹמוֹ. וּבְרֹאשׁ חֹדֶשׁ אֱלוּל אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא (שמות כד, יב): ״עֲלֵה אֵלַי הָהָרָה״, וְהֶעֱבִירוּ שׁוֹפָר בַּמַּחֲנֶה, שֶׁהֲרֵי מֹשֶׁה עָלָה לָהָר שֶׁלֹּא יִטְעוּ עוֹד אַחַר עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים וּמַזָּלוֹת, וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא נִתְעַלָּה אוֹתוֹ הַיּוֹם בְּאוֹתוֹ שׁוֹפָר, שֶׁנֶּאֱמַר (תהלים מז, ו): ״עָלָה אֱלֹהִים בִּתְרוּעָה״. וְעַל כֵּן הִתְקִינוּ חֲכָמִים שֶׁיִּהְיוּ תּוֹקְעִים בַּשּׁוֹפָר בְּרֹאשׁ חֹדֶשׁ אֱלוּל בְּכָל שָׁנָה וְשָׁנָה.
Nota — de Tamuz a Tishrei: o shofar de Elul. O capítulo traça o calendário da queda e do perdão: as tábuas quebradas em 17 de Tamuz; quarenta dias para extirpar o pecado do bezerro; a subida de Moshé em Rosh Chodesh Elul; e a descida com as segundas tábuas no Yom Kipur (10 de Tishrei). Daqui o costume de tocar o shofar durante todo o mês de Elul — o som que desperta a teshuvá e prepara o coração para o perdão. A própria estrutura do ano judaico nasce desta história: do pecado ao retorno.
3
Rav Kahana diz: as primeiras tábuas não foram criadas da terra, mas dos céus, obra das mãos do Santo, bendito seja, como está dito: “e as tábuas eram obra de D’us” (Shemot 32:16). “E a escrita era escrita de D’us, gravada (charut) sobre as tábuas” — não leias “charut” (gravada), mas “cherut” (liberdade). E, quando disse o Santo, bendito seja, a Moshé “talha para ti duas tábuas de pedra” (Shemot 34:1), criou-se milagrosamente para Moshé, dentro da sua tenda, uma jazida de safira, e ele as talhou, como está dito: “e talhou duas tábuas de pedra, como as primeiras” (Shemot 34:4). E subiu Moshé com as tábuas e passou quarenta dias no monte, sentado diante do Santo, bendito seja, como um discípulo que se senta diante do seu mestre, lendo o Texto de dia e repetindo a Mishná de noite.
רַב כָּהֲנָא אוֹמֵר: הַלּוּחוֹת לֹא נִבְרְאוּ מִן הָאָרֶץ אֶלָּא מִן הַשָּׁמַיִם, מַעֲשֵׂה יָדָיו שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, שֶׁנֶּאֱמַר (שמות לב, טז): ״וְהַלֻּחֹת מַעֲשֵׂה אֱלֹהִים הֵמָּה״, הֵמָּה הַלּוּחוֹת שֶׁהָיוּ מִקֶּדֶם, ״וְהַמִּכְתָּב מִכְתַּב אֱלֹהִים הוּא״, הוּא הַמִּכְתָּב שֶׁהָיָה מִקֶּדֶם, ״חָרוּת עַל הַלֻּחֹת״, אַל תִּקְרֵי חָרוּת אֶלָּא חֵרוּת. וּכְשֶׁאָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה (שם לד, א) ״פְּסָל לְךָ שְׁנֵי לֻחֹת אֲבָנִים״ מַחְצַב סַנְפִּירִינוֹן נִבְרָא לְמֹשֶׁה בְּתוֹךְ אָהֳלוֹ וַחֲצָבָן, שֶׁנֶּאֱמַר (שם, ד) ״וַיִּפְסֹל שְׁנֵי לֻחֹת אֲבָנִים כָּרִאשֹׁנִים״, יָרַד מֹשֶׁה עִם הַלּוּחוֹת וְעָשָׂה אַרְבָּעִים יוֹם בָּהָר יוֹשֵׁב לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא כְּתַלְמִיד שֶׁהוּא יוֹשֵׁב לִפְנֵי רַבּוֹ קוֹרֵא בַּדָּת מִקְרָא בַּיּוֹם וְשׁוֹנֶה בַּדָּת מִשְׁנָה בַּלַּיְלָה.
Nota — “gravado” (charut) ou “liberdade” (cherut)? A tradição lê a palavra charut (“gravada nas tábuas”) também como cherut, “liberdade” (Avot 6:2). É um dos ensinamentos mais profundos da Torá racionalista: a lei não escraviza — liberta. “Não há homem livre senão o que se ocupa da Torá”, porque ela liberta o ser humano da servidão aos impulsos e ao acaso, dando-lhe domínio de si e direção (cf. o ensaio sobre Pessach e a liberdade). A verdadeira liberdade não é a ausência de lei, mas a lei que eleva.
4
Disseram-lhe os anjos do serviço: “Moshé! Esta Torá não foi dada senão por nossa causa”. Respondeu-lhes Moshé: está escrito na Torá “honra o teu pai e a tua mãe” — e acaso tendes pai e mãe? E ainda está escrito “quando um homem morrer numa tenda” — ora, não há entre vós morte alguma; logo, a Torá não foi dada senão por nossa causa. E os anjos se calaram e não responderam mais.
אָמְרוּ לוֹ מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת: מֹשֶׁה! לֹא נִתְּנָה הַתּוֹרָה הַזֹּאת אֶלָּא לְמַעֲנֵנוּ. חָזַר מֹשֶׁה וְאָמַר לָהֶם: כְּתִיב בַּתּוֹרָה ״כַּבֵּד אֶת אָבִיךָ וְאֶת אִמֶּךָ״ – וְכִי יֵשׁ לָכֶם אָב וָאֵם? וְעוֹד כְּתִיב ״אָדָם כִּי יָמוּת בָּאֹהֶל״ – מַה שֶּׁאֵין בֵּינֵיכֶם מִקְרֵה מָוֶת, וְלֹא נִתְּנָה אֶלָּא בִּשְׁבִילֵנוּ. וְחָשׁוּ וְלֹא עוֹד.
5
Daqui disseram: subiu Moshé, na sua sabedoria, aos seres supernos e fez descer a força confiada aos anjos do serviço, como está dito: “à cidade dos valentes subiu o sábio e fez descer a força em que ela confiava” (Mishlei 21:22). Viram os anjos do serviço que o Santo, bendito seja, dera a Torá a Moshé, e também eles se levantaram e lhe deram dádivas — revelaram-lhe segredos e remédios para os filhos do homem, como está dito: “subiste ao alto, levaste cativos e recebeste dádivas para os homens” (Tehilim 68:19).
מִכָּאן אָמְרוּ: עָלָה מֹשֶׁה בְּחָכְמָתוֹ אֶל הָעֶלְיוֹנִים וְהוֹרִיד עֹז מִבְטַח שֶׁל מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת, שֶׁנֶּאֱמַר (משלי כא, כב): ״עִיר גִּבֹּרִים עָלָה חָכָם וַיֹּרֶד עֹז מִבְטֶחָה״. רָאוּ מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת שֶׁנָּתַן הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא תּוֹרָה לְמֹשֶׁה, עָמְדוּ גַּם הֵם וְנָתְנוּ לוֹ מַתָּנוֹת, אִגְּרוֹת וּפִתְקִין לִבְנֵי אָדָם, רְפוּאוֹת לִבְנֵי אָדָם, שֶׁנֶּאֱמַר (תהלים סח, יט): ״עָלִיתָ לַמָּרוֹם שָׁבִיתָ שֶּׁבִי״.
Nota — a Torá foi dada aos homens, não aos anjos. Quando os anjos reivindicam a Torá, Moshé os refuta com força simples: “honra teu pai e tua mãe” — tendes pais? “quando um homem morrer” — há morte entre vós? A Torá pressupõe a condição humana: pais e filhos, mortalidade, desejo, tentação. Para a leitura racionalista (Shabat 88b-89a), esta é a grandeza da Torá — ela não é para seres perfeitos, mas o guia que eleva seres falíveis. Os anjos não precisam de mandamentos; nós, sim. A santidade que a Torá pede é a santidade possível ao homem.
6
Ben Beteirá diz: quarenta dias passou Moshé no monte, expondo as palavras da Torá e perscrutando as suas letras; e, depois de quarenta dias, tomou a Torá e desceu no décimo dia do mês, no dia do Yom Kipur, e a deu por herança aos filhos de Israel, como estatuto eterno, como está dito: “e isto vos será por estatuto eterno” (Vayikrá 16:34).
בֶּן בְּתִירָא אוֹמֵר: אַרְבָּעִים יוֹם עָשָׂה מֹשֶׁה בָּהָר וְדָרַשׁ בְּדִבְרֵי תוֹרָה וְחוֹקֵר בְּאוֹתִיּוֹתֶיהָ, וּלְאַחַר אַרְבָּעִים יוֹם לָקַח אֶת הַתּוֹרָה וְיָרַד בֶּעָשׂוֹר לַחֹדֶשׁ בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים וְהִנְחִילָהּ לִבְנֵי יִשְׂרָאֵל לְחֹק עוֹלָם, שֶׁנֶּאֱמַר (ויקרא טז, לד): ״וְהָיְתָה זֹּאת לָכֶם לְחֻקַּת עוֹלָם״.
7
Rabi Zecharyá diz: leram na Torá e acharam escrito nela “e afligireis as vossas almas” (Vayikrá 16:31); e, naquele mesmo dia, fizeram passar um shofar por todo o acampamento anunciando que jejuasse todo o povo, do homem à mulher, do grande ao pequeno. E, não fosse o Yom Kipur, o mundo não subsistiria, pois o Yom Kipur expia neste mundo e no mundo vindouro, como está dito: “shabat shabaton (sábado dos sábados) é” — “shabat”, a expiação deste mundo; “shabaton”, a do mundo vindouro. E, ainda que todas as festas passem deixem de ser observadas, o Yom Kipur não passa, pois o Yom Kipur expia as faltas leves e as graves, como está dito: “porque neste dia Ele expiará por vós, para vos purificar de todos os vossos pecados” (Vayikrá 16:30) — não está escrito “dos vossos pecados”, mas “de todos os vossos pecados”.
רַבִּי זְכַרְיָה אוֹמֵר: קָרְאוּ בַתּוֹרָה וּמָצְאוּ כָתוּב בָּהּ ״וְעִנִּיתֶם אֶת נַפְשֹׁתֵיכֶם״ וּבוֹ בַיּוֹם הֶעֱבִירוּ שׁוֹפָר בְּכָל הַמַּחֲנֶה שֶׁיָּצוּמוּ כָּל הָעָם מֵאִישׁ עַד אִשָּׁה מִגָּדוֹל וְעַד קָטָן. וְאִלּוּלֵי יוֹם הַכִּפּוּרִים לֹא הָיָה הָעוֹלָם עוֹמֵד, שֶׁיּוֹם הַכִּפּוּרִים מְכַפֵּר בָּעוֹלָם הַזֶּה וּלָעוֹלָם הַבָּא, שֶׁנֶּאֱמַר ״שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן הִיא״ – שַׁבָּת הָעוֹלָם הַזֶּה, שַׁבָּתוֹן הָעוֹלָם הַבָּא. וַאֲפִלּוּ כָּל הַמּוֹעֲדוֹת עוֹבְרִים, יוֹם הַכִּפּוּרִים אֵינוֹ עוֹבֵר, שֶׁיּוֹם הַכִּפּוּרִים מְכַפֵּר עַל הַקַּלּוֹת וְעַל הַחֲמוּרוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר ״כִּי בַיּוֹם הַזֶּה יְכַפֵּר עֲלֵיכֶם לְטַהֵר אֶתְכֶם מִכֹּל חַטֹּאתֵיכֶם״ – ״מֵחַטֹּאתֵיכֶם״ אֵין כְּתִיב כָּאן אֶלָּא ״מִכֹּל חַטֹּאתֵיכֶם״.
8
Disse Samael a força acusadora diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, sobre todas as nações do mundo me deste poder de acusar, e sobre Israel não me dás poder?”. Disse-lhe: “eis que tens poder sobre eles no Yom Kipur, se neles houver pecado; e, se não, não tens poder sobre eles”. Por isso no rito do Templo se lhe dá um “suborno” no Yom Kipur, para que não anule as preces de Israel nem a oferenda de Israel, como está dito: “uma sorte para o Eterno, e uma sorte para Azazel” (Vayikrá 16:8).
אָמַר סַמָּאֵל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, עַל כָּל אוּמּוֹת הָעוֹלָם נָתַתָּ לִי רְשׁוּת וְעַל יִשְׂרָאֵל אֵין אַתָּה נוֹתֵן לִי רְשׁוּת?״ אָמַר לוֹ: ״הֲרֵי יֵשׁ לְךָ רְשׁוּת עֲלֵיהֶם בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים אִם יֵשׁ לָהֶם חֵטְא, וְאִם לָאו – אֵין לְךָ רְשׁוּת עֲלֵיהֶם״. לְפִיכָךְ נוֹתְנִין לוֹ שֹׁחַד בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים שֶׁלֹּא לְבַטֵּל אֶת יִשְׂרָאֵל, שֶׁלֹּא לְבַטֵּל קָרְבָּן שֶׁל יִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״גּוֹרָל אֶחָד לַה' וְגוֹרָל אֶחָד לַעֲזָאזֵל״.
9
A sorte do Santo, bendito seja, é a oferenda de holocausto; e a sorte de Azazel, o bode da oferta pelo pecado, e sobre ele estão simbolicamente todas as iniquidades de Israel, como está dito: “e levará o bode sobre si todas as iniquidades deles” (Vayikrá 16:22). Viu Samael que não se achava neles pecado no Yom Kipur, e disse perante Ele: “Senhor do mundo, tens um povo na terra como os anjos do serviço nos céus. Assim como os anjos do serviço não dobram os joelhos / não cansam, assim Israel está de pé sobre os seus pés no Yom Kipur; assim como os anjos do serviço não têm comida nem bebida, assim Israel não tem comida nem bebida no Yom Kipur; assim como os anjos do serviço são limpos de todo pecado, assim Israel é limpo de todo pecado no Yom Kipur; assim como entre os anjos do serviço a paz medeia, assim entre Israel a paz medeia no Yom Kipur”. E o Santo, bendito seja, ouve as preces de Israel livrando-as do seu acusador, e expia o altar, e os sacerdotes, e todo o povo da congregação, do grande ao pequeno, como está dito: “e expiará o santuário sagrado” (Vayikrá 16:33).
גּוֹרָלוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא קָרְבַּן עוֹלָה וְגוֹרָלוֹ שֶׁל עֲזָאזֵל שְׂעִיר חַטָּאת, וְכָל עֲוֹנוֹתֵיהֶם שֶׁל יִשְׂרָאֵל עָלָיו, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְנָשָׂא הַשָּׂעִיר עָלָיו אֶת כָּל עֲוֹנֹתָם״. רָאָה סָמָאֵל שֶׁלֹּא נִמְצָא בָהֶם חֵטְא בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים, אָמַר לְפָנָיו: רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, יֵשׁ לְךָ עַם אֶחָד בָּאָרֶץ כְּמַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת בַּשָּׁמַיִם. מַה מַּלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת אֵין לָהֶם קְפִיצִין, כָּךְ יִשְׂרָאֵל עוֹמְדִים עַל רַגְלֵיהֶם בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים; מַה מַּלְאֲכֵי יִשְׂרָאֵל אֵין לָהֶם אֲכִילָה וּשְׁתִיָּה, כָּךְ יִשְׂרָאֵל אֵין לָהֶם אֲכִילָה וּשְׁתִיָּה בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים; מַה מַּלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת נְקִיִּים מִכָּל חֵטְא, כָּךְ יִשְׂרָאֵל נְקִיִּים מִכָּל חֵטְא בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים; מַה מַּלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת שָׁלוֹם מְתַוֵּךְ בֵּינֵיהֶם, כָּךְ יִשְׂרָאֵל שָׁלוֹם מְתַוֵּךְ בֵּינֵיהֶם בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים. וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שׁוֹמֵעַ עֲתִירוֹתָן שֶׁל יִשְׂרָאֵל מִן הַקָּטֵיגוֹר שֶׁלָּהֶם וּמְכַפֵּר עַל הַמִּזְבֵּחַ וְעַל הַכֹּהֲנִים וְעַל כָּל עַם הַקָּהָל לְמִגָּדוֹל וְעַד קָטָן, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְכִפֶּר אֶת מִקְדַּשׁ הַקֹּדֶשׁ״.
Nota — o Yom Kipur, o bode e “Azazel”. O capítulo apresenta o rito do Yom Kipur (Vayikrá 16): duas sortes, “uma para o Eterno e uma para Azazel”. É essencial entender, com a tradição racionalista (Rambam, Guia III:46): o bode “para Azazel” não é uma oferenda a nenhum poder ou demônio — há um só D’us. É um ato simbólico: as faltas do povo são, figuradamente, “enviadas para longe”, a um lugar desolado, como sinal do abandono do pecado. “Samael/o acusador” é a imagem da força da acusação — a voz do mal e do erro — e não um deus rival que recebe “suborno”. O coração do dia é o oposto da magia: no Yom Kipur, Israel se torna “como os anjos” — sem comida, limpo de culpa, em paz —, e é a teshuvá e a oração que purificam, “porque neste dia Ele vos purifica de todos os vossos pecados”.
10
Disse Moshé: no Yom Kipur verei a glória do Santo, bendito seja, e depois intercederei para expiar as iniquidades de Israel. Disse diante do Santo, bendito seja: “Senhor do mundo, mostra-me, peço-te, a Tua glória” (Shemot 33:18). Disse-lhe o Santo, bendito seja: “Moshé, não podes ver a Minha glória, para que não morras, como está dito ‘porque o homem não Me verá e viverá’ (Shemot 33:20). Mas, por amor do juramento que te jurei e do Nome que te dei a conhecer, farei a tua vontade. Põe-te à entrada da caverna, e Eu farei passar diante de ti os anjos que ministram diante de Mim”, como está dito: “e disse: Eu farei passar toda a Minha bondade diante de ti” (Shemot 33:19); “e, quando ouvires o Nome que te dei a conhecer, ali estou Eu diante de ti. Mantém-te firme e não temas”, como está dito: “e terei piedade de quem Eu tiver piedade, e terei misericórdia de quem Eu tiver misericórdia” (ibid.).
אָמַר מֹשֶׁה: בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים אֶרְאֶה כְּבוֹדוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וְאַחַר כָּךְ אֲנִי מְכַפֵּר עַל עֲוֹנוֹתֵיהֶם שֶׁל יִשְׂרָאֵל. אָמַר לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, (שמות לג, יח) ״הַרְאֵנִי נָא אֶת כְּבֹדֶךָ״. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: מֹשֶׁה, אֵין אַתָּה יָכוֹל לִרְאוֹת אֶת כְּבוֹדִי שֶׁלֹּא תָמוּת, שֶׁנֶּאֱמַר ״כִּי לֹא יִרְאַנִי הָאָדָם וָחָי״. אֶלָּא לְמַעַן הַשְּׁבוּעָה שֶׁנִּשְׁבַּעְתִּי לְךָ וְהַשֵּׁם שֶׁהוֹדַעְתִּי לְךָ, אֲנִי אֶעֱשֶׂה רְצוֹנְךָ. עֲמֹד בְּפֶתַח מְעָרָה וַאֲנִי אַעֲבִיר לְפָנֶיךָ אֶת הַמַּלְאָכִים הַמְשָׁרְתִים לְפָנַי, שֶׁנֶּאֱמַר (שמות לג, יט): ״וַיֹּאמֶר אֲנִי אַעֲבִיר כָּל טוּבִי עַל פָּנֶיךָ״. וּכְשֶׁאַתָּה שׁוֹמֵעַ אֶת הַשֵּׁם שֶׁהוֹדַעְתִּי לְךָ, שָׁם אֲנִי עוֹמֵד לְפָנֶיךָ. וַעֲמֹד בְּכֹחֲךָ וְאַל תִּפְחַד, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְחַנֹּתִי אֶת אֲשֶׁר אָחֹן וְרִחַמְתִּי אֶת אֲשֶׁר אֲרַחֵם״.
Nota — “mostra-me a Tua glória” e os Treze Atributos. Moshé pede ver a glória de D’us, e a resposta funda a teologia racionalista: “não Me verás e viverás” — a essência de D’us é inacessível à mente humana (Rambam, Guia I). O que se pode conhecer são as Suas “costas”, isto é, os Seus caminhos — os Treze Atributos de misericórdia: “Eterno, Eterno, D’us misericordioso e clemente, longânimo...” (Shemot 34:6). Não sabemos o que D’us é, mas sabemos como Ele age — e somos chamados a imitá-Lo (“assim como Ele é misericordioso, sê tu misericordioso”). Por isso os Treze Atributos são o coração da prece do Yom Kipur: invocar a misericórdia e aprender a vivê-la.
11
Disseram os anjos do serviço diante do Santo, bendito seja: “eis que nós Te servimos dia e noite e não podemos ver a Tua glória, e este, nascido de mulher, quer ver a Tua glória?”. E levantaram-se com fúria e sobressalto para o ferir, e a sua alma de Moshé chegou perto da morte. Que fez o Santo, bendito seja? Revelou-se sobre ele na nuvem, como está dito: “e desceu o Eterno na nuvem” (Shemot 34:5). E esta é a sétima descida.
אָמְרוּ מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: הֲרֵי אָנוּ מְשָׁרְתִים לְפָנָיו בַּיּוֹם וּבַלַּיְלָה וְאֵין אָנוּ יְכוֹלִין לִרְאוֹת אֶת כְּבוֹדְךָ, וְזֶה יְלוּד אִשָּׁה רוֹצֶה לִרְאוֹת אֶת כְּבוֹדְךָ? וְעָמְדוּ בְּזַעַף וּבְבֶהָלָה לַהֲמִיתוֹ, וְהִגִּיעָה נַפְשׁוֹ עַד מָוֶת. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? נִגְלָה עָלָיו בֶּעָנָן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּרֶד ה' בֶּעָנָן״. וְזוֹ הִיא יְרִידָה שְׁבִיעִית.
12
E cobriu-o o Santo, bendito seja, com a palma da Sua mão, para que não morresse, como está dito: “e sucederá que, quando passar a Minha glória, eu te porei numa fenda da rocha, e te cobrirei com a Minha palma” (Shemot 33:22). E, quando passou, retirou o Santo, bendito seja, a Sua mão de sobre ele, e Moshé viu “as costas” da Shechiná o vestígio da Presença, como está dito: “e tirarei a Minha palma, e verás as Minhas costas” (Shemot 33:23). E começou Moshé a clamar em alta voz e disse: “Eterno, Eterno, D’us misericordioso e clemente ...” (Shemot 34:6).
וְסָכַךְ עָלָיו הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּכַף יָדוֹ שֶׁלֹּא יָמוּת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיָה בַּעֲבֹר כְּבֹדִי וְשַׂמְתִּיךָ בְּנִקְרַת הַצּוּר וְשַׂכֹּתִי כַפִּי״, וּכְשֶׁעָבַר הֵסִיר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת כַּף יָדוֹ מֵעָלָיו וְרָאָה אֲחוֹרֵי הַשְּׁכִינָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַהֲסִרֹתִי אֶת כַּפִּי [וְרָאִיתָ אֶת אֲחֹרָי]״, הִתְחִיל מֹשֶׁה צוֹעֵק בְּקוֹל גָּדוֹל וְאָמַר: ״ה' ה' אֵל רַחוּם וְחַנּוּן״.
13
Disse perante Ele: “perdoa, peço-te, as iniquidades de Israel, pelo feito do bezerro”. Ora, se Moshé tivesse dito “perdoa, peço-te, as iniquidades de Israel até o fim de todas as gerações”, D’us o teria feito, pois era hora de favor (et ratzon); e assim se diz: “em hora de favor te respondi” (Yeshayá 49:8). Mas Moshé disse apenas: “perdoa, peço-te, as iniquidades de Israel pelo feito do bezerro”. Disse o Santo, bendito seja: “eis que conforme as tuas palavras fiz”, como está dito: “e disse o Eterno: perdoei, conforme a tua palavra” (Bemidbar 14:20).
אָמַר לְפָנָיו: ״סְלַח נָא לַעֲוֹנוֹתֵיהֶם שֶׁל יִשְׂרָאֵל עַל מַעֲשֵׂה הָעֵגֶל״. וְאִלּוּ אָמַר מֹשֶׁה ״סְלַח נָא לַעֲוֹנוֹתֵיהֶם שֶׁל יִשְׂרָאֵל עַד סוֹף כָּל הַדּוֹרוֹת״ – הָיָה עוֹשֶׂה כֵּן, לְפִי שֶׁהָיְתָה שְׁעַת רָצוֹן. וְכֵן הוּא אוֹמֵר ״בְּעֵת רָצוֹן עֲנִיתִיךָ״. אֶלָּא אָמַר: ״סְלַח נָא לַעֲוֹנוֹתֵיהֶם שֶׁל יִשְׂרָאֵל עַל מַעֲשֵׂה הָעֵגֶל״. אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״הֲרֵי כִּדְבָרֶיךָ עָשִׂיתִי״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר ה' סָלַחְתִּי כִּדְבָרֶךָ״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

Do pecado ao perdão: o calendário da teshuvá

O capítulo transforma a história da queda numa estrutura de retorno: as tábuas quebradas em Tamuz, os quarenta dias de Elul, o perdão no Yom Kipur. Daqui nascem o shofar de Elul e o próprio sentido do Dia da Expiação. A tradição lê tudo isto como prova de que a falha não é o fim — há um tempo, a cada ano, para refazer a aliança.

A Torá da liberdade, para os homens

“Charut” (gravado) é lido como “cherut” (liberdade): a Torá liberta da servidão aos impulsos. E Moshé mostra aos anjos que ela foi dada aos homens — seres com pais, mortalidade e desejo —, não a seres perfeitos. A grandeza da Torá é elevar os falíveis; a santidade que pede é a santidade humana, conquistada na luta de cada dia.

O Yom Kipur sem magia

O Dia da Expiação “sustenta o mundo”, pois oferece a todos o caminho do perdão. O rito do bode para Azazel é, na leitura racionalista, um ato simbólico — o afastamento do pecado —, jamais uma oferenda a um poder rival (há só um D’us). O que purifica é a teshuvá: nesse dia, Israel torna-se “como os anjos”, limpo e em paz, e D’us “purifica de todos os pecados”.

Conhecer os caminhos de D’us

Ao pedido de Moshé — “mostra-me a Tua glória” — D’us responde revelando não a Sua essência (inacessível), mas os Seus caminhos: os Treze Atributos de misericórdia. A tradição faz disto o fundamento da prece e da ética: não sabemos o que D’us é, mas sabemos como age — e somos chamados a imitá-Lo. Por isso o capítulo culmina no perdão: “perdoei, conforme a tua palavra”.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 47

O pecado de Baal Peor e o zelo de Pinchas

פֶּרֶק מ״ז

Em Shitim, o conselho de Bilaam consegue o que as suas maldições não conseguiram: Israel é seduzido à idolatria de Baal Peor, e cai uma praga. O zelo de Pinchas a detém — e o capítulo, ao honrar o seu ato, cerca o zelo de limites e o coroa com uma “aliança de paz”.

1
Rabi Elazar ben Arach diz: quando o Santo, bendito seja, desceu ao monte Sinai para dar a Torá a Israel, desceram com Ele sessenta miríades de anjos, correspondentes às sessenta miríades dos valentes de Israel, e coroaram todos os de Israel com a coroa do Nome Explícito. E, em todos aqueles dias, antes de chegarem àquele feito do bezerro, eram bons diante do Santo, bendito seja, como os anjos do serviço, e o anjo da morte não os dominava. E, quando fizeram o feito do bezerro, irou-se o Santo, bendito seja, com eles, e disse-lhes: “Eu pensava que fôsseis como os anjos do serviço, como está dito ‘Eu disse: vós sois divinos (elohim), e filhos do Altíssimo, todos vós’ (Tehilim 82:6); agora, ‘contudo, como homens morrereis, e como um dos príncipes caireis’” (Tehilim 82:7).
רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲרָךְ אוֹמֵר: כְּשֶׁיָּרַד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל הַר סִינַי לִיתֵּן הַתּוֹרָה לְיִשְׂרָאֵל, יָרְדוּ עִמּוֹ שִׁשִּׁים רִבּוֹא שֶׁל מַלְאָכִים כְּנֶגֶד שִׁשִּׁים רִבּוֹא שֶׁל גִּבּוֹרֵי יִשְׂרָאֵל, וּבִידָם זִינוֹת וּפְטָרוֹת, וְעִטְּרוּ אֶת כָּל יִשְׂרָאֵל כֶּתֶר שֵׁם הַמְפֹרָשׁ. וְכָל אוֹתָן הַיָּמִים עַד שֶׁלֹּא בָּאוּ לְאוֹתוֹ מַעֲשֶׂה, הָיוּ טוֹבִים לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא כְּמַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת, וְלֹא מָשַׁל בָּהֶם מַלְאַךְ הַמָּוֶת, וְלֹא הִשְׁלִיכוּ צוֹאָה כִּבְנֵי אָדָם. וְכֵיוָן שֶׁעָשׂוּ מַעֲשֵׂה הָעֵגֶל, כָּעַס הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עֲלֵיהֶם וַיֹּאמֶר לוֹ: סָבוּר הָיִיתִי שֶׁתִּהְיוּ כְּמַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֲנִי אָמַרְתִּי אֱלֹהִים אַתֶּם וּבְנֵי עֶלְיוֹן כֻּלְּכֶם״. עַכְשָׁו ״אָכֵן כְּאָדָם תְּמוּתוּן וּכְאַחַד הַשָּׂרִים תִּפֹּלוּ״.
2
Rabi Yehudá diz: quando? Quando o homem veste as suas vestes de glória, é belo no seu aspecto e na sua dignidade. Assim Israel: quando trajavam aquele Nome, eram bons diante do Santo, bendito seja, como os anjos do serviço. E, quando fizeram o feito do bezerro, D’us se irou com eles; e naquela noite desceram aquelas sessenta miríades de anjos do serviço e tomaram de cada um o que neles tinham posto, e ficaram despidos da sua glória contra a sua vontade, como está dito: “e despojaram-se os filhos de Israel dos seus ornamentos” (Shemot 33:6).
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: אֵימָתַי? כְּשֶׁאָדָם לוֹבֵשׁ בִּגְדֵי תִּפְאַרְתּוֹ, יָפֶה בְּמַרְאֵהוּ וּבִכְבוֹדוֹ. כָּךְ יִשְׂרָאֵל, כְּשֶׁהָיוּ לוֹבְשִׁין אוֹתוֹ הַשֵּׁם, הָיוּ טוֹבִים לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא כְּמַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת. וְכֵיוָן שֶׁעָשׂוּ מַעֲשֵׂה הָעֵגֶל, כָּעַס עֲלֵיהֶם. וּבְאוֹתָהּ הַלַּיְלָה יָרְדוּ אוֹתָם שִׁשִּׁים רִבּוֹא שֶׁל מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת וְלָקְחוּ מֵהֶם כָּל אֶחָד וְאֶחָד מַה שֶּׁנָּתְנוּ עֲלֵיהֶם, וְנִמְצְאוּ עֲרוּמִים שֶׁלֹּא בִּרְצוֹנָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּתְנַצְּלוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל אֶת עֶדְיָם״. אֵין כְּתִיב כָּאן ״וַיְנַצְּלוּ״ אֶלָּא ״וַיִּתְנַצְּלוּ״. וְיֵשׁ אוֹמְרִים: מֵאֵלָיו הָיָה נִקְלָף.
Nota — “sois divinos... mas morrereis como homens”. A imagem das “coroas do Nome” retiradas após o bezerro exprime uma perda espiritual: Israel decaíra de uma elevação alcançada no Sinai. O versículo “Eu disse: sois elohim” não significa que sejam deuses (o ser humano não é divino) — “elohim” aqui denota um estatuto elevado, quase angélico, ao qual a Torá os erguera. A queda do bezerro custou essa altura; mas a história não termina aí — segue para a teshuvá e o perdão (caps. 45-46). A grandeza humana é frágil e precisa ser reconquistada.
3
Rabi Yehudá haNassí diz: em todos os lugares em que Israel se assentou no deserto e se descuidou, fizeram-se neles atos de idolatria, como está dito: “e assentou-se o povo a comer e a beber” — que está escrito a seguir? “e levantaram-se para folgar” (Shemot 32:6) — começaram a servir a idolatria. E outro escrito diz: “e habitou Israel em Shitim” — que está escrito ali? “e o povo começou a cair na imoralidade” (Bemidbar 25:1).
רַבִּי אוֹמֵר: כָּל יְשִׁיבוֹת שֶׁיָּשְׁבוּ יִשְׂרָאֵל בַּמִּדְבָּר עָשׂוּ בָהֶם עֲבוֹדָה זָרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּשֶׁב הָעָם לֶאֱכֹל וְשָׁתוֹ״. מַה כָּתוּב שָׁם? ״וַיָּקֻמוּ לְצַחֵק״ – הִתְחִילוּ עוֹבְדִים עֲבוֹדָה זָרָה. וּכְתִיב אַחַר אוֹמֵר: ״וַיֵּשֶׁב יִשְׂרָאֵל בַּשִּׁטִּים״, מַה כָּתוּב שָׁם? ״וַיָּחֶל הָעָם לִזְנוֹת״ – הִתְחִילוּ בִּזְנוּת.
4
Rabi Yehudá diz: está escrito “e o conselho dos ímpios está longe de mim” (Iyov 22:18) — este é o conselho de Bilaam, o ímpio, que aconselhou Midyan, e pelo qual caíram de Israel vinte e quatro mil. Pois ele lhes disse: “não podeis prevalecer contra este povo, a não ser que eles pequem diante do seu Criador”. E fizeram para si tendas fora do acampamento de Israel, e vendiam ali as suas mercadorias no mercado; e os jovens de Israel saíam para fora do acampamento e viam as filhas de Midyan, e foram seduzidos e desviaram-se atrás delas, como está dito: “e o povo começou a cair na imoralidade com as filhas de Moav” (Bemidbar 25:1).
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, כְּתִיב (איוב כב, יח): ״וַעֲצַת רְשָׁעִים רָחֲקָה מֶנִּי״, זֶה עֲצָתוֹ שֶׁל בִּלְעָם הָרָשָׁע שֶׁיָּעַץ לְמִדְיָן וְנָפְלוּ מִיִּשְׂרָאֵל אַרְבָּעָה וְעֶשְׂרִים אֶלֶף. שֶׁאָמַר לָהֶם: ״אֵין אַתֶּם יְכוֹלִין לִפְנֵי הָעָם הַזֶּה כִּי אִם חָטְאוּ לִפְנֵי קוֹנֵיהֶם״. וְעָשׂוּ לָהֶם חֲנֻיּוֹת חוּץ לְמַחֲנֵה יִשְׂרָאֵל וְהָיוּ מוֹכְרִין כָּל מִמְכָּרָן בַּשּׁוּק. וְכֵן עָשׂוּ, וְהָיוּ בַּחוּרֵי יִשְׂרָאֵל יוֹצְאִין חוּץ לְמַחֲנֵה יִשְׂרָאֵל וְרוֹאִין אֶת בְּנוֹת מִדְיָן שֶׁהָיוּ כּוֹחֲלוֹת עֵינֵיהֶן כְּזוֹנוֹת וְלָקְחוּ מֵהֶן נָשִׁים וְתָעוּ אַחֲרֵיהֶן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּחֶל הָעָם לִזְנוֹת אֶת בְּנוֹת מוֹאָב״.
Nota — o conselho de Bilaam: a sedução em vez da força. Bilaam, que não pôde amaldiçoar Israel (Bemidbar 22-24), descobre a sua verdadeira vulnerabilidade: “não podeis prevalecer contra este povo, a não ser que ele peque diante do seu Criador”. A lição é profunda e atemporal: a força de um povo (e de uma pessoa) está na sua integridade — quando ela se corrompe por dentro, nenhuma muralha o protege. O ataque mais perigoso não é o que vem de fora pela espada, mas o que seduz a alma à corrupção.
5
Shimon e Levi indignaram-se muito pela imoralidade no caso de Diná, como está dito: “e disseram: acaso será tratada a nossa irmã como uma prostituta?” (Bereshit 34:31), e cada um tomou a sua espada e puniu os homens de Shechem. Mas o príncipe Zimri da tribo de Shimon não se lembrou do que fizera o seu antepassado e não repreendeu os jovens de Israel; ele próprio, publicamente, caiu na imoralidade com a midianita, como está dito: “e o nome do homem de Israel que foi morto ...” (Bemidbar 25:14).
שִׁמְעוֹן וְלֵוִי קִנְּאוּ עַל הַזְּנוּת הַרְבֵּה מְאֹד, שֶׁאָמְרוּ ״וַיֹּאמְרוּ הַכְזוֹנָה יַעֲשֶׂה אֶת אֲחוֹתֵנוּ״, וְלָקְחוּ אִישׁ חַרְבּוֹ וְהָרְגוּ אֶת אַנְשֵׁי שְׁכֶם. וְהַנָּשִׂיא שֶׁל שֵׁבֶט שִׁמְעוֹן לֹא זָכַר מַה עָשָׂה זְקֵנוֹ וְלֹא גָּעַר בְּבַחוּרֵי יִשְׂרָאֵל. הוּא בְּעַצְמוֹ בְּפַרְהֶסְיָא בָּא בִּזְנוּת עַל הַמִּדְיָנִית, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְשֵׁם אִישׁ יִשְׂרָאֵל הַמֻּכֶּה״ וְכוּ'.
6
E todos os príncipes, e Moshé, e Elazar, e Pinchas viram o anjo destruidor a praga sobre o povo, e estavam sentados e chorando, e não sabiam o que fazer. Viu Pinchas que Zimri caíra publicamente na imoralidade com a midianita, e indignou-se com grande zelo, e arrebatou da mão de Moshé a lança, e correu atrás dele e o transpassou; e o Santo, bendito seja, recompensou-o. ... Por isso deu o Santo, bendito seja, boa recompensa a ele e aos seus filhos no sacerdócio: como está dito: “e dará ao sacerdote a espádua, as faces e o bucho” (Devarim 18:3).
וְכָל הַנְּשִׂיאִים וּמֹשֶׁה וְאֶלְעָזָר וּפִינְחָס רָאוּ מַלְאַךְ הַמַּשְׁחִית לָעָם, וְהָיוּ יוֹשְׁבִים וּבוֹכִים וְלֹא הָיוּ יוֹדְעִים מַה לַּעֲשׂוֹת. רָאָה פִּינְחָס אֶת זִמְרִי שֶׁבָּא בְּפַרְהֶסְיָא בִּזְנוּת עַל הַמִּדְיָנִית, וְקִנֵּא קִנְאָה גְּדוֹלָה וְחָטַף מִיָּדוֹ שֶׁל מֹשֶׁה אֶת הָרֹמַח, וַיָּרָץ מֵאַחֲרָיו וּדְקָרוֹ מֵאַחֲרֵי בֵּיתוֹ, וַיַּנַּח הָרֹמַח בְּקֻבָּתָהּ שֶׁל הָאִשָּׁה. לְפִיכָךְ נָתַן הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שָׂכָר טוֹב לוֹ וּלְבָנָיו בְּמַאֲכַל הַזְּרוֹעַ. וְנִתְפַּזְּרוּ הַלְּחָיַיִם, הַלֶּחִי שֶׁל הָאִישׁ וּלְחָיַיִם שֶׁל אִשָּׁה. לְפִיכָךְ נָתַן הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שָׂכָר טוֹב לְבָנָיו בְּמַאֲכַל הַלְּחָיַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְנָתַן לַכֹּהֵן הַזְּרֹעַ וְהַלְּחָיַיִם״.
Nota essencial — o zelo de Pinchas, com restrições. O ato de Pinchas, diante de uma profanação pública e flagrante, deteve a praga e foi aprovado — mas a tradição o cerca de limites severos, e não o transforma em modelo de violência. O Talmud (Sanhedrin 82a) ensina que “o zeloso pode agir, mas não se instrui ninguém a fazê-lo” — não é uma lei a ensinar nem a imitar; foi a resposta extraordinária a um instante único. E, decisivamente, a recompensa de D’us a Pinchas foi uma “aliança de paz” (brit shalom, Bemidbar 25:12): o zelo é coroado com paz, para que não se torne sede de sangue. A tradição racionalista lê aqui um aviso — o zelo, mesmo justo, precisa ser temperado e nunca glorificado (cf. o zelo de Shimon e Levi, censurado, cap. 38, e o de Eliyahu, repreendido, cap. 29).
7
Levantou-se Pinchas como um grande juiz e julgou Israel, como está dito: “e levantou-se Pinchas e executou juízo (vayfalel)” (Tehilim 106:30). Que significa esta expressão “vayfalel”? Como um grande juiz — assim como dizes “e o caso se dará aos juízes (pelilim)” (Shemot 21:22). ... E viu o Santo, bendito seja, o que fez Pinchas, e imediatamente encheu-se de misericórdia e deteve a praga.
קָם כְּדַיָּין גָּדוֹל וְשׁוֹפֵט וְשָׁפַט אֶת יִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּעֲמֹד פִּינְחָס וַיְפַלֵּל״. מָה הַלָּשׁוֹן הַזֶּה ״וַיְפַלֵּל״? כְּדַיָּן גָּדוֹל. כְּשֵׁם שֶׁאַתָּה אוֹמֵר: ״וְנָתַן בִּפְלִלִים״. וְהָיָה מַכֶּה אֶת בַּחוּרֵי יִשְׂרָאֵל כְּדֵי שֶׁיִּרְאוּ כָּל יִשְׂרָאֵל וְיִירָאוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְכָל יִשְׂרָאֵל יִשְׁמְעוּ וְיִירָאוּ״. וְרָאָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מַה שֶּׁעָשָׂה פִּינְחָס, וּמִיָּד נִתְמַלֵּא רַחֲמִים וְעָצַר הַמַּגֵּפָה.
8
Rabi Eliezer diz: chamou-se o nome de Pinchas pelo nome de Eliyahu — Eliyahu, de abençoada memória, dos habitantes de Guilad —, que fez Israel retornar à teshuvá, por seu intermédio no monte Guilad; e deu-lhe o Santo, bendito seja, boa recompensa, a ele e aos seus filhos justos, na aliança do sacerdócio eterno, como está dito: “e será para ele e para a sua descendência depois dele uma aliança de sacerdócio eterno” (Bemidbar 25:13).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: קָרָא שְׁמוֹ שֶׁל פִּינְחָס בִּשְׁמוֹ אֵלִיָּה, אֵלִיָּהוּ זָכוּר לַטּוֹב מִתּוֹשָׁבֵי הַגִּלְעָד, שֶׁעָשָׂה יִשְׂרָאֵל תְּשׁוּבָה [עַל יָדוֹ] בְּהַר גִּלְעָד, וְנָתַן לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שָׂכָר טוֹב וּלְבָנָיו הַצַּדִּיקִים לְמַעַן כְּהֻנַּת עוֹלָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיְתָה לּוֹ וּלְזַרְעוֹ אַחֲרָיו בְּרִית כְּהֻנַּת עוֹלָם״.
9
Rabi Elazar haModai diz: levantou-se Pinchas e decretou um anátema (cherem) sobre todo o Israel, pelo segredo do Nome Explícito e pela escrita gravada nas Tábuas, e pelo anátema do tribunal celeste e do tribunal terreno: que nenhum homem de Israel beba do vinho destinado à idolatria dos gentios daquele contexto — pois todo aquele vinho estava ligado à idolatria e à imoralidade, como está dito: “a imoralidade, o vinho e o mosto tomam o coração” (Hoshea 4:11); e outro escrito diz: “não estejas entre os que bebem vinho em excesso, entre os comilões de carne” (Mishlei 23:20).
רַבִּי אֶלְעָזָר הַמּוֹדָעִי אוֹמֵר: עָמַד פִּנְחָס וְחָרַם עַל כָּל יִשְׂרָאֵל בְּסוֹד שֵׁם הַמְפֹרָשׁ וּבַכְּתָב הַנִּכְתָּב עַל הַלּוּחוֹת, וּכְחֵרֶם בֵּית דִּין הָעֶלְיוֹן וּכְחֵרֶם בֵּית דִּין הַתַּחְתּוֹן, שֶׁלֹּא יִשְׁתֶּה אָדָם מִיִּשְׂרָאֵל מִיֵּינָם שֶׁל גּוֹיִם כִּי אִם בְּרֶפֶשׁ רַגְלֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְצֹאנִי מִרְמַס רַגְלֵיכֶם״. שֶׁכָּל יֵינָם שֶׁל גּוֹיִם לְעֲבוֹדָה זָרָה וְלִזְנוּת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״זְנוּת יַיִן וְתִירוֹשׁ יִקַּח לֵב״, וְכָתוּב אַחֵר אוֹמֵר: ״אַל תְּהִי בְסֹבְאֵי יָיִן בְּזֹלְלֵי בָשָׂר לָמוֹ״.
Nota — o decreto sobre o vinho. A proibição de beber o vinho ligado à idolatria (yayin nesech) foi, no seu contexto, uma medida protetora: o vinho das festas idólatras conduzia justamente à idolatria e à imoralidade de Baal Peor que o capítulo narra. Não é desprezo por pessoas, mas uma cerca contra a sedução que acabara de custar tantas vidas. A leitura racionalista a vê como prudência moral diante de um perigo concreto daquela época.
10
Rabi Pinchas diz: disse o Santo, bendito seja, a Moshé: “lembrais-vos do que vos fizeram estes midianitas, pelos quais caíram de Israel vinte e quatro mil homens? Pois, antes que sejas recolhido da vida, levanta-te e executa a vingança a justiça de Israel” (cf. Bemidbar 31:2).
רַבִּי פִּנְחָס אוֹמֵר: אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה, ״זְכוּרִים אַתֶּם מָה שֶׁעָשׂוּ לָכֶם הַמִּדְיָנִים הַלָּלוּ, שֶׁנָּפְלוּ מִיִּשְׂרָאֵל אַרְבָּעָה וְעֶשְׂרִים אֶלֶף אִישׁ? אֶלָּא עַד שֶׁלֹּא תֵאָסֵף, קוּם נְקֹם נִקְמַת יִשְׂרָאֵל״.
11
Que fez Moshé, nosso mestre, sobre ele a paz? Tomou mil homens de cada tribo, perfazendo doze mil, e o zeloso contra a imoralidade Pinchas por príncipe sobre eles; e tomaram os utensílios sagrados e as trombetas do alarme na sua mão, e foram à guerra. ... Começou Moshé a irar-se com eles, como está dito: “e irou-se Moshé com os oficiais do exército” (Bemidbar 31:14); e, na sua ira, retirou-se dele o espírito santo. Daqui aprendes que o iracundo (kapdan) perde toda a sua sabedoria; e foi Elazar quem viu e deu a instrução em seu lugar, como está dito: “e disse Elazar, o sacerdote, aos homens do exército ...: este é o estatuto da Torá que o Eterno ordenou a Moshé” (Bemidbar 31:21). Disse-lhes: “a Moshé ordenou, e a mim não ordenou — pois a ira lhe turvou a transmissão”.
מָה עָשָׂה מֹשֶׁה רַבֵּנוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם? לָקַח אֶלֶף אִישׁ מִכָּל שֵׁבֶט וְשֵׁבֶט, הֲרֵי שְׁנֵים עָשָׂר אֶלֶף, וְהַמְקַנֵּא עַל הַזְּנוּת נָשִׂיא עֲלֵיהֶם, וְלָקְחוּ אֶת כְּלֵי הַקֹּדֶשׁ וַחֲצוֹצְרוֹת הַתְּרוּעָה בְּיָדוֹ וְהָלְכוּ וְשָׁבוּ אֶת בְּנוֹת מִדְיָן וְאָמַר: ״לֹא עַל אֵלּוּ נָפְלוּ מִיִּשְׂרָאֵל אַרְבָּעָה וְעֶשְׂרִים אֶלֶף?״ שֶׁנֶּאֱמַר: ״הֵן הֵנָּה הָיוּ לִבְנֵי יִשְׂרָאֵל בִּדְבַר בִּלְעָם״. הִתְחִיל כּוֹעֵס עֲלֵיהֶם שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּקְצֹף מֹשֶׁה עַל פְּקוּדֵי הֶחָיִל״ וּבְכַעֲסוֹ נִסְתַּלְּקָה רוּחַ הַקֹּדֶשׁ מֵעָלָיו. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד שֶׁהַקַּפְּדָן מְאַבֵּד אֶת כָּל חָכְמָתוֹ, וְרָאָה אֶלְעָזָר וְקִבֵּל מֵאַחֲרָיו, שֶׁנֶּאֱמַר (במדבר לא, כא): ״וַיֹּאמֶר אֶלְעָזָר הַכֹּהֵן אֶל אַנְשֵׁי הַצָּבָא וְכוּ' זֹאת חֻקַּת הַתּוֹרָה אֲשֶׁר צִוָּה ה' אֶת מֹשֶׁה״. אָמַר לָהֶם: ״לְמֹשֶׁה צִוָּה וְאוֹתִי לֹא צִוָּה״.
Nota — “o iracundo perde a sua sabedoria”. O capítulo fecha com um ensino notável: na sua ira, “retirou-se de Moshé o espírito santo”, e ele errou na transmissão da lei, que Elazar teve de dar em seu lugar. A tradição extrai daqui (e o Rambam codifica em Hilchot Deot) que a ira está entre os piores traços — “quem se enfurece é como quem serve a idolatria” —, pois turva o juízo e faz até o sábio perder a sabedoria (Pesachim 66b). Até Moshé, o maior dos profetas, não escapa à regra: a raiva cega. É um dos avisos morais mais práticos da Torá.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A vulnerabilidade moral

O conselho de Bilaam revela a chave do capítulo: Israel não pode ser vencido pela força nem pela maldição, mas pode cair por dentro, pelo pecado. A força de um povo é a sua integridade; corrompida ela, perde-se a proteção. É um diagnóstico atemporal — o inimigo mais perigoso é a sedução que enfraquece a alma, não a espada que ataca o corpo.

O zelo e os seus limites

Pinchas detém a praga, e o seu ato é honrado — mas a tradição o cerca de cautela: “o zeloso pode agir, mas não se ensina a fazê-lo” (Sanhedrin 82a). Não é modelo de vingança, e sim resposta extraordinária a um instante único. E o sinal decisivo está na recompensa: uma aliança de paz. O zelo só é digno quando temperado e voltado à paz — não há, na tradição, glória na violência, mesmo a aparentemente justa.

A ira que cega

O fecho é uma lição de ouro: a ira fez Moshé — o maior dos profetas — perder, por um momento, o espírito de sabedoria, e Elazar teve de ensinar em seu lugar. “O iracundo perde a sua sabedoria.” Para o Rambam, a ira está entre os piores traços do caráter. Mesmo a indignação justa, quando vira fúria, turva o juízo. O capítulo, que tratou do zelo, termina advertindo contra a raiva: a virtude precisa de domínio de si.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 48

A escravidão no Egito e os segredos da redenção

פֶּרֶק מ״ח

Da promessa feita a Avraham “entre as partes” à libertação ao meio-dia: o capítulo percorre a cronologia do exílio, a dureza da servidão, o nascimento de Moshé salvo das águas, os sinais diante do Faraó e os “segredos da redenção” guardados de pai a filho — e por que a salvação chega à luz do dia.

1
Rabi Yochanan ben Zakai começou a expor: “Naquele dia o Eterno fez aliança com Avram, dizendo ...” (Bereshit 15:18). Disse Avraham diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, eis que a mim não deste descendência, e Tu me dizes ‘à tua descendência dei esta terra’? Em que conhecerei que a herdarei?” (Bereshit 15:8). Disse-lhe o Santo, bendito seja: “Avraham, todo o mundo inteiro subsiste pela Minha palavra, e tu não crês na Minha palavra, ao dizeres ‘em que conhecerei que a herdarei?’ Por tua vida, duas vezes ‘conhecer conhecerás’ (yado‘a teda‘)”, como está dito: “e disse a Avram: ‘conhecer conhecerás que a tua descendência será peregrina...’” (Bereshit 15:13).
רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי פָּתַח: ״בַּיּוֹם הַהוּא כָּרַת ה' אֶת אַבְרָם בְּרִית לֵאמֹר״, אָמַר אַבְרָהָם לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, הֵן לִי לֹא נָתַתָּ זֶרַע, וְאַתָּה אוֹמֵר אֵלַי ״לְזַרְעֲךָ נָתַתִּי אֶת הָאָרֶץ הַזֹּאת״? בַּמֶּה אֵדַע כִּי אִירָשֶׁנָּה? אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: אַבְרָהָם, כָּל הָעוֹלָם כֻּלּוֹ בִּדְבָרַי הוּא עוֹמֵד, וְאֵין אַתָּה מַאֲמִין בִּדְבָרַי? אֶלָּא אַתָּה אוֹמֵר ״בַּמֶּה אֵדַע כִּי אִירָשֶׁנָּה״? חַיֶּיךָ, שְׁנֵי פְּעָמִים יָדוֹעַ תֵּדַע, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיֹּאמֶר לְאַבְרָם יָדֹעַ תֵּדַע״.
2
Rabi Elazar ben Azaria diz: e não habitaram Israel no Egito senão duzentos e dez anos. Sabe que assim é — vem e vê: quando Yossef desceu ao Egito tinha dezessete anos, e aos trinta esteve diante do Faraó; e houve sete anos de fartura e dois de fome antes que Yaakov descesse, como está dito: “pois há dois anos a fome está na terra” (Bereshit 45:6) — eis trinta e nove anos. E Levi, filho de Yaakov, era seis anos mais velho que Yossef, e na sua descida ao Egito tinha quarenta e cinco anos, e os anos da sua vida no Egito foram noventa e dois — eis para Levi cento e trinta e sete anos. A vida de Levi foi de cento e trinta e sete anos; e na sua descida ao Egito a sua mulher lhe deu Yocheved, sua filha, como está dito: “e o nome da mulher de Amram era Yocheved, filha de Levi” (Bemidbar 26:59). E aos cento e trinta anos Yocheved deu à luz Moshé, e Moshé tinha oitenta anos ao postar-se diante do Faraó — eis ao todo duzentos e dez anos. E aqui a Escritura diz: “e os servirão, e os afligirão, quatrocentos anos” (Bereshit 15:13).
רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה אוֹמֵר: וַהֲלֹא לֹא יָשְׁבוּ יִשְׂרָאֵל בְּמִצְרַיִם אֶלָּא מָאתַיִם וְעֶשֶׂר שָׁנִים? תֵּדַע לְךָ שֶׁהוּא כֵּן, בֹּא וּרְאֵה: כְּשֶׁיָּרַד יוֹסֵף לְמִצְרַיִם הָיָה בֶּן שְׁבַע עֶשְׂרֵה שָׁנָה, וּבֶן שְׁלֹשִׁים שָׁנָה עָמַד לִפְנֵי פַרְעֹה, וְשֶׁבַע שְׁנֵי שָׂבָע וּשְׁתֵּי שָׁנִים רָעָב עַד שֶׁלֹּא יָרַד יַעֲקֹב, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי זֶה שְׁנָתַיִם הָרָעָב״. הֲרֵי תִּשְׁעָה וּשְׁלֹשִׁים שָׁנָה. וְלֵוִי בֶּן יַעֲקֹב הָיָה גָּדוֹל מִיּוֹסֵף שֵׁשׁ שָׁנִים, וּבִירִידָתוֹ לְמִצְרַיִם הָיָה בֶּן חָמֵשׁ וְאַרְבָּעִים שָׁנָה, וּשְׁנֵי חַיָּיו בְּמִצְרַיִם שְׁתַּיִם וְתִשְׁעִים שָׁנָה. הֲרֵי כֻּלָּם מֵאָה וּשְׁלֹשִׁים וָשֶׁבַע שָׁנָה. חַיֵּי לֵוִי הָיוּ שְׁלֹשִׁים וּמְאַת שָׁנָה, וּבִירִידָתוֹ לְמִצְרַיִם יָלְדָה לוֹ אִשְׁתּוֹ אֶת יוֹכֶבֶד בִּתּוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְשֵׁם אֵשֶׁת עַמְרָם יוֹכֶבֶד בַּת לֵוִי״. וּבַת מֵאָה וּשְׁלֹשִׁים שָׁנָה יָלְדָה אֶת מֹשֶׁה, וּמֹשֶׁה בֶּן שְׁמֹנִים שָׁנָה בְּעָמְדוֹ לִפְנֵי פַרְעֹה. הֲרֵי כֻּלָּם מָאתַיִם וְעֶשֶׂר שָׁנִים. וְכָאן הוּא אוֹמֵר: ״וַעֲבָדוּם וְעִנּוּ אֹתָם אַרְבַּע מֵאוֹת שָׁנָה״.
3
Disse Rabi Elazar ben Arach: não disse o Santo, bendito seja, a Avraham esse prazo senão a partir da hora em que ele teve descendência, como está dito: “pois peregrina será a tua descendência em terra que não é sua” (Bereshit 15:13), e está escrito: “pois em Yitzchak será chamada a tua descendência” (Bereshit 21:12). E desde que nasceu Yitzchak até que Israel saiu do Egito foram quatrocentos anos. Disse-lhe o outro: mas está escrito “e a habitação dos filhos de Israel ... foi de quatrocentos e trinta anos” (Shemot 12:40)! Resposta: cinco anos antes de Yaakov, nosso pai, vir ao Egito, nasceram a Yossef duas tribos, Menashé e Efraim, e eles são de Israel e desceram ao Egito — eis a contagem. Foram quatrocentos e trinta anos, dias e noites, e o Santo, bendito seja, saltou o termo adiantou o fim pelo mérito dos três pais, que são as colunas do mundo, e pelo mérito das mães, que são as colinas do mundo. E sobre eles diz a Escritura: “a voz do meu amado, eis que vem, saltando sobre os montes, pulando sobre as colinas” (Shir haShirim 2:8).
אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲרָךְ: לֹא אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְאַבְרָהָם אֶלָּא מִשָּׁעָה שֶׁהָיָה לוֹ זֶרַע, שֶׁנֶּאֱמַר ״כִּי גֵר יִהְיֶה זַרְעֲךָ בְּאֶרֶץ לֹא לָהֶם״, וּכְתִיב ״כִּי בְיִצְחָק יִקָּרֵא לְךָ זָרַע״. וּמִשֶּׁנּוֹלַד יִצְחָק עַד שֶׁיָּצְאוּ יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם אַרְבַּע מֵאוֹת שָׁנָה. אָמַר לוֹ: וַהֲרֵי כָּתוּב ״וּמוֹשַׁב בְּנֵי יִשְׂרָאֵל אַרְבַּע מֵאוֹת וּשְׁלֹשִׁים שָׁנָה״. שֶׁיָּשְׁבוּ יִשְׂרָאֵל בְּמִצְרַיִם חָמֵשׁ שָׁנִים קוֹדֶם שֶׁבָּא יַעֲקֹב אָבִינוּ לְמִצְרַיִם נוֹלְדוּ לוֹ לְיוֹסֵף שְׁנֵי שְׁבָטִים מְנַשֶּׁה וְאֶפְרַיִם, וְהֵם מִיִּשְׂרָאֵל וְיָרְדוּ בְּמִצְרַיִם. הֲרֵי מָאתַיִם וַחֲמֵשׁ עֶשְׂרֵה שָׁנָה יָמִים וְלֵילוֹת אַרְבַּע מֵאוֹת וּשְׁלֹשִׁים, שֶׁדִּלֵּג הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא הַקֵּץ בִּזְכוּת אָבוֹת שְׁלֹשָׁה שֶׁהֵם עַמּוּדֵי עוֹלָם וּבִזְכוּת אִמָּהוֹת שֶׁהֵם גִּבְעוֹת עוֹלָם. וַעֲלֵיהֶם הַכָּתוּב אוֹמֵר: ״קוֹל דּוֹדִי הִנֵּה זֶה בָּא מְדַלֵּג עַל הֶהָרִים מְקַפֵּץ עַל הַגְּבָעוֹת״.
4
Rabi Eliezer diz: todos aqueles anos em que Israel habitou no Egito, habitaram em segurança, sossego e tranquilidade, até que veio Ganon, dos filhos dos filhos de Efraim, e lhes disse: “Revelou-se a mim o Santo, bendito seja, para vos tirar do Egito”. Os filhos de Efraim, no orgulho do seu coração — por serem da semente da realeza e valentes na guerra —, tomaram as suas mulheres e os seus filhos e saíram do Egito antes do tempo; e os egípcios os perseguiram e mataram deles duzentos mil, todos valentes, como está dito: “os filhos de Efraim ...” (Tehilim 78:9).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: כָּל אוֹתָן הַשָּׁנִים שֶׁיָּשְׁבוּ יִשְׂרָאֵל בְּמִצְרַיִם יָשְׁבוּ בֶּטַח וְשַׁאֲנָן וְשָׁלֵו עַד שֶׁבָּא יָגְנוֹן מִבְּנֵי בָנָיו שֶׁל אֶפְרַיִם וְאָמַר לָהֶם ״נִגְלָה לִי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְהוֹצִיא אֶתְכֶם מִמִּצְרַיִם״. בְּנֵי אֶפְרַיִם בְּגֵאוּת לִבָּם שֶׁהֵם מִזֶּרַע הַמַּלְכוּת וְגִבּוֹרֵי כֹּחַ בַּמִּלְחָמָה, לָקְחוּ אֶת נְשֵׁיהֶם וְאֶת בְּנֵיהֶם וְיָצְאוּ מִמִּצְרַיִם, וְרָדְפוּ הַמִּצְרִיִּים אַחֲרֵיהֶם וְהָרְגוּ מֵהֶם מָאתַיִם אֶלֶף כֻּלָּם גִּבּוֹרִים, שֶׁנֶּאֱמַר ״בְּנֵי אֶפְרַיִם״ וְכוּ'.
Nota — o êxodo precipitado de Efraim. O relato dos filhos de Efraim, que saíram “antes do tempo” e pereceram, é lido pela tradição como advertência contra forçar o fim: por mais nobre a aspiração à liberdade, agir contra o tempo devido — por orgulho ou impaciência — traz ruína. A redenção verdadeira amadurece; não se arranca à força. É um contraponto à saída ao meio-dia, no tempo certo, com que o capítulo culmina (§19).
5
Rabi Yanai diz: não escravizaram os egípcios a Israel senão o equivalente a uma hora do dia do Santo, bendito seja. Oitenta e três anos e um terço antes de nascer Moshé, disseram os magos ao Faraó: “Está para nascer um que salvará Israel do Egito”. Pensou o Faraó e disse: “Lançai todos os meninos varões nascidos ao rio, e ele será lançado com eles, e a coisa ficará anulada”. Por isso lançaram todos os meninos ao rio.
רַבִּי יַנַּאי אוֹמֵר: לֹא הֶעֱבִידוּ מִצְרַיִם אֶת יִשְׂרָאֵל אֶלָּא שָׁעָה אַחַת מִיּוֹמוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, שְׁמוֹנִים וְשָׁלֹשׁ שָׁנִים וּשְׁלִישׁ שָׁנָה קֹדֶם שֶׁנּוֹלַד מֹשֶׁה, שֶׁאָמְרוּ הַחַרְטוּמִּים אֶל פַּרְעֹה: ״עָתִיד אֶחָד לְהִוָּלֵד וְהוּא מוֹשִׁיעַ אֶת יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם״. וְחָשַׁב פַּרְעֹה וְאָמַר: ״הַשְׁלִיכוּ אֶת כָּל הַיְּלוּדִים הַזְּכוּרִים לַיְּאוֹרָה, וְהוּא מֻשְׁלָךְ עִמָּהֶם וְנִמְצָא הַדָּבָר בָּטֵל״. לְפִיכָךְ הִשְׁלִיכוּ כָּל הַיְּלוּדִים לַיְּאוֹרָה.
6
Isso foi três anos antes de nascer Moshé. E depois que ele nasceu, disseram: “Eis que ele nasceu e está oculto dos nossos olhos”. Disse-lhes o Faraó: “Já que ele nasceu, de agora em diante não lanceis os meninos ao rio; antes, ponde sobre eles um jugo pesado, para amargar a vida de seus pais com trabalho duro”, como está dito: “e amargaram a vida deles ...” (Shemot 1:14).
שָׁלֹשׁ שָׁנִים קֹדֶם שֶׁנּוֹלַד מֹשֶׁה. וּלְאַחַר שֶׁנּוֹלַד אָמְרוּ: ״הִנֵּה נוֹלַד וְהוּא כָּמוּס מֵעֵינֵינוּ״. אָמַר לָהֶם: ״הוֹאִיל וְנוֹלַד, מִכָּאן וְאֵילָךְ אַל תַּשְׁלִיכוּ הַיְּלוּדִים לַיְּאוֹרָה, אֶלָּא תְּנוּ עֲלֵיהֶם עֹל קָשֶׁה לְמָרֵר חַיֵּי אֲבוֹתֵיהֶם בַּעֲבוֹדָה קָשָׁה״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְמָרְרוּ אֶת חַיֵּיהֶם״ וְכוּ'.
7
Rabi Yehudá haNassí diz: viram os pais de Moshé o menino — o seu semblante como um anjo de D’us —, e o circuncidaram ao oitavo dia, e chamaram o seu nome Yekutiel.
רַבִּי אוֹמֵר: רָאוּ אֲבוֹתָיו שֶׁל מֹשֶׁה אֶת הַנַּעַר, תָּאֳרוֹ כְּמַלְאַךְ אֱלֹהִים, וּמָלוּ אוֹתוֹ לִשְׁמוֹנָה יָמִים וְקָרְאוּ אֶת שְׁמוֹ יְקוּתִיאֵל.
8
Rabi Shimon diz: “bom” (tov) o chamaram, como está dito: “e viu que ele era bom” (Shemot 2:2). E o esconderam em casa três meses; e, após três meses, puseram-no numa cesta de junco e o deixaram à margem do rio. E tudo é manifesto diante do Santo, bendito seja: a filha do Faraó estava ferida de chagas dolorosas e não podia banhar-se em água quente. Veio banhar-se no rio e viu o menino chorando, e estendeu a mão e o segurou — e foi curada. Disse: “Este menino é um justo”, e o manteve com vida. E todo aquele que mantém uma só alma com vida é como se tivesse mantido um mundo inteiro, e todo aquele que destrói uma só alma é como se tivesse destruído um mundo inteiro. Por isso, mereceu ela a vida deste mundo e a vida do mundo vindouro.
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: ״טוֹב״ קָרְאוּ אוֹתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתֵּרֶא אֹתוֹ כִּי טוֹב הוּא״. וְהֶחְבִּיאוּהוּ בַּבַּיִת שְׁלֹשָׁה חֳדָשִׁים, וּלְאַחַר שְׁלֹשָׁה נָתְנוּ אוֹתוֹ בְּתֵבַת גֹּמֶא וְהִשְׁלִיכוּהוּ עַל שְׂפַת הַיְאוֹר. וְהַכֹּל צָפוּי לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וְהָיְתָה בַּת פַּרְעֹה מְנֻגַּעַת בִּנְגָעִים קָשִׁים וְלֹא הָיְתָה יְכוֹלָה לִרְחֹץ בְּחַמִּין. בָּאָה לִרְחֹץ בַּיְאוֹרָה וְרָאֲתָה אֶת הַנַּעַר בּוֹכֶה, וְשָׁלְחָה יָדָהּ וְהֶחֱזִיקָה בּוֹ וְנִתְרַפְּאָה. אָמְרָה: ״הַנַּעַר הַזֶּה צַדִּיק הוּא״, וְקִיְּמַתּוּ לְחַיִּים. וְכָל הַמְקַיֵּם נֶפֶשׁ אַחַת כְּאִלּוּ קִיֵּם עוֹלָם מָלֵא, וְכָל מְאַבֵּד נֶפֶשׁ אַחַת כְּאִלּוּ מְאַבֵּד עוֹלָם מָלֵא. לְפִיכָךְ זָכְתָה לְחַיֵּי הָעוֹלָם הַזֶּה וּלְחַיֵּי הָעוֹלָם הַבָּא.
Nota — “quem salva uma só alma salva um mundo inteiro”. Note quem profere e encarna este princípio: a filha do Faraó — uma gentia — que salva um bebê hebreu e, por isso, “merece a vida deste mundo e do mundo vindouro”. É uma afirmação luminosa da tradição: o valor infinito de cada vida humana (cada pessoa é um mundo), e que os justos de todas as nações têm parte no mundo vindouro (Rambam, Hilchot Teshuvá 3:5; Hilchot Melachim 8:11). A bondade não tem nacionalidade.
9
E todos os filhos do palácio do Faraó o criavam, como está dito: “e foi naqueles dias que Moshé cresceu, e saiu aos seus irmãos” (Shemot 2:11). Saiu dali para o acampamento de Israel e viu um dos feitores do Faraó ferindo um dos filhos de Kehat, os levitas, que eram dos seus irmãos, como está dito: “e viu um homem egípcio ferindo um homem hebreu” (Shemot 2:11). Começou a feri-lo com a espada dos seus lábios pelo Nome e o ocultou no meio do acampamento, como está dito: “e feriu o egípcio e o escondeu na areia” (Shemot 2:12) — e “areia” não é senão Israel, como está dito: “e será o número dos filhos de Israel como a areia do mar” (Hoshea 2:1).
וְכָל בְּנֵי פַּלְטֵרִין שֶׁל פַּרְעֹה הָיוּ מְגַדְּלִין אוֹתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי בַיָּמִים הָהֵם וַיִּגְדַּל מֹשֶׁה וַיֵּצֵא אֶל אֶחָיו״. יָצָא מִשָּׁם אֶל מַחֲנֵה יִשְׂרָאֵל וְרָאָה אֶחָד מִנּוֹגְשֵׂי פַּרְעֹה מַכֶּה אֶת אֶחָד מִבְּנֵי הַקְּהָתִי הַלְוִיִּם שֶׁהֵם מֵאֶחָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּרְא אִישׁ מִצְרִי מַכֶּה אִישׁ עִבְרִי״. הִתְחִיל מְקַלְּלוֹ בְּחֶרֶב שְׂפָתָיו וּטְמָנוֹ בְּתוֹךְ הַמַּחֲנֶה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּךְ אֶת הַמִּצְרִי וַיִּטְמְנֵהוּ בַּחוֹל״. וְאֵין חוֹל אֶלָּא יִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיָה מִסְפַּר בְּנֵי יִשְׂרָאֵל כְּחוֹל הַיָּם״.
10
Saiu no segundo dia e viu dois homens hebreus que brigavam, e disse ao ímpio Datan: “Por que feres o teu próximo?” (Shemot 2:13). Disse-lhe Datan: “Que pretendes? Com a espada que tens na boca queres matar-me, assim como mataste o egípcio?”, como está dito: “acaso pensas em matar-me ...?” (Shemot 2:14). Não está escrito ali “pretendes”, mas sim “dizes” — pelo poder da palavra.
יָצָא בַּיּוֹם הַשֵּׁנִי וְרָאָה שְׁנֵי אֲנָשִׁים עִבְרִים נִצִּים, וַיֹּאמֶר לָרָשָׁע: ״לָמָּה תַכֶּה רֵעֶךָ?״ אָמַר לוֹ דָּתָן: ״מָה אַתָּה מְבַקֵּשׁ? בַּחֶרֶב שֶׁבְּפִיךָ אַתָּה מְבַקֵּשׁ לְהָרְגֵנִי כְּשֵׁם שֶׁהָרַגְתָּ אֶת הַמִּצְרִי?״ שֶׁנֶּאֱמַר: ״הַלְהָרְגֵנִי אַתָּה אוֹמֵר״. ״אַתָּה מְבַקֵּשׁ״ אֵין כְּתִיב כָּאן, אֶלָּא ״אַתָּה אוֹמֵר״.
11
E quando vieram Moshé e Aharon ao Faraó e lhe disseram: “Assim diz o Eterno, D’us dos hebreus: deixa ir o Meu povo, para que Me sirva”, disse-lhes: “Quem é o Eterno, para que eu obedeça à sua voz? Não conheço o Eterno” (Shemot 5:2). Lançou Aharon a sua vara, e ela se tornou serpente; também eles lançaram as suas varas, e elas se tornaram serpentes; e a vara de Aharon correu e engoliu as varas deles, como está dito: “e a vara de Aharon engoliu as varas deles” (Shemot 7:12).
וּכְשֶׁבָּאוּ מֹשֶׁה וְאַהֲרֹן אֶל פַּרְעֹה וְאָמְרוּ לוֹ: ״כֹּה אָמַר ה' אֱלֹהֵי הָעִבְרִים, שַׁלַּח עַמִּי וְיַעַבְדֻנִי״, אָמַר לָהֶם: ״מִי ה' אֲשֶׁר אֶשְׁמַע בְּקוֹלוֹ? לֹא יָדַעְתִּי אֶת ה'״. הִשְׁלִיךְ אַהֲרֹן אֶת מַטֵּהוּ וְנַעֲשָׂה נָחָשׁ שָׂרָף, וְגַם הִשְׁלִיכוּ אֶת מַטֵּיהֶם וְנַעֲשׂוּ נְחָשִׁים, וְרָץ מַטֵּה אַהֲרֹן וּבָלַע אֶת מַטּוֹתָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּבְלַע מַטֵּה אַהֲרֹן אֶת מַטֹּתָם״.
12
Meteu Moshé a mão no peito e a tirou leprosa. Meteram eles as mãos nos peitos e as tiraram leprosas, e não foram curados até o dia da sua morte. E cada praga que o Santo, bendito seja, trazia sobre o Egito, eles acrescentavam praga sobre praga imitando, até que o Santo, bendito seja, trouxe sobre eles as úlceras (shechin), e não puderam manter-se de pé para fazer o mesmo, como está dito: “e os magos não podiam manter-se diante de Moshé” (Shemot 9:11).
הִכְנִיס יָדוֹ לְחֵיקוֹ וְהוֹצִיאָהּ מְצֹרַעַת. הִכְנִיסוּ יָדָם לְחֵיקָם וְהוֹצִיאוּם מְצֹרָעוֹת, וְלֹא נִתְרַפְּאוּ עַד יוֹם מוֹתָם. וְכָל מַכָּה וּמַכָּה שֶׁהֵבִיא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּמִצְרַיִם, הֵם הָיוּ מוֹסִיפִים מַכָּה עַל מַכָּה, עַד שֶׁהֵבִיא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עֲלֵיהֶם אֶת הַשְּׁחִין, וְלֹא יָכְלוּ לַעֲמֹד וְלַעֲשׂוֹת כֵּן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְלֹא יָכְלוּ הַחַרְטֻמִּים״.
13
Rabi Akivá diz: os carrascos do Faraó sufocavam os de Israel nas paredes das casas e entre os tijolos, e eles clamavam de dentro das paredes da casa, e o Santo, bendito seja, ouvia o seu clamor, como está dito: “e ouviu D’us o seu clamor” (Shemot 2:24). E ainda: queimavam os seus filhos primogênitos na fornalha de fogo, como está dito: “e a vós o Eterno tomou e vos tirou da fornalha de ferro” (Devarim 4:20); e D’us os mediu com a mesma medida, como está dito: “Àquele que feriu o Egito nos seus primogênitos ...” (Tehilim 136:10).
רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר: אִסְפַּלָאטוֹרִים שֶׁל פַּרְעֹה הָיוּ מַחֲנִיקִין אֶת יִשְׂרָאֵל בַּקִּירוֹת שֶׁל בָּתִּים וּבֵין הַלְּבֵנִים, וְהָיוּ צוֹעֲקִים מִתּוֹךְ קִירוֹת הַבַּיִת, וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שׁוֹמֵעַ צַעֲקָתָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשְׁמַע אֱלֹהִים אֶת צַעֲקָתָם״. וְעוֹד, שֶׁהָיוּ שׂוֹרְפִים אֶת בְּנֵיהֶם הַבְּכוֹרִים בְּכוּר הָאֵשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאֶתְכֶם לָקַח ה' וַיּוֹצִא אֶתְכֶם מִכּוּר הַבַּרְזֶל״, וּמָדַד לָהֶם בְּאוֹתָהּ מִדָּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לְמַכֵּה מִצְרַיִם בִּבְכוֹרֵיהֶם״.
Nota — a crueldade da opressão. As imagens terríveis da servidão (§§12, 17) — pessoas emparedadas, crianças perdidas na argila — exprimem, na linguagem do midrash, o horror da tirania que reduz seres humanos a material de construção. E o “medir com a mesma medida” (a praga dos primogênitos) ensina que a crueldade volta sobre quem a pratica: há justiça moral no mundo. A Torá faz da memória dessa dor a raiz de um mandamento repetido — “amarás o estrangeiro, pois fostes estrangeiros” (cf. Shemot 23:9).
14
E quando saíram Israel do Egito, que fez o Santo, bendito seja? Derrubou todas as imagens das suas abominações, e elas se quebraram, como está dito: “e nos seus deuses o Eterno executou juízos” (Bemidbar 33:4).
וּכְשֶׁיָּצְאוּ יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם, מָה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? הִשְׁלִיךְ כָּל צַלְמֵי תּוֹעֲבוֹתֵיהֶם וְנִשְׁתַּבְּרוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּבֵאלֹהֵיהֶם עָשָׂה ה' שְׁפָטִים״.
15
Rabi Yossi diz: os egípcios profanavam violentavam os de Israel e as suas mulheres com eles. Kidaiá, filho de Dan, casou-se com uma mulher da sua tribo, Shelomit bat Divri; e naquela noite veio sobre ele um feitor do Faraó e o matou, e veio sobre a sua mulher, e ela concebeu e deu à luz um filho. ... E quando saíram Israel do Egito, esse filho começou a injuriar e a blasfemar o Nome do D’us de Israel, como está dito: “e o filho da mulher israelita pronunciou blasfemando o Nome” (Vayikrá 24:11).
רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: הַמִּצְרִיִּים הָיוּ מְטַמְּאִין אֶת כָּל יִשְׂרָאֵל וְלִנְשֵׁיהֶם עִמָּם. כִּידָיָיה בְּנוֹ שֶׁל דָּן נָשָׂא אִשָּׁה מִשִּׁבְטוֹ, שְׁלוֹמִית בַּת דִּבְרִי, וּבְאוֹתָהּ הַלַּיְלָה בָּאוּ עָלָיו נוֹגֵשׂ פַּרְעֹה וַהֲרָגוּ אוֹתוֹ וּבָאוּ עַל אִשְׁתּוֹ, וְהָרָתָה וְיָלְדָה בֵּן. וְהַכֹּל הוֹלֵךְ אַחַר הַזֶּרַע: אִם מָתוֹק לְמָתוֹק, אִם מַר לְמַר. וּכְשֶׁיָּצְאוּ יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם, הִתְחִיל מְחָרֵף וּמְגַדֵּף בְּשֵׁם אֱלֹהֵי יִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּקֹּב בֶּן הָאִשָּׁה הַיִּשְׂרְאֵלִית אֶת הַשֵּׁם״.
Nota — “tudo segue a semente”? Não há determinismo na Torá. A frase do midrash sobre o blasfemo — fruto de violência — não ensina hereditariedade do caráter nem destino pelo sangue. A tradição racionalista afirma, com toda a força, o livre-arbítrio: cada pessoa é julgada pelos seus próprios atos, e ninguém carrega a culpa de outro (Devarim 24:16; Rambam, Hilchot Teshuvá 5). A prova está no próprio capítulo: a filha do Faraó, vinda da casa do tirano, escolhe o bem e merece o mundo vindouro (§7). A origem não acorrenta a alma — a escolha, sim, a define.
16
Rabi Yishmael diz: os cinco dedos da mão direita do Santo, bendito seja, são todos fundamento de redenções. Com o dedo mínimo mostrou a Noach o que fazer na arca, como está dito: “e isto é o que farás dela” (Bereshit 6:15). Com o segundo dedo, junto ao mínimo, feriu o Egito, como está dito: “e disseram os magos ao Faraó: dedo de D’us é isto” (Shemot 8:15) — e quantos foram feridos pelo dedo? Dez pragas. Com o terceiro dedo escreveu as Tábuas, como está dito: “tábuas de pedra, escritas com o dedo de D’us” (Shemot 31:18). Com o quarto dedo mostrou a Moshé o que dariam os filhos de Israel como resgate de suas almas, como está dito: “isto darão” (Shemot 30:13). Com o polegar e toda a mão — na linguagem profética — o Santo, bendito seja, no porvir há de subjugar os filhos de Esav, que são os seus adversários, e os filhos de Yishmael, que são os seus inimigos, como está dito: “levante-se a tua mão sobre os teus adversários, e todos os teus inimigos sejam exterminados” (Michá 5:8).
רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר: חֲמִשָּׁה אֶצְבָּעוֹת שֶׁל יַד יְמִינוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא כֻּלָּם יְסוֹד גְּאֻלּוֹת. אֶצְבַּע קְטַנָּה הֶרְאָה לְנֹחַ מַה לַּעֲשׂוֹת בַּתֵּבָה, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְזֶה אֲשֶׁר תַּעֲשֶׂה אֹתָהּ״. אֶצְבַּע שְׁנִיָּה לַקְּטַנָּה בָּהּ הִכָּה אֶת מִצְרַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיֹּאמְרוּ הַחַרְטֻמִּים אֶל פַּרְעֹה אֶצְבַּע אֱלֹהִים הִיא״. וְכַמָּה לָקוּ בָּאֶצְבַּע? עֶשֶׂר. אֶצְבַּע שְׁלִישִׁית לַקְּטַנָּה בָּהּ כָּתַב אֶת הַלּוּחוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר ״לֻחֹת אֶבֶן כְּתוּבִים בְּאֶצְבַּע אֱלֹהִים״. אֶצְבַּע רְבִיעִית שֶׁהִיא שְׁנִיָּה לַבֹּהֶן בָּהּ הֶרְאָה לְמֹשֶׁה מַה יִּתְּנוּ בְּנֵי יִשְׂרָאֵל פִּדְיוֹן נַפְשָׁם, שֶׁנֶּאֱמַר ״זֶה יִתְּנוּ״. הַבֹּהֶן וְכָל הַיָּד כֻּלָּהּ עָתִיד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְהַכּוֹת בָּהֶם אֶת בְּנֵי עֵשָׂו שֶׁהֵם צָרָיו וְאֶת בְּנֵי יִשְׁמָעֵאל שֶׁהֵם אוֹיְבָיו, שֶׁנֶּאֱמַר ״תָּרֹם יָדְךָ עַל צָרֶיךָ וְכָל אֹיְבֶיךָ יִכָּרֵתוּ״.
Nota — “bnei Esav” e “bnei Yishmael” na linguagem profética. Na coda profética (§15), “filhos de Esav” e “filhos de Yishmael” não designam povos vivos nem nenhuma nação contemporânea, mas, no idioma simbólico-histórico do midrash, os grandes impérios opressores (Edom/Roma e outros) — a tirania que esmaga os fracos, como o Egito o fizera. O que a profecia anuncia é o fim da opressão, não de seres humanos. A Torá afirma a dignidade universal — todo ser humano é imagem de D’us (Bereshit 1:27) — e que os justos de todas as nações têm parte no mundo vindouro.
17
Rabi Eliezer diz: as cinco letras que se desdobram as letras finais dentre todas as letras da Torá são todas sinal do segredo das redenções. Kaf-kaf — Avraham, nosso pai, foi redimido de Ur dos caldeus, como está dito: “vai-te (lech lecha) da tua terra” (Bereshit 12:1). Mem-mem — por ele foi redimido Yitzchak, nosso pai, da mão dos pelishtim, como está dito: “aparta-te de nós (lech me‘imanu)” (Bereshit 26:16). Nun-nun — por ele foi redimido Yaakov, nosso pai, como está dito: “livra-me, rogo (hatzileni na), da mão de meu irmão” (Bereshit 32:12). Pe-pe — por ele foram redimidos os nossos pais do Egito, como está dito: “certamente vos visitei (pakod pakadti)” (Shemot 3:16). Tsadi-tsadi — por ele, no porvir, o Santo, bendito seja, redimirá Israel da servidão dos quatro reinos e lhes dirá: “um renovo fiz brotar (tsemach tsimachti) para vós”, como está dito: “e lhe dirás: assim diz o Eterno dos Exércitos: eis o homem cujo nome é Renovo (Tsemach), e debaixo dele tudo brotará” (Zechariá 6:12). E todas essas tradições não foram entregues senão a Avraham, nosso pai; e Avraham as entregou a Yitzchak, e Yitzchak a Yaakov, e Yaakov entregou o segredo da redenção a Yossef, como está dito: “e D’us certamente vos visitará” (Bereshit 50:24). E Yossef, seu filho, entregou o segredo da redenção a seus irmãos. E Asher entregou o segredo da redenção a Serach, sua filha. E quando vieram Moshé e Aharon aos anciãos de Israel e fizeram os sinais diante de seus olhos, foram eles a Serach bat Asher e lhe disseram: “Veio um homem a nós e fez tais e tais sinais diante de nossos olhos”. Disse-lhes: “Não há nesses sinais nada de real por si”. Disseram-lhe: “Mas ele disse ‘pakod pakadti’!”. Disse-lhes: “Ele é o homem destinado a redimir Israel do Egito, pois assim ouvi de meu pai — pe e pe, ‘pakod pakadti’”. Imediatamente o povo creu no seu D’us e no seu enviado, como está dito: “e creu o povo, e ouviram que o Eterno visitara o seu povo” (Shemot 4:31).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: חֲמִשָּׁה אוֹתִיּוֹת שֶׁנִּכְפְּלוּ בְּכָל הָאוֹתִיּוֹת שֶׁבַּתּוֹרָה כֻּלָּם לְסוֹד גְּאֻלּוֹת. כָּ״ף כָּ״ף – אַבְרָהָם אָבִינוּ נִגְאַל מֵאוּר כַּשְׂדִּים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לֶךְ לְךָ מֵאַרְצְךָ״. מֵ״ם מֵ״ם – נִגְאַל בּוֹ יִצְחָק אָבִינוּ מִיַּד פְּלִשְׁתִּים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לֵךְ מֵעִמָּנוּ״. נוּ״ן נוּ״ן – נִגְאַל בּוֹ יַעֲקֹב אָבִינוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הַצִּילֵנִי נָא מִיַּד אָחִי״. פֵּ״א פֵּ״א – בּוֹ נִגְאֲלוּ אֲבוֹתֵינוּ מִמִּצְרַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״פָּקֹד פָּקַדְתִּי״. צָדִ״י צָדִ״י – בּוֹ עָתִיד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לִגְאֹל אֶת יִשְׂרָאֵל מִשִּׁעְבּוּד אַרְבַּע מַלְכֻיּוֹת וְלֹאמַר לָהֶם: ״צֶמַח צִמַּחְתִּי לָכֶם״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאָמַרְתָּ אֵלָיו כֹּה אָמַר ה' צְבָאוֹת לֵאמֹר הִנֵּה אִישׁ צֶמַח שְׁמוֹ וּמִתַּחְתָּיו יִצְמָח״. וְכֻלָּם לֹא נִמְסְרוּ אֶלָּא לְאַבְרָהָם אָבִינוּ, וְאַבְרָהָם מְסָרָן לְיִצְחָק, וְיִצְחָק מְסָרָן לְיַעֲקֹב, וְיַעֲקֹב מָסַר סוֹד הַגְּאֻלָּה לְיוֹסֵף, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וֵאלֹהִים פָּקֹד יִפְקֹד אֶתְכֶם״. וְיוֹסֵף בְּנוֹ מָסַר סוֹד הַגְּאֻלָּה לְאֶחָיו וְאָמַר לָהֶם: ״פָּקֹד יִפְקֹד אֱלֹהִים אֶתְכֶם״. וַאֲשֶׁר מָסַר סוֹד הַגְּאֻלָּה לְסֶרַח בִּתּוֹ. וּכְשֶׁבָּאוּ מֹשֶׁה וְאַהֲרֹן אֵצֶל זִקְנֵי יִשְׂרָאֵל וְעָשׂוּ הָאוֹתוֹת לְעֵינֵיהֶם, הָלְכוּ אֵצֶל סֶרַח בַּת אָשֵׁר. אָמְרוּ לָהּ: בָּא אָדָם אֶחָד אֶצְלֵנוּ וְעָשָׂה אוֹתוֹת לְעֵינֵינוּ כָּךְ וְכָךְ. אָמְרָה לָהֶם: אֵין בָּאוֹתוֹת הָאֵלּוּ מַמָּשׁ. אָמְרוּ לָהּ: וַהֲרֵי אָמַר ״פָּקֹד יִפְקֹד אֱלֹהִים אֶתְכֶם״. אָמְרָה לָהֶם: הוּא הָאִישׁ הֶעָתִיד לִגְאֹל אֶת יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם, שֶׁכֵּן שָׁמַעְתִּי מֵאַבָּא פֵּ״ה וּפֵּ״ה – ״פָּקֹד פָּקַדְתִּי״. מִיָּד הֶאֱמִינוּ הָעָם בֵּאלֹהֵיהֶם וּבִשְׁלוּחוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּאֲמֵן הָעָם וַיִּשְׁמְעוּ כִּי פָקַד ה' אֶת עַמּוֹ״.
18
Rabi Akivá diz: os feitores do Faraó feriam os de Israel para que fizessem a conta dos tijolos em dobro, como está dito: “e a conta dos tijolos que faziam antes ...” (Shemot 5:8). E os egípcios não davam palha a Israel, como está dito: “palha não se dá aos teus servos” (Shemot 5:16). E os de Israel iam recolher o restolho no deserto, e o carregavam nos seus jumentos — eles, suas mulheres, seus filhos e suas filhas. E o restolho do deserto furava os seus calcanhares, e o sangue saía e se misturava à argila. Rachel, neta de Metushelach, estava grávida, à beira de dar à luz, e pisava a argila com o seu marido; e saiu a criança das suas entranhas e se misturou à argila, e subiu o seu clamor diante do Trono da Glória. E naquela noite desceu o anjo Michael e a elevou diante do Trono da Glória; e naquela mesma noite desceu o Santo, bendito seja, e feriu os primogênitos do Egito, como está dito: “e foi à meia-noite, e o Eterno feriu todo primogênito” (Shemot 12:29).
רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר: נוֹגְשֵׂי פַּרְעֹה הָיוּ מַכִּין לְיִשְׂרָאֵל לַעֲשׂוֹת תֹּכֶן לְבֵנִים בְּכֶפֶל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאֶת מַתְכֹּנֶת הַלְּבֵנִים אֲשֶׁר הֵם עוֹשִׂים תְּמוֹל שִׁלְשׁוֹם״. וְהַמִּצְרִים לֹא הָיוּ נוֹתְנִים תֶּבֶן לְיִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״תֶּבֶן אֵין נִתָּן לַעֲבָדֶיךָ״. וְהָיוּ יִשְׂרָאֵל מְקוֹשְׁשִׁין אֶת הַקַּשׁ בַּמִּדְבָּר, וְהָיוּ עוֹמְסִין אוֹתוֹ בַּחֲמוֹרֵיהֶם וּנְשֵׁיהֶם וּבְנֵיהֶם וּבְנֵי בְנֵיהֶם וּבְנוֹתֵיהֶם. וְהַקַּשׁ שֶׁל מִדְבָּר הָיָה נוֹקֵב אֶת עֲקֵבֵיהֶם, וְהַדָּם הָיָה יוֹצֵא וּמִתְבּוֹסֵס בַּחֹמֶר. רָחֵל בַּת בְּנוֹ שֶׁל מְתוּשֶׁלַח הָיְתָה הָרָה לָלֶדֶת, וְרָמְסָה בַחֹמֶר עִם בַּעְלָהּ. וְיָצָא הַוָּלָד מִתּוֹךְ מֵעֶיהָ וְנִתְעָרֵב בְּתוֹךְ הַחֹמֶר, וְעָלְתָה צַעֲקָתָהּ לִפְנֵי כִּסֵּא הַכָּבוֹד. וּבְאוֹתָהּ הַלַּיְלָה יָרַד מִיכָאֵל הַמַּלְאָךְ וְהֶעֱלָהוּ לִפְנֵי כִּסֵּא הַכָּבוֹד. וְאוֹתוֹ הַלַּיְלָה יָרַד הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְהִכָּה בְּכוֹרֵי מִצְרַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי בַּחֲצִי הַלַּיְלָה וַה' הִכָּה כָל בְּכוֹר״.
19
Rabi Yehudá diz: toda aquela noite os de Israel comiam, bebiam, alegravam-se e louvavam ao seu D’us em alta voz, e os egípcios clamavam com amargura de alma pela praga que sobre eles viera de repente, como está dito: “pois não havia casa em que não houvesse um morto” (Shemot 12:30).
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: כָּל אוֹתוֹ הַלַּיְלָה הָיוּ יִשְׂרָאֵל אוֹכְלִין וְשׁוֹתִין וּשְׂמֵחִין וּמְהַלְּלִין לֵאלֹהֵיהֶם בְּקוֹל גָּדוֹל, וְהַמִּצְרִיִּים צוֹעֲקִים בְּמַר נֶפֶשׁ עַל הַמַּגֵּפָה שֶׁבָּאָת עֲלֵיהֶם פִּתְאוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי אֵין בַּיִת אֲשֶׁר אֵין שָׁם מֵת״.
20
Disse o Santo, bendito seja: “Se Eu tirar Israel de noite, dirão: ‘agora, na escuridão, fez Ele os seus feitos’. Pois eis que os tirarei ao meio-dia e na força do sol”, como está dito: “e foi naquele mesmo dia em pleno dia que o Eterno tirou os filhos de Israel” (Shemot 12:51).
אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: אִם אֲנִי מוֹצִיא אֶת יִשְׂרָאֵל בַּלַּיְלָה, יֹאמְרוּ ״עַכְשָׁו בַּלַּיְלָה עָשָׂה מַעֲשָׂיו״. אֶלָּא הֲרֵינִי מוֹצִיאָם בַּחֲצִי הַיּוֹם וּבִגְבוּרַת הַשֶּׁמֶשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי בְּעֶצֶם הַיּוֹם הַזֶּה הוֹצִיא ה' אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל״.
21
E pelo mérito de três coisas saíram os filhos de Israel do Egito: não trocaram a sua língua, não se delataram uns aos outros, e guardaram a unidade do Nome a fé num só D’us. E saíram os de Israel do Egito repletos de todo bem, de toda espécie de bênçãos — D’us lembrando a palavra que dissera a nosso pai Avraham: “e também a nação a quem servirão, Eu julgarei, e depois sairão com grande riqueza” (Bereshit 15:14).
וּבִזְכוּת שְׁלֹשָׁה דְבָרִים יָצְאוּ בְּנֵי יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם: לֹא הֶחֱלִיפוּ לְשׁוֹנָם, וְלֹא הִלְשִׁינוּ אִישׁ רֵעֵהוּ וּבְיִחוּד הַשֵּׁם. וַיֵּצְאוּ יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם מְלֵאִים כָּל טוּב מִמִּין בְּרָכוֹת, בְּזָכְרוֹ אֶת הַדָּבָר שֶׁאָמַר לְאָבִינוּ אַבְרָהָם ״וְגַם אֶת הַגּוֹי אֲשֶׁר יַעֲבֹדוּ דָּן אָנֹכִי וְאַחֲרֵי כֵן יֵצְאוּ בִּרְכֻשׁ גָּדוֹל״.
Nota — os três méritos da redenção. O capítulo fecha com um ensino de ética identitária: Israel mereceu a liberdade por preservar a língua, a integridade no trato mútuo (não se delatarem) e a fé num só D’us. Não são feitos heroicos, mas a fidelidade quieta a si mesmo — a memória de quem se é. Para a leitura racionalista, a verdadeira liberdade começa por dentro: um povo (e uma pessoa) só se liberta quando guarda a sua dignidade e a sua palavra.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A conta dos anos

O capítulo abre com um debate clássico sobre os “quatrocentos anos” do exílio (Bereshit 15:13) e os “quatrocentos e trinta” de Shemot 12:40 — contados de marcos diferentes (do nascimento de Yitzchak, da peregrinação dos pais). O fundo é teológico: o Santo “saltou o termo” pelo mérito dos patriarcas e das matriarcas. A história tem um ritmo, mas a misericórdia pode apressá-lo.

A dignidade de cada vida

No coração do capítulo está a filha do Faraó: uma mulher de fora de Israel que, ao salvar um bebê, ganha o mundo vindouro, e por cuja boca ecoa o princípio “quem salva uma vida salva um mundo”. Os sábios fazem questão de pôr essa verdade universal na boca de uma gentia — a bondade e a recompensa não conhecem fronteiras de povo.

A medida por medida

A crueldade do Egito — o sufoco nas paredes, a queima dos primogênitos — é respondida “na mesma medida”. O Radal e os comentadores leem aqui a justiça moral que rege a história: a opressão volta sobre o opressor. E a memória dessa dor torna-se, na Torá, a raiz da compaixão pelo estrangeiro — a lição que Israel deve levar para sempre.

O segredo guardado

As “letras desdobradas” e o “pakod pakadti” transmitido até Serach bat Asher exprimem, em chave poética, que a esperança da redenção foi guardada de geração em geração, como um segredo de família. A fé não é improviso: é uma corrente de memória — e, quando chega o enviado, o povo a reconhece porque já a trazia no coração.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 49

De Agag a Haman: as raízes da história de Purim

פֶּרֶק מ״ט

De Shaul que poupa Agag nasce, gerações depois, Haman; e da casa de Shaul nasce Mordechai. O capítulo liga a falha de uma obediência incompleta ao drama de Purim, lembra que nenhum império é forte diante de D’us — e abre a corte de Achashverosh, onde a história da redenção começa a se armar nos bastidores.

1
Rabi Shimon ben Yochai diz: quis o Santo, bendito seja, extirpar e destruir o mal de toda a semente de Amalek, e enviou Shaul ben Kish para executá-lo. E Shaul e o povo ouviram, mas a justiça que se ordenara não cumpriram por inteiro: pouparam Agag, como está dito: “e Shaul e o povo pouparam ...” (I Shmuel 15:9). Ouviu Shmuel e saiu ao encontro deles, e disse-lhes: “Poupastes em Amalek e deixastes dele um sobrevivente, e tomastes o melhor das ovelhas e do gado”. Disseram: “As ovelhas e o gado foram poupados para fazer deles sacrifícios ao teu D’us”. Disse-lhes: “Não há prazer para o Onipresente em holocaustos e sacrifícios, mas em ouvir a Sua voz e fazer a Sua vontade”, como está dito: “e disse Shmuel: acaso tem o Eterno tanto prazer em holocaustos ... como em que se obedeça à Sua voz? Eis que obedecer é melhor do que sacrificar” (I Shmuel 15:22).
רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַאי אוֹמֵר: רָצָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְהַכְרִית וּלְהַשְׁמִיד אֶת כָּל זֶרַע עֲמָלֵק, וְשָׁלַח לְשָׁאוּל בֶּן קִישׁ לְהַכְרִית וּלְהַשְׁמִיד כָּל זַרְעוֹ שֶׁל עֲמָלֵק. וְשָׁאוּל וְהָעָם שָׁמְעוּ וְלֹא חָסוּ עַל אָדָם בָּזוּי אֶלָּא עַל אֲגַג, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּחְמֹל שָׁאוּל וְהָעָם״. שָׁמַע שְׁמוּאֵל וַיֵּצֵא לִקְרָאתָם וְאָמַר לָהֶם: ״חֲמַלְתֶּם בַּעֲמָלֵק וְהוֹתַרְתֶּם שָׂרִיד מִמֶּנּוּ, וּמֵיטַב הַצֹּאן וְהַבָּקָר״. אָמְרוּ: ״הַצֹּאן וְהַבָּקָר לַעֲשׂוֹת בּוֹ זְבָחִים לֵאלֹהֶיךָ״. אָמַר לָהֶם: ״אֵין חֵפֶץ לַמָּקוֹם בְּעוֹלוֹת וּזְבָחִים, כִּי אִם לִשְׁמֹעַ בְּקוֹלוֹ וְלַעֲשׂוֹת רְצוֹנוֹ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר שְׁמוּאֵל הַחֵפֶץ לַה' בְּעֹלוֹת הִנֵּה שְׁמֹעַ מִזֶּבַח טוֹב״.
Nota essencial — Amalek, e “obedecer é melhor que sacrificar”. O mandamento contra Amalek (cf. cap. 44) não visa um povo vivo nem nenhuma etnia de hoje: na leitura da tradição, “Amalek” designa o princípio da crueldade gratuita — o que ataca os fracos e os exaustos sem causa (Devarim 25:18). É o mal a ser extirpado, não um grupo humano; a Torá afirma a dignidade de todo ser humano (Bereshit 1:27). E o clímax do trecho é uma das maiores frases proféticas: “obedecer é melhor do que sacrificar”. D’us não quer ritual sem retidão — quer obediência moral. É a alma do judaísmo racional: o culto vale pela conduta que o acompanha, nunca como substituto dela (cf. Yeshayahu 1:11-17; Rambam).
2
Rabi Pinchas diz: previu o Santo, bendito seja, que haveria de surgir de Agag um homem opressor e grande inimigo dos judeus — e quem é? Este é Haman, filho de Hamdata, o agagita, adversário de todos os judeus. E da semente de Shaul haveria de surgir um redentor e vingador defensor de Israel — e quem é? Este é Mordechai, filho de Yair, filho de Shimi, filho de Kish, o benjamita.
רַבִּי פִּנְחָס אוֹמֵר: צָפָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שֶׁעָתִיד לַעֲמֹד מֵאֲגַג אִישׁ צַר וְאוֹיֵב גָּדוֹל לַיְּהוּדִים, וְאֵי זֶה הוּא? זֶה הָמָן בֶּן הַמְּדָתָא הָאֲגָגִי צוֹרֵר כָּל הַיְּהוּדִים. וּמִזֶּרַע שָׁאוּל גּוֹאֵל וְנוֹקֵם לְיִשְׂרָאֵל, וְאֵי זֶה הוּא? זֶה מָרְדְּכַי בֶּן יָאִיר בֶּן שִׁמְעִי בֶּן קִישׁ אִישׁ יְמִינִי.
3
E ali se pôs Shmuel diante do Santo, bendito seja, orando e dizendo: “Senhor de todos os mundos! ...”. E lembrou os agravos da geração de Esav, que tomara mulheres estrangeiras, sacrificando e queimando incenso à idolatria, para amargar a vida de seus pais, como está dito: “e foram amargura de espírito para Yitzchak e para Rivká” (Bereshit 26:35). ... E ouviu Shaul a voz de Agag sussurrando em sua boca e dizendo: “Será possível que se afastou de mim o amargor da morte?”, como está dito: “certamente já se foi o amargor da morte” (I Shmuel 15:32). Disse-lhe Shmuel: “Assim como a tua espada a de Amalek desfilhou mulheres de Israel, assim entre as mulheres ficará desfilhada a tua mãe”, como está dito: “e disse Shmuel: assim como a tua espada desfilhou mulheres ...” (I Shmuel 15:33).
וְשָׁם עָמַד שְׁמוּאֵל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, מִתְפַּלֵּל וְאוֹמֵר: רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים! אַל תִּשְׁכַּח חֲטָאַת עֵשָׂו שֶׁעָשָׂה לְאָבִיו, שֶׁלָּקַח נָשִׁים נָכְרִיּוֹת מְזַבְּחוֹת וּמְקַטְּרוֹת לַעֲבוֹדָה זָרָה, לְמָרֵר שְׁנֵי חַיֵּי אֲבוֹתָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתִּהְיֶיןָ מֹרַת רוּחַ לְיִצְחָק וּלְרִבְקָה״. זְכֹר חֲטָאָתוֹ עַל בָּנָיו וְעַל בְּנֵי בָנָיו עַד סוֹף כָּל הַדּוֹרוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יִזָּכֵר עֲוֹן אֲבֹתָיו אֶל ה' וְחַטַּאת אִמּוֹ אַל תִּמָּח״. וְשָׁמַע שָׁאוּל אֶת קוֹל אֲגָג לוֹחֵשׁ בְּפִיו וְאוֹמֵר: אֶפְשָׁר סָר מִמֶּנִּי מַר הַמָּוֶת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אָכֵן סָר מַר הַמָּוֶת״. אָמַר לוֹ שְׁמוּאֵל: כְּשֵׁם שֶׁשִּׁכְּלָה חֶרֶב עֲמָלֵק זְקֵנֶיךָ אֶת בַּחוּרֵי יִשְׂרָאֵל מֵאֲחוֹרֵי הֶעָנָן וַיֵּשְׁבוּ נְשֵׁיהֶם שְׁכוּלוֹת וְאַלְמָנוֹת, (וּ)כִתְפִלַּת אֶסְתֵּר וְנַעֲרוֹתֶיהָ נֶהֶרְגוּ כָּל בְּנֵי עֲמָלֵק וַיֵּשְׁבוּ נְשֵׁיהֶם שְׁכוּלוֹת וְאַלְמָנוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר שְׁמוּאֵל כַּאֲשֶׁר שִׁכְּלָה נָשִׁים חַרְבֶּךָ״ וְכוּ'.
Nota — “a falha de Esav” na linguagem do midrash. A menção a Esav e a Amalek, na oração de Shmuel, pertence ao idioma simbólico-histórico da aggadá: representa a linhagem moral da crueldade que se opõe à aliança, não um povo existente hoje. O que a tradição condena é a conduta — a violência contra os indefesos —, não o sangue. Cada pessoa responde pelos seus próprios atos (Devarim 24:16).
4
A oração de Shmuel quebrou a força dos filhos de Agag de sobre Israel, como está dito: “e Shmuel despedaçou Agag perante o Eterno em Guilgal” (I Shmuel 15:33).
תְּפִלַּת שְׁמוּאֵל שִׁבְּרָה אֶת חֵילָם שֶׁל בְּנֵי אֲגָג מֵעַל יִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְשַׁסֵּף שְׁמוּאֵל אֶת אֲגָג לִפְנֵי ה' בַּגִּלְגָּל״.
5
Em tudo o Santo, bendito seja, realiza a Sua obra: aos soberbos Ele envia coisas ínfimas, para lhes dar a conhecer que a força do seu poderio nada é. Tito, o ímpio, entrou no Santo dos Santos e disse: “Nenhum adversário ou inimigo pode manter-se diante de mim”. Que fez o Santo, bendito seja? Enviou um único mosquito, que lhe entrou pelas narinas e o atormentou até a morte — para lhe dar a conhecer que a força do seu poderio nada é. E contra aqueles que se vangloriavam, enviou o Santo, bendito seja, um homem de grande estatura — Nebuchadnetzar é o seu nome — para lhes dar a conhecer que “não é pela força que o homem prevalece” (I Shmuel 2:9).
(אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״עָשָׂה שְׁלִיחוּתִי״) [בְּכָל הוּא עוֹשֶׂה שְׁלִיחוּתוֹ,] בַּגְּבוֹהִים הוּא שׁוֹלֵחַ עֲלֵיהֶם דְּבָרִים נְמוּכִים לְהוֹדִיעָם שֶׁאֵין כֹּחַ גְּבוּרָתָם מְאוּמָה. טִיטוּס הָרָשָׁע נִכְנַס לְבֵית קָדְשֵׁי הַקֳּדָשִׁים וְאָמַר: ״אֵין צַר וְאוֹיֵב יָכוֹל לַעֲמֹד לְפָנַי״. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? שָׁלַח יַתּוּשׁ אֶחָד וְנִכְנַס בְּחוֹטְמוֹ וְהָיָה מְהַלֵּךְ וְאוֹכֵל עַד שֶׁהִגִּיעַ לְמוֹחוֹ, וְנַעֲשָׂה אוֹתוֹ יַתּוּשׁ כְּמִין גּוֹזָל בֶּן יוֹנָה מִשְׁקַל שְׁנֵי לִיטְרִין, לְהוֹדִיעוֹ שֶׁאֵין כֹּחַ גְּבוּרָתוֹ מְאוּמָה. וְיִשְׂרָאֵל כְּשֶׁהָיוּ מְהַלְּכִים בְּבֵית קָדְשֵׁי הַקֳּדָשִׁים הָיוּ אוֹמְרִים: ״אֵין צַר וְאוֹיֵב יָכוֹל לַעֲמֹד בְּפָנֵינוּ״, מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? שָׁלַח עֲלֵיהֶם אִישׁ גָּבְהוֹ כְּבַרְהַמִּים נְבוּכַדְנֶצַּר שְׁמוֹ כְּבַרְהַמִּים, לְהוֹדִיעוֹ כִּי לֹא בְכֹחַ יִגְבַּר אִישׁ.
Nota — “não é pela força que o homem prevalece”. As imagens de Tito morto por um mosquito e do soberbo humilhado são aggadá — quadros vívidos, não entomologia. A lição é racional e atemporal: o tirano que se julga invencível é derrubado pela coisa mais ínfima; o poderio bruto “nada é” diante da ordem moral do mundo. É o mesmo princípio que abre o capítulo (a obediência acima do poder) e que ecoa no cântico de Chaná: “não é pela força que o homem prevalece” (I Shmuel 2:9).
6
Rabi Chakhinai diz: não fixou o Santo, bendito seja, prazo às monarquias opressoras, a não ser à servidão do Egito e ao reino de Bavel. À servidão do Egito, donde se sabe? Como está dito: “e os servirão, e os afligirão, quatrocentos anos” (Bereshit 15:13) — e o Santo, bendito seja, na abundância da Sua misericórdia e bondade, encurtou-o à metade: duzentos e dez anos. Ao reino de Bavel, donde? Como está dito: “ao cumprir-se para Bavel setenta anos ...” (Yirmiyahu 29:10).
רַבִּי חֲכִינַאי אוֹמֵר: לֹא נָתַן הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא קִצְבָה לַמַּלְכֻיּוֹת אֶלָּא לְשִׁעְבּוּד מִצְרַיִם וּלְמַלְכוּת בָּבֶל. לְשִׁעְבּוּד מִצְרַיִם מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַעֲבָדוּם וְעִנּוּ אֹתָם אַרְבַּע מֵאוֹת שָׁנָה״. וְעָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּרֹב רַחֲמָיו וַחֲסָדָיו וְקִצֵּר חֶצְיָים – מָאתַיִם וְעֶשֶׂר שָׁנִים. מַלְכוּת בָּבֶל מִנַּיִן? שֶׁנֶּאֱמַר: ״לְפִי מְלֹאת לְבָבֶל שִׁבְעִים שָׁנָה״.
7
Rabi Abahu diz: quarenta e cinco anos reinou Nebuchadnetzar. Sabe que assim é: na hora em que reinou e subiu a Jerusalém e subjugou Yehoyakim, e onze anos reinou sobre o reino de Tzidkiyahu — eis dezenove anos até que foi destruído o Templo. E desde que foi destruído o Templo, vinte e seis mais. Sabe que assim é — vem e vê: do exílio de Yehoyachin até que reinou Evil-Merodach, seu filho, foram trinta e sete anos, como está dito: “e foi no trigésimo sétimo ano do exílio de Yehoyachin, rei de Yehudá, no décimo segundo mês, aos vinte e sete do mês, que Evil-Merodach, rei de Bavel, no ano em que começou a reinar, levantou a cabeça de Yehoyachin, rei de Yehudá, e o tirou da casa do cárcere” (II Melachim 25:27).
רַבִּי אֲבָהוּ אוֹמֵר: אַרְבָּעִים וְחָמֵשׁ שָׁנִים מָלַךְ נְבוּכַדְנֶצַּר. תֵּדַע לְךָ שֶׁהוּא כֵּן, בְּשָׁעָה שֶׁמָּלַךְ וְעָלָה לִירוּשָׁלַיִם וְכָבַשׁ אֶת יְהוֹיָקִים, וְאַחַד עֶשְׂרֵה שָׁנָה מָלַךְ עַל מַלְכוּת צִדְקִיָּהוּ – הֲרֵי תְּשַׁע עֶשְׂרֵה שָׁנָה עַד שֶׁלֹּא חָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ. וּמִשֶּׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ – שִׁשָּׁה וְעֶשְׂרִים. תֵּדַע לְךָ שֶׁהוּא כֵּן, בֹּא וּרְאֵה: מִגָּלוּת יְהוֹיָכִין עַד שֶׁמָּלַךְ אֱוִיל מְרֹדַךְ בְּנוֹ – שְׁלֹשִׁים וָשֶׁבַע שָׁנָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי בִשְׁלֹשִׁים וָשֶׁבַע שָׁנָה לְגָלוּת יְהוֹיָכִין מֶלֶךְ יְהוּדָה, בִּשְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ בְּעֶשְׂרִים וְשִׁבְעָה לַחֹדֶשׁ, נָשָׂא אֱוִיל מְרֹדַךְ מֶלֶךְ בָּבֶל בִּשְׁנַת מַלְכוּתוֹ אֶת רֹאשׁ יְהוֹיָכִין מֶלֶךְ יְהוּדָה וַיֹּצֵא אוֹתוֹ מִבֵּית הַכֶּלֶא״.
8
Rabi Yonatan diz: o último dos reis da Média e da Pérsia foi Artachshasta, rei de Bavel, e trinta e dois anos reinou, como está dito: “e em todo este tempo não estive em Jerusalém, pois somente ao completar-se o trigésimo segundo ano de Artachshasta, rei de Bavel, fui ter com o rei; e ao fim de alguns dias pedi licença ao rei” (Nechemiá 13:6).
רַבִּי יוֹנָתָן אוֹמֵר: סוֹף מַלְכֵי מָדַי וּפָרַס הָיָה אַרְתַּחְשַׁשְׂתָּא מֶלֶךְ בָּבֶל, וּשְׁנַיִם וּשְׁלֹשִׁים שָׁנָה מָלַךְ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּבְכָל זֹאת לֹא הָיִיתִי בִירוּשָׁלִָם, כִּי אִם לִמְלֹאות שְׁלֹשִׁים וּשְׁתַּיִם שָׁנָה לְאַרְתַּחְשַׁשְׂתָּא מֶלֶךְ בָּבֶל, וּלְקֵץ הַיָּמִים נִשְׁאַלְתִּי מִן הַמֶּלֶךְ״.
9
Disse Rabi Tachaná: vem e vê a riqueza de Achashverosh, que era mais rico do que todos os reis da Média e da Pérsia, e sobre ele diz a Escritura: “e o quarto acumulará riqueza maior do que todos” (Daniel 11:2). E qual era a riqueza de Achashverosh? Que pôs leitos de ouro e de prata na praça da cidade, para mostrar a todos os povos a sua riqueza, como está dito: “leitos de ouro e de prata” (Ester 1:6). E todos os utensílios de uso de Achashverosh não eram de prata, mas de ouro. E quando trouxe os utensílios do Templo, todos os utensílios da sua casa pareciam mudar-se e tornar-se como chumbo diante deles, como está dito: “e havia vasos diversos uns dos outros” (Ester 1:7).
אָמַר רַבִּי תַּחֲנָא: בֹּא וּרְאֵה עָשְׁרוֹ שֶׁל אֲחַשְׁוֵרוֹשׁ, שֶׁהָיָה עָשִׁיר מִכָּל מַלְכֵי מָדַי וּפָרַס, וְעָלָיו הַכָּתוּב אוֹמֵר ״וְהָרְבִיעִי יַעֲשִׁיר עֹשֶׁר גָּדוֹל״. וּמַה הָיָה עָשְׁרוֹ שֶׁל אֲחַשְׁוֵרוֹשׁ? שֶׁהֶעֱמִיד מִטּוֹת זָהָב וָכֶסֶף בִּרְחוֹב הָעִיר לְהַרְאוֹת לְכָל הָעַמִּים עָשְׁרוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר ״מִטּוֹת זָהָב וָכֶסֶף״. וְכָל כְּלֵי תַשְׁמִישָׁיו שֶׁל אֲחַשְׁוֵרוֹשׁ לֹא הָיוּ בִּכְלֵי כֶסֶף אֶלָּא בִּכְלֵי זָהָב. וְהֵבִיא כְּלֵי בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, וְכָל כְּלֵי בֵיתוֹ כֻּלָּן הָיוּ מִשְׁתַּנִּין וְנַעֲשִׂין כְּעוֹפֶרֶת, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְכֵלִים מִכֵּלִים שׁוֹנִים״.
10
E sobre o pavimento do seu palácio havia pedras preciosas e pérolas, como está dito: “sobre um pavimento de pórfiro, mármore, madrepérola e pedras escuras” (Ester 1:6).
וְעַל רִצְפַּת פַּלְטֵרִין שֶׁלּוֹ הָיוּ אֲבָנִים טוֹבוֹת וּמַרְגָּלִיּוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עַל רִצְפַּת בַּהַט וָשֵׁשׁ וְדַר וְסֹחָרֶת״.
11
Rabi Eliezer diz: meio ano fez Achashverosh grandes banquetes para todos os povos, como está dito: “muitos dias, cento e oitenta dias” (Ester 1:4). E todo povo cujo alimento era preparado segundo as suas próprias regras — dava-se-lhe o seu alimento conforme o seu costume; cada povo segundo o seu, para cumprir o que está dito: “para fazer segundo a vontade de cada um” (Ester 1:8).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: חֲצִי שָׁנָה עָשָׂה אֲחַשְׁוֵרוֹשׁ סְעוּדוֹת גְּדוֹלוֹת לְכָל הָעַמִּים, שֶׁנֶּאֱמַר ״יָמִים רַבִּים שְׁמוֹנִים וּמְאַת יוֹם״. וְכָל עַם שֶׁהָיָה מַאֲכָלוֹ בְּטֻמְאָה – הָיָה נוֹתֵן מַאֲכָלוֹ בְּטֻמְאָה, וְכָל עַם שֶׁהָיָה מַאֲכָלוֹ בְּטָהֳרָה – הָיָה נוֹתֵן לוֹ מַאֲכָלוֹ בְּטָהֳרָה, לְקַיֵּם מַה שֶּׁנֶּאֱמַר ״לַעֲשׂוֹת כִּרְצוֹן אִישׁ וָאִישׁ״.
12
Rabi Shimon diz: era costume dos reis da Média, quando comiam e bebiam, trazerem as suas mulheres para serem exibidas sem pudor, dançando diante deles, para verem a sua beleza. E quando o vinho entrou no coração de Achashverosh, quis fazer o mesmo com a rainha Vashti — e ela era filha de reis. Quis que ela viesse diante dele exposta; e ela lhe mandou dizer: “Homem insensato e ébrio! Se eu vier diante de ti exposta e me virem assim, hão de desprezar-te à tua mesa; e, se virem que sou formosa, algum dos príncipes te matará na hora do vinho”. Quando o rei ouviu as suas palavras, ordenou que a executassem. E quando o vinho saiu do coração de Achashverosh, procurou a rainha Vashti e não a achou; disseram-lhe os príncipes do decreto que ele decretara contra ela, e começou a chorar pelo decreto que sobre ela fora decretado. E por que foi decretado contra ela tal decreto? Porque ela tomava as filhas de Israel e as forçava a trabalhar despidas no Shabat. Por isso foi decretado contra ela ... no Shabat, como está dito: “a Vashti, e o que ela fizera, e o que se decretara contra ela” (Ester 2:1).
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: כָּל מִנְהָגָן שֶׁל מַלְכֵי מָדַי, כְּשֶׁהָיוּ אוֹכְלִין וְשׁוֹתִין, הָיוּ מְבִיאִין נְשֵׁיהֶם גְּלוּיוֹת בָּשָׂר עֶרְוָה, מְשַׂחֲקוֹת וּמְרַקְּדוֹת לְפָנִים וְלִרְאוֹת בְּיֹפִי תֹּאֲרָן. וּכְשֶׁנִּכְנַס יַיִן בְּלִבּוֹ שֶׁל אֲחַשְׁוֵרוֹשׁ, בִּקֵּשׁ לַעֲשׂוֹת כֵּן לְוַשְׁתִּי הַמַּלְכָּה. וּבַת מְלָכִים הָיְתָה, וּבִקֵּשׁ שֶׁתָּבֹא לְפָנָיו עֲרֻמָּה. וְשָׁלְחָה לוֹ לֵאמֹר: ״אִישׁ שׁוֹטֶה וְשִׁכּוֹר! אִם אָבֹא לְפָנֶיךָ עֲרֻמָּה וְיִרְאוּ אוֹתִי בְּעֶרְוָה, יָבוּזוּ לְךָ בְּשֻׁלְחָנְךָ. וְאִם יִרְאוּ אוֹתִי שֶׁאֲנִי יְפַת תֹּאַר, אֶחָד מֵהַשָּׂרִים יַהֲרֹג אוֹתְךָ בִּשְׁעַת הַיַּיִן״. כְּשֶׁשָּׁמַע הַמֶּלֶךְ לִדְבָרֶיהָ, צִוָּה לְהָרְגָהּ. וּכְשֶׁיָּצָא הַיַּיִן מִלִּבּוֹ שֶׁל אֲחַשְׁוֵרוֹשׁ, בִּקֵּשׁ לוֹ אֶת וַשְׁתִּי הַמַּלְכָּה וְלֹא מְצָאָהּ. הִגִּידוּ לוֹ הַשָּׂרִים הַגְּזֵרָה שֶׁגָּזַר עָלֶיהָ, וְהִתְחִיל וּבוֹכֶה עַל הַגְּזֵרָה שֶׁנִּגְזְרָה עָלֶיהָ. וְלָמָּה נִגְזְרָה עָלֶיהָ גְּזֵרָה זוֹ? שֶׁהָיְתָה מְבִיאָה בְּנוֹת יִשְׂרָאֵל עֲרֻמּוֹת וְעוֹשׂוֹת בָּהֶן מְלָאכָה בְּשַׁבָּת. וְעַל זֶה נִגְזַר עָלֶיהָ גְּזֵרָה שֶׁתִּשָּׁחֵט עֲרֻמָּה בְּשַׁבָּת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֶת וַשְׁתִּי וְאֵת אֲשֶׁר עָשְׂתָה וְאֵת אֲשֶׁר נִגְזַר עָלֶיהָ״.
Nota — o episódio de Vashti. O relato midráshico (a exigência degradante, a recusa altiva, o castigo) é narrativa aggádica de “medida por medida”, e foi aqui vertido com discrição. Note que a própria tradição põe na boca de Vashti uma resposta cortante, e a Megillá registra a sua recusa — há, no texto, um repúdio à humilhação da mulher como espetáculo. A leitura sóbria retém a crítica à corte embriagada que trata pessoas como objetos, e não os pormenores escabrosos.
13
Rabi Zechariá diz: faz-se rolar o mérito por meio de quem é meritório. Por intermédio de Daniel rolou-se o reino de Ester, pois ele disse ao rei: “Não chores por ela, pois tudo o que fizeste, segundo a lei e a norma o fizeste; pois todo aquele que cumpre a justa ordem, o Santo, bendito seja, firma o seu reino”. E enviou o rei por todas as províncias que se fizesse conforme as suas palavras, como está dito: “que todo homem fosse senhor em sua casa” (Ester 1:22). E ainda disse ao rei: “Busquem-se para o rei moças virgens, formosas à vista” (cf. Ester 2:2). Está escrito aqui: “e a moça que parecer bem aos seus olhos” — esta é Ester; e o Santo, bendito seja, inclinou sobre ela graça e bondade aos olhos de todos os que a viam, como está dito: “e Ester alcançava graça aos olhos de todos os que a viam” (Ester 2:15).
רַבִּי זְכַרְיָה אוֹמֵר: מְגַלְגְּלִין זְכוּת עַל יְדֵי זַכַּאי. עַל יַד דָּנִיֵּאל נִתְגַּלְגְּלָה מַלְכוּת אֶסְתֵּר, שֶׁאָמַר לַמֶּלֶךְ: אַל יִבְכֶּה עָלֶיהָ, שֶׁכָּל מַה שֶּׁעָשִׂיתָ כַּדָּת וְכַשּׁוּרָה עָשִׂיתָ, שֶׁכָּל הַמְקַיֵּם אֶת הַתּוֹרָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מְקַיֵּם אֶת מַלְכוּתוֹ, שֶׁכָּךְ אָמְרָה תוֹרָה הָאִישׁ יִמְשֹׁל, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְהוּא יִמְשָׁל בָּךְ״. וְשָׁלַח הַמֶּלֶךְ בְּכָל הַמְּדִינוֹת לַעֲשׂוֹת כִּדְבָרָיו, שֶׁנֶּאֱמַר ״לִהְיוֹת כָּל אִישׁ שֹׂרֵר בְּבֵיתוֹ״. וְעוֹד אָמַר לַמֶּלֶךְ: ״יְבַקְשׁוּ לַמֶּלֶךְ נְעָרוֹת בְּתוּלוֹת טוֹבוֹת מַרְאֶה״, וְלֹא כָּל נְעָרוֹת אֶלָּא נְעָרוֹת יְפוֹת מַרְאֶה. ״וְהַנַּעֲרָה אֲשֶׁר תִּיטַב בְּעֵינָיו״ כְּתִיב כָּאן. וּכְתִיב לְהַלָּן ״וַתִּיטַב הַנַּעֲרָה בְּעֵינָיו״ – זוֹ אֶסְתֵּר, וְהִטָּה עָלֶיהָ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא חֵן וָחֶסֶד בְּעֵינֵי כָּל רוֹאֶיהָ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַתְּהִי אֶסְתֵּר נֹשֵׂאת חֵן בְּעֵינֵי כָּל רֹאֶיהָ״.
Nota — “cada homem senhor em sua casa”. O versículo (Ester 1:22) é parte do decreto da corte persa narrado na Megillá — descrição do mundo de Achashverosh, não o ideal de matrimônio da Torá. A visão judaica do casamento é a da parceria: a mulher como ezer kenegdo, par e companheira (Bereshit 2:18), e não súdita. O midrash relata o que a corte decretou; não o erige em norma.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

Obedecer é melhor que sacrificar

A falha de Shaul não foi falta de devoção — ele queria oferecer sacrifícios. Foi a obediência incompleta à justiça que se lhe ordenara. Daí a sentença de Shmuel, pilar do pensamento profético: D’us prefere a retidão da conduta ao esplendor do ritual. Os comentadores leem aqui a raiz da longa luta dos profetas contra a religião vazia — cerimônia sem moral é nada.

O fio que liga as gerações

De uma obediência deixada pela metade brota, gerações depois, Haman; e da mesma casa de Shaul brota Mordechai, que reparará a falha. O capítulo arma assim, nos bastidores, o drama de Purim: a história tem consequências longas, mas também oferece, sempre, a chance de reparação.

Nenhum império é forte

Tito e Nebuchadnetzar — os maiores poderes da terra — são lembrados para ensinar que “não é pela força que o homem prevalece”. Os sábios não negam o poder dos impérios; relativizam-no. Diante da ordem moral posta por D’us, a soberania bruta é frágil. É a mesma humildade que o capítulo pede de Shaul.

A providência discreta

A riqueza de Achashverosh, o banquete, a queda de Vashti, a ascensão de Ester — tudo parece acaso de corte. Mas o midrash já anuncia o que a Megillá guardará nas entrelinhas: por trás dos bastidores, “faz-se rolar o mérito por meio de quem é meritório”. A redenção de Purim se prepara sem milagres visíveis — na trama miúda dos acontecimentos.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 50

A reviravolta de Purim: a queda de Haman e a mão oculta

פֶּרֶק נ׳

Mordechai, o judeu que se recusa a curvar-se ao ídolo; Haman, que compra um povo para destruí-lo; e a noite em que o rei não consegue dormir. O capítulo narra a grande inversão de Purim — em que tudo “se volta ao contrário” — e nela a tradição enxerga a mão de D’us agindo justamente onde o Seu Nome não aparece.

1
“Havia um homem judeu em Shushan, a capital” (Ester 2:5). Rabi Shemaiá diz: por acaso não havia em Shushan, a capital, judeu além de Mordechai? Pois está escrito “e os judeus que estavam em Shushan” (Ester 9:15)! Se assim é, havia judeus em Shushan além de Mordechai — mas ele foi assim chamado por mérito: era descendente de famílias nobres, da semente da realeza, e ocupava-se da Torá; por isso foi chamado o seu nome “judeu” (yehudi).
״אִישׁ יְהוּדִי הָיָה בְּשׁוּשַׁן הַבִּירָה״ (אסתר ב, ה), רַבִּי שְׁמַעְיָה אוֹמֵר: וְכִי לֹא הָיָה בְּשׁוּשַׁן הַבִּירָה יְהוּדִי אֶלָּא מָרְדְּכַי בִּלְבַד? וַהֲא כְּתִיב ״וְהַיְּהוּדִים אֲשֶׁר בְּשׁוּשָׁן״! אִם כֵּן הָיוּ יְהוּדִים בְּשׁוּשָׁן זוּלַת מָרְדְּכַי, אֶלָּא שֶׁהָיָה בֶּן אֲבוֹת אַבְטִינָס שֶׁהָיָה מִזֶּרַע הַמְּלוּכָה וְהָיָה עוֹסֵק בַּתּוֹרָה, לְפִיכָךְ נִקְרָא שְׁמוֹ יְהוּדִי.
2
“E o seu nome era Mordechai” — porque a sua oração entrava diante do Santo, bendito seja, como o aroma da mirra pura (mor deror). “Filho de Yair” — que iluminava (me’ir) os semblantes na halachá. “Filho de Shimi” — descendente de Shimi da casa de Shaul. “Filho de Kish” — que bateu (hikish) às portas da misericórdia, e elas se lhe abriram. “Homem benjamita” — da semente de Binyamin.
וּשְׁמוֹ מָרְדֳּכַי, שֶׁהָיְתָה תְּפִלָּתוֹ נִכְנֶסֶת לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא כְּרֵיחַ מֹר דְּרוֹר. בֶּן יָאִיר, שֶׁהָיָה מֵאִיר פָּנִים בַּהֲלָכָה. בֶּן שִׁמְעִי, שֶׁיָּצָא לְקַלֵּל אֶת דָּוִד. בֶּן קִישׁ, [שֶׁהִקִּישׁ עַל דַּלְתֵי רַחֲמִים וְנִפְתְּחוּ לוֹ]. אִישׁ יְמִינִי, מִזֶּרַע מְיַמְּנִים וּמַשְׂמְאִילִים, שֶׁנֶּאֱמַר (וּבְנֵי בִנְיָמִין) [בְּנֵי אֶפְרַיִם] נוֹשְׁקֵי רוֹמֵי קָשֶׁת (תהלים עח, ט).
3
Rabi Shimon diz: vem e vê a sabedoria de Mordechai, que conhecia as setenta línguas, como está dito: “os que vieram com Zerubavel: Yeshua, Nechemiá, Mordechai, Bilshan ...” (Ezra 2:2). E ele se assentava à porta do rei para cuidar de que Ester e as suas servas não se contaminassem com nenhum alimento impuro. E ouviu dois eunucos do rei falando em língua caldaica e dizendo: “Agora o rei se deitará no leito do meio-dia, e quando se levantar e disser ‘dai-me um pouco de água’, poremos veneno mortal num jarro de ouro, e ele beberá e morrerá”. E Mordechai ouviu, entrou e contou a Ester, a rainha, e Ester o disse ao rei em nome de Mordechai. Daqui disseram: todo aquele que diz uma coisa em nome de quem a disse traz redenção ao mundo.
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: בֹּא וּרְאֵה חָכְמָתוֹ שֶׁל מָרְדְּכַי שֶׁהָיָה יוֹדֵעַ שִׁבְעִים לָשׁוֹן, שֶׁנֶּאֱמַר ״הַבָּאִים עִם זְרֻבָּבֶל יֵשׁוּעַ נְחֶמְיָה מָרְדֳּכַי בִּלְשָׁן״. וְהָיָה יוֹשֵׁב בְּשַׁעַר הַמֶּלֶךְ לִרְאוֹת שֶׁלֹּא תִּטְמָא אֶסְתֵּר וְנַעֲרוֹתֶיהָ בְּכָל מַאֲכָל טָמֵא, וְשָׁמַע שְׁנֵי סָרִיסֵי הַמֶּלֶךְ מְדַבְּרִים בִּלְשׁוֹן כַּשְׂדִּים וְאוֹמְרִים: ״עַכְשָׁו יִשְׁכַּב הַמֶּלֶךְ עַל מִשְׁכַּב הַצָּהֳרַיִם וּכְשֶׁיָּקוּם וְיֹאמַר תְּנוּ לִי מְעַט מַיִם, נִתֵּן בְּקִיתוֹן שֶׁל זָהָב סַם הַמָּוֶת וְהוּא יִשְׁתֶּה וְיָמוּת״. וְשָׁמַע מָרְדְּכַי וְנִכְנַס וְהִגִּיד לְאֶסְתֵּר הַמַּלְכָּה, וְאֶסְתֵּר הִגִּידָה לַמֶּלֶךְ בְּשֵׁם מָרְדְּכָי. מִכָּאן אָמְרוּ: כָּל הָאוֹמֵר דָּבָר בְּשֵׁם אוֹמְרוֹ מֵבִיא גְּאֻלָּה לָעוֹלָם.
Nota — “quem cita em nome de quem disse traz redenção”. Mordechai descobre o complô e o relata; Ester o transmite ao rei em nome de Mordechai — e é precisamente esse registro, lido anos depois na noite insone do rei, que desencadeia a salvação. Daí o princípio rabínico: dar o devido crédito a quem teve a ideia. É ética intelectual em estado puro — a honestidade de atribuir as palavras à sua fonte —, e o capítulo mostra que ela não é mera cortesia: é o fio de que pende toda a reviravolta.
4
E quando o rei se levantou do seu sono, disse aos dois eunucos que costumavam servir-lhe de beber: “Dai-me um pouco de água”. E trouxeram um jarro de ouro com veneno mortal dentro. Disse-lhes: “Derramai a água diante de mim”. Disseram-lhe: “Nosso senhor, o rei, é água límpida, boa e bela; por que a derramaríamos diante de ti?”. Disse-lhes: “Assim me subiu ao coração, que a derramásseis diante de mim”. E derramaram a água diante dele, e ele encontrou o veneno mortal dentro dela, e ordenou que os enforcassem, como está dito: “e foram ambos enforcados num madeiro” (Ester 2:23). E tudo o que se fazia diante do rei escreviam diante dele e depositavam no arquivo (achmeta) do rei; e quando o rei queria ver o que se passara, liam-se os livros. E escreveram a coisa que Mordechai relatara num livro, como está dito: “e escreveu-se no livro das crônicas” (Ester 2:23).
וּכְשֶׁעָמַד הַמֶּלֶךְ מִשְּׁנָתוֹ אָמַר לִשְׁנֵי סָרִיסָיו הַנְּהוּגִים לְהַשְׁקוֹתוֹ, ״תְּנוּ לִי מְעַט מַיִם״, וְהֵבִיאוּ קִיתוֹן שֶׁל זָהָב וְסַם הַמָּוֶת בְּתוֹכוֹ. אָמַר לָהֶם, ״שִׁפְכוּ הַמַּיִם לְפָנַי״. אָמְרוּ לוֹ, ״אֲדוֹנֵנוּ הַמֶּלֶךְ הֵם מַיִם בְּרוּרִים טוֹבִים וְיָפִים וְלָמָּה נִשְׁפְּכֵם לְפָנֶיךָ?״ אָמַר לָהֶם, ״כָּךְ עָלְתָה בְלִבִּי לְשָׁפְכָן לְפָנַי״. וְשָׁפְכוּ אֶת הַמַּיִם לְפָנָיו וּמָצָא סַם הַמָּוֶת בְּתוֹכָם וְצִוָּה לִתְלוֹתָן, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּתָּלוּ שְׁנֵיהֶם עַל עֵץ״, וְנִתְלוּ שְׁנֵיהֶם עַל עֵץ אֶחָד זֶה אַחַר זֶה, שֶׁנֶּאֱמַר ״עַל עֵץ״, וְאֵין כָּתוּב ״עַל עֵצִים״. וְכָל דָּבָר שֶׁהָיוּ עוֹשִׂים לִפְנֵי הַמֶּלֶךְ הָיוּ כּוֹתְבִים לְפָנָיו וּמַנִּיחִים בְּאַחְמְתָא שֶׁל מֶלֶךְ. וּכְשֶׁיִּרְצֶה הַמֶּלֶךְ לִרְאוֹת מַה שֶּׁעָבְרוּ עָלָיו קוֹרְאִין בַּסְּפָרִים וְהוּא יוֹדֵעַ מַה שֶּׁעָבְרוּ עָלָיו, וְכָתְבוּ אֶת הַדָּבָר שֶׁהִגִּיד מָרְדֳּכַי (לְאֶסְתֵּר) עַל סֵפֶר, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּכָּתֵב בְּסֵפֶר דִּבְרֵי הַיָּמִים״.
5
Rabi Pinchas diz: dois homens ricos se ergueram no mundo, um em Israel e um entre as nações do mundo: Korach em Israel e Haman entre as nações. ... E Achashverosh viu a sua riqueza e os seus dez filhos, escribas e secretários diante dele, e quis engrandecê-lo e exaltá-lo, como está dito: “engrandeceu o rei Achashverosh a Haman, filho de Hamdata” (Ester 3:1). E ordenou o rei que todos os povos se curvassem e se prostrassem diante dele. Que fez Haman? Fez para si uma imagem de ídolo bordada na sua veste e sobre o seu peito, de modo que todo aquele que se prostrava diante de Haman prostrava-se à idolatria que ele fizera. E Mordechai viu isso e não aceitou prostrar-se à idolatria, como está dito: “e Mordechai não se curvava nem se prostrava” (Ester 3:2). E Haman encheu-se de fúria e disse: “Estes judeus foram desde sempre adversários dos meus antepassados; agora direi ao rei, e ele os destruirá do mundo”. E entrou Haman diante de Achashverosh e lhe disse: “Meu senhor, o rei, há um povo disperso e espalhado entre os povos, ... e não convém ao rei deixá-los. Se ao rei parece bem, toma a metade do meu dinheiro e dá-me poder sobre eles”, como está dito: “se ao rei parece bem, escreva-se que sejam destruídos” (Ester 3:9). Disse-lhe o rei: “Eis que eles te são dados gratuitamente, e o dinheiro fique contigo”. E o espírito de santidade clama e diz: “Assim diz o Eterno: por nada fostes vendidos, e não será com prata que sereis resgatados” (Yeshayahu 52:3).
רַבִּי פִּנְחָס אוֹמֵר: שְׁנֵי עֲשִׁירִים עָמְדוּ בָּעוֹלָם, אֶחָד בְּיִשְׂרָאֵל וְאֶחָד בְּאֻמּוֹת הָעוֹלָם. קֹרַח בְּיִשְׂרָאֵל וְהָמָן בְּאֻמּוֹת הָעוֹלָם. קֹרַח שֶׁמָּצָא אוֹצָרוֹת שֶׁל זָהָב שֶׁל יוֹסֵף, וְהָמָן שֶׁלָּקַח כָּל אוֹצָרוֹת שֶׁל מַלְכֵי יְהוּדָה וְאֶת כָּל אוֹצָרוֹת שֶׁל קָדְשֵׁי הַקֳּדָשִׁים. וְרָאָה הַמֶּלֶךְ עָשְׁרוֹ וַעֲשֶׂרֶת בָּנָיו סוֹפְרִים וְכוֹתְבִין נוֹטְרִין לְפָנָיו, וְרָצָה הַמֶּלֶךְ לְגַדְּלוֹ וּלְרוֹמְמוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״גִּדַּל הַמֶּלֶךְ אֲחַשְׁוֵרוֹשׁ אֶת הָמָן בֶּן הַמְּדָתָא״. וְצִוָּה הַמֶּלֶךְ לִהְיוֹת כָּל עַם וָעַם כּוֹרְעִים וּמִשְׁתַּחֲוִים לְפָנָיו. מֶה עָשָׂה הָמָן? עָשָׂה לוֹ צֶלֶם מְרֻקָּם עַל בִּגְדוֹ וְעַל לִבּוֹ, וְכָל מִי שֶׁהָיָה מִשְׁתַּחֲוֶה לְהָמָן מִשְׁתַּחֲוֶה לַעֲבוֹדָה זָרָה שֶׁעָשָׂה. וְרָאָה מָרְדֳּכַי וְלֹא קִבֵּל לְהִשְׁתַּחֲווֹת לַעֲבוֹדָה זָרָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמָרְדֳּכַי לֹא יִכְרַע וְלֹא יִשְׁתַּחֲוֶה״. וְנִתְמַלֵּא עָלָיו חֵמָה וְאָמַר: ״הַיְּהוּדִים הַלָּלוּ שׂוֹנְאֵי אֲבוֹתַי הָיוּ מֵעוֹלָם, עַכְשָׁו אוֹמַר לַמֶּלֶךְ וִיאַבְּדֵם מִן הָעוֹלָם״. וְנִכְנַס הָמָן לִפְנֵי אֲחַשְׁוֵרוֹשׁ וְאָמַר לוֹ: ״אֲדֹנִי הַמֶּלֶךְ, יֶשְׁנוֹ עַם אֶחָד מְפֻזָּר וּמְפֹרָד בֵּין הָעַמִּים וְאֵינָם טוֹבִים לְךָ וְאֵינָם עוֹשִׂים רְצוֹנְךָ, וְלַמֶּלֶךְ אֵין שׁוֹוֶה לְהַנִּיחָם. אִם עַל הַמֶּלֶךְ טוֹב, קַח הַחֲצִי מִמָּמוֹנִי וְתֵן לִי רְשׁוּת עֲלֵיהֶם״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אִם עַל הַמֶּלֶךְ טוֹב יִכָּתֵב לְאַבְּדָם״. אָמַר לוֹ הַמֶּלֶךְ: ״הֲרֵי הֵם נְתוּנִים לְךָ בְּחִנָּם וְהַמָּמוֹן שֶׁאַתָּה נוֹתֵן אֵלַי בַּעֲבוּרָם יִהְיֶה שֶׁלְּךָ״. וְרוּחַ הַקֹּדֶשׁ צוֹוַחַת וְאוֹמֶרֶת: ״כֹּה אָמַר ה', חִנָּם נִמְכַּרְתֶּם וְלֹא בְכֶסֶף תִּגָּאֵלוּ״.
Nota — a recusa de Mordechai e a mecânica do ódio. Mordechai não se recusa a curvar-se por orgulho: o midrash explica que Haman fizera de si próprio um objeto de idolatria, e prostrar-se diante dele seria prostrar-se a um ídolo. A recusa é, portanto, de princípio — contra a auto-divinização do tirano. E note como a Meguilá diagnostica o ódio: Haman descreve os judeus como “um povo disperso, com leis diferentes”, que “não convém deixar” — a velha retórica do demagogo contra a minoria. A tradição expõe o mecanismo justamente para que se aprenda a reconhecê-lo.
6
Rabi Yossi diz: Haman era um general (istratelates), e escreveu cartas e decretos e lançou sortes consultando as constelações, para saber o dia propício — entre dia e dia, entre mês e mês, entre signo e signo, como está dito: “lançou pur, isto é, a sorte” (Ester 3:7). E escreveu cartas e enviou a todas as províncias a ordem de destruir, matar todos os judeus, do moço ao ancião, crianças e mulheres, no dia treze do mês de Adar. E Mordechai soube, e rasgou as suas vestes e vestiu saco e cinza, e saiu pela praça da cidade, como está dito: “e Mordechai soube tudo o que se havia feito” (Ester 4:1). E clamava e chorava, e dizia diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, juraste a nossos pais multiplicar a sua descendência como as estrelas do céu ..., e agora nos entregaste como ovelhas ao matadouro. Lembra-te de Avraham, de Yitzchak e de Yaakov ...”. Ouviu Ester e desfaleceu, como está dito: “e a rainha Ester se contorceu muito” (Ester 4:4). ... E disse Ester a Mordechai: “Vai, reúne todos os judeus que se acham em Shushan, e jejuai por mim, e não comais nem bebais por três dias, noite e dia” — e estes são: 13, 14 e 15 de Nissan. Disse-lhe Mordechai: “Mas o terceiro dia é o primeiro dia de Pessach!”. Disse-lhe: “Ancião de Israel, e tu és cabeça do Sanhedrin, e dizes tal coisa? Se não houver Israel para celebrar o Pessach, para quem serve o Pessach?”. E Mordechai ouviu as suas palavras, e concordou com ela, e fez tudo o que ela lhe ordenou.
רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: אִיסְטְרַטְלָטוֹס הָיָה הָמָן, וְכָתַב אִגְּרוֹת פִּתְקִין וְהִפִּיל גּוֹרָלוֹת עַל הַמַּזָּלוֹת לֵידַע בֵּין יוֹם לְיוֹם, בֵּין חֹדֶשׁ לְחֹדֶשׁ, בֵּין מַזָּל לְמַזָּל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִפִּיל פּוּר הוּא הַגּוֹרָל״. וְכָתַב אִגְּרוֹת וְשָׁלַח בְּכָל הַמְּדִינוֹת לְהַשְׁמִיד לַהֲרֹג אֶת כָּל הַיְּהוּדִים מִנַּעַר וְעַד זָקֵן טַף וְנָשִׁים בִּשְׁלֹשָׁה עָשָׂר לְחֹדֶשׁ אֲדָר בְּיוֹם שְׁלִישִׁי בְּמַזַּל אַרְיֵה. וְשָׁמַע מָרְדֳּכַי וְקָרַע אֶת בְּגָדָיו וְלָבַשׁ שַׂק וָאֵפֶר וַיֵּצֵא בִּרְחוֹב הָעִיר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמָרְדֳּכַי יָדַע״. וְהָיָה צוֹעֵק וּבוֹכֶה וְאוֹמֵר לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, נִשְׁבַּעְתָּ לַאֲבוֹתֵינוּ לְהַרְבּוֹת אֶת זַרְעָם כְּכוֹכְבֵי הַשָּׁמַיִם וְכַחוֹל אֲשֶׁר עַל שְׂפַת הַיָּם, וְעַתָּה נָתַתָּ אוֹתָנוּ כַּצֹּאן לַטִּבְחָה. זְכֹר לְאַבְרָהָם לְיִצְחָק וּלְיַעֲקֹב אֲשֶׁר נִשְׁבַּעְתָּ לָהֶם בְּךָ לְהַרְבּוֹת אֶת זַרְעָם כְּכוֹכְבֵי הַשָּׁמַיִם״. שָׁמְעָה אֶסְתֵּר וְתָשַׁשׁ כֹּחָהּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתִּתְחַלְחַל הַמַּלְכָּה מְאֹד״. שָׁלְחָה וְקָרְאָה לַהֲתָךְ נֶאֱמַן בֵּיתָהּ לֵידַע מַה נַּעֲשָׂה לְמָרְדֳּכָי. וַיֵּצֵא הֲתָךְ לְמָרְדֳּכָי וַיַּגֵּד לוֹ אֶת הַדָּבָר. וְנִכְנַס הֲתָךְ וְהִגִּיד לְאֶסְתֵּר. וְרָאָה הָמָן יוֹצֵא וּבָא לַהֲתָךְ וַהֲרָגוֹ. וְלֹא מָצְאָה אֶסְתֵּר אִישׁ נֶאֱמָן אַחֵר לִשְׁלֹחַ אוֹתוֹ אֶל מָרְדֳּכָי. וְאָמְרָה הִיא בְּנַפְשָׁהּ לָבֹא אֶל מָרְדֳּכָי, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתֹּאמֶר אֶסְתֵּר לְהָשִׁיב אֶל מָרְדֳּכָי״. אָמְרָה לוֹ: ״לֵךְ כְּנוֹס אֶת כָּל הַיְּהוּדִים הַנִּמְצָאִים בְּשׁוּשָׁן וְצוּמוּ עָלַי וְאַל תֹּאכְלוּ וְאַל תִּשְׁתּוּ שְׁלֹשֶׁת יָמִים לַיְלָה וָיוֹם״. וְאֵלּוּ הֵן: י״ג בְּנִיסָן, י״ד בְּנִיסָן, ט״ו בְּנִיסָן. אָמַר לָהּ מָרְדֳּכָי: ״וַהֲלֹא יוֹם שְׁלִישִׁי הוּא יוֹם רִאשׁוֹן שֶׁל פֶּסַח?״ אָמְרָה לוֹ: ״זָקֵן שֶׁבְּיִשְׂרָאֵל וְאַתָּה רֹאשׁ לַסַּנְהֶדְרִין וְאַתָּה אוֹמֵר דָּבָר זֶה? וְאִם אֵין יִשְׂרָאֵל לַעֲשׂוֹת הַפֶּסַח, לְמִי הוּא פֶּסַח?״ וְשָׁמַע מָרְדֳּכַי אֶת דְּבָרֶיהָ וְהוֹדָה לָהּ מָרְדֳּכַי וְעָשָׂה לָהּ כָּל אֲשֶׁר צִוְּתָהוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּעֲבֹר מָרְדֳּכַי וַיַּעַשׂ כְּכֹל אֲשֶׁר צִוְּתָה עָלָיו אֶסְתֵּר״. מַה הוּא לְשׁוֹן ״וַיַּעֲבֹר מָרְדֳּכַי״? מְלַמֵּד שֶׁעָבַר יוֹם רִאשׁוֹן שֶׁל פֶּסַח בְּלֹא אֲכִילָה וּשְׁתִיָּה. בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי לָבְשָׁה אֶסְתֵּר בִּגְדֵי מַלְכוּת וְשָׁלְחָה וְקָרְאָה לַמֶּלֶךְ וּלְהָמָן לִסְעוּדָה שֶׁעָשְׂתָה בַּחֲמִשָּׁה עָשָׂר בְּנִיסָן. כֵּיוָן שֶׁאָכְלוּ וְשָׁתוּ, אָמַר הָמָן בְּלִבּוֹ: ״הַמֶּלֶךְ מְגַדֵּל אוֹתִי וְהַמַּלְכָּה מְרוֹמֶמֶת אוֹתִי וְאֵין גָּדוֹל מִמֶּנִּי בְּכָל מַלְכוּתוֹ״. וְשָׂמַח בְּלִבּוֹ הַרְבֵּה מְאֹד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּצֵא הָמָן בַּיּוֹם הַהוּא שָׂמֵחַ וְטוֹב לֵב״.
Nota — o “pur”, as estrelas e a recusa racionalista da astrologia. Haman lança sortes consultando os signos (mazalot) para achar o dia “propício” ao extermínio — e é dele que a festa toma o nome (Purim, “sortes”). A leitura racionalista vê aqui uma ironia: o Rambam rejeitou com firmeza a astrologia como superstição vã (cartas e Hilchot Avodá Zará 11), e toda a história desmente os astros — o dia que Haman julgou fatídico “volta-se ao contrário”. Não são as estrelas que regem a vida; é a conduta moral, sob a providência, que decide o destino.
7
Naquela noite fugiu o sono do rei; e naquela noite também “se moveu” a misericórdia diante do Trono do Rei dos reis, o Santo, bendito seja. E o rei terreno despertou do seu sono, pois vira em sonho que Haman tomava a espada para matá-lo, e assustou-se e levantou-se do seu sono. E mandou chamar os escribas para lerem nos livros e verem o que se passara; e abriram os livros e encontraram a coisa que Mordechai relatara, e as palavras eram lidas diante do rei como que por si mesmas, como está dito: “e estavam sendo lidas diante do rei” (Ester 6:1). Disse o rei aos seus servos: “Chamai-me Haman”. Disseram-lhe: “Eis que ele está de pé lá fora”. Disse o rei: “Que entre diante de mim”. E entrou Haman diante do rei. Disse-lhe o rei: “Quero engrandecer e exaltar um homem que me salvou a vida; que se há de fazer a ele?”. Disse Haman no seu coração: “Não há quem o rei queira honrar mais do que a mim”. ... Disse-lhe: “Tragam veste real com que o rei se vestiu, e o cavalo em que o rei cavalgou, e a coroa real”. E o rei irou-se muito por causa da coroa, e ordenou: dá a veste e o cavalo — e nada quis conceder da coroa. E quando Haman viu que o rei se irara por causa da coroa, retratou-se. Disse-lhe o rei: “Sai e faze assim a Mordechai, o judeu, que se assenta à porta do rei”. Ouviu Haman e ficou perturbado, e tentou esquivar-se, mas o rei insistiu.
בַּלַּיְלָה הַהוּא נָדְדָה שְׁנַת הַמֶּלֶךְ, וְאוֹתָהּ הַלַּיְלָה נָד כִּסְאוֹ שֶׁל מֶלֶךְ מַלְכֵי הַמְּלָכִים הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וְנָדְדָה הַמֶּלֶךְ שֶׁבָּאָרֶץ וְעָמַד מִשְּׁנָתוֹ, שֶׁרָאָה בַּחֲלוֹמוֹ לְהָמָן שֶׁנָּטַל אֶת הַסַּיִף לְהָרְגוֹ וְנִבְהַל וְעָמַד מִשְּׁנָתוֹ, וְאָמַר לִבְנֵי הָמָן שַׁמְשַׁי וְסָפְרֵי כּוֹתְבֵי סִפְרֵי הַמֶּלֶךְ: ״לִקְרוֹת בַּסְּפָרִים וְלִרְאוֹת וְלֵידַע מַה שֶּׁעָבְרוּ עָלָיו״. וּפָתְחוּ הַסְּפָרִים וַיִּמְצְאוּ הַדָּבָר שֶׁהִגִּיד מָרְדֳּכַי, וְלֹא הָיוּ רוֹצִים לִקְרוֹת אוֹתָהּ, וְהָיוּ גּוֹלְלִין אֶת הַסְּפָרִים. אָמַר לָהֶם הַמֶּלֶךְ: ״קִרְאוּ מַה שֶּׁכָּתוּב לִפְנֵיכֶם!״ וְלֹא הָיוּ רוֹצִין לִקְרוֹת, וְהַכְּתוּבִין הֵם נִקְרָאִים לִפְנֵי הַמֶּלֶךְ מֵאֲלֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּהְיוּ נִקְרָאִים לִפְנֵי הַמֶּלֶךְ״. וַיִּהְיוּ קוֹרְאִין [אֵין] כָּתוּב כָּאן, אֶלָּא ״וַיִּהְיוּ נִקְרָאִים״. אָמַר הַמֶּלֶךְ לַעֲבָדָיו: ״קִרְאוּ לִי לְהָמָן״. אָמְרוּ לוֹ: ״הֲרֵי הוּא עוֹמֵד בַּחוּץ״. אָמַר הַמֶּלֶךְ: ״יָבֹא וְיִכָּנֵס לְפָנַי״. וּבָא הָמָן לִפְנֵי הַמֶּלֶךְ, אָמַר לוֹ הַמֶּלֶךְ: ״אֲנִי רוֹצֶה לְגַדֵּל וּלְרוֹמֵם לְאִישׁ אֶחָד שֶׁנָּתַן אֵלַי הַחַיּוֹת, מַה לַּעֲשׂוֹת לוֹ?״ אָמַר הָמָן בְּלִבּוֹ: ״אִי״ן אֵין חֵפֶץ הַמֶּלֶךְ לַעֲשׂוֹת יְקָר וּגְדֻלָּה יוֹתֵר מִמֶּנִּי״, וְכָל זַרְעוֹ שֶׁל עֲמָלֵק אֵין מְגַלִּין הַסּוֹד בְּפִיהֶם וְאוֹמְרִים בְּלִבָּן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר הָמָן בְּלִבּוֹ״. אָמַר הָמָן: ״אֲדַבֵּר דְּבָרִים שֶׁאֶהְיֶה מֶלֶךְ כְּמוֹהוּ״. אָמַר לוֹ: ״אִם רָצִיתָ לַעֲשׂוֹת יְקָר לְאִישׁ אֲשֶׁר הַמֶּלֶךְ חָפֵץ בִּיקָרוֹ, יָבִיאוּ לְבוּשׁ מַלְכוּת אֲשֶׁר לָבַשׁ בּוֹ הַמֶּלֶךְ בְּיוֹם שֶׁהִמְלִיכוּךָ, וְסוּס שֶׁרָכַבְתָּ בּוֹ בְּיוֹם שֶׁמָּלַכְתָּ, וְאֶת הַכֶּתֶר שֶׁנָּתַן בְּרֹאשְׁךָ בְּיוֹם שֶׁמָּלַכְתָּ״. וְכָעַס הַמֶּלֶךְ עַל הַכֶּתֶר הַרְבֵּה מְאֹד, אָמַר הַמֶּלֶךְ: ״הָרָשָׁע הַזֶּה לֹא דַּיּוֹ שֶׁאָמַר אֵלַי עַל הַמַּלְבּוּשׁ וְעַל הַסּוּס, אֶלָּא אַף עַל הַכֶּתֶר שֶׁבְּרֹאשִׁי? אִם כֵּן מַה הִנִּיחַ לִי?״ כֵּיוָן שֶׁרָאָה הָמָן שֶׁכָּעַס הַמֶּלֶךְ עַל הַכֶּתֶר, חָזַר וְאָמַר: ״וְנָתוֹן הַלְּבוּשׁ וְהַסּוּס עַל יַד אִישׁ מִשָּׂרֵי הַמֶּלֶךְ הַפַּרְתְּמִים״. אָמַר לוֹ הַמֶּלֶךְ: ״צֵא וַעֲשֵׂה כֵן לְמָרְדֳּכַי״. שָׁמַע הָמָן וְנִבְהַל וְאָמַר לוֹ: ״אֲדֹנִי הַמֶּלֶךְ, הַרְבֵּה מָרְדֳּכַי יֵשׁ!״ אָמַר לוֹ: ״מָרְדֳּכַי הַיְּהוּדִי״. אָמַר לוֹ: ״יֵשׁ יְהוּדִים הַרְבֵּה!״ אָמַר לוֹ: ״הַיּוֹשֵׁב בְּשַׁעַר הַמֶּלֶךְ״. אָמַר לוֹ: ״אֲדֹנִי הַמֶּלֶךְ, לֹא הָיִיתִי סָבוּר כִּי אִם עַל שַׂר גָּדוֹל הָיִיתָ אוֹמֵר, לָזֶה תֵּן לוֹ שָׂדוֹת וּכְרָמִים וְדַיּוֹ, אֲבָל לָזֶה מַה יּוֹעִיל לוֹ?״ אָמַר לוֹ: ״עֲשֵׂה כַּאֲשֶׁר דִּבַּרְתָּ, וְגַם אֲנִי יָכוֹל לָתֵת לוֹ כָּל מַה שֶּׁגָּזַרְתָּ״. אָמַר לוֹ: ״אֲדֹנִי הַמֶּלֶךְ, אֶתֵּן לְךָ אֶחָד מִבָּנַי הַגְּדוֹלִים וְיַעֲשֶׂה לוֹ כְּכָל מַה שֶּׁגָּזַרְתָּ עָלַי״. אָמַר לוֹ: ״חַיֵּי רֹאשִׁי וּמַלְכוּתִי! לְךָ נָאֶה לַעֲשׂוֹת כֵּן״.
8
Imediatamente Haman tomou a veste e o cavalo e foi até Mordechai. Disse-lhe Haman: “Levanta-te, veste a púrpura real”. Disse-lhe Mordechai: “Ímpio! Não vês que estou vestido de saco e sentado sobre a cinza por causa do que me fizeste? Antes, leva-me ao banho para que eu me prepare”. Que fez Ester? Ordenou que não se acendesse banho algum. E foi Haman, por sua própria conta, e o serviu, e o vestiu, e disse-lhe: “Sobe e cavalga o cavalo”. Disse-lhe Mordechai: “Pela aflição do jejum não tenho força para subir e cavalgar”. Que fez Haman? Abaixou-se, e Mordechai pôs o pé sobre ele e subiu e cavalgou o cavalo. Disse-lhe Haman: “Não está escrito na vossa Torá ‘quando cair o teu inimigo, não te alegres’ (Mishlei 24:17)?”. Disse-lhe: “Isso está escrito a respeito de Israel; mas a respeito dos tiranos está escrito ‘e tu pisarás sobre as suas alturas’ (Devarim 33:29)”. E Mordechai foi diante do rei, e Haman proclamava: “Assim se faz ao homem a quem o rei quer honrar”. E Mordechai voltou ao seu lugar de honra à porta do rei, e Haman correu para a sua casa, enlutado e de cabeça coberta, pelo que lhe acontecera.
מִיָּד לָקַח הָמָן הַלְּבוּשׁ וְהַסּוּס וְהָלַךְ אֵצֶל מָרְדֳּכַי וְשָׁאַל לוֹ בְּשָׁלוֹם. אָמַר לוֹ מָרְדֳּכַי: ״אֵין שָׁלוֹם אָמַר ה' לָרְשָׁעִים״. אָמַר לוֹ הָמָן: ״קוּם לְבוֹשׁ פּוֹרְפּוּרְיוֹן שֶׁל מֶלֶךְ״. אָמַר לוֹ: ״רָשָׁע! אֵין אַתָּה רוֹאֶה כִּי אֲנִי לָבוּשׁ שַׂק וְיוֹשֵׁב עַל הָאֵפֶר מִמַּה שֶּׁעָשִׂיתָ לִי? אֶלָּא הוֹלִיכֵנִי לְבֵית הַמֶּרְחָץ וְאַחַר כָּךְ אֶלְבַּשׁ פּוֹרְפְּרִיוֹן שֶׁל מֶלֶךְ״. מָה עָשְׂתָה אֶסְתֵּר? צִוְּתָה לְבַל יַעֲשֶׂה מֶרְחָץ, וְאִם יֹאמַר הָמָן לְבַעֲלֵי הַמֶּרְחָץ לְהַדְלִיקוֹ, אַל יִשְׁמְעוּ לוֹ. הָלַךְ הָמָן בְּכָל הַמֶּרְחֲצָאוֹת וְלֹא מָצָא, וְהִדְלִיקוֹ בְּעַל כָּרְחוֹ הוּא בְּעַצְמוֹ. וְשָׁלַח לִבְנוֹ הַגָּדוֹל לִקְרֹא אֶת מָרְדֳּכַי לַמֶּרְחָץ. לָקַח מָרְדֳּכַי וְהִכָּה אוֹתוֹ בְּרַגְלָיו. אָמַר לוֹ: ״וְלָמָּה לֹא בָּא אָבִיךָ בְּעַצְמוֹ? וַהֲלֹא עֶבֶד הוּא לִי!״ הָלַךְ אֵצֶל אָבִיו וְאָמַר לוֹ. הָלַךְ הוּא בְּעַצְמוֹ בְּעַל כָּרְחוֹ וְנִכְנַס עִמּוֹ לְבֵית הַמֶּרְחָץ וְגִלַּח אֶת רֹאשׁוֹ וְיָצָא וְהִלְבִּישׁוֹ. אָמַר: ״עֲלֵה וּרְכַב עַל הַסּוּס״. אָמַר לוֹ: ״מֵעִנּוּי הַצּוֹם אֵין בִּי כֹּחַ לַעֲלוֹת וְלִרְכֹּב עַל הַסּוּס״. מָה עָשָׂה הָמָן? הִשְׁפִּיל אֶת עַצְמוֹ וְנָתַן מָרְדֳּכַי רַגְלוֹ עַל צַוָּארוֹ וְעָלָה וְרָכַב עַל הַסּוּס. וּמִדְּרָמֵי עֲלֵיהּ חַד כַּרְעָא, בָּטַשׁ בֵּיהּ בְּכַרְעָא אַחֲרִיתִי. אָמַר לוֹ הָמָן: ״וַהֲלֹא כָּתוּב בַּתּוֹרָה 'בִּנְפֹל אוֹיִבְךָ אַל תִּשְׂמָח'?״ אָמַר לוֹ: ״רָשָׁע! בְּיִשְׂרָאֵל כָּתוּב זֶה, אֲבָל בְּאֻמּוֹת הָעוֹלָם 'וְאַתָּה עַל בָּמוֹתֵימוֹ תִדְרֹךְ'״. וּבָא מָרְדֳּכַי אֵצֶל הַמֶּלֶךְ, וְהוּא מַכְרִיז עָלָיו: ״כָּכָה יֵעָשֶׂה לָאִישׁ אֲשֶׁר הַמֶּלֶךְ חָפֵץ בִּיקָרוֹ״. וַיָּשָׁב לוֹ בְּמוֹשַׁב כְּבוֹדוֹ עַל שַׁעַר הַמֶּלֶךְ, וְהָמָן נִדְחַף אֶל בֵּיתוֹ אָבֵל וַחֲפוּי רֹאשׁ עַל מַה שֶּׁאֵרַע לוֹ.
Nota essencial — a alegria comedida. O diálogo afiado entre Mordechai e Haman (“não te alegres quando cair o teu inimigo”) pede leitura sóbria. A tradição tempera firmemente o triunfalismo: quando os anjos quiseram cantar à beira do Mar, D’us os repreendeu — “as obras das Minhas mãos se afogam, e cantais?” (Meguilá 10b); e no Seder verte-se o vinho a cada praga, para que a taça da alegria não esteja cheia diante do sofrimento alheio. A festa de Purim celebra a libertação de um genocídio — não a dor de qualquer ser humano. O que se pisa “nas alturas” é a tirania e o mal, não a dignidade de pessoas, que permanece sagrada (Bereshit 1:27).
9
Disseram-lhe Zeresh, sua mulher, e todos os seus conselheiros: “Já ouviste o que fizeram ao Faraó no Egito? Se Mordechai, diante de quem começaste a cair, é da semente dos judeus, não prevalecerás contra ele, mas certamente cairás diante dele” (cf. Ester 6:13).
אָמְרָה לוֹ זֶרֶשׁ אִשְׁתּוֹ וְכָל אִסְטְרוֹגוֹלִין שֶׁלּוֹ: שָׁמַעְתָּ מַה עָשׂוּ לְפַרְעֹה בְּמִצְרַיִם? ״אִם מִזֶּרַע הַיְּהוּדִים מָרְדֳּכַי אֲשֶׁר הַחִלּוֹתָ לִנְפֹּל לְפָנָיו – לֹא תוּכַל לוֹ, כִּי נָפוֹל תִּפּוֹל לְפָנָיו״.
10
Naquela hora vieram os criados de Ester e levaram Haman ao banquete que Ester preparara. Depois que comeram e beberam, disse-lhe o rei: “Qual é a tua petição, rainha Ester? E ser-te-á concedida; e qual o teu pedido? Até metade do reino e se fará”. Disse-lhe: “Meu senhor, o rei, não te peço senão que me dês a minha vida na minha petição, e o meu povo no meu pedido, pois um homem nos comprou para destruir, matar e exterminar. E se apenas como servos e servas fôssemos vendidos, eu me calaria”. Disse-lhe o rei: “E quem é esse homem ... que se atreveu a fazer tal coisa?”. Disse-lhe: “Este perverso Haman”. ... E o rei, em fúria, saiu do banquete do vinho para o jardim do palácio; e ao voltar, viu Haman caído junto ao leito de Ester, e disse: “Este perverso, não lhe basta ter comprado a minha mulher e o seu povo para destruir e matar, mas ainda a humilha diante de mim, em casa?”. E ouviu Haman essas palavras e o seu rosto se cobriu de vergonha, como está dito: “e o rosto de Haman se cobriu” (Ester 7:8). E ordenou o rei que o enforcassem no madeiro. Naquela hora foi lembrado o madeiro que estava em casa de Haman; e o rei ordenou enforcá-lo, e está escrito: “e enforcaram Haman no madeiro que ele preparara para Mordechai” (Ester 7:10). E a fúria do rei se aplacou. Tomou o rei tudo o que era de Haman e o deu a Mordechai e a Ester. E ordenou o rei: “Escrevei a respeito dos judeus como parecer bem aos vossos olhos, em nome do rei”; e escreveram e selaram cartas e enviaram a todas as províncias autorizando os judeus a se defenderem dos que os odiavam, no dia treze do mês de Adar. E o que fora pensado para o mal “voltou-se ao contrário” (nahafoch hu), como está dito: “sucedeu o contrário, de modo que os judeus dominaram sobre os que os odiavam” (Ester 9:1).
בְּאוֹתָהּ שָׁעָה בָּאוּ נַעֲרֵי אֶסְתֵּר, לָקְחוּ אֶת הָמָן אֶל הַמִּשְׁתֶּה אֲשֶׁר עָשְׂתָה אֶסְתֵּר בְּשִׁשָּׁה עָשָׂר בְּנִיסָן. כֵּיוָן שֶׁאָכְלוּ וְשָׁתוּ אָמַר לָהּ הַמֶּלֶךְ: ״מַה שְּׁאֵלָתֵךְ אֶסְתֵּר הַמַּלְכָּה וְתִנָּתֵן לָךְ וּמַה בַּקָּשָׁתֵךְ עַד חֲצִי הַמַּלְכוּת וְתֵעָשׂ?״ אָמְרָה לוֹ: ״אֲדֹנִי הַמֶּלֶךְ, אֵינִי שׁוֹאֶלֶת מִמְּךָ אֶלָּא לָתֵת לִי נַפְשִׁי בִּשְׁאֵלָתִי וְעַמִּי בְּבַקָּשָׁתִי, שֶׁבָּא אָדָם אֶחָד וְקָנָה אוֹתָנוּ לְהַשְׁמִיד לַהֲרֹג וּלְאַבֵּד. וְאִלּוּ לַעֲבָדִים וְלִשְׁפָחוֹת נִמְכַּרְנוּ אֲנִי וְעַמִּי הֶחֱרַשְׁתִּי״. אָמַר לָהּ הַמֶּלֶךְ: ״וּמִי הוּא הָאָדָם הַזֶּה וְאֵי זֶה הוּא אֲשֶׁר מְלָאוֹ לִבּוֹ לַעֲשׂוֹת כֵּן?״ אָמְרָה לוֹ: ״הָמָן הָרָע הַזֶּה״. מִיָּד ״חָפוּ פָנָיו״. ״וְהַמֶּלֶךְ קָם בַּחֲמָתוֹ מִמִּשְׁתֵּה הַיַּיִן וְנִכְנַס בְּגִנַּת הַבִּיתָן״, מֶה עָשָׂה מִיכָאֵל? הִתְחִיל מְקַצֵּץ נְטִיעוֹת לְפָנָיו. וְרָאָה הַמֶּלֶךְ כֵּן, אָמַר לוֹ: ״מַה זֶּה?״ אָמַר לוֹ: ״אֲנִי מִבָּנָיו שֶׁל הָמָן שֶׁכָּךְ צִוַּנִי אַבָּא״. מִיָּד ״וַחֲמָתוֹ בָּעֲרָה בוֹ״, וְנִבְעַר חֵמָה עַל חֵמָה, וְשָׁב מִגִּנַּת הַבִּיתָן. מֶה עָשָׂה מִיכָאֵל הַמַּלְאָךְ? הִגְבִּיהַּ אֶת הָמָן מֵעַל אֶסְתֵּר כְּאִלּוּ רוֹצֶה לָבֹא עָלֶיהָ. אָמַר הַמֶּלֶךְ: ״הָרָשָׁע הַזֶּה לֹא דַיּוֹ שֶׁקָּנָה אֶת אִשְׁתִּי לְהַשְׁמִיד וְלַהֲרֹג וּלְאַבֵּד, אֶלָּא רוֹצֶה לָבֹא עָלֶיהָ? הֲגַם לִכְבּוֹשׁ אֶת הַמַּלְכָּה עִמִּי בַּבַּיִת?״ וְשָׁמַע הָמָן אֶת הַדָּבָר הַזֶּה וְנָפְלוּ פָנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּפְנֵי הָמָן חָפוּ״. וְצִוָּה הַמֶּלֶךְ לִתְלוֹתוֹ עַל הָעֵץ. בְּאוֹתָהּ שָׁעָה מֶה עָשָׂה אֵלִיָּהוּ זָכוּר לַטּוֹב? נִדְמָה לְחַרְבוֹנָא אֶחָד מִסָּרִיסֵי הַמֶּלֶךְ. אָמַר לוֹ: ״אֲדֹנִי הַמֶּלֶךְ, יֵשׁ עֵץ בְּבֵיתוֹ שֶׁל הָמָן מִבֵּית קָדְשֵׁי הַקֳּדָשִׁים״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּבֶן אֶת בֵּית יַעַר הַלְּבָנוֹן וַיַּעַשׂ אֶת אוּלָם הָעַמּוּדִים חֲמִשִּׁים אַמָּה אָרְכּוֹ וְשָׁלֹשׁ אַמּוֹת רָחְבּוֹ״. מִיָּד צִוָּה הַמֶּלֶךְ לִתְלוֹתוֹ, וּכְתִיב: ״וַיִּתְלוּ אֶת הָמָן״. לָקַח הַמֶּלֶךְ אֶת כָּל אֲשֶׁר לְהָמָן וְנָתַן לְמָרְדֳּכַי וּלְאֶסְתֵּר, לְקַיֵּם מַה שֶּׁנֶּאֱמַר: ״וּבֵיתֵהּ נְוָלִי יִתְעֲבֵד עַל דְּנָא״. וְצִוָּה הַמֶּלֶךְ וְאָמַר: ״כִּתְבוּ עַל הַיְּהוּדִים כְּתוֹב בְּעֵינֵיכֶם בְּשֵׁם הַמֶּלֶךְ״. וְכָתְבוּ וְחָתְמוּ אִגְּרוֹת פְּתָקִים וְשָׁלְחוּ בְּכָל הַמְּדִינוֹת לְהַשְׁמִיד לַהֲרֹג וּלְאַבֵּד אֶת כָּל שׂוֹנְאֵי הַיְּהוּדִים בִּשְׁלֹשָׁה עָשָׂר לְחֹדֶשׁ אֲדָר בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי בְּמַזַּל אַרְיֵה. מָה הָאֲרִי הַזֶּה מֶלֶךְ עַל כָּל הַחַיּוֹת וְכָל מָקוֹם שֶׁהוּא רוֹצֶה הוּא הוֹפֵךְ אֶת פָּנָיו, וְהוּא חָשַׁב וְהָפַךְ לְהַשְׁמִיד לַהֲרֹג וּלְאַבֵּד אֶת כָּל הַיְּהוּדִים, נַהֲפוֹךְ הוּא עַל שׂוֹנְאֵיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְנַהֲפוֹךְ הוּא אֲשֶׁר יִשְׁלְטוּ הַיְּהוּדִים הֵמָּה בְּשׂוֹנְאֵיהֶם״.
Nota — a mão oculta de Purim. A grande chave de toda a história está em duas palavras: nahafoch hu, “sucedeu o contrário”. Repare como a salvação chega: não por milagre aberto, mas por uma cadeia de acasos — uma noite sem sono, uma crônica esquecida, um banquete. A tradição lê os “anjos” (Michael, Eliyahu) como as forças incorpóreas pelas quais a providência opera nos bastidores; e não é por acaso que, em toda a Meguilá, o Nome de D’us jamais aparece. O próprio nome “Ester” (אֶסְתֵּר) é ligado a astir, “Eu ocultarei a face” (Chulin 139b; cf. Devarim 31:18). Purim é a festa da face oculta: D’us age exatamente onde parece ausente.
11
Rabi Eliezer diz: quarenta filhos tinha Haman — dez escribas do rei e trinta governadores em todas as províncias, como está dito: “e os dez filhos de Haman ...” (Ester 9:10). E todos foram enforcados no madeiro de seu pai, como está dito: “os dez filhos de Haman enforcaram no madeiro” (Ester 9:14).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: אַרְבָּעִים בָּנִים הָיוּ לוֹ לְהָמָן, עֲשָׂרָה כּוֹתְבֵי הַמֶּלֶךְ וּשְׁלֹשִׁים מוֹשְׁלִים בְּכָל הַמְּדִינוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְאֶת עֲשֶׂרֶת בְּנֵי הָמָן תָּלוּ״. וְכֻלָּם נִתְלוּ עַל עֵץ אֲבִיהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר ״עֲשֶׂרֶת בְּנֵי הָמָן תָּלוּ עַל הָעֵץ״, וְכָתוּב אַחֵר אוֹמֵר ״וְאֶת עֲשֶׂרֶת בְּנֵי הָמָן תָּלוּ״.
12
Rabi Pinchas diz: reinou Mordechai em honra, como está dito: “e Mordechai saiu de diante do rei com vestes reais de azul-celeste e branco ...” (Ester 8:15). Como o rei veste púrpura, assim Mordechai. Como o rei traz coroa engastada na cabeça, assim Mordechai — “e com uma grande coroa de ouro”. Como o temor do rei está sobre toda a terra, assim o de Mordechai — “pois caíra o temor de Mordechai sobre eles” (Ester 9:3). Como a fama do rei corre por toda a terra, assim a fama de Mordechai corre por toda a terra, como está dito: “pois grande era Mordechai na casa do rei, e a sua fama corria por todas as províncias” (Ester 9:4). E qual era a fama de Mordechai? Que era homem honrado e justo, pois Mordechai era homem bom e buscava a paz, como está dito: “porque Mordechai, o judeu, foi o segundo depois do rei Achashverosh, e grande entre os judeus, e estimado pela multidão de seus irmãos, procurando o bem do seu povo e falando paz a toda a sua descendência” (Ester 10:3). E sobre ele diz a Escritura: “observa o íntegro e olha o reto, pois há um futuro para o homem de paz” (Tehilim 37:37).
רַבִּי פִּינְחָס אוֹמֵר: מָלַךְ מָרְדֳּכַי, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמָרְדֳּכַי יָצָא מִלִּפְנֵי הַמֶּלֶךְ בִּלְבוּשׁ מַלְכוּת תְּכֵלֶת וָחוּר״ וְכוּ'. מַה הַמֶּלֶךְ לוֹבֵשׁ פּוֹרְפִּרְיָא, [כָּךְ מָרְדֳּכַי], שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמָרְדֳּכַי יָצָא מִלִּפְנֵי הַמֶּלֶךְ בִּלְבוּשׁ מַלְכוּת תְּכֵלֶת וָחוּר״. מַה הַמֶּלֶךְ עֲטָרָה כְּלוּלָה בְּרֹאשׁוֹ, כָּךְ מָרְדֳּכַי, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַעֲטֶרֶת זָהָב גְּדוֹלָה״. מַה הַמֶּלֶךְ אֵימָתוֹ עַל כָּל הָאָרֶץ, כָּךְ מָרְדֳּכַי, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי נָפַל פַּחַד מָרְדֳּכַי עֲלֵיהֶם״. מַה הַמֶּלֶךְ שִׁמְעוֹ הוֹלֵךְ בְּכָל הָאָרֶץ, כָּךְ מָרְדֳּכַי שִׁמְעוֹ הוֹלֵךְ בְּכָל הָאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי גָדוֹל מָרְדֳּכַי בְּבֵית הַמֶּלֶךְ וְשִׁמְעוֹ הוֹלֵךְ בְּכָל הַמְּדִינוֹת״. מַה הָיְתָה שִׁמְעוֹ שֶׁל מָרְדֳּכַי? כִּי הָיָה אָדָם נִכְבָּד וְהָיָה עוֹמֵד בְּצַד הַמֶּלֶךְ וְאֶסְתֵּר הַמַּלְכָּה הָיְתָה יוֹשֶׁבֶת בַּצַּד הָאַחֵר, כִּי מָרְדֳּכַי הָיָה אִישׁ טוֹב וּמְבַקֵּשׁ שָׁלוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי מָרְדֳּכַי הַיְּהוּדִי מִשְׁנֶה לַמֶּלֶךְ אֲחַשְׁוֵרוֹשׁ וְגָדוֹל לַיְּהוּדִים וְרָצוּי לְרֹב אֶחָיו דּוֹרֵשׁ טוֹב לְעַמּוֹ וְדוֹבֵר שָׁלוֹם לְכָל זַרְעוֹ״. וְעָלָיו הַכָּתוּב אוֹמֵר: ״שְׁמׇר תָּם וּרְאֵה יָשָׁר כִּי אַחֲרִית לְאִישׁ שָׁלוֹם״.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A coragem de não se curvar

O gesto que tudo desencadeia é a recusa de Mordechai. Os sábios fazem questão de explicá-la: não foi teimosia nem desprezo pela autoridade, mas a recusa de prostrar-se ao que se erguera como ídolo. Há um limite que a consciência não cruza — e desse limite, mantido com firmeza tranquila, nasce a salvação de um povo.

A face oculta

Megillat Ester é o único livro do Tanach em que o Nome de D’us não comparece — e o midrash transforma essa ausência em ensinamento. A providência não se manifesta em prodígios, mas no encadeamento dos acontecimentos: a insônia do rei, a crônica relida, o banquete no momento exato. O Radal e os comentadores leem aqui a forma madura da fé — reconhecer a mão de D’us precisamente onde Ele parece esconder-se.

A reviravolta moral

Nahafoch hu — “sucedeu o contrário”. A forca que Haman ergueu recebe o próprio Haman; o decreto de morte torna-se autorização de defesa. Os sábios veem nisso não vingança, mas justiça: o mal que se arma volta-se sobre quem o armou. E a tradição cuida de cercar a vitória de comedimento — a Meguilá registra que os judeus, ao se defenderem, “não estenderam a mão ao despojo” (Ester 9:10): a luta era pela vida, não pela pilhagem.

Grandeza que busca a paz

O capítulo fecha com o retrato de Mordechai no poder: não um vingador, mas “homem bom que buscava a paz”, “procurando o bem do seu povo e falando paz a toda a sua descendência”. A medida da grandeza, para os sábios, não é o poder conquistado, mas o uso que dele se faz — e o maior elogio reservado a Mordechai é o de pacificador.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 51

Céus novos e terra nova: a renovação do mundo vindouro

פֶּרֶק נ״א

Como as luas se renovam mês a mês, assim se renovará o mundo. O capítulo ergue a grande visão do porvir — céus enrolados como um pergaminho e refeitos, a ressurreição, os luzeiros recriados a cada dia, o Templo restaurado e as águas que brotam dele para curar a terra. Uma teologia da renovação que vê, mesmo no fim, um recomeço.

1
Rabban Gamliel diz: assim como os começos dos meses (Rashei Chodashim) se renovam e se santificam neste mundo, assim Israel há de renovar-se e santificar-se no mundo vindouro, como está dito: “fala a toda a congregação dos filhos de Israel e dize-lhes: ‘santos sereis, pois santo sou Eu, o Eterno’” (Vayikrá 19:2). E os sábios dizem: os céus e a terra hão de passar e renovar-se. Que está escrito a respeito deles? “E os céus se enrolarão como um pergaminho” (Yeshayahu 34:4). Como o homem que lê na Torá, e a enrola, e torna a abri-la e a enrola, assim o Santo, bendito seja, há de enrolar os céus, como está dito: “e os céus se enrolarão como um pergaminho, e a terra como uma veste se gastará” (cf. Yeshayahu 34:4; 51:6). Como o homem que despe o seu manto e o dobra, e torna a abri-lo e a vesti-lo, renovando-o no seu lugar — assim “a terra como uma veste se gastará” e se renovará.
רַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: כְּמוֹ רָאשֵׁי חֳדָשִׁים מִתְחַדְּשִׁים וּמִתְקַדְּשִׁים בָּעוֹלָם הַזֶּה, כָּךְ יִהְיוּ יִשְׂרָאֵל מִתְחַדְּשִׁים וּמִתְקַדְּשִׁים לָעוֹלָם הַבָּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״דַּבֵּר אֶל כָּל עֲדַת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל וְאָמַרְתָּ אֲלֵיהֶם קְדֹשִׁים תִּהְיוּ כִּי קָדוֹשׁ אֲנִי ה'״. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: שָׁמַיִם וָאָרֶץ עֲתִידִים לַעֲבֹר וּלְחַדֵּשׁ, מַה כְּתִיב עֲלֵיהֶם? ״וְנָגֹלּוּ כַסֵּפֶר הַשָּׁמָיִם״. כְּאָדָם הַקּוֹרֵא בַּתּוֹרָה וְגוֹלֵל אוֹתָהּ וְחוֹזֵר וּפוֹתֵחַ וְגוֹלֵל אוֹתָהּ, כָּךְ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עָתִיד לָגֹל אֶת הַשָּׁמַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְנָגֹלּוּ הַשָּׁמַיִם כַּסֵּפֶר וְהָאָרֶץ כַּבֶּגֶד תִּבְלֶה״. כְּאָדָם שֶׁהוּא פּוֹשֵׁט אֶת טַלִּיתוֹ וּמְקַפֵּל אוֹתָהּ וְחוֹזֵר וּפוֹתֵחַ וְלוֹבֵשׁ אוֹתָהּ וּמְחַדֵּשׁ אוֹתָהּ בִּמְקוֹמָהּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָאָרֶץ כַּבֶּגֶד תִּבְלֶה״.
2
E todos os habitantes da terra provarão o gosto da morte por dois dias, tempo em que não haverá alma de homem nem de animal sobre a terra, como está dito: “e os seus habitantes morrerão de igual modo” (Yeshayahu 51:6). E no terceiro dia o Santo renova tudo, e dá vida aos mortos, e os faz subsistir diante de Si, como está dito: “depois de dois dias nos dará vida; no terceiro dia nos levantará, e viveremos diante d’Ele” (Hoshea 6:2).
וְכָל יוֹשְׁבֵי הָאָרֶץ יִטְעֲמוּן טַעַם מִיתָה שְׁנֵי יָמִים, שֶׁאֵין נֶפֶשׁ אָדָם וּבְהֵמָה עַל הָאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְיֹשְׁבֶיהָ כְּמוֹ כֵן יְמֻתוּן״. וּבַיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי מְחַדֵּשׁ אֶת הַכֹּל וּמְחַיֶּה אֶת הַמֵּתִים וּמְקַיֵּם אוֹתָהּ לְפָנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״יְחַיֵּנוּ מִיֹּמָיִם בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי יְקִימֵנוּ וְנִחְיֶה לְפָנָיו״.
Nota — a ressurreição e a renovação. A crença na ressurreição dos mortos (techiyat hametim) é um dos fundamentos do judaísmo — o último dos Treze Princípios do Rambam. O esquema “dois dias... no terceiro dia” é linguagem aggádica (apoiada em Hoshea 6:2), não um calendário literal: exprime a esperança de que a morte não é a última palavra. O capítulo enquadra essa esperança dentro de um tema maior — o de um D’us que renova: as luas, as estações, e, no fim, a própria vida.
3
Rabi Eliezer diz: todo o exército dos céus há de passar e renovar-se. Que está escrito a respeito deles? “E todo o seu exército cairá como cai a folha da videira” (Yeshayahu 34:4). Como a videira e a figueira, cujas folhas caem e ficam como lenha seca, e tornam a florescer e a brilhar e a brotar folhas novas e viçosas — assim todo o exército dos céus há de murchar, e eles tornam a renovar-se, para dar a conhecer diante d’Ele que há Quem faz envelhecer a tudo e Ele mesmo não envelhece. E não haverá mais fome, nem mal, nem praga, nem mais aflições, como está dito: “pois eis que crio céus novos e terra nova” (Yeshayahu 65:17).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: כָּל צְבָא הַשָּׁמַיִם עֲתִידִים לַעֲבֹר וּלְהִתְחַדֵּשׁ. מַה כְּתִיב עֲלֵיהֶם? ״וְכָל צְבָאָם כִּנְבֹל עָלֶה מִגֶּפֶן״. מָה גֶּפֶן וְהַתְּאֵנָה הַזֹּאת נוֹבְלִים וְעוֹמְדוֹת כְּאֵשׁ יָבֵשׁ, וְחוֹזֶרֶת וּפוֹרַחַת וְנוֹצֶצֶת וּמוֹצִיאוֹת עָלִים חֲדָשִׁים רַעֲנַנִּים, כָּךְ כָּל צְבָא הַשָּׁמַיִם עֲתִידִין לִיבּוֹל, וְהֵן חוֹזְרִין וּמִתְחַדְּשִׁין לְהוֹדִיעַ לְפָנָיו שֶׁיֵּשׁ מְבַלֶּה וְאֵינוֹ בוֹלֶה. וְאֵין עוֹד לֹא רָעָב וְלֹא רַע וְלֹא מַגֵּפָה, וְאֵין עוֹד צָרוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי הִנְנִי בוֹרֵא שָׁמַיִם חֲדָשִׁים וָאָרֶץ חֲדָשָׁה״.
4
Rabi Yanai diz: todo o exército dos céus passa e se renova a cada dia. E que é o exército dos céus? O sol, a lua, as estrelas e as constelações. Sabe que assim é — vem e vê: quando o sol se inclina para chegar ao ocidente, é como se se banhasse nas águas do oceano, como o homem que apaga a sua lâmpada na água; assim as águas do oceano apagam as chamas do sol, e ele não tem brilho, e a chama do sol não ilumina toda a noite no mundo, até que ele chegue ao oriente. E quando chega ao oriente, é como se se banhasse num rio de fogo, como o homem que acende a sua lâmpada no fogo; assim o sol acende as suas lâmpadas e veste as suas chamas e sobe a iluminar a terra, e renova a cada dia a obra da criação. Assim é até que chegue a tarde. E ao tempo da tarde, a lua e as estrelas e as constelações renovam-se e sobem a iluminar a terra. No porvir, o Santo, bendito seja, os renova e acrescenta à sua luz a luz de sete dias, como está dito: “e a luz da lua será como a luz do sol, e a luz do sol será sete vezes maior, como a luz de sete dias, no dia em que o Eterno ligar a fratura do Seu povo e curar o golpe da Sua chaga” (Yeshayahu 30:26). Em que dia? No dia da redenção de Israel.
רַבִּי יַנַּאי אוֹמֵר: כָּל צְבָא הַשָּׁמַיִם עוֹבְרִים וּמִתְחַדְּשִׁים בְּכָל יוֹם. וּמַהוּ צְבָא הַשָּׁמַיִם? הַשֶּׁמֶשׁ וְהַיָּרֵחַ וְהַכּוֹכָבִים וְהַמַּזָּלוֹת. תֵּדַע לְךָ שֶׁהוּא כֵּן – בֹּא וּרְאֵה: כְּשֶׁהַשֶּׁמֶשׁ נוֹטָה לָבֹא לַמַּעֲרָב, וְהוּא רוֹחֵץ בְּמֵי אוֹקְיָאנוֹס כְּאָדָם שֶׁהוּא רוֹחֵץ אֶת נֵרוֹ בְּתוֹךְ הַמַּיִם. כָּךְ מֵימֵי אוֹקְיָאנוֹס מְכַבִּין שַׁלְהֲבוֹתָיו שֶׁל שֶׁמֶשׁ, וְאֵין נֹגַהּ לוֹ, וְאֵין שַׁלְהֶבֶת שֶׁל שֶׁמֶשׁ מֵאִיר כָּל הַלַּיְלָה בָּעוֹלָם עַד שֶׁיָּבֹא לַמִּזְרָח. וּכְשֶׁיָּבֹא לַמִּזְרָח, רוֹחֵץ בִּנְהַר שֶׁל אֵשׁ כְּאָדָם שֶׁהוּא מַדְלִיק אֶת נֵרוֹ בְּתוֹךְ הָאֵשׁ. כָּךְ הַשֶּׁמֶשׁ מַדְלִיק אֶת נֵרוֹתָיו וְלוֹבֵשׁ שַׁלְהֲבוֹתָיו וְעוֹלֶה לְהָאִיר עַל הָאָרֶץ, וּמְחַדֵּשׁ בְּכָל יוֹם מַעֲשֵׂה בְרֵאשִׁית. כֵּן עַד שֶׁיָּבֹא הָעֶרֶב. וּלְעֵת הָעֶרֶב, הַיָּרֵחַ וְהַכּוֹכָבִים וּמַזָּלוֹת רוֹחֲצִים בִּנְהַר שֶׁל בָּרָד וְעוֹלִין לְהָאִיר עַל הָאָרֶץ. לֶעָתִיד לָבֹא, הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מְחַדֵּשׁ אוֹתָם וּמוֹסִיף עַל אוֹרָם אוֹר שִׁבְעַת יָמִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיָה אוֹר הַלְּבָנָה כְּאוֹר הַחַמָּה וְאוֹר הַחַמָּה יִהְיֶה שִׁבְעָתַיִם כְּאוֹר שִׁבְעַת הַיָּמִים בְּיוֹם חֲבֹשׁ ה' אֶת שֶׁבֶר עַמּוֹ וּמַחַץ מַכָּתוֹ יִרְפָּא״. בְּאֵי זֶה יוֹם? בְּיוֹם גְּאֻלַּת יִשְׂרָאֵל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּיוֹם חֲבֹשׁ ה' אֶת עַמּוֹ״.
Nota — a cosmologia poética e “renova a cada dia a criação”. As imagens do sol que se banha no oceano e se reacende num rio de fogo pertencem à cosmologia poética da antiguidade — quadros vívidos, não descrições astronômicas a serem lidas ao pé da letra. A leitura racionalista retém o que importa: a ideia, que a liturgia diária canta (“que renova a cada dia, na Sua bondade, a obra da criação”), de que a ordem regular da natureza não é um relógio que gira sozinho, mas a sustentação contínua de D’us. O nascer do sol de cada manhã é, ele mesmo, a maior das “renovações”.
5
Rabban Gamliel diz: o holocausto que se oferece em cada Shabat é de dois cordeiros, e o holocausto do começo do mês é de dois novilhos. E por que estes dois? Aludem aos dois mundos: este mundo e o mundo vindouro. Um carneiro e com os demais sacrifícios — assim como Israel é um povo único e o seu D’us é único. Cordeiros de um ano, sete, perfeitos, correspondentes àqueles que os oferecem, chamados a renovar-se como os começos dos meses, como está dito: “este é o holocausto de cada mês, em seu mês” (Bemidbar 28:14).
רַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: עוֹלָה שֶׁמַּקְרִיבִין בְּכָל שַׁבָּת כְּבָשִׂים שְׁנַיִם, וְעוֹלַת רֹאשׁ חֹדֶשׁ פָּרִים שְׁנַיִם. וְאֵלּוּ שְׁנַיִם? שְׁנֵי עוֹלָמוֹת: הָעוֹלָם הַזֶּה וְהָעוֹלָם הַבָּא. אַיִל אֶחָד וְשָׂעִיר אֶחָד, כְּשֵׁם שֶׁהֵם גּוֹי אֶחָד וֵאלֹהֵיהֶם אֶחָד. כְּבָשִׂים בְּנֵי שָׁנָה שִׁבְעָה תְּמִימִים, כְּנֶגֶד מַקְרִיבֵיהֶם לְמְחַדְּשָׁן כְּמוֹ רָאשֵׁי חֳדָשִׁים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״זֹאת עֹלַת חֹדֶשׁ בְּחָדְשׁוֹ״.
6
Rabi Zechariá diz: depois da menção do “holocausto do mês”, que está escrito? “E um bode, das cabras, para oferta pelo pecado, ao Eterno” (Bemidbar 28:15). Por que a oferta pelo pecado? Quando o Santo, bendito seja, criou o Seu mundo, criou os dois grandes luzeiros, como está dito: “e criou D’us os dois grandes luzeiros” (Bereshit 1:16) — o grande, um, e o pequeno, um. E a lua como que endureceu a cerviz, não querendo fazer a vontade do seu Criador, pois não queria ser pequena. Por isso oferecem por ela um bode como oferta pelo pecado no começo do mês, como está dito: “e um bode das cabras, para oferta pelo pecado, ao Eterno”. E os Sábios dizem que o Santo, bendito seja, como que disse: “este bode seja expiação por Mim, por ter Eu diminuído a lua”.
רַבִּי זְכַרְיָה אוֹמֵר: אַחַר ״עֹלַת הַחֹדֶשׁ״ מַה כְּתִיב? ״וּשְׂעִיר עִזִּים אֶחָד לְחַטָּאת לַה'״. הַחַטָּאת לָמָּה? כְּשֶׁבָּרָא הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת עוֹלָמוֹ, בָּרָא שְׁנֵי מְאוֹרוֹת גְּדוֹלִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּבְרָא אֱלֹהִים אֶת שְׁנֵי הַמְּאוֹרוֹת הַגְּדוֹלִים״, הַגָּדוֹל אֶחָד וְהַקָּטָן אֶחָד. וְהִקְשָׁה הַיָּרֵחַ אֶת עָרְפּוֹ שֶׁלֹּא לַעֲשׂוֹת רְצוֹן בּוֹרְאוֹ, שֶׁלֹּא רָצָה לִהְיוֹת קָטָן. לְפִיכָךְ מַקְרִיבִים עָלָיו שְׂעִיר חַטָּאת לְמַעְלָה לְעוֹלַת רֹאשׁ חֹדֶשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּשְׂעִיר עִזִּים אֶחָד לְחַטָּאת לַה'״. אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: הַשָּׂעִיר הַזֶּה יִהְיֶה כַּפָּרָה עָלַי עַל שֶׁמִּעַטְתִּי אֶת הַיָּרֵחַ.
Nota essencial — “expiação por Mim”: uma metáfora ousada. A passagem da lua “diminuída” e do bode que seria “expiação por Mim” (Chulin 60b) é uma das mais audaciosas da aggadá — e não pode ser lida ao pé da letra. D’us é perfeito, imutável e incorpóreo; não peca, não erra e não precisa de expiação (Rambam, Guia dos Perplexos I; Yesodei haTorá 1). Os Sábios falam aqui com ousadia pedagógica: a “diminuição da lua” dramatiza o fato de que a criação contém, de propósito, desigualdade, falta e rivalidade — o “pequeno” ao lado do “grande” —, e a imagem de D’us “assumindo” isso é um convite à humildade e ao consolo: há sentido até na nossa pequenez, e ela será restaurada (“a luz da lua será como a do sol”, §3). É teologia em forma de parábola, não doutrina sobre um D’us falível.
7
Rabi Eliezer diz: o Templo há de erguer-se e renovar-se, como está dito: “eis que faço uma coisa nova; agora ela brota, porventura não a percebereis?” (Yeshayahu 43:19). E os seus portões, que se afundaram na terra, hão de subir e renovar-se, cada um no seu lugar, como está dito: “e o portão do átrio interior, que olha para o oriente ...” (Yechezkel 46:1).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: בֵּית הַמִּקְדָּשׁ עָתִיד לַעֲלוֹת וּלְהִתְחַדֵּשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר ״הִנְנִי עֹשֶׂה חֲדָשָׁה עַתָּה תִצְמָח הֲלוֹא תֵדָעוּהָ״. וּשְׁעָרָיו שֶׁטָּבְעוּ לָאָרֶץ עֲתִידִין לַעֲלוֹת וּלְהִתְחַדֵּשׁ כָּל אֶחָד בִּמְקוֹמוֹ, ״וְשַׁעַר הֶחָצֵר הַפְּנִימִי הַפּוֹנֶה קָדִים״ וְכוּ'.
8
Rabi Yehudá diz: nos começos dos meses e nos Shabatot, Israel ali se assentará e verá as portas abrirem-se por si mesmas, e saberão que a Presença (Shechiná) do Santo, bendito seja, ali está, como está dito: “porque o Eterno, o D’us de Israel, entrou por ela” (Yechezkel 44:2). Imediatamente se curvam e se prostram diante de D’us. E assim foi no passado, e assim será no porvir, como está dito: “e o povo da terra se prostrará à entrada daquele portão, nos Shabatot e nos começos dos meses” (Yechezkel 46:3).
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: בֶּחֳדָשִׁים וּבְשַׁבָּתוֹת יִשְׂרָאֵל יוֹשְׁבִים שָׁם וְרוֹאִין אֶת הַדְּלָתוֹת נִפְתָּחִין מֵאֲלֵיהֶם, וְיוֹדְעִין שֶׁשְּׁכִינָתוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שָׁם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי ה' אֱלֹהֵי יִשְׂרָאֵל בָּא בוֹ״. מִיָּד כּוֹרְעִים וּמִשְׁתַּחֲוִים לִפְנֵי הָאֱלֹהִים. וְכֵן לְשֶׁעָבַר וְכֵן לֶעָתִיד, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהִשְׁתַּחֲווּ עַם הָאָרֶץ פֶּתַח הַשַּׁעַר הַהוּא בַּשַּׁבָּתוֹת וּבֶחֳדָשִׁים״.
9
Rabi Yonatan diz: mas não está escrito “não há nada de novo debaixo do sol” (Kohelet 1:9)? Disseram-lhe: os justos se renovam, eles e todas as suas obras; mas os ímpios — não há para eles coisa nova debaixo do sol.
רַבִּי יוֹנָתָן אוֹמֵר: וַהֲלֹא כָּתוּב ״אֵין כָּל חָדָשׁ תַּחַת הַשָּׁמֶשׁ״! אָמְרוּ לוֹ: הַצַּדִּיקִים מִתְחַדְּשִׁים וְכָל מַעֲשֵׂיהֶם, אֲבָל הָרְשָׁעִים אֵין לָהֶם דָּבָר חָדָשׁ תַּחַת הַשָּׁמֶשׁ.
Nota — “nada de novo” para quem não se renova. A objeção de “não há nada de novo debaixo do sol” recebe uma resposta moral, não cosmológica: os justos se renovam. Para quem cresce — pela teshuvá, pelo estudo, pelo bem —, cada dia traz algo genuinamente novo; para quem estagna, a vida apenas se repete. A renovação cósmica do capítulo tem, assim, um espelho íntimo: o ser humano também pode tornar-se uma criatura nova.
10
Rabi Pinchas diz: as águas da fonte hão de subir de sob o limiar da Casa do Templo, e brotam e jorram, e saem doze ribeiros, correspondentes às doze tribos, como está dito: “e levou-me de volta à entrada da Casa, e eis que havia águas saindo de sob o limiar da Casa ..., ao sul do altar” (Yechezkel 47:1). Três correm em direção ao sul, com águas até os tornozelos; três em direção ao ocidente, com águas até os joelhos, como está dito: “e mediu mil côvados e me fez passar pelas águas, águas até os tornozelos” (Yechezkel 47:3); ... e três em direção ao norte, com águas até o pescoço. E descem ao vale do Cedron, vale que o homem não poderá atravessar, como está dito: “porque as águas haviam crescido, águas de nadar, rio que não se podia atravessar” (Yechezkel 47:5). E as águas correm e descem às planícies de Jericó, como está dito: “e descerão à Aravá planície” (Yechezkel 47:8).
רַבִּי פִּנְחָס אוֹמֵר: מֵי הַבְּאֵר עֲתִידִין לַעֲלוֹת תַּחַת מִפְתַּן הַבַּיִת וּמַפְרִים וְנוֹבְעִים וְיוֹצְאִים שְׁנֵים עָשָׂר נְחָלִים כְּנֶגֶד שְׁנֵים עָשָׂר שְׁבָטִים, שֶׁנֶּאֱמַר (יחזקאל מז א): ״וַיְשִׁבֵנִי אֶל פֶּתַח הַבַּיִת וְהִנֵּה מַיִם יֹצְאִים מִתַּחַת מִפְתַּן הַבַּיִת וְכוּ' הַיְמָנִית מִנֶּגֶב לַמִּזְבֵּחַ״. שְׁלֹשָׁה כְּלַפֵּי דָּרוֹם לַעֲלוֹת בָּהֶם עַד הַשְּׁוָקִים, וּשְׁלֹשָׁה כְּלַפֵּי הַמַּעֲרָב לַעֲבֹר בָּהֶם עַד הַבִּרְכַּיִם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בְּצֵאת הָאִישׁ קָדִים וְקָו בְּיָדוֹ וַיָּמָד אֶלֶף בָּאַמָּה וַיַּעֲבִרֵנִי בַמַּיִם מֵי אָפְסָיִם״. וּשְׁלֹשָׁה כְּלַפֵּי צָפוֹן לַעֲבֹר בָּהֶם עַד הַצַּוָּאר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיָּמָד אֶלֶף בָּאַמָּה וַיַּעֲבִרֵנִי בַמַּיִם מֵי אָפְסָיִם״. וְיוֹרְדִין לְנַחַל קִדְרוֹן נַחַל אֲשֶׁר לֹא יוּכַל אָדָם לַעֲבֹר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי גָאוּ הַמַּיִם מֵי שָׂחוּ נַחַל אֲשֶׁר לֹא יֵעָבֵר״. וְהַמַּיִם נִמְשָׁכִין וְיוֹרְדִין אֶל עַרְבוֹת יְרִיחוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְיָרְדוּ עַל הָעֲרָבָה״.
11
E todo campo e vinha que não dão fruto, são regados por essas águas e frutificam; e as águas entram no Mar Salgado (Mar Morto) e o curam, como está dito: “e entrarão no mar ... e as águas serão saradas” (Yechezkel 47:8). E ali haverá pescadores — pois a Escritura indica que aquelas águas amargas se adoçam, e sobem os peixes pelo ribeiro até Jerusalém, e ali são apanhados nas suas redes, como está dito: “e será que, junto a ele, estarão pescadores; desde Ein-Gedi até Ein-Eglaim haverá lugar para estender redes” (Yechezkel 47:10).
וְכָל שָׂדֶה וְכֶרֶם שֶׁאֵינָם עוֹשִׂין פְּרִי מַשְׁקִין מֵאוֹתָם הַמַּיִם הָאֵלֶּה וְנִכְנָסִין לַיָּם הַמֶּלַח וְהֵם מְרַפְּאִין אוֹתוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּבָאוּ הַיָּמָּה אֶל הַיָּמָּה הַמּוּצָאִים וְנִרְפְּאוּ הַמָּיִם״, וְשָׁם הֵם דַּוָּגִין כְּלַל מִנֶּה הַכָּתוּב שֶׁהֵם נִמְתָּקִין כְּמָן וְעוֹלִין בַּנַּחַל עַד יְרוּשָׁלַיִם וְשָׁם נֶאֱחָזִין בְּמִכְמְרוֹתֵיהֶן שֶׁנֶּאֱמַר: (יחזקאל מז, י) ״וְהָיָה עָמְדוּ עָלָיו דַּוָּגִים״, ״יַעַמְדוּ״ כְּתִיב, ״מֵעֵין גֶּדִי וְעַד עֵין עֶגְלַיִם מִשְׁטוֹחַ לַחֲרָמִים״.
12
E ali brotam por si mesmas, à margem do ribeiro, toda espécie de árvore frutífera, cada uma segundo a sua espécie, como está dito: “e junto ao ribeiro subirá, à sua margem, de um lado e de outro toda árvore de comer” (Yechezkel 47:12); e a cada mês dão os seus primeiros frutos, como está dito: “a cada mês darão os seus novos frutos” — uns são comidos e outros continuam a subir, como está dito: “porque as suas águas saem do Santuário; e o seu fruto será para comer, e a sua folha para remédio” (Yechezkel 47:12).
וְשָׁם הֵם נִצְמָחִים מֵאֲלֵיהֶם עַל שְׂפַת הַנַּחַל כָּל מִין עֵץ אִילָן עוֹשֶׂה פְּרִי לְמִינוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְעַל הַנַּחַל יַעֲלֶה עַל שְׂפָתוֹ מִזֶּה וּמִזֶּה״, וְכָל חֹדֶשׁ הֵם מְבַכְּרִים אֶת פֵּירוֹתֵיהֶם שֶׁנֶּאֱמַר ״לָחֳדָשָׁיו יְבַכֵּר״, אֵלּוּ נֶאֱכָלִין וְאֵלּוּ עוֹלִין, שֶׁנֶּאֱמַר (יחזקאל מז, יב) ״כִּי מֵימָיו מִן הַמִּקְדָּשׁ הֵמָּה יוֹצְאִים וְהָיָה פִרְיוֹ לְמַאֲכָל וְעָלֵהוּ לִתְרוּפָה״.
13
E todo homem que esteja doente e se banhe naquelas águas, sara, como está dito: “e tudo o que entrar naqueles dois ribeiros viverá” (Yechezkel 47:9). E todo homem que tenha uma ferida toma das suas folhas e a põe sobre a ferida, e sara, como está dito: “e o seu fruto será para comer, e a sua folha para remédio (litrufá)”. Que significa “litrufá”? Disse Rabi Yochanan: é como lehatir — “desatar/abrir” aquilo que está fechado — pois extraem dela a seiva e a sua folha é o seu sustento.
וְכָל אָדָם שֶׁהוּא חוֹלֶה וְרוֹחֵץ בְּאוֹתָם הַמַּיִם מִתְרַפֵּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״לְכָל אֲשֶׁר יָבֹא נַחֲלַיִם יִחְיֶה״. וְכָל אָדָם שֶׁיֵּשׁ לוֹ מַכָּה לוֹקֵחַ מֵעֲלֵיהֶם וְנוֹתֵן עַל מַכָּתוֹ וּמִתְרַפֵּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיָה פִרְיוֹ לְמַאֲכָל וְעָלֵהוּ לִתְרוּפָה״. מַה הוּא ״לִתְרוּפָה״? אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: לְתַרְפְּיָא – מְצִיצִין עָלֶיהָ וְשָׂרָף מְזוֹנֵיהּ.
Nota — as águas que curam e o messianismo racionalista. A visão das águas que brotam do Templo e curam o mundo (Yechezkel 47) é a imagem de uma terra sarada — o deserto que floresce, o mar morto que ganha vida, fruto para comer e folha para curar. A leitura racionalista (Rambam, Hilchot Melachim 11-12) entende a era messiânica não como suspensão das leis da natureza, mas como o mundo curado da opressão, da fome e da guerra — “para que se ocupem em conhecer a D’us”. A poesia da cura é, no fundo, a esperança de um mundo restaurado à sua bondade original.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

O D’us que renova

O capítulo inteiro gira em torno de um verbo: renovar (lechadesh). As luas se renovam, os céus se enrolam e se refazem, os luzeiros reacendem-se cada manhã, os mortos revivem. Os Sábios extraem daí o consolo central da fé judaica: nada está perdido para sempre. O mesmo D’us que ordenou a renovação da lua a cada mês promete a renovação do mundo — e da vida.

A lua diminuída

O misterioso bode “de expiação por Mim” é, para os comentadores, uma parábola sobre a imperfeição embutida na criação. O Radal e outros leem a “diminuição da lua” como a presença, no mundo, da desigualdade e da falta — e a ousadia de pôr na boca de D’us um pedido de expiação ensina humildade: nem tudo no mundo está completo, mas tudo caminha para a restauração, quando “a luz da lua será como a luz do sol”.

A renovação é também moral

Quando se objeta que “não há nada de novo sob o sol”, a resposta dos Sábios desloca o eixo do cosmos para o caráter: os justos se renovam. A grande renovação do fim dos tempos tem o seu ensaio em cada pessoa que se transforma. A teshuvá, dizem os mestres, faz do homem uma criatura nova — e essa é a renovação que está ao alcance de todos, agora.

O mundo curado

As águas que saem do Santuário e curam o Mar Morto compõem a imagem final: um mundo sarado. Os Sábios não a leem como magia, mas como esperança — a promessa de um tempo em que a terra dará fruto, a doença será vencida e a humanidade se voltará para o bem. A folha “para remédio” é o emblema de toda a visão: a criação, ferida, será curada.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 52

Os sete grandes prodígios da história

פֶּרֶק נ״ב

Sete prodígios “como os quais nunca se viram” — de Avraham salvo da fornalha à sombra que recua no relógio de sol de Chizkiyahu. O capítulo enfileira os grandes pontos de ruptura da história sagrada e fecha com um aviso: até o mais justo dos reis pode perder tudo por um momento de vaidade.

1
Sete prodígios (mof’tim) aconteceram no mundo, como os quais nunca se viu semelhante. O primeiro prodígio: desde o dia em que foram criados os céus e a terra, nenhum homem se salvara do fogo, até que veio Avraham, nosso pai, e foi salvo da fornalha ardente; e ouviram todos os reis da terra e ficaram pasmos, pois não tinham visto coisa igual desde que o mundo foi criado. E donde sabemos que foi salvo da fornalha ardente? Como está dito: “Eu sou o Eterno, que te tirei de Ur dos caldeus” (Bereshit 15:7); e outro escrito diz: “Tu és o Eterno, o D’us que escolheste Avram e o tiraste de Ur dos caldeus” (Nechemiá 9:7).
שִׁבְעָה מוֹפְתִים נַעֲשׂוּ בָעוֹלָם שֶׁלֹּא נִרְאוּ כְמוֹתָן. הַמּוֹפֵת הָרִאשׁוֹן, מִיּוֹם שֶׁנִּבְרְאוּ שָׁמַיִם וָאָרֶץ לֹא הָיָה אָדָם נִצַּל מִן הָאֵשׁ עַד שֶׁבָּא אַבְרָהָם אָבִינוּ וְנִצַּל מִכִּבְשַׁן הָאֵשׁ, וְשָׁמְעוּ כָּל מַלְכֵי הָאָרֶץ וְתָמְהוּ שֶׁלֹּא רָאוּ כָּמוֹהוּ עַד שֶׁנִּבְרָא הָעוֹלָם. וּמִנַּיִן שֶׁנִּצַּל מִכִּבְשַׁן הָאֵשׁ? שֶׁנֶּאֱמַר: ״אֲנִי ה' אֲשֶׁר הוֹצֵאתִיךָ מֵאוּר כַּשְׂדִּים״, וְכָתוּב אַחֵר אוֹמֵר: ״אַתָּה הוּא ה' הָאֱלֹהִים אֲשֶׁר בָּחַרְתָּ בְּאַבְרָם וְהוֹצֵאתוֹ מֵאוּר כַּשְׂדִּים״.
Nota — o que é um “prodígio”, na leitura racionalista. O capítulo enfileira sete mof’tim, rupturas únicas na ordem das coisas. A tradição racionalista entende o milagre como ato divino excepcional e raro — não o modo habitual de D’us conduzir o mundo, que é a natureza (caps. 46, 51). Mais: o Rambam ensina que vários milagres já foram, por assim dizer, “embutidos” na criação desde o princípio (Avot 5:6), de modo que nem contradizem a ordem do mundo. E, decisivamente, a fé não repousa sobre prodígios — que podem ser imitados ou mal interpretados —, mas sobre a razão e o testemunho (ver “A existência de D’us pela razão”). O que importa em cada prodígio é o seu sentido, não o espetáculo.
2
O segundo prodígio: desde o dia em que foram criados os céus e a terra, nenhuma mulher dera à luz aos noventa anos, até que veio Sará e deu à luz aos noventa — exceto Chavá no início. E ouviram todos os reis da terra e não acreditaram. Que fez o Santo, bendito seja? Secou o leito das suas mulheres para que trouxessem seus filhos a Sará, como está dito: “e saberão todas as árvores do campo que Eu, o Eterno, abati a árvore alta, exaltei a árvore baixa, sequei a árvore verde e fiz florescer a árvore seca” (Yechezkel 17:24).
הַמּוֹפֵת הַשֵּׁנִי, מִיּוֹם שֶׁנִּבְרְאוּ שָׁמַיִם וָאָרֶץ לֹא יָלְדָה אִשָּׁה לְתִשְׁעִים שָׁנָה עַד שֶׁבָּאת שָׂרָה וְיָלְדָה לְתִשְׁעִים שָׁנָה, לְבַד חַוָּה, וְשָׁמְעוּ כָּל מַלְכֵי הָאָרֶץ וְלֹא הֶאֱמִינוּ. מֶה עָשָׂה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? הוֹבִישׁ אֶת שְׁדֵי נְשֵׁיהֶן, שֶׁנֶּאֱמַר (יחזקאל יז, כד) ״וְיָדְעוּ כָּל עֲצֵי הַשָּׂדֶה כִּי אֲנִי ה' הִשְׁפַּלְתִּי עֵץ גָּבֹהַּ הִגְבַּהְתִּי עֵץ שָׁפָל הוֹבַשְׁתִּי עֵץ לָח וְהִפְרַחְתִּי עֵץ יָבֵשׁ״.
3
“E saberão todas as árvores do campo” — estas são as nações do mundo. “Eu, o Eterno, abati a árvore alta” — este é Nimrod. “Exaltei a árvore baixa” — este é Avraham, nosso pai. “Sequei a árvore verde” — este é o leito das mulheres das nações. “E fiz florescer a árvore seca” — este é o leito de Sará. E traziam os seus filhos a Sará, e ela os amamentava em paz, como está dito: “Sará amamentou filhos” (Bereshit 21:7).
״וְיָדְעוּ כָּל עֲצֵי הַשָּׂדֶה״, אֵלּוּ אֻמּוֹת הָעוֹלָם. ״אֲנִי ה' הִשְׁפַּלְתִּי עֵץ גָּבֹהַּ״, זֶה נִמְרוֹד. ״הִגְבַּהְתִּי עֵץ שָׁפָל״, זֶה אַבְרָהָם אָבִינוּ. ״הוֹבַשְׁתִּי עֵץ לָח״, אֵלּוּ שְׁדֵי נְשֵׁי אֻמּוֹת הָעוֹלָם. ״וְהִפְרַחְתִּי עֵץ יָבֵשׁ״, אֵלּוּ שְׁדֵי שָׂרָה. וְהָיוּ מְבִיאִין אֶת בְּנֵיהֶם אֵצֶל שָׂרָה וּמֵנִיקָה אוֹתָם בְּשָׁלוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הֵינִיקָה בָנִים שָׂרָה״.
Nota — Sará, mãe que amamenta as nações. A imagem de Sará amamentando os filhos das mulheres de todos os povos não é um troféu de superioridade — é um quadro de cuidado universal. O prodígio servia para confirmar publicamente o milagre do seu parto; mas o gesto que o midrash escolhe é o de uma mãe que nutre, em paz, as crianças de outras nações. A grandeza de Avraham e Sará, na tradição, está em serem bênção “para todas as famílias da terra” (Bereshit 12:3) — não acima delas, mas a serviço delas.
4
O terceiro prodígio: desde o dia em que foram criados os céus e a terra, não havia homem em quem aparecessem cabelos brancos sinais de velhice visível, até que veio Avraham, nosso pai; e pasmou-se o mundo todo, pois não tinham visto coisa igual desde que o mundo foi criado. E donde sabemos que nele surgiu a brancura da velhice? Como está dito: “e Avraham era velho, entrado em dias” (Bereshit 24:1).
הַמּוֹפֵת הַשְּׁלִישִׁי, מִיּוֹם שֶׁנִּבְרְאוּ שָׁמַיִם וָאָרֶץ לֹא הָיָה אָדָם שֶׁנִּזְרְקָה בּוֹ שֵׂיבָה, עַד שֶׁבָּא אַבְרָהָם אָבִינוּ, וְתָמְהוּ כָּל הָעוֹלָם שֶׁלֹּא רָאוּ כְּמוֹתוֹ מִיּוֹם שֶׁנִּבְרָא הָעוֹלָם. וּמִנַּיִן שֶׁנִּזְרְקָה שֵׂיבָה, שֶׁנֶּאֱמַר ״וְאַבְרָהָם זָקֵן בָּא בַּיָּמִים״.
5
Rabi Levitas, de Yavne, diz: assim como a coroa é a glória sobre a cabeça do rei, assim a brancura dos cabelos (seivá) é glória e esplendor para os anciãos, como está dito: “e o esplendor dos anciãos são os cabelos brancos” (Mishlei 20:29).
רַבִּי לְוִיטָס אִישׁ יַבְנֶה אוֹמֵר: כְּכָלִיל שֶׁהוּא כָּבוֹד רֹאשׁ הַמֶּלֶךְ, כָּךְ הַשֵּׂיבָה כָּבוֹד וְהָדָר לַזְּקֵנִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַהֲדַר זְקֵנִים שֵׂיבָה״.
6
O quarto prodígio: desde o dia em que o mundo foi criado, nenhum homem adoecia antes de morrer; em qualquer lugar em que estivesse — no caminho ou na praça —, se espirrava, a sua alma saía pelas narinas e ele morria; até que veio Yaakov, nosso pai, e pediu misericórdia quanto a isso, e disse diante do Santo, bendito seja: “Senhor do mundo, não tomes a minha alma de mim até que eu ordene as coisas a meus filhos e à minha casa”. E foi-lhe atendido, como está dito: “e aconteceu, depois destas coisas, que se disse a Yossef: ‘eis que teu pai está doente’” (Bereshit 48:1). E ouviram todos os reis da terra e pasmaram, pois não havia coisa igual desde que foram criados os céus e a terra. Por isso é dever de cada um dizer ao seu próximo, na hora em que ele espirra: “Vida!”, pois então a morte do mundo se converteu em luz, como está dito: “os seus espirros fazem brilhar a luz” (Iyov 41:10).
הַמּוֹפֵת הָרְבִיעִי, מִיּוֹם שֶׁנִּבְרָא הָעוֹלָם לֹא הָיָה אָדָם חוֹלֶה, אֶלָּא בְּכָל מָקוֹם שֶׁהָיָה אָדָם, אִם בַּדֶּרֶךְ אִם בַּשּׁוּק, וְעָטַשׁ — הָיְתָה נַפְשׁוֹ יוֹצֵאת מִנְּחִירָיו וּמֵת, עַד שֶׁבָּא יַעֲקֹב אָבִינוּ וּבִקֵּשׁ רַחֲמִים עַל זֹאת וְאָמַר לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״רִבּוֹנוֹ שֶׁל עוֹלָם, אַל תִּקַּח אֶת נַפְשִׁי מִמֶּנִּי עַד אֲשֶׁר אֲנִי מְצַוֶּה אֶת בָּנַי וּבְנֵי בֵיתִי״. וְנֶעְתַּר לוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי אַחֲרֵי הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה וַיֹּאמֶר לְיוֹסֵף הִנֵּה אָבִיךָ חוֹלֶה״. וְשָׁמְעוּ כָּל מַלְכֵי הָאָרֶץ וְתָמְהוּ, שֶׁלֹּא הָיָה כָּמוֹהוּ מִיּוֹם שֶׁנִּבְרְאוּ שָׁמַיִם וָאָרֶץ. לְפִיכָךְ חַיָּב אָדָם לוֹמַר לַחֲבֵרוֹ בִּשְׁעַת עֲטִישׁוֹתָיו: ״חַיִּים!״ שֶׁנֶּהְפַּךְ מָוֶת הָעוֹלָם לְאוֹר, שֶׁנֶּאֱמַר (איוב מא, י): ״עֲטִישׁוֹתָיו תָּהֶל אוֹר״.
Nota — o espirro, a doença e o “Vida!”. Esta é uma aggadá etiológica: uma história que explica, de modo poético, a origem de um costume — o de abençoar quem espirra (“Vida!”, “Saúde!”). Não é uma tese de fisiologia. O seu cerne é uma gentileza: a tradição diz que, antes de Yaakov, a morte chegava sem aviso, e que ele pediu o aviso — o adoecer — para que a pessoa pudesse “ordenar a sua casa”, despedir-se e fazer as pazes. A doença, lida assim, contém também uma misericórdia: o tempo de se preparar.
7
O quinto prodígio: desde o dia em que foram criados os céus e a terra, as águas do mar não se converteram em terra seca, até que saíram Israel do Egito e passaram pelo meio do mar em seco, como está dito: “e os filhos de Israel andaram em seco pelo meio do mar” (Shemot 14:29). E estremeceram todos os reis da terra, pois não havia coisa igual desde que o mundo foi criado, como está dito: “ouviram-no os povos, e estremeceram” (Shemot 15:14).
הַמּוֹפֵת הַחֲמִישִׁי, מִיּוֹם שֶׁנִּבְרְאוּ שָׁמַיִם וָאָרֶץ לֹא נֶהֶפְכוּ מֵי הַיָּם לְיַבָּשָׁה עַד שֶׁיָּצְאוּ יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרַיִם וְעָבְרוּ בְתוֹךְ הַיָּם בַּיַּבָּשָׁה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל הָלְכוּ בַיַּבָּשָׁה בְּתוֹךְ הַיָּם״. וְרָגְזוּ כָּל מַלְכֵי הָאָרֶץ שֶׁלֹּא הָיָה כָּמוֹהוּ מִיּוֹם שֶׁנִּבְרָא הָעוֹלָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שָׁמְעוּ עַמִּים יִרְגָּזוּן״.
Nota — o sol que se detém e a recusa da astrologia. No prodígio de Yehoshua, repare no detalhe: os “magos das nações” tentavam dobrar as constelações contra Israel — e fracassam. É a mesma mensagem que perpassa o livro: os astros não decidem batalhas nem destinos. O Rambam rejeitou a astrologia como superstição vã; aqui, o “deter-se do sol” desmente justamente os que confiavam nos céus. Quanto ao “longo dia” em si, os comentadores oferecem leituras diversas (desde o prodígio literal até a luz que se prolongou); o ponto teológico, porém, é um só — “o Eterno pelejava por Israel”, não os signos.
8
O sexto prodígio: desde o dia em que foram criados os céus e a terra, o sol e a lua e as estrelas e todas as constelações subiam a iluminar a terra e não contendiam um com o outro, até que veio Yehoshua e fez a guerra de Israel; e chegou a véspera do Shabat, e ele viu a aflição de Israel — para que não profanassem o Shabat —, e ainda viu que os magos das nações tentavam dobrar as constelações para virem contra Israel. Que fez Yehoshua? Estendeu a mão à luz do sol e à luz da lua e invocou sobre eles o Nome, e cada um parou no seu lugar trinta e seis horas, até a saída do Shabat, como está dito: “e o sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingou dos seus inimigos; ... e parou o sol no meio do céu, e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro” (Yehoshua 10:13). E viram todos os reis da terra e pasmaram, pois não havia coisa igual desde que o mundo foi criado, como está dito: “e não houve dia semelhante a esse, nem antes nem depois dele, em que o Eterno desse ouvidos à voz de um homem; pois o Eterno pelejava por Israel” (Yehoshua 10:14).
הַמּוֹפֵת הַשִּׁשִּׁי, מִיּוֹם שֶׁנִּבְרְאוּ שָׁמַיִם וָאָרֶץ הַשֶּׁמֶשׁ וְהַיָּרֵחַ וְהַכּוֹכָבִים וְכָל הַמַּזָּלוֹת הָיוּ עוֹלִין לְהָאִיר עַל הָאָרֶץ וְאֵינָן מְעַרְעֲרִין זֶה עִם זֶה, עַד שֶׁבָּא יְהוֹשֻׁעַ וְעָשָׂה מִלְחַמְתָּן שֶׁל יִשְׂרָאֵל, וְהִגִּיעַ עֶרֶב שַׁבָּת וְרָאָה בְּצָרָתָן שֶׁל יִשְׂרָאֵל שֶׁלֹּא יְחַלְּלוּ אֶת הַשַּׁבָּת, וְעוֹד שֶׁרָאוּ חַרְטוּמֵי גּוֹיִם כּוֹבְשִׁים בַּמַּזָּלוֹת לָבֹא עַל יִשְׂרָאֵל. מֶה עָשָׂה יְהוֹשֻׁעַ? פָּשַׁט יָדוֹ לְאוֹר הַשֶּׁמֶשׁ וּלְאוֹר הַיָּרֵחַ וְהִזְכִּיר עֲלֵיהֶם אֶת הַשֵּׁם וְעָמַד כָּל אֶחָד בִּמְקוֹמוֹ שִׁשָּׁה וּשְׁלֹשִׁים שָׁעוֹת עַד מוֹצָאֵי שַׁבָּת, שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּדֹּם הַשֶּׁמֶשׁ וְיָרֵחַ עָמָד עַד יִקֹּם גּוֹי אוֹיְבָיו וַיַּעֲמֹד הַשֶּׁמֶשׁ בַּחֲצִי הַשָּׁמַיִם וְלֹא אָץ לָבוֹא כְּיוֹם תָּמִים״. וְרָאוּ כָּל מַלְכֵי הָאָרֶץ וְתָמְהוּ שֶׁלֹּא הָיָה כָּמֹהוּ מִיּוֹם שֶׁנִּבְרָא הָעוֹלָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְלֹא הָיָה כַּיּוֹם הַהוּא לְפָנָיו וְאַחֲרָיו לֹא יִהְיֶה כֵּן לִשְׁמֹעַ ה' בְּקוֹל אִישׁ כִּי ה' נִלְחָם לְיִשְׂרָאֵל״.
9
O sétimo prodígio: desde o dia em que foram criados os céus e a terra, não havia homem que adoecesse gravemente e vivesse e se erguesse da sua doença, até que veio Chizkiyahu, rei de Yehudá, na sua enfermidade, e reviveu dela. Começou a orar diante do Santo, bendito seja, e disse: “Ah, Eterno, lembra-te, rogo, de que andei diante de Ti em verdade e com coração íntegro, e fiz o que era bom aos Teus olhos” (cf. Yeshayahu 38:3). E foi-lhe atendido, como está dito: “eis que acrescento aos teus dias quinze anos” (Yeshayahu 38:5). Disse diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos, dá-me um sinal de que subirei à Casa do Eterno”. Disse-lhe: “Achaz, teu pai, praticava a astrologia e prostrava-se ao sol, e no seu tempo o sol como que fugia diante dele e a sombra descera dez degraus; se quiseres, a sombra desce dez degraus, ou sobe dez degraus”. Disse diante d’Ele: “Senhor de todos os mundos, não peço que os degraus que a sombra desceu tornem a descer; antes, que recue”, como está dito: “porque a sombra não voltará atrás nos degraus pelos quais já desceu — que, antes, recue” (cf. Yeshayahu 38:8). E o Santo, bendito seja, atendeu-o, como está dito: “eis que farei recuar a sombra dos degraus” (Yeshayahu 38:8). E viram todos os reis da terra e pasmaram, pois não havia coisa igual desde que o mundo foi criado, e enviaram emissários para ver o prodígio, como está dito: “e assim também no caso dos enviados dos príncipes de Bavel, que lhe foram mandados para inquirir do prodígio que houvera na terra” (II Divrei haYamim 32:31).
הַמּוֹפֵת הַשְּׁבִיעִי, מִיּוֹם שֶׁנִּבְרְאוּ שָׁמַיִם וָאָרֶץ לֹא הָיָה אָדָם חוֹלֶה וְיִחְיֶה וְיַעֲמֹד מֵחָלְיוֹ, עַד שֶׁבָּא חִזְקִיָּהוּ מֶלֶךְ יְהוּדָה בַּחֲלוֹתוֹ וַיְחִי מֵחָלְיוֹ. הִתְחִיל מִתְפַּלֵּל לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאָמַר: ״אָנָּא ה' זְכָר נָא אֵת אֲשֶׁר הִתְהַלַּכְתִּי לְפָנֶיךָ בֶּאֱמֶת וּבְצִדְקָה וּבְלֵבָב שָׁלֵם וְהַטּוֹב בְּעֵינֶיךָ עָשִׂיתִי״. וְנֶעְתַּר לוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִנְנִי מוֹסִיף עַל יָמֶיךָ חֲמֵשׁ עֶשְׂרֵה שָׁנָה״. אָמַר לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים, תֵּן לִי אוֹת כִּי אֶעֱלֶה בֵּית ה'״. אָמַר לוֹ: ״אָחָז אָבִיךָ כּוֹבֵשׁ בַּמַּזָּלוֹת הָיָה וְהָיָה מִשְׁתַּחֲוֶה לַשֶּׁמֶשׁ וְהַשֶּׁמֶשׁ הָיָה בּוֹרֵחַ מִלְּפָנָיו וְיָרַד בְּמַעֲלָיו עֶשֶׂר מַעֲלוֹת, אִם רוֹצֶה אַתָּה יֵרֵד עֶשֶׂר מַעֲלוֹת אוֹ יַעֲלֶה עֶשֶׂר מַעֲלוֹת״. אָמַר לְפָנָיו: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים לֹא אוֹתָן הַמַּעֲלוֹת שֶׁיָּרַד יַחֲזֹר וְיַעֲמֹד בִּמְקוֹמוֹ״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי לֹא יָשׁוּב הַצֵּל אֲחוֹרַנִּית בַּמַּעֲלוֹת אֲשֶׁר יָרְדָה״. וְנֶעְתַּר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִנְנִי מֵשִׁיב אֶת צֵל הַמַּעֲלוֹת אֲשֶׁר יָרְדָה״. וְרָאוּ כָּל מַלְכֵי אֶרֶץ וְתָמְהוּ שֶׁלֹּא הָיָה כָּמוֹהוּ מִיּוֹם שֶׁנִּבְרָא הָעוֹלָם, וְשָׁלְחוּ לִרְאוֹת אֶת הַמּוֹפֵת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְכֵן בִּמְלִיצֵי שָׂרֵי מֶלֶךְ בָּבֶל הַמְּשֻׁלָּחִים עָלָיו לִדְרֹשׁ אֶת הַמּוֹפֵת אֲשֶׁר הָיָה בָאָרֶץ״.
10
E Chizkiyahu viu os emissários, e ensoberbeceu-se o seu coração, e mostrou-lhes os tesouros dos reis de Yehudá e os tesouros do Santo dos Santos; e ainda abriu a Arca da Aliança e mostrou-lhes as Tábuas, e disse-lhes: “Com isto fazemos guerra e vencemos”. Como está dito: “e Chizkiyahu alegrou-se com eles e mostrou-lhes toda a casa do seu tesouro: a prata, o ouro, os aromas, o óleo precioso ...; não houve coisa que Chizkiyahu não lhes mostrasse na sua casa e em todo o seu domínio” (Yeshayahu 39:2). E o Santo, bendito seja, irou-se com ele e disse-lhe: “Não te bastou teres-lhes mostrado todos os tesouros dos reis de Yehudá e todos os tesouros do Santo dos Santos, senão que ainda lhes abriste a Arca e lhes mostraste as Tábuas, obra das Minhas mãos? Por tua vida, eles hão de subir e tomar todos os tesouros dos reis de Yehudá e todos os tesouros da Casa”, como está dito: “eis que vêm dias, diz o Eterno, em que tudo o que há na tua casa, e o que entesouraram os teus pais até o dia de hoje, será levado a Bavel; nada ficará” (Yeshayahu 39:6). “E em lugar das Tábuas, teus filhos serão eunucos no palácio do rei de Bavel”, como está dito: “e alguns dos teus filhos, que procederem de ti, ... serão eunucos no palácio do rei de Bavel” (Yeshayahu 39:7). Estes são Chananiá, Mishael e Azariá, que se tornaram eunucos no palácio do rei de Bavel e não geraram filhos; e sobre eles diz a Escritura: “assim diz o Eterno aos eunucos que guardam os Meus Shabatot e escolhem aquilo de que Eu Me agrado ...: dar-lhes-ei na Minha casa ... um memorial e um nome melhor do que filhos e filhas” (Yeshayahu 56:4-5).
וְרָאָה אֶת הַמַּלְאָכִים וְנִתְגָּאָה לִבּוֹ וְהֶרְאָה לָהֶם אֶת אוֹצְרוֹת שֶׁל מַלְכֵי יְהוּדָה וְאֶת אוֹצְרוֹת שֶׁל בֵּית קָדְשֵׁי הַקֳּדָשִׁים, וְעוֹד שֶׁפָּתַח אֶת אֲרוֹן הַבְּרִית וְהֶרְאָה לָהֶם אֶת הַלּוּחוֹת וְאָמַר לָהֶם: ״בָּזֶה אָנוּ עוֹשִׂים מִלְחָמָה וְנוֹצְחִין״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּשְׂמַח עֲלֵיהֶם חִזְקִיָּהוּ וַיַּרְאֵם אֶת כָּל בֵּית נְכֹתֹה אֶת הַכֶּסֶף וְאֶת הַזָּהָב וְאֶת הַבְּשָׂמִים וְאֵת שֶׁמֶן הַטּוֹב וְלֹא הָיָה דָבָר אֲשֶׁר לֹא הֶרְאָם חִזְקִיָּהוּ בְּבֵיתוֹ וּבְכָל מֶמְשַׁלְתּוֹ״. וְכָעַס הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עָלָיו וְאָמַר לוֹ: ״לֹא דַּיֶּךָ שֶׁהֶרְאֵיתָ לָהֶם אֶת כָּל אוֹצְרוֹת מַלְכֵי יְהוּדָה וְאֶת כָּל אוֹצְרוֹת בֵּית קָדְשֵׁי הַקֳּדָשִׁים אֶלָּא שֶׁפָּתַחְתָּ לָהֶם אֶת הָאָרוֹן וְהֶרְאֵיתָ לָהֶם אֶת הַלּוּחוֹת מַעֲשֵׂה יָדַי, חַיֶּיךָ הֵם יַעֲלוּ וְיִקְחוּ אֶת כָּל אוֹצְרוֹת מַלְכֵי יְהוּדָה וְאֶת כָּל אוֹצְרוֹת בֵּית קָדְשֵׁי הַקֳּדָשִׁים״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִנֵּה יָמִים בָּאִים נְאֻם ה' וְנִשָּׂא אֵת כָּל אֲשֶׁר בְּבֵיתֶךָ וַאֲשֶׁר אָצְרוּ אֲבֹתֶיךָ עַד הַיּוֹם הַזֶּה בָּבֶלָה יוּבָאוּ לֹא יִוָּתֵר דָּבָר״. וְתַחַת הַלּוּחוֹת יִהְיוּ בָנֶיךָ סָרִיסִים בְּהֵיכַל מֶלֶךְ בָּבֶל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמִבָּנֶיךָ אֲשֶׁר יֵצְאוּ מִמְּךָ אֲשֶׁר תּוֹלִיד יִקָּחוּ וְהָיוּ סָרִיסִים בְּהֵיכַל מֶלֶךְ בָּבֶל״. אֵלּוּ הֵם חֲנַנְיָה מִישָׁאֵל וַעֲזַרְיָה שֶׁנַּעֲשׂוּ סָרִיסִים בְּהֵיכַל מֶלֶךְ בָּבֶל וְלֹא הוֹלִידוּ בָנִים, וַעֲלֵיהֶם הַכָּתוּב אוֹמֵר: ״כֹּה אָמַר ה' לַסָּרִיסִים אֲשֶׁר יִשְׁמְרוּ אֶת שַׁבְּתוֹתַי וּבָחֲרוּ בַּאֲשֶׁר חָפָצְתִּי״.
Nota — a soberba que abate até o justo. O fecho é o mais instrutivo do capítulo. Chizkiyahu foi um rei reto, curado por mérito; e mesmo ele, num lampejo de vaidade — exibir os tesouros e abrir a Arca diante de estrangeiros —, semeia o exílio. A tradição lê aqui um aviso permanente: a retidão de uma vida não imuniza ninguém contra o orgulho de um instante. E há a coda redentora: os descendentes que “perderam tudo” (Chananiá, Mishael e Azariá, sem filhos) recebem “um nome melhor do que filhos e filhas” por guardarem o Shabat e a fé — a dignidade não está na linhagem nem no tesouro, mas na fidelidade.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

Prodígios com um sentido

Os sete prodígios não são listados como curiosidades, mas como marcos: cada um inaugura algo novo na história da aliança — o nascimento de um povo (Avraham, Sará), a sua libertação (o mar), a sua posse da terra (Yehoshua), a sua sobrevivência (Chizkiyahu). Os Sábios leem-nos como pontos em que o sentido da história se torna visível. O milagre, para a tradição, é menos uma quebra das leis do que uma mensagem escrita em letras grandes.

A glória dos cabelos brancos

É notável que a velhice visível seja contada entre os prodígios. O midrash, com Rabi Levitas, transforma-a em honra: a seivá é a “coroa” do ancião. Numa época que teme envelhecer, os Sábios ensinam o contrário — os anos são esplendor, não vergonha; o tempo vivido com retidão é uma forma de glória.

A misericórdia no aviso

A estranha aggadá do espirro guarda, segundo os comentadores, uma ideia terna: Yaakov pede que a morte deixe de ser súbita, para que haja tempo de se preparar e de ordenar a própria casa. O adoecer, lido assim, é também um presente — a oportunidade de despedir-se, perdoar e ser perdoado. Daí o costume de responder “Vida!” a quem espirra: uma bênção que celebra o fôlego que continua.

O perigo do orgulho

O Radal e os comentadores detêm-se no fim trágico: Chizkiyahu, o justo, perde-se pela vaidade. A lição é severa e democrática — ninguém está acima do risco do orgulho. Mas o capítulo não termina na queda: termina com os fiéis que, despojados de tudo, recebem “um nome melhor do que filhos e filhas”. A última palavra é da fidelidade, não da ruína.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 53

O peso das palavras: a maledicência e o fogo

פֶּרֶק נ״ג

A maledicência em segredo é tratada pela tradição como um dos pecados mais graves — desde a serpente que caluniou no Éden até o murmúrio no deserto. O capítulo medita sobre o poder destrutivo da língua, redime a palavra “cuchita” transformando-a em elogio, e termina no luto de um pai pelo filho rebelde.

1
Todo aquele que difama o seu próximo em segredo não tem parte no mundo vindouro, como está dito: “a quem difama em segredo o seu próximo, a esse o destruirei” (Tehilim 101:5); e outro escrito diz: “maldito aquele que fere o seu próximo em segredo” (Devarim 27:24). Sabe que assim é — vem e vê da serpente, que difamou entre o homem e o Santo, bendito seja, e o Santo, bendito seja, a amaldiçoou, decretando que o seu alimento seria o pó, como está dito: “e pó comerás todos os dias da tua vida” (Bereshit 3:14).
כָּל הַמַּלְשִׁין אֶת חֲבֵירוֹ בַּסֵּתֶר אֵין לוֹ חֵלֶק לָעוֹלָם הַבָּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״מְלָשְׁנִי בַסֵּתֶר רֵעֵהוּ אוֹתוֹ אַצְמִית״, וְכָתוּב אַחֵר אוֹמֵר: ״מַכֵּה רֵעֵהוּ בַסָּתֶר״. תֵּדַע לְךָ שֶׁהוּא כֵּן, בֹּא וּרְאֵה מִנָּחָשׁ שֶׁהִלְשִׁין בֵּין אָדָם לְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, וְאָרְרוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שֶׁמַּאֲכָלוֹ יִהְיֶה עָפָר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְעָפָר תֹּאכַל כָּל יְמֵי חַיֶּיךָ״.
Nota — a gravidade da maledicência (lashon hará). O capítulo abre com a sentença mais dura: quem difama o próximo “não tem parte no mundo vindouro”. A linguagem é enfática — um aviso sobre a enormidade do dano —, não uma condenação irrevogável (a teshuvá sempre repara). O Rambam (Hilchot Deot 7) explica por que a língua é tão temível: a maledicência “mata três” — quem fala, quem ouve e aquele de quem se fala. E a serpente do Éden, primeira caluniadora, é o seu arquétipo: a fala que envenena uma relação. Para a tradição racionalista, dominar a palavra é uma das mais altas disciplinas morais.
2
Rabban Gamliel diz: também Israel difamou o Santo, bendito seja, e disseram: “Será que há n’Ele força para nos sustentar no deserto?”, como está dito: “e falou o povo contra D’us e contra Moshé: poderá D’us preparar uma mesa no deserto?” (Tehilim 78:19), como está dito: “eis que feriu a rocha, e jorraram águas ...” (Tehilim 78:20). Ouviu o Santo, bendito seja, que difamaram a Sua glória, e da Sua glória — que é fogo devorador — enviou neles fogo, e os consumiu ao redor, como está dito: “e o povo se pôs a queixar-se, e isso foi mau aos ouvidos do Eterno; e ardeu entre eles o fogo do Eterno, e devorou a extremidade do acampamento” (Bemidbar 11:1). Foram os anciãos de Israel a Moshé e disseram: “Moshé, nosso mestre, eis que estamos na mão do Eterno como ovelhas para o abate, mas não para o fogo que devora fogo”. E viu Moshé a aflição de Israel, e levantou-se e orou por eles, e foi-lhe atendido, como está dito: “e clamou Moshé ao Eterno, e o fogo se apagou” (Bemidbar 11:2).
רַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: אַף יִשְׂרָאֵל הִלְשִׁינוּ עַל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאָמְרוּ, ״תֹּאמַר שֶׁיֵּשׁ בּוֹ כֹּחַ לָזוּן אוֹתָנוּ בַּמִּדְבָּר?״ שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְדַבֵּר הָעָם בֵּאלֹהִים (וּבְמֹשֶׁה), אָמְרוּ הֲיוּכַל אֵל לַעֲרֹךְ שֻׁלְחָן בַּמִּדְבָּר?״ שֶׁנֶּאֱמַר: ״הֵן הִכָּה צוּר וַיָּזוּבוּ מַיִם״. שָׁמַע הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שֶׁהִלְשִׁינוּ עַל כְּבוֹדוֹ, וּמִכְּבוֹדוֹ שֶׁהוּא אֵשׁ אוֹכְלָה שָׁלַח בָּהֶם אֵשׁ וְאָכְלָה אוֹתָם סָבִיב, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי הָעָם כְּמִתְאֹנְנִים רַע בְּאָזְנֵי ה' וַתִּבְעַר בָּם אֵשׁ ה' וַתֹּאכַל בִּקְצֵה הַמַּחֲנֶה״. הָלְכוּ לָהֶם זִקְנֵי יִשְׂרָאֵל אֵצֶל מֹשֶׁה וְאָמְרוּ: ״מֹשֶׁה רַבֵּנוּ, הִנְנוּ בְיַד ה' כַּצֹּאן לַטִּבְחָה וְלֹא לָאֵשׁ אוֹכְלָה אֵשׁ״. וְרָאָה מֹשֶׁה בְּצָרָתָם שֶׁל יִשְׂרָאֵל, עָמַד וְנִתְפַּלֵּל עֲלֵיהֶם וְנֶעְתַּר לוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּצְעַק מֹשֶׁה אֶל ה' וַתִּשְׁקַע הָאֵשׁ״.
3
Rabi Yehudá diz: aquele fogo que desceu dos céus afundou-se na terra e não tornou ao seu lugar nos céus; antes, entrou na Tenda do Encontro (Ohel Moed). E todos os sacrifícios que se ofereciam no deserto — aquele fogo saía e os consumia, como está dito: “e saiu fogo de diante do Eterno e consumiu sobre o altar o holocausto” (Vayikrá 9:24). Não está escrito aqui “e desceu fogo”, mas “e saiu fogo de diante do Eterno”. E aquele mesmo fogo saiu e consumiu os filhos de Aharon Nadav e Avihu, como está dito: “e saiu fogo de diante do Eterno e os consumiu” (Vayikrá 10:2). Saiu e consumiu a congregação de Korach, como está dito: “e fogo saiu de diante do Eterno e consumiu os duzentos e cinquenta homens” (Bemidbar 16:35).
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: אוֹתָהּ אֵשׁ שֶׁיָּרְדָה מִן הַשָּׁמַיִם שָׁקְעָה בָּאָרֶץ וְלֹא חָזְרָה עוֹד בִּמְקוֹמָהּ לַשָּׁמַיִם, אֶלָּא נִכְנְסָה לָהּ אֶל אֹהֶל מוֹעֵד. וְכָל הַקָּרְבָּנוֹת שֶׁהָיוּ מַקְרִיבִים בַּמִּדְבָּר – אוֹתָהּ אֵשׁ הָיְתָה יוֹצֵאת וְאוֹכֶלֶת אוֹתָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתֵּצֵא אֵשׁ מִלִּפְנֵי ה'״. ״וַתֵּרֶד אֵשׁ״ אֵין כְּתִיב כָּאן, אֶלָּא ״וַתֵּצֵא אֵשׁ מִלִּפְנֵי ה'״. וְאוֹתָהּ הָאֵשׁ יָצְתָה וְאָכְלָה בְּנֵי אַהֲרֹן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתֵּצֵא אֵשׁ״. יָצְתָה וְאָכְלָה עֲדַת קֹרַח, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאֵשׁ יָצְאָה מֵאֵת ה'״.
4
E nenhum homem parte deste mundo sem que passe sobre ele algo daquele fogo que se afundou na terra, como está dito: “e o fogo se apagou — afundou” (Bemidbar 11:2).
וְאֵין אָדָם נִפְטָר מִן הָעוֹלָם עַד שֶׁיַּעֲבֹר עָלָיו מֵאוֹתָהּ הָאֵשׁ שֶׁשָּׁקְעָה בָּאָרֶץ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַתִּשְׁקַע הָאֵשׁ״.
Nota — “o fogo de diante do Eterno”. As imagens de fogo (que desce, se afunda, “sai de diante do Eterno”, passa sobre cada um na morte) são linguagem aggádica. D’us é incorpóreo (Rambam); o “fogo” não é uma chama física que Ele lança, mas a expressão simbólica do juízo e da consequência. O “fogo que passa sobre todos na morte” lê-se como a imagem do acerto de contas universal — o momento em que cada vida é pesada —, não como uma fogueira literal.
5
“E falaram Miriam e Aharon contra Moshé, por causa da mulher cuchita que ele tomara” (Bemidbar 12:1). E acaso ela era cuchita? Mas assim como o cuchita tem o seu corpo distinto bem marcado dentre todas as criaturas, assim Tziporá era distinta nos seus bons feitos; por isso foi chamada “cuchita”, como está dito: “porque ele tomara uma mulher cuchita” (Bemidbar 12:1).
וַתְּדַבֵּר מִרְיָם וְאַהֲרֹן בְּמֹשֶׁה עַל אוֹדוֹת הָאִשָּׁה הַכּוּשִׁית אֲשֶׁר לָקַח, וְכִי כּוּשִׁית הָיְתָה? אֶלָּא מָה כּוּשִׁי זֶה גּוּפוֹ מְשֻׁנֶּה מִכָּל הַבְּרִיּוֹת כָּךְ צִפּוֹרָה מְשֻׁנָּה בְּמַעֲשֶׂיהָ הַטּוֹבִים, לְפִיכָךְ נִקְרֵאת כּוּשִׁית, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי אִשָּׁה כֻשִׁית לָקָח״.
Nota essencial — “cuchita” como elogio, não como ofensa. Esta passagem precisa ser lida com cuidado, à luz do seu próprio propósito. O ponto do midrash é inteiramente positivo: assim como uma pessoa de pele escura se distingue e se reconhece, Tziporá (e, adiante, Israel, Baruch ben Neriá e um justo benjamita) é chamada “cuchita” por se distinguir nos bons feitos. É um termo de honra. E o versículo-chave (§5) é uma das declarações mais universalistas da Torá: D’us diz a Israel “acaso não sois para Mim como os filhos dos cuchim?” (Amós 9:7) — pondo todos os povos em pé de igualdade diante d’Ele. A tradição afirma que todo ser humano é imagem de D’us (Bereshit 1:27) e que o valor está no caráter, não na aparência. Note ainda a ironia do capítulo: a fala de Miriam “sobre a mulher cuchita” é, ela mesma, o lashon hará que o capítulo condena — e por ela Miriam foi repreendida (Bemidbar 12). Até os justos tropeçam na língua.
6
Rabi Tachná diz: também Israel é chamado “cuchim”, como está dito: “acaso não sois para Mim como os filhos dos cuchim, ó filhos de Israel?” (Amós 9:7). E acaso eram cuchim? Mas assim como o cuchita tem o corpo distinto dentre todas as criaturas, assim Israel é distinto nos seus caminhos e nos seus bons feitos dentre todas as nações do mundo; por isso é chamado “cuchim”. E outro escrito diz: “e disse Eved-Melech, o cuchita ...” (Yirmiyahu 38:7). E acaso era um servo cuchita? Não era ele Baruch ben Neriá! Mas assim como o cuchita tem o corpo distinto dentre as criaturas, assim Baruch ben Neriá era distinto nos seus caminhos e nos seus bons feitos; por isso foi chamado “cuchita”.
רַבִּי תַּחְנָא אוֹמֵר: אַף יִשְׂרָאֵל נִקְרְאוּ כּוּשִׁים, שֶׁנֶּאֱמַר ״הֲלוֹא כִבְנֵי כֻשִׁיִּים אַתֶּם לִי״. וְכִי כּוּשִׁים הָיוּ? אֶלָּא מָה כּוּשִׁי זֶה גּוּפוֹ מְשֻׁנֶּה מִכָּל הַבְּרִיּוֹת, כָּךְ הֵם יִשְׂרָאֵל מְשֻׁנִּים בְּדַרְכֵיהֶם וּבְמַעֲשֵׂיהֶם הַטּוֹבִים מִכָּל אֻמּוֹת הָעוֹלָם, לְפִיכָךְ נִקְרְאוּ כּוּשִׁים. וְכָתוּב אַחֵר אוֹמֵר ״וַיֹּאמֶר עֶבֶד הַמֶּלֶךְ הַכּוּשִׁי״. וְכִי עֶבֶד כּוּשִׁי הָיָה? וַהֲלֹא בָּרוּךְ בֶּן נֵרִיָּה הָיָה! אֶלָּא מָה כּוּשִׁי זֶה גּוּפוֹ מְשֻׁנֶּה מִן הַבְּרִיּוֹת, כָּךְ בָּרוּךְ בֶּן נֵרִיָּה מְשֻׁנֶּה בְּדַרְכָּיו וּבְמַעֲשָׂיו הַטּוֹבִים, לְפִיכָךְ נִקְרָא כּוּשִׁי.
7
E outro escrito diz: “e disse Yoav ao cuchita: vai, anuncia ao rei o que viste” (II Shmuel 18:21). E acaso era cuchita? Não era ele um benjamita! Mas assim como o cuchita tem o corpo distinto dentre todas as criaturas, assim era o benjamita distinto nos seus caminhos e nos seus bons feitos; por isso foi chamado “cuchita”.
וְכָתוּב אַחֵר אוֹמֵר: ״וַיֹּאמֶר יוֹאָב לַכּוּשִׁי לֵךְ הַגֵּד לַמֶּלֶךְ״. וְכִי כּוּשִׁי הָיָה? וַהֲלֹא בֶּן יְמִינִי הָיָה! אֶלָּא מָה כּוּשִׁי זֶה גּוּפוֹ מְשֻׁנֶּה מִכָּל הַבְּרִיּוֹת, כָּךְ הָיָה בֶּן יְמִינִי מְשֻׁנֶּה בִּדְרָכָיו וּבְמַעֲשָׂיו הַטּוֹבִים. לְפִיכָךְ נִקְרָא שְׁמוֹ כּוּשִׁי.
8
Rabi Eliezer diz: vem e vê a retidão e a integridade daquele homem, que disse a Yoav: “Ainda que me deis ouro e prata em grande quantidade, não transgrido a ordem do rei que mandou tratar Avshalom com brandura”. Disse-lhe Yoav: “Rogo-te que me mostres o lugar onde Avshalom está pendurado”, e ele não consentiu. Começou Yoav a curvar-se e prostrar-se diante dele para persuadi-lo, como está dito: “e disse Yoav: não posso assim demorar-me diante de ti” (cf. II Shmuel 18:14), e tomou-o pelo braço e forçou-o a mostrar o lugar onde Avshalom estava pendurado. E todo aquele que transgride o mandamento “honra teu pai e tua mãe” é como se transgredisse os Dez Mandamentos; por isso Avshalom foi traspassado por dez lanças, como está dito: “e rodearam dez moços, escudeiros de Yoav, e feriram Avshalom, e o mataram” (II Shmuel 18:15).
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: בֹּא וּרְאֵה יָשְׁרוֹ וְתֻמּוֹ שֶׁל אוֹתוֹ הָאִישׁ שֶׁאָמַר לְיוֹאָב, ״אֲפִלּוּ אַתָּה נוֹתֵן לִי זָהָב וָכֶסֶף הַרְבֵּה מְאֹד אֵינִי עוֹבֵר עַל מִצְוַת הַמֶּלֶךְ״. אָמַר לוֹ יוֹאָב: ״בְּבַקָּשָׁה מִמְּךָ שֶׁתַּרְאֵנִי הַמָּקוֹם שֶׁהָיָה אַבְשָׁלוֹם תָּלוּי בּוֹ״, וְלֹא קִבֵּל. הִתְחִיל כּוֹרֵעַ וּמִשְׁתַּחֲוֶה לְפָנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר יוֹאָב לֹא כֵן אֹחִילָה פָנֶיךָ״, וְלָקַח אוֹתוֹ בַּזְּרוֹעַ וְהֶרְאָה לוֹ אֶת הַמָּקוֹם שֶׁאַבְשָׁלוֹם תָּלוּי בּוֹ. וְכָל הָעוֹבֵר עַל מִצְוַת ״כַּבֵּד אֶת אָבִיךָ (וְאֶת אִמֶּךָ)״ כְּאִלּוּ עוֹבֵר עַל עֲשֶׂרֶת הַדִּבְּרוֹת, לְפִיכָךְ נִדְקְרוּ בּוֹ עֲשָׂרָה רְמָחִים, שֶׁנֶּאֱמַר (שמואל ב יח, טו): ״וַיָּסֹבּוּ עֲשָׂרָה נְעָרִים נֹשְׂאֵי כְּלֵי יוֹאָב וַיַּכּוּ אֶת אַבְשָׁלוֹם וַיְמִיתֻהוּ״.
Nota — a integridade da palavra e a honra dos pais. Dois ensinos morais se cruzam aqui. Primeiro, a retidão do mensageiro, que não trai a ordem recebida “nem por todo o ouro do mundo” — a fidelidade à palavra dada (cf. o ensaio “A palavra dada”). Segundo, a gravidade de desonrar os pais: Avshalom ergueu-se contra o próprio pai, e o midrash lê a sua queda como consequência disso — “quem transgride ‘honra teu pai’ é como se transgredisse toda a Lei”. O respeito aos pais, na tradição, está entre os pilares da vida moral.
9
Seis pessoas assemelharam-se a Adam, o primeiro na sua notável estatura ou dote, e todos foram mortos por aquilo mesmo em que se distinguiam, e estes são: Shimshon, pela sua força, e foi morto; Shaul, pela sua altura, e foi morto; Asael, pela sua rapidez, e foi morto; Yoshiyahu, ferido em seu corpo, e foi morto; Tzidkiyahu, pelos seus olhos, e foi morto; Avshalom, pelo seu cabelo, e foi morto. E Avshalom era valente na guerra, e uma espada estava cingida à sua cintura; e por que não desembainhou a sua espada e cortou o cabelo da sua cabeça e desceu? Mas porque viu que o Guehinom se abrira debaixo dele, e disse: “Melhor para mim ficar pendurado pelo meu cabelo do que descer ao fogo”; por isso ficou pendurado, como está dito: “eis que vi Avshalom pendurado num terebinto” (II Shmuel 18:10).
שִׁשָּׁה נִדְמוּ לְאָדָם הָרִאשׁוֹן וְכֻלָּם נֶהֶרְגוּ, וְאֵלּוּ הֵן: שִׁמְשׁוֹן בְּכֹחוֹ וְנֶהֱרַג, שָׁאוּל בְּקוֹמָתוֹ וְנֶהֱרַג, עֲשָׂהאֵל בִּמְרוּצָתוֹ וְנֶהֱרַג, יֹאשִׁיָּהוּ בִּנְחִירָיו וְנֶהֱרַג, צִדְקִיָּהוּ בְּעֵינָיו וְנֶהֱרַג, אַבְשָׁלוֹם בִּשְׂעָרוֹ וְנֶהֱרַג. וְאַבְשָׁלוֹם גִּבּוֹר כֹּחַ הָיָה בַּמִּלְחָמָה וְחֶרֶב מְצֻמֶּדֶת עַל מָתְנָיו, וּמִפְּנֵי מָה לֹא שָׁלַף אֶת חַרְבּוֹ וְכָרַת אֶת שְׂעַר רֹאשׁוֹ וְיָרַד, אֶלָּא שֶׁרָאָה שֶׁנִּפְתְּחָה גֵּיהִנֹּם תַּחְתָּיו, אָמַר: מוּטָב לִי לִתְלוֹת בִּשְׂעָרִי וְלֹא לֵירֵד בָּאֵשׁ, לְפִיכָךְ הָיָה תָּלוּי, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִנֵּה רָאִיתִי אֶת אַבְשָׁלוֹם תָּלוּי בָּאֵלָה״.
10
Rabi Yossi diz: sete portões há para o Guehinom, e Avshalom entrou por cinco portões. E ouviu David, e começou a chorar e a lamentar e a prantear, e chamou “Avshalom, meu filho” cinco vezes, como está dito: “e o rei estremeceu, e subiu ao aposento sobre o portão, e chorou; e assim dizia, ao andar: ‘meu filho Avshalom! Meu filho, meu filho Avshalom! Quem me dera morrer eu em teu lugar, Avshalom, meu filho, meu filho!’” (II Shmuel 19:1). E as cinco menções o fizeram retornar dos cinco portões. E viu David que Avshalom fora salvo dos cinco portões, e começou a louvar e a exaltar e a glorificar o seu Criador, como está dito: “faze comigo um sinal para o bem, e vejam-no os que me odeiam, e se envergonhem, pois Tu, ó Eterno, me ajudaste e me consolaste” (Tehilim 86:17) — “ajudaste-me” na guerra de Avshalom, e “consolaste-me” quanto a Avshalom, e consolaste-me no meu luto.
רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: שִׁבְעָה פְּתָחִים לַגֵּיהִנֹּם, וְנִכְנַס אַבְשָׁלוֹם עַד חֲמִשָּׁה פְּתָחִים. וְשָׁמַע דָּוִד וְהִתְחִיל בּוֹכֶה וּמְיַלֵּל וּמְסַפֵּד, וְקָרָא ״אַבְשָׁלוֹם בְּנִי״ חֲמִשָּׁה פְּעָמִים, שֶׁנֶּאֱמַר (שמואל ב יט, א): ״וַיִּרְגַּז הַמֶּלֶךְ וַיַּעַל עַל עֲלִיַּת הַשַּׁעַר וַיֵּבְךְּ וְכֹה אָמַר בְּלֶכְתּוֹ בְּנִי אַבְשָׁלוֹם בְּנִי בְנִי אַבְשָׁלוֹם מִי יִתֵּן מוּתִי אֲנִי תַחְתֶּיךָ אַבְשָׁלוֹם בְּנִי בְנִי״. וְהֶחֱזִירוּ מֵחֲמִשָּׁה פְּתָחִים. וְרָאָה דָּוִד שֶׁנִּצַּל מֵחֲמִשָּׁה פְּתָחִים וְהִתְחִיל מְהַלֵּל וּמְשַׁבֵּחַ וּמְפָאֵר לְיוֹצְרוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עֲשֵׂה עִמִּי אוֹת לְטוֹבָה וְיִרְאוּ שׂוֹנְאַי וְיֵבֹשׁוּ כִּי אַתָּה ה' עֲזַרְתַּנִי וְנִחַמְתָּנִי״. עֲזַרְתַּנִי מִמִּלְחֶמֶת אַבְשָׁלוֹם, וְנִחַמְתַּנִי עַל אַבְשָׁלוֹם, וְנִחַמְתַּנִי עַל אֶבְלִי.
Nota — o Guehinom e o luto de um pai. O “Guehinom” e os seus “portões” são, na leitura racionalista, imagem do acerto da alma após a morte — um estado de reparação e remorso, não um lugar geográfico de fogo (Rambam descreve a punição como privação espiritual, não tormento físico). O coração do trecho, porém, é humano: David, traído e combatido pelo próprio filho, chora por ele cinco vezes e, segundo o midrash, com isso o resgata. É o retrato comovente do amor de um pai que não cessa nem diante da rebeldia do filho — e o consolo de que a misericórdia alcança até quem se perdeu.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A língua que destrói

O capítulo faz da maledicência o paradigma do pecado. Os Sábios notam que a serpente, primeira caluniadora, não cometeu violência física — apenas falou, e envenenou a relação entre o ser humano e D’us. Daí a severidade: a palavra dita em segredo pode arruinar reputações e laços que nenhuma força reconstrói. O Radal e os comentadores leem o encadeamento de “fogos” como a cadeia das consequências que a língua acende.

A dignidade de quem se distingue

A digressão sobre “cuchita” é, para os comentadores, uma lição de leitura: uma palavra que poderia soar como rótulo torna-se, no midrash, um título de honra — reservado a quem se distingue na virtude (Tziporá, Israel, Baruch, um benjamita justo). E o versículo de Amós, que iguala Israel e os filhos de Cush diante de D’us, é lido como afirmação da dignidade comum de todos os povos. O valor de uma pessoa, ensina a tradição, mede-se pelos seus feitos, não pela sua aparência.

O preço da rebeldia

Avshalom, que se ergueu contra o pai e contra o rei, torna-se o exemplo de como os próprios dons — aqui, a beleza dos cabelos — podem tornar-se a ruína de quem os usa mal. Os Sábios ligam a sua queda à transgressão de honrar o pai, mostrando que a grandeza sem retidão se volta contra si mesma.

O amor que resgata

E, no entanto, a última palavra não é de condenação, mas de amor. David, com razões de sobra para o rancor, chora pelo filho rebelde — e o midrash diz que esse pranto o resgata. Os comentadores veem aí o reflexo da própria misericórdia divina: o pai que não desiste do filho, e o perdão que pode alcançar até o que parecia perdido.

Pirkei deRabbi Eliezer · Capítulo 54 · Final

A serpente de bronze e o coração voltado ao Céu

פֶּרֶק נ״ד

O capítulo que encerra o livro reúne os seus grandes temas: a gravidade da maledicência (a tzaraat de Miriam e o amor de Moshé que a cura), as leis da pureza, e — no seu coração — a serpente de bronze, com a lição que é a alma de toda a obra: não foi o objeto que curou, mas o coração voltado ao Céu.

1
E a oitava descida da Presença divina foi a que desceu sobre a Tenda, como está dito: “e desceu o Eterno na coluna de nuvem, e pôs-se à entrada da Tenda, e chamou Aharon e Miriam, e saíram ambos” (Bemidbar 12:5). Disse-lhes o Santo, bendito seja: todo aquele que difama o seu próximo em segredo não tem cura — e quanto a respeito do seu próprio irmão, filho do mesmo pai e da mesma mãe, quanto mais! E irou-se com eles o Santo, bendito seja, e a Presença retirou-se de sobre a Tenda, como está dito: “e acendeu-se a ira do Eterno contra eles, e Ele Se foi; e a nuvem retirou-se de sobre a Tenda” (Bemidbar 12:9-10) — e logo Miriam foi acometida de tzaraat enfermidade da pele. Disse o Santo, bendito seja: se Aharon também ficar leproso, não pode ser, pois um sacerdote com defeito físico não pode oferecer sobre o Meu altar; antes, que ele veja a sua irmã e se horrorize, como está dito: “e Aharon voltou-se para Miriam e eis que estava leprosa” (Bemidbar 12:10). Foi Aharon a Moshé e disse-lhe: nosso senhor Moshé, os irmãos não se separam uns dos outros senão pela morte, como está dito: “pois ele semeia discórdia entre irmãos” (cf. Mishlei), e a nossa irmã, ainda em vida, está separada de nós — “não fique ela, por favor, como um morto” (Bemidbar 12:12). E ainda: até agora todo o Israel ouvirá e dirá: “a irmã de Moshé e Aharon está leprosa” — e metade da má fama recairá sobre ti Moshé. E Moshé aquietou-se com as palavras, e levantou-se e orou por ela, e foi-lhe atendido, como está dito: “e clamou Moshé ao Eterno, dizendo: ‘Ó D’us, rogo-Te, cura-a, rogo-Te’” (Bemidbar 12:13).
וִירִידָה שְׁמִינִית שֶׁיָּרַד בָּאֹהֶל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֵּרֶד ה' בְּעַמּוּד עָנָן וַיַּעֲמֹד פֶּתַח הָאֹהֶל וַיִּקְרָא אַהֲרֹן וּמִרְיָם וַיֵּצְאוּ שְׁנֵיהֶם״. אָמַר לָהֶם הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: כָּל הַמַּלְשִׁין אֶת רֵעֵהוּ בַּסֵּתֶר אֵין לוֹ רְפוּאָה, עַל אָחִיו בֵּין אָבִיו וּבֵין אִמּוֹ עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה. וְכָעַס עֲלֵיהֶם הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְנִסְתַּלְּקָה מֵעַל הָאֹהֶל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּחַר אַף ה' בָּם וַיֵּלַךְ״. ״וְהֶעָנָן סָר מֵעַל הָאֹהֶל״, וּמִיָּד נִצְטָרְעָה מִרְיָם. אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: אִם יִהְיֶה אַהֲרֹן מְצֹרָע, אֵין כֹּהֵן בַּעַל מוּם יָכוֹל לְהַקְרִיב עַל מִזְבְּחִי, אֶלָּא יִרְאֶה אֲחוֹתוֹ וְיִתְמַהּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּפֶן אַהֲרֹן אֶל מִרְיָם״. הָלַךְ אֵצֶל מֹשֶׁה וְאָמַר לוֹ: אֲדוֹנֵנוּ מֹשֶׁה, אֵין הָאַחִין מִתְפָּרְשִׁין זֶה מִזֶּה אֶלָּא מִתּוֹךְ מִיתָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי הוּא בֵּין אַחִים יַפְרִיא״, וַאֲחוֹתֵנוּ עַד שֶׁהִיא בַּחַיִּים נִפְרְשָׁה מִמֶּנּוּ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אַל נָא תְהִי כַּמֵּת״. וְלֹא עוֹד, אֶלָּא עַד עַכְשָׁו יִשְׁמְעוּ כָּל יִשְׂרָאֵל וְיֹאמְרוּ: אֲחוֹתָם שֶׁל מֹשֶׁה וְאַהֲרֹן מְצֹרַעַת הִיא, וַחֲצִי שֵׁם רַע שֶׁלְּךָ הוּא. וְנִתְרַצָּה מֹשֶׁה בַּדְּבָרִים וְעָמַד וְנִתְפַּלֵּל עָלֶיהָ, וְנֶעְתַּר לוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּצְעַק מֹשֶׁה אֶל ה' לֵאמֹר: אֵל נָא רְפָא נָא לָהּ״.
Nota — a maledicência e o amor que cura. O livro retoma, no seu fim, o tema do capítulo anterior: a gravidade do lashon hará. Nem mesmo Miriam, a profetisa, escapa à responsabilidade pela palavra dita contra Moshé (a Torá manda recordar este episódio para sempre, como aviso eterno — Devarim 24:9). Mas o coração da passagem é o seu contraponto luminoso: Moshé, alvo da murmuração, não guarda rancor — e ora pela irmã com cinco palavras, das mais comoventes da Torá: “El na refá na lah” (“Ó D’us, rogo-Te, cura-a”). Quem foi ferido pela língua responde com amor e oração.
2
Rabi Levitas, de Yavne, diz: no caso de Miriam, ela só se purificaria após sete dias de exclusão fora do acampamento — pois assim foi decretado: como está dito: “e disse o Eterno a Moshé: ... que ela seja excluída sete dias fora do acampamento” (cf. Bemidbar 12:14). Daqui e de outras fontes disseram os sábios, sobre os sete dias em diversos estados de impureza ritual: o que tem fluxo (zav), sete dias; a que tem fluxo (zavá), sete; a mulher no seu período (nidá), sete; o impuro por contato com morto, sete; o enlutado (avel), sete; o banquete nupcial, sete; o leproso, sete; a leprosa, sete. O zav, sete, como está dito: “e quando o que tem fluxo se purificar do seu fluxo contará sete dias” (Vayikrá 15:13). A zavá, sete, como está dito: “e, se ela se purificar do seu fluxo contará sete dias” (Vayikrá 15:28). A nidá, sete, como está dito: “sete dias estará no seu período” (Vayikrá 15:19). Outra interpretação: Rabi Zeira diz que as filhas de Israel tomaram sobre si um rigor adicional, de modo que, mesmo vendo apenas uma gota de sangue do tamanho de um grão de mostarda, contam por causa dela sete dias limpos. O impuro por morto, sete, como está dito: “e todo aquele que tocar um morto em campo aberto ...” (Bemidbar 19:16). O enlutado, sete, como está dito: “e fez por seu pai um luto de sete dias” (Bereshit 50:10).
רַבִּי לְוִיטָס אִישׁ יַבְנֶה אוֹמֵר: אִם אֵין מְצֹרַעַת מְרַקֶּקֶת בְּפָנָיו, אֵינוֹ מִתְרַפֵּא. וְאִם אֵין אָבִיו מְרַקֵּק בְּפָנָיו, אֵינוֹ מִתְרַפֵּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיֹּאמֶר ה' אֶל מֹשֶׁה וְאָבִיהָ יָרֹק יָרַק בְּפָנֶיהָ״. מִכָּאן אָמְרוּ: זָב שִׁבְעָה, זָבָה שִׁבְעָה, נִדָּה שִׁבְעָה, טְמֵא מֵת שִׁבְעָה, אָבֵל שִׁבְעָה, מִשְׁתֶּה שִׁבְעָה, מְצֹרָע שִׁבְעָה, מְצֹרַעַת שִׁבְעָה. זָב שִׁבְעָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְכִי יִטְהַר הַזָּב מִזּוֹבוֹ״. זָבָה שִׁבְעָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״[וְאִם] טָהֲרָה מִזּוֹבָהּ״. נִדָּה שִׁבְעָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שִׁבְעַת יָמִים תִּהְיֶה בְנִדָּתָהּ״. ״כְּנִדָּתָהּ״ אֵין כְּתִיב כָּאן, וְאֵין אַתָּה קוֹרֵא אֶלָּא ״בְּנִדָּתָהּ״. דָּבָר אַחֵר, רַבִּי זֵירָא אוֹמֵר: בְּנוֹת יִשְׂרָאֵל הֶחְמִירוּ עַל עַצְמָן שֶׁאֲפִלּוּ רוֹאוֹת טִפַּת דָּם כְּחַרְדָּל יוֹשְׁבוֹת עָלֶיהָ שִׁבְעָה נְקִיִּים. טְמֵא מֵת שִׁבְעָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְכֹל אֲשֶׁר יִגַּע עַל פְּנֵי הַשָּׂדֶה״ וְכוּ'. אָבֵל שִׁבְעָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיַּעַשׂ לְאָבִיו אֵבֶל שִׁבְעַת יָמִים״.
Nota — a pureza ritual não é juízo moral. Os estados de “impureza” (tum’á) e “pureza” (tahará) — que tocam o fluxo, o contato com a morte, o parto, o período da mulher (nidá) — são categorias rituais, ligadas ao serviço do Santuário e ao simbolismo da vida e da morte; não são um juízo sobre o caráter nem uma marca de inferioridade. A mulher em estado de nidá não é “suja” em sentido moral, tampouco menos digna: a Torá afirma que todo ser humano é imagem de D’us (Bereshit 1:27). O número “sete” aqui é o ritmo de transição entre um estado e outro — um tempo, não uma condenação.
3
Rabi Yehudá haNassí diz: ainda outra vez difamaram o Santo, bendito seja, e disseram: “Estávamos sentados na terra do Egito, sossegados e tranquilos, e o Santo, bendito seja, e Moshé nos tiraram do Egito para morrer no deserto”, como está dito: “e falou o povo contra D’us e contra Moshé” (Bemidbar 21:5). Que lhes fez o Santo, bendito seja? Enviou-lhes as serpentes, que os mordiam e os matavam, como está dito: “e enviou o Eterno entre o povo as serpentes ardentes” (Bemidbar 21:6). E viu Moshé a aflição de Israel, e levantou-se e orou por eles. Disse-lhe o Santo, bendito seja: “Moshé, faze para ti uma serpente ardente de bronze, à semelhança daquela serpente que difamou entre Mim e o homem e a sua ajudante Chavá, e põe-na num lugar alto; e todo aquele que tiver sido mordido, ao dirigir o seu coração ao seu Pai que está nos céus e olhar para aquela serpente, será imediatamente curado”, como está dito: “e será que, se a serpente tiver mordido alguém, este olhará para a serpente de bronze e viverá” (Bemidbar 21:9). E assim a Escritura diz: “se a serpente morder antes do encantamento ...” (Kohelet 10:11).
רַבִּי אוֹמֵר: עוֹד הִלְשִׁינוּ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וְאָמְרוּ: ״הָיִינוּ יוֹשְׁבִים בְּאֶרֶץ מִצְרַיִם שַׁאֲנָן וְשָׁלֵו, וְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא וּמֹשֶׁה הוֹצִיאָנוּ מִמִּצְרַיִם לָמוּת בַּמִּדְבָּר״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְדַבֵּר הָעָם בֵּאלֹהִים וּבְמֹשֶׁה״. מֶה עָשָׂה לָהֶם הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא? שָׁלַח לָהֶם הַנְּחָשִׁים וְהָיוּ נוֹשְׁכִים וּמְמִיתִים אוֹתָם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְשַׁלַּח ה' בָּעָם״. וְרָאָה מֹשֶׁה בְּצָרָתָן שֶׁל יִשְׂרָאֵל וְעָמַד וְהִתְפַּלֵּל עֲלֵיהֶם. אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״מֹשֶׁה, עֲשֵׂה לְךָ שָׂרָף נְחַשׁ נְחֹשֶׁת כְּמִין אוֹתוֹ נָחָשׁ שֶׁהִלְשִׁין בֵּינִי לְבֵין אָדָם וְעֶזְרוֹ, וְשִׂים אוֹתוֹ בְּמָקוֹם גָּבוֹהַּ, וְכָל אָדָם שֶׁהוּא נָשׁוּךְ וְהָיָה מְתַכְּוֵן לִבּוֹ לְאָבִיו שֶׁבַּשָּׁמַיִם וּמִסְתַּכֵּל בְּאוֹתוֹ נָחָשׁ – מִיָּד נִתְרַפֵּא״, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיָה אִם נָשַׁךְ הַנָּחָשׁ״. וְכֵן הוּא אוֹמֵר: ״אִם יִשֹּׁךְ הַנָּחָשׁ בְּלוֹא לָחַשׁ״.
Nota essencial — a serpente de bronze: contra a magia, o coração ao Céu. Este é, talvez, o ponto culminante de todo o livro. O texto é cuidadoso: o curado é quem “dirige o seu coração ao seu Pai que está nos céus e olha para a serpente”. A Mishná (Rosh Hashaná 3:8) explicita a lição com toda a força: “Acaso a serpente mata ou faz viver? Mas, quando Israel erguia os olhos para o alto e submetia o coração ao seu Pai nos céus, eram curados; e, se não, definhavam.” A serpente de bronze não tinha poder algum — não era amuleto nem talismã; era apenas um ponto de foco para erguer o coração a D’us. E a prova definitiva: quando, gerações depois, o povo começou a venerar o objeto em si, o rei Chizkiyahu o despedaçou e o chamou “Nechushtan” — “apenas um pedaço de bronze” (II Melachim 18:4). Eis a recusa da Torá, na própria voz da Torá, a toda magia, feitiço e objeto “milagroso”: nada criado cura ou salva — só D’us, e o coração voltado para Ele.
4
Rabi Meir diz: se o médico entra junto a quem foi mordido e o cura, certamente a este médico se reconhece a benevolência agradece-se.
רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר: אִם יִכָּנֵס הָרוֹפֵא אֵצֶל מִי שֶׁנְּשָׁכוֹ וִירַפְּאֵהוּ, וַדַּאי לָזֶה מַחֲזִיקִין טוֹבָה.
5
Rabi Yossi diz: se um homem contrata um trabalhador diligente e lhe paga o salário por inteiro — que gratidão se lhe reconhece pois apenas pagou o devido? Mas, se um homem contrata um trabalhador que rendeu pouco e ainda assim lhe paga o salário por inteiro — a este empregador se reconhece a benevolência. Assim disse Shlomó diante do Santo, bendito seja: “Senhor de todos os mundos! Avraham, Yitzchak e Yaakov já fizeram a sua obra e partiram — somos como trabalhadores que pouco rendem; quando nos deres o nosso salário por inteiro e nos curares por Tua bondade, e não por estrito merecimento, certamente todos Te louvarão e Te bendirão”.
רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: אִם יִשְׂכֹּר אָדָם פּוֹעֵל זָרִיז וְיִתֵּן לוֹ שְׂכָרוֹ מִשָּׁלֵם, מַה טּוֹבָה מַחֲזִיקִין לָזֶה? אֲבָל אִם יִשְׂכֹּר אָדָם פּוֹעֵל עָצֵל וְיַקִּיפֵהוּ וְנוֹתֵן לוֹ שְׂכָרוֹ מִשָּׁלֵם, מַה טּוֹבָה מַחֲזִיקִין לָזֶה? אֲבָל אִם יִשְׂכֹּר אָדָם פּוֹעֵל עָצֵל וְנוֹתֵן לוֹ שְׂכָרוֹ מִשָּׁלֵם, לָזֶה מַחֲזִיקִין לוֹ טוֹבָה. אָמַר שְׁלֹמֹה כֵּן לִפְנֵי הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: ״רִבּוֹן כָּל הָעוֹלָמִים! אַבְרָהָם יִצְחָק וְיַעֲקֹב פּוֹעֲלִים עֲצֵלִים. כְּשֶׁתִּתֵּן לָנוּ שְׂכָרֵינוּ מִשָּׁלֵם וְתִרְפָּאֵנוּ, בְּוַדַּאי יִהְיוּ הַכֹּל מְקַלְּסִין וּמְבָרְכִין אוֹתְךָ״.
Nota — a cura como graça, não como salário. A parábola de Shlomó ensina a humildade diante de D’us: não nos apresentamos como “trabalhadores diligentes” que cobram um salário merecido. A cura e a bênção que recebemos são, em larga medida, graça — bondade que excede o estrito merecimento —, e é justamente por isso que despertam louvor. A tradição equilibra mérito e graça: fazemos a nossa parte, mas reconhecemos que vivemos da generosidade divina. Um fecho de humildade para o livro inteiro.
6
Concluído e completo. Louvor Àquele que socorre. Amém.
תַּם וְנִשְׁלַם, תְּהִלָּה לָעוֹזֵר. אָמֵן.

Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים

A última palavra sobre a língua

Não é por acaso que o livro termina retomando o lashon hará. Da serpente do Éden (cap. 53) à murmuração de Miriam, a obra faz da palavra mal usada o pecado-raiz — e da palavra de oração e amor, o seu remédio. Moshé, ferido, reza pela irmã: a grandeza moral não está em vingar-se, mas em curar.

Contra a magia, em nome da Torá

O episódio da serpente de bronze é lido pelos Sábios como a grande declaração antimágica da tradição. O Radal e os comentadores, na esteira da Mishná, insistem: o objeto nada faz; é o coração elevado a D’us que cura. Mais tarde, quando a serpente virou ídolo, foi destruída. A obra, que percorreu cosmologia, profecia e milagres, encerra-se afirmando que nenhuma coisa criada tem poder próprio — apenas o Criador.

Mérito e graça

A parábola final de Shlomó equilibra a balança: o ser humano faz a sua parte, mas a recompensa plena é dom da bondade divina. Encerrar o livro com um pedido de cura "por graça" é um gesto de humildade — e de esperança: contamos não apenas com o que merecemos, mas com Quem é bom.

Concluído e completo

O colofão — “Tam ve-nishlam, tehilá la-Ozer” (“Concluído e completo; louvor Àquele que socorre”) — sela a jornada de cinquenta e quatro capítulos, da criação do mundo às últimas lições no deserto. O livro que começou contemplando os céus termina pedindo cura e voltando o coração para o alto.