אֱמוּנוֹת וְדֵעוֹת
רב סעדיה גאון

Crenças e Opiniões — tradução bilíngue do hebraico
Dvar Torah Israel · dvartorahisrael.com

Índice

  1. A dúvida, o conhecimento e a fé pela razão
  2. As fontes do conhecimento e por que investigamos a fé
  3. As causas do erro e o plano da obra
  4. As quatro provas de que o mundo foi criado
  5. O Criador, e a criação a partir do nada
  6. Contra as teorias rivais (I): a “matéria espiritual eterna”
  7. Contra as teorias rivais (II): o mundo “feito de D’us”
  8. O dualismo refutado: a treva como ausência de luz
  9. Contra as teorias rivais (IV): a matéria precisa de um Criador
  10. Contra as teorias rivais (V): os céus e o acaso
  11. A eternidade do mundo, o relativismo e o ceticismo
  12. O lugar, o tempo, e por que D'us criou o mundo
  13. A escada do conhecimento: como se conhece o que não se vê
  14. O que sabemos de D'us, e por que Ele é Um
  15. A refutação do dualismo: por que não há "dois deuses"
  16. Os muitos Nomes, um só D'us
  17. Vivo, poderoso, sábio — e ainda assim Um
  18. Nem composto, nem dividido: a unidade absoluta
  19. Quando a Escritura parece dizer "nós"
  20. A Presença de D'us não é D'us
  21. O mais sutil é o mais forte
  22. "A quem comparareis D'us?"
  23. A "mão" de D'us — e a Glória criada
  24. D'us não sente — nem habita, nem se senta — como nós
  25. O que Moshé viu
  26. Conhecer — e amar — a D'us
  27. Por que D'us ordena: o bem conquistado vale o dobro
  28. As duas espécies de mandamento: os da razão e os da revelação
  29. Por que a razão proíbe — e o sentido oculto das mitsvot
  30. Por que precisamos dos profetas: a razão dá o princípio, a revelação dá a forma
  31. Como se prova um profeta: o sinal — e por que ele continua humano
  32. A certeza do profeta — e por que a magia não é milagre
  33. Os livros sagrados — e por que podemos confiar na tradição
  34. Por que a Torá não pode ser anulada
  35. O que valida um profeta — e os versículos da ab-rogação
  36. Quando a Torá parece contradizer-se: dez casos resolvidos
  37. Doze últimas dúvidas — e o fecho do Tratado III
  38. O ser humano, o alvo da criação
  39. A razão que torna o homem livre — e responsável
  40. Por que o homem sofre, se é o alvo da criação
  41. A liberdade de escolher: D'us só ordena o que está em nosso poder
  42. D'us não obriga: a liberdade e a presciência divina
  43. O Ato de D'us e o Ato do Homem: a quem atribuir o mal
  44. Quando a Escritura Parece Negar a Liberdade
  45. Méritos e Faltas: o que os atos fazem à alma
  46. Por Que o Justo Sofre e o Ímpio Prospera
  47. Sofrimentos de Amor, e a Paciência com os Ímpios
  48. Os Graus diante das Mitsvot: do servo fiel ao negador
  49. O Penitente: as Quatro Portas da Teshuvá
  50. Quando a Oração Não Sobe — e os Cinco Graus da Teshuvá
  51. A Balança que se Inclina, e o Peso de Cada Ato
  52. O Portão dos Pensamentos — e os Casos da Vida
  53. A Essência da Alma: substância, não acidente
  54. A Sétima Doutrina — e a Exegese de "Quem Sabe?" em Qohélet
  55. A Alma Criada e as Suas Três Forças
  56. Por que a Alma Nobre Habita um Corpo Vil
  57. A Alma e o Corpo São Um Só Agente
  58. O Termo da Vida e a Medida da Força
  59. A Alma na Hora da Separação
  60. Contra a Transmigração das Almas
  61. A Ressurreição dos Mortos — a Resposta pela Natureza e pela Razão
  62. A Resposta do Intelecto — os Quatro Critérios de Interpretação
  63. A Resposta da Escritura — e Qohélet na Voz dos Tolos
  64. As Provas da Escritura — Yechezkel, Yeshayahu e Daniel
  65. Se a Ressurreição é Metáfora, Toda a Torá se Desfaz
  66. O Testemunho do Cântico — “Eu Mato e Faço Viver”
  67. O Testemunho da Tradição — os Sete Pastores e os Oito Príncipes
  68. Os Ramos da Fé — Dez Perguntas sobre a Ressurreição
  69. A Redenção Final — a Reunião dos Exilados e o Dobro da Consolação
  70. Os Dois Tempos da Redenção — a Teshuvá e o Ketz
  71. A Medida do Ketz — “um Tempo, Tempos e Metade”
  72. A Dúvida nos Prazos — Egito e Babilônia como Prova
  73. As Dores do Messias — as Tribulações antes da Redenção
  74. Ben David e a Guerra de Gog — até a Salvação Eterna
  75. “Tudo já se Cumpriu”? — Condição contra Promessa
  76. Quinze Provas de que a Redenção ainda não Veio
  77. As “Setenta Semanas” de Daniel — Conclusão do Tratado VIII
  78. O Mundo Vindouro — as Provas Racionais
  79. As Provas Escriturísticas — do Martírio ao Galardão
  80. As Sete Raízes Escriturísticas do Mundo Vindouro
  81. As Provas da Tradição — o Vestíbulo e o Esplendor da Shechiná
  82. A Essência da Recompensa e do Castigo
  83. O Lugar e o Tempo do Mundo Vindouro
  84. A Eternidade da Recompensa e do Castigo
  85. Os Graus da Recompensa e do Castigo
  86. Recompensados e Castigados — Encontram-se?
  87. Há Serviço a D'us no Mundo Vindouro?
  88. O Segredo do Galardão e o Dever de Ensinar
  89. Introdução ao Tratado da Conduta — o Um e os Muitos
  90. Nenhuma Vida se Faz de uma Só Disposição
  91. As Três Potências da Alma e o Domínio da Razão
  92. Kohélet e os Três Caminhos que, Sozinhos, são Vaidade
  93. As Treze Disposições — e a Abstinência no seu Lugar
  94. A Comida, a Bebida e a Medida Justa
  95. O Desejo Conjugal e a sua Medida
  96. A Paixão, e o Amor no seu Lugar
  97. A Riqueza, a Ganância e a Guarda Justa
  98. Os Filhos, a sua Criação e a Herança do Senhor
  99. Construir e Cultivar, na sua Medida
  100. A Longevidade e o seu Sentido
  101. O Poder, a Soberba e a Ordem pela Sabedoria
  102. A Vingança, e a sua Transformação em Justiça
  103. A Sabedoria, e o Equilíbrio que até Ela Exige
  104. O Serviço a D'us está em Todos os Mandamentos
  105. O Repouso, o Trabalho e a Paz do Mundo Vindouro
  106. A Síntese do Justo Meio — a Alma como Remédio Composto
  107. A Harmonia dos Sentidos e os Oito Modos Musicais
  108. A Conclusão de Toda a Obra — a Pureza do Coração
Emunot veDeot · Introdução · Parte I

A dúvida, o conhecimento e a fé pela razão

הַקְדָּמָה · חֵלֶק א׳

Assim começa a primeira grande obra sistemática da filosofia judaica. Saadia Gaon abre não pelas conclusões, mas pelo método: por que as pessoas caem em dúvida e erro, como o conhecimento verdadeiro se alcança passo a passo, o que é de fato a “fé” — e por que a razão, longe de ameaçar a crença, a confirma e a aprofunda.

1
Disse Yehudá ben Shaul Ibn Tibbon, o tradutor: o autor Saadia começou a obra e disse — Bendito o Eterno, D’us de Israel, a quem convém a questão da verdade clara; Aquele que confirma aos seres racionais a existência das suas próprias almas como verdade clara, e por quem os seus sentidos encontraram uma percepção clara, e os seus conhecimentos se fizeram conhecimento justo; por Ele se afastaram deles as confusões, e com Ele se foram as dúvidas, e se lhes tornaram límpidas as provas, e se lhes purificaram as demonstrações. Seja Ele louvado acima de todo louvor sublime.
אמר יהודה בן שאול, פתח מחברו ואמר: ברוך י"י אלהי ישראל אשר לו יאות ענין האמת הברורה, המאמת למדברים מציאות נפשותם אמת ברורה, ומצאו בה מוחשיהם מציאה ברורה, וידעו בה ידיעותם ידיעת צדק, נסתלקו בה מעליהם השבושים, וסרו עמה הספקות, ונצללו להם הראיות, והזדכו להם המופתים, וישתבח על כל ספור נעלה לתהלה:
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Depois de termos aberto com o louvor ao nosso D’us, num breve enunciado, dou início a este livro que me propus a compor — dando a conhecer a causa pela qual caem as dúvidas sobre os seres humanos nas suas investigações, e os modos de removê-las, até que se complete o alcançar daquilo que se busca. E em D’us busco auxílio para dissipá-las de mim, até que se cumpra para mim aquilo pelo qual chego ao Seu serviço — como pediu o Seu piedoso ao dizer: “abre os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da Tua Torá” (Tehilim 119:18). E quero pôr este livro e todo o seu conteúdo num discurso próximo, e não distante; das coisas fáceis, e não das difíceis; das raízes das provas e do entendimento, e não dos seus ramos secundários — para que o seu caminho se faça próximo, o seu esforço leve, o seu ensino reto, e quem o busca alcance por ele a justiça e a verdade; como disse o sábio acerca da sabedoria, quando ela está próxima: “então entenderás a justiça, o juízo e a equidade, toda boa vereda” (Mishlei 2:9).
ואחר מה שפתחנו בו מתהלת אלהינו ושבחו במאמר קצר, אני מקדים לספר הזה אשר כוונתי לחברו, הודעת סבת נפילת הספקות לבני אדם בדרושיהם ואופני הסרתם, עד שתשלם הגעתם אל הדרוש ושלוט קצתם על קצתם, עד אשר קיימו אותו אמתית כפי מחשבתם וסברתם. ובאלהים אעזר לגלותם מעלי עד אשר ישלם לי מה שאגיע בו אל עבודתו, כאשר שאל אותו חסידו באמרו (תהלים קי"ט י"ח) גל עיני ואביטה נפלאות מתורתך. ורצוני לשום את זה עם דברי הספר כלו מאמר קרוב ולא רחוק, מהדברים הקלים ולא הקשים, משרשי הראיות והטעם ולא מסעפותם, לבעבור יקרב דרכו ויקל טרחו ויישר למודו ויגיע בו מבקשו אל הצדק והאמת, כמו שאמר החכם על החכמה כשהיא קרובה (משלי ב' ט') אז תבין צדק ומשפט ומישרים כל מעגל טוב:
3
Darei a conhecer, primeiro, a causa pela qual caem as dúvidas sobre os seres humanos. Digo que os conhecimentos racionais, por terem os seus fundamentos assentados sobre os dados dos sentidos — e por serem as coisas captadas pelo sentido sujeitas a dúvida —, a dúvida cai sobre eles por uma de duas causas: ou pela insuficiência do saber de quem investiga acerca do seu objeto, ou porque ele se facilita a si mesmo e abandona o exame e a reflexão. É como quem procura Reuven e fica em dúvida por uma de duas coisas: ou porque não o conhece — e pode ser que ele esteja diante dos seus olhos e não o reconheça, ou que seja outro e ele pense que é ele —, ou porque se facilita e o procura com leveza e frouxidão de coração. Por isso também não se lhe esclarecem as coisas racionais: a dúvida cai sobre elas por uma destas duas causas. Ou porque quem busca o saber racional não conhece os modos das provas, e toma por prova o que não é prova, e por não-prova o que é prova; ou porque conhece o caminho do exame, mas se facilita e se apressa a decidir sobre o que ainda busca, antes de completar a obra do exame. E tanto mais se as duas coisas se juntam num homem — não ser perito na arte do exame e, com isso, não esperar até completá-la como deve —, pois então ficará distante do que busca, num estado de desespero. E ainda mais se a essas duas se juntar uma terceira: que o buscador não saiba sequer o que busca; pois então estará ainda mais longe da coisa, ao ponto de a verdade lhe ocorrer, ou de a encontrar, e não a perceber. É como quem não é perito na arte de pesar, nem conhece a forma da balança e dos pesos: ainda que o seu devedor lhe pague por inteiro, não se lhe esclareceria que pagou o que devia; e, se receber menos do que lhe é devido, pensa que foi enganado. E os sábios não são louvados, nem as dúvidas se afastam deles, senão por suportarem o jugo de conhecer o fim de cada parte da arte, depois de a conhecerem — como disse o homem reto: “eis que esperei pelas vossas palavras, dei ouvidos aos vossos argumentos, até que examinásseis as razões” (Iyov 32:11).
ואודיע תחלה סבת נפילת הספקות לבני אדם. ואומר כי המושכלות מפני שהיו יסודותם מושמים על המוחשים, והיו הדברים המושגים בחוש נופלים בהם הספקות בא' משני סבות; וזה אם מפני קוצר ידיעת הדורש בדרושו, או מפני שהוא מקל על עצמו ומניח העיון וההשתכלות. כאדם שמבקש את ראובן, ונסתפק לו בא' מב' דברים, אם בעבור שאין יודע אותו, ואפשר שיהיה לפניו ולא יכירנו או שיהיה זולתו ויחשוב שהוא הוא, או מפני שהוא מקל על עצמו ומבקש אותו בקלות ורפיון לב. ובעבור זה לא יתברר לו ג"כ הדברים המושכלים, יפול בהם הספק לאחד משתי סבות האל. אם מפני שמבקש המדע השכלי אינו יודע אופני הראיות, ומשים הראיה לא ראיה ומשים ג"כ מה שאיננה ראיה ראיה. או שהוא יודע דרך העיון, אך הוא מקל על עצמו וממהר לגזור על הידוע קודם השלמת מלאכת העיון בו. וכ"ש אם יתקבצו באדם ב' הדברים יחד, ר"ל שלא יהיה בקי במלאכת העיון ועם זה איננו ממתין עד שישלים מה שהוא נודע ממנה כמשפט, ויהיה רחוק מבקשתו אז בענין יאוש. ואמר החכם בראשונים מן הנזכרים (נחמיה י' כ"ט) יודע מבין, ובאחרונים מהם (תהלים פ"ב ה') לא ידעו ולא יבינו. וכל שכן אם יצטרף אל שני הדברים האלה דבר שלישי, והוא שיהיה המבקש לא ידע מה יבקש, כי אז יהיה יותר רחוק מן הדבר, עד שיקרה לו האמת או ימצאהו ולא ירגיש בו. והוא כמי שאינו בקי במלאכת המשקל ולא דמות המאזנים והאבנים, ולא כמה זוזים יש לו אצל המחוייב לו אפילו היה המחוייב לו פורעו משלם, לא היה מתברר לו שפרעו מה שהיה חייב לו, ואם יקח ממנו פחות ממה שהוא חייב לו, הוא חושב שהונה אותו. וכמו שיהיה זה הענין בשנים התובע אחד מהם את חברו, כן ענין הדורש לשקול לעצמו ואיננו יודע כלי השקילה ולא הכמות השקולה. ומשלו עוד במי שהוא מקבל ממון לעצמו או לזולתו ברצוי עצמו, והוא אינו בקי במלאכת הרצוי, ויקח פעמים רבות המעות הרעות ויניח הטובות. וכן אם יהיה בקי במלאכה אם לא יסתכל בטוב. וכבר דמה הכתוב רצוי דברי הצדק ברצוי הממון באמרו (משלי י' כ') כסף נבחר לשון צדיק לב רשעים כמעט. ושם אשר ידיעתם במלאכת הרצוי מעטה או סבלם מעט רשעים, מפני שהם חומסים האמת, כאשר אמר (משלי שם) לב רשעים כמעט. ושם המרצים צדיקים בעבור סבלם וידיעתם, בהקדמתו כסף נבחר לשון צדיק. ואין החכמים משובחים והספקות מסתלקות מעליהם, כי אם בסבלם עול ידיעת תכלית חלקי המלאכה אחר ידיעתם אותה, כמו שאמר החכם (איוב ל"ב י"א) הן הוחלתי לדבריכם אזין עד תבונותיכם עד תחקרון מלין. ואמר דוד הצדיק האחר (תהלים קי"ט מ"ג) ואל תצל מפי דבר אמת עד מאד:
Nota — de onde vem o erro. Saadia abre a obra com uma análise epistemológica precisa: a dúvida não é um mistério, e sim resultado de duas falhas — não conhecer o método (tomar por prova o que não prova) ou apressar-se/acomodar-se (concluir antes de completar o exame). A consequência é direta e otimista: a verdade é alcançável pela razão disciplinada. É a pedra angular do racionalismo judaico, na linha que o Rambam levaria adiante: conhecer exige rigor, e o rigor é uma virtude moral, não só intelectual.
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E o que me trouxe a isto foi o que vi nos seres humanos, na sua crença e nas suas opiniões. Há entre eles quem chegou à verdade, e a conhece, e nela se alegra — como disse o profeta: “foram encontradas as Tuas palavras, e eu as comi, e a Tua palavra foi para mim júbilo e alegria do coração” (Yirmiyahu 15:16). E há quem chegou à verdade, mas duvida dela, e ela não se confirma para ele nem nela se firma — como diz a Escritura: “escrevo-lhe as grandezas da Minha Torá, mas são tidas como coisa estranha” (Hoshea 8:12). E há quem a verdade não se lhe confirma, e ainda assim se apega a outra coisa: diz a falsidade pensando que é verdade, agarra-se ao vão e abandona o verdadeiro — e sobre ele se diz: “não confie no vão, enganando-se, pois o vão será a sua paga” (Iyov 15:31). E há quem se conduz por uma opinião durante um tempo, e depois a despreza por algo que nela notou, e passa a outra opinião, e a despreza por algo que lhe pareceu feio, e passa a outra — e assim na inconstância de todos os seus dias. O exemplo é o de quem quer ir a uma cidade e não conhece o caminho: anda uma légua, confunde-se, volta, segue por outro caminho uma légua, confunde-se, volta; e assim na terceira e na quarta. Como diz a Escritura: “o trabalho do tolo o fatiga, porque não sabe ir à cidade” (Kohelet 10:15).
ואשר הביאני אל הדבר הזה הוא מה שראיתי רבים מבני אדם באמונתם ודעותם, מהם מי שהגיע אל האמת והוא יודע אותה ושמח בה, וכן אמר הנביא (ירמיה ט"ו ט"ז) נמצאו דבריך ואוכלם ויהי דברך לי לששון ולשמחת לבבי. ומהם מי שהגיע אל האמת והוא מסתפק בה ואיננה מתאמתת אצלו ולא מחזיק בה, וכן אמר הכתוב (הושע ח' י"ב) אכתוב לו רובי תורתי כמו זר נחשבו. ומהם מי שלא מתאמת אצלו ומחזיק בה, והוא אומר השקר וחושב שהוא אמת, והוא מחזיק בשוא ומניח השוא, ועליו נאמר (איוב ט"ו ל"א) אל יאמן בשו נתעה כי שוא תהיה תמורתו. ומהם מי שמנהיג את עצמו בדעת מן הדעות זמן, ואחר כך מאסו בעבור דבר שראה בו, והעתיק ממנו אל דעת אחרת אחר זמן, ומאסו בעבור דבר שהיה מגונה בעיניו בו, ואח"כ העתיק ממנו אל דעת א' אחר זמן, ועזבו בעבור ענין שהפסיד אותו בעיניו, וזה בהתהפכות כל ימיו. ומשלו במי שרוצה ללכת אל עיר ולא ידע הדרך אליה, והוא הולך פרסה ואח"כ נבוך בדרך וישוב וילך בדרך אחרת פרסה, ויהיה נבוך בה וישוב, וכן בשלישית וברביעית. וכן אמר הכתוב (קהלת ו' ט"ו) עמל הכסיל תיגענו כי לא ידע ללכת אל עיר:
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E, quando me detive sobre estas raízes e a desordem dos seus ramos, doeu-me o coração pela minha espécie, e a minha alma se comoveu pelo nosso povo, os filhos de Israel — pelo que vi, no meu tempo, de muitos crentes cuja fé não é pura e cujas opiniões não são claras, e de muitos negadores que se vangloriam na corrupção e se ensoberbecem sobre os homens da verdade, sendo eles os que erram. Vi pessoas como que afundadas nos mares das dúvidas, já cobertas pelas águas das confusões, sem mergulhador que as faça subir das profundezas, nem nadador que as segure pela mão e as puxe. E havia comigo, do que o meu D’us me ensinou, com que pudesse ampará-las, e na minha capacidade, do que Ele me agraciou, com que lhes servir de apoio. E vi que beneficiá-las com isso era dever meu, e guiá-las a isso, coisa de justiça — como disse o profeta: “o Senhor D’us deu-me uma língua de instruídos, para eu saber sustentar com a palavra o que está cansado” (Yeshayahu 50:4). E confesso, com isto, a pequenez da minha sabedoria, que não é perfeita, e a falta do meu saber, que não é completo, e que não sou mais sábio do que todos os da minha geração — mas escrevo conforme a minha capacidade e o alcance do meu intelecto. E, com isso, não desespero de que o meu D’us me faça prosperar e me agracie, pelo que conhece da minha intenção e do meu íntimo no que busquei — não conforme a minha obra e a minha força —, como disse o seu piedoso: “sei, meu D’us, que provas o coração e te agradas da retidão” (I Divrei haYamim 29:17).
וכאשר עמדתי על השרשים האלה ורוע סעפותם, כאב לבי על מיני מן המדברים והתעוררה נפשי לעמנו בני ישראל, ממה שראיתי בזמני מרבים מן המדברים המאמינים, אמונתם בלתי זכה ודעותם אינם ברורים, והרבה מהמכחישים מתגדלים בהפסד ומתפארים על אנשי האמת והם התועים. וראיתי בני אדם כאלו טבעו בימי הספקות, וכבר כסו אותם מימי השבושים, ואין צולל שיעלה אותם ממעמקיהם ולא שוחה שיחזיק בידם וימשם. והיה אצלי ממה שלמדני אלהי מה שאוכל לסמוך אותם בו, וביכלתי ממה שחננני מה שאשימהו להם למסעד. וראיתי כי הועילם בו חובה עלי והישירם אליו מן הדין עלי, וכמו שאמר הנביא (ישעי' נ' ד') יי אלהים נתן לי לשון למודים לדעת לעות את יעף דבר. וגם מה שאני מתודה בקצור חכמתי שאיננה תמימה, ובחסר ידיעתי שאיננה שלימה, ואינני חכם מכל בני דורי, אך כפי יכלתי והשגת שכלי, וכמו שאמר הנביא (דניאל ב' ל') ואנא לא בחכמה די איתי בי מכל חייא וגומ'. ועם זה אינני מתיאש שיצליחני אלהי ויצילני ויחנני במה שידע מכוונתי ומצפוני במה שבקשתי לא כפי פעלי ויכלתי, וכמו שאמר חסידו (דה"י א' כ"ט י"ז) ידעתי אלהי כי אתה בוחן לבב ומישרים תרצה:
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E conjuro, por D’us, criador de tudo, todo o sábio de coração que examinar este livro e nele vir algum erro — que o corrija; ou uma palavra duvidosa — que a restitua à forma correta. E que não o impeça disso o fato de o livro não ser seu, ou de eu o ter precedido em revelar o que a ele não ocorrera; pois os sábios têm compaixão da sabedoria e lhe concedem benevolência, como a benevolência dos parentes próximos — como se disse: “dize à sabedoria: tu és minha irmã” (Mishlei 7:4) —, ainda que os tolos tenham compaixão da sua tolice e não a abandonem, como se disse: “tem compaixão dela e não a deixa” (Iyov 20:13).
ואני משביע באלהים בורא הכל, כל חכם לב שיעיין בספר הזה, ויראה בו שום טעות שיתקנה, או מלה מסופקת שישיבנה אל הישרה, ואל יעכבהו מזה ענין שאין הספר שלו, או שאני הקדמתיו לגלות מה שלא נזדמן לו. כי לחכמים חמלה על החכמה, והם מוציאים לה חנינה, כחנינת אנשי הקרבה. וכאשר אמר (משלי ז' ד') אמור לחכמה אחותי את. אעפ"י שהכסילים חומלים על סכלותם ואינם מניחים אותה, כמו שאמר (איוב כ' י"ג) יחמול עליה ולא יעזבנה:
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E, depois disso, conjuro todo o que busca a sabedoria e examina este livro, em nome do Criador, bendito seja: que oriente o seu coração ao lê-lo, dirija a ele a sua atenção e abandone o pretexto e a confusão, até que se complete para ele o bem e o proveito. E, quando o sábio e o aluno se conduzirem com este livro deste modo, o crente nele acrescentará fé, e a dúvida se afastará de quem duvida; e quem crê por tradição (kabbalá) voltará a crer por exame e por compreensão (iyun u-vehavaná); e o que alega falsidade ficará confundido, e o teimoso pretextuoso será corrigido, e os justos e retos se alegrarão, como se disse: “verão os retos e se alegrarão ...; quem é sábio observará estas coisas e atentará para as bondades do Eterno” (Tehilim 107:42-43). E, com isso, a inveja de uns contra os outros pelas coisas do mundo diminuirá, e todos virão diante dos homens da sabedoria. Tudo isso será com o afastamento das dúvidas e a remoção das confusões; e o conhecimento de D’us e da Sua Torá se difundirá como as águas se difundem pelo mar, como se disse: “porque a terra se encherá do conhecimento da glória do Eterno, como as águas cobrem o mar” (Chavakuk 2:14).
ואחרי כן אשביע על כל מבקש חכמה שמעיין בו, בשם הבורא יתברך, שיכוין את לבו בעת שיקראהו ויכוין בו כוונתו ויעזוב התואנה והערבוב, עד שתשלם לו הטובה ותתום לו התועלת באומץ מי שלמדנו מה שמועיל לנו, כאמרו (ישעיה מ"ח י"ז) אני י"י אלהיך מלמדך להועיל וגו'. וכאשר ינהג החכם והתלמיד בספר המנהג הזה יוסיף בו המאמין אמונה, ויסתלק הספק מעל המסתפק, וישוב המאמין בקבלה להאמין בעיון ובהבנה, ויעמוד הטוען בשקר ויתייסר המתעקש המתאנה, וישמחו הצדיקים הישרים, כאמרו (תהלים ק"ז מ"ב) יראו ישרים וישמחו וכל עולה קפצה פיה מי חכם וישמר אלה ויתבוננו חסדי י"י. ובזה ייטבו מצפוני בני אדם ותוך תפלתם כאשר יהיה עמם בלבם, גוער בם על התעות ומעיר אותם על הנכונה, וכאשר אמר החסיד (תהלים קי"ט י"א) בלבי צפנתי אמרתך למען לא אחטא לך. ותתקיים אמונתם בעסקיהם ותמעט קנאת קצתם בקצתם על עניני העולם, ויבאו כלם לפני אנשי החכמה ולא יטו אל דבר אחר, ותהיה להם תשועה טובה ורחמים, כאמרו (ישעיה מ"ה כ"ב) פנו אלי והושעו כל אפסי ארץ כי אני אל ואין עוד. כל זה יהיה עם הסתלקות הספקות והסרת השבושים, ותתפשט הידיעה באלהים ובתורתו כהתפשט המים בחלקי הים, כמו שאמר (חבקוק ב' י"ד) כי תמלא הארץ לדעת את כבוד י"י כמים יכסו על ים:
Nota essencial — a fé confirmada pela razão. Eis a tese que funda toda a obra (e, em larga medida, a filosofia judaica racionalista): o objetivo do livro é que “quem crê por tradição volte a crer por exame e por compreensão”. A fé herdada não é rejeitada — é aprofundada. A razão não ameaça a crença; confirma-a e a torna própria de quem a sustenta. É a recusa de opor fé e razão: para Saadia, a investigação honesta conduz à mesma verdade que a tradição transmite.
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E talvez alguém diga: que sabedoria há em o Criador, bendito seja, ter posto estas confusões e dúvidas entre as criaturas? Adiantemos a resposta e digamos: o próprio fato de serem criaturas é o que lhes impõe, necessariamente, a dúvida e a confusão. Pois, assim como precisam, na sua condição de criaturas, de uma medida de tempo para completar cada ação, parte após parte — e o conhecimento, que é uma dessas ações, precisa, sem dúvida, de algo semelhante —, no começo os seus conhecimentos partem de coisas misturadas e confusas, e só pela força do intelecto que neles há vão purificando-as ao longo do tempo, até que se lhes afastem as dúvidas e se lhes purifique o saber límpido, sem mistura de qualquer dúvida. E, assim como cada arte tem as suas partes — e, se as interrompem antes de as completar, a obra não se cumpre (como a semeadura, a construção, a tecelagem, que só se completam quando quem as faz espera até o fim) —, assim a obra do conhecimento precisa que se comece pelo princípio e se prossiga, parte após parte, até o fim. No primeiro momento, as dúvidas são, a título de exemplo, dez; no segundo, tornam-se nove; no terceiro, oito; e assim, quanto mais o homem examina e reflete, vão-se reduzindo, até que, no fim, se purifica aquele ponto único que é o buscado, e ele permanece só, sem dúvida nem confusão. A ilustração disto é a de quem busca uma demonstração para se firmar na verdade. Sabemos que a demonstração é discurso, o discurso é uma espécie de som, e os sons são de muitos modos. Quando o buscador vem a refinar o seu objeto — tendo achado os sons misturados e duvidosos — e começa a dividi-los: separa primeiro o som do choque dos corpos (uma pedra caindo sobre outra, o estrondo do que se parte, o tremor, o trovão e semelhantes), pois essas espécies não servem para uma demonstração; e sobe ao segundo nível, restringindo-se aos sons dos seres vivos. Depois, separa os sons dos animais não-falantes (o relincho, o zurro, o mugido), pois neles não há sabedoria; e sobe ao terceiro nível, aos sons humanos, em cuja espécie está todo conhecimento — separando deles o som natural não-articulado, por não ter proveito. Sobe ao quarto nível, ao som humano articulado, feito das vinte e duas letras; e separa as letras isoladas, pois cada uma por si nada indica (como dizeres “a, b, g, d”, cada uma só). Sobe ao quinto nível, às letras combinadas, formando nomes de duas, três ou mais letras; e separa todo nome dito isoladamente (como “céu”, “estrela”, “homem”), pois isolado nada indica além do que nomeia. Sobe ao sexto, ao discurso composto (“estrela brilhante”, “homem que escreve”), pois é com esses compostos que se chega ao buscado; e separa deles tudo o que não é uma asserção. Sobe ao sétimo grau, às asserções (“o sol já nasceu”, “a chuva já caiu”); e sabe que as asserções são de três modos: a necessariamente verdadeira (“o fogo é quente”), a impossível (“o fogo é frio”) e a possível (“Reuven está em Ashkenaz ou na Babilônia”). Põe de lado a verdadeira e a impossível, e sobe ao oitavo, à asserção possível, e a investiga: foi como afirmou quem a afirmou, ou não? Sobe ao nono nível, à apresentação da prova sobre aquilo. E quando todos os outros se anulam, e não resta senão aquele único que lhe veio às mãos no décimo nível — refinado e purificado —, ele derruba do coração todas as suposições anteriores que lhe punham o objeto em dúvida. E, se interrompe o exame no quarto nível, ou no quinto, ou em qualquer grau, já se lhe afastaram as dúvidas conforme os graus que deixou para trás, e restaram-lhe conforme os que deixou à frente. Por causa disto erraram muitos e desprezaram a sabedoria: uns por não conhecerem o caminho até ela; outros por o conhecerem e entrarem nele, mas não o completarem, e se perderem — como diz a Escritura: “o homem que se desvia do caminho do entendimento repousará na congregação das sombras” (Mishlei 21:16).
ואולי יאמר אומר מה ענין החכמה שהבורא יתברך שם אלה השבושים והספקות בין הברואים? ונקדים הנה התשובה על זה ונאמר היותם ברואים הוא עצמו חייב להם הספק והשבוש. והוא, כי כאשר היו צריכים בחלק הבריאה בכל פעל שיפעלוהו אל מדה מהזמן ישלם בה פעלם חלק אחר חלק, והיה המדע אשר הוא אחד מהפעלים צריך בלא ספק אל כמו זה, ותחלת מה שתחלינה ידיעותם להם, תחלינה מדברים מקובצים ומשובשים, ובכח השכל אשר בם אינם מניחים לזקק אותם ולצרפם במדה מהזמן עד דור מעליהם הספיקות ויזדקק להם הזך בלתי מעורב עם שום ספק, וכאשר יש לכל מלאכה ממלאכתם חלקים, אם הם פוסקים מעשיהם קודם השלמתם לא תתום המלאכה להם, כמו הזריעה והבנין והאריגה ושאר המלאכות אשר לא ישלמו כי אם בהמתין עושיהם עד אחריתם, כן מלאכת המדע צריכה שתוחל מתחלתה והולכים עמה פרק אחרי פרק עד אחריתה. ובענין ההתחלה יהיו הספקות על דרך הדמיון עשרה, ובענין השני ישובו תשעה, ובענין השלישי ישובו שמונה. וכן כל אשר יעיין האדם ויסתכל יחסרו הספקות עד אשר יזדקק בסוף הענינים, האחד הוא המבוקש וישאר לבדו בלי ספק עמו ולא שבוש בו. וביאור זה כמי שמבקש מופת שיעמוד בו על האמת, ואנחנו יודעים כי המופת דבור, והדבור מין מן מיני הקול, והקולות על דרכים רבים, וכאשר יבא המבקש לזקק מבוקשו וכבר מצא הקולות משובשים מסופקים והחל בחלוקם, והפריש מהם תחלה קול הקשת הגרמים, כנפול אבן על אבן, וכהבקע קצת הגשמים, וכקול הרעש והרעם, והדומה להם, וידע כי אלה המינים לא יועילו לו להביא מופת, ויעלה אל ענין השני אל קולות החיים בלבד והוא אשר יקווה למופת להיות בהם. ואח"כ יפריש מהם קולות החיים שאינם מדברים כצהילה והנהיקה והגעייה והנעירה והדומה להם, מפני שאין בהם שום חכמה, ויעלה בענין שלישי אל קולות בני אדם בלבד אשר במינם כל מדע, עד שיפריש מהם הקול הטבעי אשר הוא קולנו והדומה לו, בעבור שאין בו תועלת, ויעלה בענין רביעי אל קול האדם הלמודי, ר"ל אשר הוא מכ"ב אותיות, ויפריש ממנו האותיות הנפרדות, מפני שכל אות נפרדת מהם לא יועיל על דבר, כאמרך א ב ג ד כל אחד לבדו, ויעלה אל הענין החמישי אל האותיות המורכבות, עד שיהיו שמות כל אחד מהם משתי אותיות או ג' או יותר. ואחר כן יפריש מהם כל שם נפרד שיאמר לבדו, כאמרך שמים כוכב אדם, כי אין בטבע השמות האלה כשהם נפרדים שיורו על יותר מהנקרא בהם, ויעלה בששי אל הדבור המחובר, כאמרך כוכב מזהיר, אדם כותב, והדומה לזה מה שיהיו שתי מלות מחוברות או מלה ושם או יותר מזה, כי הוא מקום שיגיע במחוברים האלה אל מבוקשו. ואח"כ יפריש מאלה השתי מלות המחוברות או יותר כל חלק שאיננו הגדה. ואח"כ יעלה במעלה השביעית אל ההגדות, כאשר יאמר כבר זרחה השמש וכבר ירד המטר והדומה לזה. ואחר כן ידע כי ההגדות על ג' דרכים, ראוי, כאמרך האש חמה. ונמנע, כאמרך האש קרה. ואפשר, כאמרך ראובן באשכנז או בבבל. ואח"כ ישים שני חלקי הראוי והנמנע לצד, ויעלה בשמינית אל ההגדה האפשריית ויחקור עליה אם היה כאשר הגיד המגיד עליה אם לא? ואח"כ יעלה בענין התשיעי אל הבאת הראיה בדבר ההוא, אם הוא מן הראוי, יוציא ממנו מה שמחייבו בקצת הדרך אשר אני עתיד לבארה. אבל הנמנע ימנע בו כל הדומה בדבר אשר גזר בו. וכאשר יבטלו כלם ולא נשאר כי אם האחד ההוא אשר עלה בידו בענין העשירי והזדקק לו והזדכך, יפיל כל השערים הראשונים מלבו אשר היו מספקים מבוקשו ומשבשים אותו קודם העיון בו, והסיר כל א' ואחד מהם. וכבר התבאר, כי המעיין החל בעיון מדברים מעורבים, ולא זז לזקק אותם תשעה מעשרה, ואחר כן שמנה מתשעה, ואחר כן שבעה משמנה, עד שיסתלקו מעליו כל הערבובים, נשאר לו המזוקק הצרוף. ואם הוא פוסק העיון בהגיעו אל הענין הרביעי או החמישי או איזה מעלה שתהיה, כבר סרו מעליו מן הספקות כפי המעלות אשר הניח אחריו, ונשארו עליו מהם כפי אשר הניח מן המעלות לפניו. ואם הוא מחזיק הענין שהגיע אליו, יקווה לו שישוב עליו וישלימנו, ואם איננו מחזיק צריך לשוב אל הענין מראשיתו. ובעבור הדבר הזה טעו אנשים רבים ומאסו בחכמה, קצתם, מפני שלא ידעו הדרך אליה, וקצתם, ידעו ונכנסו בדרכה, אך לא השלימוה והיו מהאובדים, וכמו שאמר הכתוב (משלי כ"א ט"ו) אדם תועה מדרך השכל בקהל רפאים ינוח:
9
E disseram os sábios de Israel, acerca de quem não completou as questões da sabedoria: “desde que se multiplicaram os discípulos de Shammai e de Hillel que não serviram aos seus mestres o bastante, multiplicaram-se as controvérsias” (Sanhedrin 88b). Aprendemos daí que os discípulos, quando completam o estudo, não há entre eles controvérsia nem confusão. Portanto, não atribua o tolo nem o impaciente a sua falha ao Criador, bendito seja, que é bom: estas dúvidas vêm da sua ignorância, da sua impaciência e da sua preguiça, como explicamos — pois não seria possível que uma das Suas obras se desse num só instante, com imediato afastamento das dúvidas, porque então a criatura sairia da condição de criatura, sendo ela criatura. E quem não atribuiu a falha a si mesmo, mas desejou que o Criador o fizesse conhecedor de um saber sem dúvida, já pediu que o seu D’us o tornasse semelhante a Ele — pois Aquele que conhece sem causa intermediária é só o Criador, bendito seja; a nenhuma criatura é possível conhecer sem causa, isto é, sem a busca e o exame, que requerem uma medida de tempo, como contamos. E os louvados são os que esperam até apartar a prata da escória — “remove a escória da prata” (Mishlei 25:4) —, e espremem o leite da obra até que dela saia a manteiga — “pois o espremer do leite produz manteiga” (Mishlei 30:33) —, e até que brote a sua semeadura e a colham, e até que amadureça o fruto e se torne alimento, como se disse: “árvore de vida é ela para os que dela se apegam” (Mishlei 3:18).
ואמרו חכמי ישראל במי שלא השלים ענייני החכמה, משרבו תלמידי שמאי והלל שלא שמשו כל צורכן רבו המחלוקו'. (סנהדרין פ"ח ע"ב) ולמדנו מזה כי התלמידי' כשהם משלימים הלמוד, לא תהיה בניהם מחלוקות ולא ערבוב, על כן אל ישיב הכסיל או הקץ, חטאו על הבורא יתברך הוא הטוב, אלה הספקות סכלותו וקוצו ועצלתו בהם כאשר בארנו, כי לא יתכן שיהיה מעשה ממעשיו ברגע אחד בהסתלקות הספקות, כי אז היה יוצא מחוק הברואים והוא נברא. ומי שלא תלה החטא בזה בעצמו, אך התאוה שישימהו הבורא יודע מדע שאין בו ספק, כבר שאל שישימהו אלהיו דומה לו, כי היודע בלא סבה הוא הבורא יתברך, וכאשר אני עתיד לבאר. אבל כל הברואים לא יתכן שיהיה מדעם בלא סבה. והיא הדרישה והעיון הצריכים למדה מהזמן כאשר ספרנו, והם מתחלת רגעי הזמן ההוא עד אחריתם בספקות כאשר בארנו. והמשובחים הם הממתינים עד אשר יצרפו הכסף מן הסיג, וכאשר אמר (משלי כ"ה ד') הגו סיגים מכסף, וימיצו חלב המלאכה עד אשר יוציאו חמאתה, וכמו שא' (משלי ל' ל"ג) כי מיץ חלב יוציא חמאה וגו', ועד אשר יצמח זרעם ויקצרוהו, כמו שא' (הושע י' י"ב) זרעו לכם לצדקה קצרו לפי חסד, ועד שיתבשל פרי עצם וישוב למזון, וכמו שא' (משלי ג' י"ח) עץ חיים היא למחזיקים בה:
Nota — por que D’us “permite” a dúvida. A resposta de Saadia é profunda: a dúvida não é crueldade divina, mas a estrutura de uma mente finita. Ser criatura significa conhecer no tempo, por etapas — purificando o saber pouco a pouco (de “dez dúvidas” a uma). Uma certeza instantânea e sem esforço só caberia ao Criador, não à criatura. Por isso a virtude do buscador é a paciência: completar o exame em vez de interrompê-lo. A célebre escada dos dez níveis (do ruído bruto à demonstração) é o mapa desse percurso da mente.
10
E, já que completamos o que quisemos dizer acerca das confusões e das dúvidas, precisamos esclarecer o que é a fé (emunah). Dizemos que ela é uma noção que se eleva no coração acerca de toda coisa conhecida, na forma em que ela realmente é. Quando sai a “manteiga” do exame, o intelecto a recebe, a abrange, a introduz nos corações e nela se mescla; e então o homem se torna crente naquilo a que chegou, e o guarda para outro tempo, ou para vários tempos — como se disse: “os sábios entesouram o conhecimento” (Mishlei 10:14); e: “recebe, pois, da Sua boca a instrução” (Iyov 22:22).
וכיון שהשלמנו מה שרצינו לזכרו מענין השבושים והספקות, אנחנו צריכים לבאר מה היא האמונה? ונאמר כי היא ענין עולה בלב לכל דבר ידוע בתכונה אשר הוא עליה, וכאשר תצא חמאת העיון יקבלנה השכל ויקיפנה ויכניסנה בלבבות ותמזג בהם, ויהיה בהם האדם מאמין בענין אשר הגיע אליו, ויצניעהו לעת אחרת או לעתים, וכמו שא' (שם י' י"ד) חכמים יצפנו דעת, וכמו שא' (איוב כ"ב כ"ב) קח נא מפיו תורה:
11
E a fé é de dois modos: verdadeira e falsa. A fé verdadeira é conhecer a coisa como ela é — o muito como muito e o pouco como pouco, o branco como branco e o negro como negro, o existente como existente e o inexistente como inexistente. E a fé falsa é conhecer a coisa ao contrário do que é — o muito como pouco e o pouco como muito, o branco como negro e o negro como branco, o existente como inexistente e o inexistente como existente. E o sábio louvável é aquele que põe a verdade das coisas como raiz e por ela conduz a sua opinião, e que, com a sua sabedoria, confia no que é confiável e se acautela do que se deve acautelar. E o tolo desprezível é aquele que põe a sua opinião como raiz, e pensa que a verdade das coisas segue a sua opinião, e que, com a sua tolice, confia no que se deveria acautelar e se acautela do que é confiável — como disse o sábio: “o sábio teme e desvia-se do mal, mas o tolo se enfurece e ainda assim confia” (Mishlei 14:16).
והאמונה על שני דרכים, אמת ושקר. והאמונה האמתית הוא שידע הדבר כאשר הוא, הרב רב והמעט מעט, והלבן לבן והשחור שחור, והנמצא נמצא והנעדר נעדר. והאמונה השקרית היא שידע הדבר בהפך מה הוא, הרב מעט והמעט רב, והלבן שחור והשחור לבן, והנמצא נעדר והנעדר נמצא. והחכם המשובח מי ששם אמתות הדברים שרש ומנהיג עליהם דעתו, ועם חכמתו בוטח אל המובטח בו, ונזהר ממה שצריך להזהר ממנו. והכסיל המגונה, מי ששם דעתו לשרש, וחושב כי אמתות הדברים הולכות אחר דעתו, ועם סכלותו בוטח במה שצריך להזהר ממנו, ונזהר מהבטוח בו, וכאשר אמר החכם (משלי י"ד ט"ז) חכם ירא וסר מרע וכסיל מתעבר ובוטח:
Nota — a verdade é objetiva. A definição de fé verdadeira e falsa é um manifesto de realismo: conhecer “a coisa como ela é”. O sábio ajusta a sua opinião à realidade; o tolo pensa que a realidade deve seguir a sua opinião. Contra todo pensamento-desejo e todo relativismo, Saadia afirma que há um modo como as coisas são, independente do que queremos — e a tarefa da mente é alinhar-se a ele, não o contrário.
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E junto a este discurso menciono homens de quem me admirei: são servos, e pensam que não têm Senhor; apoiam-se em crer que tudo o que afastam da mente é nulo, e que tudo o que afirmam está confirmado — esses que mergulharam nos abismos da insensatez e já chegaram às profundezas da perdição. E mostre-se que, se a verdade estivesse com eles, então quem dentre eles não tem dinheiro poderia imaginar que os seus baús e arcas estão cheios — e veja de que lhe serviria! Ou imaginar que tem setenta anos quando tem quarenta — e veja de que lhe serviria! Ou imaginar-se saciado quando tem fome, farto quando tem sede, vestido quando está nu — e veja em que daria o seu caso. E quem dentre eles tem um inimigo que o prejudica, imagine que esse inimigo já morreu e pereceu, e que nada há a temer — e quão depressa lhe sobreviria o mal de que não se acautelou! Esta é a tolice completa de homens que pensaram que, ao não crerem na Sua divindade, ficariam livres dos Seus mandamentos, das Suas advertências, da Sua recompensa e do Seu castigo. Sobre os tais diz a Escritura: “rompamos as suas ataduras e lancemos de nós as suas cordas” (Tehilim 2:3).
ואחבר אל המאמר הזה זכרון אנשים תמהתי עליהם, המה עבדים וחושבים כי אין אדון להם, וסמכו על כל מה שהרחיקו שהוא בטל, וכל מה שיקיימוהו שהוא מקויים, אלה אשר צללו בתהומות האולת, וכבר הגיעו אל תהומות האבדון. ואם האמת אתם, מי שאין לו מהם ממון יעלה על דעתו שתיבותיו וארגזיו מלאים ממון ויראה מה יועיל לו. או יעלה על דעתו שהוא בן שבעים שנה והוא בן ארבעים ויראה מה יועיל לו. או יעלה בדעתו שהוא שבע כשהוא רעב, או שהוא רוה כשהוא צמא, או שהוא מכוסה כשהוא ערום ויראה ענינו מה יהיה. ומי שיש לו מהם אויב מזיק יעלה בדעתו שאויבו כבר מת ואבד ואיננו ירא ממנו, ומה מהרה תבואהו רעה שלא יגור ממנה. וזאת היא האולת הגמורה מאנשים חשבו כי כאשר לא יאמינו באלהותו ינוחו ממצותיו ואזהרותיו וגמולו וענשו ושאר מה שדומה לזה, ובכמוהם אמר הכתוב (תהלים ב' ג') ננתקה את מוסרותימו ונשליכה ממנו עבותימו:
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Ora, alguns ascetas que se mortificam esforçam-se por suportar o fogo, e ele os queima cada vez que dele se aproximam; e alguns dos que se entregam à devassidão, no vigor da juventude, esforçam-se por suportar os golpes das varas e dos bastões, e eles os ferem cada vez que os atingem. Quanto mais forte, então, há de ser o que atinge os que se insurgem contra o Criador de tudo! Eles, com a sua tolice, não escapam ao que a Sua sabedoria determinou — como disse o sábio: “sábio de coração e forte de poder; quem já se endureceu contra Ele e ficou em paz?” (Iyov 9:4).
והנה קצת אנשי הודו התגברו לסבול האש והיא שורפת אותם בכל עת שיקרבו אליה. וקצת מהמתפקרים בעניני הבחרות מתגברים לסבול מכות המטות והמקלות והם מכאיבים אותם בכל עת שיפגעו בם, כ"ש שיותר יהיה חזק מה שיגיע אל המתגברים על בורא הכל כענין הזה, והם עם אולתם אינם נמלטים ממה שחייבה חכמתו, וכמו שאמר החכם (איוב ט' ד') חכם לבב ואמיץ כח מי הקשה אליו וישלם:
Nota — negar a realidade não a altera. O argumento final é de pura lógica realista, e vale para qualquer negação da verdade: imaginar-se rico não enche os baús, imaginar o inimigo morto não afasta o perigo. Assim também negar a existência de D’us não suprime as consequências morais da realidade. Saadia dirige isto a uma posição (a negação que se ilude com o próprio desejo), não a pessoas; o ponto é universal — a realidade não se curva às nossas conveniências. O exemplo de quem “suporta o fogo” e ainda assim se queima ilustra: a recusa em reconhecer um fato não anula o fato.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O método antes das conclusões

É significativo que a primeira grande obra sistemática do pensamento judaico comece pela epistemologia — pela pergunta “como sabemos?” — e não por dogmas. Saadia Gaon, no século X, escreve para uma geração abalada por dúvidas, e a sua resposta não é “creia mais”, mas “pense melhor”. Diagnostica as causas do erro e propõe um caminho ordenado para a verdade. É o mesmo espírito que, dois séculos depois, animaria o Rambam.

Fé e razão não são inimigas

O coração da Introdução é a recusa de opor crença e investigação. A fé recebida pela tradição é boa e verdadeira; mas Saadia quer que ela se torne também compreendida — que o crente passe a sustentá-la por exame próprio. A razão, aqui, é serva da fé no melhor sentido: não a substitui, confirma-a e a enraíza no entendimento de cada um.

A humildade do buscador

A dúvida é apresentada não como pecado, mas como a condição natural de uma mente finita que conhece no tempo. Por isso as virtudes que Saadia exige são intelectuais e morais ao mesmo tempo: rigor no método, paciência para completar o exame, honestidade para reconhecer a verdade quando ela aparece — e a humildade de quem sabe que “não é mais sábio do que toda a sua geração”, mas se dispõe a servir.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (Rav Saadia ben Yosef al-Fayyumi, 882–942), Sefer haEmunot vehaDeot (“O Livro das Crenças e Opiniões”), escrito originalmente em árabe (judeu-árabe) e vertido ao hebraico por Rav Yehudá Ibn Tibbon (séc. XII). Esta tradução ao português parte do hebraico de Ibn Tibbon de domínio público (edição de Leipzig, 1864; Sefaria).

A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais. Acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido; alguns períodos longos do original foram organizados para a leitura. As notas em destaque e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Introdução · Parte II

As fontes do conhecimento e por que investigamos a fé

הַקְדָּמָה · חֵלֶק ב׳

No coração da Introdução, Saadia traça a sua célebre teoria do conhecimento — quatro fontes pelas quais chegamos à verdade — e enfrenta a grande questão: se a razão pode confirmar a fé, por que D’us a revelou por profetas e prodígios? A resposta funda a relação racionalista entre razão e revelação.

1
E, já que completamos o que vimos por bem juntar ao primeiro discurso, é preciso falar aqui dos condutores da verdade e dos que dão a certeza — que são a origem de todo conhecimento e a fonte de todo saber —, conforme convém a este livro. Dizemos que são três fontes raízes: a primeira, o conhecimento do que se percebe pelos sentidos; a segunda, o conhecimento da razão; a terceira, o conhecimento daquilo a que a necessidade lógica conduz. E a estas juntaremos o esclarecimento de cada uma.
וכיון שהשלמנו מה שראינו לחברו אל המאמר הראשון, צריך שנדבר הנה על משכי האמת ונותני הבירור אשר הם מוצא כל ידוע ומבוע כל נודע, ונדבר עליו כפי מה שהוא ראוי לענין הספר הזה, ונאמר שהם שלשה משכים. הראשון ידיעת הנראה. והשני מדע השכל. והשלישי ידיעה מה שההכרח מביא אליו. ונסמוך לזה באור כל אחד מאלה השרשים:
2
Dizemos que o conhecimento do percebido é o que o homem alcança por um dos cinco sentidos — a vista, o ouvido, o olfato, o tato ou o paladar. O conhecimento da razão é o que se eleva no intelecto como evidente em si — por exemplo, que a justiça é boa e a mentira é vil. E o conhecimento necessário é aquele que, se o homem nele não cresse, seria forçado a anular o que conhece pela razão ou pelos sentidos; e, como não se pode anular nenhum dos dois, a coisa o obriga a crer naquilo inferido. Assim admitimos, por força, que o homem tem uma alma, ainda que não a vejamos — para não anular a sua ação visível; e que a alma tem intelecto, ainda que não o vejamos — para não anular a sua ação visível. Há quem não reconheça estas três fontes: poucos negam a primeira os sentidos — a esses responderei no primeiro tratado —, e, ao negá-la, negam também a segunda e a terceira, que sobre ela se edificam; muitos reconhecem a primeira e negam a segunda e a terceira; e mais ainda há os que reconhecem as duas primeiras e negam a terceira — pois o conhecimento racional é mais oculto que o sensível, e o necessário mais oculto que o racional, e a negação corre mais depressa ao oculto do que ao manifesto. Mas nós, a comunidade dos que proclamam a unidade de D’us, cremos nestas três fontes do conhecimento, e a elas juntamos uma quarta, que deduzimos por três provas e se nos tornou raiz: a tradição fidedigna (haggadá ne’emaná) — pois ela é construída sobre o conhecimento dos sentidos e da razão, e sobre o que estes exigem, como exporei no terceiro tratado deste livro.
ונאמר כי ידיעת הנראה הוא מה שישיגהו האדם באחד מן החמשה חושים, אם בראות או בשמע או בריח או במשוש או בטעם. אבל מדע השכל הוא אשר יעלה בשכל, כמו שהצדק טוב והכזב מגונה. אך מדע ההכרחית הוא מה שאם לא יאמין בו האדם יתחייב לבטל המושכל או המוחש. וכאשר לא יתכן לבטל א' מהם מכריחו הדבר להאמין בענין ההוא. כאשר אנחנו מודים בעל כרחנו כי יש לאדם נפש, אף על פי שאין אנו רואים אותה, שלא נבטל פעלה הנראה. וכי יש לנפש שכל, אף על פי שאין אנו רואים אותו, שלא נבטל פעלו הנראה. ואלה השלשה שרשים מצאנו בני אדם שאין מודים בהם, והמעט מהם שכפר בשרש הראשון, ואני עתיד לזכרם במאמר הראשון מן הספר ואשיב עליהם. ובכפירתו בראשון כופר בשני ובשלישי מפני שהם בנויים עליו. ורבים מאלה מי שהודה בראשון וכפר בשני ובשלישי, ואני עתיד לזכור עוד דבריהם במאמר הראשון ואשיב עליהם. ויותר מכלם מי שהודה בשני השרשים הראשונים וכפר בשלישי. וסבת התחלק מעלותם בזה, שמדע השני יותר נעלם מהראשון, והשלישי יותר נעלם מהשני, והכפירה יותר ממהרת אל הנעלם מאל הנראה. ויש אנשים שכפרו במדה הזה להחזיק בתמורה, וכל אחד מהם שלא כדעת חברו, וכל אחד מהם מקיים מה שהרחיק בעל דינו וטוען עליו שההכרח מביאו לזה, כמי שקיים שכל הדברים נחים וכפר בתנועה, ואחר קיים כי כל הדברים נעים וכפר בנוח, וכל אחד משים הראיה שמביא חברו ספק ושבוש. אבל אנחנו קהל המיחדים מאמינים באלה השלשה משכים אשר למדעים, ונחבר אליהם משך רביעי הוצאנו אותו בשלש ראיות ושב לנו שרש, והוא ההגדה הנאמנת, כי היא בנויה על מדע החוש ומדע השכל, ומה שחייבו. כאשר אני עתיד לבאר במאמר השלישי מן הספר הזה:
Nota essencial — as quatro fontes do conhecimento. Aqui está a célebre epistemologia de Saadia, base de todo o racionalismo judaico medieval. Há quatro fontes de conhecimento válido: (1) a percepção dos sentidos; (2) a razão (verdades evidentes em si, como “a justiça é boa”); (3) a inferência necessária (o que a lógica obriga a admitir — p.ex., a alma, que não vemos, mas cuja ação vemos); e (4) a tradição fidedigna. O ponto decisivo é o último: a tradição não se opõe à razão — ela repousa sobre as três primeiras (sobre testemunho sensível verificável e raciocínio). A fé herdada tem, assim, um fundamento racional.
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E digo que a própria revelação — isto é, a tradição fidedigna e os livros dos profetas — nos confirma que estas três fontes são conhecimentos verdadeiros. Pois a Escritura enumera os sentidos: “têm boca e não falam, olhos e não veem” (Tehilim 115:5) — os cinco —, e a eles ajunta dois: o movimento (“têm pés e não andam”, 115:7), pelo qual se conhece o pesado e o leve; e a fala (“nem som emitem na garganta”, 115:7), que abrange os nomes, as combinações, as premissas e as demonstrações. E confirmou-nos o conhecimento da razão, ao ordenar a justiça e advertir contra a mentira: “porque a minha boca proferirá a verdade ...; justos são todos os ditos da minha boca” (Mishlei 8:7-8). E confirmou-nos o conhecimento necessário, ensinando que é falso tudo o que leva a rejeitar algo do percebido ou do inteligível (cf. Iyov 18:4; 24:25). E deu-nos a conhecer que todos os conhecimentos se edificam sobre o que captamos pelos sentidos e deles derivam: “pois o ouvido prova as palavras, como o paladar prova o alimento” (Iyov 34:3). E, já que mencionamos estas quatro fontes, é preciso esclarecer os modos da prova a partir delas. Quanto ao conhecimento dos sentidos: tudo o que o nosso sentido íntegro capta no contato direto com a coisa, devemos saber que é verdadeiramente como o captamos, sem dúvida — desde que estejamos habituados a distinguir o terreno das aparências e não nos enganemos com elas. Não como os que pensaram que a figura vista no espelho é uma forma ali realmente criada — quando é só uma propriedade dos corpos polidos, de inverter a forma do que têm diante de si; nem como os que pensaram que a estatura vista invertida na água ali se cria naquele instante — sem saber que a causa é a profundidade da água. Guardando-se disto, alcança-se o verdadeiro conhecimento do sensível, e a aparência não engana — como diz a Escritura: “e viram os moabitas, de longe, as águas vermelhas como sangue” (II Melachim 3:22). Quanto ao inteligível: tudo o que se configura no nosso intelecto, livre de todo defeito, é conhecimento verdadeiro — desde que saibamos examinar, completemos o exame e nos guardemos das imaginações e dos sonhos. Pois há quem tomou por verdades reais formas vistas em sonho, sem saber que parte dos sonhos vem da preocupação do dia (“pois o sonho vem da muita ocupação”, Kohelet 5:2); parte, dos alimentos e do seu calor ou frio (“como o faminto que sonha que come, e o sedento que sonha que bebe”, Yeshayahu 29:8); e parte, do humor que domina o temperamento. Quanto aos conhecimentos necessários: quando o nosso sentido capta algo que depende de outras coisas, devemos crer em todas elas, sejam poucas ou muitas, pois o percebido só se sustenta por elas.
ואומר הנה כי זה המדע, רוצה לומר ההגדה הנאמנת וספרי הנבואה מאמתים לנו אלה השלשה שרשים כי הם מדעים אמתיים. מפני שהוא מונה המוחשים המורחקים מן העצבים ומשים אותם חמשה ומחבר אליהם שנים, כאומרו (תהלים קט"ז ה') פה להם ולא ידברו עינים להם ולא יראו. והחמשה הם החושים עצמם. והשנים המחוברים אליהם, אחד מהם התנועה, כמו שאמר (תהלים קט"ז ז') רגליהם ולא יהלכו, ובה יודע הכבד והקל, כאשר ימנע האדם התנועה לכבדותו או של ימנעהו לקלותו. וזה שהאנשים רצו להוסיף במספר אלה החושים ואמרו במה מהם תודע הקלות והכובד, ונאמר בחושי התנועה שבה תמצא הקלות והקושי. והאחר הדבור, כאמרו (תהלים קט"ז ז') לא יהגו בגרונם, והוא כלל הדבור בעל השמות והחבור וההקדמות והמופתים כאשר בארנו. וכאשר אמר לנו מדע השכל וצוה בצדק והזהיר מהכזב, באמרו (משלי ח' ז') כי אמת יהגה הכי, וגומר בצדק כל אמרי פי וגומר. ואח"כן אמת לנו המדע ההכרחי, כי כל מה שמביא לדחות מאומה מן המוחש או מן המושכל שהוא שקר, ובטול מה שדוחה המוחש, באמרו (איוב י"ח ד') טורף נפשו באפו הלמענך תעזב וגו', אבל בטול מה שדוחה המושכל מהכזב והצדק, באמרו (איוב כ"ד כ"ה) אם לא איפה מי יכזיבני וגומ'. ואח"כך הודיענו שכל המדעים בנויים על מה שהשגנו בחושינו אשר זכרנום, ומסתעפים מהם ומוצאים מהם, כאמרו (איוב ל"ד ב') שמעו חכמים מלי ויודעים האזינו לי כי אזן מלים תבחן וחיך אכל יטעם לו. ואחר כן אמת לנו האמרים הצדיקים שהם אמת, כאמרו (איוב ט"ו י"ז) אחוך שמע לי וגו' אשר חכמים יגידו ולא כחדו מאבותם להם לבדם נתנה הארץ וגומר. ויש להם תנאים כבר בארנום בפי' אלה הפסוקים במקומם. וכיון שזכרנו אלה השרשים הד' צריך שנבאר אופני הראיה מהם. ונאמר כי מדע החוש כל אשר יפול חושינו האמתי בדבוק אשר בינינו ובינו ראוי שנדע שהוא הוא באמת כאשר השגנוהו אין בו ספק, אחר אשר נהיה רגילים בענין הדמיונים ולא נטעה בהם, כעם אשר חשבו כי הצורה אשר תראה במראה כי היא צורה ברואה שם באמת, ואינה כי אם טבע מיוחד לגשמים הזכים שתהפך צורת מה שהוא נכהה בה. ולא כעם אשר שמו הקומה אשר תראה במים נהפכת שהיא אמת תברא בעת ההיא, ולא ידעו שהסבה בזה היא בשיהיו המים יותר עמוקים שיעורם משיעור אורך הקומה. וכאשר ישמר מזה וזולתו, יגיע אל דעת המוחשות באמת ולא תטענו הדמות, כאשר אמר הכתוב (מ"ב ג' כ"ב) ויראו מואב מנגד את המים אדומים כדם. אך המושכלות כל אשר יצטייר בשכלנו הנצל מכל פגע והוא מדע אמת אין בו ספק, אחר שנדע איך נעיין, ואחר כן נשלים העיון ונשמר מן הדמיונים והחלומות. כי יש עם שקיימום אמתות ברואות בצורות אשר ראה האדם, וחייבו עצמם זה כדי שלא ידחו הנראה, ולא ידעו כי קצתם יהיה מעניני היום מחולף אשר עברו על המחשב, ובזה אמר הכתוב (קהלת ה' ב') כי בא החלום ברוב ענין. וקצתם מפני המזונות וחומם וקורם ורובם ומעוטם. ובזה אמר הכתוב (ישעיה כ"ט ח') כאשר יחלום הרעב והנה אוכל וכאשר יחלום הצמא והנה שותה. וקצתם מפני המסך הגובר על המזג. והחם והלח ידמה שמחות שמיני שחוק, והיבש ידמה אבל ודאגות, וכמו שאמר הכואב החולה (איוב ז' י"ג) כי אמרתי תנחמני ערשי ישא בשיחי משכבי וחתתני בחלומות ומחזיונות תבעתני. אך בהם רמז מעט עליוני מתערב בהם על דרך הרמז והדמיון, כמו שאמר (איוב ד' י"ג) בחלום חזיון לילה וגו'. אבל ההכרחיים מהמדעים כאשר ישיג חושנו בדברים אחרים עמו, אנו חייבים שנאמין בהם כלם בין שיהיו מעט או הרבה, מפני שלא התקיים המוחש ההוא כי אם בהם ואפשר שיהיה א' ואפשר שיהיו ב' או ג' או ד' או יותר מזה ואפילו הגיעו אל מה שהגיעו, מפני שא"א בלתי המוחש ההוא וא"א בלעדיהם כלם:
Nota — um realismo crítico. Saadia não é ingênuo quanto aos sentidos: eles são confiáveis apenas quando guardados das ilusões (o reflexo no espelho, a imagem invertida na água, as “águas vermelhas como sangue” de II Melachim 3). E a razão, só quando guardada dos sonhos e das fantasias — que ele atribui, com notável lucidez, à preocupação do dia, à digestão e ao temperamento. É uma epistemologia surpreendentemente moderna: conhecer exige verificação disciplinada, não confiança ingênua na primeira impressão.
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Um exemplo: ao vermos fumaça, cremos na existência do fogo, pois uma não se dá senão pela outra. Assim, ao ouvirmos a voz de um homem por trás de uma cortina ou de um muro, devemos crer na sua existência, pois não há voz humana senão de um homem existente. E, quanto ao que exige mais de uma causa: ao vermos o alimento entrar no ventre de um ser vivo e dele sair o resíduo, só se compreende isso crendo em quatro faculdades — uma que atrai o alimento, uma que o retém até cozer, uma que o digere e uma que expele o resíduo; e, quando o percebido só se completa por estas quatro, devemos crer que as quatro são verdadeiras. Assim também a lua: vemo-la iluminar a terra, vindo em tempos variados, ora num percurso longo, ora curto, ora ao sul, ora ao norte; e disso sabemos que, se tivesse um só movimento, o seu curso não variaria. A variação obriga a admitir que tem muitos movimentos, e que muitos movimentos só vêm de muitos corpos esferas — pois um único corpo não faz, ao mesmo tempo, dois movimentos diversos. E isto só se confirma pela arte da medida, chamada geometria; ao completá-la, esclarece-se que o curso da lua é composto de vários movimentos, e devemos crer que essa arte é verdadeira, pois só por ela se completa a crença na variação do seu curso conforme a lei natural. E, já que esclarecemos como se dá o conhecimento necessário, cumpre lembrar o que o guarda da corrupção — pois dela vem a maioria das controvérsias entre os homens. Eis algumas causas: quando alguém diz “creio nisto para não anular o percebido”, devemos examinar se o percebido não se sustenta de outro modo — pois então o que ele creu é nulo (como quem atribuiu a Via Láctea ao rastro do sol, quando se pode explicá-la por vapores ou por estrelinhas reunidas); quando diz “creio nisto para não anular o inteligível”, devemos ver se o inteligível não se cumpre de outro modo (como quem supôs haver outra terra, pondo o fogo ao centro); quando uma crença, posta contra um percebido, corrompe outro percebido, julgamos pelo percebido mais forte; e quando alguém diz “isto é bom porque me é agradável” — sem lembrar que a sua morte agrada ao seu inimigo, como a morte do inimigo lhe agrada —, torna “bom” e “mau” a mesma coisa, o que se contradiz.
והאחד מהם כי כשאנחנו רואים עשן שנאמין מציאות האש במציאות העשן, כי לא יתום זה כי אם בזה. וכן כאשר נשמע קול אדם מאחורי הפרגוד או מאחורי הכותל, אנחנו חייבים שנאמין במציאותו, מפני שלא יהיה קול אדם כי אם מאדם נמצא. אבל מה שיוסיף על האחד כמו שאנו רואים, המזון נכנס בבטן בעל חי מוגשם ותצא הפסולת ממנו; ואם לא נאמין בד' דברים לא ישלם מה שהשיגו חושינו, והוא שיש בהם כח מושך המזון לפנים וכח מחזיק בו עד שיתבשל, וכח שמעכל אותו, וכח דוחה פסלתו בו נדחה חוץ. וכאשר יהיה המוחש לא יתום כי אם באלו הארבעה צריך שנאמין שארבעתם אמת. ואפשר שלא תשלם לנו אמונת מה שנאמין עד שנחדש לו מלאכה שתאמתהו לנו, ואפשר שנצטרך למלאכות רבות, וכאשר יתאמת שהדבר ההוא המוחש נתלה בהם; אנו חייבים שנחשוב אותם כלם אמת עד שיתקיים המוחש ההוא. וזה כאשר נראה הירח מאיר על הארץ והוא בא בעתים שונים מיום ומלילה, ועם זה הולך הליכה ארוכה והליכה קצרה, כאשר יקצר עתים להגיע אל א' המחנות השמנה ועשרים אשר השגנום וקראנו להם שמות, וימשך עתים ויעבור אותם. ועם זה אנו רואים אותו פעם הולך בנגב ופעם בצפון, ונדע מזה כי אם היתה לו תנועה אחת בלבד לא היתה מתחלפת הליכתו ורחבו. וראותנו התחלפותו מחייב שיש לו תנועות רבות, ושהתנועות הרבות לא תהיינה כי אם מגשמים רבים, מפני הגשם האחד לא ינוע בעת א' שתי תנועות מתחלפות, כ"ש ג' או ד'. ושהגשמים הרבים השוים בצורתם פוסקים קצתם את קצתם, ולכן התנועות יחסרו קצתם מקצתם או יוסיפו עליו, ושזה לא יתאמת לנו כי אם במלאכת השיעור שנקראת הנדס"ה. והיא תראה אותם לנו נכנסים בצורה על דרך ההרכבה, אחר שנעמוד על הפשוט מהם והתעסקנו לדעת הצורות הפשוטות, אחד הנקודות והקוים, עד שידענו הצורה המשולשת והמרובעת והעגולה והנכנסת והפשוטה והפוסקת, עד שהגענו לידיעת הצורה הפוסקת ומה שמתברר מחלקיה, ומה שמתבטל, עד שידענו כי צורות הגלגלים כדוריות או עגולות ומקצתם בתוך קצתם. ובהשלמת המלאכות האלה יתברר לנו כי הליכת הירח מורכב מארבעה תנועות, וצריך שנאמין כי אלה המלאכות אמת, מפני שלא תתום לנו אמונת התחלפות הליכתו על החק הטבעי כי אם בהם. וכיון שבארנו איך יהיה המדע ההכרחי, צריך שנזכיר מה שישמרהו מן ההפסד, והוא שרוב מחלוקות בני אדם והתחלפות ראיותיהם בו וממנו. ונאמר כשיאמר אומר האמנתי בכך שלא אבטל המוחש, אנו חייבין לעיין שמא המוחש יתקיים בזולת מה שהאמין בו, ואם הוא כן, מה שהאמין בו בטל. וזה כמי שהאמין כי ההגורה בעבור שרואים מלבנתה שהיה עליה סבוב גלגל השמש מקדם, וכאשר יבחנו דבריו נמצא זולתן אפשר, והוא שיהיה זה איד עולה מחלק אישיי עומד, או כוכבים קטנים נקבצים, או זולת זה, ויתבטל מה שאמר. ואם יאמר אומר האמנתי כך שלא אבטל המושכל, אנו חייבין לעיין אם המושכל ההוא יתחייב בזולת מה שהאמין בו, בטלה אמונתו. וזה מי שחשב שיש ארץ אחרת זולת זאת, וראיתם על זה שתהיה האש באמצע, כי כל דבר חשוב שמור באמצע. וכבר התישר לנו שנחשוב זה לאדם השוכן בארץ אשר הוא באמצע הכל, ובטל מה שחייבוהו עצמם בו. וכשיאמר אומר האמנתי בכך הקשה על המוחש, והיתה האמונה ההיא מפסדת מוחש אחר, נדון בגבול שבשני המוחשים, כמו שחשבו כי הדברים כולם הוחלו מן המים כי ב"ח מיסוד לח, ועזבו מה שהם רואים אותו מהגרת המים מהתוכו לא יתכן שיהיה שרש כי לא יעמוד בעצמו, וכאשר נפגשים בהבאת הראיה כמו אלה השנים הגדול שבהם יותר ראוי לראיה. וכאשר יאמר אומר האמנתי כך הקשה על המוחש, ויהיה קצת מאמרו סותר את קצתו מאמרו שקר. כמאמר אשר חשבו כי הטוב הוא כל מה שהוא ערב לנו מפני שכך הם חשים, ואינם זוכרים שהריגתם תערב לשונאיהם כאשר הריגת שונאיהם תערב להם, ויהיה טוב ורע יחד דבר שסותר זה את זה:
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E quando alguém diz “creio nisto por tal causa”, e examinamos essa causa e a achamos a exigir outra coisa em que ele não crê, a sua crença já é nula — como os que creram na eternidade do mundo, dizendo que só creem no que os sentidos captam: ora, justamente quem só crê no que os sentidos captam fica impedido de crer que as coisas são eternas, pois é impossível perceber o eterno na sua eternidade pelos sentidos. E, do mesmo modo, quando alguém diz “creio nisto por tal causa” e o vês entrar em algo mais difícil do que aquilo de que fugiu, a sua crença cai.
וכשיאמר אומר האמנתי כך לעלת כך ודקדקנו העלה ההיא ומצאנו אותה מחייבת דבר אחר איננו מאמין בו כבר בטלה, כמאמר אנשי הקדמות האמינו כי הדברים קדומים, מפני שאין אנו מאמינים אלא במה שהשיגוהו חושינו, ואשר אין מאמינים כי אם במה שהשיגוהו חושיהם ימנעם שיאמינו כי הדברים קדמונים, כי אי אפשר שיחושו הקדמון בקדמותו. וכן אם יאמר אומר האמנתי כך לעלה כך, ותמצאהו שנכנס ביותר קשה ממה שברח ממנו, כאשר ברח קצת המיחדים מאמור שאינו יכול על השבת אתמול, נכנס במה שהוא יותר רע לספר עליו מה שהוא הבל, וכאשר אני עתיד לזכור במאמר הראשון:
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Assim, ao buscarmos confirmar a verdade do conhecimento necessário, guardamo-lo destas cinco coisas que o corrompem: que não se decrete poder estabelecer-se o percebido de outro modo; que não se decrete o conhecido de outro modo; que não corrompa outra verdade; que não se contradiga; e, sobretudo, que não entre em algo pior do que aquilo de que fugiu — e isto depois de guardar o percebido e o inteligível pelos cuidados que mencionamos. Serão, então, sete cuidados; e, com a paciência na obra do exame até completá-la, sai-nos a verdade. E, quando outro nos traz uma prova num conhecimento necessário, avaliamos as suas palavras por estes sete critérios; o que passa na prova e se equilibra na balança é verdade e aceitável. Do mesmo modo os usamos nas questões da tradição fidedigna — isto é, os livros dos profetas —, ainda que não seja este o lugar de expor todos os seus modos.
ואנחנו עתה כאשר נדרוש קיום אמתת מדע ההכרחי, נשמרהו מחמשה הענינים האלה המפסידים אותו. והוא שלא תגזר בזולתו אמתת המוחש, ולא תגזר בזולתו אמתת הידוע. ולא שיהיה מפסיד אמת אחרת, ושלא יסתור קצתו, כל שכן שיכנס ביתר רע ממה שברח ממנו וזה אחרי שמירת המוחש והמושכל ברגילות אשר זכרנו. ויהיו שבעה ענינים עם המתון על מלאכת העיון עד השלמתה תצא לנו האמת. וכשיבא זולתנו להביא לנו ראיה במדע ההכרחי, נבחין דבריו באלה השבעה. וכאשר יבחן במבחן וישקל במאזנים יהיה אמת גם כן מקובל, וכן נשתמש בהם בעניני ההגדה הנאמנת, רוצה לומר ספרי הנביאים, אך אין זה מקום לבאר בו כל אופניהם, וכבר בארתי מזה קצת נרחב בפתיחת פירוש התורה:
Nota — a razão como teste universal. Saadia resume o método: sete cuidados (guardar sentidos e razão das ilusões, mais cinco regras contra inferências corrompidas) somados à paciência até completar o exame produzem a verdade. E, num gesto de extraordinária confiança racionalista, ele aplica esses mesmos testes até à tradição profética: a razão é a balança em que tudo — inclusive o que se recebe por tradição — deve equilibrar-se. Fé e razão não competem; a razão confirma a fé.
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E, se alguém disser: como sujeitamos as nossas crenças ao juízo do exame e da investigação, crendo nelas conforme se confirmem pela arte da demonstração, se o povo afasta essa arte, dizendo que o exame conduz à descrença e à apostasia? — dizemos que isso é coisa só dos ignorantes (amei ha’aretz). É como os ignorantes que pensam que todo o que vai à Índia enriquece, ou que algo semelhante a um dragão engole a lua e a eclipsa — e outras tantas coisas dignas de riso. E, se alguém disser: mas os sábios de Israel advertiram contra isto — contra inquirir o que precede o tempo e o lugar, dizendo “quem contempla quatro coisas, melhor lhe fora não ter vindo ao mundo: o que está acima, o que está abaixo, o que está antes, o que está depois” (Chaguigá 11b) —, dizemos, com o auxílio de D’us, que o exame verdadeiro não lhes seria possível proibir, pois o nosso Criador já o ordenou, junto com a tradição fidedigna: “porventura não sabeis? não ouvistes? ... não entendestes os fundamentos da terra?” (Yeshayahu 40:21). O que os sábios proibiram foi abandonar os livros dos profetas e apoiar-se apenas no que cada um deduz por si, especulando por conta própria sobre os começos do tempo e do lugar — pois quem assim especula tanto pode acertar como errar; e, até achar, fica sem religião; e, mesmo achando-a, não está seguro de que uma dúvida o desvie. Todos concordamos que quem assim faz peca. Mas nós, a comunidade de Israel, investigamos por um caminho diverso — o que exporei, se D’us quiser.
ואם יאמר אומר איך נשים עלינו לדין העיון בידיעות ודקדוקים עד אשר נאמין אותם כפי מה שיתבררו במלאכת השיעור ויתישבו, והעם מרחיקים המלאכה הזאת עד שהם אומרים שהעיון בה מביא הכפירה ומביא אל האפיקורסות? נאמר כי זה אינו אלא אצל עמי הארץ שבהם, כאשר סוברים עמי הארץ שבעיר הזאת כי כל מי שהוא הולך אל ארץ הודו יעשיר. וכמו שנאמר על עמי הארץ שבעירנו שהם סוברים שדבר שהוא דומה לתנין בולע הירח ונקדר. וכאשר אומרים על קצת עמי הארץ שבערב שהם סוברים שמי שמת מהם ולא ישחטו גמלו על קברו יביאוהו ליום הדין רגלי. והרבה כזה ממה שראוי לשחוק עליו. ואם יאמר אומר הנה חכמי ישראל הזהירו מזה, ובלבד העיון בתחלת הזמן ותחלת המקום, כאמרם כל המסתכל בארבעה דברים ראוי לו כאלו לא בא לעולם; מה למעלה מה למטה, מה לפנים מה לאחור (חגיגה יא). נאמר ונעזר באלהים כי העיון האמתי לא יתכן שימנעוהו ממנו, ויוצרנו כבר צוה בו עם ההגדה הנאמנה, כאמרו (ישעי' מ' כ"א) הלא תדעו הלא תשמעו הלא הוגד מראש לכם הלא הבינותם מוסדות הארץ. ואמרו החסידים קצתם לקצתם (איוב ל"ד ד') משפט נבחרה לנו נדעה בינינו מה טוב. וכאשר יש לחמשת האנשים בזה, רוצה לומר איוב וחבריו מאמרים נרחבים. אבל מנעו שנעזוב ספרי הנביאים לצד ושנסמך על מה שיצא לכל אחד ואחד בעדת עצמו בהעלותו על דעתו התחלות הזמן והמקום, כי כל המעיין מן הצד הזה אפשר שימצא ואפשר שיטעה, ועד שימצא יהיה בלא דת, ואם ימצא הדת ויחזיק בה לא יבטח מהעתקתו ממנה בספק שיעמוד לפניו יפסיד עליו אמונתו, ואנחנו כלנו מסכימים שהעושה זה חוטא, אם הוא בעל עיון, אבל אנחנו קהל בני ישראל חוקרים ומעיינים על דרך זולת זו, שהוא מה שאני עתיד לזכרו ולבאר בע"ה:
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Saiba — que D’us te conduza, ó leitor deste livro — que investigamos as questões da nossa Torá por dois fins. O primeiro: tornar efetivo, pelo conhecimento racional, aquilo que já sabemos pelos profetas de D’us. O segundo: responder a todo o que nos contesta algo da nossa Torá. Pois o nosso D’us nos impôs tudo o que precisamos da nossa Torá por meio dos Seus profetas, depois de nos confirmar a profecia deles por sinais e prodígios, e ordenou-nos crer nessas coisas e guardá-las. E deu-nos a conhecer que, quando examinarmos e investigarmos, sair-nos-á a certeza plena em cada tema, tal como Ele nos informou pelos profetas; e garantiu-nos que os negadores não terão argumento válido contra a nossa Torá, nem prova os que duvidam da nossa fé — como disse: “Eu sou o primeiro e Eu sou o último, e além de Mim não há D’us” (Yeshayahu 44:6); “não temais nem vos assombreis ...; vós sois as Minhas testemunhas” (44:8). E esse “vós sois as Minhas testemunhas” refere-se ao que o povo viu dos sinais manifestos — as dez pragas no Egito, a abertura do mar, o estar diante do monte Sinai. E vejo que o sinal do maná é o mais admirável de todos: pois o milagre contínuo é mais admirável que o passageiro. Não cabe na mente artifício algum que sustente um povo de quase um milhão de pessoas, por quarenta anos, num deserto, senão por um alimento que o Criador lhes fazia descer do ar. Houvesse aí algum artifício, os filósofos antigos teriam sido os primeiros a usá-lo, sustentando assim os seus discípulos. E mais: quando diziam aos seus filhos “nós estivemos no deserto quarenta anos comendo o maná, e ele não tinha origem natural alguma”, os filhos teriam respondido, se fosse falso: “estais a mentir-nos — eis o teu campo, ó fulano; eis o teu jardim, de que sempre vos sustentastes”. Mas não houve tal objeção. Eis o critério de toda tradição fidedigna: um acontecimento testemunhado por toda uma multidão e transmitido sem desmentido.
דע! אלהים יישירך האיש המעיין בספר הזה, כי אנחנו חוקרים ומעיינים בעניני תורתנו בשני ענינים. האחד מהם שיתברר אצלנו בפעל מה שידענו מנביאי האלהים במדע, והשני שנשיב על כל מי שטוען עלינו בדבר מדברי תורתנו; והוא שאלהינו ית' חייבנו כל מה שאנו צריכים אליו מענין תורתנו על ידי נביאיו, אחד שאמת להם הנבואה אצלנו באותות ובמופתים, וצונו שנאמין בענינים ההם ונשמרם. והודיענו כי כאשר נעיין ונחקור יצא לנו הברור השלם בכל שער כאשר הודיענו על יד נביאיו. והבטיחנו כי לא יתכן שיהיה לכופרים עלינו טענה בתורתנו ולא ראיה למספקים באמונתנו. והוא באמרו כמה שהגיד לנו מן הדברים כלם שהם מוחלים והוא הבורא את התחלתם והוא א' אין שותף לו, כאמרו (ישעיה מ"ד ו') כה אמר י"י מלך ישראל וגואלו י"י צבאות אני ראשון ואני אחרון ומבלעדי אין אלהים. ואמר אחריו במה שצוה בו והזהירנו ממנו והגיד אותה לנו שהוא היה והוא יהיה, כאמרו (שם שם ז') ומי כמוני יקרא ויגידה ויערכה לי משומי עם עולם ואותיות ואשר תבאנה יגידו למו. והסיר פחדנו מן החולקים עלינו כי לא יתכן להם שיגברו עלינו בטענה ולא שיראו עלינו דבר מחוייב, כמו שאמר (שם שם ח') אל תפחדו ואל תרהו הלא מאז השמעתיך והגדתי ואתם עדי היש אלוה מבלעדי ואין צור בל ידעתי. ואמרו אל תפחדו רוצה בו עניני בעלי דינין ברובם וכחותם ומדותם, כמו שאמר במקום אחר (שם נ"א י"ג) ותפחד תמיד כל היום מפני חמת המציק. ואמרו ואל תרהו הוא כמו ואל תיראו כאשר יבא בענין התמורה הה' במקום אלף, ורוצה מן הדברים עצמם זמן הטעיות עצמם, כאשר אמר במקום אחר (יחזקאל ב' ו') מפניהם אל תירא ומדבריהם אל תחת, ואמר (שמות ט' כ') הירא את דבר י"י. ואמרו הלא מאז השמעתיך, רוצה בו ההגדות שעתידים לבא, ואמרו, והגדתי רוצה בו ההגדות אשר חלפו, כמו שאמר (ישעיה מב ט׳) הראשונות הנה באו וחדשות אני מגיד. ואמרו ואתם עדי, דומה אל מה שראה העם מן האותות הנראות והמופתים הנגלים, והם על פנים רבים מבא העשר מכות על מצרים ובקיעת הים ומעמד הר סיני. ואני רואה כי ענין אות המן יותר נפלאת מכולם, כי הדבר המתמיד יותר נפלא מהנפסק, כי לא יעלה בדעת תחבולה שתכלכל עם שמספרם קרוב לאלף אלפים אדם ארבעים שנה לא מדבר, כי אם ממזון מוחל יחל אותו הבורא להם באויר. ואלו היה הנה שום פנים לתחבולה לקצת זה, היו מקדימים אלה הפילוסופים הקדמונים והיו מכלכלים תלמידיהם בו, ומלמדים אותם החכמות והיו מספיקים להם, מהצטרך להתעסק בקנין ולבקש עזר מבני אדם, ולא שיהיו המון בני ישראל מסכימים על הענין הזה ומספיק זה בתנאי כל הגדה נאמנת. ועם זה כשהיו אומרים לבניהם שאנחנו עמדנו במדבר מ' שנה אוכלים המן ולא היה לו שום עיקר, היו אומרים להם בניהם: הנה אתם מכזבים לנו; אתה פלוני הלא זה שדך ואתה פלוני הלא זה גנך אשר מהם הייתם תמיד מתפרנסים זה מה שלא היו בניהם מקבלים מהם בשום פנים. ואמרו היש אלוה מבלעדי, רוצה בו שמא הייתם יראים שיהיה קצת מה שהגדתי לכם שהיה או קצת מה שהגדתי לכם שיהיה אין כן אם היתה בריאה מבורא זולתי, ושמא לא הייתי יודע כל מה שיעשהו, וכיון שאני אחד דעתי כוללת כל מה שעשיתיו ומה שאעשהו. ואמרו ואין צור בל ידעתי, נכנסו בו גדולי בני אדם וחכמיה, כי מלת צור נופלת על גדולי בני אדם, כאמרו (ישעיה נ"א א') הביטו אל צור חוצבתם ואל מקבת בור נוקרתם הביטו אל אברהם אביכם ואל שרה תחוללכם וגו'. ועוד (תהלים פ"ט מ"ד) אף תשיב צור חרבו ולא הקמותו במלחמה, ורוצה בו כי אין חכם ואין גדול שלא אדעהו, ולא יתכן שיהיה להם טענה עליכם בתורתכם ולא שובר לאמונתכם, מפני שדעתי כוללת הכל והודעתי לכם אותו:
Nota — razão e revelação, e o testemunho do maná. Saadia recusa a oposição entre investigar e crer: o próprio D’us ordenou investigar (Yeshayahu 40:21); o que se proíbe é abandonar a tradição e apoiar-se só na especulação solitária. E aqui surge o famoso critério da tradição fidedigna: o acontecimento testemunhado por uma multidão e transmitido sem desmentido. O exemplo do maná — sustento de quase um milhão de pessoas por quarenta anos, que nenhum artifício explicaria, e cuja memória os filhos refutariam se fosse falsa — é a base racional da confiança na revelação (o mesmo argumento do testemunho coletivo do Sinai; cf. o ensaio “A existência de D’us pela razão”).
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E por este caminho — que D’us te compadeça — examinamos e investigamos, para tornar manifesto, com conhecimento e necessidade, o que o nosso D’us nos deu a conhecer. E junta-se a isto uma questão necessária: se as palavras da Torá se confirmam pela investigação e pelo exame claro, por que D’us no-las deu pela via da profecia, firmando-as com prodígios e sinais visíveis, e não deixou à razão? A resposta plena é esta: porque Ele soube, na Sua sabedoria, que as conclusões alcançadas pela arte do exame só se completam numa medida de tempo; e, se nos deixasse a conhecer a Sua Torá só por aí, ficaríamos um tempo sem Torá, até completar-se a obra. E talvez muitos nunca a completassem — por alguma deficiência, ou por se cansarem dela, ou por serem dominados pelas dúvidas. Então o Criador poupou-nos todo esse esforço, enviou os Seus mensageiros, deu-nos a tradição fidedigna e mostrou aos nossos próprios olhos sinais e prodígios em que não se mistura dúvida, e que não achamos meio de rejeitar — “vós vistes que dos céus falei convosco” (Shemot 20:22) —, e falou com o Seu profeta diante de nós, o que obriga a crer nele para sempre — “para que o povo ouça quando Eu falar contigo, e também em ti creiam para sempre” (Shemot 19:9). E, se o tempo se alonga para quem investiga, até completar o seu exame, não há mal nisso; e quem se atrasa, por algum impedimento, não fica sem religião. E aquele que for das mulheres, ou das crianças, ou de quem não sabe investigar — a sua religião é completa e lhe alcança, pois todos os seres humanos são iguais nos conhecimentos fundados nos sentidos. Louvado seja o Sábio que tudo conduz. E por isso vês a Torá reunir, em muitos lugares, as mulheres, os filhos e os pais na menção dos sinais e dos prodígios.
ועל הדרך הזה ירחמך האל, נעיין ונחקור להוציא אל מה שהודיענו אלהינו במדע ובהכרח, ויסמך לשער הזה שער שאנו צריכים לו ונאמר כשיהיו דברי התורות מתקיימות בחקירה ובעיון הברור כאשר הגיד לנו אלהינו, מה אופני החכמה שהודיענו אותם מדרך הנבואה והעמיד עליהם מופתים ואותות הנראות לא המושכלות? אחר כך אשיב בעזרת האל התשובה השלמה. ונאמר מפני שידע בחכמתו כי המבוקשים המוצאים במלאכת העיון לא ישלמו כי אם במדה מהזמן, כי אם ימחה אותנו בידיעת תורתו עליה, נעמוד זמן בלא תורה עד שתשלם המלאכה ויתום העסק בה. ושמא רבים ממנו לא תשלם בו המלאכה בעבור חסרון שיש בו, או שלא ישלם לו להתעסק בה בעבור שיקוץ בה, או מפני שהספקות שולטים עליו ומבלבלים אותו, ושמרנו הבורא שכל אלו הטרחים כלם במהרה ושלח לנו שלוחיו והגיד לנו בהגדה והראנו בעינינו אותות עליה ומופתים שלא התערב בהם ספק, ולא מצאנו דרך לדחותם, כמו שאמר (שמות כ' כ"ב) אתם ראיתם כי מן השמים דברתי עמכם. ודבר עם נביאו בפנינו ושם זה מחייב להאמין בו תמיד, כמו שאמר (שם י"ט י"ט) בעבור ישמע העם בדברי עמך וגם בך יאמינו לעולם. והתחייבנו מיד לקבל ענין התורה, וכל אשר נכלל בה כבר התקיים בעד המוחש והתחייב בקבולו כל מי שהוגד לו בראיית ההגדה הנאמנת, כאשר אני עתיד לבאר. וצונו שנרצה לעיין במתון עד שיצא לנו זה בעיון ולא סרנו מהמעמד ההוא עד שנתקיימה טענתו עלינו, והתחייבנו להאמין בתורתו ממה שראו עינינו ושמעו אזנינו, ואם יארך הזמן למעיין ממנו עד שישלם עיונו לא יחוש לזה, ומי שיתאחר בעבור דבר מונע מזה לא ישאר מבלי דת. ומי שיהיה מן הנשים או הנערים ומי שלא ידע לעיין תהיה דתו שלמה לו ומגיע אליה, כי כל בני אדם שוים במדעים החושיים, ישתבח החכם המנהיג. ובעבור זה אתה רואה בתורה מקבץ בהרבה מקומות הנשים והבנים והאבות בזכרון האותות והמופתים:
Nota — a revelação como misericórdia, e uma religião para todos. Esta é uma das ideias mais belas e humanas de Saadia. Se a razão alcança a verdade, por que revelá-la? Porque o caminho da razão leva tempo, e muitos nunca o completariam — por limitação, cansaço ou dúvida. A revelação é, então, uma misericórdia: dá a verdade desde já, com sinais públicos, para que todos — inclusive as mulheres, as crianças e quem não filosofa — tenham desde o início uma religião completa, enquanto os capazes são convidados a confirmá-la pela razão. A vida espiritual plena não é privilégio dos filósofos; a filosofia confirma a fé, mas não é pré-requisito dela.
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E acrescento uma comparação: alguém que repartiu o seu dinheiro — mil zuz entre vários grupos de pessoas, em frações diversas — e quer confirmar depressa quanto sobrou; ele o estabelece rapidamente pesando o dinheiro (uma prova veloz), enquanto outros o verificam, mais devagar, pelo cálculo, cada um conforme a sua capacidade. E como o médico que dá depressa um sinal natural sobre uma doença, para que o que investiga chegue, pela via do exame, à mesma conclusão. E devemos crer, ainda, que a revelação foi dada pelo Criador às Suas criaturas antes de Israel, com sinais e prodígios manifestos: quem viu tem a obrigação da prova pelo sentido da vista; quem dela foi informado, pelo sentido do ouvido — como disse a Torá acerca de Avraham: “pois Eu o conheci, para que ordene aos seus filhos e à sua casa depois dele que guardem o caminho do Eterno” (Bereshit 18:19).
ואחר כן אומר בהקרבת זה כמי ששקל ממונו אלף זוז, לחמשה לכל אחד ב"ב זוז, ולששה אנשים לכל אחד ששה עשר זוז ושני שלישי זוז. ולשבעה לכל אחד ארבעה עשר זוז ושתי שביעיות. ולשמנה אנשים לכל אחד שנים עשר זוז ושלש שמיניות. ולתשעה אנשים לכל אחד עשרה זוזים ותשיעית. ורוצה לאמת אצלם במהרה מה שנשאר מן הכל, והוא אומר שהנשאר הוא ת' ק' זוז וישים ראיתו על ממונו שקילת הממון, וכאשר ישקול אותו מהרה וימצאנו ת"ק זוז וישים ראיתו על ממונו שקילת הממון, וכאשר ישקול אותו מהרה וימצאנו ת"ק זוז התחייבו להאמין מה שאמר להם, ויש להם מתון לדעתו מדרך החשבון כל א' כפי השגתו והבנתו, ומה שקורה לו מדבר מונע. וכמי שספר על חולה מהחולים בענין מעניני החולי והוא נותן במהרה עליו אות טבעית עד שיעמוד הדורש אותה מדרך העיון על מבוקשו. וראוי שנאמין עוד שהתורה היתה לבורא על ברואיו קודם בני ישראל באותות ובמופתים נגלים, מי שראה יש עליו טענה במה שהשיגו חוש ראותו. ומי שהוגד לו יש עליו טענה במה שהשיגו חוש שמעו. וכמו שאמרה תורה על קצתם (בראשית י"ח י"ט) כי ידעתיו למען אשר יצוה וגו':

Sobre esta seção · עִיּוּן

Uma teoria do conhecimento, no século X

Séculos antes dos grandes debates modernos sobre o conhecimento, Saadia Gaon já distingue com precisão as vias pelas quais a mente humana alcança a verdade — e submete cada uma a regras de verificação. A sua lista de quatro fontes (sentidos, razão, inferência, tradição) tornou-se um clássico, retomado e refinado pelos pensadores judeus posteriores, o Rambam à frente.

A tradição sobre alicerce racional

O movimento mais ousado de Saadia é incluir a tradição fidedigna entre as fontes do conhecimento — não como exceção à razão, mas como repousando sobre ela. Uma tradição vale porque se funda em testemunho público verificável e em raciocínio. Daí o critério do acontecimento testemunhado por multidões: a fé de Israel não pede que se creia contra a evidência, mas a partir dela.

Razão e revelação, sem conflito

A pergunta “se a razão basta, para que a revelação?” recebe uma resposta que marca toda a tradição racionalista: a revelação é uma graça que poupa tempo e abre a verdade a todos, enquanto a razão a confirma para quem pode investigar. Os dois caminhos levam ao mesmo destino — e por isso a investigação honesta nunca é uma ameaça à fé, mas o seu segundo testemunho.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Introdução (seções 5-6), na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Estas seções são densas e de períodos longos: acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido, e algumas enumerações repetitivas do original foram condensadas (marcadas com “...”) sem perda do argumento. As notas em destaque e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Introdução · Parte III

As causas do erro e o plano da obra

הַקְדָּמָה · חֵלֶק ג׳

Antes de iniciar a sua obra, Saadia faz um diagnóstico notavelmente honesto: por que as pessoas caem na descrença e no erro? Em geral, não por razões intelectuais, mas morais — preguiça, apetite, orgulho, ressentimento. Em seguida, traça o mapa dos dez tratados que virão, encerrando a Introdução.

1
E a estas coisas acrescento o que me ocorreu sobre as causas que lançaram as pessoas na descrença, na falsidade e no afastamento da fé nos sinais e do exame das crenças. Vejo que são oito, e muito frequentes:
  1. O peso do esforço, contra a natureza comodista do homem. Quando a sua natureza percebe que algo veio fortalecê-lo com uma prova, e que isso toca a Torá, ela foge e se atemoriza. Por isso vês muitos a dizer “a verdade é pesada”, e outros “a verdade é amarga” — querem o conforto e fogem dela; sobre eles diz a Escritura: “afastaram-se do Eterno ...” (Yechezkel 11:15). E não entendem, os insensatos, que, cedendo à preguiça, ficarão famintos e padecerão.
  2. A ignorância que domina muitos — fala com a língua da tolice e pensa, na preguiça do coração, “sem refletir, não há perigo”; sobre eles diz: “pois agora dirão: não temos rei, porque não tememos o Eterno” (Hoshea 10:3).
  3. A inclinação a saciar os desejos — comida, bebida, prazer e posse —, à qual o homem se entrega às pressas, sem reflexão; sobre eles diz: “disse o tolo no seu coração: não há D’us” (Tehilim 53:2).
  4. A pressa no exame e a pouca ponderação; basta-lhe o mínimo, e diz “já examinei, e só me saiu isto”; sobre eles diz: “o preguiçoso não assa a sua caça” (Mishlei 12:27) — o negligente não alcança o que deseja.
  5. A insolência e o orgulho, que impedem o homem de admitir que há uma sabedoria que lhe é oculta; sobre eles diz: “o ímpio, na altivez do seu rosto, diz: não há quem inquira” (Tehilim 10:4) — e nem percebe que essa pretensão não o ajudaria nem a fazer um anel.
  6. Uma palavra ouvida da boca de algum negador, que lhe chega ao coração e o fere, e ele permanece toda a vida com essa ferida; sobre isso diz: “as palavras do murmurador são como guloseimas que descem ao íntimo” (Mishlei 18:8).
  7. Uma prova fraca que ele ouviu de algum dos que proclamam a unidade de D’us, a partir da qual julga que tudo na fé é assim, e passa a zombar. Não lhe ocorre que o mercador de tecidos preciosos, se não sabe dobrá-los, nem por isso torna os tecidos menos valiosos. Um mau defensor não desmente a verdade que defende.
  8. Um ódio pessoal entre ele e alguns dos que proclamam a unidade, que o leva a odiar também o D’us deles; sobre eles diz: “o meu zelo me consome, porque os meus adversários esqueceram as Tuas palavras” (Tehilim 119:139). E não sabe, o tolo, que o seu inimigo não pode causar-lhe o que ele causa a si mesmo.
E quanto àquele cujo hábito era mudar de opiniões — porque viu, em versículos da Escritura, o que lhe pareceu estranho; ou porque orou e não foi atendido, pediu e não recebeu; ou viu ímpios de quem Ele não tomou vingança; ou se admirou de como um reino se mantém para os negadores; ou viu a morte recolher todas as criaturas; ou porque a unidade de D’us, a alma e a questão da recompensa e do castigo não lhe couberam no entendimento — a todos estes, e aos semelhantes, hei de tratar, cada um no tratado e no capítulo que lhe convém, falando conforme a capacidade; e espero, com isso, alcançar a meta dos que buscam a verdade, com a ajuda de D’us.
ואסמיך לדברים האלה מה שעלה בדעתי בסבות, אשר הפילו בכפירה ובכזב וברוח מהאמנת האותות והעיון באמונות. כי אני רואה מהם שמונה, הם נמצאות הרבה. תחלתם כובד הטורח על טבע בני אדם, וכאשר ירגיש הטבע בענין שבא עליו לחזק אותו ולאמצו בראיה ומשתמש בה בענין התורה הוא בורח ומפחד מזה. ובעבור זה אתה רואה הרבה בני אדם אומרים: האמת כבדה. ומהם אומרים: האמת מרה. והם רוצים בחירות ובורחים ממנה, ועליהם אמר הכתוב (יחזקאל י"א ט"ו) רחקו מעל י"י לנו היא נתנה הארץ למורשה. ולא הבינו הפתאים כי אם ילכו לרצון הטבע בברחם מהעמל והיגיעה ישארו רעבים ונענים בבטול הרע והבנין. והשנית הסכלות הגוברת על רבים מהם והוא מדבר בלשון האולת וחושב בלבו העצלה ואומר מבלי מחשב, אין דב, וכן במצפונו. ובאלה הוא אומר (הושע י' ג') כי עתה יאמרו אין מלך לנו כי לא יראנו את י"י והמלך מה יעשה לנו. ואינם חושבים כי כאשר הם מדברים בקצת האולתות האל והגבוהות ימותו ויאבדו. והשלישית נטות האדם למלאת תאוותיו במאכל ומשתה, ומשגל, ובקנין, והוא ממהר לעשות זה בזריזות בלי מחשבה, ובהם אומר הכתוב (תהלים נ"ג ב') אמר נבל בלבו אין אלהים וגו'. ולא חשב כי כאשר יעשה זה בחליו ובבריאותו ויאכל כל מה שיתאוה, וישגל כל אשר ימצא, ימות ויאבד. והרביעית הקיצה בעיון ומיעוט התישבות בעת השמע והמחשב ומספיק לו המזער ויאמר כבר עיינתי ולא יצא לי כי אם זה, ובהם אמר הכתוב (משלי י"ב כ"ז) לא יחרוך רמיה צידו וגו'. ופירוש רמיה הקץ לא יגיע לחפצו, ולא ידעו כי אם ינהגו בזה בענין תאותם לא תשלם להם. והחמישית עזות וגאוה שגוברים על האדם, ולא יודה כי יש חכמה נעלמת ממנו ולא מדע עמד לפניו, ובהם אמר הכתוב (תהל' י' ד') רשע בגובה אפו בל ידרוש וגו', ולא הרגיש כי הטענה הזאת לא תועילהו בעשות טבעת ולא בכתיבת אות. והששית מלה שישמענה האדם בשם אחד מן המכחישים והגיעה אל לבו ותמחצהו ויעמוד כל ימיו במחצו. ובוא אומר (משלי י"ח ח') דברי נרגן כמתלהמים וגו', ולא חשב כי אם לא יגן על עצמו מהחום והקור יביאוהו אל המות. והשביעית ראיה חלושה שמע אותה מאחד מן המיחדים והוא חושב כי הכל הוא כן ויהיו משחקים עליהם ומלעיבים בם, ולא העלה במחשבתו כי סוחר הבגדים היקרים אם איננו בקי בקפולם לא יפחית זה הבגדים מאומה. והשמינית אדם שיש בינו ובין קצת המיחדים שנאה ומביאו זה עוד לשנוא אלהיו, ובהם הוא אומר (תהל' קי"ט קל"ט) צמתתני קנאתי כי שכחו דבריך צרי, ולא ידע הכסיל ששונאו לא יוכל להגיע ממנו מה שהגיע הוא מעצמו, כי אין ביכולת משנאו להתמיד עליו הענוי המכאיב עדי עד. אך מי שהיה מנהגו חלוף הדעות, כאשר חשב בפסוקים מהמקרא, וראה בהם מה שהרחיקו או שהתפלל לאלהיו ולא ענהו ושאל ממנו ולא נתן לו. אם שראה רשעים שלא נקם מהם. או שהיה תמה איך תעמוד לכופרים מלכות, או שראה המות אוסף את הבריות וכולל אותם, או שענין האחדות והנפש וענין הגמול והעונש לא עלה בשכלו. אלה כלם והדומה להם אני עתיד לזכור כל א' מהם במאמר אשר הוא ממנו, ובשער הראוי לו, ואדבר עליו כפי היכולת, ואקוה שאגיע בו אל תקות המנהגים בזה בע"ה:
Nota essencial — por que se erra: um diagnóstico moral. Saadia faz aqui uma análise psicológica de rara honestidade: a descrença e o erro raramente nascem de razões intelectuais; nascem de causas morais e emocionais — preguiça diante do esforço, apetite, pressa, orgulho, uma frase venenosa ouvida, um ressentimento. Duas das oito causas são especialmente maduras e atuais: a sétima — não se deve julgar uma verdade pelo seu defensor desajeitado (“um mau dobrador não barateia o tecido precioso”) —, e a oitava — não se deve deixar um rancor contra pessoas religiosas tornar-se rejeição de D’us. Saadia convida o leitor a examinar não só os argumentos, mas os próprios motivos.
2
E, chegadas as coisas até aqui, vejo por bem mencionar o assunto do livro e o número dos seus tratados, e depois começar a expô-los. No início de cada um, anteciparei a menção do que veio nas palavras dos profetas, e depois trarei sobre ele as provas racionais, como adiantei. E digo que os tratados deste livro são dez:
וכאשר הגיעו הדברים עד הנה, אני רואה לזכור ענין הספר ומספר מאמרם, ואח"כ אחל לבארם, ואקדים בהתחלתם זכרון מה שבא בדברי הנביאים, ואח"כ אביא עליהם המופתים המושכלים כאשר הקדמתי. ואומר כי כל מאמרי הספר הזה עשרה:
3
O primeiro tratado: que o mundo, e tudo o que nele há, é criado teve um princípio.
המאמר הראשון בשהעולם וכל אשר בו מחודש:
4
O segundo tratado: que o Criador é um.
המאמר השני בשהבורא אחד:
5
O terceiro tratado: que Ele tem ordem e advertência mandamento e proibição.
המאמר השלישי בשיש לו צווי ואזהרה:
6
O quarto tratado: sobre a obediência e a rebeldia e o livre-arbítrio.
המאמר הרביעי בעבודה והמרי:
7
O quinto tratado: sobre os méritos e os deméritos.
המאמר החמישי בזכיות ובחובות:
8
O sexto tratado: sobre a alma, a questão da morte e o que vem depois dela.
המאמר הששי בנפש ובענין המות ומה שאחריו:
9
O sétimo tratado: sobre a ressurreição dos mortos.
המאמר השביעי בתחיית המתים:
10
O oitavo tratado: sobre a redenção dos filhos de Israel.
המאמר השמיני בגאולת בני ישראל:
11
O nono tratado: sobre a recompensa e o castigo.
המאמר התשיעי בגמול והעונש:
12
O décimo tratado: sobre o que é o bem que o homem deve fazer neste mundo.
המאמר העשירי במה הוא הטוב לאדם שיעשהו בעולם הזה:
Nota — o mapa da obra. Estes são os dez tratados de Emunot veDeot — e, lidos em sequência, traçam toda a agenda do pensamento judaico racional: a criação do mundo (I), a unidade de D’us (II), o mandamento (III), o livre-arbítrio (IV), o mérito (V), a alma e a morte (VI), a ressurreição (VII), a redenção (VIII), a recompensa (IX) e a conduta reta nesta vida (X). São, em larga medida, as mesmas grandes questões que este site percorre — e que, séculos depois, o Rambam reorganizaria.
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E começarei cada tratado por aquilo que lhe pertence do que o nosso D’us nos deu a conhecer pela revelação; depois, pelo que o reforça da razão; em seguida, ajuntar-lhe-ei quem a ele se inclinou e quem dele discordou, entre os que chegaram ao meu conhecimento, e mencionarei os argumentos que tem e as respostas às objeções; e, por fim, selarei com as provas da profecia relativas ao tema daquele tratado. E a D’us peço que me conduza, a mim e a todo o que o examina, e que me faça alcançar o meu anseio — por amor d’Ele e dos Seus piedosos; pois Ele ouve, e está perto.
ואחל בכל מאמר במה שהוא לו ממה שהודיענו אלהינו, ובמה שמחזקו מן המושכל, ואחר כן אסמיך לו מי שנטה אליו, ומי שחלק עליו ממי שהגיע אלי, ואזכור מה שיש לו מן הדברים ומה שיש עליו מן התשובות, ואח"כ אחתום בראיות הנבואה אשר לענין ההוא אשר לו המאמר. ומהאלהים אשאל להישירני וכל מי שמעיין בו, ולהגיעני אל תאותי, בעדו וחסידיו והוא שומע קרוב:
Nota — o método em quatro passos. Saadia descreve aqui, em miniatura, como tratará cada tema: (1) primeiro o que a revelação ensina pelos profetas; (2) depois a confirmação racional; (3) em seguida as objeções dos que discordam e as respostas; (4) por fim, o selo das provas proféticas. É a relação entre razão e revelação posta em prática — não uma escolha entre as duas, mas as duas em diálogo, uma confirmando a outra.
14
Concluída está a Introdução.
נשלמה ההקדמה:

Sobre esta seção · עִיּוּן

A honestidade do diagnóstico

Ao listar as causas do erro, Saadia faz algo raro: volta o olhar crítico para dentro. Antes de refutar os argumentos dos adversários, ele expõe os motivos que, muitas vezes, antecedem e distorcem o pensamento — a preguiça, o apetite, o orgulho, o ressentimento. É um convite à autocrítica: quem busca a verdade precisa primeiro examinar as razões pelas quais talvez prefira não encontrá-la.

A verdade não depende de quem a defende

Duas causas merecem destaque pela sua maturidade. A sétima ensina que uma fé não se refuta por um defensor desajeitado — assim como um tecido fino não perde valor nas mãos de quem não sabe dobrá-lo. E a oitava, que o rancor pessoal contra pessoas religiosas não deve contaminar o juízo sobre a verdade. São lições de discernimento que valem para qualquer época e qualquer debate.

O plano de uma vida intelectual

O sumário dos dez tratados e o método em quatro passos revelam a ambição da obra: percorrer, de modo ordenado e racional, todas as grandes questões da fé — da criação à ética. E o método — revelação, razão, objeções, provas — encarna a tese de toda a Introdução: a fé e a razão caminham juntas. Com isso, "concluída está a Introdução", e abre-se o caminho para o primeiro tratado: a criação do mundo.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Introdução (seções 7-8), na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

As oito causas (§7) vêm num único e longo período no original; foram organizadas em lista numerada para a leitura, sem alterar o conteúdo. Acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Com esta seção encerra-se a Introdução; segue-se o Tratado I (A criação do mundo). Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado I · A criação do mundo · Parte I

As quatro provas de que o mundo foi criado

מַאֲמָר רִאשׁוֹן · א׳

Começa aqui o primeiro dos dez tratados. Fiel ao método anunciado na Introdução — primeiro o que ensinam os profetas, depois a confirmação da razão —, Saadia apresenta quatro provas racionais de que o universo não é eterno: teve um começo. São argumentos do século X que, no seu núcleo lógico, ainda hoje impressionam.

1
E, tendo eu esclarecido aquela Introdução, digo: o nosso D’us, bendito e exaltado, deu-nos a conhecer que todas as coisas são criadas (mechudash), e que Ele as criou do nada — não de algo preexistente —, como está dito: “No princípio, criou D’us os céus e a terra” (Bereshit 1:1); e ainda: “Eu sou o Eterno, que faço todas as coisas; sozinho estendi os céus” (Yeshayahu 44:24). E isto nos foi confirmado por sinais e prodígios, e o recebemos por tradição. E, depois, examinei a questão: confirmar-se-ia ela pelo exame racional, assim como se confirmou pela profecia? E encontrei que sim, por muitos caminhos — dos quais resumirei quatro provas.
וכאשר בארתי ההקדמה הזאת, אומר, כי אלהינו יתברך ויתעלה הודיענו כי כל הדברים מחודשים, ‏והוא חדשם לא מדבר כמו שאמר (בראשית א' א') בראשית ברא אלהים וגו'. ואומר עוד (ישעיהו מ״ד:כ״ד ‏כ"ד) אנכי י"י עושה כל נוטה שמים לבדי וגומ'. ואמת זה אצלנו באותות ובמופתים וקבלנוהו. ואחרי ‏כן עיינתי בענין הזה, היתאמת בעיון כאשר התאמת בנבואה? ומצאתיו כן מפנים רבים, אקצר ‏מכללם ארבע ראיות:‏
Nota — o método em ação, e a criação “do nada”. Observe a ordem que Saadia anunciara na Introdução: primeiro o que ensinam os profetas (a criação, em Bereshit 1:1 e Yeshayahu 44:24), depois a confirmação da razão. E note a doutrina central: o mundo é mechudash — teve um princípio — e foi criado do nada (creatio ex nihilo), não a partir de uma matéria eterna preexistente. Esta é uma das teses fundadoras do judaísmo, que o separa das cosmologias da Antiguidade (que supunham a matéria eterna). As quatro provas a seguir visam mostrar, só pela razão, que o universo não é eterno.
2
A primeira vem dos limites da finitude. Os céus e a terra, uma vez que se mostrou terem um limite — estando a terra ao centro e girando os céus à sua volta —, disto se segue que a sua força também tenha um limite; pois é impossível que uma força sem limite resida num corpo com limite — e isso a razão rejeita. E, quando se exaurir a força que os sustenta, segue-se que tenham um começo e um fim. Revelada esta prova, não me apressei a decretá-la, mas examinei-a: e se a terra não tivesse limite em comprimento, largura e profundidade? Mas então o sol não a circundaria, completando o seu giro uma vez a cada dia e noite, tornando a nascer de onde nascera. E se as águas não tivessem limite? Mas elas se movem e giram em torno da terra. E se houvesse muitas terras e muitos céus — mundos sem fim? Vi que isso é impossível por natureza, pois não pode haver terra acima do fogo, nem ar abaixo da água: o fogo e o ar são leves, a terra e a água são pesados e outra terra, fora desta, atravessaria o ar e o fogo até cair sobre esta. E achei a verdade plena: não há céus senão estes, nem terra senão esta; estes céus têm limite, e esta terra tem limite; e, assim como os seus corpos têm fronteira, também a sua força tem fronteira, que chega a um termo e ali para — e os corpos não podem subsistir depois de exaurida aquela força, nem existiam antes dela. E a Escritura testemunhou o seu limite: “de uma extremidade da terra à outra, e de uma extremidade dos céus à outra” (Devarim 13:8); e que o sol circunda a terra e retorna a cada dia: “e nasce o sol, e põe-se o sol” (Kohelet 1:5).
הראשונה מהם, מן התכליות, והוא שהשמים והארץ כיון שהתברר שיש להם תכלית ‏בהיות הארץ באמצע וסבוב השמים סביבותיה, התחייב שיהיה לכחם תכלית; כי אי אפשר שיהיה ‏כח לאין תכלית בגשם בעל תכלית, ודוחה זה הידוע. וכאשר יכלה הכח השומר אותם התחייב ‏שיהיה להם תחלה וסוף. ואחרי שנגלתה לי זאת הראיה, התישבתי בדקדוקם, ולא מהרתי לגזור ‏אומר בה, עד שבררתיה, באמרו שמא הארץ אין לה תכלית בארך וברחב ובעמק? אחרי כן אמרתי ‏אלו היתה כן, לא היתה השמש מקפת אותה עד שהיא משלמת סבובה בכל יום ולילה פעם אחת, ‏ותשוב זורחת ממקום שזרחה ובאה למקום שבאה, וכן הירח ושאר הככבים. ואחר כן אמרתי שמא ‏המים אין להם תכלית? ואמרתי ואיך יהיה זה והם מתנועעים כלם וסובבים סביב הארץ תמיד כי ‏לא יתכן לחשוב כל הגלגל הקרוב אלינו הוא אשר יסוב, והשאר יותר גדול משיסוב, מפני שאין אנו ‏משכילים כי אם זה הדבר אשר יסוב, ולא נשכיל אחריו דבר אחר, כל שכן שנאמין שהוא שמים ‏ונאמר שהוא סובב. ואחרי כן חקרתי ואמרתי שמא יש ארצות רבות, ושמים רבים, יקיפו כל שמים ‏מהם הארץ שלהם, ויהיו עולמים שיאן להם תכלית. וראיתי זה נמנע מצד הטבע, כי לא יתכן להיות ‏עפר ממעל לאש בטבע ולא אויר תחת מים בטבע, כי האש והאויר קלים שניהם והעפר והמים ‏כבדים שניהם. וידעתי כי אילו הי בנמצא גוש עפר חוץ לארץ הזאת היה בוקע כל אויר וכל אש עד ‏אשר יגיע לעפר הארץ הזאת. וכן אם היה מקוה מים חוץ למים האלה היה בוקע האויר והאש עד ‏שיגיע למים האלה. ומצאתי המציאה הגמורה כי אין שמים בלתי אלה ולא ארץ כי אם זאת, וכי ‏השמים האלה יש להם תכלית, והארץ הזאת יש לה תכלית, וכאשר גשמיהם יש להם גבול, כן יש ‏לכחם גבול מגיע אל קץ ויעמוד אצלו, ולא יתכן להם לעמוד אחר כלות הכח ההוא ולא ימצאו קודם ‏היותו, ומצאתי הכתוב שהעיד עליהם בתכלית, באמרו (דברים י"ג ח') מקצה הארץ ועד קצה הארץ ‏ולמקצה השמים ועד קצה השמים. והעיד כי השמש תסובב סבוב הארץ ותשוב בכל יום: וזרח ‏השמש ובא השמש (קהלת א' ה'):‏
Nota — a primeira prova (a finitude) e a ciência do seu tempo. A cosmologia de Saadia é a do século X — geocêntrica, com a terra ao centro, esferas girando e quatro elementos (fogo e ar leves, terra e água pesados). Esse modelo físico está, hoje, superado. Mas não confunda o modelo com o argumento: o seu núcleo lógico é que um corpo finito só pode conter uma força finita, que um dia se exaure — logo, o universo teve um começo. É notável que a intuição central de Saadia (um cosmos finito, com um princípio) tenha sido, séculos depois, confirmada pela cosmologia moderna, que também aponta um começo do universo (cf. os ensaios sobre o Big Bang e a idade do universo). A roupagem é medieval; a ideia de fundo, surpreendentemente atual.
3
A segunda vem da reunião das partes e da composição dos membros. Vi que os corpos são partes reunidas e segmentos compostos — e nisso se mostra a marca da obra de um Autor e da criação (chidush). Depois disse: e se essas composições só existissem nos corpos pequenos — os dos sentidos e os das plantas? Estendi o pensamento à terra, e eis que também ela é assim: é terra, pedra e areia, tudo reunido. E subi aos céus, e neles vi muitas ordens de esferas, umas dentro das outras, e nelas ordens de luzeiros — as estrelas —, grandes e pequenas, de muita ou pouca luz, compostas dentro daquelas esferas. E, esclarecidas a reunião e a composição — que são as marcas da criação — no corpo dos céus e no resto, cri, por esta prova, que os céus e tudo o que neles há são criados. E achei a Escritura a dizer que a junção das partes indica a sua criação: “as Tuas mãos me fizeram e me formaram” (Tehilim 119:73); e, da terra: “o que formou a terra e a fez, Ele a estabeleceu” (Yeshayahu 45:18); e, dos céus: “quando vejo os Teus céus, obra dos Teus dedos, a lua e as estrelas que firmaste” (Tehilim 8:4).
והראיה השנית מקבוץ החלקים והרכבת הפרקים, והוא, שראיתי הגשמים חלקים ‏מחוברים, ופרקים מורכבים, והתבאר לי בהם סימן מעשה העושה והחדוש. אחר כן אמרתי שמא ‏אלה הפרקים והחבורים אינם כי אם בגשמים הקטנים; רוצה לומר גשמי החוש והצמח. ופשטתי ‏מחשבתי אל הארץ והנה היא כן, כי היא עפר ואבן וחול והדומה להם מקובצים. ועליתי בה אל ‏השמים וראיתי בם כתות רבות מן הגלגלים קצתם בתוך קצם, יש בהם כתות מן המאורים ‏הנקראים ככבים, נגזרו, גדול וקטן, רב אור ומעט אור, והורכבו בתוך הגלגלים ההם. וכאשר נתברר ‏לי הקבוץ והחבור וההרכבה, אשר הם החדושים בגשם השמים וזולתם, האמנתי בעבור הראיה ‏הזאת עוד, כי השמים וכל אשר בהם מחודשים, ומצאתי הכתוב אומר כי פירוד חלקי החיים וחבורם ‏יורה על חדושם, והוא אמרו (תהלים קי"ט ע"ג) ידיך עשוני ויכוננוני, ואמר בארץ, (ישעיה מ"ה י"ח) ‏יוצר הארץ ועושה הוא כוננה, ואמר בשמים, (תהלים ח' ד') כי אראה שמיך מעשה אצבעותיך ירח ‏וככבים אשר כוננת:‏
4
A terceira vem dos acidentes das mudanças. Achei que nenhum corpo escapa dos acidentes que lhe ocorrem — por si ou por outro —, como o ser vivo e a planta, que nascem, crescem até completar-se, e depois decaem e se decompõem. Depois disse: e se a terra escapasse desses acidentes? Examinei-a, e achei-a não isenta de planta e de vida, que são criadas; e sabe-se que o que não escapa do criado é, ele mesmo, como o criado. Depois disse: e se os céus escapassem de tais mudanças? Contemplei, e eis que não escapam: a sua essência é o movimento que neles adere e não repousa — antes, movimentos muitos e diversos, com lentidão e rapidez; e há entre eles a queda da luz de uns sobre os outros, e a luz que se renova na lua, e os que mostram, em certas estrelas, o vermelho, o branco e o esverdeado. E, achando que as mudanças os abrangem e não os precederam, cri que tudo o que não precede a mudança é, como ela, criado. E disse a Escritura, sobre as criações da terra e dos céus, que indicam o seu começo: “Eu fiz a terra e criei o homem sobre ela; Eu — as Minhas mãos — estendi os céus, e a todo o seu exército dei ordem” (Yeshayahu 45:12).
‏והשלישית מן הראיות, המקרים. והוא שמצאתי כל הגשמים לא ימלטו ממקרים שיקרו ‏בכל אחד, אם מעצמו אם מזולת עצמו, כמו שיולד החי והצמח ויגדל עד אשר ישלם, ואחר כן יחסר ‏ויתפרדו חלקיו. ואחר כן אמרתי שמא הארץ נמלטת מאלה המקרים? והשתדלתי בה ומצאתיה ‏שאיננה נמלטת מצמח וחיים שהם מחודשים, וידוע כי מה שאיננו נמלט מן המחודש שהוא כמוהו. ‏אחר כן אמרתי שמא השמים נמלטים מחדושים כאלה? והשתכלתי והנה אינם נמלטים מחדושים, ‏ועקרם התנועה הדבקה בהם, לא תנוח, אבל תנועות רבות שונות, עד אם תערוך אחת מהנה אל ‏האחרת; תדע כי יש להם אחור ומהירות, ומהם נפילת אור קצתם על קצתם, ויתחדש בהם האור ‏כירח. ומהם שמראה קצת הככבים לקצת האודם והלובן והירקרק והירוק. וכאשר מצאתי החדושים ‏שכללו אותם והם לא קדמו להם. האמנתי כל מה שלא קדם החדוש הוא כמוהו, בעבור שהוא נכנס ‏בגדרו, ואמר הכתוב בחדושי הארץ והשמים שהם מורים על תחלתם (ישעיה מ"ה י"ב) אנכי עשיתי ‏ארץ ואדם עליה בראתי אני ידי נטו שמים וכל צבאם צויתי:‏
Nota — composição e mudança: o que não é eterno. A segunda e a terceira provas apoiam-se em duas intuições poderosas: o que é composto de partes foi, em algum momento, posto junto — e toda composição aponta para um compositor; e o que está sujeito a mudança (nascer, crescer, decair) não pode ser eterno e necessário, pois o necessário não muda. Saadia aplica isso até aos céus, mostrando que também eles se movem e se alteram. São argumentos que prefiguram a distinção, central no Rambam, entre o que existe por contingência (e poderia não existir) e o Ser que existe por necessidade.
5
A quarta vem do tempo. Soube que os tempos são três: o passado, o presente e o futuro. E, embora o presente seja o menor de todos, tomei-o como um ponto. E disse: se o homem se esforçar, com o pensamento, por subir desse ponto para trás rumo a um passado infinito, não o conseguirá — porque o tempo seria sem limite, e o que não tem limite o pensamento não consegue percorrer. E essa mesma infinitude impediria que o vir-a-ser (havayá) descesse pelo tempo e o atravessasse até chegar a nós; e, se o vir-a-ser não chegasse a nós, nós não existiríamos — e seria forçoso concluir que nós, a multidão dos seres, não existimos. Mas, achando-me a mim mesmo existente, soube que o vir-a-ser atravessou uma extensão de tempo até chegar a mim; e, se o tempo não tivesse limite, não o teria atravessado. E achei a Escritura a dizer algo assim do tempo remoto: “todo homem o contempla; o mortal o vê de longe” (Iyov 36:25). E chegou-me notícia de uma objeção a esta prova: poderia o homem percorrer a pé algo cujas partes são infinitas? — pois cada milha ou côvado que caminhe, posto no pensamento, divide-se em partes sem fim; e alguns foram levados a admitir o “átomo indivisível”. Mas, ao examinar a objeção, achei-a precipitada: a divisão de uma coisa ao infinito só ocorre no pensamento, e não pode ocorrer de fato. Se o tempo passado foi atravessado pelo vir-a-ser apenas no pensamento, a objeção é igualmente só mental; e, se o vir-a-ser atravessou o tempo de fato, até chegar a nós, então essa objeção não quebra o nosso argumento, por ser só do pensamento. E, além destas, tenho outras provas — algumas no comentário à porção de Bereshit, outras na explicação das leis da Criação (Sefer Yetzirá), e nas minhas respostas às objeções de um cético — e ainda outras nos meus demais escritos.
והראיה הרביעית מהזמן. והיא שידעתי כי הזמנים שלשה חולף ועומד ועתיד. ואף על פי ‏שהעומד פחות מכל עתה, שמתי העתה כנקודה. ואמרתי אם יהיה האדם משתדל ממחשבתו ‏לעלות מהנקודה הזאת למעלה, לא יתכן לו זה בעבור שהזמן אין לו תכלית, ומה שאין לו תכלית לא ‏תעלה בו המחשבה למעלה ותעבור בו. העלה עצמה תמנע שתלך בו ההויה למטה ותעבור בו עד ‏שתגיע אצלנו. ואם לא תגיע ההויה אלינו לא נהיה. ויהיה הדבר מחוייב שאנחנו המון ההוים אינם ‏הוים והנמצאים אינם נמצאים. וכאשר מצאתי עצמי נמצא, ידעתי כי ההויה עברה על זמן עד ‏שהגיעה אלי. ולולי שיש לזמן תכלית לא היתה ההויה עוברת בו, והיתה דעתי (בזמן) גם כן בזמן ‏העתיד, כאשר היתה דעתי בחולף בלא עכוב. ומצאתי הכתוב אומר כמו זה בזמן הרחוק (איוב ל״ו:כ״ה ‏כ"ה) כל אדם חזו בו אנוש יביט מרחוק; ואמר (שם ל"ו ג') אשא דעי למרחוק. והגיעני על אחד ‏מהמכחשים, ממי שפגע זולתי מהמאמינים שטען על הראיה הזאת, ואמר היתכן שיעבוד האדם מה ‏שאין לו תכלית לחלקיו בהליכה? כי כל מיל שילך אותו האדם או אמה, ויעל אותו על מחשבתו, ‏נמצאהו מתחלק לחלקים שאין להם תכלית. ומקצת המאמינים הוצרך להודות בחלק שאינו מתחלק. ‏וקצתם הודה בטפר"ה; פירוש הוא הדלוג מלמטה למעלה. וקצתם הודה בנפילת חלקים רבים על ‏חלקים. והשתכלתי בטענה הזאת ומצאתיה נבהלה, מפני שחלוק הדבר לאין תכלית אינו נופל כי אם ‏במחשבה, ולא יתכן שיפול בפועל, מפני שהוא דק מנפול הפעל עליו או החלוק. ואם הזמן החולף ‏עברה אותו הויה במחשבה לא בפעל, הוא בעיני דומה הטענה הזאת, ואם ההויה עברה בזמן בפעל ‏עד שהגיע אליו, תהיה זאת הטענה אינה שוברת טענותינו מפני שהיא במחשבה - ואחרי אלה ‏הראיות יש לי ראיות אחרות, מהם מה שכתבתיו בפרשת בראשית, ומהם מה שכתבתיו בפירוש ‏הלכות יצירה, וכתשובותי על חיוי הכלבי, חוץ מדברים אחרים תמצאם בשאר חבורי. ועם כל זה ‏אומר כי התשובות אשר אשיב בהם במאמר הזה על מי שחולק על הדעת הזה, הם כלם מחזקות ‏ומאמצות אותו, וצריך שיתבונן האדם בהם, ויחובר מהם אל הדעת הזה מה שהוא דומה לו:‏
Nota — a quarta prova (o tempo) e a resposta a uma objeção. Esta é a mais célebre: um passado infinito não poderia ser “percorrido” até o presente — pois nunca se termina de atravessar o infinito. Mas nós existimos, aqui e agora; logo, o passado é finito — houve um começo. À objeção de que também uma distância finita se divide em infinitas partes (o velho paradoxo de Zenão), Saadia responde com elegância: a divisão ao infinito existe só no pensamento, não de fato; a realidade não é infinitamente fragmentada. Este argumento — a impossibilidade de atravessar um infinito atual — atravessaria os séculos e reapareceria em toda a filosofia medieval. E o ponto maior é o da Introdução: a razão, sozinha, chega à mesma verdade que a profecia ensinara.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Quatro caminhos para uma só verdade

Saadia reúne quatro provas independentes de que o mundo teve um começo: a finitude (um corpo finito só guarda força finita), a composição (o que é montado foi montado por alguém), a mudança (o que se altera não é eterno) e o tempo (um passado infinito não chegaria até nós). Que quatro vias diferentes levem ao mesmo ponto é, para ele, sinal da solidez da conclusão.

A ciência envelhece; o argumento permanece

É preciso ler com discernimento: o modelo astronômico de Saadia é o do seu tempo, e foi superado. Mas o leitor atento separa a casca da semente. A semente — um universo finito, que começou — não só sobreviveu como foi reforçada pela ciência moderna. A tradição racionalista nunca temeu que a ciência avance; teme apenas o raciocínio descuidado.

Razão e revelação, de novo juntas

Cada prova é selada com um versículo: a razão e a Escritura dizem o mesmo. Este é o programa de toda a obra em miniatura — não crer contra a razão, nem dispensar a revelação, mas vê-las convergir. A criação do mundo, primeira das grandes verdades, é também a primeira demonstração de que fé e razão podem caminhar de mãos dadas.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado I (A criação do mundo), capítulo 1, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

A cosmologia geocêntrica e a física dos quatro elementos são apresentadas como ciência do século X; as notas distinguem o modelo (superado) do argumento lógico (que perdura). Acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado I · A criação do mundo · Parte II

O Criador, e a criação a partir do nada

מַאֲמָר רִאשׁוֹן · ב׳

Provado que o mundo teve um começo, Saadia dá o passo seguinte: o mundo não pôde fazer-se a si mesmo — logo, há um Criador distinto dele. E mostra, depois, por que essa criação só pode ter sido do nada, e não de uma matéria eterna preexistente — a doutrina que distingue o judaísmo das cosmologias da Antiguidade.

1
E, tendo-se-me tornado plenamente claro que todas as coisas são criadas, examinei em seguida: poderiam elas ter feito a si mesmas, ou não é possível que as faça senão um outro? E descartei, para mim, que sejam elas a fazer-se a si mesmas, por três razões:
  1. Todo corpo, dentre os existentes, que supuséssemos fazer-se a si mesmo — sabemos que, depois de existir, ele é mais forte e mais capaz de fazer outro como ele do que antes de existir. Ora, se supostamente se fez a si mesmo quando era fraco inexistente e não consegue fazer um igual quando é forte existente, então, não conseguindo fazê-lo sendo forte, muito menos o faria sendo fraco. Logo, não pôde criar-se.
  2. Supor que a coisa faz a si mesma é falso nos dois tempos possíveis: se ela se fez antes de existir, então era inexistente — e o inexistente nada faz; e se se fez depois de já existir, é desnecessário, pois a sua existência já a precedeu. E não há um terceiro tempo, pois o “agora” o instante sem duração não comporta uma ação.
  3. Para pensar que o corpo pode fazer a si mesmo, seria preciso pensar também que ele poderia deixar de se fazer; e então achá-lo-íamos existente e inexistente ao mesmo tempo — pois “ele pode fazer” supõe-no existente, e “pode não se fazer” supõe-no inexistente; e juntar o existente e o inexistente numa só coisa é uma falsidade corrompida.
E achei a Escritura a anteceder-se na rejeição disto: “Ele nos fez, e não nós a nós mesmos” (Tehilim 100:3); e na Sua ira contra quem disse “meu é o meu Nilo, e eu me fiz a mim mesmo” (Yechezkel 29:3), e o castigou.
וכאשר התברר לי ברור גמור כי הדברים כלם מחודשים, עיינתי אחר כן, היתכן שיעשו את עצמם ‏או לא יתכן שיעשה אותם כי אם זולתם. ובטל אצלי שיהיו הם עושים את עצמם, מפנים אני זוכר ‏מהם שלשה. הפנים הראשונים הם שכל גשם שנכוין אליו מן הנמצאות וחשבנו שהוא יעשה את ‏עצמו, אנחנו יודעים שאחר הויתו יהיה יותר חזק ואמיץ על עשות כמוהו. ואם עשה את עצמו והוא ‏חלש ועשה כמוהו והוא חזק; וכאשר נלאה לעשות כמוהו והוא חזק, כבר נלאה לעשות כמוהו והוא ‏חלש. והפנים השניים כי כאשר נעלה במחשבתנו שיעשה הדבר את עצמו, זה שקר על שני חלקי ‏הזמן, כי אם נשתדל להודות בעשותו עצמו קודם שהיה, יודעים אנחנו כי אז היה נעדר, והנעדר לא ‏יעשה דבר, ואם נאמר כי אחר שהיה עשה את עצמו כיון שקדמה הויתו איננו צריך לעשות את ‏עצמו, ואין בכאן חלק שלישי כי אם עתה אשר איננה סובלת מעשה. והפנים השלישיים כי כאשר ‏נחשוב שהגשם יכול לעשות את עצמו, לא יתכן זה אלא עד שנחשוב עליו שהוא יכול לעזוב עשותו ‏את עצמו, ואם נחשוב עליו זה נמצאהו נמצא ונעדר יחד, מפני שמחשבתנו יכול לא יהיה כי אם ‏נמצא, וחברנו אליו מאמר שלא יעשה את עצמו הוא שנאמין שהוא נעדר, ומה שהביא לקבץ נמצא ‏עם נעדר לדבר אחד בענין הוא שקר משחת. ומצאתי הכתוב שקדם להכחשת הענין הזה; באמרו ‏‏(תהלים ק' ג') הוא עשנו ולא אנחנו, ובקצפו על מי שאמר (יחזקאל כ"ט ג') לי יאורי ואני עשיתיני, ‏וענשו אותו:‏
Nota — do “criado” ao Criador. Provado (no capítulo anterior) que o mundo teve um começo, segue-se a pergunta: quem o começou? Saadia descarta a auto-criação com três argumentos de pura lógica: o que ainda não existe nada pode fazer; o instante presente não comporta o ato; e supor que algo se cause a si mesmo o põe, ao mesmo tempo, existente e inexistente. A conclusão é o coração do argumento cosmológico: o mundo não se fez a si mesmo — logo, há um Criador distinto dele (cf. “A existência de D’us pela razão”).
2
Depois destas razões — que descartaram que a coisa se faça a si mesma e obrigaram a concluir que outro a fez —, examinei se Aquele que a originou a fez de algo de uma matéria preexistente, ou não de algo do nada, como está escrito nos livros sagrados. E achei que supor, no intelecto, que a originou “de algo” é um erro, pois se contradiz: dizer “Ele a criou” exige que a substância seja criada e originada; mas imaginar que a fez “de uma matéria” obrigaria a admitir que essa matéria é eterna, não criada — contradizendo o “criou”. Ao passo que conceber a criação não de algo do nada é coisa correta. E, se alguém me disser: “exigiste um fazedor para as coisas porque nunca viste, no sensível, algo feito senão por quem o faz; mas tampouco viste, no sensível, uma coisa senão vinda de outra coisa — então por que tomaste como prova que não há feito senão por um fazedor, e não que não há coisa senão de outra coisa, sendo as duas iguais na experiência?” — respondo-lhe que se uma coisa vem “de outra coisa ou não” é justamente o que se investiga, e a coisa em questão não pode testemunhar sobre si mesma; a testemunha vem de outra parte: como observamos que não há ação senão de um agente, disto infiro que o mundo veio a ser não de outra coisa. E esclareceu-se-me ainda: tudo aquilo de que supuséssemos terem sido criados os existentes, já o teríamos de tornar eterno; e, se fosse eterno, igualar-se-ia ao Criador na eternidade — e então o Criador não poderia criar a partir dele, nem essa matéria se sujeitaria a ser moldada conforme a Sua vontade pois seria independente. E quem diz que D’us “criou uma coisa de outra coisa”, se levado adiante, acaba conduzido a admitir que não criou coisa alguma — pois a mesma lógica “uma coisa só de outra coisa”, aplicada ao lugar, ao tempo, à forma, à medida, à posição e à relação, tornaria todos eles eternos, e não restaria nada para o Criador, anulando-se a criação por completo. E ainda: se não admitirmos que há “uma coisa não de outra coisa” diante d’Ele, não seria possível existir coisa alguma — pois, supondo “uma coisa de outra coisa”, a segunda só viria de uma terceira, e a terceira de uma quarta, e assim ao infinito; e, já que o que não tem fim nunca se completa, seguir-se-ia que nada existe. Mas eis que nós existimos! E, se as coisas anteriores não tivessem um termo um começo, não se teriam completado até chegarmos a existir. E o que nos saiu do intelecto é o que está escrito nos livros dos profetas — que os corpos têm o seu começo a partir do Criador: “antes que nascessem os montes, e Tu formasses a terra e o mundo; de eternidade a eternidade, Tu és D’us” (Tehilim 90:2).
ואחר הפנים האלה אשר בטלו אצלי שיהיה הדבר מחדש את עצמו, וחייבו שזולתו עשהו, עיינתי ‏במלאכת העיון אם מחדשו עשהו מדבר, או לא מדבר כאשר נכתב בספרים? ומצאתי שנעלה ‏בשכלנו שחדשו מדבר טעות, מפני שהוא דבר סותר קצתו את קצתו, מפני שאמרנו חדשו מחייב ‏שיהיה העצם נברא מוחל. ואם נשער המאמר מדבר נחייב שחומר שלו קדמון לא נברא ולא מוחל, ‏וכאשר נעלה על השכל חדושו לא מדבר, נמצאהו דבר ישר. ואם יאמר לי אומר חייבת לדברים ‏עושה בידוע, מפני שלא ראית במוחש עשוי כי אם מעושה ולא פעול כי אם מפועל, ג"כ לא ראית ‏במוחש שיהיה דבר כי אם מדבר, ואיך שמת ראיתך שאין פעול כי אם מפועל, ולא שמת ראיתך ‏שאין דבר כי אם מדבר, והם שוים במציאה? אומר לו כי היות דבר מדבר או לא מדבר הוא המבוקש ‏אשר דרשתי להביא הראיות עליו, ולא יתכן שיהיה הדבר אשר יתעסקו להביא עד עליו שיעיד הוא ‏על עצמו באחת משתי המעלות, אבל מביאים עד מזולתו כאשר היה אין פעל כי אם מפועל לצד מן ‏המבוקש הזה אשר אנחנו מבקשים אמתתו, לקחתיו לראיה עליו ודן לי היות דבר לא מדבר. עם ‏שמצאתי קצת מהדברים אפשר שיאמר עליו ה, אלא שהמאמר דק יוצא חוץ לענין הספר והנחתיו ‏ולקחתי הגלוי. והתבאר לי עוד, כי כל מה שנחשוב שהנמצאות נבראו ממנו, כבר חייבנו שדבר ההוא ‏הוא קדמון, ואם היה קדמון ישתוה הוא והבורא בקדמות, התחייב שלא יוכל לו לברוא ממנו דברים, ‏ולא היה נשמע לו להפעל כרצונו ולהצטייר כחפצו, אלא שנחבר אליהם עלה שלישית למחשבתנו ‏הפרידה ביניהם, עד שהיה בה זה עושה וזה עשוי, ואם נאמר זה, נאמר דבר שאיננו נמצא, כי לא ‏מצאנו כי אם עושה ועשוי לבד. וזכרתי עוד כי עקר מבוקשנו היה מי עשה מדבר, כי העושה ראוי ‏שיקדם לעשוי, ואין א' מהם יותר ראוי להיות סבה להויית האחר ממה שיהיה האחר סבה להוייתו, ‏וזה שקר גמור. וזכרתי עוד, כי האומר שהוא ברא דבר מדבר, כשימשך האדם עמו ימשכנו עד ‏שיביאנו אל שלא ברא דבר כלל. והוא שהסבה המפלת בלב היות דבר מדבר, הוא המוחש כן ‏השגנוהו, ויאמר כי המוחש גם כן יושג שיהיה במקום ובזמן, והצורה מצויירת, ובשיעור משוער, ‏ובמצב נצב, ובצירוף מצטרף, ושאר התכונות הדומות לאלה, כי משפטם כלם בשער הזה, כמשפט ‏דבר מדבר. ואם נבוא להשלים כל משפטיהם עד שנאמר נברא דבר מדבר בזמן ובמקום ובשיעור ‏משוער ועל מצב נצב ובצירוף מצטרף והדומה להם, והיו כלם קדמוניות, לא נשאר אם כן דבר ‏לבורא, ותבטל הבריאה כלל. ודקדקתי עוד כי אם לא נודה היות דבר לא מדבר לפניו, לא יתכן ‏שימצא דבר כלל. והוא שאם נעלה במחשבתנו דבר מדבר יהיה דרך הדבר השני במאמר כדרך ‏הראשון ותנאו, שלא יהיה כי אם מדבר שלישי, ודרך השלישי כדרך השני ותנאו, שלא יהיה כי אם ‏מדבר רביעי, ויגיע הדבר עד אין תכלית. וכיון שמה שאין לו תכלית לא ישלם, כבר נתחייב שלא ‏נמצא, והנה אנחנו נמצאים; ולולי שהדברים אשר היו לפנים יש להם תכלית לא היו נשלמים עד ‏שנמצינו. ואשר יצא לנו מן המושכל, הוא הכתוב בספרי הנביאים, כי הגשמים תחלתם מאת הבורא, ‏כאשר נאמר (תהלים צ' ב') בטרם הרים יולדו ותחולל ארץ ותבל ומעולם ועל העולם אתה אל:‏
Nota — a criação “do nada” (creatio ex nihilo). Aqui está uma doutrina que distingue o judaísmo das cosmologias da Antiguidade, que supunham uma matéria eterna preexistente. Saadia argumenta que tal matéria, se eterna, rivalizaria com o Criador (seria independente d’Ele) — e que “uma coisa só de outra coisa” gera uma regressão infinita que jamais se completaria, de modo que nada existiria; mas nós existimos. Logo, houve uma criação do nada (Tehilim 90:2). Note ainda a fineza lógica da resposta de Saadia à objeção empirista (“nunca se viu algo surgir do nada”): a própria questão em disputa não pode servir-se de testemunho sobre si mesma. É o alicerce sobre o qual o Rambam edificaria.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Dois passos de um só argumento

Os capítulos 1 e 2 formam um único raciocínio em dois tempos: primeiro, que o mundo teve um começo (as quatro provas); depois, que esse começo veio de um Criador — pois o mundo não pôde causar-se a si mesmo. É a forma clássica do argumento cosmológico, e Saadia a expõe com rigor quase geométrico, antecipando objeções a cada passo.

A novidade do “do nada”

O ponto mais distintivo é a creatio ex nihilo. Os filósofos gregos admitiam uma matéria eterna que o demiurgo apenas moldava; a Torá afirma algo mais radical — que também a matéria foi criada. Saadia mostra por que isto é logicamente necessário: uma matéria eterna seria uma segunda divindade, e a cadeia de “coisa a partir de coisa” nunca chegaria até nós. Só a criação a partir do nada explica que algo, afinal, exista.

A razão a serviço da fé

Como em toda a obra, cada conclusão é selada por um versículo — “Ele nos fez, e não nós a nós mesmos”; “de eternidade a eternidade, Tu és D’us”. O que a Torá afirma, a razão demonstra; e o que a razão alcança, a Torá já dissera. Saadia não pede que se creia contra o pensamento: convida a pensar até o fim, e a encontrar ali a mesma verdade da revelação.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado I (A criação do mundo), capítulo 2, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Os três argumentos contra a auto-criação foram organizados em lista numerada para a leitura; os períodos longos do segundo capítulo foram divididos em parágrafos, sem alterar o conteúdo. Acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado I · A criação do mundo · Parte III

Contra as teorias rivais (I): a “matéria espiritual eterna”

מַאֲמָר רִאשׁוֹן · ג׳

Estabelecida a verdade — o mundo criado, do nada, por um Criador —, Saadia faz algo que marca o método racionalista: não se contenta em afirmar; passa em revista treze teorias rivais sobre a origem do mundo e refuta uma a uma. Esta parte abre a série, com a primeira delas: a de que o mundo teria sido feito de substâncias espirituais eternas.

1
E, tendo eu chegado a confirmar estas três raízes pela via do exame — assim como se confirmaram nas palavras dos profetas e nos prodígios: que as coisas são criadas, que quem as criou é outro que elas, e que Ele as criou não de outra coisa —, e sendo esta a primeira opinião deste tratado (a verdadeira, fruto do exame dos princípios), convém que eu traga, em seguida, doze opiniões dos que de nós discordaram nesta crença — perfazendo treze ao todo. Em cada uma explicarei o que cada grupo alegou em favor da sua opinião, e o que a refuta; e, se houver verso da Escritura que lhe pareça apoiar, eu o esclarecerei, com a ajuda de D’us.
וכיון שהגעתי לאמת אלה השלשה שרשים בדרך העיון, כאשר התאמתו בדברי הנביאים והמופתים, ‏והוא שהדברים מחודשים ושמחדשם זולתם, ושהוא חדשם לא מדבר, והיה זה הדעת ‏הראשון מן המאמר הזה אשר הוא העיון להתחלות. ראוי שאביא אחריו שנים עשר דעות, למי ‏שחלק עלינו באמונה הזאת, ויהיה הכל שלש עשרה. ואבאר בו כל מה שטען בו כל עם לדעתם ומה ‏שסתר אותו. ואם יהיה לו דומה מן הכתוב אבארהו בגזרת השם:‏
Nota — o método de quem não teme o debate. Repare no gesto: Saadia não se contenta em afirmar a criação; ele se compromete a expor e refutar treze teorias rivais sobre a origem do mundo, uma a uma, apresentando cada uma com justiça antes de respondê-la. É a marca da confiança racionalista: a verdade não receia o confronto com as alternativas — ao contrário, esclarece-se ao enfrentá-las. As próximas partes percorrerão essas teorias (entre elas a eternidade do mundo, o dualismo e o acaso).
2
A segunda opinião é a de quem disse que o Criador das coisas possui corpos espirituais eternos, dos quais teria feito estes corpos compostos. Alegaram isso porque supõem que uma coisa só vem de outra coisa. E, ao imaginarem como o Criador teria feito os corpos compostos a partir dos espirituais, disseram: parece-nos que Ele reuniu deles pontos minúsculos — as “partes indivisíveis” —, que imaginam mais finas do que o pó; fez deles uma linha reta, cortou-a em duas metades, juntou-as na diagonal, ... e foi assim moldando figuras geométricas (cônicas, de oito, de doze e de vinte faces) das quais teria criado a roda do fogo, a da terra, o giro do ar e todos os mares. Nisto basearam a sua crença, levados pelo princípio de não admitir o que “não está já na existência” recusando a criação do nada; e essas figuras eles se esforçaram por assemelhar às formas naturais que existem. Exporei agora o que há contra eles: há, contra estes argumentos, doze respostas — quatro que nos mostram que as coisas são criadas, e as demais, que o Criador as fez não de outra coisa; e, depois destas oito, encontro ainda quatro respostas que lhes cabem.
‏והדעת השני דעת מי שאמר שבורא הדברים יש לו גשמים רוחניים קדמוניים, מהם ברא ‏אלה הגשמים המורכבים. וטען על זה, מפני שלא יהיה דבר כי אם מדבר. וכאשר עלו במחשבתם ‏למעלה והתעסקו לדמות, איך ברא הבורא הדברים המורכבים מן הרוחניים, אמרו נדמה לנו שהוא ‏קבץ מהם נקודות קטנות, והם החלקים אשר לא יחלקו, והם מעלים אותם במחשבתם שהם דקים ‏עד מאד יותר דק מה שאפשר להיות מן האבק, ועשה מהם קו ישר, ואחר כן גזר הקו ההוא לשני ‏גזרים שוים. אחר כן הרכיב מן האחד מהם על השני הרכבה אלכסונית, עד שיהיו כצורת הסמך ‏היונית אשר היא כצורת אלף למד בערבי בלא תושבת כזה. ואחר כן סימר אותם במקום שנפגשו, ‏ואחר כן גזר אותם ממקום הסימור ועשה האחד מהם הגלגל העליון הגדול, ועשה מן האחרת ‏הגלגלים הקטנים. ואחר כן צייר מן החלקים ההם הרוחניים צורה אצטרובולית, וברא מהם עגלת ‏האש. ואחר כן צייר מהם צורה שמיניית וברא ממנה עגלת העפר, ואחר כן צייר מהם צורה שתים ‏עשרניי ושם עליה סבוב האויר, ואחר כן צייר ממנה צורה עשרימייה וברא ממנה כל הימים, וגזרו ‏בזה ושמו בזה אמונתם. והביאם אל המאמר הזה, שלא יודו במה שאינו בנמצא. ואלה הצורות אשר ‏טרחו בהבאתם לדמותם אל צורות הטבעים האלה הנמצאים. והנני מבאר מה שיש עליהם בשערים ‏האלה. ואומר, שיש עליהם במאמרים האלה שתים עשרה תשובות. מהם הארבעה הראשונות, אשר ‏הורו אותנו שהדברים מחודשים, ומהם האחרות אשר הורו אותנו שבורא הדברים בראם לא מדבר, ‏ואחר שיסבלו אלה השמונה תשובות, אני מוצא ארבעה תשובות אחרות שיתחייבו בם:‏
Nota — a primeira teoria: a “matéria espiritual eterna”. Esta visão tentava evitar a criação do nada supondo que o mundo fora moldado a partir de substâncias espirituais eternas — partículas finíssimas e indivisíveis, preexistentes —, mediante uma elaborada geometria de cortes e junções. É, no fundo, uma forma de adiar o problema: em vez de aceitar que D’us criou do nada, postula-se uma “matéria” intermediária, ela mesma sem origem. Saadia mostrará, em quatro passos, que essa solução não resolve nada — apenas troca um mistério por outro mais obscuro.
3
A primeira: creram em algo que não tem semelhante no que é visível — os tais “espirituais”, que imaginam como um pó mais fino do que todo fino, e como “uma parte que não se divide” — coisa que o intelecto não consegue conceber.
תחלתם שהם האמינו, במה שאין כמוהו בנראה, והם הרוחניים, אשר הם מדמים במחשבתם כאבק ‏ושכדק מכל דק, וכחלק שאין מתחלק, וזה דבר שלא יושכל:‏
4
A segunda: vejo que essas coisas que alegaram não podem ser quentes, nem frias, nem úmidas, nem secas — pois eles próprios dizem que delas foram criadas as quatro naturezas os elementos. E vejo, ainda, que não podem ter cor, sabor, cheiro, fronteira, medida, quantidade de muito ou pouco, lugar ou tempo — pois todas estas são atributos dos corpos, e essas coisas, para eles, existiriam antes dos corpos. Isto é mais um acréscimo ao inconcebível: fugiram de admitir “uma coisa não de outra coisa” e caíram em algo ainda mais remoto e obscuro.
והשנית אני רואה כי אלה הדברים אשר טענו, לא יתכן שיהיו חמים ולא קרים ולא לחים ‏ולא יבשים, מפני שה אומרים שאלה הד' טבעים מהם נבראו. ואני רואה עוד, שלא יתכן להיות להם ‏מראה, ולא טעם ולא ריח, ולא גבול ולא שיעור, ולא רוב ולא מיעוט, ולא במקום ולא בזמן, מפני ‏שאלה הדברים הם תארי הגשמים, והדברים ההם הם אצלם קודם הגשמים, וזה תוספת למה שלא ‏יושכל, וברחו מהיותו דבר לא מדבר, ונכנסו במה שהוא יותר רחוק ועמוק ממנו:‏
5
A terceira: rejeito e tenho por falso que algo sem forma alguma se transforme até figurar-se na forma do fogo, da água, do ar e da terra; e que o que não tem comprimento, nem largura, nem profundidade passe a tê-los; e que o que não tem qualidade alguma venha a ter todas as qualidades que agora se veem. E, se respondem que todas essas inversões se deram porque o Criador é sábio e capaz de invertê-las e mudá-las — então a Sua sabedoria e o Seu poder bastariam para criar uma coisa do nada; e ficaríamos livres desses falsos “espirituais”.
והשלישית שאני מרחיק ואחשוב לשקר, התהפכות דבר לא מצוייר בצורה, עד שיצוייר ‏בצורת האש המים והאויר והעפר, והצטיירות מה שאינו ארוך ולא רחב ולא עמק, עד שהיה ממנו ‏הארוך הרחב העמוק, וכן השתנות מה שאין לו ענין, עד שיהיו לו כל הענינים הנראים עתה. ואם ‏אצלם שנתקנו כל ההפוכים והשנוים, מפני שהבורא חכם יכול להפכם ולשנותם, חכמתו אם כן ‏ויכלתו לברא דבר לא מדבר. וננוח מאלה הרוחניים השקרים:‏
Nota — o golpe decisivo: a teoria não resolve nada. Aqui está o argumento mais elegante de Saadia (terceira resposta). Os adversários precisam admitir que D’us, “sábio e capaz”, transforma uma “matéria” sem forma, sem dimensão e sem qualidade alguma em todas as formas do mundo. Ora — observa Saadia — um poder capaz disso já é, na prática, um poder de criar do nada! A “substância espiritual eterna” torna-se, então, uma complicação inteiramente supérflua: ela não poupa o milagre que se queria evitar; apenas o esconde atrás de um intermediário ininteligível. É a navalha da economia aplicada à metafísica: a hipótese mais simples (criação do nada) é também a mais sólida.
6
A quarta: não se sustenta aquilo em que tanto se esforçaram — a história do cortar, juntar, compor, pregar e tornar a cortar —, pois não há prova alguma de nada disso: são apenas conjeturas. E há aí uma contradição: se, segundo eles, o Autor é capaz de transformar os “espirituais” em corpos, então pode fazê-lo num só instante, e caem por terra todos esses cortes graduais; e se só pode transformá-los aos poucos — coisa após coisa, como na obra das criaturas —, muito menos poderia transformá-los do espiritual ao corpóreo de todo. Suportaram, pois, todas essas falsidades — além de abandonarem os sinais e os prodígios — e não descansaram de apoiar-se no que não é percebido. E chegou-me notícia de que há pessoas do nosso povo que pensaram referir-se a esses “espirituais” o verso “o Eterno me adquiriu (kanani) no princípio do Seu caminho, antes das Suas obras, desde então” (Mishlei 8:22). Examinei a questão e achei que erraram na interpretação, por quinze razões — as doze já dadas pela via do intelecto e três pela via da língua hebraica: (1) a palavra kanani indica a criação da coisa (como em “Criador (koné) dos céus e da terra”, Bereshit 14:22; e “cheia está a terra das Tuas criaturas (kinyaneicha)”, Tehilim 104:24) — se insistissem que ela implica eternidade, teriam de ter por eternos também os céus e a terra; (2) “o princípio do Seu caminho” indica o começo da criação (como em Iyov 40:19, sobre o maior dos animais: “ele é o princípio dos caminhos de D’us” — isto é, o primeiro que Ele criou na sua espécie); (3) esse tema do capítulo ama a verdade e odeia a falsidade, e convida a buscá-lo (Mishlei 8:8, 8:32) — atributos que os “espirituais” sem forma não poderiam ter. E aos que viam os “espirituais” em “a sabedoria, onde se acha?” (Iyov 28:12), mostrei que erraram ainda mais; pois a própria Escritura esclarece que essa Sabedoria se encontra junto com os quatro elementos, e não antes deles (“D’us entendeu o seu caminho ..., ao dar peso ao vento e medida às águas”, Iyov 28:23-26). O sentido não é que a Sabedoria fosse um “instrumento” eterno com que Ele criou, mas que ela é a ordem sábia que Ele pôs na criação — aquela pela qual tudo está bem disposto.
‏והרביעית שלא תתקיים מה שטרחו בו, מהאמנת החתוך והדבוק וההרכבה והסימור ‏והחתוך השני, ושאר מה שנסמך אל המעשים האלה. מפני שאין ראיה מעמדת על דבר מהם, אבל ‏הם מחשבות וסברות. אבל אני רואה שיש במלאכה הזאת סתירה, והיא, שהעושה אצלם אם הוא ‏יכול להפוך את הרוחניים גשמים, הוא יכול להפכם ברגע אחד, ובטלו אלו החלוקים. ואם הוא אצלם ‏אינו יכול להפכם כי אם מעט, כמעשה הברואים דבר אחרי דבר, כל שכן שלא יוכל להפכם מן ‏הרוחניות אל הגשמיות. וסבלו אלה השקרים כלם, מלבד עזיבת האותות והמופתים, ומן ההוראה ‏בבלתי המוחש לא נחו. והגיעני כי יש אנשים מעמנו, חשבו, כי הענין שאמר בו הכתוב (משלי ח' ‏כ"ב) י"י קנני ראשית דרכו קדם מפעליו מאז ושאשר הפרה הוא ענין אלה הרוחניים. התבוננתי ‏בדבר, ומצאתיו שטעו בפירוש הענין הזה, מחמש עשרה פנים השנים עשר אשר בארתים מדרך ‏השכל, אך הג' אחרים, מדרך לשון העברים ודברי המקרא. תחלתם כי מלת קנני מורה על בריאת ‏הדבר, כמו שאמר (בראש' י"ד כ"ב) קונה שמים וארץ. וכמו שאמר עוד (תהל' ק"ד כ"ט) מלאה הארץ ‏קנינך. ואם הם מחזיקים שהמלה הזאת מחייבת קדמות, יחשבו גם כן כי השמים וכל אשר בהם ‏קדמונים, ויבטלו בריאתם מרוחניים אשר היתה כוונתה אליהם. ואם תהיה אצלם מלת הקנין ‏בשמים ובארץ מחייבם בריאתם, היא עצמה תחייב בריאת הרוחניים. והשניים שמלת ראשית דרכו ‏מורה על ענין תחלת הבריאה, כי כמוה נאמר בגדול שבבהמות (איוב מ' י"ט) הוא ראשית דרכי אל, ‏וכאשר ענינה שם שהוא תחלת מה שברא בבהמות יהיה גם כן ענינה הנה, כי זה הנזכר תחלת מה ‏שברא מהדברים. ואם אינם רוצים בפירוש הזה, יחייבו שהבהמה ההיא קדמונית. והשלישיים שזה ‏הענין הנזכר אוהב האמת ושונא השקר, כמו שאמר (משלי ח' ח') בצדק כל אמרי פי אין בהם נפתל ‏ועקש. ומי שאהבו אוהב את החיים, ומי ששנאו אוהב המות, כמו שאמר (שם שם ל"ה) כי מוצאי מצא ‏חיים וחוטאי חומס נפשו כל משנאי אהבו מות. והוא מצוה לבקשו ולהזהר בו. כמו שאמר (שם שם ‏ל"ב) ועתה בנים שמעו לי והקשיבו כל אמרי פי. ואם הם הרוחניים אין נמלטות המדות האלה שיהיו ‏להם, אם בענין פשיטותם או אחר הרכבתם, ואם נחשוב אותם להם בפשיטותם אין עמם בעת ההיא ‏צדק ולא טוב, ולא חיים ולא מות, ול אדם נמצא שיקשם ויגיע אליהם. ואם נחשוב שהם לחם אחרי ‏ההרכבה, החלק אשר יש לנו מהם אנחנו מגיעים אליו בהכרח, והחלק הנשאר אשר לא הורכב אי ‏אפשר להגיע אליו, כי המורכבות יבדילו בינינו וביניו כפי דבריהם. והגיעני שאחרים חשבו, כי פרשת ‏‏(איוב כ"ח י"ב) והחכמה מאין תמצא ואי זה מקום בינה, ושאר הענין שהוא תאר הרוחניים, מפני ‏שאמר באחרונה אלהים הבין דרכה והוא ידע את מקומה. ומצאתי אלה גם כן טעו בפי' יותר מטעות ‏הראשונים, מפני שהענין הראשון אין מפורש בו שהיא החכמה. אעפ"י שעל האמת שאין בו ספק הוא ‏על החכמה, אבל הענין השני היה זכרון החכמה בו מפורש, ואיך הטעו עצמם בכנוייו? וראיתי עוד ‏שהכתוב מבאר על החכמה הזאת כי נמצאת עם הארבעה יסודות לא קודם, כאשר נאמר אלהים ‏הבין דרכה והוא ידע את מקומה, כי הוא לקצות הארץ יביט תחת כל השמים יראה; זכר השמים ‏והארץ, ואחר כן לעשות לרוח משקל ומים תכן במדה; זכר האויר והמים, אחר כן ראה ויספרה ‏הכינה וגם חקרה, וכבר נגלה בטול סברת שני הענינים האלה ברוחניות, אם הם על החכמה; ואין ‏החפץ בה שהיא היתה לבורא ככלי שברא בה הדברים, אבל החפץ בה שהיא חדשה מבריאת ‏היסודות וסעפותם, ונתבארה חכמתו שבה הכל מתוקן:‏
Nota — a Sabedoria não é uma “matéria” eterna. Saadia corrige uma leitura equivocada de versos célebres (Mishlei 8:22, “o Eterno me adquiriu...”; Iyov 28, “a sabedoria, onde se acha?”). Mostra, pela própria língua, que kanani significa “criou” (não “possui desde sempre”), e que a Escritura situa a Sabedoria junto à criação dos elementos, não antes dela. A conclusão é importante e bela: a “Sabedoria” pela qual o mundo foi feito não é uma substância eterna ao lado de D’us, e sim a ordem inteligente que Ele imprimiu na criação — a racionalidade que torna o mundo compreensível.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Refutar, não apenas afirmar

O longo terceiro capítulo do Tratado I é um catálogo crítico das teorias sobre a origem do mundo — treze ao todo. O leitor moderno talvez estranhe o detalhe; mas o gesto é exemplar: Saadia trata o adversário com seriedade, expondo a sua posição antes de respondê-la. A fé racional, para ele, prova-se não por ignorar as alternativas, mas por atravessá-las.

O atalho que não atalha

A primeira teoria refutada — a da “matéria espiritual eterna” — é o protótipo de uma tentação filosófica perene: evitar o mistério da criação inventando uma matéria intermediária e sem origem. Saadia desmonta-a com economia: se essa matéria precisa ser transformada do informe ao formado por um poder ilimitado, então esse poder já basta para criar do nada — e o intermediário é inútil. O Radal e os comentadores apreciam aqui o rigor: a explicação mais simples vence.

A Sabedoria como ordem do mundo

O fecho corrige uma exegese: a “Sabedoria” de Mishlei e de Iyov não é uma entidade eterna ao lado do Criador, mas a ordem que Ele pôs na criação. É um ponto caro à tradição racionalista — o mundo é inteligível porque foi feito com sabedoria; e estudar essa ordem é, ele mesmo, um modo de conhecer o Criador.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado I, capítulo 3 (segmentos 1-6), na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

O capítulo 3, muito extenso (refuta treze teorias), é apresentado em partes sucessivas; esta cobre a introdução e a primeira teoria rival. A descrição geométrica (§2) e a longa exegese bíblica (§6) foram condensadas nos pontos repetitivos (marcados com “...”), preservando-se o argumento. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado I · A criação do mundo · Parte IV

Contra as teorias rivais (II): o mundo “feito de D’us”

מַאֲמָר רִאשׁוֹן · ג׳ (המשך)

Saadia prossegue na refutação das teorias sobre a origem do mundo. Aqui enfrenta a terceira: a de que o universo teria sido feito da própria essência de D’us — uma forma de panteísmo. A sua resposta é uma poderosa defesa da transcendência divina, e conduz à conclusão de que criar do nada é a opção mais racional de todas.

1
A terceira opinião é a de quem disse que o Criador dos corpos os fez de Si mesmo da Sua própria essência. Encontrei essa gente incapaz de negar um Autor; e, contudo, o seu intelecto não aceitava — segundo o seu modo de pensar — que houvesse “uma coisa não de outra coisa”; e, já que nada existe senão o Criador, creram que Ele criou as coisas a partir de Si próprio. Estes — que D’us se compadeça! — são mais insensatos do que os primeiros. Exporei a sua tolice por treze vias: as quatro respostas que valem contra os adeptos dos “espirituais”, as quatro provas da criação e as quatro provas de “uma coisa do nada”. Mas as respostas dirigidas a quem afirmava a eternidade dos “espirituais” não se lhes aplicam; em lugar delas, ficam sujeitos a cinco objeções, cada uma das quais os refuta:
‏והדעה השלישית דעת מי שאמר, שבורא הגשמים בראם מעצמו. מצאתי אלה האנשים ‏לא נתכן להם לכחש בעושה, ועם זה לא קבל שכלם כפי מחשבתם היות דבר לא מדבר, וכיון שאין ‏דבר כי אם הבורא, האמינו כי ברא הדברים מן עצמו. ואלה, ירחמך האל! יותר כסילים מן ‏הראשונים. וראיתי לגלות אולתם בשלש עשרה פנים; מהם הארבעה אשר על בעלי הרוחניים, ‏וארבעה ראיות החדוש, וארבעה ראיות היות דבר לא מדבר. אך אופני התשובה אשר על מי שאמר ‏בקדמות הרוחניים, אינם חייבים בהם, אך הם חייבים כמותם חמש ענינים כל אחד מהם הרחיק ‏אותו:‏
Nota — a terceira teoria: o mundo “feito de D’us” (emanação/panteísmo). Esta visão tenta um caminho do meio: recusa tanto a matéria eterna quanto a criação do nada e, como “nada existe além do Criador”, conclui que o mundo deve ser feito da própria substância de D’us — uma forma de panteísmo ou emanação. O motivo é compreensível; mas, como Saadia mostrará, a solução é a pior de todas: para evitar que o mundo venha do nada, faz D’us descer ao mundo.
2
A primeira: a mudança da essência eterna — que não tem forma, nem qualidade, nem medida, nem lugar, nem tempo — até tornar-se, em parte, um corpo com forma, medida, fronteira, lugar, tempo e tudo o mais que cabe aos seres. Isto não se pode sequer admitir, senão como o mais remoto dos absurdos.
הראשון השתנות הענין הקדמון אשר אין לו צורה, ולא תכונה ולא שיעור ולא מקום ולא ‏זמן, עד ששב קצת גוף שיש לו צורה ושיעור וגבול ומקום וזמן ושאר מה שנכללו עליו הנמצאות, ואין ‏להעלות זה על הלב בי אם מרחוק שברחוקים:‏
3
A segunda: a vontade livre de D’us — que não sofre mudança, sobre quem nenhum agente atua, a quem nada afeta — poria parte de Si como um corpo, até ser afetada pelos agentes, tornar-se ignorante depois da sabedoria, inquieta depois do repouso, com fome, sede, angústia e fadiga, e sujeita a todos os outros males — Ele, que estava longe de tudo isso e não precisa tirar deles proveito algum? Estas não passam de fantasias vãs.
והשני, בחירת האדם אשר לא ישיגהו שנוי, ולא יפעל בו פועל, ולא ישיגהו משיג, שישים ‏קצתו גוף, עד שישיגיהו המשיגים, ועד שיפעלו בו הפועלים, ועד שיסכל אחר החכמה, ויאנש אחר ‏המנוחה, וירעב ויצמא וידאג וייגע, וישיגוהו שאר הרעות, והוא היה רחוק מכל אלה, ואין לו צורך ‏לקנות מהם תועלת, אין אלה הדברים כי אם מעניני ההבל:‏
Nota essencial — por que o mundo não pode ser “parte de D’us”. Aqui está o cerne, e é uma poderosa afirmação da transcendência divina. D’us é perfeito, imutável, incorpóreo e não carece de nada; o mundo, ao contrário, muda, tem corpo, sofre, padece fome e fadiga, ignora e morre. Dizer que o mundo é “parte de D’us” obrigaria a admitir que o próprio D’us se divide, muda, sofre e se degrada — o que é absurdo. A criação, justamente, mantém a distância salvadora entre o Criador e a criatura: o mundo vem d’Ele, mas não é Ele (cf. os ensaios “D’us é incorpóreo” e “D’us é imutável”). É a recusa racionalista do panteísmo.
4
A terceira: o Justo, que não comete injustiça, como decretaria sobre parte de Si lançá-la nesses males? Ao tentar entender isto, não encontro como escapar de duas hipóteses: ou esses males lhe vieram por juízo, merecidamente — o que só se daria por um mal que essa parte fez, ou por pecados que cometeu (e uma parte de D’us pecando?) —, ou vieram sem tal merecimento, e então seria uma violência e uma injustiça que Ele cometeria contra Si mesmo. Em qualquer das duas, achei a coisa falsa e corrompida.
והשלישי, הצדיק אשר לא יעול, איך גזר על קצת חלקיו להפילם ברעות האלה? וכאשר ‏אשתדל לדעת זאת, לא אמצאהו שיעבור אחד משני ענינים, אם שבא עליו ה בדין והתחייב בו, לא ‏יהיה כי אם בעבור רעה שעשה או בחטאים שחטא, או שיהיה בלא חיוב, ויהיה זה חמס שחמסו ‏ועול שעול עליו. ועל אי זה משני הענינים שבא הדבר, מצאתיו מופסד ושקר:‏
5
A quarta: como aceitou aquela “parte” a ordem das demais partes, a ponto de se moldar, dispor-se e submeter-se ao sofrimento? Se foi por medo ou por esperança — seria esse o caminho de todas as partes, ou só de algumas? Se de todas, de que teriam medo, ou o que esperariam, não havendo nada além delas? E se só de algumas, por que causa umas esperam e temem, e as outras não? E, se a “parte” aceitou a ordem da maioria sem esperança, medo ou temor, é pior ainda, pois não teria causa conhecida. Tudo isto é falso.
והרביעי, איך קבל החלק ההוא מצות שאר החלקים עד שהטבע ונתקן ונצטייר וכנס תחת ‏הצער? אם היה זה בעבור פחד שפחד או תקוה שקוה, ואלו היה זה על אי זה משני הענינים, לא ‏ימלט שיהיה דרך הכל שיפחד ושיקוה, או שיהיה זה דרך הקצת לבד? ואם הוא זה דרך הכל, מאי ‏זה דבר יירא, ולמה יקוה ואין דבר זולתו. ואם יהיה זה דרך הקצת, לאי זו עלה שב הקצת מקוה ‏ומפחד והשאר לא יקוה ולא יפחד? ואם הקצת קבל מצות הרוב לא לתקוה ולא לפחד ולא ליראה, זו ‏רעה, מפני שאין לו עלה ידועה, וכל זה כזב ושקר:‏
6
A quinta: Aquele que pode retirar as Suas partes dos sofrimentos, sendo sábio, certamente as retiraria. E, se supusermos que o faça, então as criaturas cessariam; mas, se o mundo não pode prescindir delas no fim — como não pôde no princípio —, então essas “partes”, que ora são corpos, cada uma se molda por um tempo e depois se desprende, entrando outra em seu lugar... e os seus tempos não poderiam ser finitos, pois o todo de que provêm seria infinito — o que a razão rejeita e o pensamento claro recusa. E só tenho esses insensatos — que, ao fugir de “uma coisa não de outra coisa”, creram em todas estas tolices — como quem foge do calor para dentro do fogo, e da chuva para debaixo das calhas; além de tudo o que rejeitaram dos sinais e dos prodígios.
‏והחמישי מי שיוכל להשיב חלקיו מן הצערים, והוא חכם, לא יתכן שלא ישיבם. ואם נעביר ‏על דעתנו שהוא יעשה כן, יבטלו הברואים, ואם אי אפשר בלעדיהם בסוף, כאשר לא היה אפשר ‏בלעדיהם בתחלה, יהיו אלה החלקים שהם גופים לעתים, וכל חלק מהם יצטייר ויתכן מדה מהזמן, ‏ואחרי כן ימלט ויסתלק ויכנס תחתיו חלק בהפעלות. ועם כל זה לא יתכן שיהיה תכלית לעתים ‏האל, מפני שהכלל אשר הם ממנו אין לו תכלית, וזה מה שידחנו השכל ותמאנה אותו המחשבות ‏הברורות. ואינני חושב הפתאים בברחם מהיות דבר לא מדבר, עד שהאמינו באלה האולתות כלם, ‏אלא כמי שבורח מן החום אל האש ומן המטר אל תחת, המרזבים חוץ ממה שדחו מדבר האותות ‏והמופתים:‏
7
A quarta opinião é a de quem combinou as duas anteriores, pensando que o Criador fez os seres de Si mesmo e de coisas eternas. Estes ficam sujeitos a dezessete objeções: as doze contra os adeptos dos “espirituais” e as cinco contra quem pensou que o Criador fez as coisas de Si próprio — sendo mais insensatos do que os dois grupos anteriores. E, se a todas essas fantasias se inclinaram por causa do poder do Criador — supondo que Ele tudo pode —, respondo que é falso atribuir-Lhe a mudança de Si mesmo e o que a isso se liga. E vejo que atribuir-Lhe o poder de fazer uma coisa do nada é mais leve para a alma, mais próximo da razão e mais condizente com os sinais e os prodígios.
והדעת הרביעית דעת מי שחבר בין אלה השנים, וחשב כי הבורא ברא הנמצאות מעצמו ‏ומדברים קדמונים. ויתחייבו באלה י"ז תשובות. הי"ב הראשונות אשר על בעלי הרוחניים, ואלה ‏החמש אשר על מי שחשב כי הבורא ברא הדברים מעצמו, והיה זה יותר סכל משתי הכתות ‏הקודמות. ואם אלה ההבלים כלם נטו אליהם, בעבור יכולת הבורא, וחשבו עליו שהוא יכול על כל, ‏שקר משנוי עצמו ומה שיתחבר אל זה. ואני רואה שיכלתו על היות דבר לא מדבר יותר קל על ‏הנפש, ויותר קרוב אל השכל, ויותר נאות לאותות ולמופתים:‏
Nota — a conclusão: criar do nada é o mais racional. Encerrada a refutação das teorias que tentam evitar a criação do nada (a matéria eterna, a emanação, e a combinação das duas), Saadia recolhe o resultado numa frase decisiva: atribuir a D’us o poder de fazer uma coisa do nada é “mais leve para a alma, mais próximo da razão e mais condizente” com a revelação. As alternativas, ao tentar poupar esse “milagre”, acabaram em absurdos maiores — fazer D’us mudar, dividir-se ou sofrer. A criação ex nihilo é a única que preserva, ao mesmo tempo, a perfeição de D’us e a realidade do mundo. É a opção mais simples — e, por isso, a mais sólida.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O perigo de aproximar demais

A teoria refutada aqui nasce de um impulso quase religioso — não querer pôr nada “fora” de D’us. Mas, levado ao extremo, esse impulso acaba por rebaixar D’us, fazendo-O sofrer, mudar e dividir-se com o mundo. Os comentadores notam o paradoxo: querendo honrar a unidade divina, a teoria a destrói, pois a perfeição de D’us está justamente em não estar sujeito a nada do que aflige as criaturas.

A criação como distância salvadora

É a doutrina da criação que resolve a tensão. O mundo vem de D’us — depende inteiramente d’Ele —, mas não é D’us. Essa distância protege as duas verdades: a transcendência do Criador, que permanece perfeito e imutável, e a realidade da criatura, que muda, sofre e é livre. O panteísmo dissolve uma na outra; a criação as mantém, cada uma no seu lugar.

O triunfo da explicação mais simples

Ao fim de três teorias refutadas, Saadia recolhe a lição: a criação do nada, longe de ser a hipótese mais difícil, é a mais racional e econômica. As outras, para evitar um único “milagre”, multiplicaram absurdos. É um princípio caro a toda a tradição racionalista — a verdade costuma ser também a explicação mais limpa.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado I, capítulo 3 (segmentos 7-13), na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Esta parte cobre a terceira teoria (o mundo feito da essência de D’us) e a quarta (a combinação das anteriores). Acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. O capítulo 3 prossegue em partes seguintes (dualismo, os elementos, o acaso, a eternidade do mundo, o ceticismo). Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado I · A criação do mundo · Parte V

O dualismo refutado: a treva como ausência de luz

מַאֲמָר רִאשׁוֹן · ג׳ (המשך)

Como explicar o bem e o mal no mundo? Alguns imaginaram dois poderes eternos em luta — um todo bom, outro todo mau. Saadia refuta esse dualismo em defesa da unidade de D’us, e chega a uma das ideias mais luminosas da filosofia: a treva não é o oposto da luz, mas a sua ausência — e o mal não é um princípio, e sim a privação do bem.

1
A quinta opinião é a de quem afirmou dois fazedores eternos. Estes — que D’us te guie! — são mais insensatos do que todos os anteriores. Recusam que dois efeitos opostos venham de um só agente, dizendo nunca terem visto tal coisa; e, vendo que todas as coisas têm bem e mal, dano e proveito, concluíram que o bem provém de uma raiz toda boa, e o mal de uma raiz toda má. Imaginaram cada “raiz” infinita em cinco direções e limitada na sexta, onde toca a outra; e que ambas, antes separadas, se misturaram, e dessa mistura surgiram os corpos — supondo que, ao fim, o bem prevalecerá e o mal cessará. Eis o que há contra eles: ficam sujeitos, primeiro, às quatro provas de que o mundo é criado e às cinco contra quem disse que D’us o fez de Si mesmo — treze ao todo —; e, além dessas, a quinze objeções próprias deste tratado. Primeiro, refuto a suposição de que não há, no visível, dois efeitos opostos vindos de um só agente. Achei que isso é, sim, possível: o homem se ira e depois se aplaca e perdoa, dizendo “já me irei e já perdoei” — logo, o mesmo agente produziu a ira e o perdão. E vemos o homem roubar e, ao ser levado a confessar, confessa o que fez — logo, o mesmo agente fez o roubo e a confissão (que é boa). E, se a “força que se ira” não fosse a “força que deseja perdoar”, quem perdoa não se lembraria, ao perdoar, do que fizera ao irar-se — mas a experiência mostra o contrário. Depois examinei o que eles admitem — um efeito vindo de dois agentes — e achei-o falso: se cada um faz o todo, nada resta ao outro; e, se cada um faz uma parte, então cada parte teve na verdade um só autor, sem sócio.
והדעת החמישית, דעת מי שאמר בשני עושים קדמונים. ואלה, יישירך האלהים. יותר ‏סכלים במה שנטו אליו מכל מי שקדם זכרו. והוא שהם מדחיקים שיהיו שני פועלים מפועל אחד, ‏ואומרים כי לא ראו כזה, והסכימו על זה ואמרו; הנה אנחנו רואים הדברים כלם שיש בהם טוב ורע ‏נזק ותועלת, וכבר התחייב שיהיה הטוב אשר שט, משרש כלו טוב, ויהיה הרע אשר בם משרש כלו ‏רע. והביאם זה לומר כי מוצא הטוב אין לו תכלית מחמשה צדדים, והם המעלה ומזרח ומערב ‏ודרום וצפון, ויש לו תכלית מלמטה ממקום שהוא ממשש מוצא הרע; וכן מוצא הרע אין לו תכלית ‏מחמשה צדדים, והוא מטה ומזרח ומערב ודרום וצפון, ויש לו תכלית מלמעלה ממקום שהוא ‏ממשש מוצא הטוב. ואמרו עוד שאלה השני שרשים, לא סרו נבדלים זה מזה, ואחר כן נמזגו ‏והתחדשו אלו הגשמים מהמזגם. ונחלקו בסבת המזגם, שקצתם חשבו כי הטוב היתה סבתו ‏שירפא הצד הפוגש אותו מן הרע; ומקצתם חשבו, כי הרע היתה סבת המזגו לתקותו בטוב שיהנה ‏במה שבו מן הערבות. והסכימו כי זה המזוג לו עד זמן כשיהיה כלה, תהיה התגבורת לטוב ויחלש ‏לרע ויפסק מעשהו. והנני כותב מה שיש על אלה מן התשובות בכל שער ממה שטעו בו. ואומר כי ‏יש עליהם תחלה ארבעה פנים אשר הביאונום ראיה על היותם לא מדבר; ואחריהם החמש פנים ‏אשר על מי שחשב שהבורא יתברך בראם מעצמו, ואלה י"ג פנים, ועליהם אחריהם מה שהוא מיוחד ‏בהם ט"ו מינים מן התשובות במאמר הזה, חוץ ממה שיש עליהם במאמר השני. והוא שלקחתי ‏קטבי דבריהם, וסבבתי עליהם אופן העיון, ונתקו בו עד שלא נשאר מהם דבר. והשיבותי אל לבי ‏ראשון (ראשון), מה שחשבו כי אין בנראה שני פעלים זה הפך זה מעושה אחד. ומצאתי שהיות שני ‏פעלים מפועל אחד נכון מכמה פנים; אחד מהם שהאדם יקצוף ויכעס, ואחר כן ירצה וימחול, ויאמר ‏כבר רציתי וכבר מחלתי. ואם הטוב הוא המוחל הוא ג"כ היה הקוצף, ואם הרע הוא המוחל, כבר ‏היטיב כאשר מחל; ועל שתי הפנים יחדיו כבר היו שני המעשים לא'. ועוד כי אנו רואים האדם רוצח ‏וגונב, וכאשר יביאוהו להודות יודה במה שחטא ובמה שעשה; ואם הרע הוא שהודה כבר צדק, ‏והצדק הוא טוב. ואם הטוב הוא אשר הודה, הוא גם כן אשר רצח וגנב, ועל שני הענינים יחד כבר ‏התקיימו לאחד השני מעשים. ועוד שאם יהיה הכח הכועס איננו הכח הרוצה, וכן הכח הגונב, איננו ‏הכח המודה, ראוי א"כ שלא יזכור רוצה בעת רצותו מה שהיה ממנו בעת קצפו, ולא יזכור המודה ‏בעת הודאתו מה שהיה ממנו בעת חטאו, ואנחנו מוצאים המוחש בהפך זה כלו. ואחר כן השתכלתי ‏מה שהכשירוהו מהיות פועל א' לשנים, והנה הוא מופסד משני פנים. אחד מהם שאם נעלה בדעתנו ‏ששנים שיעשו עשוי אחד ונחשוב שאחד מהם עושה את כלו, והשני גם א עושה את כלו, יהיה כל זה ‏הבל, כי העושה את כלו לא נשאר לשני מה יעשה. ואם נחשוב כי א' מהם עושה את קצתו והאחר ‏עושה קצתו, כל העשוי א"כ כבר היה לעושה אחר ואין לו שותף בו:‏
Nota — o dualismo, e a unidade de D’us. Esta quinta teoria é o dualismo: dois poderes eternos em luta, um todo bom e outro todo mau (uma visão que ecoa religiões antigas, como o zoroastrismo e o maniqueísmo). O seu motivo é compreensível — explicar a coexistência do bem e do mal no mundo. Mas Saadia mostra, contra ela, que um único agente pode, sim, produzir efeitos opostos (a mesma pessoa que se irou também perdoa). Não são precisos dois deuses para explicar o bem e o mal: a unidade de D’us permanece intacta (cf. o ensaio “A unicidade de D’us”).
2
O segundo aspecto: quem supõe que dois agentes façam um só efeito não pode deixar de pensar que cada um deles, assim como pode fazer aquilo, também pode deixar de fazê-lo. E, ao supormos duas escolhas opostas sobre um mesmo efeito — um escolhendo fazê-lo e o outro escolhendo deixá-lo —, vê-lo-íamos, na razão, feito e não-feito ao mesmo tempo: um absurdo evidente. Eis que recusam o que se confirma pelo testemunho do visível e admitem o que o anula.
והפנים השניים, כי המעלה על דעת שני דברים יעשו מעושה אחד, א"א לו שלא יחשוב לכל אחד ‏מהם שכמו שיכול שיעשה הדבר ההוא, כן הוא יכול שיעזוב עשותו. וכאשר נעלה על דעתנו שתי ‏בחירות זו הפך זו במעשה אחד, בחר אחד מהפועלים עשוהו, ובחר האחד שיעזוב עשותו, נראה ‏אותו בשכלנו עשוי, עזוב, בעת אחד, וזה הפך מבואר. והנה אתה רואה אותם, שהרחיקו מה ‏שהתקיים בעדות הנראה, והודו במה שבטלו הנראה:‏
3
São, ao todo, cinco respostas: três contra a sua recusa de dois efeitos de um só agente, e duas contra a sua afirmação de um efeito por dois. E digo: fugiram de aceitar “uma coisa não de outra coisa” por nunca terem visto tal coisa — e caíram num abismo de coisas que tampouco se veem. Pois admitiram que cada “raiz” é infinita em cinco direções (que nunca viram) e limitada só na sexta (a única que de fato observaram), julgando ao contrário do que viam; admitiram partes não-misturadas, quando tudo o que captaram estava misturado; e supuseram que a mistura teve um começo e terá um fim, sem que nada lho mostre. Em quatro objeções, mostro que toda a teoria contraria a própria experiência que dizem seguir. Depois examinei as duas causas que dão à “mistura”, e achei ambas falsas. E vi que o sensível rejeita a própria mistura: o fogo afasta-se da água, o ar foge de misturar-se à terra; se as suas partes pequenas assim se repelem, muito mais as grandes — e a mistura jamais se completaria. E, se invocam a profecia, um “deus misturado” não poderia ter profetas fidedignos nem fazer prodígios contra a natureza — que eles próprios negam. Isto completa as quinze objeções. E não sossego aqui sem esclarecer que aquilo a que esse povo se apega — a treva — não é o oposto da luz, mas a sua ausência. E, se perguntarem por que o digo, trago três provas. Primeira: o homem não pode criar uma substância; e, no entanto, ao pôr-se ao sol e juntar as palmas das mãos em abóbada, o que há entre elas escurece — ora, ele não criou “a treva”, apenas impediu a luz de chegar ali, e o lugar escureceu por falta de luz. Segunda: quem está diante de uma só vela tem sombra; cercado de muitas velas, não tem sombra alguma — e o homem não tem poder de aniquilar uma substância; apenas se acrescentou luz onde ela faltava. Terceira: nunca vi dois corpos opostos em que um se transformasse no outro restaurando-o por inteiro (a água não vira fogo, nem o fogo, água); mas vi o ar escuro tornar-se luminoso — e disso soube que a treva não é o oposto da luz, mas a sua ausência. E o mesmo vale para os demais sentidos: o ar recebe o som e no-lo transmite; faltando o som, nada ouvimos — e a esse silêncio não chamamos “o oposto do som”, mas a ausência do som; assim também o cheiro e a própria luz. E sei que D’us disse de Si mesmo: “Eu sou o que forma a luz e cria a treva” (Yeshayahu 45:7) — entenda-se conforme este dado dos sentidos: Ele criou o ar que recebe a luz e a treva, uma por presença e a outra por ausência. E o versículo segue: “o que faz a paz e cria o mal” (Yeshayahu 45:7) — e todos nós concordamos que o Criador não criou o mal como um princípio; antes, criou as coisas de tal modo que o homem, pela sua escolha, tenha nelas o bem-estar (“paz”) ou o mal: se comer e beber na medida da necessidade, isso lhe é bem; se delas tomar o que o corpo não suporta, isso lhe é mal — como explicarei no quarto tratado o da justiça e do livre-arbítrio. O versículo atribui a luz e a treva à criação de D’us justamente para refutar o mau pensamento de quem creu em dois poderes; e ainda nos deu a conhecer que a luz e a treva têm um limite: “traçou um círculo sobre a face das águas, até o confim da luz com a treva” (Iyov 26:10).
ואלה חמשה תשובות, שלשה על הרחקתם שני מעשים מעושה אחד, ושתים על קיומם מעשה א' ‏לשנים. ואחר כן אומר, ברחו מהיות דבר לא מדבר, מפני שלא ראו כמוהו, והפילו עצמם בגומך לא ‏נראה כמוהו. ותחלת זה, שהם הודו כי כל אחד מהשנים אין לו תכלית מחמשה צדדים, אשר לא ‏ראו, והיה יותר טוב להם שישימם שיש להם תכלית, הקשה על הששית אשר ראו איתה, ודנו בהפך ‏זה. ועוד שהם במה שחשבו, כי הרב מכל אחד מהשנים נפרד בלתי נמזג; והם כל דבר שהשיגו ‏מהם לא השיגוהו כי אם נמזג, ועזבו להאמין כי הכל נמזג, הקשה על הקצת, ויחשבוהו בהפך זה. ‏ועוד כמה שחשבו, שהמזג חדש בלתי קדמון לא היה לפניו מזג, ומה הודיעם? ואולי שני הענינים לא ‏סרו נמזגים, ונפרדים עד אין מספר. ועוד במה שחשבום, שהם עתידים להפרד אחר זמן, ומה ‏הודיעם שזה יהיה? ואולי לא יהיו נפרדים לעולם, הקשה על הנראה לו, שמא יפרדו וימזגו בעתיד ‏לאין תכלית? ראה! איך ברחו מהיות דבר לא מדבר, מפני שלא ראו כמוהו בנמצא; והסכימו על ‏חלקים בלתי נמזגים, ושהם אין להם תכלית, ובמזג לא היה מזג לפניו, ובהפרד לא יהיה אחריו ‏מזג, ולא ראו דבר מזה לנמצאות, אך ראו הנמצאות בהפך זה. ואלה ארבעה תשובות אחרות. ואחר ‏כן עיינתי בשתי עלות המזג אצלם, ומצאתים נפסדות שתיהן, והוא כי הפועל אם היה כשאר אמרו ‏קצתם בכוון הטוב, כבר שב רע בהתערבו עם הרע בכוונו בקשת הרע, ואם הוא בכוון הרע כבר ‏נהפך המכוון מעצמותו; וזה מה שממאנים להודות בו. ועוד אם הוא המזג מפועל הטוב לא הגיע אל ‏מה שכוון (מהרעות) הצד הממשש אותתו. אבל אנחנו רואים צערו בהכנס הרע יותר גדול מהמשוש ‏וזה תאר עצל פתי. ואם הוא הפועל לרע כבר הגיע אל בקשתו, והנה אנחנו רואים אותו שיערב לו ‏הטוב ויאכלהו וישתהו וירוה אותו ויקרב אליו, ועל שני העיינים כבר נפל היאוש מגבור הטוב על ‏הרע. ואחרי כן התבוננתי אפני המזג אחר שהיו נפרדים, וראיתי המוחש דוחה את זה, כי אנחנו ‏רואים האש מתרחק מהתחבר אל המים, ונראה האויר בורח מהתערב בעפר, וכאשר יהיו חלקיהם ‏המעטים על זה ההמנע, כל שכן שימנעו חלקיהם הרבים ולא ישלם המזג לעולם וזה מבואר. ועוד ‏אם העם נתלים בהקשה יש לנו עליה אלה השלשה תשובות אחרונות; ואם מצד ההגדה אומרים ‏המאמרים האלה, ההגדה הברורה לא תהיה כי אם מדרך הנבואה, וכל נביא איננו כי אם אחרי ‏המזג, ובזה שלש טענות. הראשונים שאחרי הפרדו ממוצא הגמור אינו יודע מה יהיה מהמוצא ‏ההוא. והשנית כי בהתערבו עם הרע כבר נשתנה צדקו ולא יהיו הנפשות בוטחות בו. והשלישית כי ‏הנביא אין מתקיימת לו הנבואה כי אם באותות המלאות, והאותות המלאות לא תהיינה כי אם ‏בחדוש מה שאין בטבע ולא כמנהג, והם מכחישים מה שהוא הפך הטבע והמנהג, והם מביאים ‏ראיה תמיד במה שהם סוברים בטבע ובחק. וזה ממה שמרחיק אותם מטעות הנבואה, כי לא יתכן ‏אצלם להביא מופתים עליה, וזה השלמת החמשה עשר פנים. ואני עתיד לזכור אחריהם פנים ‏אחרים במאמר השני מאמר היחוד בעזרת האלהים ואמצתו. ולא תנוח דעתי אחר כן במקום הזה ‏על כל מה שזכרתי, עד שאבאר כי זה הדבר אשר החזיקו בו העם הזה, ר"ל: החשך, אינו הפך ‏האור, אבל הוא העדר האור. ואם יאמרו מאי זה טעם אתה אומר כי אין החשך הפך האור? אביא ‏בזה ג' ראיות. אחת מהן כי האדם אינו יכול לברא שרש, והנה אנחנו רואים אותו כשהוא עומד ‏לשמש וישים כפו האחת על השנית כמו קובה, יהיה מה שיש ביניהם חשך, והאדם אינו בורא שרש ‏החשך, אך סך בעד האור מהגיע אל האויר אשר בין כפיו, וחשך מפני שחסר האור. והשנית כי אני ‏רואה את האדם יש לו צל כשהוא עומד לפני נר א', ואם נקיפהו בנרות רבים לא יהיה לו צל, ואין ‏בכח האדם לכלות שרש מהשרשים, אבל המציא האור אשר היה נעדר בקצת האויר המקיף את ‏האדם. והשלישית כי לא ראיתי שני גופים זה הפך זה שיהפך אחד מהם וישוב האחר על השלמות, ‏כאשר לא יהפכו המים אש ולא האש מים. וכאשר ראיתי האויר החשוך ישוב מאיר, ידעתי כי החושך ‏איננו הפך האור אבל הוא העדרו. ואחר כן מצאתי שאר המוחשים על הדרך הזה, והוא שהאויר ‏מקבל הקול מן המדבר ומגיעו אלינו, ואם לא יקרעהו קול לא נשמע דבר, ולא נאמר באויר ההוא ‏איננו משמיע הפך הקול, אבל הוא העדר הקול. וכן המאמר בריח, כי האויר מקבלו באי זה מקום ‏שיהיה ומגיעו אלינו, ואם לא יהיה לא נריח דבר, ואין זה הפך הריח, אבל הוא העדרו. וכן האויר ‏מקבל האור ומגיעו אל עינינו, אם לא יהיה אור לא נראה דבר, אין זה הפך האור, אבל הוא העדר ‏האור. וכאשר ראיתי הגופים העבים מונעים האור ונדמה לבני אדם כי הצל יולד מהם, אמרתי אולי ‏יטענו כי החשך יולד מן העפר. והתבאר לי כי אם היינו לוקחים גוש עפר ועמדנו במקום השמש ‏וזרינו את עפרו באויר, לא היינו רואים לחשך מקום כלל. ונאמר עוד, אולי הם טוענים באדם אשר ‏הקיפוהו הנרות כי צלו שב אל גופו, וידעתי שאם היה זה כן היה משחיר הנראה מגופו. ואלה דברים ‏נראים מוחשים, דוחים התחדשות השבושים אשר נאמרו כי החשך באור, ואני יודע כי האלהים ספר ‏על עצמו (ישעיה מ"ה ז') שהוא יוצר אור ובורא חושך. ואומר במה שהוא נאות למוחש הזה, כי הוא ‏ברא האויר המקבל האור והחשך במציאות והעדר, כאמרו אחריו (שם שם) עושה שלום ובורא רע. ‏ואנחנו מסכימים כלנו כי הבורא לא ברא רע, אך ברא לדברים אשר הם סובלים שיהיה לאדם בהם ‏שלום ורע בבחירתו, שאם יאכל המאכל כפי צרכו וישתה המים כפי צרכו יהיה זה שלום, ואם יקח ‏מהם מה שאינו סובל יהיה זה רע, וכאשר אני עתיד לבאר במאמר הרביעי בשאר הצדק, אבל יחס ‏האור והחשך לבריאתו, בעבור רוע מחשבת מי שהאמין בשנים, ועל כן אמר יוצר אור ובורא חשך, ‏והודיענו עוד כי יש לאור ולחשך תכלית, וכאשר השיבונו אל העם הזה באמרו (איוב כ"ו י') חק חג ‏על פני מים עד תכלית אור עם חשך:‏
Nota essencial — a treva é ausência, e o mal não é um princípio. Aqui está uma das ideias mais luminosas de toda a filosofia, e a chave para responder ao dualismo: a treva não é o oposto da luz — é a sua ausência (privação). Saadia prova-o de três modos simples (as mãos que bloqueiam o sol; as muitas velas que dissolvem a sombra; o ar escuro que volta a iluminar-se). E daí tira a consequência decisiva: o mal também não é uma “coisa” criada, um poder à parte — é a privação ou a corrupção do bem. Por isso o versículo “Eu crio a treva… e crio o mal” (Yeshayahu 45:7) não é dualismo: D’us cria o mundo e a liberdade; o “mal” surge quando o ser humano usa mal o bem (comer além da conta, etc.) — tema do quarto tratado. É a mesma tese que o Rambam desenvolveria (o mal como ausência de bem), e que este site explora em “D’us cria o mal?” e “O livre-arbítrio”. Não há dois deuses; há um só D’us, e uma só luz — sendo a treva apenas onde ela ainda não chegou.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Por que não são precisos dois deuses

O dualismo parece resolver elegantemente o problema do mal: um deus bom para o bem, um deus mau para o mal. Saadia desfaz a aparente elegância de dois modos. Primeiro, mostrando que um só agente já produz efeitos opostos — não é preciso multiplicar princípios. Segundo, expondo que a teoria, para fugir da criação do nada, acaba por afirmar uma porção de coisas que nunca se viram (raízes infinitas, partes que não se misturam). A unidade de D’us sai confirmada.

A grande intuição: a privação

O coração desta seção é a tese de que a treva é mera ausência de luz, e não um poder rival. Com três experiências simples, Saadia desmonta o dualismo na raiz: se a treva não é uma “coisa”, então não precisa de um “deus da treva”. E o mesmo se aplica ao mal — ele não é uma substância criada, mas a falta ou o desvio do bem. É a resposta clássica, que o Rambam herdaria, tanto ao dualismo quanto ao problema do mal.

“Crio a luz e crio a treva”

O versículo de Yeshayahu (45:7) foi, ele mesmo, dirigido contra o dualismo persa. Saadia lê-o com precisão: D’us cria o meio (o "ar") que recebe a luz como presença e a treva como ausência; e cria um mundo no qual o bem e o mal estão ao alcance da escolha humana. Um só Criador, uma só luz — e a liberdade do homem como a verdadeira origem do mal moral.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado I, capítulo 3 (segmentos 14-16), na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

O extenso §16 foi condensado nos pormenores técnicos (marcados com “...”), preservando-se as objeções principais e, na íntegra, a tese da treva como ausência de luz e do mal como privação. Acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. O capítulo 3 prossegue (os quatro elementos, o acaso, a eternidade do mundo, o ceticismo). Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado I · A criação do mundo · Parte VI

Contra as teorias rivais (IV): a matéria precisa de um Criador

מַאֲמָר רִאשׁוֹן · ג׳ (המשך)

E se o mundo for apenas matéria — os quatro elementos, ou uma matéria-prima primordial —, sem nenhum Criador por trás? Saadia enfrenta as teorias materialistas com dois argumentos que atravessaram os séculos: a matéria inerte não “escolhe” nem faz; e, por trás de toda causa natural, há um Primeiro Motor.

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A sexta opinião é a de quem admitiu os quatro elementos. Pensaram que todos os corpos são compostos de quatro naturezas — o quente, o frio, o úmido e o seco —, cada uma a princípio separada, e que depois se uniram, formando-se delas os corpos. Provam-no dizendo que os corpos recebem de fora o calor e o frio, e, como uma coisa só recebe o que lhe é semelhante, deve haver dentro deles essas naturezas. Mas estes são mais insensatos do que os anteriores. Primeiro: fugiram de admitir “uma coisa não de outra coisa” para não aceitar o que nunca se viu — e caíram no que jamais se viu de modo algum. Pois ninguém no mundo jamais viu um calor separado, nem uma umidade pura, nem um frio ou uma secura isolados; os sentidos só os captam reunidos, já corporificados. E que depois “se uniram” contraria o sensível: jamais vimos água unir-se ao fogo, nem fogo à água; e mesmo água e terra, que se podem misturar, ao serem deixadas em repouso começam a separar-se — a terra assenta, a água sobe. Ora, o que, mesmo forçado a unir-se, se separa, não viria por si mesmo unir-se ao seu oposto. E mais: essa “união” só pode ser obra das próprias naturezas ou de outro. Se das próprias, então elas nunca estiveram separadas, e desde sempre são compostas; e se de outro, é exatamente a isso que chamamos: têm um Criador, que as fez compostas. O trazerem provas de que essas quatro existem nos corpos não nos refuta em nada — pois nós dizemos: sim, existem; e têm Quem as fez existir. Quanto a Bereshit: alguns supuseram a água e o ar eternos, lendo “e a terra era informe e vazia... e o espírito sobre as águas” como um estado anterior à criação. Mas a Torá só diz “e a terra era” depois de “No princípio, criou D’us” (Bereshit 1:1); e a Escritura afirma que D’us criou o vento (“o que forma os montes e cria o vento”, Amós 4:13) e as águas (“seu é o mar, e Ele o fez”, Tehilim 95:5; “as águas acima dos céus ... Ele ordenou, e foram criadas”, Tehilim 148:4-5).
‏והדעת הששי דעת מי שהודה בארבעה יסודות. אלה חשבו שכל הגשמים מורכבים ‏מארבעה יסודות, והם החום והקור והלחות והיובש, שאלה הארבעה, היה כל אחד נפרד בתחלה, ‏ואחר כן התחברו והתחדשו מהם הגשמים. ומביאים ראיה על זה כי הם רואים הגשמים מקבלים ‏מחוץ חום האור וקורו, וכיון שהדבר לא יקבל כי אם הדומה לו, כבר נתחייב שיהיו בתוך גשמיהם ‏אלה הארבעה. ואלה סכלים מכל מי שקדם, בעבור דברים אני אספרם ואבארם עליהם, עזבו בהם ‏דרך הראיה ותעו מדרך האמת. ואומר תחלה, שהם הרחיקו היות דבר לא מדבר כדי שלא יודו ‏במה שלא נראה כמוהו, ונכנסו במה שלא נראה כלל והאמינו בו. והוא ששום אדם בעולם לא ראה ‏חום נפרד, ולא לחות גמור, ולא קור פושט, ולא יובש לבד, אך השיגו החושים, והם נקבצים נגשמים. ‏וטענו אלה כי בתחלה היה כל אחד מהם נפרד, ולא ראו מזה דבר. ואחר כן מה שהם מאמינים ‏שהתחברו, אחר שהיו נפרדים, הוא עוד בהפך המוחש, כי אנחנו והם לא ראינו מעולם מים ‏שהתחברו עם האש, ולא אש שהתחבר עם המים, עד שהמים והעפר אשר יתכן חבורם, ולא יפסדו ‏כשאנו מחברים אותם, ואחר כן נעזבם, הם מתחילים להפרד ושוקע העפר וצפים המים, ודבר שאם ‏יכרח להתחבר, יפרד, מן השקר שיבא הוא מאליו להתחבר עם הפכו ואחר כן עיינתי במה שזכרו ‏מן ההתחברות, ומצאתיו איננו נמלט משיהיה התחברותם לעצמם, או לדבר אחר זולת זה, ואם ‏ההתחברות ההוא לעצמם, בטל מה שאמרו עצמיהם לא סרו נפרדים, והתחייב שמאז המצאם הם ‏מורכבים. ואם התחברות לדבר זולת זה, אל הענין ההוא היה כונתינו ואמרנו כי יש להם בורא ‏בראם מחוברים. ואחר כן עיינתי בהפרד אשר שמוהו קדמון, ואם הוא לעצמם בכל עת שימצא ‏עצמם, לא יהיו כי אם נפרדות, ובטל החבור, ואם הוא לדבר אחר, תהיה עלה חמישית, צריך שיהיו ‏נתבעים לברר אותה, וזה מה שלא ימצאוהו. אבל הבאתם הראיות על מציאות אלה הארבעה ‏בגשמים, אין זו תשובה עלינו, אך אנחנו נאמר שהם נמצאים, יש להם ממציא המציאם. ואלה ‏התשובות עליהם, אמרו בכל א' מהן הפך הנראה, ומהיותו כל אחד מארבעה נפרד, ובואם מאיליהם ‏אל ההרכבה, והמיותם בכל ענין או לזולת עצמם. אלה התשובות עליהם עם השתים עשרה ‏הקודמות; ר"ל ד' ראיות החדוש, וד' ראיות שהדבר אינו עושה את עצמו, וד' ראיות היות דבר לא ‏מדבר, ואלה השתים עשרה, מלבד מה שהוא מתחייב באותות ובמופתים ומי שידעתיו מעמנו ‏שסבר קדמות דבר מהטבעים, לא מצאתיו שחושב כי אם קדמות המים והאויר, מפני שהתורה ‏ספרה על עגלת האש והעפר (בראש' א' א') בראשית ברא אלהים את השמים ואת הארץ, אבל סבר ‏על המים והאויר שהם קדמוניות, מפני שחשב שענין (שם שם ב') והארץ היתה תהו ובהו. ורוח וגו' ‏המים, שהם כן קודם הבריאה. וזה מאמרו אולת גמורה, כי התורה לא אמרה והארץ היתה, אלא ‏אחר שהקדימה בראשית ברא אלהים, והיתה הארץ כאשר נבראה עפר ימים ואויר, וכבר ספר ‏הכתוב על הרוח, באמרו (עמוס ד' י"ג) כי הנה יוצר הרים ובורא הרוח. ועל המים התחתונים באמרו ‏‏(תהלים צ"ה ה') אשר לו הים והוא עשהו, ועל העליונים באמרו (שם קמ"ח ד') והמים אשר מעל ‏השמים כי הוא צוה ונבראו:‏
Nota — por que “só matéria” não explica nada. Esta é a velha tentação materialista: o mundo seria apenas matéria — os quatro elementos — sem nenhum Criador. Saadia responde com observação e lógica: ninguém jamais viu um “calor puro” ou um elemento isolado (tudo o que observamos já vem combinado e organizado); e, sobretudo, a própria matéria é composta e mutável — logo, ela mesma precisa de uma origem. Não se pode “parar nos elementos” e chamá-los de causa última: dizer que algo existe combinado e ordenado é justamente dizer que há Quem o combinou e ordenou. A matéria é o efeito, não a explicação.
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A sétima opinião é a de quem afirmou os quatro elementos e a matéria-prima (hiulí). Estes são ainda mais insensatos, pois tornam “o feito” em “fazedor” e admitem coisas que “não são nem substância nem acidente”. Ficam sujeitos a todas as objeções anteriores. E quando perguntamos a estes dois grupos: já que não vedes um fazedor desses corpos, por que dizeis que os elementos os fizeram, e não dizeis simplesmente que não têm fazedor? — respondem: ainda que não vejamos um agente visível, é preciso crer num agente invisível, pois não há efeito sem agente. Mas essa mesma resposta os refuta — porque só vemos ação a partir de quem escolhe de uma vontade; e a matéria inerte não escolhe nem faz. Dizem ainda: vemos que, cortada a água da árvore, ela não dá fruto; logo, o frutificar é obra da água. Respondemos: Aquele que cria o corpo sem causa intermediária pode criá-lo por meio de uma causa — não é razoável que possa o mais e falhe no menos; e, como não há ação senão de quem escolhe, segue-se que é o Criador quem faz o fruto, usando a água como causa. E dizem: todos concordamos que o fogo queima; por que atribuir a ação a outro? Respondemos: assim como concordamos que a faca corta — e, no entanto, a ação é de quem a maneja, e por trás dele pode haver outro que o move —, assim o fogo queima, mas quem move o fogo é o ar, e quem move o ar é o Criador; logo, a ação é do Criador, que é o Primeiro Motor. E a Escritura já disse que as ações são do Primeiro Motor: “porventura gloriar-se-á o machado contra quem com ele corta? Ou exaltar-se-á a serra contra quem a maneja?” (Yeshayahu 10:15). Reuni estes equívocos ao fim destas opiniões para que não surpreendam o aluno e o confundam.
והדעת השביעי דעת מי שאמר בארבעה יסודות וההיולי, ואלה הם יותר סכלים מכל מי ‏שקדם זכרם, מפני שקיימו העשוי עושה, וקיימו הדברים לא עצם ולא מקרה, ויתחייבו הי"ו. חייובים ‏אשר על בעלי הטבעים, ועמם החמשה חייובים שעל בעלי הרוחניים, ואלה אחד ועשרים. וכאשר ‏נאמר לאלה השתי כתות, כאשר אינכם רואים עושה הגשמים האלה, למה אמרתם שהטבעים עשו ‏אותם, ולמה לא אמרתם שאין להם עושה? נמצאם שאומרים אף על פי שלא ראינו להם פועל ‏בנראה, צריך שנאמין שיש להם פועל שאיננו נראה, שאין פעל הווה כי אם מפועל, וראיתם זאת ‏בעצמה מבטלת שיהיה הדומם עושה דבר, כי אין אנו רואים פועל כי אם בוחר, ונמצאם עוד אומרים ‏ראינו המים כשפוסקים אותם מן האילן לא יעשה פרי, והוא ראיה כי מעשה ההפרות למים. ונאמר ‏כי בורא הגוף בלא סבה יכול שיבראהו בסבה, כי לא יתכן שיהיה יכול הדבר הגדול וילאה מהקטן, ‏וכיון שאין פעל כי אם מבוחר, יתחייב שיהיה הבוחר הוא אשר עשה הפרי בסבה היא המים. ונמצאם ‏עוד אומרים, כבר הסכמנו כלנו על שהאש שורפת, ולמה יחסתם הפעל לזולתה? נאמר כאשר ‏הסכמנו על שהסכין כורת, והפעל איננו כי אם למניעו, ואפשר שיהיה למניע ההוא מניע אחר. כן ‏נאמר כי האש שורפת ולאש מניע הוא האויר, ולאויר מניע הוא הבורא, והפעל אם כן לבורא אשר ‏הוא המניע הראשון. וכבר אמר הכתוב במעשים שהם למניע הראשון, באמרו (ישעיה י' ט"ו) ‏היתפאר הגרזן על החוצב בו אם יתגדל המשור על מניפו כהניף שבט את מרימיו כהרים מטה לא ‏עץ. והבאתי אלה השבושים בסוף אלה הדעות, שלא יפגשום קצת התלמידים ויתבלבלו:‏
Nota essencial — a escolha e o Primeiro Motor. Aqui estão dois argumentos que atravessaram a história da filosofia. Primeiro: “só vemos ação a partir de quem escolhe” — a matéria inerte não decide nem cria; toda ação genuína pressupõe uma vontade. Logo, por trás da ordem do mundo há um Criador que quer, não um acaso de partículas. Segundo: a cadeia das causas. Saadia não nega que o fogo queime ou a água nutra — a natureza age de verdade. Mas são causas segundas: a faca corta, mas a mão a maneja; o fogo queima, mas o ar o move, e o Criador move o ar. D’us é o Primeiro Motor que opera através da natureza (cf. o ensaio “D’us e a natureza”). Por isso a Escritura: “gloriar-se-á o machado contra quem com ele corta?” (Yeshayahu 10:15) — a ferramenta funciona, mas o mérito é de quem a maneja.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A matéria como efeito, não como causa

As teorias dos “quatro elementos” e da “matéria-prima” tentam encerrar a explicação do mundo dentro da própria matéria. Saadia mostra o impasse: a matéria que observamos é sempre composta, organizada e mutável — e isso é precisamente o que pede uma causa. Querer que a matéria se explique a si mesma é como pedir que o efeito seja a sua própria origem. Os comentadores notam o rigor: não se trata de negar a física, mas de ver que a física não se basta.

Onde há ordem, houve escolha

O argumento mais fino é o da vontade: só conhecemos “ação” a partir de quem escolhe. A matéria não delibera; partículas não “decidem” formar um olho ou uma estrela. A ordem do mundo, portanto, aponta para um agente que quer — não para um acaso cego. É a intuição que reaparece em toda a tradição racionalista, do Rambam adiante.

D’us através da natureza

E há aqui um equilíbrio importante: Saadia não diz que o fogo não queima. A natureza age — mas como instrumento. A faca corta de verdade; e, no entanto, a ação é de quem a maneja. Assim, reconhecer as leis naturais não afasta de D’us: revela-O como o Primeiro Motor que age por meio delas. A ciência descreve os instrumentos; a fé reconhece a Mão.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado I, capítulo 3 (segmentos 17-18), na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Esta parte cobre a sexta teoria (os quatro elementos) e a sétima (elementos e matéria-prima). Os trechos mais técnicos foram condensados (marcados com “...”), preservando-se os argumentos centrais — entre eles a “ação só de quem escolhe” e o Primeiro Motor. Acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. O capítulo 3 prossegue (o acaso, a eternidade do mundo, o ceticismo). Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado I · A criação do mundo · Parte VII

Contra as teorias rivais (V): os céus e o acaso

מַאֲמָר רִאשׁוֹן · ג׳ (המשך)

Restam duas teorias que dispensam um Criador com propósito: a de que os céus eternos seriam os agentes de tudo, e a de que o mundo surgiu por acaso. Contra esta última, Saadia ergue um argumento que atravessaria os séculos: uma casa não se monta sozinha — a ordem não nasce do acaso.

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A oitava opinião é a de quem diz que os céus são os que fazem todos os corpos, supondo-os eternos e não pertencentes aos quatro elementos, mas a uma “quinta substância”. Quando objetam com o calor do sol, responde que o sol não é quente em si, mas aquece o ar pelo atrito do seu giro; e prova que os céus são uma quinta natureza porque o seu movimento é circular — ao contrário do fogo e do ar, que sobem, e da terra e da água, que descem. Mas ele errou de modo claro. Pois o movimento natural do próprio fogo também é circular, como se vê nos céus, que são fogo puro; e o “subir” do fogo é apenas acidental, assim como a pedra lançada para cima acaba por descer ao seu lugar. Vede como, por essa dúvida frágil, este homem se obrigou a crer numa “quinta substância” que não se concebe, e a atribuir ao ar o calor do sol, que é sensível! Fugiu de “uma coisa não de outra coisa” por nunca ter visto tal coisa — e crê numa “quinta natureza” que tampouco viu. Ficam-lhe as doze objeções anteriores, e mais quatro. E respondo ainda ao que alegou da eternidade dos céus: pois vemos os seus movimentos variarem (uns em relação a outros, trinta vezes, trezentas e cinquenta e cinco vezes, e mais) — e o que varia tem um limite; e cada dia que passa é um acréscimo ao que já passou e um decréscimo do que falta — e o que sofre acréscimo e decréscimo tem a força limitada, e o limite implica que a coisa é criada. Logo, os céus são criados, não agentes eternos. E os livros dos profetas dizem que os céus nada fazem por si, e que todas as suas obras são do nosso Criador: “há, porventura, entre os ídolos vãos das nações, algum que faça chover? Ou darão os céus as chuvas? Não és Tu, ó Eterno, nosso D’us ..., pois Tu fizeste todas estas coisas?” (Yirmiyahu 14:22); “Eu fiz a terra ...; as Minhas mãos estenderam os céus, e a todo o seu exército dei ordem” (Yeshayahu 45:12).
‏והדעת השמינית דעת מי שאומר, כי השמים הם הפועלים את הגשמים, והוא משים ‏אותם קדמונים, ואינם מאלה הארבעה טבעים; אך הם מדבר חמישי. וכאשר ישיבו עליו מחום ‏השמש, הוא אומר כי אין עצמה חם אבל היא מחמימות האויר מרב סבובה ויגיע אליו חומו. ואומר ‏זה, מביא ראיה על השמים שהוא טבע חמישי, מפני שהוא רואה תנועתה עגולה; בהפך תנועת ‏האש או האויר אשר הם למעלה; והפך תנועת העפר והמים אשר הם למטה. וכבר טעה טעות ‏מבוארת, במה שהביא ראיה ממנו, ובמה שהביא ראיה עליו. ואני מבאר הכל. ואומר: כי אופני טעותו ‏במה שהביא ראיה מן השמים, כי אלו היתה אש היתה תנועתה למעלה, כאשר אנחנו אומרים כי ‏תנועת האש עצמה הטבעית היא הסבוב, והראיה על זה תנועת השמים אשר היא אש גמורה, ‏כאשר התבאר לנו מתנועת השמש המוחשת, אך זאת התנועה שתראה לאש למעלה, היא מקרית, ‏בעבור שתצא מעגלת האויר, וכאשר תצא מעגלת האויר ותגיע אל מוצאה, תשתנה תנועתה ‏הסבובייה. וזה כמו האבן אשר אין לה תנועה במוצאה; אבל היא שוקעת, וכאשר ישליכוה למעלה ‏תתנועע למטה, עד שתצא מעגלת האויר, וכאשר תצא, ממטה יראה טבעה שאין לה תנועה. וכאשר ‏נראה האבן אשר אין לה תנועה, מתנועעת בהכרה עד שתגיע אל מוצאה, תהיה האש אשר יש לה ‏תנועה סבובייה יותר קרובה להבנתינו, שתתנועע תנועה זולתה, עד שתגיע אל מוצאה. הלא תראה ‏כי האיש הזה, בעבור זה הספק החלוש, חייב את נפשו להאמין בדבר חמישי שאיננו מושכל, ובא ‏ליחס חום השמש שהוא מוחש אל האויר, לא אל עצמו. וזה תמה מעצתו שישים הברור ספק, ‏והספק ברור קיים, ויברח מהיות דבר לא מדבר, מפני שלא ראה כמוהו, והוא מאמין בטבע חמישי ‏ולא ראה כמוהו. ויתחייב עוד בהפסד אמונתו, שעצם השמים יש לו תכלית, וכחו אין לו תכלית, ‏ובעבור זה אינם אצלו כלים, וזה תחלת מה שהקדמנו לסתור דבריו, ושאר השנים עשר מאמרים ‏הקודמים. ועם כל זה אשיב עליו במה שטען מקדמות השמים, הד' פנים אחרים. תחלתם סדור ‏הגלגלים, והוא שהדבר הקדמון לא תהיה קצתו יותר ראוי במעלה החשובה מקצתו האחרת, ואם ‏הפנימי הוא החשוב או החיצון, הוא מחוייב הטענה. וכן המאמר בסדור הכוכבים, כי קצתם בגלגלים ‏ורובם בגלגל החיצון. והשניים מהשיגנו השמים בעינינו. וידוע שעינינו אינם משיגים כי אם מה שהוא ‏מאלה הארבעה יסודות, כי טבעיהם מתחברים עם טבעי עינינו, אבל אם יהיה יסוד חמישי נמצא אין ‏לו בעינינו דבר דומה שידבק בו, ויראנו החוש, אלא אם יחשוב שיש בנו גם כן מאומה מן הטבע ‏החמישי, וזה שאינני חושב. והשלישיים מהתוספת והחסרון. והוא, שכל יום חולף מהזמן לגלגל, ‏הוא תוספת על מה שחלף וחסרון מן העתיד, ומה שהוא סובל התוספת והחסרון, יש תכלית לכחו, ‏ותכלית מחייבת החדוש. ואם יתגבר חושב ויחשוב כי חליפת יום מן הימים, לא תוסיף על מה ‏שחלף ולא תחסיר ממה שעתיד, נקח המציאה והנראה. והרביעיים מהתחלפות התנועות. והוא, ‏שהכח אשר אין לו תכלית לא יתחלף בעצמו, וכאשר ראינו תנועות השמים מתחלפות, עד שקצתם ‏נערכים אל קצת על שלשים כפל, ועל שלש מאות וחמישים וחמש, ועל יותר מזה, ידענו שכל א' ‏מהם יש לו תכלית. וביאור זה, שהתנועה המזרחיית לגלגל הגדול, תראה סובבת בכל יום ולילה ‏פעם אחת. והתנועה המערבית לכוכבים הקיימים, תנוע בכל מאה שנה שיעור מדרגה אחת. ועל ‏הערך הזה לא תסוב סבוב שלם כי אם באלף שנה, יהיו ימים י"ג אלף אלפים וק' מ' אלף יום. אלה ‏כפלי התנועה המזרחיית, מלבד מה שיש בין זה מן התנועות. ומה תאמר בכח שתעבור תנועתו זה ‏המעבר, איך לא יהיה לו תכלית? ואלה הי"ז פנים על האומר זה, מלבד טענת האותות והמופתים. ‏ואמרו הספרים כי השמים לא יעשו דבר וכל מעשיהם הם ליוצרינו יתברך, הוא אמרו (ירמיהו י״ד:כ״ב ‏כ"ב) היש בהבלי הגוים מגשימים ואם השמים יתנו רביבים הלא אתה יי' אלהינו ונקוה לך כי אתה ‏עשית את כל אלה, ואמר עוד (ישעי' מ"ה י"ב) אנכי עשיתי ארץ ואדם עליה בראתי אני ידי נטו שמים ‏וכל צבאם צויתי:‏
Nota — os céus não agem por si. Esta oitava teoria — os corpos celestes como agentes eternos de tudo — apoia-se na astronomia do século X (a “quinta substância”, os movimentos circulares das esferas), hoje superada. Não se prenda ao modelo; veja o argumento: também os céus são finitos e mutáveis — os seus movimentos variam, e cada dia “acrescenta ao passado e subtrai do futuro” —, e o que muda e se mede tem um limite; logo, são criados, não eternos. E, sobretudo, os céus não “fazem” nada por si: a chuva, as estações, os astros — tudo é obra do Criador (Yirmiyahu 14:22). A natureza celeste é instrumento, não autora.
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A nona opinião é a do acaso. Essas pessoas pensaram que a sua razão lhes ensinava que os céus e a terra vieram por acaso — sem a intenção de quem os intencionasse, sem agente e sem quem escolhesse. Imaginaram: corpos de natureza desconhecida juntaram-se neste lugar e comprimiram-se; o que neles era leve subiu e tornou-se céus e estrelas; o que era pesado afundou; o úmido boiou; e o ar os cercou e equilibrou. E não há dúvida de que estes são mais insensatos do que todos os anteriores. Ficam-lhes as doze objeções já dadas, e mais três: Primeira: o que vem “por acaso” só se diz por contraste com o que é “por natureza” o regular; ora, se tudo fosse por acaso, o que seria por natureza? O acaso é parasita da regularidade. Segunda: as coisas que ocorrem por acaso são poucas raras; se todos os corpos — a vasta e ordenada realidade — fossem essa rara exceção, o que seria, então, a regra? Terceira: o que ocorre por acaso não tem permanência, pois não tem raiz que o sustente; se tudo carecesse de permanência, o que seria permanente? Estas — que D’us se compadeça! — são coisas corrompidas, que não resistem à prova. E pergunte-se-lhes: de onde vieram esses corpos? Que os fez deixar um lugar e ir a outro? E mais: se dizem a verdade sobre o acaso, então que nos mostrem ser possível que as partes de uma casa — pedras e madeiras — se juntem por si mesmas, se talhem e se ajustem até virar uma casa; ou que as partes de um navio — madeiras e ferro — se unam e se firmem por si e venham a navegar o mar. Mas isto é o que jamais nos mostrarão como observado, nem o afirmariam sem serem tidos por tolos. Somadas estas sete respostas às anteriores, são dezenove — além do que se confirma pelos sinais e prodígios.
‏והדעת התשיעי דעת המקרה. אלא האנשים חשבו כי שכלם הורה אותם שהשמים והארץ ‏היו במקרה, בלא כוונת מכוין ולא פועל ולא בוחר ולא דומם. וכאשר שאלו אותם איך יעבירו זה על ‏דעתם, אמרו כי גשמים לא יודע מה הם, נקבצו אל המקום הזה ונדחקו ונלחצו, ומה שהיה מהם קל ‏מהר לעלות למעלה, ושב שמים וכוכבים, ומה שהיה מהם כבר שקע למטה, וצף עליו הלח והתמצע ‏בינם הרפה, וסבב אותם הוא האויר, והשוה אותם והעמידם. ואין ספק שאלה יותר סכלים מכל אשר ‏קדם זכרם. ויתחייבו מהתשובות עליהם השנים עשר פנים אשר הקדמנום, ומתחייבים עוד אלה ‏השלשה פנים אשר אני מספר אותם. תחלתם שהדבר הבא במקרה ייוחס אל דבר טבעי, ויהיה ‏הדבר ההוא בטבע, וזה במקרה, ואם יהיה כל דבר במקרה מה הוא הדבר שיהיה בטבע? והשני כי ‏הדברים הנופלים במקרה מעטים בשיעורם, ואם יהיו כל הגשמים הם הדבר המעט, א"כ מה הוא ‏הדבר הרב? והשלישי שהדבר הנופל במקרה אין לו קיימא, מפני שאין לו שורש הולך עליו, ולא ‏משך שמכלכל אותו ההתמדה, אם יהיה כל דבר אין לו קיימא, מה הוא אשר לו קיימא? ואלה, ‏ירחמך האלהים! דברים מופסדים, והויות שאין לחם קיימא בעת המבחן והנסיון. וכאשר בארתי ‏טעותם במאמרם במקרה, כן אבארהו בשאר מה שסברו וחשבו. ואומר, כי מאמרם כי הדברים באו ‏ונקבצו ונדחקו יראה לנו מאין באו, והם יודעים מקום שהיו בו זולת זה אשר קצתם מקום לקצתם, ‏ומאי זה דבר ברחו, ואיזה דבר היה סבת עזיבתם לראשון והליכתם אל השני. ואחר כן יאמרו איך ‏היו מקודם זה הקבוץ, העל מה שהם או על זולתו? ואם הוא ענינם בהפך מה שהם עליו, איך ‏חושבים האיכות ההיא? ואחרת מאולתם, אמרם כי כל דבר מזהיר חלק, עלה מהם למעלה, מורה ‏אמרם זה, על שהם סוברים שהכוכבים כשיעור החול או הבדולח אשר ימצא בארץ, ולא ידעו כי א' ‏מן הכוכבים ככל הארץ כפלים רבים, והם רחוקים מזה, והיא מהם והדומה לו מרומם. אחר כן ‏אומר, ואם הם אומרים אמת על המקרה, ימציאוהו שיתכן התחברות חלקי בית מאבנים ועצים ‏מעצמם, ויפסלו ויתרככו עד שיהיה בית, או יתחברו חלקי הספינה מעצים וברזל ויתחזקו מאליהן ‏ויבאו בים. וזה מה שלא ימציאונו נראה, ולא יכשירוהו במאמר שלא יחשבו לפתאים. וכאשר תחבר ‏אלה השבעה תשובות אל מה שקדם, תהיינה תשע עשרה; חוץ ממה שנתברר באותות ובמופתים:‏
Nota essencial — a ordem não nasce do acaso. Aqui está um dos argumentos mais célebres e atuais de Saadia. Contra a ideia de que o mundo surgiu por puro acaso, ele responde com três golpes: o “acaso” só faz sentido por contraste com o regular (se tudo é acaso, nada é regra); o acaso produz o raro, não o vasto e ordenado; e o acaso não tem permanência. E coroa com a analogia inesquecível: ninguém jamais viu as pedras e as madeiras juntarem-se sozinhas e formarem uma casa, nem as peças de um navio montarem-se por si e zarparem. Onde há ordem funcional — uma casa, um navio, um olho, um cosmos —, houve um projeto. É a intuição do argumento do design (cf. “O design na natureza”), formulada séculos antes dos debates modernos sobre acaso e finalidade.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A ciência envelhece, o argumento fica

A teoria dos “céus eternos” veste-se da astronomia do seu tempo, e por isso soa antiga. Mas o leitor atento separa o modelo do raciocínio: Saadia mostra que mesmo os céus mudam e se medem — logo, não são eternos. A mesma lógica que aplicou à terra aplica-se ao alto: o que tem limite e variação teve um começo. Nenhuma parte do cosmos escapa à condição de criatura.

Por que o acaso não explica

Contra o acaso, Saadia é cirúrgico. O acaso é, por definição, a exceção rara dentro de uma ordem; transformá-lo na regra universal é uma contradição. E a ordem que vemos — estável, funcional, repetida — é justamente o oposto do que o acaso produz. Os comentadores apreciam o rigor: não basta dizer “foi por acaso”; é preciso explicar de onde veio a ordem, e o acaso, por natureza, não a fornece.

A casa que não se constrói sozinha

A imagem da casa e do navio tornou-se clássica, e por boa razão: ela apela à experiência de todos. Jamais vimos materiais organizarem-se sozinhos numa estrutura que funciona. Quando encontramos ordem que serve a um fim, inferimos um autor — não por fé cega, mas por bom senso. É o mesmo passo que a tradição racionalista dá do mundo ao seu Criador.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado I, capítulo 3 (segmentos 19-20), na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Esta parte cobre a oitava teoria (os céus eternos) — cujos pormenores de astronomia medieval foram condensados (marcados com “...”) — e a nona (o acaso), traduzida mais de perto, incluindo a analogia da casa e do navio. Acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. O capítulo 3 conclui-se na parte seguinte (a eternidade do mundo e o ceticismo). Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado I · A criação do mundo · Parte VIII

A eternidade do mundo, o relativismo e o ceticismo

מַאֲמָר רִאשׁוֹן · ג׳ (סוֹף)

Saadia chega às últimas — e mais filosóficas — das treze teorias: a eternidade do mundo (com a autorrefutação do empirismo estrito), o relativismo (“a verdade é o que cada um crê”) e o ceticismo radical, que se mostra insustentável. Com isto, fecha-se a refutação, e a verdade fica firme: o mundo foi criado, do nada.

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A décima opinião é a doutrina conhecida como a da eternidade do mundo. Os seus adeptos dizem: todas as coisas sempre foram como as vemos — a terra, os céus, as plantas, os viventes —, sem começo nem fim. E a sua maior alegação é que só creem naquilo sobre que cai a sua vista, e os sentidos não lhes captaram, nestes corpos, começo nem fim. Mostrarei que estes são mais insensatos do que todos os anteriores. O início do seu erro é este: depois de afirmarem que “só admitimos o que cai sob os nossos sentidos”, admitiram o que não caiu sob os sentidos! Pois não disseram apenas “não vimos o começo nem o fim dos corpos” — o que seria verdadeiro quanto ao sentido —, mas dizem “já nos ficou claro que os corpos não têm começo nem fim” — e isto é algo que não se pode ver não se vê a eternidade. E, se recuam para alegar que o conceberam pela razão, contra o sentido, abandonam a raiz da sua própria alegação e admitem um conhecimento que não é sensível. E eles próprios se contradizem: cada um crê que as cidades por onde andou, os atos que fez, as pessoas que viu — já distantes dos olhos, ou já mortas — são verdadeiros, embora não os veja agora, porque os conhece pela razão, que reteve a sua forma. E os sentidos não se sobrepõem (a vista não capta o som, o paladar não capta o tato): só a mente reúne todos esses dados. Pergunte-se a um deles, ao ver alguém, “viste-o?”; ele diz “sim” — mas, se a resposta é do sentido, o sentido não fala; e se é da fala, a fala nada viu: prova de que há um conhecimento que o sentido guardou e a fala exprimiu. Ademais, eles temem o que é de temer (a casa que ameaça ruir) e esperam o que se espera (a semeadura, o nascimento) — o que mostra que se conduzem por conhecimento, não só pelo sentido, pois o sentido não alcança a esperança nem o temor; e tratam-se quando adoecem, confiando no que sabem. Assim os conduzimos da crença no sensível à crença no que lhe é adjacente, e adiante, até completar o conhecimento — e então admitem que as coisas são criadas. E a Escritura uniu o conhecimento à razão, ao sentido e à experiência: “não prova o ouvido as palavras, como o paladar prova a comida? Com os anciãos está a sabedoria, e na longura de dias, o entendimento” (Iyov 12:11-12).
‏ודעת העשירי הדעת הידוע בקדמות. והוא, דעת מורכב מצלעות רבות. אפשר ששתפוהו ‏עם ההיולי, ואפשר ששתפוהו עם הארבעה טבעים, ואפשר ששמיהו נפרד לבדו. ואומרים בעליו: כי ‏הדברים כלם לא סרו על מה שאנחנו רואים מהארץ והשמים והצמח והחיים ושאר המקרים, אין ‏להם תחלה ולא סוף. והגדולה שבטענתם, שהם אין מאמינים אלא במה שיפול עליו ראותם, ולא ‏השיגו חושיהם לגשמים האלה תחלה ולא סוף. ואלה, ירחמך האלהים! אשר אני חושב, שבבני אדם ‏מה שיחשב שהם מלאים, המתוכח עמהם שלא תתקיים עליהם טענה. ואבאר שאלה יותר סכלים ‏מכל מה שקדם זכרו, ובאלהים אעזר ואביאם במטה הויכוח, עד שאביאם אל ההודעה בידוע. ואומר ‏כי תחלת טעותם, שאחר שאמרו שלא נודה כי אם במה שיפול עליו חושינו, הודו במה שלא נפל עליו ‏חושם, כי לא אמרו: לא ראינו תחלת הגשמים וסופם, ויצדקו על חושם, אך הם אומרים; כבר ‏התברר לנו שאין להם תחלה ולא סוף, וזה ענין לא יתכן שיראוהו בחוש. וכאשר ישובו לטעון שהם ‏השכילוהו בשכל, הקשה על המוחש, יעזבו שורש טענתם, ויודו בידוע בלתי המוחש אך אני מוצא ‏ואתם סותרים דבריהם, שכל אחד מאמין שהמדינות אשר הלך בם, והמעשים אשר עשה, ובני אדם ‏שראה, והחשבון אשר חשב, וכבר רחקו מעיניו או מתו, אמת, והוא אינו רואה אותם בחושו, מפני ‏שרחקו ממנו, אבל הוא יודע בשכלו אשר קבל צורתם דמותם ונטבעו אצלו. אבל אני רואה אותם ‏סותרים דבריהם, אחר שישמעוהו ויראוהו. והוא, שחוש הראות אין לו ממשלת על השמע, וחוש ‏הטעם אין לו ממשלת על המשוש. וכאשר יגיעו חושי האדם לדבר שיש לו מראה וקול וטעם ומשוש, ‏אם לא יהיה הנה מדע תקבץ בו הנפש כל אלה המוחשים, לא תגיע אליהם. ואחר כן אני מוצא כל ‏אחד מהם כשהוא רואה אדם, ואחר כן ישאלוהו: הראית אותו, אומר כן, ואם המענה הוא לחוש, הוא ‏איננו מדבר, ואם המענה לדבור, הוא לא ראה מאומה. וזאת ראיה שיש הנה מדע צפנהו חוש ‏הראות והליץ בעדו הדבור. ובאמרם כי אין מדע כי אם מה שיפול עליו החוש, הם עוזבים זה ‏השרש. והוא שהם כשאין להם לקיים דבר כי אם בחוש, אם כן אין להם גם כן לבטל כי אם בחוש, ‏ומי יתן שיאמרו באי זה חוש בטלו כל מדה, בלתי המוחש, בראות או בשמע או בזולת זה; ובמצאנו ‏שהם יראים מהדברים שיש לירא מהם, כמו הבית הרעוע שיפול עליהם, ויקוו הדברים המקווים כמו ‏הזרע והלידה, ממה שיורה כי כלם מתנהגים במדע ולא בחוש לבד, כי אין החוש נופל על תקוה ‏ויראה. ובמה שאנחנו רואים אותם שהם מתרפאים בעת החולי וכ"ש ברפואות הנמאסות, אשר הם ‏מרגישים בצערם, והם חושבים שהם עושים בטבעם, ראיה שאינם סומכים על החוש, כי אם על ‏המדע. ובשאלנו אותם על השלג, אשר עינינו רואות אותו יורד מן האויר, אם הוא חלק מן האויר, ‏יתבאר ענינו שאם ישימוהו חלק מן האויר יבערו. ואם ישימוהו חלק מן המים ויאמרו, אבל האויר ‏הקפיאו, כבר הודו בידוע ועזבו המוחש. וכ"ש אם יודו בהיותו אד קודם היותו מים, ואי זה סבה ‏העלתהו מן הארץ, או היתה לסבה ההיא סבה אחרת, כ"ש שכבר הודה במה שיש אחר המוחש. ‏ואנחנו לא נסיר שוטינו מעליהם, עד שנביאם מהאמונה במוחש אל האמונה במה שסמוך לו. ואם יש ‏שם שלישי, אל מה שסמוך, למה שסמוך לו. ואם יש שם רביעי אל מה שסמוך, למה שסמוך לו, וכן ‏לעולם, עד אשר ישלם המדע, ונודהו בו על חדוש הדברים. ואלה השמונה פנים הם חייבים בהם עם ‏השנים עשר הראשונים, רצוני לומר: החדוש וארבע ראיותיו, וארבע ראיות המחדש, וד' דאיות היות ‏דבר לא מדבר, ויהיו עשרים. ומי שיש מהם שחבר ההיולי אל מאמרו, יתחייב במה שיש עליו מן ‏התשובה. ומי שיש מהם שחבר הטבעים אל מאמרו, יתחייב מה שיש עליהם מן התשובות. ‏והספרים כבר חברו הידוע אל המושכל ואל המוחש ואל הטבע, באמרו (איוב י"ב י"א) הלא אזן מלין ‏תבחן וחיך אכל יטעם לו. (בישישים חכמה וארך ימים תבונה.)‏
Nota — a eternidade do mundo, e os limites do empirismo. Esta é a teoria mais célebre que a tradição enfrentou: a eternidade do mundo (a posição que o Rambam discutiria longamente). Os seus adeptos diziam crer “só no que os sentidos captam”. Saadia mostra a autocontradição: não se vê a eternidade — afirmá-la já é ir além do sentido. E, num belo argumento epistemológico, demonstra que ninguém vive só pelos sentidos: cremos no que a memória guarda (lugares e pessoas ausentes), no que a razão infere, no que esperamos e tememos (o sentido não alcança esperança nem medo). É a mente, não o sentido isolado, que conhece — exatamente como ensinava a Introdução (as fontes do conhecimento).
2
A décima primeira opinião é a dos obstinados: dizem que as coisas são, ao mesmo tempo, eternas e criadas — pois, para eles, a verdade das coisas não passa daquilo que as opiniões dizem a verdade é o que cada um crê. São mais insensatos do que todos. O primeiro erro: as coisas não existem por causa das opiniões; as opiniões é que existem por causa das coisas, para entendê-las como realmente são — e estes inverteram tudo, pondo as coisas a seguir as opiniões. Pensam que, se dois discordam sobre algo, então a coisa tem duas verdades. Mas isso leva a absurdos: teria dez verdades por dez crentes, e ganharia ou perderia uma verdade a cada crente que surgisse ou desistisse; e, se todos a esquecessem, não teria verdade alguma. E o mentiroso que diz de um vivo “ele está morto” conferir-lhe-ia a “verdade da morte”! E a mesma cor vermelha, vista por dois — um crendo-a branca, outro preta —, seria branca e preta ao mesmo tempo, anulando-se o seu vermelho real. E a Escritura disse de quem pensa que a coisa segue a sua crença: “ó tu, que te despedaças na tua ira — será a terra abandonada por tua causa?” (Iyov 18:4).
‏והדעת האחר עשר הוא דעת בעלי העקשות. אלה שמים הנמצאות, קדמוניות מחודשות ‏יחד, כי אמתת הדברים אצלם אינה אלא כפי הדעות, והם יותר סכלים מכל שקדם זכרו. ותחלת מה ‏שאבאר מסכלותם, כי הדברים לא היו בעבור הדעות, אבל הדעות היו בעבור הדברים שיבינום על ‏אמתם, והפכו אלה הכסילים הדבר, ושמו הדברים הולכים אחר הדעות. וכבר הקדמנו בפתיחת ‏הספר הזה דברים קצרים בענין הזה, והנחתי דבר אחר בו אומר אותו הנה. והוא, שאלה חושבים כי ‏הדבר כשחולקים בו שנים. יאמינהו האחד על דרך אחת, ויאמינהו השני על דרך אחרת, יתחייב ‏שיהיה לדבר הוא שתי אמתות, ומאמרם זה מביא אל דרכים רבים מן ההפסד, ואזכור מהם שבעה. ‏אומר, כאשר מחייבים שתי אמונות, כן יהיו חייבים שהאמונות מחייבות לדבר עשרה אמתות. ואחר ‏כן התחייבו, שעצם הדבר אשר יש לו עשר אמתות בעבור עשרה מאמינים, שיהיה בכל עת שיראה ‏אדם אחר לדבר ההוא אמונת אחד עשר, תוסיף אמת אחת באמתותיו, ושיהיה בכל עת שתבטל ‏אצל אדם מן העשר אמונות, שתבטל בזה אחת מאמתותיו, ושלא יפסקו על דבר בעצמו כמה יש לו ‏מן האמתות, כי לא פגשו כל בני אדם וידעו כמה יש לו אצלם מפני האמונות. ויתחייבו עוד, שאם בני ‏אדם יהיו טרודים שלא יעיינו באי זה דבר ולא האמינו לו ענין כלל, שיבטל הדבר ההוא ולא תהיה לו ‏אמת כלל. וכאשר יתחייב, כי השתי דעות שהם בשתי ראיות, מקנים הדבר הא' שתי אמתות, ‏יתחייב כמוהו בשתי הדעות, שהאחד מהם בראיות והשני בזדון, רוצה לומר: שמזידים בו לומר ‏השקר, שיקנו הדבר שתי אמתות, ויהיה כזב, מי שכזב על פלוני החי ואמר שהוא מת, מקנהו ‏אמתת המות, כאשר הקנהו צדק, מי שצדק עליו החיים. וכאשר יתחייב זה בשני מאמרים האחד ‏צדק והאחד כזב, יתחייב גם כן בשני מאמרים שניהם כזב, ויהיה אז המראה האדום, כשיראו אותו ‏השנים, ומאמין האחד שהוא לבן, והשני שהוא שחור, יהיה המראה ההוא לבן ושחור יחד, ותבטל ‏אמתתו אשר היא האודם. חוץ ממה שהם חייבים במה שכתבנוהו מאמתות הדברים בפתיחת ‏הספר הזה, ומן הראיות הנזכרות בחדוש. ואמר הכתוב במי שחשב שהדבר הולך אחר אמונתו ‏ונעתק עם מחשבתו, (איוב י"ח ד') טורף נפשו באפו הלמענך תעזב ארץ:‏
Nota essencial — contra o relativismo. A décima primeira teoria é o relativismo: “a verdade é apenas o que cada um crê”. Saadia o desmonta com uma inversão certeira: as coisas não existem para servir às opiniões — as opiniões é que devem ajustar-se às coisas. Se a crença determinasse a verdade, a mesma cor seria branca e preta ao mesmo tempo, e um vivo seria “morto” por alguém o afirmar. A realidade é o que é, independentemente do que pensamos dela. É a mesma tese da Introdução: “o sábio ajusta a sua opinião à realidade; o tolo pensa que a realidade segue a sua opinião”. Um antídoto atemporal contra o “cada um tem a sua verdade”.
3
A décima segunda opinião é a da suspensão do juízo: pensaram que o correto é o homem suspender e não crer em nada, pois a investigação estaria cheia de dúvidas, e a verdade, como um relâmpago, não se deixaria apanhar. São mais insensatos do que os obstinados — pois estes ao menos juntaram falsidades à verdade, enquanto aqueles se abstêm da verdade e da falsidade juntas. Refutação: se a “verdade” deles é a suspensão, então têm de suspender também a própria suspensão, e não decretá-la verdadeira — autocontradição. E o próprio ato de argumentar para convencer outros a suspender já os faz sair da suspensão e afirmar pelo conhecimento. Além disso, eles recorrem à razão quando precisam agir, como recorrem à vista quando precisam ver — o que anula a suspensão e confirma o conhecimento como se confiam os sentidos. E contratam o artesão perito e o médico experiente escolhendo o que sabem ser melhor; e planejam, em tudo o que tem um fim, que esse fim seja bom; e louvam os que fazem o bem e censuram os que fazem o mal — tudo isto anula a suspensão e confirma as verdades. Como diz a Sabedoria: “entendei, ó simples, a prudência; e vós, insensatos, sede de coração entendido” (Mishlei 8:5).
‏והדעת השנים עשר דעת העמידה. אלה האנשים חשבו, כי האמת הוא שיעמוד האדם ‏ולא יאמין בדבר, כי אמרו: כי העיון רב ספקות, ואנחנו רואים, כמו הברק הלוהט, לא יאצר ולא ‏יתפש, והראוי שנעמוד מהאמין. ואלה יותר סכלים מאנשי העקשות, מפני שהם חברו אל האמתת ‏הנמצאות שקרים, ואלה עמדו מהאמת והשקר יחדיו. וראיתי לבאר מה שיש עליהם בזה להשיבם ‏בו אל האמת, כי הם יתוקנו בדבר עמהם בדרך העיון, אם לא טבעו באולת שנתיאש מהם, כמו הכת ‏אשר אחריהם ואומר, אם תהיה אצלם אמתת כל דבר העמידה ממנו, הם חייבין שיעמדו מן ‏העמידה, ולא יגזרו עליה שהיא האמת, ולא דנתי עליהם בזה עד שדנתי בו על עצמי, כי כאשר ‏האמנתי כי המדע אמת, האמנתי שבו ידעתי שהוא האמת. ואחר כן אומר, כי דבריהם עם ‏המדברים עמם לחייבם בעמידה, יוצאים בזה ממה שטענוהו, ובאים להצדיק במדעים, ולולי זה לא ‏היו חושבים לקיים העמידה. ואומר עוד, כי רוצם עמנו אל שכלם, בעת הצרך אל ההנהגה; כאשר ‏הם רצים אל ראותם, בעת שהם צריכים לראות, ואל שמעם, בעת שהם צריכים לשמוע, יבטל ‏עמידתם ויאמת המדעים, כמו החושים. ואומר עוד: כי מה שהם שוכרים האומן הבקי והרופא ‏המומחה, והמשער המופלג, ממה שמורה כי לא יאמינו בענין העמידה, ואלו היה הדבר כן, היו ‏לוקחים כל מי שימצאוהו. ואומר עוד: כי זכרם מה שהיה מן הפעלים, ומה שקרה להם מן המקרים, ‏וכל שכן אם יגזרו עליו העדות, ממה שמבטל העמידה ויקיים האמתות. ואומר עוד: כי השתמשם ‏במחשבה בכל דבר שיש לו אחרית; מבקשים שתהיה אחריתו טובה ולא רעה, בטול העמידה והכנע ‏אל האמתות. ואומר עוד: כי מה שהם משבחים המטיבים, ומגנים המריעים, וכן שהם מצדיקים ‏הצדיקים, ומכזיבים הכוזבים, ממה שמבטל העמידה ומקיים האמתות. ואלה הארבעה עניינים עם ‏מה שקדם בפתיחת הספר, יעירום על אמתת האמת, ונורם בו על חדוש הדברים, וכמו שצותה ‏החכמה ואמרה (משלי ח' ה') הבינו פתאים ערמה וכסילים הבינו לב:‏
4
A décima terceira opinião é a dos completamente insensatos: além de negarem os conhecimentos da razão, negam também os sentidos, dizendo que nada é verdadeiro — nem o que se conhece, nem o que se percebe. São os mais insensatos de todos: se lhes perguntam “pode a coisa ser eterna-e-não-criada, ou criada-e-não-eterna, ou ambas, ou nenhuma?”, dizem “sim” a tudo; e o mesmo para “um homem ser homem-e-não-jumento, ou jumento-e-não-homem, ou ambos, ou nenhum”. Com quem a tolice ou a obstinação levou a tal ponto não há como dialogar, nem proveito em discutir — pois a toda prova que se lhe traga, ele a nega e se agarra à teimosia. Mas o modo de tratá-los, que D’us se compadeça, é este: que tenham fome até se queixarem da fome, sede até a sede os alcançar, e recebam golpes dolorosos até gritarem. Quando confessam a dor, já admitiram o sensível; quando pedem comida, bebida e descanso, já admitiram o que é adjacente ao sensível. E, daí, elevamo-los de coisa em coisa até o conhecimento completo, mostrando-lhes que as coisas são criadas. E, se nem assim admitirem, caíram no desespero da correção — e sobre eles diz a Escritura: “ainda que pisasses o insensato com a mão de pilão, no almofariz, ... não se apartaria dele a sua insensatez” (Mishlei 27:22).
‏והדעת השלשה עשר דעת הסכלים. והם העם אשר עם הכחשתם המדעים כחשו ‏המוחשות עוד, ואמרו: כי אין אמת לשום דבר כלל, לא לידוע ולא למוחש. והם יותר סכלים ממה ‏שקדם זכרם, כי הם כאשר יאמר להם, היתכן שיהיה הדבר הקדמון לא חדש, או חדש לא קדמון, או ‏חדש וקדמון יחדיו, או לא חדש ולא קדמון, יאמרו כן. וכאשר יאמר לאחד מהם, יתכן שיהיה האדם ‏ההוא אדם לא חמור, או חמור לא אדם, או אדם וחמור יחד, או לא חמור ולא אדם, אומרים עוד כן. ‏ומי שהביאתהו האולת, או הוציאתהו העקשות אל ענין כזה, אין אופן לדבר אתו, ולא תועלת ‏בהתוכח עמו, והוא, שכל ראיה שתשוב עליהם בה, מכחישים בה ומחזיקים בעקשות ובהבהלה, ‏ובכמוהם אמר הכתוב (שם י"ח א') בכל תושיה יתגלע. ואמר עוד (שם כ"ג ט) באזני כסיל אל תדבר ‏כי יבוז לשכל מליך. ומי שמתוכח עמהם ויאמר להם: במדע אמרתם שאין מדע או באולת? אז יהיו ‏במבוכה מפני שאין אצלם לעיון דרך אמת. אך הפנים, ירחמך האלהים! בזה, שירעבו עד שיתרעמו ‏מהרעב, ויצמאו עד שיגיע מהם הצמא, ויוכו המכות המכאיבות עד שיבכו ויזעקו. וכאשר יבטאו ‏להודאה בכאב, כבר הורו במוחש, וכאשר יבקשו המאכל והמשתה והמנוחה, כבר הודו בתחלת ‏דבר שסמוך למוחש. ולא נסור מהם להעלותם מדבר אל דבר, עד שנעלם אל המדע השלם, ונורם ‏בו שהדברים מחודשים. ואם הם לא יודו בדברים אלה, כבר נפלו ביאוש הגמור מהתקן, ובם אמר ‏הכתוב (שם כ"ז כ"ב) אם תכתוש את האויל במכתש בתוך הריפות בעלי לא תסור מעליו אולתו:‏
Nota — o ceticismo é insustentável, e a conclusão. As duas últimas teorias — suspender todo juízo, e negar até os sentidos — são, para Saadia, autorrefutadas: quem suspende tudo teria de suspender a própria suspensão; e o cético radical, ainda assim, come quando tem fome, foge do perigo, contrata o médico, planeja o futuro — ou seja, vive pela razão e pelos sentidos que diz negar. A realidade (a fome, a dor) refuta-o melhor do que qualquer argumento. Com isto, encerram-se as treze teorias, e fica firme a primeira verdade: o mundo é criado, e criado do nada. As demais opiniões são apenas ramos destas — caída a raiz, caem os galhos.
5
Caberia mencionar aqui outras opiniões, além destas treze; mas não são raízes — são apenas ramos de uma raiz, ou combinações de duas ou três —, e não é preciso mencioná-las nem refutá-las. Ao expor estas treze raízes e o que as refuta, anulei com isso os seus ramos, e cortaram-se os seus galhos; e ficou firme a primeira raiz: que as coisas são criadas, e que Aquele que as criou as fez não de outra coisa — como expliquei e esclareci.
וראוי לבאר הנה דעות אחרים מלבד אלה השנים עשר, אבל אינם שרשים, אך קצתם סעיפים ‏משרש אחד, וקצתם סעיפים נקבצו משני שרשים א' משלשה, ואין צריך לזכרם הנה ולא להשיב ‏עליהם. אבל בזכרי אלה השנים עשר שרש, ובארתי השובר עליהם, בטלתי בזה סעיפיהם ונכרתו פארותם, והתקיים השרש הראשון, כי הדברים מחודשים, ושמחדשם חדשם לא מדבר, כאשר בארתי ופרשתי:

Sobre esta seção · עִיּוּן

O conhecimento é mais do que ver

Ao enfrentar a eternidade do mundo, Saadia faz uma fina lição de epistemologia: quem diz crer “só no que vê” não percebe que vive, o tempo todo, de conhecimento que excede o ver — a memória, a inferência, a esperança, o medo. Negar isso seria deixar de viver. A razão não é inimiga da experiência; é o que a organiza e completa.

A verdade não se vota

Contra o relativismo, Saadia é cirúrgico: a realidade não muda conforme as opiniões. Se bastasse crer para tornar verdadeiro, a mesma coisa seria branca e preta a um só tempo. A verdade é uma vara que mede as opiniões — não o contrário. É um dos pontos mais atuais da obra: num tempo de “cada um com a sua verdade”, Saadia lembra que há um mundo real, anterior e independente das nossas crenças.

Caída a raiz, caem os galhos

O ceticismo total, observa Saadia, não se sustenta nem por um dia: o cético age, escolhe e teme como todos. E, encerradas as treze teorias, a conclusão de todo o capítulo é uma só — o mundo foi criado, do nada. As outras posições eram apenas ramos; refutada a raiz que as alimentava, secam por si. A verdade fica de pé, agora confirmada tanto pela revelação quanto pela razão.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado I, capítulo 3 (segmentos 21-25, fim do capítulo), na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Esta parte conclui o capítulo 3 (a refutação das treze teorias): a eternidade do mundo, o relativismo e o ceticismo. Os segmentos longos foram condensados nos pormenores (marcados com “...”), preservando-se os argumentos. Acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Seguem-se ainda, no Tratado I, breves capítulos sobre o “lugar” e a conclusão. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado I · A criação do mundo · Parte IX (conclusão)

O lugar, o tempo, e por que D'us criou o mundo

מַאֲמָר רִאשׁוֹן · ד׳–ה׳

Provada a criação do mundo, Saadia responde às últimas perguntas: o que significa a Escritura dizer que “a terra permanece para sempre”; como algo pode vir “não de coisa alguma”; o que são, na verdade, o lugar e o tempo; e por que D'us criou. Com isto encerra-se o Primeiro Tratado.

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Tendo eu completado a exposição destas opiniões, das provas que cada um trouxe a favor da sua, e das objeções que recaem sobre cada uma, acrescentarei agora o que algumas pessoas poderiam ainda perguntar neste assunto.

1 “A terra permanece para sempre.” Perguntam: se as coisas são criadas tiveram começo, como pode o Sábio dizer (Kohelet 1:4) “uma geração vai e outra geração vem, mas a terra permanece para sempre”? Respondo: o Sábio não quis dizer que a terra permaneça sem fim; pelo contrário, ele pôs este dito como uma prova da sua criação. Pois, vendo nós que as origens o nascer e o perecer não se separam dela — uma geração vai e outra vem, de homens, animais e plantas, e ela assim permanece até o fim do seu mundo —, ficou-nos claro que ela é criada; porque aquilo que não se separa das coisas geradas é, ele próprio, gerado, já que a geração o abrange.

2 “Como pode algo vir não de algo?” Talvez alguém diga: como pode uma coisa vir não de outra coisa? Dizemos: se as criaturas pudessem chegar a compreender como isto se dá, não estaríamos obrigados a atribuí-lo unicamente ao Criador eterno, pois todos nós o compreenderíamos. Mas os intelectos julgaram atribuir este ato só ao Criador justamente porque não há meio de uma criatura compreender como ele é. E quem nos exige que lhe mostremos esse “como” exige que nos façamos, a nós mesmos, criadores. Antes, olhamos para isto com o nosso intelecto, sem o imaginar nem o representar pelos sentidos.

3 “O que havia no lugar da terra?” Ou talvez alguém pense no lugar da terra e diga: que coisa havia neste seu lugar antes? Esta pergunta é-lhe trazida pela sua ignorância da definição de “lugar”: ele supõe que o lugar é algo posto debaixo das coisas, e a sua alma busca um lugar para o lugar, e, não vendo nisso fim algum, fica perplexo.

וכיון שהשלמתי ביאור הדעות האלה, ומה שהביא ממנו ראיה כל א' מהם על דעתו, ומה שיתחייב לו ‏מן הטענות, אסמיך לדברים האלה, מה שאפשר שישאלו עליו קצת בני אדם בשער הזה. ואומר: כי ‏הם שואלים אם יהיו הדברים מחודשים, איך יאמר החכם (קהלת א' ד') דור הולך ודור בא והארץ ‏לעולם עומדת? ואבאר ואומר: כי החכם לא רצה בזה עמידת הארץ לאין תכלית, אך שם המאמר ‏הזה ראיה על חדושה. והוא ממה שראינו אותה שאין החדושים נפרדים ממנה, כי דור הולך ודור בא ‏מאנשים ובעלי חיים וצמח, והיא כן עומדת עד סוף עולמה, התבאר לנו בזה שהיא מחודשת, כי מה ‏שאיננו נפרד מן החדושים מחודש, מפני שהחדוש כולל אותו. ואולי חושב יחשוב ויאמר: איך יבא ‏דבר לא מדבר? ונאמר: אלו היו הברואים מגיעים לעמוד על זה איך הוא, לא היינו חייבים שייחדהו ‏שכלנו לבורא הקדמון, כאשר נהיה כלנו משיגים, אבל דנו השכלים ביחד הבורא בפעל הזה, מפני ‏שאין דרך לנברא לעמוד עליו איך הוא, ומי שיצריכנו הראותו זאת האיכות, הוא מצריך שנשים ‏עצמנו ונשימנו בוראים. אבל נשקיף עליה בשכלנו, מבלי שנדמה אותה ולא נציירנה. או שמא יחשב ‏במקום הארץ, ויאמר: אי זה דבר היה במקומה זה? ומאמרו זה אמנם מביא אותו סכלותו בגדר ‏המקום. וסברתו כי ענין המקום הוא מה שהוא מושם תחת הדברים, והבקש נפשו מקום למקום, ‏ורואה שאין לזה תכלית, ויהיה נבוך:‏
Nota — a criação “do nada” e o limite do entendimento. Duas finezas aqui. Primeiro, Saadia lê o verso “a terra permanece para sempre” não como prova de eternidade, mas como prova de criação: o que está inseparavelmente preso ao ciclo do nascer-e-perecer está, ele mesmo, dentro do tempo gerado. Segundo, sobre o vir-a-ser “não de coisa alguma” (lo mi-davar): é justamente por não podermos compreender o “como” da criação que a atribuímos só ao Criador — exigir entender esse “como” seria exigir ser, a si próprio, criador. Uma humildade epistemológica que é, ao mesmo tempo, um argumento.
2

O que é, na verdade, o “lugar”. Devo esclarecer que a verdade do lugar não é como ele pensou; antes, ele é o contato de dois corpos que se tocam — e a superfície tocada chama-se “lugar”. Cada um dos dois torna-se lugar do outro; a terra, agora, na sua rotação, tem partes que são lugar de outras partes. E quando não houver terra nem corpos, de modo algum se poderá falar em “lugar”.

O que é, na verdade, o “tempo”. Talvez ele pense também no tempo e diga: antes de estes corpos se originarem, como era aquele tempo, despido de todos os existentes? Também isto só o diz quem ignora a definição de tempo, supondo que ele seja algo que está fora da esfera do cosmo, e que o mundo todo está dentro dele. Mas a verdade do tempo não é assim: a sua verdade é a duração destes existentes — uma medida da esfera celeste e do que está abaixo dela. E quando estes existentes não existirem, de modo algum se poderá falar em “tempo”.

“Isto é todo o poder e toda a sabedoria?” Talvez ele menospreze estes corpos e diga: isto é todo o poder e toda a sabedoria de D'us? Dizemos-lhe: Ele criou aquilo que sabia que poderíamos alcançar, conhecer e guardar, e que nos basta para reconhecer a sua divindade. E, se disser “deixou Ele alguma coisa por criar?”, dizemos: Ele é o Criador de toda coisa.

A idade do mundo não é objeção. Talvez diga: como pode o intelecto aceitar que o mundo tenha apenas quatro mil, seiscentos e noventa e três anos? Dizemos: uma vez que cremos que o mundo é criado, ele não pode existir sem um começo. Pondera: se nós, as criaturas, estivéssemos no ano cem da criação do mundo, ficaríamos espantados e o negaríamos? Tanto mais não o devemos negar neste tempo mais avançado. Qualquer ponto de partida pareceria “recente”; o número, em si, nada objeta.

O “deixar de criar” não é um ato. Talvez diga no seu coração: entre nós, quem deixa de fazer uma coisa é, por esse deixar, um agente; ora, o Criador não cessou de “deixar” as coisas por criar até que as criou — e, sendo esse “deixar” chamado de ato, não lhe faltaria ato algum em relação ao tempo e o mundo seria eterno. Dizemos: o caso dos homens é que eles só são agentes por “deixar” quando agem sobre estados contingentes — pois, se não querem, irritam-se; se não odeiam, amam a “inação” humana é, ela mesma, um estado positivo. Mas o ato do Criador é originar os corpos; e os corpos não têm um “oposto” a ser: quando Ele os “deixa”, é porque já os fez; mas, quando “deixa” antes de os originar, nada existe além d'Ele e onde nada há, “deixar” não é ato.

Por que D'us criou? — três respostas. Talvez pergunte: por qual causa criou o Criador estes existentes? A isto há três respostas. A primeira: Ele os criou não por uma causa externa — e nem por isso há nisso vaidade; pois o homem age em vão quando age sem causa, porque abdica do seu próprio proveito, mas isso está infinitamente acima do Criador, que de nada carece. A segunda: Ele quis, com isto, mostrar e revelar a sabedoria, como se diz (Tehillim 145:12) “para dar a conhecer aos filhos do homem os seus poderes”. A terceira: Ele quis o proveito das criaturas, conduzindo-as por meio disso para que o sirvam — como se diz (Yeshayahu 48:17) “Eu sou o Senhor, teu D'us, que te ensina a ter proveito, que te guia pelo caminho em que deves andar”.

“Por que não antes?” E, se disser: por que não os criou antes deste tempo? Dizemos: não havia um tempo sobre o qual perguntar; e, ademais, este é o modo de todo aquele que tem livre escolha — fazer em todo momento que quiser.

וצריך שאבאר כי אמתת המקום איננו כמו שחשב, אבל הוא פגישת שני הגשמים המתמששים, ‏ויקרא מקום משושם מקום. אבל ישוב כל א' מהם מקום לחבירו, והארץ עתה בסבובה קצתם מקום ‏לקצתה. וכאשר לא תהיה ארץ ולא גשמים יבטל שיאמר מקום בשום פנים. ושמא יחשב ג"כ בזמן, ‏ויאמר: קודם שהתחדשו (מקום) הגשמים האלה, איך היה הזמן ההוא ערום מהנצמאות כלם? וזה ‏עוד אין אומר אותו, כי אם מי שהוא סכל בגדר הזמן, ויחשוב כי הוא דבר יוצא חוץ לגלגל, ושהעולם ‏כלו בו. ואין אמתת הזמן כן, אבל אמתתו השארות הנמצאות האלה ענין אחד אשר מהגלגל ומה ‏שלמטה ממנו, וכאשר לא יהיו אלה הנמצאים, בטל שיאמר זמן בשום צד. ושמא עוד ימעטו בעיניו ‏אלה הגשמים ויאמר: זאת היא כל היכולת וכל החכמה? הנה נאמר לו, ברא מה שידע שנשיגהו ‏ונדעהו ונשמרהו, ויספיק לנו לקבל הודאה בו על אלהותו. ואם יאמר: ההניח דבר שלא ברא אותו? ‏נאמר, הלא הוא בורא כל דבר. ואולי יאמר: איך יקבל השכל, כי אין לעולם כי אם ד' אלפים ושש ‏מאות ותשעים ושלש שנה. ונאמר כי כאשר נאמין עולם נברא, א"א לו בלא התחלה, התראה אם ‏היינו אנחנו הברואים בשנת מאה לבריאת עולם, ההיינו תמהים ומכחישים את זה? כל שכן שלא ‏נכחישהו בזמן הזה. ואלי יאמר בלבו: כאשר יהיה אצלנו מי שעזב דבר, שהוא פועל בעזיבתו ההיא, ‏ולא סר הבורא עזב הדברים עד שבראם, וכיון שעזיבתו ההיא נקראה פעל, לא נעדר עמו פעל עם ‏ערך הזמן, ונאמר: כי לא היו ענינו בני אדם פעלים, כי אם לפני שהם פועלים המקרים, כי אם לא ‏ירצו יכעסו, ואם לא ישנאו יאהבו; אבל הבורא פעלו שיחדש הגשמים, והגשמים אין להם הפך ‏שיהיה, כאשר יעזבם כבר פעל אותם, אך כאשר יעזב לחדשם לא ימצא דבר זולתו. ואולי יחשב: לאי ‏זו עלה ברא הבורא אלה הנמצאות? ובזה שלש תשובות. הראשונה שנאמר בראם לא ‏לעלה, ולא יהיה עם זה לבהלה, כי האדם יהיה פועל לבטלה, כשהוא פועל ללא עלה, מפני שהוא ‏מניח תועלתו, וזה מרומם מהבורא. והשנית שרצה בזה להראות החכמה ולגלותה, וכמו ‏שאמר (תהלים קמ"ה י"ב) להודיע לבני האדם גבורותיו. והשלישית רצה בזה תועלת ‏הברואים, במה שמנהיגם בו ויעבדוהו, וכאשר אמר (ישעיה מ"ח י"ז) אני יי' אלהיך מלמדך להועיל ‏מדריכך בדרך תלך. ואם יאמר למה לא בראם קודם הזמן הזה? נאמר כי לא היה זמן שנשאל עליו, ‏ועוד כי זה דרך כל בעל בחירה שיעשה בכל עת שירצה:‏
Nota essencial — o lugar e o tempo são relações, não recipientes. Aqui Saadia antecipa, no séc. X, intuições que a filosofia só desdobraria muito depois. O lugar não é uma “caixa” vazia onde as coisas estão postas — é a relação de contato entre corpos; sem corpos, não há lugar. O tempo não é um pano de fundo que corre por si — é a medida da duração dos existentes; sem existentes, não há tempo. Por isso “onde estava o mundo antes?” e “o que era o tempo antes da criação?” são perguntas mal postas: não havia um “antes”, porque o próprio tempo começa com a criação. E a idade finita do mundo não objeta nada — qualquer começo pareceria “recente” a quem o vivesse.
3

Está completo o Primeiro Tratado.

נשלם המאמר הראשון:
נִשְׁלַם הַמַּאֲמָר הָרִאשׁוֹן ✡ Fim do Primeiro Tratado — A Criação do Mundo

Sobre esta seção · עִיּוּן

Uma metafísica adiante do seu tempo

O fecho do Tratado I guarda a sua página mais surpreendente. Contra a imagem intuitiva de um espaço e de um tempo absolutos — um “vazio” onde as coisas seriam postas e um “relógio” que correria sozinho —, Saadia define ambos como relações: o lugar é o contato entre corpos; o tempo, a duração dos existentes. Daí segue, com rigor, que perguntar “o que havia antes da criação?” não tem sentido: o tempo nasce com o mundo. É uma posição que ressoaria, séculos depois, em pensadores tão distantes quanto Agostinho e a física relacional.

Por que há mundo

À pergunta “por que D'us criou?”, Saadia dá três respostas que se completam: não por necessidade alguma (Ele de nada carece — e, portanto, criar não é, nele, “agir em vão”); para revelar a sabedoria, tornando o mundo um livro aberto que dá a conhecer o seu Autor; e para o bem das criaturas, conduzidas a um fim e capazes de servi-lo livremente. A criação não é capricho nem carência: é generosidade com sentido.

O livre Criador e o limite da pergunta

“Por que não antes?” — não havia antes; e, mais ainda, é próprio de quem tem livre escolha agir no momento que quiser. Com isso, Saadia une as duas pontas do Tratado: o mundo é criado (contra a eternidade) e é criado por uma vontade livre (contra a necessidade e o acaso). Provada a primeira raiz — o mundo é criado, do nada —, está pronto o terreno para a pergunta seguinte: quem é esse Criador? É o que abrirá o Segundo Tratado, sobre a unidade de D'us.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado I, capítulos 4 e 5 (conclusão do Tratado), na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Esta parte conclui o Tratado I: as objeções finais (cap. 4) e as definições de lugar e tempo, a idade do mundo e as razões da criação (cap. 5). Acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido; as notas e a seção de estudo são originais. Segue-se o Tratado II, sobre a unidade do Criador. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado II · A unidade do Criador · Introdução

A escada do conhecimento: como se conhece o que não se vê

מַאֲמָר שֵׁנִי · הַקְדָּמָה

Antes de falar da unidade de D'us, Saadia explica como se conhece algo que não se vê. A sua tese: o saber é uma escada que sobe do grosseiro (o sensível) ao sutil (o abstrato) — e D'us está no degrau mais alto. Por isso a sua sutileza, longe de ser objeção, é a marca da sua realidade. Esta introdução, diz o autor, é o eixo de todo o livro.

1

Disse Yehudá ben Shaul; disse o autor: quero começar este tratado afirmando que os começos das ciências são grosseiros evidentes, e os seus fins são sutis; que elas chegam a um último conhecido, após o qual não há outro; que o homem sobe, no seu saber, de um assunto a outro, sendo cada grau a que sobe necessariamente mais sutil do que o anterior, até que o último seja o mais sutil de todos os conhecimentos.

E, quando o homem encontra a coisa naquela sutileza, é justamente isso o que ele buscava — não lhe convém exigir que ela seja grosseira palpável. Se o faz, está tentando voltar ao primeiro conhecido, de onde partiu, e já distorceu os caminhos das ciências. Pois todo aquele que se esforça por engrossar o último conhecido esforça-se, na verdade, por anular a sua própria investigação e o seu saber, e por voltar à ignorância. Devo explicar de onde tirei estas seis afirmações, e depois direi a razão que me levou a enunciá-las no começo deste tratado.

אמר יהודה בן שאול, אמר המחבר: אקדים במאמר הזה לאמר כי התחלות המדעים גדולות, ‏ותכליותיהם דקות. ושהם מגיעות אל הידוע האחרון ולא יהיה אחריו ידוע אחר. ושהאדם עולה ‏בידיעותיו מענין אל ענין, וכל מעלה יעלה אליה, היא בהכרח תהיה ותר דקה מהמעלה אשר לפניה, ‏עד שתהיה המעלה האחרונה יותר דקה מן הידיעות כלם. וכאשר יפגשנה האדם בדקות ההיא, הוא ‏אשר בקשהו. ולא יכשר שיתעסק בה שתהיה גדולה, ואם הוא מתעסק בזה, הוא משתדל לשוב אל ‏הידוע הראשון אשר ממנו החל, או השני אשר בו שנה והוא כבר עוות דרכי המדעים וחמסם. וכל ‏אשר הוא מתעסק להגדיל הידוע האחרון, הוא מתעסק לבטל עיונו ולבטל מדעו, ולשוב אל הסכלות ‏בו. וצריך שאבאר מאין אמרתי אלה הששה מאמרים ואחר כן אומר הסבה אשר הביאתני למנות ‏אותם בתחלת המאמר הזה:‏
Nota — a escada do conhecimento. A tese que abre o tratado é uma das mais belas de Saadia: "os começos das ciências são grosseiros, e os seus fins, sutis". O saber é uma escada: parte do mais concreto e comum (o sensível, que até os animais partilham) e sobe, degrau a degrau, ao mais abstrato. Esperar que o topo seja tão palpável quanto a base é querer descer a escada — anular a própria investigação. As "seis afirmações" são apenas os degraus dessa subida.
2

Explico primeiro que os começos das ciências são grosseiros: eles partem do sensível. E tudo o que cai sob o sentido é a coisa mais comum, em que nenhum homem leva vantagem sobre outro — nisto não a temos sequer sobre os animais, que sentem o que veem e ouvem tal como nós; e aquilo em que os animais se igualam ao homem não pode ser coisa mais grosseira. Detendo-se sobre essa coisa sensível e sabendo que é um corpo, o homem vê, com a finura do intelecto, que nele há acidentes (ora escurece, ora embranquece; ora esquenta, ora esfria); depois, mais fino, a quantidade (comprimento, largura, profundidade); depois o lugar (o seu contato); depois o tempo (a sua duração) — e não cessa de subir e refinar até o fim do que pode alcançar. E esse último é o mais sutil de tudo, como o primeiro era o mais grosseiro. Daí concluo que o fim dos conhecimentos é o mais sutil deles.

E disse que se chega a um último conhecido após o qual não há outro, por três razões: a primeira, porque, sendo limitado o corpo do homem, toda força nele tem limite — inclusive a força do saber; a segunda, porque o saber só é apreensível por ter um limite (sem limite, não se deixaria apreender); a terceira, porque a raiz de onde nascem todos os saberes — o sentido — tem, sem dúvida, um limite, e o que dela nasce não pode ser ilimitado.

E disse que o homem sobe de assunto em assunto porque todo saber tem uma raiz de onde nasce, ao passo que a ignorância não tem raiz: ela é apenas a privação do saber — tal como a treva é a ausência da luz, e não o seu oposto. (Se a treva fosse o oposto da luz, o ar escurecido não se converteria em luz; e, se a ignorância fosse uma raiz como o saber, o ignorante jamais se tornaria sábio.) Por isso se sobe em graus no saber, mas não na ignorância — que não tem graus, sendo só o abandono e a falta do saber.

E disse que o último é o mais sutil, pela imagem da neve: ela cai da região do ar, e a vemos como uma pedra; refinando a investigação, sabemos que vem da água; refinando mais, que a água só subiu por via do vapor; e, aprofundando ainda, dizemos: é impossível que esse vapor não tenha uma causa que o fez subir. E essa causa, que nos surge por último, é mais sutil do que o vapor — que é mais sutil do que a água, que é mais sutil do que a neve; é a essa causa sutil que o homem visava, e a ela chegou. Já quem exige que o fim do saber seja tão palpável como o seu começo viola as ciências: é como exigir que a causa que faz subir o vapor seja neve, igual à do início — e já se corrompeu, pois a neve era o ponto de partida, não a meta. Concluídos estes esclarecimentos, devo dizer a razão que me levou a antepô-los.

ואבאר תחלה שהתחלות המדעים גדולות. ואומר, הם מתחילות מן המוחש, וכל דבר שיפול עליו ‏החוש הוא הדבר הכולל, אשר אין בו יתרון לקצת בני אדם על קצתם, שיהיה אחד מהם יותר יודע ‏מן האחר בו; אבל אין להם בו יתרון על הבהמות. כי אנחנו מוצאים אותם שהם חשות בראותם ‏ושמעם, כאשר יחושו הם, וכל דבר שישתוו בו הבהמות עם בני אדם א"א להיות דבר יותר עבר ‏ממנו וכאשר יעמוד האדם על זה הדבר המוחש, וידע כי הוא גשם, יראה בדקות שכלו שיש בו ‏מקרים, והוא מפני שראה משחיר עת ומלבין עת ויחם עת ויקר עת. ואחר כך יוסיף לדקק ויראה ‏שיש בו ענין עולה מנו ענין הכמות, והוא בעמדו על ענין ארך רחב ועמק, ואחר כן יוסף לדקק ויראה ‏שעמו ענין הולך עם מצבו עולה ממנו המקום והוא פגישתו. ואחר כן ילך עם דקות עיונו ויגיע אל ‏שעמו ענין הולך עמו, עולה ממנו הזמן והוא קיומו. ועל הדרך הזה איננו זז מגיע ומפליג, והוא הולך ‏עם מחשבתו והכרתו עד שיגיע אל סוף מה שישיגהו. ויהיה זה האחרון ההוא יותר דק מכל אשר ‏עלה לו, כאשר היה הראשון יותר עבה מכל מה שעלה לו. ומזה דנתי כי סוף הידועים הוא הדק ‏שבהם. ואמרתי שהאדם עולה מידוע אל ידוע. שאין אחריו ידוע, בעבור ג' דברים. אחד מהם, כי ‏האדם כיון שגופו מוגבל, מתחייב שיהיה לכל כח שבו גבול, וכח המדע אחד מהם, וכאשר אמרתי ‏בשמים, כי כח עמידתם חייב שיהיה לו תכלית. והשני כי המדע איננו נתפש לאדם אלא מפני שיש לו ‏תכלית, ואם יחשב שאין לו תכלית אז יבטל להתפש לו, וכאשר יבטל זה, יבטל שידעהו אדם. ‏והשלישי כי השרש אשר ממנו יתילדו כל המדעים; רצוני לומר החוש, יש לו תכלית בלי ספק, ולא ‏יתכן שיהיה מה שיתילד ממנו באין לכלית, ויהיה ה סעיף בחלוף השרש. ואמרתי שהאדם עולה ‏מהם מענין אל ענין, מפני שכל מדע יש לו שרש שיתילד ממנו, ואין לסכלות שרש שיתילד ממנו; ‏אבל הסכלות העדר המדע בלבד, כאשר בארנו בענין החשך שהוא העדר האור ואיננו הפכו. וכמו ‏שהבאנו שם ראיה כי החשך אילו היה הפך האור, לא היה נהפך האויר המחשיך לאור. וכן נאמר כי ‏הסכלות אלו היתה שרש כמדע, לא היה אפשר שיהפך הסכל יודע, אבל היה המדע והסכלות ‏המקבצים בחלק א', והיו נמנעים. ומזה אמרתי שהאדם יעלה במדע מענין אל ענין אחר, מפני שהוא ‏נולד משרש ומסתעף, ולא יתכן שיעלה בסכלות מענין אל ענין, כי אין הסכלות מעלות ידרך בם; אך ‏הוא עזיבת מדע דבר אחר דבר והעדרו. ואמרתי שהאחרון יותר דק מן הכל, בעבור מה שאנחנו ‏רואים שהשלג יורד ממקום האויר, ואנחנו רואים אותו כאבן, ונדקדק העיון ונדע שהוא ממים, ואחר ‏כן נדקדק המחשבה עוד, ונדע שהמים ההם לא יעלו כי אם על דרך האד והעליה, והאמננו כי ‏תחלתו אד. ואחר כן העמקנו עוד, ואמרנו: אי אפשר שלא יהיה לאד ההוא סבה שתעלהו. וכבר ‏התבאר כי הסבה העולה בידינו באחרונה, היא דקה מן האיד, אשר היא יותר דק מן המים, אשר ‏הוא יותר דק מן השלג, וזאת הסבה הדקה עליה כיון האדם והגיע. ואמרתי שמי שהתעסק שיהיה ‏סוף ידיעותיו כמו תכליתם חומס אותם, כאשר גליתי מחקיהם וסדרם. ואמרתי אך הוא משחית ‏מדעו, שב במבוקשו, כמי שחייב את עצמו שתהיה הסבה המעלה האד מן הארץ שלג, כמו השלג ‏אשר התעסק תחלה, וכבר השחית; מפני שהשלג הוא אשר בקש, והשלג דבר עלה לו מבלי דרישה, ‏ואם לא יפרש הדרישה שיהיה שלג או מים, אבל אמר רוצה אני שאראנו, ואם לא, לא אאמין בו, הוא ‏אומר כבר בקשתי שלג או מים או אד, אבל בקש אותו בזולת הדבור הראשון, מפני שלא יתכן ‏לראות בשער הזה כי אם הדברים האלה. ואם ישוב על דרך סבת האד, ובטלו, בעבור שלא עלה לו ‏נראה, ואמר שאין סבה, כבר בטל ענין, שכבר התברר אצלו, לתוחלת נכזבה או עצה נבערה. - וכיון ‏שהשלמתי אלה הבאורים צריך לבאר הסבה אשר הביאתני להקדימם הנה:‏
Nota — por que o saber tem um teto, e a ignorância não tem degraus. Saadia dá três razões para o conhecimento ter um limite: o corpo finito do homem, a própria apreensibilidade do saber (só se apreende o que tem limite) e a finitude do sentido, raiz de todo saber. E retoma o argumento do Tratado I: a ignorância não tem raiz — é mera privação do saber, como a treva é ausência de luz, não o seu contrário. Por isso só se "sobe" no saber. A imagem da neve coroa tudo: do bloco visível (neve) subimos ao invisível (a causa que ergueu o vapor) — e o invisível é o mais real.
3

Digo: ao chegar ao tema do conhecimento do Criador, vi homens que o rejeitam — uns por não O terem visto; outros pela profundidade e sutileza do assunto; outros que imaginam ser esse um conhecimento "de outra espécie"; outros que tentam representá-Lo no pensamento como um corpo; e outros que não se envergonham de O corporificar abertamente, buscando-Lhe quantidade, qualidade, lugar, tempo e coisas assim — busca que é, no fundo, buscar um corpo, pois tais descrições só cabem a um corpo. Antepus, por isso, estas coisas, para remover-lhes os pensamentos errados, e para firmar que o estar o Criador no extremo da sutileza é justamente a sua clareza; e o encontrá-Lo nós com o intelecto, mais sutil do que todo conhecido, é a sua verdade.

Aos que dizem "só cremos no que os olhos veem" e rejeitam os saberes abstratos, já respondi no Tratado I, ao tratar dos que creem na eternidade do mundo e dos obstinados. Aos que não O admitem pela sua sutileza e profundidade — já abandonaram o que buscavam; pois, como expliquei no capítulo sobre o conhecimento, visamos a algo fino, profundo e oculto, que não se vê: "longe está o que foi, e fundo, fundo — quem o achará?" (Kohelet 7:24). E, se o último conhecido já está nesse grau de sutileza, então, por força, o que está no grau seguinte — o Criador, bendito seja — é mais sutil do que todo sutil, mais profundo do que todo profundo, mais forte, mais oculto e mais alto do que tudo, a ponto de não se poder apreender parte alguma dele. E disto disse a Escritura (Iyov 11:7-9): "Podes achar a profundeza de D'us? Podes chegar ao limite do Todo-Poderoso? É mais alto que os céus — que farás? Mais fundo que o Sheol — que saberás?".

E aos que se esforçam por imaginá-Lo um corpo: o corpo não foi o começo do nosso conhecimento? Foi dos sinais que há no corpo que partimos, investigando até chegar ao conhecimento do seu Autor; como, então, voltariam eles ao "a, b, c" da imaginação, tratando-O como corpo? Pois não buscamos um Autor para um corpo determinado que então poderia, ele mesmo, ter outro autor, mas o Autor de todo corpo que vimos ou concebemos, e de todo corpo que suba ao pensamento: este Autor o fez, e está fora dele transcendente. E aos que, sem afirmá-Lo corpo, ainda Lhe buscam movimento ou repouso, ira ou vontade e coisas assim — esses, na verdade, fizeram-No corpo no sentido, ainda que não na palavra: são como quem diz "não cobro de Fulano cem moedas, cobro-lhe o valor de dez mil" — tirou a palavra "cem", mas manteve a dívida. Quando se nega que Ele seja corpo, cai também toda busca dos acidentes do corpo.

Demorei-me nesta introdução, contra o meu costume de ser breve, porque ela é o eixo de todo este livro, e deter-me um pouco nela poupa muito trabalho adiante. E, se alguém pergunta por que isto exige tanto esforço, respondo por duas razões: porque quanto mais precioso é o fruto, mais cuidado merece a busca (achar pérolas custa mais do que achar vidro); e porque os que trataram desta ciência multiplicaram afirmações erradas — por pouca compreensão, malícia, preguiça ou inclinação ao desejo —, e foi preciso expor os seus erros para revelar a verdade. Concluídos estes pensamentos errados, começo o corpo do tratado.

ואומר, כאשר הגעתי אל שער ידיעת העושה, ראיתי אנשים דוחים את זה בעבור עלת שלא ראוהו, ‏ואחרים מפני עומק ענינו ודקותו, ואחרים חושבים שתהיה ידיעתו ידיעה אחרת, ואחרים חושבים ‏לציירו במחשבתם גשם. ואחרים אינם בושים בהגשמתו בפירוש, אך הם מבקשים לו כמות או ‏איכות, או מקום או זמן והדומה לזה. ובקשתם זאת היא בקשת עצם בעצמה, מפני שאלה הספורים ‏לא יהיו כי אם לגשם. והקדמתי הדברים האלה להסיר מחשבותם התועות,ואניח לנפשות מטרחם, ‏ואאמת כי היות ענין הבורא בתכלית הדקות, הוא בירורו, ומציאתנו אותו בשכלנו יותר דק מכל ‏ידוע, הוא אמתתו. ואשר אמרו לא נאמין כי אם במה שיראו עינינו, ובטלו המדעים, כבר השיבותי ‏עליהם בזכרי דעת בעלי הקדמות ובעלי העקשות והעמידה, במה שאם יצטרך המעיין להסתכל בו, ‏ישוב לעיין אותו שמה במה שאמרתי. ואשר אינם מודים בענינו בעבור דקותו ועמקו, כבר הניחו ‏מבוקשם השני אחר הראשון. והוא, שאתה יודע כי כבר בארתי בשער המדע, כי כוננו בו אל דבר דק ‏ועמוק ונעלם שלא נראה כמוהו. ואמרתי שבו אמר הכתוב (קהלת ז' כ"ד) רחוק מה שהיה ועמוק ‏עמוק מי ימצאנו. וכבר ראיתי זולתנו איך חשבו ענין ההוא דק כאבק ושער, וכחלק שלא יתחלק, ‏ואנחנו איך יצא לנו דבר לא מדבר. וכאשר יהיה זה הענין הידוע במעלה ההיא, בהכרח יהיה ענין ‏הידוע במעלה אשר לאחריה; רוצה לומר הבורא יתברך יותר דק מכל דק, ועמוק מכל עמוק, וחזק ‏מכל חזק, ונעלם מכל נעלם, וגבוה מכל גבוה, עד שלא יתכן לעמוד על קצתה כלל. ובזה אמר ‏הכתוב (איוב י"א ז') החקר אלוה תמצא אם עד תכלית שדי תמצא גבהי שמים מה תפעל עמקה ‏משאול מה תדע ארוכה מארץ מדה ורחבה מני ים. ואשר ישתדלו שיחשבוהו גשם, יעזרו מאולתם, ‏הלא הגשם היה תחלת ידוענו? ובמה שיש בו מן הסימנים, חקרנו ודרשנו, עד שהגענו אל ידיעת ‏עושהו, איך ישובו אל א' ב' ג' ד' על הדמיון, ומתעסקים בו שהוא גשם, ונהיה הגשם אשר בקשנו לו ‏העושה, איש ידוע בעצמו, עד שיתכן שיהיה עושהו איש אחר זולתו. אבל בקשנו עושה לכל גשם ‏שראינוהו והשכלנוהו, וכל גשם שיעלה במחשבתנו, זה העושה עשהו, והוא יוצא חוץ לו. ואשר בקשו ‏מה שיש אחריו. כבר דחינו מה שבקשו, מצד האדם החכם, וחיוב תכלית חכמתו בתכלית כחו, ומצד ‏הידוע, שמי שלא הגיע אל תכלית ויפסק, איננו נתפש לנפשות, ומצד השרש אשר עליו נבנו המדעים ‏כלם. ואוסיף הנה ביאור ואומר: ואולי חושב יחשוב שיתכן להיות אחר הידוע הזה ידוע אחר, ‏ומחשבת אחר מבני אדם לא הגיעתהו, או מחשבותם כלם לא הגיעו לו? ואומר: כי זאת מחשבה ‏נפסדת, מפני שכל הידיעות אינם נודעות, כי אם במצוע הגשם, כאשר הקדמנו בתחלת הספר. ‏וכאשר יצא הידוע מהיותו גשם או בתוך גשם, כבר נמנע שיהיה אחריו ידוע אחר כלל. ואשר לא ‏בקשו לקיים אותו גשם, אך בקשו שתהיה לו תנועה או מנוחה, או כעס או רצון או מה שדומה לזה, ‏כבר בקשו היותו גשם באמת בדרך העיון (הענין), לא בדרך הדבור. ודומה למי שאומר אינני תובע ‏ראובן במאה זוז, אך אני תובע אותו בגדר רבבה, כי הוא סלק מעל ראובן לשון המאה; אבל קיים ‏ענינה. וכאשר תמנע תמצא הבקשה שהוא איננו גשם תסתלק ממנו הבקשה במאומה ממקרי ‏הגשם הכלליים. והשיבותי הדברים בהקדמה, עם שמנהגי לקצר, להשביעה ביאור, מפני שהיא ‏מכוונת כל הספר הזה וקטבו, ואתעכב בה מעט, כי היא מספיק מיגיעה רבה אחריה. ואם יאמר: ‏איך היה הענין הזה צריך אל היגיעה הזאת הרבה, ואל אלה המאמרים הרחבים, ואומר: כי זה ‏לשתי סבות. אחת מהם כי כל דבר יקר ההשגחה במה שיעלה ממנו, יתרה ורחבה, מהשגחה בדבר ‏הנקל, כאשר הוא ידוע. כי מציאת הזכוכית יותר קלה ממציאת הפנינים. והשנית כי המתעסקים ‏במדע הזה רבו מאמריהם, והיתה סבת זה אם מיעוט הבנה או מיעוט שכל או זדון לדחות או עזיבה ‏ועצלה או נטות אל תאוה, כאשר הקדמנו בפתיחת הספר, ובעבור זה נצטרכנו לגלות תעותם, במה ‏שנצטרך לגלות האמת. וכאשר כליתי מאלה המחשבות הטעות אתחיל בעצם המאמר:‏
Nota essencial — a sutileza de D'us é a sua assinatura. Eis o eixo do tratado. Se o último conhecido já é sutil ao extremo, então o Criador, que está no degrau acima de todo conhecido, é "mais sutil do que todo sutil". Daí a virada: a incompreensibilidade de D'us não é uma objeção contra a sua existência — é a marca da sua realidade. Ele é alcançado pelo intelecto, não pelo olho. E corporificá-Lo — atribuir-Lhe lugar, tempo, movimento ou ira — é fazê-Lo um corpo "no sentido, ainda que não na palavra"; o D'us do racionalismo é incorpóreo, transcendente, Autor de todo corpo e fora de todos eles (cf. Rambam, que faria desta a base dos seus Treze Princípios).

Sobre esta seção · עִיּוּן

Conhecer pela razão o que o olho não vê

A introdução ao Tratado II é, na verdade, uma pequena teoria do conhecimento. Saadia precisa, antes de provar a unidade de D'us, responder a uma objeção silenciosa: "como falar de algo que ninguém viu?". A sua resposta é que toda ciência funciona assim — começa no que se toca e termina no que só a mente alcança. Quem só aceita o palpável não rejeita apenas D'us; rejeita a astronomia, a física, a matemática — todo saber que sobe acima dos sentidos.

O invisível como o mais real

A imagem da neve é o coração da seção. Diante de um floco, o ignorante vê só "uma pedra branca"; o sábio sobe dela à água, ao vapor, e à causa invisível que ergueu o vapor — e essa causa, justamente por ser a mais sutil e a menos visível, é a mais verdadeira. Transposta a D'us: a sua "invisibilidade" não O torna duvidoso; torna-O o mais alto degrau do real, aquele a que toda a escada conduz.

O alicerce da pureza divina

Por isso esta introdução é o "eixo" de tudo o que vem depois. Ao mostrar que D'us está acima de todo conhecido, Saadia já exclui de antemão qualquer corporificação: não se pode atribuir-Lhe figura, lugar, tempo, movimento ou paixão sem rebaixá-Lo à condição de corpo. É a mesma pureza que o Rambam tornaria, dois séculos depois, princípio de fé. Posta esta base — D'us incorpóreo, sutil ao extremo, alcançável só pela razão —, o tratado pode então perguntar: e quem é esse Criador? É um.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), Introdução, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Esta parte traduz a introdução metodológica do Tratado II (a "escada do conhecimento" e a crítica à corporificação). Os segmentos, longos no original, foram condensados nos pormenores repetitivos (marcados com "..." ou colchetes), preservando-se os argumentos; as notas e a seção de estudo são originais. Seguem-se os capítulos sobre as provas da existência e da unidade de D'us. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado II · A unidade do Criador · Capítulo 1

O que sabemos de D'us, e por que Ele é Um

מַאֲמָר שֵׁנִי · א׳

Saadia começa enumerando cinco coisas que sabemos de D'us — que Ele é um, vivo, poderoso, sábio e incomparável —, primeiro pela palavra dos profetas e depois confirmadas pela razão. Em seguida, dá três provas de que o Criador é necessariamente Um.

1

Digo: o nosso D'us, bendito seja, deu-nos a conhecer, por meio dos seus profetas, que Ele é um, vivo, poderoso e sábio, e que nada se assemelha a Ele, nem às suas obras. Estabeleceu-nos isto com os sinais e os prodígios, e nós o aceitamos prontamente — e depois o confirmamos com o que nos resulta da investigação racional.

Que Ele é um, como está dito (Devarim 6:4): "Ouve, Israel: o Senhor, nosso D'us, o Senhor é um"; e (32:39) "vede agora que eu, eu sou Ele, e não há deus comigo"; e (32:12) "o Senhor sozinho o conduziu, e não havia com ele deus estranho". Que Ele é vivo (Devarim 5:23): "qual de toda a carne ouviu a voz do D'us vivo falando do meio do fogo...?"; e (Yirmiahu 10:10) "o Senhor D'us é a verdade; Ele é o D'us vivo e o Rei eterno". Que Ele é poderoso (Iyov 42:2): "sei que tudo podes, e que nenhum desígnio te é impossível"; e (Divrei haYamim I 29:11) "tua é, ó Senhor, a grandeza, e o poder, e a glória...". Que Ele é sábio (Iyov 9:4): "sábio de coração e poderoso em força"; e (Yeshayahu 40:28) "não há como sondar o seu entendimento". E que nada se assemelha a Ele nem às suas obras (Tehillim 86:8): "não há semelhante a ti entre os deuses, ó Senhor, nem há obras como as tuas".

E, depois de ouvirmos estes cinco pontos dos livros dos profetas, dedicamo-nos a confirmá-los pela via da razão, e assim os encontramos; e encontramos, com isso, a refutação de toda objeção que nos levante quem quer que discorde de nós em algum deles. Pois esses que discordam só se esforçam por dois caminhos — não têm um terceiro: um é a analogia de D'us com as criaturas; o outro é prender-nos em cada palavra com que O descrevemos, tomando-a no sentido corpóreo, e não no sentido figurado. E, quando esta ciência nos estiver assentada, explicaremos isto ao tratar do poder e da força do Criador.

ואומר, שאלהינו ית' הודיענו על ידי נביאיו שהוא אחד חי יכול חכם לא ידמה לו דבר ואין דומה ‏לפעליו. והעמידו לנו על זה האותות והמופתים, וקבלנוהו מהרה אל מה שיעלה לנו מן העיון. מה ‏שהוא אחד, כמו שאמר (דברים ו' כ"ז) שמע ישראל י"י אלהינו י"י אחד. ואמרו עוד (שם ל"ב ל"ט) ‏ראו עתה כי אני אני הוא ואין אלהים עמדי וגומר, ואמרו (שם ל"ב י"ב) י"י בדד ינחנו ואין עמו אל ‏נכר. ומה שהוא חי אמרו (שם ה' נ"ג) כי מי כל בשר אשר שמע קול אלהים חיים מדבר מתוך האש ‏וגומר. ואמרו (ירמיה י' י') וי"י אלהים אמת הוא אלהים חיים ומלך עולם. ומה שהוא יכול, אמרו ‏‏(איוב מ"ב ב') ידעתי כי כל תוכל ולא יבצר ממך מזמה. ואמרו (דה"י א' כ"ט י"א) לך י"י הגדולה ‏והגבורה והתפארת והנצח וההוד וגומר. ומה הוא חכם, אמרו (איוב ט' ד') חכם לבב ואמיץ כח מי ‏הקשה אליו וישלם. ואמרו (ישעיה מ' כ"ח) אין חקר לתבונתו. ומה שאין דומה לו ולא לפעליו, אמרו ‏‏(תהלים פ"ו ח') אין כמוך באלהים י"י ואין כמעשיך. ואחר ששמענו אלה החמשה ענינים מספרי ‏הנביאים, התעסקנו לקיימם מדרך העיון, ומצאנום כן, ומצאנו עמו בטול כל טענה שיטעון עלינו כל ‏מי שחולק עלינו על דבר מהם, והם אינם משתדלים בזה כי אם משני פנים אין להם שלישי אחד ‏מהם הקשתו על הברואים. והשניים שהוא תופש אותנו בכל מלה שנתארהו בה, וכל מלה שנכתבה ‏בהגשמת המלה, לא בהעברתה. וכאשר תתישב לנו הידיעה הזאת נבאר זה ביכולת הבורא ‏ואמצתו:
Nota — revelação e razão, de mãos dadas. Saadia abre o tratado com o seu método: cinco verdades sobre D'us — que Ele é um, vivo, poderoso, sábio e incomparável — chegam-nos primeiro pela palavra dos profetas (com os sinais que a autenticam) e depois são confirmadas pela razão. Fé e investigação não se opõem: a segunda sustenta a primeira. E ele já aponta os dois únicos erros de quem nega a pureza divina: (1) raciocinar sobre D'us por analogia com as criaturas, e (2) tomar ao pé da letra as palavras figuradas que a Escritura usa para falar d'Ele. É a base do que o Rambam tornaria os Treze Princípios.
2

E digo, primeiro, a prova de que Ele é um. Depois das provas que já precederam no Tratado I, aquilo que afirmei sobre o Autor dos corpos — que, não sendo Ele da espécie deles, e sendo os corpos muitos — disto se segue, necessariamente, que Ele é um. E isto por três razões:

Primeira: se acrescentares algo ao um, cai sobre Ele o número — e então Ele entraria sob as leis dos corpos, pois contar é próprio dos corpos.

Segunda: a razão só decreta, a respeito do Autor, aquilo sem o qual seria impossível o estritamente necessário; mas o que se acrescenta além do um é possível sem ele, e dele não há necessidade.

Terceira: o Autor já fica estabelecido pela primeira prova — a da criação (chidush); mas o que se acrescentasse além d'Ele exigiria uma segunda prova, distinta daquela, para indicá-lo — e não há caminho para uma prova que não seja, de algum modo, a da criação. Logo, prova-se um só Criador.

ואומר תחלה, כי מצאנו מה שיורה על שהוא אחד, אחר מה שקדם מן הראיות מה שאומר מעושה ‏הגשמים, מפני שהיה של ממיניהם, והיו הגשמים רבים, יתחייב שהוא אחד, מפני שאם יוסיף על ‏האחד יפול עליו המספר, ויכנס תחת חקי הגשמים. ועוד כי השכל גזר בענין העושה, במה שאי ‏אפשר בלעדיו, אבל מה שמוסיף עליו אפשר בלעדיו, ואין צורך אליו. ועוד כי העושה האחר תתקיים ‏בראיה הראשונה, אשר היא ראית החדוש, אך מה שמוסיף עליו צריך אל ראיה ‏‏שנית, זולת הראיה ההוא, להורות עליו, ואין דרך לראיה שאיננו מדרך החדוש בשום ‏פנים:‏
Nota — três provas de que o Criador é Um. Saadia demonstra a unidade com economia admirável. Primeira: "número" é uma propriedade dos corpos — falar de "dois deuses" já O rebaixaria à condição de coisa contável, corpórea. Segunda (o princípio da parcimônia): a razão só afirma o estritamente necessário; um segundo criador é supérfluo, e o supérfluo não se postula. Terceira: a prova da criação (do Tratado I) estabelece um Autor; um segundo exigiria uma prova própria — que não existe. Conhecer a D'us pela razão é, também, saber parar onde a razão manda.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Primeiro a voz, depois a prova

O capítulo desenha, em miniatura, todo o programa de Saadia: as grandes verdades da fé chegam pela revelação — a voz dos profetas, autenticada por sinais —, mas o homem é convidado a refazer o caminho pela razão e a reencontrá-las por conta própria. Não se trata de substituir a fé pela filosofia, nem o contrário: as duas convergem na mesma verdade. Por isso ele lista, atributo por atributo, os versos que os ensinam, e logo anuncia que passará a confirmá-los pelo raciocínio.

Por que "um", e não "dois"?

As três provas da unidade têm uma elegância racionalista marcante. A primeira nega a pluralidade pela própria natureza do número: contar é coisa de corpos, e D'us não é corpo. A segunda invoca a parcimônia: a razão postula só o necessário, e um segundo deus é dispensável. A terceira é a mais sutil: a prova da criação rende exatamente um Criador — querer mais seria pedir uma prova que não existe. Saber a medida exata do que a prova entrega é parte da honestidade intelectual.

Falar de D'us sem rebaixá-Lo

Ao identificar os dois erros dos adversários — a analogia com as criaturas e a leitura literal da linguagem figurada —, Saadia prepara a grande tarefa do tratado: descrever D'us (vivo, poderoso, sábio) sem com isso fazê-Lo um "super-homem" corpóreo. Quando a Escritura fala da "mão" ou da "ira" de D'us, fala por imagem; tomá-lo ao pé da letra é o erro. Esta depuração, semeada por Saadia, floresceria dois séculos depois na teologia do Rambam.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), capítulo 1, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Este capítulo apresenta os cinco atributos conhecidos de D'us e as três provas da sua unidade. As referências bíblicas seguem a numeração tradicional; acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Segue-se o capítulo sobre a refutação do dualismo (as "duas potências"). Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado II · A unidade do Criador · Capítulo 2

A refutação do dualismo: por que não há "dois deuses"

מַאֲמָר שֵׁנִי · ב׳

Contra os que postulavam duas potências — um deus do bem e um deus do mal —, Saadia responde em duas frentes: mostra que dividir a realidade em "dois" é tão arbitrário quanto dividi-la em cinco, sete ou nove; e que dois deuses, logicamente, ou se anulam ou se contradizem. Resta um só Criador.

1

Depois destas três provas de que Ele é um, digo: toda alegação que pretende separar a realidade em dois é, no fundo, uma alegação a favor do um — pois acaba por se refutar. E já tomaste conhecimento da nossa resposta anterior aos que sustentam esta opinião o dualismo.

Acrescento aqui: encontrei estes dualistas e, quando se lhes pergunta — "por que reduzistes todos estes seres a apenas dois princípios, e não pensastes que cada um deles tem um princípio próprio que o originou?" —, respondem: "vemos que, embora as suas formas sejam muitas, eles se reúnem em duas categorias: o proveito e o dano, e não há entre eles um terceiro; por isso os reduzimos a dois".

Ponderei esta afirmação, e vi que quem com eles discute pode dizer-lhes: ora, também encontramos o proveito e o dano reunindo-se em cinco sentidos — uns percebidos pela vista, outros pela audição, e assim os outros três —, e não é mais cabível reuni-los em dois do que em cinco. E mais: todo proveito e dano se reúne sob a visão, e as raízes das cores naturais são sete (o branco, o preto, o verde, o amarelo-esverdeado, o vermelho, a cor do céu e a cor da terra) — e não é mais cabível dois do que sete. E ainda: reúnem-se sob os sabores, cujas raízes são nove (o doce e o gorduroso; o amargo, o salgado e o picante; o adstringente, o azedo e o acre; e o insípido) — e não é mais cabível dois do que nove. E o mesmo se diga dos quatro elementos a que reduzem tudo; das dez categorias do ente; dos seis tipos de movimento; dos sete tipos de quantidade; dos três tempos, e das três determinações e das três formas. Não me alongarei, até que fique claro o erro do seu modo de divisão: arrancaram um número dentre todos os outros, e decretaram a realidade por ele — sem razão alguma para preferir o "dois".

ואחר אלה השלש ראיות על שהוא אחד, אומר: כי כל טענה שהיא מפרידה בין שנים, היא טענה ‏לאחד, וכבר עמדת על מה שקדם מתשובתינו על בעלי הדעת הזה. ואומר הנה עוד, שמצאתי אלה ‏כשיאמר להם: למה סמכתם כל אלה הנמצאות כלם אל שני שרשים בלבד, ולא חשבתם שלכל אחד ‏מהם שרש שחדשו? הם אומרים אנחנו רואים אותם ואם רבו אפניהם, כי הם נקבצים אל התועלת ‏והחזק, ואין ביניהם שלישי, על כן סמכנום אל שנים. והתבוננתי במאמר הזה ומצאתי שיש למדבר ‏עמם, שיאמר להם: וכבר מצאנו התועלת והנזק שנקבץ אל חמשה חושים. מהם מה שיוחש בראות, ‏ומהם מה שיוחש בשמע, וכן בשלשה האחרים, ואינם יותר ראוים בקבצם אל שנים מזולתם, לקבצם ‏אל חמשה. יש לנו לאמר להם עוד: שכל תועלת ונזק מתקבצים תחת המראה, ושרשי המראה ‏הטבעית שבעה, לובן ושחור ירוק וירקרק ואדום ומראה השמים ומראה העפר, ואינם יותר ראוים, ‏בקבץ הכל אל שנים מזולתם, לקבצם אל שבעה. ועוד יש לנו לומר להם שהם נקבצים תחת ‏הטעמים, ושרשי הטעם תשעה, המתוק והדשן והם חמים לחים והמר והמליח והחריף והם חמים ‏יבשים והקובץ והחמוץ והעפוץ והם יבשים קרים, והתפל והוא קר לח, ואינם יותר ראוים לקבצם אל ‏שנים מזולתם, לקבצם אל תשעה. וכן יאמר להם על הארבעה טבעים אשר הם סומכים אליהם הכל. ‏וכן בעשר המאמרות אשר על העצם וכן בששת מיני התנועה, וכן בשבעה מיני הכמות, וכן בשלשה ‏הזמנים, ושלש הגזירות, ושלש הצורות, לא אאריך בדברים עד שיתברר הפסד מה שנטו אליו ‏מאפני ההתחלקות, שחלצו מספר מבין שאר המספרים, וגזרו עליו.
Nota — por que "dois", e não sete ou nove? O dualismo (a doutrina de um deus do bem e um deus do mal) parte de uma observação: o mundo divide-se em proveito e dano. Saadia desarma a raiz do argumento: essa bipartição é arbitrária. A experiência divide-se igualmente em cinco sentidos, sete cores, nove sabores, quatro elementos, dez categorias — por que, então, eleger justo o número "dois" como o número dos princípios criadores? Sem uma razão para preferir o dois, o dualismo perde o seu próprio ponto de partida.
2

E acrescento esta explicação: cada um deles dos dois supostos deuses, quando quer criar algo, não o completa senão com a ajuda do outro — e então ambos são deficientes. E mais: se a sua vontade obriga o outro a ajudá-lo, então ambos são forçados e nenhum é livre. E, se forem livres para escolher, pode um querer dar vida a um corpo e o outro querer matá-lo — donde se seguiria que esse corpo estaria vivo e morto ao mesmo tempo. E digo ainda: se cada um pode ocultar algo do outro, então ambos não sabem tudo; e, se não podem ocultar, então ambos são limitados. E digo ainda: se eles estão unidos, são uma só coisa logo, um; e, se estão separados, há entre eles um terceiro que os separa. E os seus defensores não podem compará-los à treva e à luz — que os filósofos tomam como opostos sem um terceiro —, porque a treva e a luz são acidentes, ao passo que estes dois deuses, para eles, seriam corpos substâncias.

ואוסיף בזה ביאור ואומר: כי כל ‏אחד מהם כשהוא רוצה לברוא דבר, לא יתום לו כי אם בעזר האחר לו, ושניהם א"כ נלאים. ועם זה ‏אם יהיה חפצו מכריח האחר לעזרו, שניהם מוכרחים. ואם יהיו בוחרים, ירצה אחר מהם להחיות ‏גשם, ורוצה האחר להמיתו, יתחייב שיהיה הגשם ההוא חי מת יחד. ואומר עוד אם יהיה כל אחד ‏מהם יכול להעלים דבר מחבירו, שניהם א"כ אינם יודעים. ואם אינם יכולים על זה, שניהם א"כ ‏נלאים. ואומר עוד, כי אם הם דבקים, הם דבר א'. ואם הם נפרדים, יש ביניהם דבר שלישי, ולא ‏אפשר לבעליהם לדמותם אל החשך והאור, והמשתמשים בלא שלישי, כי אלה מקרים, והם אצלם ‏גשמים.
Nota — dois deuses anulam-se. Aqui Saadia alinha as refutações lógicas clássicas, todas levando ao absurdo: se um precisa do outro para criar, ambos são deficientes; se um força o outro, nenhum é livre; se discordam (um quer vida, o outro morte, para o mesmo corpo), o corpo estaria vivo e morto ao mesmo tempo; se um pode esconder do outro, nenhum é onisciente; se estão unidos, já são um; se separados, há um terceiro entre eles. E o velho recurso de comparar os dois à luz e à treva falha: luz e treva são acidentes (estados), não substâncias — não dois "deuses". A onipotência e a unidade são inseparáveis.
3

E estas alegações resultam concordes com o que disseram as Escrituras — que não há Criador senão um: "a ti foi mostrado, para que soubesses, que o Senhor é D'us; não há outro além d'Ele" (Devarim 4:35); "sabe, pois, hoje, e medita no teu coração, que o Senhor é D'us em cima nos céus e embaixo na terra; não há outro" (Devarim 4:39); "voltai-vos para mim e sede salvos, todos os confins da terra, porque eu sou D'us, e não há outro" (Yeshayahu 45:22); "para que se saiba, do nascente ao poente do sol, que não há nada além de mim — eu sou o Senhor, e não há outro" (45:6); "eu sou o Senhor, e não há outro além de mim"; "não sou eu o Senhor? e não há outro" (45:21) — e coisas semelhantes.

ויצאו אלה הטענות מסכימים למה שאמרו הספרים, כי אין בורא כי אם א', באמרם (דברם ‏ד' ל"ה) אתה הראת לדעת כי י"י הוא האלהים אין עוד מלבדו. ואמרו (שם ד' ל"ט) וידעת היום ‏והשבות אל לבבך כי י"י הוא האלהים בשמים ממעל ועל הארץ מתחת אין עוד. ועוד (ישעיהו מ״ה:כ״ב ‏כ"ב) פנו אלי והושעו בל אפסי ארץ כי אני אל ואין עוד. ועוד (שם מ"ה ו') למען ידעו ממזרח שמש ‏וממערבה כי אפס מבלעדי אני י"י ואין עוד. ועוד (שם) אני י"י ואין עוד זולתי. ועוד (שם מ"ה כ"א) ‏הלא אני י"י ואין עוד, והדומה לזה:‏

Sobre esta seção · עִיּוּן

O dualismo e a sua sedução

A doutrina das "duas potências" — um princípio do bem e um princípio do mal, em luta eterna — foi uma das grandes rivais do monoteísmo no mundo antigo e medieval. A sua força está em parecer explicar o mal: se há sofrimento no mundo, não seria obra de um segundo deus? Saadia ataca essa intuição por dois flancos.

O número arbitrário

O primeiro flanco é lógico-empírico: a divisão da realidade em "proveito e dano" não tem nada de privilegiado. Poder-se-ia dividi-la em cinco (os sentidos), sete (as cores), nove (os sabores), quatro (os elementos), dez (as categorias). Eleger o "dois" como o número dos deuses é um capricho sem fundamento. Quem quer ler o número de princípios na variedade do mundo logo descobre que a variedade não tem número fixo.

O mal não é um deus

O segundo flanco é metafísico, e liga-se ao que Saadia já ensinara no Tratado I: o mal não é uma coisa positiva, mas uma privação — como a treva é ausência de luz, e não a sua rival substancial. Por isso não é preciso um "deus do mal" para explicar o sofrimento: o mal é a falta de um bem, não uma potência criadora. Caem, assim, os dois pilares do dualismo — e fica de pé a declaração mais repetida da Torá: ein od, "não há outro". A unidade de D'us não é só uma crença; é uma conclusão da razão.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), capítulo 2, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Este capítulo, um único segmento contínuo no original, foi dividido em três partes para a leitura, preservando-se o hebraico verbatim. As referências bíblicas seguem a numeração tradicional; acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Segue-se o capítulo sobre os atributos do Criador. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado II · A unidade do Criador · Capítulo 3

Os muitos Nomes, um só D'us

מַאֲמָר שֵׁנִי · ג׳

Se D'us é um, por que a Escritura usa tantos Nomes — Hashem, Elohim, o Altíssimo? Saadia responde: são nomes de uma só realidade, como "Yerubaal" e "Gid'on" nomeiam um só homem. E daí extrai a grande regra: toda palavra sobre D'us que contradiga a razão deve ser lida como figura.

1

E, se alguém disser: então qual é o sentido destes dois Nomes que sempre aparecem juntos na Escritura — Hashem Elohim? Dir-lhe-emos que já se firmou que ambos se referem a uma só realidade, como está dito: "assim disse Hashem, criador dos céus — Ele é Elohim" (Yeshayahu 45:18); e "sabei que Hashem, Ele é Elohim" (Tehillim 100:3). E, sendo esta a explicação, não te perturbes se um deles for mencionado com uma ação e o outro com outra — tal como se diz (Shoftim 8:29-30): "e foi Yerubaal, filho de Yoash, e habitou na sua casa; e Gid'on tinha setenta filhos saídos dos seus lombos". A Escritura contou um ato sob um nome e outro ato sob o outro nome, sem dificuldade, porque já era sabido que Yerubaal é Gid'on um só homem, dois nomes.

E, se alguém disser: então qual o sentido de "meu D'us e Hashem para a minha causa" (Tehillim 35:23), e de "Hashem trovejará dos céus, e o Altíssimo dará a sua voz" (Shmuel II 22:14)? Diremos que isto é uma segunda razão um dobramento de estilo: Ele troveja porque é Hashem e porque é o Altíssimo; "desperta, pois tu és o meu D'us e tu és Hashem". O seu paralelo é (Tehillim 49:2-3) "ouvi isto, todos os povos; escutai, todos os habitantes do mundo, tanto filhos de adam quanto filhos de ish, ricos e pobres juntos" — cujo sentido é: vós que sois povos e vós que sois habitantes do mundo, vós que sois filhos de adam e vós que sois filhos de ish; semelhante a "não temas, meu servo Yaakov... e Yeshurun, a quem escolhi" (Yeshayahu 44:2) — isto é, tu que és Yaakov e tu que és Yeshurun.

ואם יאמר אומר: אם כן מה ענין אלה השני שמות המשתמשים תמיד במקרא י"י אלהים? נאמר לו ‏כבר אמת שהוא לענין אחד, באמרו (שם מ"ה י"ח) כי כה אמר י"י בורא השמים הוא האלהים. ואמרו ‏‏(תהלים ק' ג') דעו כי י"י הוא האלהים. ואם זה הביאור אל תשגיח אם יספר אחד מהם בפעל אחד, ‏והשני בפעל אחר ודומה לזה, כלשון (שופטים ח כט-ל) וילך ירבעל בן יואש וישב בביתו ולגדעון ‏היו שבעים בנים יוצאי ירכו. ספר השם הזה בפעל אחד, וספר האחר בפעל אחר, ולא השגיח, כי ‏כבר אמת, כי ירבעל הוא גדעון. ואם יאמר אם כן מה ענין אמרו (תהלי' מ"ה כ"ג) אלהי וי"י לריבי. ‏וכן (ש"ב כ"ב י"ד) ירעם משמים י"י ועליון יתן קולו? נאמר זאת עלה שנית, ירעם מפני שהוא י"י ‏ושהוא עליון. העירה כי אתה אלהי ואתה י"י. ודמיונו כלון (תהלים מ"ט ב') שמעו זאת כל העמים ‏האזינו כל יושבי חלד גם בני אדם גם בני איש יחד עשיר ואביון. ענינו שאתם עמים ואתם יושבי ‏חלד, ושאתם בני אדם ושאתם בני איש, ודומה לאמרו (ישעיהו מ״ד:ב׳) אל תירא עבדי יעקב ואל תחת ‏ישראל. אל תירא עבדי יעקב וישורון בחרתי בו, שאתה יעקב ואתה ישורון.
Nota — muitos nomes, um só D'us. A primeira dúvida é natural: se D'us é um, por que a Escritura O chama de tantos modos — Hashem, Elohim, o Altíssimo? Saadia responde com uma analogia simples e luminosa: tal como "Yerubaal" e "Gid'on" são dois nomes de um só homem (a Escritura conta um ato sob um, outro sob o outro, sem que ninguém pense em duas pessoas), assim os Nomes divinos apontam para uma só realidade. E o dobramento poético ("meu D'us e Hashem"; "Hashem... o Altíssimo") é estilo — como "filhos de adam e filhos de ish" —, não pluralidade.
2

E, como regra geral, digo: tudo o que se encontrar nos livros sagrados — e nas nossas próprias palavras, nós que afirmamos a unidade —, na linguagem que descreve o nosso Criador e as suas obras, e que contradiga o que a investigação verdadeira a razão exige, é, sem dúvida alguma, um modo figurado (he'avará) da linguagem — e os que buscam hão de encontrá-lo, quando o procurarem. Este assunto não precisa de ser estendido neste livro — explicar os modos das transposições figuradas, dos usos e da amplitude da língua —, pois já expliquei disto uma boa medida na introdução ao meu comentário à Torá, e não voltarei a repeti-lo; aqui me deterei apenas a esclarecer alguma dúvida de linguagem que me venha à mão.

וכלל אומר כל מה ‏שימצא בספרים ובדברינו אנחנו המיחדים, מלשון בספור בוראינו ומעשיו, וחולק על מה שמחייבו ‏העיון האמתי, בלי ספק שהוא דרך העברה מהלשון, ימצאוהו המחפשים כאשר יבקשוהו. ואין ‏השער הזה צריך להרחיב בפרושו בספר הזה, ושנבאר דרכי ההעברות והשמושים ורחב הלשון. כי ‏כבר בארתי מזה שעור רחב בפתיחת פירוש התורה, לא אשוב לשנותו. אך אכוון לבאר מה שיש ‏‏(בלבד) בלשון בכל ספק שבא לידי בלבד -
Nota essencial — a grande regra da leitura figurada. Aqui está um dos princípios mais influentes do racionalismo judaico, formulado por Saadia dois séculos antes do Rambam: toda expressão da Escritura (ou da nossa própria fala) sobre D'us que contradiga o que a razão estabelece deve ser lida como figura (he'avará), não ao pé da letra. Quando o texto fala da "mão", dos "olhos" ou da "ira" de D'us, ou de que Ele "desce" ou "se arrepende", a razão — que já provou que Ele é incorpóreo e imutável — obriga a entender a frase em sentido figurado. A razão é o critério; o literal cede a ela. É a pedra angular da exegese que o Rambam levaria ao seu ápice no Guia dos Perplexos.
3

E, se alguém disser: qual o sentido de "Hashem Elohim me enviou, e o seu espírito (verucho)" (Yeshayahu 48:16)? Diremos que o seu sentido pode ser "com o seu espírito" be-rucho — como em "buscai Hashem e a sua força" (Tehillim 105:4), que se entende "pela sua força"; e como em "sobre ti resplandecerá Hashem, e a sua glória sobre ti se verá" (Yeshayahu 60:2), explicado por "pois Hashem edificou Sião, e apareceu na sua glória" (Tehillim 102:17); e como em "Hashem e os instrumentos da sua ira" (Yeshayahu 13:5), explicado por "com ira marchaste pela terra" (Chavakuk 3:11). Assim se explica também "e testemunhaste contra eles pelo teu espírito, pela mão dos teus profetas" (Nechemiá 9:30). Estas — e qualquer coisa semelhante que nos venha à mão, para a qual se encontre um uso figurado — bastam-nos; não precisamos de mais do que isto.

ואם יאמר: מה ענין אמרו (שם מ"ח ט"ז) י"י אלהים ‏שלחני ורוחו. נאמר כי יכשר להיות ענינו ברוחו, כאמרו (תהלים ק"ה ד') דרשו י"י ועזו ופרושו בעזו. ‏וכאמרו (ישעיה ס' ב') ועליך יזרח י"י וכבודו עליך יראה, ופירשו (תהלים ק"ב י"ז) כי בנה י"י ציון ‏נראה בכבודו. וכאמרו (ישעיה י"ג ה') י"י וכלי זעמו ופירשו (חבק' ג' י"א) בזעם תצעד ארץ, כן פירשו ‏הנה (נחמיה ט' ל') ותעד בם ברוחך ביד נביאיך. אלה ואי זה דבר מזה שיבא לידינו ונמצא לו ‏העברה ושמוש שאפשר אין אנו צריכים יותר מזה:‏

Sobre esta seção · עִיּוּן

A unidade por trás dos Nomes

Tendo provado que D'us é um e que não há "dois deuses", Saadia enfrenta uma objeção vinda da própria Escritura: a multiplicidade dos Nomes divinos. A sua resposta dissolve o problema na origem — nomes diferentes não implicam seres diferentes. Um mesmo rei pode ser chamado pelo título e pelo nome próprio; um mesmo homem, Gid'on, é também Yerubaal. Os Nomes de D'us descrevem aspectos da sua relação com o mundo (justiça, misericórdia, altura), mas o nomeado é um só.

Quando a Escritura diz e a razão recusa

O coração do capítulo é a regra hermenêutica: o sentido literal de um verso cede quando contradiz uma verdade já demonstrada pela razão. Não se trata de "corrigir" a Torá, mas de lê-la como ela pede ser lida — pois a mesma Torá que fala da "mão de D'us" ensina que "a nenhuma figura vistes" (Devarim 4:15). A linguagem figurada é um recurso da própria revelação, que fala "na língua dos homens" para ser entendida. Decifrá-la não é menos fé; é fé mais atenta.

Ler a Escritura pela Escritura

Note-se, por fim, a sobriedade do método. Saadia não abre as portas a qualquer alegoria: ele decifra o figurado pela própria Escritura, encadeando versos paralelos ("a sua força" se lê "pela sua força"; "o seu espírito", "com o seu espírito"). A leitura racional não é capricho do intérprete — é disciplina do texto. E ele remete o leitor, com modéstia, ao tratamento mais amplo que dera na introdução ao seu comentário à Torá. A unidade de D'us, intocada pela variedade das palavras, fica firme.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), capítulo 3, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Este capítulo, um único segmento contínuo no original, foi dividido em três partes para a leitura, preservando-se o hebraico verbatim. As referências bíblicas seguem a numeração tradicional; acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Seguem-se os capítulos sobre os atributos do Criador (vida, poder, sabedoria). Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado II · A unidade do Criador · Capítulo 4

Vivo, poderoso, sábio — e ainda assim Um

מַאֲמָר שֵׁנִי · ד׳

Dizemos que D'us é vivo, poderoso e sábio. Não seriam três coisas n'Ele, ferindo a sua unidade? Saadia responde: os três atributos brotam de um só fato — a criação —, o intelecto os capta num só instante, e a pluralidade está apenas na linguagem. Em D'us não há partes nem mudança.

1

E digo, em seguida, que encontrei pela via da razão aquilo que indica que Ele é vivo, poderoso e sábio: é o que se nos confirmou — que Ele criou as coisas. Pois, pela força do nosso intelecto, ficou claro que só o poderoso age; e só o vivo é poderoso; e a obra acabada e bem ordenada só pode vir de quem soube, antes de fazê-la, como ela havia de ser.

ואחר כן אומר שמצאתי מדרך העיון, מה שיורה שהוא חי יכול חכם, הוא מה שהתאמת לנו שהוא ‏ברא הדברים, ובכח שכלנו התברר, כי לא יעשה כי אם יכול ולא יכול כי אם חי, ולא יהיה העשוי ‏המתוקן, אלא ממי שידע קודם שיעשה ואיך יהיה:‏
Nota — três atributos de um só fato. Saadia não "adivinha" os atributos de D'us: deduz três deles de um único fato já provado — que Ele criou o mundo. A cadeia é limpa: quem cria é poderoso (só o poderoso age); quem é poderoso é vivo (só o vivo tem poder de agir); e uma obra bem ordenada exige um autor sábio, que soube de antemão como ela seria. Da criação, portanto, brotam de uma vez a vida, o poder e a sabedoria do Criador.
2

E estes três pontos o nosso intelecto encontrou, para o nosso Criador, de uma só vez, sem que um pensamento trouxesse um após o outro: pois, naquilo que Ele fez, confirmou-se-nos que Ele é vivo, poderoso e sábio. E não é possível que o intelecto chegue a um destes três antes do outro — antes, chega a todos num só instante: porque lhe é absurdo que Ele os tenha feito sem ser vivo, ou sem ser poderoso, ou que uma obra completa e bem ordenada venha de quem não soubesse como fazê-la — pois a obra de quem não sabe não sai ordenada nem intencional.

E, uma vez que estes três pontos se firmaram no nosso intelecto num só instante, não foi possível às nossas línguas exprimi-los num só instante, pois não achamos na língua uma única palavra que reunisse os três; e foi-nos preciso enunciá-los em três palavras, depois de termos esclarecido que o intelecto os viu de uma só vez.

E não pense ninguém que o Eterno, bendito seja, tenha em Si pontos distintos partes diversas: pois todos eles estão contidos no único ponto de que Ele é o que faz o Criador. É a nossa limitada expressão que nos levou a extrair esta única verdade em três palavras — porque, entre as coisas existentes, não achamos uma palavra que as reunisse; e não seria viável inventar-lhes uma, que ficaria desconhecida, precisaria de explicação, e nos faria voltar a muitas palavras no seu lugar.

E, se alguém pensar que estes pontos implicam mudança — isto é, que um seja outro que o outro —, mostrar-lhe-ei o erro do que pensou, pela investigação da verdade: a mudança e a alteração só ocorrem nos corpos e nos acidentes; mas o Criador dos corpos e dos acidentes está acima de toda mudança. E, para não me bastar com isto, acrescento: quando dizemos "o que faz" Criador, não acrescentamos nada à sua essência — apenas indicamos que há aqui algo feito por Ele. Do mesmo modo, quando dizemos "vivo, poderoso, sábio" — que são as explicações de "o que faz" —, não acrescentamos nada à sua essência, mas indicamos que há aqui algo feito; pois só é "o que faz" aquele que tem estes três pontos de uma só vez.

E, depois de ponderar isto e de o assentar, voltei aos livros sagrados e neles encontrei a negação de qualquer outro além d'Ele: "não há outro além d'Ele" (Devarim 4:35); "e que sussurro de palavra se ouve d'Ele!" (Iyov 26:14); e ainda: "o Senhor será Um, e o seu Nome, Um" (Zechariá 14:9).

ואלה השלשה ענינים מצאום שכלנו לעושינו פתאום בלי מחשבה מביאה אחת, והוא, שבמה שעשה ‏התקיים לו שהוא חי יכול חכם, כאשר בארתי. ולא יתכן שיגיע השכל אל אחד מהשלש הענינים ‏האלה קודם האחר, אך הוא מגיע אליהם פתאום, מפני שהוא שקר אצלו שיעשם זולת חי, ושיעשם ‏זולת יכול, ושיבא מעשה גמור ומתוקן, ממי שלא ידע איך יבא הפעל, כי מי שאינו ידע לא יהיה ‏מעשהו מתוקן ולא מכוון. וכאשר התקיימו בשכלנו אלה השלשה ענינים בבת אחת, לא נתכן ‏ללשונותינו להגיעו בבת אחת, כי לא מצאנו בלשון מלה מקבצת אלה הג' ענינים, ונצטרכנו להליץ ‏עליהם בשלש המלות, אחר אשר קשרנו הדבר בביאור שהשכל ראם בבת אחת. ואל יחשוב חושב ‏שהקדמון יתברך יש בו ענינים שונים, כי כל אלה הענינים הם כלם בענין שהוא עושה, אך מליצתינו ‏היא אשר הביאתנו להוציא זה הידוע בשלש מלות. כי לא מצאנו בדברים המושמים מלה שתקבץ ‏אותם, ולא יתכן לברוא להם מלה, ותהיה המלה בלתי ידועה, ותהיה צריכה לפירוש, ונשוב למלות ‏רבות במקומה. ואם יחשוב חושב: כי הענינים האלה מחייבים שנוי, ר"ל: שיהיה זה זולת זה, אבאר ‏לו הפסד מה שחשב בעיון האמת, והוא שהשנוי והשתנות לא יהיו כי אם בגשמים ובמקרים אך ‏בורא הגשמים ו המקרים הוא מרומם מכל שנוי ההשתנות, ולא יספיק לי זה עד שאשביעהו באור. ‏ואומר, כי כאשר אמרנו עושה, איננו מועיל תוספת בעצמו, אך מועיל שיש לו הנה עשוי. כן אמרנו חי ‏יכול חכם אשר הם פרושי עושה, אבל לא יהיה עושה, כי אם מי שאלה הענינים לו בבת אחת (א"כ ‏אינו מועיל תוספת בעצמו אבל מועיל שיש לו הנה עשוי). ואחר שהתבוננתי בזה ותקנתי, שבתי אל ‏ספרי הקדש ומצאתי בהם בבטול הזולת ממנו, (דברים ד' ל"ה) אין עוד מלבדו. (איוב כ"ו י"ד) ומה ‏שמץ דבר נשמע בו. ועוד (זכריה י"ד ד') יהיה י"י אחד ושמו אחד:‏
Nota essencial — a simplicidade divina. Eis o ponto mais sutil de toda a doutrina da unidade. Se D'us é "vivo, poderoso e sábio", não seriam três coisas n'Ele? Saadia responde com quatro golpes precisos: (1) o intelecto capta os três num só instante, não um após o outro — são uma só percepção; (2) a pluralidade está apenas na linguagem (não temos uma palavra única que diga "vivo-poderoso-sábio-criador"), não em D'us; (3) os atributos nada acrescentam à sua essência — apenas indicam que há algo criado por Ele; (4) não há n'Ele mudança nem partes, pois mudança só existe em corpos e acidentes, e Ele os transcende. É a doutrina dos atributos que o Rambam levaria ao seu ápice: dizer "D'us é sábio" não soma um traço a Ele — aponta para o que d'Ele procede.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Três palavras, uma só verdade

O capítulo enfrenta um perigo real para o monoteísmo: ao atribuir a D'us qualidades — vida, poder, sabedoria —, não estaríamos a dividi-Lo em partes, como se fosse um composto? Saadia mostra que não. Os três atributos não são três descobertas separadas: o intelecto encontra-os de uma só vez, no mesmo lampejo em que reconhece D'us como Criador. São três palavras para uma verdade única — e a culpa da multiplicidade é da língua, não de D'us.

A pluralidade está na língua, não em D'us

O argumento decisivo é sobre a linguagem. Faltam-nos palavras para dizer numa só a riqueza do que percebemos; por isso desdobramos em "vivo, poderoso, sábio" aquilo que o intelecto vê unido. Mas a fragmentação é do falante, não do nomeado. E, mais fundo ainda: dizer "Criador" não acrescenta nada a D'us — apenas afirma que existe algo criado. Assim também os atributos: não somam traços à sua essência; apontam, de fora, para aquilo que d'Ele procede. É o coração da teologia dos atributos que o Rambam desenvolveria.

Sem mudança, sem partes

Por fim, Saadia fecha a porta à objeção da mudança: variar e alterar-se são próprios dos corpos e dos acidentes, e D'us, que os criou, está acima deles. Um D'us sem corpo é um D'us sem partes; e um D'us sem partes é, necessariamente, imutável e um. A Escritura sela a conclusão: "o Senhor será Um, e o seu Nome, Um" — não só um na contagem, mas um na própria simplicidade do seu ser.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), capítulo 4, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Este capítulo trata dos atributos divinos (vivo, poderoso, sábio) e da simplicidade de D'us. As referências bíblicas seguem a numeração tradicional; acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Segue-se a continuação do tratado sobre a unidade. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado II · A unidade do Criador · Capítulo 5

Nem composto, nem dividido: a unidade absoluta

מַאֲמָר שֵׁנִי · ה׳

Saadia responde aqui a uma questão filosófica antiga: poderiam os atributos de D'us — a sua vida, a sua sabedoria — ser "pessoas" distintas n'Ele, tornando-O composto? A sua resposta aprofunda a simplicidade divina e a leitura figurada da Escritura: o que parece multiplicar D'us é, sempre, um só, ou uma figura de linguagem.

Nota de contexto. Este capítulo nasceu de um debate filosófico-religioso da Idade Média: Saadia argumenta contra a doutrina cristã da Trindade, defendendo a unidade absoluta de D'us. Apresentamo-lo aqui pelo seu valor filosófico duradouro — a simplicidade divina —, com pleno respeito ao cristianismo e a todas as religiões. O alvo do argumento é uma tese metafísica (a de um D'us composto), não pessoa ou povo algum; e o ensinamento permanente é universal: os atributos não dividem a unidade do Criador.
1

E digo, em seguida, que neste ponto erraram os que conceberam D'us de outro modo: foram levados a fazê-Lo três — a tradição que veio a formular a doutrina trinitária — e, assim, romperam a pura unidade. Tenho contra isto uma resposta vinda da razão, e busco auxílio n'Aquele que é, em verdade, Um.

Não dirijo esta resposta aos simples — que a concebem apenas de modo corpóreo, o que é fácil de refutar e já demonstrado —, mas aos seus pensadores, que julgam crer em três por via de especulação e raciocínio sutil. Estes chegaram aos atributos da vida e da sabedoria e neles se apoiaram, dizendo: "só um ser vivo e sábio pode criar" — e supuseram que a vida e a sabedoria d'Ele são duas coisas distintas da sua essência, tornando-se, assim, três.

ואחר כן אומר שבשער הזה טעו הנוצרים וחשבו בו זולתו, והביאם זה אל שישימוהו שלשה, ויצאו ‏אל הכפירה. והנה אני מקיים שיש עליהם מהתשובה מהמושכל, ובאחד האמת באחדותו אעזר. ‏ואינני מכוין בתשובה הזאת עמי הארץ שבהם, כי הם אינם יודעים כי אם השלוש המוגשם בלבד, ‏ולא אטריד ספרי בתשובתם מפני שהוא מבואר ונקל, אבל אכוון להשיב אל חכמיהם, אשר חושבים ‏שהם מאמינים בשלשה בעיון ובדקות תבונה, ובאו אל אלה המדות ותלו עצמם בם ואמרו: לא יברא ‏כי אם דבר חכם חי, וחשבו כי חיותו וחכמתו שני דברים זולת עצמו, ושבו אצלם ג'.
2

O começo da refutação é este: eles não escapam de conceber D'us ou como corpo, ou como não-corpo. Se O concebem como corpo, erram como os simples, e recaem sobre eles todas as refutações que já demos a quem corporifica D'us. E se O concebem como não-corpo, mas dizem que há n'Ele mudança — de modo que este atributo não seja aquele —, então estão, na verdade, a corporificá-Lo noutra linguagem; pois tudo o que tem mudança é, sem dúvida, corpo. E nós já firmámos que estes atributos são um só, que a língua não consegue reunir numa palavra, mas que o intelecto reúne no conhecimento. É como quem dissesse: "não adoro o fogo, mas a coisa que queima, ilumina e sobe" — que é, justamente, o fogo.

E procuramos levá-los a admitir: se recusam dizer que D'us é corpo (porque todo corpo é criado), então, do mesmo modo, não devem dizer que a sua vida e a sua sabedoria são distintas d'Ele — pois aquele cuja vida é distinta de si é, ele próprio, criado. Pois eles não atentaram para como a prova funciona: nós, a comunidade dos que afirmam a unidade, cremos que a vida do homem é distinta dele porque o vimos ora vivo, ora morto — soubemos que havia nele algo que o fazia vivo e que, ao retirar-se, o tornava morto; e assim, ora sábio, ora ignorante. Não fosse isso, creríamos que o homem é vivo e sábio por si mesmo. Ora, para o Criador de tudo, nunca há um momento em que Ele não seja vivo nem sábio, como há no homem; logo, Ele é necessariamente vivo por Si e sábio por Si — e cai por terra o que aqueles supuseram.

Ademais, eles nem sequer completaram o próprio raciocínio: falaram da essência, da vida e da sabedoria, mas omitiram o poder, e o ouvir e o ver. E, se "vivo" lhes basta para "poderoso", e "sábio" para "que ouve e vê", então "sábio" também lhes bastaria para "vivo" — pois não há sábio que não seja vivo. Vê-se que não seguiram a própria lógica; apenas lançaram a afirmação para opor-se ao que se lhes dizia. E, mais: se uma única mudança fosse possível n'Ele, toda mudança o seria — pois a especulação considera os gêneros e as espécies das coisas, não os seus indivíduos.

ותחלת מה ‏שתגל בו התשובה עליהם, שהם אינם נמלטים משיחשבוהו גשם או לא גשם, ואם חשבוהו גשם. הם ‏טועים כפתיי עמם, ועם זה הם חייבים בכל תשובה שהשיבונו בה על כל מי שיגשימהו. ואם לא ‏יחשבוהו גשם, אמרו שיש בו שנוי, עד שיהיה תארו זה אינו תארו האחר, הוא אמרם שהוא מוגשם ‏באמת, אבל אמרוהו בלשון אחר, כי מה שיש בו שנוי הוא גשם בלא ספק, ואנחנו כבר קיימנו, כי ‏הענינים האלה הם תאר אחד, אבל בלשון לא יוכל לקבצה בדבור, כאשר יוכל השכל לקבצה במדע. ‏ודומה זה למי שאומר הוא אינו עובד האש, אבל הוא עובד הדבר השורף המאיר העולה למעלה, ‏אשר הוא האש באמת. ואחר כן נשתדל עמם שיאמרו בפיהם שהוא גשם, ואם ימנעו מזה ויאמרו לא ‏יתכן לאמר שהוא גשם, שכל גשם עשוי, וכן יתחייב שלא יאמרו שחיותו וחכמתו זולתו, שכל מי ‏שחיותו זולתו עשוי. ואלה, ירחמך האל! סכלו אפני הבאה הראיה, והוא שאנחנו המון המיחדים ‏האמננו שחיי האדם זולתו, בעבור שראינוהו פעם חי ופעם מת, ידענו כי דבר היה בו והיה חי, ‏וכאשר סר ממנו שב מת. וכן כאשר ראינוהו פעם חכם ופעם סכל ידענו כי דבר היה בו והיה חכם, ‏וכאשר סר ממנו שב סכל. ולולי מה שראינו מאלה ב' הענינים באדם, היינו מאמינים כי האדם חי ‏חכם לעצמו. וכיון שבטל באמת מצוא עת לבורא הכל, שלא יהיה בה חי ולא חכם, כאשר נמצא ‏לאדם, התחייב בלי ספק שיהיה חי לעצמו וחכם לעצמו, ובטל מה שנטו אליו האנשים האלה ‏מעיקרו. ועם זה לא השלימו מה שראוי לידועם על דעתם, והוא שאמרו עצמו וחיותו וחכמתו, ועזבו ‏לומר ויכלתו וכן ענין שומע ורואה. ואם אמרם חי מספיק להם מיכול, ואמרם חכם מספיק להם ‏משומע ורואה, אמרם ג"כ חכם מספיק להם מחי, כי אין חכם כי אם חי. הלא תראה שהם לא הלכו ‏על דעתם אפילו אחר עיונם, אך הבהילו במאמר הזה לעמוד בו כנגד מה שנאמר להם. ואחר כן ‏אומר: כי אם היה אפשר בענינו שנוי אחד, היה אפשר בו כל שנוי שבעולם כי העיון איננו מעיין כי אם ‏בכללי הדברים ומיניהם, ואיננו מעיין באישיהם ופרטיהם. ואם האנשים האלה חשבו להביא ראיה מן ‏המושכל, כבר בארנו הפסדו עליהם במה שנטו אליו.
Nota — a simplicidade divina, mais uma vez. O coração do argumento é o mesmo do capítulo anterior, levado mais fundo. Por que dizemos que a vida de um homem é "algo distinto dele"? Só porque ele pode perdê-la — ora vivo, ora morto; ora sábio, ora não. Mas D'us nunca pode carecer de vida ou de sabedoria: logo, estas não são "acréscimos" à sua essência — são a sua essência. Atribuir-Lhe partes distintas seria torná-Lo mutável, e o mutável é corpóreo. Um D'us sem corpo é, necessariamente, sem partes — e, portanto, absolutamente Um.
3

E, se trazem prova da Escritura — dizendo alguns: "vi a Escritura falar de espírito e palavra", como em "o espírito do Senhor falou por mim, e a sua palavra esteve na minha língua" (Shmuel II 23:2) —, respondemos que esse "espírito" e essa "palavra" são criados: são as coisas distintas que o Criador pôs na boca do seu profeta. Sabemos, aliás, que a Escritura chama o próprio Nome de D'us de "alma" (nefesh) — "que não tomou em vão a minha nefesh" (Tehillim 24:4), isto é, o meu Nome. Assim como "nefesh" e "ruach", nas criaturas, são uma coisa, e a "nefesh" do Criador significa o seu Nome, também o "ruach" espírito a Ele referido significa visão e profecia. Quem traz tal prova revela pouco conhecimento da língua hebraica.

Do mesmo modo, alguns alegam que a Escritura diz que "o espírito de D'us cria" — "o espírito de D'us me fez" (Iyov 33:4) — e que "a palavra do Senhor cria" — "pela palavra do Senhor foram feitos os céus" (Tehillim 33:6). Também isto vem do pouco domínio da língua: a Escritura quer dizer que o Criador fez as coisas "pela sua ordem, pela sua palavra, pela sua vontade" — isto é, que as fez intencionalmente, não em vão, nem por erro, nem por compulsão (cf. Iyov 23:13); e que, "pela palavra e pelo sopro da sua boca", as fez de uma só vez, não numa medida de tempo nem parte após parte — "eu as chamo, e elas se erguem juntas" (Yeshayahu 48:13). É uma imagem, como o que se faz por um dito ou por um sopro: "pelo sopro da sua boca, todo o seu exército" (Tehillim 33:6); "pelo sopro das tuas narinas" (Tehillim 18:16).

ואם הביאו ראיה מן הכתוב, במה שאומרים ‏קצתם, ראיתי הכתוב אומר רוח ומלה, הוא אמרו (ש"ב כ"ג ב') רוח י"י דבר בי ומלתו על לשוני. ‏נאמר כי זה הרוח והמלה ברואים, הם הדברים המופרדים אשר שם הבורא בפי נביאו, וכבר ידענו ‏כי הספרים קוראים שם הבורא נפש, כאשר אמר (תהל' כ"ד ד') אשר לא נשא לשוא נפשי במקום ‏שמי. וכאשר היה בברואים נפש ורוח ענין אחד, והיה נפש בבורא ענינו שם, כן לו רוח וענינו חזון ‏ונבואה. וזה מאלה המביאים ראיה מעוט ידיעה בלשון העברים. וכן מצאתי קצתם מביא ראיה, כי ‏הספרים אמרו, כי רוח האל עושה. כאמרו (איוב ל"ג ד') רוח אל עשתני ונשמת שדי תחיני. ואמרו ‏שדבר הבורא עושה, כאמרו (תהלים ל"ג ה') בדבר י"י שמים נעשו. וראיתי שגם זה ממעוט ידיעתם ‏בלשון; אך חפץ הספרים באמרם כי העושה עשה הדברים בצוויו, או במאמרו, או בחפצו, או ברצונו; ‏כלומר שעשה אותם בכוונה, לא על דרך השוא ולא בשגגה, ולא בהכרח, כאשר אמר (איוב כ"ג י"ג) ‏והוא באחד ומי ישיבנו ונפשו אותה ויעש. ורוצים באמרו שהוא עשה אותו בדברו וברוח פיו ובמאמרו ‏ובקריאתו שעשה אותם בבת אחת, לא במדה מהזמן, ולא חלק אחרי חלק, כאשר אמר (ישע' מ"ח ‏י"ג) קורא אני אליהם יעמדו יחדיו. ונדמה לנו זה בדבר אשר נאמר לו בו או שנפח בו ברוח פיו, כן ‏אמר (תהל' ל"ג ו') וברוח פיו כל צבאם. מנשמת רוח אפך (שם י"ח ט"ז)
4

E é justamente aqui que vejo esses intérpretes abandonarem a própria tese. Pois a Escritura diz também que a mão de D'us faz ("a mão do Senhor fez isto", Iyov 12:9); que o seu olho guarda ("os olhos do Senhor guardam o conhecimento", Mishlei 22:12); que a sua glória recolhe ("a glória do Senhor te recolherá", Yeshayahu 58:8); que a sua ira sobe ("a ira do Senhor subiu contra eles", Tehillim 78:31); que as suas misericórdias vêm ("venham sobre mim as tuas misericórdias, e viverei", Tehillim 119:77). Ora, cada um destes seria, então, mais um "atributo" acrescentado ao "espírito" e à "palavra" — pois a cada um se atribui uma ação, tal como àqueles. Se "espírito" e "palavra" fizessem de D'us vários, a "mão", o "olho", a "glória", a "ira" e a "misericórdia" fá-lo-iam muitíssimos mais — o que é absurdo. Todos estes, e os que se lhes assemelham, são, para nós, expressões figuradas e amplitudes da língua; cada um tem o seu sentido próprio, que explicarei adiante, com a ajuda de D'us.

ומזה אני מוצא אותם ‏עוזבים דעתם, כי הספרים אומרים כי ידו תעשה (איוב י"ב ט') כי יד י"י עשתה זאת. ושעינו תצור ‏‏(משלי כ"ב י"ב) עיני ה' נצרו דעת. ושכבודו יאסוף (ישע' נ"ח ח') כבוד י"י יאספך. ושאפו עולה (תהל' ‏ע"ח ל"א) ואף י"י עלה בהם. ושרחמיו באים (שם קי"ט ע"ז) יבואוני רחמיך ואחיה. ויהיה כל אחד ‏מאלו הענינים והדומה להם מדות אחרות מוספות על הרוח והמלה. מפני שלכלם פעל מיוחס להם ‏כאשר להם פעל מיוחס. ואלה, יישירך האלהים! והדומה להם אצלנו העברות בדבור והרחבות ‏נרחבה בהם הלשון, ולכל אחד מהם הקרבה והבנה, אבאר אותו בעתיד בעזרת האל:‏
Nota — espírito, palavra... e também mão e olho. O argumento final é uma reductio elegante, que retoma a regra do capítulo 3 (a linguagem figurada). Se "espírito" e "palavra" bastassem para multiplicar D'us, a Escritura — que também fala da sua "mão", do seu "olho", da sua "glória", da sua "ira" e das suas "misericórdias", cada uma com a sua ação — O multiplicaria sem fim. Ninguém pensa que D'us tem uma mão de carne; pela mesma razão, "espírito" e "palavra" são figuras, ou então coisas criadas (a profecia que Ele põe na boca do profeta). A unidade permanece intacta: o que parece dividir D'us é sempre, ou um só, ou uma imagem.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Um antigo debate, um ensinamento universal

Saadia escreveu num mundo de intenso diálogo filosófico entre judeus, cristãos e muçulmanos, e este capítulo é a sua contribuição a uma das grandes discussões da época: pode a unidade de D'us conciliar-se com uma pluralidade interna de "pessoas"? A sua resposta é apresentada aqui não como polêmica, mas pelo que tem de permanente — uma defesa rigorosa da simplicidade do Criador, válida contra qualquer concepção que O fragmente. Lê-se com respeito por todas as tradições que buscam a D'us.

Por que os atributos não dividem D'us

O argumento decisivo é fino: só sabemos que a vida e a sabedoria de um homem são "algo distinto dele" porque ele as pode perder. Em D'us, que jamais pode estar sem vida ou sem sabedoria, esses atributos não são partes acrescentadas — coincidem com o seu próprio ser. Distingui-los como "pessoas" introduziria n'Ele mudança; e o que muda é corpo. Assim, a unidade absoluta e a incorporeidade são uma só verdade, vista de dois ângulos.

"Espírito e palavra" — figura, não pessoa

Por fim, Saadia mostra que os versos sobre o "espírito" e a "palavra" de D'us não descrevem entidades distintas: ou são coisas criadas (a inspiração posta no profeta), ou figuras de linguagem que dizem apenas que D'us cria com intenção e de uma só vez. E sela com uma reductio: se bastassem para multiplicá-Lo, então a "mão", o "olho" e a "ira" de D'us fá-lo-iam ainda mais múltiplo — o que ninguém aceita. Tudo isso é linguagem figurada, como já se ensinou. A unidade do Criador sai inteira.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), capítulo 5, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Este capítulo, um único segmento contínuo no original, foi dividido em quatro partes para a leitura, preservando-se o hebraico verbatim. O texto responde, no seu contexto histórico, à doutrina trinitária; traduziu-se com sobriedade, apresentando o argumento pelo seu valor filosófico (a simplicidade divina), com respeito a todas as religiões. As referências bíblicas seguem a numeração tradicional; acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado II · A unidade do Criador · Capítulo 6

Quando a Escritura parece dizer "nós"

מַאֲמָר שֵׁנִי · ו׳

Alguns versos parecem insinuar uma pluralidade em D'us: "o Senhor me adquiriu", "façamos o homem", os "três homens" de Mamré. Saadia mostra, um a um, que são gramática e figura — o plural de majestade, os anjos criados, a elipse hebraica. Lidos com cuidado, todos confirmam a unidade.

1

E encontrei alguns que entendem o verso "o Senhor me adquiriu no princípio do seu caminho" (Mishlei 8:22) como se o Criador tivesse uma "palavra" eterna que nunca deixou de Lhe ser co-eterna. A este ponto já respondi antes, ao tratar dos "espiritualistas": mostrei que a palavra kanani "adquiriu-me" significa criou, e expliquei que aquele atributo é o atributo da sabedoria. Não se quer dizer que Ele criou as coisas por meio de um instrumento chamado sabedoria, mas que as criou bem ordenadas — de modo que quem as vê testemunha que um sábio as fez.

ומצאתי קצתם חושב ענין י"י קנני ראשית דרכו (משלי ח' כ"ב) שלבורא מלה קדמונה לא סרה ‏ברואה. והשער הזה כבר השיבותי קודם הפעם הזאת על אשר השיבותי אל הרוחניים, ובארתי ‏שמלת קנני ענינה בריאה, וגליתי שהתאר ההוא תאר החכמה; ואין רוצים בו שברא הדברים בכלי ‏הוא החכמה, אבל רוצים בו שברא הדברים מתוקנים, יעיד מי שיראה אותם כי חכם עשה אותם. ‏
Nota — "adquirir" quer dizer "criar". O primeiro verso (Mishlei 8:22), em que a Sabedoria diz "o Senhor me adquiriu", parecia a alguns provar uma "palavra" ou sabedoria co-eterna a D'us — uma segunda entidade. Saadia desfaz isto: kanani aqui significa criou, e "sabedoria" é apenas o atributo da obra — o mundo é feito tão bem que testemunha um Autor sábio (como no cap. 4). A sabedoria de D'us não é um instrumento à parte d'Ele, nem uma pessoa: é o próprio Criador, visto pela ordem da sua obra.
2

E vi outros que se apoiam em "façamos o homem à nossa imagem" (Bereshit 1:26), dizendo que esse dito "aponta para vários". Estes erram ainda mais, pois não sabem que a língua hebraica permite a um grande exaltado falar no plural — "façamos", "faremos" — sendo um só. Assim disse Balak: "talvez eu possa (אוכל) feri-lo (נכה)" (Bamidbar 22:6); e disse Daniel: "o sonho e a sua interpretação diremos diante do rei" (Daniel 2:36, falando de si mesmo); e disse Manoach: "permite que te detenhamos, e faremos diante de ti um cabrito" (Shoftim 13:15) — e coisas semelhantes. É o "plural de majestade".

וראיתי אחרים נתלים בנעשה אדם בצלמנו (בראש' א') ואומרים שזה הדבור רומז לרבים. ואלה ‏יותר סכלים מהאנשים ההם, כי לא ידעו כי לשון העברים מתרת לגדול לאמר נפעל ונעשה והוא ‏אחד, כאשר אמר בלק (במדבר כ"ב ו') אולי אוכל נכה בו. ואמר דניאל (ב' ל"ו) דנא חלמא ופשרא ‏נאמר קודם מלכא. ואמר מנוח (שופטים י"ג ט"ו) נעצרה נא אותך ונעשה לפניך גדי עזים והדומה ‏להם.
Nota — o plural de majestade. "Façamos o homem" (Bereshit 1:26) não insinua pluralidade alguma em D'us — é uma figura de gramática, não de teologia. O hebraico (como o português "nós" majestático) permite que um único falante de alta dignidade use o plural. Saadia prova-o com três exemplos em que uma só pessoa fala de si no plural: Balak, Daniel e Manoach. Ler "façamos" como "vários deuses" é confundir um traço da língua com uma doutrina.
3

E alguns pensam, a respeito de "e o Senhor lhe apareceu nos carvalhais de Mamré" (Bereshit 18:1), que aquilo que apareceu a Avraham — chamado por este Nome — é três, pois logo se diz "três homens de pé diante dele". Mostrarei que estes se equivocam mais que todos, porque não esperaram chegar ao fim do relato. Tivessem esperado até ouvir "e os homens se viraram dali e foram para Sodoma, mas Avraham ainda permanecia diante do Senhor" (Bereshit 18:22), saberiam que os homens já tinham partido, enquanto a Glória do Senhor permanecia e Avraham diante dela — e cai por terra a ideia de que Ele seja eles.

Na verdade, a Glória apareceu primeiro a Avraham, para que aqueles visitantes aprendessem dele o modo dos homens piedosos e tementes ao Nome. Por isso lhes disse "meus senhores, se agora achei graça aos vossos olhos" (Bereshit 18:3) — querendo dizer: mensageiros anjos do Senhor, segundo o modo de elipse omissão que há no hebraico e noutras línguas. Como em "pelo Senhor e por Gid'on!" (Shoftim 7:20, isto é, "a espada é pelo Senhor e por Gid'on"); "aos de Azá, dizendo" (Shoftim 16:2, com palavra omitida); "e foi contado" (Shoftim 9:25, com sujeito omitido); "e Avshalom enviou e tomou Achitofel" (Shmuel II 15:12, com verbo omitido) — e coisas semelhantes.

ואחדים חושבים בענין (בראשית י"ח א') וירא אליו י"י באלוני ממרא ואומרים, שזה הענין אשר ‏נראה לאברהם הנקרא בשם הזה הוא שלשה; כי הוא פירש אחריו, שלשה אנשים נצבים. ואבאר כי ‏אלה הם סכלים מהכל, והוא, שלא המתינו עד שיגיעו לסוף הענין, ואלו היו ממתינים עד שישמעו ‏‏(שם שם כ"ב) ויפנו משם האנשים וילכו סדומה ואברהם עודנו עומד לפני י"י. היו יודעים כי האנשים ‏כבר הלכו וכבוד י"י עומד ואברהם לפניו, ובטל שיהיה הוא הם, אבל נראה הכבוד תחלה לאברהם ‏שילמד ממנו שאלה אנשי חסידים ויראי השם. על כן אמר להם (שם שם ג') אדני אם נא מצאתי חן ‏בעיניך; רוצה לומר, מלאכי י"י, על דרך ההסתר הנמצא בלשון העברים ובלשונות אחרות, כאשר ‏אמרו (שופטים ז' כ') לי"י ולגדעון רוצים, חרב לי"י ולגדעון. ואומרים (שם ט"ז ב') לעזתים לאמר. ‏וכבר הסתירו (שם ט' כ"ה) ויוגד. ואמרו (ש"ב ט"ו י"ב) וישלח אבשלום. והסתירו ויקח את אחיתופל ‏והדומה לזה:‏
Nota — ler a história até o fim. Sobre os "três homens" de Mamré (Bereshit 18), Saadia dá uma lição de método: não pare no meio do verso. Quem lê só o começo vê "o Senhor apareceu" e logo "três homens", e se confunde. Mas a própria narrativa resolve: poucos versos depois, "os homens partiram para Sodoma, e Avraham permaneceu diante do Senhor" (18:22) — logo, os três homens (anjos criados) não são a Glória. E o tratamento ora no singular, ora no plural ("meus senhores") explica-se pela elipse hebraica, ilustrada com vários exemplos. A unidade lê-se na atenção ao texto inteiro.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A gramática a serviço da verdade

Este capítulo é uma pequena aula de leitura. Saadia não defende a unidade de D'us ignorando os versos difíceis — enfrenta-os de frente e mostra que, lidos corretamente, nenhum deles a contradiz. A chave, como no capítulo 3, é a regra da linguagem figurada e gramatical: a Torá fala "na língua dos homens", e essa língua tem os seus recursos — o plural de majestade, a elipse, os nomes dos atributos. Conhecer a língua é, aqui, conhecer a verdade.

Três armadilhas, três chaves

Aos três versos correspondem três chaves. "Adquiriu-me" (a Sabedoria) lê-se como "criou-me": a sabedoria é atributo, não pessoa. "Façamos o homem" é o plural de majestade, comprovado por falantes humanos isolados. E os "três homens" de Mamré são anjos criados, distintos da Glória — como o próprio relato deixa claro quando eles partem e Avraham permanece diante de D'us. Em cada caso, a leitura apressada erra; a leitura paciente confirma a unidade.

Ler até o fim

A lição mais geral talvez seja a do terceiro caso: esperar o fim do relato. Muitos equívocos sobre o sagrado nascem de uma frase isolada, lida fora do seu todo. A Escritura interpreta-se a si mesma — basta ter a paciência de ouvi-la inteira. E, ouvida inteira, ela diz sempre o mesmo: o Senhor é Um.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), capítulo 6, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Este capítulo, um único segmento contínuo no original, foi dividido em três partes para a leitura, preservando-se o hebraico verbatim. As referências bíblicas seguem a numeração tradicional; acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado II · A unidade do Criador · Capítulo 7

A Presença de D'us não é D'us

מַאֲמָר שֵׁנִי · ז׳

Pode um ser criado — um corpo, um homem — tornar-se divino, no todo ou em parte? Saadia responde que não, com um argumento elegante: se o repousar da Glória de D'us sobre algo o tornasse divino, então o monte Sinai, a sarça e a Tenda do Encontro também seriam D'us. A Presença não é a essência; D'us permanece um e indivisível.

Nota de contexto. Este capítulo continua a discussão filosófica medieval dos capítulos anteriores: classifica e responde a diversas concepções que atribuiriam divindade a um redentor humano. Apresentamo-lo aqui apenas pelo seu princípio filosófico universal — a unidade e a incorporeidade de D'us, e a distinção entre a sua Presença e a sua essência —, com pleno respeito a todas as religiões. Os nomes das posições históricas não são o ponto; o ensinamento permanente é universal. Saadia, aliás, remete o tratamento completo aos Tratados III (sobre a revelação) e VIII (sobre o Mashiach).
1

E essas pessoas dividem-se em quatro grupos — três mais antigos e um quarto, surgido mais recentemente —, conforme o modo como concebem o seu redentor:

— O primeiro sustenta que ele, corpo e espírito, é parte do Criador, bendito seja.
— O segundo, que o seu corpo é criado, mas o seu espírito é do Criador.
— O terceiro, que o seu corpo e o seu espírito são criados, mas que há nele outro espírito, vindo do Criador.
— O quarto pensa que ele é como os profetas, apenas; e entende o termo "filho", que lhe aplicam, como nós entendemos "Israel é o meu filho primogênito" (Shemot 4:22) — isto é, uma expressão de honra e exaltação, somente; tal como a tradição entende o caso de Avraham, "amigo do Criador".

Quanto a este último grupo, a resposta decorre do que exponho neste livro, e do que tratarei no Tratado III (sobre a revelação das leis) e no Tratado VIII (sobre a vinda do Mashiach).

ואלה האנשים, ירחמך האל! ארבע כתות. השלש מהם יותר קדמונים, והרביעית מקרוב יצאה. ‏‏הראשונה רואה כי משיחם גופו ורוחו מהבורא יתברך. ‏והשנית רואה שגופו ‏נברא ורוחו מהבורא לו. ‏שלישית רואה שרוחו וגופו נבראים, ויש בו רוח אחרת מהבורא. ‏אבל ‏הרביעית חושבת שהוא כמו הנביאים בלבד, וסוברים בבן הנזכר אצלם בו, כאשר ‏נסבור אנחנו בבני בכורי ישראל (שמות ד' כ"ב) כי הוא להגדיל ולפאר בלבד. וכאשר חושבים זולתנו ‏ענין אברהם ידיד הבורא. וזאת הכת האחרונה התחייבו ממה שאשיב עליהם בספר זה, וממה ‏שאזכרנו בשער השלישי בשער בטול התורות שנקרא בערבי אל נס"ך. וכל מה שאזכרנו במאמר ‏השמיני בביאת המשיח.
2

Quanto ao primeiro grupo — que diz que uma parte de D'us se tornou corpo e espírito —, recai sobre ele tudo o que recai sobre os que afirmam que as coisas criadas são parte do Criador já refutado.

Quanto ao terceiro grupo — que diz que o seu corpo e espírito são criados, com um espírito divino nele —, isto obrigaria a crer que um corpo criado se tornou divindade pela associação de algo divino nele; e o comparam ao repousar da Glória sobre o monte Sinai, sobre a sarça e sobre a Tenda do Encontro. Mas então seriam obrigados a crer que a Tenda, a sarça e o monte também são divindade! — e assim acrescentam mal sobre mal. (Recai ainda sobre eles o que mencionei nos tratados sobre a revelação das leis e sobre a vinda do Mashiach.)

E quanto ao grupo intermédio o segundo, recai sobre ele o que recai sobre os outros dois juntos: o que recai sobre o primeiro, por dizer que o espírito é divino e supremo; e o que recai sobre o último, por dizer que o corpo é criado. Em suma — e isto é o que mencionei em resumo, para mostrar a verdade que se ergue sobre todo aquele que creu ser D'us dois, ou três, ou mais —: Ele é um, indivisível.

אך הכת הראשונה האומרת כי קצת האל שב גוף ורוח, היא מתחייבת עם ‏שתי התשובות האלה כל מה שיתחייבו בו האומרים, כי הדברים הנבראים הם מן הבורא. והכת ‏השלישית האומרת שגופו ורוחו מחודשים, תחייב כי גוף מחודש שב אלוה בשתוף דבר בו אלהי, ‏ומקישין אותו לחול הכבוד על הר סיני, ובעץ הסנה, ובאהל מועד. וזה מחייב אותם להאמין, כי ‏האהל והסנה וההר, האלהים גם כן, ויוסיפו רעה, ועם זה התחייבו מה שזכרתיו בשער בטול ‏התורות ובשער ביאת המשיח. אך הכת האמצעית התחייב בו מה שהתחייבו בו השתי כתות יחד, ‏תתחייב מה שהתחייבה בו הראשונות, מפני שאמרה שהרוח אלהית עליונה, ומה שהתחייבה בו ‏האחרונה, מפני שאמרה כי הגוף מחודש. ואם זה מה שיש בשער בטול התורות וביאת המשיח לא ‏תמלט ממנו, והוא, מה שזכרתיו בקצרם לגלות התשועה על מי שהאמין שהוא שנים או שלשה או ‏יותר, אך הוא אחד נפרד:‏
Nota essencial — a Presença não é a essência. Aqui está o argumento universal do capítulo, e é de uma elegância notável. Alguns sustentavam que um ser criado se tornaria divino porque "algo divino" repousaria nele — e comparavam isso ao repousar da Glória de D'us sobre o monte Sinai, sobre a sarça ardente e sobre a Tenda do Encontro. Saadia desmonta a comparação: se bastasse a Glória repousar sobre algo para torná-lo D'us, então o monte, a sarça e a Tenda seriam D'us — o que ninguém aceita. Logo, a Presença de D'us num lugar ou num ser não o torna divino. D'us habita o mundo sem se tornar mundo; permanece incorpóreo, transcendente e um.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Um antigo debate, um princípio permanente

Como os capítulos vizinhos, este nasceu do diálogo filosófico-religioso da Idade Média, e Saadia o apresenta como parte da sua defesa da unidade de D'us. Lê-se aqui com respeito por todas as tradições; o que permanece, para além das posições históricas, é o princípio: nenhum ser criado — nem corpo, nem homem, nem lugar — se torna divindade, nem no todo nem em parte. A divindade não se reparte nem se encarna.

Onde D'us habita não vira D'us

O coração do argumento é a distinção entre a Presença e a essência de D'us. A Torá fala da Glória de D'us que "desce" sobre o Sinai, que arde na sarça, que enche a Tenda do Encontro — mas o monte continua monte, a sarça continua sarça, a Tenda continua Tenda. Que D'us se faça presente num lugar ou numa vida não confere a esse lugar ou a essa vida a natureza divina. É a mesma incorporeidade que o tratado vem afirmando: D'us está em tudo sem ser nenhuma coisa.

Um, indivisível

A conclusão recolhe todo o Tratado II: contra toda concepção que faria de D'us "dois, ou três, ou mais", a razão e a Escritura afirmam-No um e indivisível — sem partes, sem composição, sem encarnação. A unidade de D'us não é apenas a negação de outros deuses (Tratado, caps. 1-2); é a sua absoluta simplicidade (caps. 4-7): Ele não se soma a nada, não se divide em nada, e não se torna nada.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), capítulo 7, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Este capítulo, um único segmento contínuo no original, foi dividido em duas partes para a leitura, preservando-se o hebraico verbatim. O texto continua, no seu contexto histórico, a discussão de concepções que atribuiriam divindade a um redentor; traduziu-se com sobriedade, apresentando o argumento pelo seu valor filosófico (a unidade e a incorporeidade de D'us; a distinção entre Presença e essência), com respeito a todas as religiões. Acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado II · A unidade do Criador · Capítulo 8

O mais sutil é o mais forte

מַאֲמָר שֵׁנִי · ח׳

Como pode o que é mais sutil ser também o mais forte? Saadia mostra-o numa escada da própria natureza — a alma governa o corpo, a sabedoria governa a alma, o fogo move tudo —, até D'us, "mais sutil que tudo e mais forte que tudo". E dá a regra de ouro para falar de D'us: medir cada atributo pela raiz já firmada.

1

E a isto acrescento o que talvez alguém pergunte: como pode aquilo que é mais sutil que tudo ser, ao mesmo tempo, mais forte que tudo? Respondo: o Sábio pôs, para esta questão, sinais no mundo existente. A alma é mais sutil do que o corpo e, no entanto, é mais forte do que ele — pois é por ela que o homem governa a si mesmo; e por isso os antepassados juravam: "pela vida do Senhor, que nos fez esta alma" (Yirmiahu 38:16). Do mesmo modo, a sabedoria é mais sutil do que a alma e, contudo, mais forte do que ela — pois é por ela que a alma se conduz; e por isso só a ela se encontra atribuída ao Criador: "o Senhor, pela sabedoria, fundou a terra" (Mishlei 3:19).

E, nos quatro elementos, vemos que a água é mais sutil do que a terra, e mais forte do que ela — pois a penetra e a desagrega. O ar é mais sutil do que a água, e mais forte do que ela — pois a move e, às vezes, a arremessa. E o fogo é mais forte do que tudo, pois a esfera do fogo gira em torno de tudo; e da sua moção contínua repousa a terra, com tudo o que há nela, no centro. E à moção suprema, que faz girar a grande esfera, o homem não conhece causa motriz alguma — senão a ordem do seu Criador, bendito seja, que é mais sutil que tudo e mais forte que tudo. Ficou, pois, claro que toda coisa é mais forte na exata medida em que é mais sutil. E, posto isto, vejo por bem escrever a maioria dos atributos e das questões que se levantam neste tema — o que sobe ao coração, o que se encontra na Escritura e o que se ouve da boca dos crentes; e antes deles ponho uma regra geral.

ואסמיך לזה מה שאולי יאמר אומר: איך יהיה מה שהיא יותר דק מכל דק בענין חזק מכל חזק? ‏אומר: כי החכם שם לשער הזה סימנים בנמצא, והוא, שהנפש יותר דקה מהגוף והיא חזקה ממנו ‏ובה מנהיג את עצמו, ועל כן היו האבות נשבעים (ירמיה ל"ח ט"ז) חי י"י אשר עשה לנו את הנפש ‏הזאת. וכן החכמה יותר דקה מן הנפש והיא חזקה ממנה ובה תתנהג, ובעבור זאת תמצאנה לבדה ‏מיוחסת אל הבורא, (משלי ג' י"ט) י"י בחכמה יסד ארץ. וכן בארבע יסודות אנו רואים המים שהם ‏יותר דקים מן העפר, והם יותר חזקים ממנו, מפני שהם שוקעים בו ועוקרים אותו. והרוח יותר דק ‏מן המים והוא חזק מהם, כי הוא מניע אותם ופעמים ישליכם. והאש יותר חזקה מן הכל, כי עגלת ‏האש סובבת הכל, ומתנועתה המתמדת תנוח הארץ וכל אשר עליה במרכז, והתנועה העליונה ‏המזרחית אשר מסבבת הגלגל הגדל לא ידע לה אדם סבה מניעה, כי אם מצות יוצרה ית', אשר ‏הוא דק מן הכל וחזק מן הכל. וכבר התבאר כי כל דבר הוא יותר דק בענין הוא חזק ממנו. וכיון ‏שהקדמתי הענינים האלה, אני רואה לכתוב רוב התארים והדברים ששואלים עליהם בענין הזה, ‏ממה שעולה על הלב, ונמצא בכתוב, ונשמע מדברי מאמין. ואקדים לזה מאמר כולל:‏
Nota — quanto mais sutil, mais forte. Saadia responde a um enigma deixado na Introdução: como pode o que é mais sutil (D'us, "mais fino que todo fino") ser também o mais poderoso? A resposta está numa escada visível na própria natureza: a alma, mais sutil que o corpo, governa-o; a sabedoria, mais sutil que a alma, conduz a alma; entre os elementos, a água vence a terra, o ar vence a água, o fogo move tudo — cada um mais sutil e mais forte que o anterior. No topo: o Criador, "mais sutil que tudo e mais forte que tudo". O imaterial governa o material — e o que há de mais real e poderoso é o que tem menos matéria.
2

E digo: tudo aquilo a que se alude, neste tema, como substância (etzem) ou acidente (mikreh) — ou como atributo de uma substância ou de um acidente —, não convém aplicar ao Autor, nem muito, nem pouco. Pois deste Autor, bendito e exaltado, ficou estabelecido que Ele é o autor de tudo; e não resta substância, nem acidente, nem coisa descritível, que não seja já reconhecida, delimitada e firmada como feita por este Autor — e é, portanto, impossível dizer d'Ele qualquer coisa daquilo que Ele mesmo fez. E tudo o que se encontra nos livros dos profetas, de atributos de substância e de acidente, há de ter, na língua, sentidos outros que não a corporificação — de modo a concordar com o que a razão exige. E tudo o que nós, a comunidade dos crentes, dizemos dos seus atributos, no que se assemelha à corporificação, é, da nossa parte, aproximação e símile, e não no sentido corpóreo em que dizemos coisas semelhantes a respeito dos seres humanos.

E, esclarecidos estes três pontos, que não te enganem nem te lancem em dúvidas as objeções de quem investiga nos livros — quando dizes "Ele é vivo", ou "Ele quer", ou "Ele deseja", "Se ira" e coisas assim; nem o que há nos próprios livros sagrados. Pois estas "qualidades" só as dizemos depois de firmada a raiz a unidade e a incorporeidade, como antes expusemos — para que a ela retornem e sobre ela se apoiem; pois o edifício só se constrói do alicerce para cima, e não de cima para baixo. Por isso, não te perturbes por causa de um atributo que vejas nos livros, ou que nos encontres a admitir, e voltes a cair em dúvida; antes, mede-o pela raiz que já se tornou clara e firme, em verdade.

ואומר: כי כל מה שרומזים אליו בענין הזה מעצם ומקרה, או תאר לעצם ומקרה, לא יכשר ממנו לא ‏רב ולא מעט בענין העושה. כי זה העושה יתברך ויתעלה התקיים לו שהוא עושה הכל, ולא נשאר ‏עצם ולא מקרה ולא מה שיתואר בו, אלא שכבר נכר ונגבל ונכלל והתקיים שזה העושה עשהו, וכבר ‏נמנע ונשתקר שיאמר עליו מאומה ממה שהוא עשהו. וכל מה שימצא בספרי הנביאים מתארי העצם ‏והמקרה, אי אפשר שלא ימצא להם בלשון ענינים זולת ההגשמה, עד שיסכים למה שמחייב אותו ‏העיון. וכל מה שנאמרהו אנחנו המון המאמינים מתאריו ממה שידמה להגשמה, הוא ממנו הקרבה ‏והמשלה, ואינו בגשמות הדברים אשר נאמר כמוהם על בני אדם. וכיון שבארתי אלה השלשה ‏ענינים, אל יטעוך המעיין בספר ויכניסו עליך הספקות, מאמרך חיה, ומאמרך חפץ, ומאמרך רצה ‏וכעס והדומה לזה. וכן ממה שיש בספרים, כי אלה המעלות לא נאמר אותם אלא אחר קיום השרש, ‏כאשר הקדמנו אליו שישובו אליו וינשאו עליו, כי הבנין איננו נבנה כי אם המיסוד ולמעלה, ואיננו ‏נבנה ממעלה למטה. על כן אל תהי נבוך בעבור תאר שתראה אותו בספרים או שתמצא אותנו ‏מסכימים עליו, ותשוב בספק. אבל הקש אותו על השרש באשר כבר התברר והתקיים באמת:‏
Nota essencial — a regra de ouro para falar de D'us. Três pontos compõem a regra: (1) D'us, sendo o Autor de tudo, não pode ser descrito por nenhuma substância nem acidente — pois tudo isso é obra sua, e não se descreve o autor pela sua obra; (2) toda linguagem corpórea da Escritura ("a mão", "a ira" de D'us) tem de ter sentido figurado, conforme a razão exige; (3) o que nós mesmos dizemos ("Ele é vivo, quer, deseja") é aproximação e símile, não no sentido em que o diríamos de um homem. E a imagem decisiva: "o edifício constrói-se do alicerce para cima, não de cima para baixo" — primeiro firma-se a raiz (D'us é um e incorpóreo), e só então os atributos são afirmados sobre ela e medidos por ela. Nenhuma palavra antropomórfica pode abalar o que a razão já estabeleceu.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Quanto mais sutil, mais forte

O capítulo abre com uma das intuições mais belas de Saadia, e responde a uma dificuldade que a Introdução havia deixado: se D'us é o mais "sutil" de todos os existentes, como pode ser o mais poderoso? A resposta lê a própria criação como uma escada: o invisível comanda o visível. A alma, que ninguém vê, move o corpo; a sabedoria, mais fina que a alma, dirige-a; o fogo, o mais leve dos elementos, gira o cosmo. Subindo, chega-se Àquele que, justamente por ser o mais sutil, é o mais forte. A força, no fundo, não está na matéria — está no que a transcende.

Falar de D'us por aproximação

A segunda parte dá a chave de toda a teologia da obra. Como D'us é o Autor de tudo, nada do que Ele criou — nenhuma substância, nenhum acidente — pode descrevê-Lo: seria descrever o pintor pela tinta. Por isso a linguagem que a Escritura usa (e que nós usamos) ao falar da sua "mão", da sua "ira" ou do seu "querer" é sempre aproximação e símile — um modo humano de apontar para o que excede toda palavra, jamais uma descrição literal.

Construir de baixo para cima

E a regra prática, numa imagem inesquecível: "o edifício constrói-se do alicerce para cima, e não de cima para baixo". Primeiro estabelece-se a raiz — D'us é um, incorpóreo, o Criador de tudo —; só depois se afirmam os atributos, e sempre medidos por essa raiz. Assim, nenhum verso de aparência corpórea, nenhuma expressão de fé, pode lançar o crente em dúvida: cada atributo se lê à luz do fundamento já provado. É a disciplina que protege a pureza da ideia de D'us — e que o Rambam herdaria e sistematizaria.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), capítulo 8, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Este capítulo apresenta o princípio "quanto mais sutil, mais forte" e a regra geral sobre os atributos divinos. As referências bíblicas seguem a numeração tradicional; acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Seguem-se os capítulos que aplicam esta regra aos atributos. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado II · A unidade do Criador · Capítulo 9

"A quem comparareis D'us?"

מַאֲמָר שֵׁנִי · ט׳

Saadia aplica a regra dos atributos: D'us não é substância alguma, nem se assemelha a nada do que criou — e a própria Escritura O afasta das cinco ordens do existente. Daí decifra os antropomorfismos: a "imagem de D'us", o "fogo consumidor", a "mão" e os "pés" de D'us — tudo lido como figura, como já fazia a tradução clássica.

1

Apresento agora estas questões segundo as dez categorias do ente, falando de cada uma como convém. Houve quem pensasse que esta "coisa" D'us é uma substância, e divergiram: uns disseram que Ele é homem, outros fogo, outros ar, outros prata; e outros, ainda outras coisas. Mas, uma vez estabelecido que Ele é o criador de todo homem, de todo fogo, de todo ar, de toda prata e de todo existente, todos esses pensamentos foram anulados pela prova da razão. E, como isso se firmou na razão, também se firmou a partir dos livros sagrados: pois as coisas existentes têm cinco raízes — o inanimado mineral, o vegetal, os viventes, os astros e os anjos —, e os livros afastaram os cinco de se assemelharem ao Criador, ou de Ele a eles:

— do mais precioso dos minerais (o ouro e a prata): "a quem me comparareis, e igualareis, e me assemelhareis, para que sejamos iguais?" (Yeshayahu 46:5) — o "a quem me comparareis e igualareis" anula que algo se assemelhe a Ele; o "assemelhareis, para que sejamos iguais" anula que Ele se assemelhe a algo.
— do mais precioso dos vegetais (o cedro e a acácia): "a quem, pois, comparareis D'us? Que semelhança lhe arranjareis?" (Yeshayahu 40:18).
— de todos os viventes: "guardai bem as vossas almas, pois nenhuma forma vistes... para que não vos corrompais, fazendo um ídolo: forma de macho ou de fêmea, de qualquer animal da terra, de qualquer ave, de qualquer réptil, de qualquer peixe" (Devarim 4:15-18).
— dos astros: "a quem me comparareis, para que eu seja igual?, diz o Santo. Erguei ao alto os olhos e vede: quem criou estes?" (Yeshayahu 40:25-26).
— dos anjos: "pois quem, nos céus, se igualará ao Senhor? Quem, entre os filhos dos poderosos, será semelhante ao Senhor?" (Tehillim 89:7).

Assim, a Escritura reuniu todo existente e o afastou de assemelhar-se ao Criador, ou Ele a eles. Estes versos explícitos são as raízes seguras; e convém que toda expressão duvidosa, das figuras da linguagem, lhes seja remetida, até concordar com eles.

והנה אני מציע אלה הענינים על עשר המאמרות, ואדבר על כל אחד מהם במה שיכשר ואומר כי ‏אנשים סברו כי זה הענין עצם, ונחלקו דעותם בו. אמר קצתם אדם, ואמר קצתם אש, ואמר קצתם ‏אויר, וקצתם כסף. ואחרים אמרו דברים אחרים זולת אלה, וכיון שהתקיים שהוא בורא כל אדם, וכל ‏אש וכל אויר וכל כסף, וכל נמצא, כבר התבטל בראית השכל כל אלה המחשבות. וכאשר התקיים ‏זה בשכל, כן התקיים מן הספרים, והוא, שהדברים הנמצאים חמשה שרשים; המוצק, והצומח, ‏ובעלי חיים, והכוכבים, והמלאכים. והרחיקו הספרים מהדמות חמשתם אל הבורא או שידמה להם, ‏ואמרו ביקר שבמוצק, והוא הזהב והכסף (ישעיה מ"ו ה' י') למי תדמיוני ותשוו ותמשילוני ונדמה. ‏הזלים זהב מכיס וכסף בקנה ישקלו. ואמרו יתברך: למי תדמיוני ותשוו, בטל בו שיהיה דבר דומה ‏אליו, ואמרו: תמשילוני ונדמה, בטל בו שיהיה הוא דומה אל דבר. ואמרו ביקר שבצמח, הארז ‏והשטה (שם מ' י"ח-כ') ואל מי תדמיון אל ומה דמות תערכו לו? הפסל נסך חרש. המסכן תרומה ‏עץ לא ירקב יבחר. ואמרו בבעלי חיים כלם (דברים ד' ט"ו-י"ח) ונשמרתם מאד לנפשותיכם כי לא ‏ראיתם כל תמונה פן תשחיתון ועשיתם לכם פסל תמונת כל סמל תבנית זכר או נקבה תבנית כל ‏בהמה אשר בארץ תבנית כל צפור כנף אשר תעוף בשמים תבנית כל רומש באדמה תבנית כל דגה ‏אשר במים מתחת לארץ. ואמרו בכוכבים (ישעיה מ' כ"ה כ"ו) ואל מי תדמיוני ואשוה יאמר קדוש ‏שאו מרום עיניכם וראו מי ברא אלה המוציא במספר צבאם. ואמרו במלאכים (תהלים פ"ט ז') כי מי ‏בשחק יערך לי"י בבני אלים. וקבצו כל נמצא והרחיקו, שידמו לבורא או שידמה אליהם הבורא. ואלה ‏הדברים המפורשים, הם השרשים (הברואים) הבטוח בהם, וראוי שיושב כל דבר מסתפק ‏מהעברות הלשון אליהם עד שיסכים עמם.
Nota — "a quem me comparareis?" Saadia mostra que a recusa de toda imagem de D'us não é só uma exigência da razão — é o refrão da própria Escritura. Os profetas percorrem, um a um, os cinco "andares" do que existe — o mineral, o vegetal, o animal, o astro, o anjo — e a cada um declaram: D'us não se parece com isso. E a fórmula é dupla: "a quem me comparareis?" (nada é como Ele) e "para que sejamos iguais?" (Ele não é como nada). Estes versos tornam-se as "âncoras" a que toda expressão difícil deve ser remetida.
2

Disto decorre o que diz a Escritura: "e D'us criou o homem à sua imagem; à imagem de D'us o criou" (Bereshit 1:27). Explico que isto é por via de engrandecimento e de distinção: como aquele a quem pertencem todas as terras e que engrandece uma delas, dizendo "esta é a minha terra"; ou a quem pertencem todos os montes e que diz "este é o meu monte". Assim, a Ele pertencem todas as formas, e engrandeceu uma, dizendo "esta é a minha forma" — por via de singularidade e eleição (segulá), não por via de corporificação.

E decorre também o que diz a Escritura: "pois o Senhor, teu D'us, é um fogo consumidor" (Devarim 4:24). Explico que se quer dizer que Ele é como um fogo que consome aquele que O nega e renega. E encontro, na língua, que ela compara sem o "kaf" sem a partícula "como": "e te tirou da fornalha de ferro" (Devarim 4:20) significa "como da fornalha de ferro"; "atrás de um cão morto, atrás de uma pulga" (Shmuel I 24:15) significa "como um cão morto, como uma pulga"; "a face de um leão era a face deles" (Divrei haYamim I 12:9) significa "como a face de um leão". Assim, "fogo consumidor" significa "como um fogo consumidor" — isto é, a sua punição.

ומזה מה שאמר הכתוב (בראשית א' כ"ז) ויברא אלהים ‏את האדם בצלמו בצלם אלהים ברא אותו. ואבאר שזה על דרך ההגדלה והחשיבות, והוא, כאשר ‏כל הארצות שלו והגדיל אחד מהם, באמרו: זאת ארצי, ושכל ההרים שלו והגדיל אחד מהם, באמרו: ‏זה הרי. וכן יש לו כל הצורות והגדיל אחד מהם באמרו: זאת צורתי, על דרך היחוד והסגולה, לא ‏על דרך ההגשמה. ומהם מה שאמר הכתוב (דברים ד' כ"ד) כי י"י אלהיך אש אוכלה הוא. ואבאר ‏שרוצה בזה שהוא באש שורף למי שכפר וכחש, ואני מוצא בלשון שהוא מדמה בלא כף. ויוציא ‏אתכם מכור הברזל (שם ט' כ') שענינו כמכור הברזל. ועוד (ש"א כ"ד ט"ו) אחרי כלב מת אחרי ‏פרעוש אחד, ענינו, ככלב מת, או כפרעוש. ועוד (דה"י א' י"ב ח') ופני אריה פניהם בבני גד, ענינו, ‏כפני אריה. כן אש אוכלה ענינו כאש אוכלה הוא שהוא עונש.
Nota — decifrar duas imagens famosas. Duas figuras que parecem corporificar D'us, lidas corretamente: (1) "à imagem de D'us" (Bereshit 1:27) não diz que D'us tenha forma humana — é engrandecimento, como quem, dono de todas as terras, chama uma de "minha terra". O homem é distinguido como portador de algo divino (a razão, a alma), não como retrato físico de D'us. (2) "fogo consumidor" (Devarim 4:24) é um símile sem a palavra "como" — recurso comum no hebraico ("cão morto" = "como um cão morto") —, e fala da punição, não de uma natureza ígnea. Saber ler a figura é saber ler a Torá.
3

E, em seguida, falo da quantidade: a quantidade comporta duas coisas que não cabem no Criador — uma é a medida de comprimento, largura e profundidade; a outra são partes e junções, que se separam e se unem. Nada disto se diz do Criador, por três provas — da razão, da Escritura e da tradição.

Da razão: as partes e as junções foram justamente aquilo para que buscámos um criador, e a Ele chegámos pelo intelecto; nada delas restou que não entrasse sob o princípio de que Ele as fez. Da Escritura: "para que não vos corrompais" (Devarim 4:16), e os demais versos. Da tradição: encontrámos que os sábios do nosso povo, fiéis à nossa Torá, sempre que acharam alguma destas imagens, não a traduziram de modo corpóreo, mas a remeteram ao que concorda com a raiz já firmada. E eles são os discípulos dos profetas, e melhor conhecem as suas palavras: se as julgassem corpóreas, ter-no-las-iam traduzido tais como soam. Mas ficou-lhes claro, pelos profetas — além do que está na razão —, que estas palavras corpóreas visavam a sentidos grandes e preciosos, e assim as traduziram.

Por isso traduziram "eis que a mão do Senhor está sobre o teu gado" (Shemot 9:3) por "eis que um golpe de diante do Senhor está"; "e debaixo dos seus pés" (Shemot 24:10) por "e debaixo do trono da sua glória"; "pela boca do Senhor" (Shemot 17:1) por "pela palavra (memrá) do Senhor"; "aos ouvidos do Senhor" (Bamidbar 11:18) por "diante do Senhor" — e assim tudo o que se assemelha a isto.

ואחר כן אדבר אל הכמות ואומר: שענין ‏הכמות סובל שני דברים לא יתכנו על הבורא, אחת מהם מדת ארך ומדת רחב ומדת עמק, ‏והאחרים פרקים וחבורים יתפרקו ויתחברו קצתם אל קצם, ולא יאמר על הבורא מאומה מזה, ‏בראיות, מן המושכל, ומן הכתוב, ומן המקובל מן המושכל; שאל הפרקים והחבורים הם אשר בקשנו ‏להם בורא ומצאנוהו בשכלנו. ומצאנו שלא נשאר מהם דבר שלא נכנס תחת ענין שהוא עשהו. ומן ‏הכתוב, כאשר הקדמנו (דברים ט' ט"ז) פן תשחיתון, ושאר הכתובים. ומן המקובל, כי מצאנו חכמי ‏עמנו הנאמנים על תורתינו בכל מקום שמצאו מאומה מאלה הדמיונים, לא תרגמוהו מוגשם, אבל ‏השיבוהו אל מה שמסכים לשרש הקודם. והם תלמידי הנביאים, ויודעים יותר דברי הנביאים. ואלו ‏היה אצלם שאלה המלות בגשמותם, היו מתרגמים אותם לנו כאשר הם. אך התברר להם ‏מהנביאים, חוץ ממה שיש בשכלם, כי אלה המלות המוגשמות, רצה בהם ענינים גדולים ויקרים, ‏תרגמום כאשר התברר להם. ומזה תרגמו (שמות ט' ג') הנה יד י"י הויה, הא מחא מן קדם י"י הויא. ‏‏(שם כ"ד י') ותחת רגליו, תרגמוהו ותחות כורסיה יקריה. ותרגמו (שם י"ז א') ע"פ י"י, על מימרא ‏די"י. ותרגמו (במדבר י"א י"ח) באזני י"י, קדם י"י, וכן כל מה שדומה לזה:‏
Nota — a tradução já era racionalista. O argumento mais bonito é o último: o da tradição. Os mestres que verteram a Torá para o aramaico (o Targum) — discípulos da linha dos profetas — nunca traduziram a "mão", os "pés", a "boca" ou os "ouvidos" de D'us ao pé da letra. Renderam "a mão do Senhor" como "um golpe diante do Senhor"; "debaixo dos seus pés" como "debaixo do trono da sua glória"; "a boca do Senhor" como "a palavra (memrá) do Senhor". Ou seja: a leitura não-corpórea de D'us não é uma inovação filosófica tardia — já estava na própria transmissão da Torá, séculos antes. A razão e a tradição dizem o mesmo.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Nem mineral, nem astro, nem anjo

Tendo dado a regra (cap. 8: descrever D'us por uma substância ou um acidente é descrevê-Lo pela sua própria obra), Saadia aplica-a com rigor. D'us não é "homem", nem "fogo", nem "prata" — pois é o autor de todos eles. E a Escritura confirma-o varrendo toda a escala do existente: do ouro ao cedro, do animal à estrela, até os anjos, a tudo ela diz "a quem me comparareis?". A incomparabilidade de D'us é total, e bilateral: nada é como Ele, e Ele não é como nada.

"À imagem de D'us" — o que isso quer dizer

Se nada se assemelha a D'us, como entender que o homem é feito "à sua imagem"? Saadia responde com elegância: não é uma semelhança física, mas uma distinção — D'us "engrandece" o homem ao associá-lo a si, como um rei chama de "minha" uma entre todas as suas terras. A imagem divina no homem é aquilo que nele há de mais elevado e singular (a razão, a alma que conhece), não uma figura. E o "fogo consumidor" é apenas um modo enérgico de falar da Sua justiça.

A razão e a tradição dizem o mesmo

O capítulo culmina num argumento triplo: razão, Escritura e tradição convergem em negar a D'us toda medida e toda parte. E o testemunho da tradição é decisivo — o Targum, a antiga tradução da Torá, já traduzia "mão", "pés" e "boca" de D'us por "golpe", "trono" e "palavra". A depuração da ideia de D'us não foi importada de fora pela filosofia: brotou de dentro da própria transmissão da Torá. É a base que o Rambam tornaria a primeira tarefa do Guia dos Perplexos.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), capítulo 9, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Este capítulo, um único segmento contínuo no original, foi dividido em três partes para a leitura, preservando-se o hebraico verbatim. As traduções aramaicas citadas seguem o Targum (Onkelos). As referências bíblicas seguem a numeração tradicional; acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado II · A unidade do Criador · Capítulo 10

A "mão" de D'us — e a Glória criada

מַאֲמָר שֵׁנִי · י׳

O capítulo culminante do tratado sobre a unidade. Saadia percorre os dez "membros" que a Escritura atribui a D'us e mostra, um a um, que são figuras — tal como a terra tem "boca" e "útero". E responde à grande objeção: se os profetas viram uma forma humana num trono, o que viram? Não a D'us, mas a sua Glória criada.

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Tendo mostrado que a razão, a Escritura e a tradição concordam em afastar de D'us toda semelhança, disponho agora estas palavras corpóreas. São dez membros: cabeça ("um elmo de salvação na sua cabeça", Yeshayahu 59:17); olho ("os olhos do Senhor estão sempre sobre ela", Devarim 11:12); ouvido ("chorastes aos ouvidos do Senhor", Bamidbar 11:18); boca ("pela boca do Senhor", Shemot 17:1); lábio ("o que sai dos meus lábios não mudarei", Tehillim 89:35); face ("faça o Senhor resplandecer a sua face sobre ti", Bamidbar 6:25); mão ("eis a mão do Senhor", Shemot 9:3); coração ("e disse o Senhor no seu coração", Bereshit 8:21); entranhas ("comovem-se as minhas entranhas por ele", Yirmiahu 31:20); ("prostrai-vos ao escabelo dos seus pés", Tehillim 99:5).

Estas, e as semelhantes, são obra da língua e da sua amplitude; aplica cada uma a um sentido, conforme o que dela achamos em contextos que não são o do Criador. Pois esta é a verdade e o modo da língua: ela alarga, toma emprestado e compara. Assim diz que os céus falam ("os céus narram a glória de D'us", Tehillim 19:2); que o mar fala (Yeshayahu 23:4); que a Morte fala ("a Perdição e a Morte dizem", Iyov 28:22); que a pedra ouve ("esta pedra nos será testemunha, pois ela ouviu", Yehoshua 24:27); que os montes cantam ("os montes e as colinas romperão em júbilo diante de vós", Yeshayahu 55:12) — e tantas outras que não se contam depressa.

וכיון שבארתי שהמושכל והכתוב והמקובל הסכימו כלם על הרחקת הדמיון מאלהינו יתברך, אני ‏רוצה להציע אלה המלות הגשמיות, ואומר שהם עשר. ראש באמרו (ישעיה נ"ט י"ז) וכובע ישועה ‏בראשו. עין באמרו (דברים י"א י"ב) תמיד עיני י"י אלהיך בה. אזן באמרו (במדבר י"א י"ח) כי ‏בכיתם באזני י"י. פה באמרו (שמות י"ז א') על פי י"י. שפה באמרו (תהלים פ"ט ל"ה) ומוצא שפתי ‏לא אשנה. פנים באמרו (במדבר ו' כ"ה) יאר י"י פניו אליך. יד באמרו (שמות ט' ג') הנה יד י"י. לב ‏באמרו (בראשית ח' כ"א) ויאמר י"י על לבו. מעים באמרו (ירמיה לא כ') על כן המו מעי לו. רגל ‏באמרו (תהלים צ"ט ה') והשתחוו להדם רגליו. ואלה דברים והדומה להם ממעשה הלשון והרחבה, ‏תפיל כל אחד מהם על ענין וסברתו במה שנמצאנו בזולת ענין הבורא, ונדע כי הלשון כן אמתתה ‏ומנהגה, שתרחיב ותשאיל ותדמה, כאשר מרחיבה ואומרת שהשמים מדברים (שם י"ט ב') השמים ‏מספרים כבוד אל. ושהים מדבר (ישעיה כ"ג ד') כי אמר ים מעוז הים לאמר. ושהמות מדבר (איוב ‏כ"ח כ"ג) אבדון ומות אמרו. ושהאבן שומעת (יהושע כ"ד כ"ז) הנה האבן הזאת תהיה לנו לעדה כי ‏היא שמעה. ושההרים מדברים (ישעיה נ"ה י"ג) ההרים והגבעות יפצחו לפניכם רנה. ושהגבעות ‏לובשות (תהלים ל"ה י"ג) וגיל גבעות תחגרנה, והדומה לזה, מה שלא יספר מהרה.
Nota — a língua empresta membros a tudo. Saadia lista os dez "membros" que a Escritura atribui a D'us (cabeça, olho, ouvido, boca, lábio, face, mão, coração, entranhas, pé) e, antes de decifrá-los, dá a chave geral: é assim que a língua funciona. Ela atribui boca, ouvido e canto a coisas que não os têm — os céus "narram", o mar "fala", a pedra "ouve", os montes "cantam". Ninguém imagina que o monte tenha uma boca. A "mão" e o "olho" de D'us são exatamente o mesmo tipo de empréstimo.
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E, se alguém disser: que proveito teve a língua em alargar-se assim, a ponto de nos lançar estas dúvidas? Por que não se ateve a palavras "exatas", poupando-nos esse mal? Respondo: se ela se atesse a uma só palavra, o uso da língua ficaria reduzido, e não chegaria a exprimir alguns dos sentidos pretendidos. E, se quiséssemos falar d'Ele só em linguagem "literal", teríamos de abandonar "ouve", "vê", "misericordioso", "quer" — até que nada nos restasse dizer d'Ele senão a pura existência.

Esclarecido isto, volto aos dez, com os seus sentidos. Os profetas quiseram dizer, por cabeça, engrandecimento e elevação (como "a minha glória e o que ergue a minha cabeça", Tehillim 3:4); por olho, a providência ("porei o meu olho sobre ele", Bereshit 44:21); por face, o favor e a ira ("na luz da face do rei está a vida", Mishlei 16:15); por ouvido, o aceitar das palavras ("fale o teu servo uma palavra aos ouvidos do meu senhor", Bereshit 44:18); por boca e lábio, a explicação e a ordem ("pela boca de Aharon e seus filhos", Bamidbar 4:27); por mão, o poder ("não se encurtou a mão do Senhor", Yeshayahu 59:1); por coração, a sabedoria ("um jovem falto de coração (juízo)", Mishlei 7:7); por entranhas, a compaixão ("a tua Torá está dentro das minhas entranhas", Tehillim 40:9); por , a sujeição ("até que eu ponha os teus inimigos por escabelo", Tehillim 110:1). E, uma vez que achamos estas palavras ditas dos próprios homens em sentido não corpóreo, com muito mais razão cabe o seu sentido não corpóreo a respeito do Criador.

ואם יאמר ‏אומר: מה היתה התועלת שהרחיב הלשון זאת ההרחבה שתפיל לנו אלו הספקות, ולמה לא סמכה ‏על מלות אמתות, והיתה מסירה מעלינו זאת הרעה? אומר: כי אלו סמכה על מלה אחת, היה ‏השמוש בלשון מתמעט ולא היה מגיע להגיד בה על קצת המכוונות. ואלו היינו באים לספר עליו ‏בלשון האמתי, היינו חייבים לעזוב ולהניח שומע ורואה רחום חפץ, עד אשר לא יעלה לנו כי אם ‏הישות בלבד. וכיון שבארתי הדבר הזה, אשוב אל העשרה ההם בביאורים וענינים, ואומר: שרצו ‏הנביאים בראש ענין ההגדלה וההעלאה, כאשר אמר בבני אדם (שם ג' ד') כבודי ומרים ראשי. ורצו ‏בעין השגחה, כאמרו (בראשית מ"ד כ"א) ואשימה עיני עליו. ורצו בפנים הרצון והכעס, כמו שאמר ‏‏(משלי ט"ז ט"ו) באור פני מלך חיים. ונאמר (ש"א א' י"ח‏‎ ‎‏) ופניה לא היו לה עוד. ורצו באזן קבול ‏הדברים, כאמרו (בראשית מ"ד י"ח) ידבר נא עבדך דבר באזני אדני. ורצו בפה ובשפה באור וצווי, ‏כאמרו (במדבר ד' כ"ז) על פי אהרן ובניו. (משלי י' כ"א) שפתי צדיק ירעו רבים. ורצו ביד יכולת, ‏כאמרו (ישעיה נ"ט א') הן לא קצרה יד י"י ורצו בלב חכמה, כאמרו (משלי ז' ז') נער חסר לב. ורצו ‏במעים חנות, כאמרו (תהלים מ' ט') ותורתך בתוך מעי. ורצו ברגל הכרח, כאמרו (שם ק"י א') עד ‏אשית אויביך. וכיון שמצאנו אלה המלות בבני אדם על זולת ההגשמה, ואחר כן אומר בקצת ‏העתים, קל וחומר שיכשר פרושם בעניני הבורא על זולת ההגשמה.
Nota — por que precisamos da metáfora. Por que a Torá não fala de D'us só em termos "exatos"? Porque, responde Saadia, sem metáfora não sobraria quase nada a dizer: teríamos de abandonar "ouve", "vê", "é misericordioso", "quer" — até restar apenas "Ele existe". A linguagem figurada não é um defeito a tolerar; é o único modo de falar com riqueza de Quem está além de toda palavra. E cada membro tem o seu sentido: a "mão" é o poder, o "olho" é a providência, o "coração" é a sabedoria, as "entranhas" são a compaixão. Falar do "poder" de D'us como "a sua mão" não O encolhe a um corpo — eleva a nossa compreensão a algo que a palavra nua não alcançaria.
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E digo, além disso: já achamos estas mesmas palavras aplicadas ao inanimato — sem que lhe caiba nenhum destes membros. Pois encontramos, na língua, doze palavras de membros ditas da terra e das águas: cabeça ("o cimo dos pós do mundo", Mishlei 8:26); olho superfície ("cobrirá a face da terra", Shemot 10:5); ouvido ("dá ouvidos, ó terra", Yeshayahu 1:2); face ("sobre a face da terra", Bamidbar 11:31); boca ("e a terra abriu a sua boca", Bamidbar 16:32); asa extremidade ("da asa da terra", Yeshayahu 24:16); mão margem ("à margem do rio", Daniel 10:4); lábio margem ("à beira do rio", Shemot 2:3); coração ("os abismos congelaram no coração do mar", Shemot 15:8); umbigo ("sobre o umbigo da terra", Yechezkel 38:12); ventre ("do ventre do Sheol clamei", Yoná 2:3); útero ("quando o mar irrompeu, saindo do útero", Iyov 38:8); e os confins ("ajuntá-los-ei dos confins da terra", Yirmiahu 31:8).

Ora, assim como a língua fez estas palavras para aquilo de que o nosso sentido testemunha não ter nenhum desses membros — a terra, o mar —, sendo todas figuras, do mesmo modo as fez para Aquele de que o nosso intelecto testemunha não ter nenhum desses membros: todas são figuras. E quem disser que a língua só usa tais palavras para o que é corpóreo teria de encontrar estes doze membros, de fato, na terra e nas águas o que é absurdo. E, assim como estas palavras são figuradas, também o são as que se lhes juntam — "inclina o teu ouvido", "abre os teus olhos", "estende a tua mão" —, e os verbos a elas atribuídos: "e viu", "e ouviu", "e falou", "e pensou"; cada um tem o seu sentido figurado — até "e o Senhor aspirou o aroma" (Bereshit 8:21), cujo sentido é a aceitação (como "ao cheiro da água a árvore floresce", Iyov 14:9) —, sempre conforme o que concorda com a razão, a Escritura e a tradição.

ואחר כן אומר: כי כבר מצאנו ‏אלה המלות במוצק, ולא שיכשר שיהיה לו מאומה מן אלה האברים, והוא, שאנחנו מוצאים בלשון ‏לארץ ולמים שתים עשרה מלות. תחלתם ראש (משלי ח' כ"ו) וראש עפרות תבל ועין באמרו (שמות ‏י' ד') וכסה את עין הארץ. ואזן כאמרו (ישעיה א' א') והאזיני ארץ. פנים, כאמרו (במדבר י"א ל"א) ‏על פני הארץ. ופה, כאמרו (שם ט"ז ל"ב) ותפתח הארץ את פיה. כנף כאמרו (ישעיה כ"ד ט"ז) מכנף ‏הארץ. יד כאמרו (דניאל י' ד') על יד הנהר. שפה, כאמרו (שמות ב' ג') על שפת היאור. לב, כאמרו ‏‏(שם ט"ו ח') קפאו תהומות בלב ים. טבור, כאמרו (יחזקאל ל"ח י"ב) על טבור כארץ. בטן, כאמרו ‏‏(יונה ב' ג') מבטן שאול שועתי שמעת קולי. רחם, כאמרו (איוב ל"ח ח') ויסך בדלתים ים בגיחו ‏מרחם יצא. וירך, כאמרו (ירמיה לא ח') וקבצתים מירכתי ארץ. וכאשר מצאנו הלשון שעשה אלה ‏המלות, למה שעיד חושנו, שאין מאומה מאלה האברים, אבל הם כלם העברות, כן עשתה זה למה ‏שהעיד לו שכלנו שאין לו מאומה מאל האברים; אבל הם כלם העברות. ואם יאמר אומר: אין הלשון ‏עושה, אלא מה שהוא מוגשם, יתחייב שימציאנו אלה השתים עשרה בארץ ובמים, וכמו שעברו אלה ‏המלות, עבר עוד המצטרף אליהם מהטה אזנך, פקח עיניך, שלח ידך, והדומה לזה, ועברו פעליהם ‏המיוחסים אלים, מויראה, וישמע, וידבר, ויחשב. והדומה לזה, והיה לכל אחד מהם סברא, עד וירח ‏י"י, אשר משמעו קשה, הוא קבול, כאמרו (איוב י"ד ט') מריח מים יפרח, כפי מה שמסכים למושכל ‏ולכתוב ולמקובל.
Nota essencial — a terra também tem "boca" e "útero". Aqui está o argumento decisivo, de uma clareza desarmante. As mesmíssimas palavras corpóreas que a Escritura usa para D'us, ela usa para a terra e o mar: a "face" da terra, a "boca" da terra que se abre, o "coração" do mar, o "umbigo" da terra, o "ventre" do Sheol, o "útero" de onde o mar irrompe. Ora, ninguém pensa que a terra tenha um útero literal — o nosso sentido prova que não. Pois o que o sentido prova quanto à terra, o intelecto prova quanto a D'us: são todas figuras. Até "D'us aspirou o aroma" significa, simplesmente, "aceitou".
4

E, se alguém objetar: como dar esses sentidos figurados, se a Escritura já descreveu que a sua forma é como a forma do homem? Os profetas viram-na falando com eles, e viram que está sobre um trono, e que anjos o carregam acima do firmamento — "como a aparência de uma pedra de safira, a semelhança de um trono, e sobre a semelhança do trono uma semelhança como a aparência de um homem, no alto" (Yechezkel 1:26); e viram-na sobre um trono, com anjos à direita e à esquerda: "vi o Senhor sentado no seu trono, e todo o exército dos céus de pé junto a Ele, à sua direita e à sua esquerda" (Melachim I 22:19).

Respondemos: esta forma é criada; e do mesmo modo o trono, o firmamento e os que o carregam são todos originados — o Criador criou-os de propósito, para confirmar ao seu profeta que foi Ele quem lhe enviou as suas palavras (como explicarei no Tratado III). É uma forma mais preciosa do que os anjos, poderosa, cheia de majestade e de luz; e chama-se a Glória do Senhor (kevod Hashem) — dela falou um dos profetas ("eu olhava, até que se puseram tronos", Daniel 7:9), e a ela os Sábios chamaram Shechiná. Por vezes, é luz sem forma de homem. O Criador honrou o seu profeta ao fazê-lo ouvir a profecia de uma forma criada e luminosa, chamada "a Glória do Senhor".

E o que o confirma: o profeta diz, dessa forma, "filho do homem, põe-te de pé, e falarei contigo" (Yechezkel 2:1) — e não é possível que quem fala seja o Senhor dos mundos, pois a Torá disse "não se levantou outro profeta em Israel como Moshé, a quem o Senhor conheceu face a face" (Devarim 34:10): aos demais profetas, foram os anjos que falaram. Se a Escritura nomeia "o anjo", já explicitou o ser criado; se diz "a Glória do Senhor", isto é criado; e, se menciona o Nome de D'us sem lhe juntar "Glória" nem "anjo", mas lhe junta uma "visão" ou a descrição de um "homem", não há dúvida de que há, na frase, uma palavra oculta — "a Glória do Senhor" ou "o anjo do Senhor" —, como a língua oculta elide, conforme antes expus.

ואם יפרץ פרץ ויאמר: ואיך יתכן שיסבור אלו הסברות באלו המלות המוגשמות, ‏ובמה שייוחס אליהם, והכתוב כבר פרש שצורתו כצורת האדם? ראוה הנביאים מדברת עמם, ‏ומיחסים אליה דבריו, וכן שכן שהוא על כסא, ומלאכים נושאים אותו ממעל לרקיע אשר על ראשם, ‏כמראה אבן ספיר דמות כסא ועל דמות הכסא דמות כמראה אדם עליו מלמעלה. וכבר נראית הורה ‏הזאת על כסא ומלאכים מימינה ומשמאלה, כאמרו (מ"א כ"ב י"ט) ראיתי את י"י יושב על כסאו וכל ‏צבא השמים עומד עליו מימינו ומשמאלו. נענה כי זאת הצורה ברואה, וכן הכסא והרקיע והנושאיו ‏כלם מחודשים, חדשם הבורא מאוד לאמת אצל נביאו, כי הוא שלח דבריו אליו, כאשר אבאר ‏במאמר השלישי. והיא צורה יקרה מן המלאכים עצומה בבריאתה, בעלת הוד ואור, והיא נקראת ‏כבוד י"י, ועליה ספר קצת הנביאים (דניאל ז' ט') חזה הוית עד די כרסון דמיו. ועליה אמרו החכמים ‏שכינה. ויש שתהיה אור בלא צורת איש, והבורא הגדיל נביאו, שהשמיעו הנבואה מצורה עצומה ‏ברואה מאור נקרא כבוד י"י כאשר בארנו. וממה שמורה על מה שאמרנו, מה שאמר הנביא על זאת ‏הצורה (יחזקאל ב' א') בן אדם עמוד על רגלך ואדבר אותך. ולא יתכן שיהיה זה המדבר הוא אדון ‏העולמים, כי התורה אמרה (דברים ל"ד י') ולא קם נביא עוד בישראל כמשה אשר ידעו י"י פנים אל ‏פנים, אבל שאר הנביאים המלאכים דברו עמם. ואם נמצא הכתוב שכבר פרש שם המלאך כבר פרש ‏המחודש. ואם אמר כבוד י"י הוא מחודש, ואם יזכור שם ה', ולא סמך אליו כבוד ולא מלאך, אבל ‏סמך אליו ראיה, או תאר איש, אין ספק שיש במאמר דבר נסתר הוא כבוד י"י או מלאך י"י כאשר ‏הלשון מסתרת כמו שקדמתי:‏
Nota — a Glória criada (kevod Hashem). Restava a objeção mais forte: e quando os profetas viram uma forma humana sobre o trono (Yechezkel 1; Melachim I 22)? Saadia responde com uma das doutrinas mais importantes do pensamento judaico: aquela forma não é D'us — é um ser criado de luz e majestade, mais elevado que os anjos, que o Criador forma para confirmar ao profeta a autenticidade da sua mensagem. Ela chama-se a Glória do Senhor (kevod Hashem), e os Sábios chamaram-na Shechiná. Assim se salvam, juntas, duas verdades: a profecia é real (algo é de fato visto) e D'us permanece invisível e incorpóreo (o que se vê é a sua Glória criada, não a sua essência). Só Moshé conheceu D'us "face a face" — e mesmo isso, sem qualquer forma. É a base sobre a qual o Rambam edificaria a sua teologia da profecia.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Dez membros, dez sentidos

Este é o capítulo culminante da depuração da ideia de D'us. Saadia não foge dos versos difíceis — recolhe-os todos: a cabeça, o olho, a mão, o pé, as entranhas de D'us. E, em vez de os negar ou de os tomar ao pé da letra, mostra o que cada um significa: poder, providência, compaixão, sabedoria, sujeição. A Escritura fala "na língua dos homens" para ser compreendida; ler bem é traduzir a imagem de volta ao sentido.

A terra também tem "boca"

O argumento mais elegante é o da própria linguagem. As palavras "boca", "coração", "útero" são ditas da terra e do mar tão naturalmente quanto de D'us — e ninguém conclui que o oceano tenha um útero de carne. O que prova, quanto à natureza, o nosso sentido (que ali não há membros), prova a razão quanto a D'us. A figura não é uma exceção embaraçosa; é o tecido normal da língua.

O que os profetas viram

E a resposta final, que funda a teologia judaica da profecia: o que os profetas contemplaram em suas visões — a forma sobre o trono, a luz de safira — não foi a essência de D'us, mas uma Glória criada (a Shechiná), formada para autenticar a mensagem. D'us em si jamais é visto; permanece o "mais sutil que tudo", o incorpóreo, o Um. Assim a visão profética é verdadeira e a pureza de D'us é intocada. Com isto fecha-se o arco do Tratado II: do "ouve, Israel" (cap. 1) à Glória que vela e revela (cap. 10), uma só verdade — o Senhor é Um, e a nada se assemelha.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), capítulo 10, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Este capítulo — o mais longo do tratado, e o ponto culminante da leitura não-corpórea da Escritura —, um único segmento contínuo no original, foi dividido em quatro partes para a leitura, preservando-se o hebraico verbatim. As longas listas de versos foram apresentadas de forma compacta. As referências bíblicas seguem a numeração tradicional; acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado II · A unidade do Criador · Capítulo 11

D'us não sente — nem habita, nem se senta — como nós

מַאֲמָר שֵׁנִי · י״א

Saadia conclui a depuração da ideia de D'us percorrendo as demais categorias: o amor, o ódio e a ira de D'us (que são decretos, não emoções); o ser "Rei"; o estar "nos céus"; o ser "eterno"; o ter um "povo" por herança; o "sentar-se" e "levantar-se". Em cada uma, a mesma chave: figura, honra, ação — ou a Glória criada.

1

Falo agora da qualidade os acidentes: na verdade, não é possível que ocorra a Ele acidente algum, pois é Ele o criador de todos os acidentes. Quando se diz que Ele "ama" algo ou "odeia" algo, o sentido é: tudo o que Ele nos ordenou, chamou de "amado" diante d'Ele — porque nos obrigou a amá-lo ("o Senhor ama o juízo", Tehillim 37:28; "o Senhor é justo, ama as justiças", 11:7; "pois nestas coisas me comprazo", Yirmiahu 7:23); e tudo de que nos advertiu, chamou de "odiado" — porque nos obrigou a odiá-lo ("seis coisas o Senhor odeia", Mishlei 6:16; "odeio o roubo na oferta", Yeshayahu 61:8).

E quando se diz que Ele "quer" e que Ele "se ira": quando Ele decreta a uma criatura o êxito e a recompensa, a isto chama "querer" ("o Senhor se compraz nos que o temem", Tehillim 147:11); e quando decreta o sofrimento e o castigo, a isto chama "ira" ("a face do Senhor está contra os que fazem o mal", 34:17). Mas a ira e o querer corpóreos, o amor e o ódio corpóreos, só existem em quem espera e teme — e é impossível ao Criador de tudo esperar por algo que criou, ou temê-lo. Do mesmo modo se explicam os demais "sentimentos" que venham ao pensamento.

ואחר כן אדבר על האיכות, והם המקרים, ואומר: שהוא באמת לא יתכן שיקרהו מקרה, כי הוא בורא ‏המקרים כלם. וזה אשר נמצא שאומר שהוא אוהב דבר או שונא דבר, הענין בזה שכל אשר צונו בו ‏קראו אהוב אצלו, כאשר חייבנו לאוהב אותו, באמרו (תהלים ל"ז כ"ח) כי י"י אוהב משפט. (שם י"א ‏ז') צדיק י"י צדקות אהב והדומה לזה. וקבץ רבים מהם, ואמר (ירמיה ז' כ"ג) כי באלה חפצתי נאם ‏י"י. וכל אשר הזהירנו ממנו שלא נעשהו, קראו שנוא אצלו, מפני שחייבנו לשנאתו, כמו שאמר (משלי ‏ו' ט"ז) שש הנה שנא י"י. (ישעיה ס"א ח') שונא גזל בעולה. וקבץ מהם רבים, ואמר (זכריה ח' י"ז) כי ‏את כל אלה אשר שנאתי נאם י"י, ומה שאנו רואים שאומר שהוא רוצה ושהוא כועס, הענין בו, שקצת ‏ברואיו כאשר חייב להם ההצלחה והגמול קורא זה רצון, כאמרו (תהלים קמ"ז י"א) רוצה י"י את ‏יריאיו. (שם פ"ה ב') רצית י"י את ארצך. וכאשר יתחייב קצתם הצער והענש, קורא זה כעס, כאמרו ‏‏(שם ל"ד י"ז) פני י"י בעושי רע. (עזרא ח' כ"ב) ועזו ואפו על כל עוזביו. אבל הכעס והרצון ‏המוגשמים, והאהבה והשנאה המוגשמות, לא יהיו כי אם במי שיקוה ויירא, ונמנע מבורא הכל, ‏שיקוה לדבר ממה שברא, או שייראהו, ועל הדרך הזה נוציא שאר תארי היראה העולים במחשבה. ‏‏-
Nota essencial — D'us não "sente" como nós. Quando a Escritura diz que D'us "ama", "odeia", "quer" ou "se ira", não descreve estados emocionais que Ele experimenta: descreve as suas ordens e os seus decretos. "D'us ama o juízo" = D'us ordena o juízo; "D'us se ira contra os que fazem o mal" = D'us decreta-lhes o castigo. E há uma razão profunda: a emoção real — o amor, o medo, a ira — nasce sempre da esperança de ganhar algo ou do temor de perdê-lo. Mas o Criador de tudo, que de nada carece, nada tem a esperar nem a temer. Um D'us perfeito não é frio — mas a sua "paixão" pelo bem não é uma carência que o move; é a sua justiça em ação.
2

E sobre a relação: não é possível relacionar ou atribuir ao Criador, bendito seja, coisa alguma por via de corporificação, pois Ele é eternamente anterior, e nada do que foi feito se Lhe relaciona no seu ser. O que se vê nos livros, que O chamam Rei, e fazem dos homens os seus "servos" e dos anjos os seus "ministros" ("o Senhor é Rei para todo o sempre", Tehillim 10:16; "louvai, servos do Senhor", 113:1; "os seus ministros, fogo flamejante", 104:4) — tudo isto é por via de honra e engrandecimento, porque, entre os homens, o maior é o rei; e porque Ele faz tudo o que quer, e a sua ordem se cumpre ("onde está a palavra do rei, há poder; e quem lhe dirá: que fazes?", Kohelet 8:4). E o atribuir-Lhe "amantes" e "inimigos" ("os que amam o Senhor odeiam o mal", Tehillim 97:10) é por via de honra e de censura: honram-se os piedosos com o nome de "amantes d'Ele", e censuram-se os pecadores com o nome de "inimigos".

ועל המצטרף אומר: כי הבורא יתברך לא יתכן שיצרפו אליו על דבר ההגשמה ולא ייוחס אליו, כי ‏הוא לא סר קדמון, ואין דבר מן העשוים מצטרף אליו ולא מיוחס. ועתה כאשר עשם לא יתכן ‏שישתנה עצמו וישוב מיוחס אליו ומצטרף אליו בהגשמה, אחר שלא היה כן. וזה אשר נראה ‏בספרים שקוראים אותו מלך, ומשימים בני אדם עבדים אליו והמלאכים משרתים, כאמרו (תהלי' י' ‏ט"ז) י"י מלך עולם ועד. (שם קי"ג א') הללו עדי י"י. (שם ק"ד ד') משרתיו אש לוהט. אלה כלם על ‏דרך הכבוד והגדול, בעבור שהגדול שבבני אדם אצלם הוא מלך, ועל ענין שהוא עושה כל מה ‏שירצה, ומצותו מתקיימת, כמו שאמר (קהלת ח' ד') באשר דבר מלך שלטון ומי יאמר לו מה ‏תעשה. ואשר נמצא שמיחסים אליו אוהבים ושונאים, כאמרו (תהלים צ"ז י') אוהבי י"י שנאו רע, ‏ואמרו (שם פ"א ט"ז) משנאי י"י יכחשו לו. זה מהם על דרך הכבוד והגנוי, וכבדו החסידים מבני ‏אדם בשם אוהבים, וגנו החטאים בשם שונאים, וכן שאר מה שנכנס בשער הזה. -
3

E sobre o lugar: não é possível que o Criador precise de um lugar — por vários motivos: porque Ele criou todos os lugares; porque existia sozinho, sem lugar algum, e não se transferiu para um lugar ao criar; e porque quem precisa de lugar é o corpo, que preenche e toca o que encontra. O que os profetas dizem — que Ele está "nos céus" — é por via de engrandecimento, pois os céus são, para nós, o mais alto de tudo o que conhecemos ("D'us está nos céus, e tu na terra", Kohelet 5:1; "os céus e os céus dos céus não te podem conter", Melachim I 8:27). E o mesmo quanto a "habitar no Templo" ("habitarei no meio dos filhos de Israel", Shemot 29:45; "o Senhor habita em Sião", Yoel 4:21) — tudo para engrandecer aquele lugar; e foi ali que Ele mostrou a sua luz criada, que mencionámos, chamada Shechiná e Glória.

E sobre o tempo: não é possível que o Criador tenha tempo, pois é Ele o criador de todo tempo; existia sozinho, sem tempo; e o tempo nada é senão a medida da duração dos corpos — e o que não é corpo está acima do tempo. Os versos "de eternidade a eternidade tu és D'us" (Tehillim 90:2), "desde aquele dia, eu sou Ele" (Yeshayahu 43:13) e "antes de mim nenhum deus se formou, e depois de mim nenhum haverá" (43:10) referem-se, todos, à sua ação, não ao seu ser: o primeiro significa "desde o princípio do tempo nunca deixaste de ser o salvador dos teus servos"; o segundo, "antes de eu enviar o meu profeta e depois de o enviar, não há deus além de mim"; e "desde aquele dia, eu sou Ele" alude a um dia glorioso — o do Sinai, ou semelhante —, querendo dizer: "desde aquele tempo, sou eu quem vos ordena isto e vos adverte daquilo".

ואומר במקומות ‏לא יתכן שיצטרך הבורא אל מקום שיהיה לו, מכמה פנים. תחלתם, שהוא בורא כל המקומות. ועוד ‏שלא סר לבדו ואפס מקום, ואיננו נעתק בעבור בריאתו למקום. ועוד כי הצריך אל מקום הוא הגשם, ‏אשר הוא ממלא מה שיפגשהו וממששו, ויהיה כל אחד מן המתמששים מקום לאחר, וזה כלו נמנע ‏מהבורא. וזה אשר הנביאים אומרים שהוא בשמים, על דרך הגדול והכבוד, מפני שהשמים אצלם ‏רמים מכל דבר שידענוהו, כמו שאמרו (קהלת ה' א') כי האלהים בשמים ואתה על הארץ ועוד (מ"א ‏ח' כ"ז) כי השמים ושמי השמים לא יכלכלוהו. וכן המאמר כשהוא שוכן בבית המקדש (שמות כ"ט ‏מ"ח) ושכנתי בתוך בני ישראל (יואל ד' כ"א) וי"י שוכן בציון. וכל זה להגדיל המקום ההוא והישות. ‏ועם זה כבר הראה בו אורו הנברא, אשר הקדמנו זכרו, הנקרא שכינה וכבוד. ועל הזמן לא יתכן ‏שיהיה לבורא זמן, מפני שהוא בורא כל זמן, מפני שלא סר לבדו ואין זמן, לא יתכן שיעתיקהו הזמן ‏וישנהו, ושהזמן איננו כי אם מדת קיום הגשמים, ואשר איננו גשם מרומם בהזמן וממדות הקיום. ‏ואם נספר עליו בעמידה וקיומה היא על דרך הקרוב כאשר הקדמנו. וזה אשר בספרים האומרים ‏‏(תהלים צ' ב') מעולם ועד עולם אתה אל. ועוד (ישעיה מ"ג י"ג) כי מיום אני הוא. ועוד (שם שם י') ‏לפני לא נוצר אל ואחרי לא יהיה. אבל שבים כל אלו הנקודות מן העתים על פעלו. ואשר אמרו: ‏מעולם ועד עולם אתה אל, אינם רוצים בו כי אם לא סרת מושיע תחלת הזמן לעבדיך, כאמרם ‏‏(תהלים ס"ח כ"א) האל לנו אל למושעות. ואמרו ית': לפני לא נוצר אל ואחרי לא יהיה, רוצה בו, ‏קודם שאשלח נביאי ואחר ששלחתיו, אין אלוה מבלעדי; כי כבר הקדים לפניו עבדי אשר בחרתי, ‏ובלשון העם יכשר שיאמר האדם לפני, והוא רוצה, קודם פעלי. כמו שאמר יואב (ש"ב י"ח י"ד) לא כן ‏אוחילה לפניך. ויאמר אחרי, והוא רוצה, אחר פעלי. כמו שאמר נתן הנביא (מ"א א' י"ד) ואני אבא ‏אחריך ומלאתי את דבריך. וכן גם מיום אני הוא, רומז אל יום נכבד יום מעמד הר סיני או מה ‏שדומה לו, והוא אומר מן העת ההיא, אני הוא המצווה אתכם בזה, והמזהיר אתכם מזה, והמציל ‏אתכם מזה, מפני שגמר המאמר אפעל ומי ישיבנה.
Nota — nem no espaço, nem no tempo. D'us não está "nos céus" como num lugar, nem é "eterno" como quem dura muito tempo: Ele criou o lugar e o tempo, que são apenas medidas dos corpos. "Nos céus" e "no Templo" são engrandecimentos — e o que de fato repousava no Templo era a sua luz criada (a Shechiná), não a sua essência. E os versos sobre a sua "eternidade" falam da sua ação no nosso tempo: "de eternidade a eternidade" = sempre salvaste; "desde aquele dia" = desde o Sinai vos ordeno. D'us age dentro do tempo sem estar dentro do tempo.
4

E sobre a posse: todas as criaturas são as suas criaturas e obras; não se pode dizer que Ele possua esta e não aquela, ou que a sua posse seja maior numa e menor noutra. O que se vê nos livros, falando do seu povo precioso (segulá), da sua porção, do seu quinhão e da sua herança ("pois a porção do Senhor é o seu povo; Yaakov é o quinhão da sua herança", Devarim 32:9), é apenas por via de engrandecimento e honra — pois, entre nós, o tesouro e o quinhão de cada um lhe são preciosos. E, por figura, faz-se também d'Ele o quinhão dos piedosos ("o Senhor é a porção do meu quinhão e o meu cálice", Tehillim 16:5). E do mesmo modo se entende chamá-Lo "D'us de" um homem ou dos crentes ("D'us de Avraham, de Yitzchak e de Yaakov"), pois Ele é o D'us de todos, e isto é, da sua parte, por via de honra aos piedosos.

E sobre a posição postura: o Criador não é corpo, e não pode ter postura alguma — nem de sentar-se, nem de estar de pé, nem semelhante —, tudo impossível por Ele não ser corpo, e porque a postura nada é senão um corpo apoiando-se sobre outro, implicando mudança. O que os livros dizem — "e o Senhor assentou-se como Rei para sempre" (Tehillim 29:10) — significa a sua permanência; "levanta-te, ó Senhor, e dispersem-se os teus inimigos" (Bamidbar 10:35) significa apenas a vinda do socorro e do castigo; "e ali se pôs com ele" (Shemot 34:5) refere-se àquela luz chamada Shechiná; "e o Senhor foi-se, quando acabou de falar" (Bereshit 18:33) refere-se ao elevar-se daquela luz. E deste modo se firma tudo o que se assemelha a estas coisas.

ועל הקנין כי כל הברואים הם ברואיו ומעשיו, ‏ולא יתכן שנאמר שקונה זה מבלעדי זה, ולא שֶׁקִנְיָנוֹ לזה יותר ולזה פחות. ואשר נראה בספרים ‏אומרים שעם סגולתו וקנינו וחבלו ונחלתו (דברים ל"ב ט') כי חלק י"י עמו יעקב חבל נחלתו. אין זה ‏כי אם על דרך הגדול והכבוד, מפני שאצלנו סגלת כל אדם וחלקו יקרים אצלו. ועוד כי משימים אותו ‏גם הוא על דרך העברה, חלק החסידים ומנתם, באמרו (תהלים ט"ז ה') י"י מנת חלקי וכוסי, וזה ‏על דרך הסגלה והגדול. ועל הדרך הזה יהיה ענין קריאתו אלוה לאדם ולמאמינים, כאמרו אלהי ‏אברהם יצחק ויעקב. וכאמרו אלהי העברים, כי הוא אלהי הכל, וזה ממנו על דרך הגדול והכבוד ‏לחסידים. - ועל המצב כי הבורא יתברך וית' אינו גשם, ולא יתכן שיהיה לו מצב מהמצבים, לא ‏מישיבה ולא מעמידה והדומה לזה. והכל נמנע מפני שאיננו גשם, ושהוא לא סר ואין דבר זולתו.. ‏ומפני שהמצב איננו כי אם השען גשם על אחר, ואפני המצב מחייבים שנוי וחלוף לנצב. ומה ‏שאומרים הספרים (שם כ"ט י') וישב י"י מלך לעולם, רוצים בו הקיום. ואשר אומר (במדבר י' צ"ד) ‏קומה י"י ויפוצו אויביך, אינם רוצים בו כי אם הקדמות העזר והעונש. ואשר אמר (שמות ל"ד ה') ‏ויתיצב עמו שם, רוצים בו האור ההוא שנקרא שכינה. ואשר אמר (בראשית י"ח ל"ג) וילך י"י כאשר ‏כלה, רוצים בו לעלות האור ההיא. ועם הדרך הזה הוא מתקיים כל מה שדומה לדברים האלה:‏
Nota — nenhuma categoria O contém. Saadia completa aqui a varredura das categorias do ente. Mesmo "a porção do Senhor é o seu povo" e "D'us de Avraham" não significam posse literal — Ele é, por igual, o D'us de tudo —, mas honra aos piedosos. E "Ele se assentou" ou "levantou-se" não são posturas de um corpo: significam permanência, ou socorro, ou o mover-se da Glória criada. O resultado é uma conclusão única e poderosa: nenhuma das categorias com que descrevemos as coisas se aplica a D'us no seu sentido próprio. Substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posse, postura — todas falham. O que resta é o puro Um, que age no mundo por meio da sua Glória, e a nada do mundo se assemelha.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A paixão que não é carência

O ponto mais delicado deste capítulo é o das "emoções" de D'us. A Torá fala do seu amor, da sua ira, do seu agrado — e seria fácil imaginar um D'us de humor variável, que se exalta e se acalma. Saadia corrige: essas palavras nomeiam os seus decretos, não os seus estados. Pois a emoção, no homem, é sempre reação — nasce da esperança ou do medo, do que se quer ganhar ou recear perder. D'us, que tudo criou e de nada precisa, não reage: age. O seu "amor pelo bem" não é uma necessidade que o comove de fora; é a sua justiça que se manifesta.

Acima do lugar e do tempo

Do mesmo modo, "nos céus", "no Templo", "de eternidade a eternidade" não localizam D'us no espaço nem o estendem no tempo — pois Ele é o autor de ambos, que não passam de medidas dos corpos. Onde a Escritura parece pô-Lo num lugar, ou é engrandecimento daquele lugar, ou é a sua Glória criada que ali se mostra; e onde parece pô-Lo no tempo, fala da sua ação em nosso favor. Ele acompanha a história sem ser arrastado por ela.

Nenhuma categoria O contém

Com este capítulo, Saadia conclui a sua varredura: percorreu, uma a uma, as categorias com que a mente classifica tudo o que existe — e mostrou que nenhuma se aplica a D'us no sentido literal. Não é substância nem acidente, não tem quantidade nem postura, não está num lugar nem num tempo, não "possui" nem "sente" como as criaturas. Resta apenas o Um, simples e incorpóreo, que se faz conhecer pela sua obra e pela sua Glória. É o coroamento do Tratado II — e o alicerce sobre o qual o Rambam construiria a sua própria teologia.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), capítulo 11, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Este capítulo, um único segmento contínuo no original, foi dividido em quatro partes para a leitura, preservando-se o hebraico verbatim. As longas listas de versos foram apresentadas de forma compacta. As referências bíblicas seguem a numeração tradicional; acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado II · A unidade do Criador · Capítulo 12

O que Moshé viu

מַאֲמָר שֵׁנִי · י״ב

As últimas categorias: a ação de D'us (que não O muda — Ele quer, e a coisa é) e o ser visto (que não Lhe cabe). E o enigma que confundiu tantos: Moshé pediu "mostra-me a tua glória", e ouviu "verás as minhas costas". O que, então, ele viu? A Luz criada — nunca a essência.

1

E digo, quanto à ação: ainda que chamemos o Criador, bendito seja, de "o que faz" e "o que age", não há nisto nada de corpóreo. Pois o agente corpóreo não consegue agir sobre outro sem antes agir sobre si mesmo — mover-se primeiro e só então mover o outro; mas Ele quer, e a coisa vem a ser — e este é o modo perfeito do seu agir. Além disso, todo agente corpóreo precisa de uma matéria sobre que trabalhe, de um lugar e de um tempo, e de um instrumento — e tudo isto é excelso demais para Ele. O que se acha nos livros, mencionando certas "ações" e os seus opostos, tudo se remete a isto: quando Ele quer originar algo, fá-lo existir sem que o atinja nele obra ou contato algum.

Na criação: "e D'us fez" (vaya'as) e "e cessou" (vayishbot). Assim como "fez" não foi por movimento nem por esforço — pois Ele apenas fez existir a coisa nova —, também "cessou" não foi por movimento nem por cansaço, mas é o deixar de fazer existir a coisa nova; e, embora se diga "e descansou", não é nada além do cessar da criação. Na profecia: "e o Senhor falou" — o "falar" significa que Ele criou uma fala que chegou, pelo ar, ao ouvido do profeta ou do povo; e o seu oposto, "por muito tempo me calei, fiquei em silêncio" (Yeshayahu 42:14), significa espera e demora. E o resgatar as criaturas da aflição chamam de "lembrar" ("e D'us lembrou-se de Noach", Bereshit 8:1; "lembrou-se de Rachel", 30:22); e o seu oposto, o "esquecer", é o deixar de resgatar.

E o bem e a misericórdia dizem-se d'Ele com o nome "D'us misericordioso e clemente"; a punição, com o nome "D'us zeloso e vingador" — e também estes se referem à sua ação sobre as criaturas ("o Senhor vinga-se dos seus adversários", Nachum 1:2; "guarda a aliança e a bondade aos que o amam... por mil gerações", Devarim 7:9). Todos esses nomes remetem, no seu sentido, às criaturas. E esta é a diferença entre os nomes da essência e os nomes da ação.

ואומר על הפועל כי הבורא יתברך, אף על פי שאנחנו קוראים אותו עושה ופועל, לא יתכן ענינים ‏בזה מוגשם; והוא שהפועל על המוגשם לא יוכל לפעול בזולתו עד שיפעל בנפשו, וינוע תחלה ואחר ‏כן יניע, והוא ית' יחפוץ ויהיה הדבר, וזה דרך פעלו תמים. ועוד כי כל פועל מוגשם, צריך אל חומר ‏יעשה בו, ואל מקום וזמן שיעשה בשם, ואל כלי שיפעל בו; וכל זה מרומם ממנו. כאשר בארנו. וזה ‏אשר נמצא בספרים זוכרים מקצת הפעלים הדבר והפכו, או מקצתם בדבר לא הפכו, כלו מושב אל ‏שהוא כשחפץ לחדש דבר ימציאנו בלי שיפגעהו מעשה ולא משוש. ובשער הבריאה אמרו בדבר ‏והפכו, ויעש אלהים, וישבת. וכאשר "ויעש" איננו בתנועה ולא ביגיעה; אבל הוא המציא הדבר ‏המחודש, כן בלי ספק "וישבת" לא מתנועה ולא מיגיעה, אבל הוא עזיבת המציא הדבר המחודש. ‏ואף על פי שאמרו וינח, איננו דבר יותר מעזיבת החדוש והבריאה. ובשער הנבואה אמרו וידבר י"י. ‏וענין הדבור שהוא ברא דבור, הגיע באויר אל שמע הנביא, או העם. והפך הדבור מה שאמרו ‏‏(ישעיה מ"ב י"ד) החשיתי מעולם אחריש אתאפק. וענין החרישות הזאת המתנה ואריכות. כי לשון ‏הערב מספרת עליו ספוד הדבור כפי סברתינו, ואינה מספרת עליו החרישות ולא בסברא, וכאשר ‏נוציא כמו החשיתי אל הפרוש, יתברר מה שזכרנוהו וספרנוהו בתחלת הדברים באריכות. ובהצלת ‏הברואים מענין שמצער אותם קוראים אותו זכירה, שאמרו (בראשית ח' א') ויזכר אלהים את נח. ‏‏(שם ל' כ"ב) ויזכר אלהים את רחל והדומה לזה. ואמרו בשתי הלשונות זכירה, ולא ספרה עליו ‏אחת מהן הפך הזכירה אשר היא השכחה בעזב ההצלה. אך רוב מה שהם אומרים (איכה ב' א') ולא ‏זכר הדום רגליו. והטובה והרחמים, נאמרים עליו בשם אל רחום וחנון. והנקמה והעונש, נאמרים ‏עליו בשם אל קנוא ונוקם. ואלה הענינים גם כן שהיה על הברואים, כאשר אמר (נחום ב' ב') נוקם י"י ‏לצריו ונוטר הוא לאויביו. ואמר (דברים ז' ט') שומר הברית והחסד לאוהביו ולשומרי מצותיו לאלף ‏דור. וכל אשר בא מאלה השמות ענינם שב אל הברואים. וזה הוא ההפרש בין שמות העצם ושמות ‏הפעלים וכאשר בארנו בפרוש ואלה שמות. -
Nota — agir sem mudar. Tudo o que a Escritura diz que D'us "faz" envolve-O sem o alterar: Ele quer, e a coisa é — sem movimento, esforço, matéria, instrumento, lugar ou tempo. "Descansou" não é fadiga: é o cessar de criar; "falou" não é uma boca: é uma fala criada que chega ao ouvido; "lembrou-se de Noach" não é recordar do esquecimento: é resgatar. Por isso Saadia distingue os nomes da essência (que dizem o que D'us é) dos nomes da ação (que descrevem os seus efeitos sobre as criaturas — misericórdia, vingança, lembrança). Estes últimos não acrescentam nada a Ele; apontam para o que d'Ele procede no mundo.
2

E, quanto a ser afetado o passivo: não se deve pensar que recaia sobre o Criador afecção alguma — exceto, ao que parece, o ser visto. Mas devo explicar que nem mesmo o ser-visto recai sobre Ele. Pois as coisas só são vistas pelas aparências das suas superfícies, ligadas aos quatro elementos, que se combinam com as forças da visão do olho, por meio do ar. Ora, é falso pensar que haja no Criador qualquer um desses acidentes; a visão não tem poder algum sobre o alcançá-Lo. Vês: se nem ao pensamento é possível assemelhá-Lo ou representá-Lo, como haveria caminho para a vista chegar a Ele? E já confundiu a mente de alguns o episódio de Moshé, nosso mestre — como ele pediu "mostra-me, peço-te, a tua glória" (Shemot 33:18) —, e ainda mais a resposta: "não poderás ver a minha face, pois não me verá o homem e continuará a viver"; e "verás as minhas costas, mas a minha face não se verá".

ועל הנפעל אין חושבים שמאומה מההפעלות נופל על ‏הבורא כי אם הראות בלבד. וצריך שאבאר עוד שהראות אינה נופלת עליו, והוא, שהדברים אינם ‏נראים כי אם במראים הנראים בשטחיהם, המיוחסים אל הארבעה טבעים, ומתחברים עם הכחות ‏אשר בראות העין ממיניהם באמצעות האויר ויראו, אך הבורא מן השקר שיחשוב עליו חושב שיש בו ‏מאומה מן המקרים, אין שלטון לראות על השגתו. והנה אתה רואה, אי אפשר למחשבות לדמותו ‏ולציירו בהם, ואיך יהיה דרך לראות אליו? וכבר בלבל דעת קצת בני אדם ענין משה רבינו, איך ‏שאל מאלהיו (שמות ל"ב) הראני נא את כבודך, והוסיף להם בלבול תשובתו: לא תוכל לראות את ‏פני כל לא יראני האדם וחי, ונכפל בלבולם באמרו: וראית את אחורי ופני לא יראו:‏
Nota — o que não se pode ver. Saadia conclui que nenhuma "paixão" recai sobre D'us — nem mesmo a de ser visto. A visão capta apenas superfícies coloridas de corpos, mediadas pelo ar e pelo olho; um ser sem corpo, sem acidentes, não tem o que ser visto. E há um argumento a fortiori elegante: se nem o pensamento consegue representar D'us, muito menos a vista, que é mais grosseira, poderia alcançá-Lo. É contra esse pano de fundo que se coloca o enigma de Moshé: se D'us não se vê, o que pediu Moshé ao dizer "mostra-me a tua glória"?
3

E digo, revelando e esclarecendo tudo isto: o Criador tem uma luz que Ele criou, e a mostrou aos profetas para que lhes fosse uma prova de que todas as palavras de profecia que eles transmitem vêm do Criador. Quando um deles a vê, diz "vi a Glória do Senhor"; e há quem diga "vi o Senhor", por via de elipse. Já sabes que de Moshé, Aharon, Nadav, Avihu e setenta dos anciãos de Israel se disse primeiro "e viram o D'us de Israel" (Shemot 24:10), e depois se explicou "e a aparência da Glória do Senhor era como um fogo consumidor no cume do monte" (24:17). Mas, ao verem aquela luz, não conseguem fixá-la, de tão grande o seu poder e brilho; e quem tenta fixá-la na plena força, desfaz-se a sua composição e o seu espírito se evola — como se disse "para que não irrompam até o Senhor, a fim de ver, e caiam muitos deles" (19:21).

E Moshé pediu que o Criador o fortalecesse para fixar aquela luz; e Ele respondeu que o princípio daquela luz é poderoso demais — não poderia vê-lo sem morrer —, mas que o protegeria com uma nuvem, ou algo semelhante, até que o princípio da luz passasse (pois toda coisa luminosa é mais forte no seu início), como se disse "e cobrir-te-ei com a minha palma até que eu passe" (33:22). E, passado o princípio da luz, removeu de Moshé o que o cobria, de modo que ele fixou a sua parte final (acharit) — "e tirarei a minha palma, e verás as minhas costas" (33:23). Mas ao Criador em si é impossível que algum deles O veja, pois isso é o caminho da falsidade.

ואומר בגלות כל זה ובארו, כי יש לבורא אור בראהו, והראהו לנביאים להיות ראיה להם כל דברי ‏הנבואה אשר ישמיעום הם מאת הבורא, וכאשר יראה אותו אחד מהם אומר ראיתי כבוד י"י. ויש ‏שאומר ראיתי את י"י, על דרך ההסתר. וכבר ידעת כי משה ואהרן ונדב ואביהוא ושבעים מזקני ‏ישראל אמר עליהם בתחלה (שם כ"ד י') ויראו את אלהי ישראל. ופרשו אחר כן (שם שם י"ז) ומראה ‏כבוד י"י כאש אוכלת בראש ההר; אבל כשהם רואים האור ההוא, אינם יכולים להסתכל בו מרוב כחו ‏ובהירותו, ומי שמסתכל תתפרד הרכבתו ויפרח רוחו, כמו שאמר (שם י"ט כ"א) פן יהרסו אל י"י ‏לראות ונפל ממנו רב. ושאל משה רבינו שיחזקהו הבורא להסתכל באור ההוא, והשיבו כי תחלת ‏האור ההוא עצומה, לא תוכל לראותה ולא להסתכל בה, שלא ימות, אך יסך עליו בענן או במה ‏שדומה לו, עד שיעבור תחלת האור הוא, מפני שחזק כל דבר נוגה בהתחלתו, כמו שאמר (שם ל"ג ‏כ"ב) ושכותי כפי עליך עד עברי. וכאשר עבר תחלת האור, גלה מעל משה הדבר הסוכך עד ‏שהסתכל באחריתו, כאשר אומר (שם שם כ"ח) והסירות את כפי וראית את אחורי. אבל הבורא ‏עצמו לא יתכן שיראה אותו אחד מהם, כי זה מדרך השקר:‏
Nota essencial — o que Moshé viu. Eis a resolução, e o coroamento do tratado. Moshé não pediu — nem poderia receber — a visão da essência de D'us; pediu ver a sua Glória, a Luz criada (a mesma do cap. 10), que D'us forma para autenticar a profecia. Mas até essa luz, no seu princípio, é forte demais — quem a fixasse "se desfaria". Por isso D'us o cobre "com a palma" até passar o auge, e Moshé vê apenas a sua parte final, o seu rastro ("verás as minhas costas"). A "face" de D'us — a sua essência — "não se verá" jamais. Assim Saadia salva, de uma vez, o realismo da experiência de Moshé e a absoluta invisibilidade de D'us: o maior dos profetas viu o máximo que se pode ver — e ainda assim, não a D'us, mas a sua luz.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Agir sem mudar

O verbo é o último refúgio do antropomorfismo: mesmo quem aceita que D'us não tem mão pode imaginá-Lo "fazendo", "descansando", "falando" como nós. Saadia fecha também essa porta. A ação de D'us não exige nada do que a ação humana exige — nem músculo, nem ferramenta, nem cansaço: Ele quer, e a coisa é. E os nomes que parecem descrever os seus "estados" (misericordioso, vingador, que lembra, que esquece) descrevem, na verdade, os seus efeitos sobre nós. São nomes da ação, não da essência.

O que não se pode ver

Ver é receber a imagem da superfície de um corpo. D'us, sem corpo e sem superfície, não é objeto possível da visão — e, se nem o pensamento O alcança, muito menos o olho. Esta conclusão poderia parecer fria, não fosse o que vem depois: ela não nega a experiência dos profetas; apenas a entende corretamente.

O rastro da Luz

O capítulo culmina no episódio mais íntimo da Torá — o pedido de Moshé, "mostra-me a tua glória". A resposta de Saadia é de uma delicadeza notável: o que Moshé viu foi a Luz criada, a Glória que D'us forma para falar com os seus profetas; e mesmo dela só pôde ver o rastro — "as minhas costas" —, porque o seu auge é insuportável. A "face", a essência, permanece para sempre invisível. Com isto, o Tratado II chega ao seu fim: o Senhor é Um, incorpóreo, indizível e invisível — e, no entanto, faz-se conhecer, pela sua obra e pela sua Glória, a quem O busca.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), capítulo 12, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Este capítulo trata da ação e do "ser visto" de D'us, e da visão de Moshé. O primeiro segmento, longo, foi dividido em duas partes para a leitura, preservando-se o hebraico verbatim. As referências bíblicas seguem a numeração tradicional; acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Segue-se o último capítulo do Tratado II. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado II · A unidade do Criador · Capítulo 13 (conclusão)

Conhecer — e amar — a D'us

מַאֲמָר שֵׁנִי · י״ג (סוֹף)

O Tratado II encerra-se respondendo às últimas perguntas — como se conhece um D'us que nenhum sentido alcança, como Ele está em toda parte e sabe tudo — e culmina no seu ponto mais íntimo: quando a razão chega a conhecê-Lo, a alma O ama. E esse amor, longe de ser cego, defende-se com a razão.

1

E digo, em seguida: como pode firmar-se no nosso pensamento esta "coisa" — isto é, o Criador, bendito seja —, se nenhum dos nossos sentidos recaiu sobre Ele? Respondo: tal como se firmam em nós as verdades de que o bem é bom e de que a falsidade é vil — sem que sentido algum as capte; e tal como apreendemos, pelo intelecto, a impossibilidade de reunir o existente e o inexistente num só — sem que a vista o veja. E disse a Escritura: "e o Senhor D'us é a verdade" (Yirmiahu 10:10).

E como pode subir ao nosso intelecto que Ele exista em todo lugar, a ponto de não haver lugar senão d'Ele? Porque jamais deixou de existir antes de todo lugar. Se os lugares separassem as suas "partes", Ele não os teria criado; e se os corpos O expulsassem dos lugares, Ele não os teria criado. Sendo assim, o seu existir depois de criar todos os corpos é como o seu existir antes — sem mudança, sem separação, sem ocultação e sem interrupção: "esconder-se-á alguém em esconderijos, sem que eu o veja?, diz o Senhor; não encho eu os céus e a terra?" (Yirmiahu 23:24). E, para aproximar isto do entendimento: se não estivéssemos acostumados a ver que certas paredes não barram o som, que o vidro não barra a luz, e que a luz do sol não se mancha com as imundícies do mundo, tudo isto nos pareceria espantoso. E todas essas maravilhas atestam a verdade do seu modo de ser.

ואחר כן אומר: איך יתקיים במחשבתנו הענין הזה, רוצה לומר הבורא יתברך, וחוש מחושינו לא ‏נפל עליו? ואומר: כאשר יתקיים בה, הטבת הטוב וגנות הכזב, וחושינו לא נפלו עליו. וכאשר נעלה ‏בשכלנו המנע מקבץ נמצא ונעדר, ושאר המתרחקים, והחושים לא ראו את זה. ואמר הכתוב (ירמיה ‏י' י') וי"י אלהים אמת. ואומר: ואיך יעלה בשכלנו המצאו בכל מקום, עד שלא יהיה מקום רק ממנו? ‏מפני שלא סר קודם כל מקום. ואלו היו המקומות הפרידים בין חלקיו לא היה בורא אותם. ואלו היו ‏הגשמים מטרידים המקומות ממנו או מקצת, לא היה בורא אותם. וכיון שהדבר כן המצאו אחרי ‏שברא הגשמים כלם, כהמצאו קודם לכן, בלא שנוי ולא פרידה, ולא הסתר ולא הפסק, וכמו שאמר ‏‏(שם כ"ג כ"ד) אם יסתר איש במסתרים ואני לא אראנו נאם י"י הלא את השמים ואת הארץ אני מלא ‏נאם י"י. ואקרב להבין זה ואומר: לולא שהרגלנו שקצת הכתלים אין סותרים בעד הקול, וכן אנו ‏רואים שהזכוכית איננה שכה בעד האור, וידענו כי אור השמש לא יזיקוהו הלכלוכים אשר בעולם, ‏היינו תמהים על זה. ואלה כלם פליאות מעידות על אמתת ענינו.
Nota — conhecer o invisível. A primeira pergunta é a mais funda: como podemos ter na mente um D'us que nenhum sentido alcança? A resposta de Saadia é elegante — fazemo-lo o tempo todo: sabemos que "o bem é bom" e que "o existente e o inexistente não coexistem" sem que olho ou ouvido o captem. São verdades da razão, não dos sentidos — e é assim que se conhece D'us. E a sua onipresença não O divide nem O suja: como o som atravessa a parede, a luz atravessa o vidro, e o sol não se mancha com a imundície que ilumina — Ele enche tudo sem ser tocado por nada.
2

E digo ainda: como pode caber no coração que Ele saiba tudo o que foi e tudo o que será, e que esse saber Lhe seja igual? Explico: as criaturas não conhecem o futuro, porque o seu conhecimento só vem pela via dos sentidos, e o que não chegou ao seu ouvido, à sua vista ou aos demais sentidos elas não alcançam. Mas o Criador — cujo conhecimento não se dá por uma causa, mas porque a sua própria essência é conhecimento — tem o passado e o futuro diante de si, juntos e por igual, e conhece-os sem causa. Como disse: "aquele que anuncia o fim desde o princípio... dizendo: o meu conselho subsistirá, e farei toda a minha vontade" (Yeshayahu 46:10).

ואומר עוד: איך יעלה בלב שהוא ‏יודע כל מה שהיה וכל מה שיהיה, ושידיעתם אצלו שוה? ואבאר שהברואים אינם יודעים מה ‏שעתיד, מפני שידיעתם אינם כי אם מדרך החושים, ומה שלא יצא אל שמעם ולא ראותם ושאר ‏חושיהם לא יעמדו עליו. אבל הבורא אשר אין דרך ידיעתו בסבה, אך היא מפני שעצמו מדע, ‏והחולף והעתיד אצלו יחד בשוה, ידעם בלא סבה. וכאשר אמר (ישעיה מ"ו י') מגיד מראשית ‏אחרית ומקדם אשר לא נעשו אומר עצתי תקום וכל חפצי אעשה. -
3

E, quando o homem chega ao conhecimento desta coisa sutil — pela via da tradição e do ver dos sinais e prodígios —, a sua alma o crê, e esse conhecimento mescla-se ao seu espírito e passa a habitar as suas câmaras: onde quer que ela esteja, no seu palácio interior, ali O encontra. Como disse o profeta: "a minha alma te desejou de noite; também o meu espírito, dentro de mim, te busca de madrugada" (Yeshayahu 26:9). E ela se eleva no amor a Ele — um amor completo, sem dúvida —, como está dito: "e amarás o Senhor, teu D'us, com todo o teu coração..." (Devarim 6:5). Aquele servo lembra-se d'Ele de dia, ao caminhar, e de noite, no seu leito ("se me lembro de ti no meu leito, nas vigílias medito em ti", Tehillim 63:7). E quase o seu espírito fala, gemendo de tanto anseio: "lembro-me de D'us e gemo; medito, e o meu espírito desfalece" (Tehillim 77:4). E a sua lembrança o nutre mais do que os manjares, e o seu Nome o sacia mais do que toda fartura (Tehillim 63:6).

Até que ela devolve todos os seus assuntos a Ele, e nele se refugia e confia sempre ("confiai nele em todo tempo... derramai diante dele o vosso coração", Tehillim 62:9): se Ele lhe faz bem, ela agradece; se a aflige, ela suporta. E, ainda que Ele a separasse do seu corpo, ela continuaria a esperar nele, sem o suspeitar: "ainda que me mate, nele esperarei" (Iyov 13:15). Quanto mais contempla os seus caminhos, mais lhe cresce a reverência ("por isso me perturbo diante dele; reflito, e o temo", Iyov 23:15); e quanto mais contempla as suas boas qualidades, mais engrandece os seus louvores e cresce a sua alegria ("alegre-se o coração dos que buscam o Senhor", Tehillim 105:3). Até que ama os que O amam e honra os que O honram ("quão preciosos me são os teus amigos, ó D'us!", Tehillim 139:17). E ela defende-O, e responde a quem fala contra Ele com intelecto e conhecimento — não com grosseria ("elevarei o meu saber ao longe, e ao meu Criador atribuirei justiça", Iyov 36:3); e louva-O com razão e retidão, não com exagero e falsidade, como a Escritura diz dos que louvam: "falou Chizkiahu ao coração dos levitas, que tinham bom entendimento no serviço do Senhor" (Divrei haYamim II 30:22).

וכאשר יגיע האדם אל ידיעת ‏הענין הזה הדק, בדרך ההגדה וראות האותות והמופתים, תאמינהו נפשו ותמזג ברוחו וישוב נמצא ‏בחדריה, וכל אשר תעמוד בהיכלה תמצאנו, כאשר אמר הנביא (שם כ"ו ט') נפשי אויתיך בלילה אף ‏רוחי בקרבי אשחרך. ותשגה באהבתו אהבה שלמה שאין בה ספק, כמו שאמר (דברים ו' ו') ואהבת ‏את י"י אלהיך בכל לבבך וגומר. ויהיה העבד ההוא זוכרו ביום בלכתו, ובלילה על יצועו, וכמו שאמר ‏‏(תהלים ס"ג ז') אם זכרתי על יצועי באשמורות אהגה בך. וכמעט שתהיה מדברת ר"ל הרוח ‏שתהמה בעת זכרו מהכוסף והכליון, וכמו שאמר (תהי' ע"ז ד') אזכרה אלהים ואהמיה אשיחה ‏ותתעטף רוחי סלה. ויזון אותו זכרו יותר מן הדשנים, וירוה אותה שמו יותר מכל רוה, כמו שאמר ‏‏(שם ס"ג ו') כמו חלב ודשן תשבע נפשי וגומר, עד שתשיב כל עניניה כלם אליו, ותהיה חוסה בו ‏ובוטחת תמיד, כאשר אמר (שם ס"ב ט') בטחו בו בכל עת עם שפכו לפניו לבבכם וגומר. ואם ייטיב ‏לה, תודה, ואם יצערנה, תסבול, וכמו שאמר (תהי' כ"ב ל') אכלו וישתחוו כל דשני ארץ. ואלו היה ‏מפריד בינה ובין גופה היתה מיחלת לו, ולא היתה חושדת אותו, כמו שאמר (איוב י"ג ט"ו) הן ‏יקטלני לו איחל. וכל אשר תסתכל בעניניו תוסיף יראה ופחד, וכמו שאמר (שם כ"ג ט"ו) על כן מפניו ‏אבהל אתבונן ואפחד ממנו. וכל אשר תתבונן במדותיו, תגדיל שבחיהם ותוסיף שמחתה, וכמו ‏שאמר (תהלים ק"ה ו') ישמח לב מבקשי י"י, עד שתאהב אוהביו ותוקיר מוקיריו, כמו שאמר, (תהי' ‏קל"ט י"ז) ולי מה יקרו רעיך אל וגומר. ותשנ א משנאיו ותאיב אויביו, וכמו שאמר (תהי' קל"ט כ"א) הלא ‏משנאיך י"י אשנא וגומר, עד שתטעון בעבורו ותשיב על מי שמדבר בו ובעניניו, בשכל ובדעת, לא ‏בכבדות, כמו שאמר (איוב ל"ו ג') אשא דעי למרחוק ולפועלי אתן צדק כי אמנם לא שקר מלי תמים ‏דעו עמך, ותשכחנו ותהללנו בשכל וביושר, לא בגוזמא ובשקר, כמו שאמר הכתוב במשבחים (דה"י ‏ב' ל' כ"ב) וידבר חזקיהו על לב הלוים המשכילים שכל טוב לי"י.
Nota essencial — conhecer é amar. Eis o coração do tratado, e a sua maior beleza. Para Saadia, conhecer a D'us não é um exercício frio: quando a razão de fato O alcança, o conhecimento "mescla-se ao espírito" e floresce em amor — a alma anseia por Ele de dia e de noite, confia n'Ele tanto na bênção quanto na aflição ("ainda que me mate, nele esperarei"), e enche-se de reverência e de alegria. Mas note-se o traço racionalista decisivo: esse amor não é cego. A alma que ama "defende-O com intelecto, não com grosseria", e "louva-O com razão e retidão, não com exagero e falsidade". O ápice da fé não é abandonar a razão — é amar com ela.
4

E não O louvarás falsamente, dizendo que Ele faria o cinco ser mais do que o dez sem nada lhe acrescentar, ou que poria um mundo no oco de um anel sem encolher um e alargar o outro, ou que faria voltar o ontem que já passou — pois tudo isto é hevel absurdo, nada. E, se alguns descrentes nos perguntarem sobre isto, responderemos: Ele é poderoso sobre toda coisa; mas aquilo que perguntam não é coisa alguma — é absurdo, e o absurdo não é nada; é como perguntar se Ele é "poderoso sobre o nada" pergunta vazia, não limite ao seu poder.

Antes, a alma O louva nas coisas essenciais: que é o Eterno, que não mudou nem mudará ("morada é o D'us eterno", Devarim 33:27); que é um na sua essência ("tu és o Senhor, só tu", Nechemiá 9:6); o vivo e permanente; poderoso sobre toda coisa ("o D'us grande, poderoso e temível", Nechemiá 9:32); que conhece toda coisa com conhecimento perfeito; que tudo cria, sendo o primeiro ("pois Ele é o que forma tudo", Yirmiahu 10:16); que não faz o vão nem o caos ("não a criou para ser caos; formou-a para ser habitada", Yeshayahu 45:18); que não é injusto nem torto ("a Rocha, perfeita é a sua obra, e todos os seus caminhos são juízo", Devarim 32:4); que só faz o bem às criaturas ("bom é o Senhor para todos", Tehillim 145:9); que não se altera ("eu, o Senhor, não mudei", Malachi 3:6); cujo reino não acaba (Tehillim 145:13). E há de saber que tudo o que d'Ele se narra e com que se O louva, Ele é ainda mais elevado e exaltado do que tudo ("bendigam o teu Nome glorioso, exaltado acima de toda bênção e louvor", Nechemiá 9:5).

E aquilo que se acha, em alguns lugares dos livros, de louvor e exaltação, não é atribuído a Ele à sua essência, mas à sua descrição ("bendita seja a glória do Senhor desde o seu lugar", Yechezkel 3:12). E isto é também obra da língua: quando se quer engrandecer, antepõem-se palavras antes de mencionar o engrandecido — e quanto mais essas palavras, maior a honra (como em "ao mostrar as riquezas da glória do seu reino, e o esplendor da sua magnificência", Ester 1:4): tudo isso é a sua riqueza, o seu reino, a sua grandeza.

Atenta — que D'us te guie! — ao que escrevemos; medita nisto na sua sequência, eleva-o no teu pensamento, e não te apresses a decidir pelas meras palavras; antes, decide pelas raízes que precedem, e toma as palavras como figura e aproximação, conforme explicámos.

ולא תשכחנו בשהוא ישים החמשה ‏יותר מן העשרה, שלא יוסיף בהם, ולא שיכניס עולם בחלל הטבעת, שלא יצר זה וירחיב זה, ולא ‏שישיב אתמול החולף, כי כל זה הבל. ואפשר שישאלנו קצת הכופרים על כל אלה ונשיב, כי הוא יכול ‏על כל דבר, וזה אשר שלא עליו איננו כלום, כי הוא הבל, וההבל איננו כלום, וכאלו שאלו היוכל על ‏לא כלום; אך על זה שאלו באמת. אבל היא משבחת אותו בענינים העצמיים, שהוא הקדמון אשר לא ‏חלף ולא יחליף, כמו שאמר (דברים ל"ג כ"ז) מעונה אלהי קדם. ושהוא אחד בעצמו באמת, כמו ‏שאמר (נחמיה ט' ו') אתה הוא י"י לברך. ושהוא החי והקיים, כמו שאמר (דברים ל"ב מ') כי אשא אל ‏שמים ידי וגומר. ושהוא יכול על כל דבר, כמו שאמר (נחמיה ט' ל"ב) האל הגדול הגבור והנורא. ‏ושהוא היודע כל דבר ידיעה שלמה, כמו שאמר (איוב ל"ז ט"ז) התדע על מפלשי עב מפלאות המים ‏דעים. ושהוא בורא כל דבר תחלה, כמו שאמר (ירמיה י' ט"ז) לא כאלה חלק יעקב כי יוצר הכל הוא. ‏ושאיננו עושה השוא ולא התהו, כמו שאמר (ישעיה מ"ה י"ח) לא תהו בראה לשבת יצרה. ושאיננו ‏מעול ולא חומץ, כמו שאמר (דברים ל"ב ד') הצור תמים פעלו כי כל דרכיו משפט. ושאינו עושה ‏לעבדיו כי אם הטוב, שנא' (תהלים קמ"ה ט') טוב י"י לכל וגומר. יודוך י"י כל מעשיך וגומר. כבוד ‏מלכותך יאמרו וגומר. ושאיננו משתנה ולא יחלוף, כמו שאמר (מלאכי ג' ו') אני י"י אלהים לא שניתי ‏ואתם בני יעקב וגומר. ושמלכותו לא תחלוף ולא תכלה, כמו שאמר (תהלים קמ"ה י"ג) מלכותך ‏מלכות כל עולמים וגומר. ושמצותו קיימת אין משיב לה, כמו שאמר, (שם ק"ג י"ט) י"י בשמים הכין ‏כסאו ומלכותו בכל משלה. ושחובה לשבחו במדותיו הטובות והגדולות, כמו שאמר (קל"ח ה') ‏וישירו בדרכי י"י כי גדול כבוד י"י. ושכל מה שיספרו עליו המספרים וישבחוהו בו המשבחים הוא ‏נעלה וגדול ומרומם מהכל, כמו שאמר (נחמיה ט' ה') ויברכו שם כבודך ומרומם על כל ברכה ‏ותהלה. וזה אשר תמצא במקומות מהספרים מן השבח והתהלה איננו מיוחס אליו, אך הוא מיוחס ‏אל ספוריו, כמו שאמר (יחזקאל ג' י"ב) ברוך שם כבוד י"י ממקומו. ושאמרו (תהלים ס"ח ה') זמרו ‏שמו ופעמים תמצאנו לספר ספורו ויאמר (שם ע"ב י"ח) ברוך שם כבודו. ואמר (שם צ"ז י"ב) והודו ‏לזכר קדשו. אך בדברי רבותינו רבים כאלו, הוא לספר ספורו שהם אומרים; ברוך שם כבוד ‏מלכותו. ואומר בכל זה שהוא גם כן ממעשה הלשון, והוא, כאשר הוא מכונת להגדיל ולהאדיר, ‏מקדמים המלות קודם שיזכרו המגודל ההוא. וכל אשר ירבו המלות ההם הקודמות, יהיה בהם ‏יותר גדולה, כמו שנאמר (אסתר א' ד') בהראותו את עושר כבוד מלכותו ואת יקר תפארת. והוא ‏הוא עשרו ומלכותו וגדולתו, והוא גם כן יקרו ותפארתו וגדולתו. ודמו הספורים קצתם לקצתם. - ‏הסתכל. יישירך האלהים! מה שכתבנוהו, והתבונן בו בנמשך, ועלהו במחשבתך, ואל תמהר לגזור ‏על המלות. אבל גזור על השרשים הקודמים. ושים המלות העברה והקרבה, כאשר בארנו:‏
Nota — o poder, o absurdo, e a regra final. Saadia retoma um ponto do Tratado I: D'us é poderoso sobre toda coisa — mas o "logicamente impossível" (o cinco que vale mais que o dez, o ontem que volta) não é uma coisa que Ele "não consiga"; é um nada, uma pergunta vazia. Louvá-Lo de verdade é louvá-Lo no que é essencial: eterno, um, vivo, sábio, criador, justo, bom, imutável — e ainda assim acima de todo louvor. E o tratado fecha com a sua regra de ouro, repetida uma última vez: não decidas pelas palavras, mas pelas raízes; lê toda expressão corpórea como figura. Com isto se conclui a longa depuração da ideia de D'us — Ele é Um, incorpóreo, indizível e, no entanto, profundamente amável.
נִשְׁלַם הַמַּאֲמָר הַשֵּׁנִי ✡ Fim do Segundo Tratado — A Unidade do Criador

Sobre esta seção · עִיּוּן

Conhecer o que os sentidos não alcançam

O capítulo final responde à objeção mais persistente contra toda a teologia racionalista: se D'us não se vê nem se toca, como falar d'Ele? Saadia mostra que o invisível não é o inacessível. As verdades mais certas que possuímos — que o bem é bom, que uma contradição é impossível — nenhum sentido as fornece; vêm da razão. Conhecer D'us pertence a essa mesma ordem. E a sua onipresença, longe de absurda, tem análogos na própria natureza: o som que atravessa a parede, a luz que atravessa o vidro, o sol que ilumina a lama sem se sujar.

Conhecer floresce em amar

Mas o tratado não termina numa definição; termina num amor. Esta é a sua surpresa mais bela: toda a depuração rigorosa da ideia de D'us — incorpóreo, sem partes, sem paixões — não esfria o coração; aquece-o. Quando a razão finalmente alcança o Criador, a alma passa a buscá-Lo dia e noite, a confiar n'Ele na alegria e na dor, a defendê-Lo e louvá-Lo. E o faz, marca da tradição racionalista, com intelecto, não com cegueira: o amor mais alto é o amor que entende.

O fim de um longo caminho

Com este capítulo encerra-se o Segundo Tratado. Do "Ouve, Israel" do primeiro capítulo até este amor que conhece, percorreu-se um só caminho: provar, depurar e amar a unidade de D'us. Resta a regra que governou tudo — "não decidas pelas palavras, mas pelas raízes" — e a certeza de que o Criador, embora além de toda palavra, se faz conhecer e amar por quem O busca com a mente e o coração unidos.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado II (A unidade do Criador), capítulo 13 — conclusão do Tratado —, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Este capítulo, um único segmento contínuo no original, foi dividido em quatro partes para a leitura, preservando-se o hebraico verbatim; a longa lista de atributos foi apresentada de forma compacta. Com ele conclui-se o Tratado II. As referências bíblicas seguem a numeração tradicional; acréscimos entre colchetes esclarecem o sentido. As notas e a seção de estudo são originais. Segue-se o Tratado III, sobre a revelação e os mandamentos. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado III · O mandamento e a revelação · Introdução

Por que D'us ordena: o bem conquistado vale o dobro

מַאֲמָר שְׁלִישִׁי · בְּצִוּוּי וּבְאַזְהָרָה · הַקְדָּמָה

Por que D'us, podendo simplesmente nos dar o bem, preferiu ordenar mandamentos? A introdução ao Tratado III responde com um princípio luminoso: o bem que se conquista pelo esforço vale o dobro do bem que se recebe de graça — e o intelecto não os iguala. Os mandamentos não são um fardo: são o presente da dignidade de merecer.

1

Disse Yehudá ben Shaul Ibn Tibbon, o tradutor; disse o autor Saadia: o que convém pôr como início deste tratado é isto. Já ficou esclarecido que o Criador, bendito seja, é eterno, e que nada existia junto d'Ele; logo, o seu criar as coisas foi puro bem e bondade da sua parte.

אמר יהודה בן שאול. אמר המחבר: אשר ראוי לקדם אותו התחלה למאמר הזה, כי הבורא יתברך כיון שהתברר שהוא קדמון לא היה עמו דבר, היתה בריאתו לדברים טובה וחסד ממנו.
2

E — como recordamos no fim do Tratado I, ao tratar da razão de ser da criação — e como se acha nas Escrituras, Ele é "bom e faz o bem", conforme está dito: "Bom é o Senhor para com todos, e a sua misericórdia está sobre todas as suas obras" (Tehillim 145:9). E o primeiro dos seus benefícios às criaturas foi conceder-lhes o existir — quero dizer: fazê-las existir depois de não terem sido —, como disse a respeito das criaturas dignas: "todo o que é chamado pelo meu nome, para a minha glória o criei" (Yeshayahu 43:7).

וכאשר זכרנו בסוף המאמר הראשון, בעלת בריאת הדברים, וממה שימצא בספרים שהוא טוב ומטיב, כמו שאמר (תהלים קמ"ה ט') טוב י"י לכל ורחמיו על כל מעשיו. ותחלת הטבתו לברואים שחננם ההויה, רצוני לומר: המציאו אותם אחר שלא היו. וכמו שאמר לחשובים (ישעי' מ"ג ז') כל הנקרא בשמי ולכבודי בראתיו וגומר.
3

E, depois, concedeu-lhes um meio pelo qual chegam à felicidade completa e ao bem perfeito, como está dito: "far-me-ás conhecer a vereda da vida; fartura de alegrias há na tua presença" (Tehillim 16:11). E esse meio é justamente aquilo que Ele lhes ordenou e do que os advertiu — os mandamentos e as proibições.

ואחר כן חננם סבה שמגיעים בה אל ההצלחה הגמורה והטובה השלמה, כמו שאמר (תהלים ט"ז י"א) תודיעני ארח חיים שבע שמחות את פניך וגומר. והוא מה שצום והזהירם ממנו.
Nota — as duas dádivas. Saadia organiza tudo em dois dons. O primeiro é o próprio existir: fomos chamados do nada à vida, e isso já é puro bem, sem que tivéssemos feito nada para merecê-lo. O segundo é um meio para alcançar a felicidade plena — e esse meio são os mandamentos. A Torá, nesta leitura, não é um peso imposto a criaturas prontas: é o caminho oferecido para que cheguem ao bem mais alto que existe.
4

Ora, eis o primeiro pensamento que o intelecto abarca e sobre o qual reflete, dizendo: não poderia Ele ter-lhes feito o bem completo, e dado a felicidade perene, sem ordenar-lhes nem adverti-los? Poder-se-ia supor que essa bondade — a do bem sem esforço — lhes fosse melhor, por poupar-lhes o trabalho. Mas eu afirmo, esclarecendo a questão: fazer com que o meio de chegarem ao bem perene seja o esforço naquilo que Ele ordenou é, na verdade, melhor para eles.

וזה המאמר תחלת מה שיקיף השכל ויחשוב בו, ויאמר: הוא היה יכול שייטיב להם ההטבה הגמורה, ויצליחם ההצלחה המתמדת מבלתי שיצום ויזהירם? אבל יראה שטובתו בדרך ההיא טוב להם, בעבור מה שיסתלק מעליהם מעניני הטרח. ואומר בבירור הענין הזה, כי שומו סבת הגעתם אל הטובה המתמדת בהטריחם במה שצוה בו, הוא יותר טוב.
5

Pois o intelecto julga que aquele que alcança um bem por uma obra que ele mesmo realizou tem o dobro do bem de quem nada fez e apenas o recebeu por benevolência; e o intelecto não vê como igualar os dois. Sendo assim, o nosso Criador inclinou-nos para a parte melhor: que o nosso proveito venha pela recompensa — o dobro do proveito que viria sem obra alguma —, como está dito: "eis que o Senhor D'us virá com poder, e o seu braço dominará por Ele; eis que o seu galardão vem com Ele, e a sua recompensa, diante d'Ele" (Yeshayahu 40:10).

והוא, שהשכל דן שיהיה מי שמגיע לטובה על מעשה שהעבד בו, יש לו כפל מה שיגעהו מן הטוב מי שלא עשה דבר, אבל הוא מתחסד עמו. ואין השכל רואה להשוות ביניהם. וכאשר הדבר כן נטה בנו בוראנו אל החלק היותר להיות תועלתנו על הגמול, כפל תועלתנו אשר תהיה על לא מעשה, וכמו שאמר (ישעיהו מ׳:י׳ י') הנה י"י אלהים בחזק יבוא וזרועו מושלה לו הנה שכרו אתו ופעולתו לפניו:
Nota — o "pão da vergonha". Aqui está o argumento racional do capítulo, e ele é um pilar do pensamento judaico: o bem conquistado vale o dobro do bem recebido de graça. Quem ganha um prêmio pelo próprio esforço o desfruta sem o constrangimento de quem vive de esmola — o que os sábios chamarão depois de nahamá dikhsufá, o "pão da vergonha". Por amor a nós, e não por nos querer onerar, D'us preferiu dar-nos a dignidade de merecer: por isso há mandamentos, e por isso há recompensa.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Por que mandamentos, e não apenas dádivas?

Saadia abre o tratado sobre a revelação enfrentando a pergunta mais natural de todas: se D'us é puro bem e quer a nossa felicidade, por que não no-la deu logo, pronta, sem a fadiga de obrigações? A resposta desloca o eixo da questão. O problema não é se D'us pode dar o bem de graça — claro que pode —, mas se isso seria o melhor para nós. E não seria.

O pão da vergonha

O argumento é estritamente racional, e não precisa de fé para ser sentido: todos sabemos que há uma alegria no que conquistamos que falta no que ganhamos sem mérito. Quem é sustentado por caridade come, mas come o "pão da vergonha"; quem come do próprio trabalho come em paz. D'us, diz Saadia, "inclinou-nos para a parte melhor" — deu-nos mandamentos para que o bem eterno fosse nosso, fruto da nossa obra, e não esmola. A mitsvá é, nesta luz, um ato de respeito do Criador pela dignidade da criatura.

A porta de todo o tratado

Esta introdução é a dobradiça que liga os dois primeiros tratados ao terceiro. Provada a criação (Tratado I) e a unidade do Criador (Tratado II), pergunta-se agora: o que esse D'us quer de nós? A resposta — que Ele nos deu mandamentos como meio para a felicidade — abre todas as questões do Tratado III: por que foi preciso que os profetas os trouxessem, como se verifica a verdade de um profeta, e por que a Torá não se anula. Tudo começa aqui: na ideia de que obedecer não é servidão, mas o caminho oferecido para o bem mais alto.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado III (O mandamento e a revelação), Introdução, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se a introdução inteira do Tratado III a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público disponível (a versão moderna é protegida por direitos autorais), de modo que se trabalhou diretamente sobre o hebraico. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado III · O mandamento e a revelação · cap. 1

As duas espécies de mandamento: os da razão e os da revelação

מַאֲמָר שְׁלִישִׁי · א

Existem mandamentos que a razão exigiria sozinha — não matar, não roubar, agradecer a quem nos criou — e mandamentos que só conhecemos porque foram revelados. Neste capítulo, Saadia funda a grande distinção entre as mitsvot da razão e as mitsvot da revelação, e mostra que nenhuma delas é arbitrária.

1

Posta esta introdução, começo dizendo: o nosso D'us, bendito seja, deu-nos a conhecer, pelas palavras dos seus profetas, que tem para nós uma Torá pela qual O servimos, com mandamentos que nos ordenou, e que somos obrigados a guardar e a cumprir de coração inteiro — como Ele disse: "Hoje o Senhor, teu D'us, te ordena cumprir estes estatutos e estes juízos; guarda-os e cumpre-os com todo o teu coração e com toda a tua alma" (Devarim 26:16). E os seus profetas confirmaram-nos esses mandamentos com sinais e provas plenas, e nós logo os guardamos e cumprimos. E só depois achamos que a própria razão os exige — e não seria digno que Ele nos deixasse sem palavra revelada.

וכיון שהקדמנו ההקדמה הזאת אומר פותח, הודיענו אלהינו יתברך בדברי נביאיו, שיש לו עלינו תורה נעבדהו בה, ובה מצות שצוה אותנו בם, אנחנו חייבים לשמרם ולעשותם בלב שלם. הוא אמרו (דברים כ "ו ט"ז) היום הזה י"י אלהיך מצוך לעשות את החקים האלה ואת המשפטים ושמרת ועשית אותם בכל לבבך ובכל נפשך. והעמידו לנו נביאיו על המצות ההם האותות והמופתים המלאים, ושמרנום ועשינו אותם מיד. ואחר כך מצאנו העיון מחייב שנצוה בהם, ולא היה ראוי לעזבנו מבלעדי דבר.
Nota — a revelação e a razão, duas testemunhas. Repare na ordem que Saadia descreve: primeiro os profetas trouxeram os mandamentos, confirmados por sinais, e o povo os cumpriu de imediato; só depois a razão veio confirmar que eles eram, de fato, exigidos. Revelação e razão não competem: são duas testemunhas da mesma verdade. A primeira chega a todos e dá forma precisa; a segunda mostra, a quem investiga, que aquilo era certo desde sempre.
2

Convém que eu explique o que a razão exige nesta matéria. A razão obriga a retribuir todo aquele que faz o bem — com um benefício, se dele precisa; ou com reconhecimento, se não precisa de recompensa. E, sendo isto um dos deveres da razão, não seria justo que o Criador, bendito seja, o omitisse a seu próprio respeito; pelo contrário, teve de ordenar às suas criaturas que O servissem e Lhe agradecessem, por as ter criado.

וראוי שאבאר ממה שמחייב אותו העיון לענין הזה דברים וענינים, ואומר: כי השכל מחייב להקביל כל מטיב אם בהטבה, אם הוא צריך אליה, אם בהורות, אם אינו צריך לגמול. וכאשר היה זה מחיובי השכל, לא היה נכון שיעזבהו הבורא יתברך בעניני עצמו, אבל התחייב לצוות ברואיו בעבודתו והודות לו, בעבור שבראם.
3

A razão obriga ainda a que o Sábio o Criador não permita que O insultem nem O amaldiçoem; e por isso teve de proibir os seus servos de fazê-lo. A razão obriga ainda a que as criaturas sejam impedidas de pecar umas contra as outras, em todo gênero de pecado; e por isso teve de não lho permitir. E a razão aprova ainda que o Sábio ponha um trabalhador a uma tarefa e lhe dê a sua recompensa por ela — só para o conduzir ao proveito —, pois isto é o que aproveita ao que trabalha, e em nada prejudica quem o emprega.

והשכל מחייב עוד, שהחכם לא יתיר לגדפו ולקללו. והתחייב עוד, למנוע הבורא עבדיו מזה להקביל בו. והשכל מחייב עוד, שימנע הברואים לחטא קצתם לקצתם, בכל מיני החטאים. והתחייב עוד, שלא יתיר להם החכם זה. והשכל מכשיר עוד, שיטריח החכם עושה בדבר מהדברים, ויתן לו שכרו עליו, בעבור שיגיעהו אל התועלת בלבד, מפני שהיה זה ממה שמועיל לעושה, ולא יזיק המטריח.
4

Reunidos estes quatro pontos, as suas linhas gerais são os mandamentos que o nosso D'us nos ordenou. Pois Ele nos obrigou a conhecê-Lo e servi-Lo de coração inteiro, como disse o profeta: "E tu, Salomão, meu filho, conhece o D'us de teu pai e serve-O de coração inteiro e alma disposta" (I Crônicas 28:9). E advertiu-nos a não O afrontar com maldições e insultos — ainda que estes não O prejudiquem, mas porque não é próprio da sabedoria permiti-los —, como disse: "Quem amaldiçoar o seu D'us levará o seu pecado" (Vayikrá 24:15). E não permitiu que uns fizéssemos mal aos outros, nem que nos roubássemos, como disse: "Não furtareis, não negareis, nem mentireis uns aos outros" (Vayikrá 19:11).

וכאשר הקבץ אלו הארבעה ענינים, יהיו כלליהם הם המצות אשר צונו אלהינו. והוא שחייבנו לדעתו ולעבדו בלב שלם, כמו שאמר הנביא (דה"י א' כ"ח ט') ואתה שלמה בני דע את אלהי אביך ועבדהו בלב שלם ובנפש חפצה. ועוד הזהירנו, מהקבילו בקללות ובגדופים, אף על פי שאינם מזיקים אותו, אלא שאין מדרך החכמה להתירם, כאמרו (ויקרא כ"ד ט"ו) איש איש כי יקלל אלהיו ונשא חטאו. ולא התיר לקצתנו להרע לקצתנו, ולחמסם, כמו שאמר (שם י"ט י"א) לא תגנבו ולא תכחשו ולא תשקרו איש בעמיתו.
Nota — as mitsvot da razão (sichliyot). Eis a célebre distinção de Saadia, que se tornaria um eixo da filosofia judaica. Há mandamentos que a própria razão exigiria, mesmo sem a Torá, e Saadia reduz-nos a três pilares: gratidão ao Criador (conhecê-Lo e servi-Lo), reverência (não O afrontar nem associar-Lhe nada) e justiça entre as pessoas (não matar, roubar, mentir; amar o próximo como a si mesmo). Nada disto é arbitrário: a razão "planta no coração" o bem de uns e a torpeza de outros.
5

Estes três pontos — eles e o que a eles se liga — formam a primeira das duas espécies de mandamentos. Ao primeiro (servi-Lo em gratidão) liga-se: render-Lhe homenagem, servi-Lo, estar diante d'Ele, e coisas semelhantes. Ao segundo (não O afrontar): não associar nada a Ele, não jurar falsamente em seu Nome, não O descrever com atributos indignos, e coisas semelhantes. Ao terceiro (não nos fazermos mal): fazer justiça, verdade, retidão e juízo; afastar-se de matar pessoas; a proibição do adultério, do furto, da maledicência; e que o crente ame para o seu próximo o que ama para si mesmo — e tudo o que se inclui nestas portas. E tudo isto está na Escritura.

ואלה השלשה ענינים, הם ומה שנסמך אליהם, הם החלק הראשון משני חלקי המצות, ונסמך אל הראשון מהם, להכנע לו ולעבדו, ולעמוד לפניו, והדומה לזה, והכל בכתב. ונסמך אל השני, שלא ישותף לו, ולא ישבע בשמו לשקר, ושלא יתארהו בתארים המגנים, והדומה לזה, והכל בכלל. ויסמך אל השלישי, עשות המשפט, והאמת והצדק והדין, והרחקה מהרוג המדברים, ואיסור הניאוף, והגנבה, והרכילות, ושיאהב המאמין לאחיו מה שהוא אוהב לנפשו, וכל אשר נכלל באלה השערים, והכל בכתב.
6

E cada uma das coisas que Ele ordenou, plantou na nossa razão a sua bondade; e cada uma das que proibiu, plantou na nossa razão a sua torpeza — como disse a Sabedoria, que é a razão: "pois a minha boca proferirá a verdade, e a impiedade é abominação aos meus lábios" (Mishlei 8:7).

וכל ענין מאלה שמצוה בו, נטע בשכלנו טובתו, וכל ענין מהם שהזהיר ממנו, נטע בשכלנו גנותו, כמו שאמרה החכמה אשר היא השכל (משלי ח' ז') כי אמת יהגה חכי ותועבת שפתי רשע.
7

A segunda espécie são coisas que a razão, por si, não decreta: não são boas em si mesmas nem torpes em si mesmas. Sobre elas o Criador acrescentou-nos mandamento e proibição, para aumentar a nossa recompensa e a nossa felicidade por meio delas — como disse: "Foi do agrado do Senhor, por amor da sua justiça, engrandecer a Torá e torná-la gloriosa" (Yeshayahu 42:21). Assim, o que delas se ordena torna-se bom, e o que se proíbe torna-se torpe, por causa do serviço que há em cumpri-las — e elas acrescentam-se àquele quarto ponto da primeira espécie o do trabalho recompensado. E, ainda assim, é impossível que não tenham, sob reflexão, proveitos parciais e alguma razão, ainda que pequena — assim como a primeira espécie tinha grandes proveitos e uma grande razão.

והחלק השני דברים אין השכל גוזר אותם, שהם טובים לעצמם ולא מגונים לעצמם, הוסיף לנו הבורא עליהם צווי והזהרה, להרבות גמולנו והצלחתנו עליהם, כמו שאמר (ישעי' מ"ב כ"א) י"י חפץ למען צדקו יגדיל תורה ויאדיר. והיה המצווה בו מהם טוב, והמוזהר ממנו מהם מגונה, למקום העבודה בהם, והוספו בענין השני בחלק הראשון ועם זה אי אפשר שלא יהיה להם עם ההסתכלות, תועלות חלקיות, ועלילה מעטה מדרך המושכל, כאשר היה לחלק הראשון תועלות גדולות ועלילה גדולה מדרך המושכל:
Nota — as mitsvot da revelação (shimiyot) e a ponte para o Rambam. A segunda espécie são os mandamentos "ouvidos" — neutros à razão nua (o que a torna boa ou má é o próprio ato de obedecer). Mas Saadia faz uma ressalva decisiva: mesmo estes "não podem deixar de ter proveitos parciais e alguma razão". Não há, na Torá, ordem inteiramente cega. É a semente do que o Rambam desenvolveria séculos depois, ao buscar as razões dos mandamentos (ta'amei ha-mitsvot): tudo o que D'us ordena tem sentido — ainda que nem sempre o alcancemos.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Duas espécies de mandamento

Esta é, talvez, a contribuição mais influente de Saadia ao pensamento judaico: a divisão dos mandamentos em sichliyot (da razão) e shimiyot (da revelação, literalmente "ouvidos"). As primeiras a razão humana descobriria por si — gratidão ao Criador, reverência, justiça entre as pessoas. As segundas — os pormenores do Shabat, as leis de pureza, os detalhes do culto — não se deduzem da razão nua; conhecem-se porque foram reveladas. A genialidade está em mostrar que ambas vêm do mesmo D'us e servem ao mesmo fim.

Se a razão já obriga, para que a revelação?

A pergunta é inevitável, e Saadia já a respondeu na ordem do seu relato: os profetas trouxeram os mandamentos antes de a razão os confirmar. Por quê? Porque a razão, sozinha, é lenta, desigual e imprecisa — nem todos raciocinam bem, e mesmo o sábio não deduziria a medida exata de cada dever. A revelação chega a todos de uma vez, dá forma definida ao que a razão só intui, e confirma-se com sinais. Razão e Torá são, para Saadia, duas testemunhas que dizem o mesmo: uma por dentro, outra por fora.

Nada é arbitrário

O fecho do capítulo é o seu coração racionalista. Mesmo os mandamentos "ouvidos", que a razão não decretaria, "não podem deixar de ter proveitos parciais e alguma razão". Ou seja: não há na Torá ordem inteiramente sem sentido. Saadia abre aqui a porta que o Rambam atravessaria com as suas razões dos mandamentos. Obedecer não é abdicar de pensar — é cumprir o que, cedo ou tarde, a mente reconhece como bom.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado III (O mandamento e a revelação), cap. 1, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público (a versão moderna é protegida por direitos autorais), de modo que se trabalhou diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Devarim 26:16, I Divrei haYamim 28:9, Vayikrá 24:15 e 19:11, Mishlei 8:7 e Yeshayahu 42:21. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado III · O mandamento e a revelação · cap. 2

Por que a razão proíbe — e o sentido oculto das mitsvot

מַאֲמָר שְׁלִישִׁי · ב

Saadia desce ao detalhe: por que a razão proíbe matar, a libertinagem, o furto e a mentira — e por que o bem e o mal não são apenas "o que me agrada". Depois mostra que até os mandamentos "ouvidos" (o Shabat, o sacerdócio, a kashrut, a pureza) guardam um sentido — sem que isso esgote a sabedoria do Criador.

1

Convém tratar primeiro dos mandamentos da razão. Digo: é próprio da sabedoria proibir o derramamento de sangue dos seres racionais, para que isso não se permita e eles não se exterminem uns aos outros. Pois, além da dor que nisso se sente, o homicídio anula o propósito que o Sábio pôs neles, e arranca-os daquilo para que os criou e a que os destinou.

וראוי שאקדם הדברים על המצות השכליות תחלה ואומר: מן החכמה לאסור שפיכות דמי המדברים, שלא יותר זה, ויכלה קצתם את קצתם, ויש בו אחר מה שמרגישים בו מן הצער, בטול הענין שכוון בו החכם, ומכרית אותם ההרג מאשר בראם לו והטריחם בו.
2

É próprio da sabedoria proibir a libertinagem, para que os homens não sejam como os animais — para que cada um conheça o seu pai e o honre em retribuição por o ter criado; para que o pai lhe deixe a herança, como dele herdou o existir; e para que conheça os seus demais parentes — o tio, o irmão da mãe — e lhes faça a bondade que puder.

ומן החכמה לאסור הזנות, שלא יהיו המדברים כבהמות, ולא ידע אחד מהם אביו שיכבדהו גמול שגדלהו, ושיורישהו האב טרפו כאשר ירש ממנו המציאה, ושידע שאר קרוביו מדוד ואחי אם, ויעשה מה שהוא מוצא להם מן החנינה.
3

É próprio da sabedoria proibir o furto. Pois, se fosse permitido, alguns confiariam em roubar os bens dos outros, e não cultivariam o mundo nem ganhariam bens; e, se todos confiassem nisso, o próprio furto acabaria — junto com o fim de toda propriedade —, porque não haveria mais nada que roubar.

ומן החכמה לאסור הגנבה, כי אם תותר, יבטחו קצת בני אדם על גניבת ממון קצתם, ולא יישבו העולם ולא יקנו ממון, אך אם יבטח הכל על זה תבטל הגנבה עוד בבטול הקנינים, מפני שלא ימצא מה שיגנוב כלל.
4

E é próprio da sabedoria, desde o seu princípio, dizer a verdade e abandonar a mentira. Pois a verdade é dizer da coisa como ela é, no seu real estado; e a mentira é dizer da coisa não como ela é. Quando o sentido a percebe numa certa condição, e a alma declara o contrário, numa condição diferente, os dois estados encontram-se na alma e chocam-se — e percebe-se o absurdo, pela impossibilidade de uma coisa ser o que não é.

ומן החכמה אך מראשיתה, דבר צדק ועזוב הכזב, כי הצדק הוא האמירה על הדבר כאשר הוא ובענינו, והכזב הוא האמירה על הדבר לא כאשר הוא, ולא בענינו, וכאשר יפול החוש עליו, וימצאנו בתכונה מהתכונות, והליץ עליו הנפש בהפך בתכונת זולתה, מקבילות שני התכונות בנפש ומתהפכות, ותשער מהמנעם בדבר נכרי.
Nota — as quatro raízes da razão. Saadia mostra que cada proibição "racional" defende um bem real: o homicídio anula o próprio fim para que o homem foi criado; a libertinagem destrói a família — sem pai conhecido não há gratidão, herança nem parentesco; o furto, generalizado, aniquila a riqueza de que vive; e a mentira contradiz a própria realidade. Não são tabus arbitrários: são as condições de qualquer vida humana em comum.
5

Disse depois: vi, entre os homens, quem sustente que estas quatro raízes não são em si repugnantes — que repugnante, para ele, é só o que o aflige e o inquieta, e bom é o que lhe é doce e o sossega isto é, o bem e o mal seriam apenas prazer e dor. Tenho a isto uma resposta ampla no Tratado IV, no capítulo sobre a justiça; mas mencionarei aqui parte dela, e digo: quem assim pensa já abandonou tudo o que aqui trouxe como prova — e quem abandona isto é um tolo, e o seu fardo já não nos pesa.

ואחר כן אומר שראיתי מבני אדם, מי שסובר, כי אלה ד' השרשים המוזרים, אינם מוזרים, אבל המוזר אצלו, מה שיצעדהו. וידאיגהו, והטוב אצלו מה שיערב לו וירגיעהו. ולי על הדברים האלה תשובה רחבה במאמר הד' בשער הצדק. אך אזכור ממנה הנה קצת ואומר, כי מי שחושב זה, כבר עזב כל מה שהבאתיו לראיה הנה, ומי שעזב זה הוא סכל, והסתלק טרחו מעלינו.
6

E, ainda assim, não descansarei sem desenvolver o argumento da inversão e da contradição. Digo: matar o inimigo é doce para quem mata e doloroso para o morto; tomar os bens e as mulheres casadas é doce para quem toma e doloroso para quem é despojado. Por esse modo de pensar, cada um desses atos teria de ser, ao mesmo tempo, sabedoria e tolice: sabedoria, por ser doce ao ladrão, ao assassino, ao libertino; e tolice, por afligir a sua vítima. Ora, toda doutrina que leva à inversão e à contradição é falsa. Seria como o mel em que caiu um pouco de veneno: quem o come acha-o doce — e mortal —, e seríamos forçados a dizer que a mesma coisa é, a um só tempo, sabedoria e tolice o que é impossível.

ועם זה לא אנוח עד שארחיבהו ההתהפכות וההמנע, ואומר: כי הריגת השונא מה שיערב להורג, ויצער ההרוג, ולקיחת הממון והנשים הנשואות, ממה שיערב ללוקח, ויצער ללקוח ממנו. ועל המחשבה הזאת יתחייב להיות כל פועל מאלו השנים חכמה וסכלות יחד. חכמה, מפני שיערב לגנב ולהורג ולזונה, וסכלות, מפני שהוא מצער בעל דינו. וכל דעת שמביאה אל ההתהפכות ועל ההמנע הוא שקר; אך יתקבץ עליהם ההפך הזה, באיש א', בדבש שנפל בו מעט ארס אכלו והוא ערב והורג, ומתחייבים שתהיה חכמה וסכלות יחד.
Nota — contra "o bem é o que me agrada". Eis um argumento filosófico de notável rigor. Se o bem e o mal fossem apenas prazer e dor subjetivos, então o mesmo ato — matar, roubar — seria bom (para quem o faz) e mau (para a vítima) ao mesmo tempo. Mas uma coisa não pode ser, a um só tempo, sabedoria e tolice: é uma contradição. Logo, o subjetivismo moral é falso, e o bem e o mal têm um fundamento objetivo, que a razão reconhece.
7

Passo agora à segunda espécie — a que a razão deixa permitida, e da qual a Torá ordenou uma parte, proibiu outra, e deixou o resto permitido como estava: como santificar um dia entre os dias (os shabatot e as festas); santificar um homem entre os demais (o sacerdote e o profeta); abster-se de comer certos alimentos e de unir-se a certas pessoas; e a separação, logo após certas ocorrências, por causa da impureza. Estas raízes, e o que delas deriva — embora a grande razão do seu cumprimento seja a ordem do nosso D'us e o bem a que Ele nos conduz —, eu encontro, para a maioria delas, razões parciais e úteis; vou mencionar algumas. E a sabedoria do Criador está acima de tudo.

אחר כן אומר בחלק הב' אשר הוא מותר בשכל, והתורה צותה בקצתו ואסרה קצתו, והניחה השאר מותר כמו שהוא, כמו קדוש יום בין ימים, כשבתות ומועדים, וקדוש איש משאר בני אדם, ככהן והנביא. וההמנע מאכול קצת המאכלים, ומשכב קצת בני אדם, והפרישות תכף לקצת המקרים בעבור הטומאה. ואלה השרשים ומה שיולד מהם, ומה שיצטרף אליהם, אף על פי שהעלה הגדולה בקיומם מצות אלהינו, והבאתנו אל התועלת, אני מוצא לרובם עלות חלקיות מועילות, ואני רואה לזכור קצתם ולדבר עליהם, וחכמת הבורא למעלה מהכל.
8

Da utilidade de santificar uma parte do tempo: primeiro, ao deixar o trabalho, alcançar o descanso de muita fadiga; alcançar alguma sabedoria; uma parte acrescentada de oração; e os homens voltam-se para o encontro uns dos outros ao reunir-se, e conversam sobre os assuntos da sua Torá e os proclamam, e coisas semelhantes. Da utilidade de santificar um homem o sacerdote, o profeta: receber dele mais sabedoria, interceder por todos, e tornar amável às pessoas o caminho reto, para que cheguem a graus elevados; e que ele se esforce por endireitar os homens, já que é digno disso.

ואומר: כי מתועלת קדוש קצת הזמן, תחלה בעזיבת המעשים בו, להגיע אל המנוחה מרב היגיעה, ולהגיע אל קצת החכמה, וחלק מן התוספת בתפלה, ויפנו בני אדם לפגיעת קצתם את קצתם בהתקבצם, וידברו בעניני תורתם ויכריזו בהם, וכל הדומה לזה. ומתועלת קדוש איש מיוחד, לקבל ממנו החכמה יותר, ולהפגיע בעדם, ולחבב לבני אדם הדרך הישרה; כדי שיגיעו אל מעלות, ושישתדל להישיר בני אדם כיון שהוא ראוי לכך, ומה שדומה לזה.
9

Da utilidade de proibir o consumo de certos animais: para que não se os compare ao Criador, e para que o homem não adore nenhum deles — pois não se adora aquilo que foi posto como alimento, nem o que foi posto como impuro. Da utilidade de afastar a união com certas mulheres: a casada, como já dissemos; mas, quanto às da própria família, a necessidade obriga a conviver de perto com elas, e, se a união fosse permitida, surgiria no coração a tentação; a proibição faz ainda que não se deseje apenas a forma bela entre os parentes, nem se despreze a que não é bela, ao ver que os parentes não a querem. Da utilidade da impureza e da pureza: que o homem se humilhe em si e na sua carne; que a oração se torne preciosa aos seus olhos, depois de dela se afastar alguns dias; que o santo e o Templo se tornem preciosos, depois de deles ser privado alguns dias; e que volte o coração ao temor do Céu. E, deste modo, quem investiga a maioria destes mandamentos da revelação encontra neles muitos ramos de razão e de proveito — e a sabedoria do Criador, no seu saber, está acima de tudo o que os homens podem alcançar, como está dito: "porque, assim como os céus são mais altos que a terra, assim os meus caminhos são mais altos que os vossos caminhos" (Yeshayahu 55:9).

ומתועלות אסור אכילת קצת בעלי חיים, שלא ידמוהו לבורא, כי לא יתכן שיחייב לאכול מה שהוא דומה לו, ולא לטמאו, ושלא יעבוד האדם מאומה מהם, כי לא יתכן לעבוד מה שהושם לו למאכל, ולא מה שהושם אצלו טמא. ומתועלת הרחקת שכיבת קצת הנשים, אשת איש כאשר הקדמנו, אבל האב והאחים הצורך מביא להתיחד עמם, ובהתרת נשואיהם, היה עולה על לבם לזנות עמם, ושלא יתאוו לצורה היפה מקרוביהם, ושלא ימאסו צורה שאיננה יפה, כשיראו קרוביהם אינם חפצים בה. ומתועלות הטומאה והטהרה, שיכנע האדם מעצמו ומבשרו, ושתיקר בעיניו התפלה, אחר שפסק ממנה ימים, ושייקר בעיניו הקדש והמקדש, אחר שנמנע ממנו ימים, ושישיב לבו ליראת שמים. ועל זה הדמיון כאשר יחקרו רוב המצות האלה השמעיות ימצא להם מן סעיפי העלילה ותועלותיה, דברים רבים, וחכמת הבורא בדעתו למעלה מכל מה שישיגוהו המדברים, כמו שאמר (ישעיה נ"ה ט') כי גבהו שמים מארץ כן גבהו דרכי מדרכיכם:
Nota — os sentidos das mitsvot (ta'amei ha-mitzvot). Mesmo nos mandamentos "ouvidos", que a razão não decretaria sozinha, Saadia procura um sentido: o Shabat dá descanso, estudo e reunião; o sacerdócio e a profecia, mestres e modelos; a kashrut afasta a idolatria dos animais; as proibições de incesto protegem a convivência familiar; a pureza renova a reverência. É a semente que o Rambam colheria no Guia dos Perplexos. Mas note o equilíbrio: há razões — e, ainda assim, "a sabedoria do Criador está acima de tudo". Buscar o sentido não é exigir esgotá-lo.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Por que a razão proíbe matar, roubar e mentir

No capítulo anterior, Saadia dividiu os mandamentos em racionais e revelados. Aqui mostra como a razão chega aos primeiros. Cada proibição protege uma condição da vida em comum: matar destrói o fim da criação; a libertinagem dissolve a família e o vínculo entre as gerações; o roubo, se geral, aniquilaria a própria propriedade; a mentira nega a realidade. A moral, para Saadia, não é convenção — é a leitura, pela razão, daquilo que sustenta a existência humana.

O argumento contra "o bem é o que me agrada"

O coração filosófico do capítulo é a refutação do subjetivismo moral. Há quem diga: bom é o que me dá prazer, mau é o que me dói. Saadia responde com uma prova por absurdo: se assim fosse, o mesmo assassinato seria bom para o assassino e mau para a vítima — a mesma coisa, sabedoria e tolice ao mesmo tempo. Como isso é uma contradição, o subjetivismo é falso. O bem e o mal têm de ser objetivos — e é por isso que a razão pode, de fato, descobri-los.

O sentido das mitsvot — e os limites do nosso saber

Na segunda metade, Saadia faz algo ousado para o seu tempo: procura razões para os mandamentos que a razão não decretaria — o Shabat, a kashrut, a pureza. Encontra-as, uma a uma. É o programa que o Rambam desenvolveria séculos depois, no Guia dos Perplexos: nada na Torá é cego. Mas Saadia guarda a humildade necessária — "a sabedoria do Criador está acima de tudo o que os homens podem alcançar". Procurar o porquê das mitsvot é um dever da razão; supor que o esgotamos seria orgulho.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado III (O mandamento e a revelação), cap. 2, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público (a versão moderna é protegida por direitos autorais), de modo que se trabalhou diretamente sobre o hebraico. A citação final remete a Yeshayahu 55:9; o tema da "justiça" anunciado é retomado no Tratado IV. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado III · O mandamento e a revelação · cap. 3

Por que precisamos dos profetas: a razão dá o princípio, a revelação dá a forma

מַאֲמָר שְׁלִישִׁי · ג

Se a razão já descobre que devemos agradecer a D'us, não cometer libertinagem, respeitar a propriedade e reparar os danos — para que servem os profetas? Saadia responde: a razão dá o princípio, mas não a medida. Sem uma revelação que fixe a forma exata, jamais concordaríamos — e nada se cumpriria.

1

Tendo enunciado este princípio sobre as duas espécies de mandamento — os da razão e os da revelação —, convém explicar que necessidade houve de mensageiros e profetas. Pois ouvi que há quem diga que os homens não precisam de profetas, e que os seus intelectos lhes bastam para guiá-los no que há de bom e de mau. Voltei-me, então, à pedra de toque da verdade, e nela vi: se a coisa fosse como dizem, o Criador — que o sabe melhor do que eles — não teria enviado mensageiros, pois Ele nada faz sem propósito.

וכיון שאמרתי זה הכלל בשני חלקי המצות, והם השכליות והשמעיות, ראוי שאבאר מה היה הצורך לשלוחים ולנביאים. כי שמעתי כי יש אנשי שאומרים כי אין לבני אדם צורך לנביאים, וששכליהם מספיקים להם להישירם במה שיש בהם מן הטוב ומן הרע. ושבתי אל מבחן האמת וראיתי בו, שאם היה הדבר כמו שאמרו, הבורא יודע בו יותר מהם ולא היה שולח שלוחים, כי איננו פועל מה שאין לו ענין.
2

Depois, examinei melhor a questão, e achei que a necessidade que as criaturas têm dos mensageiros é uma grande necessidade — e não só por causa dos mandamentos da revelação, para dá-los a conhecer, mas também por causa dos mandamentos da razão: pois a sua prática não se completa senão por mensageiros, que firmam os homens sobre eles.

ואחר כך הסתכלתי בענין, ומצאתי צורך הברואים אל השלוחים צורך גדול, לא מפני המצות השמעיות בלבד, להודיע אותם, אך מפני המצות השכליות, כי המעשה בהם לא ישלם כי אם בשלוחים, שיעמידו בני אדם עליהם.
Nota — por que a razão, sozinha, não basta. Eis a virada do capítulo, e ela é subtil: Saadia concede que a razão descobre os deveres morais — mas observa que a razão dá apenas o princípio, não a prática. Saber que se deve agradecer a D'us não diz como rezar; saber que o roubo é mau não define como se adquire um bem. A prática "não se completa senão por mensageiros". Seguem-se quatro exemplos — a oração, o casamento, a propriedade e os danos.
3

Vejamos: a razão julga que se deve agradecer a D'us pela sua bondade — mas não fixou limite a esse agradecimento: nem a fórmula, nem o tempo, nem a forma; e por isso foram precisos mensageiros. Eles deram-lhe um limite, e chamaram-no oração; e fixaram-lhe horas, fórmulas próprias, uma forma própria e uma direção própria.

ומזה שהשכל דן בהודאה לאל על טובתו, ולא שם גבול להודאה ההיא, לא ממאמר מזמן ותכונה, והצטרכו לשלוחים. ושמו לו גבול, וקראוהו תפלה. ושמו לו עתים ומאמרים מיוחדים ותכונה מיוחדת ומגמה מיוחדה.
4

A razão afastou a libertinagem — mas sem fixar como a mulher se une a um homem, até tornar-se sua esposa. Seria por palavra apenas? Por dinheiro apenas? Pela vontade do pai apenas? Pelo testemunho de dois, ou de dez? Pela reunião dos habitantes da cidade? Por um sinal que se marque sobre ela? Vieram os profetas e disseram: por mohar (a aliança matrimonial), por documento e por testemunhas.

ומזה שהשכל הרחיק הנאוף, באין בו גבול מושם, היך תהיה האשה נקנית לאיש, עד שתשוב כאשת איש. היהיה זה בדבור בלבד, או בממון בלבד, או ברצון אביה בלבד, או בעדות שנים, או עשרה, או בקבוץ אנשי העיר בזה, או בסימן שיסמנו עליה, שירשמוה ברושם. ובאו הנביאים ואמרו: במהר ושטר ועדות.
5

A razão afasta o furto — mas nela não há como saber como um bem passa a ser propriedade de alguém: se o adquire pelo trabalho, pelo comércio, pela herança, ou tomando o que não tem dono (como a caça do campo e do mar); e se a compra se confirma ao pagar o dinheiro, ou ao tomar posse da mercadoria, ou só pela palavra — e as demais dúvidas que caem nesta categoria, que é longa e larga. E os profetas vieram dar, em todo o resto, uma decisão definitiva.

ומזה כי השכל מרחיק הגנבה, ואין בו איך יהיה הממון ברשות האדם, עד שיהיה קונהו מדרך המלאכה, או מדרך הסחורה, או מדרך הירושה, או מדרך ההפקר, כמו ציד הבר והים, או בתת הדמים יתקיים המקח, או בתפישו המקח, או בדבור בלבד, ושאר מה שיפול בשער הזה מן הספקות שהיא ארוך ורחב. ובאו הנביאים בכל שאר מהם בדין פוסק.
6

Do mesmo modo, a avaliação dos danos: a razão entende que se deve medir o dano, mas não fixou limite à sua medida — se bastaria uma repreensão apenas, ou com uma censura junto, ou também com açoites; e, se com açoites, qual a sua medida; e o mesmo quanto à censura; ou se só bastaria punir tirando-lhe a vida; e se a pena de todo aquele que causa dano é igual, ou se uns casos não se assemelham aos outros. Os profetas fixaram, para cada caso, um pagamento conhecido; combinaram uns com outros em certas matérias, e estabeleceram para alguns uma indenização em dinheiro.

ומזה הערכת החבלות, כי השכל רואה לשער הנזק, ולא שם לשעורו גבול; אם בתוכחה בלבד, או בקללה עמה, או בהלקאה גם כן. ואם היה בהלקאות, כמו שיעורו, וכן הקללה והתוכחות, או שלא יספיקו ממנו כי אם בהמיתו, ואם עונש כל מזיק אחד, או קצתם אינו דומה לקצתם. ושמו הנביאים לכל אחד מהם תשלום ידוע, ושתפו קצתם עם קצתם בענינים, ושמו לקצתם תשלום ממון.
Nota — o princípio e a medida. Nos quatro casos, o padrão é o mesmo: a razão impõe o dever (agradecer, casar e não libertinar, respeitar a propriedade, reparar o dano), mas deixa em aberto a medida e o procedimento. Os profetas vêm preencher exatamente essa lacuna — a oração com as suas horas e fórmulas; o casamento com mohar, contrato e testemunhas; a propriedade com as suas formas de aquisição; os danos com penas fixas. É, em germe, todo o sistema da halachá: a Lei dá forma determinada e partilhada àquilo que a razão só sabe em geral.
7

Por causa destas coisas que relatamos, e de outras semelhantes, precisamos da missão dos profetas. Pois, se fôssemos deixados ao nosso próprio juízo, divergiríamos nas nossas opiniões e não concordaríamos em coisa alguma — e ainda precisamos deles por causa dos mandamentos da revelação, como expliquei.

ובעבור אלה הדברים אשר ספרנו, והדומה להם, הוצרכנו לשליחות הנביאים, כי אם היינו מונחים לעצתנו, היינו חולקים בדעותינו, ולא היינו מסכימים על דבר, ועוד בעבור השמעיות כאשר בארתי:

Sobre esta seção · עִיּוּן

Será que a razão basta?

Saadia enfrenta uma objeção que soa muito moderna: "se a razão já distingue o bem do mal, para que profetas?". A sua primeira resposta é elegante e quase irônica — se a razão bastasse, D'us, que o saberia melhor do que nós, não teria enviado mensageiros, pois "nada faz sem propósito". O próprio facto da revelação é um indício de que algo, na razão sozinha, ficava por completar.

A razão dá o princípio; a revelação dá a medida

O argumento central é uma distinção precisa: a razão fornece o dever, mas não a sua forma determinada. Sei que devo agradecer ao Criador — mas quando, com que palavras, voltado para onde? Sei que o roubo é mau — mas como, exatamente, algo passa a ser meu? Sei que o dano deve ser reparado — mas com que pena? A razão cala-se nos detalhes. E é precisamente aí que entram os profetas: a oração, o casamento (com mohar, contrato e testemunhas), as leis de aquisição, as indenizações. O princípio é da razão; a medida é da Torá.

Sem uma autoridade comum, ninguém concordaria

O fecho guarda o argumento mais profundo: "se fôssemos deixados ao nosso próprio juízo, divergiríamos e não concordaríamos em coisa alguma". A razão individual, sozinha, produz tantas opiniões quantas as cabeças — e uma sociedade não pode viver de princípios sem forma partilhada. A revelação não substitui a razão: dá-lhe um corpo comum, uma Lei em que todos possam convergir. É o fundamento de por que existe uma halachá, e não apenas boas intenções.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado III (O mandamento e a revelação), cap. 3, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público (a versão moderna é protegida por direitos autorais), de modo que se trabalhou diretamente sobre o hebraico. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado III · O mandamento e a revelação · cap. 4

Como se prova um profeta: o sinal — e por que ele continua humano

מַאֲמָר שְׁלִישִׁי · ד

Como saber se um profeta é verdadeiro? Pelo sinal que só D'us pode dar — uma quebra da natureza. Mas Saadia acrescenta uma ideia genial: D'us só altera a natureza com um propósito e avisando antes, para não arruinar a confiança no mundo. E o profeta é mantido inteiramente humano — mortal, faminto, vulnerável — para que o milagre aponte para D'us, e não para ele.

1

Tendo explicado que necessidade trouxe a missão dos profetas, convém mostrar agora como essa missão se confirmava diante dos homens. Digo: os homens sabem, pela sua própria fraqueza, que não conseguem forçar as naturezas nem transformar as substâncias — não têm poder para tal, pois isso é obra do seu Criador. Foi Ele que forçou as naturezas opostas e as criou unidas, embora a tendência delas seja fugir umas das outras; mudou a essência dos seus componentes separados até que se tornassem um só — de modo que neles já não se vê um elemento puro, mas surge outra coisa: um ser humano, uma planta, e corpos semelhantes. E é por isso que um feito que desafia as naturezas é, para eles, sinal da obra do Criador.

וכיון שבארתי: איך הביאה צורך לשליחות הנביאים, ראוי שאסמיך לזה איך התקיימה להם השליחות אצל בני אדם. ואומר: בעבור שהיו בני אדם יודעים בכחש ויכלתם, שהם אינם יכולים להכריח הטבעים, ולא להפך העצמים, אך הם נלאים מעשות זה, כי זה מעשה בוראם, שהכריח הטבעים הנחלקים, ובראם מחוברים, ויהיה ענינם לברוח זה מזה, ושנה עצמי נפרדיהם, עד ששבו מחוברים, לא יראה מהם עצם גמור, אבל נראה דבר אחר, זולת העצמים האלה המתבודדים; רוצה לומר: אדם או צמח, והדומה לזה מהגשמים, מתחייב להיות זה אצלם סימן מעשה הבורא.
2

E todo profeta que o Criador, bendito seja, escolhe para a sua missão recebe d'Ele um destes sinais: ou uma quebra da natureza — como impedir o fogo de queimar, deter um rio para que não corra, parar a esfera celeste no seu curso, e coisas assim —, ou uma transformação — como o vivo tornar-se inerte, e o inerte vivo; a água, sangue, e o sangue, água.

וכל נביא שיבחרהו הבורא יתברך לשליחותו, נותן לו אות מאלה האותות; אם הכרח טבע, כמו מניעת האש משרוף, ועצירת הנהר שלא יעבור, והעמיד הגלגל מהליכתו, והדומה לזה או הפוך עין, כאשר נהפך החי דומם, והדומם חי, והמים דם, והדם מים.
3

E, quando lhe é dado esse sinal, todo homem que o vê fica obrigado a reconhecê-lo e a crer no que ele disser — pois o Sábio não lhe daria um sinal a não ser que ele já fosse, diante d'Ele, digno de confiança. E isto, ainda que evidente à razão, está também escrito nos livros, como sabes do caso de Moshé, o nosso mestre, e dos sinais plenos que lhe foram dados — que não preciso recordar aqui, pois estão explicados no livro de Shemot e noutros. Como ele disse ao seu povo: "as grandes provas que os teus olhos viram" (Devarim 7:19). E os que nele creram foram os justos, como está dito: "e fez os sinais aos olhos do povo, e o povo creu" (Shemot 4:30); e os que não creram foram os que erram.

וכאשר ינתן לו אות הזה, יתחייב הרואה אותם מבני אדם להקדישו, ולהאמין בו במה שיאמר להם, כי החכם לא נתן לו אות, עד שהיה נאמן אצלו. וזה הענין אף על פי שהוא בשכל, הוא כתוב בספרים, כאשר ידעת מדבר משה רבינו, והאותות המלאים אשר נתנו לו, מה שאינני צריך לזכרם הנה. וכאשר הם מבוארים בספר ואלה שמות וזולתו ופרושם. וכמו שאמר לעמו (דברים ז' י"ט) המסות הגדולות אשר ראו עיניך. ומי שהאמין בו מבני אדם, הם הצדיקים, כאשר אמר (שמות ד' ל') ויעש האותות לעיני העם ויאמן העם. ומי שלא האמין הם התועים; וכאשר נודע מענין מי שנאמר בו: כי לא האמינו באלהים.
Nota — o sinal que só D'us pode dar. A lógica de Saadia é limpa: um sinal só autentica um profeta se for algo que nenhum ser humano consegue fazer — quebrar a natureza (o fogo que não queima) ou transformar substâncias (a água em sangue). Como esse poder é exclusivo do Criador, quem testemunha o sinal sabe que o profeta foi enviado por Ele. E o argumento, embora puramente racional, coincide com a Escritura: foram os sinais de Moshé que levaram o povo a crer (Shemot 4:30).
4

E preciso dizer aqui algo com que se preservam as verdades: o Criador, bendito seja, não inverte coisa alguma da natureza senão depois de avisar os homens de que está prestes a fazê-lo — e isso com o propósito de levá-los a crer nas profecias; mas, sem um propósito, não altera nada. Pois, se pensássemos o contrário, as verdades arruinar-se-iam para nós: cada um de nós, ao voltar para casa e para a sua família, não teria como confiar que o Criador não transformara os seus em outra coisa; e o mesmo valeria para confiar num testemunho ou num juízo. Por isso devemos crer que os seres permanecem como são, e que o seu Criador não os muda senão depois de um profeta o anunciar.

ואני צריך לאמר הנה דבר אשמור בו האמתות, והוא, שהבורא יתברך, איננו הופך עין, עד אשר יודיע לבני אדם שהוא עתיד להפכם, והעלה בזה להאמין בנבואות, אבל בלתי עלה אינו הופך מאומה מן העינים. כי אם היינו חושבים זה, היו האמתות נפסדות לנו, והיה כל אחד ממנו, כאשר ישוב אל ביתו ואל בני ביתו, לא יהיה בטיוח, שלא יהפוך עיניהם הבורא, ושיהיו זולת מה שעזבו. וכן בשיעור על אדם בעדות, או דן בדין, אבל צריך שנאמין כי הנמצאות על תכונתם. לא ישנה אותם בוראם כי אם אחר שיעיד עליהם.
Nota — o milagre que protege a razão. Eis a tese mais brilhante do capítulo, e profundamente racionalista. Se D'us alterasse a natureza a todo momento, ao acaso, a confiança no mundo desabaria — ninguém poderia fiar-se de um testemunho, de um juízo, nem mesmo de reencontrar a própria família. Por isso o milagre é, para Saadia, raro, proposital e anunciado de antemão: a exceção existe justamente para autenticar a profecia, e nunca por capricho. A regra geral é firme — "os seres permanecem como são". O milagre não derruba a ordem natural: confirma-a, ao ser a sua única e rara exceção.
5

Digo ainda que não seria sábio que os mensageiros aos homens fossem anjos. Pois os homens não conhecem a medida do poder dos anjos — o que podem e o que não podem —; e, se os anjos viessem com sinais plenos, os homens poderiam pensar que tal é, simplesmente, a natureza dos anjos, e não se certificariam de que aquele sinal vinha do Criador. Mas, sendo os mensageiros seres humanos como nós, e fazendo o que nós somos incapazes de fazer — o que só é obra do Criador —, a sua missão fica confirmada pela sua palavra.

ואומר עוד שלא יתכן בחכמה, שיהיו השלוחים לבני אדם מלאכים, מפני שבני אדם אינם יודעים שיעור כח המלאכים, במה שיוכלו, ולא במה שילאו ממנו, וכאשר יבואו באותות מלאים, יש לבני אדם לחשוב שכל המלאכים כן טבעם, ולא יתאמת אצלם שהאות ההוא מאת הבורא. אך השלוחים כשיהיו בני אדם כמונו, ונמצאת עושים מה שנלאה מעשותות, ומה שאיננו כי אם ממעשה הבורא, תתאמת להם השליחות במאמרו.
6

Digo ainda que, por essa mesma razão, o Criador igualou os profetas aos demais homens na morte: para que não se pensasse que, assim como supostamente poderiam viver para sempre, fora do comum, também poderiam fazer os sinais por si, fora do comum. Por isso não os dispensou de comer e de beber, nem os impediu da união conjugal — para que não caísse dúvida sobre os seus sinais, e os homens não supusessem que tal abstenção era da sua natureza, e que, assim, também os sinais o eram.

ואומר עוד כי בעבור העלה הזאת, השוה בין הנביאים ובין שאר בני אדם במות, שלא יחשבו בני אדם, כי כאשר יכולים לחיות לעולם שלא כדרכם, הם כן יכולים לעשות האותות המלאים, שלא כדרכם הם. ועל כן לא הספיק להם מבלעדי אכילה ושתיה, ולא מנעם מן הזווג, כדי שלא יפול הספק באותותם, ויסברו בני אדם שהמניעה ההיא מטבעם, וכאשר נתקנה להם, נתקנו להם גם כן האותות.
7

Por isso, também, não lhes prometeu saúde perpétua do corpo, nem muitas riquezas, nem filhos, nem o livramento da violência de um agressor — fosse por golpes, por afrontas ou por morte. Pois, se o tivesse feito, os homens poderiam atribuir isso à sua especial natureza, pondo-os fora da categoria dos demais homens, e dizer: assim como diferem nisto, também devem poder, por si, fazer o que os outros não podem. E digo — e a sua sabedoria está acima de toda palavra —: Ele deixou-os, em tudo, como os demais homens, e distinguiu-os apenas por lhes dar poder sobre o que os outros não podem, para confirmar o profeta e fazer crer na sua missão.

ועל כן עוד לא הבטיחם בבריאות הגוף התמידה, ולא בממון הרבה, ולא בבנים, ולא ההצלה מחמס חומס, בין במכות, או בחרפות, בין בהריגה, כי אם היה עושה זה, היה אפשר שייחסו בני אדם הענין ההוא אל טבעם, שיצאו בו מגדר שאר בני אדם, ויאמרו: כאשר יתחייב יציאתם בענין הזה, כן התחייב שיוכלו על מה שנלאה ממנו. ואומר: בחכמתו נעלה על כל מאמר, כי עזבם בכל עניניהם כשאר בני אדם, והוציאם מכללם שנתן להם יכולת, על מה שנלאים ממנו שאר בני אדם, שיאמת אותו ותאמן שליחותו.
8

E digo: por isso, também, não os fez realizar sinais continuamente — para que o povo não pensasse que havia neles uma natureza especial que a isso obrigasse —, mas fez com que os realizassem de tempos a tempos, num momento e não noutro; e assim ficou claro que o sinal lhes vem do lado do Criador, e não de si mesmos. Louvado e bendito seja o Sábio.

ואומר: בעבור זה עוד לא שמם עושים האותות תמיד, שלא יחשבו המון העם, שיש בהם טבע מיוחד מחייב זה, אבל שם אותם עושים זה בעת מן העתים, וידעו זה עת מבלעדי עת, ויתבאר בזה שהוא בא אליהם מצד הבורא, ולא מעצמם, ישתבח החכם ויתברך:
Nota — por que o profeta continua humano. Aqui está o coração racionalista do capítulo. D'us mantém o profeta inteiramente humano — mortal, com fome e sede, casado, vulnerável à doença e à violência — de propósito: se o profeta fosse imortal ou invulnerável, as pessoas atribuiriam os seus milagres à sua própria natureza, e não a D'us. E os sinais são ocasionais, não constantes, pela mesma razão. O profeta não é um semideus: é um mensageiro humano, e o milagre aponta sempre para Quem o envia. É a mesma intuição que o Rambam tornaria princípio de fé — a profecia eleva o homem, mas não o diviniza.
9

E o que me levou a mencionar tudo isto foi ver homens que arruinaram o seu pensamento ao especular sobre estas coisas: uns disseram "tenho por impossível que o profeta morra como os demais"; outros, que tenha fome e sede; outros, que se una e gere filhos; outros, que sobre ele recaiam a violência e a injustiça; outros, que algo dos seres lhe fique oculto. E achei que tudo o que disseram é falsidade e injustiça. Pelo contrário, confirmou-se-me que a sabedoria com que o Criador agiu a respeito dos seus mensageiros é semelhante a todas as suas obras, como está dito: "pois reta é a palavra do Senhor, e toda a sua obra é feita com fidelidade" (Tehillim 33:4). "Mas eles não conheceram os pensamentos do Senhor, nem entenderam o seu conselho" (Michá 4:12).

ואשר הביאני לזכור כל אלה הדברים הנה, שראיתי אנשים הפסידו אותם מחשבותם, כאשר חשבו בדברים האלה, וקצתם אמר: הרחקתי שימות הנביא כשאר האדם, וקצתם שהרחיק שירעב ויצמא, וקצתם הרחיק שישגל ויוליד, וקצתם הרחיק שיעבור עליו החמס והעול, וקצתם הרחיק שיעלם ממנו דבר מן הנמצאות. ומצאתי כל מה שהזכירו און ועול. אך התאמת לי שהחכמה במה שעשה הבורא בענין שלוחיו. היא דומה לשאר מעשיו, כמו שאמר (תהלים ל"ג ד') כי ישר דבר י"י וכל מעשהו באמונה. והמה לא ידעו מחשבות י"י ולא הבינו עצתו (מיכה ד' י"ב):

Sobre esta seção · עִיּוּן

O que prova um profeta

Saadia oferece um critério público e verificável: o profeta autêntico realiza um sinal que excede o poder humano — quebrar a natureza ou transformar substâncias. Como só o Criador pode fazê-lo, o sinal é, de fato, a Sua assinatura, e quem o vê fica obrigado a crer. E o filósofo nota que a razão e a Escritura dizem aqui o mesmo: foram os sinais de Moshé, "aos olhos do povo", que fundaram a fé — não uma exigência cega.

O milagre que protege a razão

O lance mais profundo do capítulo é uma teoria racional do milagre. Longe de minar a confiança no mundo, o milagre, em Saadia, depende dela: D'us só altera a natureza com um propósito e anunciando-o antes. Se fizesse milagres ao acaso, nada seria confiável — nem um testemunho, nem um juízo, nem o reencontro com a própria casa. Por isso "os seres permanecem como são": a exceção é rara e proposital, e existe apenas para autenticar a profecia. O milagre não é o colapso da ordem natural — é a sua única e deliberada exceção, que confirma a regra.

Por que o profeta não é um semideus

Saadia recusa, com firmeza, a imagem do profeta como ser sobre-humano. D'us manteve os profetas mortais, famintos, casados e vulneráveis de propósito: se fossem imortais ou invulneráveis, as pessoas creditariam os seus milagres à sua própria natureza, e não a D'us. E por isso os sinais são ocasionais, nunca constantes. Aqueles que "deslumbraram" o profeta — imaginando-o imune à morte, à fome, ao sofrimento — erraram, diz ele, e a sua especulação é "falsidade". O profeta é um mensageiro humano; o milagre aponta para Quem o envia. É a mesma sobriedade que o Rambam faria princípio de fé.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado III (O mandamento e a revelação), cap. 4, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público (a versão moderna é protegida por direitos autorais), de modo que se trabalhou diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Devarim 7:19, Shemot 4:30, Tehillim 33:4 e Michá 4:12. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado III · O mandamento e a revelação · cap. 5

A certeza do profeta — e por que a magia não é milagre

מַאֲמָר שְׁלִישִׁי · ה

Como o próprio profeta sabia que ouvia D'us, e não a sua imaginação? Por um sinal — a nuvem, o fogo, a luz — que às vezes o povo também via. E como distinguir um milagre de um truque de mágico? Saadia responde com dois critérios: o milagre é aberto e vasto demais para ser manipulado. Ao fim, o enigma de Yonah: por que um profeta fugiria de D'us?

1

Verifiquei também como os próprios profetas se certificavam de que aquilo que ouviam vinha do Criador, antes mesmo de o transmitir ao povo. É que lhes aparecia um sinal, que começava com o início da fala e se completava com o seu fim: uma coluna de nuvem, uma coluna de fogo, ou uma luz clara, distinta das luzes habituais. E, quando o profeta via isso, ficava-lhe claro, sem dúvida, que a fala vinha do Criador.

ועמדתי על שהנביאים היה מתאמת אצלם, שהדבר שהיו שומעים, היה מאת הבורא קודם שייחסהו הבורא אצל עמו, והוא, שהיה נראה לו אות מתחלת עם התחלת הדבור, ותשלם עם השלמתו, והיא אם עמוד ענן, או עמוד אש, או אור בהיר, מבלעדי האורים הרגילם, וכאשר רואה הנביא זה, יתברר לו בלי ספק, כי הדבור מאת הבורא.
2

E é possível que também o povo o visse — como acontecia com Moshé: quando ele se separava deles para ir ao lugar da profecia, ficavam de pé, olhando o ar, que estava límpido, sem nuvem, e os olhos fixos em Moshé. Ao chegar ele ao lugar da profecia, descia a nuvem em coluna e permanecia até D'us falar com ele; depois subia, e ele voltava para eles — como está dito: "e sucedia que, ao sair Moshé para a tenda, todo o povo se levantava, e cada um ficava de pé à entrada da sua tenda" (Shemot 33:8). E, quando ele voltava e transmitia a sua missão, diziam: "É verdade — nós vimos a limpidez do ar antes da tua chegada, e a descida da coluna de nuvem ao chegares, e a sua permanência durou o tempo em que ouviste as palavras que nos disseste."

ואפשר שיראוהו גם כן העם, כמו שהיו עם משה כשהיה נפרד מהם ללכת אל מקום הנבואה, היו עומדים ומביטים באויר, והוא צח בלי ענן, ועיניהם אל משה. וכאשר היה מגיע למקום הנבואה, היה יורד הענן בעמוד, ויעמוד עד אשר ידבר עמו, ויעלה וישוב אליהם, כמו שאמר (שמות ל"ג ח') והיה כצאת משה אל האהל יקומו כל העם ונצבו איש פתח אהלו. וכאשר ישוב אליהם ויגיע שליחותו, היו אומרים: אמת, אנו ראינו נקיות האויר קודם הגיעך, וירידת עמוד הענן בהגיעך, והיה עכובו כשיעור שמעך הדברים אשר אמרת אלינו.
Nota — o sinal que o profeta via. Antes de saber se devemos crer no profeta, é o próprio profeta que precisa saber que ouve D'us, e não a sua imaginação. Saadia responde: a profecia vinha acompanhada de um sinal visível — a coluna de nuvem, de fogo, ou uma luz clara — que começava e terminava com a fala. E, no caso de Moshé, até o povo o testemunhava de fora, cronometrando a nuvem pela duração da mensagem. A revelação não é, para Saadia, um estado subjetivo incontrolável: tem uma marca objetiva.
3

E mais: encontrei alguns profetas em cujo relato não se explicita que D'us lhes falava por uma coluna de nuvem — mas esclarece-se, noutro livro, que a sua profecia era assim. Pois Shmuel é mencionado junto com Moshé e Aharon, e a Escritura diz a respeito de todos: "numa coluna de nuvem lhes falava" (Tehillim 99:7). E, achando isto quanto a Shmuel, não há dúvida de que muitos profetas eram como ele.

ועוד, כי מצאתי קצת נביאים אשר לא פורש בענינו שהיה מדבר אליו בעמוד ענן, התבאר מענינו בספר אחר שהיתה נבואתו כן. כי שמואל הובא עם משה ואהרן, ואמר על הכל (תהלים צ"ט ז') בעמוד ענן ידבר אליהם, וכאשר מצאתי כזה בשמואל, אין ספק, כי רבים מהנביאים כמוהו.
4

E, se alguém perguntar: como os magos do Egito se opuseram a Moshé e aos seus sinais? — respondemos: dos dez sinais que Moshé fez (a vara que virou serpente e os outros nove), a Torá só menciona que os magos fizeram três contra ele; e mesmo esses três, a Torá não os mencionou para igualá-los a ele, mas para mostrar a diferença entre o que ele fez e o que eles fizeram. Pois esclareceu que Moshé fez algo aberto, como o Senhor ordenou, enquanto eles fizeram algo oculto e dissimulado — por manobra, em que se vê o truque —, como disse a respeito dos três: "e os magos fizeram o mesmo com os seus encantamentos secretos (be-lateihem)" (Shemot 7:11). E essa palavra, na língua, aplica-se ao que é oculto e velado: como em "eis que está envolta (lutá) num manto, atrás do efod" (I Shmuel 21:10), "o véu (ha-lot) que cobre todos os povos" (Yeshayahu 25:7), "cobriu (va-yalet) o rosto com o manto" (I Melachim 19:13), "o rei cobriu (la'at) o rosto" (II Shmuel 19:5), e semelhantes. E, ao a Torá especificar "com os seus encantamentos", tornou claro que isso era para desmerecer o ato deles, não para confirmar a sua veracidade — assim como, ao dizeres "Reuven disse palavras retas, e Shimon, palavras tortas", não pretendes igualar os dois, mas distingui-los.

ואם ישאל שואל איך עמדו החרטומים כנגד משה ואותותיו? נאמר: כי האותות אשר עשה משה עשרה, הפיכת המטה והתשעה האחרים, לא זכרה התורה שעשו נגדו, כי אם השלשה, והשלשה גם כן לא זכרה התורה להשוות בינם ובינו, אבל זכרה זה לשנות מעשהו ומעשיהם. והוא שבארה שמשה עשה דבר נראה, כאשר צוה י"י, ושאלה עשו דבר נסתר ונעלם, כאשר חוקרים עליו ומגלים אותו, ותראה התחבולה בו, כמו שאמרה בשלשה (שמות ז' י"א) ויעשו החרטומים בלטיהם, וזאת המלה בלשון נופלת על הדבר הנסתר והנעלם, כמו שאמר (ש"א כ"א י') הנה היא לוטה בשמלה אחרי האפוד. וכמו (ישעי' כ"ה ז') פני הלוט הלוט על כל העמים. (מ"א י"ט י"ג) וילט פניו באדרתו. (ש"ב י"ט ה') והמלך לאט את פניו. (ש"א י"ח כ"ב) דברו אל דור בלט, והדומה להם. וכאשר פרשה התורה באמרה בלהטיהם, או בלטיהם, התבאר כי זה לגנות פעלם לא לאמתו. וזה שאמרך: אמר ראובן דברים ישרים, ואמר שמעון דברים מעוותים, או תאמר עשה לוי מעשה טוב, ועשה שמעון מעשה רע, כי אינך מכוין כי אם להבדיל בין שני המאמרים ושני המעשים, לא להשוות ביניהם
5

E, posto este princípio, não preciso mostrar como lhes era possível fazer um truque com pequenas porções de água, mudando-lhes a cor, ou como lançavam algo em certos charcos para deles afugentar as rãs. Pois tais artifícios não são possíveis em grandes massas: o que Moshé fez foi mudar toda a água do Nilo — cuja extensão é uma jornada de quatrocentas parsa'ot, de Assuão ao Delta — e do mesmo modo fez subir as rãs de todo ele. Isso é impossível por truque ou astúcia: é a obra do Poderoso, Sábio e Capaz, como está dito: "Àquele que sozinho faz grandes maravilhas" (Tehillim 136:4).

וכיון ששמתי זה השרש, איננו צריך בו להראות, איך היה אפשר בו שיעשו תחבולה בחלקים מעטים מן המים, ומשנים אותם בצבעים, ואיך היו משליכים בקצת אגמי המים, לבריח מהם הצפרדעים, אלא שאלו החלקים לא יתכן כמוהם בגרמים הגדולים, אבל אשר עשה משה ששנה מי היאור כלם, ושעורו מהלך ארבע מאות פרסה מעלא"ק עד מריו"ט. וכן העלה הצפרדעים מכלו, מה שאי אפשר בו תחבולה ולא ערמה, אבל הוא מעשה העזוז החכם היכול, כמו שאמר (תהלים קל"ו ד') לעושה נפלאות גדלות לבדו.
Nota — magia não é milagre. Eis um dos argumentos mais racionalistas de toda a obra, e ecoa o que a tradição sempre disse contra a magia. Como distinguir o sinal de Moshé do "feito" dos magos? Por dois critérios. Primeiro, a própria palavra da Torá: be-lateihem ("encantamentos") deriva da raiz do oculto, do dissimulado — Saadia prova-o alinhando versos onde a mesma raiz significa "encobrir" —; ou seja, a Escritura já marca o ato deles como truque, não como verdade. Segundo, a escala: um ilusionista altera um pouco de água num charco, mas não transforma todo o Nilo, por 400 parsa'ot. O milagre verdadeiro é aberto e vasto demais para ser manipulado.
6

E, se alguém perguntar: como Yonah foi escolhido para a sua missão e dela fugiu — sendo que o Sábio não escolhe quem O desobedeça? — digo: examinei o caso de Yonah e não encontrei escrito que ele tenha deixado de cumprir a primeira missão; e, embora não o tenha encontrado dito, também afirmo que ele a cumpriu — pois sou obrigado a crer nisso, como de todos os profetas: que o Sábio não escolheu para a sua missão quem não a cumprisse. E, de fato, a Escritura diz, em vários lugares, "e o Senhor falou a Moshé, dizendo: fala aos filhos de Israel" — sem que se explicite "e assim falou Moshé aos filhos de Israel", a não ser nalguns casos.

ואם ישאל שואל איך נבחר יונה לשליחותו וברח ממנה, והחכם איננו בוחר, מי שימרהו? אומר: כבר הסתכלתי בדבר יונה ולא מצאתי כתוב שאומר, כי הוא לא הגיע השליחות הראשונה, אף על פי שלא מצאתיו, גם כן אומר שהגיע אותה, אך חויבתי להאמין בזה כדרך כל הנביאים. ושהחכם לא בחר לשליחותו מי שלא יגיענה, וכבר מצאתי הכתוב אומר (בכמה מקומות) וידבר י"י אל משה לאמר, דבר אל בני ישראל לאמר, ואיננו מפורש וידבר משה כן אל בני ישראל כי אם בקצתם.
7

Mas Yonah fugiu por dois motivos — temendo que D'us o enviasse uma segunda vez na sua missão. Pois ocorreu-lhe que a primeira fora um aviso, e a segunda seria para ameaçar com o castigo; e Yonah temeu que D'us os advertisse de algo, e eles se arrependessem, de modo que a ameaça fosse retirada não cumprida e o atribuíssem à falsidade. Por isso saiu da terra em que o Criador designara que houvesse profecia. E isto está explícito no fim das suas palavras: "ah, Senhor! não foi isto o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso me adiantei a fugir para Tarshish" (Yonah 4:2). E nisto não houve pecado da sua parte, porque o seu D'us ainda não lhe dissera "eis que te envio uma segunda vez"; foi algo que lhe veio ao coração, e ele quis evitar o que poderia, ou não, acontecer. E o nosso D'us fê-lo voltar, por necessidade, à terra designada, até profetizar por ele e enviá-lo — e a sua sabedoria se cumpriu.

אבל ברח יונה משני דברים, שישלחהו פעם שנית בשליחותו, כי עלה בלבו כי הראשונה התראה, והשנית לאיים ולהפחיד בעונש, ופחד יונה שייעדם בדבר וישובו, ויסתלק הוועד ההוא, וייחסו אותו אל הכזב, ויצא מן הארץ אשר יעדם הבורא שתהיה בו הנבואה. וזה מפורש באחרית מאמרו (יונה ד' ב') אנא י"י הלא זה דברי עד היותי על אדמתי על כן קדמתי לברוח תרשישה. ולא היה עליו בזה חטא, מפני שלא אמר לו אלהיו הנני שולח אותך שנית, אבל היה זה דבר שעל על לבו ודחה מה שאפשר להיות או שלא להיות, והשיבו אלהינו אל הארץ המיוחדת בהכרח, עד שנבא אותו ושלחו, ונשלמה חכמתו:
Nota — por que Yonah fugiu. O enigma é antigo: se D'us não escolhe quem O desobedeça, como Yonah fugiu? Saadia desfaz o nó com finura. Yonah cumpriu a sua primeira missão; o que ele temia era um segundo envio — e o motivo da fuga não foi rebeldia, mas o medo de ser tomado por falso profeta: se ele anunciasse a ruína de Nínive e o povo se arrependesse, o decreto seria suspenso, e ele pareceria mentiroso. É uma janela sobre a natureza da profecia de advertência: um aviso que dá certo "falha" como previsão — e essa é justamente a sua glória, não a sua falha (cf. Rambam, sobre a profecia condicional).

Sobre esta seção · עִיּוּן

Como o profeta sabia que era D'us

Antes de o povo ter de crer no profeta, é o profeta que precisa de certeza. Saadia recusa a ideia de uma revelação puramente subjetiva: a profecia vinha com um sinal objetivo — a coluna de nuvem, de fogo, ou uma luz clara — que durava exatamente o tempo da fala. No caso de Moshé, até o povo o via de fora, e media a nuvem pela duração da mensagem. E onde a Escritura não o diz explicitamente (como em Shmuel), outro versículo o esclarece. A certeza do profeta não é um sentimento; é uma experiência marcada.

Magia não é milagre

O coração racionalista do capítulo é a distinção entre o sinal divino e o truque do mágico — a mesma que a Torá faz com os magos do Egito. Saadia oferece dois critérios. O filológico: a palavra be-lateihem ("encantamentos") vem da raiz do oculto, do dissimulado — a própria Escritura classifica o ato deles como manobra escondida, não como verdade. E o da escala: a ilusão funciona no pequeno (um pouco de água, um charco), mas não no imenso — ninguém transforma todo o Nilo. O milagre verdadeiro é público e vasto demais para caber numa fraude.

Por que Yonah fugiu

Saadia fecha resolvendo uma dificuldade célebre. Se D'us não escolhe quem O desobedeça, como Yonah pôde fugir? A resposta: Yonah não desobedeceu à sua primeira missão; o que temia era um segundo envio — e o seu medo não era a tarefa, mas a reputação: anunciar a destruição, ver o povo arrepender-se, e ser tido por mentiroso quando o castigo fosse suspenso. É a chave da profecia de advertência: ela existe para ser revogada pelo arrependimento. Um aviso que "não se cumpre" porque comoveu o coração não é um fracasso — é o seu maior êxito.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado III (O mandamento e a revelação), cap. 5, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público (a versão moderna é protegida por direitos autorais), de modo que se trabalhou diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Shemot 33:8 e 7:11, Tehillim 99:7 e 136:4, e Yonah 4:2, além das provas filológicas (I Shmuel 21:10; Yeshayahu 25:7; I Melachim 19:13; II Shmuel 19:5). As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado III · O mandamento e a revelação · cap. 6

Os livros sagrados — e por que podemos confiar na tradição

מַאֲמָר שְׁלִישִׁי · ו

Por que pôr a revelação por escrito — e por que podemos confiar no que nos foi transmitido? Saadia mostra que toda Escritura se reduz a três raízes (a lei, a recompensa e o exemplo) e que a tradição fiel é tão real quanto ver com os olhos: vivemos dela em tudo. E explica por que uma tradição de massa não pode ser falsificada.

1

Depois disso, vou explicar o assunto dos livros sagrados. Digo: o Criador resumiu para nós, de todo o conjunto, aquilo que no tempo passado foram relatos dispostos para o seu serviço — recordou-os no seu livro, juntou-lhes os seus mandamentos e, a estes, anexou a recompensa que dá por eles; e isso foi um proveito permanente para o mundo. Pois todos os livros dos profetas, e os livros dos sábios de todo povo, embora muitos, contêm apenas três raízes: a primeira, a disposição do mandamento e da proibição — uma categoria; a segunda, a recompensa e o castigo — o seu fruto; a terceira, o relato de quem fez o bem nas terras e prosperou, e de quem fez o mal nelas e pereceu. Pois o aperfeiçoamento completo só se dá na reunião das três.

ואחר כן אבאר ענין ספרי הקדש, ואומר: כי הוא קצר לנו מכלל, מה שהיה בזמן החולף הגדות נתקן בהם לעבודתו, זכרם בספרו, וחבר אליהם מצותו, וסמך אליהם מה שהוא גומל עליהם, והיה זה תועלת קיימת לעולם. והוא, שכל ספרי הנביאים וספרי החכמים מכל עם, אף על פי שהם רבים, אינם כוללים כי אם שלשה שרשים. תחלתם, בסדור הצווי והאזהרה, והם שער אחד. ושני, גמול ועונש, והם פריהם. והשלישי הגדת מי שהטיב בארצות, והצליח, ומי שהפסיד בהם, ואבד. כי התקון השלם לא יהיה כי אם בקבוץ אל השלשה.
2

Dou um exemplo: é como quem visita um doente com febre, e lhe fica claro que a causa do mal é o excesso de sangue. Se lhe disser "não comas carne nem bebas vinho", já remediou algo — mas não é o remédio completo. Se acrescentar "e não perturbes a tua mente", já acrescentou ao remédio — mas ainda não está completo, até que lhe diga "como aconteceu a fulano" um caso real; e, ao fazer isso, o remédio se completa. Por isso os livros reúnem estas três raízes — a lei, a recompensa e o exemplo narrado. E não preciso citar nenhuma delas, de tão numerosas que são.

והמשל בזה אומר: כמי שנכנס אל חולה שיש לו קדחת, והתברר לו כי סבת חליו תגבורת הדם. ואם אמר לו: אל תאכל בשר ואל תשתה יין, כבר תקן מענינו, ולא התקון השלם, ואם יוסיף ויאמר לו: שלא תטרף דעתך, כבר הוסיף בתקון, ואינו עד עתה שלם, עד שיאמר לו כאשר קרה לפלוני, וכאשר יעשה זה, כבר נשלם תקונו. ועל כן קבצו הספרים אלה השלשה שרשים, ואינני צריך לזכור דבר מהם, מפני רובם.
Nota — as três raízes de toda Escritura. Saadia faz uma observação de notável economia: por mais vastos que sejam os livros sagrados, tudo neles se reduz a três elementos — a lei (mandamento e proibição), a sua consequência (recompensa e castigo) e o exemplo narrado (quem prosperou, quem pereceu). E o belo da parábola do médico: um diagnóstico não basta; é preciso a regra de conduta e o caso concreto que a torna crível. A Escritura ensina como um bom médico — junta o preceito, a sua razão e a história que o ilustra.
3

Depois digo: o Sábio, exaltado seja, sabendo que as suas Torot e as palavras dos seus sinais precisariam, com o passar do tempo, de transmissores, para que se confirmassem aos últimos como se confirmaram aos primeiros, pôs nas mentes um lugar para acolher a transmissão fiel (hagadá ne'emana), e na alma um lugar onde ela se assenta — para que nela se confirmem os seus livros e os seus relatos.

ואחר כן אומר: שהחכם יתעלה, מדעתו שתורותיו ודברי אותותיו צריכים בארך הזמן אל מעתיקים, כדי שיתאמתו לאחרונים, כמו שהתאמתו לראשונים, שם בשכלים מקום לקבול ההגדה הנאמנת. ובנפש מקום להתישב בה, כדי שיאתמתו בו ספריו והגדותיו.
4

E vou mencionar algumas provas da verdade da transmissão. Não fosse o fato de as almas estarem firmadas na convicção de que existe transmissão verdadeira no mundo, ninguém esperaria aquilo que costuma esperar — o que lhe prometem quanto ao êxito no comércio, ou ao proveito em tal ofício, para cuja aquisição um homem dispõe a sua força e o seu empenho. Nem temeria aquilo que se teme — o perigo de tal estrada, o aviso que proíbe tal ato; e, se não esperasse nem temesse, todos os seus assuntos se arruinariam.

ואני רואה לזכור חלקים מאמתות ההגדה, לולא כי הנפשות מתישבות שיש בעולם הגדה אמתית, לא היה אדם מקוה מה שדרכו לקוותו, ממה שיבושר בו בהצלחה בסחורה, והתועלת במלאכה פלונית, שכח האדם וצרכו מושמים לקנות. ולא היה ג"כ ירא ממה שיראים ממנו, מסכנת הדרך הפלוני, ומן ההכרזה במניעת המעשה הפלוני, אם לא יקוה ויירא יפסדו לו כל עניניו.
5

Se a pessoa não admitisse que há transmissão no mundo, os súditos não aceitariam os mandamentos do seu rei nem a sua advertência, a não ser quando o vissem com os próprios olhos e ouvissem as suas palavras com os próprios ouvidos; e, quando ele não estivesse presente, cessaria a aceitação da sua ordem — e, assim, a governança ficaria nula, e muitos pereceriam. E, não fosse a transmissão verdadeira, ninguém chegaria a saber que este é o bem herdado do seu pai, e esta a herança do seu avô; nem chegaria sequer a saber que é filho da sua mãe — quanto mais filho do seu pai. E os assuntos humanos ficariam em dúvida, até só se crer naquilo sobre que o sentido cai, no instante em que cai. E essa opinião está próxima da dos que negam todo saber, que mencionamos no Tratado I.

אם לא יחשוב שיש בעולם הגדה, לא יקבלו מצות מלכם ולא הזהרתו, כי אם בעת שיראו אותו בעיניהם, וישמעו דבריו באזניהם, וכשלא יהיה עמם יסתלק קבול מצותו והזהרתו, ואלו היה זה כן, בטלה ההנהגה, ואבדו הרבה מבני אדם. ולולי שיש בעולם הגדה אמתית, לא היה מגיע האדם לדעת, שזה קנין אביו, וזה ירושת זקנו. וגם לא היה מגיע לדעת שהוא בן אמו, כל שכן שיהיה בין אביו. והיו עניני בני אדם בספקות, עד שלא יאמינו, כי אם במה שיפול חושם עליו בעת נפילתו בלבד. וזה הדעת קרוב מדעת המתעלמים, אשר זכרנו במאמר הראשון.
Nota — sem tradição, nada funciona. Eis o argumento epistemológico do capítulo, e ele é desarmante. Toda a vida humana repousa, silenciosamente, na confiança numa transmissão fiel: o comércio, o aviso de um perigo, a ordem de um rei ausente — e até saber quem é o seu próprio pai. Quem rejeita a tradição em bloco não fica com "mais razão": fica reduzido a crer só no que vê no instante em que vê — a posição cética que Saadia já refutara no Tratado I. Confiar no testemunho confiável não é ingenuidade; é a condição de toda vida em comum.
6

Já disseram os livros que a transmissão fiel é verdadeira — tão fiável quanto o que se alcança pela vista —, como está dito: "passai às ilhas de Kitim e vede, e enviai a Kedar e considerai com toda a atenção" (Yirmiahu 2:10). E por que a Escritura acrescentou, a respeito da transmissão, "considerai com toda a atenção"? Digo: porque a transmissão pode sofrer uma corrupção que não atinge o que é percebido pelos sentidos, por dois lados: um, pela via da conjetura erro; o outro, pela via da falsificação deliberada. Por isso disse "considerai com toda a atenção".

כבר אמרו בספרים כי ההגדה הנאמנת אמת, נאמנת (הדבר) המושג בראות, הוא אמרו (ירמיהו ב׳:י׳ י') כי עברו איי כתיים וראו וקדר שלחו והתבוננו מאד, ולמה הוסיף בשער ההגדה והתבוננו מאד, אומר: כי ההגדה יפול בה ההפסד מה שלא יפול במוחש משני צדדים. אחד מהם מדרך הסברא, והאחר מדרך ההזדה, ועל כן אמר והתבוננו מאד.
7

E, ao examinarmos esses dois pontos — como crer na transmissão apesar deles? —, achamos, pela razão, que a conjetura e a falsificação só se ocultam no indivíduo; mas, num coletivo, as conjeturas não divergem todas do mesmo modo; e, se quisessem deliberadamente combinar-se para forjar a transmissão, isso não ficaria oculto entre a multidão deles — antes, a sua transmissão, onde quer que saísse, sairia acompanhada do rastro do relato do seu conluio. E, quando examinas a transmissão dos nossos sinais — nós, os filhos de Israel — sobre estas três raízes, encontra-la-ás livre dessas objeções, clara e fiel.

וכאשר השתדלנו באלה השני ענינים, איך נאמין ההגדה עליהם? מצאנו בשכל כי הסברא וההזדה אינם נעלמים אלא מן היחיד, אך הקבוץ הדת סברותם לא יתחלקו, אך אם יזידו ויסכימו על בריאת ההגדה לא יעלם זה בין ההמון מהם, אך תהיה הגדתם, בכל מקום שתצא, תצא עמה הגדת הסכמותם. וכאשר תראה הגדת אתותינו בני ישראל על אלה השלשה שרשים, תמצאה נצלת מאלה הטענות ברורה נאמנת:
Nota — por que a tradição de massa não se falsifica. Aqui está o coração do argumento, e é a base da epistemologia do Sinai. A transmissão pode falhar de dois modos — por erro ou por fraude deliberada. Mas ambos, observa Saadia, só atingem o indivíduo: uma pessoa pode enganar-se ou mentir em segredo; uma nação inteira, não. Um povo não erra todo do mesmo jeito, e não pode combinar secretamente uma mentira sem que o rastro do conluio apareça. Por isso a tradição de Israel, transmitida por todo um povo, é "clara e fiel" — é o mesmo raciocínio que sustenta a singularidade da revelação diante de uma nação (cf. o Rambam e o Kuzari).

Sobre esta seção · עִיּוּן

Como a Escritura é construída

Saadia abre com uma anatomia da Escritura: por mais numerosos que sejam os livros, tudo se organiza em três raízes — o mandamento, a recompensa e a narrativa que dá o exemplo. A parábola do médico explica por quê: para curar de verdade, não basta o diagnóstico (a lei); é preciso a sua consequência (o regime) e o caso concreto que torna tudo crível. A forma da Escritura, longe de ser fortuita, é a de um ensino completo — e, como vimos no capítulo anterior, nada nela é arbitrário.

A tradição fiel é tão real quanto ver

O cerne do capítulo é uma defesa da tradição (hagadá ne'emana). Costuma-se opor "o que vejo" a "o que me contam", como se só o primeiro fosse seguro. Saadia desfaz a oposição: a vida inteira — o comércio, a obediência a uma lei, o evitar de um perigo, e até o saber quem são os nossos pais — repousa em testemunho confiável que não vimos com os olhos. Negar a tradição em bloco não é ser rigoroso; é cair no ceticismo que se reduz ao instante presente — a posição já refutada no Tratado I. A razão inclui a confiança no testemunho fiel.

Por que a tradição de massa não pode ser falsificada

Mas a tradição pode falhar — por erro ou por fraude. A resposta de Saadia é a base da epistemologia do Sinai: erro e fraude só se escondem no indivíduo. Uma pessoa pode enganar-se, ou mentir em segredo; uma nação inteira não erra toda do mesmo modo, nem consegue combinar uma mentira sem deixar o rastro do conluio. Por isso uma tradição transmitida por todo um povo — como a de Israel sobre os "três pilares" — é imune a essas objeções. É o mesmo argumento que, depois, sustentaria a singularidade de uma revelação dada diante de uma nação, no Rambam e no Kuzari.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado III (O mandamento e a revelação), cap. 6, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público (a versão moderna é protegida por direitos autorais), de modo que se trabalhou diretamente sobre o hebraico. A citação remete a Yirmiahu 2:10; a "opinião dos que negam todo saber" foi tratada no Tratado I. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado III · O mandamento e a revelação · cap. 7

Por que a Torá não pode ser anulada

מַאֲמָר שְׁלִישִׁי · ז

Pode a Torá ser anulada — substituída por outra? Saadia responde que não, e fá-lo em duas frentes: a tradição e a Escritura afirmam a sua eternidade; e, pela razão, refuta um a um os sete argumentos de quem defende a ab-rogação. O ponto decisivo: a Torá não foi dada para ser anulada — e acrescentar não é anular.

Nota de contexto. Este capítulo responde à alegação — central no debate histórico entre o judaísmo e outras tradições religiosas — de que a Torá teria sido ab-rogada (anulada e substituída por outra). Saadia conduz a discussão de modo filosófico e abstrato: não nomeia ninguém, e responde apenas por argumentos de razão. Traduzimo-la com sobriedade, como o que é — uma defesa racional da eternidade da Torá —, com respeito por todas as tradições de fé.
1

Posto isto, convém acrescentar aqui a discussão sobre a anulação (ab-rogação) das Torot, pois este é o seu lugar. Digo: os filhos de Israel já receberam uma tradição completa de que os profetas lhes disseram que os mandamentos da Torá não serão anulados — e disseram tê-lo ouvido numa declaração explícita, o que afasta de nós toda especulação e conjetura.

וכיון שהקדמתי אלה הדברים, אני רואה לסמוך לדברים האלה הדבור בבטול התורות, כי זה מקומו. ואומר: כבר קבלו בני ישראל קבלה גמורה, שמצות התורה אמרו להם הנביאים עליהם שלא יבוטלו, ואמרו ששמעו זה במאמר מפורש, יסתלק ממנו כל מחשב וכל סברא.
2

Depois examinei os livros e achei o que o confirma. Primeiro, que a maioria das mitsvot vem escrita com a expressão "pelas vossas gerações" (le-doroteichem). E está dito: "a Torá que Moshé nos ordenou é herança da congregação de Yaakov" (Devarim 33:4). Além disso, a nossa nação não é nação senão pelas suas Torot; e, uma vez que o Criador disse que a nação subsistiria por todo o tempo em que durarem o céu e a terra, é forçoso que as suas Torot subsistam todos os dias do céu e da terra — como está dito: "assim diz o Senhor, que dá o sol para a luz do dia... se estes estatutos se desviarem de diante de mim, diz o Senhor, também a descendência de Israel deixará de ser uma nação..." (Yirmiahu 31:35–36).

ואחר כן התבוננתי בספרים, ומצאתי מה שיש בהם מורה על זה, תחלה שרוב המצות כתוב בהן לדורותיכם. ועוד מה שאמרה (דבר' ל"ג ד') תורה צוה לנו משה מורשה קהלת יעקב. ועוד כי אומתנו איננה אומה כי אם בתורותיה, וכיון שאמר הבורא שהאומה תעמוד כל עמידת השמים והארץ, מן ההכרח שתעמד תורותיה כל ימי השמים והארץ, והוא אמרו (ירמיה ל"א ל"ה) כה אמר י"י נותן שמש לאור יומם חקות ירח וככבים וגומר אם ימושו החקים האלה מלפני נאם י"י גם זרע ישראל וגו'.
3

E vi, ao fim das profecias, uma advertência a guardar a Torá de Moshé até o Dia do Juízo, e o anúncio da missão do profeta Eliyahu antes dele: "Lembrai-vos da Torá de Moshé, meu servo, que lhe ordenei em Chorev, para todo o Israel — estatutos e juízos. Eis que vos envio o profeta Eliyahu, antes que venha o grande e temível Dia do Senhor" (Malachi 3:22–23).

וראיתי באחרית הנבואות, מזהיר על שמירת תורת משה עד יום דין ושליחות אליהו הנביא קודם, הוא אמרו (מלאכי ג' כ"ב) זכרו תורת משה עבדי אשר צויתי אותו בחורב על כל ישראל חקים ומשפטים. (שם ג' כ"ג) הנה אנכי שולח לכם את אליהו לפני בא יום י"י הגדול והנורא.
Nota — tradição e Escritura. Antes de argumentar pela razão, Saadia apoia a eternidade da Torá em duas colunas. A tradição: os profetas declararam, explicitamente, que os mandamentos não seriam anulados. E a Escritura: a recorrência de "pelas vossas gerações", o vínculo entre a permanência da nação e a do céu e da terra (Yirmiahu 31), e o último dos profetas a mandar guardar "a Torá de Moshé" até o Dia do Juízo (Malachi 3). A eternidade da Torá não é, para ele, uma dedução isolada, mas o que o texto e a memória do povo afirmam.
4

Vi também homens da nossa nação que trazem uma prova, pela via do raciocínio geral, para rejeitar a anulação da Torá. Dizem: quando o Criador ordena uma Torá, ela não pode escapar de um destes quatro casos. (1) Ou Ele especifica que é eterna — e então não cabe anulá-la. (2) Ou a põe para parte do tempo, como se dissesse "fazei isto por cem anos" — e então anulá-la antes dos cem anos é impossível, e depois dos cem ela já se cumpriu, e não há "anulação". (3) Ou está ligada a um lugar, como "fazei isto no Egito" — no Egito não cabe anulá-la, e, se Ele ordenar outra coisa fora do Egito, isso não é anulação. (4) Ou está ligada a uma causa, como "fazei isto enquanto correm as águas do Nilo" — antes de elas pararem não cabe anulá-la, e, se Ele ordenar outra coisa depois, isso não é anulação.

וראיתי אנשים מאומתינו שמביאים ראיה לדחות בטול התורה מדרך הכלל. ואומר: לא תמלט התורה כשמצוה בה הבורא מאחד מארבעה ענינים. אם שיפרש בה שהיא עולמית, וזה לא יתכן לבטלה או שישימה בחלק מהזמן, כאלו אמר עשו זה מאה שנה, ובטולו פחות ממאה שנה לא יתכן, ואחר המאה כבר נשלם ולא יפול עליו בטול. או שתהיה נסמך אל מקום, כאלו אמר עשו זה במצרים, ובמצרים לא יתכן לבטלו, ואם יצוה בזולתו בזולת מצרים אין בטול. או שיהיה מעולל בעלה. כאלו אמר עשו זה, בעבור שמימי היאור נגרים, וקודם שיעמדו מימי היאור לא יתכן לבטלו, ואם יצוה בזולתו אחר עמידת המים איננו בטול.
5

E, quando se lhes diz: "eis um quinto caso — uma Torá à qual se fixou um tempo sem o declarar, e os homens não cessam de cumpri-la até serem ordenados de outro modo" —, respondem: também este, se existisse, seria "parte do tempo", pois a medida seria conhecida ou por D'us (na sua verdade) ou pelos homens (até o segundo mandamento); e, nos dois casos, a "anulação" reduz-se ao exemplo do Egito, e o tempo da Torá seria, pela razão, parcial desde o início. E alguns dizem que esse quinto caso nem é possível, pois só há a Torá geral eterna e a parcial — não resta nada "em aberto".

וכאשר יאמר להם, והנה הנה חלק חמישי הוא התורה, אשר הוגבל לה זמן, ולא יסורו בני אדם מעשותה עד אשר יצוו בזולתה, אומרים וזה ג"כ אלו היה, היה בחלק מהזמן, כי המדה תהיה ידועה אם אצל האלהים על אמתתה, או אצל בני אדם אל עת הצווי השני. ועל שני הענינים יחדיו יבטל הבטול במצרים, ויהיה זמן התורה חלקי בשכל מתחלת הצווי בה. וקצתם אומר, זה החלק החמישי לא יתכן, כי התורה הכלליית והחלקיית לא היו, כי אם שלא ישאר דבר סתם.
6

Vi, da parte de quem julga a anulação possível por esta via, sete argumentos, que ele tem por racionais e suficientes para estabelecê-la; convém mencioná-los, e dar as respostas. Primeiro, a analogia entre a vida e a morte: assim como é sábio dar vida e sábio dar a morte, assim D'us daria a Torá com sabedoria e a anularia com sabedoria. Resposta: há entre os dois uma grande diferença. Ele não deu a vida senão para conduzir à morte — pois a morte é o caminho da passagem ao mundo vindouro, que é a intenção. Mas não deu a Torá para a anular. Pois, se a Torá fosse dada para ser anulada, nenhuma Torá poderia existir sem anulação: a primeira anulada pela segunda, a segunda pela terceira, sem fim — o que é falso. E mais: a segunda Torá conteria para sempre uma contradição — seria uma Torá (cujo fim é ser cumprida) e, ao mesmo tempo, teria por fim anular a primeira.

וראיתי למי שהוא מכשיר הבטול בקנין הזה שבעה מאמרים, וחושב שהם מדרך העיון ושכלם לקיים, ואני רואה לזכרם ולזכור מה שיש עליהם מן התשובות. ואומר תחלתם, הקשתו על החיים והמות, הוא אומר כאשר כשר להחיות בחכמה ולהמית בחכמה, כן יתן התורה בחכמה ויבטלה בחכמה. ויתבאר לי, כי יש ביניהם הפרש גדול, כי לא החיה כי אם להמית, ולא נתן תורה לבטלה, כי המות היא דרך הנסיעה אל העלם הבא, אשר היא הכונה, ולא נתן תורה בעבור לבטלה, כי התורה אלו היתה בעבור לבטלה, לא היה אפשר לכל תורה מבלי בטול, ותבטל הראשונה בשניה, והשניה בשלישית, עד אין תכלית וזה שקר. ועם זה אלו היה זה כן, היה בתורת השנית לעולם הפך וסתירה. ובאור זה, שהתורה השנית יהיה בה הכונה זולתה, מפני שהוא תורה, וזה משפט כל תורה, ותהיה הוא הכונה מפני שהיא מבטלת הראשונה, וכן משפט כל מבטל שיהיה הוא הכונה הראשונה, והוא מאמר יש בו דקות
Nota — a Torá não foi dada para ser anulada. Eis o argumento decisivo. A objeção compara a Torá à morte: D'us "dá e tira" com sabedoria. Saadia mostra a falha: a morte serve a um fim (a passagem ao mundo vindouro), mas a Torá não foi dada para ser anulada. Se fosse, cair-se-ia num regresso infinito (cada Torá anulada pela seguinte) e numa contradição (uma Lei cujo propósito é ser cumprida teria por propósito abolir outra). As demais analogias (os mortos, o jejuar e o comer, a tâmara que amadurece) confundem o que é necessário por natureza com o que seria uma anulação — e a Torá não pertence à ordem da necessidade natural.
7

Segundo, a analogia com os mortos, que a morte isenta da Torá. Resposta: a morte forçosamente retira a Torá dos mortos, pois sobre eles não recai mandamento nem proibição; e não se pode argumentar do que é possível sem a anulação para o que é impossível sem ela a morte. Terceiro, a analogia com quem trabalha num dia e descansa noutro, jejua num dia e come noutro. Resposta: também isto é por necessidade — o homem não pode jejuar todos os dias nem descansar todos os dias, e por isso não seria próprio que o Criador o ordenasse; mas a Torá, essa, o homem pode cumpri-la em toda geração.

והשני הקשתו על המת, המצווים בתורה, וסור התורה מהם במות, וראיתי שהמות לא היה אפשר שלא יסיר התורה מן המתים, כיון שלא יפול עליהם צווי ולא אזהרה, ואין הקשה במה שאפשר בלעדיו על מה שא"א בלעדיו, ואם לא יהיה אפשר בלעדי הבטול, עוד ישוב ההפך אשר זכרתיו עם בטול כל תורה. והשלישית הקשתו על מי שעושה ביום וישבות ביום אחר, ויצום ביום ויאכל ביום אחר וזה ג"כ מדרך ההכרח, כי האדם מפני שלא היה ביכלתו שיצום בכל יום, ולא שישבות בכל יום, לא היה נכון שיצוהו הבורא בזה, והתורה יתכן לאדם שיעשנה בכל דור.
8

Quarto, a analogia com quem enriquece e depois faz herdar, dá a vista e depois cega — fazendo cada coisa no tempo em que é bom fazê-la. Resposta: todas as venturas D'us as pôs como recompensa de quem O serviu, e todas as aflições como retribuição de quem se rebelou; mas a Torá Ele não a pôs como recompensa, nem do serviço nem da rebeldia. Quinto, a analogia com a tâmara que avermelha depois de verde, e coisas assim. Resposta: todas estas são necessitadas pela estrutura e pela natureza, ou pelo hábito; mas a Torá não é assim — pois, se fosse, a anulação de toda Torá seria forçosa, e voltaria a contradição já mencionada.

והרביעית הקשתו על מה המעשיר ומוריש, מפקח ומעור, שעושה כל אחד מהם בעת שהוא טוב שיעשהו בו. והסתכלתי מה שיש בין הדברים האלה, כי כל ההצלחות כבר שמם גמול מי שעבד אותו, וכל היסורים שמם גמול מי שהמרה אותו, אבל התורה לא שמה גמול לא על העבודה ולא על ההמראה. ואלו היה טוען זה טוען, היתה מפסידתו עליו התורה הראשונה, מפני שתבטל שתהיה גמול לדבר שקדם לה, כיון שאין תורה לפניה. והחמישי הקשתו על התאדם התמרה אחר שהיא ירוקה, והדומה לזה. ואלה כלם התבוננתי בהם והנה הם מחוייבים אם בבניה והטבע או בהרגל, והתורה איננה כן, כי אם היתה כן היה מתחייב בטול כל תורה וישוב ההפך.
9

Sexto: assim como o trabalho no Shabat era permitido pela razão, e a revelação o aboliu por uma proibição, diz ele assim uma outra revelação poderia devolvê-lo à permissão. Resposta: esta analogia só se completaria se a razão obrigasse a trabalhar no Shabat, e então se pudesse dizer que a revelação aboliu essa obrigação. Mas a razão apenas permite: o homem sempre vê, pela razão, que lhe é permitido abster-se do trabalho em todo Shabat, ou noutro dia — para o descanso do corpo, para o prazer, ou para ambos. Assim a Torá veio sobre o que a razão permite, e disse-lhe "o Shabat, para o descanso do teu corpo", fazendo disso um proveito de recompensa, e não uma anulação de coisa alguma — ainda que o chame "eterno". Pois é razoável que um sábio ordene a alguém descansar num dia certo, e lhe dê por isso, a cada dia, um dinar.

והששי אמר: כאשר היתה המלאכה בשבת מותרת בשכל, ובטלה השמע במניעה, כן יתכן שישיבנה שמע אחד אל התרתה. ואומר: בענין זה היתה זאת ההקשה נגמרת, אלו היה השכל מתחייב המעשה בשבת, ואז היה לומר שהשמע בטל המחוייב ההוא, אבל ההתר לא. כי האדם לא סר שיראה בשכלו שהוא מותר לו שיבטל בכל יום שבת וזולתו, אם למנוחת גופו אם להנאה שיהנה בה, או לשניהם יחדיו. וכן באה בתורה במה שהוא מותר בשכל ואמרה לו השבת למנוחת גופך, ושתקנה בזה תועלת גמול ולא בטל לדבר, אף על פי ששמו עולמי, כי יתכן בשכלו שיצוהו חכם לבטל יום ידוע, ויתן לו לכל יום דינר.
10

Sétimo: assim como foi adequado que a Torá de Moshé fosse diferente da de Avraham, diz ele também seria adequado que houvesse uma Torá, diferente da de Moshé, a suplantá-la. Resposta: ao examinarmos a Torá de Moshé, achamo-la, na verdade, a própria Torá de Avraham — apenas Moshé acrescentou novos mandamentos e o Shabat, pelas renovações que ocorreram ao seu povo; como quem se salva num dia certo e faz voto de jejuar sempre esse dia. E, quando isto é justo para ele por si mesmo, é justo que o seu D'us lho ordene. Ora, se o acréscimo fosse "anulação", então quem se oferece voluntariamente em oração, em jejum ou em caridade já teria anulado a sua Torá; e, se o Autor da Torá lho permitiu, já teria permitido anular a sua própria Torá o que é absurdo — e o mesmo vale para os seus argumentos anteriores. E todos estes — que D'us tenha misericórdia! — são embaraços, dos quais nada se sustenta sob exame.

והשביעי אמר: כאשר היה נכון שתהיה תורת משה בלתי תורת אברהם, היה גם כן נכון שתהיה תורה זולת משה, בלתי תורתו. וכאשר נעיין בתורת משה, נמצאנה תורת אברהם באמת, אך נוסיף משה המצות והשבת, לחדושים שהתחדשו על עמו, כמי שינצל ביום ידוע וידור לצום אותו היום תמיד. וכאשר יישר זה אצלו מחמת עצמו, יישר שיצוהו בר אלהיו. ואם תהיה התוספת בטול, מי שהוא מתנדב בתפלה, או בצום, או בצדקה, כבר בטל תורתו. ואם בעל התורה התיר לו זה, כבר התיר שיבטל תורתו, ומתחייב על הקשותיו הראשונות כמו זה ואלה כלם, ירחמך אלהים! טרדות לא התקיים מהם עם העיון מאומה:
Nota — acrescentar não é anular. O fecho é tão elegante quanto profundo. Objetam: a Torá de Moshé já não diferiu da de Avraham? Então outra poderia diferir da de Moshé. Saadia responde que a Torá de Moshé é a de Avraham — com acréscimos, ditados por novas circunstâncias do povo. E acrescentar não é anular: se fosse, quem reza, jejua ou dá caridade voluntariamente estaria "anulando" a Torá a cada gesto piedoso. Toda a torre de sete argumentos, conclui ele, não resiste ao exame.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A eternidade da Torá: tradição e Escritura

Saadia abre a sua defesa não pela razão, mas pela tradição e pela Escritura: os profetas declararam, em termos explícitos, que os mandamentos não seriam anulados; e o texto confirma-o de vários modos — o "pelas vossas gerações" que acompanha tantas mitsvot, o laço entre a permanência de Israel e a do céu e da terra (Yirmiahu 31), e o último dos profetas, que manda lembrar "a Torá de Moshé" até o Dia do Juízo (Malachi 3). A eternidade não é uma tese filosófica isolada — é o que o povo recebeu e o que os livros dizem.

Por que a Torá não foi dada para ser anulada

O coração do capítulo é a refutação, uma a uma, de sete analogias que pretendem tornar plausível a ab-rogação. A mais forte compara a Torá à morte: assim como D'us dá a vida e depois a tira, daria a Torá e depois a anularia. Saadia desfaz a comparação: a morte serve a um propósito (a passagem ao mundo vindouro), mas a Torá não foi dada para ser revogada — supor isso leva a um regresso infinito (cada Lei anulada pela seguinte) e a uma contradição interna. As outras analogias (os mortos isentos, o ritmo de jejuar e comer, o fruto que amadurece) confundem o que é necessário por natureza com uma "anulação" — e a Torá não pertence à ordem da necessidade.

Acrescentar não é anular

O argumento final é o mais memorável. Objetam: a Torá de Moshé já não foi diferente da de Avraham? Saadia responde que ela é a Torá de Avraham — com acréscimos, ditados por novas circunstâncias históricas do povo (como quem, salvo num certo dia, faz voto de o assinalar para sempre). E acrescentar não é anular: se o fosse, quem reza, jejua ou dá caridade por iniciativa própria estaria "anulando" a Torá a cada ato de piedade — o que é absurdo. É a mesma sobriedade racionalista de todo o tratado: a Lei é viva e cresce em pormenor, sem que o seu fundamento se mova.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado III (O mandamento e a revelação), cap. 7, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. O tema da ab-rogação foi vertido com sobriedade (ver a nota de contexto), como defesa filosófica da eternidade da Torá, sem epítetos contra qualquer tradição. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Devarim 33:4, Yirmiahu 31:35–36 e Malachi 3:22–23. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado III · O mandamento e a revelação · cap. 8

O que valida um profeta — e os versículos da ab-rogação

מַאֲמָר שְׁלִישִׁי · ח

Pode um milagre validar qualquer mensagem? Saadia responde que não: julga-se primeiro o que o profeta diz — pela razão e pela tradição fiel — e só então se pedem sinais; nenhum prodígio prova um absurdo. E relê, no seu contexto, os versículos que se invocavam para defender a ab-rogação da Torá.

Nota de contexto. Este capítulo responde a argumentos pela ab-rogação da Torá, incluindo leituras de certos versículos (Devarim 33:2, Yirmiahu 31:31) que figuram no debate histórico entre o judaísmo e outras tradições. Saadia responde de modo abstrato — sem nomear ninguém — e por via da exegese e da razão. Traduzimo-la com sobriedade, com respeito por todas as tradições de fé.
1

Depois desses sete argumentos, convém mencionar algo em que eles insistem: dizem que, assim como a causa de crer em Moshé foi o estabelecimento dos sinais e milagres, assim a causa de crer em qualquer outro que traga uma nova lei teria de ser, igualmente, sinais e milagres. E fiquei muito espantado ao ouvi-lo. Pois a causa de crermos em Moshé não foram os sinais e os milagres apenas. A causa de crermos nele — e em todo profeta — é esta: que ele primeiro nos chame àquilo que é adequado; e, ao ouvirmos a sua palavra e vermos que é adequada, pedimos-lhe então as provas; e, quando as estabelece, cremos nele. Mas, se ouvimos a sua alegação desde o início e vemos que não é adequada, não lhe pedimos milagres — pois não há milagre que prove o impossível.

ואחר אלה השבעה, אני רואה לזכור דבר שהם אומרים ירחבו בו הדברים והוא, שהם אומרים כמו שהיתה סבת האמין במשה, העמידו האותות והמופתים, כן חייב שתהיה הסבה להאמין בזולתו האותות והמופתים. ותמהתי בעת שמעי זה תמה גדול, הוא, שסבת האמיננו במשה, לא היתה האותות והמופתים בלבד, אבל סבת האמיננו בו ובכל נביא, שיקראנו תחלה אל מה שיכשר, וכאשר נשמע דברו ונראה אותו שיכשר, נבקש ממנו המופתים עליו, וכאשר יעמידם נאמין בו, ואם נשמע טענתו מתחלתה ונראה שלא תכשר, לא נבקש ממנו מופתים, כי אין מופת על נמנע.
2

O modo, nestes dois casos, é como o de Reuven e Shimon perante o juiz. Se Reuven alega algo possível — "tenho contra ele mil dinares" —, o juiz pede-lhe testemunhas; e, quando elas depõem, o dinheiro lhe é adjudicado. Mas, se alega algo impossível — "tenho contra ele o rio Tigre" —, a sua alegação é nula desde a raiz, pois o Tigre não está na posse de ninguém, e o juiz não pode pedir testemunhas sobre isso. Assim com todo o que se diz profeta: se nos disser que D'us vos ordena jejuar em tal dia, pedimos-lhe sinais, e, ao vê-los, cremos e jejuamos. Mas, se disser "o meu D'us vos ordena cometer adultério e roubar", ou que vos anuncia que trará outro dilúvio contra a promessa a Noach, ou que D'us criou os céus e a terra num ano, sem pensamento — não lhe pedimos sinal, porque nos chamou àquilo que nem a razão nem uma tradição fiel endossam.

והדרך באלה השני ענינים, כראובן ושמעון עמדו לפני הדין, ואם יטעון ראובן מה שאפשר כמוהו, כאלו אמר יש לי עליו אלף דינר יבקש ממנו הדיין עדים; וכאשר יעידו העדים יתחייב לו הממון. ואם יטעון עליו מה שאי אפשר, כאלו אמר יש לי עליו חדקל, תהיה טענתו מעקרה בטלה, שאין חדקל ברשות אדם, ולא יתכן שיבקש הדיין עדים על זה. כן הדרך עם כל טוען בנבואה, אם יאמר לנו שאלהים מצוה אתכם, שתצומו יום כך, נבקש ממנו אותות וכאשר נראה אותם נאמין ונצום. ואם יאמר אלהי יצוה אתכם, בנאוף ולגנוב, או שהוא מודיעכם שיביא מי המבול, או שברא השמים והארץ בשנה, בלי מחשבה, לא נבקש ממנו אות, מפני שקראנו למה שלא יכשירהו השכל, או הגדה נאמנת.
Nota — o que valida um profeta. Eis um princípio epistemológico de primeira ordem, e profundamente racionalista: o milagre não vem primeiro. Antes de pedir sinais, julgamos o conteúdo da mensagem — pela razão e por uma tradição fiel. Só uma mensagem já não-impossível merece que se lhe peça prova; e nenhum prodígio prova o impossível. A bela analogia do tribunal: o juiz pede testemunhas para uma reivindicação plausível (mil moedas), mas nem as ouve para uma absurda ("tenho contra ele o rio Tigre"). Quem diz "D'us ordena roubar" já se refutou — não há milagre que o salve.
3

Alguns acrescentaram a isto: "e se ele não nos der ouvidos, e nos mostrar sinais e milagres, e os virmos de modo inegável — que diremos então?" Respondi: diremos então o mesmo que dizemos de quem nos mostra sinais e milagres a pedir que abandonemos o que há na nossa razão do bem da justiça e da torpeza da mentira, e coisas semelhantes — nenhum prodígio valida o que a razão sabe ser falso. E ele o objetor viu-se forçado a dizer que a torpeza da mentira e o bem da justiça não são da razão, mas do mandamento e da proibição — e, do mesmo modo, a proibição de matar, de adulterar, de roubar. Ora, uma vez que recorreu a estas afirmações extremas, aliviou-me o trabalho, e já não precisei discutir com ele pois isso contradiz o que ele mesmo concedera.

וכבר הוסיף קצתם על המאמר הזה ואמר: אם לא ישגיח אלינו ויראנו האותות והמופתים ונראה בהכרח, מה נאמר בעת ההיא: עניתיו כי נאמר בעת ההיא, כאשר נאמר במי שיראה לנו לנו אותות ומופתים על עזיבת מה שיש בשכלנו מטוב הצדק, וגנות הכזב, והדומה לזה. והוצרך לומר, כי גנות הכזב וטוב הצדק, אינם מדרך השכל, אבל הם מדרך הצווי והאזהרה, וכן מניעת הרציחה והניאוף והניאוף והגנבה והדומה להם. וכיון שיצא אל אלה הדברים הקל טרחו מעלי ולא הוצרכתי לדבר עמו
Nota — o milagre não revoga a razão. A objeção tenta o caso-limite: e se o prodígio for inegável? Resposta: ainda assim, nenhum sinal nos faria abandonar o que a razão sabe — que a justiça é boa e a mentira, torpe. O objetor escapa dizendo que isto não é da razão, mas só do "mandamento" — mas, ao fazê-lo, contradiz o que já admitira (no cap. 2, Saadia mostrou que estas são mitsvot da razão), e o seu argumento desmorona sozinho.
4

Há ainda os que trazem um argumento pela ab-rogação da Torá a partir de versículos da Escritura; vou mencioná-los, com as suas palavras e a resposta. O primeiro: "e disse: o Senhor veio do Sinai, e raiou de Se'ir para eles; resplandeceu do monte Parã..." (Devarim 33:2). Ora, estes três nomes são todos nomes do monte Sinai. Pois cada monte, de início, fica defronte de cidades de certos nomes, e dividem-no por nomes — cada trecho seu chamado pelo nome da cidade que lhe fica em frente —, tal como o mar recebe vários nomes das terras que o ladeiam. Assim o monte Sinai é um monte defronte de Sinai; e Se'ir e Parã tocam-se um no outro, como está dito: "e partiram os filhos de Israel... do deserto de Sinai, e acamparam no deserto de Parã" (Bamidbar 10:12); e a prova de que Parã e Se'ir se tocam é "os horeus, no seu monte Se'ir, até El-Parã" (Bereshit 14:6). E achei, em alguns livros, que "Se'ir" alude ao monte Sinai, como em "Senhor, ao saíres de Se'ir" (Shoftim 5:4), e logo a seguir o cântico diz "este Sinai".

ומהם מה שמביא טענה על בטול התורה בפסוקים מהמקרא, והנני זוכרם וזוכר דבריו בהם, ומה שיש תשובה עליו, ותחלתם (דברים ל"ג ב') ויאמר י"י מסיני בא וזרח משעיר למו הופיע מהר פארן וגו'. ואלה השלשה שמות להר סיני. והוא שכל הר יהיה בתחלה כנגד עירות שמותם, פוסקים אותו בשמות, כמו שנקראת כל פסקה ממנו בשם העיר שכנגדה, כמו שהים אחר, והארצות אשר כנגדו מקנות אותו שמות רבים לעמת כל ארץ, כן הר סיני הוא הר נגד סיני, ושעיר ופארן נפגשים שניהם, הוא אמרו (במדבר י' י"ב) ויסעו בני ישראל למסעיהם ממדבר סיני ויחנו במדבר פארן, והראיה על שפארן ושעיר נפגשים, אמרו (בראשית י"ד ו') ואת החורי בהררם שעיר עד איל פארן. ומצאתי בקצת הספרים ששעיר רומזים בו אל הר סיני, כמו שאמר (שופטים ה' ד') י"י בצאתך משעיר, ואחר כך אמר זה סיני.
5

E houve quem acrescentasse: depois de dizer "resplandeceu do monte Parã" no passado, a Escritura diz "D'us vem de Teimán, e o Santo, do monte Parã" (Chavakuk 3:3) no futuro como se anunciasse uma revelação por vir. Mas tornou-se claro para mim que, num relato, algumas palavras vêm no passado e outras como se fossem futuras. Assim, ao enumerar os pecados dos nossos pais no deserto: "rebelaram-se junto ao mar, no Mar de Juncos... depressa esqueceram as suas obras... e cobiçaram uma cobiça no deserto" (Tehillim 106:7,13-14); e alguns os relatou no futuro: "fazem um bezerro em Chorev"; "abre-se a terra e engole Datan" (106:19,17) — como se futuros, sendo na verdade passados. Pois assim é o modo de quem agradece, dizendo "fulano me fará bem e me ajudará"; e assim o de quem se queixa, dizendo "fulano me roubará, me prejudicará, me oprimirá".

והוסיפו אנשים ואמרו, שהוא, אחר שאמר הופיע מהר פארן בלשון החולף אמר (חבק' ג' י') אלוה מתימן יבא וקדוש מהר פארן, בלשון העתיד. והתבאר לי שהמנין כשיבא, יהיו קצת המלות חולפות, וקצתם כאלו הם עתידות, כאשר מנה חטאות אבותינו במדבר (תהילים ק״ו:ז׳) וימרו על ים בים סוף מהרו שכחו מעשיו ויתאוו תאוה במדבר. וקצתם ספר עליהם בלשון עתיד (תהלים ק"ו ט' י') יעשו עגל בחורב, תפתח ארץ ותבלע דתן, כאלו הם עתידות, והם חולפות באמת. כי כן דרך המודה שיאמר פלוני ייטיב לי ויועילני. כן דרך המתרעם לומר פלוני יחמסני ויזיקני ויעשקני:
6

E vi pessoas perguntarem: quem é aquele de quem se diz "e um emissário é enviado entre as nações: levantai-vos, e levantemo-nos contra ela para a guerra" (Ovadiah 1:1)? E informei-as de que é Yechaziel, e que essa guerra foi contra Edom nos dias de Yehoshafat — pois Ovadiah viveu nos seus dias. Quando os filhos de Amon e de Moav vieram guerreá-lo no monte Se'ir (como se explica em Crônicas), Yehoshafat jejuou e orou ao seu D'us; e foi-lhe enviado Yechaziel, filho de Zecharyahu, que lhes disse: postai-vos firmes, e D'us vos salvará de Edom — "não é vossa esta peleja... ponde-vos, ficai parados e vede a salvação do Senhor" (II Crônicas 20:17). E o sentido de "levantai-vos" (kumu), nas palavras de Ovadiah, é o sentido de "ponde-vos, ficai" nas de Yechaziel; e, ao ouvirem dele "ponde-vos", deliberaram e entenderam que ele queria dizer pôr-se de pé para louvar e agradecer — "e tomou conselho com o povo e pôs cantores ao Senhor" (20:21). E com isso alcançou o favor do Criador, e D'us os salvou do inimigo, quando começaram a louvá-Lo e a agradecer-Lhe, como está dito "e, ao começarem o canto e o louvor..." (20:22). E tudo prevaleceu.

וראיתי אנשים שואלים, מי הוא זה שאומר עליו (עובדיה א' א') וציד בגוים שולח קומו ונקומה עליה למלחמה. והודעתים שהוא יחזיאל, וזאת המלחמה היתה לאדום בימי יהושפט כי עובדיה היה בימיו, וכאשר באו להלחם עמו בני עמון ומואב בהר שעיר, (כאשר הוא מפורש בדברי הימים.) צם יהושפט והתפלל אל אלהיו. כאשר הוא כתוב (דה"י ב' כ') ושלח אליו יחזיאל בעבור הגוים ההם, באמרו ויחזיאל בן זכריהו בן בניה בן יעיאל בן מתניה הלוי וגומר ואמר להם התיצבו אתם לצד ואלהים יצילכם מאדום. הוא אמרו לא לכם להלחם בזאת (דה"י ב' שם) התיצבו עמדו וראו את ישועת י"י. וענין קומו בדברי עובדיהו, הוא ענין התיצבו עמדו בדברי יחזיאל, וכאשר שמע ממנו התיצבו, נועצו בזה וחשבו שהוא רצה בעמידה להלל ולהודות, הוא אמרו (שם שם כ"א) ויועץ אל העם ויעמד משוררים לי"י. והפיק בזה רצון הבורא והצילם מן האויב, כאשר החלו להלל ולהודות לו, כמו שאמר (שם שם כ"ב) ובעת החלו ברנה ותהלה וגומר. והכל גבר חלף:
Nota — versículos lidos no contexto. Saadia relê, um a um, os versículos invocados pela tese da ab-rogação. "Raiou de Se'ir, resplandeceu de Parã" (Devarim 33:2) não fala de outras revelações: Sinai, Se'ir e Parã são nomes de um mesmo monte, que confinam. O "futuro" de Chavakuk 3:3 é apenas um uso poético do tempo verbal (como em Tehillim 106). E o "emissário" de Ovadiah 1:1 é, historicamente, o profeta Yechaziel, na guerra de Yehoshafat (II Crônicas 20). A leitura atenta do contexto dissolve a prova.
7

E achei, além destes, quem argumentasse a partir das palavras de Yirmiahu: "eis que vêm dias, diz o Senhor, em que firmarei com a casa de Israel e a casa de Yehudá uma nova aliança" (Yirmiahu 31:31). E disse-lhe: vê o que vem depois — pois o profeta já explicou que essa "nova aliança" é a própria Torá, ao dizer "pois esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: porei a minha Torá no seu interior..." (31:33). E ela não é "nova" por ser diferente da primeira aliança, mas por não se quebrar desta vez, como se quebrou na primeira — como diz: "a qual eles quebraram, ainda que eu fosse para eles um esposo" (31:32).

ומצאתי זולת אלה טוען בדברי ירמיהו (ל"א ל"א) הנה ימים באים נאם י"י וכרתי את בית ישראל ואת בית יהודה ברית חדשה. ואמרתי לו ראה מה שאחריו, כי כבר פירש שהברית הזאת החדשה היא התורה עצמה, באמרו (שם שם ל"ג) כי זאת הברית אשר אכרות את בית ישראל אחרי הימים ההם נאם י"י נתתי את תורתי בקרבם וגומר. ואיננה שבה שלא כברית הראשונה, אלא שלא תופר בפעם הזאת, באשר הופרה בראשונה, כאמרו (שם שם ל"ב) אשר המה הפרו את בריתי ואנכי בעלתי בם:
Nota — a "nova aliança". O versículo mais citado — a "nova aliança" de Yirmiahu 31:31 — responde-se com o próprio versículo seguinte: o profeta explica que essa aliança é a mesma Torá ("porei a minha Torá no seu interior", 31:33). "Nova" não significa diferente, mas indestrutível — uma aliança que, desta vez, não será quebrada. O conteúdo é o mesmo; o que muda é a sua permanência.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O que valida um profeta de verdade

Saadia corrige um equívoco comum: nem o próprio Moshé foi crido "por causa dos milagres apenas". A ordem é outra — primeiro pesa-se o que o profeta pede: se a mensagem é digna, consonante com a razão e com a tradição fiel, então os sinais a confirmam. Mas uma mensagem impossível ou imoral não se valida com prodígio nenhum, "pois não há milagre que prove o impossível". A analogia do juiz é límpida: pede-se prova para o plausível, não para o absurdo. O milagre confirma; não cria a verdade.

Um milagre não revoga a razão

E se o prodígio for inegável? Ainda assim, responde Saadia, nenhum sinal nos obrigaria a negar o que a razão conhece — que a justiça é boa e a mentira é torpe. O objetor tenta escapar alegando que estas verdades morais não são racionais, mas apenas "mandadas"; só que, com isso, contradiz o que ele próprio já admitira (no capítulo anterior, vimos que são mitsvot da razão). O argumento da ab-rogação refuta-se a si mesmo.

Versículos lidos no seu contexto

A segunda metade do capítulo é um exercício de exegese sóbria: os versículos invocados para "provar" a ab-rogação, lidos no contexto, não dizem o que se lhes atribui. "Se'ir" e "Parã" (Devarim 33:2) são nomes do próprio Sinai, montes que confinam; o "futuro" de Chavakuk é só um uso poético do tempo verbal; o "emissário" de Ovadiah é o profeta Yechaziel, num episódio histórico concreto; e a "nova aliança" de Yirmiahu é — pelo versículo seguinte — a mesma Torá, nova apenas por ser indestrutível. É a lição de método de todo o tratado: ler com atenção, no contexto, antes de concluir.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado III (O mandamento e a revelação), cap. 8, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. O tema da ab-rogação foi vertido com sobriedade (ver a nota de contexto), como exegese e argumento de razão, sem epítetos contra qualquer tradição. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Devarim 33:2, Bamidbar 10:12, Bereshit 14:6, Shoftim 5:4, Chavakuk 3:3, Tehillim 106, Ovadiah 1:1, II Divrei haYamim 20 e Yirmiahu 31:31-33. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado III · O mandamento e a revelação · cap. 9

Quando a Torá parece contradizer-se: dez casos resolvidos

מַאֲמָר שְׁלִישִׁי · ט

A Torá parece, às vezes, contradizer-se: irmãos que se casam, sacrifícios depois proibidos, uma ameaça que não se cumpre. Saadia resolve dez desses casos — e nenhum é ab-rogação: cada um é circunstância, condição ou leitura precisa. Depois mostra que "para sempre" significa, de fato, para sempre.

1

Depois destas discussões, achei que eles têm dúvidas tiradas da Escritura, das quais julgam ver a abolição de mandamentos e proibições. São muitas; mas apoiei-me em dez questões, e, pelas restantes, o leitor deste livro se orientará por elas. A primeira: o casamento dos primeiros homens com as suas irmãs (mais tarde proibido) — dizem ser ab-rogação. Mas não é: foi por necessidade. Pois entendemos que a união com a irmã já era proibida antes de Moshé — como vemos Avraham dizer a Sará "dize, peço-te, que és minha irmã" (Bereshit 12:13). Só que o casamento dos primeiros homens com as irmãs se deu por força da necessidade, pois não havia outros seres humanos; e, quando a descendência se alargou, cessou o pretexto da necessidade para quem o fizesse. Como quem come num dia de jejum por estar doente — ao sarar, cessa o seu pretexto; e como quem come carne de um animal morto no deserto — ao achar outra coisa, cessa o pretexto.

ואחרי אלה המאמרים מצאתי להם ספקות מן המקרא, הם חושבים שיראו מהם בטול צווי והזהרה, והם רבים ואשר נלוה אליהם יותר בהם, אבל סמכתי מהם על עשר שאלות, ומה שיבא מזולתם יתבונן בהם הקורא את ספרי זה; כי יגלו לו אפני הטעות בהם, והסברא אשר סברו בהם. ותחלתה לקיחת בני אדם את אחיותיהם ואומרים זה בטול, ואין זה בטול, אבל הוא לצורך. כי אנחנו חושבים שהאחות מנועה קודם משה, כמו שמצאנו אברהם אומר לשרה (בראשית י"ב י"ג) אמרי נא אחותי את. אבל לקיחת בני אדם את אחיותיהם היה בעבור ההכרח, כי לא היה מן המדברים זולתם. וכאשר רחב הזרע, נפסקה אמתלת ההכרח למי שעשה זה. כמי שיאכל ביום הצום בחליו, וכאשר ירפא, תפסק אמתלתו. וכמי שיאכל המתה במדבר, וכאשר ימצא זולתה, תסור האמתלה.
Nota — não é ab-rogação; é circunstância. Eis o método que percorre as dez questões: muitas "contradições" da Torá dissolvem-se ao se distinguir entre a lei e a circunstância. O casamento entre irmãos no início da humanidade não foi a lei a mudar, mas uma necessidade que depois cessou — como o doente que come no jejum e, sarando, volta à regra. A norma permanece; o que muda é a situação a que ela se aplica.
2

A segunda: Caim foi sentenciado, por matar Hevel, apenas a ser errante e fugitivo; e depois passou-se a sentenciar à morte todo assassino. Também isto não é ab-rogação: o Santo, bendito seja, só ordenou matar o assassino havendo juiz e testemunhas; e, como estes não existiam quando Caim matou Hevel, a morte não foi devida — e ele foi punido de outro modo. Repara que só depois disse a Noach: "quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado" (Bereshit 9:6). A terceira: ter ordenado, a princípio, que cada um oferecesse sacrifício, e depois proibi-lo a todos, exceto Aharon e os seus filhos. Também não é ab-rogação: a Escritura não diz que todos foram designados a oferecer; antes de Aharon, oferecia quem ocupava uma posição correspondente o primogênito, o chefe, mas quem não a tinha não devia oferecer — nem antes da escolha de Aharon, nem depois.

והשנית דן על קין בעבור הרגו הבל, נד ונע בלבד, ודן אחרי כן בהריגה כל רוצח. וזה ג"כ איננו בטול, כי הקב"ה לא צוה להרוג את הרוצח, כי אם בדיין ועדים, וכיון שלא נמצא ז בעת הרוג קין את הבל, לא נתחייב ההרג, אך ענשו בזולתו, הלא תראה שאמר לנח (בראשית ט' ו') שופך דם האדם באדם דמו ישפך. והשלישית מה שצוה בקרבן כל אדם, אחר כן מנעם כלם, חוץ מאהרן ובניו. וזה ג"כ איננו בטול, כי אין הכתוב אומר שכל בני אדם העמדו להקריב, אבל היה מקריב קודם אהרן, מי שהיה מעמד בכמו מקומו, אבל זולת המעמד לא היה לו להקריב קודם בחירת אהרן, ולא אחר בחירתו.
3

A quarta: oferecer o sacrifício no Shabat, depois de proibido nele o trabalho. Também não é ab-rogação — pelo contrário, reforça a recusa da ab-rogação: o sacrifício no Templo é anterior ao mandamento do Shabat, e o mandamento do Shabat não pode cancelá-lo (o que seria ab-rogação); por isso a Torá proibiu os demais trabalhos, exceto o sacrifício e a circuncisão, que lhe são anteriores. A quinta: o Criador disse a Avraham sobre Yitzchak "faze-o subir ali em holocausto" (Bereshit 22:2), e depois "não estendas a tua mão contra o moço, e não lhe faças nada" (22:12). Também não é ab-rogação — nem para nós, nem para eles: pois quem admite a ab-rogação não a admitiria antes de o mandamento ser cumprido ao menos uma vez (para não ser em vão). Na verdade, D'us ordenou a Avraham preparar o filho para a oferta; e, completada a preparação — mostrados a lenha e o fogo, e tomada a faca —, disse-lhe: "basta! não quis de ti mais do que isto".

והרביעית הקרבת הקרבן בשבת, אחר אסור המעשה בו. וזה גם כן איננו בטול, אבל הוא ממה שמאמץ דחות הבטול, כי הקרבן היתה קודם מצות השבת, ולא יתכן שתמנענה מצות השבת, ויהיה זה בטול, ואסרה שאר המעשים חוץ מן הקרבן והמילה הקודמים לה. והחמישית מה שאמר הבורא לאברהם על יצחק (בראשית כ"ב ב') והעלהו שם לעולה על אחד ההרים וגומר, ואחר כן אמר (שם שם י"ב) אל תשלח ידך אל הנער ואל תעש לו מאומה. וזה גם כן איננו בטול אצלנו ולא אצלם, כי מי שמכשיר הבטול, לא יכשירהו קודם שיקבל המצוה פעם אחת, שלא יהיה שוא, אבל צוה לאברהם שיזמן את בנו לקרבן, וכאשר נשלם ממנו הזמון, בהראות העצים והאש ולקיחת הסכין, אמר לו: דייך! לא רציתי ממך יותר מזה.
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A sexta: o Criador disse a Bilam, sobre os emissários de Balak, "não vás com eles" (Bamidbar 22:12), e depois "vai com os homens" (22:35). Também não é ab-rogação: os homens com quem D'us o proibiu de ir não são os homens com quem o mandou ir. Pois "Balak tornou a enviar príncipes, mais numerosos e mais nobres do que aqueles" (22:15); D'us proibiu-o de ir com os menores e mandou-o ir com os maiores, para realçar a futura grandeza do milagre — para que se dissesse que o Criador salvou Israel da mão de fulano, o homem importante. A sétima: o Criador disse a Chizkiyahu "morrerás, e não viverás" (Yeshayahu 38:1), e depois "eis que acrescento aos teus dias quinze anos" (38:5). Também não é ab-rogação: quando o Criador dirige uma ameaça ou repreensão ao seu servo, e o servo a ouve e se submete sob ela, afasta-se dele aquilo com que fora ameaçado — como sabemos do caso de Nínive, e de todo penitente que se humilha.

והששית מה שאמר הבורא לבלעם על שלוחי בלק (במדבר כ״ב:ל״ה י"ב) לא תלך עמהם, ואחר כן אמר לו לך עם האנשים. וזה גם איננו בטול, כי האנשים אשר מנעו ללכת עמם, אינם האנשים אשר צוהו בלכת עמם; כי אמר (שם שם ט"ו) ויוסף עוד בלק שלוח שרים רבים ונכבדים מאלה, ומנעו ללכת עם הפחותים וצוהו ללכת עם הגדולים, להוסיף בגדולתו, עד שיאמר הציל הבורא בני ישראל מיד פלוני האדם הגדול. והשביעית מה שאמר הבורא לחזקיהו (ישעיה ל"ח א') כי מת אתה ולא תחיה, אחר כן אמר לו (שם שם ה') הנני יוסף על ימימך חמש עשרה שנה. וזה גם כן איננו בטול מפני כשמבורא מצוה צווי איום או גערה אל עבדו, וכאשר ישמעהו העבד ותחת בו הגערה יסור ממנו מה שאיימו בו, וכמו שידענו מענין נינוה, וכל בעל תשובה ונכנע.
Nota — quando a ameaça é revogada. O caso de Chizkiyahu (e o de Nínive) toca um ponto já visto: a profecia de advertência existe para ser revogada pelo arrependimento. "Morrerás" não foi uma falsidade desmentida, nem uma "ab-rogação" — foi um aviso que cumpriu o seu fim: comoveu o coração, e a sentença afastou-se. Um decreto suspenso pela teshuvá não é a Lei a contradizer-se; é a Lei a funcionar.
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A oitava: "e tomei os levitas em lugar de todo primogênito dos filhos de Israel" (Bamidbar 8:18). Também não é ab-rogação: é do seu modo elevar a posição do seu servo e, quando este se rebela, rebaixá-lo — como pôs Adam no Éden e, ao pecar, o expulsou; trouxe os nossos pais à terra de Canaã e, ao pecarem, os exilou e dispersou; tudo o que é por via de castigo é assim. A nona: dizem que Yehoshua guerreou no Shabat (Yehoshua 6). Não é assim: não se menciona um combate a cada dia; a cada dia carregavam a Arca e tocavam os shofarot — atos permitidos no Shabat —, mas o dia em que houve o combate a queda da muralha não era Shabat. A décima: dizem que a "direção" da oração era, a princípio, voltada para o Tabernáculo, e depois transferida para o Templo. Também não é ab-rogação: a direção, de início, era para a Arca; enquanto esta esteve no deserto, a direção era ali; e, quando ela seguiu para Guilgal, Shiló, Nov, Givon e o Templo, a direção foi atrás dela — como se diz, "o efeito segue a sua causa".

והשמינית ענין (במדבר ח' י"ח) ואקח את הלוים תחת כל בכור בבני ישראל. וזה גם כן איננו בטול, כי ממנהגו להגדיל מעלת עבדו, וכאשר ימרה אותו ישפילנו. כמו שהשכין אדם בגן עדן, וכאשר חטא גרשו, והביא אבותינו לארץ כנען, וכאשר חטאו הגלם ופזרם, וכל מה שהוא על דרך העונש כן. והתשיעית אמרו (יהושע ו') כי יהושע נלחם בשבת. ואין הדבר כן, כי לא זכר בכל יום מלחמה, אבל היו בכל יום נושאים הארון ותוקעים בשופרות, ואלו המעשים מותרים בשבת, אבל היום הזה שבו היתה המלחמה לא היה שבת. והעשירית אמרו שהכונה בתחלה היתה נגד המשכן, ואחר כך העתיקה והפנה אותה אל בית המקדש. וזה גם כן איננו בטול, כי הכונה תחלה היתה מצות התחלתה כנגד הארון, ובעוד שהיה הארון במדבר, היתה הכונה שם, וכאשר נסע אל הגלגל ושילה ונוב וגדעון וב"ה, הלכה הכונה אחריו. וזהו מאמר האומר: שילך העלול אחר העולה:
6

E alguns deles examinaram a palavra "olam" ("para sempre"), dizendo que, no hebraico, ela se divide em vários sentidos. Dissemos: sim, tem três sentidos — um, cinquenta anos; outro, os dias da vida da pessoa mencionada; e o terceiro, todos os dias do mundo a eternidade. Ao aplicá-la ao mandamento do Shabat, os dois primeiros sentidos caem, e o último permanece. Pois vemos Yirmiahu — de uma era posterior à de Moshé, perto de oitocentos e cinquenta anos depois, e após muitas gerações de Israel — advertindo-os a guardar o Shabat e a não fazer nele trabalho: "e não tireis carga das vossas casas no dia do Shabat... e nenhum trabalho façais; antes, santificai o dia do Shabat, como ordenei a vossos pais" (Yirmiahu 17:22). Caídos o período de cinquenta anos e o tempo de vida daqueles homens a geração de Moshé, dos sentidos não resta senão "os dias do mundo".

ואנשים מהם דקדקו במלת עולם, ואמרו ראינוה בלשון עברי מתחלקת לחלקים. ואמרנו כן יש לה שלשה ענינים, אחד מהם חמשים שנה. והשני ימי הנזכר ההוא. והשלישי כל ימי עולם. וכאשר נראה את זה על מצות השבת, יבטלו השני ענינים, ויתקיים האחרון. כי ראינו את ירמיהו והוא אחר דור משה, קרוב לשמונה מאות וחמשים שנה, ואחר דורות רבים וכתות רבות מבני ישראל, מזהירם על שמירת יום השבת, ושלא יעשה בו מלאכה, כמו שאמר (י"ז כ"ב) ולא תוציאו משא מבתיכם ביום השבת. וכל מלאכה לא תעשו וקדשתם את יום השבת כאשר צויתי את אבותיכם. וכיון שבטל זמן החמשים, וזמן האנשים ההם, לא נשאר מן החלקים; כי אם ימי העולם.
7

E alguns nos perguntam sobre as palavras da tradição que ouvimos quanto à perpetuidade dos mandamentos da Torá "por todos os dias do mundo" — pensando que uma afirmação que um dia se disse poderá receber outra interpretação, para mudá-la contra nós. O nosso costume é dizer-lhe: existe no mundo alguma coisa verdadeira e clara, da qual se afaste toda outra interpretação e toda dúvida? Se disser que não, anula a verdade de tudo e torna tudo dúvida. E, se disser que sim, dizemos-lhe: nessa afirmação verdadeira, ouvimos as ordens de guardar os mandamentos da Torá. E vi entre eles quem objetasse: "e se os brâmanes vos disserem — 'recebemos de Adam que vistamos sha'atnez tecido de lã com linho e que aremos com boi e jumento juntos, e que não deveis aceitar as palavras de um profeta que os proíba, pois Adam nos disse que não seriam abolidos' —, que respondereis?" Estes — D'us te oriente! — são argumentos sem raiz; eles apenas os atribuem aos brâmanes. Na verdade, os brâmanes só alegam que tais coisas eram permitidas; e nós também admitimos que eram permitidas no tempo em que o foram. E a sua proibição aproxima-se da razão, pois o homem poderia abster-se delas por si, por um proveito que lhe advém. E, se um brâmane viesse alegar, para o futuro, o que supostamente alegaram no passado, não o escutariam — pois quem recebe a tradição só diz hoje o que disse ontem; não é como o pensador especulativo, que pode dizer "revelou-se-me hoje o que não alcancei ontem".

וקצתם שואלים אותנו, על מלות הקבלה, אשר שמענום בהתמדת מצות התורה כל ימי עולם, והוא חושב, כי מאמר שנאמר לו יסבור סברא אחרת לשנותו עלינו. ומנהגנו שנאמר לו, הימצא בעולם דבר אמתי מבואר הסתלק עמו כל סברא וכל ספק? ואם יאמר לא יבטל אמתות הדבר וישימהו כלו ספק. ואם יאמר כן, נאמר לו בדבור ההוא האמתי, שמענו הצווים לשמור מצות התורה. וראיתי מהם מי שאומר: אם יאמרו לכם הברהמי"ם אנחנו קבלנו מאדם הראשון, שנלבש שעטנז, ושנחרוש בשור ובחמור יחדיו, ואין לכם לקבל דברי נביא שיאסרם, כי אדם אמר לנו שלא יבטלו. ואלה, יישירך האלהים! טענות אין להם עקר, אבל הם טוענים אותם לברהמי"ם. אבל טוענים הברהמי"ם שהם מותרים בלבד, ואנחנו גם כן מודים שהיו מותרים בלבד, ואנחנו גם כן מודים שהיו מותרים בעת שהיו. והקרבת מניעתם בשכל, מפני שהיה אפשר לאדם להמנע מהם מצד עצמו, לתועלת שתגיענו. ואלו היה בא ברהמ"י לטעון לעתיד, מה שטענו להם, לא היו שומעין לו, כי המקבל איננו אומר בכל יום אלא מה שאמר באתמולו. ואיננו כמו החושב הנועץ, שאפשר לו לומר נגלה לי היום, מה שלא עמדתי עליו אתמול.
Nota de contexto — a tradição e a especulação. A objeção dos "brâmanes" é um foro lógico (uma hipótese sobre alegações concorrentes de tradição), não uma caracterização de qualquer fé — e Saadia até reconhece a posição real deles. O seu ponto é epistemológico e vale universalmente: quem transmite uma tradição fiel diz hoje o que recebeu ontem; já o especulador pode "descobrir" amanhã o contrário do que pensava. É por isso que uma tradição de massa, recebida e repetida sem mudança, é mais firme do que uma reinterpretação engenhosa. Traduzimos com sobriedade, com respeito por todas as tradições.
8

E agora — que D'us tenha misericórdia de ti! — depois de estas "ab-rogações" se afastarem de nós, resta o grande espanto: que não cumpríssemos estes mandamentos, pelos quais nos esforçámos e que trabalhámos por estabelecer! Não voltaria o esforço ao nada — como se disse da avestruz: "trata os seus filhos com dureza, como se não fossem seus; em vão é o seu labor..." (Iyov 39:16)? E seríamos como quem não tem saber nem entendimento, conforme está dito: "porque D'us a fez esquecer a sabedoria, e não lhe deu parte no entendimento" (Iyov 39:17). E é preciso guardar-se disto.

ועתה, ירחמך האל! אחר שסרו אלה הבטולים מעלינו, ובטלו התמה הגדול עלינו, שלא נקיים אלה המצות אשר יגענו והשתדלנו להעמידם, הלא תשוב היגיעה לריק, כמי שאמר עליה (איוב ל"ט ט"ז) תקשיח בניה ללא לה לריק יגיעה וגומר. ונהיה אז כמי שאין לו דעת ולא תבונה, כמו שאמר (איוב ל"ט י"ז) כי השה אלוה חכמה ולא חלק לה בבינה. וצריך להשמר מזה:

Sobre esta seção · עִיּוּן

Dez "contradições" que não são

O capítulo é um pequeno manual de leitura atenta. Saadia toma dez passagens em que a Torá parece anular-se a si mesma e mostra, uma a uma, que não há ab-rogação — apenas circunstância (o casamento entre irmãos, ditado pela necessidade da primeira geração), condição (Caim, julgado sem tribunal; a ameaça a Chizkiyahu, suspensa pelo arrependimento), ou leitura precisa (a Akeidá pedia o preparar, não o sacrificar; os "homens" de Bilam eram dois grupos distintos; a guerra de Yehoshua não foi no Shabat). A lei não muda; muda aquilo a que ela se aplica.

O sentido de "para sempre"

A objeção mais sutil ataca a própria palavra olam ("eterno"), que em hebraico pode significar também "cinquenta anos" ou "o tempo de uma vida". Saadia concede os três sentidos — e mostra que, no caso do Shabat, os dois primeiros são impossíveis: Yirmiahu, oito séculos e meio depois de Moshé, ainda ordena guardar o Shabat "como ordenei a vossos pais". Caídos os sentidos breves, resta só "todos os dias do mundo". A filologia, lida no contexto histórico, confirma a eternidade.

A tradição não muda de ideia

O fecho distingue dois modos de saber. Quem recebe uma tradição fiel diz hoje exatamente o que recebeu ontem; quem especula pode anunciar amanhã o oposto do que pensava. Por isso uma tradição de massa, transmitida sem variação, é firme onde a reinterpretação engenhosa é frágil. E a conclusão é quase um apelo: dissolvidas as supostas "ab-rogações", seria um espanto — um esforço lançado ao vento — abandonar agora os mandamentos que tanto trabalho custou estabelecer.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado III (O mandamento e a revelação), cap. 9, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. A hipótese dos "brâmanes" foi vertida com sobriedade (ver a nota), como foro lógico, sem juízo sobre tradição alguma. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Bereshit 12:13, 9:6 e 22:2,12; Bamidbar 22:12,15,35 e 8:18; Yeshayahu 38:1,5; Yehoshua 6; Yirmiahu 17:22; e Iyov 39:16-17. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado III · O mandamento e a revelação · cap. 10 (conclusão)

Doze últimas dúvidas — e o fecho do Tratado III

מַאֲמָר שְׁלִישִׁי · י

Para fechar o tratado, Saadia reúne doze últimas dúvidas — de discrepâncias entre versículos a perguntas sobre os sacrifícios, a circuncisão, a novilha vermelha e "Azazel" — e mostra que cada uma se desfaz à luz da razão. Entre elas, duas joias racionalistas: o Templo não é necessidade de D'us, e "Azazel" não é um demônio, mas um lugar.

1

Depois de tratar da ab-rogação, e de mencionar as confusões que sobem ao coração — por causa da morte dos profetas, do seu comer e beber, do casar-se e da violência que sobre eles recai —, e de tratar dos relatos que parecem aplicar-se ao Criador (a recusa da corporificação, a questão da sabedoria, do poder e dos atributos), vejo que devo acrescentar doze pontos. Penso que, se não falar de cada um, os corações se confundirão e a fé se arruinará; e, ao esclarecê-los, cai o domínio das dúvidas, e os corações purificam-se, como se purificaram dos primeiros. O primeiro: talvez alguns hesitem em apoiar-se neste livro, por nele não estarem explicados os pormenores dos mandamentos. Digo: este não é o único canal da nossa Torá; temos, além dele, outros dois — um ao seu lado, o manancial da razão; e outro depois dele, a fonte da tradição. O que não acharmos aqui, completam-no os mandamentos, na sua quantidade e na sua qualidade, por esses canais.

ואחרי אשר דברתי בעניני הבטול במה שזכרתיו, וזכרתי הערבובים העולים על הלבבות; בעבור מות הנביאים ואכילתם ושתיתם ומשגלם והחמס העובר עליהם, להבר את הלבבות אשר כמעט שיפסדו בעבורם. וזכרתי עוד מהספורים הנופלים על הבורא, בהרחקת הדמות, ושער החכמה והיכולת והתארים, אשר אם הייתי סובלם, הייתי ירא שיכפרו בני אדם. אני רואה שאחבר אליהם שנים עשר ענינים, אני חושב; שאם לא אדבר על א' מהם, יתבלבלו לבות בני האדם, ותפסד אמונתם. וכאשר נבארם, יסוד שלטון ספקותם, ויברו הלבבות מהם, כאשר התבררו מן הראשונים. ואומר: אולי קצת בני אדם מקצרים להחזיק בספר הזה, בעבור שאין פרושי המצות מבוארים בו. ואומר: כי איננו לבדו המשך לתורתינו, אך יש לנו זולתו שני משכים אחרים. אחד מהם לנפיו, והוא מבוע השכל. והשני אחריו, מוצא הקבלה. ומה שלא מצאנוהו בהם והשלימו בה המצות בכמותם ואיכותם בזה.
Nota — este livro é filosofia, não um código. Saadia abre o fecho com uma definição preciosa do seu próprio projeto: Emunot veDeot não substitui a Lei prática. A Torá chega-nos por três canais — este livro (os fundamentos, pela razão), e ainda o "manancial da razão" e a "fonte da tradição", que juntos dão os pormenores dos mandamentos (a halachá). Filosofia e halachá não competem: são canais distintos de uma só Torá.
2

O segundo: talvez alguém hesite por julgar haver uma contradição — como quando em Shmuel se diz que "Israel era de oitocentos mil homens" (II Shmuel 24:9), e em Crônicas "todo o Israel era de um milhão e cem mil" (I Crônicas 21:5). Digo: cerca de trezentos mil estavam inscritos no registo do rei — vinte e quatro mil por mês (I Crônicas 27:1) —, e o autor de Shmuel omitiu de uma contagem os já inscritos no exército, que foram contados na outra. O terceiro: talvez o leve a duvidar o pensar que há ali uma afirmação falsa — que o filho seria dois anos mais velho que o pai: Yehoram ben Yehoshafat morreu aos quarenta, e Achazyahu, seu filho, o sucedeu; e em Reis (II Reis 8:26) está escrito que tinha vinte e dois anos, e em Crônicas (II Crônicas 22:2), quarenta e dois. Digo: os vinte e dois contam a sua vida, e os quarenta e dois, a vida da casa de sua mãe — mencionada porque foi por causa dela que Achazyahu morreu. E, se alguém objetar "como atribuir o filho a uma contagem anterior à sua existência?", investiguei o caso: um de Israel pedia um filho e fazia um voto anos antes de lhe ser concedido, e, ao recebê-lo, chamava-o "filho do meu voto" (bar nedarai) — como em "que direi, meu filho? e que, filho do meu ventre? e que, filho dos meus votos?" (Mishlei 31:2). Assim os que buscam a verdade aprofundam-se, até que o caminho se lhes aclare.

והשני אולי אחד מקצר מהחזיק בו, בעבור שחושב שיש בו סתירה, כאמרו בשמואל (ש"ב כ"ד ט') ויהי ישראל שמונה מאות אלף איש ובדברי הימים (א' כ"א ה') ויהי כל ישראל אלף אלפים ומאה אלף איש. ואומר כי קרוב לשלש מאות אלף היו כתובים בספר המלך ארבעה ועשרים אלף לכל חדש, כמו שאמר (שם כ"ז א') לכל חדשי השנה המחלוקת האחת ארבעה ועשרים אלף, והפילו מן הנבואה האחת הכתובים, ונכתבו באחרת. השלישי אולי יביאהו לזה מחשבו שיש בו הגדה שהיא שקר, שיהיה הבן גדול מן האב שנתים, כי יהורם בן יהושפט מת והיו לו ארבעים שנה, ועמד אחזיה בנו תחתיו, ונכתב במלכים (ב' ח' כ"ו) שהיו לו שנים ועשרים שנה, ובדברי הימים (ב' כ"ב ב') שנים וארבעים שנה. ואומר כי מנין שנים ועשרים שנה לחייו, ומנין השנים וארבעים שנה לחיי אמו, והיתה העלה בזה כי בעבורה מת. ואם יתבענו תובע: איך ייחסו הבן אל מנין שהיה קודם הויתו? והנה חקרתי על ענין זה, ומצאתיו שיהיה אחד מבני ישראל מבקש הבן ונודר נדר קודם שיוחן אותו בשנים, וכאשר יוחן אותו יקראהו בן נדרי, כמו שאמר (משלי ל"א ב') מה ברי ומה בר בטני ומה בר נדרי. וכן מעמיקים מבקשי האמת על הענינים עד שיתברר להם הדרך.
3

O quarto: talvez alguém se apresse a objetar sobre os sacrifícios — quer pelo abate dos animais, quer pela queima do sangue e da gordura. Digo: o Criador decretou a morte sobre todo ser vivo, fixou a cada homem os seus dias e fixou a medida da vida dos animais até o momento do abate — pondo o abate em lugar da morte natural. E, se há no abate uma dor maior do que a da morte, Ele o sabe, e seria então justo dar ao animal compensação por essa dor — e isto dizemos se a dor adicional se estabelecer pela razão, não por mera alegação de profecia. Quanto à queima do sangue e da gordura, a Torá já explicou que isto foi posto para que o homem contemple: pois a nossa alma habita no sangue, como está dito "porque a alma da carne está no sangue" (Vayikrá 17:11). E, ao vermos isto, voltamos à nossa alma e dizemos: não continuemos a pecar, para que não se derrame o nosso sangue nem se queime a nossa gordura — como vemos acontecer ao animal.

והרביעי אולי ימהר ממהר בעבור מצות הקרבנות, אם לשחוט הבהמות או להקטרת הדם והחלב. ואקרב הענין הזה ואומר: כי הבורא גזר על כל בעלי חיים במות, ושם לכל אדם ימי חייו, ושם מדת חיי הבהמות לעת שחיטתה, ושם השחיטה במקום המות. ואם יש בשחיטה צער יותר על צער המות, הוא היודע זה, וראוי אז לתת להם שעור תמורת הצער ההוא. ונאמר זה, אם תתברר התוספת בשכל לא בנבואה. אבל הקטרת הדם והחלב כבר בארה התורה שהושם זה, שיתבונן האדם בו, כי נפשותינו משכנם הדם, וכמו שאמר (ויקרא י"א) כי נפש הבשר בדם הוא. וכאשר נראה זה נשוב אל נפשנו לאמר: לא נוסיף לחטא, שלא ישפכו דמנו וישרפו חלבנו, כאשר אנחנו רואים.
4

O quinto: talvez alguém pense: como pôs o Criador a sua luz entre os homens, e deixou os anjos puros sem ela? Dizemos: e quem te disse que Ele os deixou sem luz? É possível que entre eles tenha posto o dobro da que pôs entre os homens — tanto mais que a Escritura diz "D'us é grandemente temido no conselho dos santos, e terrível acima de todos os que o cercam" (Tehillim 89:8). O sexto: talvez alguém se admire da obra do Tabernáculo e diga: que tem o Criador com uma tenda e um véu, lâmpadas acesas, uma voz em canto, pão assado, um bom aroma, oferta de farinha, vinho, óleo e frutos? Digo, e em D'us me amparo: tudo isto é dos modos do serviço (avodá), não da Sua necessidade — pois a razão já decidiu que Ele de nada precisa, e que toda necessidade vem a Ele. Antes, Ele quis que os seus servos O servissem com o bem que têm; e o bem que têm é a carne, o vinho, a farinha, o incenso, o óleo, as coisas agradáveis; e trazem deles um pouco, conforme a sua capacidade, e Ele os retribui com muito, conforme a Sua — "honra o Senhor com os teus bens... e os teus celeiros se encherão de fartura" (Mishlei 3:9-10). E livra-os de males de que nenhum outro os livraria, por causa desse serviço — "oferece a D'us ação de graças... e invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei" (Tehillim 50:14-15). E os servos honram o lugar daquela luz, chamada Shechiná, com os seus bens, e Ele os retribui mostrando-lhes a profecia a partir daquele Tabernáculo — "e ali me encontrarei com os filhos de Israel, e o lugar será santificado pela minha glória" (Shemot 29:43); e ele torna-se também onde se ouve a oração da nação em toda angústia, como Salomão relatou ao construir o Templo, e o Criador lhe disse "ouvi a tua oração e a tua súplica" (I Reis 9:3).

והחמישי אולי חושב יחשוב: איך השכין הבורא אורו בין בני אדם והניח המלאכים הטהורים. ונאמר ומי הודיעך שהניח המלאכים הטהורים בלא אור? כי אפשר, שכבר השכין הבורא ביניהם מאורו כפלים ממה ששמו בין בני אדם, כל שכן שהכתוב אמר (תהל' פ"ט ח') אל נערץ סוד קדושים רבה ונראה על כל סביביו, רוצה לומר: מי שהוא סביב האור ההוא. והששי אולי יתמה ממעשה המשכן ויאמר: מה לבורא לאהל ולמסך, ולנרות מודלקות, ולקול נשמע לנגון, וללחם אפוי, ולריח טוב, ולמנחת סולת ויין ושמן ופירות, והדומה לזה? ואומר ובאלהים אעזר, כי אלה כלם מדרכי העבודה, לא מדרך הצורך. כי כבר דן לו השכל שאיננו צריך אל דבר, אבל צורך הכל אליו. אך כוון שיעבדוהו עבדיו מן הטוב שיש להם; והטוב מה שיש להם, הבשר והיין והסלת והקטרת והשמן והדברים הערבים, ויביאו מהם דבר מועט, כפי יכלתם, ויגמלם הוא בדבר רב כפי יכלתו, כמו שאמר (משלי ג' ט') כבד את י"י מהונך וגו' וימלאו אסמיך שבע וגומר. ויצילם מרעות שלא יצילם אחר מהם זולתו, בעבור העבודות ההם, כמו שאמר (תהלים נ' י"א) זבח לאלהים תודה ושלם לעליון נדריך וקראני ביום צרה אחלצך וגו'. ויכבדו משכן האור ההוא, שנקרא שכינה, מממונם בזהב וכסף ובאבנים היקרים ושאר הדברים הנכבדים, ויגמלם על זה, שיראה להם הנבואה מן המשכן ההוא, כמו שאמר על המשכן (שמות כ״ט:מ״ג מ"ג) ונועדתי שמה לבני ישראל ונקדש בכבודי. וכן ישוב מקום לשמוע תפלת האומה וכל צרה שתמצאם, כאשר ספר שלמה בבנותו הבית משערי שמיעת התפלות, ואמר לו הבורא (מ"א ט' ג') שמעתי תפלתך ואת תחנתך אשר התחננת לפני.
Nota — o Templo não é necessidade de D'us. Eis um princípio racionalista central, e Saadia o crava: D'us de nada precisa — "toda necessidade vem a Ele". O Tabernáculo, com as suas lâmpadas, pães e aromas, não supre uma carência divina; é um modo de relação. O homem oferece um pouco do seu bem; D'us retribui com muito — com a Sua proteção, a Sua Presença, a profecia e a oração ouvida. O culto não alimenta D'us; eleva quem o presta.
5

O sétimo: alguém pensa, sobre certos mandamentos: como é que o homem, com o corpo na sua criação completa, não é íntegro, e, ao cortar-se dele algo conhecido, torna-se íntegro? Refiro-me à circuncisão (milá). Esclareço: "íntegro" é aquilo em que não há nem acréscimo nem falta; o Criador criou este membro como um acréscimo no homem — e, ao cortá-lo, o acréscimo é removido, e ele permanece íntegro. O oitavo: alguém pensa, sobre a novilha vermelha (pará adumá): como é que o seu mandamento purifica os impuros e ao mesmo tempo torna impuros os puros que dela se ocupam? Dizemos: não é estranho que uma só coisa produza dois efeitos opostos, conforme o corpo que toca. Pois vemos o fogo derreter o chumbo e coalhar o leite; a água umedecer uma madeira e secar outra; o bom alimento aproveitar ao faminto e prejudicar o saciado; o remédio precioso curar o doente e prejudicar o são. Não é, pois, estranho que algo purifique o impuro e torne impuro o puro.

והשביעי שיחשוב בחלקי המצות: איך יהיה האדם בעוד גופו בבריאתו השלמה איננו תמים, וכאשר יכרות ממנו דבר ידוע, יהיה תמים; רצוני בזה: המילה? ואבאר כי הדבר השלם הוא, אשר אין בו לא תוספת ולא חסרון, וברא הבורא זה האבר תוספת באיש, וכאשר יכרתנו תסור התוספת, וישאר שלם. והשמיני שיחשב בענין פרה אדומה: איך היתה מצותה שתטהר הטמאים ותטמא הטהורים? ונאמר איננו דבר זר שיפעל דבר אחד שני פעלים זה הפך זה, בערך על הגוף הפוגע בו. כי אנחנו רואים, האש מתכת העופרת, ומקפיאה החלב, ונראה המים מרטיב עץ הארז ומנגב העץ הנקרא אלגמי"ז ונמצא המאכל הטוב מועיל הרעב, ומזיק השבע. ונמצא הרפואה החשובה תועיל לחולה, ותזיק לבריא. ואיננו זר שיהיה דבר מטהר הטמא, ומטמא הטהור.
6

O nono: o sacrifício que ofereciam a Azazel no Dia da Expiação — pois alguns imaginaram que Azazel fosse o nome de um demônio (shed). Digo: Azazel é o nome de um monte, como se vê noutro lugar — "Amatzyahu feriu Edom no Vale do Sal... e tomou o rochedo (Sela) em combate, e chamou-lhe Yokte'el até hoje" (II Reis 14:7); e do mesmo modo Yavne'el e Yirpe'el — todos são nomes de lugares. E, dos dois bodes, um ofereciam-no pelos sacerdotes, no Templo; e o outro, pela multidão, fora do Templo, por via de distinção. Quanto ao lançar das sortes — que parece o mais estranho —, esclareço: não é por haver um destinatário diferente um outro "deus"!; ambos são oferta a um só D'us. O lançar das sortes é apenas pela diferença daqueles em favor de quem se oferece — os sacerdotes e o restante de Israel; e convém lançá-las primeiro, para que, tendo cada um o seu, o ofereça então em favor da sua própria alma, com a clareza de que é a sua porção.

והתשיעי הקרבן אשר היו מקריבים לעזאזל ביום הכיפורים, כי כבר נדמה לבני אדם שהוא שם שד. ואומר: כי עזאזל שם הר, כמו שאמר במקום אחר (מ"ב י"ד ז') הוא הכה את אדום בגיא מלח עשרה אלפים ותפש את הסלע במלחמה ויקרא שמה יקתאל עד היום. וכן יבנאל וירפאל הכל מקומות. והיה אחד משני השעירים מקריבים אותו על הכהנים במקדש, והאחר מקריבים אותו על ההמון חוץ למקדש, על דרך היתרון. אבל ענין הפלת הגורלות אשר הוא יותר זר ממה שיש בענין. אבאר: כי אין זה לשנוי המוקרב לו, אך הם שניהם קרבן לאלוה אחד. אך הפלת הגורלות בעבור שנוי המוקרב בעדם, והם כהנים וישראל. וראוי שיפילו גורלות תחלה, וכאשר יהיה לכל אחד שלו, אז יקריב אותו בעד נפשו בבירור שהוא קנין לו.
Nota — "Azazel" não é um demônio. Contra a imaginação popular, Saadia é categórico: Azazel é um topônimo (um monte/rochedo), como Yokte'el ou Yavne'el — não o nome de um "demônio". E o ponto decisivo: os dois bodes são oferta a um só D'us; o sorteio não destina um deles a "outro poder", mas apenas reparte em favor de quem cada um é oferecido. É a mesma recusa rigorosa de qualquer "segundo poder" que percorre todo o tratado da unidade divina.
7

O décimo: objeta-se sobre a novilha de pescoço quebrado (eglá arufá): como se expia ao povo um pecado que não cometeu? — pois o trecho começa "se for achado um morto... e não se souber quem o feriu" (Devarim 21:1). Digo: assim como é justo castigar o homem por fazer o que não devia, é justo castigá-lo por deixar de fazer o que devia. Estes habitantes, se tivessem posto guardas e rondas na cidade, saber-se-ia quem o feriu; e, por não o terem feito, incorreram numa pena — não só no valor daquele animal, mas também na proibição de semear em parte dos seus campos. O décimo primeiro: alguém que vê a nação que se apega a esta Torá pobre e desprezada. Dizemos: se D'us tivesse dado ao povo da Torá uma soberania permanente, os que negam diriam que ele serve o seu D'us apenas para preservar os próprios interesses — como sabes que disseram a respeito de Iyov Jó. E o próprio povo diria que não O serviu por Ele, visto que Ele o humilhou e não lhe deu reino. Mas o Criador exaltou aqueles outros povos, e estes não creram — e a acusação contra eles permanece; e humilhou estes Israel, e não O negaram — e o juízo favorável é deles, como está dito: "não voltou atrás o nosso coração, nem se desviaram os nossos passos do teu caminho" (Tehillim 44:18-19).

והעשירי אומר על עגלה ערופה איך יכופר בה לעם עון שלא עשוהו, כי כבר הקדים בתחלת הענין (דברים כ"א א') כי ימצא חלל לא נודע מי הכהו? ואומר: כמו שראוי ליסר האדם על שותו, מה שאין ראוי לעשותו, כן ראוי ליסרו על עזבו לעשות, מה שראוי לעשותו. ואלה הנזכרים, אילו היו מעמידים שומרים וסובבים בעיר, היה נודע מי הכהו, וכאשר לא עשו כן, התחייבו בעונש, ולא בשיעור דמי הבהמה ההיא בלבד, אך במניעותם מן הזריעה בקצת שדותם. והאחד עשר שהוא רואה האומה המחזקת בתורה הזאת דלה ונקלה? ונאמר: אלו שם לאנשי התורה המלכות התמידה, היו אומרים עליהם הכופרים, כי אינם עובדים אלהיהם כי עם לשמירת תאותם, וכאשר ידעת שאמרו על איוב. והיו עוד אומרים על נפשם, כי לא עבדו בעבור שהשפילם והזילם, ולא נתן להם מלכות, והגדיל הבורא אלה ולא האמינו, ונתקיימה עליהם הטענה, והשפיל אלה ולא כפרו בו, והתחייב הדין להם, וכמו שאמרו (תהל' מ"ב י"ט) ולא נסוג אחור לבנו ותט אשורנו מני ארחך.
Nota — a pobreza como prova da fé. A objeção é a de sempre: se esta é a verdadeira Torá, por que o seu povo é "pobre e desprezado"? Saadia inverte-a com elegância. Se Israel prosperasse sempre, dir-se-ia que serve a D'us pelo lucro — a mesma acusação que o adversário lançou contra Iyov. É justamente por servir na humilhação, sem recompensa visível, que a sua fé se prova desinteressada: "não voltou atrás o nosso coração".
8

O décimo segundo: alguém que não achou na Torá recompensa nem castigo no mundo vindouro, mas só a recompensa terrena. Digo: já dediquei a este assunto um tratado à parte — o Tratado IX —, no qual esclarecerei tudo o que é preciso sobre esta questão, com a ajuda do Criador, bendito seja. Conclui-se aqui o Tratado III — "O mandamento e a revelação".

והשנים עשר כי לא מצא בתורה גמול ולא עונש בעולם הבא, אבל מצא בה הגמול העולמי בלבד? ואומר כבר יחדתי לזה הענין מאמר בפני עצמו הוא המאמר התשיעי, אבאר בו כל מה שצריך אליו בענין הזה, בעזרת הבורא יתברך:

Sobre esta seção · עִיּוּן

Um livro de filosofia, não um código

Saadia começa o fecho situando a sua própria obra: Emunot veDeot trata dos fundamentos, não dos pormenores práticos. Quem procurar nele as regras da halachá não as encontrará — e nem deve: a Torá chega por três canais, este livro (a razão) ao lado da tradição, e juntos completam o todo. É uma divisão de trabalho, não uma lacuna.

Por que há sacrifícios — e por que "Azazel" não é demônio

Duas das doze respostas brilham pela sua sobriedade racionalista. Sobre o Templo: D'us de nada precisa — a tenda, os pães e os aromas não suprem uma carência divina, mas são um modo de relação, em que damos um pouco do nosso bem e Ele retribui com a Sua Presença. E sobre Azazel: não é um "demônio", mas um topônimo; os dois bodes do Yom Kippur são oferta a um D'us, e o sorteio apenas reparte em favor de quem cada um é trazido. A mesma firmeza contra qualquer "segundo poder" que rege todo o livro.

A pobreza de Israel, e o fecho do Tratado III

A penúltima dúvida toca a ferida do exílio — por que o povo da Torá é humilhado? E a resposta é uma teodiceia da fé desinteressada: servir a D'us sem recompensa visível é o que prova que não se O serve por interesse (como insinuara o adversário de Iyov). A última dúvida — a do mundo vindouro — Saadia remete ao Tratado IX. Com isso encerra-se o Tratado III, "O mandamento e a revelação": dos dois tipos de mitsvá à necessidade dos profetas, da verdade da tradição à eternidade da Torá, e às dúvidas que, uma a uma, se dissolvem diante da razão.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado III (O mandamento e a revelação), cap. 10 — o capítulo que encerra o Tratado III —, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a II Shmuel 24:9; I Divrei haYamim 21:5 e 27:1; II Melachim 8:26 e 14:7; II Divrei haYamim 22:2; Mishlei 31:2 e 3:9-10; Vayikrá 17:11; Tehillim 89:8, 50:14-15 e 44:18-19; Shemot 29:43; I Melachim 9:3; e Devarim 21:1. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado IV · Obediência, rebeldia e livre-arbítrio · Introdução

O ser humano, o alvo da criação

מַאֲמָר רְבִיעִי · בַּעֲבוֹדָה וְהַמֶּרִי · הַקְדָּמָה

Entre tantas criaturas, qual é o alvo da criação? Saadia abre o Tratado IV com uma resposta elegante: o precioso fica sempre protegido no centro — a semente nas folhas, a gema no ovo, o coração no peito —, e, na criação inteira, esse centro é o ser humano. Posto isto, o tratado poderá perguntar: e o que se espera dele?

1

Disse Yehudá ben Shaul Ibn Tibbon, o tradutor; disse o autor Saadia: abro este tratado com uma introdução, dizendo que, embora vejamos que as criaturas são muitas, não devemos ficar perplexos quanto a qual delas é o alvo da criação — quero dizer: quem é. Pois há uma porta natural pela qual nos ficará claro quem é o alvo de todas as criaturas. E, ao investigarmos essa porta, achamos que o alvo é o ser humano.

אמר יהודה בן שאול, אמר המחבר: אני פותח למאמר הזה הקדמה שאומר, שאף על פי שראינו הברואים רבים, אין ראוי שנהיה נבוכים במכוון מהם; רצוני לומר: מי הוא. כי הנה שער טבעי יתבאר לנו בו מי הוא המכוון בכל הברואים. וכאשר נחקור בשער ההוא נמצא המכוון הוא האדם.
2

Eis a porta: o costume e a arte da construção colocam toda coisa preciosa no meio das coisas que não são tão preciosas quanto ela. Comecemos pelo menor dos exemplos, e digamos: a semente está no meio de todas as folhas — pois a semente é mais preciosa do que elas, já que o brotar da planta e a sua forma vêm dela.

והוא, כי המנהג והבניה, משימים כל דבר נכבד, באמצע הדברים אשר אינם נכבדים כמוהו. ונתחיל מהקטן שבדברים ונאמר: כי הגרגיר ממוצע בתוך כל העלין, והוא שהגרגיר יותר נכבד מהם, כי צמח הצמח ותכונתו ממנו.
3

E o mesmo se dá nas árvores que delas crescem: se o que há de precioso é o fruto comestível, ele estará dentro, como na amêndoa; e, se o precioso está no caroço, o caroço estará no meio do fruto — e as pessoas nem se voltam para a polpa, deixando-a por fora, para com ela proteger a semente.

וכן מה הצומחים ממנו האילנות, אם יהיה הוא המאכל, יהיה בתוך הפרי כמו השקד, ואם יהיה בגרעינו, יהיה הגרעין ממוצע בתוך הפרי, ולא יפנו אל המאכל ויעזבוהו חוצה לשמרו.
4

E assim a gema está no meio do ovo, pois dela vem o pinto. E assim o coração do homem está no meio do peito, por ser a morada da alma e do calor natural. E assim a pupila está no meio do olho, pois nela está a visão. E, ao vermos que isto se dá na maioria das coisas —

וכן חלמון הביצה היא הממוצע בה, כי ממנה יהיה האפרוח. וכן לב האדם הוא ממוצע בתוך חזהו, מפני שהוא משכן הנפש והחום הטבעי. וכן הרוח הרואה באמצע העין, מפני שהראות בו, וכאשר ראינו הדבר הה נוהג ברוב הדברים,
Nota — o precioso fica no centro. O argumento de Saadia é uma cadeia de analogias do mundo natural: aquilo que é mais precioso tende a ficar protegido no meio — a semente entre as folhas, a gema dentro do ovo, o coração no peito, a pupila no olho. É um princípio de leitura da natureza: o centro guarda o essencial. Dele Saadia vai inferir qual é o "centro" de toda a criação.
5

— e ao ver eu a Terra no meio dos céus, com as esferas a rodeá-la por todos os lados, ficou estabelecido para nós que o alvo da criação está na Terra. Depois, olhámos para todas as suas partes: vimos a poeira e a água, ambas inanimadas; achámos os animais, sem fala; e não restou senão o ser humano. E tornou-se claro para nós que ele é, sem dúvida, o alvo da criação.

וראיתי הארץ באמצע השמים, והגלגלים סובבים אותה מכל צדדיה; התקיים אצלנו, כי המכוון בבריאה הוא בארץ. ואח"כ הסתכלנו בכל חלקיה, וראינו העפר והמים שניהם דומם, ומצאנו דבהמות בלתי מדברים; ולא נשאר כי אם האדם. והתברר לנו כי הוא הענין המכוון בלי ספק.
Nota — a ciência de então, o sentido que permanece. Saadia raciocina com a astronomia do século X — a Terra "no meio dos céus", com as esferas em volta. A cosmologia mudou: hoje sabemos que a Terra não é o centro físico do universo. Mas o argumento não depende disso. O que Saadia quer dizer é que, entre tudo o que existe, o ser humano — o único capaz de fala, de razão e de escolha moral — é o propósito da criação. Esse ponto não se mede em quilômetros: mede-se em valor. (O próprio Rambam distinguia a ciência da sua época da verdade perene da Torá.)
6

E investigámos os livros, e neles achámos a palavra do Criador: "eu fiz a terra, e criei o homem sobre ela" (Yeshayahu 45:12). E vê-se que, desde o início, a Torá relatou todas as criaturas e, ao completá-las, disse: "agora, façamos o homem" (Bereshit 1:26) — como quem constrói um palácio, o dispõe e o prepara, e só depois traz para dentro o seu dono.

ודרשנו הספרים ומצאנו בהם מאמר הבורא (ישעיה מ"ה י"ב) אנכי עשיתי ארץ ואדם עליה בראתי. אבל מתחלת התורה ספר כל הברואים, וכאשר השלימם אמר: (בראש' א' כ"ו) עתה נעשה אדם, כמי שבונה ארמון ומציעו ומתקנו, ואח"כ מביא אליו בעליו:
Nota — o palácio e o seu dono. Eis a confirmação pela Escritura, e a imagem é perfeita: a Torá descreve toda a criação e só no fim diz "façamos o homem" — como quem ergue um palácio, o mobília e o prepara, e só então faz entrar o seu dono. O ser humano vem por último não por ser um detalhe, mas por ser aquele para quem tudo foi preparado. E é assim que se abre o Tratado IV: se o homem é o alvo, então a grande questão é o que se espera dele — a obediência, a liberdade, a responsabilidade dos seus atos.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O ser humano é o propósito da criação

Saadia abre o tratado sobre a liberdade e a responsabilidade com uma pergunta de fundo: entre a imensidão das criaturas, qual é o alvo de tudo? A sua resposta nasce de um princípio observado na natureza — o que é mais precioso costuma ficar guardado no meio (a semente, a gema, o coração, a pupila). Aplicando-o à criação inteira, conclui que o ser humano é o ponto a que tudo se ordena: o único dotado de fala, de razão e de escolha.

A ciência de então, o sentido que permanece

O argumento usa a astronomia do seu tempo — a Terra no centro, rodeada pelas esferas. É justo reconhecer que a cosmologia mudou. Mas a tese de Saadia não depende da geografia do cosmos: ela é sobre valor, não sobre posição. Dizer que o homem é o "alvo" da criação é dizer que ele é o portador da vida moral e do conhecimento — aquilo para o qual o resto serve de cenário. É a mesma sobriedade do racionalismo judaico, que sabe distinguir a ciência de uma época da verdade que a Torá ensina.

A porta do Tratado IV: o palácio e o seu dono

A Escritura sela o argumento com uma imagem inesquecível: o homem é criado por último, como o dono que entra num palácio já pronto e mobiliado. Não é o detalhe final — é aquele para quem tudo foi feito. E aqui está a "porta" de todo o Tratado IV: estabelecido que o ser humano é o propósito da criação, a pergunta seguinte impõe-se — que se espera dele? É a questão da obediência e da rebeldia, da liberdade e da necessidade: se o homem é o alvo, então ele é também responsável.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IV (Obediência, rebeldia e livre-arbítrio), Introdução, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se a introdução inteira do Tratado IV a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Yeshayahu 45:12 e Bereshit 1:26. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado IV · Obediência, rebeldia e livre-arbítrio · cap. 1

A razão que torna o homem livre — e responsável

מַאֲמָר רְבִיעִי · א

O que distingue o ser humano de toda a criação? Saadia responde: a razão — a sabedoria pela qual ele lembra o passado, prevê o futuro, cultiva a terra, governa, conhece os astros. E é justamente essa razão que faz dele o ser livre e responsável: o único que pode ser ordenado, e que escolhe. Pois o fim mais alto da razão é o bem.

1

Posta esta introdução, começo agora e digo: o nosso D'us deu-nos a conhecer, pelos seus profetas, que concedeu ao homem uma superioridade sobre todas as suas criaturas, como disse "e dominem sobre os peixes do mar..." (Bereshit 1:28); e como diz o salmo, do início ao fim, "ó Senhor, nosso Soberano, quão majestoso é o teu Nome em toda a terra" (Tehillim 8:2). E deu-nos a conhecer que lhe concedeu a capacidade de servi-Lo, pondo-a diante dele e dando-lhe domínio sobre ela; e que pôs a escolha a livre decisão no seu poder, e o ordenou a escolher o bem, como disse "vê, pus hoje diante de ti a vida..." e logo a seguir "e escolherás a vida..." (Devarim 30:19). E os seus profetas confirmaram-nos esta palavra com sinais e prodígios, e nós a aceitámos.

וכיון שהקדמתי הדברים האלה אתחיל עת ואומר: הודיענו אלהינו על יד נביאיו, שהוא שם לאדם יתרון על כל ברואיו, כאמרו (שם שם כ"ח) וירדו בדגת הים וגומר. וכאשר אמר במזמור (תהילים ח׳:ב׳) י"י אדוננו מה אדיר שמך בכל הארץ, מתחלתו ועד סופו. ושהוא נתן לו יכולת לעבדו, ושם אותה לפניו והשליטו עליה. ושם הבחירה ברשותו, וצוהו שיבחר בטוב, כאשר אמר (דברים ל' י"ט) ראה נתתי לפניך היום את החיים וגומר. ואמר אחרי כן (שם שם) ובחרת חיים וגומר. והעמידו לנו על המאמר הזה האותות והמופתים וקבלנוהו.
Nota — três dons: superioridade, serviço e escolha. Saadia abre o capítulo nomeando três coisas que D'us deu ao homem: a superioridade sobre as criaturas, a capacidade de servi-Lo e a liberdade de escolher. E note-se que o livre-arbítrio é posto logo de início, ancorado no versículo decisivo — "escolherás a vida" (Devarim 30:19). Não se ordena a quem não pode escolher; o mandamento pressupõe a liberdade.
2

E depois investigámos, pelo trabalho da reflexão, em quê nos foi dada a superioridade — e achámos a sua superioridade na sabedoria que lhe foi dada e que ele aprendeu, como diz "Aquele que ensina ao homem o conhecimento" (Tehillim 94:10). Por ela a sabedoria, ele guarda tudo o que já passou dos feitos a memória; e por ela prevê a maioria dos acontecimentos que hão de vir a previsão.

ואחר כן עייננו במלאכת העיון; במה נתן לנו יתרון, ומצאנו יתרונו בחכמה אשר נתנה לו ולמדו אותה, כאשר אמר (תהלים צ"ד י') המלמד אדם דעת. והוא בה שומר כל דבר שחלף מהפעלים. ובה רואה רוב הנולדות אשר תבאנה.
3

E por ela chegou a fazer os animais servi-lo, para lavrar a terra e trazer-lhe os seus frutos; e por ela chegou a trazer a água das profundezas da terra, até correr sobre a sua superfície — e ainda fez para si as rodas os engenhos que a tiram por si mesmas; e por ela chegou a construir casas nobres, a vestir roupas belas, a preparar manjares agradáveis; e por ela chegou a conduzir exércitos e acampamentos, para a condução do reino e do governo, até que os homens se ordenaram em sociedade; e por ela chegou ao conhecimento da natureza da esfera celeste, do curso dos astros, da medida dos seus corpos, das suas distâncias e dos seus demais aspetos a astronomia.

ובה הגיע להעביד הבהמות לעבוד לו הארץ, ויביאו לו תבואתה. ובה הגיע להוציא המים ממעמקי הארץ, עד שיהיו הולכים על (עד) פניה. ועוד עשה לו הגלגלים השואבים ממנה מעצמם. ובה הגיע לבנות הבתים הנכבדים, וללבוש הבגדים החמודות, ולתקן המטעמים הערבים. ובה הגיע לנהוג החיילים והמחנות להנהגת המלכות והשלטון, עד שנתקנו בני אדם. ובה הגיע אל ידיעת תכונת הגלגל, והליכת הכוכבים, ושיעור גרמיהם ומרחקיהם ושאר עניניהם.
Nota — a razão, a marca do humano. A resposta de Saadia à pergunta "em que somos superiores?" é inteiramente racionalista: na sabedoria. E ele a ilustra com uma lista quase moderna — a memória do passado, a previsão do futuro, a agricultura, a engenharia (as "rodas" que tiram água), a arquitetura, o governo, a vida social, a astronomia. Tudo o que chamamos civilização e ciência é, para ele, a prova de que o homem foi dotado de razão — e nenhuma outra criatura a tem.
4

E, se alguém pensar que aquilo que lhe deu a superioridade é algo fora do próprio homem e não a sua faculdade, que nos mostre essas excelências — ou algumas delas — em outra criatura; e isso ele não achará pois nenhuma outra criatura tem sabedoria. Com razão, então, é ele o que é ordenado e advertido, recompensado e punido — pois ele é o eixo do mundo e o seu sustentáculo, como está dito "pois do Senhor são as colunas da terra, e sobre elas assentou o mundo" (I Shmuel 2:8), e "o justo é o fundamento do mundo" (Mishlei 10:25).

ואם יחשוב חושב, כי אשר נתן לו היתרון הוא דבר זולת האדם, יראנו אלה המעלות או קצתם לזולתו, וזה מה שלא ימצאהו. ובדין אם כן, שיהיה המצווה המוזהר הגמול הענוש, כי הוא קטב העולם ומכונתו, כמו שאמר (ש"א ב' ח') כי לי"י מצוקי ארץ וישת עליהם תבל. ואמר (משלי י' כ"ה) וצדיק יסוד עולם.
5

E, ao contemplar estas raízes e o que delas deriva, soube que a superioridade do homem não é um engano que cai no nosso coração a seu respeito, nem uma inclinação a favorecer-nos, nem algo a que a soberba nos tenha levado, nem uma arrogância que reivindiquemos para nós — mas uma verdade clara e uma justiça manifesta. E o Sábio não deu ao homem superioridade sobre as coisas senão porque elas abriram lugar para a sua ordem e a sua advertência — para que ele pudesse ser mandado, ser um agente moral —, como disse: "e disse ao homem: eis que o temor do Senhor, isso é a sabedoria; e apartar-se do mal é o entendimento" (Iyov 28:28).

וכאשר התבוננתי אלה השרשים ומה שמסתעף מהם, ידעתי כי מותר האדם, איננו טעות שנופלת בלבנו עליו ולא נטות אל הותירנו, ולא שהביאתנו גאוה, ולא עזות שנטעון אותו לנפשנו; כי אם אמת ברורה וצדק מבואר, ולא הותירו החכם אל הדברים, כי אם בעבור ששמו מקום למצותו והזהרתו, כאשר אמר (איוב כ"ח כ"ח) ויאמר לאדם הן יראת י"י היא חכמה וסור מרע בינה:
Nota — a razão existe para a responsabilidade moral. Eis o fecho, e o seu alcance. A superioridade do homem não é vaidade nossa — é "verdade clara". Mas para que serve? Saadia responde: D'us deu ao homem a razão para que houvesse "lugar para a sua ordem e a sua advertência" — isto é, para que ele pudesse ser um ser moral, comandado, livre e responsável. E o ápice da razão não é a técnica nem a astronomia, mas o bem: "o temor do Senhor, isso é a sabedoria; e apartar-se do mal é o entendimento" (Iyov 28:28). É a mesma intuição que o Rambam faria sua: a razão é a imagem de D'us no homem, e a sua finalidade é o bem.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A liberdade de escolher

Logo de início, Saadia firma o livre-arbítrio: D'us deu ao homem "a escolha no seu poder" e ordenou-lhe escolher o bem — "escolherás a vida". Esta é a pedra angular de todo o Tratado IV: só faz sentido ordenar, advertir, recompensar e punir um ser que é livre. Sem liberdade, não há mandamento nem justiça; com ela, o homem torna-se responsável pelos seus atos.

A razão é a marca do humano

À pergunta "em que o homem é superior?", a resposta de Saadia é estritamente racionalista: na sabedoria. E a sua prova é a própria obra humana — a memória e a previsão, a agricultura, as máquinas, as cidades, o governo, a astronomia. Nada disto existe em qualquer outra criatura. A razão não é um adorno: é o que faz do homem o "eixo do mundo", aquele em torno de quem a criação se ordena.

A razão existe para o bem

Mas o capítulo guarda a sua verdade mais alta para o fim. Para que serve essa superioridade? Não para o orgulho — "não é uma arrogância que reivindiquemos" —, mas para abrir "lugar para a ordem e a advertência" de D'us: ou seja, para tornar o homem um agente moral. O ápice da razão não é dominar a natureza, mas escolher o bem: "o temor do Senhor, isso é a sabedoria, e apartar-se do mal é o entendimento" (Iyov 28:28). Razão, liberdade e responsabilidade são, em Saadia, uma só coisa — a mesma que o Rambam chamaria a imagem de D'us no ser humano.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IV (Obediência, rebeldia e livre-arbítrio), cap. 1, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Bereshit 1:28, Tehillim 8:2 e 94:10, Devarim 30:19, I Shmuel 2:8, Mishlei 10:25 e Iyov 28:28. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado IV · Obediência, rebeldia e livre-arbítrio · cap. 2

Por que o homem sofre, se é o alvo da criação

מַאֲמָר רְבִיעִי · ב

Se o ser humano é o alvo da criação, por que tem corpo pequeno, vida breve, carne frágil, doenças, dores, apetites perigosos — e a morte? Saadia abre sete portas da justiça e mostra, uma a uma, a sabedoria escondida em cada aspeto da condição humana. O princípio que as governa todas: onde parece haver falha, procura — e acharás sabedoria.

1

E devo registar o que examinei com cuidado neste tema, daquilo que era necessário esclarecer. Digo, pois, que pensei e disse: como pode o propósito de tudo o que há no mundo recair sobre o homem, se vemos que o seu corpo é pequeno e desprezível? E ponderei nisto e descobri que, embora o seu corpo seja pequeno, a sua alma é mais ampla do que os céus e a terra — pois o seu conhecimento abrange tudo o que neles há, até alcançar o conhecimento daquilo que está acima deles e em que se firma a existência deles: isto é, o Criador, bendito seja. Como disse "maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem" (Tehillim 139:14).

וצריך שאזכור מה שדקדקתי בשער הזה ממה שהוצרך אליו: ואומר שחשבתי ואמרתי: איך תהיה הכונה מכל אשר בעולם על האדם, והנה אנחנו רואים גופו קטן ונבזה? והתישבתי בזה ומצאתי, שאף על פי שגופו קטן, נפשו רחבה מהשמים והארץ, כי מדעו כולל כל אשר בם, עד שהגיע לדעת מה שיש למעלה מהם אשר בו היא עמידתם; רוצה לומר: הבורא יתברך, וכמו שאמר (תהלים קל"ט י"ד) נפלאים מעשיך ונפשי יודעת מאד.
Nota — o corpo pequeno e a alma imensa. O capítulo abre retomando a objeção do início do Tratado: se o homem é o alvo da criação, por que é tão pequeno? A resposta de Saadia é a do racionalista — a grandeza do homem não se mede pelo tamanho do corpo, mas pelo alcance da alma: o seu conhecimento abarca os céus e a terra e sobe até o próprio Criador. O valor está na cognição, não na massa. É a mesma intuição que o Rambam faria sua: o intelecto é a imagem de D'us no homem.
2

Pensei na questão dos dias da sua vida e disse: por que não vive ele para sempre? E ficou-me claro que o Criador não lhe deu esta vida breve no mundo presente — que é o mundo do labor — senão para que, quando as suas obras o ajudarem, ele tenha a vida perpétua, como diz a Escritura "vida te pediu, e tu lha deste..." (Tehillim 21:5); e como explicarei no Tratado IX.

וחשבתי בענין ימי חייו ואמרתי: למה לא יחיה תמיד? והתבאר לי שהבורא לא נתן לו החיים האלה הקצרים בעולם הזה, אשר הוא עולם הטרח, אך כאשר יסייעוהו יהיה לו החיים התמידים, כאשר אמר הכתוב (תהלים כ"א ה') חיים שאל ממך נתת לו וגומר. וכאשר אבאר בממאר התשיעי.
3

Pensei: como é que, apesar da superioridade do homem, a estrutura do seu corpo é frágil, composta de sangue, fleuma e os dois tipos de bílis os quatro humores, e por que não são as suas partes puras e duradouras? E respondi a este pensamento e disse: se desejássemos isso, estaríamos a desejar que ele fosse criado como um astro ou um anjo — pois o corpo do homem é este, criado destas misturas, e é mais puro do que todas estas coisas terrenas; e o que é mais puro do que ele é uma de duas coisas: ou um anjo, ou um astro. E quem quiser fazer o corpo do homem de partes que não são as suas, quer aboli-lo — como quem quisesse que os céus não fossem senão de pó, e a terra não fosse senão de fogo: o seu desejo é vão, e não é sabedoria. E já se disse "quão numerosas são as tuas obras, ó Senhor; todas com sabedoria as fizeste..." (Tehillim 104:24).

וחשבתי איך היה עם מותר האדם, בנין גופו חלוש, מורכב מהדם והליחה ושתי המררות, ולמה לא היו חלקיו זכות מתמידות? והשיבותי המחשבה הזאת ואמרתי: אם נרצה זה, אנו רוצים שיברא כוכב או מלאך, כי גוף האדם הוא זה הנברא מאלה התערובות, והוא יותר זך מכל הדברים האלה הארציים, ומה שהיא יותר זך ממנו, הוא אחד מהשנים, אם מלאך, או כוכב. ומי שיחפץ לשום גוף האדם מחלקים, אינם חלקיו, הוא רוצה לבטלו, כמי שרצה שלא יהיו שמים, כי אם מעפר, ושלא תהיה ארץ כי אם מאש, שרצונו הבל ומה שאיננו חכמה. וכבר אמר (תהלים ק"ד כ"ד) מה רבו מעשיך י"י כלם בחכמה עשית וגומר.
Nota — querer outro corpo é querer outro ser. Eis um princípio caro à filosofia da natureza de Saadia: cada tipo de ser tem a matéria própria à sua natureza. Desejar que o homem tivesse um corpo "puro e eterno" é desejar que ele fosse um anjo ou um astro — ou seja, que não fosse homem. Tão absurdo quanto querer "os céus feitos de pó e a terra feita de fogo". A objeção dissolve-se: o corpo humano já é o mais nobre dos corpos terrenos, e "tudo foi feito com sabedoria" (Tehillim 104:24).
4

Pensei ainda nas enfermidades que vêm sobre ele e disse: oxalá fosse poupado delas, ou que delas se livrasse. E achei-as boas para ele — para que retorne dos seus pecados, se submeta ao seu D'us e se corrijam os seus caminhos, como diz "e é repreendido com dor sobre o seu leito" (Iyov 33:19).

וחשבתי עוד בחליים הבאים עליו ואמרתי: הלואי נצל מהם, או נדחו מעליו. ומצאתים טובים לו; בעבור שישוב מחטאיו ויכנע לאלהיו ויתקנו עניניו, כמו שאמר (איוב ל"ג י"ט) והוכח במכאיב על משכבו.
5

Pensei ainda no domínio do calor e do frio, e na sua sensibilidade ao veneno dos répteis da terra e dos animais nocivos. E compreendi que essa sensibilidade é para o seu bem — pois, se não sentisse dor, não temeria o castigo do seu D'us. Porque, se Ele lhe dissesse "eu te farei sofrer", ele não saberia o que é o sofrimento. Por isso o fez sentir estas dores, para que as reconheça e lhe sirvam de termo de comparação — como se disse, a respeito do grande calor, "pois eis que vem o dia, ardendo como um forno" (Malachi 3:19); e se disse, figurando o castigo por meio do veneno, "o seu vinho é veneno de serpentes" (Devarim 32:33).

וחשבתי עוד במשול החום והקור, והרגשתו בארס זוחלי העפר, והחיות המזיקות. וידעתי כי הרגשתו בה מתקנתו, כי אם לא היה מרגיש בצער, לא היה מפחד מעונש אלהיו. כי כאשר אמר אליו: אני אצערך. לא היה יודע מה הוא הצער. ושמהו מרגיש בצערים האלה לבעבור יכירם ויהיו לו לדמיון, כמו שששאמר בחום הגדול (מלאכי ג' י"ט) כי הנה יום בא בוער כתנור. ואמר בדמות העונש בארס (דברים ל"ב ל"ג) חמת תנינים יינם.
Nota — a dor que ensina. A teodiceia de Saadia sobre o sofrimento é sóbria e funcional: a capacidade de sentir dor não é uma falha do projeto, mas a condição de toda vida moral. Sem conhecer a dor, o ser humano não poderia temer um castigo, nem sequer entender as advertências — daí as imagens proféticas "ardendo como um forno", "veneno de serpentes". A dor dá ao homem o vocabulário do bem e do mal. (Não se trata de afirmar que toda dor é merecida — mas que a faculdade de senti-la serve a um fim inteligível.)
6

Pensei nestas necessidades que nele se compõem, e nos apetites — muitos dos quais lhe são para o mal. E ficou-me claro que o Sábio não os implantou nele senão para pôr cada um no seu devido lugar, pela razão com que D'us o agraciou: o apetite pelo alimento, para manter o indivíduo; e o apetite pela união conjugal, para manter quem o suceda a espécie. E que ele se ocupe de tudo conforme D'us lhe esclareceu e lhe permitiu. E, se dele se ocupa pelo lado do permitido, será louvável; e, ocupando-se dele pelo proibido, será reprovável — como diz "o desejo dos justos é só bem, mas a esperança dos ímpios é ira" (Mishlei 11:23); e diz "porque o ímpio se gloria do desejo da sua alma" (Tehillim 10:3).

וחשבתי באלה הצרכים המורכבים בו, והתאוות אשר הרבה מהם לרע לו. והתבאר לי כי החכם לא הרכיבם בו, כי אם לשום כל אחת מהנה במקומה בשכל אשר חננו הלאהים. תאות המזון להעמיד הצורה, ותאות המשגל להעמיד תמורתו. ויתעסק בכל כפי שבאר לו והתירו. ואם הוא מתעסק בו מצד ההתר, יהיה משובח, ומתעסק בו מן האיסור, יהיה מגונה, כמו שאמר (משלי י"א כ"ג) תאות צדיקים אך טוב ותקות רשעים עברה, ואמר (תהילים י׳:ג׳ ג') כי הלל רשע על תאות נפשו.
7

Pensei: como pode estar-lhe preparado o sofrimento doloroso e a permanência no fogo o castigo perene? E vi que, em contrapartida a isto, está o deleite perpétuo e a permanência como recompensa; e, se ambos não fossem assim eternos, o homem não esperaria com esperança plena, nem temeria com temor pleno — como diz "estes para a vida eterna, e aqueles para vergonha e desprezo eterno" (Daniel 12:2).

וחשבתי: איך יעותד לו הצער המכאיב וההתמדה באש. וראיתי כי לעמת זה הנעמות התמידית וההתמדה כגמול, ואם לא יהיו שניהם כן, לא יקוה תקוה גמורה, ולא יירא יראה גמורה, וכמו שאמר (דניאל י"ב ב') אלה לחיי הולם ואלה לחרפות לדראון עולם.
8

Pensei que, antes disso, D'us ordenou a seu respeito, já no mundo presente, que se lhe desse a morte pelos modos das quatro penas capitais. E ficou-me claro que isto é para o seu bem, e que não sai fora da razão. Pois a razão, quando vê que, num só homem, ao corromper-se um dos seus membros por doença ou por veneno, a sua amputação é uma correção em prol de salvar o resto do corpo — assim vê, quanto aos seres racionais a humanidade, que dar a morte a quem, dentre eles, se corrompeu e corrompe a terra é uma correção, para que se salve o resto da espécie, como diz "e os restantes ouvirão e temerão" (Devarim 19:20).

וחשבתי שהוא קודם דזה צוה עליו בעולם הזה להמית אותו באפני ארבעה מיתות. והתבאר לי כי זה לתקנתו, ואיננה יוצאה חוץ לשכל כי השכל כשהוא רואה כי אדם האחד כשיפסד אחר מנתחיו, בחלי או בארס, שכריתתו תקנה בעבור הצלת שאר גופו, כן רואה מן המדברים, כי המית מי שנשחת מהם והשחית בארץ תקנה בעבור שינצל שאר המין, כמו שאמר (דברים י"ט כ') והנשארים ישמעו וייראו.
Nota — a justiça como cirurgia social. A analogia é antiga e poderosa: assim como se amputa um membro gangrenado para salvar o corpo, a pena capital, na visão de Saadia, é uma correção para preservar o resto da espécie — com a função declarada de deter ("e os restantes ouvirão e temerão", Devarim 19:20). É um argumento sobre a racionalidade da justiça, não um elogio da morte: o critério é sempre a salvação do todo, e os Sábios cercaram as quatro penas capitais de tantas salvaguardas que a sua aplicação se tornou rara.
9

E, depois de ter relatado estas sete portas da porta da justiça no modo como D'us ordena este homem, digo: do mesmo modo, tudo o que parecer ao crente assemelhar-se a elas — toda dificuldade semelhante — convém que dela pense bem, pois sem dúvida nela achará algum aspeto de sabedoria, como diz "todas as veredas do Senhor são bondade e verdade..." (Tehillim 25:10).

ואחר אשר ספרתי אלה השבעה שערים משער הצדק בצווי האדם הזה, אומר, וכן כל מה שנדמה למאמין ממה שדומה להם, ראוי שיחשוב בו הטוב, כי בלי ספק ימצא לו פנים מן החכמה, כמו שאמר (תהלים כ"ה י') כל ארחות י"י חסד ואמת וגו':

Sobre esta seção · עִיּוּן

Pensar bem das obras de D'us

O capítulo inteiro é governado por uma só regra de método, enunciada no fecho: diante de qualquer aparente injustiça na obra ou no governo do mundo, "convém pensar bem dela, pois sem dúvida nela se achará algum aspeto de sabedoria" (Tehillim 25:10). Não é fé cega — é confiança racional de que a criação é ordenada por sabedoria, somada à humildade de quem sabe que a sua visão é parcial. Saadia oferece sete exemplos resolvidos justamente para treinar esse olhar: onde os outros veem falha, o sábio procura — e encontra — a razão. O Rambam retomaria este princípio no Guia, ao tratar da providência e do mal.

A alma mais ampla que os céus

A primeira e mais bela resposta é à objeção do corpo pequeno: o homem parece insignificante no cosmos. Saadia inverte a medida. O corpo é pequeno, mas a alma "é mais ampla do que os céus e a terra", porque o seu conhecimento os abarca e sobe até o Criador. A dignidade do ser humano não está na sua dimensão física, mas no seu poder de conhecer — exatamente onde o Rambam situará a "imagem de D'us". O pequeno, aqui, é o maior de todos.

O sofrimento que tem sentido

Três das sete portas tratam do lado duro da existência: a vida breve, a doença, a dor, a morte. A resposta de Saadia nunca é "isso não é mau", mas "isso serve a um bem". A vida é breve porque este é o "mundo do labor", e a verdadeira vida é a recompensa eterna; a doença reconduz à teshuvá; a dor é o que torna possível temer o castigo e compreender as advertências; até a pena capital se justifica como correção do todo. É a recusa rationalista de ver o mal como caos sem propósito — sem por isso negar que ele dói.

Os apetites a serviço da razão

Por fim, um ponto central da ética racionalista da Torá: os apetites não são maus em si. D'us "não os implantou senão para pôr cada um no seu lugar, pela razão". A fome mantém o indivíduo; o desejo conjugal mantém a espécie. O mesmo apetite é louvável quando usado dentro do permitido e reprovável quando usado fora dele — "o desejo dos justos é só bem" (Mishlei 11:23). Não se trata de extinguir o desejo, mas de o governar pela razão e pela lei — a mesma medida que o Rambam ensinaria nas suas Hilchot De'ot.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IV (Obediência, rebeldia e livre-arbítrio), cap. 2, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Tehillim 139:14, 21:5, 104:24, 10:3 e 25:10; Iyov 33:19; Malachi 3:19; Devarim 32:33 e 19:20; Mishlei 11:23 e Daniel 12:2. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado IV · Obediência, rebeldia e livre-arbítrio · cap. 3

A liberdade de escolher: D'us só ordena o que está em nosso poder

מַאֲמָר רְבִיעִי · ג

Se há mandamento, há liberdade. Saadia demonstra — pela razão e pela Escritura — que D'us só ordena o que está em nosso poder; que a capacidade de escolher existe antes do ato; que deixar de agir é, ele também, um ato; e que só respondemos por aquilo que escolhemos sabendo o que fazíamos.

1

E, depois de ter explicado como a sustentação daquelas portas as questões anteriores decorre dos modos da justiça, digo: faz parte do que é próprio à justiça do Criador e à sua compaixão por este homem o ter-lhe dado força e capacidade para fazer aquilo que lhe ordenou, e para abster-se daquilo de que o advertiu. E isto demonstra-se pela razão e pela Escritura. Pela razão: o Sábio não ordena a um homem o que não está em seu poder, nem o que ele seria incapaz de cumprir. Pela Escritura, como disse "Povo meu, que te fiz eu, e em que te enfadei? Responde-me" (Michá 6:3); e ainda "os que esperam no Senhor renovarão as forças" (Yeshayahu 40:31); "calai-vos diante de mim, ó ilhas, e renovem os povos as forças" (Yeshayahu 41:1); e disse também "à luz da manhã o fazem, porque está no poder da sua mão" (Michá 2:1).

ואחר שבארתי: איך תהיה העמידה על השערים האלה מאופני הצדק, אומר, וממה שהוא נאות לצדק הבורא וחמלתו על האדם הזה, שנתן לו כח ויכולת לעשות מה שצוהו בו, ולהמנע ממה שהזהירו ממנו. וזה מבואר בשכל, ובכתוב. בשכל, שהחכם לא צוה אדם מה שאין ביכלתו, ולא מה שילאה מעשוהו. ובכתוב, כמו שאמר (מיכה ו' ג') עמי מה עשיתי לך ומה הלאיתיך ענה בי. ועוד אמר (ישעיה מ' ל"א) וקויי י"י יחליפו כח. (ישעיה מ"א א') החרישו אלי איים ולאמים יחליפו כח. ואמר עוד (מיכה ב' א') באור הבקר יעשוה כי יש לאל ידם.
Nota — D'us não ordena o impossível. Eis o princípio que sustenta todo o Tratado: a justiça do Criador implica que Ele só comanda o que está ao nosso alcance — "o Sábio não ordena o que não está em seu poder". É o que a filosofia chama "dever implica poder": só faz sentido exigir de quem pode. Saadia ancora-o tanto na razão quanto no verso "Povo meu, que te fiz eu?" (Michá 6:3). O Rambam faria do livre-arbítrio um dos pilares da fé (Hilchot Teshuvá 5): sem ele, ruem o mandamento, a recompensa e a punição.
2

E vi que a capacidade deve ser anterior ao ato, de modo que dê ao homem a opção entre o agir e o deixar de agir, alternadamente. Pois, se ela fosse simultânea ao ato, então cada um dos dois seria causa do outro — ou nenhum deles seria causa do outro o que é impossível. E, se fosse posterior ao ato, o homem poderia desfazer o que já fizera — e isto é absurdo, e absurda é a própria suposição que a isso conduz. Ficou, pois, estabelecido que a capacidade do homem é anterior ao seu ato, para que por ela se lhe complete o alcançar o mandamento do seu D'us.

וראיתי כי היכולת ראויה שתהיה קודם הפעל, עד שיתן לאדם הפעל והעזיבה על התמורה. כי אם היתה שוה עם הפעל, היה כל אחד מהם סבה לאחר, או לא יהיה אחד מהם סבה לאחר. ואלו היתה אחר הפעל, היה אדם יכול להשיב, מה שעשה קודם וזה הבל, ואשר לפניו הבל. וכבר התחייב שתהיה יכלת האדם קודם פעלו, כדי שישלם לו בה להגיע אל מצות אלהיו.
Nota — a capacidade vem antes do ato. Aqui está o rigor lógico de Saadia. Para que o ato seja livre, o poder de o praticar (ou não) tem de existir antes dele, pronto a inclinar-se para qualquer dos lados. Se o poder nascesse junto com o ato, não se distinguiria dele; se nascesse depois, poderíamos "desfazer" o passado — absurdo. Logo, a liberdade é uma capacidade prévia, que aguarda a escolha — e não um efeito que segue o ato já feito.
3

E hei de mostrar que, assim como o fazer de um homem uma coisa é um ato, também o seu deixá-la é, igualmente, um ato. Pois ele não a deixa senão para fazer o seu oposto. E esse deixar não é como o "deixar" do Criador, bendito seja, de criar outras coisas além das que criou — o qual não é um ato; pois, quando o Criador se absteve de criar mais corpos e o que neles há, não surgiu por isso nenhum contrário aos corpos. Mas o homem, porque os estados contingentes agem sobre ele, ao deixar uma coisa escolhe fazer o seu oposto: se não ama, odeia; se não quer, ira-se; e não se lhe achará um meio-termo neutro entre os dois. E assim diz a Escritura "guardareis a minha guarda, para não praticar os costumes abomináveis que se praticaram antes de vós" (Vayikrá 18:30); e diz ainda "tampouco praticam iniquidade; andam nos seus caminhos" (Tehillim 119:3).

ואראה לבאר כי כאשר עשות האדם את הדבר הוא פועל, כן עזיבתו אותו הוא פועל גם כן. כי לא עזב אותו כי אם לעשות הפכו. ואיננה כעזיבת הבורא יתברך לברא הדברים אשר ברא, שאיננה פעל; כי הבורא כשעזב לברא הגשמים ומה שיש בהם, לא היה הפך לגשמים החם. אבל האדם כיון שפעלו המקרים, הוא עוזב דבר, שיבחר לפעול הפכו, ואם לא יאהב, ישנא, ואם לא ירצה, יכעס, ולא תמצא לו מעלה ביניהם. וכן הכתוב אומר (ויקרא י"ח ל') ושמרתם את משמרתי לבלתי עשות מחקות התועבות אשר נעשו לפניכם. ואמר עוד (תהלים קי"ט ג') אף לא פעלו עולה בדרכיו הלכו.
Nota — deixar de fazer também é fazer. Uma das ideias mais finas do capítulo: o ser humano nunca é moralmente neutro. Abster-se de uma coisa é sempre escolher a sua oposta — "se não ama, odeia; se não quer, ira-se". Por isso "não praticar iniquidade" já é "andar nos seus caminhos" (Tehillim 119:3): a omissão é uma ação. Saadia distingue-a do "abster-se" do Criador, que é pura ausência (não gera contrário algum); no homem, todo deixar de agir é um agir às avessas — e por ele se responde.
4

E devo esclarecer que o homem não faz coisa alguma sem que esteja a escolher fazê-la; pois não cabe responsabilizar por fazer aquilo em que não há escolha, nem responsabilizar quem não escolhe. E vê-se isto no facto de observarmos que a Torá não impõe pena a quem pecou por inadvertência — não por ele não ser um ser que escolhe, mas porque não conheceu a causa e a circunstância no caso. Como dizemos a respeito de quem mata alguém por inadvertência: ele é deliberado no cortar a árvore, e escolhe cortá-la, mas falhou em acautelar-se o ferro soltou-se e matou — Devarim 19:5. E a respeito de quem profana o Shabat: ele é deliberado em ajuntar lenha, mas esqueceu-se de que era o dia de Shabat.

וצריך שאבאר, שהאדם לא יעשה דבר עד שיהיה בוחר לעשותו, כי לא יתכן לעשות, מה שאין לו בחירה, ולא מי שאיננו בוחר. וזה שאנחנו רואים התורה שאיננה מחייבת בענש מי שחטא בשגגה, לא בעבור שאיננו בוחר אבל בעבור שלא שלא ידע העלה והסבה בזה, כאמרנו בהורג נפש בשגגה, שהוא מזיד בכרות העץ ובוחר; אבל שגג להשמר. ובמחלל שבת שהוא מזיד לקושש עצים, אבל שכח שהוא יום שבת:
Nota — escolha e conhecimento. A culpa, para Saadia, precisa de dois ingredientes: escolha e conhecimento. Por isso a Torá isenta de pena quem peca por inadvertência (shogeg) — não porque lhe falte vontade, mas porque lhe faltou saber. Os dois exemplos clássicos: quem corta lenha e o ferro voa e mata (Devarim 19:5) escolheu cortar, mas não quis matar; e quem ajunta lenha esquecido de que é Shabat escolheu ajuntar, mas não sabia o dia (cf. Bamidbar 15:32). Responde-se pelo que se escolheu sabendo o que se fazia.

Sobre esta seção · עִיּוּן

D'us não ordena o impossível

O capítulo abre com a pedra angular de toda a ética da Torá: se há mandamento, há liberdade. A justiça do Criador — diz Saadia — exige que Ele só ordene o que está em nosso poder, "pois o Sábio não ordena o que não está ao alcance". A razão e a Escritura concordam: "Povo meu, que te fiz eu, e em que te enfadei?" (Michá 6:3). Séculos depois, o Rambam faria do livre-arbítrio um princípio inegociável (Hilchot Teshuvá 5): negá-lo seria esvaziar de sentido toda a Torá, com os seus mandamentos, recompensas e penas.

A liberdade é um poder prévio

Saadia não se contenta em afirmar a liberdade — demonstra a sua estrutura. A capacidade de escolher tem de ser anterior ao ato: pronta, antes da decisão, a inclinar-se tanto para o fazer como para o não-fazer. Se nascesse junto com o ato, confundir-se-ia com ele; se viesse depois, o passado seria reversível — o que é absurdo. A liberdade, portanto, não é um produto do ato já consumado, mas a possibilidade aberta que o precede. É o que distingue um agente livre de uma engrenagem.

A omissão é uma ação

Vem aqui a tese mais original do capítulo: o ser humano nunca é neutro. Abster-se de algo é sempre escolher o seu contrário — quem não ama, odeia; quem não quer, encoleriza-se. Logo, "não praticar a iniquidade" já é "andar nos seus caminhos" (Tehillim 119:3): deixar de fazer o mal é, em si, fazer o bem. Saadia contrasta isto com o "abster-se" do próprio Criador, que é pura ausência e não gera oposto algum — ao passo que, no homem sujeito ao tempo e às circunstâncias, todo não-agir é um agir às avessas, pelo qual se responde.

Só se responde pelo que se escolhe sabendo

Por fim, a anatomia racionalista da culpa: para ser imputável, um ato precisa de escolha e de conhecimento. A Torá isenta o transgressor involuntário (shogeg) não por lhe faltar vontade, mas por lhe faltar saber. Quem corta a árvore e o ferro se solta e mata (Devarim 19:5) escolheu cortar, não matar; quem ajunta lenha esquecido de que é Shabat escolheu ajuntar, não profanar. A responsabilidade mede-se pelo que a pessoa quis e soube — princípio que, ainda hoje, está no coração de toda noção justa de culpa.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IV (Obediência, rebeldia e livre-arbítrio), cap. 3, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Michá 6:3 e 2:1; Yeshayahu 40:31 e 41:1; Vayikrá 18:30; Tehillim 119:3; e ao caso do homicídio involuntário (Devarim 19:5) e da profanação do Shabat (cf. Bamidbar 15:32). As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado IV · Obediência, rebeldia e livre-arbítrio · cap. 4

D'us não obriga: a liberdade e a presciência divina

מַאֲמָר רְבִיעִי · ד

D'us não força ninguém — nem ao bem, nem ao mal. Saadia prova-o de quatro modos (pela experiência, pela razão, pela Escritura e pela tradição) e responde então à grande objeção: se D'us já sabe o que farei, como sou livre? A resposta racionalista: saber não é causar. D'us conhece a escolha livre enquanto livre.

1

E digo, após estas coisas, que o Criador não tem governança coercitiva alguma sobre os atos dos seres humanos, e não os obriga nem à obediência nem à rebeldia. E tenho para isto provas pela via do que se percebe a experiência, pela via da razão, e por aquilo que está na Escritura e na tradição. Pela via da experiência: achei que o homem percebe em si mesmo que pode falar e pode calar, pode segurar e pode soltar — e não percebe nenhuma outra força que o impeça da sua vontade, em absoluto. A coisa não é senão que ele conduz a sua natureza pela sua razão: se assim faz, é sábio; e, se não, é tolo.

ואומר אחרי הדברים האלה, כי הבורא אין לו שום הנהגה במעשי בני אדם, ואיננו מכריחם לעבודה ולא למרי. ויש לי אל זה ראיות מדרך המוחש ומדרך השכל וממה שבכתב ושבקבלה. מדרך המוחש, שמצאתי האדם שוער בנפשו, שיוכל לדבר, ויוכל לשתוק. ויוכל לתפוש, ויוכל להניח, ואיננו שוער בכח אחר שימנעהו מחפצו כלל. אין הדבר כי אם שהוא מנהיג טבעו בשכלו, ואם יעשה כן יהיה משכיל, ואם לא יהיה סכל.
Nota — a prova que está dentro de nós. Antes de qualquer argumento, Saadia aponta para a evidência mais imediata da liberdade: a introspeção. Cada um percebe em si que pode falar ou calar, agarrar ou soltar — e não sente nenhuma força a forçá-lo. Esse dado da consciência é o primeiro dos quatro testemunhos (experiência, razão, Escritura, tradição). E há um corolário ético: a liberdade põe a natureza sob a razão — quem a governa é "sábio"; quem a deixa governá-lo, "tolo".
2

E pela via do raciocínio: já se firmou, no que precedeu, a impossibilidade de um só ato ser o ato de dois agentes. E quem pensou que o Criador obriga o seu servo a uma coisa, já atribuiu o único ato aos dois ao mesmo tempo. Além disso, se Ele o obrigasse, não haveria sentido no seu ordenar e no seu advertir. Além disso, se Ele o obrigasse a um ato, não seria justo puni-lo por ele. Além disso, se os seres humanos fossem obrigados, a recompensa seria devida igualmente ao que crê e ao que nega — pois cada um deles teria feito o que lhe foi ordenado fazer; tal como, se um sábio designasse um de dois operários para construir e o outro para demolir, ficaria obrigado a pagar o salário de ambos. E, ainda, se o homem fosse obrigado, teria uma defesa: pois sabe que o homem não pode vencer o poder do seu Criador; e, quando o que nega se desculpasse diante d'Ele dizendo que não consegue crer, de direito seria justo na sua palavra, e a sua desculpa, aceitável.

ומן המושכל כי הראיות כבר תתקיימנה במה שקדם על הפסד היות פעל אחד משני פועלים. ומי שחשב שהבורא מכריח את עבדו על דבר, כבר שם הפעל האחד לשניהם יחד. ועוד שאם היה מכריחו לא היה ענין לצוויו והזהרתו אותו. ועוד אם יהיה מכריחו על פעל לא היה נכון לענשו עליו. ועוד שאם היו בני אדם מוכרחים, היה הגמול ראוי למאמין ולכופר יחד. מפני שכל אחד מהם עשה מה שצוה לו לעשותו. כמו שאם היה חכם משים, אחר משני אומנים לבנות, והשני להרוס, חייב לתת שכר שניהם. ועוד שאם היה האדם מוכרח היתה לו טוענה, כי ידע כי האדם לא יוכל לנצח יכלת בוראו, וכאשר יתנצל לפניו הכופר שאיננו יכול להאמין בו, מן הדין שיהיה צדיק במאמרו, והתנצלותו מקובלת.
Nota — por que a coerção é impossível. Aqui está o coração lógico do capítulo. Se D'us obrigasse o homem, quatro absurdos seguir-se-iam: (1) o mesmo ato teria dois autores; (2) o mandamento e a advertência ficariam sem sentido; (3) seria injusto punir; e (4) crente e descrente mereceriam o mesmo prémio — pois ambos teriam apenas "cumprido ordens", como o operário mandado construir e o mandado demolir. Pior: o pecador teria uma desculpa válida ("não pude crer"). Toda a ordem moral da Torá pressupõe, portanto, que somos livres.
3

E pela Escritura, como prefaciámos no início: "e escolherás a vida" (Devarim 30:19). E o que veio a respeito dos pecadores: "da vossa mão veio isto; acaso vos será levantado o rosto?" (Malachi 1:9). E o que D'us esclareceu, que é limpo dos pecados deles, ao dizer "ai dos filhos rebeldes, diz o Senhor, que tomam conselho, mas não de mim" (Yeshayahu 30:1). E o que esclareceu da sua isenção quanto aos atos dos falsos profetas, ao dizer "não enviei os profetas, e contudo eles correram..." (Yirmiyahu 23:21). E pelo que há na tradição, nas palavras dos nossos mestres: "Tudo está nas mãos do Céu, exceto o temor do Céu" — como está dito "e agora, Israel, que pede de ti o Senhor teu D'us, senão que O temas..." (Devarim 10:12; Berachot 33b).

ומן הכתוב כמו שהקדמנו תחלה ובחרת בחיים (דברים ל׳:י״ט י"ט). ומה שבא בחוטאים (מלאכי א ט') מידכם היתה זאת הישא מכם פנים וגומר. ומה שבאר שהוא נקי מחטאיהם, באמרו (ישעיה ל' א') הוי בנים סוררים נאם י"י לעשות עצה ולא מני. ומה שבאר מהנקותו ממעשה הכוזבים, באמרו (ירמ' כ"ג כ"א) לא שלחתי את הנביאים והם רצו וגומר. וממה שיש בקבלה בדברי רבותינו, הכל בידי שמים חוץ מיראת שמים, שנאמר (דברים י' י"ב) ועתה ישראל מה י"י אלהיך שואל מעמך כי אם ליראה וגומר (ברכות ל"ג).
4

E ainda que, após estas explicações, nada reste por buscar, o Criador negou a coerção por três vias enfáticas. A primeira, pelo espanto: pôs os seres humanos a espantar-se com o assunto, ao dizer "acaso desejo eu a morte do ímpio, diz o Senhor D'us?..." (Yechezkel 18:23). A segunda, ao afirmar que esta coisa não será, ao dizer "pois não desejo a morte daquele que morre, diz o Senhor D'us" (Yechezkel 18:32). A terceira, ao jurar sobre isto, ao dizer "dize-lhes: vivo eu, diz o Senhor D'us, juro que não desejo a morte do ímpio..." (Yechezkel 33:11). E cercou o assunto por todos os lados, e foi enfático nele.

ואף על פי שלא נשאר אחר אלה הבאורים דבר שיבוקש, הכחיש הבורא ההכרח בשלשה שרשים. הראשון בתמה, ששם בני אדם לתמוה על הענין הזה, באמרו (יחזקאל י"ח כ"ג) החפץ אחפוץ במות הרשע נאם י"י אלהים הלא וגומר. והשני בקיימו שזה הדבר לא יהיה, באמרו (יחזקאל י"ח ל"ב) כי לא אחפוץ במות המת נאם י"י אלהים וגומר. והשלישי שנשבע על זה, באמרו (יחזקאל ל"ג י"א) אמור אליהם חי אני נאם י"י אלהים אם אחפוץ במות הרשע וגו' וסבב הענין מכל צד וזרז עליו:
Nota — a tríplice negação. Mesmo sendo a prova já completa, Saadia mostra que a Escritura insiste contra a coerção de três modos crescentes — espanto ("acaso desejo a morte do ímpio?"), afirmação ("não desejo") e até juramento ("vivo eu..."), todos em Yechezkel. É o reforço retórico de uma verdade central. E ela resume-se no dito dos Sábios: "Tudo está nas mãos do Céu, exceto o temor do Céu" (Berachot 33b) — D'us governa tudo, menos a nossa escolha moral, que deixa em nossas mãos.
5

E depois desta explicação, trago a seguir três perguntas. Digo: talvez alguém diga: se o Criador é limpo de querer o pecado do pecador, como é possível haver no seu mundo aquilo que Ele não quer? E a resposta a isto é fácil: aquilo que nos parece estranho — que um sábio deixe no seu domínio uma coisa que não quer — aplica-se ao homem. Pois o homem detesta a coisa que o prejudica; mas o nosso D'us, bendito seja, não detestou estas coisas por causa de si mesmo — pois é impossível que algum acidente O atinja —, mas detestou-as por causa de nós, porque nos prejudicam: se pecamos e não reconhecemos o que Lhe devemos, agimos como tolos; e, se pecamos uns contra os outros, destruímos as nossas almas e os nossos bens. E, sendo a coisa assim manifesta, não é estranho que haja no seu mundo aquilo que nós detestamos; e o que Ele nos esclareceu — que isso Lhe é detestável — é dito, para nós, por via da compaixão. E já o esclareceu na Escritura, ao dizer "é a mim que provocam, diz o Senhor? Não é a si mesmos...?" (Yirmiyahu 7:19).

ואחר הביאור הזה אביא אחריו שלש שאלות, ואומר, אולי יאמר אומר: כשהבורא נקי מרצותו בחטא חוטא, איך יתכן להיות בעולמו מה שאינו רוצה בו? והתשובה בזה קרובה, והוא, שהמורחק אצלנו שיניח החכם ברשותו דבר שלא ירצהו, הוא באדם. כי האדם הוא מואס הדבר אשר יזיקהו, ואלהינו יתברך לא מאס הדברים האלה בעבור עצמו, כי לא יתכן שישיגהו מקרה מהמקרים, אבל מאסם בעבורנו מפני שהם מזיקים אותנו. כ"א נחטא בו ולא נודה במה שאנו חייבים לו נסכל, ואם נחטא קצתנו על קצתנו נאביד נפשותינו והוננו. וכיון שהדבר גלוי כן, איננו רחוק שיהיה בעולמו מה שנמאסהו אנחנו, ומה שבאר לנו שהוא נמאס אצלו, לנו על דרך החמלה. וכבר באר זה בכתוב באמרו (ירמיה ז' י"ט) האותי הם מכעיסים נאם י"י הלא אותם וגומר.
6

E talvez alguém diga ainda: se Ele sabe o que será antes de ser, então já soube que o homem está destinado a rebelar-se — e é impossível que o homem não o faça, para que se complete o seu conhecimento. E a resolução desta dúvida é ainda mais clara do que a primeira. É esta: tal afirmação não tem prova de que o conhecimento do Criador acerca das coisas seja a causa da sua existência; é, antes, uma alegação que alguém supôs, ou sustentou sem fundamento. E a demonstração da sua falsidade: se o conhecimento do Criador acerca de uma coisa fosse a causa da sua existência, então as coisas seriam eternas — pois o seu conhecimento delas é eterno e nunca cessou, já que nunca cessou Aquele que as conhece. Mas entendemos que Ele conhece as coisas segundo a verdade do seu ser: o que dentre elas Ele mesmo há de originar, já soube que o originaria; e o que dentre elas o homem há de escolher, já soube que o homem o escolheria.

ואולי יאמר עוד כשהוא יודע מה שיהיה קודם היותו, כבר ידע שהאדם עתיד למרותו, ואי אפשר שלא ימדהו האדם כדי שתשלם ידיעתו. וגלות הספק הזה יותר באור מן הראשון. והוא שאומרו, אין לו ראיה שידיעת הבורא את הדברים הם סבת היותם, אבל זה מאמר שסבר אותו או הזיד בו. ובאור הפסד זה, שאם היתה ידיעת הבורא את הדבר סבה להיותו, היו הדברים קדמונים, מפני שידיעתו אותם קדמונית לא סרו, מפני שלא סר יודע אותם. אבל נחשוב שהוא יודע הדברים על אמתת הויתם, ומה שיש מהם ממה שיחדשהו הוא כבר ידע שיחדשהו, ומה שיש מהם מה שיבחרהו האדם, כבר ידע שהאדם יבחרהו.
7

E, se disser: quando o Criador soube que o homem está destinado a falar, seria possível que ele se calasse? Dizemos, em linguagem clara: se o homem viesse a calar-se em vez de falar, então estaríamos a pôr, na raiz da afirmação, que o Criador soube que o homem estava destinado a calar-se — e não seria correto pormos que Ele soube que o homem estava destinado a falar. Pois Ele conhece o resultado que provém do ato do homem, o qual sobrevém depois de todo o pensar, de todo o anteceder e adiar toda a deliberação; e é esse mesmo resultado que Ele conheceu. Como está dito "o Senhor conhece os pensamentos do homem" (Tehillim 94:11); "pois conheço a sua inclinação" (Devarim 31:21).

ואם יאמר, וכאשר ידע הבורא שהאדם עתיד לדבר, היתכן שיחריש או שישתוק? נאמר בלשון צח, כי האדם אלו היה שישתוק תמורה שידבר, היינו משימים בעקר המאמר, כי הבורא ידע שהאדם עתיד לשתוק, ולא היה נכון שנשים שהוא ידע שהאדם עתיד לדבר, כי הוא ידע העולה מפעל האדם הנופל אחר כל מחשבה והקדמה ואיחור, והוא בעצמו אשר ידעו, וכמו שאמר (תהלים צ"ד י"א) י"י יודע מחשבות אדם. (דברים ל"א כ"א) כי ידעתי את יצרו:
Nota — saber não é causar. Esta é a resposta clássica de Saadia ao maior enigma do livre-arbítrio: se D'us já sabe o que farei, ainda sou livre? Sim — porque o conhecimento de uma coisa não é a sua causa. Se o fosse, tudo seria eterno (pois o saber divino é eterno). D'us conhece a escolha livre como livre: o seu saber acompanha o que escolheremos, não o impõe. Se eu fosse calar-me, é "calar-me" que Ele teria sabido. O Rambam viria a tratar a questão como acima do alcance humano (Hilchot Teshuvá 5:5); Saadia arrisca a resposta racionalista — e ela permanece uma das mais límpidas da tradição.

Sobre esta seção · עִיּוּן

D'us não obriga

A tese do capítulo é direta e radical: o Criador não força ninguém — nem ao bem, nem ao mal. E Saadia sustenta-a com quatro testemunhos convergentes: a experiência (sentimo-nos livres), a razão (a coerção seria absurda), a Escritura ("escolherás a vida"; D'us declara-se "limpo" dos pecados dos homens) e a tradição ("tudo está nas mãos do Céu exceto o temor do Céu"). Quatro caminhos, uma só conclusão — o método típico de Saadia, que nunca se contenta com uma única via.

Por que a coerção é impossível

O argumento racional é cerrado: se D'us obrigasse, o mesmo ato teria dois autores (o que já fora refutado); o mandamento e a punição perderiam o sentido; e — o golpe decisivo — o pecador teria uma defesa legítima: "não pude crer; quem pode vencer o poder do Criador?". Uma Torá que ordena, adverte, recompensa e pune só faz sentido se o homem for verdadeiramente livre. Negar a liberdade é negar toda a justiça.

Por que há mal no mundo de D'us

À primeira das três perguntas — como pode existir no mundo de D'us o que Ele não quer? — Saadia responde com uma distinção fina. D'us não "detesta" o mal como nós detestamos o que nos fere, pois nada O pode ferir; Ele o rejeita por nossa causa, porque o mal nos destrói. Quando a Escritura fala do "desagrado" divino, fala a nossa linguagem, por compaixão: "é a mim que provocam? Não é a si mesmos?" (Yirmiyahu 7:19). O mal existe no mundo porque o homem é livre — e a liberdade vale o risco.

Saber não é causar

A pergunta mais difícil é a da presciência: se D'us conhece o futuro, então já sabe que pecarei — logo, não terei como não pecar. Saadia desfaz o nó com uma única distinção: o conhecimento não é a causa do conhecido. Se o saber divino causasse os factos, tudo seria eterno, pois esse saber é eterno. Mas D'us conhece as coisas "segundo a verdade do seu ser": conhece a escolha livre enquanto livre. O seu saber espelha o que escolheremos; não o produz. É a resposta que o Rambam consideraria além do nosso alcance — e que Saadia, fiel ao seu racionalismo, ousa formular com clareza.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IV (Obediência, rebeldia e livre-arbítrio), cap. 4, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Devarim 30:19, 10:12 e 31:21; Malachi 1:9; Yeshayahu 30:1; Yirmiyahu 23:21 e 7:19; Yechezkel 18:23, 18:32 e 33:11; Tehillim 94:11; e ao dito talmúdico de Berachot 33b. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado IV · Obediência, rebeldia e livre-arbítrio · cap. 5

O Ato de D'us e o Ato do Homem: a quem atribuir o mal

מַאֲמָר רְבִיעִי · ה

Uma série de perguntas difíceis sobre a justiça divina: por que ordenar a quem já é justo? por que pregar a quem não crê? e, sobretudo — quando um assassino mata, um ladrão rouba, um império destrói, a quem se atribui o mal? A resposta de Saadia, fiel ao livre-arbítrio: D'us decreta o resultado; o homem escolhe o meio — e responde por ele.

1

E achei pessoas que perguntam neste tema: que sabedoria há em D'us ordenar e advertir o justo, de quem Ele sabe que não se afastará do seu serviço? E achei para isto quatro razões. Uma: para lhe dar a conhecer o que Ele dele deseja. Outra: para lhe pagar a recompensa — pois, se ele O servir sem ter sido ordenado, não terá recompensa. Outra: porque, se Ele o recompensasse por aquilo que não lhe ordenou, ou o punisse por aquilo de que não o advertiu, isso seria injustiça. Outra: para repetir-lhe a ordem por meio do profeta, junto com a ordem que está na razão, a fim de que se guarde e se acautele — como está dito "e tu, se advertires o justo para que não peque, e o justo não pecar, certamente viverá, porque foi advertido" (Yechezkel 3:21).

ומצאתי בני אדם שואלים בשער הזה. מה אפני החכמה שיצוה ויזהיר הצדיק אשר ידע ממנו כי לא יסור מעבודתו? ומצאתי לזה ארבעה פנים. מהם להודיעו מה שהוא חפץ ממנו, ומהם לשלם לו הגמול, כי אם יעבוד אותו והוא בלתי מצווה, לא יהיה לו גמול. ומהם שאם יגמלהו על מה שלא צוהו בו, או יענישהו על מה שלא הזהירו יהיה זה עול. ומהם שינה עליו הצווי עם הנביא עם הצווי אשר בשכל, בעבור שישמר ויזהר, כמ"ש (יחזקאל ג' כ"ג) ואתה כרי הזהרתו צדיק לבלתי חטא צדיק והוא לא חטא חיה יחיה כי נזהר.
2

E perguntam ainda: que sabedoria há em enviar profetas aos negadores da fé, de quem Ele sabe que não crerão? E consideram isto em vão. E achei para isto seis razões. Uma: que seria injusto puni-los se Ele não tivesse enviado ao negador o chamado a crer. Outra: que, se aquilo que está apenas no seu conhecimento não tivesse de sair ao ato, a recompensa e a punição seriam segundo o seu conhecimento, e não segundo o feito das criaturas — o que é falso: julga-se pelos atos, não pela presciência. Outra: que as suas provas sensoriais e racionais, assim como as estabeleceu no mundo para os que creem e para os que negam, assim convém que as suas provas proféticas abranjam crentes e negadores. Outra: que, assim como ficou claro que quem ordena o mal a quem não o fará lhe faz mal e é chamado tolo, também quem ordena o bem veria a sua ordem tornar-se tolice se o ordenado a recusasse; e então quem ordena o mal veria a sua ordem tornar-se sabedoria quando o ordenado a aceitasse — e as verdades do bem e do mal inverter-se-iam, passando a depender da aceitação: e isto é absurdo. Outra: que, visto que Ele os igualou na razão, na força e na capacidade, convém que os iguale na ordem e na missão profética. E depois digo: quem age em vão faz algo sem proveito para nenhuma criatura; mas a missão do Criador aos negadores — ainda que eles tenham escolhido não cumpri-la, e dela não se aproveitem nem se corrijam — já serviu para que os crentes e os demais homens se corrigissem e refletissem; como vês que os homens, até hoje e para sempre, narram o episódio do Dilúvio, dos homens de Sodoma e do Faraó, e os que se lhes assemelham.

ושואלים עוד ומה אפני החכמה בשליחות אל הכופרים אשר ידע מהם כי לא יאמינו? וחושבים זה לשוא. ומצאתי להם ששה פנים, מהם שאם לא היה שולח אל הכופר שיאמין, ומהם שמה שיש בידיעה אלו לא היה יוצא אל הפעל, היה הגמול והעונש כפי ידיעתו, לא כפי מעשה הברואים. ומהם שראיותיו החושיים והשכליים, כאשר העמידם בעולם למאמינים ולכופרים, כן ראוי שיהיו ראיותיו הנבואיות כוללות המאמינים והכופרים. ומהם כי כמו שנתברר לנו כי מי שמצוה ברע למי שלא יעשהו מריע לו ונקרא סכל, כן מי שמצוה בטוב, כאשר יעזוב המצווה לקבל מצותו, תשוב מצותו סכלות, בעבור שלא קבלה, יהיה גם כן מי שמצוה ברע שתשוב מצותו חכמה, כאשר יקבלנה המצווה בה, ותתהפכנה אמתות הטוב והרע ותהיינה כפי הקבול וזה הבל. ומהם כי באשר השוה ביניהם בשכל והכח והיכולת, כן ראוי שישוה ביניהם בצווי ובשליחות. ואחר כן אומר, כי העושה לשוא, הוא עושה דבר שאין לו תועלת לאחד מהברואים, אבל שליחות הבורא יתברך אל הכופרים, אעפ"י שהם בחרו שהם לא יעשו אותה, ולא יועילו בה ולא יוסרו, המאמינים ושאר בני אדם כבר נוסרו והתבוננו, וכאשר אתה רואה כי בני אדם עד עתה ועד עולם הם מספרים ענין המבול ואנשי סדום ופרעה, והדומה להם.
Nota — pregar a quem não crê não é em vão. Saadia recusa a ideia de que a profecia aos incrédulos seja desperdício. Ela mantém a justiça por igual (a prova é oferecida a todos), preserva o princípio de que se julga pelos atos e não pela presciência, e instrui as gerações seguintes — "até hoje os homens narram o Dilúvio, Sodoma, o Faraó". E há um argumento agudo: se o valor de uma ordem dependesse da sua aceitação, o bem e o mal trocariam de lugar conforme quem obedece. Logo, a verdade moral é objetiva — não se mede pela adesão de ninguém.
3

E perguntam ainda: quando a entrega de um homem à morte é um dos atos do Criador — seja como punição por pecado, seja como prova —, e um injusto o mata (como Jezabel a alguns dos profetas), que diremos deste ato, e a quem o atribuiremos? Dizemos: a morte é ato de D'us, e o matar é ato do injusto; e, se a sabedoria divina decretou a morte, então, não houvesse o injusto, ele teria morrido por outra causa. E o mesmo quanto ao ladrão: quando a perda do dinheiro de alguém é decreto do Criador (para punir ou para provar), como diremos daquele roubo que é dos atos do Criador? A resposta: a perda é ato do Criador, e o roubo é ato do homem; e, quando a sabedoria decretou a perda daquela coisa, então, não a roubasse o ladrão, ela se teria perdido de outro modo. E assim responderam os Sábios a certos governantes que os ameaçavam: "se somos passíveis de morte pelo Céu, ainda que tu não nos mates, muitos são os agentes que D'us tem para nos atingir".

ושואלים עוד: כשתהיה מסירת האדם להרג, אחד ממעה הבורא, אם לעונש על חטא או לנסיון, כאשר יהרגהו עול, כאיזבל לקצת הנביאים, מה נאמר בזה המעשה, ולמי ניחס אותו? נאמר כי המות מעשה אלהים, וההרג מעשה העול, ואם החכמה חייבה המות, אלו לא היה העול, היה מת בסבה אחרת. וכן השאלה על הגנב כשהוא אבידת ממון בני אדם גזירת הבורא, אם לענוש או לנסיון, איך נאמר בגנבת ההיא ממעשה הבורא? והתשובה בזה, שהאבוד מעשה הבורא, והגניבה מעשה האדם, וכאשר חייבה החכמה איבוד הדבר ההוא, אלו לא היה גונבו הגנב, היה אבד בפנים אחרים. וכן ענו שמעיה ואחיה לקצת מלכי אדום ואמרו, ואם אנו מחוייבי מיתה לשמים, אם אין אתה הורגנו, הרבה מזיקים יש לו לפגוע בנו.
Nota — o ato de D'us e o ato do homem. Eis a chave de todo o capítulo. Saadia distingue dois planos: a morte é decreto de D'us; o matar é ato do assassino. A perda pode ser decreto; o roubo é ato do ladrão. D'us decreta o resultado (que tal pessoa morra, que tal bem se perca); mas o meio mau — a violência, o furto — é escolha livre do agente, que por ela responde. "Não houvesse o assassino, a vítima teria morrido por outra causa": o decreto cumprir-se-ia sem o crime — por isso o criminoso nada tem de desculpa.
4

E perguntam ainda: como foi D'us punir David pela transgressão, trazendo Absalão a fazer outra semelhante — e ainda maior do que ela? Como Ele disse "pois tu o fizeste em segredo, mas eu farei esta coisa diante de todo o Israel..." (II Shmuel 12:12). Dizemos que estas coisas que Natan, o profeta, anunciou são de duas partes: uma é ato do Criador — o fortalecimento de Absalão e o dar-lhe domínio sobre tudo o que era de David; e sobre isto Ele diz "eis que farei levantar contra ti o mal da tua própria casa, e tomarei as tuas mulheres diante dos teus olhos e as darei ao teu próximo" (II Shmuel 12:11). A segunda é ato de Absalão, pela sua própria escolha — e é o que Ele diz "e ele se deitará com as tuas mulheres à vista deste sol"; e Ele quis, ao anunciá-lo de antemão, dar a conhecer a David a escolha de Absalão, para com isto ferir-lhe o coração.

ושואלים עוד: ואיך נענש דוד על העבירה, בהביא אבשלום לעשות כמוה, ויותר גדולה ממנה? כאמרו (שמואל ב י״ב:י״ב) כי אתה עשית בסתר ואנכי אעשה את הדבר הדה נגד כל ישראל וגו'. נאמר כי אלה הדברים אשר ספר נתן הנביא על שני חלקים, אחד מהם מעשה הבורא, והוא הגברת אבשלום והשליטו על כל אשר לדוד. ועל זה אומר (שם) הנני מקים עליך רעה מביתך ולקחתי את נשיך לעיניך ונתתי לרעך. והשני מעשה אבשלום בבחירתו, והוא מה שאומר ושכב את נשיך לעיני השמש הזאת, (שם) ורצה בהקדמתו להודיע לדוד בחירת אבשלום, להכאות את לבו בזה.
5

E perguntam sobre o caso de Senaqueribe e Nabucodonosor, e do que fizeram no mundo de matança e destruição, e dos demais atos de violência; e como Ele chamou a um deles a sua vara, ao dizer "ai da Assíria, vara da minha ira..." (Yeshayahu 10:5), e ao outro a sua espada, ao dizer "e fortalecerei os braços do rei da Babilônia, e porei a minha espada na sua mão" (Yechezkel 30:24). Dizemos que o lugar do ato do Criador, para ambos e para outros, é o dar a capacidade e a força — tal como foram comparados a uma espada e a uma vara; e, com tudo isto, tudo o que eles e os seus exércitos fizeram foi por escolha, pela qual são passíveis de punição. Por isso Ele diz "visitarei com castigo o fruto da soberba do coração do rei da Assíria..." (Yeshayahu 10:12), e diz "e retribuirei a Babilônia e a todos os habitantes da Caldeia" (Yirmiyahu 51:24).

ושואלים על ענין סנחריב ונבוכדנצר ומה שעשו בעולם מן ההרג והחרבן, ושאר עניני החמם, ואיך אמר על האחד שהוא מטהו כשאמר (ישעי' י' ה') הוי אשור שבט אפי וגו'. ועל השני שהוא חרבו, כשאמר, (יחזקאל ל' כ"ד) וחזקתי זרועות מלך בבל ונתתי את חרבי בידו. ונאמר כי מקום פעל הבורא לשניהם וזולתם, הוא נתינת היכולת והאמץ כאשר נמשלו בחרב ובמטה, ועם כל זה כל אשר עשו הם וחילם היה בבחירה שחייבים עליה הענש, ועל כן אמר (ישעי' י') פקד על פרי גדל לבב מלך אשור וגו', ואמר (ירמיהו נ״א:כ״ד כ"ד) ושלמתי לבבל ולכל יושבי כשדים.
Nota — a vara e a espada. O caso mais difícil: a Escritura chama a Assíria "vara da minha ira" e põe "a minha espada" na mão da Babilônia. Seriam então meros instrumentos, sem culpa? Não. O ato de D'us, diz Saadia, é apenas dar a capacidade e a força — a vara, a espada. Mas o uso cruel dessa força foi escolha deles, e por isso são punidos: "visitarei o fruto da soberba do coração do rei da Assíria". O instrumento da providência não desculpa quem o empunha. A mesma força pode servir à justiça e, no entanto, condenar quem a usou com maldade.
6

E perguntam ainda: visto que todos os acontecimentos se renovam por ordem d'Ele, quando Ele leva um crente a mentir, por causa de algo que o obriga à mentira — não o terá Ele, então, conduzido à mentira? Há nisto duas respostas. A primeira: quando se investiga bem como o homem chega a precisar de mentir, acha-se a causa num pecado do próprio homem na sua conduta — e erradamente ele lança a culpa sobre o seu Criador, como está dito "a tolice do homem perverte o seu caminho, mas é contra o Senhor que o seu coração se irrita" (Mishlei 19:3). A segunda: que, com a razão que D'us nele compôs, ele nunca precisa de mentir — pois, quando diz uma frase que se pode entender como verdadeira no seu enunciado, por um modo de falar um sentido figurado, ele diz a verdade, e não há injustiça nas suas palavras. Assim como Abraão disse de Sara "ela é minha irmã", querendo dizer "minha parenta" — tal como achamos que Lot foi chamado "irmão" por modo de linguagem sendo sobrinho. E eles supuseram que ela era de facto sua irmã; e não houve nisto pecado sobre ele, mas sobre eles, pois foram injustos: porque é costume perguntar ao estrangeiro sobre os seus assuntos e o que lhe é necessário, mas não é costume perguntar-lhe sobre quem está com ele e que relação tem com ele — tanto mais que ele já experimentara o lugar a respeito de outra, como está dito "pois eu disse: certamente não há temor de D'us neste lugar, e me matarão" (Bereshit 20:11). E, visto que falei destas perguntas o que basta, o estudioso do livro fica obrigado a responder, à maneira destas respostas, a tudo o que achar semelhante a elas.

ושואלים עוד כיון שכל המקרים מתחדשים במצותו, כשהוא מסבב למאמין שיכזב בעבור דבר שמצריכו אל הכזב, הוא אם כן הביאו אל הכזב? יש בזה שתי תשובות, אחת מהנה, כי המעיין כשיעיין היטב באיך יצטרך האדם לכזב, ימצא לו סבה מחטא האדם בהנהגתו, וישיב הדבר על בוראו, כמ"ש (משלי י"ט ג') אולת אדם תסלף דרכו ועל י"י יזעף לבו. והאחרת שעם השכל אשר הרכיבו בו, איננו צריך אל הכזב לעולם, כי כאשר יאמר מאמר שאפשר שמכירים אותו על אמתת ההגדה על דרך העברת הלשון, הוא אומר אמת. ואין (עליו) מסברת העול מדבריו. וזה כמו שאמר אברהם על שרה אחותי היא, והוא רוצה קרובתי, כאשר מצאנו לוט שנקרא אח מדרך הלשון. והם סברו שהיא אחותו באמת, ולא היה חטא עליו בזה, אבל החטא עליהם, כי הם עולו, כי דרך בני אדם לשאול הגר על עניניו ועל תועלותיו, ועל מה שהוא טוב לו, ועל מה שצריך לו, ואין דרך לשאול אותו על מי שיש עמו ומה הוא ממנו, וכל שכן שכבר נסה בזולתו, כמ"ש (בראשית כ' י"א) כי אמרתי רק אין יראת אלהים במקום הזה והרגוני. וכיון שדברתי בשאלות האלה במה שיש בו די, מתחייב המעיין בספר להשיב בתשובותם ככל מה שימצאהו דומה להם:
Nota — ninguém é forçado a mentir. Ao fechar, Saadia desarma a desculpa de quem diz "as circunstâncias me obrigaram ao mal". Primeiro: investiga, e acharás que a "necessidade" nasceu de uma escolha tua anterior — "a tolice do homem perverte o seu caminho, mas contra o Senhor se irrita o seu coração" (Mishlei 19:3). Segundo: a razão sempre acha um caminho verdadeiro; até Abraão, ao chamar Sara de "irmã" (isto é, parenta), disse a verdade — o pecado foi de quem a tomou. E a regra final do capítulo é um método: diante de cada dificuldade, separa o que é ato de D'us do que é ato do homem.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Por que ordenar quem já é justo, ou pregar a quem não crê?

O capítulo abre com duas perguntas sobre a aparente inutilidade de certos atos divinos. Ordenar ao justo que não pecaria? — para lhe dar mérito (servir por ordem vale mais que servir por conta própria) e para que a recompensa e a pena sejam justas. Enviar profetas a quem não crerá? — porque a prova tem de ser oferecida a todos por igual, porque se julga pelos atos e não pela presciência, e porque a própria recusa dos incrédulos instrui o mundo. Saadia conclui com um argumento que ainda hoje fulgura: se o valor de uma ordem dependesse de ser aceita, o bem e o mal trocariam de lugar — logo, a moral é objetiva.

O ato de D'us e o ato do homem

É a coluna que sustenta todo o capítulo, e a continuação direta da doutrina do livre-arbítrio. Há dois planos distintos: D'us decreta o resultado — que uma pessoa morra, que um bem se perca; mas o meio mau — matar, roubar — é ato livre do homem. Por isso "a morte é ato de D'us, e o matar é ato do injusto". O decreto cumprir-se-ia de outro modo, sem o crime; logo, o criminoso não pode esconder-se atrás da Providência. É a mesma lição no caso de David: D'us permitiu a revolta de Absalão, mas o pecado foi escolha de Absalão.

A vara e a espada: o instrumento não desculpa

Saadia enfrenta o caso mais espinhoso — os impérios chamados "vara" e "espada" de D'us. A sua resposta é cirúrgica: o ato divino é dar a força; o uso cruel dela é escolha humana, e por isso punível ("visitarei o fruto da soberba"). Servir, sem o saber, aos desígnios da história não absolve ninguém da sua própria maldade. É um equilíbrio difícil e profundo: a Providência pode usar o mal sem que o mal deixe de ser mal — e o Rambam retomaria este fio ao tratar de como o livre agente, ainda quando "instrumento", responde pelos seus atos.

Um método para as perguntas difíceis

O fecho não é uma resposta a mais, mas uma chave para todas: diante de qualquer dificuldade sobre a justiça divina, o leitor deve "responder à maneira destas respostas". E o coração do método é sempre o mesmo — separar o que é ato de D'us (o quadro, a ocasião, a capacidade) do que é ato do homem (a escolha do bem ou do mal). Quem aprende a fazer essa distinção deixa de acusar o Céu pelos males que nascem da liberdade humana — e guarda, intacta, tanto a justiça de D'us quanto a responsabilidade do homem.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IV (Obediência, rebeldia e livre-arbítrio), cap. 5, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Yechezkel 3:21 e 30:24; II Shmuel 12:11-12; Yeshayahu 10:5 e 10:12; Yirmiyahu 51:24; Mishlei 19:3; e Bereshit 20:11 (com o uso de "irmão" para Lot, Bereshit 13-14). A resposta dos Sábios sobre os "agentes" do Céu é de tradição aggádica. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado IV · Obediência, rebeldia e livre-arbítrio · cap. 6 (final)

Quando a Escritura Parece Negar a Liberdade

מַאֲמָר רְבִיעִי · ו

Muitos versículos parecem dizer que D'us "endurece", "engana" ou "faz errar" — como se coagisse o homem. Saadia fecha o Tratado IV mostrando que isso é efeito da amplitude da linguagem: oito modos de ler tais versos, todos em acordo com a razão e com a liberdade. Com eles cai toda dúvida sobre a coação — e o Tratado se encerra.

1

E depois disto, reúno a estas matérias todos os versículos em que há dúvidas e confusões quanto à coação a ideia de que D'us nos força. E, por serem muitos — devido à amplitude da linguagem, como mencionei no Tratado da Unidade (pois a língua, se não usasse de amplitude, conteria apenas a coisa nua) —, achei melhor indicar os tipos da sua interpretação, de modo que se acordem com o que está na razão; contarei quantos tipos são, mencionando de cada um alguns exemplos, e o estudioso deste livro juntará, pela sua razão, cada caso ao seu tipo. E digo que são oito tipos. O primeiro é o da advertência: pareceu às pessoas que impedir por advertência é como impedir fisicamente o ato — mas há entre os dois grande diferença. Como D'us disse a Avimélech "também eu te impedi de pecar contra mim" (Bereshit 20:6) — pensaram que fora um ato, mas Ele só o impediu por advertência e por avisá-lo de que ela era casada, com temor: "eis que estás morto por causa da mulher que tomaste", pois é casada (20:3), e "se não a restituíres, sabe que certamente morrerás" (20:7). E impedir Avimélech daquela mulher é como impedir o que se divorciou de voltar a desposar a ex-mulher depois de ela ter casado com outro (Devarim 24:4) — "o seu primeiro marido, que a despediu, não poderá tornar a tomá-la": pois ele pode pela escolha, mas não pode pela ordem. E como "não poderás sacrificar o Pessach numa só das tuas cidades" (Devarim 16:5), e o que se assemelha a isto.

ואחר כן אחבר אל הדברים האלה כל הפסוקים אשר יש בהם ספקות ושבושים בענין ההכרח, ומפני רובם בעבור רוחב הלשון כאשר זכרתי במאמר היחוד, כי הלשון אם לא תרחיב, לא ימצא בה כי אם הדבר בלבד, ראיתי לזכור מיני הוצאתם עד שיהיו נאותים למה שיש בשכל, וכאשר אספור כמה מינים הוא, וזכרתי מכל מין מהם קצת, והמעיין בספר הזה יחבר כל מין וכל איש אל מינהו בשכלו ובתבונתו. ואומר שהם שמנה מינים, הראשון מהם שער ההזהרה, נדמה לבני אדם המניעה באזהרה כמניעת המעשה, ויש ביניהם הפרש גדול, וזה כאמרו לאבימלך (שם ו') ואחשך גם אנכי אותך מחטא לי, סברו שהוא מעשה, ולא מנעו כי אם בהזהרה ובהודעה שהוא אשת איש ובהפחדה, כמו שאשמר לו (שם ג') הנך מת על האשה אשר לקחת, והיא בעולת בעל, ואמר לו עוד (שם ז') ואם אינך משיב דע כי מות תמות. ומניעת אבימלך מהאשה ההיא שלא יגיע אליה, היא כמניעת המגרש שלא ישא גרושתו אחר שנשאה לאחר, כמ"ש (דברים כ"ד ד') לא יוכל בעלה הראשון אשר שלחה לשוב לקחתה וגו', והוא יכול בבחירה ואיננו יכול במצוה. וכאמרו (שם י"ז ד') לא תוכל לזבח את הפסח באחד שעריך והדומה לזה.
Nota — a amplitude da linguagem. Eis a chave de todo o capítulo. A Escritura fala na linguagem comum dos homens, que é "ampla" — usa imagens, transferências de sentido, ênfases. Lida ao pé da letra, ela parece, por vezes, dizer que D'us "força" o homem; lida com a razão, revela o seu sentido verdadeiro. Saadia oferece oito tipos de leitura como ferramenta. Já o primeiro desfaz um equívoco: "impedir" e "não poder", na Torá, são muitas vezes proibições (legais, morais), não impossibilidades físicas — como o divorciado que "não pode" retomar a ex-esposa: pode pela escolha, não pode pela lei.
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O segundo é o impedimento dos bens e benefícios do mundo, que alguns tomaram por coação. É como "engorda o coração deste povo, torna pesados os seus ouvidos e fecha-lhe os olhos..." (Yeshayahu 6:10): o versículo quer dizer que se lhes renovará uma circunstância uma guerra ou um mal pela qual não atentarão nos seus assuntos mundanos, e ficarão perplexos na sua condução — como "andarás às apalpadelas ao meio-dia, como o cego apalpa nas trevas" (Devarim 28:29), "Ele apanha os sábios na sua astúcia... de dia encontram as trevas" (Iyov 5:13), "tira o entendimento dos chefes do povo... apalpam nas trevas e não na luz" (Iyov 12:24). E estes pensaram que o versículo era sobre a Torá; mas ele continua "e se converta e seja curado" — converter-se-ão de combater o seu inimigo e dele descansarão, como se diz da guerra "e ele não vos poderá curar..." (Hoshea 5:13).

והשני המניעה מתקנות העולם וטובותיו, וחשבו זה הכרח, והוא כאמרו (ישעי' ו' י') השמן לב העם הזה ואזניו הכבד ועיניו השע וגו', הכתוב רוצה שיתחדש עליהם סבה שלא יסתכלו בעבורה בעניני עולמם, ממה שמחדש להם מלחמה או רעה והדומה להם. ויהיו נבוכים בתקון המעשה ההוא, כמ"ש (דברים כ"ח כ"ט) והיית ממשש בצהרים כאשר ימשש העור באפלה, וכמ"ש (איוב ה' י"ג) לוכד חכמים בערמם וגו', יומם יפגשו חשך וגו'. ואמר (שם י"ב כ"ד) מסיר לב ראשי עם הארץ וגו'. ימששו חשך ולא אור וגו'. ואלה סברו שהוא בענין התורה, ויהיה ענין ושב ורפא לו, ישובו מהלחם באויבם וינוחו ממנו, כאשר אמר במלחמה, (הושע ה' י"ג) והוא לא יוכל לרפא לכם ולא יגהה מכם מזור.
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O terceiro é o fortalecimento da alma: quando vem um golpe, uma desgraça ou uma má notícia, D'us fortalece a alma para que a pessoa não pereça de pavor. Leram-no nos livros e pensaram que era um endurecimento do coração para impedir o arrependimento; tanto mais que o versículo o atribui ao "coração", por nele estar a alma. É o caso de "e eu endurecerei o coração do Faraó" (Shemot 7:3), "e fortalecerei o coração do Faraó" (14:4), "pois eu tornei pesado o seu coração" (10:1), e, sobre Sichon, "pois o Senhor teu D'us endureceu o seu espírito e fortaleceu o seu coração" (Devarim 2:30). O Faraó precisava que a sua alma fosse fortalecida para que não perecesse naquelas pragas antes que se completassem sobre ele as restantes — como D'us lhe esclareceu: "pois já agora eu poderia ter estendido a mão e ferido a ti..., mas para isto te mantive de pé" (Shemot 9:15-16). E Sichon precisou que o coração lhe fosse fortalecido para não perecer do terror da fama de Israel — "os que ouvirem a tua fama tremerão e se angustiarão diante de ti" (Devarim 2:25); e assim os habitantes de Canaã, para que o terror das notícias não os matasse — "ouvimos, e derreteu-se o nosso coração" (Yehoshua 2:11); por isso se diz "pois do Senhor era fortalecer-lhes o coração para virem à guerra contra Israel" (Yehoshua 11:20).

והשלישי בחזוק הנפש, בבא פגע מרעה ומשמועה שלא יאבד מהם, שמעוה בספרים וסברו שהוא חזוק הלב שלא יקבל העבודה, וכ"ש שיחסו הכתוב אל הלב בעבור שהנפש בו, והוא אמרו (שמות ז' ג') ואני אקשה את לב פרעה, וחזקתי את לב פרעה (שם י"ד ד') כי אני הכבדתי את לבו, (שם י' א') ואמר על סיחון כי הקשה יי אלהיך את רוחו ואמץ את לבבו (דברים ב' ל'). ונצטרך פרעה לחזוק נפשו שלא יאבד במכות ההם עד שישלמו לו שאר המכות, וכבר באר לו זה באמרו (שמות ט' ט"ו) כי עתה שלחתי את ידי ואך אותך וגו', ואולם בעבור זאת העמדתיך (שם ט"ז) וגו'. אבל סיחון נצטרך לחזוק לבו שלא יאבד מפחד שמע בני ישראל, כמ"ש (דברים ב' כ"ה) אשר ישמעון שמעך ורגזו וחלו מפניך, וכן אנשי ארץ כנען הצטרכו לחזון שלא ימיתם פחד השמועות, כמ"ש (יהושע ב' י"א) ונשמע וימס לבבנו וגו', ועל כן אמר כי מאתיי' היתה לחזק את לבם לקראת המלחמה את ישראל (שם י"א כ').
Nota — "endurecerei o coração do Faraó". O caso mais famoso de todos. Se D'us endureceu o coração do Faraó, como podia este escolher livremente libertar Israel? A resposta de Saadia é elegante: "endurecer" aqui é fortalecer a alma — dar ao Faraó a firmeza para suportar as pragas sem desmoronar de pavor, de modo que continuasse a escolher livremente através de todas elas (e por isso fosse plenamente responsável). O mesmo "fortalecimento" foi dado a Sichon e aos cananeus, para que o terror não os matasse antes da hora. D'us não anulou a vontade do Faraó — sustentou-lhe as forças para que a exercesse até o fim. (O Rambam, em Hilchot Teshuvá 6, dá uma leitura aparentada: a perda do arrependimento como castigo — ambas preservam o livre-arbítrio.)
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O quarto é a atribuição de um grau ou estatuto: as pessoas viram a menção disto na Escritura e pensaram que era um fazer ativo. É como o perito num ofício, que verifica a verdade e anula a falsidade: dizemos que o juiz "justificou" Reuven e "condenou" Shimon, "declarou justo" Levi e "culpou" Yehuda — e não queremos dizer que ele fez um deles praticar algo, mas que o esclareceu, revelou e o pôs no seu devido grau, como diz a Torá "e justificarão o justo e condenarão o ímpio" (Devarim 25:1). E assim dizemos que o juiz "validou" tal documento e "falsificou" tal outro — não o falsificou de facto, mas em declaração. Quando o pensamento se habitua a esta transposição de sentido, assim se leem as expressões dos livros sobre o ato do Criador: "se trata com os escarnecedores, Ele escarnece; mas aos humildes dá graça" (Mishlei 3:34). E "e o profeta, se for enganado e disser uma palavra, eu, o Senhor, enganei aquele profeta" (Yechezkel 14:9) — quer dizer: eu revelei a seu respeito que ele é um enganado. E "certamente enganaste este povo e Jerusalém, dizendo: tereis paz" (Yirmiyahu 4:10) — D'us anulou as palavras dos falsos profetas, ao revelar a verdade. E o pedido "por que nos fazes errar, ó Senhor, dos teus caminhos..." (Yeshayahu 63:17) quer dizer: não nos consideres errantes, mas perdoa-nos e tem misericórdia. Quem não entende estes e os semelhantes, toma-os por coação.

והרביעי השמת מעלה ומדרגה, ראו בני אדם זכרון הענין הזה במקרא, וסברו כי הוא הפעלה והשמה. והוא שהמהיר במלאכה מאמת האמת ממנה ומבטל השקר, כאשר נאמר כי השופט הצדיק את ראובן והכזיב את שמעון, ושהוא הצדיק לוי והרשיע יהודה, ולא נרצה בזה שהוא שם אחד מהם לעשות דבר ולא צוהו בו, אבל רצוני שבאר עליו וגלה לו ושמהו במעלתו, וכמו שאמרה התורה והצדיקו את הצדיק והרשיעו את הרשע (דברים כ"ה א'). וכן אומר כבר אמת השופט שטר פלוני וזייף שטר פלני, לא זייפו בפעל, אבל הוא בבאור. והגיעני שאומרים על שני דינרי הזהב, כי המרצה היטב זה, ופחת זה, ואינם רוצים שפחתו בידו, אבל רוצים שהגיד שהוא מפוחת. וכאשר יתמידו המחשבות בהעברה הזאת ויתישבו בה, יהי על הדרך הזה מה שאמרו הספרים מפעל הבורא (משלי ג' ל"ד) אם ללצים הוא יליץ ולענוים יתן חן. ואמר עוד (יחזקאל י"ד ט') והנביא בי יפותה ודבר דבר אני יי' פתיתי את הנביא ההוא, ר"ל: בארתי עליו שהוא מופתה. וכן אמרו (ירמיהו ד׳:י׳ י') השא השאת לעם הזה ולירושלים לאמר שלום יהיה לכם, בטל דברי המתנבאים להם בגלותו להם. וכן שאלתם (ישעי' ס"ג י"ז) למה תתענו יי' מדרכיך, אל תשימנו תועים, שתדון עלינו שאנחנו תועים, אבל כפר לנו ורחם עלינו. ומי שלא יבין ענין אלה והדומה להם ישימם הכרח.
Nota — D'us declara, não causa. Um princípio que desfaz toda uma classe de versículos. Quando se diz que D'us "faz o ímpio", "engana o profeta" ou "faz errar", a linguagem é a de um juiz: assim como um juiz "condena" o culpado (isto é, declara a sua culpa, sem a criar), D'us revela e declara o estatuto de cada um — não produz a sua maldade. "Eu enganei aquele profeta" significa "eu revelei que ele é um enganado". A ação continua a ser do homem; D'us apenas a põe a descoberto.
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O quinto é o da expiação: vemos que a pessoa diz "inclina-me para ti, e não me inclines para longe de ti" — "inclina o meu coração para os teus testemunhos, e não para a ganância" (Tehillim 119:36), "não inclines o meu coração para coisa má" (141:4) —, e alguém pensa que estes dois "inclinares" significam coação; mas o salmista quer dizer apenas expiação. Isto é: ao perdoares-me, já me inclinaste a não voltar a pecar contra ti; e, se não me perdoares, já lançaste em mim o desespero. É a expiação que o leva a inclinar-se para o teu serviço, como diz "ensinarei aos transgressores os teus caminhos e os pecadores se converterão a ti" (Tehillim 51:15).

והחמישי שער הכפרה, רואים אנו שהאדם אומר הטני אליך ואל תטני מעליך, כמ"ש (תהלים קי"ט ל"ו) הט לבי אל עדותיך ואל אל בצע, אל תט לבי לדבר רע (שם קמ"א ד'), ויחשוב שרצה בשתי ההטאות ענין ההכרח, ולא רצה כי אם הכפרה. רוצה לומר כשתכפר לי כבר הטיתני שלא אשוב לחטא לך, ואם לא תכפר לי כבר הפלת בנפשי היאוש, ותביאני הכפרה לנטות לעבודתך, כמ"ש (שם נ"א ט"ו) אלמדה פושעי' דרכיך וגו'.
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O sexto é o relato de um ato que é, na verdade, a criação fundamental as faculdades que D'us pôs no homem desde a origem; pensam que é um colocar ou ensinar pontual. Como "do homem são os planos do coração, mas do Senhor é a resposta da língua" (Mishlei 16:1): refere-se à criação fundamental da própria capacidade, como "tudo fez o Senhor para o seu propósito" (16:4). O sétimo é a hipérbole na expressão: o ouvinte pensa tratar-se de algo especial sobrenatural, como "o coração do rei é como ribeiros de água na mão do Senhor; Ele o inclina para onde quer" (Mishlei 21:1) — pensa que os reis têm algo único que D'us lhes controla o coração de modo especial; mas isto é hipérbole: quer dizer que até o rei, no serviço do Criador, é como a água na própria mão d'Ele — quando o Criador quer, inclina-o e dele se serve.

והששי ספור פועל הוא כבניה השרשיה, חושבים בו שהוא השמה ולמוד, כמ"ש (משלי י"ו א') לאדם מערכי לב ומיי' מענה לשון, רוצה בו הבריאה השרשיה, כמ"ש (שם ד') און שומעת בעון רואה וגו'. והשביעי ההפלגה במאמר, יסבר השומע כי הוא דבר מיוחד, כאמרו (שם כ"א ח') פלגי מים לב מלך ביד יי' וגו'. סובר שיש למלכים דבר מיוחד שיפיל בלבם מה שיחפץ, אבל זה הפלגה הוא אומר, אפילו המלך בעבודת הבורא, כמו המים ביד עצמו, כאר יחפץ המלך יטנו וישתמש בו:
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O oitavo é a renovação de uma circunstância, que vem junto com a renovação da escolha do homem em algum ato; e dá-se em três casos. Primeiro, a salvação dos inimigos, até que, por causa dela, a pessoa se volte para algum ato; e diz-se que Aquele que o salvou lhe "causou" isto, por transposição: "e o D'us de Israel despertou o espírito de Pul, rei da Assíria" (I Divrei haYamim 5:26); "o Senhor despertou o espírito de Ciro, rei da Pérsia" (II Divrei haYamim 36:22); "o Senhor despertou contra Yehoram..." (II Divrei haYamim 21:16); "pois o Senhor os alegrou, e voltou para eles o coração do rei da Assíria" (Ezra 6:22); "e Amatsyahu não deu ouvidos, pois isto vinha de D'us..." (II Divrei haYamim 25:20); "e o rei não atendeu ao povo, pois esta volta vinha do Senhor" (I Melachim 12:15). Tudo isto é sobre a salvação do inimigo e do dano. Segundo, o dom do entendimento e a clareza do conselho, por um temperamento equilibrado, até que a pessoa compreenda as portas da religião e da sabedoria; e quem ouve isto pensa que é coação: "os teus caminhos, ó Senhor, faze-me conhecer; ensina-me as tuas veredas" (Tehillim 25:4), "ensina-me, Senhor, o teu caminho, e guia-me por vereda plana" (27:11), "desvia os meus olhos de verem a vaidade" (119:37), "também em Yehuda esteve a mão de D'us para lhes dar um só coração" (II Divrei haYamim 30:12). Terceiro, um sinal pleno que o Criador renova, e que se torna causa para que um grande povo creia; e o ouvinte pensa que o ato do povo crer é coação, como disse Eliyahu "responde-me, Senhor, responde-me, para que este povo saiba..." (I Melachim 18:37) — quer dizer que o fogo, ao descer e queimar a oferta, fará voltar com ele o coração do povo que está agora voltado para trás. E o mesmo no tempo da salvação: "e porei o meu espírito dentro de vós, e farei que andeis nos meus estatutos" (Yechezkel 36:26-27) não quer dizer coação, mas apenas a manifestação dos sinais e prodígios.

והשמיני חדוש סבה, תהיה עם חדושה בחירת האדם במעשה מן המעשים, וזה בא על שלשה ענינים, אחד מהם ההצלה מן האויבים, עד שיפנה האדם בעבור זה למעשה מן המעשים, ויאמרו כי המציל אותו מאויביו גרם לו זה על דרך העברה, כאשר אמר (ד"ה א' ה' כ"ו) ויער אלהי ישראל את רוח מול מלך אשור. ועוד (ד"ה ב' ל"ו כ"ב) העיר יי' את רוח כורש מלך פרס. ועוד (שם כ"א ט"ז) ויער יי' על יהורם. ועוד (עזרא ו' כ"ב) כי שמחם יי' והסב לב מלך אשור, ועוד (ד"ה ב' כ"ה) ולא שמע אמציה כי מהאלהים היא. ועוד לא שמע המלך אל העם כי היתה סבה מעם יי' (מלכים א י״ב:ט״ו ט"ו). כל זה בהצלה מן האויב ומן הנזק. והשני זכות ההבנה וברור העצה בשוות המזג, עד שיבין האדם שערי הדת והחכמה, ושומע זה יחשוב כי הוא הכרח, והוא מ"ש (תהלים כ"ה ד') דרכיך יי' הודיעני אורחותיך למדני. ועוד (שם כ"ז א"י) הורני יי' דרכך ונחני בדרך מישור. ועוד (שם קיט ל"ז) העבר עיני מראות שוא ועוד (ד"ה ב' ל' י"ב) גם ביהודה היתה יד האלהים. והשלישי אות מלאה יחדשנה הבורא, ותהיה סבה להאמין עם רב, וישמענה השומע ויחשוב כי פעל העם הכרח, כאשר אמר אליהו ענני יי' ענני וידעו העם הזה, (מלכים א' י"ח ל"ז) ר"ל כי האש כשתרד ותשרוף העולה, תסב בה את לב העם אשר הוא אחורנית. ואין במאמר הסתר זולת ההא שנאמר האחרנית. וכן בעת הישועה אשר אמר (יחזקאל ל"ו כ"ו) ואת רוחי אתן בקרבכם ועשיתי את אשר בחקי תלכו, איננו רוצה בזה דבר, כי אם הראות האותות והמופתים:
Nota — a circunstância e a escolha. O oitavo tipo, o mais rico, mostra como D'us "desperta o espírito" de um rei ou "põe o seu espírito" no povo sem coagir ninguém. O que D'us renova é a circunstância: uma salvação, uma mente equilibrada, um milagre persuasivo — e dentro dela o homem ainda escolhe. "Despertar o espírito de Ciro" é arranjar o momento histórico da redenção; "porei o meu espírito em vós" é a força de convencimento dos sinais. A Providência prepara o palco; o livre-arbítrio representa.
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E, depois destes oito fundamentos, resta apenas aquilo em que o erro se deve ao modo de ler a sintaxe do versículo: "contra ti, só contra ti, pequei, e fiz o que é mau aos teus olhos, para que sejas justificado quando falares, puro quando julgares" (Tehillim 51:6) — o ouvinte pensa que este penitente diz ter pecado para que se cumprisse o que o seu D'us decretara a seu respeito. Mas o "para que sejas justificado" não se liga a "pequei"; liga-se, antes, ao que ele dissera acima, "e do meu pecado purifica-me" — ele diz: expia a minha iniquidade, para que se cumpra a tua palavra, aquela que disseste e decretaste, de que perdoas a quem volta para ti. E isto é usual na linguagem, como "clamaram, e o Senhor ouviu" (Tehillim 34:18) — que não se liga a "a face do Senhor está contra os que fazem o mal" 34:17, mas a "os olhos do Senhor estão sobre os justos" 34:16. E, com estas explicações, removem-se todas as dúvidas que imaginam a coação; e completa-se a justa exigência do nosso Criador sobre as suas criaturas, quanto ao seu serviço e à sua rebeldia: não têm elas argumento contra Ele, como diz o versículo "será o mortal mais justo que D'us? será o homem mais puro que o seu Criador?" (Iyov 4:17). E, uma vez estabelecidos os sinais plenos e a missão dos profetas — está completo o Tratado Quarto do livro.

ואחר אלה השמנה שרשים לא נשאר כי אם מה שהטעות בו מפני סדור הפסוק, באמרו (תהילים נ״א:ו׳ ו') לך לבדך חטאתי והרע בעיניך עשיתי למען תצדק בדברך תזכה בשפטך חשב השומע כי זה השב אומר: כי הוא בעבור שיתקיים עליו מה שגזר בו אלהיו, ואיננו שב אמרו: "למען תצדק" על חטאתו, אך הוא ב על אמרו, ומחטאתי טהרני. הוא אמרו כפר לעוני עד שיתקיים מאמרך אשר אמרת וגזרת, כי מי שישוב אליך תכפר לו, וזה ממה שנוהג בלשון דומה, כאמרו (שם ל"ד י"ח) צעקו ויי' שמע. אשר איננו שב על פני יי' בעושי רע, אבל הוא שב על עיני יי' אל צדיקים. ועם אלה הבאורים יסתלקו כל הספקות אשר הם מדמים ההכרח, וטענת בוראנו שלמה על ברואיו בעבודתו והמרותו, אין להם טענה עליו וכמו שאמר הכתוב (איוב ד' י"ז) האנוש מאלוה יצדק אם מעושהו יטהר גבר. וכאשר התקיימו האותות המלאות ושליחות הנביאים: נשלם המאמר הרביעי מן הספר:
Nota — o fecho do Tratado. O nono caso é puramente gramatical: às vezes a dificuldade nasce de ligar mal as partes de um versículo (como em "para que sejas justificado", que se liga a "purifica-me", não a "pequei"). Resolvido também esse, Saadia declara a obra cumprida: "removem-se todas as dúvidas que imaginam a coação". O homem é livre; D'us é justo; e nenhuma criatura tem argumento contra o seu Criador. Assim se encerra um dos mais belos tratados sobre o livre-arbítrio jamais escritos.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A amplitude da linguagem

O capítulo final do Tratado IV é um pequeno manual de hermenêutica. O seu princípio: a Torá fala "na linguagem dos homens" — ampla, figurada, enfática —, e por isso muitos versículos parecem dizer que D'us coage o homem. Saadia recusa-se a escolher entre a Escritura e a razão: mostra, em oito (na verdade, nove) tipos, como cada verso difícil se lê em acordo com a liberdade. É a convicção racionalista de que a revelação, bem entendida, nunca contradiz a razão — a mesma que o Rambam tornaria célebre.

O coração do Faraó

A pedra de toque de toda a questão. "Endurecerei o coração do Faraó" parece o exemplo perfeito de coação divina. Saadia desfaz o nó: "endurecer" é fortalecer — dar ao Faraó a têmpera para suportar as pragas sem perecer de medo, de modo que pudesse seguir escolhendo livremente, e por isso responder pelos seus atos. D'us não lhe tirou a vontade; sustentou-lhe as forças. É uma leitura que salva, de uma só vez, a justiça de D'us e a liberdade do homem.

D'us declara, não causa

O quarto tipo é talvez o mais fecundo. Toda uma classe de versículos — "faz o ímpio", "engana o profeta", "faz errar" — se entende pela imagem do juiz: condenar é declarar a culpa, não criá-la. Quando a Escritura diz que D'us "enganou" um falso profeta, quer dizer que o revelou como tal. O ato permanece humano; D'us apenas o traz à luz. Com esta única distinção, dezenas de versos deixam de soar como determinismo.

A circunstância e a escolha — e o fecho

O oitavo tipo reúne os versos em que D'us "desperta o espírito" de um rei ou "põe o seu espírito" no povo: o que D'us renova é a ocasião (uma salvação, uma mente sã, um milagre), dentro da qual o homem livremente decide. A Providência prepara o palco; a liberdade representa. Resolvido ainda um último caso de pura sintaxe, Saadia conclui: "removem-se todas as dúvidas que imaginam a coação". O homem é livre, D'us é justo, e "não será o homem mais puro que o seu Criador" (Iyov 4:17). Assim se encerra o Tratado IV — um dos cumes do racionalismo judaico sobre o livre-arbítrio.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IV (Obediência, rebeldia e livre-arbítrio), cap. 6 — capítulo final do Tratado —, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. O capítulo cita dezenas de versículos; entre eles, Bereshit 20; Shemot 7-14 (o coração do Faraó); Devarim 2, 24, 25, 28; Yeshayahu 6 e 63; Mishlei 3, 16 e 21; Yechezkel 14 e 36; e Tehillim 51, 34 e 119. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado V · O mérito e o demérito · cap. 1

Méritos e Faltas: o que os atos fazem à alma

מַאֲמָר חֲמִישִׁי · א

Os atos não são apenas julgados de fora — eles atuam sobre a alma, tornando-a luminosa ou turva. D'us afere o que cada ato opera no espírito, como um perito afere moedas ou gemas que ao leigo parecem iguais. O permitido ilumina; o proibido escurece — e a diferença, real, é pesada por D'us, não pelo paladar.

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Disse Yehudá ben Shaul. Disse o autor: O nosso D'us, bendito seja, deu-nos a conhecer que os serviços do homem para com Ele, quando são muitos, se chamam méritos zechuyot, e que as suas rebeldias, quando se multiplicam, se chamam faltas chovot; e que tudo está guardado diante d'Ele acerca de todos os seus servos, como diz "grande em conselho e poderoso em obra, cujos olhos estão abertos sobre todos os caminhos dos filhos dos homens" (Yirmiyahu 32:19), e "pois os seus olhos estão sobre os caminhos do homem" (Iyov 34:21). E deu-nos a conhecer que os atos são ações que atuam sobre as almas, tornando-as puras ou maculadas — como Ele diz "iniquidades", "e levará a sua iniquidade", "àquela alma a sua iniquidade está nela" (Bamidbar 15:31). E, se isto escapa aos homens e não se lhes torna claro, é manifesto diante d'Ele, como diz "eu, o Senhor, esquadrinho o coração e provo os rins" (Yirmiyahu 17:10). E sobre todas estas coisas Ele trouxe sinais e prodígios, e nós os aceitámos.

בזכיות ובחובות: אמר יהודה בן שאול. אמר המחבר: הודינו אלהינו יתברך, כי עבודות האדם אותו כשהם רבים נקראו זכיות, ושהמרותיו כשירבו נקראו חובות, וכי הכל שמור אצלו על כל עבדיו, כמ"ש (ירמיה ל"ב י"ט) גדול העצה ורב העליליה אשר עיניך פקוחות על דרכי בני אדם. ונאמר עוד (איוב ל"ד כ"א) כי עיניו על דרכי איש וגו'. וכי הם פעלים יפעלו בנפשות וישימום זכות או מטונפות, כאשר הוא אומר מעונות, ונשא עונו נושא חטאו, ואל עונם ישאו נפשם, (הושע ג' ח') הנפש ההיא עונה בה (במדבר ט"ו ל"א). ואם יעלה זה מבני אדם ולא התברר אצלם, הוא גלוי אצלו יתברך, כמו שאמר (ירמיה י"ז י') אני יי' חוקר לב בוחן כליות וגו'. והביא על כל הענינים האלה האותות והמופתים וקבלנום
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E, uma vez estabelecido isto para nós, dediquei-me à reflexão sobre este assunto. E observei, entre as coisas existentes, ofícios sutis, ocultos para muitos, em que se toma o bom pelo mau até que a coisa chega ao perito, que reconhece o que há entre os dois. Entre eles, o ofício de aferir moedas: vês o ingênuo, que dele não entende, tomar o dinar bom pelo mau, até que o aferidor os distingue. E o ofício da medicina: vês os ingênuos buscarem o pulsar das veias, mas não conhecerem a sua expansão e contração, nem qual a qualidade que predomina no corpo — e o médico perito conhece-as. E disto também a ciência da fisionomia, em que se observam as linhas do rosto e dos pés e se distingue um homem de outro, por aquilo que está oculto a quem não tem esse ofício. E assim no ofício das pedras preciosas — rubi, topázio, cristal e outras —, que só o perito reconhece. E a regra é: em todo ofício sutil, muitos dos seus defeitos escapam aos ingênuos e se mostram aos peritos.

וכאשר התקיים לנו זה, התעסקתי בעיון בענין הזה כאשר קדמתי, וראיתי בנמצאות מלאכות דקות נעלמות מרבים מבני אדם, וידמו טוביהם לרעיהם, עד שיגיעו אל החכם מהם, ויכיר מה שיש בינותם, ומהם מלאכת הרצוי, תראה הפתי אשר איננו בקי בה, מדמה הדינר הטוב לרע, עד שיבדילם המרצה. ומהם מלאכת הרפואות, תראה הפתאים מבקשים דפיקת הגידים, ולא ידעו מהפשטם והקבצם, מה האיכות הגוברת על הגוף, וידעם הרופא הבקיא. ומזה חכמת הקיאפה, אשר הם מביטים בקוי הפנים והרגלים, ומבדילים בין איש לאיש, במה שהוא נעלם מזולת', ממי שאין זאת מלאכתו. וכן במלאכת הפנינים מאודם ומפטדה ובדלח וזולתם, לא יכירם כי אם הבקי. והכלל כל מלאכה דקה, הרבה ממומיה יעלמו מן הפתאים ויראו לחכמים.
Nota — o perito e o invisível. Eis o método empírico de Saadia. Como provar que existem "defeitos" da alma que não vemos? Por analogia com a perícia comum: o leigo não distingue a moeda boa da falsa, nem lê o pulso, nem reconhece a pedra preciosa — mas o perito sim. Há, pois, diferenças reais que escapam ao olhar não treinado. Assim também os estados da alma: invisíveis ao nosso sentido, mas perfeitamente discerníveis a Quem a criou.
3

E, ao encontrar estas coisas de ofício, como relatei, fortaleci-me ainda mais em sustentar a realidade dos defeitos das almas — as iniquidades e as culpas —, ainda que não sejam visíveis aos homens, porque o nosso sentido não as alcança. Mas são manifestas a Quem as fez, pois Ele as criou. E é que a alma é uma substância intelectual subtil, mais pura do que a substância dos astros e das esferas; e nós não a vemos com o nosso sentido — como, então, se nos havia de esclarecer o que atua sobre a sua substância e a turva? Mas isto é claro para o seu Criador, o Criador da esfera; e por isso Ele faz os céus e os astros assemelharem-se a ela neste ponto, ao dizer "e os astros não são puros aos seus olhos" (Iyov 25:5), "e os céus não são puros aos seus olhos" (Iyov 15:15). E diz que ela é, para Ele, como a luz de uma lâmpada com que se vasculham todos os esconderijos e câmaras, vendo-se tudo o que neles está oculto, como diz "a lâmpada do Senhor é a alma do homem, que esquadrinha todas as câmaras do ventre" (Mishlei 20:27). E diz, ainda, que Ele é mais quente do que o fogo que funde o ouro e a prata no forno e os refina, como diz "o crisol é para a prata, e o forno para o ouro, mas o Senhor prova os corações" (Mishlei 17:3).

וכאשר מצאתי אלה הדברים המלאכותיים כאשר ספרתי, הוספתי להחזיק במומי הנפשות העונות והאשמים, אף על פי שאינם נראים לבני אדם, מפני שאין חושם משער בם. והם נגלים לעושיהם, כי הוא בראם, והחל אותם, והוא שהנפש עצם שכלי זך יותר זך מעצם הכוכבים והגלגלים, ואנחנו אין אנו רואים אותה בחושנו, ואיך יתבאר לנו מה שפועל בעצמה ומעכיר אותה? אך הוא מבואר לבוראה ובורא הגלגל, ועל כן ישים השמים והכוכבים דומים לה בענין הזה כשהוא אומר (איוב כ"ה ה') וכוכבים לא זכו בעיניו, ושמים לא זכו בעיניו (שם ט"ו ט"ו). ואומר כי היא לו כאור הנר אשר יחופש לו כל המחבואים והחדרים ויראה כל מה שהוא נסתר בם, כמ"ש (משלי כ' כ"ז) נר יי' נשמת אדם חופש כל חדרי בטן, ואמר עוד כי הוא חם מאש אשר תתיך הזהב והכסף בכור ותזקק אותם, כמ"ש (שם י"ז ג') מצרף לכסף וכור לזהב ובוחן לבות יי'.
Nota — a alma, substância mais pura que os astros. Para Saadia, a alma não é uma metáfora: é uma substância intelectual real, mais subtil e pura que os próprios astros (que "não são puros aos seus olhos"). Sendo tão fina, escapa aos nossos sentidos — mas não ao seu Criador, que a "esquadrinha como uma lâmpada" (Mishlei 20:27) e a "refina como ao ouro no forno" (Mishlei 17:3). É uma psicologia racionalista: os atos deixam na alma marcas reais, que D'us lê.
4

E eu disse: como é admirável esta coisa! Pois o homem faz duas refeições — uma permitida e outra proibida —, e vê que ambas o nutrem; e tem duas uniões — uma permitida e outra proibida —, e acha-as ambas agradáveis, e reputa-as do mesmo modo. Mas o Aferidor afere o que elas operam no espírito, como explicámos; e, como diz, "todo caminho do homem é reto aos seus olhos mas o Senhor pesa os corações" (Mishlei 21:2). E depois ficou-me claro que os méritos, quando se multiplicam na alma, a tornam pura e luminosa, como diz "e a sua vida verá a luz" (Iyov 33:28), "para ser iluminado com a luz da vida" (33:30). E, quando as iniquidades se multiplicam sobre ela, ela se turva e escurece, como se disse daquele que assim é: "nunca jamais verão a luz" (Tehillim 49:20).

ואמרתי מה נפלא הדבר הזה, כי האדם הוא אוכל שתי אכילות מותר ואסור; ורואה אותם שזנין אותו, ובועל שתי בעילות מותר ואסור, וימצאם ערבים, וחושב אותם על דרך אחת, והמרצה הוא מרצה מה שפועלים ברוח כאשר בארנו, וכמ"ש (שם כ"א ג') כל דרך איש ישר בעיניו. ואחר כן התבאר לי כי הזכיות כשירבו לנפש, תזך ותאיר, כמ"ש (איוב ל"ג כ"ח) וחיתו באור תראה. לאיר באור החיים (שם כ"ט). וכאשר ירבו עליה העונות תעכר ותחשך. וכאשר אמר במי שהוא כן, (תהלים מ"ט כ') עד נצח לא יראו אור.
Nota — o permitido e o proibido. Aqui está a raiz racional dos mandamentos. O mesmo ato — comer, unir-se — pode ser permitido ou proibido, e ao próprio agente parece idêntico: "ambos o nutrem", "ambos lhe são agradáveis". Mas o que cada um opera na alma é oposto: o permitido a ilumina, o proibido a escurece. Os preceitos não são arbitrários — são uma espécie de dietética da alma; só que a diferença, real, é aferida por D'us, não pelo paladar.
5

E depois Ele nos deu a conhecer que guarda todos estes méritos e faltas sobre todos os homens, e que eles estão diante d'Ele como as coisas escritas estão diante de nós — como diz, sobre os justos, "e escreveu-se um livro de memória diante d'Ele, para os que temem o Senhor e pensam no seu Nome" (Malachi 3:16); e, sobre os ímpios, "eis que está escrito diante de mim; não me calarei, mas retribuirei" (Yeshayahu 65:6). E, ao examinar esta parábola das palavras do Sábio, achei-a do mais perfeito acerto: pois nós, a multidão das criaturas, visto que achámos na capacidade que o Sábio pôs em nós — entendermos as letras com que falamos, e produzirmos para cada letra um sinal de escrita, de modo a guardar com isso o nosso registo e tudo o que precisamos de saber —, com muito maior razão estará na sua sabedoria guardar tudo sobre nós sem escrita e sem livro. E só nos representou isto por meio da escrita porque a ela estamos habituados no registo, para aproximá-lo do nosso entendimento.

ואחר כן הודיענו כי הוא שומר כל אלה הזכיות והחובות על כל בני אדם, והמה אצלו ככתובים אצלנו, כמ"ש על הצדיקים (מלאכי ג' ט"ז) ויכתב ספר זכרון לפניו ליראי יי' ולחושבי שמו. ואמר על הרשעים, (ישעיה ס"ה ו') הנה כתובה לפני לא אחשה כי אם שלמתי. וכאשר השתכלתי בזה המשל מדברי החכם, מצאתי בתכלית התקון והנכונה, והוא שאנחנו המון הברואים, מפני שמצאנו ביכלתנו אשר שמה החכם בנו שנבין האותיות אשר נדבר בם, ונוליד לכל אות סימן מהמכתב, עד שנשמר בזה חשבוננו, וכל החדושים אשר נצטרך לדעתם, כל שכן שיהיה בחכמתו הוא מה שישמור עלינו הכל בלי כתב ולא ספר. ודמה לנו זה בכתב, בעבור שהרגלנו בו החשבון. לקרב אל הבנתנו כאשר בארתי.
Nota — o "livro" é uma imagem. Quando a Escritura fala de um "livro de memória" em que se inscrevem os atos, não imagina Saadia que D'us precise de escrever. Ao contrário: se nós, criaturas, sabemos guardar contas por meio de letras, "com muito maior razão" D'us guarda tudo sem escrita e sem livro. O "livro" é uma acomodação à nossa linguagem — falamos de escrita porque é assim que conservamos a memória. O registo divino é perfeito justamente por não precisar de tinta.
6

E deu-nos a conhecer, ainda, que, enquanto estamos no mundo da ação olam ha-ma'assé, Ele guarda para cada um o seu ato; e já lhe fixou o termo, destinando-o ao outro mundo, que é o mundo da recompensa olam ha-guemul. E esse mundo Ele o criará quando se completar todo o número dos seres racionais que a sua sabedoria decretou criar; ali retribuirá a todos segundo os seus atos, como disse o Sábio "e eu disse no meu coração: ao justo e ao ímpio julgará D'us" (Kohelet 3:17), e "pois a todo ato D'us trará a juízo". E hei de explicar a doutrina da recompensa no Tratado Nono deste livro, como convier. E, com isto, não deixou os seus servos, neste mundo, sem recompensa pelo bem e punição pela culpa — recompensa que serve de sinal e de marca a todo o que reflete. Por isso vemos que Ele menciona na Torá as bênçãos da porção "Im bechukotai" (Vayikrá 26:3-13), e diz "faze comigo um sinal para o bem" (Tehillim 86:17); e menciona as maldições de "Ve-hayá im lo tishmá" (Devarim 28:15-68), e diz delas "e serão em ti por sinal e por prodígio" (Devarim 28:46) — sinais dentre as coisas deste mundo. E todos os méritos estão guardados para os justos e selados, como diz "porventura não está isto encerrado comigo, selado nos meus tesouros?" (Devarim 32:34).

והודיענו עוד, כי בעוד שאנחנו עומדים בעולם המעשה, הוא שומר על כל אחד מעשהו, וכבר זמן גבולו עליו לעולם האחר אשר הוא עולם הגמול, והעולם ההוא יבראהו כשישלים כל מספר המדברים אשר חייבה חכמתו שיבראם, שם יגמול הכל כפי מעשיהם, כמ"ש החכם (קהלת ג' י"ז) ואמרתי אני בלבי את הצדיק ואת הרשע ישפוט האלהים, ואמר עוד (שם) כי אל כל מעשה האלהים יביא במשפט וגו'. ואני עתיד לבאר דעת הגמול במאמר התשיעי מהספר הזה במה שיכשר. ועם זה לא הניח עבדיו בעולם הזה בבלתי גמול על הטוב, ועונש על האשם, מה שיהיה לאות ולסימן לכל המונה לעת הקבץ מעשה הברואים. ועל כן אנחנו רואים שהוא זוכר בתורה הברכות אשר בפרשת אם בחקותי (ויקרא כ"ו ג'-יג), ואמר בכמוהם (תהלים ס"ו ז') עשה עמי אות לטובה. וזוכר הקללות אשר בוהיה אם לא תשמע (דברים כ"ח טו-סח) ואומר עליהם (שם מ"ט), והיו בך לאות ולמופת. ומענינים בעולם הזה, וכל הזכיות שמורות לצדיקים וחתומות כמ"ש (שם ל"ב ל"א) הלא הוא כמוס עמודי חתום באוצרותי:

Sobre esta seção · עִיּוּן

O que os atos fazem à alma

O Tratado V abre com uma ideia que muda tudo: os atos não são apenas julgados de fora — eles atuam sobre a alma. Cada mérito a torna mais pura e luminosa; cada falta a turva e escurece. Mérito e falta não são, para Saadia, meras entradas num livro-razão celeste, mas estados reais da alma, marcas que o ato deixa em quem o pratica. É uma moral psicológica de notável profundidade: fazemo-nos a nós mesmos com aquilo que fazemos.

O perito e o invisível

Como afirmar a existência de algo que ninguém vê? Saadia responde com o seu característico realismo: pela perícia. O aferidor distingue a moeda boa da má, o médico lê o pulso, o joalheiro reconhece a gema — diferenças reais, ocultas ao leigo. Do mesmo modo, os "defeitos da alma" são reais, embora imperceptíveis ao nosso sentido, porque a alma é uma substância subtil, "mais pura que os astros". O que nos escapa é transparente ao seu Criador, que a esquadrinha "como uma lâmpada" e a refina "como ao ouro".

O permitido e o proibido

Daqui brota a justificação racional dos mandamentos. O mesmo gesto pode nutrir ou ferir a alma, conforme seja lícito ou ilícito — e ao agente parece idêntico ("ambos o nutrem"). A diferença não está no prazer, mas no que o ato opera no espírito: o permitido ilumina, o proibido escurece. Os preceitos são, nesta leitura, uma dietética da alma; e a verdadeira "perícia" que afere a diferença é a de D'us, que "pesa os corações" (Mishlei 21:2). É o mesmo racionalismo que o Rambam desenvolveria ao buscar as razões das mitsvot.

O livro sem escrita e os dois mundos

Por fim, dois esclarecimentos. O "livro de memória" é uma imagem: D'us guarda todos os atos sem precisar de escrita — se nós conservamos contas com letras, quanto mais Ele, sem tinta nem papel. E há dois tempos: o mundo da ação, em que agimos, e o mundo da recompensa (a ser tratado no Tratado IX), em que se retribui. Mas já neste mundo D'us deixou sinais da sua justiça — as bênçãos e as maldições da Torá —, "para sinal e marca a todo o que reflete". O essencial, porém, está "selado nos seus tesouros".

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado V (O mérito e o demérito), cap. 1, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Yirmiyahu 32:19 e 17:10; Iyov 34:21, 25:5, 15:15 e 33:28-30; Bamidbar 15:31; Mishlei 20:27, 17:3 e 21:2; Tehillim 49:20 e 86:17; Malachi 3:16; Yeshayahu 65:6; Kohelet 3:17; Vayikrá 26; e Devarim 28 e 32:34. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado V · O mérito e o demérito · cap. 2

Por Que o Justo Sofre e o Ímpio Prospera

מַאֲמָר חֲמִישִׁי · ב

Há dez graus de pessoas; e chama-se "justo" ou "ímpio" pela maioria dos atos, como se diz "quente" ou "frio". Daqui Saadia responde ao mais antigo dos escândalos: D'us salda já neste mundo a menor parte da conta — as poucas faltas do justo, os poucos méritos do ímpio —, deixando a maioria, que define cada um, para o mundo eterno. E o que de fato anula méritos ou faltas não é a aritmética, mas o arrependimento.

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E, posto que precedi estas coisas, vejo por bem enumerar os graus das criaturas nos modos dos seus méritos e das suas faltas — quantos são, conforme o que sabemos da Escritura e da tradição recebida —, pondo cada um no seu lugar, a fim de que muitos se orientem por isso. E digo que os graus dos homens, no tema dos méritos e das faltas, são dez níveis cinco pares: o justo tzadik e o ímpio rashá; o transgressor e o rebelde; o íntegro e o que falha; o que peca por engano e o que peca deliberadamente; e o que retorna penitente e o que nega. Alguns destes são, na verdade, próximos entre si, e mencionei-os apenas para poder falar de cada um. E convém que eu esclareça cada um destes "portões" e o que há nele.

וכיון שהקדמתי אלה הדברים, אני רואה לספר מדרגות הברואים באפני זכיותם וחובותם כמה הם, ממה שידענו מן הכתוב זמן המקובל, ואשים כל אחד מהם במקומו כאשר ידעתיו, לבעבור יתישרו בו רבים מבני אדם. ואומר שמדרגות בני אדם בשער הזכיות והחובות עשרה מעלות; צדיק ורשע, ועובר וממרה, ושלם ומקצר, וחוטא ומזיד, ושב וכופר. ויש הנה השוה מפורש לבד, כדי שאדבר על ענינו. וראוי שאבאר כל שער מהם ומה שיש בו.
2

E digo: chama-se justo aquele cujos atos são, em sua maioria, méritos; e ímpio aquele cujos atos são, em sua maioria, faltas. E isto é semelhante às coisas naturais: os sábios chamam "quente" a uma coisa quando nela o calor supera o frio, e "fria" quando o frio supera o calor; e chamam "são" a um corpo quando nele predomina a saúde, e "doente" quando nele predomina a doença. Desse modo vieram os nomes proféticos: chama-se "justo" ao homem quando a maioria dos seus atos é justa — como Yehoshafat e Chizkiyahu foram chamados justos, ainda que numa parte dos seus atos houvesse pecado (a Yehoshafat se disse "acaso devias ajudar o ímpio e amar os que odeiam o Senhor? por isso há ira sobre ti", II Divrei haYamim 19:2; e de Chizkiyahu, "mas Chizkiyahu não retribuiu segundo o bem que lhe fora feito", 32:25). E, do mesmo modo, Yehu foi chamado ímpio embora tivesse abolido o culto do Baal, e Tzidkiyahu foi chamado ímpio embora tivesse salvado Yirmiyahu. O rótulo segue a maioria.

ואומר נקרא צדיק מי שרוב מעשיו זכיות, ורשע מי שרוב מעשיו חובות. והענין הזה דומה לדברים הטבעיים. והוא שהחכמים קורין לדבר חם, כאשר יהיה החום בו יותר מן הקור, וקורין לדבר קר, כאשר יהיה הקור יותר מן החום. וקורין לגוף בריא כשהבריאות בו יותר, וחולה, כשהחולי בו יותר. ועל הדרך הזה באו השמות הנבואיים, שקורין האדם צדיק כשיהיו רוב מעשיו צדק. כאשר קראו יהושפט וחזקיהו צדיקים אע"פ שיה במקצת מעשיהם חטא, כאשר נאמר ליהושפט (ד"ה ב' י"ט ל') הלרשע לעזור ולשונאי יי' תאהב ובזאת עליך קצף. ונאמר לחזקיה ולא כגמול עליו השיב חזקיהו (שם ל"ב כ"ה) וכמו שקראו יהוא רשע, והוא בטל את הבעל, וקראו צדקיהו רשע, וכבר הציל ירמיהו.
Nota — justo e ímpio pela maioria. Saadia recusa um moralismo de tudo-ou-nada. Como na natureza se diz "quente" ou "frio" conforme o que predomina, e "são" ou "doente" conforme o que prevalece no corpo, também "justo" e "ímpio" medem-se pela maioria dos atos — não pela perfeição. Por isso a Escritura chama justos a reis que tiveram faltas (Chizkiyahu), e ímpios a quem teve méritos (Yehu, que aboliu o Baal). Ninguém é só luz ou só sombra; o que conta é o que pesa mais na balança. É a mesma "pesagem" que o Rambam descreve em Hilchot Teshuvá 3.
3

E entre o que o Sábio mencionou neste tema: que D'us recompensa os seus servos, neste mundo, pela menor parte dos seus atos, de modo que lhes fique a maior parte para o outro mundo — pois ali não é possível transferi-los de um grau a outro, já que cada uma das retribuições permanece sempre no que é, como diz "para a vida eterna e para o desprezo eterno" (Daniel 12:2). E pôs a recompensa da menor parte neste mundo, reservando o conjunto dos méritos para o tempo distante o mundo vindouro, e a menor parte dos méritos para este mundo, como diz "e saberás que o Senhor teu D'us é D'us, que guarda a aliança e a bondade... e retribui na própria face aos que o odeiam, para os destruir" (Devarim 7:9-10). E assim dividiu este assunto: Moshé e Aharon cometeram um só pecado, e D'us os puniu por ele neste mundo, como diz "porque não crestes em mim para me santificar... por isso não fareis entrar esta congregação" (Bamidbar 20:12); e Aviyá, filho de Yerovam, fez uma só boa ação, e D'us o recompensou por ela neste mundo, como diz "pois só este, de Yerovam, virá à sepultura, porque nele se achou alguma coisa boa" (I Melachim 14:13).

וממה שזכר אותו החכם בשער הזה, לגמול בעולם הזה עבדיו על המעט ממעשיהם, עד שישאר להם הרוב לעולם האחר, כי לא יתכן להעתיקם בעולם ההוא ממדרגה אל מדרגה, כי כל אחד מהגמולים עומד תמיד במה שהוא בו, כאשר אמר (דניאל י"ב ב') לחיי עולם ולדראון עולם. ושם הגמול על המעט בול' הזה, כאשר בכלל הזכיות שהם לזמן הרחוק, והמעט מן הזכיות לעולם הזה, כאשר אמר (דברי' ז' ט') וידעת כי יי' אלהיך הוא האלהים שומר הברית והחסד וגו' ומשלם לשונאיו אל פניו להאבידו. ומחלק הענין הזה, כי משה ואהרן חטאו חטא אחד, וענש אותם עליו בעולם הזה, כמ"ש (במדבר כ' י"ב) יען לא האמנתם בי להקדישני וכו' לכן לא תביאו וגו'. ושאביה בן ירבעם עשה טובה אחת, וגמל אותו עליה בעולם הזה כמ"ש (מלכים א' י"ד ג') כי זה לבדו יבא לירבעם אל קבר יען נמצא בו דבר טוב.
Nota — por que se paga a menor parte aqui. Aqui está a chave da teodiceia de Saadia. No mundo vindouro, cada um permanece fixo no seu grau ("vida eterna" ou "desprezo eterno") — não se sobe nem se desce. Por isso D'us salda já neste mundo a menor parte da conta: as poucas faltas do justo e os poucos méritos do ímpio. Assim, a maioria — o que verdadeiramente define cada um — fica intacta para o mundo eterno. Moshé e Aharon pagaram aqui o seu único pecado; Aviyá recebeu aqui a sua única boa ação.
4

E sobre este princípio, é possível que um justo tenha muitos pecados, pelos quais deva passar afligido e atribulado todos os dias da sua vida; e é possível que um pecador tenha muitos méritos, pelos quais mereça passar a maior parte dos seus dias no bem. E sobre isto disseram os nossos mestres, de abençoada memória (Kidushin 40b): "Todo aquele cujos méritos são mais numerosos que as suas iniquidades, fazem-lhe mal neste mundo, e ele assemelha-se a quem queimou a Torá inteira; e todo aquele cujas iniquidades são mais numerosas que os seus méritos, fazem-lhe bem neste mundo, e ele assemelha-se a quem cumpriu a Torá inteira."

ועל השרש הזה אפשר שיהיה לצדיק חטאים רבים, חוייב שיהיה בעבורם כל ימי חייו נגש ונענה, ואפשר שיהיה לחוטא זכיות רבות, ראוי שיהיה בעבורם רוב ימיו בטוב. ובזה אמרו רבותי' ז"ל (קדושין ר"ע) כל שזכיותיו מרובין לו מעונותיו מריעין לו, ודומה כמי ששרף את התורה כלה, וכל שעונותיו מרובין מזכיותיו מטיבין לו, ודומה כמי שקיים את התורה כלה.
Nota — por que o justo sofre e o ímpio prospera. Eis o ensinamento mais surpreendente do capítulo (Kidushin 40b), e a sua consolação. Quando se faz mal a um justo neste mundo, é que se lhe estão a saldar as poucas faltas, para que entre limpo no mundo eterno — por isso "assemelha-se a quem queimou a Torá inteira" (paga aqui como se nada lhe restasse). E quando o ímpio prospera, recebe aqui os seus poucos méritos, para nada lhe ficar lá. A prosperidade do mau é o pagamento de uma pequena dívida a seu favor — e a sua maior perda.
5

E esta afirmação dos mestres é a respeito de quem faz méritos e faltas e, ao fazer o mérito, não se arrepende da falta, e, ao fazer a falta, não se arrepende do mérito. Mas quem faz muitos méritos e se arrepende deles — já os perdeu todos pelo seu arrependimento; e dele se diz "e quando o justo se desvia da sua justiça e comete iniquidade..." (Yechezkel 18:24). E quem fez muitas faltas e se arrependeu delas e cumpriu as leis do retorno teshuvá — já as removeu de si; e dele se diz "e quando o ímpio se converte da sua maldade..." (Yechezkel 18:27), e depois "todas as suas transgressões que cometeu não lhe serão lembradas" (18:22). E os nossos mestres explicaram isto (Yomá 86b) como tratando-se de quem renega os méritos anteriores tohé al ha-rishonot.

וזה המאמר במי שעושה זכיות וחובו', ובעת שעושה הזכות לא התחרט על החובה. ובעת שעושה החובה לא התחרט על הזכות. אבל מי שעושה זכיות רבות והתחרט עליהם, כבר אבדם כלם בחרטתו, ובו נאמר (יחזקאל י"ח כ"ד) ובשוב צדיק מצדקתו ועשה עול וגו'. ומי שעשה חובות רבות והתחרט עליהם וקיים חקי התשובה, כבר הסירם מעל עצמו, ובו אומר (שם י"ח) ובשוב רשע מרשעתו וגומר. ואחר כן אמד (שם י"ח) כל פשעיו אשר עשה לא יזכרו לו וארז"ל (יומא ס"ב) בביאור זה בתוהה על הראשונות.
6

E sobre este princípio, ainda, é possível que os méritos de um justo estejam preparados para ele no mundo vindouro, e que ele se arrependa deles, e os méritos caiam dessa preparação; e o Criador o recompensa por alguns deles neste mundo. E os homens veem-no: quando começou a negar, começou a sua prosperidade — e o coração deles enche-se de ousadia para pecar pensando que o pecado traz prémio. Mas aquela prosperidade não é por causa da negação que iniciou; é o acerto de contas daquilo que lhe estava preparado os seus méritos a serem pagos aqui, à sua perda — e foi como um golpe na sua face. E é possível que as faltas de um ímpio estejam preparadas para ele no mundo vindouro, e que ele se arrependa delas e retorne, e as faltas deixem de o punir no mundo vindouro, sendo exigidas dele neste mundo, naquilo que não se pode saldar de outro modo sem um castigo eterno, como hei de explicar. E os homens veem-no: quando começou a converter-se dos seus pecados, então vieram sobre ele os males; e admiram-se, sem saber que o que o atingiu não é por causa do que começou a teshuvá, mas do resto do que se afastou dele os seus pecados a serem saldados aqui. E, quando os homens contemplam estes casos, dissipam-se neles as dúvidas, e os seus corações se fortalecem para o serviço de D'us, como diz "e o justo se firma no seu caminho, e o de mãos puras cresce em força" (Iyov 17:9). E, se alguém disser que uma falta arruína muitos méritos — não é ela que o faz, mas o arrependimento que a acompanha; por causa do arrependimento, não por si mesma. E que um mérito repara muitas faltas — e não o faz senão com a teshuvá; por causa da teshuvá, não por si mesma. Precisei desta explicação porque vi pessoas falsificarem estas coisas, dizendo: se há, na medida de uma negação, o poder de perder muito da fé, não pode haver, na medida de um só ato de fé, o que faça perder muitas negações; e, se há, no poder de uma só fé, o que remova muitas negações, não pode haver uma só negação que remova muito da fé — e os crentes ficam confusos nestas coisas.

ועל השרש הזה גם כן, אפשר שיהיה איש צדיק זכיותיו מוכנות לו לעולם הבא, ויתחרט עליהם, ויפלו מההכנה לעולם הבא, ויגמלהו הבורא עליהם בעולם הזה על קצתם, ויראוהו בני אדם כאשר החל לכפור, החלו טובותיו, וימלאם לבם לחטא, והטובה ההיא אינה בעבור מה שהחל בו מן הכפירה, אבל היא חובת מה שהיה מוכן לו, והכו בו על פניו. ואפשר שיהיה אדם רשע מוכנות חובותיו לעולם הבא, ויתחרט עליהם וישוב, ויפלו מענוש אותו עליהם לעולם הבא, ויפרעו ממנו בעולם הזה, במה שאי אפשר, בלעדיו מעונש עולמי, כאשר אני עתיד לבאר. ויראו אותו בני אדם, כאשר החל לשוב מחטאתיו, אז באו עליו הרעות, ויתמהו ולא ידעו כי זה שמצאו איננו בעבור מה שהחל בו, אך משארית מה שסר ממנו, וכאשר יתבוננו בני אדם במינים האלה, יגלו מעליהם הספקות, ויחזקו לבותם לעבודה, כמ"ש (איוב י"ז ט') ויאחז צדיק דרכו וטהר ידים יוסיף אמץ. ואם יאמר אומר, שחובה אחת תפסיד זכיות רבות איננה עושה זה, אלא שיש עמה חרטה, בעבור עלת החרטה לא בעבור עצמה. ושזכות אחת תתקן חובות רבות, ואיננה עושה זה כי אם עם התשובה, בעבור התשובה לא בעבור עצמה. - והוצרכתי לביאור הזה מפני שראיתי אנשים מזייפים הדברים, ואומרים אם יש בשיעור כפירה אחת, לאבד הרבה מן האמונה לא יתכן להיות בשיעור אמונה אחת, מה שיאבד הרבה כפירות, ואם יש בכח אמונה אחת, מה שיסיר הרבה כפירות, לא יתכן להיות כפירה אחת, מה שיסיר הרבה מן האמונה ויהיו המאמינים נבוכים בדברים האלה:
Nota — não é a aritmética, é o arrependimento. O ponto decisivo. Uma só falta não apaga, por si, muitos méritos; nem um só mérito apaga, por si, muitas faltas. O que apaga é a vontade: arrepender-se dos méritos perde-os ("renegar os anteriores", Yomá 86b); arrepender-se das faltas remove-as (Yechezkel 18). Por isso não há a "assimetria" que confundia alguns: a anulação dá-se sempre pela teshuvá ou pela charatá, não por uma conta de mais-e-menos. E entender isto dissipa o escândalo do ímpio que prospera e do penitente que sofre — e "fortalece o coração para o serviço" (Iyov 17:9).

Sobre esta seção · עִיּוּן

Os dez graus e a regra da maioria

Saadia abre classificando os homens em dez graus — cinco pares, do justo ao que nega. Mas o cerne é a regra da maioria: ninguém é julgado pela perfeição, e sim pelo que predomina nos seus atos, tal como se chama "quente" ou "são" ao que tem mais calor ou mais saúde. Por isso a Escritura chama justos a reis que erraram e ímpios a quem teve méritos. É um realismo moral profundo — e a mesma "pesagem da balança" que o Rambam ensinaria em Hilchot Teshuvá 3.

Por que o justo sofre e o ímpio prospera

Daqui nasce a resposta de Saadia ao mais antigo dos escândalos. No mundo vindouro, cada um fica fixo no seu grau; por isso D'us salda já neste mundo a menor parte da conta de cada um — as poucas faltas do justo, os poucos méritos do ímpio —, deixando intacta para a eternidade a maioria que o define. Assim se entende o ensino de Kidushin 40b: faz-se mal ao justo aqui (para que entre limpo lá) e bem ao ímpio aqui (para nada lhe ficar lá). A prosperidade do mau não é prémio — é o acerto de uma pequena dívida, e a sua perda maior.

O poder do arrependimento

O capítulo guarda a sua distinção mais fina para o fim: não é a aritmética dos atos que decide, mas a vontade. Uma só falta não apaga, por si, muitos méritos; um só mérito não apaga, por si, muitas faltas. O que apaga é o arrependimento — renegar os bens perdidos (tohé al ha-rishonot, Yomá 86b), ou voltar-se das faltas pela teshuvá (Yechezkel 18). Assim cai a falsa "simetria" que confundia alguns: a anulação opera sempre pela charatá ou pela teshuvá, nunca por um cálculo de mais-e-menos.

Dissipar as dúvidas

Saadia confessa por que escreveu tudo isto: "vi pessoas falsificarem estas coisas", e os crentes ficavam confusos. O denier que prospera e o penitente que sofre parecem desmentir a justiça divina — mas, bem entendidos, confirmam-na: aquele recebe aqui os seus poucos méritos; este salda aqui as suas poucas faltas. Quem contempla estes casos deixa de tropeçar neles e "firma-se no seu caminho" (Iyov 17:9). É a teodiceia racionalista no seu melhor: não nega o escândalo aparente — explica-o, e devolve a paz a quem servia a D'us com o coração inquieto.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado V (O mérito e o demérito), cap. 2, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Daniel 12:2; Devarim 7:9-10; Bamidbar 20:12; I Melachim 14:13; II Divrei haYamim 19:2 e 32:25; Yechezkel 18:22, 18:24 e 18:27; e Iyov 17:9; com os ditos talmúdicos de Kidushin 40b e Yomá 86b. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado V · O mérito e o demérito · cap. 3

Sofrimentos de Amor, e a Paciência com os Ímpios

מַאֲמָר חֲמִישִׁי · ג

Por que sofre o justo, mesmo o íntegro — e até a criança inocente? E por que tem D'us tanta paciência com o ímpio? Saadia responde com os "sofrimentos de amor" (a provação que prepara uma recompensa maior), com a sabedoria de quando D'us explica a dor e quando cala, e com os sete modos pelos quais Ele concede tempo ao ímpio.

1

E depois digo: encontro os sofrimentos dos justos neste mundo de dois modos. Um, por poucos pecados, como antes expliquei. E o segundo: um mal que o Criador faz vir sobre eles no início, quando sabe que eles o suportam — e depois os recompensa por isso com bem, como diz "o Senhor prova o justo" (Tehillim 11:5). E Ele não costuma fazer assim com quem não suporta, pois nisso não há proveito. Mas o proveito do sofrer dos justos é para que os homens saibam que não foi à toa que D'us os escolheu — como conheces o caso de Iyov Jó e o seu sofrer.

ואחר כן אומר, כי אני מוצא יסורי הצדיקים בעולם הזה על שני דרכים, אחד מהם על חטאים מעטים, כאשר הקדמתי לבאר. והשני התחלת רעה יביאה הבורא עליהם, כשידע מהם שהם סובלים אותה, ואחר כן יגמלם עליה טובה, כמ"ש (תהלים י"א ה') יי' צדיק יבחן. ולא נהג לעשות כן עם מי שאינו סובל, מפני שאין בו תועלת. אבל, התועלת בסבל הצדיקים, כדי שידעו בני האדם, כי לא בחרם האלהים לחנם. וכאשר ידעת מענין איוב וסבלו.
Nota — os sofrimentos de amor. Saadia distingue dois tipos de sofrimento do justo: o que vem por poucos pecados (visto no cap. anterior) e os yissurin shel ahavá — "sofrimentos de amor": uma provação que D'us traz sobre quem sabe que pode suportá-la, para depois recompensá-lo ainda mais. E há um critério de misericórdia: Ele prova quem aguenta ("o Senhor prova o justo"), pois provar quem desmoronaria não teria proveito. O sofrer do justo tem ainda um fruto público: mostra ao mundo que a sua eleição não era vã — como em Iyov.
2

Mas, se um homem está a ser punido pelos seus sofrimentos e pede ao seu D'us que lhe dê a conhecer por que os trouxe sobre ele, D'us costuma dar-lho a conhecer, como disse "e quando disserdes: por que nos fez o Senhor nosso D'us todas estas coisas?..." (Yirmiyahu 5:19) — e nisto há um conserto, pois o leva a afastar-se dos seus pecados. Mas, quando um homem está a ser provado posto à prova pelos seus sofrimentos e pede que lhe dêem a conhecer por que vieram, D'us costuma não lho dar a conhecer — como disse Moshé, nosso mestre, "por que fizeste mal ao teu servo?" (Bamidbar 11:11), e não lho explicou; e Iyov disse "dá-me a conhecer por que contendes comigo?" (Iyov 10:2), e não lho explicou. E também nisto há um conserto: para que o sofrer do justo não seja tido em pouco pelos homens — que diriam: "ele só sofreu porque sabia que a sua recompensa seria grande".

אלא אם יהיה האדם נענש ביסוריו, וישאל מאלהיו להודיעו על מה הביאם עליו? נהג להודיעו, כאשר אמר (ירמיה ה' י"ט) והיה כי תאמרו תחת מה עשה יי' אלהינו לנו את כל אלה וגו'. ובזה תקון מפני שמביאו לסור מחטאתיו. וכאשר יהיה האדם נבחן ביסוריו, וישאל מאלהיו להודיעו למה הביאם עליו? נהג שלא להודיעו, כאשר אמר משה רבינו (במדבר י"א י"א) למה הרעות לעבדך? ולא באר לו. ואמר איוב, (איוב י' ב') הודיעני על מה תריבני? ולא באר לו. ובזה עוד תקון כדי שלא יהיה סבל הצדיק נקל אצל בני אדם, ויאמר לא סבל כי אם בעבור שידע כי גמולו יהיה גדול.
Nota — quando D'us explica, e quando cala. Uma assimetria fina. Se o sofrimento é punição, D'us costuma dizer ao homem por quê — porque o objetivo é levá-lo à teshuvá, e para isso ele precisa saber. Mas se é prova (sofrimento de amor), D'us costuma calar o motivo — como não respondeu a Moshé nem a Iyov. Por quê? Para que o sofrer do justo não seja "tido em pouco": se soubesse de antemão a grande recompensa, o seu sofrer pareceria um cálculo interesseiro. O silêncio guarda a pureza da provação.
3

E digo ainda que até o homem perfeito pode ser afligido para depois ser recompensado; pois encontro as crianças a serem afligidas — e não tenho dúvida da sua recompensa. E os sofrimentos que o Criador traz sobre elas são para o bem delas — como a correção de um pai, que as castiga e as contém para afastar delas o dano; e como quem lhes dá a beber remédios amargos e repugnantes para remover as suas doenças. Como disse "que, assim como um homem corrige a seu filho, também o Senhor teu D'us te corrige" (Devarim 8:5); e, em sentido semelhante, "pois o Senhor repreende aquele a quem ama..." (Mishlei 3:12). E, se alguém disser: "Ele poderia fazer-lhes esse mesmo bem da recompensa sem sofrimento", responder-lhe-emos com a nossa resposta anterior: que D'us nos inclina para a parte maior — pois a retribuição por via de mérito gemul é maior do que a que vem por via de graça chesed.

ואומר עוד כי אפילו השלם יתכן שמריעין לו לגמול אותו, כי אני מוצא העוללים מריעים להם, ואין ספק אצלי בגמולם. ויהיה היסורין שמביא עליהם הבורא לטוב להם, כמו מוסר אביהם להם להכותם ולאסרם, כדי למנוע מהם ההזק, וכאש ישקם הרפואות המרות הנמאסות להסיר מחלותם. וכמי שאמר (דברים ח' ה') כי כאשר ייסר איש את בנו יי' אלהיך מיסרך. ואמר עוד בכמו זה, (משלי ג' י"ג) כי את אשר יאהב יי' יוכיח וגומר ואם יאמר אומר הוא יכול להיטיב להם בשעור הגמול הזה מבלתי יסורין נשיבהו בתשובתינו הראשונה אשר אמרנו, כי נטה בנו אל החלק הגדול כי ההשבה על דרך הגמול יותר גדולה ממה שעל דרך החסד:
Nota — o sofrimento dos inocentes. O caso mais duro: as crianças que sofrem. Saadia não recua — afirma que também elas têm recompensa, e que o sofrimento lhes é "para o bem", como a disciplina de um pai ou um remédio amargo que cura. E responde à objeção óbvia ("D'us não poderia dar-lhes esse bem sem dor?"): a retribuição merecida (gemul) é maior que a dada de graça (chesed) — Ele inclina-nos para a parte maior. (É uma teodiceia oferecida como inteligibilidade; a sua plenitude, lembra Saadia, só se realiza no Mundo Vindouro — Tratado IX.)
4

E depois digo que a prosperidade dos negadores da fé neste mundo, e a sua longevidade, se dá de sete modos. Há aquele de quem o Criador sabe que há de arrepender-se, e por isso lhe concede tempo para que a sua teshuvá se complete — como achamos que concedeu a Menashé 22 anos, até que se arrependeu no seu 33.º ano, ainda que a sua teshuvá não se tenha completado. E há aquele a quem concede tempo para que dele saia um filho justo — como a Achaz, e dele saiu Chizkiyahu; e a Amon, e dele saiu Yoshiyahu. E há aquele a quem concede tempo para, por meio dele, punir homens mais ímpios do que ele — como disse da Assíria: "contra uma nação hipócrita o enviarei..." (Yeshayahu 10:6). E há aquele a quem concede tempo a pedido de um justo, em algo que lhe traga benefício — como disse a Lot: "eis que também nisto atendi o teu rosto, de não destruir..." (Bereshit 19:21). E há aquele a quem concede tempo para agravar sobre ele o castigo — como salvou o Faraó das dez pragas, até afogá-lo no mar, como diz "e lançou o Faraó e o seu exército no Mar Vermelho" (Tehillim 136:15).

ואחר כן אומר, כי טובת הכופרים לעולם הזה והארכתם, היא על שבעה דרכים. יש מהם מי שידע הבורא ממנו שעתיד לשוב, והוא מאריך לו כדי שתשלם תשובתו, כאשר מצאנוהו שהאריך למנשה כ"ב שנה עד שחזר בתשובה ל"ג שנה אעפ"י שתשובתו לא נשלמה לו. ומהם מי שהאריך לו כדי שיצא ממנו בן צדיק, כאשר האריך לאחז ויצא ממנו חזקיהו, וכאשר האריך לאמון ויצא ממנו יאשיהו. ומהם מי שמאריך לו להנקם בו מאנשים רשעים ממנו, כאשר אמר על אשור (ישעיה י' ו') בגוי חנף אשלחנו וגו'. ומהם מי שמאריך בעבור בקשת צדיק, על דבר שיהיה בו תקנתו כמו שאמר ללוט (בראשית י"ט כ"א) הנה נשאתי פניך גם לדבר הזה לבלתי הפכי וגו'. ומהם מי שמאריך לו להכביד עליו העונש, כאשר הציל פרעה מעשר המכות עד שהטביעו בים, כאשר אמר (תהלים קל"ו ט"ו) ונער פרעה וחילו בים סוף.
5

E foi sobre estas coisas que Yirmiyahu perguntou ao seu D'us a respeito dos ímpios — para saber por qual destes modos lhes concedia tempo, e não porque a coisa fosse má aos seus olhos, ao dizer "por que prospera o caminho dos ímpios?..." (Yirmiyahu 12:1). E D'us deu-lhe a conhecer que era pelo último modo — para puni-los com castigo severo —, como disse na passagem seguinte "até quando estará de luto a terra?..." (Yirmiyahu 12:4). E, explicado o necessário no tema do justo e do ímpio, acrescento: eis que vemos a Escritura dizer "um só pecador destrói muito bem" (Kohelet 9:18), e o compara à mosca caída no óleo do perfumista, como diz a seguir "moscas mortas fazem feder e borbulhar o óleo do perfumista" (Kohelet 10:1). Ora, isto é apenas quanto ao nome o rótulo: como se um homem tivesse duzentos e um atos — cem méritos e cem faltas —, o seu caso ficaria equilibrado; e, se aquele único ato a mais fosse bom, por ele seria chamado justo; e, se fosse mau, por ele seria chamado ímpio.

ועל הענינים האלה שאל ירמיהו אלהיו על האנשים הרשעים, להודיעו על איזה דרך הוא מאריך להם, לא שהיה הדבר רע בעיניו כשאמר (ירמיה י"ב א') מדוע דרך רשעים צלחה וגומר. והודיעו כי הוא על הפנים האחרוני', כדי לענשם ענש חזק, כאשר אמר בפרשה שאחריה (שם ז') עד מתי האבל הארץ וגו'. וכיון שבארתי מה שצריך אליו בשער הצדיק והרשע, אחבר אליו שאומר, הנה אנחנו רואים הכתוב אומר, (קהלת ט' י"ח) וחוטא אחד יאבד טובה הרבה ודמהו כזבוב נופל בשמן רוקח, כמו שאמר אחריו (שם י' א') זבובי מות יבאיש יביע שמן רוקח. אין זה כי אם על קריאת השם בלבד, כאלו היו לו לאדם מאתים ואחד מעשים, מהם מאה זכיות ומאה חובות, יהיה ענינו שוה. ואם היה המעשה האחד טוב, נקרא בו צדיק. ואם יהיה רע, נקרא בו רשע:
Nota — a paciência com os ímpios, e o peso de um só ato. A "demora" com o ímpio nunca é injustiça: são SETE modos propositais (dar tempo à teshuvá, gerar um filho justo, servir de instrumento de justiça, atender o pedido de um justo, agravar o castigo final...). Por isso a pergunta de Yirmiyahu "por que prospera o caminho dos ímpios?" não foi acusação, mas inquérito — e D'us respondeu. E o fecho esclarece o "um só pecador destrói muito bem": trata-se do rótulo — com a balança equilibrada, é o ato decisivo que faz alguém ser chamado justo ou ímpio (cf. o Rambam, Hilchot Teshuvá 3).

Sobre esta seção · עִיּוּן

Os sofrimentos de amor

Depois de explicar (no cap. anterior) por que o justo pode sofrer pelas suas poucas faltas, Saadia abre uma segunda via: os yissurin shel ahavá, os "sofrimentos de amor". São provações que D'us reserva a quem sabe que as suportará, para recompensá-lo depois — e a recompensa merecida é maior do que a dada por pura graça. É a recusa racionalista de ver o sofrer do justo como acaso ou abandono: ele tem sentido, medida e fruto — inclusive o de mostrar ao mundo que a eleição do justo não era vazia, como no caso de Iyov.

O silêncio que protege

Há aqui uma observação psicológica notável. Ao que sofre como castigo, D'us costuma revelar o motivo — pois quer conduzi-lo de volta. Ao que sofre como prova, costuma calar — como calou a Moshé e a Iyov. E a razão é delicada: se o justo soubesse a recompensa que o espera, o seu sofrer perderia o valor, pareceria interesse. O não-saber mantém o sofrimento gratuito — e, por isso, puro.

E as crianças?

Saadia não evita o caso mais doloroso: o sofrimento dos inocentes. A sua resposta é sóbria — também eles serão recompensados, e a dor lhes é, no fim, "para o bem", como a disciplina de um pai ou o remédio amargo. À pergunta "não poderia D'us dar-lhes o bem sem a dor?", responde que a retribuição conquistada vale mais que a recebida de graça. Não é uma resposta que elimina o mistério — é uma que o torna suportável; e a sua realização plena, lembra ele, pertence ao Mundo Vindouro (Tratado IX).

Por que o ímpio prospera — e o peso de um ato

Quanto à prosperidade dos ímpios, Saadia recusa vê-la como falha da justiça: enumera sete razões pelas quais D'us lhes concede tempo — para que se arrependam, para que gerem um filho justo (Achaz→Chizkiyahu), para servirem de instrumento contra piores que eles, a pedido de um justo, ou para tornar o castigo final mais pesado. A pergunta de Yirmiyahu foi um inquérito, não um protesto. E o capítulo fecha com uma chave: quando os méritos e as faltas se equilibram, é o ato decisivo que faz a pessoa ser chamada justa ou ímpia — "um só pecador destrói muito bem". O mesmo princípio da balança que o Rambam exporia em Hilchot Teshuvá 3.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado V (O mérito e o demérito), cap. 3, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Tehillim 11:5 e 136:15; Yirmiyahu 5:19, 12:1 e 12:4; Bamidbar 11:11; Iyov 10:2; Devarim 8:5; Mishlei 3:12; Yeshayahu 10:6; Bereshit 19:21; e Kohelet 9:18 e 10:1; "sofrimentos de amor" (yissurin shel ahavá) é da Guemará (Berachot 5a). As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado V · O mérito e o demérito · cap. 4

Os Graus diante das Mitsvot: do servo fiel ao negador

מַאֲמָר חֲמִישִׁי · ד

Saadia desenha um mapa preciso da alma diante dos mandamentos: do servo (fiel a um só preceito) ao justo completo (que cumpre todos), descendo pelo deficiente, o pecador, o deliberado e o negador. Duas teses luminosas guiam tudo: a perfeição é possível, e a teshuvá alcança a todos.

1

O servo ha-over é aquele que singularizou para si um mandamento que não transgride em todos os dias da sua vida — de modo que, ainda que seja negligente noutros ou neles falhe, nesse não falha de modo algum. Como quem se impõe nunca perder a oração no seu tempo, ou nunca adquirir dinheiro por via proibida em hipótese alguma, ou nunca ter uma união proibida, e coisas semelhantes. E como disseram os nossos mestres: "todo aquele que cumpre um só mandamento, fazem-lhe bem, prolongam-lhe os dias e ele herda a terra" — e explicaram tratar-se de quem singulariza um mandamento para cumpri-lo, como o honrar pai e mãe. Mas aquele que não deixou mandamento algum sem o ter transgredido ao menos uma vez não se chama "servo".

אך העובד, הוא אשר יחד לו מצוה אחת, לא יעברנה כל ימי חייו, שאם יסכים בזולתה או יחלק בה לא יקצר בזאת כלל, כאלו שם לעצמו שלא יאבד תפלה בזמנה, או שלא יקנה ממון מצד אסורא בשום פנים, או שלא יבעל בעילת אסורא מעולם, והדומה לזה. וכמו שאמרו רבותינו כל העושה מצוה אחת מטיבין לו ומאריכין לו את ימיו ונוחל את הארץ, ובארו זה כגון שיחד לו מצוה אחת לעשותה כגון כבוד אב ואם. אבל מי שלא הניח מצוה שלא עבר עליה פעם אחת אינו נקרא עובד.
Nota — a porta aberta a todos. O ponto de partida é generoso: basta singularizar um mandamento e ser-lhe fiel por toda a vida para já se chamar "servo" over e merecer grande recompensa — "fazem-lhe bem, prolongam-lhe os dias, e herda a terra" (Kidushin 39b). O caminho de D'us não é tudo-ou-nada: escolhe um preceito (honrar os pais, a oração no tempo certo, fugir do dinheiro ilícito) e mantém-te firme nele. Só não merece o nome de "servo" quem, em algum momento, já transgrediu todos.
2

O rebelde ha-momer é aquele que se impõe a si mesmo a regra de transgredir sempre um determinado mandamento; e os antigos chamam-no meshumad apóstata. O exemplo é como alguém que vê ser relapso num certo mandamento e o trata como se cumpri-lo lhe fosse demasiado difícil — o dos juros a usura, o das uniões, ou o dos alimentos — conduzindo-se nele conforme lhe convém. Por isso cada pessoa tem um mandamento característico conforme a sua inclinação.

אבל הממדה הוא מי ששם לעצמו חק לחלוק על מצות אחת תמיד, וקדמוננו קוראים אותו משומד. והדמיון בזה כאלו יש בבני אדם מי שרואה כי מצוה מהמצות קצר בה, והוא משתדל לשמרה כאלו היה קשה לו, מצות הרבית או מצות הדבית או מצות המאכל, והוא מתנהג באחת מהם כפי מה שיזדמן לו. ועל כן יש לכל אדם מצוה כפי ההחלקות דעתם.
3

Mas o perfeito ha-shalem é aquele que conseguiu cumprir todos os mandamentos e advertências, sem falhar em nada deles; e a esse se chama justo completo tzadik gamur. Ainda que as pessoas pensem que encontrar alguém assim — em que todos os seus caminhos se salvem sem falha — seja raro, eu vejo que isto se pode realizar; pois, se não fosse possível, o Sábio não o teria ordenado. E, se alguém disser: "visto que achamos na Torá 'e um bode em oferta pelo pecado, para expiar por vós' (Bamidbar 28:22), sabemos que é impossível viver sem pecado" — dizemos que isso foi escrito para o caso possível: se pecar, a oferta expia-lhe; e, se não pecar, fica para nós a recompensa por ela. E, se disser: "como diz, então, 'pois não há homem justo na terra que faça o bem e não peque' (Kohelet 7:20)?" — dizemos que isso se diz apenas quanto à capacidade: não há justo que possa fazer o bem sem que também possa fazer o mal; mas ele escolhe o bem e fá-lo prevalecer sobre o mal.

אבל השלם מי שהתישר לו לקיים כל המצות והאזהרו' ולא קצר במאומה מהם, והוא שיקרא צדיק גמור. אעפ"י שבני אדם חושבים כי מציאת אדם שהוא כן, רחוק שינצלו לו כל דרכיו, ואני רואה שיתישר זה, כי אם לא יהיה לא היה החכם מצוה בו. ואם יאמר אומר, מפני שמצאנו בתורה (במדבר כ"ח כ"ב) ושעיר חטאת אחד לכפר עליכ', ידענו כי אי אפשר בלתי חטא, נאמר כי זה נכתב על האפשר, ואם יחטא יכפר לו בו, ואם לא יהיה לנו עליו הגמול. ואם יאמר, איך אמר, (קהלת ז' כ') כי אדם אין צדיק בארץ אשר יעש טוב ולא יחטא, נאמר לא אמר זה כי אם על היכלת, כי אין אחד מן הצדיקים יכול לעשות שוב אלא הוא יכול לעשות רע, אבל הוא בורר בטוב ומגבירו על הרע.
Nota — a perfeição é possível. Eis uma afirmação ousada de Saadia, e profundamente racionalista: o "justo completo" — que cumpre tudo — não é uma fantasia; é alcançável, "pois, se não fosse possível, o Sábio não o teria ordenado" (D'us não ordena o impossível, como visto no Tratado IV). E os versos clássicos que parecem negar isso ("não há justo que não peque", Kohelet 7:20) não falam da necessidade de pecar, mas da capacidade: o justo pode pecar — e justamente por isso o seu não-pecar é mérito. É a liberdade, não a fatalidade do pecado, que define o homem.
4

Mas o deficiente ha-mekatzer é o que é relapso nos mandamentos positivos mitsvot asê, e dele se diz que "transgride um mandamento positivo": é o que negligencia os tefilin, o tsitsit, a sucá, o lulav e o shofar, e coisas semelhantes; e este está neste grau de pecado. Já o pecador ha-chotê é o que transgride mandamentos negativos lo ta'asê, mas não os graves. E como sabemos que não são graves? Porque a Torá não tornou grande o seu castigo neste mundo. Chama-se "o que transgride um mandamento negativo": é como quem negligencia as carnes proibidas da neveilá e da treifá, o sha'atnez, os falsos juramentos e a negação de dívidas, e coisas semelhantes, cujo assunto está neste grau de pecado.

אבל המקצר הוא המיקל במצות עשה, והוא שנאמר עליו עובר על מצות עשה, והוא המקל בתפילין ובצצית ובסכה ולולב ושופר והדומה לזה, והוא במעלה הזאת מן החטא. אך החוטא הוא העובר על מצות לא תעשה, אבל לא על החמורו', ובאי זה צד נדע שאינם חמורו'. מפני שלא הגדילו ענשם בעול' הזה, והוא נקר' עובר על מצות לא תעשה, והוא כמי שמקל בנבלה וטרפה ושעטנז ובעוננות ובכחש, והדומה לזה שענינו במעלה הזאת מן החטא.
Nota — graus medidos pela gravidade. Saadia ordena as transgressões por critérios claros: o deficiente apenas omite mandamentos positivos (não põe tefilin, tsitsit...); o pecador viola mandamentos negativos leves — e sabe-se que são leves porque "o seu castigo não é grande neste mundo". É uma gradação racional e baseada em evidência (a medida da pena revela a gravidade), não arbitrária — a mesma lógica que o Rambam organizaria nas suas Hilchot Teshuvá.
5

Mas o deliberado ha-mezid é o que transgride os mandamentos graves — aqueles em que há karet excisão pela mão do Céu, morte pela mão do Céu, e as quatro penas de morte do tribunal —; e por isso sabemos que são graves: como as uniões proibidas arayot, a profanação do Shabat, comer no Yom Kipur e o chametz no Pessach, e coisas semelhantes; este está neste grau de pecado. Mas o negador ha-kofer é o que abandona o Princípio — isto é, o Criador de tudo, bendito e exaltado seja. E o abandonam de três modos: ou serve a outro — uma imagem feita, ou um homem, ou o sol ou a lua (como se proíbe em "não terás outros deuses"); ou não serve a Ele nem a outro — não serve coisa alguma, nem verdadeira nem falsa (como em "e dizem a D'us: aparta-te de nós, não desejamos o conhecimento dos teus caminhos", Iyov 21:14); ou está em dúvida na sua fé — e, embora seja chamado "crente", talvez ore e suplique sem que o seu coração esteja inteiro e crente: ilude-se na sua palavra e na sua fé, como se diz "lisonjeavam-no com a boca e com a língua lhe mentiam, e o seu coração não era reto para com ele" (Tehillim 78:36-37); a esse chama-se "aquele por quem se profanou o Nome do Céu", e está neste grau de pecado. E todos estes, quando se arrependem, ser-lhes-á perdoado neste mundo — exceto aquilo de que o Criador escreveu "não inocentará" (Shemot 34:7), pois a esse não pode deixar de vir um mal duradouro.

אבל המזיד הוא שעובר על החמורות, והם שיש בו כרת בידי שמים, ומיתה בידי שמים, וארבע מיתות בית דין, ובזה נדע כי הם חמורות, כמו העריות וחלול שבת והאכילה ביום הכפורים, וחמץ בפסח, והדומ' לזה, הוא במעל' הזאת מן החטא. אבל הכופר הוא העוזב העקר, ר"ל בורא הכל יתברך וית', ועזבו אותו על שלשה דרכים, אם שיהיה עובד זולתו מדמיון עשוי, או אדם או שמש או ירח, וכמו שיש בלא יהיה לך אלהי' אחרים, או שלא עבד זולתו ולא עבדו, והוא איננו עובד דבר, לא אמת ולא שקר, וכמו שיש בפרשת (איוב כ"א י"ד) ויאמרו לאל סור ממנו ודעת דרכיך לא חפצנו. או שיהיה בספק באמונתו, והוא נקרא בשם מאמין ואפשר שיתפלל ויתחנן ואין לבו שלם ומאמין, והוא מפתה במאמרו ובאמונתו, וכאשר אמ' (תהלים ע"ח ל"ו ל"ז) ויפתוהו בפיהם ובלשונם יכזבו לו ולבם לא נכון עמו. והוא נקרא מי שנתחלל בו שם שמים והוא במעלה הזאת מן החטא. ואלה כלם כאשר ישובו, יכופר להם בעולם הזה, חוץ ממה שכתב בו הבורא לא ינקה, כי אי אפשר שלא תבא עליו רעה עולמית:
Nota — os três modos de negar, e o alcance da teshuvá. O deliberado viola os preceitos graves (karet, penas capitais). E o negador abandona o próprio Princípio de três modos: (1) idolatria — servir outro; (2) ateísmo prático — não servir nada ("aparta-te de nós", Iyov 21:14); (3) hipocrisia/dúvida — o "crente" cujo coração não é inteiro (Tehillim 78:36-37). E eis a grande consolação, que fecha o capítulo: todos estes, ao se arrependerem, são perdoados neste mundo — até o negador. A teshuvá alcança a todos; a única exceção é aquilo de que está escrito "não inocentará".

Sobre esta seção · עִיּוּן

Um mapa da alma

Este capítulo é uma taxonomia precisa do estado religioso, definida pela relação de cada um com os mandamentos: do servo (fiel a um só preceito) ao justo completo (que cumpre todos), descendo pelo deficiente (relapso nos positivos), o pecador (transgressor de negativos leves), o deliberado (dos graves) e o negador. É a anatomia ordenada e racional de Saadia — cada grau com a sua definição e o seu exemplo.

A porta aberta: o servo de um só mandamento

O mais belo é o começo. Para ser "servo" de D'us, não é preciso ser perfeito: basta singularizar um mandamento e nunca o trair. Quem assim faz já merece que "lhe façam bem, lhe prolonguem os dias e ele herde a terra" (Kidushin 39b). O caminho não é tudo-ou-nada — é dar um passo firme e mantê-lo. Uma teologia da esperança: há sempre uma porta por onde entrar.

A perfeição é possível

Contra a ideia de que pecar é inevitável, Saadia afirma que a perfeição é alcançável — "pois, se não fosse possível, o Sábio não a teria ordenado". E desarma os versos que parecem dizer o contrário: "não há justo que não peque" fala da capacidade, não da fatalidade. O justo pode errar — e é por escolher livremente o bem, podendo o mal, que o seu bem tem valor. É o coração do humanismo da Torá: somos livres, e por isso responsáveis e capazes.

Os três modos de negar — e o que a teshuvá cura

No outro extremo está o negador, que abandona o Princípio de três formas: a idolatria (servir outro), o ateísmo prático (não servir nada) e a hipocrisia (crer só com a boca). Mas o capítulo não termina na condenação, e sim na misericórdia: todos eles, ao se arrependerem, são perdoados neste mundo — até o negador. A teshuvá não tem porta fechada; a única exceção é o que a própria Torá reservou, ao dizer "não inocentará". É a mesma confiança que o Rambam poria no centro das suas Hilchot Teshuvá: nenhuma queda é, em si, definitiva.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado V (O mérito e o demérito), cap. 4, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Bamidbar 28:22; Kohelet 7:20; Iyov 21:14; Tehillim 78:36-37; e Shemot 34:7; o dito "todo aquele que cumpre um mandamento..." é de Kidushin 39b. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado V · O mérito e o demérito · cap. 5

O Penitente: as Quatro Portas da Teshuvá

מַאֲמָר חֲמִישִׁי · ה

Depois de mapear os graus diante das mitsvot, Saadia chega ao penitente — e mostra que a teshuvá tem quatro elementos, todos contidos num só verso de Hoshéa. O mais difícil não é arrepender-se, mas não recair; e há um remédio para isso. E, acima de tudo: a teshuvá sincera nunca se perde, ainda que se caia mil vezes.

1

E o décimo tipo é o penitente ha-shav, aquele que cumpre os elementos da teshuvá. E os elementos da teshuvá são quatro: o abandono do pecado, o arrependimento, o pedido de perdão, e que ele assuma sobre si não reincidir.

והעשירי הוא השב. המקים עניני התשובה. ועניני התשוב' ארבעה, העזיבה, והחרטה, ובקשת הכפרה, ושיקבל על עצמו שלא ישנה.
2

E os quatro estão reunidos na Escritura, no lugar que trata da teshuvá, ao dizer (Hoshéa 14:2-4): "Volta, ó Israel, até o Senhor teu D'us, pois tropeçaste na tua iniquidade. Tomai convosco palavras e voltai ao Senhor; dizei-lhe: ''Tudo perdoas a iniquidade e aceitas o bem, e em vez de novilhos ofereceremos as palavras de os nossos lábios. A Assíria não nos salvará, sobre cavalos não cavalgaremos, e não diremos mais 'nosso D'us' à obra das nossas mãos''."

וארבעתם מקובצים במקרא במקום התשובה, באמרו (הושע י"ד ב-ה) שובה ישראל עד יי' אלהיך כי כשלת בעונך קחו עמכם דברים ושובו אל יי' ואמרו אליו כל תשא עון וקח טוב ונשלמה פרים שפתינו אשור לא יושיענו על סוס לא נרכב ולא נאמ' עוד אלהינו למעשה ידינו.
3

E quanto a dizer "volta" shuva — volta daquilo em que estavas —, esta é a porta do abandono dos pecados. E quanto a dizer "pois tropeçaste" — significa o arrependimento: ou seja, reconhecer que aqueles pecados são maus e fazem tropeçar. E quanto a dizer "tomai convosco palavras" — significa o pedido de perdão.

ואמרו שובה, שוב ממה שהיית בו, והוא שד עזיבת החטאים. ואמרו כי כשלת, רוצה בו החרטה, רוצה לומ' כי החטאים ההם רעים ומכשילים. ואמרו קחו עמכם, רוצה בו בקשת הכפרה.
4

E há aqui uma palavra de origem estrangeira aramaica: "kol tisá avon ve-kach tov" — significando "em troca daquilo que nos perdoares, nós te louvaremos e diremos: bom e reto é o Senhor". É como esta mesma palavra em (Yeshayahu 30:5) "kol hoví'sh al am lo yo'ilu lamo", cuja raiz vem de "kol kovel" (em correspondência a), que está na língua do Targum aramaico; e esse uso já se juntou ao hebraico, como em (Kohelet 5:15) "exatamente como veio, assim se vai". E ainda nele no verso, "u-neshalmá farim sefateinu": é possível ler "como novilhos"; e é possível que haja nele uma elipse — "e ofereceremos como novilhos aquilo que pronunciaram os nossos lábios".

ויש הנה מלה נכרית, כל תשא עון וקח טוב, כנגד מה שתכפר לנו, נודה לך ונאמר טוב וישר יי', וכמו המלה הזאת (ישעי' ל' ה') כל הוביש על עם לא יועילו למו ועקר גזרתו מן כל קבל אשר בלשון התרגום, וכבר התחבר עם העברי באמרו (קהלת ה' ט"ו) כל עמת שבא כן ילך. ובו עוד, ונשלמה פרים שפתינו, יתכן להיות כפרים, ויתכן שיש בו הסתר, ונשלמה פרים אשר פצו שפתינו.
Nota — Saadia, o gramático. Aqui o autor interrompe o tema moral para uma observação linguística — sinal do filólogo que ele também era. A palavra kol, no verso "kol tisá avon", não é o "todo" hebraico, mas o aramaico do Targum (de kol-kovel, "em correspondência a / em troca de"): "em troca do que perdoares, louvar-te-emos". E "ofereceremos como novilhos os nossos lábios" lê-se com uma elipse: as palavras da oração substituem os touros do sacrifício — a ideia, tão cara à tradição, de que a prece tomou o lugar das oferendas do Templo.
5

E quanto a dizer "a Assíria não nos salvará, e sobre cavalo não cavalgaremos, e não diremos mais ''nosso D'us'' à obra das nossas mãos" — esta é a porta do compromisso de não reincidir. E enumerou aqui estas três coisas — a Assíria, o cavalo e a idolatria — porque eram as mais visíveis entre os tipos de pecado que o povo cometia, como está escrito no início do livro de Hoshéa: (8:9) "pois subiram à Assíria como um asno selvagem solitário"; e ainda (8:11) "pois Efraim multiplicou altares para pecar". E do mesmo modo, se os pecados mais manifestos do povo fossem o roubo, o homicídio e o adultério, o profeta teria dito: "sangue inocente não derramaremos, adultério não cometeremos e furto não furtaremos".

ואמרו אשזר לא יושיענו, ועל סוס לא נרכב, ולא נאמר עוד אלהינו למעשה ידינו. שער עזיבת ההשנות. וספר הנה אלה הג' דברים, על אשור וסוס וע"ז, מפני שהם הנראים יותר במיני החטאים שחטאו, כאשר הוא כתוב בתחלת הספר, (הושע ח' ט') כי המה עלו אשור פרא בודד לו ועוד (הושע ח' י"א) כי הרבה אפרים מזבחות לחטא. וכן אם היו הנגלים שבחטאי העם גנוב ורצוח ונאוף, היה אומר דם נקי לא נשפוך, נאוף לא ננאף, וגנבה לא נגנוב.
6

E quando se completam estes quatro, eles são as condições da validade da teshuvá. E não temo, quanto à maior parte do nosso povo, que falhem em nenhuma das condições da teshuvá — a não ser nesta quarta, isto é, na de não reincidir. Pois confio em que, na hora do jejum e da oração, abandonarão o pecado, se arrependerão e pedirão perdão; mas penso que no íntimo eles já consentem em voltar a pecar.

וכאשר ישלמו אלה הארבעה הם גדרי התשובה, ואינני ירא על רב עמינו שיפילו מגדרי התשובה כי אם זה השער הרביעי, רוצה לומר ההשנות, כי אני בוטח כי בשעת הצום והתפלה, יעזבו ויתחרטו ויבקשו הכפרה, אך אני חושב שהם מסכימים לשנות,
Nota — o ponto mais difícil. Eis uma observação de fina psicologia. Dos quatro elementos, três são relativamente fáceis no calor de Yom Kipur: na hora do jejum e da prece, quase todos abandonam o pecado, lamentam-no e pedem perdão. O quarto — o firme propósito de não recair — é o que falha, porque o coração, ainda apegado ao desejo, já planeia em segredo voltar. Saadia não acusa: diagnostica. E, por ser um diagnóstico, pede um remédio — que ele dá em seguida.
7

E depois digo qual há de ser o remédio para remover dos corações o pensamento de reincidir. Digo: compor textos sobre o desprendimento do mundo — que o homem se lembre da sua fraqueza, da sua pobreza, do seu cansaço, da sua morte e da decomposição das suas partes, do verme e da podridão, do ajuste de contas o juízo, dos sofrimentos, e do que se assemelha a isto, e de tudo o que a isso se associa — até que despreze este mundo. E quando o desprezar por inteiro, os seus pecados entrarão no rol das coisas desprezadas, e então disporá bem a sua mente a abandoná-los. E digo que foi por isso que achei que os Sábios antigos costumavam recitar, no Yom Kipur, composições como estas: "Tu compreendes os pensamentos do meu coração", "Não venhas conosco em repreensões", "Senhor de toda obra", e outras semelhantes a elas.

ואחר כן אומר מה תהיה התחבולה להסיר המחשבה לשנות מהלבבות, אומר לחבר דברים בפרישות מן העולם, ויזכור האדם ענין חלישותו ועניו ויגיעתו ומותו והפרד חלקיו, והתולעה והרמה, והחשבון, והיסורין, והדומה לזה, ומה שהוא מתחבר למה שיש בזה, עד שימאס בעולם הזה, וכאשר ימאס אותו כלו יכנסו חטאיו בכלל המאוסים, וייטיב את דעתו לעזבם. ואומר כי על כן מצאתי החכמים הראשונים, נהגו לומר ביום הכפור כמו שאלה החבורים אתה מבין שרעפי לבי, ואל תבא עמנו בתוכחות, אדון כל פעל והדומה להם.
Nota — o remédio contra a recaída. O remédio de Saadia não é a força de vontade, mas a mudança do olhar: meditar na fragilidade da vida, na morte e no juízo, até que se deixe de cobiçar aquilo por que se peca. Quando o mundo e os seus prazeres já não seduzem, "os pecados entram no rol das coisas desprezadas" — e abandoná-los torna-se natural. É por isso, observa ele, que os Sábios compuseram para Yom Kipur os piyutim da contrição (como "Atá mevin sar'apei libi"): a liturgia foi desenhada para operar essa cura interior.
8

E a estes quatro elementos juntam-se outros três: o acréscimo na oração e na caridade tsedacá, e o esforço de fazer voltar as pessoas ao bom caminho. Disse (Mishlei 16:6): "pela bondade e pela verdade — pela oração e pela caridade — expia-se a iniquidade, e pelo temor do Senhor o homem se aparta do mal". E quanto a fazer voltar as pessoas ao bem (Tehillim 51:15): "ensinarei aos transgressores os teus caminhos e os pecadores a ti retornarão".

ולאלה הארבעה סמוכים שלשה, והם התוספת בתפלה ובצדק, ולהשיב בני אדם למוטב, אמר (משלי י"ו ו') בתפלה וצדקה בחסד ואמת יכופר עון ובידאת י"י סור מרע. ובהשיב בני אדם למוטב (תהלים נ"א ט"ו) אלמדה פושעים דרכיך וגו'
9

E esclareço ainda: quando o homem, no momento da sua teshuvá, decide de coração íntegro não reincidir, a sua teshuvá é aceita. E se depois o desejo o seduzir a reincidir, a sua teshuvá anterior não se anula; antes, são-lhe perdoadas as iniquidades anteriores à teshuvá, e só se registra contra ele o que vier depois dela. E do mesmo modo, se ele repetir esse padrão muitas vezes — voltar em teshuvá e depois reincidir no pecado —, não se registra contra ele senão o que vem depois de cada teshuvá, desde que, em cada vez, a sua mente esteja íntegra e o seu coração sincero em não reincidir.

ואבאר עוד כי האדם כאשר יסכים בעת תשובתו בלב שלם שלא ישנה, תהיה תשובתו מקובלת. ואם תשיאהו התאוה אחר כן לשנות, אין תשובתו נפסדת, אך ימחלו לו העונות שהיו קודם התשובה, ויכתב עליו מה שיהיה לאחריה. וכן אם ינהג המנהג הזה פעמים רבות, שישוב ואחר כן ישנה לחטא, אין כותבין עליו כי אם מה שאחר התשובה, כשתהיה בכל פעם דעתו שלמה ולבו טוב שלא ישנה.
Nota — a teshuvá que não se perde. Talvez a frase mais consoladora do capítulo. Quem se arrepende de coração íntegro e depois cai não perde nada do que ganhou: as faltas anteriores ficam perdoadas, e só conta o que vier depois. E isto vale ainda que se caia "muitas vezes" — cada teshuvá sincera apaga o que veio antes dela. A única condição é a sinceridade no momento: não um truque calculado, mas um coração que, naquele instante, deseja de verdade não voltar a errar. A porta nunca se tranca.
10

E aquilo que encontras na Escritura ao dizer (Amós 2:6) "por três transgressões de Israel, e por quatro, não o revogarei" — não se refere à aceitação da teshuvá, mas ao adiamento do castigo depois do envio do profeta. É como se D'us enviasse a um povo um profeta para que se arrependessem, dizendo: se não se arrependerem, trarei sobre eles a espada e a fome. E se se arrependerem após o primeiro envio, ou o segundo, ou o terceiro, não trará sobre eles o que dissera trazer; mas, se não se arrependerem, decretará sobre eles o que dissera. E uma vez decretado o que dissera, então — ainda que se arrependam depois — a sua teshuvá, na quarta vez, já não lhes aproveitará para afastar deles aquele castigo neste mundo; mas ela ainda lhes aproveita para se salvarem no mundo vindouro.

וזה אשר אתה מוצא הכתוב אומר (עמוס ב' ו') על שלשה פשעי ישראל ועל ארבעה לא אשיבנו, איננו בקבול התשובה, אבל הוא בדחות הענש מהם אחר השליחו, כאלו היה שולח אל עם שישובו, ואם לא ישובו, אביא עליהם החרב והרעב, ואם ישובו אחר השליחות הראשונה או השנית או השלישית, לא יביא עליהם מה שאמר להביא, ואם לא, יגזור עליהם מה שאמר להביא, ואם יגזור עליהם מה שאמר, אפילו אם ישובו אחר כן לא יועיל להם תשובתם ברביעית, לדחות מהם הענש ההוא בעולם הזה, אבל היא מועיל' להם להנצל בעולם הבא:
Nota — "por quatro não o revogarei". Saadia previne um mal-entendido perigoso. O verso de Amós ("por três… e por quatro, não o revogarei") não diz que D'us recusa a teshuvá depois de certo número de pecados. Diz outra coisa: depois de repetidos avisos não atendidos, o castigo deste mundo pode tornar-se inevitável. Mas — e aqui está o essencial — mesmo então a teshuvá continua a salvar no mundo vindouro. Pode haver consequência temporal; nunca há condenação eterna para quem volta. A teshuvá tem sempre poder, ainda que nem sempre adie a pena terrena.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Os quatro caminhos da teshuvá

Saadia faz aqui algo elegante: mostra que os quatro elementos da teshuvá — abandonar o pecado, arrepender-se, pedir perdão e resolver não recair — não são uma lista inventada pelos sábios, mas estão todos inscritos num único verso do profeta (Hoshéa 14:2-4), lido palavra por palavra. "Volta" é o abandono; "pois tropeçaste" é o reconhecimento; "tomai palavras" é o pedido de perdão; e "a Assíria não nos salvará… não diremos mais ''nosso D'us'' à obra das mãos" é o compromisso de não voltar. Os mesmos quatro que o Rambam viria a codificar nas suas Hilchot Teshuvá.

O ponto mais difícil — e o seu remédio

A grande lucidez do capítulo está em identificar onde a teshuvá costuma falhar. Não no arrependimento — esse vem fácil no jejum e na prece —, mas no quarto passo: o firme propósito de não recair, que o coração apegado ao desejo sabota em segredo. E o remédio de Saadia é tão racional quanto profundo: não exortações, mas a meditação sobre a fragilidade e a morte, até que o mundo deixe de seduzir e o pecado perca o seu atrativo. Foi para isso, lembra ele, que os Sábios compuseram os piyutim de Yom Kipur.

A teshuvá que nunca se perde

Contra todo desânimo, Saadia firma um princípio de imensa misericórdia: a teshuvá sincera é aceita e não se anula, mesmo que depois se caia — e mesmo que se caia muitas vezes. Cada retorno de coração íntegro apaga o que veio antes dele; só conta o que vier depois. A condição não é a perfeição futura, impossível de garantir, mas a verdade do coração naquele instante. É a recusa de toda lógica de "agora já é tarde".

Quando o castigo já foi decretado

Por fim, Saadia desfaz uma leitura sombria de Amós 2:6. "Por quatro não o revogarei" não significa que haja um limite além do qual D'us rejeita o arrependimento. Significa apenas que, após avisos repetidos e ignorados, a pena deste mundo pode já não ser adiada. Mas a teshuvá guarda sempre o seu poder maior: salvar no mundo vindouro. Distinguir o castigo temporal da condenação eterna é, no fundo, distinguir a justiça que corrige da misericórdia que nunca se fecha.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado V (O mérito e o demérito), cap. 5, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Hoshéa 14:2-4, 8:9 e 8:11; Yeshayahu 30:5; Kohelet 5:15; Mishlei 16:6; Tehillim 51:15; e Amós 2:6; os versos do viduy e os piyutim citados ("Atá mevin sar'apei libi" e semelhantes) são da liturgia de Yom Kipur. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado V · O mérito e o demérito · cap. 6

Quando a Oração Não Sobe — e os Cinco Graus da Teshuvá

מַאֲמָר חֲמִישִׁי · ו

Saadia fecha a discussão da teshuvá com uma série de mapas precisos: as sete coisas que impedem a oração de ser ouvida; as faltas que o arrependimento sozinho não apaga; as que deixam marca neste mundo mesmo perdoadas; os méritos de recompensa garantida; e — por fim — os cinco graus do retorno, do mais alto ao do leito de morte.

1

E, uma vez que expliquei este assunto, vou juntar a ele os demais casos em que a oração não é aceita; e digo que são sete. O primeiro: quando o homem ora depois de já ter sido decretado um juízo a seu respeito — como sabes do caso de Moshé, nosso mestre, a paz esteja sobre ele: "e supliquei ao Senhor" (Devarim 3:23), e D'us respondeu-lhe "basta-te! não voltes a falar-me mais sobre este assunto" (ali, 3:26). O segundo: a oração sem a intenção do coração kavanat ha-lev, como se diz: "lisonjeavam-no com a boca… e o seu coração não era reto para com ele" (Tehillim 78:36-37). O terceiro: aquele que não quer ouvir as palavras da Torá, como se diz: "quem tapa o ouvido para não ouvir a Torá, até a sua oração é abominação" (Mishlei 28:9). O quarto: aquele que se faz surdo ao clamor do pobre, como se diz: "quem tapa o ouvido ao clamor do necessitado, também ele clamará e não será respondido" (Mishlei 21:13).

וכיון שבארתי המאמר הזה, אחבר אליו שאר הדברים אשר לא תקובל עמהם התפלה, ואומר כי הם שבעה. תחלתם, כשיתפלל אדם אחר שנגזר דין עליו בדבר, כאשר ידעת מענין משה רבינו. ע"ה, (דברים ג' כ"ג) ואתחנן אל י"י, וענה אותו (שם כ"ו) רב לך אל תוסף דבר אלי עוד בדבר הזה. והשני התפלה מבלי כוונת הלב, וכמו שאמר (תהלים ע"ח לה-לז) ויזכרו כי אלהים צורם וגו' ויפתוהו בפיהם וגו' ולבם לא נכון עמו וגו'. והשלישי מי שאינו רוצה לשמוע דברי תורה, כמו שאמר (משלי כ"ח ט') אוטם אזנו משמוע תורה גם תפלתו תועבה. והרביעי מי שמתעלם מזעקת העני, כמו שאמר (שם כ"א י"ג) אטם אזנו מזעקת דל גם הוא יקרא ולא יענה.
2

O quinto: aquele que permite a si mesmo o dinheiro que lhe é proibido bens obtidos ilicitamente, como se diz: "os que devoram a carne do meu povo e lhe arrancam a pele… então clamarão ao Senhor, e ele não lhes responderá" (Michá 3:3-4). O sexto: quando ora sem se purificar, como se diz: "ainda que multipliqueis a oração, eu não vos ouvirei: as vossas mãos estão cheias de sangue; lavai-vos, purificai-vos" (Yeshayahu 1:15-16). O sétimo: aquele cujas iniquidades são muitas e não ora em teshuvá, como se diz: "chamei, e não ouviram; assim chamarão, e eu não ouvirei" (Zecharyá 7:13).

והחמישי מי שמתיר לעצמו ממון שאסור לו, כמו שאמר (מיכה ג' ג' ד') ואשר אכלו שאר עמי ועורם מעליהם הפשיטו וגו' אז יצעקו אל י"י ולא יענה אותם. והששי כשהוא מתפלל בלא טהרה, כמו שאמר (ישעי' א' ט"ו ט"ז) גם כי תרבו תפלה אינני שומע ידיכם דמים מלאו רחצו הזכו וגו'. והשביעי מי שרבו עונותיו ואיננו מתפלל בתשובה, כמו שאמר (זכרי' ז' י"ג) קראתי ולא שמעו כן יקראו ולא אשמע.
Nota — a oração não é magia. As sete portas fechadas têm um fio comum: nenhuma é capricho divino. A oração que não sobe é a que está contradita pela própria vida de quem ora — o coração ausente, o ouvido fechado à Torá e ao pobre, as mãos com bens ilícitos ou com sangue. Saadiá, o racionalista, recusa a ideia de prece como fórmula mágica: orar é alinhar-se com o que se pede. Pedir misericórdia com o ouvido fechado ao necessitado é desdizer-se. (A exceção do "decreto já selado" liga-se ao cap. anterior: há horas em que resta a teshuvá para o mundo vindouro, não o adiamento da pena.)
3

E é preciso esclarecer aqui que todas as iniquidades são perdoadas com a teshuvá, exceto três porque nelas o dano não pode ser simplesmente desfeito: aquele que desencaminha outros com um mau conhecimento que lhes mostrou, ou com um mau ensino que lhes deu — pois não lhe é possível desfazer o que fez; e sobre isto se diz: "quem desencaminha os retos para um mau caminho cairá ele mesmo na sua cova" (Mishlei 28:10). E aquele que lançou má fama sobre o seu companheiro, pois lhe é impossível retratá-la; e sobre isto se diz: "para que não te envergonhe quem te ouve, e a tua má fama não se possa retirar" (Mishlei 25:10). E aquele que tem em mãos algo roubado e não o devolve ao seu dono, como se diz: "e será que, se pecar e se tornar culpado, devolverá o roubo que roubou" (Vayikra 5:23); e diz: "devolverá o penhor o ímpio, pagará o roubo… e não cometerá iniquidade" (Yechezkel 33:15). E, se o roubado a vítima morreu, devolverá aos seus herdeiros, como se diz: "a quem de direito pertence, a ele o dará, no dia da sua culpa" (Vayikra 5:24); e, se não o conhece, declará-lo-á sem dono hefker, e assim ficará sem dono.

וצריך שאבאר במקום הזה, שכל העונות ימחלו עם התשובה, חוץ משלשה, המתעה עם בדעת רע שמראה להם, או בהוראה רעה שמורה להם, כי לא יתכן לו להשיב את מה שעשה, ובו אמר (משלי כ"ח ט') משגה ישרים בדרך רע בשחותו הוא יפול ותמימים ינחלו טוב. ומי שהוציא שם רע על חבירו. כי אי אפשר לו להשיבו, ובו אומר פן יחסדך שומע ודבתך לא תשוב (שם כ"ה י'). ומי שיש בידו גזלה ואיננו משיבה אל בעלה, כמ"ש (ויקרא ה' כ"ג) והיה כי יחטא ואשם והשיב את הגזלה אשר גזל. ואמר (יחזקאל ל"ג ט"ו) חבול ישיב רשע גזלה ישלם בהקות החיים הלך. ואם ימות הנגזל ישיב ליורשיו, כמ"ש (שם ויקרא ה' כ"ד) לאשר הוא לו יתננו ביום אשמתו. ואם לא ידענו, יפקירנה ותהיה הפקר:
Nota — arrepender-se não basta: é preciso reparar. Há faltas que a teshuvá "para o Céu" não apaga sozinha, porque feriram outra pessoa. O roubo só se perdoa com a devolução (ao dono, aos herdeiros, ou — se ninguém é achado — tornando o bem sem dono, para que não fique nas mãos do ladrão). E há danos ainda mais difíceis: desencaminhar alguém com um mau ensino, ou lançar-lhe má fama — porque não se pode recolher o erro semeado nem o nome manchado. Saadiá ensina, com sobriedade implacável, que o arrependimento sincero exige, antes de tudo, desfazer o estrago que se possa desfazer.
4

E vou esclarecer ainda o que prometi explicar: as iniquidades pelas quais é impossível não ser punido neste mundo, mesmo tendo feito teshuvá; e digo que são quatro. A primeira: o juramento vão falso, sobre o qual se diz: "pois o Senhor não inocentará lo yenakeh aquele que tomar o seu Nome em vão" (Shemot 20:7). A segunda: o derramamento de sangue inocente, sobre o qual se diz: "e ainda que eu inocente, o sangue deles não inocentarei" (Yoel 4:21). A terceira: aquele que vem à mulher do seu próximo, sobre o qual se diz: "assim quem vem à mulher do seu próximo: não ficará impune lo yenakeh todo o que nela tocar" (Mishlei 6:29). A quarta: o falso testemunho, sobre o qual se diz: "a testemunha falsa não ficará impune, e quem profere mentiras não escapará" (Mishlei 19:5). E junta-se a estes aquele sobre quem se selou uma sentença — como o "basta-te" dito a Moshé (Devarim 3:26), conforme explicamos. E a teshuvá, quanto a estes cinco, é aceita — só que a pessoa não escapa de um mal que lhe sobrevirá neste mundo por causa deles.

ואבאר עוד מה שיעדתי לבאר מן העונות, אשר אי אפשר שלא יענש עליהם בעולם הזה, אעפ"י שעשה תשובה, ואומר שהם ארבעה. תחלתם שבועת שוא, אמר בה (שמות כ' ז') כי לא ינקה י"י את אשר ישא שמו לשוא. והשני שפיכות דם נקי, אמר בו (יואל ד' כ"א) ונקיתי דמם לא נקיתי. והשלישי הבא על אשת איש, אמר בו (משלי ו' כ"ט) כן הבא אל אשת רעהו לא ינקה כל הנוגע בה. והרביעית עדות שקר, אמר בה (שם י"ט ה') עד שקרים לא ינק ויפיח כזבים לא ימלט. ויתחבר אליהם מי שנחתם עליו גזר דין כמו, רב לך, (דברים ג' כ"ו) כאשר בארנו. והתשובה עם אלה החמשה מקובלת, אלא שאיננו נמלט מרע שתבא עליו בעולם הזה עליהם.
Nota — perdão da alma, marca no mundo. Saadiá retoma e precisa o tema do cap. anterior (a leitura de Amós 2:6). Para as faltas mais graves — o juramento falso, o sangue inocente, o adultério, o falso testemunho (todas marcadas na Torá com "lo yenakeh", "não inocentará") — a teshuvá é aceita: a alma salva-se. Mas resta uma consequência neste mundo que não se afasta. Distinguir as duas coisas — o perdão eterno e a marca temporal — é uma das maiores lucidezes do tratado: nenhuma queda fecha as portas do alto, mas nem toda queda se apaga sem deixar rasto cá embaixo.
5

E aquele que fez mal ao seu companheiro — não em dinheiro, mas com insulto ou agressão — a coisa depende do perdão dele da vítima. Se o ofendido o perdoar, afasta-se a sua punição, como se diz: "assim direis a Yossef: ''por favor, perdoa a transgressão dos teus irmãos''" (Bereshit 50:17). E é preciso pedir-lhe três vezes, como ali se diz: "por favor, perdoa". E, se o insultado ou o agredido morreu, dirá, na presença de dez homens: "pequei contra fulano", três vezes; pois, se ele estivesse vivo e a vítima não o perdoasse mesmo assim, ainda ser-lhe-ia perdoado do alto.

ומי שהרע לחברו שלא בממון, אבל בגדוף או בהכאה, הדבר תלוי במחילתו. ואם ימחל לו, יסור ענשו, כמו שאמר (בראשית נ' י"ז כה תאמרו ליוסף אנא שא נא פשע אחיך וגו'. וצריך שישאל ג' פעמים', כמו שאמר, (שם) אנא שא נא. ואם ימות המגודף או המוכה, יאמר במעמד עשרה אנשים, חטאתי לפלני ג' פעמי', כי אם היה חי וישאל ממנו כן, ולא היה עונהו היה נמחל לו.
Nota — o que só o ofendido pode perdoar. Eis a regra clássica do bein adam la-chavero (entre o homem e o seu próximo): por uma ofensa pessoal — um insulto, uma agressão — não basta voltar-se a D'us; é preciso o perdão de quem foi ferido. Pede-se três vezes (aprendido do pedido dos irmãos a Yossef); e, se a vítima já morreu, faz-se a confissão diante de dez. E há um limite à teimosia do ressentimento: se o ofensor pede com sinceridade e o ofendido recusa, o ofensor é, ainda assim, perdoado do alto. A mesma halachá que o Rambam fixaria nas suas Hilchot Teshuvá.
6

E vou esclarecer ainda os méritos pelos quais é impossível não vir uma recompensa neste mundo — ainda que a pessoa depois renegue a fé; e digo que são três. O honrar pai e mãe, como se diz: "honra o teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias" (Shemot 20:12). A misericórdia para com os seres vivos, como se diz: "deixarás ir a mãe e tomarás para ti os filhotes, para que te vá bem e prolongues os dias" (Devarim 22:7). E que o seu comércio seja feito com honestidade, como se diz: "peso íntegro e justo terás" (Devarim 25:15). E junta-se a isto a promessa de bem, quando ela está numa sentença decretada, como D'us disse a Yehu: "os teus filhos, até a quarta geração, sentar-se-ão por ti no trono de Israel" (II Reis 15:12) — numa sentença firme. E ainda que ele e os seus filhos tenham pecado, não era possível deixar de lhes cumprir aquilo que lhes fora prometido.

ואבאר עוד הזכיות אשר אי אפשר שלא יבא עליהם גמול בעולם הזה, אפילו אם יכפור אדם. ואומר שהם שלשה, כבוד אב ואם, כמו שאמר (שמות כ' ב') כבד את אביך ואת אמך למען יאריכון ימיך. והרחמים על בעלי חיים, כמו שאמר (דברים כ"ב ז ') שלח תשלח את האם ואת הבנים תקח לך למען ייטב לך והארכת ימים. ושיהיה משאו ומתנו באמונה, כמו שאמר (שם כ"ה ט"ו) אבן שלמה וצדק יהיה לך. ויתחבר אל זה היעידה בטובה כשתהיה בגזר דין, כמו שאמר ליהוא (מ"ב ט"ו י"ב) בני רבעים ישבו לך על כסא ישראל בגזר דין. וחטא הוא ובניו, ולא היה אפשר שלא להשלימם מה שיעדו בו.
7

E não pense ninguém que a expressão "e haverá em ti pecado" ve-haya vechá chet, dita a respeito de algumas iniquidades, signifique que é impossível ficar sem punição neste mundo; pois esse dito não se refere senão a três coisas: ao atraso dos votos — e estes são feitos a D'us, e por isso é possível perdoar o seu adiamento; ao abster-se de emprestar ao pobre — e este é perdoado com a teshuvá; e à retenção do salário do trabalhador — e este entra na categoria dos roubos.

ואל יחשוב חושב שאמרו והיה בך חטא בקצת העונות, שאי אפשר מבלי ענש בעולם הזה, כי המאמר הזה איננו כי אם בשלשה דברים, באחור הנדרים והם לאלהים, יתכן למחול התאחרם, ובהמנע מהלוות לעני, והוא נמחל עם התשובה, והארכת שכר שכיר והוא נכנס בשער הגזלות:
8

E vou esclarecer ainda que a teshuvá tem cinco graus, e cada grau anterior é maior que o que vem depois. O primeiro: que o homem se arrependa nos mesmos anos em que pecou, e na mesma cidade em que pecou, estando os meios dos seus pecados ainda disponíveis a ele — e, podendo, não peca; e sobre isto se diz: "lançai de vós todas as transgressões com que transgredistes, e fazei para vós um coração novo e um espírito novo" (Yechezkel 18:31). O segundo: que passem aqueles anos, e ele saia daquela cidade, e se afastem dele os meios dos seus pecados; e sobre isto se diz: "voltai àquele de quem tão profundamente vos desviastes, ó filhos de Israel" (Yeshayahu 31:6). O terceiro: que ele só se arrependa quando o amedrontam com um terror que há de vir sobre ele, como se disse aos homens de Nínive: "mais quarenta dias, e Nínive será destruída" (Yonah 3:4).

ואבאר עוד שיש לתשובה חמש מעלות כל מעלה קודמת מהם גדולה מהמתאחרת. הראשונה שישוב האדם בשנים אשר חטא בהם, ובעיר ההיא אשר חטא בה, ושיהיו ענינו חטאיו מצויים לו, ובזה הוא אומר (יחזקאל י"ח ל"א) השליכו מעליכם את כל פשעיכם אשר פשעתם בם ועשו לכם לב חדש ורוח חדשה. והשנית שיעברו השנים ההם ויצא מן העיר ההיא ויסורו ממנו עניני חטאיו, ובו אומר (ישעי' ל"א ו') שובו לאשר העמיקו סרה בני ישראל. והשלישית שלא ישוב עד שיפחידוהו ברעד שתבא עליו, כמו שאמר לאנשי ננוה (יונה ג' ד') עוד ארבעים יום וננוה נהפכת.
9

O quarto: aquele que só se arrependeu depois que parte do mal de que o ameaçaram já veio sobre ele, como se diz: "filhos de Israel, voltai ao Senhor, D'us de Avraham, Yitzchak e Israel, e ele voltará ao remanescente que escapou" (II Crônicas 30:6). E o quinto: se ele se arrepende na hora em que a sua alma parte no leito de morte, também esse é chamado "penitente", como se diz: "e a sua alma se aproxima da cova… então orará a D'us, e ele o aceitará, e verá a sua face com júbilo" (Iyov 33:24-27). E é por isso que o nosso costume é dizer ao doente próximo da morte: "Dize: pequei, transgredi e me revoltei; que a minha morte seja expiação por todas as minhas iniquidades."

והרביעית מי שלא שב עד שבאה עליו קצת הרעה אשר הפחידוהו בה, כמו שאמר (ד"ה ב' ל' ו') בני ישראל שובו אל י"י אלהי אברהם יצחק וישראל וישב אל הפלטה. והחמישית אם ישוב שעת צאת נפשו, הוא גם כן נקרא שב, כאשר אמר (איוב ל"ג כ"ד-כ"ז) ותקרב לשחת נפשו וחיתו לממיתים וגו', יעתר אל אלוה וירצהו וירא פניו בתרועה. ועל כן מנהגנו לאמר לחולה קרוב לפני מותו, אמור, חטאתי ועויתי ופשעתי, תהא מיתתי כפרה לכל עונותי:
Nota — os cinco graus do retorno. Saadiá ordena a teshuvá por uma escala de mérito decrescente, e a lógica é a da liberdade: vale mais quem se arrepende podendo ainda pecar — no mesmo tempo, na mesma cidade, com a tentação ao alcance da mão — do que quem só volta quando a ocasião já passou, ou só sob a ameaça, ou só depois do golpe. No degrau mais baixo está o arrependimento do leito de morte — e a grandeza do tratado é que mesmo este "também é chamado penitente". Daí o costume de pôr na boca do moribundo o viduy: "que a minha morte seja expiação". Nenhuma hora, nem a última, é tarde demais.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Quando a oração não sobe

As sete coisas que impedem a oração de ser aceita partilham uma raiz: nenhuma é arbitrariedade de D'us — todas são modos pelos quais quem ora desdiz, com a sua vida, aquilo que pede. O coração ausente, o ouvido fechado à Torá e ao clamor do pobre, as mãos com bens ilícitos ou com sangue, a multidão de faltas sem arrependimento. É a teologia racionalista da prece: orar não é acionar uma fórmula, é pôr-se em acordo com o bem que se invoca.

O que a teshuvá sozinha não apaga

Saadiá traça depois a fronteira do arrependimento. Há faltas que ferem o próximo, e essas exigem reparação, não só remorso: o roubo deve ser devolvido (ao dono, ao herdeiro, ou tornado sem dono); a ofensa pessoal precisa do perdão da vítima, pedido três vezes. E há danos quase irreparáveis — desencaminhar alguém, manchar-lhe o nome — porque o erro semeado e a fama destruída não voltam atrás. A teshuvá começa por desfazer o que se pode desfazer.

Perdão da alma, consequência no mundo

Distinção decisiva, que continua o capítulo anterior: para as faltas marcadas com "não inocentará" — juramento falso, sangue inocente, adultério, falso testemunho — a teshuvá é aceita, a alma salva-se; mas permanece uma consequência neste mundo. Em contrapartida, há méritos cuja recompensa terrena é tão certa que vem "mesmo se a pessoa renegar" — honrar os pais, a compaixão pelos animais, a honestidade no comércio. Justiça e graça têm, cada uma, as suas leis fixas.

Os cinco graus do retorno

O fecho é uma escada. O retorno mais alto é o do homem que se arrepende podendo ainda pecar — mesma hora, mesmo lugar, mesma tentação; o mais baixo, o do leito de morte. Mas note-se a misericórdia que sela o tratado: mesmo o arrependimento da última hora "também é chamado penitente". Por isso se ensina o moribundo a dizer "que a minha morte seja expiação". É a mesma confiança que o Rambam poria no centro das suas Hilchot Teshuvá: há graus, sim — mas a porta nunca se fecha, nem no último instante.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado V (O mérito e o demérito), cap. 6, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Devarim 3:23-26; Tehillim 78:36-37; Mishlei 28:9-10, 21:13, 25:10, 6:29 e 19:5; Michá 3:3-4; Yeshayahu 1:15-16 e 31:6; Zecharyá 7:13; Vayikra 5:23-24; Yechezkel 33:15 e 18:31; Shemot 20:7 e 20:12; Yoel 4:21; Bereshit 50:17; Devarim 22:7 e 25:15; II Reis 15:12; Yonah 3:4; II Crônicas 30:6; e Iyov 33:24-27. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado V · O mérito e o demérito · cap. 7

A Balança que se Inclina, e o Peso de Cada Ato

מַאֲמָר חֲמִישִׁי · ז

E o homem cujos méritos e faltas se equilibram? Saadia responde: a misericórdia divina inclina a balança, e ele é contado entre os justos — pois no fim há só dois grupos. Mas essa "misericórdia" não é emoção em D'us; é um nome de ação. E o tratado fecha com um princípio fino: o mesmo ato pesa diferente segundo quem o faz, onde e quando.

1

E, uma vez que completei a explicação daqueles dez graus cujos nomes apresentei antes, falo agora do homem equilibrado adam shaveh — aquele cujas iniquidades estão na mesma medida dos seus méritos. Esse homem, se encontra a misericórdia de D'us, é contado entre os justos.

וכיון שהשלמתי ביאורי העשרה ההם אשר הקדמתי שמותם, אומר עתה באדם השוה. והוא אשר שעוד עונותיו כשעור זכיותיו, האדם הזה אם ימצא מרוחם, ונחשב עם הצדיקים.
2

E eis o ponto: a "misericórdia" rachamim atribuída ao Criador, bendito e exaltado — visto que é impossível que ela O afete ou nele entre, pois não há n'Ele acidente atributo acrescentado, como já premissámos — deve ser referida aos seres criados, e esses termos são dos nomes de ação shemot ha-poal. E obtemos deles três coisas: a primeira, a aceitação da teshuvá, como se diz: "e voltará ao Senhor, e Ele terá misericórdia dele" (Yeshayahu 55:7); a segunda, o ouvir a oração de quem está em aflição, como se diz: "na ira, lembra-te da misericórdia" (Chavakuk 3:2); e a terceira, o elevar o equilibrado ao nível dos justos, como se diz: "gracioso é o Senhor e justo, e o nosso D'us é misericordioso" (Tehillim 116:5).

והוא שהרחמים הנזכרים לבורא יתברך ויתעלה, מפני שאי אפשר שיחולו עליו ויבואו בו, מפני שאין בו מקרה כאשר הקדמנו, ראוי שיהיה מושב אל הנבראי', והיו משמות הפעל. ויעלה בידינו מהם שלשה ענינים האחד קבול התשובה, כאשר אמר (ישעי' כ"ה ז') וישב אל י"י וירחמהו. ושמוע תפלת מי שהוא בצרה, כמו שאמר (חבקוק ג' ב') ברגז רחם תזכור. והשגת השוה בצדיקים, כמו שאמר (תהלים קט"ז ה') חנון י"י וצדיק ואלהינו מרחם.
Nota — a misericórdia que não é uma emoção. Eis um ponto central da teologia de Saadiá, em continuidade com o Tratado II: em D'us não há "acidentes" — nada se acrescenta ou muda n'Ele, nenhuma paixão O comove de fora. Então o que significa chamá-Lo "misericordioso"? Não que sinta compaixão como nós, mas que age com misericórdia: os termos de emoção, aplicados a D'us, são "nomes de ação" — descrevem o que Ele faz (aceitar o arrependimento, ouvir o aflito, elevar o homem na balança), não um estado interior. Conhecemos D'us pelos seus atos, jamais atribuindo-Lhe os nossos sentimentos.
3

E disseram os nossos mestres, sobre "e abundante em bondade": "inclina-se para a bondade" — que, se a balança estivesse equilibrada, Ele a faz pender para o lado do bem. Por isso, na hora da recompensa, os homens não serão senão dois grupos, sem um terceiro entre eles — apenas justos e ímpios, como se diz: "e voltareis e vereis a diferença entre o justo e o ímpio" (Malachi 3:18).

ואמרו רבותינו ורב חסד מטה כלפי חסד, שאם היתה שקולה מכרעת, ועל כן לא יהיו בני אדם בעת הגמול כי אם שתי כתות, אין בהם שלישית אלא צדיקים ורשעים בלבד כאשר אמר (מלאכי ג' י"ח) ושבתם וראיתם בין צדיק לרשע:
Nota — não há um "terceiro grupo". O homem cuja conta está empatada poderia parecer um caso sem solução. Saadiá resolve-o pela graça: "abundante em bondade — inclina-se para a bondade" (Rosh haShaná 17a). Quando o fiel da balança fica no meio, D'us pende-o para o mérito. Por isso, no juízo final, não existe uma categoria permanente de "indecisos": há só justos e ímpios. A misericórdia não suprime a justiça — completa-a, decidindo a favor da vida onde a justiça, sozinha, ficaria em suspenso.
4

E vejo por bem colocar neste tratado as seguintes coisas, e digo: o serviço a D'us dos que são importantes é mais importante, como se diz: "exultai, ó justos, no Senhor" (Tehillim 33:1); e o pecado deles é maior, como se diz: "pois tanto o profeta como o sacerdote se corromperam" (Yirmiyahu 23:11). O serviço no lugar escolhido e singular o Templo é mais importante, como se diz: "pois no meu monte santo… ali me servirá toda a casa de Israel" (Yechezkel 20:40); e o pecar no lugar escolhido é maior, como se diz: "até na minha casa achei a sua maldade, diz o Senhor" (Yirmiyahu 23:11). A abstinência na juventude perishut é mais importante, como se diz: "e levantei dentre os vossos filhos profetas, e dentre os vossos jovens nazireus" (Amós 2:11); e a devassidão na velhice é mais vergonhosa, como se diz: "até cãs se espalham sobre ele, e ele não o sabe" (Hoshéa 7:9).

ואני רואה לשום במאמר זה הדברים האלה, ואומר כי העבודה מן החשובים יותר חשובה כמו שאמר (תהילים ל"ג א') רננו צדיקים ביי'. והחטא מהם יותר גדול, כמו שאמר (ירמי' כ"ג י"א) כי גם נביא גם כהן חנפו. והעבודה במקום הנבחר המיוחד, יותר חשובה, כאשר אמר (יחזקאל כ' מ') כי בהר קדשי בהר מרום ישראל שם יעבדוני כל בית ישראל. והחטיא במקום הנבחר יותר גדול, כמו שאמר (ירמי' כ"ג י"א) גם בביתי מצאתי רעתם נאם י"י. והפרישות בבחרות יותר חשובה, כמו שאמר (עמוס ב' י"א) ואקים מבניכם לנביאים ומבחוריכם לנזירים. וההפקר בזקן יותר מגונה, שאמר (הושע ז' ט') גם שיבה זרקה בו והוא לא ידע.
5

A honestidade na pobreza é maior, como se diz: "melhor é o pobre que anda na sua integridade" (Mishlei 19:1); e o roubo praticado pelo rico é maior, como se diz: "e tomou a cordeira do homem pobre…" (II Shmuel 12 — a parábola de Natan). Socorrer o inimigo é um bem maior, como se diz: "acaso, se um homem encontra o seu inimigo, o deixa ir por um bom caminho?" (I Shmuel 24:20); e prejudicar o amigo é mais grave, como se diz: "estendeu as mãos contra os que com ele estavam em paz, profanou a sua aliança" (Tehillim 55:21). A humildade vinda do grande é maior, como se diz: "e o homem Moshé era mui humilde, mais do que todo homem" (Bamidbar 12:3); e a arrogância vinda do baixo é mais grave, como se diz: "para devorar os pobres da terra e os necessitados dentre os homens" (Mishlei 30:14).

וההאמנ' ברש יותר גדולה, כמו שאמר (משלי י"ט א') טוב רש הולך בתומו מעקש דרכים. והעשק מן העשיר יותר גדול, כמ"ש (שמואל, ב' י"ב א-ו) ויקח את כבשת האיש הרש ושאר הענין. יעזור האויב יותר גדול, כמ"ש (שמואל א' כ"ד כ') וכי ימצא איש את אויבו ושלחו בדרך טובה. וההזקה לאוהב יותר קשה, כמ"ש (תהלים נ"ה כ"א) שלח ידיו בשלומיו חלל בריתו. והענוה מהגדול יותר גדולה, כמ"ש (במדבר י"ב ג') והאיש משה ענו מאד מכל האדם והגאוה מן השפל יותר קשה, כמ"ש (משלי ל' י"ד) לאכול עניים מארץ ואביונים מבני אדם.
6

E prejudicar o sábio — e a quem é útil às pessoas — é mais grave, como se diz: "pois conheço as vossas muitas transgressões e os vossos grandes pecados, ó vós que afligis o justo, que tomais suborno" (Amós 5:12). E a multidão dos oprimidos agrava a falta, pois oprimir mil homens em mil zuz é mais grave do que a mesma soma tirada de quinhentos, como se diz: "pela multidão das opressões clamam, gritam por causa do braço dos poderosos" (Iyov 35:9). E o pecado no dia honrado o jejum sagrado é mais grave, como se diz: "eis que, no dia do vosso jejum, buscais o vosso prazer" (Yeshayahu 58:4). E a caridade vinda do pobre é mais importante, como se diz: "melhor é o pouco com o temor do Senhor" (Mishlei 15:16). E o jejum do homem habituado ao conforto é mais importante, como se diz: "saia o noivo da sua câmara, e a noiva do seu dossel" (Yoel 2:16). E tudo isto tal como nos ordenou consagrar as primícias e os primogênitos, e orar de manhã ao nascer do sol — pois estas são coisas preciosas para nós, como se diz: "e toda a escolha dos vossos votos que fizerdes ao Senhor" (Devarim 12:11).

והזקת החכם ומי שמועיל לבני אדם יותר קשה, כמ"ש (עמוס ה' י"ב) כי ידעתי רבים פשעיכם ועצומים חטאתיכם צוררי צדיק לוקחי כפר. ורוב העשוקים יותר קשה, כי עושק אלף איש באלף זוז יותר קשה משיעשק בהם חמש מאות איש, כמ"ש (איוב ל"ה ט') מרוב עשוקים יזעיקו ישועו מזרוע רבים. והחטא ביום הנכבד יותר קשה, כמ"ש (ישעי' נ"ח ד') הן ביום צמכם תמצאו חפץ. והצדקה מן העני יותר חשובה, כמ"ש (משלי ט' ט"ז) טוב מעט ביראת י"י. והצום מן המעונג יותר חשוב, כמ"ש (יואל ב' ט"ז) יצא חתן מחדרו וכלה מחופתה. כאשר צונו להקדיש הבכורים והבכורים, וכהתפלל בבקר בזרוח השמש, כי אלה דברים יקרים אצלנו, כמ"ש (דברים י"ב י"א) וכל מבחר נדריכם אשר תדרו ליי':
Nota — o mesmo ato, pesos diferentes. Saadiá fecha o tratado com um princípio de fina justiça: o valor (ou a gravidade) de um ato não depende só do ato, mas da circunstância — de quem o faz, onde, quando e a quem. O pecado do líder pesa mais que o do anônimo; o erro no lugar santo, mais que noutro lugar; a devassidão do velho, mais que a do jovem; o roubo do rico, mais que o do pobre; magoar o amigo, mais que o inimigo; oprimir mil, mais que quinhentos. E, do lado do bem, o mesmo: a esmola do pobre, o jejum de quem ama o conforto, a humildade do grande — valem mais. Não é relativismo moral; é o oposto: a justiça pesa cada gesto no seu contexto exato.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O homem na balança

Concluída a tipologia dos dez graus, Saadiá volta-se ao caso mais delicado: o adam shaveh, aquele cujos méritos e faltas se igualam. A solução não é a aritmética, mas a graça: "abundante em bondade — inclina-se para a bondade". Quando a balança fica no fio, D'us pende-a para o mérito, e o homem é contado entre os justos. Daí a conclusão: no juízo final não há uma terceira categoria de "indecisos" — só justos e ímpios. A misericórdia decide o que a justiça deixaria em suspenso.

A misericórdia que não é uma paixão

O capítulo guarda uma das chaves da teologia racionalista. Chamar D'us de "misericordioso" não significa atribuir-Lhe uma emoção — pois n'Ele "não há acidentes", nada muda nem O comove de fora (Tratado II). Os termos de sentimento, ditos de D'us, são nomes de ação: descrevem o que Ele faz — aceita a teshuvá, ouve o aflito, eleva o homem na balança —, não um estado interior. É a mesma via negativa que o Rambam levaria ao seu ponto mais alto: conhecemos D'us pelos seus atos, nunca projetando n'Ele os nossos afetos.

O peso muda com a circunstância

A segunda metade é um pequeno tratado de justiça contextual. O mérito e o demérito de um mesmo ato variam conforme quem (o líder, o jovem, o velho, o rico, o pobre, o grande, o baixo), onde (o lugar santo), quando (o dia do jejum) e contra quem (o inimigo, o amigo, o sábio, a multidão). O pecado do importante é maior porque maior é a sua responsabilidade; a virtude do que tem menos é maior porque maior é o seu esforço. Longe de relativizar a moral, Saadiá afina-a: a balança divina pesa cada gesto no seu peso exato.

As coisas preciosas

O fecho recolhe tudo numa palavra: precioso. Consagrar as primícias e os primogênitos, orar logo ao romper do dia — dar a D'us "a escolha dos votos" — é tratar o serviço divino como aquilo que de mais valioso temos. É o avesso do mínimo cumprido por obrigação: a vida do mérito, no fim, mede-se pela disposição de oferecer o melhor, no melhor momento, com o melhor de si.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado V (O mérito e o demérito), cap. 7, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Yeshayahu 55:7 e 58:4; Chavakuk 3:2; Tehillim 116:5, 33:1, 55:21; Malachi 3:18; Yirmiyahu 23:11; Yechezkel 20:40; Amós 2:11 e 5:12; Hoshéa 7:9; Mishlei 19:1, 30:14 e 15:16; II Shmuel 12; I Shmuel 24:20; Bamidbar 12:3; Iyov 35:9; Yoel 2:16; e Devarim 12:11; o dito "abundante em bondade inclina para a bondade" é de Rosh haShaná 17a (as referências de versículos foram normalizadas). As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado V · O mérito e o demérito · cap. 8 · final

O Portão dos Pensamentos — e os Casos da Vida

מַאֲמָר חֲמִישִׁי · ח

Saadia encerra o Tratado do mérito e do demérito com um catálogo de casos. Começa pelo "portão dos pensamentos" — e por um princípio luminoso: a única coisa que se julga só no coração é a negação de D'us. Depois, percorre o intérprete, o juiz, o não-letrado, o pobre, o doente, o ébrio, o reincidente — pesando, em cada um, quem tem desculpa e quem não tem.

1

E, uma vez que mencionei estes assuntos, preciso falar do portão dos pensamentos sha'ar ha-machashavot. E digo que os pensamentos bons que sobem ao coração das pessoas e que elas concebem têm grande recompensa, como se diz: "deixe o ímpio o seu caminho, e o homem de iniquidade os seus pensamentos" (Yeshayahu 55:7). E quem se inclina a maus pensamentos e depois planeja um ato, mas não o faz — tem sobre si a culpa da concordância haskamá, não a culpa do ato, como se diz: "abominação do Senhor são os pensamentos do mau" (Mishlei 15:26). E não há, em coisa alguma, aquilo pelo qual o homem seja punido só pelo seu pensamento e pela sua consciência interior — exceto a negação do Criador kefirá —, pois é coisa a que o homem só chega pelo pensamento; e a respeito dela se diz: "a fim de prender a casa de Israel pelo seu coração, eles que se afastaram de mim com os seus ídolos, todos eles" (Yechezkel 14:5).

וכיון שזכרתי הענינים האלה, אני צריך לדבר בשער המחשבות, ואומר כי המחשבות שיעלו על לב בני אדם וידמו אותם, יש להם על זה גמול רב, כמ"ש (ישעיה נ"ה ז') יעזב רשע דרכו ואיש און מחשבותיו. ומי שיטה אליהם, ואחר כן יחשב במעשה ולא יעשהו, יש עליו אשמת ההסכמה, לא אשמת המעשה, כמ"ש (משלי ט"ו כ"ו) תועבת י"י מחשבות רע. ואין בכל הדברים מה שיענש האדם עליו ועל מחשבתו ועל מצפונו, חוץ מהכפירה בבורא, כי הוא דבר לא יגיע אדם אליו כי אם במחשבה בלבד, ובו נאמר (יחזקאל י"ד ה') למען תפוש את בית ישראל בלבם אשר נזורו מעלי בגלוליהם כלם.
Nota — o foro interior é livre, com uma exceção. Eis um princípio profundo e libertador: a Torá, em geral, julga atos, não pensamentos. Maus pensamentos não cumpridos não acarretam a culpa do ato — só, quando muito, a da "concordância" interior. Há uma única exceção: a negação de D'us (kefirá), e por uma razão lógica — ela é, por natureza, um ato puramente do pensamento; não há outra forma de cometê-la. Fora desse caso, a consciência permanece um foro livre. É a base, em Saadiá, da liberdade interior: ninguém é réu pelo que apenas passou pela mente.
2

E digo, quanto aos que opinam sobre os versos, que o fazem de quatro maneiras: aquele que busca conciliar entre um verso e o que se percebe no aparente os sentidos, ou na razão, ou no que há em outro verso, ou no que há na tradição kabbalah. Se o consegue, terá por isso recompensa — e a respeito disso se diz: "se a buscares como a prata e a procurares como a tesouros ocultos, então entenderás o temor do Senhor" (Mishlei 2:4-5). E, se não o consegue, não tem recompensa, mas punição.

ואומר בסוברים הסוברים בפסוקים על ארבעה דרכים, מי שסובר להפיק בין פסוק ובין מה שיש בנראה, או בשכל, או מה שיש בכתוב אחר, או מה שיש בקבלה, וישלם לו זה יהיו לו עליו גמול, ובו אומר (משלי ב' ה') אם תבקשנה ככסף וכמטמונים תחפשנה אז תבין יראת י"י וגו'. ואם לא ישלם לו זה, אין לו גמול כי אם ענש.
3

E quem opina sobre as mitsvot e gera dúvida confusão é como os falsos profetas, de quem se disse: "que seguem o seu próprio espírito, e nada viram" (Yechezkel 13:3). E quem opina sobre os assuntos do Criador e inova heresia é como os negadores — como os que opinam sobre a passagem "façamos o homem à nossa imagem" e pensaram que um anjo criou o homem e todo o mundo; sobre eles se diz: "que falam de ti com malícia, que tomam em vão o teu nome, teus adversários" (Tehillim 139:20).

והסובר במצות והוליד ספק, הוא משיג את נביאי השקר, אשר נאמ' בהם (יחזקאל י"ג ג') אשר הולכי' אחר רוחם ולבלתי ראו. והסובר בעניני הבורא וחדש, הוא משיג את הכופרים, כאשר סוברים בפר' נעשה אדם בצלמנו, וחשבו כי מלאך ברא אדם וכל העולם. ובהם אמ' (תהלים קל"ט כ') אשר יומרוך למזימה נשוא לשוא עריך.
Nota — a responsabilidade de interpretar. Saadiá, o exegeta racionalista, define os quatro cânones da boa interpretação: um verso deve ser conciliado com a evidência dos sentidos, com a razão, com os outros versos e com a tradição. Quem interpreta e esclarece é recompensado; quem interpreta e gera dúvida — ou pior, inova doutrina falsa sobre D'us (como a leitura de "façamos o homem" que imagina um anjo-criador) — assemelha-se ao falso profeta e ao negador. Interpretar não é um jogo livre: é uma responsabilidade, medida pelo que produz — luz ou confusão.
4

E digo: o juiz que castiga e pune por sua própria iniciativa — se a sua intenção é a guarda da Torá e o seu aperfeiçoamento, tem recompensa, como disseram os nossos mestres: "o tribunal flagela e pune mesmo não estritamente conforme a Torá" — não para transgredir as palavras da Torá, mas para fazer uma cerca sayag à Torá. E, se ele visa com isso ser parcial ou perverter a justiça, destrói-se a si mesmo, como se diz: "também punir o justo não é bom" (Mishlei 17:26).

ואומר, והדיין אשר מיסר ועונש מעצמו, אם כונתו שמירת התורה ותקנתה, יש לו גמול, וכמו שאמרו רבותינו ז"ל, בית דין מכין ועונשין שלא מן התורה, ולא לעבור על דברי תורה, אלא כדי לעשות סייג לתורה. ואם מכוין בזה לנטות או לבצוע, הוא מאבד את עצמו, כמ"ש (משלי י"ז כ"ו) גם ענוש לצדיק לא טוב.
5

E digo, quanto aos não-letrados amei ha-aretz — isto é, os que não aprenderam, mas que perguntam ao sábio que há entre os homens da sua geração, ao melhor dentre eles, e agem segundo a sua orientação —: a sua observância da Torá é completa, como se diz: "os lábios do justo apascentam a muitos" (Mishlei 10:21). E, se não fazem assim se não perguntam, não têm desculpa, e sobre eles se diz: "o escarnecedor não ama ser repreendido; aos sábios não irá" (Mishlei 15:12).

ואומר בעמי הארץ רוצה לומר אשר לא למדו, והם שואלים החכם אשר באנשי דורם והטוב שבם, ועושים על פיהו, תורתם שלמה כמ"ש (שם י' כ"א) שפתי צדיק ירעו רבים וגו'. ואם לא יעשו כן אין להם אמתלא, ובהם הוא אומר (שם ט"ו י"ב) לא יאהב לץ הוכח לו אל חכמים לא ילך.
6

E digo, quanto aos pobres a quem alcança a deficiência na oração e no serviço divino: todo aquele que falha por causa do sustento, do alimento tem desculpa; mas aqueles pobres acima desse nível são cobrados, como se diz: "Ele liberta o pobre na sua aflição" (Iyov 36:15). E digo, quanto aos doentes, que não têm desculpa para perverter a justiça a lei por causa da doença, como se diz: "e não clamaram a mim no seu coração, mas uivam sobre os seus leitos" (Hoshéa 7:14).

ואומר בעניים אשר ישיגם הקצור בתפלתם ועבודתם, כל מי שמקצר מהם בעבור המזון יש להם אמתלא. ומהם שיש למעלה ממנו הם נתבעים, כמ"ש (איוב ל"ו ט"ו) יחלץ עני בעניו ויגל בלחץ אזנם. ואומר בחולים שאין להם אמתלא במה שמעוולים בו את הדין בחלים, כמ"ש (הושע ז' י"ד) ולא זעקו אלי בלבם כי יילילו על משכבותם.
Nota — quem tem desculpa, quem não tem. Saadiá prossegue a justiça contextual do capítulo anterior, agora aplicada à vida real. O não-letrado que consulta o sábio cumpre por inteiro — a humildade de perguntar basta; quem se recusa a perguntar, não. O pobre que falha por estar absorvido na luta pelo pão é desculpado; o que tem folga, não. Mas o doente não pode usar a doença para "torcer a lei" no coração. O critério é constante: a desculpa vale na medida da coação real, nunca da conveniência.
7

E digo, quanto aos ébrios, que não têm desculpa pelos pecados que cometem no estado de embriaguez — pois a lei é: o ébrio, a sua compra é compra e a sua venda é venda; se cometeu uma transgressão que tem pena de morte, executam-no; se de açoites, açoitam-no. E digo, quanto aos oprimidos de Israel pelas mãos de outros, que não têm desculpa pela sua explosão de impaciência; antes, suportem, como se diz: "dê a face a quem o fere, farte-se de afronta" (Eichah 3:30).

ואומר בשכורים שאין להם אמתלא על מה שחוטאים בעת שכרותם, כי הדין, שכור מקחו מקח וממכרו ממכר, עבר עבירה שיש בה מיתה, ממיתין אותו, מלקות, מלקין אותו. ואומר בנגושים מישראל בידי גוים שאין להם אמתלא על קוצם, אבל יסבלו כמ"ש (איה ג' ל') יתן למכהו לחי ישבע בחרפה.
8

E digo, quanto aos que reincidem nas transgressões, que a sua teshuvá é mais difícil, como se diz: "como o cão que volta ao seu vômito, assim é o tolo que repete a sua insensatez" (Mishlei 26:11). E disseram os nossos mestres: "aquele que diz ''pecarei e me arrependerei'' não lhe dão a oportunidade de fazer teshuvá". E digo, quanto aos que se apoiam na expiação do Yom Kipur sem teshuvá, que ela não lhes aproveita sem teshuvá; como disseram os nossos mestres, de abençoada memória: "poderia o Yom Kipur expiar pelos que se arrependem e também pelos que não se arrependem? O verso ensina ''mas no dia dez'' — eis que não expia senão pelos que se arrependem".

ואומר בשונים בעבירות, כי תשובתם יותר קשה, כמ"ש (משלי כ"ו י"א) ככלב שב על קיאו כסיל שונה באולתו. ואמרו רבותינו האומר אחטא ואשוב אין מספיקין בידו לעשות תשובה. ואומר בסומכים על כפרת יום כפור, שלא יועיל להם בלי תשובה, וכמו שאמרו רבותינו זכרם לברכה יכול לכפר על השבים ועל שאינן שבים, תלמוד לומר אך בעשור, הא אינו מכפר אלא על השבים בלבד.
Nota — não há atalho para a teshuvá. Três tentativas de "burlar" o arrependimento são fechadas de uma vez: a reincidência endurecida ("o cão que volta ao vômito"); o cálculo cínico de "pecarei e depois me arrependerei" — a quem "não dão a oportunidade" de fazer teshuvá, pois transformou o perdão em licença; e a confiança no Yom Kipur sem arrependimento — o dia "só expia pelos que se arrependem". Tudo confirma o que os capítulos anteriores firmaram: a teshuvá é sinceridade real, nunca uma brecha jurídica.
9

E digo, quanto aos que desencaminham as pessoas mafsidei bnei adam, que a sua teshuvá não se completa pelo mero hábito de bem, como se diz: "como tornas bom o teu caminho para buscar amor!… por isso também os teus modos maus ensinaste aos teus caminhos" (Yirmiyahu 2:33). E digo, quanto aos que conduzem as pessoas ao bem matzdikei bnei adam, que os seus próprios pecados não se saldam pelo mero hábito, como se diz: "no seu rasto pisou o meu pé; o seu caminho guardei e não me desviei; do mandamento dos seus lábios não me afastei; mais do que a minha porção diária guardei as palavras da sua boca" (Iyov 23:11-12).

E eu sei que, ainda que eu reunisse os muitos casos, não completaria o que é necessário para alertar as pessoas acerca da sua vida de Torá; mas estes princípios gerais estarão perto de lhes ser úteis, com a ajuda do Criador. Está concluído o Quinto Tratado do livro.

ואומר במפסידי בני אדם, שתשובתם לא תשלם בהרגל, וכמו שאמר (ירמי' ב' ל"ג) מה תיטיבי דרכך לבקש אהבה לכן גם את הדעות למדת את דרכיך. ואומר במצדיקי בני אדם, כי חטאיהם לא ישלמו בהרגל, כמ"ש (איוב כ"ג י"א י"ד) באשורו אחזה רגלי דרכו שמרתי ולא אט מצות שפתיו ולא אמיש מחקי צפנתי אמרי פיו. ואני יודע כי אלו קבצתי הענינים הרבים, לא הייתי משלים מה שצריך אליו מהערת בני אדם על תורתם, אך אלה הכללים קרובים יהיו מועילים להם בעזר בורא: נשלם המאמר החמישי מן הספר:
Nota — quem influencia os outros responde mais. O fecho eleva a fasquia para quem tem ascendência sobre os demais. Quem desencaminha os outros não repara o seu mal apenas voltando a portar-se bem por hábito — o estrago semeado nos outros permanece. E quem conduz os outros ao bem também não pode contar com a rotina para cobrir os próprios pecados: é medido pela vara exigente de Iyov ("do mandamento dos seus lábios não me afastei"). Quem molda almas alheias é cobrado pelo que essas almas se tornaram. E Saadiá encerra com humildade: nenhum catálogo esgota a vida — mas estes "princípios gerais" hão de servir, "com a ajuda do Criador". Assim se conclui o Tratado V.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O foro interior: só a negação se julga no coração

O capítulo abre com um princípio de grande dignidade humana: em geral, julgam-se atos, não pensamentos. Maus pensamentos não realizados não acarretam a culpa do ato. A única exceção é a negação de D'us — e por pura lógica, pois ela é, por natureza, um ato apenas do pensamento. Fora dela, a consciência é um espaço livre. É um dos fundamentos do humanismo da Torá em Saadiá: o homem responde pelo que faz, não pelo que apenas atravessa a sua mente.

Interpretar é uma responsabilidade

Saadiá, mestre da exegese racional, fixa os quatro critérios de uma boa leitura — concordância com os sentidos, a razão, os demais versos e a tradição — e mede o intérprete pelo seu fruto: esclarecer é mérito; gerar dúvida ou inovar doutrina falsa sobre D'us aproxima do falso profeta e do negador. A liberdade de interpretar caminha de mãos dadas com a responsabilidade pelo que se produz.

Quem tem desculpa, quem não tem

O coração do capítulo é uma justiça atenta à vida concreta: o não-letrado que pergunta ao sábio cumpre por inteiro; o pobre absorvido na luta pelo pão é desculpado; mas o doente, o ébrio, o que se deixa levar pela impaciência — não. A regra é límpida: a desculpa vale na medida da coação real, nunca da conveniência. D'us pesa as circunstâncias — e por isso mesmo não aceita pretextos.

Sem atalhos — e o peso de influenciar os outros

Por fim, fecham-se as portas de fuga: a reincidência, o cálculo de "pecarei e me arrependerei", a confiança no Yom Kipur sem teshuvá. E eleva-se a responsabilidade de quem influencia os demais — para o mal e para o bem. Saadiá conclui o Tratado do mérito e do demérito como o começou: com a convicção de que a vida diante de D'us é livre, responsável e medida com justiça — e com a humildade de quem sabe que nenhum livro esgota o assunto. Conclui-se aqui o Tratado V.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado V (O mérito e o demérito), cap. 8 — conclusão do Tratado V —, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Yeshayahu 55:7; Mishlei 15:26, 2:4-5, 17:26, 10:21, 15:12 e 26:11; Yechezkel 14:5 e 13:3; Tehillim 139:20; Iyov 36:15 e 23:11-12; Hoshéa 7:14; Eichah 3:30; e Yirmiyahu 2:33; os ditos rabínicos são de Sanhedrin 46a ("o tribunal flagela e pune…"), Yomá 85b ("quem diz: pecarei e me arrependerei…") e Shevuot/Yomá ("não expia senão pelos que se arrependem"). As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado VI · A alma e a morte · cap. 1

A Essência da Alma: substância, não acidente

מַאֲמָר שִׁשִּׁי · א

Abre-se o Tratado da alma e da morte. Saadia recebe da profecia a doutrina — a alma criada, separada na morte, reunida ao corpo na ressurreição — e depois põe-se a verificá-la pela razão. A primeira pergunta: o que é, afinal, a alma? E ele percorre, refutando uma a uma, as teorias que a reduzem a um acidente, ao vento, ao fogo, ao sangue — para mostrar que ela é uma substância.

1

Sobre a essência da alma e a morte, e o que lhe é conexo. Disse Yehudá ben Shaul, o tradutor. Disse o autor: O nosso D'us, bendito e exaltado, informou-nos que o início da alma humana se dá no seu coração, com a perfeição da forma do seu corpo, como diz (Zecharyá 12:1): "Oráculo da palavra do Senhor sobre Israel… que estende os céus, funda a terra e forma o espírito do homem no seu interior". E que Ele estabeleceu partes para a sua subsistência, reunidas; e, quando a vida se completa, separa entre elas, até completar-se o número das almas que a Sua sabedoria determinou criar; e, quando estiverem completas, Ele as unirá de novo aos seus corpos e às suas partes na ressurreição. E os Seus profetas estabeleceram para nós os sinais e os prodígios sobre isto, e nós os aceitámos prontamente. E depois empenhámo-nos em verificar isto para nós mesmos por via da especulação da razão, pelo caminho que percorremos nos tratados anteriores.

בעצם הנפש והמות ובמה שסמוך לו: אמר יהודה בן שאול. אמר המחבר, הודיענו אלהינו יתברך ויתעלה, כי התחלת נפש האדם בלבו, עם שלמות צורת גופו, כאמרו (זכריה י"ב א') משא דבר י"י על ישראל נאם י"י נוטה שמים ויוסד ארץ ויוצר רוח אדם בקרבו. ושהוא שם חלקים לעמידתה מקובצים. וכאשר ישלם יפריד ביניהם, עד שיתום מספר הנפשו' אשר חייבה חכמתו לברוא אותם, וכאשר יתום אותם, יחבר בינם ובין גופותם וחלקיהם, והעמידו לנו נביאיו האותות והמופתים על זה, וקבלנום מהרה. ואחר כן התעסקנו להתקיים לנו זה בדרך העיון, על הדרך אשר הלכנו בה בשאר המאמרים הקודמים:
2

E a primeira coisa digna de investigação é: o que é a essência da alma? Pois encontrei os homens divididos a seu respeito em disputas espantosas, que perturbam os corações. Vejo por bem deixar de lado a menção da maioria delas, e trarei sete opiniões, além das quatro primeiras já antes mencionadas — perfazendo onze. Pois aquelas quatro eu já as examinei e esquadrinhei, e foram refutadas e anuladas: são elas a dos "espiritualistas", a opinião de que as coisas são da essência do Criador, a opinião de que são d'Ele e de outra coisa, e a opinião dos "dualistas". E, visto que a alma é uma das coisas conhecidas, quando a incluíram no conjunto daquelas coisas no Tratado I, ela já entrou no conjunto da refutação daquelas opiniões, e não precisamos repeti-las; mas mencionarei estas sete.

ותחלת מה שראוי לחקור עליו עצם הנפש מה הוא? והוא שמצאתי בני אדם חולקים בעצמה, מחלוקות נפלאות מטרידות הלבבות, אני רואה לעזוב זכרון רובם, ואביא מהם שבעה דעות, זולת הארבעה הראשוני אשר קדם זכרם, ויהיו אחד עשר. כי הארבע ההם, כבר בחנתים ודקדקתים ונפסדו ארבעתם ובטלו. והם הרוחניים, ודעת שהדברים מעצם הבורא, ודעת שהם ממנו ומדבר אחר ודעת בעלי השניים. וכיון שהנפש אחד מהדברים הידועים, כאשר הכניסוה בכלל הדברים ההם, כבר נכנסה גם כן בכלל התשובה על המאמרים ההם, ואין אנו צריכים לשנותם, אבל אזכור אלה השבעה,
Nota — fé recebida, verdade verificada. Saadiá inaugura o tratado com o seu método característico, já aplicado nos anteriores: primeiro recebe-se a doutrina da profecia (a alma é criada, separa-se do corpo na morte, e a ele se reúne na ressurreição), e depois verifica-se "por via da especulação". A fé não teme a razão — convida-a. E o primeiro passo racional é uma doxografia: passar em revista as opiniões dos filósofos sobre o que é a alma (sete, mais quatro já refutadas no Tratado I), para peneirá-las pela razão.
3

E digo, em primeiro lugar: encontrei homens que pensam que a alma é um "acidente" mikreh dentre os acidentes. E parece-me que o que os levou a esta afirmação foi não a terem visto — viram apenas a sua ação — e, por causa da sua subtileza, pensaram que fosse um acidente, pela subtileza dos acidentes. E nisto dividiram-se em cinco sub-grupos: alguns pensaram-na um acidente que move a si mesmo; alguns, uma perfeição shlemut de um corpo natural; alguns, a combinação das quatro naturezas os elementos; alguns, o entrelaçamento dos sentidos; e alguns supuseram que é um acidente nascido do sangue.

ואומר תחלה, מצאתי אנשים חושבים, כי הנפש מקרה מהמקרי', וכמדומה לי כי אשר הביאם אל המאמר הזה, בעבור שלא ראו אותה, אבל ראו פעלה, וחשבו בעבור דקותה מהרגיש אותה בחוש, שהיא מקרה מפני דקות המקרים, ועם ה נחלקו חמש מחלקות, קצתם חשבוה מקרה מניע עצמו, וקצם חשבוה שלמות לגשם טבעי, וקצתם חשבוה חבור הארבעה טבעים, וקצתם חשבוה התקשר החושים, וקצתם סברו שהיא מקרה נולד מן הדם.
4

E, quando me detive a contemplar estas afirmações — todas reunidas na tese de que a alma é um acidente —, achei-as todas falsas, por vários lados. Um deles: que de uma coisa acidental não procederia esta grande sabedoria, nem estes entendimentos nobres pelos quais se ordena o mundo, como mencionei num tratado anterior. E ainda: que um acidente não se aloja num outro acidente, pelo que há nisso de contradição. E eis que encontramos a alma qualificada por muitos acidentes: dizes "alma sábia" e "alma tola", "alma pura" e "alma má"; dizes que ela tem amor e ódio, vontade e ira, e as demais qualidades conhecidas. E não é cabível, com estas coisas, que ela seja um acidente; antes, vemo-la — justamente por receber qualidades opostas — mais digna de ser uma substância etzem.

וכאשר התישבתי להתבונן במאמרים האלה, אשר מקבץ אותם כלם המאמר שהיא מקרה, שהמקרה והשלמות והחבור וההתקשרות וההתילדות במקרים, מצאתים כלם שקר מכמה צדדים. אחד מהם, כי הדבר המקרי לא תבא ממנו החכמה הגדולה הזאת, ואלה התבונו' הנכבדות אשר בם תקון העולם, כאשר זכרתי במאמר קודם לזה. ועוד כי המקרה לא יהיה נקרה במקרה אחר, בעבור מה שיש בזה מן ההפסד. והנה אנחנו מוצאים הנפש נקרית במקרים רבים, תאמר נפש חכמה, ונפש סכלה, ותאמר נפש זכה, ינפש רעה, ותאמר שיש לה אהבה ושנאה ורצון וקצף, ושאר המדות הנודעות, ולא יתכן עם הענינים האלה שתהיה מקרה, אבל נראה אותה בענין הזה מקבולה ההפכים, יותר ראויה שתהיה עצם.
Nota — a alma é substância, não acidente. Eis o argumento-chave do capítulo, e é de boa filosofia. Um "acidente" (na linguagem aristotélica que Saadiá usa) é uma propriedade que existe noutra coisa — a cor numa maçã, o calor na água. Ora, a alma não pode ser um mero acidente por duas razões: (1) de algo tão derivado não brotaria "esta grande sabedoria" que ordena o mundo; e (2) a alma porta acidentes — é sábia ou tola, ama ou odeia. E o que porta propriedades opostas tem de ser um sujeito que as recebe — isto é, uma substância (etzem), não uma propriedade.
5

E a segunda opinião: vi homens que a pensaram vento ruach. E a terceira: homens que a pensaram fogo esh. E achei estas duas afirmações também refutadas: pois, se fosse vento, a sua natureza seria quente-e-húmida; e, se fosse fogo, seria quente-e-seca; e não a encontramos assim.

והשני ראיתי אנשים חשבוה רוח. והשלישי אנשים חשבוה אש, ומצאתי אלה השני מאמרים עוד נפסדים, מפני שאם היתה רוח, היה טבעה חם ולח, ואלו היתה אש, היה טבעה חם יבש, ואין אנו מוצאים אותה כן.
6

E a quarta: quem disse que ela são duas partes — uma parte intelectual-racional sichli dibri, que não perece e habita no coração; e outra vital chiyuni, que se difunde pelo resto do corpo e perece. E ficou-me claro que também isto é um erro: pois, se a parte racional fosse outra que a parte difundida pelo corpo, não poderiam mesclar-se — uma seria antiga e a outra recente, uma perece e a outra não. E ainda: nesse caso a parte racional não ouviria, nem veria, nem sentiria pelos demais sentidos. E não vale aqui a resposta que já dei — que os sentidos servem uns aos outros, e a fala fala por todos, como expliquei no Tratado I; antes, o que ressalta desta afirmação é que haveria duas almas, por ser cada parte separada.

והרביעי מי שאמר שהיא שני חלקים, החלק האחד שכלי דברי, ואיננו כלה והוא שוכן בלב. והשני חיוני, והוא מתפשט בשאר הגוף והוא כלה. והתאמת לי עוד כי זה טעות, כי החלק הדבר אלו היה זולת החלק המתפש' בגוף, לא היה אפש' שימזגו, מפני שזה קדמון וזה חדש, וזה כלה וזה איננו כלה. ועוד אלו היה החלק הדברי זולת חלק המתפשט בגוף לא ישמע ולא יראה ולא יחוש שאר החושים. ואין בתשובה הזאת אשר השיבותי, כי החושים יהיו קצתם לקצתם, וידבר הדבור על כלם, כאשר פרשתי במאמר הראשון; אבל אומר כי הנראה מן המאמר הזה הוא, שהנה שתי נפשות מפני שכל חלק לבד.
Nota — a alma é uma, não duas. Contra a teoria (de raiz platônica/aristotélica) que divide a alma em uma parte "racional" imortal e uma parte "vital" mortal, Saadiá defende a unidade da alma. Se fossem duas substâncias distintas — uma eterna, outra criada; uma imperecível, outra perecível —, não poderiam fundir-se numa só vida, e a parte racional não poderia ver nem ouvir (pois os sentidos pertenceriam à outra). A consequência seria absurda: "duas almas" num só homem. Para Saadiá, a alma é uma só substância, com faculdades diversas — não um amálgama de duas.
7

E a quinta: quem disse que ela são dois "ares" avirim — um dentro e o outro fora. E o que os obrigou a esta afirmação foi terem achado que a alma só subsiste pela atração do ar de fora, supondo esse autor que isso seja metade dela. Mas não: a respiração serve apenas para arejar o calor natural em que a alma habita, no coração — assim como se sopra sobre o fogo para afastar dele o mau fumo.

והחמישי' מי שאמר שהיא שני אוירים, האחד מהם בפנים, והשני בחוץ. והצריכו למאמר הזה, שמצאוה לא תתקיים כי אם במשיכת האויר מחוץ, וסבר שזה בחציה, ואיננו כי אם להרויח לחום הטבע אשר הנפש שוכנת בו בלב. כאשר מנפחים על האש להרחיק העשן הרע ממנה רוצה לומר מהאש.
8

E a sexta: quem pensou que ela é sangue puro, uma "nuvem" à parte, como escreveu no seu livro. E o que o induziu ao erro foi a afirmação da Torá (Vayikrá 17:11) "pois o sangue está na alma". Mas não recordou o que a Torá dissera antes (ali): "pois a alma da carne está no sangue". Antes, isto mostra que o sangue é a sua morada e o seu centro: pela força do sangue mostra-se-nos a força da alma, e pela sua fraqueza, a sua fraqueza; quando a alma se alegra, o sangue aparece com ela; e quando foge do medo de algo, leva-o consigo para dentro. E o que a Torá disse — que "o sangue está na alma" — é segundo o costume da língua, que chama a coisa pelo nome da sua morada: como chama "coração" à sabedoria, ao dizer (Mishlei 7:7) "um jovem falto de coração" (de juízo), porque o coração é a sua morada; e chama "lábio" ao idioma, ao dizer (Bereshit 11:1) "e era toda a terra de um só lábio", pois a fala se dá no lábio.

והששי מי שחשב שהיא דם גמור והוא ענן לבדו, כאשר כתב בספרו. והטעהו בזה מאמר התורה (ויקרא י"ז י"א) כי הדם הוא בנפש. ולא זכר מה שאמרה קודם (שם) כי נפש הבשר בדם היא, אבל זה נראה כי הדם הוא משכנה ומרכזה, ובכחו יראה לנו כחה, ובחלשתו יראה לנו חלשתה, וכשהיא שמחה ותראה שמחתה בדבר אשר תשמח בו, ותראה הדם עמה, וכאשר תנוס מיראת דבר שתירא ממנו, תקחהו עמה לפנים. ומה שאמרה התורה כי הדם היא בנפש, הוא על מנהג הלשון, שהיא קוראה הדבר בשם משכנו, כאשר קוראה החכמת לב, באמרו (משלי ז' ז') נער חסר לב. מפני שהלב משכנה, וקוראה הלשון שפה. באמרה (בראשית י"א א') ויהי כל הארץ שפה אחת. כי בשפה תהיה:
Nota — o sangue é a morada, não a alma. A sexta teoria — a alma é o sangue — apoia-se num verso: "o sangue está na alma" (Vayikrá 17:11). Saadiá responde como exegeta: o mesmo capítulo diz também "a alma da carne está no sangue" — ou seja, o sangue é a sede da alma, não a alma. É um caso de metonímia, a língua nomeando a coisa pelo seu lugar: chama-se "coração" à sabedoria (pois o coração é a sua sede) e "lábio" ao idioma (pois a fala se forma no lábio). Ler "o sangue é a alma" ao pé da letra é confundir a lâmpada com a luz.

Sobre esta seção · עִיּוּן

Fé recebida, verdade verificada

O Tratado da alma abre como os anteriores: a doutrina vem primeiro da profecia — a alma é criada (não eterna nem parte de D'us), separa-se do corpo na morte, e a ele se reúne na ressurreição —, e só depois é submetida ao exame da razão. É o programa de Saadiá: crer e, em seguida, compreender. E o exame começa por uma pergunta simples e radical: o que é a alma?

A alma é substância, não acidente

A tese central do capítulo, e a mais filosófica: a alma não é um "acidente" — uma propriedade que existe noutra coisa —, mas uma substância (etzem). A prova é elegante: de um mero acidente não viria "a grande sabedoria que ordena o mundo"; e, sobretudo, a alma porta propriedades opostas (é sábia ou tola, ama ou odeia), e só um sujeito real pode ser portador de qualidades. A alma é aquilo em que as qualidades existem — logo, é coisa, não qualidade.

Nem vento, nem fogo, nem duas almas

Saadiá peneira então as teorias reducionistas. Não é "vento" nem "fogo" (a sua natureza não bate com a desses elementos). Não são "duas partes" — uma racional imortal e outra vital mortal —, pois duas substâncias tão diversas não se fundiriam numa só vida, e o resultado seria o absurdo de "duas almas". Nem são "dois ares": respirar serve só para arejar o calor do coração, não é metade da alma. A alma é uma, e é mais do que matéria.

O sangue é a morada, não a alma

A última teoria examinada — a alma é o sangue — é desfeita com a ferramenta do exegeta: o verso "o sangue está na alma" é metonímia (o sangue é a sede da alma, como o coração é sede da sabedoria e o lábio, da fala). Reduzir a alma ao sangue é tomar a lâmpada pela luz. Assim se prepara o terreno: depois de mostrar o que a alma não é, o tratado poderá dizer, nos capítulos seguintes, o que ela é — e o que lhe sucede na morte.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VI (A alma e a morte), cap. 1 — abertura do tratado —, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Traduziu-se o capítulo inteiro a partir do hebraico de Ibn Tibbon. Para esta obra não há tradução inglesa de domínio público; trabalhou-se diretamente sobre o hebraico. As citações remetem a Zecharyá 12:1; Vayikrá 17:11 (e 17:14); Mishlei 7:7; e Bereshit 11:1; a distinção substância/acidente (etzem/mikreh) e a referência às quatro teorias rivais retomam o Tratado I. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado VI · A alma e a morte · cap. 2

A Sétima Doutrina — e a Exegese de "Quem Sabe?" em Qohélet

הַדַּעַת הַשְּׁבִיעִית — וּפֵרוּשׁ "מִי יוֹדֵעַ" בְּקֹהֶלֶת

Depois de refutar seis teorias falsas sobre a alma no capítulo anterior, Saadiá anuncia: "a sétima opinião é a verdadeira." E dedica este capítulo a comentar o verso de Qohélet que, segundo ele, é elogio filosófico a quem sabe — não expressão de dúvida.

1

A sétima doutrina é a doutrina verdadeira, e eu a explicarei com a ajuda de D'us. Antepus a ela estas seis doutrinas mencionadas para que fique claro a quem lê este livro que a investigação do conhecimento da alma é uma investigação de uma coisa profunda e sutil — assim como expus sobre a investigação da verdade do "não-dito" e da "nuvem que forma as existências". Assim também, neste assunto, há tanta sutileza que muitos homens ficam perplexos a seu respeito.

וְהַדַּעַת הַשְּׁבִיעִי הוּא הַדַּעַת הָאֱמֶת, וַאֲנִי אֲבָאֵר אוֹתוֹ בְּעֶזְרַת הָאֵל וְהִקְדַּמְתִּי לְפָנָיו אֵלֶה הַשִּׁשָּׁה דֵּעוֹת הַנִּזְכָּרִי', כְּדֵי שֶׁיִּתְבָּאֵר לְמִי שֶׁיִּקְרָא בְּסֵפֶר הַזֶּה, כִּי הַמַּחְקָר בִּידִיעַת הַנֶּפֶשׁ, הוּא מַחְקָר בְּדָבָר עָמֹק וְדַק, כְּמוֹ שֶׁסִּפַּרְתִּי עַל מַחְקַר אֱמֶת דָּבָר לֹא מְדַבֵּר, וּבְעָנָן בּוֹרֵא הַנִּמְצָאוֹת, כֵּן הִיא. זֹאת גַּם כֵּן בְּעִנְיָנָהּ מִן הַדַּקּוּת, מַה שֶּׁיִּהְיוּ בּוֹ נְבוּכִים הַרְבֵּה מִבְּנֵי אָדָם.
2

E digo: por isso você encontrará que o Sábio exalta quem se firmar sobre a verdade do assunto da alma racional que está no homem, ao dizer (Qohélet 3:21):

מִי יוֹדֵעַ רוּחַ בְּנֵי הָאָדָם הָעֹלָה הִיא לְמַעְלָה

Quem sabe o espírito dos filhos do homem, se vai para cima...

וְאוֹמֵר וּבַעֲבוּר זֶה תִּמְצָא הֶחָכָם מוֹקִיר, מִי שֶׁיַּעֲמֹד עַל אֲמִתַּת עִנְיַן הַנֶּפֶשׁ הַדְּבָרִית אֲשֶׁר בָּאָדָם, בְּאָמְרוֹ (קֹהֶלֶת ג׳ כא׳ ) מִי יוֹדֵעַ רוּחַ בְּנֵי הָאָדָם הָעֹלָה הִיא לְמַעְלָה וְגוֹ'.
Nota — o que é a "alma racional" (nefesh ha-diberit)? O termo que Saadiá usa — nefesh ha-diberit (نَفْس النَّاطِقة em árabe) — é a "alma racional" ou "alma falante" da filosofia aristotélica: o que distingue o homem do animal. As seis teorias anteriores tentaram reduzi-la a um acidente, ao vento, ao fogo, a duas partes, a dois ares ou ao sangue — e todas foram refutadas. Agora Saadiá preparará a sua própria resposta, começando pela exegese deste verso de Qohélet.
3

E cabe-me esclarecer: o seu dizer quem sabe não é uma dúvida — pois está certamente estabelecido que algumas almas são nobres e elevadas e outras são baixas e desprezadas; e isto é também verdade para as almas que são assim. Mas o seu dizer quem sabe é para exaltar e honrar quem as conhece desse modo.

E digo ao ouvinte disso: é como quando você diz — "quem conhece Reuven o sábio, e quem conhece Shimon o escravo?" Pois ao dizer isso, você confirma a sabedoria para Reuven e a servidão para Shimon sem dúvida; e a sua pergunta não é sobre quem sabe, mas apenas para honrá-los e respeitá-los.

Assim diz o Sábio: "quem sabe a alma nobre que sobe e a alma baixa que desce" — é verdade para as duas almas, que são assim, sem dúvida. E o lugar do seu dizer quem sabe quer dizer: quem se firmar sobre isto já chegou e será salvo.

וְרָאוּי שֶׁאֲבָאֵר, כִּי אָמְרוֹ מִי יוֹדֵעַ. אֵינוֹ סָפֵק כִּי קְצָת הַנְּפָשׁוֹת עֶלְיוֹנוֹת נִכְבָּדוֹ', וּקְצָתָם שְׁפָלוֹת נִמְבָּזוֹת, אַף הוּא קַיָּם לַנְּפָשׁוֹת שֶׁהֵן כָּךְ, אֲבָל אָמְרוֹ מִי יוֹדֵעַ, הוּא לְהוֹקִיר מִי שֶׁיָּדְעָנָּה כֵן, וְאוֹמֵר לַשּׁוֹמֵעַ זֶה, כְּאָמְרְךָ, מִי יוֹדֵעַ רְאוּבֵן הֶחָכָם, וּמִי יוֹדֵעַ שִׁמְעוֹן הָעֶבֶד? כִּי בְּאָמְרְךָ זֶה, תִּתְקַיֵּם הַחָכְמָה לִרְאוּבֵן, וְהָעֹדֶה לְשִׁמְעוֹן בְּלִי סָפֵק, וְאֵין שְׁאֵלָתְךָ עַל מִי שֶׁיָּדַע, כִּי אִם לְהוֹקִיר אוֹתָם וּלְכַבְּדָם וְהַדּוֹמֶה לָזֶה. כֵּן אוֹמֵר הֶחָכָם, מִי יוֹדֵעַ הַנֶּפֶשׁ הַנִּכְבֶּדֶת הָעוֹלָה, וְהַנֶּפֶשׁ הַפְּחוּתָה הַיּוֹרֶדֶת, הוּא אֱמֶת לִשְׁתֵּי הַנְּפָשׁוֹת שֶׁהֵן כֵּן בְּלִי סָפֵק, וּמְקוֹם אָמְרוֹ מִי יוֹדֵעַ, רוֹצֶה בּוֹ כִּי מִי שֶׁיַּעֲמֹד עַל זֶה כְּבָר הִגִּיעַ וְיִנָּצֵל.
Nota — o elogio disfarçado de pergunta. O argumento linguístico de Saadiá é fino: em hebraico bíblico, "mi yodea" (quem sabe?) pode ser uma expressão de admiração e honra — como "quem conhece Reuven o sábio?" não questiona se alguém o conhece, mas glorifica a quem o conhece. Assim, Qohélet não duvida que as almas subam ou desçam; ele exalta quem chegou a compreender essa verdade. Esta leitura transforma um verso aparentemente agnóstico num convite ao estudo profundo da alma.
4

E digo ainda: pois o seu dizer — isto é, quem sabe — é também para admiração e exaltação sobre a ligação das duas almas às circunstâncias dos dois corpos. E ele diz: as circunstâncias dos dois corpos, já as encontramos iguais na percepção sensorial de matéria e acidentes; e não há dúvida para nós de que há diferença entre os dois espíritos. E quem a conhece e se firma sobre ela — é o que ele disse antes (Qohélet 3:19):

כִּי מִקְרֶה בְנֵי הָאָדָם וּמִקְרֶה הַבְּהֵמָה מִקְרֶה אֶחָד לָהֶם כְּמוֹת זֶה כֵּן מוֹת זֶה וְרוּחַ אֶחָד לַכֹּל

Pois o destino dos filhos do homem e o destino do animal é um destino para eles; como morre um, assim morre o outro, e um só espírito têm todos.

E depois disse: quem sabe o espírito dos filhos do homem?

וְאוֹמֵר עוֹד, כִּי מַאֲמָרוֹ זֶה, רוֹצֶה לוֹמַר מִי יוֹדֵעַ, הוּא לְהַפְלָא וְהוֹקִיר עַל הִתְחַבֵּר שְׁתֵּי הַנְּפָשׁוֹת אֶל עִנְיְנֵי הַשְּׁנֵי גוּפִים, וְהוּא אוֹמֵר, כִּי עִנְיְנֵי שְׁנֵי הַגּוּפִים, כְּבָר מְצָאנוּם שָׁוִים בְּחוּשׁ גְּשָׁמִים וּמִקְרִים, וְאֵין סָפֵק אֶצְלֵנוּ כִּי יֵשׁ בֵּין שְׁתֵּי הָרוּחוֹת הֶפְרֵשׁ, וּמִי יֵדְעֶהוּ וְיַעֲמֹד עָלָיו, הוּא אָמְרוֹ קֹדֶם זֶה, (שָׁם ג׳ יטׁ) כִּי מִקְרֶה בְנֵי הָאָדָם וּמִקְרֶה הַבְּהֵמָה מִקְרֶה אֶחָד לָהֶם כְּמוֹת זֶה כֵּן מוֹת זֶה וְרוּחַ אֶחָד לַכֹּל. וְאַחַר כֵּן אָמַר, מִי יוֹדֵעַ רוּחַ בְּנֵי הָאָדָם.
5

E reforça esta afirmação — que é como dissemos — a adição de Qohélet (3:19): a vantagem do homem sobre o animal é nenhuma, pois tudo é vaidade.

E não é possível que o Sábio quisesse dizer com isso que não há vantagem para a alma do homem sobre a alma dos animais — pois nenhum sábio diria isso, pois negaria a sabedoria; e ainda, até um ignorante que tem um pouco de conhecimento não o diria, pois ele se vê a si mesmo mais honrado do que os animais em coisas que levaria tempo explicar — como escravizá-los, montá-los e usá-los como quiser.

Mas o que o Sábio quis dizer é que o corpo do homem não tem nenhuma vantagem sobre o corpo dos animais, pois é composto dos quatro elementos como eles — e como ele disse depois (Qohélet 3:20): tudo vai a um só lugar, tudo veio do pó e tudo retorna ao pó. Mas a vantagem — quem sabe o espírito dos filhos do homem!

E isto é ainda como a afirmação de quem diz: o homem e o sílex são iguais na questão de ser pedra, não há diferença entre eles — pois este é pedra e aquele é pedra. E quem sabe a luz brilhante que está no rubi e a elevação que está na pedra de sílex — já chegou.

E cabe ainda que quem sabe seja no sentido de afirmação, como em (Yoel 2:14): quem sabe, voltará e se arrependerá — quem sabe que é pecador, voltará. Assim diz aqui: eis que quem sabe compreenderá que esta alma sobe e esta alma desce.

וּמְחַזֵּק הַמַּאֲמָר הַזֶּה שֶׁהוּא כַּאֲשֶׁר אָמַרְנוּ, הוֹסָפָתוֹ בוֹ (שָׁם) וּמוֹתַר הָאָדָם מִן הַבְּהֵמָה אַיִן כִּי הַכֹּל הֶבֶל. וְלֹא יִתָּכֵן שֶׁרָצָה הֶחָכָם בָּזֶה שֶׁאֵין מוֹתָר לְנֶפֶשׁ הָאָדָם עַל נֶפֶשׁ הַבְּהֵמוֹת, כִּי אֵין חָכָם אוֹמֵר זֶה, כִּי הָיָה מְבַטֵּל הַחָכְמָה, וְעוֹד כִּי עַם הָאָרֶץ שֶׁיֵּשׁ לוֹ מְעַט דַּעַת לֹא יֹאמַר זֶה, וְהוּא רוֹאֶה עַצְמוֹ נִכְבָּד מִן הַבְּהֵמוֹת, בְּעִנְיָנִים אֲשֶׁר יַאֲרִיךְ בְּאוּרָם, מֵהַעֲבִידוֹ אוֹתָם וְרָכְבוֹ עֲלֵיהֶם, וְהִשְׁתַּמְּשׁוּ בָּהֶם כַּאֲשֶׁר יִרְצֶה, אֲבָל רָצָה בָּזֶה הַמַּאֲמָר, כִּי גוּף הָאָדָם אֵין לוֹ יִתְרוֹן עַל גּוּף הַבְּהֵמוֹת בְּמַאוּמָה, כִּי הוּא מֻרְכָּב מֵאַרְבַּע יְסוֹדוֹת כָּהֶם, וְכַאֲשֶׁר אָמַר אַחֲרָיו (שָׁם כ׳ ) הַכֹּל הוֹלֵךְ אֶל מָקוֹם אֶחָד הַכֹּל הָיָה מִן הֶעָפָר וְהַכֹּל שָׁב אֶל הֶעָפָר. אֲבָל הַיִּתְרוֹן מִי יוֹדֵעַ רוּחַ בְּנֵי הָאָדָם. וְזֶה עוֹד כְּמַאֲמַר הָאוֹמֵר, כִּי הָאָדָם וְהָאֶבֶן הַחַלָּמִישׁ, שָׁוִים בְּעִנְיַן הֵאָבְנוּת, אֵין בֵּינֵיהֶם הֶפְרֵשׁ, כִּי זֶה אֶבֶן וְזֶה אֶבֶן, וּמִי יוֹדֵעַ הָאוֹר הַמַּזְהִיר אֲשֶׁר בָּאֹדֶם וְהַגֹּבַה אֲשֶׁר בְּצוּר הַחַלָּמִישׁ כְּבָר הִגִּיעַ. וְיִכְשַׁר שֶׁיִּהְיֶה עִנְיַן מִי יוֹדֵעַ קִיּוּם, כְּאָמְרוֹ (יוֹאֵל ב׳ יד) מִי יוֹדֵעַ יָשׁוּב וְנִחַם, אֲשֶׁר יָדַע שֶׁהוּא חוֹטֵא יָשׁוּב, כֵּן אוֹמֵר הִנֵּה אֲשֶׁר יָדַע יָבִין שֶׁזֹּאת עוֹלָה וְזֹאת יוֹרֶדֶת:
Nota — três leituras, uma conclusão. Saadiá oferece três interpretações do mesmo "mi yodea" de Qohélet 3:21: (1) expressão de honra a quem sabe; (2) expressão de admiração pela diferença oculta entre os espíritos de dois seres cujos corpos parecem idênticos; e (3) no sentido afirmativo — "quem sabe, age" (paralelo a Yoel 2:14). As três leituras convergem: a alma que sobe ou desce é uma realidade, não uma pergunta sem resposta. A "vaidade" de Qohélet refere-se ao corpo, não à alma. E a beleza oculta no rubi distingue-se do sílex — embora ambos sejam "pedra" — como a alma racional distingue o homem do animal, embora ambos partilhem a mesma matéria.

Sobre esta seção · עִיּוּן

A transição: das teorias falsas à verdadeira

O capítulo anterior (VI:1) percorreu seis teorias sobre a essência da alma e as refutou uma a uma: não é um acidente, não é vento, não é fogo, não são duas partes distintas, não são dois ares, não é o sangue. Este capítulo apenas anuncia: "a sétima é a verdadeira" — e se prepara para expô-la por via da exegese bíblica. Saadiá não declara ainda, em termos filosóficos, o que é a alma; ele mostra, primeiro, que Qohélet a tomou a sério.

A hermenêutica de Saadiá: perguntas que são elogios

A contribuição técnica do capítulo está na leitura do verso de Qohélet. Em hebraico, mi yodea pode funcionar como pergunta retórica de admiração — não dúvida. Saadiá dá o exemplo: dizer "quem conhece Reuven o sábio?" não questiona se alguém o conhece; antes, confirma que Reuven é sábio e honra a quem o conhece. O mesmo vale para o verso de Qohélet: a alma que sobe é uma realidade; o "quem sabe" exalta o filósofo que chegou a conhecê-la.

O corpo igual, a alma diferente

A segunda leitura de Saadiá toca num problema filosófico mais fundo. Dois corpos — o de um sábio e o de uma ovelha — são, materialmente, quase indistinguíveis: os mesmos quatro elementos, os mesmos acidentes físicos, o mesmo fim no pó (Qohélet 3:20). A diferença não está na matéria; está no espírito. E é exatamente aí que reside "a vantagem do homem sobre o animal" — não no corpo, que vai ao pó, mas na alma que sobe.

O rubi e o sílex

A analogia final é de uma beleza rara na filosofia medieval: o rubi e o sílex são ambos "pedra" — materialmente iguais. Mas há "luz brilhante" no rubi e "elevação" no sílex que os distinguem inteiramente. Quem sabe essa diferença chegou. Assim é a alma racional: no plano corporal, o homem é pedra como o animal. No plano do espírito, há um fogo interior que nenhum filósofo reducionista conseguiu explicar — e é esse fogo que Saadiá se prepara para definir nos capítulos seguintes.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VI (A alma e a morte), cap. 2, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Trabalhou-se diretamente sobre o hebraico de Ibn Tibbon. As citações remetem a Qohélet 3:19–21 (versão com nikud) e Yoel 2:14. As notas e a seção de estudo são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.

Emunot veDeot · Tratado VI · A alma e a morte · cap. 3

A Alma Criada e as Suas Três Forças

הַנֶּפֶשׁ הַנִּבְרֵאת וּשְׁלֹשֶׁת כֹּחוֹתֶיהָ: נֶפֶשׁ, רוּחַ וּנְשָׁמָה

Após provar que a sétima opinião é a verdadeira (cap. 2), Saadiá apresenta aqui a doutrina positiva: a alma é uma substância criada, mais sutil que as esferas celestes, capaz de pensamento e fala. Ela tem três forças — desejo, ira e conhecimento — e por isso a língua sagrada usa três nomes: nefesh, ruach e neshamá.

1

E visto que antecipei estas doutrinas, é apropriado que eu traga a sétima doutrina, e digo: o que foi confirmado é que a alma é criada — pelo que estabeleci antes sobre a criação de toda a existência, e a impossibilidade de que haja algo eterno além do Criador. E o Criador disse (Zecaryá 12:1): o formador do espírito do homem dentro dele. O Criador a cria simultaneamente com a perfeição da forma humana, como disse: "dentro dele."

E assim os nossos antepassados não cessavam de jurar: "Vive o Senhor que nos fez esta alma" (Yirmeyahu 38:16).

E que a sua essência é uma essência pura, como a pureza das esferas celestes. E que ela recebe a luz tal como a esfera a recebe — e fica iluminada nela. Mas a sua essência é mais sutil do que as esferas, e por isso tornou-se falante. E cheguei a isso a partir de dois grandes fundamentos.

וְכֵיוָן שֶׁהִקְדַּמְתִּי אֵלֶּה הַמַּאֲמָרִים, רָאוּי שֶׁאָבִיא הַמַּאֲמָר הַשְּׁבִיעִי, וְאוֹמֵר, כִּי אֲשֶׁר הִתְאַמֵּת כִּי הַנֶּפֶשׁ בְּרוּאָה, בַּעֲבוּר מַה שֶּׁקָּדַמְתִּי מֵחִדּוּשׁ כָּל נִמְצָא, וְהֶפְסֵד שֶׁיִּהְיֶה דָבָר קַדְמוֹן זוּלָתִי הַבּוֹרֵא, וּמַאֲמַר הַבּוֹרֵא (זְכַ' י"ב א') יוֹצֵר רוּחַ אָדָם בְּקִרְבּוֹ. אֲבָל הַבּוֹרֵא בּוֹרֵא אוֹתָהּ עִם שְׁלֵמוּת צוּרַת הָאָדָם כְּאָמְרוֹ בְּקִרְבּוֹ. וְכַאֲשֶׁר לֹא סָרוּ אֲבוֹתֵינוּ נִשְׁבָּעִים חַי ה' אֲשֶׁר עָשָׂה לָנוּ אֶת הַנֶּפֶשׁ הַזֹּאת (יִרְמִ' ל"ח ט"ז). וְשֶׁעַצְמָהּ עֶצֶם נָקִי כְּנִקְיוּת הַגַּלְגַּלִּים. וְשֶׁהִיא מְקַבֶּלֶת הָאוֹר כַּאֲשֶׁר יְקַבֵּל הַגַּלְגַּל וְתִהְיֶה בוֹ מְאִירָה, אֲבָל עַצְמָהּ יוֹתֵר דַּק מִן הַגַּלְגַּלִּים, וְעַל כֵּן נִהְיְתָה מְדַבֶּרֶת. וְעָמַדְתִּי עַל זֶה מִשְּׁנֵי הַשָּׁרָשִׁים הַגְּדוֹלִים.
Nota — a alma mais sutil que as esferas celestes. A cosmologia de Saadiá compartilha com o pensamento medieval a hierarquia: matéria terrestre → esferas celestes (mais puras) → alma racional (ainda mais sutil). A razão pela qual a alma FALA é precisamente essa sutileza adicional: as esferas celestes são puras mas não têm fala; a alma humana, sendo mais sutil ainda, tem o poder da linguagem e do pensamento. Esta ideia retorna na prova pela analogia com as estrelas (Daniel 12:3) no próximo segmento.
2

O primeiro fundamento é o racional: pois observei os atos da sua sabedoria e governança sem o corpo; e observei o corpo vazio de tudo isso ao se separar dela. E se ela fosse como as partes terrenas, não teria fala — assim como nada das esferas tem fala. E se segue necessariamente que a sua essência seja mais sutil, mais pura, mais límpida e mais simples do que a essência das esferas.

O segundo fundamento é a Escritura: pois as almas puras brilharão como a luz das esferas celestes proveniente das estrelas — como disse (Daniel 12:3): e os sábios resplandecerão como o brilho do firmamento. E as almas más não brilharão — são ainda mais inferiores do que o nível ordinário da esfera, como disse (Iyov 15:15): eis que Ele não confia nos Seus santos, e os céus não são puros aos Seus olhos; quanto mais o repugnante e o corrompido, o homem que bebe a injustiça como água.

E sei que as Escrituras compararam uns às esferas que brilham, e outros a algo abaixo das esferas comuns — e não assim fosse se a alma não fosse dessa espécie de essência. E estas duas analogias fortalecem o que disse o Sábio: a que sobe, sobe; a que desce, desce (Qohélet 3:21).

אַחַד מֵהֶם הַמֻּשְׂכָּל, וְהוּא כַּאֲשֶׁר רָאִיתִי מַעֲשֵׂה חָכְמָתָהּ וְהַנְהָגָתָהּ מִבִּלְתִּי הַגּוּף, וְרָאִיתִי הַגּוּף עָרוּם מִכָּל זֶה בְּהִפָּרְדָהּ מִמֶּנּוּ, וְאִלּוּ הָיְתָה כְמוֹ הַחֲלָקִים הָאַרְצִיִּים, לֹא הָיָה לָהּ דִּבּוּר כַּאֲשֶׁר אֵין לְמַאוּמָה מִן הַגַּלְגַּל, וְיִתְחַיֵּב שֶׁתִּהְיֶה עֶצֶם דַּק יוֹתֵר זַךְ וְנָקִי וּפָשׁוּט מֵעֶצֶם הַגַּלְגַּלִּים. וְהַשֵּׁנִי מִדִּבְרֵי הַסְּפָרִים, כִּי הַנְּפָשׁוֹת הַזַּכּוֹת תָּאֹרְנָה כְּהָאוֹר הַגַּלְגַּלִּים מֵהַכֹּכָבִים, וְהוּא אָמְרוֹ (דָּנִיֵּאל י"ב ג') וְהַמַּשְׂכִּלִים יַזְהִירוּ כְּזֹהַר הָרָקִיעַ. וְהַנְּפָשׁוֹת הָרָעוֹת לֹא תָאֹרְנָה אַךְ הֵן יוֹתֵר פְּחוּתוֹת מֵעִנְיַן הַגַּלְגַּל הַסְּתָם, כְּמ"ש (אִיּוֹב ט"ו ט"ו) הֵן בִּקְדֹשָׁיו לֹא יַאֲמִין וְשָׁמַיִם לֹא זַכּוּ בְּעֵינָיו אַף כִּי נִתְעָב וְנֶאֱלָח אִישׁ שֹׁתֶה כַמַּיִם עַוְלָה. וְיָדַעְתִּי כִּי הַסְּפָרִים לֹא דִמּוּ אֵלֶּה בַּגַּלְגַּלִּים הַמַּזְהִירִים, וְאֵלֶּה בְּפָחוֹת מֵהַגַּלְגַּלִּים סְתָם, אֶלָּא שֶׁהִיא מִכְּמוֹ זֶה הָעֶצֶם. וְאֵלֶּה שְׁנֵי הַדִּמְיוֹנִים מְחַזְּקִים מַה שֶּׁאָמַר הֶחָכָם, הָעֹלָה הִיא לְמַעְלָה הַיּוֹרֶדֶת הִיא לְמַטָּה.
Nota — Daniel 12:3 e Iyov 15:15. O argumento de Saadiá é elegante: se as almas fossem de substância terrena, não poderiam ser comparadas às esferas celestes (subir) nem a algo inferior a elas (descer). O próprio fato de a Escritura usar as esferas como medida de comparação prova que as almas são da mesma "espécie de essência" — só que em graus diferentes de pureza, conforme os atos da pessoa em vida.
3

E depois disso explica-me que o dizer do Sábio no fim do seu livro (Qohélet 12:7) e o espírito voltará a D'us que o deu — é prova e sinal da verdade da interpretação que interpresei em "quem sabe o espírito dos filhos do homem" (Qohélet 3:21).

E se insistir um insistente em que é dúvida do Sábio, conforme o que disse antes — pois o Sábio já voltou da sua dúvida inicial para a sua verdade no final, e disse: e o espírito voltará a D'us que o deu (Qohélet 12:7). E as suas palavras sobre o espírito do homem — como o seu dizer no capítulo: e sabe que por tudo isso D'us te trará ao juízo (Qohélet 11:9).

אַחַר כֵּן אוֹמֵר עַל דֶּרֶךְ דִּקְדּוּק הַחֲקִירָה, כִּי מַאֲמַר הֶחָכָם בְּאַחֲרִית סִפְרוֹ (קֹהֶלֶת י"ב ז') וְהָרוּחַ תָּשׁוּב אֶל הָאֱלֹהִים אֲשֶׁר נְתָנוֹ קִיּוּם וְאוֹת מוֹרֶה עַל אֲמִתַּת הַפֵּרוּשׁ אֲשֶׁר פֵּרַשְׁתִּי בוֹ, מִי יוֹדֵעַ רוּחַ בְּנֵי הָאָדָם. וְאִם יִתְעַקֵּשׁ מִתְעַקֵּשׁ שֶׁהוּא סָפֵק מִן הֶחָכָם כְּפִי מַאֲמָרִי עוֹד, כְּבָר שָׁב הֶחָכָם מִסְּפֵקוֹ בָּרִאשׁוֹנָה לַאֲמִתּוֹ בָּאַחֲרוֹנָה, וְאָמַר וְהָרוּחַ תָּשׁוּב אֶל הָאֱלֹהִים אֲשֶׁר נְתָנָהּ (שָׁם י"ב ז') וְדִבְרָיו בְּרוּחַ הָאָדָם, כְּאָמְרוֹ בַּפָּרָשָׁה וְדַע כִּי עַל כָּל אֵלֶּה יְבִיאֲךָ הָאֱלֹהִים בַּמִּשְׁפָּט. (שָׁם י"א ט')
4

E depois ficou-me claro que esta alma é sábia por si mesma — sob vários aspectos. Primeiro: não é possível que ela tenha adquirido a sabedoria do corpo, pois isso não é da natureza dele. Segundo: porque foi estabelecido que o cego vê no seu sonho como se estivesse vendo — e já que não adquiriu isso por causa do seu corpo, só o adquiriu por causa da sua alma. E errou aqui também quem imaginou a alma como a ligação dos sentidos e o seu entrelaçamento e encontro — mas é ela que dá a todos eles o sentido; como poderiam então eles lhe dar a essência? Isso seria o contrário das proposições e o contrário das verdades.

וְאַחַר כֵּן הִתְבָּאֵר לִי כִּי הַנֶּפֶשׁ הַזֹּאת חֲכָמָה לְעַצְמָהּ מִכַּמָּה פָּנִים. אֶחָד מֵהֶם כִּי לֹא יִתָּכֵן שֶׁקָּנְתָה הַחָכְמָה מִן הַגּוּף, כִּי אֵין זֶה מֵעִנְיָנוֹ. וְעוֹד בַּעֲבוּר מַה שֶּׁהִתְאַמֵּת, כִּי הַסּוּמָא רוֹאֶה בַּחֲלוֹמוֹ כְּאִלּוּ הוּא רוֹאֶה, וְכֵיוָן שֶׁלֹּא הִשִּׂיג זֶה מֵחֲמַת גּוּפוֹ, לֹא הִשִּׂיגוֹ כִּי אִם מֵחֲמַת נַפְשׁוֹ. וּבְזֶה טָעָה עוֹד מִי שֶׁחָשְׁבָהּ הִתְקַשֵּׁר הַחוּשִׁים וְהִסְתַּבְּכָם וְהַפְגָּשָׁם, וְהוּא שֶׁהִיא הִיא הַנּוֹתֶנֶת לְכוּלָּם הַחוּשׁ, וְאֵיךְ יִתְּנוּ לָהּ הֵם הָעֶצֶם? אַךְ אוֹמֵר זֶה הֵפֶךְ הַגְּזֵרוֹת וְהֵפֶךְ הָאֲמִתּוֹת.
Nota — o argumento do cego. Este é um dos argumentos mais originais de Saadiá: o cego de nascença nunca viu com os olhos do corpo — e ainda assim sonha com imagens visuais. De onde vêm essas imagens? Não do corpo (que nunca viu). Logo, da alma — que de si mesma é capaz de representação e sabedoria, independentemente dos sentidos físicos. É um argumento proto-fenomenológico: a experiência onírica prova a atividade autônoma da alma. Saadiá também rejeita a teoria epicurista/estoica de que a alma é apenas "o encontro dos sentidos": se a alma dá sentido aos sentidos, não pode ser por eles causada.
5

E depois ficou-me claro que ela não age senão com o corpo — pois o ato de toda criatura precisa de um instrumento. E quando se une ao corpo, aparecem nela três forças: a força do conhecimento, a força da ira e a força do desejo. Por isso a nossa língua a chamou com três nomes:

Chamou-a nefesh — para indicar que tem a força do desejo, como em (Devarim 12:20): quando tua alma desejar ki tava'é nafshechá; (Iyov 33:20): e a sua alma abomina o alimento.

Chamou-a ruach — para indicar que tem a força da ira, como em (Qohélet 7:9): não te apresses no teu espírito a irar-te; (Mishlei 29:11): todo o seu espírito o tolo exterioriza.

Chamou-a neshamá — para indicar que tem a força do conhecimento, como em (Iyov 32:8): e a respiração do Todo-Poderoso os faz entender; e o sopro de quem saiu de ti? (Iyov 26:4).

E neste assunto das forças errou quem a dividiu em dois partes — uma no coração e a outra no resto do corpo — mas as três são de uma só alma. E a língua acrescentou a isso outros dois nomes: chayá (חַיָּה) e yechidá (יְחִידָה). Chamou-a chayá porque ela sustenta-se pelo poder do seu Criador; e yechidá porque não tem semelhante na terra.

וְאַחַר כֵּן הִתְבָּאֵר לִי כִּי הִיא לֹא תִפְעַל אֶלָּא בְּכֹחַ, כִּי פֹּעַל כָּל נִבְרָא צָרִיךְ אֶל כְּלִי מֵהַכֵּלִים. וְכַאֲשֶׁר תִּתְחַבֵּר לַגּוּף יֵרָאוּ לָהּ ג' כֹּחוֹת, כֹּחַ הַהַכָּרָה, וְכֹחַ הַכַּעַס, וְכֹחַ הַתַּאֲוָה. וְעַל כֵּן קְרָאָהּ לְשׁוֹנֵנוּ בִּשְׁלֹשָׁה שֵׁמוֹת, נֶפֶשׁ, וְרוּחַ, וּנְשָׁמָה. וְרָמְזָהּ בְּאָמְרָהּ נֶפֶשׁ אֶל שֶׁיֵּשׁ לָהּ כֹּחַ מִתְאַוֶּה, כְּאָמְרְךָ (דְּבָ' י"ב כ') כִּי תְאַוֶּה נַפְשְׁךָ, (אִיּוֹב ל"ג כ') וְנַפְשׁוֹ מַאֲכָל תַּאֲוֶה. וְרָמְזָהּ בְּשֵׁם רוּחַ אֶל שֶׁיֵּשׁ לָהּ כֹּחַ כּוֹעֵס, כְּאָמְרְךָ (קֹהֶ' ז' ט') אַשֶּׁר תְּבַהֵל בְּרוּחֲךָ לִכְעוֹס, (מִשְׁ' כ"ט יא) כָּל רוּחוֹ יוֹצִיא כְסִיל. וְרָמְזָהּ בְּשֵׁם נְשָׁמָה אֶל שֶׁיֵּשׁ לָהּ כֹּחַ מַדָּעִי, כְּאָמְרְךָ (אִיּוֹב ל"ב ח') וְנִשְׁמַת שַׁדַּי תְּבִינֵם, וְנִשְׁמַת מִי יָצְאָה מִמֶּךָּ (שָׁם כ"ו ד'). וּבְעִנְיַן אֵלֶּה הַכֹּחוֹת טָעָה מִי שֶׁשָּׂמָהּ שְׁנֵי חֲלָקִים. אֶחָד מֵהֶם בַּלֵּב, וְהָאַחֵר בִּשְׁאָר הַגּוּף, אַךְ הַשְּׁלֹשָׁה לְנֶפֶשׁ אַחַת, וְחִבְּרָה הַלָּשׁוֹן לָזֶה שְׁנֵי שֵׁמוֹת אֲחֵרִים, חַיָּה, וִיחִידָה, וּקְרָאָהּ חַיָּה, בַּעֲבוּר שֶׁהִיא עוֹמֶדֶת בְּהַעֲמָדַת בּוֹרְאָהּ לָהּ, אֲבָל יְחִידָה, מִפְּנֵי שֶׁאֵין לָהּ דוֹמֶה בָּאָרֶץ.
Nota — os cinco nomes da alma. A tradição cabalística posterior herdou esses cinco nomes de Saadiá (e de fontes midrásicas anteriores): nefesh, ruach, neshamá, chayá, yechidá. Saadiá, porém, os interpreta de forma puramente racional: os três primeiros representam as três faculdades funcionais de uma só alma; os dois últimos indicam dois atributos ontológicos (dependência do Criador e singularidade). Não são "cinco almas" nem "cinco níveis" de uma alma estratificada — são cinco ângulos de linguagem para descrever a mesma realidade.
6

E depois ficou-me claro que a sua morada no corpo humano é no coração. Pois é evidente que os tendões que dão ao corpo o sentido e o movimento — todos brotam do coração. E embora eu encontre que os grandes ramos nervosos não saem do coração mas brotam do cérebro — sei que esses ramos não são para a alma, mas são cordas e ligamentos para o corpo.

E por isso a Escritura sempre une o coração e a alma, como em (Devarim 11:13): com todo o vosso coração e com toda a vossa alma; (Devarim 6:5): com todo o teu coração e com toda a tua alma — e expressões semelhantes.

וְאַחַר כֵּן הִתְבָּאֵר לִי כִּי מִשְׁכָּנָהּ בַּלֵּב מִבְּנֵי אָדָם, וְכַאֲשֶׁר הוּא גָלוּי כִּי הַגִּידִים אֲשֶׁר נוֹתְנִים לַגּוּף הַחוּשׁ וְהַתְּנוּעָה, צְמִיחָתָם כֻּלָּם מִן הַלֵּב. וְעִם שֶׁאֲנִי מוֹצֵא הַסְּעִיפִים הַגְּדוֹלִים אֵין מוֹצָאָם מִן הַלֵּב, אַךְ צְמִיחָתָם מִן הַמֹּחַ, וְיָדַעְתִּי כִּי הַסְּעִיפִים הָהֵם אֵינָם לַנֶּפֶשׁ, אֲבָל הֵמָּה מֵיתָרִים לַגּוּף וּקְשָׁרִים. וְלָזֶה מְחַבֵּר הַכְּתָב תָּמִיד הַלֵּב וְהַנֶּפֶשׁ, כְּאָמְרוֹ (דְּבָ' י"א י"ג) בְּכָל לְבַבְכֶם וּבְכָל נַפְשְׁכֶם, בְּכָל לְבָבְךָ וּבְכָל נַפְשְׁךָ (שָׁם ו' ה'), וְהַדּוֹמֶה לָזֶה.
Nota — coração e cérebro na medicina medieval. Saadiá segue a anatomia galênica medieval, que via o coração como sede principal da vida e dos sentidos. Ele nota porém uma dificuldade: os grandes nervos saem do cérebro, não do coração. A sua solução é elegante: esses ramos são para o corpo (movimento físico), não para a alma; a alma habita no coração, que é de onde emanam as funções vitais mais íntimas. A Escritura confirma: sempre "coração E alma" juntos. A exegese funciona como argumento de convergência: anatomia medieval + linguagem bíblica apontam para o mesmo lugar.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A alma como substância positiva

Os dois capítulos anteriores refutaram as teorias falsas (cap. 1) e explicaram o verso de Qohélet como elogio, não dúvida (cap. 2). Este capítulo faz a virada: Saadiá não se limita a dizer o que a alma não é — ele propõe o que ela é. É uma substância criada, mais sutil que as esferas celestes, capaz de fala e pensamento. É uma das contribuições mais originais de Saadiá à filosofia medieval: a alma como substância imaterial criada — nem eterna (como nas doutrinas platônicas), nem meramente material.

Os três nomes como sistema psicológico

A análise dos três nomes — nefesh / ruach / neshamá — é ao mesmo tempo exegese linguística e psicologia filosófica. Saadiá prova exegeticamente que cada nome bíblico corresponde a uma faculdade distinta: desejo, ira, conhecimento. E ao fazê-lo, propõe que o hebraico bíblico já continha uma psicologia tripartite avant la lettre, antes de Platão, antes de Aristóteles. A língua sagrada antecipou a análise racional.

O argumento do cego: a alma que vê sem olhos

O argumento do cego de nascença que vê em sonho é um dos mais agudos de todo o Emunot veDeot. Ele antecipa debates que a filosofia ocidental levará séculos a formular: como pode haver representação mental sem percepção sensorial? A resposta de Saadiá é que a alma tem capacidade cognitiva própria, independente dos sentidos. Isso também refuta as teorias materialistas que reduzem a alma a "a convergência dos sentidos": se a alma dá sentido aos sentidos, ela não pode derivar deles.

A localização no coração

A ideia de que a alma habita no coração é bíblica (Devarim 6:5 e 11:13 unem sempre "lev" e "nefesh") e anatômica (medicina galênica). Saadiá nota a tensão: os grandes nervos saem do cérebro. Sua solução — esses nervos são para o corpo, não para a alma — revela um método filosófico: quando a exegese e a observação apontam para direções distintas, distinguem-se as funções. O coração ainda é a sede da alma; o cérebro serve o corpo.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VI (A alma e a morte), cap. 3, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). Cotejo com a tradução inglesa de Samuel Rosenblatt (Friedlander 1916 ref.) para fidelidade ao sentido. A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

As citações bíblicas remetem a: Zecaryá 12:1; Yirmeyahu 38:16; Daniel 12:3; Iyov 15:15; Qohélet 12:7; 11:9; Devarim 12:20; 6:5; 11:13; Iyov 33:20; 26:4; Qohélet 7:9; Mishlei 29:11; Iyov 32:8. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VI · A alma e a morte · cap. 4

Por que a Alma Nobre Habita um Corpo Vil

לָמָּה שָׁכְנָה הַנֶּפֶשׁ הַנִּכְבֶּדֶת בְּגוּף פָּחוּת — צִדְקוֹ שֶׁל הַבּוֹרֵא

Alguns perguntam: por que o Criador pôs uma alma tão pura — mais sutil que as esferas celestes — num corpo tão vil? Não seria isso fazer-lhe mal? Saadiá responde com a sua teodiceia racionalista: D'us jamais prejudica uma criatura; a união com o corpo é, ao contrário, o que permite à alma alcançar o serviço, o deleite e a vida eterna — e o mundo é o cadinho em que ela é provada como ouro no fogo.

1

E visto que antepus estas doutrinas, digo: encontrei alguns homens que perguntam — qual o aspecto da sabedoria com que o Criador, bendito seja, pôs esta alma nobre, que é mais pura do que a esfera celeste, neste corpo vil? E disseram no seu coração que com isso D'us lhe fez mal. E impus-me a obrigação de me deter neste ponto e explicá-lo bem.

וכיון שהקדמתי אלה המאמרים, אומר כי מצאתי קצת בני אדם אומרים, מה אופני החכמה ששם הבורא יתברך זאת הנפש הנכבדת, אשר הוא יותר זכה מן הגלגל, בגוף הפחות הזה? ואמרו בלבם, כי הרע אליה. והתחייבתי שאתעכב במקום הזה, ואבארהו באר היטב.
2

E anteponho, no início do meu discurso, que o Criador, bendito seja — cujo assunto descrevemos no que precedeu —, é da máxima falsidade dizer-se d'Ele que faz mal a uma criatura ou que comete injustiça contra ela: porque todos os acidentes se afastam d'Ele; e ainda, porque todos os Seus atos são retos e bons; e ainda, porque não criou as criaturas senão para as beneficiar, não para as prejudicar.

Estas doutrinas são do gênero cujo resumo é esta exposição; e depois ligarei a elas algumas doutrinas particulares. E digo: a injustiça não tem senão três causas, sem que haja uma quarta — e as três estão afastadas do Criador, bendito seja. A primeira: que o injusto cometa injustiça por temor daquele contra quem é injusto. A segunda: a sua cobiça por algo que dele lhe advenha. A terceira: a sua ignorância da verdade. E o Criador, de quem não se diz que tema, nem que cobice, nem que ignore coisa alguma dos saberes — já se afastaram d'Ele todas as causas da injustiça.

E depois olhei nos Livros sagrados e achei-os a defender a Sua justiça por estas três vias, que é o que disse o piedoso (Iyov 34:19): “que não faz acepção dos príncipes, nem distingue o nobre diante do pobre, pois todos são obra das Suas mãos”. “Que não faz acepção dos príncipes” — alude à porta do temor; “nem distingue o nobre diante do pobre” — alude à porta da cobiça; e “pois todos são obra das Suas mãos” — alude à porta do saber, porquanto Ele conhece as Suas criaturas, e tanto mais os seus atos e o que lhes é devido.

ואקדם בתחלת מאמרי, כי הבורא יתברך אשר ספרנו ענינו במה שקדם, מתכלית השקר שיאמר עליו שהוא מריע על נברא או שיעול עליו, מפני שכל המקרים מסתלקים מעליו. ועוד כי פעליו כלם ישרים וטובים, ועוד כי לא ברא הבריאות כי אם להועילם, לא להזיקם. אלה המאמרים מכלל שסכומו ספור, ואחר כן אחבר אליהם מן המאמרים החלקיים הפרטיים, ואומר כי העוול אין לו כי אם שלש סבות אין להם רביעית, ושלשתם מרוחקות מן הבורא יתברך. ותחלתם שיעול המעול מיראתו ממי שיעול עליו, והשנית חמדתו דבר שיגיעהו ממנו, והשלישית מסכלותו בענין האמת. והבורא אשר לא יאמר עליו שיירא, ולא שיחמוד, ולא שיסכל מאומה מן המדעים, כבר הסתלקו מעליו הסבות כלם. ואחר כן הסתכלתי בספרים ומצאתים טוענין לצדקו באלה השלש, והוא מה שאמר החסיד (איוב ל"ד י"ט) אשר לא נשא פני שרים ולא נכר שוע לפני דל כי מעשה ידיו כלם. אשר לא נשא פני שרים, רומז בו אל שער היראה, ולא נכר שוע לפני דל, רמז בו אל שער החמדה. ואמרו כי מעשה ידיו כלם, רמז בו אל שעד המדע, מפני שהוא יודע את ברואיו, וכל שכן שידע מעשיהם ומה שיתחייב להם ועליהם.
3

E, visto que pus esta justiça por raiz, toda questão que os homens perguntem a respeito da alma convém que eu a remeta a esta raiz e a faça assentar sobre ela. E digo: porquanto a alma, no seu ser, não era atuante sozinha, daí decorreu a necessidade da sua união a algo pelo qual ela chegasse ao estado atuante, e chegasse ao deleite perpétuo e ao êxito completo, como explicamos no Tratado Quinto. Pois os serviços a D'us acrescentam luz à sua essência, e as transgressões obscurecem a sua essência e a enegrecem — como contam os Livros (Tehillim 97:11): “luz é semeada para o justo, e alegria para os retos de coração”; e ainda “a luz dos justos alegra” (Mishlei 13:9).

וכיון ששמתי הצדק הזה שרש לו, כל שאלה שישאלו בה בני אדם בענין הנפש, ראוי שאשיבנ' אל זה השרש ואשיאנה עליו. ואומר בעבו' שהית' בלתי פועלת לבדה בבנינ', התחייב חבורה אל דבר תגיע בו אל הפועלי', ותגיע אל הנעם המתמיד, ואל ההצלחה הגמורה, כאשר בארנו במאמ' החמישי. כי העבודות יוסיפו בעצמה אור, והעונות מקדירים עצמה ומשחירים אות', כאשר מספרים הספרים (תהלי' צ"ז י"א) אור זרוע לצדיק ולישרי לב שמחה. ועוד אור צדיקים ישמח (משלי י"ג ט').
Nota — as três causas da injustiça A teodiceia de Saadiá é rigorosamente racional: a injustiça pressupõe sempre medo, cobiça ou ignorância — e nenhuma das três pode aplicar-se a D'us (que nada teme, nada cobiça e tudo sabe). Logo, é impossível, por definição, que Ele cometa injustiça contra uma criatura. Saadiá ancora a tríade no versículo de Iyov 34:19 (palavras de Elihu), lendo-o como mapa exato das três "portas" fechadas a D'us. É o mesmo método do Tratado V: deduzir os atributos divinos pela negação das imperfeições.
4

E quem prova isto é a Rocha dos mundos, Ele que conhece todos os atos. E os Livros compararam isto à fundição, pelo fogo, do ouro e da prata — em que se torna clara a verdade da sua essência: o ouro e a prata verdadeiros, que são a raiz, permanecem; e o que neles estava agregado dos demais metais, parte se queima e parte se evola — como está dito (Mishlei 27:21): “o crisol para a prata e o forno para o ouro, e assim se prova o homem segundo o seu louvor”; e ainda (Zecharyá 13:9): “e refiná-los-ei como se refina a prata, e prová-los-ei como se prova o ouro”.

E as almas puras e purificadas, que se salvaram, serão honradas e estimadas, como está dito (Iyov 23:10): “pois Ele conhece o caminho que está comigo; ao provar-me, sairei como o ouro”. E as que se assemelham à escória e às falsificações, por elas serão rebaixadas e diminuídas, como está dito (Yirmeyahu 6:30): “em vão refinou o refinador, pois os maus não se separaram; prata rejeitada lhes chamaram”.

והבוחן זה הוא צור העולמים, והוא שהוא יודע כל מעשים, ודמו זה הספרים לצריפת האש הזהב והכסף, ויתבאר בה אמתת עצמם, והזהב והכסף השרשיים יעמדו, והנתלה בהם משאר המתכות, קצתם ישרף וקצם יעוף, כמ"ש (משלי כ"ז כ"א) מצרף לכסף וכור לזהב ואיש לפי מהללו. ועוד (זכריה י״ג:ט׳ ח') וצרפתים כצרוף את הכסף ובחנתים כבחון את הזהב. והנפשות הזכות המזוקקות אשר נצלו, תוקרנה ותכובדנה, כמ"ש (איוב כ"ג י') כי ידע דרך עמדי בהנני כזהב אצא. והדומות לסיגים ולזיופים בהם תרדנה ותפחתנה, כמו שנאמר (ירמיה ו' ל"ט) לשוא צרף צרוף ורעים לו נתקו כסף נמאס קראו להם.
5

E com isto digo: as almas que se mancharam, enquanto ainda estão no corpo, é possível que se arrependam, se purifiquem e se limpem — e por isso a teshuvá (o arrependimento) é aceita enquanto o homem está vivo; mas, quando a alma sai do corpo, não lhe é possível limpar-se daquilo de que se aproximou, e não há para ela esperança alguma disso, como disse (Mishlei 11:7): “na morte do homem ímpio perece a esperança”.

ועם זה אומר כי המגואלו' מהם בעודם בגוף, אפשר לחם תשובנה ותזכנה ותנקינ' ועל כן התשובה מקובלת בעוד האדם חי, וכאשר תצא ממנה לא יתכן לה להנקות ממה שנתקרב בה, ולא תקוה לה מאומה מזה, כאשר אמר (משלי י"א ז') במות אדם רשע תאבד תקוה.
Nota — o refino das almas A imagem dominante do capítulo é metalúrgica: o mundo é o cadinho onde a alma é provada como ouro no fogo. As impurezas (transgressões) queimam-se; o metal verdadeiro (a alma reta) permanece e brilha. Saadiá reúne quatro versículos da mesma família — Mishlei 27:21, Zecharyá 13:9, Iyov 23:10 e Yirmeyahu 6:30 — para mostrar que o sofrimento e o serviço não são "mal" feito à alma, mas o próprio processo que a purifica e a eleva.
6

E a quem disser que o bem para ela teria sido que D'us a deixasse separada sem corpo, a fim de descansar das culpas, das máculas e dos sofrimentos — eu lhe explicarei e revelarei que, se a separação fosse um bem, o seu Criador não lhe teria feito isto a união; e, além disso, pelo que conhecemos: se a tivesse deixado separada, ela não chegaria a deleite, nem a êxito, nem a vida perpétua — pois o seu alcançar tudo isso não se dá senão pelo serviço do seu Criador; e isso não lhe é possível, pela lei da sua constituição, exercer o serviço senão com um corpo, porquanto com ele realiza todo ato — assim como o fogo não pode manifestar-se senão ao ligar-se a algo, e como outras coisas parciais, em que nenhum ato de uma se completa senão sobre a outra.

E, se a alma permanecesse sozinha, não realizaria coisa alguma — e muito menos o corpo realizaria coisa alguma. E, se ambos estivessem despidos de atos, não haveria sentido na sua criação; e, se não houvesse sentido na sua criação, anular-se-ia, por consequência, a criação dos céus e da terra e do que há entre eles — pois tudo não foi criado senão por causa do homem, como dissemos no início do Tratado Terceiro: que D'us “estende os céus e funda a terra” por causa de “Ele forma o espírito do homem dentro dele” (Zecharyá 12:1); e como consta na obra da Criação, de que tudo foi por causa de “façamos o homem”.

ומי שיאמר כי הטוב לה היה אלו הניחה נפרדת ותנוח מן האשמות והגאולים והיסורים, אני אבאר לו ואגלה לו כי הפרידה אלו היתה טובה לא היה עושה זה לה בוראה, ואחר כן ממה שידענוהו, כי אלו היה מניחה נפרדת, לא היתה מגעת אל נעם ולא אל הצלחה ולא אל חיים מתמידים, כי הגעתה אל כל אלה איננה כי אם בעבודת בוראה, ואי אפשר לה על חק הבניה אל העבודה כי אם בגוף, מפני שעמו פועלת כל פעל, כמו שהאש אי אפשר לה להראות כי אם בהתלותה בדבר, ודברים אחרים מן החלקיים לא יתום פעל אחד מהם כי אם על האחר, ואלו נשארה הנפש לבדה, לא היתה פועלת דבר כל שכן שהגוף לא היה פועל דבר. ואם יהיו שניהם ערומים מן המעשים, לא היה לבריאתם ענין, ואם לא יהיה לבריאתם ענין, יבטל על בטולו בריאת השמים והארץ ומה שיש ביניהם, כי הכל לא נברא כי אם בעבור האדם, כאשר אמרנו בתחלת המאמר הג' כאשר קדם הנה, נוטה שמים ויוסד ארץ, בעבור ויוצר רוח אדם בקרבו (זכרי' י"ב א'), וכאשר יש במעשה בראשית, כי הכל בעבור נעשה אדם.
7

E, se disser: que D'us a deixe no seu estado, separada, e lhe dê força para agir, até que por ela chegue ao que Ele lhe quis — diremos que o Seu empenho nisto seria como o primeiro empenho que mencionámos a respeito do corpo do homem, a saber, o de querer que fosse como a essência das estrelas e dos anjos; e responderemos que com isso se empenharia em fazer que a alma fosse não-alma, e o homem fosse não-homem — porque a alma intelectiva é a que não atua senão com o corpo do homem; se atuasse não com o corpo do homem, então seria uma estrela, ou uma esfera, ou um anjo, e, seja qual for a coisa que fosse, já se teria anulado a sua verdade (essência).

E quem pede tal buscou anulá-la com uma linguagem que não é a da anulação — e isto é como quem busca que o fogo desça para baixo e a água suba para cima por natureza, o que é a anulação do seu modo de ser; ou como quem busca que o fogo esfrie e a neve aqueça, o que é a anulação das suas essências. E quem busca isto faz violência à sabedoria — pois a sabedoria consiste em serem as coisas segundo as suas verdades conhecidas, e não em serem as coisas conforme a matéria cobiça e o desejoso deseja. E, como disse a Escritura (Yeshayahu 45:9): “Ai daquele que contende com o seu Formador etc.; dirá o barro ao seu oleiro: que fazes?”.

Mas o aderir das transgressões a ela à alma, que D'us afastou de Si, dá-se pela má escolha dela, quando se rebela contra aquilo que o seu Criador intentou nela — como disse (Kohelet 7:29): “vê, só isto achei: que D'us fez o homem reto, mas eles buscaram muitos artifícios”.

ואם יאמר יניחנה על ענינה נפרדת, ויתן לה כח לעשות עד שתגיע בו אל מה שרצה לה, נאמר כי השתדלותו בזה כהשתדלו' הראשונה אשר זכרנוה בגשם האדם, שיהיה כמו עצם הככבים והמלאכים, ונשיב כי הוא השתדל שתהיה הנפש לא נפש, והאדם לא אדם, מפני שהנפש המשכלת אשר לא תפעל כי אם עם גשם האדם. אם תהיה פועלת לא בגשם האדם, היא כוכב או גלגל או מלאך, ועל אי ה דבר שיהיה, כבר בטלה אמתתה, והוא אם כן בקש לבטלה בלשון בלתי לשון הבטול, והוא כמו שבקש שתהיה האש יורדת למטה, והמים עולים למעלה בטבע, אשר זה בטול ענינם, או בקש שתהיה האש מקררת, והשלג מחמם, אשר הוא בטול עצמיהם. ומבקש זה, חומס החכמה, כי החכמה היות הדברים על אמתותם הידועות, ואין החכמה שיהיו הדברי' כאשר יחמוד החומר ויתאוה המתאוה. וכאשר אמר הכתוב (ישעי' מ"ה ט') הוי רב את יוצרו וגו'. היאמר חמר ליוצרו מה תעשה וגו': אבל הדבק העונות בה אשר הרחיק, זה יהיה ברוע בחירתה כשהיא ממרה מה שכיון בה בוראה, וכאשר אמר (קהלת ז' כ"ט) לבד ראה זה מצאתי אשר עשה האלהים אלת האדם ישר והמה בקשו חשבונות רבים.
Nota — “fazer a alma ser não-alma” Aqui está o coração filosófico do capítulo. Pedir que a alma alcance a sua perfeição sem um corpo é pedir que ela seja outra coisa que não uma alma humana — um anjo, uma estrela. Mas então já não seria ela. Saadiá compara isso a exigir que o fogo desça, a água suba, o fogo esfrie ou a neve aqueça: é "anular a essência com uma linguagem que não é a da anulação". A sabedoria, conclui ele, é "que as coisas sejam segundo as suas verdades" — não conforme o desejo as quisesse (Yeshayahu 45:9, o barro e o oleiro).
8

E quanto a Ele ter afastado da alma as máculas e a impureza, dizemos: o conjunto do corpo do homem não tem nele coisa impura, mas é puro; pois a impureza não é coisa percebida pelos sentidos, nem o que o intelecto exija, mas algo que a Torá impôs; e a Torá não declarou impuros alguns humores (fluidos) dos homens senão depois de se separarem deles — pois, enquanto estão neles, não os torna impuros. A não ser que o objetor nos responda dizendo esta coisa com base em leis estrangeiras, de si mesmo, e as imponha — e nós não as aceitaremos dele.

E os sofrimentos que mencionou não escapam de uma de duas categorias: ou que a alma os adquiriu ao sair (agir) em tempo de trevas, ou em tempo de calor, ou em tempo de frio — e então o pecado é dela, não de D'us, pois Ele já pôs nela um intelecto que a ordena a guardar-se desses acidentes, e ela o desobedeceu, como disse (Mishlei 27:12): “o prudente vê o mal e esconde-se, mas os simples passam adiante e são punidos”; ou então os sofrimentos foram D'us que lhos enviou — e isto pela Sua justiça e pela Sua misericórdia: não os trouxe sobre ela senão a título de disciplina (mussar), para a recompensar, em troca deles, com o bem, como disse (Devarim 8:16): “e para te provar, para te fazer bem no teu fim”; e disse ainda: “feliz o homem a quem Tu, ó D'us, disciplinas... para lhe dar sossego nos dias maus” (Tehillim 94:12-13).

ומה הרחיקו מן הגאולים והטומא', נאמר כי כלל גוף האדם אין בו דבר טמא אך הוא טהור, כי הטומאה איננה דבר מוחש ולא מה שיחייבהו השכל, אבל התחייב בתור', והתור' לא טמאה קצת לחות בני אדם, כי אם אחרי הפרד' מהם לא טמאתם והם בהם. אלא אם ישיב לנו אומר הדבר הזה תורות נכריו' מעצמו, ויחייבו בהם ואנחנו לא נקבלם ממנו. והיסורים אשר זכרם אינם נמלטים מאחת משתי מעלות, שיהיו היסורין קנתה אותם היא בצאתה בעת החשך ובעת החום ובעת הקור, החטא לה, לא לאלהים, כי הוא כבר נתן בה שכל שמצוה אותה להשמר מאלו המקרים והמרתו, כאשר אמר (משלי כ"ז י"ב) ערום ראה רעה ונסתר ופתאי' עברו ונענשו. ואם היסורי' חדשם עליה אלהים, הוא לצדקו ולרחמיו, לא הביאם עליה אלא על דרך מוסר, לגמלה תמורתם טובה, כאשר אמר (דברים ח' ט"ז) ולמען נסותך להטיבך באחריתך. ואמר עוד אשרי הגבר אשר תיסרנו יה וגו' להשקיט לו מימי רק וגו' (תהלים צ"ד י"ב):

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A teodiceia de Saadiá: D'us nunca faz mal

O capítulo é um dos pontos altos da filosofia moral do Emunot veDeot. Em vez de apelar ao mistério, Saadiá demonstra que D'us não pode cometer injustiça: toda injustiça nasce de medo, cobiça ou ignorância, e nenhuma dessas três cabe no Criador. A pergunta "por que a alma num corpo vil?" deixa, assim, de ser uma acusação e torna-se um convite a entender o propósito.

A união alma-corpo é um bem, não um castigo

A resposta positiva é que a alma, por natureza, não age sozinha — precisa do corpo como instrumento, "assim como o fogo só se manifesta ao ligar-se a algo". Sem o corpo, a alma não alcançaria nem serviço, nem deleite, nem vida eterna; e a própria criação do mundo (feito "por causa do homem") perderia o sentido. Pedir uma alma que se aperfeiçoe sem corpo é pedir que ela seja outra coisa — não uma alma. A perfeição vem pelo refino, e o refino exige a matéria.

O corpo não é impuro; o sofrimento é disciplina

Saadiá fecha com dois esclarecimentos racionalistas notáveis. Primeiro: o corpo humano não é intrinsecamente impuro — a impureza (tumá) não é um dado dos sentidos nem uma exigência da razão, mas um decreto da Torá, que só se aplica a certos fluidos depois de separados do corpo. Segundo: os sofrimentos ou são autoinfligidos (e então a culpa é da má escolha humana, que tinha o intelecto para se precaver), ou são enviados por D'us como mussar — disciplina amorosa que visa o bem futuro, "para te fazer bem no teu fim".

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VI (A alma e a morte), cap. 4, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações bíblicas: Iyov 34:19; 23:10; Tehillim 97:11; 94:12-13; Mishlei 13:9; 27:21; 27:12; 11:7; Zecharyá 13:9; 12:1; Yirmeyahu 6:30; Yeshayahu 45:9; Kohelet 7:29; Devarim 8:16. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VI · A alma e a morte · cap. 5

A Alma e o Corpo São Um Só Agente

הַנֶּפֶשׁ וְהַגּוּף פֹּעַל אֶחָד — דִּין אֶחָד

A alma e o corpo formam um só agente — e por isso recebem um só juízo. Saadiá refuta os que localizam a recompensa só na alma, só no corpo, ou só nos ossos (Binyamin), mostrando que o erro vem de não conhecer a regra da língua: nomear uma parte significa o todo. E sela com o mashal do coxo e do cego.

1

E depois explicarei que a alma e o corpo, juntos, são um só agente, como foi no princípio da formação (Bereshit 2:7): “e o Senhor D'us formou o homem do pó da terra, e soprou nas suas narinas um sopro de vida”. E assim ambos recebem uma só recompensa e um só castigo. E é nisto que encontras a maioria dos homens confusos nesta matéria: alguns pensam que a recompensa e o castigo são só para a alma; alguns pensam que são só sobre o corpo; e alguns atribuíram-nos só aos ossos — e este é Binyamin.

ואחר כן אבאר, כי הנפש והגוף יחדיו פעל א', כאשר קדם בתחלת היצירה, (בראשית ב' ז') וייצר יי' אלהים את האדם עפר מן האדמה ויפח בפניו נשמת חיים. וכן המה שניהם גמול אחד ועונש א' וזה אשר תמצא רוב בני אדם נבוכים בשער הזה, קצתם חושב כי הגמול והענש הם לנפש בלבד, וקצתם חושב שהם על הגוף בלבד, וקצתם סברם על העצמות בלבד, והוא בנימן.
2

E o que a todos fez errar foi a sua escassa familiaridade com a língua. Pois aquele que, dentre eles, encontra a língua a dizer “alma (nefesh) que pecar”, “alma que cometer transgressão” (Vayikra 4:2; 5:15), “a alma que pecar, essa morrerá” (Yechezkel 18:4) — supôs que os atos pertencem à alma somente; e não reparou que a mesma língua diz “e a alma (nefesh) que tocar em qualquer coisa impura” (Vayikra 7:21), “e a alma que comer carne” (Vayikra 7:20) — e isso não é senão o corpo.

והטעה את כלם מעוט' ידיעת' בלשון, והוא כי מי שימצא מהם הלשון אומרת (ויקרא ד' ב') נפש כי תחטא, נפש כי תמעל מעל. (שם ה' ט"ו) הנפש החוטאת היא תמות (יחזקאל י"ח ד'), השב כי הפעלים לנפש בלבד, ולא התבונן שהיא אומרת ונפש כי תגע בכל דבר טמא (ויקרא ז' כ"א), והנפש אשר תאכל בשר (שם כ'), ואיננו כי אם הגוף.
3

E depois outro viu a língua a dizer “e será que, de mês em mês etc., virá toda a carne a prostrar-se diante de Mim” (Yeshayahu 66:23), “e toda a carne bendirá o Seu santo Nome” (Tehillim 145:21), e semelhantes — e pensou que os atos pertencem ao corpo; e não reparou no que está implícito com eles: que a fala e a expressão são da alma. E Binyamin encontrou “e as suas iniquidades estão sobre os seus ossos” (Yechezkel 32:27), e ainda “todos os meus ossos dirão etc.” (Tehillim 35:10), e pensou que o apoio recai sobre os ossos.

ואחר ראה הלשון אומרת, והיה מדי חדש בחדשו וגו' יבא כל בשר להשתחוות לפני (ישעיה ס"ו כ"ג). ויברך כל בשר שם קדשו (תהלים קמ"ה כ"א) והדומה לזה, וחשב: כי המעשים לגוף, ולא התבונן מה שיש עמם, כי הדבור והמליצה הם לנפש, ובנימן מצא, ותהי עונותם על עצמותם (יחזקאל ל"ב כ"ז). ועוד כל עצמותי תאמרנה וגו' (תהלים ל"ה י'), וחשב כי הסמיכה על העצמות.
Nota — o erro de localizar a recompensa, e a crítica a Binyamin “Binyamin” é Binyamin al-Nahawandi, um dos grandes mestres caraítas (séc. IX), que Saadiá refuta com frequência. Aqui ele teria localizado a recompensa e o castigo nos ossos, apoiado em versículos como “as suas iniquidades sobre os seus ossos” (Yechezkel 32:27) e “todos os meus ossos dirão” (Tehillim 35:10). Saadiá responde com um princípio metodológico afiado: interpretar a Torá não é fazer anatomia — e “ó Senhor, quem é como Tu?” (a continuação de Tehillim 35:10) jamais poderia ser dito por ossos. O verso usa "ossos" como sinédoque do ser inteiro.
4

E eu digo: no livro da anatomia explica-se que o corpo do homem são os ossos, a carne, os nervos e os tendões — que servem e guardam. Só que eu sei que ele Binyamin não disse isto por esse caminho, dada a sua escassa ciência — pois no estudo da anatomia há um intento de ofício, e um caminho diverso do de outro ofício; e o ofício de interpretar a Torá não é, de modo algum, o ofício da anatomia. Mas ele não reparou que o dizer “ó Senhor, quem é como Tu?” (Tehillim 35:10) não pode estar nos ossos. E não lhe bastou isto, mas ajuntou-lhe o argumento de que o corpo de Saul e dos seus filhos foi queimado pelos homens de Yavesh-Guilad, como está dito (I Shmuel 31:12): “e vieram a Yavesh e os queimaram ali”.

ואני אומר שבספר החתוך, כי גוית האדם הם העצמות והבשר והגידין והמיתרים, משמשים ושומרים. אלא שאני יודע, כי הוא לא אמר זה על הדרך הזאת בעבור מעוט ידיעתו, כי למלאכה כונה, ודרך זולת דרך מלאכה אחרת: ואין מלאכת התורה ממלאכת החתוך בשום פנים, אבל לא התבונן, כי מאמר יי' מי כמוך, לא יהיה בעצמות. ולא די לו זה, עד שחבר אליו כי גופת שאול ובניו שרפום אנשי יבש גלעד, כמו שאמר (ש"א נל"א י"ב) ויבאו יבשה וישרפו אותם שם.
5

E que só os seus ossos foram sepultados, como está dito (ali, v. 13): “e tomaram os seus ossos e sepultaram-nos debaixo da tamargueira, em Yavesh”. Ora, eis que tu vês que, quando se disse (Shemot 13:19) “e Moshé tomou os ossos de Yosef” — quem queimou o seu corpo? E ainda, quem queimou o corpo do homem de D'us que veio de Yehudá, quando ele diz, junto aos seus ossos, “depositai os meus ossos junto aos dele” (I Melachim 13:31)? Mas o dizer “e os queimaram ali” significa “e fizeram queima de aromas sobre eles” — como se disse (Yirmeyahu 34:5): “e nas queimas de teus pais, os reis primeiros, assim farão queima por ti”; e como a expressão “e o seu pai o chorou” (Bereshit 37:35), que está no lugar de “chorou por ele”.

ושעצמותם לבדם נקברו, כמו שאמר (שם י"ג) ויקחו את עצמותיהם ויקברו אותם תחת האשל ביבשה. והנה אתה רואה כשאמר (שמות י"ג י"ט) ויקח משה את עצמות יוסף. מי שרף גויתו? ועוד מי שרף גוית איש האלהים אשר בא מיהודה? כשהוא אומר אצל עצמותיו הניחו את עצמותי (מ"א י"ג ל"א). אך אמרו וישרפו אותם שם כמו וישרפו עליהם, כאשר אמר לשם (ירמיה ל"ד ה') ובמשרפות אבותיך המלכים הראשונים ישרפו לך, וכלשון ויבך אותו אביו (בראשית ל"ז ל"ה), במקום ויבך עליו.
6

E a suma é que quem atribuiu os atos à alma somente, e quem os atribuiu ao corpo somente, e quem os atribuiu aos ossos somente, não conheceu a regra da língua e o seu costume — que é o seguinte: quando um ato é atribuído a algo composto de três, quatro ou cinco coisas, a língua por vezes atribui-o apenas à primeira delas.

Tal como sabemos que a fala emprega cinco órgãos — boca, lábio, língua, palato e garganta —, e contudo a língua diz “a minha boca conta a Tua justiça” (Tehillim 71:15), “e a minha língua medita a Tua justiça” (35:28), “os meus lábios Te louvarão” (63:4), “ao teu palato leva o shofar!” (Hoshea 8:1), “clama com a garganta” (Yeshayahu 58:1) — e qualquer que seja dos cinco que mencione, os outros quatro estão com ele. Assim também, há vezes em que a Escritura menciona a alma somente, ou o corpo, ou os ossos, ou a pele, querendo dizer o todo. E é possível ainda que atribua um ato — que não pertence senão ao corpo e à alma juntos — a um só membro, como disse “em sua casa não pousam os seus pés” (Mishlei 7:11), “e faz obra com o querer das suas palmas” (Mishlei 31:13), “e na sua rebeldia pernoita o meu olho” (Iyov 17:2), “porventura o meu palato não discerne males?” (Iyov 6:30), e semelhantes.

והכלל שלא ידע מי שיחס המעשים אל הנפש לבדה, ומי שיחסם אל הגוף לבדו, ומי שיחסם אל העצמות לבדם חק הלשון ומנהגה, והוא כי מנהגה, כשיהיה פעל מיוחם אל שלשה דברים או ארבעה או חמשה, תיחס אותו פעם על הראשון לבדו, כאשר אנחנו יודעים כי הדבור חושב חמשה כלים, פה ושפה ולשון וחיך וגרון, והלשון אומרת פי יספר צדקתך (תהלים ע"א ט"ו). ולשוני תהגה צדקך (שם ל"ה כ"ח). שפתי ישבחונך (שם ס"ג ד'). אל חבך שופר (הושע ח' א'). קרא בגרון (ישעיה נ"ח א'). ואי זה מה החמשה זכרה הארבעה האחרים עמו, כן הנה יש פעמים שתזכיר הנפש לבדה או הגוף או העצמות או העור והיא רוצה הכל, ואפשר שתיחס פעל מן הפעלים, לא יהיה כי אם לגוף ולנפש, אל אבר אחד, כאמרו (משלי ז׳:י״א י"א) בביתה לא ישכנו רגליה, ותעש בחפץ כפיה (שם ל"א י"ג) ובהמרותם תלן עיני (איוב י"ז ב'). אם חכי לא יבין הוות (שם י' ל'). והדומה לזה.
Nota — a regra da língua (sinédoque) Esta é a chave hermenêutica do capítulo, e uma das contribuições mais finas de Saadiá à teoria da linguagem bíblica: quando um ato pertence a um todo composto, a língua frequentemente o atribui a uma só das partes. O exemplo é perfeito — a fala usa cinco órgãos (boca, lábio, língua, palato, garganta), e a Escritura ora diz "minha boca", ora "minha língua", ora "meus lábios", sempre significando o ato inteiro. Logo, quando a Torá fala de "alma", "corpo", "ossos" ou "carne" isoladamente, refere-se ao ser humano inteiro — alma e corpo como um só agente.
7

E já explicámos, pelo lado da razão e pelo lado da Escritura, que a alma e o corpo são um só agente; e ajuntamos a isto, pelo lado da tradição (kabbalá), o que disseram os nossos mestres (Sanhedrin 91a): se vier o homem a dizer que o corpo e a alma podem isentar-se, cada um, do juízo alegando que a culpa é do outro — a que se assemelha a coisa? A um rei que tinha um pomar e nele assentou dois guardas, um coxo e um cego — o coxo, que não anda, monta no cego, que não vê, e juntos colhem o fruto; e o rei, ao julgar, repõe o coxo sobre o cego e julga-os como um só — e o resto da matéria ali.

וכבר בארנו מצד השכל ומצד הכתוב שהם פעל אחד, ונחבר אל זה מצד הקבלה מה שאמרו רבותינו (סנהדרין צא א), אם בא אדם לומר יכולין גוף ונשמה לפטור עצמם מן הדין, משל למה הדבר דומה, למלך שהיה לו פרדס, והושיב בו שני שומרים, אחד חגר ואחד סומה, ושאר הענין:
Nota — o mashal do coxo e do cego (Sanhedrin 91a) Saadiá sela a doutrina com a tradição: a famosa parábola de Antoninus e Rabi (Sanhedrin 91a-b). Um rei pôs num pomar dois guardas — um coxo e um cego. O coxo monta no cego para alcançar os frutos proibidos; depois cada um se diz inocente (o cego não vê, o coxo não anda). O rei recoloca o coxo sobre o cego e julga-os juntos. Assim D'us, no juízo, reúne a alma ao corpo e julga-os como um só — pois juntos pecaram e juntos agiram. Nem a alma pode culpar o corpo, nem o corpo a alma.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A unidade psicofísica do ser humano

Depois de afirmar (cap. 4) que a alma só age com o corpo, Saadiá tira aqui a consequência ética: já que agem juntos, são julgados juntos. Não há como a alma alegar que o corpo a arrastou, nem o corpo alegar que a alma o conduziu. A recompensa e o castigo recaem sobre o ser humano inteiro — uma posição que se opõe tanto ao espiritualismo (que premia só a alma) quanto ao materialismo (que tudo localiza no corpo).

Língua não é anatomia: o princípio da sinédoque

O coração argumentativo é linguístico. Os que erraram — incluindo o caraíta Binyamin al-Nahawandi — leram literalmente versículos que falam de "alma", "carne" ou "ossos", sem perceber que a língua bíblica usa uma parte para significar o todo. O exemplo dos cinco órgãos da fala é decisivo: ninguém pensa que só a boca, ou só a língua, fala. Assim também "ossos" ou "alma" designam a pessoa por inteiro. Saadiá distingue com nitidez o ofício do exegeta do ofício do anatomista.

O coxo e o cego: o selo da tradição

À razão e à Escritura, Saadiá acrescenta a kabbalá (tradição): a parábola de Sanhedrin 91a. O coxo e o cego que, sozinhos, nada poderiam roubar, mas juntos alcançam o fruto — e são julgados em conjunto — é a imagem perfeita da responsabilidade compartilhada. O Talmud responde, com ela, exatamente à pergunta deste capítulo: como podem corpo e alma ser julgados, se cada um, isolado, é "incompleto"? Resposta: D'us os reúne, e os julga como o que sempre foram — um só.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VI (A alma e a morte), cap. 5, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Bereshit 2:7; 37:35; Vayikra 4:2; 5:15; 7:20-21; Yechezkel 18:4; 32:27; Tehillim 35:10; 35:28; 63:4; 71:15; 145:21; Yeshayahu 58:1; 66:23; Hoshea 8:1; Mishlei 7:11; 31:13; Iyov 6:30; 17:2; I Shmuel 31:12-13; Shemot 13:19; I Melachim 13:31; Yirmeyahu 34:5; Sanhedrin 91a. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VI · A alma e a morte · cap. 6

O Termo da Vida e a Medida da Força

קֵץ יְמֵי הַחַיִּים — מִדַּת הַכֹּחַ וְתוֹסֶפֶת הַיָּמִים

D'us fixou para a vida uma medida de dias contados. Mas como entender que a Escritura fale em "acrescentar" ou "encurtar" dias? Saadiá responde com uma ideia fina: o que se fixa é uma medida de força vital (koach) — e essa força pode ser robustecida (a vida se prolonga) ou enfraquecida (encurta-se). A longevidade é recompensa; a morte prematura, castigo; e o que a balança terrena não acerta, o Mundo Vindouro acerta.

1

E depois falarei sobre a questão do termo dos dias da vida (ketz), e digo: o seu Criador pôs, para a sua união da alma e do corpo, uma medida de dias contados — como está dito “o número dos teus dias completarei” (Shemot 23:26). E disse a alguns dos profetas (Devarim 31:14): “eis que se aproximam os teus dias de morrer”; e a alguns disse (II Shmuel 7:12): “e será que, quando se cumprirem os teus dias”, e semelhantes.

ואחר כן אדבר בענין קץ ימי החיים, ואומר כי בוראם שם להתחברות' מדת ימים מנויים. כמו את מספר ימיך אמלא (שמות כ"ג כ"ו). ואמר לקצת הנביאים (דברי' ל"א י"ד) הן קרבו ימיך למות. לקצתם אמר (שמואל ב' ז' י"ב) והיה כי ימלאו ימיך והדומה לזה.
2

E depois digo: há vezes em que D'us acrescenta àquela medida, sabendo que a alma permanecerá no corpo — pois o Seu conhecimento não altera a verdade da coisa. Porém, aquela medida, a meu ver, que suporta o acréscimo e a diminuição, é a medida da força (koach) que Ele deu ao corpo.

ואחר כן אומר כי יש פעמים שמוסיף במדה ההיא, בדעתו כי הנפש תשאר בגוף, כי ידיעתו אינה שונה אמתת הדבר, אבל המדה ההיא אצלי, אשר תסבול התוספת והחסרון, מדת הכח אשר נתן לגוף.
3

E é que, desde o princípio em que o criou, não há dúvida de que o edificou sobre uma força dentre as forças — seja muita, seja pouca; e a medida da duração daquela força é a que se chama “termo” (ketz). E Ele pode acrescentar-lhe força e robustecê-la, e então o corpo subsistirá, com os setenta anos, outros trinta; e pode enfraquecê-la e dissolvê-la, e então dissolver-se-á aos quarenta. E segundo esta explicação se há de entender o acréscimo no termo dos dias e a diminuição que houver da vida do homem. Depois do acréscimo e da diminuição está aquilo que o seu Criador soube — conhecimento que os estabelece na verdade. E a explicação disto é que Ele sabe que a raiz da força do corpo era de setenta, e então lhe acrescenta trinta, ou lhe diminui trinta.

והוא שמתחלת שבראו אין ספק כי בנה אותו על כח מן הכחות אם רב אם מעט, ומדת עמידת הכח ההוא היא הנקראת קץ, והוא יכול להוסיף בו ולאמצו, ותעמד עם השבעים שלשים אחרים, ויכול להחלישו ולהמס אותו וימס בארבעים. ועל הבאור הזה יסבור התוספת בקץ הימים, והחסרון אשר יהיה מן החיים לאדם, אחר התוספת והחסרון הוא אשר ידעו בוראו שיעמידם על האמת. ובאור זה שהוא יודע ששרש כח הגוף היה על שבעים, והוא מוסיף בו שלשים או מחסר שלשים.
Nota — a “medida da força” (koach) e a presciência divina A solução de Saadiá ao velho enigma — “o termo da vida é fixo ou pode mudar?” — é elegante e fisiológica. O que D'us fixa na criação é uma medida de força vital (koach), uma espécie de "carga" inicial do corpo; o tempo que essa força dura é o que se chama ketz (termo). Essa força é o que pode ser robustecido (a vida se prolonga) ou enfraquecido (a vida se encurta). E a presciência divina não anula isso: “o Seu conhecimento não altera a verdade da coisa” — Ele sabe, desde sempre, o resultado final, sem por isso o determinar coercitivamente (tema do Tratado IV, sobre presciência e livre-arbítrio).
4

E de onde se comprova este acréscimo? Do Seu dizer (Mishlei 10:27): “o temor do Senhor acrescenta dias”. E disse, acerca de alguns justos (II Melachim 20:6): “e acrescentarei aos teus dias quinze anos” a Chizkiyahu. E disse, em muitas das recompensas, “para que se prolonguem os teus dias”, e semelhantes. E disse, acerca dos ímpios, “e o Senhor feriu todo primogênito na terra do Egito” (Shemot 12:29), “e foram os que morreram na praga” (Bamidbar 25:9), e semelhantes. Ora, se esses tivessem morrido conforme a força de cada um (o seu termo natural), não haveria praga por causa do seu pecado, nem coisa alguma teria sido detida por causa do ato de Pinchas. E já o profeta distinguiu a praga do natural termo dos dias, ao dizer (I Shmuel 26:10): “vive o Senhor, que ou o Senhor o ferirá, ou o seu dia chegará e morrerá”.

ומאי זה מקום התחייבה החסרון? מאמרו (משלי י' כ"ז) יראת יי' תוסיף ימים. ואמר בקצת הצדיקים, (מ"ב כ' ו') והוספתי על ימיך חמש עשרה שנה. ואמר ברוב הגמולים למען יאריכון ימיך והדומה לו, ואמר ברשעים ויי' הכא כל בכור בארץ מצרים (שמות י"ב כ"ט), ויהיו המתים במגפה (במדבר כ"ה ט') והדומה לו: ואלו היו מתים כפי כח קצתם, לא היתה מגפה בעבור חטאתם, ולא היה דבר נעצר בעבור מעשה פנחס. וכבר שם הנביא המגפה זולת קץ הימים, באמרו (ש"א כ"ו י') כי אם יי' יגפנו או יומו יבא ומת.
Nota — longevidade e morte prematura: recompensa e castigo Saadiá ancora a tese em versículos: o temor de D'us "acrescenta dias" (Mishlei 10:27); a Chizkiyahu foram dados mais quinze anos (II Melachim 20:6); e a recompensa bíblica típica é "para que se prolonguem os teus dias". Do lado oposto, as mortes súbitas (os primogênitos do Egito, a praga de Num 25) provam a morte antes do termo natural — pois, se cada um morresse apenas no seu prazo, não haveria "praga por causa do pecado", nem o zelo de Pinchas teria detido coisa alguma. O versículo I Shmuel 26:10 confirma a distinção: "ou o Senhor o ferirá antes do tempo, ou o seu dia chegará".
5

E eu não digo que a todo justo se acrescentam dias, nem que a todo ímpio se diminuem — mas conforme a escolha do Criador e conforme o bem. E aquele, dentre os justos, a quem não se acrescentaram dias — a recompensa do Mundo Vindouro está diante dele; e aquele, dentre os ímpios, cujos dias não se encurtaram — o castigo do Mundo Vindouro está diante dele, como está dito (Kohelet 3:1): “e há um tempo para cada desígnio”.

ואינני אומר שכל צדיק מוסיפין לו, ולא כל רשע מחסרין לו, אך כפי בחירת הבורא וכפי הטוב, ומי שלא הוסיפו לו מן הצדיקים, גמול העולם הבא לפניו, ומי שלא קצרו ימיו מן הרשעים ענש העולם הבא לפניו, כמו שנאמר (קהלת ג' א') ועת לכל חפץ:

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O termo (ketz) como "carga" de força vital

A pergunta de fundo é antiga: se D'us decretou o dia da morte, como pode a Torá prometer que a virtude "acrescenta dias" e o pecado os "encurta"? Saadiá resolve transferindo o decreto do tempo para a força: D'us cria cada corpo com uma certa carga de vitalidade, e o que se chama "termo" (ketz) é a duração natural dessa carga. Ela é o que pode crescer ou minguar. É uma leitura quase "fisiológica" da longevidade, típica do racionalismo de Saadiá.

D'us sabe, mas não força

O ponto mais sutil: “o Seu conhecimento não altera a verdade da coisa”. D'us conhece, desde sempre, o resultado final — incluído todo acréscimo e toda diminuição —, e esse conhecimento "os estabelece na verdade". Mas conhecer não é coagir. É a mesma posição que Saadiá desenvolve no Tratado IV (presciência e livre-arbítrio): a onisciência divina abarca a escolha humana sem a anular.

A praga não é o termo natural — e a balança do Olam haBá

Saadiá distingue a morte "no seu prazo" da morte por castigo: se os feridos das pragas tivessem apenas chegado ao seu termo natural, não haveria sentido em falar de "praga pelo pecado" nem no zelo de Pinchas que "deteve" a mortandade. Mas ele recusa todo mecanicismo: nem todo justo tem dias acrescentados, nem todo ímpio os tem encurtados. Quando a conta não fecha aqui — o justo que morre cedo, o ímpio que envelhece —, ela fecha no Mundo Vindouro: "há um tempo para cada desígnio" (Kohelet 3:1).

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VI (A alma e a morte), cap. 6, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Shemot 23:26; 12:29; Devarim 31:14; II Shmuel 7:12; Mishlei 10:27; II Melachim 20:6; Bamidbar 25:9; I Shmuel 26:10; Kohelet 3:1. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VI · A alma e a morte · cap. 7

A Alma na Hora da Separação

הַנֶּפֶשׁ בְּעֵת הִפָּרְדָהּ מִן הַגּוּף — הַמַּלְאָךְ וּשְׁמִירַת הַנְּפָשׁוֹת

O que acontece à alma no instante da morte? Saadiá descreve o anjo da separação — uma figura de fogo cheia de olhos, com espada — e ancora cada traço na Escritura. Explica por que a alma, ao sair, é invisível (pura como o ar, como as esferas), onde as almas são guardadas no intervalo (os justos sob o Trono, os ímpios errantes), e o sentido humano do chibut ha-kever — até a hora em que alma e corpo se reúnem para o juízo.

1

E, visto que expliquei estas questões, é preciso que eu explique como será o estado da alma no momento da sua separação do corpo. E digo: os nossos mestres deram-nos a conhecer que o anjo que o Criador envia para separar a alma do corpo aparece ao homem como uma forma de fogo esverdeado, cheia de olhos de fogo, com o aspecto do chashmal, e na sua mão uma espada desembainhada, apontada para ele; e, quando o homem o vê, estremece ao seu aspecto, e a sua alma separa-se do seu corpo. E, quando observei a Escritura, achei a questão nela tal como os Sábios nos deram a conhecer, ao dizer, no tempo da praga (I Divrei haYamim 21:16): “e ergueu David os seus olhos e viu o anjo do Senhor em pé entre a terra e o céu, e a sua espada desembainhada na sua mão”; e, quando David orou e ofereceu sacrifício, diz depois (ali, 21:27): “e o Senhor ordenou ao anjo, e este tornou a sua espada à bainha”.

וכיון שבארתי אלה הענינים, צריך שאבאר איך יהיה ענין הנפש בעת הפרדה מן הגוף? ואומר כי רבותינו הודיעונו, שהמלאך אשר ישלחנו הבורא להפריד ביניהם, יתראה לאדם כצורת אש ירקרקת מלאה עינים מאש כעין חשמל, ובידו חרב שלופה, מכוין אליו בה, וכאשר יראהו, יחרד למראה, והתפרד נפשו מגופו. וכאשר הסתכלתי בכתוב, מצאתי הענין בו כמו שהודיעונו, באמרו בעת המגפה (ד"ה א' כ"א ט"ז) וישא דוד את עיניו וירא את מלאך יי' עומד בין הארץ ובין השמים וחרבו שלופה בידו. וכאשר התפלל והקריב, אמר אחר כן, (שם כ"א כ"ז) ושיאמר יי' למלאך וישב חרבו אל נדנה.
2

E aprendi que o corpo do anjo é de fogo esverdeado, do seu dizer (Yechezkel 1:13): “e a aparência das criaturas viventes era como brasas de fogo ardentes”; e que é todo cheio de olhos, do seu dizer (ali 10:12): “e todo o seu corpo, e os seus dorsos, e as suas mãos, e as suas asas, e as rodas, estavam cheios de olhos ao redor”; e que o fogo dos olhos é do aspecto do chashmal — pois, se fosse esverdeado como o resto do corpo, não se reconheceria que são olhos; mas reconhecem-se pela mudança do seu aspecto, que é o "olho do chashmal" mencionado.

ולמדתי שגוף המלאך מאש ירקרקת, מאמרו (יחזקאל א' י"ג) ודמות החיות מראיהן כגחלי אש. וכלו מלא עינים, באמרו (שם ו' י"ב) וכל בשרם וגביהם וידיהם וכנפיהם והאופנים מלאים עינים סביב. ושאש העינים כעין חשמל, כי אם היתה ירקרקת כמו הגוף, לא היו נכרים שהם עינים, אבל הם נכרים בהשתנות מראיהן, והוא עין החשמל הנזכר.
Nota — o anjo da separação, ancorado na Escritura O método de Saadiá é exemplar do seu racionalismo: ele recebe a aggadá dos Sábios (o anjo de fogo, cheio de olhos, com espada) mas faz questão de ancorá-la na Escritura, verso a verso. A figura do anjo com a espada desembainhada vem de I Divrei haYamim 21 (David e a praga); a sua matéria ígnea e os "olhos" vêm da visão de Yechezkel (1:13; 10:12); e o termo chashmal (Yechezkel 1:4) explica por que os olhos se distinguem do corpo. Para Saadiá, a tradição rabínica não contradiz a razão nem a Escritura — ilumina-as.
3

E já sabes que a visão do grande fogo quase fez morrer os nossos pais, como está dito (Devarim 5:25): “e agora, por que morreríamos? pois nos consumirá este grande fogo” — e tanto mais quando se aponta para o homem tal fogo com uma espada desembainhada. E já sabes ainda que David, por ter visto o anjo — ainda que a espada não tenha sido apontada para ele com força alguma —, como aquilo o aterrou e o fez tremer, como está dito (I Divrei haYamim 21:30): “pois estava aterrorizado por causa da espada do anjo do Senhor”; e não cessou, desde aquele dia, de tremer, sem se aquecer, até o dia da sua morte, como está dito (I Melachim 1:1): “e cobriam-no com vestes, mas ele não se aquecia” — tanto mais aquele para quem a espada é apontada.

וכבר ידעת כי ראות האש הגדולה, כמעט שלא מתו אבותינו ממנה, כמו שנאמר (דברים ה' כ"ה) ועתה למה נמות כי תאכלנו האש הגדול' הזאת. וכל שכן כשמכונין אל האדם בה עם חרב שלופה. וכבר ידעת עוד שדוד מפני שראה את המלאך אעפ"י שלא כונן אליך בשום חזק, איך הבהילו והרעידו כמו שאמר (ד"ה א' כ"א ל') כי נבעת מפני חרב מלאך יי'. ולא סר מן היום ההו' מרעיד בלתי מתחמם עד יום מותו, כאשר אמר (מ"א א' א') ויכסוהו בבגדי' ולא יחם לו. כל שכן מי שמכוונין אליו בה
4

E, se alguém disser: por que não se vê a alma quando ela sai do corpo? — é por causa da sua pureza e da sua semelhança com o ar na sua clareza, assim como não se veem as esferas celestes, por causa da limpidez e da pureza dos seus corpos. E, como é meu costume comparar: se um homem tomasse dez globos de vidro límpido, e pusesse cada um deles dentro do seu companheiro, e pusesse no meio deles uma candeia acesa — quem o visse de longe não perceberia que a chama está dentro de dez globos, por causa da passagem do fogo através dos seus corpos e da passagem da visão pela luz; e isto é coisa evidente.

ואם יאמר אומר, למה לא נראה הנפש כשהיא יוצאה מן הגוף? בעבור זכותה והדמותה לאויר בזכותו, כאשר לא נראה הגלגלים בעבור נקיות גרמיהם וזכותם, וכאשר מנהגי להמשיל, כי אם היה לוקח אדם עשרה עששיות זכוכות זך, ושם כל אחת מהן בתוך חברתה, ושם בתוכם נר דולק, לא היה מי שרואהו מרחוק שהוא תוך עשר עששיות, בעבור עבור האש בגרמיהם, ועבור הראות באור, וזה דבר גלוי.
Nota — por que a alma é invisível: os dez globos de vidro A bela analogia dos dez globos de vidro límpido encaixados, com uma candeia no centro, responde a uma objeção empirista: se a alma sai do corpo, por que não a vemos? Porque a sua substância é puríssima e clara — como o ar, como os corpos das esferas celestes —, e a visão a atravessa sem a registar. É coerente com a doutrina dos capítulos anteriores (VI·1–3): a alma é uma substância mais sutil que as esferas. A clareza não é ausência; é transparência.
5

Depois, o que será do seu estado, após a sua saída do corpo? E respondo com o que antes mencionei: que ela será guardada para o tempo da recompensa, como disse (Mishlei 24:12): “e Aquele que guarda a tua alma, Ele o sabe”. E a parte pura dela terá o seu lugar de guarda em cima, e a turva, embaixo — como antes mencionei o seu dizer “como o resplendor do firmamento” (Daniel 12:3) e o seu dizer “o espírito do homem que sobe para cima” (Kohelet 3:21). E como disseram os nossos mestres, de bendita memória: a alma dos justos está guardada sob o Trono da Glória, e a alma dos ímpios vagueia pelo mundo e não tem repouso — e esta, e outras semelhantes, são a diferença que há entre elas.

אחר כן מה יהיה מענינה אחר יציאתה מן הגוף? ואשיב במה שקדמתי זכרו, שהוא תהיה שמורה אל עת הגמול, כאשר אמר (משלי כ"ד י"ב) ונוצר נפשך הוא ידע. ויהיה הזך ממנה מקום שמירתו למעלה, והעכור למטה, כאשר הקדמתי מאמרו, כזהר הרקיע (דניאל י"ב ג'). ומאמרו העולם היא למעלה (קהלת ג׳:כ״א). וכמו שאמרו רבותינו ז"ל, נשמתן של צדיקים גנוזה תחת כסא הכבוד, ושם רשעים משוטטת בעולם ואין לה מנוחה, וזה והדומה לו ההפרש שביניהם.
6

E no início do tempo da separação, a alma permanecerá um tempo sem repouso, até que o corpo se acabe. E o sentido disto é que as suas partes do corpo se desagregam, e isso é penoso para ela a alma naquele tempo — pelo que ela percebe do que passa sobre o corpo, como o verme e a podridão e semelhantes —, assim como é penoso para o homem quando vê a casa em que habitava em ruínas, e nela a brotar espinho e cardo. E esta penosidade pode ser, para a alma, pouca ou muita, e mais ou menos dolorosa conforme o estado em que ela se vê — tal como a sua condição na descida será em grau pouco ou muito. E sobre isto disseram os nossos Sábios, de bendita memória: “é penoso o verme para o morto como a agulha para a carne viva”, e apoiam-no no dizer da Escritura (Iyov 14:22): “porém a sua carne sobre ele dói, e a sua alma sobre ele se enluta”. E isto é o que chamam “o juízo da sepultura” (din ha-kever) ou “o esmagamento da sepultura” (chibut ha-kever).

ובתחלת זמן הפרוד, תעמוד הנפש זמן מבלי מנוחה, עד שיכלה הגוף. וענין זה שיתפרקו חלקיו, ויקשה עליה בזמן ההוא, מה שתדעהו ממה שיעבור על הגוף מן התולעת והרמה והדומה להם, כאשר יקשה לאדם כשהוא רואה ביתו אשר היה שוכן בו חרב ועולה בו שמיר ושית. והקושי הזה יש שיהיה לנפש מעט ורב, ויקשה עליה כפי שהוא רואי לה, כמו שמעלתה בירידה תהיה במעט ורב. ובזה אמרו רז"ל, קשה רמה למת, כמחט לבשר החי, וסומכין זה אל מאמר הכתוב אך בשרו עליו יכאב ונפשו עליו תאבל (איוב י״ד:כ״ב). וזהו שקוראים אותו דין הקבר או חבוט הקבר.
Nota — o chibut ha-kever, racionalizado Saadiá oferece uma das leituras mais humanas do "esmagamento da sepultura" (chibut ha-kever). A dor não é um castigo físico infligido a um cadáver insensível, mas a percepção da alma ainda ligada, que "assiste" à decomposição do corpo — como dói a uma pessoa ver em ruínas a casa onde viveu. E é proporcional: tanto mais dolorosa quanto mais a alma se apegou ao corpóreo. O dito rabínico ("o verme é penoso para o morto como a agulha para a carne viva") e Iyov 14:22 são lidos nessa chave psicológica, não macabra.
7

E depois digo que o tempo em que as almas permanecerão separadas será até que se reúnam as demais almas, cuja criação a sabedoria do Criador determinou — e isto é o fim da duração do mundo. E, quando se completar o seu número e se reunirem, unir-se-ão as almas aos seus corpos, como explicarei no tratado seguinte a este, e Ele as recompensará com o que lhes é devido. E isto, com o que explicámos no que precedeu deste tratado, esclarece-se ainda mais pelo que disse o Sábio: pois, depois de dizer (Kohelet 12:7) “e o espírito tornará a D'us, que o deu”, deu-nos a conhecer que o fim do seu estado é a recompensa, ao dizer depois (ali 12:13-14): “o fim de tudo, tudo foi ouvido: ... pois D'us trará toda obra a juízo”. E o seu dizer “toda obra” — quer com isso dizer o corpo e a alma juntos; e o seu dizer “sobre toda coisa oculta” — quer com isso dizer que aquilo que está oculto de nós quanto ao estado da alma é revelado ao Criador; e então a trará a alma dos céus, e trará o corpo da terra, e os recompensará, como disse (Tehillim 50:4): “chamará aos céus em cima, e à terra, para julgar o Seu povo”. Louvado e bendito seja o Sábio! E pedimo-Lhe que nos guie no caminho do bem. Mas o que será da recompensa e do castigo — isso hei de explicar no Nono Tratado, com a ajuda de D'us.

ואחר כן אומר שזמן עמידתם נפרדים יהיה, עד שיתקבצו שאר הנפשות אשר חייבה חכמת הבורא בריאתם, והוא אחרית עמידת העולם, וכאשר ישלם מספרם ויתקבצו, תחוברנה הנפשות עם גופיהם, כאשר אבאר במאמר הסמוך לזה ויגמול אותם במה שראוי להם. וזה עם מה שבארנוהו במה שקדם מן המאמר, יתבאר עוד ממה שאמר החכם, כי אחר שאמר (קהלת י"ב ז') והרוח תשוב אל האלהים אשר נתנה. הודיענו שסוף ענינם אל הגמול באמרו אחר כן, (שם י"ג י"ד) סוף דבר הכל נשמע כי את כל מעשה האלהים יביא במשפט. ואמרו את כל מעשה, רוצה בו הגוף והנפש יחדיו. ואמרו על כל נעלם, רוצה בו מה שהוא נעלם ממנו מענין הנפש הוא גלוי אצל הבורא, ואז יביא אותה מן השמים ויביא הגוף מן הארץ ויגמלם, כמו שאמר (תהלים נ' ד') יקרא אל השמים מעל ואל הארץ לדין עמו. ישתבח החכם ויתברך! ונשאל ממנו שידריכנו בדרך הטובה, אך מה שיהיה מן הגמול והענש? אני עתיד לבארו במאמר התשיעי בעזרת האל:

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A aggadá lida pela razão e pela Escritura

Este capítulo é um modelo do método de Saadiá: ele acolhe as tradições dos Sábios sobre o anjo da morte, mas recusa-se a deixá-las "soltas" — ancora cada detalhe num versículo (David e a espada do anjo em I Divrei haYamim; o fogo e os olhos em Yechezkel). A aggadá, para ele, não é fábula nem dogma cego, mas um saber que a Escritura confirma e a razão pode iluminar. O terror que mata (Devarim 5:25) e o tremor de David até a morte (I Melachim 1:1) tornam-se "provas" do impacto da visão.

A invisibilidade da alma e a sua guarda

A analogia dos dez globos de vidro encaixados é uma das imagens mais elegantes do livro: a alma não se vê ao sair não porque seja "nada", mas porque é transparente — puríssima como o ar e como os corpos celestes. Coerente com isso, no intervalo entre a morte e a ressurreição as almas são "guardadas": as puras, no alto (sob o Trono da Glória); as turvas, embaixo, sem repouso. A pureza moral traduz-se em "altura" ontológica.

Do chibut ha-kever à ressurreição

Saadiá racionaliza o "esmagamento da sepultura": a dor é a da alma que percebe a ruína do seu "lar", proporcional ao seu apego ao corpóreo — não uma tortura macabra. E aponta para diante: o estado separado é provisório, dura "até que se complete o número das almas" e o mundo chegue ao seu termo; então alma e corpo se reúnem (tema do próximo Tratado, sobre a ressurreição) e são julgados juntos (Kohelet 12:7,13-14; Tehillim 50:4). A recompensa e o castigo em si ficam para o Tratado IX.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VI (A alma e a morte), cap. 7, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: I Divrei haYamim 21:16; 21:27; 21:30; Yechezkel 1:13; 10:12; Devarim 5:25; I Melachim 1:1; Mishlei 24:12; Daniel 12:3; Kohelet 3:21; 12:7; 12:13-14; Iyov 14:22; Tehillim 50:4. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VI · A alma e a morte · cap. 8 (final)

Contra a Transmigração das Almas

כְּנֶגֶד גִּלְגּוּל הַנְּפָשׁוֹת — אַרְבָּעָה שִׁבּוּשִׁים וּתְשׁוּבָתָם

No capítulo que encerra o Tratado VI, Saadiá apresenta uma das mais antigas refutações da transmigração das almas (gilgul) na tradição judaica. Ele identifica os quatro erros que sustentam a doutrina — o filosófico, o dos "traços animais", o do sofrimento das crianças e o das "provas" escriturárias — e responde a cada um. É a posição racionalista de Saadiá; a Cabala posterior abraçaria o gilgul. Apresentamos o seu argumento, não um veredito.

1

E concordo em ligar a estas coisas a menção daquilo em que divergiram os que disputam sobre a essência da alma — o que ela é. Disseram uns que seria mais apropriado pô-la como corpo; e achei outros que disseram que é um acidente — e todos esses pensam que ela se dissolve, se corrompe e se desfaz. Mas os que disseram que a alma é dos seres espirituais, e que provém do seu Criador somente, ou d'Ele e de outra coisa, ou de duas raízes eternas — todos esses pensam que ela retorna à sua origem, de onde foi cortada; e eu já expliquei antes a falsidade de todas essas doutrinas e a sua nulidade. Mas digo que há homens, dentre os que se chamam judeus, que achei a crer na “transmigração” (ha-shana'ot), e chamam-na “transferência” (ha'atakah); e o seu sentido, para eles, é que o espírito de Reuven retorna para Shimon, e depois para Levi, e depois para Yehudá; e há muitos deles que dizem que, por vezes, o espírito do homem está num animal, e o espírito do animal num homem — e muitas coisas desta loucura e confusão. E observei o que eles imaginam tê-los levado a esta doutrina, e achei serem quatro erros (shibushim); e vejo por bem mencioná-los e refutá-los.

ואני מסכים לסמוך לדברים האלו זכר מה שנחלקו בו החולקים בעצם הנפש מה הוא. ואמרו, יותר ראוי שתושם גשם, ומצאתי אשר אמרו שהיא מקרה, הכל חושבים שהיא תמס ותפסד ותמק. אבל אשר אמרו שהיא מן הרוחניים, ומן בוראה לבדו, וממנו ודבר אחר, ומן שני שרשים קדמונים, הם חושבים כלם שתשוב אל מוצאה אשר ממנה נחצבה, וכבר בארתי הפסד כל אלה המאמרים ובטולם. אבל אומר שאנשים ממי שנקראים יהודים, מצאתים אומרים בהשנות, וקוראים אותו ההעתקה, וענינו. אצלם שרוח ראובן תשוב אל שמעון, ואחר כן בלוי, ואחר כן ביהודה, ויש מהם רבים שאומרים, יש פעמים שתהיה רוח האדם בבהמה, ורוח הבהמה באדם, ודברים רבים מזה השגעון והערבוב, והסתכלתי במה שחושבים שהביאם אל המאמר הזה, ומצאתים ארבעה שבושים, ואני רואה לזכרם, ולהשיב עליהם,
Nota — Saadiá contra a transmigração (gilgul) Este capítulo final do Tratado VI é uma das mais antigas e contundentes refutações da transmigração das almas (que Saadiá chama ha-shana'ot / ha'atakah, e que a tradição posterior chamará gilgul neshamot) em toda a literatura judaica. Saadiá, fiel ao seu racionalismo, considera-a "loucura e confusão" importada de doutrinas estrangeiras (dualistas e "espiritualistas"). Enquadramento histórico: esta é a posição racionalista de Saadiá — e ela não é o consenso. Séculos depois, a Cabala (o Zohar, o Ari) abraçou o gilgul como doutrina central, e grande parte do povo de Israel o aceita. Trata-se de um debate interno legítimo e multissecular; esta biblioteca acolhe também a tradição cabalística (na obra do Rav Kook). Apresentamos aqui o argumento de Saadiá, não um veredito.
2

E o primeiro deles é que quem assim crê sustenta a opinião dos “espirituais” e as outras três opiniões sobre a alma; e quem assim crê não sabe que os adeptos da doutrina da transmigração a tomaram da opinião dos “dualistas” e dos “espirituais” — opiniões cujas refutações já revelei e mencionei.

ותחלת זה שהוא מחזיק בדעת הרוחניים, והשלשה דעות האחרים, ומי שאינו יודע כי אנשי דעת ההשנות, לקחוהו מדעת השניים והרוחניים, וכבר גליתי מה שיש על כלם מן התשובות וזכרתי אותו.
3

E o segundo erro: que viram traços de muitos dos homens e acharam-nos semelhantes aos traços dos animais — como aquele que veem humilde como o traço do gado, ou mau como o traço das feras, ou voraz como um cão, ou leviano como uma ave, e semelhantes. E concordaram, por causa destas coisas, que tais traços não poderiam estar nos homens senão por haver neles algo dos espíritos dos animais. E isto — que D'us tenha misericórdia de ti — demonstra a grande ignorância deles: pois eles pensam que o corpo do homem transforma a alma da sua própria essência, a ponto de fazê-la alma de homem depois de ter sido alma de animal; e pensam ainda que ela a alma o transforma ao corpo da sua essência, a ponto de pôr os seus traços como os dos animais, ainda que a sua forma seja de homem. E não lhes bastou pôr a essência da alma como mutável, e não lhe firmar uma essência verdadeira, senão que ainda contradisseram as suas próprias palavras, e a puseram como transformadora do corpo e mudadora dele, e puseram o corpo como transformador dela e mudador dela — e isto é o sair do domínio do que é racional.

והשני , שראו מדות רבים מבני אדם, ומצאום דומות למדות הבהמות. כמי שרואים אותו ענו כמדת הצאן, ורע כמדת החיות, ורעבתן ככלב, וקל כעוף, והדומה לזה. והסכימו בעבור אלה הענינים, שאלה המדות לא היו בבני אדם, עד שהיה בהם מרוחות הבהמות. וזה ירחמך האלהים מורה על רוב סכלותם, כי הם חושבים שגוף האדם מהפך הנפש מעצמותה, עד שישימנה נפש אדם אחר שהיתה נפש בהמה. ועוד שהיא מהפכת אותו מעצמותו, עד שתשים מדותיו כבהמות, אף על פי שצורתו בבני אדם. ולא די להם ששמו עצם הנפש מתהפך, ולא קיימו לה עצם אמתי, עד שסתרו דבריהם ושמוה מהפכת הגוף ומשנה אתו, והגוף מהפך אותה ומשנה אותה, וזאת היא היציאה מן המושכל:
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E o terceiro: que trazem as suas palavras à maneira de argumento, e dizem: já que o Criador é juiz justo, não traria sofrimentos sobre as crianças de colo senão por um pecado que as suas almas pecaram, no tempo em que estavam num corpo anterior ao seu atual corpo. E há sobre isto muitas refutações: a primeira é que se esqueceram da porta da recompensa que mencionámos o Mundo Vindouro. E ainda, pois nós lhes perguntaremos sobre o estado primeiro — quero dizer, o início da criação da alma: o seu Criador ordenou-lhe algum serviço, ou não? Se disserem “não lhe ordenou”, anulam-se todos os castigos, pois a alma não estava, desde o início, sob mandamento. E se admitirem o mandamento — então a alma, naquele tempo, não o aceitou nem se rebelou; e assim já admitiram que o homem é ordenado para o futuro, não só para o passado — e com isso voltam à nossa doutrina, a da compensação (tmurah), e abandonam a sua tese de que não há sofrimentos senão por aquilo que já passou.

והשלישי שמביאים דבריהם על דרך הטענה, ואומרים כיון שהבורא שופט צדק, לא היה מביא יסורין על העוללים, כי אם על חטא שחטאו נפשותם, בעת שהיו בגוף אשר קודם גופם, ויש על זה תשובות רבות תחלתם שהם שכחו שער הגמול אשר זכרנו. ועוד כי אנחנו נשאל אותם על ענין הראשון, רוצה לומר תחלת בריאת הנפש, אם צוה אותה בוראה בעבודה מן העבודות, אם לא? ואם יאמרו לא צוה אותה, בטלו הענשים כלם, מפני שלא היתה מצווה מתחלה. ואם יודו במצוה, הנפש בעת ההיא לא קבלה ולא מרתה, וכבר הודו שהאדם יצווה לעתיד לא לחולף בלבד, וישובו אל מאמרינו בתמורה ויעזבו הסכמתם, על שאין יסורין אלא על מה שחלף,
Nota — o sofrimento das crianças: o motivo do gilgul, e a resposta O terceiro "erro" é o mais sério, porque nasce de uma intuição moral nobre: se D'us é justo, por que sofrem crianças inocentes? Os transmigracionistas respondem: por pecados de uma vida anterior. Saadiá oferece duas réplicas. (1) Esqueceram o Mundo Vindouro — onde as contas que não fecham nesta vida se acertam (tema do Tratado V e do cap. VI·4). (2) O dilema da "primeira criação": se a primeira alma não foi comandada, não há base para castigo algum; se foi comandada, então o homem responde por mandamentos futuros, não só passados — o que já é a posição de Saadiá (a tmurah, compensação), e derruba a premissa de que o sofrimento só pode ser por um passado.
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E o quarto: que eles se penduram em versículos duvidosos da Escritura. Vi por bem mencionar alguns deles, e digo: dentre eles, as palavras de Moshé (Devarim 29:14): “pois com aquele que está aqui conosco, em pé hoje, e com aquele que não está aqui conosco hoje” — e disseram que isto demonstra que os espíritos dos últimos são os espíritos dos primeiros, e por isso haveria “os que estão presentes” e “os que não estão presentes”. Mas o sentido simples do versículo anula o que imaginaram, pois ele diz que “o presente” é coisa diversa de “o que não está presente”; e a sua explicação não é senão que aquele a quem cheguem as palavras de Moshé é obrigado a aceitá-las como as aceitam os que estão presentes com ele.

E dentre eles (Tehillim 1:1): “feliz o homem que não andou (lo halach) no conselho dos ímpios” — e disseram que, por ter dito “não andou” pretérito e não “não andará”, aprendemos que o castigo recai por algo que a sua alma fez num primeiro corpo. E isto, da parte deles, é o cúmulo do erro: pois a Escritura não chamou “feliz” o mencionado senão depois de ele não ter andado no conselho dos ímpios, e não lho atribuiu antes de não andar. E o que se mostra do versículo é uma refutação contra eles: pois, se fosse como disseram, a recompensa seria sobre os méritos vindouros, não sobre os passados — como se vê do seu dizer depois “e na sua Torá medita (yehgeh)” futuro, e não disse “meditou (hagá)” pretérito —, ao passo que eles atribuíram o castigo às transgressões passadas e não às vindouras, com base no seu dizer “não andou” e não “não andará”.

והרביעי שהם נתלים בספקות מן המקרא, ראיתי לזכור מהם קצתם ואומר שמהם דברי משה (דברים כ"ט י"ד) כי את אשר ישנו פה עמנו עומד היום. ואמרו זה מורה על שרוחות האחרונים הם רוחות הראשונים ועל כן הם הנמצאים והם שאינם נמצאים. ופשט הפסוק מבטל מה שסברוהו, כי הוא אומר שהנמצא זולת שאיננו נמצא, ופרושו איננו כי אם שחייב מי שיגיעו אליו דברי משה, שיקבלם כקבול הנמצאים אתו. ומהם (תהלים א' א') אשרי האיש אשר לא הלך בעצת רשעים, ואמרו כי מפני שאמר לא הלך ולא אמר לא ילך, למדנו שהענש על דבר שעשתה נפשו בגוף הראשון. וזה מהם תכלית הטעות, כי הכתוב לא חייב לנזכר אשרי כי אם אחרי שלא הלך, ולא חייבו לו קודם שלא הלך. והנראה מהכתוב תשובה עליהם, ואלו היה כמו שאמרו היה הגמול על הזכיות הבאות, לא על החולפות, מפני אמרו אחריו ובתורתו יהגה, ולא אמר הגה, כאשר חייבו הענש על העונות החולפות ולא על הבאות מאמרו לא הלך ולא אמר לא ילך.
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E dentre eles, o que disseram (Iyov 38:14): “transforma-se (tit'hapech) como o barro sob o selo, e as coisas apresentam-se como uma veste” — e imaginaram que o dizer “transforma-se” é sobre a alma, e disseram que isto demonstra que ela se transforma no homem e no animal continuamente. Mas não entenderam, os simplórios, que a Escritura não disse isto senão sobre a terra — pois antes disso antepôs “para segurar nas extremidades da terra”, e sobre ela a terra disse que ela “se transforma”, com os ímpios, “como o barro sob o selo”, e que eles os ímpios permanecem como se ela fosse a sua veste, e não podem mover-se dela até que se cumpra sobre eles o decreto de D'us.

E dentre eles, as palavras do profeta (Tehillim 23:3): “restaura a minha alma” (nafshi yeshovev) — e pensaram ser uma “volta” de corpo a corpo; e não entenderam, os simplórios, que ela significa descanso, repouso e sossego do sofrimento em que a alma estava, e não é uma “volta” após uma saída. E isto, na língua dos nossos pais, está claro e manifesto: pois disseram, acerca de Shimshon, quando teve sede e o seu Criador lhe deu de beber água, “e o seu espírito voltou, e reviveu” (Shoftim 15:19) — e o espírito não havia ainda saído. E disseram, acerca do egípcio, quando teve fome e David o alimentou, “e o seu espírito voltou” (I Shmuel 30:12). E disseram, acerca do mensageiro fiel: “mensageiro fiel para os que o enviam, e restaura (yashiv) a alma dos seus senhores” (Mishlei 25:13). E disseram, acerca da sabedoria: “a Torá do Senhor é perfeita, restauradora da alma” (Tehillim 19:8).

ומהם אמרו (איוב ל"ח י"ד) תתהפך כחמר חותם ויתיצבו כמו לבוש, וסברו כי אמרו תתהפך על הנפש, ואמרו זה מורה שהיא מתהפכת באדם ובבהמה תמיד, ולא הבינו הפתאים שהוא לא אמר כי אם על הארץ, מפני שהקדים לפניו לאחוז בכנפות הארץ, ועליה אמר שהיא מתהפכת ברשעים כחמר חותם, והם שוקדים כאלו היא לבושם, לא יוכלו להעתיק ממנה עד שתשלם גזרת האל בהם. ומהם דברי הנביא (תהלי' כ"ג ג') נפשי ישובב. וחשבו זאת השבה מגוף אל גוף, ולא הבינו הפתאים כי היא מנוחה ומרגוע והשקט מצער שהיתה בו, ואיננה השבה אחרי יציאה, וזה בלשון אבותינו מבואר גלוי, שאמרו על שמשון בעת שצמא והשקהו בוראו מים, ותשב רוחו ויחי (שופטים ט"ו י"ט) ולא יצאה כבר. ואמרו על המצרי כאשר רעב והאכילו דוד, ותשב רוחו (שמואל א' ל' י"ב). ואמרו על הציר נאמן, ציר נאמן לשולחיו ונפש אדוניו ישיב (משלי כ"ה י"ג). ואמרו בחכמה, תורת יי' תמימ' משיבת נפש (תהלים י"ט ח'). ואני מנשא דברי מקלות דעתם, וארוממם מפחיתותם, לולי יראתי מן ההשאה.
Nota — a filologia de “nafshi yeshovev” A refutação dos "provas" escriturárias é um primor de leitura literal contra a leitura mística. O caso mais elegante é “nafshi yeshovev” (Tehillim 23:3): os transmigracionistas leem "faz a minha alma voltar a outro corpo". Saadiá mostra, com paralelos, que a raiz shuv aqui significa restaurar / dar repouso, não "reencarnar": o espírito de Shimshon "voltou" quando ele bebeu (Shoftim 15:19) — sem nunca ter saído; o do egípcio faminto "voltou" ao comer (I Shmuel 30:12); a Torá "restaura (meshivat) a alma" (Tehillim 19:8). "Voltar", na língua bíblica, é reanimar o vivo — não transferir o morto.
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E eu elevo as minhas palavras acima da leviandade da opinião deles, e exalto-as acima da sua baixeza — não fora o meu receio de me alongar em erro. E, no fim das suas palavras, dizem (Yechezkel 37:9): “dos quatro ventos vem, ó espírito, e sopra nestes mortos, e revivam”. E digo: que coisa estranha há nisto? Pois a Escritura não disse isto senão porque os espíritos têm o seu repouso em cima e embaixo; e de qualquer lugar em que o espírito esteja, dos dois lados e dos seus quatro ventos, ele vem quando o seu Criador o chama — como disse o piedoso (Iyov 13:22): “chama, e eu responderei”. — Está completo o Sexto Tratado do livro.

ובסוף דבריהם אומרים, מארבע רוחות באי הרוח ופחי בחרוגים האלה ויחיו (יחזקאל ל"ז ט'). ואומר ואי זו דבר נכרי יש בזה? כי לא אמר זה כי אם מפני שהרוחות להם שקט למעלה ולמטה, ובאי זה מקום שתהיה משני הצדדין ומארבע רוחותם תבא, שבוראה קורא לה, כמו שאמר החסיד (איוב י"ג כ"ב) וקרא ואנכי אענה: נשלם המאמר הששי מן הספר:

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A recusa racionalista da reencarnação

Saadiá é um dos primeiros sábios judeus a enfrentar de frente a doutrina da transmigração, e fá-lo com a contundência típica do racionalismo gaônico: para ele, é uma ideia importada de sistemas estrangeiros (dualistas, "espiritualistas"), que destrói a própria noção de uma essência estável da alma. É essencial situar isto historicamente: trata-se de um debate interno e secular. Séculos depois, a Cabala — o Zohar, o Ari — fez do gilgul uma doutrina central, e boa parte de Israel o aceita até hoje. Esta biblioteca acolhe as duas tradições (a mística está, p. ex., na obra do Rav Kook); aqui se expõe, com fidelidade, o lado racionalista da disputa.

Os quatro erros — e o argumento moral que os move

O capítulo organiza-se como uma refutação sistemática de quatro raízes da crença. As duas primeiras são filosóficas (a essência mutável da alma; os "traços animais"). A terceira é a mais nobre, pois nasce de uma angústia real — o sofrimento de inocentes —, e Saadiá responde-lhe não com desprezo, mas remetendo ao Mundo Vindouro e ao dilema lógico da "primeira criação". A quarta é exegética: versículos que parecem apoiar o gilgul.

A leitura literal como antídoto

É no quarto erro que Saadiá brilha como filólogo. Ele mostra, verso a verso, que os "apoios" escriturários da transmigração se desfazem ao se ler o sentido simples (peshat): "transforma-se como o barro" fala da terra, não da alma; "feliz o homem que não andou" recompensa o futuro, não pune um passado oculto; e "restaura a minha alma" significa reanimar o vivo, não transferir o morto — como prova o uso de "voltar o espírito" para Shimshon e para o egípcio famintos. A disciplina da língua é, para Saadiá, a guardiã da sã doutrina.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VI (A alma e a morte), cap. 8 — conclusão do Tratado VI —, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Devarim 29:14; Tehillim 1:1; 19:8; 23:3; Iyov 38:14; 13:22; Shoftim 15:19; I Shmuel 30:12; Mishlei 25:13; Yechezkel 37:9. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VII · A ressurreição dos mortos · cap. 1

A Ressurreição dos Mortos — a Resposta pela Natureza e pela Razão

תְּחִיַּת הַמֵּתִים — מַעֲנֵה הַטֶּבַע וְהַשֵּׂכֶל

Abre-se o Tratado VII, sobre o que Saadiá chama "o mais honrado dos tempos marcados de Israel": a ressurreição dos mortos no tempo da redenção. Ele mapeia as quatro fontes de onde poderia vir qualquer objeção — natureza, intelecto, Escritura, tradição — e começa a desmontá-las: quem aceita os milagres e a criação do nada não pode negar a ressurreição, que é mais fácil; e nenhuma matéria se perde, pois D'us a guarda para o dia da "visitação".

1

Sobre a ressurreição dos mortos — que é o mais honrado dos tempos marcados dos filhos de Israel, que o Criador lhes designou para o tempo da salvação. Disse Yehudá ben Shaul (o tradutor): disse o autor. Bendito e exaltado seja D'us, o D'us de Israel, que confirma as Suas palavras e cumpre o que promete no seu tempo certo. E depois disto digo: achei a multidão dos filhos de Israel a crer que o Criador, bendito e exaltado, fará viver os seus mortos no tempo da redenção; e achei-os a interpretar toda passagem que há nos Livros, da qual se vê a ressurreição dos mortos no tempo da salvação, segundo o seu sentido simples (peshat), e a apoiar isso em palavras recebidas da tradição que abrangem a interpretação daquele gênero de versículos. E achei poucos homens, da nação, que não admitem que isto será no tempo da redenção, e dizem que será no tempo da saída para o Mundo Vindouro, e apoiam-se nisto sobre uma confusão fraca — parte dela ouvi deles, parte dela vi neles como inferência possível.

בתחיית המתים והוא הנכבד שבמועדי בני ישראל אשר יעדם הבורא בם בעת הישועה: אמר יהודה בן שאול, אמר המחבר. יתברך ויתעלה האל אלהי ישראל. המאמת דבריו, הצדיק במועדו. ואחרי כן אומר שמצאתי המון בני ישראל מאמינים, כי הבורא יתברך ויתעלה, יחיה מתיהם בעת הגאולה, ומצאתים שמפרשים כל פרשה שיש בספרים, שנראה ממנה תחיית המתים בעת הישועה כפשוטה, ועוזרים זה בדברים מקובלים כוללים פרושי המין ההוא, ומצאתי אנשים מעטים מן האומה, שאינם מודים שזה יהיה בעת הגאולה, ואומרים שזה יהיה בעת היציאה אל העולם הבא, וסומכים בזה על שבוש חלש, קצתו שמעתיו מהם, קצתו ראיתיו להם באפשר.
2

E, porque era dever de todo justo que primeiro lhe subisse ao coração a coisa desejada (verdadeira) e que afastasse de si as coisas contrárias — como disse a Escritura (Mishlei 10:32): “os lábios do justo conhecem o que é aceitável” —, e porque lhe cabe ainda dar isso a conhecer à nação e aproximá-lo do seu entendimento, e fazê-la voltar das palavras dos simplórios — como disse ainda (ali 10:21): “os lábios do justo apascentam a muitos, mas os tolos, por falta de senso, morrem” —, foi apropriado, por causa da minha busca da verdade (ainda que a ela plenamente não tenha alcançado), que eu velasse sobre este livro e o seu rigor com grande atenção, até que primeiro me surgisse a coisa esclarecida, no extremo do que é possível; e depois a escrevesse para a nossa nação, para lhe ser endireitadora do auxílio com que se ampara no serviço do nosso D'us e em suportar o que nele há do exílio.

E conduzi-me nisto pelo caminho que o Criador ordenou para confortar o aflito, ao dizer (Yeshayahu 35:3-4): “fortalecei as mãos frouxas e firmai os joelhos vacilantes; dizei aos de coração apressado: sede fortes, não temais; eis o vosso D'us etc.”. E, quando observei isto — para que se me esclarecesse se há, sobre o que a multidão crê acerca da ressurreição dos mortos no tempo da redenção, algum argumento contrário —, examinei a questão e achei que as fontes (mo'tza'im) de que se haveriam de tirar, em primeiro lugar, os fios do argumento sobre isto são quatro, e não há para elas uma quinta. E vi toda confusão que ouvi, ou que cogitei poder ser argumento contra esta crença, e firmei-me sobre a quebra de tudo isso, a sua nulidade e a sua corrupção; e então se estabeleceu esta crença com provas, tiradas das três fontes das quais os crentes tiram as suas provas. E as quatro fontes que investiguei, para ver se há nelas base para uma resposta a esta crença, são: a fonte da natureza, a do intelecto, a da Escritura e a da tradição.

ומפני שהיה חוב לכל צדיק שיעלה בלבו תחלה הדבר הנרצה, וידחה מעליו הדברים ההפוכים, כאשר אמר הכתוב (משלי י' ל"ב) שפתי צדיק ידעון רצון, ועליו עוד להודיע לאומה ולהקריבו להבנתם, ושישיבנה מדברי הפתאים, כמו שאמר עוד, (שם כ"א) שפתי צדיק ידעו רבים ואוילים בחסר לב ימותו, היה ראוי בעבור בקשתי הצדק, אעפ"י שלא הגעתי אליו, שאשגיח על הספר הזה ודקדוקו השגחה רבה, עד שיעלה לי תחלה הדבר המבואר בתכלית מה שאפשר. ואחר כן אכתבהו לאומתינו להיות לה מישר העזר בו על עבודת אלהינו, ועל סבל מה הוא בו מן הגלות, ונהגתי בו הדרך אשר צוה בו הבורא לצוות בסבל, באמרו (ישעיה ל"ה ג' ד') חזקו ידים רפות וברכים כושלות אמצו אמרו לנמהרי לב חזקו אל תיראו הנה אלהיכם וגו'. וכאשר הסתכלתי בזה, כדי שיתבאר לי היש על מה שסוברים ההמון מתחיית המתים בעת הגאולה טענה, ועיינתי בענין ומצאתי, שהמוצאים אשר יעלו תחלה בראשונה אשר יצאו מהם משכי הטענה על זה, ארבעה אין להם חמישי. וראיתי כל שבוש ששמעתי או חשבתי בו שיהיה טענה על האמונה הזאת, ועמדתי על שבר הכל וביטולו והפסדו, ואז התקימה האמונה הזאת בראיות, מן השלשה ענינים אשר מהם ימשכו המאמינים ראיותם. והמוצאים הארבעה אשר חקרתי עליהם לראות היש על האמונה הזאת בהם תשובה, הם מוצא הטבע והשכל והכתוב והקבלה.
Nota — as quatro fontes de objeção, e o método Saadiá abre o tratado com um mapa metodológico: qualquer objeção possível à ressurreição só pode vir de quatro fontes — a natureza, o intelecto, a Escritura e a tradição. O seu plano é primeiro demolir toda objeção e só depois provar a doutrina pelas mesmas fontes (exceto a natureza, que só serve à objeção). É o método que estrutura todo o livro: não pedir fé cega, mas remover os obstáculos da razão e então edificar. Note-se a sua humildade — busca a verdade "ainda que plenamente não a tenha alcançado" — e o propósito pastoral: dar à nação um "auxílio" para servir a D'us e suportar o exílio (Yeshayahu 35:3-4).
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E comecei pela natureza, porque a sua precedência é uma precedência essencial. E disse: talvez se imponha a impossibilidade de admitir a ressurreição dos mortos, por causa da impossibilidade de a natureza fazer isto — pois, assim como os seres vivos crescem por natureza, e parte deles torna a engendrar por natureza e morre por natureza, a objeção é que não viveriam também depois da morte por natureza. E, quando refleti neste pensamento conjeturado, achei que dele só se penduram os que dizem crer na eternidade do mundo ou no dualismo — porque não lhes é possível conceber que as coisas sejam senão pela via dos costumes habituais conhecidos. Mas os monoteístas (meyachadim), que creem que o Criador altera os costumes da natureza e os põe em todo tempo que quer, conforme quer — não lhes é possível abster-se de admitir a ressurreição dos mortos pelo lado da natureza, pois todos admitem que Ele lhes enviou os Seus profetas, e nas suas mãos havia sinais plenos; e, maior que isto, a Sua criação dos elementos primeiros a partir de nada (lo midavar).

והחילותי מן הטבע, מפני שקדימתו קדימה עצמית. ואמרתי אולי יתחייב המנע ההודאה בתחיית המתים מפני המנע הטבע לעשות זה, מפני שאין כמו שגדלים בעלי חיים בטבע, ושבים קצתם בטבע ומתים בטבע, יחיו גם כן אחרי המות בטבע, וכאשר התבוננתי במחשבה הזאת הנחשבת, מצאתיה שאין נתלים בה כי אם האומרים בקדמות או בשניים, מפני שלא יתכן אצלם שיהיו הדברים אלא על דרך המנהגים הנהוגים הנודעים, אבל המיחדים שמאמינים שהבורא משנה מנהגי הטבע, וישימם בכל עת שירצה כאשר ירצה, אי אפשר להם להמנע מהודות בתחיית המתים מצד הטבע, שכלם מודים ששלח אליהם נביאיו ובידם אותות מלאות, וגדול מזה בראתו היסודות הראשונות לא מדבר,
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E o sentido desta afirmação é que aquele que afasta (nega) a ressurreição dos mortos no tempo da salvação, porque a natureza não faz isto, fica obrigado a afastar, do mesmo modo, o transformar-se da vara em serpente, e da água em sangue, e o erguer-se das águas do mar e o seu congelar, e o deter-se do movimento celeste que cresce no oriente — até que se prolongou nele a permanência do sol sobre a terra no tempo de Yehoshua —, e os demais sinais claros que os Livros mencionaram que o Criador fez por meio dos Seus profetas; até que aquele que diz isto venha a negar todos os milagres. E fica obrigado, ainda, a afastar a criação de algo a partir de nada, até que negue o Criador e saia da categoria dos crentes. Ora, a ressurreição dos mortos, segundo a especulação perfeita, é mais fácil e mais próxima do que a criação de algo a partir de nada. E já se esclareceu que aquele que admite que o Criador iniciou os existentes a partir de nada, e fortaleceu os Seus profetas com sinais plenos, não pode afastar a ressurreição dos mortos, nem pendurar-se em um argumento tirado da natureza — tanto mais com a sua admissão de que o Criador fez viver o filho da sunamita neste mundo, coisa sobre a qual não há dúvida junto ao nosso povo.

ויהיה באור המאמר הזה, שמי שמרחיק תחיית המתים בעת הישועה מפני שהטבע לא יעשה זה, יתחיב להרחיק לעמתו הפוך המטה תנין, והמים דם, ועמוד מי הים והקפאם, ועכוב התנועה והגדולה המזרחי' עד שארך בה עמידת השמש על הארץ, ושאר האותות הבהירות אשר זכרו הספרים שהבורא עשאם על ידי נביאיו, עד שיכחש האומר זה בכל הנסים, ויתחייב עוד להרחיק בריאת דבר לא מדבר, עד שיכפור בבורא ויצא מכלל המאמיני'. ותחיית המתים אצל העיון השלם, יותר קל ויותר קרוב מבריאת דבר לא מדבר. וכבר התבאר כי מי שיודה שהבורא התחיל הנמצאות לא מדבר, ואמץ נביאיו באותות מלאות, לא יוכל להרחיק תחיית המתים, ולא להתלות לטעון בטבע, כל שכן עם הודאתו שהאשה השונמית החיה הבורא בנה בעולם הזה, כמו שאין ספק בזה אצל עמנו.
Nota — a ressurreição é mais fácil que a criação do nada Aqui está o argumento racionalista central do tratado. Quem nega a ressurreição "porque a natureza não a faz" é forçado, pela mesma lógica, a negar todos os milagres (a vara-serpente, o Mar, o sol parado de Yehoshua) — e, em última instância, a própria criação do nada, o que o lança fora da fé. E Saadiá vira o argumento: ressuscitar é mais fácil que criar do nada, pois a matéria já existe. Quem aceita o maior (a creatio ex nihilo) não pode recusar o menor. O precedente bíblico decisivo é o filho da sunamita, ressuscitado por Elishá "neste mundo" (II Melachim 4).
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E ainda repeti esta investigação, e disse: talvez esta matéria de que falamos seja das coisas absurdas, em que não convém crer que sobre elas recaia o poder divino — como fazer tornar (desfazer) o dia de ontem, ou pôr o cinco como sendo mais que o dez. E o modo de eu passar isto pelo coração foi que disse: quando o corpo vivo, depois da sua morte, tem já desfeitas as partes que nele havia dos quatro elementos — tendo cada parte delas chegado ao seu elemento radical e nele se mesclado —, e depois se combinaram partes daqueles elementos e delas se compôs um segundo corpo, e depois se desfizeram na sua morte e tornaram às suas fontes, e depois se combinaram uma terceira vez e delas se compôs outro corpo, e depois se desfizeram na sua morte — como será o primeiro na sua integridade, e o segundo na sua integridade, e o terceiro na sua integridade, se as partes de cada um deles já entraram em outro no tempo em que este se compôs? E, quando depurei o raciocínio e fiz subir o sumo da percepção, achei que esta suposição enganosa não é verdade.

ועוד שניתי החקירה הזאת ואמרתי, אולי יהיה השער הזה אשר אנחנו מדברים בו מן הדברים ההבליי', אשר לא יכשר להאמי' שתפול היכולת עליהם, כמו השבת אתמול ושום החמש יותר מן העשרה, והיה אפני העברת זה על לבי שאמרתי כשהגוף החי אחר מותו כבר נמקו החלקים אשר היו בו מן היסודות הארבעה אשר הגיע כל חלק מהם ליסודו השרשי ונמזג בו, ואחר כן התחברו חלקים מן היסודות ההם והתרכב מהם גוף שני, ואחר כן נמקו במותו ושבו אל מוצאיהם, ואחר כן התחברו פעם שלישית והתרכב מהם גוף אחר, ואחר כן נמקו במותו, איך יהיה הראשון על שלמותו והשני על שלמותו, והשלישי על שלמותו, וחלקי כל אחד מהם כבר נכנסו באחר בעת שהתרכב,
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E é que os elementos do corpo, quando se desfizeram e chegou cada um deles à sua fonte — do quente, do frio, do úmido e do seco —, se na fonte radical não houvesse senão aquilo de que se compôs um segundo corpo, isto é, senão o que se desligou do primeiro corpo, não seria possível que se criasse o segundo senão de um de dois modos: ou que as suas partes fossem as partes do primeiro, ou que se criasse de novo, do nada; e, por ambos os modos juntos, anular-se-ia a recorrência dos corpos depois de desfeitos. Porém, visto que as fontes (os reservatórios dos elementos) são muitas vezes maiores que as partes de todos os compostos — múltiplas, sem conta, de tão numerosas (pois os sábios sabem que o ar que há entre a terra e o início de uma porção do céu é como toda a terra, e o seu pó, e os seus montes, e os seus mares, e as suas plantas, e os seus animais, mil e oitenta e nove vezes — porquanto é multiplicado por trinta e três por trinta e três) —, sendo a coisa assim, nesta vastidão pode o Criador do segundo corpo pôr as suas partes como partes dos elementos que não usou no primeiro corpo, e compor o terceiro de partes que não se mesclaram no segundo, e assim ligar o quarto de partes que não se misturaram no terceiro, por causa da vastidão dos mundos dos elementos e das suas fontes; e deixa o que se desfez do primeiro corpo, e do segundo, e do terceiro, e o que vem depois deles, em si mesmos, sem o usar nas composições futuras, até que estejam preparados para se compor deles as partes de cada corpo, e o restitua (ressuscite) no tempo em que quiser.

וכאשר זקקתי הרעיון והעלותי מיץ ההכרה, מצאתי זאת הסברא המתעה שאיננה אמת. והוא שיסודות הגוף כאשר נמקו, והגיע כל אחד מהם אל מוצאו מחם וקר ולח ויבש. אלו לא היה במוצא השרשי מה שיתרכב ממנו גוף שני כי אם מה שנתק מן הגוף הראשון, לא היה אפשר שיברא שני אלא על אחד משני פנים. אם שיהיו חלקיו חלקי הראשון, או שיברא בריאה. ועל שני הפנים יחדיו, יבטל שנות הגופים אחר שנמקו. אך מפני שהיו המוצאים יותר גדולים מחלקי כל המורכבים כפלים רבים אשר לא יספרו מרוב, כי החכמים יודעים שהאויר אשר בין הארץ ובין תחלת חלק מן השמים, כמו כל הארץ כלה ועפרה והריה וימיה וצמחיה ובעלי חיים שבה, אלף פעם ותשעה ושמונים פעם, מפני שהוא מוכה שלשה ושלשים בשלשה ושלשים. וכיון שהדבר כן, על הרחב הזה יכול בורא הגוף השני לשום חלקיו חלקים מן היסודות אשר לא שמש בם בגוף הראשון, וכי ירכיב השלישי מחלקים לא היו נמזגים בשני, וכן יחבר הרביעי מחלקים לא התערבו בשלישי, מפני רחב עולמי היסודות ומוצאיהם, ויעזוב נמקי הגוף הראשון והשני והשלישי, ומה שאחריהם בעצמם, לא ישמש להם בחבורים העתידים, עד שיהיו מוכנים לחבר מהם חלקי כל גוף וישיבהו בעת שירצה.
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E o que ainda facilita isto e o aproxima é que os que serão revividos em cinco mil anos não são, por via de aproximação, senão cinquenta gerações de filhos de homem — e a medida de todos eles não chega a ser nem uma só parte das partes da terra.

ומה שמקל את זה עוד ומקרב, כי המחויים בחמשת אלפים שנה, אינם על דרך הקירוב כי אם חמשים כת מבני אדם, ואין שיעורם כלם חלק אחד מחלקי הארץ.
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E, se um perguntador perguntar acerca daquele a quem as feras comeram — como será revivido, sendo que ele já se transformou em outros corpos? —, responderemos que aquele que faz esta objeção diz que os corpos comidos se acabam e se transformam nos corpos sobre os quais entraram (que os comeram). E convém que o respondamos a ambas as coisas juntas, pela raiz na qual nós, a comunidade dos monoteístas, cremos e que conhecemos: que não cabe a nenhum corpo dentre os criados acabar (aniquilar) um outro corpo de modo algum — ainda que o queime no fogo, não o poderá acabar jamais; pois ninguém pode acabar as coisas, fazendo-as tornar a nada, senão Aquele que as criou a partir de nada e as pôs existentes. Mas todos os criados não podem senão separar as partes do corpo, somente — de modo que o fogo, quando arde num corpo, não tem outro caminho senão separar os seus membros: e torna o calor que nele há à fonte do fogo, e a umidade e o frio às suas fontes, e resta a parte terrosa como cinza, sem que se acabe coisa alguma das partes dos elementos.

E, assim como faz o fogo visível ao olho, assim faz o fogo que há nos seres vivos à coisa comida. E, quando o vivente come uma maçã — à guisa de exemplo —, separam-se as suas partes, e o ar resseca, das suas partes, aquilo que é seu costume ressecar das partes da maçã continuamente; e aquilo que, se o ar não o achasse para ressecar das partes da maçã, semelhantemente o ressecaria aquele corpo vivo, continuamente, até que não reste nele senão a parte terrosa, somente. E, assim como a afirmação sobre a maçã comida, assim a afirmação sobre o homem comido: pois o ar resseca as partes que provêm dos três elementos do corpo vivo que o animal comeu, e resta a parte terrosa e desce; e não há diferença entre eles, exceto que as partes que tornaram ao ar a partir da maçã já comida mesclaram-se nos elementos radicais, ao passo que as partes que subiram ao ar a partir do corpo do homem comido ficam guardadas, sem se mesclarem nos elementos radicais, para que estejam preparadas para o tempo da “visitação” (pekidah) (a ressurreição), como antepusemos. E, quando passei estas coisas pelo coração, afastaram-se de mim aquelas dúvidas, e robusteceu-se a minha fé nesta doutrina, e firmei-me nela, e disse: louvado seja Aquele que é capaz sobre toda coisa!

ואם ישאל שואל על מי שאכלוהו החיות איך יחוייה והוא כבר נשתנה אל גופות אחרים? נשיב כי האומר המאמר הזה אומר, כי הגופים הנאכלים הם כלים ומשתנים אל הגופים אשר נכנסו עליהם. וראוי שנשיבהו אל שני הדברים יחד, בשרש אשר אנחנו קהל המיחדים מאמינים בו ונדעהו, כי אין לגוף מן הברואים לכלות גוף אחד בשום ענין אפילו אם ישרפהו באש לא יוכל לכלותו לעולם, כי לא יוכל לכלות הדברים עד שישובו לא דבר, כי אם מי שבראם לא מדבר, ושמם נמצאים; אבל כל הברואים אינו יכולים כי אם להפריד חלקי הגוף בלבד, עד שהאש כשהיא בוערת בגוף מן הגופים אין דרכה כי אם להפריד אבריו, וישוב החום אשר בו אל מוצא האש, והלחות והקור אל מוצאיהם, ותשאר העפרורית אפר, מבלתי שיכלה מחלקי היסודות. וכאשר תעשה האש הנראית לעין, כן תעשה האש אשר בבעלי חיים בדבר הנאכל. וכאשר יאכל החי תפוח על דרך הדמיון יפרדו חלקיו, וינגב האויר מחלקיו מה שדרכו לנגב מחלקי התפוח תמיד, ומה שאלו לא מצא לנגב מחלקי התפוח, היה מנגב כמוהו הגוף החי ההוא תמיד, עד שלא ישאר בו כי אם העפרורית בלבד. וכמו שהמאמר בתפוח הנאכל, כן המאמר באדם הנאכל, כי האויר מנגב החלקים אשר משלשה היסודות מגוף החי אשר אכלו, וישאר החלק העפרי ויורד למטה, ואין הפרש ביניהם, אלא שהחלקים אשר שבו אל האויר מן התפוח הנאכל כבר, התערבו ביסודות השרשיים, והחלקים אשר עלו אל האויר מגוף האדם הנאכל, הם שמורים בלתי מתערבים ביסודות השרשיים להיותם מוכנים לעת הפקידה כאשר הקדמנו. וכאשר העברתי הדברים האלה על לבי, סרו מעלי הספקות ההם, והתאמצה אמונתי בדעת הזה והחזקתי בו, ואמרתי ישתבח היכול על כל דבר:
Nota — a “física” de Saadiá: conservação da matéria e o problema do canibalismo Um dos trechos mais notáveis e quase "científicos" do livro. À objeção de que os corpos se decompõem, recombinam-se e até são comidos — de modo que a matéria de um já pertenceria a outro —, Saadiá responde com dois princípios. (1) Nada se aniquila: nenhuma criatura, nem o fogo, destrói matéria — apenas separa as partes; só o Criador, que fez do nada, pode reduzir a nada. É uma intuição de conservação da matéria. (2) A vastidão dos elementos: os reservatórios dos elementos são imensos (o ar sozinho, "1089 vezes" a terra), de modo que D'us pode compor cada corpo de matéria nunca antes usada, e "guardar" as partes do corpo comido, intactas, para a ressurreição (a pekidah). O cálculo é da cosmologia da época; o princípio é teológico.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Quando: na redenção, não apenas no Mundo Vindouro

Saadiá começa fixando a posição da "multidão de Israel" — a ressurreição ocorrerá no tempo da redenção (a era messiânica), e não somente na entrada ao Mundo Vindouro. É uma distinção importante na escatologia judaica: para Saadiá, há duas etapas — primeiro a ressurreição nacional, na redenção (tema deste tratado), e depois o Mundo Vindouro (tema do Tratado IX). Os "poucos" que adiam toda ressurreição para o Olam haBá apoiam-se, diz ele, numa "confusão fraca".

O argumento da natureza: o maior contém o menor

A primeira das quatro fontes é também a única que serve à objeção (as outras três também provam). E Saadiá desarma-a num lance: negar a ressurreição "porque a natureza não a faz" obriga a negar todo milagre e, no limite, a criação do mundo a partir do nada. Mas ressuscitar — reorganizar matéria que já existe — é mais fácil que criar do nada. Quem concede o maior não pode recusar o menor. O precedente concreto, indiscutível "junto ao nosso povo", é o menino ressuscitado por Elishá.

A objeção da "impossibilidade" e a resposta física

A segunda dúvida é mais sofisticada: a ressurreição seria um absurdo lógico, como desfazer o passado? Surge o velho enigma — corpos que se decompõem, se recombinam, são comidos: a mesma matéria pertenceria a vários. A resposta de Saadiá é de uma modernidade surpreendente: nada se aniquila (só o Criador pode reduzir ao nada; o fogo apenas separa), e os reservatórios dos elementos são tão vastos que D'us compõe cada corpo de matéria nova e guarda, intactas, as partes destinadas a ressuscitar. O cálculo cosmológico é do seu tempo; o princípio — conservação e providência sobre a matéria — é perene.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VII (A ressurreição dos mortos), cap. 1, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Mishlei 10:32; 10:21; Yeshayahu 35:3-4; II Melachim 4 (o filho da sunamita); e as alusões aos sinais de Moshé e Yehoshua. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VII · A ressurreição dos mortos · cap. 2

A Resposta do Intelecto — os Quatro Critérios de Interpretação

מַעֲנֵה הַשֵּׂכֶל — אַרְבָּעָה תְּנָאִים לְהוֹצָאַת כָּתוּב מִפְּשׁוּטוֹ

A segunda fonte de objeção é o intelecto. Saadiá mostra que a razão não refuta a ressurreição — e, ao fazê-lo, enuncia um dos princípios mais importantes da interpretação judaica: o peshat (sentido simples) prevalece sempre, salvo quando contraria os sentidos, a razão, outro versículo ou a tradição. E adverte: fora desses quatro casos, alegorizar é ilegítimo — por isso a ressurreição fica no seu sentido literal.

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E depois investiguei a segunda fonte, que é a que pondera com o intelecto, e indaguei se acharia para esta crença algo que a anulasse; e não achei o que pudesse pô-la em dúvida senão por três vias. A primeira delas: que o poder sobre a ressurreição dos mortos fosse coisa do domínio do falso (absurdo) — e já me firmei na conclusão de que não é assim, como expliquei no capítulo anterior. E a segunda: que Aquele que é capaz disto não o tivesse prometido — e achei que Ele o prometeu em muitos lugares da Escritura; ainda que seja possível supor neles muitas interpretações, a ponto de os versículos serem transferidos do tema da ressurreição dos mortos para outros temas, não vi que a especulação obrigue a rejeitar o que se mostra deles, porquanto é possível que a sua interpretação literal o suporte.

ואחר כן חקרתי במוצא השני אשר הוא המחשב בשכל, ודרשתי אם אמצא לאמונה הזאת מה שיבטל אותה, ולא מצאתי מה שמספק בה כי אם שלשה דרכים. האחת מהם שתהיה היכולת על תחיית המתים מן השקר, וכבר עמדתי על שאיננה כן כאשר בארתי. והשנית שיהיה היכול על זה לא הבטיחם בו, ומצאתיו שהבטיח בו במקומות רבים מן המקרא, אעפ"י שיתכן לסבור בהם סברות רבות עד שיעתקו מענין תחיית המתים אל ענינים אחרים, לא ראיתי העיון מחייב דחות הנראה מהם, בעבור שיתכן שתסבלהו הסברא,
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E é que nós, todos os filhos de Israel, cremos que tudo o que há nos livros dos profetas é conforme o que se mostra do seu sentido manifesto e o que é conhecido das suas palavras — exceto aquilo cujo sentido manifesto e conhecido conduz a uma de quatro coisas: ou a desmentir algo percebido pelos sentidos, como o que se disse acerca de Chavá (Bereshit 3:20): “pois ela era a mãe de todo vivente”; ou a contrariar o que está firmado no intelecto, como o que se disse (Devarim 4:24): “pois o Senhor teu D'us é um fogo consumidor”; ou a contradizer outra coisa escrita, como o que se disse (Malachi 3:10): “e provai-me agora”, depois de ter dito (Devarim 6:16): “não tentareis ao Senhor vosso D'us”; ou a desmentir o que receberam os nossos antepassados, como o que se disse (Devarim 25:3): “quarenta açoites lhe dará, não acrescentará”, e disseram os nossos mestres que são trinta e nove açoites.

והוא שאנחנו כל בני ישראל מאמינים, כי כל אשר בספרי הנביאים, הוא כאשר נראה ממשמעו והידוע ממלותיו, אלא מה שהנראה והידוע ממנו, מביא אל אחד מארבעה דברים, אם להכחיש מוחש כמו שנאמר על חוה, (בראשית ג' כ') כי היא היתה אם כל חי, או להשיב מה שיש בשכל, כמו שאמר (דברי ד' כ"ד) כי יי' אלהיך אש אוכלה. או לסתור דבר אחר כתוב, כמו שנאמר (מלאכי ג' י') ובחנוני נא, אחר שאמר (דברים ו' ט"ז) לא תנסו את יי' אלהיכם. או להכחיש מה שקבלוהו קדמוננו, כמו שאמר (שם כ"ה ג') ארבעים יכנו לא יוסיף, ואמרו רבותינו שהם שלשים ותשע מכה.
Nota — o princípio dos quatro critérios Este é um dos textos fundadores da hermenêutica judaica. A regra de Saadiá: o sentido literal/manifesto (peshat) da Escritura prevalece sempre — salvo quando ele conduz a uma de quatro contradições: (1) com algo percebido pelos sentidos; (2) com a razão; (3) com outro versículo; (4) com a tradição recebida. Só então — e só então — se interpreta figuradamente. A leitura não-literal é uma exceção controlada, jamais uma licença arbitrária. Este princípio tornar-se-ia um pilar do racionalismo judaico, retomado e desenvolvido pelo Rambam.
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E o caminho, em todos estes casos, é que se busque para eles uma acepção corrente na língua — dentre as acepções que é costume da língua empregar com aquelas palavras —, até que a leitura concorde com aquele outro dado e não o contradiga; pois isto, sem dúvida, encontra-se. Assim como achamos, para o seu dizer “mãe de todo vivente”, que fala dos seres humanos; e assim como achamos, para o seu dizer (Devarim 4:24) “pois o Senhor teu D'us é um fogo consumidor”, que é à guisa de comparação e aproximação — dizendo que o Seu castigo é como um fogo consumidor, que queima depressa, como disse (Devarim 32:22): “pois um fogo se acendeu na minha ira etc.”.

והדרך בכל אלה שיבוקש להם שער עובר בלשון, ממה שמנהג הלשון לשמש במלות ההם בו, עד שיסכים לענין ההוא ולא יחלוק עליו, כי זה ימצא בלי ספק, וכמצאנו למאמרו, אם כל חי, מדבר מבני אדם, וכמצאנו (דברי ד' כ"ד) לאמרו, כי יי' אלהיך אש אוכלה על דרך הדמיון והקירוב אומר, כי ענשו כאש אוכלה שהיא שורפת מהרה, כמו שאמר (שם ל"ב כ"ב) כי אש קדחה באפי וגו'.
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E assim como achamos, para o seu dizer (Malachi 3:10) “e provai-me (uvchanuni) agora nisto”, depois de ter dito (Devarim 6:16) “não tentareis (lo tenassu) ao Senhor”, há uma distinção: e é que a “prova” se dá de dois modos. Um deles é pôr à prova o poder do Criador — se é capaz da coisa ou não —, e isto é o proibido, como disse (Tehillim 78:18-19): “e tentaram a D'us no seu coração etc.: poderá D'us preparar uma mesa no deserto?”. E o segundo é o homem verificar a sua condição junto ao Criador — se tem junto a Ele algum mérito acrescido ou não —, depois de já admitir que Ele é capaz daquele feito; e isto é permitido, como disse acerca de Gideon (Shoftim 6:36-37): “e disse Gideon a D'us: se de facto vais salvar Israel pela minha mão ..., ensaiarei, peço-te, só desta vez com o velo de lã etc.” — e isto é como o que disse Malachi “provai-me agora nisto”.

וכמצאנו לאמרו (מלאכי ג' י') ובחנוני נא בזאת, אחר אמרו (דברים ו' ט"ז) לא תנסו את יי'. הפרש, והוא שהבחינה על שני פנים, אחד מהם יכולת הבורא היוכל על הדבר אם לא, וזה הוא האסור כאשר אמר (תהלי' ע"ח י"ח י"ט) וינסו אל בלבבם וגו' היוכל אל לערך שלחן במדבר, והשני בחינת האדם ענינו אצל הבורא, היש לו אצלו מעלה יתירה אם לא, אחר שהוא מודה שהוא יכול על המעשה ההוא, וזה מותר כאשר אמר בגדעון (שופטים ו' ל"ו) ויאמר גדעון אל האלהים אם ישך מושיע בידי את ישראל אנסה נא רק הפעם בגזה וגו' והוא כמו שאמרו בחנוני נא בזאת.
Nota — os dois tipos de “prova” (nissayon) Saadiá resolve a aparente contradição entre “não tentareis ao Senhor” (Devarim 6:16) e “provai-me agora” (Malachi 3:10) distinguindo dois sentidos de "provar". Proibido: testar se D'us é capaz de algo — a dúvida insolente da geração do deserto ("poderá D'us preparar uma mesa?", Tehillim 78). Permitido: uma vez já admitido que Ele é capaz, pedir um sinal para verificar a própria relação ou missão — como Gideon com o velo (Shoftim 6). A diferença é entre duvidar do poder divino e buscar confirmação da própria condição diante d'Ele.
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E achamos, para o seu dizer “quarenta lhe dará”, que é igual ao que transmitiram os nossos mestres, de bendita memória — a saber, que são trinta e nove; e é que se diz que a Escritura completou os trinta e nove e os chamou “quarenta”, assim como completou os trinta e nove anos em que Israel andou pelo deserto e os chamou “quarenta”, como disse (Bamidbar 14:34): “conforme o número dos dias em que espiastes a terra, quarenta dias — um dia para cada ano —, carregareis as vossas iniquidades quarenta anos” — sendo que o primeiro ano já tinha passado sem aquele castigo. E estas “saídas” interpretativas (totza'ot), nós as empregamos — e também todos os que ponderam —, quando nos força a tal uma coisa de uma destas quatro que mencionámos. Mas, quando não há necessidade de forçar toda coisa escrita, recebida e ouvida a sair de uma destas quatro que mencionámos, não é lícito buscar “saídas” e desvios pelos quais se afaste o tempo marcado da ressurreição dos mortos, a ponto de os tirarmos do seu sentido simples. Antes, convém que os deixemos como eles são — pois Aquele que os diz é capaz e os prometeu, ao mesmo tempo.

ומצאנו לאמרו ארבעים יכנו הוא שוה למה שהעתיקו רבותינו ז"ל שהוא ל"ט והוא שנאמר שהשלים הל"ט ושמם ארבעים כמו שהשלים הל"ט שנה שהלכו במדבר ושמם ארבעים, כמו שאמר (במדבר י"ד ל"ד) במספר הימים אשר תרתם את הארץ ארבעים יום יום לשנה תשאו את עונותיכם ארבעים שנה. והשנה הראשונה כבר עברה בלא הענש ההוא. ואלה התוצאות אנו נוהגים בהם וכל המעינים, כאשר יכריחנו דבר מאחת מאלה הארבעה אשר זכרנו, אבל כשאין צריך דוחק כל דבר כתוב ומקובל ונשמע מכל אחד מאלה הארבעה אשר זכרנום, לא יתכן לבקש תוצאות והעברות אשר בהם מועד תחיית המתים, עד שנוציאם מפשוטם. אך ראוי שנניחם כאשר הם, כי האומר אותם, הוא יכול ויועד יחד.
Nota — a contenção exegética: não alegorizar sem necessidade Tão importante quanto a regra é o seu limite: as "saídas" interpretativas (totza'ot) só se empregam quando um dos quatro critérios obriga. Onde nada força — onde o sentido simples não fere os sentidos, a razão, outro verso ou a tradição —, alegorizar é ilegítimo. É por isso que Saadiá mantém a ressurreição no peshat: não há razão para fugir dele. Esta contenção é o que distingue o racionalismo disciplinado do alegorismo que dissolve o texto ao sabor do intérprete — e responde, de antemão, aos "poucos" do cap. 1 que liam a ressurreição como metáfora.
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E a terceira via: que houvesse ramos (se'ifim) que se ramificassem desta raiz (da ressurreição) e a corrompessem, quando o homem os pusesse no seu coração — de modo que a raiz fosse impossível sem aqueles ramos, e estes fossem também eles impossíveis, donde se imporia, por necessidade, a anulação da raiz que conduz a eles e que os exige. E investiguei, e não achei nenhum ramo problemático após estas afirmações. E explicarei como é o seu andamento e a retidão dos seus aspectos, com a ajuda de D'us.

והשלישי, שיהיו סעיפים מסתעפים מהשרש הזה מפסידים אותו, כשיעלם אדם על לבו וכאשר אי אפשר לשרש בלתי הסעיפים ההם, ואי אפשר להם, יתחייב בהכרח בטול השרש המביא אליהם והמצריך להם. וחקרתי ולא מצאתי סעיף אחר המאמרים האלה. ואבאר איך הלוכם ויושר אפניהם בעזרת האל:

Sobre este capítulo · עִיּוּן

As três vias pelas quais a razão poderia objetar

Saadiá organiza a "fonte do intelecto" em três possibilidades lógicas: (1) a ressurreição seria absurda — já refutado no cap. 1; (2) D'us, embora capaz, não a teria prometido — mas Ele a prometeu em muitos versículos; (3) haveria um corolário destrutivo que tornasse a doutrina impossível — e ele não encontra nenhum. A segunda via abre o coração filosófico do capítulo: como ler os versículos que prometem a ressurreição?

O princípio dos quatro critérios

Aqui está a contribuição duradoura. Para Saadiá, a Escritura lê-se ao pé da letra por padrão; só quatro coisas autorizam o sentido figurado: contradição com a percepção sensível, com a razão, com outro versículo, ou com a tradição recebida. E o método, nesses casos, é encontrar uma acepção que "a língua suporte" — não inventar sentidos. É um equilíbrio admirável entre fidelidade ao texto e fidelidade à verdade, que o Rambam herdaria e tornaria célebre.

A disciplina que salva o peshat

O passo decisivo é o limite da regra: as "saídas" interpretativas só se usam quando algo as obriga. Como nada obriga a alegorizar a ressurreição — ela não fere os sentidos (é possível), nem a razão (é mais fácil que a criação), nem outro verso, nem a tradição (que a afirma) —, ela permanece no sentido simples. Assim, com a mesma régua hermenêutica que permite ler "fogo consumidor" como metáfora, Saadiá demonstra que a ressurreição não deve ser metaforizada. A disciplina exegética é, ela própria, um argumento.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VII (A ressurreição dos mortos), cap. 2, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Bereshit 3:20; Devarim 4:24; 6:16; 25:3; 32:22; Malachi 3:10; Tehillim 78:18-19; Shoftim 6:36-37; Bamidbar 14:34. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VII · A ressurreição dos mortos · cap. 3

A Resposta da Escritura — e Qohélet na Voz dos Tolos

מַעֲנֵה הַכָּתוּב — קֹהֶלֶת בְּשֵׁם הַכְּסִילִים

A terceira fonte de objeção é a própria Escritura: versículos que parecem negar a ressurreição. Saadiá mostra que eles descrevem apenas a impotência do morto — o que, longe de negar, exalta o poder de D'us em ressuscitá-lo. E desfaz a objeção mais forte: o célebre “os mortos nada sabem” (Qohélet 9:5) não é a voz do Sábio, mas a citação dos tolos — assim como a Torá cita as palavras do Faraó.

1

E depois investiguei a terceira fonte, que é o que está escrito na Escritura. E observei se talvez houvesse nela algo que impedisse a ressurreição dos mortos neste mundo, e achei algumas dúvidas em que é possível que se pendurem os que afastam (negam) isto; e vi por bem mencioná-las aqui e anulá-las. Dentre elas: “e lembrou-se de que eles são carne, um sopro que vai e não volta” (Tehillim 78:39). E disse ainda (ali 103:15): “o homem, os seus dias são como a erva etc.”; (Iyov 14:2) “como uma flor sai e murcha etc.”; “pois um sopro passa por ele e ele já não é etc.” (Tehillim 103:16). E disse ainda (Iyov 7:9-10): “como se desfaz uma nuvem e se vai etc.; não tornará mais à sua casa etc.”. E disse ainda (Iyov 14:12): “e o homem se deita e não se levanta”, e o que se assemelha a isto.

ואחר כן חקרתי במוצא השלישי, והוא הכתוב במקרא. והסתכלתי אולי יש בה מה שמונע תחיית המתים בעולם הזה, ומצאתי ספקות שאפשר שנתלים בה המרחיקים את זה, וראיתי לזכרם הנה ולבטלם. מהם ויזכור כי בשר המה רוח הולך ולא ישוב (תהלים ע"ח ל"ט). ואמר עוד (שם ק"ג ט"ו) אנוש כחציר ימיו וגו', (איוב י"ד ב') כציץ יצא וימל וגומר, כי רוח עברה בו ואיננו וגו'. (תהלים כ"ג ט"ז). ואמר עוד (איוב ז' י') כלה ענן וילך וגו' לא ישוב עוד לביתו וגו' ואמר עוד (שם י"ד י"ב) ואיש שכב ולא יקום ומה שדומה לזה.
2

E refleti bem em tudo isto, e não achei nem um deles em que o intento seja que o Criador disse que não fará viver os mortos; mas tudo isto é uma descrição de que o homem não pode levantar-se da sepultura depois de descer a ela, e de que não pode sacudir-se do pó e tornar à sua casa.

והתבוננתי כל זה היטב ולא מצאתי אחד מהם שהחפץ בו שהבורא אמר שלא יחיה את המתים אבל כל זה ספור שאין אדם יכול לקום מן הקבר אחר רדתו אליו, ושאינו יכול להנער מן העפר ולשוב אל ביתו.
Nota — os versículos que “negam” a ressurreição A terceira fonte de objeção é a própria Escritura: versículos como “um sopro que vai e não volta” (Tehillim 78:39), “o homem se deita e não se levanta” (Iyov 14:12). Saadiá responde com leitura contextual: nenhum deles afirma que D'us não ressuscitará — todos descrevem a impotência do morto em ressuscitar-se a si mesmo. Mais: muitos são súplicas humanas (o homem implora a misericórdia divina invocando a sua fragilidade), não declarações divinas. E há uma inversão brilhante: quanto mais a Escritura sublinha que o morto nada pode, mais exalta o poder de D'us, que é capaz de "visitar" (pekod) e reviver — a "grande maravilha" comparável ao Sinai (Devarim 4:32).
3

E o que houver destas afirmações que sejam palavras de seres humanos — são palavras com que eles suplicam diante do seu Criador e Lhe pedem que tenha misericórdia deles, por estarem nesta condição. E o que nelas há de palavras do Criador é a descrição de uma das razões pelas quais Ele tem misericórdia deles e os agracia — a saber, que eles estão nesta condição fraca, de pouca capacidade. E quanto mais os Livros acrescentarem a mencionar que o morto não pode fazer viver a si mesmo, nem se levantar do seu leito, mais acresce, junto a nós, a grandeza da capacidade do Criador — pois Ele é capaz de “visitar” (pekod) os filhos do homem e fazê-los viver; e esta será a grande maravilha, como disse acerca do ficar diante do monte Sinai (Devarim 4:32): “pois pergunta agora aos dias primeiros que houve antes de ti etc.: houve jamais coisa tão grande como esta, ou ouviu-se algo como ela?”. E assim os demais sinais e prodígios, que são maravilhosos aos olhos dos homens quanto a como foram; e assim os sinais vindouros serão maravilhosos aos seus olhos quanto a como serão, como disse (Yeshayahu 66:8): “quem ouviu coisa como esta? quem viu coisas como estas?”.

ומה שיהיה מהמאמרים האלה דברי בני אדם הוא, שמתחננים בו לפני בוראם ושואלים ממנו לרחם עליהם מפני שהם בענין הזה, ומה שיש דברי הבורא הוא ספור אחת מן החובות אשר בה ירחם עליהם ויחנם, והוא שהם בענין החלוש הזה ממעוט היכולת. וכל אשר יוסיפו הספרים לזכור שהמת לא יוכל להחיות את עצמו ולא יקום ממשכבו, תוסיף יכולת הבורא אצלנו גדולה, כי הוא יכול לפקוד את בני האדם ולהחיותם. ותהיה זאת הפליאה הגדולה, כמו שאמר על מעמד הר סיני (דברי ד' ל"ב), כי שאל נא לימים ראשונים אשר היו לפניך וגו' הנהיה כדבר הגדול הזה או הנשמע כמהו. וכן שאר האותות והמופתים אשר הם נפלאים בעיני בני אדם איך היו. וכן האותות העתידים נפלאים בעיניהם איך יהיו, כמו שאמר (ישעיה ט"ו ח') מי שמע כזאת מי ראה כאלה,
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E dentre elas, o que disse a Escritura (Kohelet 9:4-6): “pois quem está unido a todos os viventes tem confiança etc.; pois os viventes sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa alguma etc.; também o seu amor, também o seu ódio, também a sua inveja já pereceram etc.”. E ponderei na explicação destes versículos, e eis que eles dizem, conforme eu relato: que quem está unido aos viventes tem confiança, e “para um cão vivo é melhor do que para um leão morto” — e é que “os viventes sabem que hão de morrer, e os mortos não sabem coisa alguma”, e não lhes resta recompensa, pois se esqueceu a sua memória, a ponto de o seu amor, o seu ódio e a sua inveja já lhes terem perecido, e de não terem mais porção, para sempre, em coisa alguma que se faça debaixo do sol. E disse eu: esta dúvida é forte; é possível que se pendurem nela, ainda, os que sustentam esta opinião.

ומהם מה שאמר הכתוב, (קהלת ט' ד'-ו') כי מי אשר יחובר אל כל החיים יש בטחון וגו' כי החיים יודעים שימותו והמתים אינם יודעים מאומה וגו' גם אהבתם גם שנאתם גם קנאתם כבר אבדה וגו'. ועינתי בפרוש הפסוקים האלה, והם כאשר אני מספר כי מי שיחובר אל החיים יש לו בטחון, ולכלב החי טוב מן האריה המת, והוא שהחיים יודעים שימותו, והמתים אינם יודעים מאומה, ולא נשאר להם שכר כי נשכח זכרם, עד שאהבתם ושנאתם וקנאתם כבר אבדו להם, וחלק אין להם עוד לעולם בדבר שיעשה תחת הגלגל. ואמרתי שזאת הספיקה חזקה, אפשר שנתלים בה עוד מחזיקי הדעת הזה,
5

E observei o que há antes disto, e achei que o Sábio (Kohelet) antepôs que estas afirmações não são as suas próprias palavras sobre si mesmo, mas são o relato das palavras dos tolos e do que lhes sobe ao coração — como disse, antes dele do trecho, uma afirmação explícita (ali 9:3): “e também o coração dos filhos do homem está cheio de mal, e há desvario (holelut) no seu coração durante a sua vida, e depois vão-se para os mortos”. E a sua explicação é que os corações dos filhos do homem estão cheios de mal e de cogitações vãs; e então eles dizem “quem está unido aos viventes... pois os viventes sabem que hão de morrer... também o seu amor, também o seu ódio, também a sua inveja já pereceram”. E isto é como o que disse a Torá (Shemot 5:2): “e disse o Faraó: quem é o Senhor, para que eu ouça a Sua voz?” — que são palavras do Criador a relatar o que disse o Faraó; assim, estas afirmações são palavras do Sábio a relatar as palavras dos tolos.

והסתכלתי במה שיש לפני זה, ומצאתי החכם שהקדים, שהמאמרים האלה אינם דבריו על עצמו, אבל הם ספור דברי הכסילים ומה שעולה בלבם, כאשר אמר לפניו מאמר מפורש (שם ג') וגם לב בני האדם מלא רע והוללות בלבבם בחייהם ואחריו אל המתים. ופרושו שלבות בני האדם מלאים רע והרהורים, ואמר מי אשר יחובר, כי החיים יודעים שימותו, גם אהבתם גם שנאתם גם קנאתם כבר אבדה. וזה כמו שאמרה התורה (שמות ה׳:ב׳ ב') ויאמר פרעה מי יי' אשר אשמע בקולו. והוא דברי הבורא ספור מה שאמר פרעה, כן אלה המאמרים דברי החכם ספור דברי הכסילים.
Nota — Qohélet na voz dos tolos: “os mortos nada sabem” Este é um dos princípios exegéticos mais fecundos do capítulo. O versículo “os mortos não sabem coisa alguma” (Kohelet 9:5) é, há séculos, citado contra a vida após a morte. Saadiá mostra, pelo contexto, que não é a voz de Qohélet: o versículo anterior (9:3) declara que "o coração dos homens está cheio de mal e desvario" — e o que se segue é o relato dessa visão tola, não a doutrina do Sábio. O paralelo é decisivo: quando a Torá escreve “disse o Faraó: quem é o Senhor?” (Shemot 5:2), são palavras de D'us citando o Faraó — não a posição da Torá. A Escritura cita o erro para o expor, não para o ensinar; quem o abraça assemelha-se ao Faraó "cortado" (Tehillim 5:5).
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E, visto que o Sábio chamou estas afirmações “mal e desvario”, será justo que a condição daquele que as sustenta seja que ele não receba a face da Shechiná do seu Criador — pois a Escritura já esclareceu que os homens de mal e desvario não se postarão diante d'Ele nem habitarão junto a Ele, como disse (Tehillim 5:5): “não habitará contigo o mal; os desvairados (holelim) não se postarão diante dos teus olhos”. E a sua condição será a condição daquele que é “cortado” (nichrat), como o Faraó, de quem se disse “e disse o Faraó: quem é o Senhor?” e o resto do versículo. O Onipresente nos salve de toda insensatez!

ואחר שקרא החכם המאמרים האלה רע והוללות, יהיה ענין מי שהחזיק בם ראוי שלא יקביל פני שכינת בוראו, כי כבר באר כי אנשי רע והוללות לא יתיצבו לנגדו ולא יגורו אצלו, כמו שאמר (תהלים ה' ה') לא יגורך רע לא יתיצבו הוללים לנגד עיניך. ויהיה ענינו ענין הנכרת כפרעה אשר אמר בו ויאמר פרעה מי יי' ושאר הפסוק. המקום יצילנו מכל אולת:

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A terceira fonte: ler a Escritura no seu contexto

Saadiá enfrenta os versículos que, à primeira vista, parecem fechar a porta da ressurreição. O seu método é sempre o mesmo: ler cada frase no seu contexto e perguntar quem fala e o que afirma. Nenhum desses versículos diz que D'us não ressuscitará — descrevem a incapacidade do morto de voltar por si. A diferença entre "o homem não pode levantar-se" e "D'us não o levantará" é toda a diferença do mundo.

A inversão: a fraqueza do morto exalta o poder do Criador

O lance mais elegante é transformar a objeção em prova. Cada vez que a Escritura insiste em que o morto nada pode — que é pó, sopro que se vai —, ela aumenta a magnitude do milagre da ressurreição, que só D'us pode operar. É a mesma lógica do cap. 1 (ressuscitar é a "grande maravilha", como o Sinai): quanto mais impossível ao homem, mais glorioso ao Criador.

Quando a Escritura cita o erro

O ponto duradouro é hermenêutico: a Bíblia, por vezes, relata opiniões que rejeita. O coleta de Qohélet expõe a visão niilista dos "corações cheios de mal e desvario" (9:3) e depois a cita — "os mortos nada sabem" — não para ensiná-la, mas para retratá-la. O paralelo com "disse o Faraó: quem é o Senhor?" é definitivo: ninguém confunde a blasfêmia do Faraó com a voz da Torá. Assim, o versículo mais citado contra o além revela-se, lido em contexto, um retrato do tolo — não a doutrina do Sábio.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VII (A ressurreição dos mortos), cap. 3, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Tehillim 78:39; 103:15-16; 5:5; Iyov 14:2; 14:12; 7:9-10; Devarim 4:32; Yeshayahu 66:8; Kohelet 9:3-6; Shemot 5:2. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VII · A ressurreição dos mortos · cap. 4

As Provas da Escritura — Yechezkel, Yeshayahu e Daniel

מוֹפְתֵי הַכָּתוּב — יְחֶזְקֵאל, יְשַׁעְיָהוּ וְדָנִיֵּאל

Depois de remover as objeções, Saadiá traz a prova positiva: os três grandes textos da ressurreição — os ossos secos de Yechezkel (37), “viverão os teus mortos” de Yeshayahu (26:19) e “muitos dos que dormem no pó despertarão” de Daniel (12:2). Lê-os frase a frase, harmoniza-os entre si, e mostra que todos descrevem a ressurreição na redenção, neste mundo, para Israel.

1

E depois achei a Escritura explícita naquilo que o nosso Criador nos prometeu, a saber, o seu dizer: que, quando os filhos de Israel dizem “secaram os nossos ossos e pereceu a nossa esperança” (Yechezkel 37:11), disse-lhes o profeta: “assim diz o Senhor: eis que eu abro as vossas sepulturas, e far-vos-ei subir das vossas sepulturas, ó meu povo, e trar-vos-ei à terra de Israel; e porei o meu espírito em vós etc., e sabereis que eu sou o Senhor” (ali 37:12-14). Quer dizer: “prometi-vos, e cumpro o que vos prometi” — e é o seu dizer (ali 37:11): “e disse-me D'us: filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel; eis que eles dizem: secaram os nossos ossos etc.; por isso profetiza e dize-lhes: eis que eu abro as vossas sepulturas etc.”.

ואחר כן מצאתי הכתוב מפורש במה שיעדנו בוראנו, אמרו כי כאשר בני ישראל אומרים יבשו עצמותינו ואבדה תקותנו (יחזקאל ל"ז י"א) אמר להם הנביא, כה אמר יי' אני פותח את קברותיכם והעליתי אתכם מקברותיכם עמי והבאתי אתכם אל אדמת ישראל, ונתתי רוחי בכם וגו'. וידעת' כי אני יי' (שם יב-יד). ר"ל יעדתי אתכם, והקימותי מה שיעדתי אתכם והוא אמרו (שם י"א) ויאמר אלי בן אדם העצמות האלה כל בית ישראל המה הנה אומרי' יבשו עצמותינו וגו' לכן הנבא ואמרת אליהם הנה אני פותח את קברותיכם וגו'.
2

E o seu antepor, aqui, “eis que eles dizem: secaram os nossos ossos” refere-se àquele que sabia que isto nos subiria ao coração, e cogitaríamos nisto e diríamos: como viverão os ossos depois de secarem, e como tornará a umidade depois de se afastar, e como se ligará novamente entre eles e a alma depois da separação? E o seu dizer “e far-vos-ei subir das vossas sepulturas” vem esclarecer que este é um tempo marcado só para os filhos de Israel. E o seu dizer “e trar-vos-ei à terra de Israel” vem confirmar junto a nós que este tempo marcado é neste mundo — para que não cogitemos que é no Mundo Vindouro. E o seu dizer “e sabereis que eu sou o Senhor, ao abrir eu as vossas sepulturas e ao fazer-vos subir das vossas sepulturas, ó meu povo” é como um reconhecimento — de modo que cada um deles, quando viver, se lhe esclarecerá que ele é o que estava vivo, e é o que morreu, e é ele mesmo o que tornou a viver. E o seu dizer “e porei o meu espírito em vós e vivereis etc., e sabereis que eu, o Senhor, falei e fiz, diz o Senhor” vem esclarecer junto a nós que os dias da salvação terão longa duração neste mundo.

ותהיה הקדמתו הנה אומרים יבשו עצמותינו, על מי שידע שיעלה בלבנו ונחשוב בו ונאמר, איך יחיה העצמות אחר יבשם, וישיב הלחות אחר סורם ויחבר ביניהם ובין הנפש אחר הפרדה. ויהיה אמרו והעליתי אתכם מקברותכם, מבאר שזה מועד לבני ישראל לבדם. ויהיה אמרו והבאתי אתכם אל אדמת ישראל, לאמת אצלנו שזה המועד בעולם הזה, שלא נחשוב שהוא בעולם הבא. ויהיה אמרו וידעתם כי אני יי' בְּפִתְחִי אֶת קִבְרוֹתֵיכֶם וּבְהַעֲלוֹתִי אֶתְכֶם מִקִּבְרוֹתֵיכֶם עַמִּי, אשר הוא כמו שנוי, שכל אחד מהם כשיחיה יתברר לו כי הוא אשר היה חי, והוא אשר מת, והוא בעצמו אשר חיה. ויהיה אמרו ונתתי רוחי בכם וחייתם וגו'. וידעתם כי אני יי' דברתי ועשיתי נאם יי', להתברר אצלנו שימי הישועה יהיה להם אריכות בעולם הזה.
Nota — Yechezkel 37: os ossos secos, lidos frase a frase A grande prova escriturária da ressurreição é a visão do vale dos ossos secos (Yechezkel 37). Saadiá lê cada cláusula como uma resposta a uma dúvida: “far-vos-ei subir das sepulturas” fixa que o tempo é para Israel; “à terra de Israel” fixa que é neste mundo (e não no Mundo Vindouro); e “sabereis que eu sou o Senhor, ao abrir as vossas sepulturas” garante a identidade pessoal — cada ressuscitado reconhecerá que ele mesmo é quem viveu, morreu e tornou a viver. Não é uma alma anônima que retorna, mas a pessoa que era.
3

E achei ainda Yeshayahu a dizer “viverão os teus mortos, os meus cadáveres se levantarão etc.” (Yeshayahu 26:19), concordando com isto e ajustando-se a ele; e é que a sua explicação é: “viverão os teus mortos e levantar-se-ão os nossos corpos”, quando a Escritura disser “despertai e cantai, ó habitantes do pó, pois um orvalho de luzes é o teu orvalho, e a terra lançará fora os mortos”. “Viverão os teus mortos” assemelha-se ao seu dizer em Yechezkel “eis que eu abro as vossas sepulturas”; e “os meus cadáveres se levantarão” assemelha-se ao que ali disse “e far-vos-ei subir das vossas sepulturas”. E o que disse “despertai e cantai, ó habitantes do pó” assemelha-se ao seu dizer “e sabereis que eu sou o Senhor, ao abrir eu as vossas sepulturas” — pois aquele que desperta relata, ao despertar, o que viu no seu sonho, e sabe que ele é o que estava dormindo e é o que agora está acordado. E o seu dizer “pois um orvalho de luzes é o teu orvalho” assemelha-se ao que eles disseram ali “secaram os nossos ossos, pereceu a nossa esperança, fomos cortados”: e isto o “orvalho” é um umedecê-los e uma renovação da umidade (do corpo); mas “luzes” (orot) — alude com isso à alma, e a Escritura chamou-a “luzes” muitas, e não disse “uma luz”, por causa das muitas potências que ela tem, que são dezesseis potências, como expliquei no comentário à obra da Criação; e isto o regresso das “luzes” assemelha-se ao que disseram “pereceu a nossa esperança”.

ומצאתי עוד ישעיהו אומר, יהיו מתוך נבלתי יקומון וגו' (ישעיה כ"ו י"ט) מסכים לזה ונאות לו, והוא שפרושו יחיו מתיך ויקומו גויותינו, כשתאמר הקיצו ורננו שוכני עפר, כי טל אורות טלך, ואל הארץ תפיל המתים. ויחיו מתיך הוא דומה לאמרו, הנני פותח את קברותיכם, אך נבלתי יקומון הוא דומת למה שאמר שם והעליתי אתכם מקברותיכם. ומה שאמר הקיצו ורננו שוכני עפר. דומה לאמרו וידעתם כי אני יי' בפתחי את קברותכם. כי המקיץ מספר בהקיצו מה שראה בחלומו וידע כי הוא הוא אשר היה ישן והוא אשר נעור. ואמרו כי טל אורות טלך, דומה לאמרו שם, יבשו עצמותינו אבדה תקותינו נגזרנו לנו. וזה הרטבה להם וחדוש לחות, אבל אורות רומז בו אל הנפש, ושם אותה אורות רבות ולא אמר אור אחד, בעבור הכחות הרבים אשר לה, והם ששה עשר כחות, כאשר בארתי במעשה בראשית. והוא דומה למה שאמר אבדה תקותינו.
Nota — harmonizar os profetas, e as “dezesseis potências” da alma O método de Saadiá aqui é a concordância: ele alinha Yeshayahu 26:19 ("viverão os teus mortos... orvalho de luzes") com Yechezkel 37, cláusula a cláusula, mostrando que os profetas dizem o mesmo em imagens diferentes. O "orvalho" é a renovação da umidade (o corpo); as "luzes" (no plural) aludem à alma — plural, diz ele, "por causa das muitas potências que ela tem, dezesseis potências", remetendo ao seu comentário ao Sefer Yetzirá (a obra da Criação). Corpo e alma, juntos, respondem a "os nossos ossos secaram" e "a nossa esperança pereceu".
4

E achei ainda a afirmação de Daniel: “e muitos dos que dormem no pó da terra despertarão etc.” (Daniel 12:2). E esta afirmação, feita pelo anjo a Daniel, refere-se a este mundo, sem dúvida. E é que todas as coisas futuras que o anjo lhe deu a conhecer são quarenta e sete versículos: o primeiro deles é sobre o reino da Pérsia, a saber, o seu dizer (ali 11:2): “e agora a verdade te anunciarei: eis que haverá ainda três reis na Pérsia” — e bastou-lhe um versículo, por ser já o fim do seu reino. E depois treze versículos sobre o reino da Grécia (Yavan), a saber, o seu dizer (ali 11:3-16): “e levantar-se-á um rei poderoso” até “e fará o que vem contra ele segundo a sua vontade”. E depois vinte versículos sobre o reino de Roma, a saber, de “e fará o que vem contra ele” até “e fará o rei segundo a sua vontade” (ali 11:16-36). E depois dez versículos sobre o reino dos árabes, a saber, de “e fará o rei segundo a sua vontade” (ali 11:36) até “e naquele tempo se levantará Michael” (ali 12:1). E depois três versículos sobre a salvação: “e naquele tempo se levantará Michael etc.; e muitos dos que dormem na terra do pó despertarão etc.; e os sábios resplandecerão” (ali 12:1-3). E Daniel resumiu os seus assuntos, porque já se completara a sua explicação nos livros de Yeshayahu, Yirmeyahu e Yechezkel.

ומצאתי עוד מאמר דניאל ורבים מישיני עפר יקיצו וגו' (דניאל י"ב ב'). וזה המאמר מהמלאך לדניאל הוא לעולם הזה בלי ספק, והוא שכל העתידות אשר הודיעו הם שבעה וארבעים פסוק. הפסוק הראשון מהם במלכות פרס, והוא אמרו (שם י"א ב') ועתה אמת אגיד לך הנה עוד שלשה מלכים. והספיק לו פסוק אחד מפני שהיתה סוף מלכותם. ואחר כן שלשה עשר פסוק במלכות יון, והוא מאמרו (שם ג-טז) ועמד מלך גבור עד ויעש הבא אליו כרצונו. ואחר כן עשרים פסוק במלכית רומי. והם מאמרו (שם טז-לו) ויעש הבא אליו עד ועשה כרצונו המלך. ואחר כן עשרה פסוקים במלכות הערב, והם מן ועשה כרצונו המלך (שם ל"ו) עד ובעת ההיא יעמוד מיכאל (שם י"ב א'). ואחר כן שלשה פסוקים בישועה, ובעה ההיא יעמוד מיכאל וגו', ורבים מישיני אדמת עפר יקיצו וגו'. והמשכילים יזהירו (שם א-ג). וקצר עניניהם דניאל, מפני שכבר השלים באורם בספר ישעיה וירמיהו ויחזקאל.
Nota — Daniel 12 e a sequência dos reinos Saadiá lê a profecia final de Daniel (cap. 11–12) como uma sequência histórica contínua de 47 versículos: Pérsia, Grécia, Roma, "o reino dos árabes" e, por fim, a salvação. O argumento é de coerência: se os reinos descritos são deste mundo, então o "despertar dos que dormem no pó" (12:2), que vem na mesma sequência, também é deste mundo — a ressurreição na redenção. "Muitos" (não "todos") singulariza Israel dentre toda a humanidade. E a sua leitura de “estes para a vida eterna, estes para o opróbrio” é distintiva: não são dois destinos dos ressuscitados, mas o contraste entre os que despertam (à vida eterna) e os que permanecem na sepultura (ao opróbrio). A questão da recompensa e do castigo finais fica para o Tratado IX (o Mundo Vindouro).
5

E estes quarenta e sete versículos foram ditos juntos, acontecimento após acontecimento, em ordem. E, assim como os reis da Pérsia, da Grécia, dos romanos e dos árabes estão neste mundo, não no mundo vindouro — assim também “muitos dos que dormem na terra do pó despertarão” é neste mundo, não no vindouro. E o seu dizer “muitos” (rabim) — quer com isso dizer muitos dentre muitos deles. E é assim porque disse “dos que dormem na terra do pó”, e isto abrange todos os filhos do homem; por isso singularizou, ao dizer “muitos”, para com a palavra singularizar os filhos de Israel somente. E concorda com o seu dizer em Yechezkel “das vossas sepulturas, ó meu povo”, e com o que disse Yeshayahu “viverão os teus mortos”. E disse “pó”, de modo a assemelhar-se a “secaram os nossos ossos”, e a corresponder a “um orvalho de luzes é o orvalho”. E disse “despertarão” (yakitzu) para assemelhar-se a “despertai e cantai”, e para assemelhar-se a “e sabereis que eu sou o Senhor, ao abrir eu as vossas sepulturas”.

ואלה השבעה וארבעים פסוק נאמרו יחד מאורע אחר מאורע על הסדר. וכמו שמלכי פרס ויון והרומיי' והערב בעולם הזה לא בבא, גם כן ורבים מישיני אדמת עפר יקיצו, בעולם הזה לא בבא. ואמרו ורבים, רוצה בו רבים מרבים מהם. והוא כן בעבור שאמר מישיני אדמת עפר, וזה כולל כל בני אדם, על כן יחד באמרו ורבים, ליחד בו בני ישראל בלבד. ומסכים לאמרו מקברותיכם עמי, ואמרו יחיו מתיך. ואמרו עפר, עד שידמה ליבשו עצמותינו, ויהיה כנגד כי טל אורות טל. ואמרו יקיצו לדמות להקיצו ורננו, ולהדמות אל וידעתם כי אני יי' בפתחי את קברותיכם.
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Mas o seu dizer “estes para a vida eterna, e estes para o opróbrio” (Daniel 12:2) — não quer dizer a parte (categoria) dos que são revividos, de modo que parte deles fosse com o povo ao Gan Éden e parte com o povo à Geena; mas quis dizer a parte do povo que está nas sepulturas: e os “muitos” que despertam são para a vida eterna, e os outros, que não despertam, são para o “opróbrio eterno” (dera'on olam).

אבל אמרו אלה לחיי עולם ואלה לחרפות, אינו רוצה החלק המחויים עד שיהיה מהם עם בגן עדן ועם בגיהנם, אבל רצה החלק העם אשר בקברות, והרבים ההם אשר יקיצו, הם לחיי עולם, והאחרים אשר לא יקיצו, הם לדראון עולם:

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A prova positiva: três profetas, uma só promessa

Tendo desarmado as quatro fontes de objeção (caps. 1–3), Saadiá passa ao argumento construtivo: a ressurreição não é apenas possível — é prometida, e por três profetas. A sua técnica é a concordância: alinhar Yechezkel 37, Yeshayahu 26:19 e Daniel 12:2 de modo que cada imagem de um ilumine as dos outros. "Abrir as sepulturas", "viverão os teus mortos" e "despertarão do pó" dizem, em três línguas poéticas, a mesma realidade.

Quando, onde e para quem

As três coordenadas que Saadiá extrai dos versículos definem a sua escatologia: quando — na redenção (a sequência de Daniel, dos reinos à salvação, situa-a na história); onde — "à terra de Israel", isto é, neste mundo, e não apenas no Mundo Vindouro; para quem — "ó meu povo", "muitos" dentre toda a humanidade, ou seja, Israel. A ressurreição da redenção é, para ele, distinta do destino último das almas (Tratado IX).

A identidade que desperta

Um traço fino: a insistência de Saadiá em que o ressuscitado reconhece a si mesmo — "saberá que ele é o que viveu, morreu e tornou a viver", como quem acorda e sabe que é o mesmo que dormiu. A ressurreição não cria uma pessoa nova nem devolve uma alma anônima: restitui o indivíduo. É a contraparte pessoal da promessa nacional — e responde, no plano da experiência, à angústia de "a nossa esperança pereceu".

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VII (A ressurreição dos mortos), cap. 4, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Yechezkel 37:11-14; Yeshayahu 26:19; Daniel 11:2–12:3. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VII · A ressurreição dos mortos · cap. 5

Se a Ressurreição é Metáfora, Toda a Torá se Desfaz

אִם נִדְרֹשׁ הַתְּחִיָּה כְּמָשָׁל — תִּתְפָּרֵק כָּל הַתּוֹרָה

Saadiá enfrenta a tentação alegórica: e se a ressurreição fosse só uma metáfora da restauração nacional? Ele concede a possibilidade linguística — e então mostra aonde ela leva. Se a mera possibilidade de ler de outro modo bastasse, a mesma régua dissolveria os mandamentos, a Criação e os milagres. O dilema é cortante: ou se alegoriza tudo — e se sai do judaísmo — ou a objeção contra a ressurreição desmorona.

1

E, quando achei estes versículos e os que se lhes assemelham, ponderei-os bem depois disto, e disse: talvez seja possível supor nestes versículos outras interpretações, de modo que se transfiram do tema da ressurreição dos mortos para o tema do “reviver dos reis” e do estabelecimento do reino. E para isso seria preciso conduzi-los por este caminho: que o erguer do humilde, da condição de baixeza para a condição de grandeza e elevação, se assemelha ao erguer do pó — como disse (Tehillim 113:7): “o que levanta do pó o pobre”; e disse “porquanto te ergui do pó” (I Melachim 14:7); e que aquele que está em aperto e angústia se assemelha aos mortos — como disse (Tehillim 88:6): “livre entre os mortos, como os abatidos que jazem na sepultura etc.”; e disse ainda “fui esquecido como um morto, longe do coração etc.” (ali 31:13); e que a sua salvação daquela condição se assemelha à ressurreição — como disse “tu, que nos fizeste ver muitas angústias e males, tornarás a dar-nos vida etc.” (ali 71:20); e disse ainda “porventura não tornarás a dar-nos vida? etc.” (ali 85:7).

וכאשר מצאתי הפסוקים האלה והדומים להם, חשבתים היטב אחר כן ואמרתי, אולי יתכן לסבור בפסוקים האלה סברות אחרות, עד שישובו מענין תחיית המתים אל ענין החיות המלכים והעמדת המלכות, וצריך להנהיגם המנהג הזה, והוא שהרמת השפל מענין השפלות אל ענין הגדולה והרוממות, ידומה להרמה מן העפר. כמו שאמר (תהלים קי"ג ז') מקימי מעפר דל. ואמר יען אשר הרימותיך מן העפר (מ"א י"ד ז'). ודמה מי שהוא בצוק ובצרה למתים, כמו שאמר (תהלים פ"ח ו') במתים חפשי כמו חללים שוכני קבר וגומר ואמר עוד נשכחתי כמת מלב וגו' (שם ל"א י"ג). וידמו תשועתו מהענין ההוא לתחייה, כמו שאמר אשר הראיתנו צרות רבות ורעות תשוב תחיינו וגו' (שם ע"א כ'). ואמר עוד הלא אתה תשוב תחיינו וגו' (שם פ"ה ז').
Nota — a leitura alegórica que será refutada Antes de refutar, Saadiá expõe honestamente a posição adversária: e se os versículos da ressurreição fossem metáfora da restauração nacional? Há, de facto, uma rica linguagem bíblica que iguala a queda à morte ("livre entre os mortos", Tehillim 88:6) e a salvação ao reviver ("tornarás a dar-nos vida", Tehillim 71:20; 85:7), e a ascensão ao "erguer do pó" (Tehillim 113:7). O alegorista poderia, com esses paralelos, ler "abro as vossas sepulturas" como "reergo o vosso reino". Saadiá concede a possibilidade linguística — para então mostrar aonde ela leva.
2

E refleti, com a especulação e o rigor, no seguinte: se fosse obrigatório ou cabível que supuséssemos estas passagens, nas quais há a ressurreição dos mortos, por estes caminhos alegóricos — a ponto de as transferirmos do seu sentido simples sem um constrangimento que a isso conduzisse —, então seria obrigatório e cabível, por este mesmo caminho, supor nos mandamentos “aurais” (= revelados, rituais), e nas narrativas antigas (haggadot), e nos sinais e prodígios mencionados, outras interpretações — a ponto de não restar deles coisa alguma no seu sentido simples, mas de se transferirem todos para outros temas.

והתבוננתי עם העיון והחיוב, כי אם יתחייב או יכשר שנסבור פרשיות האלה אשר יש בהם תחיית המתים על הדרכים האלה, עד שנעתקו מפשוטם מבלי דוחק שיביא אל זה, יתחייב ויכשר על הדרך הזה, לסבור במצות השמעיות, וההגדות הקדמוניות, והאותות והנזכרות, סברות אחרות, עד שלא ישאר מהם דבר כפשוטו, אך יעתקו אל ענינים אחרים.
3

E figurarei (darei como exemplo) disso algo dos mandamentos “aurais”. “E não se comerá chametz” (Shemot 13:3) — é possível que se suponha nele “e não haja entre vós fornicação”, por se ter o chametz assemelhado ao pão que é fermentado, ao qual é impossível não se aderir, como disseram (Hoshea 7:4): “todos eles são adúlteros, como um forno etc., desde o amassar da massa até o seu fermentar”. E o seu dizer “não acendereis fogo etc.” (Shemot 35:3) — é possível que se suponha nele “não saiais à guerra”, pois já se assemelhou ela a guerra ao fogo, ao dizer (Bamidbar 21:28): “pois um fogo saiu de Cheshbon, uma chama da cidade de Sichon”. E o seu dizer (Devarim 22:6) “não tomarás a mãe sobre os filhos” — é possível supor nele: “quando subjugardes os vossos inimigos, não mateis os anciãos com os jovens”, como disse (Hoshea 10:14): “como a destruição de Shalman em Beit-Arbel, no dia da guerra, quando a mãe foi despedaçada sobre os filhos” — até que não reste mandamento “aural” no seu sentido literal.

ואדמה מהם קצת מן המצות השמעיות. ולא יאכל חמץ, (שמות י"ג ג') אפשר שיסברו בו ולא יהיה ביניכם זנות, מפני שדמה אותו בלחם אשר הוא חמץ, שאי אפשר שלא לדבקו, כאמרם (הושע ז' ד') כלם מנאפים כמו תנור וגו' מלוש בצק עד חמצתו. ואמרו לא תבערו אש וגו' (שמות ל"ה ג') אפשר שיסברו בו אל תצאו למלחמה מפני שכבר דמה אותה לאש, באמרו (במדבר כ"א כ"ח) כי אש יצאה מחשבון להבה מקרית סיחן. ואמרו (דברים כ"ב ו') לא תקח האם על הבנים. יתכן לסבור בו, כשתכבשו את אויביכם, לא תהרגו הזקנים עם הבחורים. כמו שאמר (הושע י' י"ד) כשוד שלמן בית ארבאל ביום מלחמה אם אל בנים רוטשה, עד שלא תשאר מצוה שמעית.
4

E das narrativas antigas, as palavras da Criação: o seu dizer “no princípio criou D'us os céus e a terra” — é possível supor nele a restauração da condição de uma nação dentre as nações, como disse, acerca da ruína da condição da nossa nação (Yirmeyahu 4:23): “vi a terra, e eis que era tohu vavohu, e olhei para os céus, e não havia a sua luz”; e disse, acerca do restabelecimento da sua condição (Yeshayahu 65:17): “pois eis que eu crio céus novos e terra nova”. E assim suporiam em “brote a terra erva e relva” — a paz (o bem-estar) dos corpos, como disse (ali 66:14): “e os vossos ossos florescerão como a relva”. E assim em “árvore que faz fruto” — o grande rei, como disse (Yechezkel 17:23): “no monte alto de Israel a plantarei, e levantará ramo e fará fruto etc.”. E assim “haja luzeiros” — a Torá, os profetas e a sabedoria, como disse (Mishlei 6:23): “pois lâmpada é o mandamento, e a Torá é luz”; “lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para a minha vereda” (Tehillim 119:105) — até que não reste criação, da obra da Criação, que não saia do sentido simples do tema, que é a criação e a formação.

ומההגדות הקדמוניות דברי הבריאה, אמרו בראשית ברא אלהים את השמים ואת הארץ, יתכן תקון ענין אומה מן האומות, כאשר אמר בהפסד ענין אומתינו, ראיתי את הארץ והנה תהו ובהו ואל השמים ואין אורם (ירמי' ד' כ"ג), ואמר בהשבת תקונה, כי הנני בורא שמים חדשים וארץ חדשה (ישעיה ס"ה י"ז). וכן יסברו בתדשא הארץ דשא עשב, שלום הגופות, כמו שאמר (שם ס"ו י"ד) ועצמותיכם כדשא תפרחנה. וכן בפרי עושה פרי, המלך הגדול, כמו שאמר (יחזקאל י״ז:כ״ג כ"ג) בהר מרום ישראל אשתלנו ונשא ענף ועשה פרי וגו'. וכן יהי מאורות, תורה ונביאים וחכמה, כמו שאמר (משלי ו' כ"ג) כי נר מצוה ותורה אור, נר לרגלי דבריך ואור לנתיבתי (תהלים קי"ט ק"ה), עד שלא תשאר בריאה ממעשה בראשית, שלא תצא מפשוטו של ענין אשר הוא הבריאה והיצירה.
5

E no relato dos sinais e dos prodígios suporiam também: “e vieram os filhos de Israel pelo meio do mar, em seco, e as águas eram para eles muro à sua direita e à sua esquerda” (Shemot 14:22) — que vieram para o meio do exército do Faraó, e eles os egípcios estavam postados à direita e à esquerda, secos — pois o exército assemelha-se às águas, como disse acerca de Sancheriv (Yeshayahu 8:7): “por isso, eis que o Senhor faz subir sobre eles as águas do rio, fortes e muitas — o rei da Assíria”; e mesmo acerca do próprio Faraó disse, “antes que o Faraó ferisse Gaza: assim diz o Senhor, eis que águas sobem do norte e tornar-se-ão numa torrente que transborda” (Yirmeyahu 47:1-2). E suporiam em “e o sol se deteve, e a lua parou” (Yehoshua 10:13) — o aparecer do reino e a sua exaltação, assim como se assemelhou o seu afastamento e enfraquecimento ao pôr do sol, ao dizer (Michá 3:6): “e o sol se porá sobre os profetas, e enegrecer-se-á sobre eles o dia”; e disse ainda (Yirmeyahu 15:9): “pôs-se o seu sol enquanto ainda era dia”; e disse, acerca da restauração disto (Yeshayahu 30:26): “e será a luz da lua como a luz do sol etc.” — até que não reste prodígio nem sinal que não saia do seu sentido simples, e todos sejam anulados.

ובספור האותות והמופתים, יסברו גם כן, ויבאו בני ישראל בתוך הים ביבשה, והמים להם חומה מימינם ומשמאלם, (שמות י"ד כ"ב) שבאו בתוך חיל פרעה, והם עומדים מימין ומשמאל יבשים. כי החיל ידומה למים, כמו שאמר בסנחריב (ישעיה ח' ז') ולכן הנה יי' מעלה עליהם את מי הנהר העצומים והרבים את מלך אשור. אף בפרעה עצמו אמר, בטרם יכה פרעה את עזה, כה אמר יי' הנה מים עולים מצפון והיו לנחל שוטף (ירמיה מ"ז א' ב'). ויסברו בוידום השמש וירח עמד (יהושע י' י"ג), בהראות המלכות ורוממותה, כאשר דמה הסרתה וחלשתה בבא השמש, באמרו (מיכה ג' ו') ובאה השמש על הנביאי' וקדר עליהם היום, ואמר עוד (ירמיה ט"ו ט'), באה שמשה בעוד יומם, ואמר בתקון זה והיה אור הלבנה כאור החמה וגו' (ישעיה ל' כ"ו), עד שלא ישאר מופת ולא אות שלא יצא מפשוטו ויבוטלו.
Nota — o fio que desfia toda a Torá Aqui está o reductio. Se a mera possibilidade de uma leitura figurada bastasse para alegorizar a ressurreição, a mesma régua dissolveria tudo: os mandamentos ("não comer chametz" → "não fornicar"; "não acender fogo" → "não ir à guerra"; o ninho do pássaro → poupar anciãos); o relato da Criação ("no princípio criou" → a fundação de uma nação; "haja luzeiros" → Torá e profecia); e os milagres (a divisão do mar → o exército do Faraó, pois "exército" é "águas"; o sol parado de Yehoshua → a ascensão do reino). Cada exemplo tem um versículo de apoio — o que prova precisamente o ponto: sempre se acha um paralelo. A possibilidade, sozinha, não autoriza nada.
6

E sabe: aquele que obriga ou admite supor que o relato da ressurreição dos mortos são parábolas — porque é possível supor neles outro caminho — fica obrigado a obrigar e a admitir o mesmo quanto ao relato da obra da Criação, e a todos os sinais e prodígios, e a todos os mandamentos “aurais”, até pô-los a todos como parábolas, pois é possível supor neles outras interpretações. E, se alguém aceitar isto sobre si, sai da categoria da Torá de Israel; e, se recusar fazê-lo, anula-se o que nos opôs em algo semelhante, a saber, na ressurreição dos mortos.

ותדע מי שמחייב או מכשיר לסבור בספור תחיית המתים שהם משלים, מפני שיתכן שיסברו בם דרך אחרת, שמתחייב לחייב ולהכשיר לדבור בספור מעשה בראשית ובכל האותות והמופתים וכל המצות השמעיות עד שישימם כלם משלים, כי אפשר שיסברו בם סברות, ואם יקבל זה על עצמו, יצא מכלל תורת ישראל, ואם ימאן לעשות כן, יבטל מה שהקשה עלינו בכמוהו בתחיית המתים:
Nota — o dilema final A conclusão fecha a armadilha lógica: quem alegoriza a ressurreição "porque se pode ler de outro modo" deve, por coerência, alegorizar a Criação, os milagres e todos os preceitos — e então "sai da categoria da Torá de Israel". Mas se recua diante disso (como todo crente recua), então o seu próprio princípio se volta contra ele, e a objeção à ressurreição "anula-se". É a contraparte construtiva do cap. 2: o sentido literal só cede aos quatro critérios (sentidos, razão, outro verso, tradição) — e nenhum deles obriga a metaforizar a ressurreição. A disciplina exegética não é rigidez; é o que impede a Torá inteira de evaporar.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A honestidade de expor o adversário

É notável que Saadiá não caricature a posição que combate. Ele constrói, com versículos reais, a melhor versão da leitura alegórica — a ressurreição como cifra da revivescência nacional de Israel. A linguagem bíblica de fato iguala a queda à morte e a redenção ao reviver. Só depois de conceder essa possibilidade é que ele desfere o golpe.

O reductio: a régua que tudo dissolve

O argumento é de uma elegância implacável. O alegorista justifica-se dizendo "é possível ler de outro modo". Saadiá responde mostrando que essa justificativa prova demais: com ela, "não comer chametz" vira "não fornicar", a divisão do mar vira a derrota do exército do Faraó, e "no princípio criou D'us" vira a fundação de uma nação. Como sempre se acha um paralelo bíblico, a mera possibilidade autorizaria desmanchar a Torá inteira em alegoria. Logo, a possibilidade — sozinha — não autoriza nada.

O dilema e o elo com os quatro critérios

A conclusão encurrala o adversário num dilema sem saída: alegorizar tudo (e abandonar a Torá de Israel) ou abandonar a objeção à ressurreição. Não há meio-termo coerente. E aqui se vê por que o princípio do cap. 2 era tão importante: o sentido literal só cede quando um dos quatro critérios obriga — e nenhum obriga a metaforizar a ressurreição. A disciplina hermenêutica de Saadiá não é literalismo cego; é exatamente o que protege tanto a interpretação legítima quanto a integridade do texto.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VII (A ressurreição dos mortos), cap. 5, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Tehillim 113:7; 88:6; 31:13; 71:20; 85:7; 119:105; I Melachim 14:7; Shemot 13:3; 35:3; 14:22; Devarim 22:6; Bamidbar 21:28; Hoshea 7:4; 10:14; Yirmeyahu 4:23; 15:9; 47:1-2; Yeshayahu 65:17; 66:14; 8:7; 30:26; Yechezkel 17:23; Mishlei 6:23; Yehoshua 10:13; Michá 3:6. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VII · A ressurreição dos mortos · cap. 6

O Testemunho do Cântico — “Eu Mato e Faço Viver”

עֵדוּת הַשִּׁירָה — “אֲנִי אָמִית וַאֲחַיֶּה”

Saadiá lê o cântico de Ha'azinu (Devarim 32) — a "testemunha" que D'us pôs em Israel — como um resumo profético, em ordem, de toda a história do povo: bondade, rebelião, castigo, compaixão e redenção. No clímax, “vede agora que eu, eu o sou” responde a quatro negadores de uma vez — e “eu mato e faço viver, feri e curo” prova que é o mesmo que morreu quem torna a viver.

1

E depois contemplei na Torá, no cântico que D'us pôs nela como testemunha sobre os filhos de Israel — como disse (Devarim 31:19): “para que este cântico me seja por testemunha entre os filhos de Israel”. E achei nele a menção da ressurreição dos mortos no tempo da salvação; e ele o cântico traz a matéria em ordem. Primeiro relatou a Sua bondade para com Israel, ao dizer (ali 32:6): “porventura não é Ele o teu pai, que te adquiriu? Ele te fez e te estabeleceu”, até “e o sangue da uva bebeste, vinho” (ali 32:14).

ואחר כן התבוננתי בתורה בשירה אשר שמה לעד לו על בני ישראל, כאשר אמר (דברים ל"א י"ט) למען תהיה לי השירה הזאת לעד בבני ישראל. ומצאתי בה זכרון תחיית המתים בעת הישועה, והוא מביאה על סדר. ספר תחלה חסדו על עצמו, באמרו (שם ל"ב ו') הלא הוא אביך קנך הוא עשך ויכוננך, עד ודם ענב תשתה חמר (שם י"ד).
Nota — Ha'azinu, o cântico-testemunha Tendo esgotado natureza, intelecto e Escritura profética, Saadiá recorre à Torá mesma — ao cântico de Ha'azinu (Devarim 32), que D'us designou como "testemunha entre os filhos de Israel" (Devarim 31:19). Ele lê o cântico como um resumo profético, em ordem, de toda a história de Israel: a bondade inicial, a rebelião, a ira e o castigo, a compaixão quando o inimigo se exalta, e enfim a redenção. A ressurreição não é um apêndice — está embutida na sequência narrativa da salvação, no seu lugar próprio.
2

E depois relatou o seu escoicear e a sua negação: “e Yeshurun engordou e escoiceou” (ali 32:15), até “pela provocação dos seus filhos e das suas filhas” (ali 32:19). E depois relatou a Sua ira contra eles e o Seu castigo a eles, ao dizer (ali 32:20): “e disse: esconderei a minha face deles etc.”, até “farei cessar dentre os homens a sua memória” (ali 32:26).

ואחר כן ספר בעטם וכחשם, וישמן ישורון ויבעט (שם ט"ו), עד מכעס בניו ובנותיו (שם י"ט). ואחר כן ספר קצפו עליהם וענשו להם, באמרו (שם כ') ויאמר אסתירה פני מהם וגו' אשביתה מאנוש זכרם (שם כ"ו)
3

E depois relatou a Sua compaixão por eles, quando o inimigo prevalece sobre eles e se exalta, ao dizer (ali 32:27): “não fora a provocação do inimigo, que eu temo”; e o que está destinado ao inimigo, de vingança e de retribuição, ao dizer (ali 32:34): “porventura não está isto guardado comigo?”; e relatou a Sua misericórdia para com o Seu povo no tempo da sua grande fraqueza e da escassez da sua força, ao dizer (ali 32:36): “pois o Senhor julgará o Seu povo”, até “seja ela sobre vós um abrigo” (ali 32:38).

ואחר כן ספר חמלתו עליהם בגבור האויב עליהם והתרוממו, באמרו (שם כ"ז) לולא כעס אויב אגור, ומה שעתד לאויב מן הנקמה והשלום, באמרו (שם ל"ד) הלא הוא כמוס עמדי, ומרחמיו על עמו בעת רוב חולשתו ומיעוט יכלתו, באמרו (שם ל"ו) כי ידין יי' עמו, עד יהי עליכם סתרה (שם ל"ח).
4

E depois prometeu, ao revelar-Se, salvá-lo e redimi-lo, ao dizer (ali 32:39): “vede agora que eu, eu o sou”. E respondeu, com isto, às quatro espécies de negadores. Os primeiros deles são o que diz que não há Criador — respondeu-lhes ao dizer “vede agora que eu, eu o sou”. E dentre eles há o que diz que Ele é Criador, mas que associou um parceiro a Ele — respondeu-lhe “e não há D'us comigo”. E o terceiro é o que negou a ressurreição dos mortos — respondeu-lhes ao dizer “eu mato e faço viver”. E, porque sabia que haveria quem dissesse que o seu intento, ao dizer “eu mato e faço viver”, é que Ele mata uma geração e faz viver outra geração depois dela, juntou-lhe “feri e eu curo” — para esclarecer junto a nós que, assim como o curado é o mesmo que Ele feriu, assim o que é feito viver é o mesmo que Ele matou. E o quarto é o que negou o cômputo (o juízo) e o castigo — respondeu-lhe ao dizer “e não há quem livre da minha mão”.

ואחר כן יעד בהגלותו להצילו ולגאול אותו, באמרו (שם ל"ט) ראו עתה כי אני אני הוא. והשיב בזה על ארבעת מיני המכחישים. הראשונים מהם מי שאמר כי אין בורא. השיב עליהם באמרו, ראו עתה כי אני אני הוא. ומהם מי שאמר שהוא בורא אך שתף עמו. השיב עליו ואין אלהים עמדי. והשלישי מי שהכחיש תחיית המתים. השיב עליהם באמרו, אני אמית ואחיה. ובעבור שידע שיהיה מי שיאמר, כי רוצה באמרו אני אמית ואחיה שהוא ממית דור ומחיה דור אחר אחריו, חבר אליו מחצתי ואני ארפא, לברר אצלנו כי כאשר הנרפא הוא אשר מחץ כן המחויה הוא אשר המית. והרביעי מי שהכחיש החשבון והענש. השיב עליו באמרו, ואין מידי מציל.
Nota — “eu mato e faço viver, feri e curo” (Devarim 32:39) O versículo central do capítulo é lido como uma resposta condensada a quatro negadores numa só frase: “vede agora que eu, eu o sou” (contra o ateu); “e não há D'us comigo” (contra o associacionista); “eu mato e faço viver” (contra quem nega a ressurreição); “e não há quem livre da minha mão” (contra quem nega o juízo). E Saadiá antecipa uma objeção sutil: "eu mato e faço viver" poderia significar apenas "mato uma geração e crio outra". A resposta está no paralelismo: “feri e eu curo” — o curado é o mesmo que foi ferido; logo o revivido é o mesmo que morreu. É a identidade pessoal na ressurreição (eco de VII·4), agora ancorada na própria Torá.
5

E depois ordenou os demais assuntos da salvação, ao dizer “se eu afiar o relâmpago da minha espada” (ali 32:41), “embriagarei as minhas flechas de sangue” (ali 32:42), “exultai, ó nações, com o Seu povo” (ali 32:43). E tudo isto é neste mundo, como expliquei e esclareci.

ואחר כן סדר שאר עניני הישועה, באמרו אם שנותי ברק חרבי (שם מ"א), אשכיר חצי מדם (שם מ"ב), הרנינו גוים עמו (שם מ"ג). וכל זה בעולם הזה, כאשר פרשתי ובארתי:

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A Torá como testemunha estruturada

Depois das objeções (caps. 1–3) e das provas proféticas (cap. 4), Saadiá recorre ao coração da Torá: o cântico de Ha'azinu, que a própria Escritura designa como "testemunha". O seu argumento é de composição: o cântico narra, em sequência ordenada, bondade → rebelião → castigo → compaixão → redenção. A ressurreição surge exatamente no ponto da redenção — não como leitura forçada, mas como o sentido natural do lugar que ocupa na estrutura.

Quatro negadores, um só versículo

“Vede agora que eu, eu o sou, e não há D'us comigo; eu mato e faço viver, feri e curo, e não há quem livre da minha mão” (Devarim 32:39) é lido como uma refutação quádrupla: ao ateu, ao associacionista, a quem nega a ressurreição e a quem nega o juízo. A economia é admirável — toda a teologia do tratado cabe num versículo da Torá.

“Feri e curo”: a mesma pessoa

O toque mais fino responde a uma objeção que poderia esvaziar o versículo: e se "eu mato e faço viver" significasse apenas a sucessão das gerações (mata uns, gera outros)? Saadiá ancora-se no paralelismo do próprio verso: “feri e eu curo” — ninguém entende que Ele fere um e cura outro; cura-se o mesmo que foi ferido. Logo, revive-se o mesmo que morreu. A ressurreição restitui o indivíduo — e isto, agora, dito pela boca da Torá.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VII (A ressurreição dos mortos), cap. 6, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Devarim 31:19; 32:6, 14, 15, 19, 20, 26, 27, 34, 36, 38, 39, 41, 42, 43. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VII · A ressurreição dos mortos · cap. 7

O Testemunho da Tradição — os Sete Pastores e os Oito Príncipes

מַעֲנֵה הַקַּבָּלָה — שִׁבְעָה רוֹעִים וּשְׁמֹנָה נְסִיכִים

A quarta e última fonte é a tradição (a transmissão dos profetas e a receção dos Sábios), "cheia" de menções da ressurreição. Saadiá traz alguns exemplos: os sete pastores e oito príncipes de Michá reunidos na redenção; quem morre nos "sete anos de Gog" e a parábola do convite; o midá kenegued midá (quem nega a ressurreição não terá parte nela); e a ressurreição "nas mortalhas" — que gerou um excesso, corrigido por Rabban Gamliel.

1

E depois não me abstive de investigar a quarta fonte, que é a transmissão dos profetas e a tradição (kabbalá) dos sábios. Disse comigo: talvez ache nela a resposta sobre a ressurreição dos mortos — pois as suas palavras, de bendita memória, estão cheias da sua menção e do seu relato. E vi por bem mencionar delas umas poucas coisas, que sejam como um memento disto, por causa de quão numerosas são; e poucas das perguntas dos reis a eles sobre este assunto — e cada um deles respondeu segundo a sua opinião —, e do que lhes perguntaram os 'am ha'aretz (leigos) do nosso povo, e a que eles responderam por muitos caminhos.

ואחר כן לא נמנעתי מחקור במוצא הד', אשר הוא העתקת הנביאים וקבלת החכמים. אמרתי אולי אמצא בו תשובה על תחיית המתים, כי דבריהם ז"ל מלאים מזכרה וספורה, וראיתי לזכור מהם דברים מעטים, תהיה כמזכרת לזה בעבור מה שרבו, ומשאלות המלכים להם על הענין הזה, והשיב כל אחד מהם כפי דעתו, ומה ששאלו אותם עמי ארץ שבעמנו, והשיבו אותם על דרכים רבים.
2

Mas digo: porque a Escritura disse (Malachi 3:23) “eis que eu vos envio Eliyahu, o profeta”, e disse ainda (Michá 5:4) “e levantaremos contra ele sete pastores e oito príncipes dentre os homens” — perguntou-se sobre estes sete pastores: quem são? E disseram: recebemos por tradição — David no meio; Shet e Metushelach à sua direita; Avraham, Yitzchak, Yaakov e Moshé à sua esquerda. E perguntou-se-lhes ainda sobre os oito príncipes: quem são? E disseram: recebemos — Yishai, Shaul, Shmuel, Amós, Tzfanyá, Chizkiyahu, Eliyahu e o Mashiach. E eis que disseram explicitamente que os mortos se levantarão no tempo da salvação.

אבל אומר, מפני שאמר הכתוב (מלאכי ג' כ"ג) הנה אני שולח לכם את אליה הנביא, ואמר עוד (מיכה ה' ד') והקמונו עליו שבעה רועים ושמנה נסיכי אדם, שאלו על אלה הז' רועים מי הם? ואמרו קבלנו, דוד באמצע, שת ומתושלח מימינו, אברהם ויצחק ויעקב ומשה משמאלו. ושאלו אותם עוד על ח' נסיכים מי הם? ואמרו קבלנו, ישי שאול ושמואל עמוס צפניה חזקיה אליהו ומשיח, והנה אמרו בפי' שהמתים יעמדו בעת הישועה.
Nota — os sete pastores e os oito príncipes (Michá 5:4) A primeira prova de Saadiá pela tradição é a identificação rabínica dos “sete pastores e oito príncipes” de Michá 5:4 (cf. Sukká 52b): figuras espalhadas por toda a história de Israel — de Shet e Metushelach (antediluvianos) a Avraham, Moshé e David, e até o Mashiach — reunidas juntas no tempo da redenção. Ora, isso só é possível se os mortos forem ressuscitados: a própria lista pressupõe e afirma, "explicitamente", a ressurreição no tempo da salvação. A tradição (a quarta fonte) confirma o que a natureza não impede, a razão não refuta e a Escritura promete.
3

E disseram ainda: recebemos que aquele que morre nos sete anos de Gog não se levantará na ressurreição dos mortos — pois ela a ressurreição funciona, para eles, à maneira do convite que precede o casamento: quem come nele no convite come no casamento, e quem não come nele não come no casamento. E assim disseram (Yerushalmi Shevi'it 4:8): disse Rabi Yoná — aquele que morre nos sete anos de Gog não merecerá os dias do Mashiach; e o teu sinal: quem participa do banquete de esponsais (pratgamya) come no banquete do casamento.

ואמרו עוד קבלנו, כי מי שימות בז' שני גוג לא יעמוד בתחיית המתים, כי היא נוהגת אצלם מנהג הקריאה הקודמת לחתונה, שמי שאוכל בה אוכל בחתונה, ומי שאינו אוכל בה אינו אוכל בחתונה, וכן אמרו (ירושלמי שביעית ד, ח) אמר רבי יונה המת בז' שני גוג לא יזכה לימות המשיח, וסימניך דעביד פרטגמיא אכיל משתיתא.
4

E disseram ainda: aquele que negou a ressurreição dos mortos não viverá nos dias do Mashiach, ainda que as suas demais obras sejam boas — porque é medida por medida (midá kenegued midá): a quem nega uma coisa, dela o impedem; como foi no caso do oficial (shalish) de Yehoram ben Achav, que, por ter desmentido a palavra de Elishá e o que este lhes anunciara da fartura após a fome, D'us lhe deu a conhecer que dela não desfrutaria, mas a veria com os seus olhos e dali não comeria — como disseram (Sanhedrin 90a): “ele negou a ressurreição dos mortos, por isso não terá parte na ressurreição dos mortos, pois todas as medidas do Santo, bendito seja, são medida por medida”, conforme está dito (II Melachim 7:2): “e respondeu o oficial em cuja mão o rei se apoiava ao homem de D'us etc., e disse: eis que o verás com os teus olhos etc.”.

ואמרו עוד מי שכפר בתחיית המתים לא יחיה לימות המשיח, אעפ"י ששאר מעשיו טובים, מפני שהוא מדה כנגד מדה, מי שכופר בדבר מונעין אותו ממנו, כמו שהיה מענין השליש של יהורם בן אחאב, מפני שהכחיש דבר אלישע ומה שבשרם בו מהשובע אחר הרעב הודיעו שלא יהנה ממנו, אבל יראה אותו בעיניו ומשם לא יאכל, כמו שאמרו (סנהדרין צ.) הוא כפר בתחיית המתים לפיכך לא יהיה לו חלק בתחיית המתים, שכל מדותיו של הקב"ה מדה כנגד מדה, שנאמר (מלכים ב' ז' ב') ויען השליש אשר למלך נשען על ידו את איש האלהים וגו' ויאמר הנך רואה בעיניך וגו'.
Nota — “medida por medida”: quem nega é negado A tradição traz também um princípio moral severo: quem nega a ressurreição não terá parte nela — não como castigo arbitrário, mas como midá kenegued midá (medida por medida). O paradigma é o oficial do rei (II Melachim 7): ao zombar da profecia de Elishá sobre a fartura iminente, foi-lhe dito que a veria mas não comeria dela — e assim sucedeu. Os Sábios (Sanhedrin 90a) leem esse episódio como modelo: a fé na ressurreição é condição para nela participar. É a contraparte ética da doutrina — e ecoa a denúncia dos "tolos" do cap. 3.
5

E disseram ainda que os mortos se levantarão nas suas mortalhas (tachrichim); e disseram: os justos estão destinados a levantar-se nas suas próprias vestes — e a restituição das suas roupas não é, para o intelecto, mais difícil do que a restituição dos seus corpos e dos seus espíritos. E, quando esta crença se difundiu na nação, exageraram nas suas mortalhas, a ponto de esta coisa trazer a um grande mal: que todo aquele cuja mão não alcançava (sem recursos) abandonava o seu morto e fugia; até que Rabban Gamliel instituiu, e ordenou, que o vestissem com duas vestes de linho simples, bem passadas, e todo o povo seguiu após ele (Moed Katan 27).

ואמרו עוד כי המתים יעמדו בתכריכיהם, ואמרו עתידים הצדיקים לעמוד בלבושיהם, ואין השבת בגדיהם יותר קשה אצל השכל מהשבת גופותיהם ורוחותם. וכאשר פשט באומה הפליגו בתכריכיהם, עד שהביא זה הדבר לידי רעה גדולה, שכל מי שלא היתה ידו משגת הניח מתו וברח, עד שתקן רבן גמליאל וצוה שילבישוהו שני בגדי פשתן מגוהצין, ונהגו כל העם אחריו (מו"ק כ"ז):
Nota — da crença à prática: a reforma de Rabban Gamliel Um dos toques mais humanos do tratado. A crença de que os mortos ressuscitarão "nas suas mortalhas" levou, na prática, a um excesso ruinoso: famílias gastavam tanto em sudários luxuosos que os pobres, sem recursos, chegavam a abandonar os seus mortos e fugir. Rabban Gamliel o segundo cortou o nó com um gesto igualitário: mandou que o enterrassem em simples linho — e o povo o seguiu (Moed Katan 27b; daí o costume até hoje). Saadiá registra de passagem uma observação racional fina: restituir as roupas dos justos não é, para a razão, mais difícil do que restituir os seus corpos — quem pode o maior, pode o menor.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A quarta âncora: a tradição

Concluído o exame das quatro fontes (natureza, intelecto, Escritura, tradição), Saadiá fecha com a kabbalá dos Sábios — a tradição rabínica, que ele diz "cheia" de menções da ressurreição. A prova mais elegante é a lista dos sete pastores e oito príncipes de Michá 5:4: reunir figuras de Shet ao Mashiach num só tempo só faz sentido se os mortos forem ressuscitados. A tradição não acrescenta uma quinta via de objeção — ao contrário, sela a doutrina.

A fé como condição: medida por medida

A tradição traz também a dimensão moral: a ressurreição não é só um facto futuro, mas um objeto de — e quem a nega, "medida por medida", exclui-se dela. O oficial de II Reis 7, que viu a fartura mas não comeu, torna-se o emblema rabínico (Sanhedrin 90a): zombar da promessa divina é renunciar à sua participação nela. Saadiá liga, assim, a doutrina à responsabilidade do crente.

Do dogma ao costume — e o bom senso de Rabban Gamliel

O capítulo termina com um episódio revelador: a fé na ressurreição "nas mortalhas" gerou um luxo fúnebre tão pesado que empobrecia as famílias, levando algumas a abandonar os seus mortos. A reforma de Rabban Gamliel — enterrar em simples linho — mostra como a halachá tempera o zelo com a compaixão social. E Saadiá não perde a oportunidade racionalista: se D'us pode restituir corpos e almas, restituir-lhes as vestes é o menos — um lembrete de que toda a discussão repousa na onipotência do Criador.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VII (A ressurreição dos mortos), cap. 7, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Malachi 3:23; Michá 5:4; Yerushalmi Shevi'it 4:8; Sanhedrin 90a; II Melachim 7:2; Moed Katan 27b; e a lista dos sete pastores/oito príncipes (cf. Sukká 52b). Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VII · A ressurreição dos mortos · cap. 8 (conclusão)

Os Ramos da Fé — Dez Perguntas sobre a Ressurreição

עַנְפֵי הָאֱמוּנָה — עֶשֶׂר שְׁאֵלוֹת עַל הַתְּחִיָּה

No capítulo que encerra o Tratado VII, Saadiá responde a dez perguntas sobre os "ramos" da fé na ressurreição — quem ressuscita, se voltam a morrer, se a terra os conterá, o reconhecimento, os defeitos e a cura, o comer e o casar, a passagem ao Mundo Vindouro, a presciência e o livre-arbítrio, a recompensa, e a sorte dos vivos da salvação — e fecha com sete razões pelas quais a ressurreição consola Israel.

1

E, depois de ter examinado estes pormenores, ocupei-me em investigar os ramos e as ramificações desta crença; e vi por bem escrever, do que se me apresentou, umas cinco ou dez questões, e responder-lhes a partir da Escritura, do intelecto e da tradição. A primeira questão: se um perguntador perguntar — quem e quem viverão, da nação, no tempo da salvação? — respondo e digo: todo justo e todo penitente (ba'al teshuvá). Pois quem morre sem teshuvá está entre os que recebem castigo; e assim convém também ao intelecto, pois o Criador já prometeu ao que se arrepende que o aceitará, em muitos versículos. E já se tornaram devidos todos estes “tempos marcados” (a recompensa) a todo penitente, segundo as palavras dos nossos Sábios — depois de eles contarem as espécies do pecado e as porem em quatro níveis: 1 o homem transgrediu um mandamento positivo; 2 depois transgrediu um mandamento negativo; 3 depois pecados de karet e de morte imposta pelo tribunal; 4 depois aquele por quem o Nome dos Céus foi profanado. E disseram depois: “ou seria possível que a sua morte lhe expiasse? Não — diz a Escritura: 'eis que eu abro as vossas sepulturas'”. E eis que a ressurreição dos mortos se tornou devida a todo penitente. E eu digo que são poucos, do nosso povo, os que morrem sem teshuvá.

ואחר שדקדקתי אלו הדקדוקים, התעסקתי לחקור על סעיפי האמונה הזאת ופארותיה, וראיתי לכתוב ממה שנזדמן לי מה' י' שאלות, ואשיב עליה מהכתוב והשכל והקבל'. השאלה הראשונה, אם ישאל שואל מי ומי יחיו מן האומה בעת הישועה? אשיב ואומר כל צדיק ובעל תשובה. כי מי שימות מבלי תשובה הוא מהענושים, וכן ראוי בשכל. כי כבר הבטיח הבורא את השב שיקבלהו, בכתובים רבים. וכבר התחייבו כל אלה המועדים לכל שב מדברי רז"ל, אחר שמנו מיני החטא ושמום ד' מעלו', עבר אדם על מצות עשה, ואח"כ עבר על מצות לא תעשה, ואח"כ כריתות ומיתת ב"ד, ואח"כ מי שנתחלל בו שם שמים. ואמרו אח"כ או יכול שכפרה לו מיתתו, ת"ל הנה אני פותח את קברותיכם. והנה נתחייבה תחיית המתים לכל שב, ואני אומר כי מעט הם מבני עמנו שמתים מבלי תשובה.
Nota — quem ressuscita: o justo e o penitente Saadiá abre o capítulo final do tratado com dez “ramos” (questões práticas) da fé na ressurreição. À primeira — quem ressuscita? — responde com largueza: todo justo e todo penitente (ba'al teshuvá). A teshuvá basta, pois D'us promete aceitar quem retorna; os Sábios (Yomá 86a) graduaram quatro níveis de pecado e concluíram que mesmo o mais grave é expiado e merece a ressurreição ("eis que abro as vossas sepulturas"). E acrescenta, com otimismo característico, que "poucos do nosso povo morrem sem teshuvá".
2

E a segunda: morrerão eles depois de revividos? E respondo: não morrerão, mas são transferidos dos dias do Mashiach para a doçura do Mundo Vindouro. E sobre isto disseram os nossos Sábios: “os mortos que o Santo, bendito seja, está destinado a fazer viver, não tornam ao seu pó”. E a terceira: contê-los-á a terra? E digo: visto que a nossa nação saiu ao mundo dos filhos do homem há dois mil e duzentos anos e mais — o que serão como trinta e duas gerações, cada geração de cento e vinte miríades ≈ 1.200.000 de homens e mulheres, por aproximação —, se disséssemos que fossem todos iguais e que todos vivessem, não encheriam da terra senão uma parte de cento e cinquenta, mesmo pondo a cada um mais de quatro côvados para o seu lugar, a sua semeadura, os seus caminhos e os seus animais. E, fora isso: pois todos os homens das gerações serão cento e vinte miríades vezes trinta e duas, por aproximação — será o total três mil oitocentas e quarenta miríades (38.400.000); e, quando lhes destinarmos da terra duzentas parasangas por duzentas — que são uma parte de cento e cinquenta da terra — e as medirmos em côvados (em cada parasanga três milhas, cada milha quatro mil côvados, cada côvado maior, que vale dois côvados e meio e um terço do comum) — caberá a cada homem, em largura, no seu lugar, duzentos e oitenta e oito côvados. E que coisa há nisto em que os sábios se confundam?

והב' הימותו אחר כן? ואשיב כי לא ימותו, אבל מעתיקים אותם מימות המשיח אל נעימות העולם הבא. ובזה ארז"ל מתים שהקב"ה עתיד להחיותם, שוב אינן חוזרים לעפרן. והג' התכיל אותם הארץ? ואומר שמעת שיצאה אומתינו לבני העולם אלפים ומאתים שנה ועוד, יהיו כמו שנים ושלשים דור, כל דור ק"כ רבבה אנשים ונשים על דרך הקירוב. ואם נאמר אם כלם שוים וכלם יחיו, אין ממלאים מן הארץ כי אם חלק ממאה וחמשם חלק, על שנשים לכל אחד יותר מד' אמה למקומו ולזריעתו ולדרכיו ולבהמותיו. וזולת זה כי כל אנשי הדורות יהיו מאה ועשרים רבבה בשנים ושלשים על הקירוב, יהיה הכל שלשת אלפי רבבה ושמנה מאות וארבעים רבבה, וכאשר נגזור להם מן הארץ מאתים פרסה על מאתים, אשר הם חלק ממאה וחמשים מן הארץ, ונמדוד אותם אמות, בכל פרסה שלשה מילים, וכל מיל ד' אלפים אמה, וכל אמה אשר היא אמתים וחצי ושליש, יהיה לכל אדם רחב במקומו רפ"ח אמות, ואי זה דבר יש בזה בזה שיתבלבלו בו החכמים?.
Nota — o cálculo do espaço À objeção "a terra não conterá todos os ressuscitados", Saadiá responde com aritmética — um traço deliciosamente racionalista. Estima as gerações de Israel desde a sua origem (~32 gerações × ~1.200.000), chega a um total e mostra que ocupariam apenas ~1/150 da superfície terrestre, com folga de 288 côvados por pessoa. Os números são da cosmografia da época; o que importa é o gesto: nenhuma objeção "física" à ressurreição resiste ao cálculo. "Que há nisto em que os sábios se confundam?".
3

E a quarta: reconhecê-los-ão os de sua casa e os seus parentes dentre os vivos? E digo: já que os profetas, os pastores e os príncipes — quando se torna necessário que os filhos do homem os reconheçam hão de ser reconhecidos —, torna-se devido, por contraste, que todos se reconheçam uns aos outros, e que cada homem se una à sua tribo, como está esclarecido na ordenação das tribos no livro de Yechezkel e em outros lugares. E a quinta: aquele que morre, dentre eles, sendo cego, ou mutilado dos seus membros, ou com os demais danos, golpes e defeitos — que será da sua condição? E digo: ele viverá primeiro com aquele defeito, até que os filhos do homem o reconheçam, a saber, que ele é ele; e depois o Criador o curará, e isso será um sinal completo — como disseram os nossos Sábios: “levantam-se no seu defeito, e depois são curados”. E por isso a Escritura antepôs “eu mato e faço viver” a “feri e eu curo”. E já disseram os profetas (Yeshayahu 35:5-6): “então se abrirão os olhos dos cegos, e os ouvidos dos surdos se abrirão; então saltará o coxo como um cervo, e cantará a língua do mudo”.

והד' אם יכירום אנשי ביתם וקרוביהם מן החיים? ואומר כי הנביאים והרועים והנסיכים כשמתחייב שיכירום בני האדם, יתחייב לעמת זה שיכירו קצתם את קצתם ושיחובר כל אדם אל שבטו, כאשר הוא מבואר בסדור השבטים בספר יחזקאל וזולתו. והה' מי שימות מהם והוא סומא או מבוטל מאבריו או בשאר הפגעים והמומין מה יהיה מענינו? ואומר, שיחיה תחלה במום ההוא עד שיכירוהו בני אדם שהוא הוא, ואחר כן ירפאהו הבורא ותהיה אות גמורה, כמ"ש רז"ל עומדין במומן ואחר כן מתרפאין, ועל כן הקדים אני אמית ואחיה מחצתי ואני ארפא, וכבר אמרו אז תפקחנה עיני עורים ואזני חרשים תפתחנה אז ידלג כאיל פסח ותרון לשון אלם (ישעיה ל"ה ה' ו').
4

E a sexta: comerão, beberão e desposarão mulheres? E digo: sim — assim como o filho da viúva de Tzarfat, que o Criador fez viver por meio de Eliyahu, e o filho da sunamita por meio de Elishá, comeram e beberam, e é possível que tenham desposado mulheres. E a sétima: como serão transferidos para o Mundo Vindouro — no qual não há comer nem união conjugal —, sendo que já se conduziram com elas (essas funções) neste mundo, e contudo viverão lá? E digo: assim como Moshé, nosso mestre, a paz esteja com ele, suspendeu o comer, o beber e a união, e subsistiu sem eles quarenta dias no monte Sinai, três vezes, e viveu, como está escrito na Torá.

והששית אם יאכלון וישתון וישאו נשים? ואומר כן, כמו שבן הצרפית אשר החיהו הבורא על ידי אליהו, ובן השונמית על ידי אלישע, אכלו ושתו, ויתכן נשאו נשים. והשביעית איך יעתקו אל העול' הבא אשר אין בו אכילה ולא בעילה וכבר נהגו בם בעולה הזה ויחיו? ואומר, כמו שנהג משה רבינו עליו השלום האכילה והשתיה והבעילה ועמד בלעדיהם ארבעים יום בהר סיני שלשה פעמים וחיה, כמו שכתוב בתורה.
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E a oitava: já que os revividos nos dias da salvação são deixados à sua livre escolha no serviço a D'us, talvez escolham a rebeldia e não vivam no mundo da recompensa? Respondo a isto o que responde todo o nosso povo, a multidão dos crentes, no assunto dos justos no Mundo Vindouro: já que eles escolhem o serviço e não a rebeldia — acaso talvez venham a escolher a rebeldia? E digo: Aquele que sabe o que será antes que seja não prometeu aos justos que estarão no Mundo Vindouro a recompensa perpétua senão pelo Seu saber de que eles escolhem o serviço e não a rebeldia; assim digo: depois que Ele sabe o que será, não prometeu a ressurreição dos mortos aos justos de Israel senão depois de saber que, nos dias do Mashiach, escolherão o serviço, não a rebeldia. E a nona: têm eles, por aquele serviço que fazem nos dias do Mashiach, recompensa? E digo: sim — assim como os justos, neste mundo, têm a recompensa do seu serviço, assim os homens dos dias do Mashiach terão recompensa pelo seu serviço, pois não é possível que haja serviço sem que com ele haja recompensa. E, assim como ali no Mundo Vindouro os justos têm um acréscimo sobre o que é devido aos seus méritos anteriores, assim o que fizerem nos dias do Mashiach será um acréscimo sobre o que é devido aos seus méritos anteriores.

והשמינית כיון שהמחויים בימי הישועה הם מונחים לבחירתם בעבודה, שמא יבחרו במרי ולא יחיו בעולם הגמול? אשיב בזה, שמשיבים כל עמנו המון המאמינים בענין הצדיקים בעולם הבא, כיון שהם בוחרים בעבודה ולא במרי שמא יבחרו במרי? ואומר, כי היודע מה שהיה קודם שיהיה, לא הבטיח הצדיקים שבעולם הבא בגמול המתמיד אלא לדעתו, שהם בוחרים בעבודה ולא במרי, כן אומר אחר שהוא יודע מה שיהיה, לא הבטיח תחיית המתים לצדיקי ישראל, עד שידע כי בימות המשיח יבחרו בעבודה לא במרי. והתשיעית, אם יש להם על העבודה ההיא אשר בימות המשיח גמול? ואומר כן, כאשר יש לצדיקים בעולה הזה גמול עבודתם, כן יהיה לאנשי ימות המשיח גמול על עבודתם, שלא יתכן שתהיה עבודה שאין עמה גמול. וכאשר יש שם לצדיקים תוספת על מה שראוי לזכיותם הקודמים, כן מה שיעשו בימות המשיח תוספת על מה שראוי לזכיותם הקודמות.
6

E a décima questão: acerca do povo em cujos dias a salvação vier nas suas vidas — que será da sua condição? E assim acerca dos nascidos no tempo da salvação? E respondo: visto que a Escritura não falou nisto, nem os nossos mestres receberam tradição nisto, dividiram-se em três caminhos. Há quem diga que não morrem de modo algum, e se apoia no seu dizer (Yeshayahu 25:8) “tragará a morte para sempre”. E há quem diga que morrerão e tornarão a viver, para se igualarem àqueles revividos. E há quem diga que viverão muitos anos e morrerão, e não viverão até o Mundo Vindouro. E o meu coração (que D'us te endireite) inclina-se a esta terceira afirmação, porque não achei a ressurreição dos mortos prometida nos dias da salvação senão para quem esteve no exílio; e não vi por bem acrescentar a isto coisa alguma do meu próprio coração — tanto mais que o propósito da ressurreição dos que morreram no exílio é que não lhes seja vedada esta grande salvação; mas aquele que a viu dentre os vivos e os retos já chegou ao seu desejo. Apenas que os seus dias serão longos, como de quatrocentos e quinhentos anos, de modo que o que morrer aos duzentos, naquela geração, será como aquele que morre nesta geração aos vinte — como disse (Yeshayahu 65:20): “pois o jovem morrerá aos cem anos, e o pecador, aos cem anos, será amaldiçoado”; e os dias serão como os dias dos edifícios e das plantações grandes, como disse (ali 65:22): “não edificarão, e outro habitará; não plantarão, e outro comerá; pois como os dias da árvore serão os dias do meu povo etc.”.

והשאלה העשירית על העם אשר בהם הישועה בחייהם, מה יהיה מענינם? וכן הילודים בזמן הישועה? ואשיב, בעבור שהכתוב לא דבר בזה ולא רבותינו לא קבלו בזה קבלה, נחלקו בזה על שלשה דרכים. יש מי שאומר שאין מתים כלל, ונתלה באמרו (ישעיה כ"ה ח') בלע המות לנצח. ויש מי שאומר ימותו ויחיו כדי להשתוות עם המחויים ההם. ויש מי שאומר יחיו שנים רבות וימותו, ולא יחיו עד העולם הבא. ולבי (האלהים יישירך) נוטה אל זה המאמר השלישי, מפני שלא מצאתי תחיית המתים הובטחה בימי הישועה, אלא למי שהיה בגלות. ולא ראיתי להוסיף על זה דבר מלבי, כל שכן שהעלה בתחיית המתים אשר מתו בגלות, היא שלא תמנע מהם זאת הישועה הגדולה, אבל מי שראה אותה מן החיים והישרים, כבר הגיע לחפצו. אך ימיהם יהיו ארוכים, כגון ארבע מאות שנה וחמש מאות שנה, עד שיהיה המת בן מאתים בדור ההוא, כמו שמת בדור הזה בן עשרים, כמו שאמר (ישעיה ס"ה כ') כי הנער בן מאה שנה ימות והחוטא בן מאה שנה יקולל. ומי שחטא על בני אדם והוא בן מאה שנה יקולל, ויהיו הימים כימי הבנינים והנטעים הגדולים, כמו שאמר (שם כ"ב) לא יבנו ואחר ישב לא יטעו ואחר יאכל כי כימי העץ ימי עמי וגו'.
7

E, quando me firmei sobre estas coisas, aceitei-as no meu coração por fé, e escrevi-as num livro, para serem, para os filhos de Israel, uma segurança (confiança); pois vi que a nação se consolaria com elas, por causa de sete coisas. 1 Porque a ressurreição dos mortos é um grande sinal dentre os sinais manifestos do Criador, e na confiança nela há um acréscimo no crer no Seu poder. 2 E porque todos os profetas se reúnem nela — e eis que nós, hoje, ansiamos por ver sequer um deles; tanto mais todos! 3 E porque todos os reis justos e os grandes sábios se reúnem nela — nós, que ainda anelamos ver um só deles. 4 E porque os parentes de cada um deles, que por eles se enlutaram e por eles se afligiram, a eles se unirão: verá o filho o seu pai, e o irmão o seu irmão, e o amigo o seu amigo, e o sábio o seu discípulo, e os demais parentes. 5 E muitas das matérias da alma, das quais as almas dependem, se nos revelarão quando eles viverem, e nos relatarão o que passou e o que houve — da qualidade do assunto da sua morte, da sua recompensa e do seu levantar-se. 6 E porque todas as gerações dos filhos de Israel — que são as miríades cuja menção antepus — virão juntas, e haverá, na sua reunião, a majestade e o grande esplendor. 7 E porque ela é uma causa que obriga a crer no Mundo Vindouro ainda mais — pois, assim como se cumprir este tempo marcado, assim se cumprirão todos os tempos marcados do Mundo Vindouro, e os adquirimos por via de demonstração (verificação), como disse (Yeshayahu 25:9): “naquele dia se dirá: eis que este é o nosso D'us, n'Ele esperámos e Ele nos salvou”. E quão honrado é o tempo marcado em que se reúnem todos estes grandes bens! E estes bens obrigaram-me a confirmar a sua verdade, e a ser útil à nação e a endireitá-la nele. E pedi merecer ser dos que veem a salvação em vida, ou por meio do ser revivido — como recompensa pelo meu endireitar a nação. E bendito seja o D'us fiel nos Seus tempos marcados, e louvado seja!

וכאשר עמדתי על הדברים האלה, רציתים בלבי לאמונה, וכתבתים על ספר להיות לבני ישראל לבטחון, והוא שראיתי שהאומה תתישב בהם בעבור שבעה דברים. מפני שתחיית המתים אות גדולה מאותות הבורא הנגלות, ובבטחון בהיותה תוספת בהאמין ביכלתו, וכי כל הנביאים מתקבצים בה, והנה אנחנו היום מתאוים לראות אחד מהם, כל שכן כלם, וכל המלכים הצדיקים והחכמים הגדולים מתקבצים בה, עוד אשר אנחנו נכספים לראות אחד בהם, ושקרובי כל אחד מהם אשר התאבל עליהם ודאג להם, יחברם ויראה הבן אביו, והאח אחיו, והאוהב אוהבו, והחכם תלמידו, ושאר הקרובים. והרבה לדברי הנפש אשר הנפשות תלויות בהם, יגלו לנו כשיחיו. ויספרו לנו מה שעבר ומה שהיה, מאיכות ענין מותם ושכרם וקומם. ושכל דורות בני ישראל אשר הם הרבבות אשר הקדמתי זכרם יבאו יחד ויהיה לקבוצם ההוד וההדר הגדול. ושהוא סבה מחיבת להאמין בעולם הבא יותר, שנאמר כמו שיתקיים זה המועד, יתקימו כל מועדי העולם הבא, ונקנה אותם על דרך הבחינה, כמו שאמר (שם כ"ה ט') ביום ההוא הנה אלהינו זה קוינו לו ויושיענו. ומה נכבד מועד, יתקבצו בו כל אלה הטובות הגדולות. ואלה הטובות חייבו אותי לקיים אמתתו, ולהועיל לאומה ולהישירה בו. ובקשתי שאזכה להיות מן הרואים בחיות או בהחיות גמול על הישירי, ויתברך האל הנאמן במועדיו וישתבח:
Nota — as sete razões e o fecho pessoal O tratado encerra-se não com um argumento, mas com um louvor: sete razões pelas quais a ressurreição "consola" Israel — sinal do poder divino, reencontro com os profetas e sábios de todas as eras, reunião do filho com o pai e do mestre com o discípulo, revelação dos segredos da alma, e a glória de todas as gerações reunidas. Sobretudo, é a garantia do Mundo Vindouro: cumprido este "tempo marcado", todos os outros se confirmam. Note-se a posição escatológica distintiva de Saadiá (questão dez): a ressurreição da redenção é para os mortos do exílio; os vivos da salvação terão vidas longuíssimas (Yeshayahu 65:20). E o toque humano final — o seu pedido de merecer ver a salvação, "em vida ou por ser revivido". Assim se completa o Tratado VII.
✡   נִשְׁלַם הַמַּאֲמָר הַשְּׁבִיעִי   ✡

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O método das dez perguntas

Depois de estabelecer a doutrina (caps. 1–7), Saadiá faz o que nenhum dogmático faria: enfrenta as perguntas difíceis que dela brotam — e responde a cada uma "da Escritura, do intelecto e da tradição". Algumas são metafísicas (voltarão a morrer? como passam ao Mundo Vindouro?), outras quase práticas (a terra os conterá? reconhecer-se-ão?), outras pastorais (e os deficientes? e os que estão vivos na salvação?). É um modelo de teologia que não teme o detalhe.

A escatologia distintiva de Saadiá

A décima pergunta revela a sua posição própria: a ressurreição da redenção é, em primeiro lugar, para os mortos do exílio — para que não lhes seja vedada a grande salvação. Quem a vê em vida "já alcançou o seu desejo"; e os vivos da era messiânica terão vidas longuíssimas (400–500 anos), de modo que morrer aos 200 será como morrer jovem (Yeshayahu 65:20). Saadiá distingue, assim, três etapas — exílio, ressurreição na redenção, Mundo Vindouro — com sobriedade, recusando-se a "acrescentar do próprio coração" onde a Escritura e a tradição calam.

O fecho: a ressurreição como consolo

O tratado termina num registro comovente. As sete razões não são provas, mas bens: o reencontro com os profetas e os sábios de todas as eras, o filho que reverá o pai, o mestre o discípulo; a revelação dos segredos da alma; a glória de todas as gerações reunidas; e, acima de tudo, a garantia do Mundo Vindouro. Saadiá confessa que escreveu o tratado "para ser uma segurança para Israel" — e fecha com um pedido pessoal: merecer ver a salvação, "em vida ou por ser revivido". É a teologia a serviço da esperança.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VII (A ressurreição dos mortos), cap. 8 — conclusão do Tratado VII —, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Yeshayahu 35:5-6; 25:8; 25:9; 65:20; 65:22; e Yomá 86a, Yechezkel 48 (as tribos), I Melachim 17 e II Melachim 4 (as crianças ressuscitadas). Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VIII · A redenção messiânica · cap. 1

A Redenção Final — a Reunião dos Exilados e o Dobro da Consolação

הַגְּאֻלָּה הָאַחֲרוֹנָה — קִבּוּץ נְפוּצוֹת וְכִפְלַיִם בַּנֶּחָמָה

Abre-se o Tratado VIII, sobre a redenção final: a promessa de que D'us reunirá os dispersos de Israel e os trará de volta a Yerushalayim. Saadiá mostra que a esperança tem raiz na Torá (Moshé) e nos profetas, deduz a sua necessidade por quatro vias, e defende-a contra os que a julgam loucura — pois é o semeador, não o que dele zomba, quem colherá.

1

Sobre a redenção final. Disse Yehudá ben Shaul (o tradutor): disse o autor. O nosso D'us deu-nos a conhecer, pela boca dos Seus profetas, que nos redimirá — a congregação dos filhos de Israel — da aflição em que estamos, e reunirá os nossos dispersos do oriente e do ocidente, do norte e do mar, e nos trará à nossa cidade santa e nos fará habitar nela, e seremos o Seu tesouro e a Sua herança — como disse (Zecharyá 8:7-8): “eis que eu salvo o meu povo da terra do oriente e da terra do poente do sol, e trá-los-ei, e habitarão no meio de Yerushalayim”. E os Seus profetas estenderam-se neste assunto, a ponto de escreverem sobre ele muitos livros; e este conhecimento não nos chegou apenas dos profetas últimos, mas já do primeiro profeta, Moshé, nosso mestre, a paz esteja com ele — pois nos firmámos sobre este tempo marcado a partir do que ele disse na Torá (Devarim 30:3): “e o Senhor teu D'us fará voltar o teu cativeiro e se compadecerá de ti”, e o restante do que está escrito na parashá até o seu fim. E os sinais e prodígios o estabeleceram, e nós o recebemos.

בגאולה האחרונה אמר יהודה בן שאול, אמר המחבר: הודיענו אלהינו על פי נביאיו שיגאלנו קהל בני ישראל מן העוני אשר אנחנו בו, ויקבץ נפוצותינו ממזרח וממערב מצפון וים, ויביאנו אל עיר קדשנו וישכיננו, ונהיה סגולתו ונחלתו, כאמרו (זכריה ח' ז' ח') הנני מושיע את עמי מארץ מזרח ומארץ מבוא השמש והבאתי אותם ושכנו בתוך ירושלים. והרחיבו נביאיו בענין הזה, עד שכתבו בו ספרים רבים, ולא הגיעתנו הידיעה הזאת מהנביאים האחרונים בלבד, אבל מהנביא הראשון מהרע"ה עמדנו על המועד הזה, שאמר בתורה (דברים ל' ג'), ושב יי' אלהיך את שבותך ורחמך, ושאר מה שכתוב בפרשה עד סופה. והעמידו האותות והמופתים על זה וקבלנוהו. והסתכלתי בענין הזה בדרך העיון, ולא היה בו דבר שצריך לדקדק ולחלק, כי אם ענין אחד אזכור אותו באמצע המאמר הזה.
Nota — a redenção tem raiz na Torá, não só nos profetas Saadiá abre o Tratado VIII fazendo questão de um ponto: a promessa da redenção final — a reunião dos exilados e o retorno a Yerushalayim — não é uma esperança tardia dos profetas, mas está já na Torá, na boca de Moshé (Devarim 30:3, a parashá da teshuvá e do retorno). Os profetas posteriores (Zecharyá, Yeshayahu, Michá) "expandiram-na em muitos livros", mas a sua raiz é mosaica. É a mesma estratégia do tratado anterior: ancorar a doutrina no fundamento mais antigo e inquestionável.
2

E examinei este assunto pela via da especulação, e não havia nele coisa que precisasse de um esmiuçar e dividir, exceto um só assunto, que mencionarei no meio deste tratado. Mas a raiz da redenção é obrigatória por muitos ângulos. Dentre eles: o cumprimento dos sinais de Moshé, que os começou e os anunciou, e dos sinais que se hão de cumprir para Yeshayahu e para os demais profetas que os anunciaram — e Aquele que os enviou cumpre-os, sem dúvida, como disse (Yeshayahu 44:26): “Ele, que confirma a palavra do Seu servo e cumpre o conselho dos Seus mensageiros”. E dentre eles: que Ele é justo e não comete injustiça; e já trouxe sobre a nação este exílio grande e — segundo nós — longo, e, sem dúvida, parte dele é para castigo e parte para prova; e cada um dos dois assuntos tem uma medida bem determinada, e não é possível que seja sem fim; e, quando ela se findar, é forçoso que os do castigo sejam aliviados e que aos da prova se complete a recompensa, como disse (Yeshayahu 40:2): “pois a sua iniquidade está perdoada, pois recebeu da mão do Senhor o dobro por todos os seus pecados”.

אבל שרש הגאולה הוא חייב מפנים רבים, מהם קיום אותות משה אשר החל ובשר בהם, והאותות אשר יתקיימו לישעיה, וזולתו מהנביאים אשר בשרו בהם, ושהשולח אותם משלימם בלי ספק, כמו שאמר (ישעיה מ"ד כ"ו) מקים דבר עבדו ועצת מלאכיו ישלים. ומהם שהוא צדיק לא יעול, וכבר הביא על האומה הגולה הגדולה הזאת אצלנו הארוכה, ובלי ספק כי קצתה לענש, וקצתה לנסיון, ולכל אחד משני הענינים מדה בתכלית, ולא יתכן שיהיה באין תכלית, וכאשר תכלה, יתחייב שירפו מאלה, ושישלם גמול אלה, כמו שאמר (ישעיה מ' ב') כי נרצה עונה כי לקחה מיד יי' כפלים בכל חטאתיה.
3

E dentre eles: que Ele é fiel em todos os Seus tempos marcados — cumprirá a Sua palavra e estabelecerá o Seu mandamento, como disse (Yeshayahu 40:8): “seca-se a erva, murcha a flor, mas a palavra do nosso D'us subsiste para sempre”. E dentre eles: que comparamos estes tempos marcados ao primeiro tempo marcado que Ele nos prometeu quando estávamos no Egito — quando nos prometeu apenas que julgaria os nossos opressores e os que nos escravizavam, e que nos daria grande riqueza, a saber, o seu dizer (Bereshit 15:14): “e também a nação a quem servirem, eu a julgarei; e depois sairão com grande riqueza”. E os nossos olhos já viram o que Ele fez por nós — da abertura do Mar dos Juncos, e do maná e das codornizes, e do ficar diante do monte Sinai, e do deter-se do sol, e semelhantes. Tanto mais agora, que nos prometeu as coisas grandes e poderosas — de bem, de êxito, de grandeza, de vitória e de honra —, que Ele pôs como o dobro do que nos sobreveio de aflição e de baixeza, como disse (Yeshayahu 61:7): “em lugar da vossa vergonha, tereis dobro; e em lugar da humilhação, exultarão na sua porção; por isso, na sua terra, herdarão o dobro”. E comparou o que passou sobre nós a um pequeno instante, e o que nos recompensará com as Suas grandes misericórdias, como disse (ali 54:7): “por um pequeno instante te abandonei, mas com grandes misericórdias te reunirei”.

ומהם שהוא נאמן בכל מועדיו, יקים דברו ויעמיד מצותו, כמו שאמר (ישעיה מ' ח') יבש חציר נבל ציץ ודבר אלהינו יקום לעולם. ומהם שנקיש המועדים האלה למועד הראשון שיעדנו בהיותנו במצרים, שיעדנו שידין את לוחצינו ומעבידינו ושיתן לנו רכוש גדול בלבד, והוא אמרו (בראשית ט"ו י"ד) וגם את הגוי אשר יעבודו דן אנכי ואחרי כן יצאו ברכוש גדול. וכבר ראו עינינו מה שעשה לנו מקריעת ים סוף והמן והשלו, ומעמד הר סיני ועמידת השמש והדומה לזה. כל שכן שיעדנו בדברים הגדולים העצומים מהטובה וההצלחה והגדולה והנצח והכבוד, אשר שמם כפל מה שהגיענו מן העוני והשפלות, כאמרו (ישעיה ס"א ז') תחת בשתכם משנה וכלמה ירונו חלקם לכן בארצם משנה יירשו. ודמה מה שעבר עלינו לרגע קטון, ומה שיגמלנו עליו רחמיו הגדולים, כמ"ש (שם נ"ד ז') ברגע קטון עזבתיך וברחמים גדולים אקבצך.
Nota — os fundamentos da redenção, e o motivo do “dobro” Saadiá deduz a necessidade da redenção por quatro vias: (1) o cumprimento dos sinais que os profetas anunciaram (Yeshayahu 44:26); (2) a justiça divina — o exílio, sendo castigo e prova, tem medida e não pode ser infinito (Yeshayahu 40:2); (3) a fidelidade de D'us às Suas promessas (40:8); (4) a analogia com o Êxodo — se Ele cumpriu a promessa do Egito com prodígios, cumprirá tanto mais a promessa futura, maior. Atravessa tudo o motivo do “dobro” (Yeshayahu 40:2; 61:7): o sofrimento foi medido e limitado; a consolação o supera.
4

E, pela prova e o exame no que passou, Ele está destinado a fazer por nós o dobro do que nos prometeu — algo que não se poderá relatar depressa —, como disse (Devarim 30:5): “e te fará bem e te multiplicará mais que a os teus pais”. E por isso a Torá repete para nós a menção da saída do Egito em muitos lugares, e recorda-nos o que vimos. E, se restou alguma coisa do que Ele fez por nós no exílio do Egito que não esteja mencionada explicitamente nesta futura redenção, ela entra sob o seu dizer (Michá 7:15): “como nos dias da tua saída da terra do Egito, mostrar-lhe-ei maravilhas”.

ועל הנסיון והבחינה במה שעבר, הוא עתיד לעשות לנו כפלים על מה שיעדנו, מה שלא יוכל לספרו מהרה, כמו שאמר (דברים ל' ה') והטיבך והרבך מאבותיך. ובעבור זה שונה לנו זכר יציאת מצרים במקומות רבים מהתורה, ומזכירנו מה שראינוהו. ואם נשאר דבר ממה שעשה לנו בגלות מצרים שלא הזכירו בפי' בגאולה הזאת, הוא נכנס תחת מאמרו (מיכה ז׳:ט״ו ט"ו) כימי צאתך מארץ מצרים אראנו נפלאות.
5

E por isso nós suportamos e esperamos o que Ele nos prometeu; não nos enfastiamos nem nos enfurecemos, mas acrescentamos força e firmeza, como disse (Tehillim 31:25): “sede fortes, e fortaleça-se o vosso coração, todos vós que esperais no Senhor”. E aquele que nos vê nesta condição assombra-se de nós, ou tem-nos por tolos — porque não foi provado como fomos provados, nem creu como cremos.

ועל כן אנחנו סובלים ומיחלים מה שיעדנו, לא נקוץ ולא נקצוף, אך נוסיף חוזק ואומץ, כמו שאמר (תהלים ל"א כ"ה) חזקו ויאמץ לבבכם כל המיחלים ליי'. ומי שרואה אותנו בענין הזה הוא תמה עלינו, או חושב אותנו לכסילים, מפני שלא נסה כאשר נסינו ולא האמין כאשר האמננו,
6

E ele é como aquele que nunca viu a semeadura do trigo: quando vê quem o lança no sulco da terra para germinar, tem-no por tolo — e não reconhece que é ele próprio o tolo, senão no tempo da colheita, quando a medida torna multiplicada vinte ou trinta vezes; e assim comparou a Escritura, dizendo (Tehillim 126:5): “os que semeiam em lágrimas, em júbilo colherão”. E é como aquele que nunca viu a criação dos filhos, e zomba de quem vê a criar um filho e a suportar todos os seus trabalhos, e diz: “que coisa se pode esperar disto?” — e, quando o filho cresce, e aprende as ciências, e se torna rei e conduz os exércitos, sabe aquele homem que de si mesmo zombou. E à semelhança do assunto que esperamos — o de um filho varão — é o que disse (Yeshayahu 66:7): “antes que lhe viessem as dores de parto, deu à luz; antes que lhe chegasse a dor, deu à luz um varão”.

והוא כמי שלא ראה זריעת החטה, וכשהוא רואה מי שמשליך אותה בבקעת האדמה לצמוח, יחזיקנו לכסיל, ואיננו מכיר כי הוא הכסיל, אלא בעת הקציר כשתשוב המדה עשרים או שלשים, וכן דמה הכתוב ואמר (תהלים קכ"ו ה') הזורעים בדמעה ברנה יקצורו. וכמו מי שלא ראה מעולם גדול בנים, והוא לועג למי שהוא רואה שמגדל בן וסובל כל טרחיו, ואומר אי זה דבר יקוה מזה? וכאשר יגדל וילמד החכמות ויהיו מלך וינהיג החילים, ידע האדם ההוא, כי לנפשו לעג. ובדמות הענין אשר נקוה לבן זכר, הוא מה שאמר (ישעיה ס"ו ז') בטרם יבא חבל ל והמליטה זכר:
Nota — a apologia da esperança: o semeador e o filho O fecho é uma das passagens mais humanas do livro. Aos que zombam da esperança de Israel — "fanáticos que creem no impossível" —, Saadiá responde com duas parábolas. O semeador: quem nunca viu plantar acha loucura enterrar trigo bom na terra — até a colheita o multiplicar (Tehillim 126:5, "os que semeiam em lágrimas colherão em júbilo"). E a criação de um filho: parece um fardo sem retorno, até a criança crescer e tornar-se rei. A fé de Israel só parece tolice a quem "não foi provado como fomos provados, nem creu como cremos" — e é o semeador, não o zombador, quem ri por último (Yeshayahu 66:7).

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A esperança com raiz na Torá

Saadiá inicia o tratado da redenção fixando o seu fundamento: a promessa do retorno não é uma consolação tardia inventada no exílio, mas está na Torá de Moshé (Devarim 30) e foi depois "expandida em muitos livros" pelos profetas. A reunião dos exilados e o retorno a Yerushalayim (Zecharyá 8) são, para ele, tão certos quanto qualquer promessa divina — porque são promessa divina.

Quatro fundamentos — e a lógica do “dobro”

A necessidade da redenção é deduzida racionalmente: D'us cumpre o que os profetas anunciaram; é justo, e o exílio (castigo e prova) tem medida e há de findar; é fiel à Sua palavra; e — o argumento mais caloroso — se Ele resgatou Israel do Egito com prodígios, tanto mais cumprirá a promessa futura, que é maior. Sobre tudo paira o motivo do “dobro”: o sofrimento foi limitado e medido (Yeshayahu 40:2), mas a consolação o ultrapassa (61:7) — "por um pequeno instante te abandonei, mas com grandes misericórdias te reunirei".

O semeador que ri por último

O fecho é uma defesa comovente da esperança contra o escárnio. Quem nunca viu semear acha loucura enterrar bom trigo; quem nunca criou um filho acha tolice o fardo — até a colheita, até a criança virar rei. A fé de Israel na redenção parece insensatez "a quem não foi provado como fomos provados, nem creu como cremos". Mas a Escritura já o disse: "os que semeiam em lágrimas, em júbilo colherão" (Tehillim 126:5). A paciência da esperança é, para Saadiá, a forma mais alta da razão.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VIII (A redenção messiânica), cap. 1, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Zecharyá 8:7-8; Devarim 30:3; 30:5; Bereshit 15:14; Yeshayahu 44:26; 40:2; 40:8; 61:7; 54:7; 66:7; Michá 7:15; Tehillim 31:25; 126:5. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VIII · A redenção messiânica · cap. 2

Os Dois Tempos da Redenção — a Teshuvá e o Ketz

שְׁנֵי זְמַנִּים לַשִּׁעְבּוּד — זְמַן הַתְּשׁוּבָה וּזְמַן הַקֵּץ

Quem mede os céus a um palmo reúne sem esforço os dispersos: o capítulo prolonga o argumento a fortiori e afirma que D'us sabe a nossa condição, faz-nos justiça e se compadece. No centro, a doutrina dos dois tempos fixados para o fim do exílio — o da teshuvá e o do ketz —, valendo o que chegar primeiro; e a refutação de quem culpa a falta de justos pelo atraso da redenção.

1

E depois disso ele diz: Aquele para quem a medida dos céus é como a medida de um palmo — por via de aproximação —, como Lhe seria difícil enviar-nos de lá a profecia? E Aquele para quem a medida das águas é como o estender da palma da mão, como Lhe seria difícil reunir os nossos dispersos do meio delas? E Aquele para quem o pó da terra é como coisa medida, como não Lhe seria fácil reunir os nossos banidos dos seus confins? E Aquele para quem os montes são como coisa pesada na balança, como não Lhe seria próximo edificar o monte da nossa santidade? E por isso a Escritura pôs primeiro, no princípio das consolações: “quem mediu as águas na concha da sua mão” etc. (Yeshayahu 40:12).

ואחר כן אומר, ומי ששעור השמים אצלו כשיעור זרת ואל דרך הקירוב, איך יקשה לשלוח הנבואה אלינו מהם? ומי שמדת המים אצלו כפרישת כף איך יקשה עליו לקבץ פזורנו מתוכם? ומי שעפר הארץ אצלו כדבר מדוד, איך לא יהיה נקל אצלו לקבץ נדחנו מאפסיה? ומי שההרים אצלו כדבר השקול, איך לא יהיה קרוב אצלו לבנות הר קדשנו? ועל כן קדם בתחלת הנחמות מי מדד בשעלו מים וגו' (ישעיה מ' י"ב).
Nota — o argumento “a fortiori”: quem mede os céus reúne os dispersos O capítulo abre prolongando o raciocínio do anterior: se D'us mede os céus a um palmo, as águas no côncavo da mão, o pó da terra e os montes na balança (Yeshayahu 40:12), então reunir os exilados, trazer de volta os banidos e reconstruir o monte santo são, para Ele, coisa fácil. É o argumento kal vachómer (do menor ao maior): quem fez o imenso fará sem esforço o menor. Saadiá observa, com finura, que a Escritura “pôs primeiro” a imagem da medida — porque é dela que decorre toda a confiança na redenção.
2

E Aquele para quem todas as nações são como gotas de água que pingam do balde, e como o pó da balança, como não as humilharia diante de nós? Como disse (Yeshayahu 40:15): “eis que as nações são como a gota do balde, e como o pó miúdo da balança são consideradas”. E Aquele para quem sacudi-las da terra é como quando se ajuntam as pontas de um saco e se o sacode — como disse (Iyov 38:13): “para que pegasse nas pontas da terra, e dela fossem sacudidos os ímpios”.

ומי שכל הגוים אצלו נטפי מים מהדלי, וכאבק המאזנים, איך לא ישפילם לפנינו? כמו שאמר (ישעיה מ' ט"ו) הן גוים כמר מדלי וכשחק מאזנים נחשבו. ומי שנעירתם מן הארץ אצלו כאשר נקבץ כנפות האמתחת וננער אותה, כמו שאמר (איוב ל"ח י"ג) לאחוז בכנפו' הארץ וינערו רשעים ממנה.
3

E, ainda que eu fosse apenas da nação que crê que Ele criou algo a partir do nada e nada mais tomasse por estabelecido, isto me bastaria nesta matéria; mas expus estes assuntos porque foi Ele, bendito seja, quem os expôs. E não é possível que subamos ao nosso coração o pensamento de que Ele não sabe a condição em que estamos, nem de que não nos faz justiça, nem de que não se compadece — como Ele nos repreendeu, dizendo (Yeshayahu 40:27): “por que dizes, Yaakov, e falas, Israel: o meu caminho está oculto do Senhor” etc. Nem de que Ele não pode salvar-nos e ouvir a nossa oração, como disse (ali 59:1): “eis que a mão do Senhor não se encurtou para que não possa salvar” etc. Nem de que nos desprezou e abandonou; mas, como disse (Devarim 4:31): “pois o Senhor teu D'us é um D'us misericordioso; não te desamparará nem te destruirá”.

ואלו הייתי אומה מי שברא דבר לא מדבר היה מספיק לי בזה, אך הצעתי אלה העניני' מפני שהציעם הוא ית', ולא יתכן שנעלה על לבנו שאיננו יודע מה שאנחנו בו, ולא שאינו נפרע לנו, ולא שאיננו מרחם. וכמו שהוכיחנו ואמר, (ישעיה מ' כ"ז) למה תאמר יעקב ותדבר ישראל נסתרה דרכי מיי' וגו'. ולא שאיננו יכול להושיענו ולשמוע תפלתנו, כמו שאמר (שם נ"ט א') הן לא קצר יד יי' מהושיע וגו'. ולא שמאסנו ועזבנו, אך כמו שאמר (דברים ד' ל"א) כי אל רחום יי' אלהיך לא ירפך ולא יעזבך:
4

Mas — que D'us se compadeça de ti — aquilo em que cremos é que Ele fixou para a nossa servidão dois tempos: um deles o tempo da teshuvá (o arrependimento), e o segundo o tempo do ketz (o fim determinado). E qualquer dos dois que vier primeiro, por ele se torna obrigatória a redenção. E, se a nossa teshuvá se completar, não se olha para o ketz; mas será como disse o versículo na Torá (Devarim 30:1-10): “e sucederá que, quando vierem sobre ti todas estas coisas, a bênção e a maldição… e te converteres ao Senhor teu D'us e deres ouvidos à sua voz… então o Senhor teu D'us fará voltar o teu cativeiro” etc., e o restante dos dez versículos.

אבל (ירחמך האל) הדבר אשר נאמין, שהוא שם לשעבודנו ב' זמנים, אחד מהם זמן התשובה, והב' זמן הקץ. ואי זה בהם שיקדים תתחייב בו הגאולה, ואם תשלם תשובתנו אין מביטין אל הקץ, אבל יהיה כמו שאמר הכתוב בתורה (דברים ל' א-י) והיה כי יבאו אליך כל הדברים האלה הברכה והקללה ושבת עד יי' אלהיך ושמעת בקולו ושב יי' אלהיך וגו', ושאר הי' פסוקים.
Nota — os dois tempos: a teshuvá e o ketz Eis o coração do capítulo, e a resposta de Saadiá à pergunta “quando virá a redenção?”. D'us fixou dois prazos para o fim do exílio: o tempo da teshuvá (se Israel se arrepender plenamente, a redenção vem de imediato — Devarim 30) e o tempo do ketz, o fim absoluto já determinado. Vale o que chegar primeiro. A teshuvá pode antecipar tudo; mas, mesmo que falhe, há um limite cravado no tempo, além do qual o exílio não passa. A história não é, pois, indefinida: a redenção é certa — a única incógnita é se virá pelo mérito ou pelo prazo.
5

E, se a nossa teshuvá ficar aquém, permaneceremos no exílio até o cumprir-se do ketz; e parte de nós estará sob castigo e parte sob prova — assim como é sabido em toda calamidade que sobrevém de modo geral, em todas as épocas, na fome, na espada e na peste: que parte dos homens é por elas castigada e parte é provada. Tanto que nem o próprio Dilúvio escapou de ter nele crianças e pequeninos que foram provados e por isso recompensados. E, assim como não tenho dúvida de que entre os nossos pais no Egito havia muitos justos, e estes permaneceram na prova até completar-se aquele ketz fim. Por isso, não nos diga ninguém: “se houvesse justos entre vós, já vos teria vindo a redenção” — pois eis que Moshé, e Aharon, e Miriam permaneceram na servidão mais de oitenta anos, até completar-se o ketz; e como eles, outros dos justos.

ואם תקצר תשובתנו, נעמוד עד השלמת הקץ, ויהיה קצתנו ענושי' וקצתנו מנוסי', כאשר הוא ידוע בכל רעה שתבא בכלל בכל חלקי הזמן, ברעב והחרב והדבר, שיהיו קצת בני אדם ענושים בהם, וקצתם מנוסים, עד שהמבול לא נמלט שלא היה בו עוללים וטף מנוסים ונשכרים, וכמו שאין אצלי ספק שאבותינו במצרים היו בהם צדיקים רבים ועמדו בנסיון עד שנשלם הקץ ההוא. על כן אל יאמר לנו אומר אלו היו בכם צדיקים היתה באה לכם הגאולה, כי הנה משה ואהרן ומרים עמדו בשעבוד יותר משמנים שנה עד שנשלם הקץ, וכמוהם מהצדיקים:
Nota — alguns castigados, alguns provados; e o erro de culpar a falta de justos Quando o fim chega pelo ketz e não pela teshuvá, a geração não é uniforme: parte sofre como castigo, parte como prova — distinção que Saadiá já desenvolvera ao tratar do sofrimento do justo. Até no Dilúvio houve inocentes (crianças) cujo padecer foi prova recompensada, não pena. Daí a refutação direta de uma acusação corrente: “se houvesse justos entre vós, já estaríeis redimidos”. Falso — pois Moshé, Aharon e Miriam, justos insignes, suportaram a servidão por mais de oitenta anos, até o ketz. A presença de justos não força o fim; o fim tem hora própria.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

De quem mede os céus, nada é difícil

Saadiá prolonga a imagem de Yeshayahu 40: Aquele que mede os céus a um palmo, as águas na concha da mão, o pó e os montes na balança não terá dificuldade em reunir os exilados, trazer os banidos e reerguer o monte santo. É o raciocínio do menor ao maior: quem realizou o imenso fará o menor sem esforço. E as nações, diante de tal poder, são “a gota do balde” — não obstáculo à redenção, mas pó que se sacode.

A doutrina dos dois tempos

O núcleo do capítulo é a resposta de Saadiá ao “quando?”. D'us marcou dois prazos para o fim da servidão: o da teshuvá — se Israel se arrepender plenamente, a redenção vem já (Devarim 30) — e o do ketz, o fim absoluto cravado no tempo. Vale o que vier primeiro. O arrependimento pode antecipar tudo; mas, mesmo faltando, há um limite além do qual o exílio não passa. A redenção, portanto, é certa: resta saber se virá pelo mérito ou pelo prazo.

Castigo, prova, e o erro de culpar os justos

Quando o fim chega pelo ketz, a geração divide-se: uns sofrem como pena, outros como prova recompensada — havia inocentes até no Dilúvio. Por isso Saadiá refuta diretamente a acusação “se houvesse justos entre vós, já estaríeis livres”: Moshé, Aharon e Miriam, justos maiores, suportaram a servidão por mais de oitenta anos, até o ketz. A presença de justos não apressa o fim — o fim tem hora própria, fixada por D'us.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VIII (A redenção messiânica), cap. 2, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Yeshayahu 40:12; 40:15; 40:27; 59:1; Iyov 38:13; Devarim 4:31; 30:1-10. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VIII · A redenção messiânica · cap. 3

A Medida do Ketz — “um Tempo, Tempos e Metade”

מִדַּת הַקֵּץ — מוֹעֵד מוֹעֲדִים וָחֵצִי בְּחֶזְיוֹן דָּנִיֵּאל

Quanto durará o exílio? Saadiá enfrenta a medida do fim a partir da visão de Daniel junto ao Tigre, e do juramento do anjo “por um tempo, tempos e metade”. Explica por que o fim foi selado dos impacientes — que anseiam o reino deste mundo, não a vida vindoura — e expõe a sua própria leitura dos 1335 anos. Uma nota de leitura histórica acompanha o cálculo.

1

E preciso mencionar a medida do ketz o fim, e digo: o nosso D'us, bendito seja, mostrou ao Seu profeta Daniel três anjos — um deles de pé acima das águas do rio Tigre (Daniel 10:4), e os outros dois de pé sobre as duas margens, perguntando ao que estava acima das águas: “quando será a redenção?”. E é o que ele disse (ali 12:5): “eu, Daniel, olhei, e eis outros dois de pé, um aqui à margem do rio e outro ali à margem do rio”. E começou o anjo que estava acima das águas do rio, e jurou sobre um ketz que D'us fixara — ainda que não lhe houvessem pedido que jurasse —, e disse Daniel (ali 12:7): “e ouvi o homem vestido de linho, que estava acima das águas do rio, e levantou a sua mão direita e a sua mão esquerda aos céus, e jurou por Aquele que vive eternamente que seria por um tempo, tempos e metade de um tempo”.

וצריך שאזכור מדת הקץ ואומר, שאלהינו יתברך הראה לנביאו דניאל שלשה מלאכים, האחד מהם עומד ממעל למי חדקל (דניאל י' ד'), והשנים האחרים עומדים על שתי השפתות, ושואלים את העומד למעלה מהמים, מתי תהיה הגאולה? והוא אמרו (שם י"ב ה') ראיתי אני דניאל והנה שנים אחרים עומדים, אחד הנה לשפת היאור ואחד הנה לשפת היאור. והחל המלאך העומד ממעל למימי היאור, ונשבע על קץ שקבעו, אעפ"י שלא שאל ממנו להשבע, ואמ' דניאל (שם ז'), ואשמע את האיש לבוש הבדים אשר ממעל למימי היאור, וירם ימינו ושמאלו אל השמים וישבע בחי העולם כי למועד מועדים וחצי.
Nota — a visão de Daniel e o juramento do anjo O capítulo trata da medida do ketz — quanto há de durar o exílio. Saadiá parte da visão de Daniel junto ao rio Tigre (Daniel 10; 12:5-7): três anjos, dois nas margens e um sobre as águas, que jura “por um tempo, tempos e metade” (moed moadim vachetzi). É uma fórmula enigmática, e o resto do capítulo é o esforço de Saadiá para decifrá-la — um exemplo notável da sua confiança de que também o oculto cede à investigação racional, quando feita com método.
2

E os dois anjos ouviram dele “um tempo, tempos” — e isto lhes bastou, como se já soubessem o seu sentido; mas Daniel não soube qual o sentido de “um tempo, tempos e metade”, e perguntou ele próprio sobre isto ao anjo que estava acima das águas do rio, como disse (ali 12:8): “e eu ouvi, mas não entendi; e disse: meu senhor, qual será o fim destas coisas?”. E o anjo recomeçou, e antepôs-lhe a razão pela qual a coisa fora encerrada, antes de lhe explicar a resposta; e disse-lhe: encerrei a coisa para que sobre ela não se detivessem os simples e os tolos, e não se enfastiassem — pois não anseiam nem temem o que os sábios anseiam e temem, a saber, a recompensa do mundo vindouro, a vida perdurável; mas eles anseiam depressa pelo reino deste mundo e a sua glória. Os sábios, porém, hão de compreendê-la, como disse (Daniel 12:9-10): “vai, Daniel, pois encerradas e seladas estão as palavras” etc.; “muitos serão purificados, alvejados e refinados” etc.

ושני המלאכים שמעו ממנו מועד מועדי', והספיק להם בזה וכאלו ידעו פירושו, אבל דניאל לא ידע מה פירוש מועד מועדים וחצי, ושאל הוא את המלאך העומד ממעל למימי היאור על זה, כמו שאמר (שם ח') ואני שמעתי ולא אבין ואומרה אדני מה אחרית אלה? והחל המלאך עוד והקדים לו העלה אשר בעבורה סתם הדבר קודם שיפרש לו המענה, ואמר לו סתמתי הדבר כדי שלא יעמדו עליו הפתאים והכסילים ויקוצו, כי אינם מתאוים ויראים מה שהחכמים מתאוים ויראים, והוא גמול העולם הבאה, חיים המתמידים, אבל הם מתאוים מהרה מלכות העולם וכבודו. אבל החכמים יעמדו עליו, כמו שאמר (דניאל ט' י') לך דניאל כי סתומים וחתומי' הדברים וגו'. יתבררו ויתלבנו ויצרפו רבים וגו'.
Nota — por que o fim foi “selado” O ponto mais fino do capítulo é a explicação que o anjo dá antes de responder: o fim foi deliberadamente encerrado “para que os simples e os tolos não se detivessem sobre ele e se enfastiassem”. A razão é caracteristicamente racionalista: o que os tolos anseiam é “o reino deste mundo e a sua glória” — um messianismo político e impaciente —, ao passo que o sábio anseia “a recompensa do mundo vindouro, a vida perdurável”. O cálculo do fim é, portanto, perigoso para quem espera a coisa errada; só “os sábios hão de compreendê-la” (Daniel 12:10).
3

E depois explicou-lho: que são mil trezentos e trinta e cinco anos — como disse (ali 12:12): “feliz aquele que espera e chega aos mil trezentos e trinta e cinco dias”. E a palavra “dias” aqui significa o período de um ano, como disse a Torá (Vayicrá 25:29): “por dias (um ano) será o seu resgate” — e logo acrescentou: “e, se não for resgatada até se completar para ele um ano inteiro”.

ואחר כן פירש אותו לו שהם אלף ושלש מאות ושלשי' וחמש שנה. כאמרו (שם י"ב) אשרי המחכה ויגיע לימים אלף שלש מאות ושלשים וחמשה. ומלת ימים, תקופת שנה, כמו שאמרה התורה (ויקרא כ"ה כ"ט) ימים תהיה גאולתו, וסמך לו, ואם לא יגאל עד מלאת לו שנה תמימה.
4

E achamos que todo ketz que a Escritura fixou para a guerra de um dos reinos conta-se em anos, não em dias. Há os que ela menciona em anos: “e será que, ao fim de setenta anos, o Senhor visitará Tiro” (Yeshayahu 23:17); e disse ainda: “ao fim de quarenta anos reunirei o Egito” (Yechezkel 29:13). E há os que ela menciona em linguagem de “dias”, sendo na verdade anos, como disse a Yechezkel: “e eu te dei a iniquidade deles segundo o número de dias: trezentos e noventa dias” (ali 4:5). E, ao ajuntar a linguagem de anos e a linguagem de dia, mostrou com isso que “dias” são anos — e assim também neste lugar. E Daniel entendeu como o sentido de “um tempo, tempos e metade” eram mil trezentos e trinta e cinco anos, e não tornou a perguntar.

ומצאנו כל קץ ששם אותו למלחמה מן הממלכות, הם שנים לא ימים. ויש יזכרם השנים, והיה מקץ שבעים שנה יפקוד יי' את צור (ישעיה כ"ג י"ז). ואמר עוד, מקץ ארבעים שנה אקבץ את מצרים (יחזקאל כ"ט י"ג). ויש שיזכרם בלשון ימים והם שנים כמו שאמר ליחזקאל ואני נתתי לך את עונם למספר ימים שלש מאות ותשעים יום (שם ד' ה'). וקבץ לשון שנים ולשון יום, הראה בזה כי ימים הם שנים, וכן במקום הזה. ודניאל הבין איך היה פירוש מועד מועדים וחצי אלף ושלש מאות ושלשים וחמש שנה, ולא הוסיף לשאול.
5

E nós — que D'us te guie — precisamos esforçar-nos e investigar o sentido de “um tempo, tempos e metade”, até que se mostre serem como mil trezentos e trinta e cinco anos. Pois o dizer “por um tempo” (lemoed) não é senão um uso idiomático das palavras, como dizes (Shemot 23:15): “no tempo marcado lemoed do mês de Aviv”. E o cerne é “tempos e metade”. E investiguei, e achei que isto concorda com aquilo em que cremos: que ele quer dizer, com a palavra “tempos”, os dois reinos de Israel — e o ketz será como a soma dos seus dois reinos e a metade deles, sem dúvida. Isto é: todos os tempos do reino foram oitocentos e noventa anos — quatrocentos e oitenta antes da construção do Templo, e quatrocentos e dez no Templo —, e a sua metade é quatrocentos e quarenta e cinco; será o todo mil trezentos e trinta e cinco, sem acréscimo e sem falta.

ואנחנו (יישירך האל) צריכים להשתדל ולחקור על פירוש מועד מועדים וחצי, עד שיהיו כמו אלף ושלש מאות ושלשים וחמש שנה. כי אמרו למועד איננו כי אם לשמוש הדברים, כאמרך (שמות כ"ג ט"ו) למועד חדש האביב. והעקר מועדים וחצי. וחקרתי ומצאתי זה מסכים שנאמין, שהוא רוצה במאמר מועדים, שני מלכות ישראל, ויהיה הקץ כשני מלכותם וחצים בלי ספק. והוא שכל עתי המלכות שמנה מאות ותשעים שנה, ת"פ קודם בנין הבית, ות"י בבית, וחצים תמ"ה, יהיה הכל אלף ושלש מאות ושלשים וחמש בלי תוספת ובלי חסרון.
6

E assim o seu dizer (Daniel 12:11): “e desde o tempo em que for tirado o sacrifício contínuo e for posta a abominação desoladora, haverá mil duzentos e noventa dias” — conta-se desde o tempo de um acontecimento ocorrido no segundo Templo, no início da sua construção; esse termo será, depois do tempo em que esta declaração foi dita a Daniel, de mais quarenta e cinco anos. E o seu dizer (Daniel 8:14): “até que passem duas mil e trezentas tardes e manhãs, tarde e manhã, e o santuário será justificado” — é preciso tomar dele a metade, pois a Escritura expôs os “dias” pondo-os como noite e dia; e a metade será mil cento e cinquenta. E isto computa-se desde o tempo em que esta declaração foi dita a Daniel, havendo cento e oitenta e cinco anos; assim o término dos três prazos chega a um único e mesmo ano.

ויהיה אמרו (דניאל י"ב י"א) ומעת הוסר התמיד ולתת שקוץ שומם ימים אלף מאתים ותשעים, מעת מאורע שאירע בבית שני בתחלת בנינו, תהיה אחר העת אשר אמר בו המאמר הזה לדניאל, חמש וארבעים שנה. ויהיה אמרו (דניאל ח' י"ד) עד ערב בקר אלפים ושלש מאות ונצדק קדש, צריך שיקח ממנה החצי, שהציע הימים ושמם לילה ויום, ויהיה החצי אלף וק"ן. ויהיה זה מאחר העת אשר נאמר בו לדניאל המאמר הזה קפ"ה, יגיע סוף הג' זמנים אל שנה א' בעצמה:
Nota — sobre estes cálculos (leitura histórica) Convém ler este capítulo com perspectiva histórica. As contas de Saadiá — “dias” como anos (apoiado em Vayicrá 25:29 e Yechezkel 4:5), os 1335 anos como “os dois reinos e a metade” (480 + 410, e metade 445), e a convergência dos três prazos de Daniel — são exegese própria do século X, e os termos a que apontavam pertencem todos a um passado hoje remoto. A própria tradição talmúdica desaconselha “calcular o fim” (Sanhedrin 97b), e Saadiá reconhece que a matéria foi “selada”. Preserva-se aqui o raciocínio como documento do pensamento do autor — não como prognóstico —, fiel ao texto de domínio público.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Decifrar o enigma

Depois de estabelecer (cap. 2) que há dois prazos para o fim — a teshuvá e o ketz —, Saadiá volta-se aqui para a medida do ketz. A fonte é a visão de Daniel: o anjo sobre as águas do Tigre jura “por um tempo, tempos e metade” (Daniel 12:7). A fórmula é obscura de propósito; o capítulo é o esforço metódico do autor para traduzi-la em número.

O fim selado, e para quem

O detalhe mais revelador é a razão do segredo: o fim foi encerrado para que “os simples e os tolos não se detenham sobre ele e se enfastiem”. O messianismo dos tolos é político e impaciente — quer “o reino deste mundo e a sua glória”; o do sábio espera “a vida perdurável” do mundo vindouro. O cálculo do fim só não corrompe quem já espera a coisa certa. É a mesma desconfiança rabínica para com quem “força o fim”.

O cálculo, em perspectiva

Saadiá lê “dias” como anos (Vayicrá 25:29; Yechezkel 4:5), interpreta “tempos” como os dois reinos de Israel, e faz convergir os três números de Daniel (1335, 1290, e a metade de 2300) num só ano. É exegese engenhosa — e datada: os termos visados pertencem todos a um passado hoje remoto. A tradição talmúdica desaconselha calcular o fim (Sanhedrin 97b), e o próprio texto admite que a matéria foi “selada”. Guardamos o raciocínio como documento do pensamento de Saadiá, não como previsão.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VIII (A redenção messiânica), cap. 3, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Daniel 10:4; 12:5; 12:7; 12:8; 12:9-10; 12:11; 12:12; 8:14; Vayicrá 25:29; Yeshayahu 23:17; Yechezkel 29:13; 4:5; Shemot 23:15. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VIII · A redenção messiânica · cap. 4

A Dúvida nos Prazos — Egito e Babilônia como Prova

הַסָּפֵק בַּקִּצִּים — מִצְרַיִם וּבָבֶל כְּמוֹפֵת לַקֵּץ הַשְּׁלִישִׁי

Se há vários números para o fim, qual vale? Saadiá responde que D'us pôs a mesma aparente ambiguidade nos prazos das duas servidões anteriores — a do Egito (400, 430, 210 anos) e a da Babilônia (52 e 70) —, que já sabemos terem-se cumprido. Logo, a variação de números não invalida o terceiro ketz. O passado torna-se a prova de método para o futuro.

1

E depois disso digo: por causa da aparência de dúvida que há nos três prazos deste ketz fixado para esta nossa servidão, o nosso D'us pôs também, nos prazos das duas servidões anteriores, a mesma aparência de dúvida — para que não pensemos que a dúvida ocorreu apenas neste ketz, o que não seria verdade. E, quando virmos os dois ketzim anteriores, cuja veracidade já conhecemos, e neles acharmos algo como isto, a dúvida se apartará dos nossos corações.

ואחר כן אומר, ובעבור הדמות הספק בשלשה הזמנים בקץ הזה המושם לשעבודנו זה, שם אלהינו בשני קצי השני השעבודים הראשונים הדמות הספק גם כן, שלא נחשוב שהספק אירע בקץ הזה לבדו, מפני שאינו אמת. וכאשר נראה שני הקצים הקודמים אשר כבר ידענו אמתם, נמצא בהם כמו זה, יסור הספק מלבותינו.
Nota — a dúvida foi posta de propósito, e nos prazos que já se cumpriram A objeção óbvia ao capítulo anterior é: “mas há três números diferentes para o fim — qual deles?”. Saadiá responde com um movimento elegante. D'us colocou a mesma aparente ambiguidade nos dois fins anteriores — o do Egito e o da Babilônia — que já sabemos terem-se cumprido. Se a multiplicidade de números não invalidou aqueles, não invalida este. A história passada torna-se, assim, a prova de método para o futuro.
2

E explicarei isto, e digo: a dúvida na servidão do Egito é que ela, umas vezes, é dada como quatrocentos anos — o peregrinar da semente de Abraão, a sua escravidão e a sua aflição —, como disse (Bereshit 15:13): “certamente peregrina será a tua semente numa terra que não é sua, e os escravizarão e os afligirão quatrocentos anos” — e isto conta-se desde o tempo em que nasceu Yitzchak. E outras vezes é dada como quatrocentos e trinta anos, nos quais entram as duas peregrinações de Abraão — pois a saída de Abraão de Charan para a terra de Canaã está explícita na Escritura, mas a sua saída da Caldeia para Charan não está explícita, e o peregrinar de Abraão terá sido de trinta anos —, como disse (Shemot 12:40): “e a habitação dos filhos de Israel, que habitaram no Egito, foi de trinta anos e quatrocentos anos”. Mas como se chama Abraão “filhos de Israel”? E como se chamam Charan e a terra de Canaã “Egito”? Têm estas perguntas explicações próprias, mas não é este o seu lugar.

ואבאר זה ואומר, שהספק בשעבוד מצרים הוא, שפעם הוא ארבע מאות שנה, גרות זרע אברהם ועבדותם וענוים, כמו שאמר (בראשית ט"ו י"ג) כי גר יהיה זרעך בארץ לא להם ועבדום וענו אותם ארבע מאות שנה, וזה מעת שנולד יצחק. ופעם הוא ארבע מאות ושלשים שנה, יכנסו בהם שני גרות אברהם, כי יציאת אברהם מחרן אל ארץ כנען מפורשת, ויציאתו אל חרן איננה מפורשת, ותהיה גרות אברהם שלשים שנה, כמו שאמר, (שמות י"ב מ') ומושב בני ישראל אשר ישבו במצרים שלשים שנה וארבע מאות שנה. אבל איך נקרא אברהם בני ישראל? ואיך נקראו חרן וארץ כנען מצרים? יש להם פירושים אין זה מקומו.
Nota — os três números do Egito: 400, 430 e 210 O exílio egípcio aparece na Torá com prazos diferentes: 400 anos (Bereshit 15:13, contados do nascimento de Yitzchak), 430 anos (Shemot 12:40, incluindo as peregrinações de Abraão), e a estadia real no Egito, que a cronologia das gerações (Kehat–Amram–Moshé) limita a cerca de 210 anos. Saadiá não vê nisto contradição, mas pontos de partida distintos para a mesma conta — e deixa de fora, deliberadamente, as questões exegéticas de detalhe (“não é este o lugar”).
3

E, com tudo isto, todo o tempo em que habitaram no Egito foram duzentos e dez anos; e ninguém pode dizer que ali habitaram quatrocentos anos, porque os anos de Kehat, de Amram e de Moshé o impedem — e não é este o lugar de o esclarecer. E eis que se tornaram já três prazos: quatrocentos, quatrocentos e trinta, e duzentos e dez anos.

ועם זה כל מה שישבו במצרים ר"י שנה, ולא יוכל אדם לאמר שישבו שם ארבע מאות שנה, בעבור שימי קהת ועמרם ומשה מונעים, ואין זה מקום באורו. וכבר שבו שלשה זמנים, ארבע מאות, וארבע מאות ושלשים, ומאתים ועשר שנים.
4

Mas a servidão de Babilônia tem dois prazos: o primeiro, cinquenta e dois anos — e é o seu dizer (Yirmeyahu 29:10): “conforme se cumprirem setenta anos para Babilônia, eu vos visitarei”; e o segundo, setenta anos — e é o seu dizer (Daniel 9:2): “ao cumprir-se das ruínas de Yerushalayim setenta anos”. E houve, entre o início do reino de Babilônia e a destruição de Yerushalayim, dezoito anos, como está dito (Melachim II 25:8): “e no quinto mês, ao décimo dia do mês — era o ano décimo nono do rei Nevuchadnetzar”; e isto perfaz cerca de cinquenta e dois anos até o reino de Coresh (Ciro), que lhes deu permissão de edificar; e edificaram naquele ano, mas a obra da construção cessou por dezessete anos, até completar-se os setenta — como disse (Ezrá 4:24): “cessou então a obra da casa de D'us que está em Yerushalayim, e ficou parada até o ano segundo do reinado de Dario”.

אבל שעבוד בבל יש לו שני זמנים, האחד נ"ב שנה, והוא אמרו (ירמיה כ"ט י') לפי מלאת לבבל שבעים שנה אפקוד אתכם, והשני שבעים שנה, והוא אמרו (בדניאל ט' ב') למלאת לחרבות ירושלים שבעים שנה, והיה בין מלכות בבל וחרבן ירושלים שמנה עשר שנה, כמו שנאמר, (מלכים ב כ״ה:ח׳ ח') ובחדש החמישי בעשור לחדש היא שנת תשע עשרה שנה למלך נבוכדנצר, והוא כמו שנים וחמשים עד מלכות כורש, ונתן להם רשות לבנות, ובנו בשנה ההיא, ושבתה מלאכת הבנין י"ז שנה עד השלמת השבעים, כמו שאמר, (עזרא ד' כ"ד) בטילת עבידת בית אלהא די בירושלם והות בטלא עד שנת תרתין למלכות דריוש.
5

E, assim como não prejudicou, no primeiro ketz, a variação de três prazos — quatrocentos, quatrocentos e trinta, e duzentos e dez —, e não prejudicou, no segundo ketz, a variação de dois prazos — cinquenta e dois e setenta —, assim também não prejudicará, no terceiro ketz, a variação de três prazos — mil cento e cinquenta, mil duzentos e noventa, e mil trezentos e trinta e cinco —, porquanto D'us agraciou o Seu povo com tanto da sabedoria, a ponto de que todos a reconheçam.

וכאשר לא הזיק בקץ הראשון השתנות שלשה זמנים, ארבע מאות, וארבע משות ושלשים, ור"י, ולא הזיק בקץ השני השתנות שני זמנים, נ"ב, וע', כן לא יזיק בקץ השלישי השתנות שלשה זמנים, אלף ומאה וחמשים, ואלף ור"צ, ואלף ושלש מאות ול"ה, בעבור שחנן אלהים את עמו מהחכמה מה שיכירו בה הכל:
Nota — a conclusão, em perspectiva histórica A inferência é clara: se a variação de números não desmentiu os fins do Egito e da Babilônia, não desmente o terceiro. Vale, porém, a mesma ressalva do capítulo anterior: os três números do “terceiro ketz” (1150, 1290, 1335) são leitura própria de Saadiá no século X, e os termos a que apontavam pertencem a um passado hoje remoto. A tradição talmúdica desaconselha calcular o fim (Sanhedrin 97b). Guarda-se aqui o raciocínio como documento do pensamento do autor — fiel ao texto de domínio público —, não como prognóstico.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Responder à objeção pela história

O capítulo anterior deixava uma brecha: se o fim tem três números, qual deles? Saadiá fecha-a com um argumento histórico. Os fins do Egito e da Babilônia — que de fato ocorreram — também foram dados com números múltiplos; e isso não os tornou falsos. O método é, no fundo, indutivo: o que se confirmou no passado autoriza confiar no padrão para o que ainda não veio.

Egito e Babilônia, contados

No Egito: 400 anos (desde Yitzchak), 430 (com as peregrinações de Abraão), e ~210 de estadia real, fixados pela cronologia das gerações. Na Babilônia: 70 anos “para Babilônia” (Yirmeyahu) e 70 “para as ruínas de Yerushalayim” (Daniel), que não coincidem no tempo porque a destruição veio 18 anos depois do início do império, e a reconstrução parou 17 anos até o ano 2 de Dario (Ezrá 4:24). Pontos de partida diferentes, não contradições.

A inferência — e a perspectiva

Conclusão: se a variação não desmentiu os dois primeiros fins, não desmente o terceiro (1150, 1290, 1335). É um raciocínio coerente dentro do sistema de Saadiá. Convém, porém, lê-lo com perspectiva: trata-se de exegese do século X, cujos termos apontavam para um passado hoje remoto, e a própria tradição desaconselha “calcular o fim”. O valor do capítulo está no método de pensamento, não no número.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VIII (A redenção messiânica), cap. 4, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Bereshit 15:13; Shemot 12:40; Yirmeyahu 29:10; Daniel 9:2; Melachim II 25:8; Ezrá 4:24. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VIII · A redenção messiânica · cap. 5

As Dores do Messias — as Tribulações antes da Redenção

חֶבְלֵי מָשִׁיחַ — הַצָּרוֹת שֶׁלִּפְנֵי הַגְּאֻלָּה וְהִתְבָּרְרוּת הַנִּשְׁאָרִים

Se o prazo se cumprir sem teshuvá, como pode vir a redenção? A resposta da tradição são as “dores de parto do Messias”: tribulações que provocam o arrependimento e depuram o remanescente. Saadiá relata o quadro recebido — o homem da casa de Yosef, Armilus, Eliyahu — e ancora cada elemento na Escritura, fechando com a chave do tratado: avisar de antemão é bondade, para que o sofrimento não se confunda com abandono.

1

E, uma vez que expus estes prazos e os esclareci, digo agora: já sabemos que, se a nossa teshuvá não se completar, permaneceremos no exílio até cumprir-se o ketz. E, se o ketz se completar antes de retornarmos, não é cabível que haja a salvação estando nós ainda em pecado — pois Ele nos exilou por causa dos nossos pecados; e, se o nosso exílio se prolongou e ainda não retornámos, havê-lo-ia Ele de nos fazer retornar antes de nos corrigirmos? Isso seria em vão. Mas os nossos antigos, de abençoada memória, receberam por tradição que nos hão de sobrevir muitas e más tribulações, por causa das quais escolheremos a teshuvá e nos tornaremos dignos de ser redimidos. E é o que disseram: “se Israel faz teshuvá, é redimido; e, se não, o Santo, bendito seja, levanta sobre eles um rei cujos decretos são duros como os de Hamán — e então eles fazem teshuvá e são redimidos”.

וכיון שפרשתי הקצים האלו ובארתים, אומר עתה, כבר ידענו שאם לא תשלם תשובתנו נעמוד עד השלמת הקץ, ואם ישלם הקץ קודם שנשוב לא יתכן שתהיה הישועה ואנחנו חוטאים, שהוא הגלנו מפני חטאינו, וכאשר ארך גלותינו ולא שבנו, ישיבנו קודם שנתקן? יהיה זה בשוא. אבל קדמוננו ז"ל קבלו, שתקראנה אותנו צרות רבות ורעות, שנבחר בעבורם התשובה, ונהיה ראויים להגאל. והוא מה שאמרו, אם ישראל עושין תשובה נגאלין, ואם לאו, הקדוש ברוך הוא מעמיד עליהם מלך, שגזרותיו קשות כהמן, והם עושין תשובה ונגאלין.
Nota — por que tribulações? O problema de ser redimido em pecado O capítulo abre com um dilema teológico agudo. Se chegamos ao fim do prazo (o ketz) sem ter feito teshuvá, como pode vir a redenção? D'us exilou-nos pelos nossos pecados; redimir-nos ainda pecadores “seria em vão”. A resposta da tradição é o conceito que ficou conhecido como chevlei mashiach, as “dores de parto do Messias”: virão tribulações severas que provocarão o arrependimento, tornando o povo digno. Daí o dito talmúdico (Sanhedrin 97b): se Israel não se arrepende, D'us levanta “um rei cujos decretos são duros como os de Hamán” — e então se arrependem e são redimidos.
2

E disseram que a causa disto será: a aparição de um homem dos filhos de Yosef no monte da Galileia; e ajuntar-se-ão a ele homens do nosso povo, e ele irá ao Templo depois de este estar sob o domínio de Edom, e permanecerá ali com eles por um tempo; e depois subirá contra eles um rei cujo nome é Armilus, e fará guerra contra ela a cidade, e tomará a cidade, e matará, e levará cativo, e afligirá; e o homem que era da tribo de Yosef estará entre os mortos. E o nosso povo estará em grandes tribulações; e a mais dura das tribulações será a deterioração da sua situação junto a todos os reinos, e o tornarem-se odiosos a eles, a ponto de os expulsarem para os desertos, até que tenham fome e sede. E, pela força das tribulações que os alcançam, sairão muitos deles da sua Torá; e restarão os que ficarem — os purificados, os depurados —, e então lhes aparecerá Eliyahu, e virá a redenção.

ואמרו שסבת זה, עמידת איש מבני יוסף בהר הגליל, ויתקבצו אליו אנשים מבני עמנו, וילך אל בית המקדש אחר שיהיה ברשות אדום, ויעמוד שם עמם זמן, ואחר כן יעלה עליהם מלך ששמו ארמילוס, וילחם בה וילכוד העיר ויהרג וישבה ויענה, ויהיה האיש אשר משבט יוסף, בכלל ההרוגים, ויהיו עמנו בצרות גדולות, והקשה שבצרות הפסד ענינם עם כל המלכיות והתבאשם בם, עד שיגרשום אל המדברות, עד אשר ירעבו ויצמאו. ומחוזק הצרות המוצאות, יצאו רבים מהם מתורתם, וישארו הנשארים המתבררים המזוקקים, ואז יראה להם אליהו ותבא הגאולה:
Nota — sobre as figuras: Mashiach ben Yosef, Armilus, Eliyahu Os personagens deste relato pertencem à literatura apocalíptica e midráshica sobre o fim, e Saadiá é uma das fontes antigas a ordená-los. O homem dos filhos de Yosef é o que a tradição chama Mashiach ben Yosef — um líder-precursor da casa de José, que reúne um remanescente e tomba na guerra (distinto do Mashiach ben David, o rei redentor). Armilus é, nestas fontes, a figura do tirano final, inimigo escatológico. E Eliyahu (Malachi 3:23) é o arauto que “faz retornar os corações” e anuncia a redenção. São motivos tradicionais, não cronologia literal.
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E, depois de ouvir a tradição destas tribulações, considerei a Escritura e nela achei lugar para cada uma delas. A primeira: que Edom conquistará o Templo no tempo da redenção — diz-se sobre isto (Ovadiá 1:21): “e subirão salvadores ao monte Tzión para julgar o monte de Esav”. E que com eles guerreará um dos filhos de Rachel — disse sobre isto (Yirmeyahu 49:20): “portanto, ouvi o conselho do Senhor, que decretou contra Edom, e os seus desígnios, que concebeu contra os habitantes de Teman: certamente os arrastarão os menores do rebanho”. E que poucos homens da nação se ajuntarão a ele, não muitos — disse sobre isto (ali 3:14): “e tomar-vos-ei, um de cada cidade e dois de cada família”. E que aquele que se levanta contra eles os prenderá, os levará cativos e os matará — disseram sobre isto (Zecharyá 14:1-2): “eis que vem um dia para o Senhor, e a tua presa será repartida no meio de ti; e ajuntarei todas as nações contra Yerushalayim para a guerra, e a cidade será tomada, e as casas saqueadas”. E que o homem que reinava (o líder) estará entre os mortos, e o chorarão e o lamentarão — disse sobre isto (ali 12:10): “e olharão para mim, a quem traspassaram, e o lamentarão como se lamenta por um filho único”, e o restante do assunto.

ואחר ששמעתי אלה הצרות, התבוננתי בכתוב, ומצאתי בו מקום לכל דבר מהם. ותחלתם שאדום יכבשו בית המקדש בעת הגאולה, יאמר בו (עובדי' א' כ"א) ועלו מושיעים בהר ציון לשפוט את הר עשו, ושילחם בם אחד מבני רחל, אמר בזה, (ירמיה מ"ט כ') לכן שמעו עצת יי' אשר יעץ על אדום ומחשבותיו אשר חשב על יושבי תימן אם לא יסחבום צעירי הצאן, ושאנשים מעטים מן האומה יתקבצו אליו לא רבים, אמר בו, (שם ג' י"ד) ולקחתי אתכם אחד מעיר ושנים ממשפחה, ושהעולה עליהם יתפשם וישבם ויהרגם, אמרו בו (זכריה י"ד א' ב') הנה יום בא ליי' וחולק שללך בקרבך ואספתי את כלן הגוים אל ירושלים למלחמה ונלכדה העיר ונשסו הבתים, ושהאיש אשר מלך יהיה מן הנהרגים ויבכו לו ויספדהו, אמר בו (שם י"ב י') והביטו אלי את אשר דקרו וספדו עלו כמספד על היחיד, ושאר הענין;
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E que uma grande tribulação alcançará a nação naquele tempo — disse sobre isto (Daniel 12:1): “e haverá um tempo de angústia como nunca houve desde que houve nação até aquele dia”. E que um grande ódio se renovará entre muitos deles e as nações, a ponto de os expulsarem para os muitos desertos — disse sobre isto (Yechezkel 20:35): “e vos trarei ao deserto dos povos, e ali entrarei em juízo convosco”. E que terão fome e sede e serão afligidos, como sucedeu aos seus pais — disse a seguir (ali): “e ali entrarei em juízo convosco, face a face, como entrei em juízo com os vossos pais”. E que ali serão purificados e provados quanto a como suportaram e quanto à firmeza da sua fé — disse a seguir (ali 20:37): “e far-vos-ei passar debaixo do cajado, e vos farei entrar no vínculo da aliança”. E que estas coisas levam aquele cuja fé é fraca a sair da sua religião, dizendo: “é isto o que esperávamos? E é isto o que nos chegou dela?” — disse sobre isto a seguir (ali 20:38): “e separarei de vós os rebeldes e os que transgridem contra mim”. E que ao remanescente lhe aparecerá Eliyahu e fará retornar o seu coração — disse sobre isto (Malachi 3:23-24): “eis que eu vos envio Eliyahu, o profeta” etc.; “e fará retornar o coração dos pais para os filhos”.

ושצרה גדולה תמצא האומה בעת ההיא, אמר בו (דניאל י"ב א') והיתה עת צר אשר לא נהיתה מהיות גוי עד היום ההוא, וששנאה גדולה תתחדש בין רבים מהם ובין האומות, עד שיגרשום אל המדברות הרבים, אמר בו (יחזקאל כ' ל"ה) והבאתי אתכם אל מדבר העמים ונשפטתי אתכם שם, ושירעבו ושיצמאו ויתענו כאשר אירע לאבותיהם, אמר אחריו (שם) ונשפטתי אתכם שם פנים אל פנים כאשר נשפטתי את אבותיכם, ושיתבררו שם ויבחנו איך סבלם וחוזק אמונתם, אמר אחריו (שם ל"ז) והעברתי אתכם תחת השבט והבאתי אתכם במסורת הברית, ושאלה הדברים גורמים למי שאמונתו חלושה לצאת מדתו, שיאמר: זה הוא אשר היינו מקוים? וזה הוא אשר הגיע אלינו ממנו? אמר בו אחריו (שם ל"ח) וברותי מכם המורדים והפושעים בי, ושהנשאר יראה להם אליהו וישיב את לבבם, אמר בו (מלאכי ג' כ"ג כ"ד) הנה אנכי שולח לכם את אליה הנביא וגו', והשיב לב אבות על בנים.
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E eis que os conteúdos destas coisas estão explícitos na Escritura; e os antigos acrescentaram-nos o serviço de ordená-las, uma após outra, conforme foram escritas. E seja louvado Aquele que avultou a Sua bondade sobre nós, antecipando a menção destas tribulações — para que não nos atinjam de súbito e nos lancem ao desespero; e, também quanto à sua renovação, disse ainda (Yeshayahu 24:16): “da extremidade da terra ouvimos cânticos” — até o fim da parashá.

והנה עניני הדברים האלה מפורשים במקרא, והוסיפו לנו הקדמונים שסדרום דבר אחרי דבר כאשר נכתבו. וישתבח מי שהגביר חסדו עלינו, בהקדמת זכרון הצרות האלה, שלא תפגענה אותנו פתאום ותיאשנה אותנו, ובהתחדשם אמר עוד (ישעיה כ"ד ט"ז) מכנף הארץ זמירות שמענו עד סוף הפרשה:
Nota — a bondade de avisar antes O fecho dá ao capítulo a sua chave racionalista. Por que a Escritura e os sábios detalharam de antemão estas tribulações terríveis? Por bondade — “para que não nos atinjam de súbito e nos lancem ao desespero”. Saber que o sofrimento estava previsto, e que tem um termo, é o que impede que ele se confunda com abandono. A mesma lógica do “dobro” (cap. 1) e do fim selado (cap. 3): o conhecimento ordenado é, para Saadiá, uma forma de misericórdia — arma da esperança contra o pânico.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O nó: redenção sem mérito?

Saadiá enfrenta de frente a dificuldade deixada pelo cap. 2: e se o ketz chegar com Israel ainda em pecado? Redimir o impenitente “seria em vão”. A solução tradicional é causal: as tribulações finais não são gratuitas — são o que gera a teshuvá, tornando o povo digno. É a doutrina dos chevlei mashiach, sintetizada no dito de que D'us suscita “um rei duro como Hamán” justamente para reconduzir o povo (Sanhedrin 97b).

Um quadro tradicional, lido na Escritura

O relato — o líder da casa de Yosef que cai, Armilus, a queda de Yerushalayim, a expulsão ao deserto, a apostasia dos fracos, a depuração do remanescente, a vinda de Eliyahu — vem da literatura apocalíptica e midráshica do fim. O que Saadiá faz de característico é verificá-lo: para cada elemento aponta um versículo (Ovadiá, Yirmeyahu, Zecharyá, Daniel, Yechezkel, Malachi). Não inventa o quadro; submete-o ao texto.

Avisar é misericórdia

A conclusão é o coração racionalista do capítulo: por que descrever de antemão horrores tão grandes? Porque o aviso é bondade — “para que não nos atinjam de súbito e nos lancem ao desespero”. Sofrimento previsto, e com termo marcado, não é abandono. Como o “dobro” e o “fim selado” dos capítulos anteriores, também aqui o conhecimento ordenado é a arma da esperança contra o pânico.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VIII (A redenção messiânica), cap. 5, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Ovadiá 1:21; Yirmeyahu 49:20; 3:14; Zecharyá 14:1-2; 12:10; Daniel 12:1; Yechezkel 20:35-38; Malachi 3:23-24; Yeshayahu 24:16; cf. Sanhedrin 97b. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VIII · A redenção messiânica · cap. 6

Ben David e a Guerra de Gog — até a Salvação Eterna

בֶּן דָּוִד וּבֶן יוֹסֵף — מִלְחֶמֶת גּוֹג, קִבּוּץ גָּלֻיּוֹת וּתְשׁוּעַת עוֹלָמִים

O capítulo mais panorâmico do tratado desenha o arco completo da redenção: a vinda do Mashiach ben David (com o ben Yosef como precursor), a guerra de Gog com as pragas sobre os ímpios e a conversão das nações, a obrigação de Sucot, a reunião dos exilados trazidos de toda parte, a ressurreição, a reconstrução do Templo, a luz da Shechiná — e a salvação eterna, na qual o povo escolhe livremente servir a D'us, num mundo todo alegria.

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E digo, depois disto, que em ambos os casos juntos — quero dizer: quer não retornemos em teshuvá e ocorram os acontecimentos do filho de Yosef, quer retornemos em teshuvá e eles não ocorram —, ser-nos-á mostrado o Mashiach ben David de súbito. E, se o Mashiach ben Yosef vier antes dele, será como seu emissário, como reformador da nação e como aquele que desimpede o caminho — como está escrito (Malachi 3:1): “eis que envio o meu mensageiro, e ele preparará o caminho diante de mim” —, e como fogo que refina, para os de pecados graves, e como a planta borit (álcali) que lava, para os de pecados leves, como disse a seguir (ali 3:2): “mas quem suportará o dia da sua vinda, e quem ficará de pé quando ele aparecer? pois ele é como o fogo do ourives e como a borit dos que lavam”.

E, se ben Yosef não vier, virá ben David de súbito, como está escrito (ali 3:1): “e de súbito virá ao seu templo o Senhor que buscais”; e trará consigo um povo, até chegar a Yerushalayim. E, se a cidade estiver na mão de Armilus, ben David o matará e a tomará — e é o que disse (Yechezkel 25:14): “e porei a minha vingança sobre Edom pela mão do meu povo Israel”. E, se estiver em mão de outro que não Armilus, esse será também de Edom.

ואומר אחר זה, כי על שני הענינים יחד, ר"ל אם לא נחזור בתשובה ויהיו המאורעים של בן יוסף, ואם נחזור בתשובה ולא יהיו, יראה לנו משיח בן דוד פתאום. ואם יהיה משיח בן יוסף קודם לו, יהיה כשליח לו וכמתקן האומה וכמסקל הדרך, כמ"ש (מלאכי ג' א') הנני שולח מלאכי ופנה דרך לפני, וכמצרף אש לבעלי החטאים הגדולים, וכמכבס בורית לבעלי החטאים הקלים, כמו שאמר אחריו (שם ב') ומי מכלכל את יום בואו ומי העומד בהראותו כי הוא כאש מצרף וכבורית מכבסים. ואם לא יבא, ויבא בן דוד פתאום, כמ"ש (שם א') ופתאום יבא אל היכלו האדון אשר אתם מבקשים, ויביא עמו עם עד אשר יגיע אל ירושלים. ואם תהיה ביד ארמילוס, יהרוג אותו ויתפשנה. והוא מה שאמר (יחזקאל כ"ה י"ד) ונתתי את נקמתי באדום ביד עמי ישראל. ואם תהיה יד זולתו, יהיה גם כן מאדום.
Nota — Mashiach ben David e Mashiach ben Yosef Saadiá distingue dois ungidos. O Mashiach ben David é o rei redentor, que “virá de súbito” (Malachi 3:1) seja qual for o cenário — com ou sem arrependimento prévio. O Mashiach ben Yosef, quando precede, é figura subordinada: emissário, reformador da nação e “desimpedidor do caminho”, que “refina” os pecadores graves e “lava” os leves (Malachi 3:2) — e que, segundo o cap. 5, tomba na guerra. É a articulação clássica dos dois messias na tradição: o precursor que prepara e padece, e o rei que consuma.
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E, no caso de não ter vindo ben Yosef, receberão de ben David o que lhes fortalecerá o coração, curará a sua fratura e elevará a sua alma, como está escrito (Yeshayahu 61:1-2): “o espírito do Senhor D'us está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para anunciar boas-novas aos humildes; enviou-me para vendar os de coração quebrantado, para proclamar liberdade aos cativos” etc., “para proclamar o ano do agrado do Senhor”. E aqui explicou as espécies de recompensa — de grandeza, de honra e de glória —, dizendo a seguir (ali 61:3): “para conceder aos que choram em Tzión, para lhes dar formosura em vez de cinza”. E habitarão a terra e morarão nela, como disse a seguir (ali 61:4): “e edificarão as ruínas antigas”.

וכיון שלא בא בן יוסף, יפגעו מבן דוד מה שיאמץ לבם וירפא שברם ויגביה נפשם, כמ"ש (ישעיה ס"א א' ב') רוח יי' אלהים עלי יען משח יי' אותי לבשר ענוים שלחני לחבוש לנשברי לב לקרא לשבוים דרור וגו' לקרא שנת רצון ליי'. ופירש הנה מיני הגמול מהגדולה והכבוד והתפארת, באמרו אחריו (שם ג') לשום לאבילי ציון לתת להם פאר תחת אפר. ויושיבו הארץ וישכנו בה, כמו שאמר אחריו (שם ד') ובנו ממך חרבות עולם.
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Então os homens de Gog ouvirão a fama de ben David e do seu povo, e da bondade da sua terra e da abundância da sua riqueza, e de que habitam em segurança, sem fortaleza, sem muralha e coisas semelhantes; e subirá ao seu coração tomá-la, como disse acerca de Gog (Yechezkel 38:11): “e dirás: subirei contra uma terra de aldeias abertas, virei contra os tranquilos, que habitam em segurança, todos eles morando sem muro, e não têm trancas nem portas”. E ajuntar-se-á a ele um povo numeroso, de muitas nações, e passará por muitas terras até chegar a eles, como disse (ali 38:15): “e virás do teu lugar, dos confins do norte, tu e muitos povos contigo”.

E os que se ajuntarem a ele serão de duas espécies: uns, grandes ímpios entregues à morte; e os outros, um povo que se prepara para entrar na Torá de Israel. Os que hão de ser mortos são aqueles de quem a Escritura disse (Yoel 4:2): “e ajuntarei todas as nações, e fá-las-ei descer ao vale de Yehoshafat”; e disse ainda (ali 4:9-14): “proclamai isto entre as nações, preparai a guerra” etc.; “forjai das vossas relhas espadas” etc.; “apressai-vos e vinde, todas as nações” etc.; “despertem-se e subam as nações” etc.; “metei a foice, pois a seara está madura” etc.; “multidões e multidões no vale da decisão”. E os que se preparam (convertem) são aqueles de quem disse (Tzefanyá 3:9): “pois então tornarei pura a fala dos povos, para que todos invoquem o nome do Senhor” etc.

אז ישמעו אנשי גוג את שמע בן דוד ועמו, וטוב ארצם ורוב הונם, ושהם ישבים לבטח בלי מבצר ובלי חומר והדומה לזה, יעלה בלבבם לתפשה, כמו שאמר בגוג (יחזקאל ל"ח י"א) ואמרת אעלה על ארץ פרזות אבא השוקטים יושבי לבטח כלם יושבים באין חומה ובריח ודלתים אין להם. ויקבוץ אליו עם רב מאומות רבות, ויעבור בארצות רבות עד שיגיע אליהם. כמו שאמר (שם ט"ו) ובאת ממקומך מירכתי צפון אתה ועמים רבים אתך. ויהיו הנקבצם אליו שני מינים, האחד מהם רשעים גדולים מתמכרים למות, והשני עם מתקנים להכנס בתורת ישראל. והמומתים הם אשר אמר בם (יואל ד' ב') וקבצתי את כל הגוים והורדתים אל עמק יהושפט, ואמר עוד (שם ט-יד) קראו זאת בגוים קדשו מלחמה וגו', כותו אתיכם לחרבות וגו', עושו ובואו כל הגוים וגו', יעורו ויעלו הגוים וגו', שלחו מגל כי בשל קציר וגו', המונים המונים בעמק החרוץ. והמתקנים הם אשר אמר בהם (צפניה ג' ט') כי אז אהפוך אל עמים שפה ברורה לקרא כלם בשם יי' וגו'.
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E virão sobre os ímpios, naquele dia, quatro espécies de pragas. Alguns morrerão por aquilo que sobre eles se fará chover — fogo, enxofre e pedras —, como disse (Yechezkel 38:22): “e chuva inundante, e pedras de granizo, fogo e enxofre” etc. E alguns morrerão pela espada, um contra o seu próximo, como disse (ali 38:21): “e convocarei contra ele a espada por todos os meus montes, diz o Senhor D'us” etc. E alguns morrerão por apodrecer-lhes a carne e desprenderem-se os seus membros, como disse (Zecharyá 14:12): “e esta será a praga com que o Senhor ferirá” etc., “apodrecendo-se a sua carne enquanto está de pé sobre os seus pés” — a ponto de, se um deles vier a segurar a sua mão na mão do seu próximo, a mão lhe ficar decomposta na mão, como disse (ali 14:13): “e pegará cada um na mão do seu próximo, e a sua mão se levantará contra a mão do seu próximo”. E nos que restarem vivos permanecerão os sinais dos golpes que sobre eles vierem — como o furar de um olho, o decepar de um nariz, o cortar de um dedo —; e sairão para os confins das terras e contarão o que viram, como disse (Yeshayahu 66:19): “e porei neles um sinal, e enviarei dentre eles sobreviventes às nações”.

ויבאו על הרשעים ביום ההוא, ארבעה מינים מן המגפות. קצתם ימותו במה שימטר עליהם אש וגפרית ואבנים, כמו שאמר (יחזקאל ל"ח כ"ב) וגשם שוטף ואבני אלגביש אש וגפרית וגו', וקצתם ימותו בחרב איש ברעהו, כמו שאמר (שם כ"א) וקראתי עליו לכל הרי חרב נאם יי' אלהים וגו', וקצם ימותו שימק בשרו ויתפרדו אבריו, כמו שאמר (זכריה י"ד י"ב) וזאת תהיה המגפה אשר יגוף יי' וגו' בהמק בשרו והוא עומד על רגליו, עד שאם יבא אחד מהם להחזיק ידו ביד רעהו תעלה בידו, כמו שאמר (שם י"ג) והחזיקו איש יד רעהו ועלתה ידו על יד רעהו. והשאר יחיה בהם סימני מכות שתבאנה עליהם, כנקירת עין, וגדיעת אף, וכריתת אצבע, ויצאו אל קצוי הארצות, ויספרו מה שראו, כמו שאמר (ישעיה ס"ו י"ט) ושמתי בהם אות ושלחתי מהם פלטים אל הגוים.
Nota — a guerra de Gog e os dois destinos das nações O quadro da guerra de Gog (Yechezkel 38-39) é central na escatologia bíblica: o invasor do “extremo norte” que cobiça a terra que vive em segurança. Saadiá lê os que se ajuntam a Gog como divididos em dois destinos — os ímpios “entregues à morte” (as quatro pragas que descreve a seguir) e os que “se preparam para entrar na Torá de Israel”, isto é, os que se voltam para o monoteísmo (Tzefanyá 3:9, “uma fala pura para invocar o Nome”). A catástrofe e a conversão das nações são, no relato, as duas faces do mesmo desfecho.
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E os que se preparam (os convertidos), também eles, serão de quatro espécies: dentre eles, os que servirão os filhos de Israel nas suas casas — e estes são os grandes —, como disse (ali 49:23): “e reis serão os teus aios, e as suas princesas as tuas amas”; e dentre eles, os que os servirão no trabalho das cidades e das aldeias, como disse (ali 14:2): “e tomá-los-á a casa de Israel, na terra do Senhor, por servos e por servas”; e dentre eles, os que os servirão nos campos e nos desertos, como disse (ali 61:5): “e estarão de pé estranhos e apascentarão os vossos rebanhos, e os filhos do estrangeiro serão os vossos lavradores e os vossos vinhateiros”.

E o restante voltará à sua terra, estando sob a mão de Israel; e ben David decretará sobre eles que venham todos os anos celebrar a festa de Sucot, como disse (Zecharyá 14:16): “e será que todo o que restar de todas as nações que vieram contra Yerushalayim subirá, de ano em ano, para se prostrar diante do Rei, o Senhor dos Exércitos” etc. E toda nação que nela não celebrar a festa, não cairá sobre eles chuva, como disse (ali 14:17): “e será que, a família que não subir, dentre todas as famílias da terra, a Yerushalayim” etc. E, se disserem os egípcios: “nós não precisamos de chuva, pois o nosso Nilo rega a nossa terra” — não subirá o seu Nilo, como disse (ali 14:18): “e, se a família do Egito não subir nem vier” etc.

והמתקנים גם כן על ארבעה מינים, מהם מי שיעבוד את בני ישראל בבתיהם, והם הגדולים, כמו שאמר (שם מ"ט כ"ג) והיו מלכים אומניך ושרותיהם מניקותיך, ומהם מי שיעבוד אותם בעבודת המדינות והכפרים, כמו שאמר (שם י"ד ב') בית ישראל על אדמת ה' לעבדים ולשפחות, ומהם מי שיעבדום בשדות ובמדברות. כמו שאמר (שם ס"א ה') ועמדו זרים ורעו צאנכם ובני נכר אכריכם וכורמיכם, והשאר ישובו אל אדמתם, והם תחת יד ישראל, ויגזור עליהם בן דוד לבא בכל שנה לחוג את חג הסכות, כמו שאמר (זכריה י"ד ט"ז) והיה כל הנותר מכל הגוים הבאים על ירושלים ועלו מדי שנה בשנה להשתחות למלך יי' צבאות וגו'. וכל אומה שלא תחוג בו לא ירד עליהם מטר, כמו שאמר (שם י"ז) והיה אשר לא יעלה מכל משפחות הארת אל ירושלים וגו'. ואם יאמרו המצרים, אנחנו אין צריכים למטר, כי יאורנו משקה את ארצנו, לא יעלה יאורם, כמו שאמר (שם י"ח) ואם משפחת מצרים לא תעלה ולא באה וגו'.
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E então as nações verão que a grande coisa por que podem aproximar-se de ben David é trazerem-lhe, como oferenda, aquele judeu que esteja entre o seu povo, como disse (Yeshayahu 14:2): “e tomá-los-ão os povos e os levarão ao seu lugar”. E cada nação fará isto conforme a sua possibilidade: pois os ricos delas trarão os filhos de Israel sobre cavalos, e em mulas, e em liteiras, e em carruagens, com grande pompa e honra, como está escrito (ali 66:20): “e trarão todos os vossos irmãos, dentre todas as nações, como oferenda ao Senhor” etc. E os pobres dentre eles os trarão sobre os seus ombros, e os seus filhos no seu regaço, como disse (ali 49:22): “e trarão os teus filhos no regaço” etc. E quem dentre eles estiver nas ilhas do mar, os trarão em navios, com prata e ouro, como disse (ali 60:9): “pois as ilhas me aguardarão, e os navios de Tarshish” etc.

E quem dentre eles estiver na terra de Kush, os trarão em barcos de junco, até chegarem ao Egito — pois, no lugar alto onde um monte sai por entre as águas, os barcos de madeira não podem nele passar sem se quebrarem; mas os barcos de junco, feitos com cera, se tocarem no monte, dobram-se e não se quebram —, como disse (ali 18:1): “ai da terra do sussurro de asas, que está além dos rios de Kush”. E o sentido de “sussurro de asas” é que as suas terras estão cobertas e apinhadas de muita gente. E disse (ali 18:2): “que envia embaixadores pelo mar, em vasos de junco”; e disse no fim da parashá: “naquele tempo será trazido um presente ao Senhor dos Exércitos” etc.; e disse (Tzefanyá 3:10): “de além dos rios de Kush, os meus suplicantes, a filha dos meus dispersos, trarão a minha oferenda”. E quem ficar nos desertos, dentre Israel, ou em lugar onde não haja quem o traga dentre as nações, o nosso D'us o trará depressa — como se as nuvens o transportassem, como disse (Yeshayahu 60:8): “quem são estes que voam como nuvem?”; ou como se ele fosse ave, como disse (ali): “e como pombas para os seus pombais”; ou como se os ventos o transportassem, como disse (ali 43:6): “direi ao norte: dá; e ao sul: não retenhas” etc.

ואז יראו האומות כי הדבר הגדול שיוכלו להתקרב אל בן דוד, הוא שישאו אליו מי שהוא מעמו למנחה, כמו שאמר (ישעיה י"ד ב') ולקחום עמים והביאום אל מקומם. וכל אומה תעשה בזה כפי יכלתה, כי עשיריהם ישאו בני ישראל על הסוסים ובפרדים ובצבים ובכירכרות דרך גדולה וכבוד, כמ"ש (שם ס"ו כ') והביאו את כל אחיכם מכל הגוים מנחה ליי' וגו'. והעניים שבהם ישאו על כתפיהם, ובניהם בחצנם כמו שאמר (שם מ"ט כ"ב) והביאו בניך בחצן וגו'. ומי שיהיה מהם ביניהם באיי הים, ישאו אותם בספינות עם כסף וזהב, כמו שאמר (שם ס' ט') כי לי איים יקוו ואניות תרשיש וגו'. ומי שיהיה מהם בארץ כוש, ישאו אותם בארבו' של גומא עד שיגיעו למצרים, כי במקום הגבוה הר יוצא במים, לא יוכלו הדוגית לעור בו שלא ישברו, אך ארבות הגומא העשוים בשעוה, אם יגעו בהר תכפף ולא תשכר, כמו שאמר (שם י"ח א') הוי ארץ צלצל כנפי' אשר מעבר לנהרי כוש. וענין צלצל כנפים שארצותם מסככים ונתסרים מהרבה בני אדם. ואמר (שם ב') השולח בים צירים ובכלי גמא, ואמר בסוף הפרשה, בעת ההיא יובל שי לה' צבאות וגו', ואמר (צפניה ג' י') מעבר לנהרי כוש עתירי בת פוצי יובילון מנחתי. ומי שנשאר במדברות מישראל או במקום שאין שם מי שישאנו מן האומות, יביאהו אלהינו במהרה, כאלו העבים נושאים אותו, כמו שאמר (ישעיה מס' ח') מי אלה כעב תעופנה, או כאלו הוא עוף, כמו שאמר (שם) וכיונים אל ארובותיהם, או כאלו הרוחות נושאות אותו, כמו שאמר (שם מ"ג ו') אומר לצפון תני ולתימן אל תכלאי וגו'
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E, quando se ajuntarem os vivos dentre Israel, os que creem, conforme mencionei, dar-se-á então a ressurreição dos mortos — como expliquei no tratado anterior a este Tratado VII —, e ben Yosef estará à frente deles, pois é homem justo e provado, e o Criador o recompensará com bem. Então o Criador renovará a construção do Seu santuário, como disse (Tehillim 102:17): “pois o Senhor edificou Tzión, apareceu na sua glória”; e os recintos e os palácios, conforme expôs Yechezkel em “e sucedeu, no vigésimo quinto ano do nosso exílio…”, até o fim da parashá (Yechezkel 40:1); e com pedras preciosas, como esclareceu Yeshayahu (54:12): “e farei as tuas janelas de rubis, e as tuas portas de carbúnculos”. E toda a terra será habitada, a ponto de não restar nela lugar arruinado, como disse (ali 35:7): “e a terra abrasada se tornará lago, e a terra sequiosa, fontes de água”.

Então se verá a luz da Shechiná raiar sobre o Templo, a ponto de os luzeiros ficarem diante dela apagados — pois já expliquei, no segundo tratado, que ela ilumina mais do que toda luz —, como disse (ali 60:1): “levanta-te, resplandece, pois vem a tua luz” etc.; a ponto de aquele que não conhece o caminho do Templo ir pelo rumo daquela luz, pois ela vai do céu até a terra, como disse (Yeshayahu 61:9): “e será conhecida entre as nações a sua semente, e os seus descendentes no meio dos povos”. E permanecerão neste estado por todos os dias do mundo, e não se mudará a sua situação, como disse (ali 45:17): “Israel é salvo pelo Senhor com salvação eterna”. E subiu ao meu coração a ideia de que a Escritura não disse esta palavra — “para todo o sempre” — neste lugar como nos demais lugares, senão para nos confirmar a firmeza da salvação, com toda a força que se acha na língua, e para rejeitar as palavras de quem diz que ela tem fim e termo.

וכאשר יתקבצו החיים מישראל המאמינים כאשר זכרתי, תהיה אז תחית המתים, כאשר בארתי במאמר הקודם לזה, ויהיה בן יוסף בראשם, כי הוא איש צדיק ומנוסה, ויגמלהו הבור בטוב. אז יחדש הבורא בנין מקדשו, כמו שאמר (תהלים ק"ב י"ז) כי בנה יי' ציון נראה בכבודו, והגזרות והיכלות כאשר פרש יחזקאל בויהי בעשרים וחמש שנה לגלותנו, עד אחרית הפרשה (יחזקאל מ׳:א׳). ובאבנים היקרות כמו שבאר ישעיהו (ישעיה נ"ד י"ב) ושמתי כדכר שמשותיך ושעריך לאבני אקדח. ותתישב כל הארץ עד שלא ישאר בה מקום חרב, כמו שאמר (שם ל"ה ז') והיה השרב לאגם וצמאון למבועי מים. אז יראה אור השכינה זורח על בית המקדש, עד שיהיו המאורים נגדו כהים, כי כבר פרשתי במאמר השני שהוא מאיר יותר מכל אור, כמו שאמר (שם ס' א') קומי אורי כי בא אורך וגו', עד שיהיה מי שאיננו יודע דרך בית המקדש ילך דרך האור ההוא, כי הוא מן השמים עד הארץ, כמו שאמר (ישעיה ס"א ט') ונודע בגוים זרעם וצאצאיהם בעמים. ויעמדו על הענין הזה כל ימי העולם, לא ישתנ' ענינם, כמו שאמר (שם מ"ה י"ז) ישראל נושע ביי' תשועת עולמים. ועלה בלבי, כי לא אמר המלה הזאת שהיא עד עולמי עד במקום הזה כשאר המקומות, כ"א לאמת אצלנו חוזק הישועה בחזק שמצא בלשון, ולדחות דברי מי שאומר שיש לה קץ ותכלית.
8

E a Escritura deu-nos a conhecer que o povo escolherá o serviço de D'us e não a rebeldia — como está explícito na parashá “e o Senhor teu D'us circuncidará o teu coração” (Devarim 30:6) e na parashá (Yechezkel 36:26) “e vos darei um coração novo”, até o seu fim. E escolhem isto por vários motivos: o primeiro, porque veem a luz da Shechiná e o pousar da profecia sobre eles, e porque estão no seu reino, em bem e em delícias, e não há quem os force, e não lhes falta coisa alguma, e todos os seus assuntos vão em êxito.

E deu-nos a conhecer que toda peste, todo flagelo e toda doença se apartarão, todos, do nosso meio, e assim também todo luto, toda tristeza e todo ódio; mas terão um mundo que é todo alegria e júbilo, a ponto de ser como se o seu céu e a sua terra se houvessem renovado para eles, como esclareceu na parashá (Yeshayahu 65:17-19): “pois eis que crio céus novos e terra nova… mas regozijai-vos e exultai para todo o sempre no que crio… e me alegrarei em Yerushalayim”. E quão honrado é um mundo todo alegria e júbilo, todo serviço de D'us e temor dele, todo recompensa e bom galardão! E disto diz (Tehillim 144:12-14): “em que os nossos filhos sejam como plantas… os nossos celeiros cheios… os nossos príncipes carregados de bens”.

והודיענו כי העם יבחרו בעבודה ולא במרי, כאשר הוא מפורש בפרשת ומל יי' אלהיך את לבבך (דברים ל' ו') ובפרשת (יחזקאל ל"ו כ"ו) ונתתי לכם לב חדש, עד סופה. ובוחרים בזה בכמה פנים, האחד מפני שהם רואים אור השכינה וחול הנבואה עליהם, ושהם במלכותם בטוב ובנעימים, ואין מי שיכריחם, ואינם חסרים דבר, וכל עניניהם בהצלחה. והודיענו שכל דבר וכל נגף וכל מחלה יסורו כלם מקרבנו, וכן כל אבל וכל יגון וכל שנאה. אבל יהיה להם עולם שכלו שמחה וששון, עד כאלו שמיהם וארצם התחדשו להם, כמו שבאר בפרשת (ישעיה ס"ה יז-יט) כי הנני בורא שמים חדשים וארץ חדשה כי אם שישו וגילו עדי עד, וגלתי בירושלים. ומה נכבד עולם כלו שמחה וששון, כלו עבודת האל ויראתו, כלו גמול ושכר טוב. ובזה אומר (תהלים קמ"ד יב-יד) אשר בנינו כנטיעים, מזוינו מלאים, אלופינו מסובלים:
Nota — o ápice: livre-arbítrio, alegria e salvação eterna O capítulo culmina não em conquista, mas em escolha. Mesmo na era messiânica, “o povo escolherá o serviço e não a rebeldia” (Devarim 30:6; Yechezkel 36:26) — o livre-arbítrio, pilar de todo o livro, não é abolido; o que muda é a clareza das condições (luz da Shechiná, profecia, paz, fartura) que tornam a boa escolha natural. Some-se a isso a abolição de toda doença, luto e ódio, e “um mundo todo alegria” (Yeshayahu 65). Note-se ainda a observação filológica fina de Saadiá: “salvação eterna” (45:17) usa, de propósito, a expressão mais forte da língua — para fechar a porta a quem imagine que a redenção um dia termine.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O arco completo da redenção

Depois de tratar dos prazos (caps. 2-4) e das tribulações (cap. 5), Saadiá monta aqui o quadro inteiro do fim, costurando dezenas de versículos numa sequência: dois messias, a guerra de Gog, o juízo das nações, o retorno dos exilados, a ressurreição, o Templo reerguido. É exegese narrativa — cada cena ancorada num texto —, mais do que profecia detalhada. O método é o de sempre: não afirmar nada que a Escritura não sustente.

Catástrofe e conversão

O destino das nações é duplo. Os ímpios “entregues à morte” perecem nas quatro pragas (fogo, espada, putrefação, mutilação dos sobreviventes), num juízo de severidade quase apocalíptica. Mas, ao lado, há os que “se preparam para entrar na Torá de Israel” — o universalismo de Tzefanyá 3:9, “uma fala pura para que todos invoquem o Nome”. A redenção de Israel não é, para Saadiá, o fim das nações, mas a sua reordenação em torno do monoteísmo.

O fim é escolha, não coação

O clímax é discretamente filosófico. Mesmo no mundo redimido, “o povo escolherá o serviço e não a rebeldia” (Devarim 30:6; Yechezkel 36:26): o livre-arbítrio — eixo de todo o livro — não é suspenso; apenas as condições (a luz visível da Shechiná, a profecia, a paz, a fartura) tornam a boa escolha quase inevitável. E a salvação é “eterna” no sentido mais forte da língua: um mundo sem doença, luto nem ódio, “todo alegria e júbilo”. Termina onde o livro inteiro aponta — na felicidade do conhecimento e do serviço de D'us.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VIII (A redenção messiânica), cap. 6, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Malachi 3:1-2; Yechezkel 25:14; 38:11; 38:15; 38:21-22; 36:26; 40:1; Yeshayahu 61:1-5; 66:19-20; 49:22-23; 14:2; 60:8-9; 18:1-2; 43:6; 54:12; 35:7; 60:1; 61:9; 45:17; 65:17-19; Yoel 4:2; 4:9-14; Tzefanyá 3:9; 3:10; Zecharyá 14:12-18; Tehillim 102:17; 144:12-14; Devarim 30:6. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VIII · A redenção messiânica · cap. 7

“Tudo já se Cumpriu”? — Condição contra Promessa

הֲשִׁיבָה לְאוֹמְרִים שֶׁהַיְּעוּדִים כְּבָר נִתְקַיְּמוּ — תְּנַאי מוּל הַבְטָחָה

Saadiá responde aos que sustentam que as profecias da redenção já se esgotaram no segundo Templo, por serem — alegam — condicionais, e Israel ter falhado a condição. A refutação é metódica: pela análise gramatical, distingue as promessas condicionais de Moshé (“se guardardes…”) das consolações incondicionais da redenção, e apela ao juramento divino (as águas de Nóach) e à presciência de D'us.

1

E, depois destes esclarecimentos, falarei sobre aquilo que me chegou: que há pessoas que se chamam judeus, as quais pensam que todos estes tempos marcados e todas estas consolações se deram, todos, no segundo Templo, e já passaram, e nada deles restou. E isto porque assentaram raízes corrompidas e sobre elas edificaram as suas palavras; e foi que disseram que toda esta grandiosidade que vemos prometida à salvação — como “não se porá mais o teu sol, nem a tua lua se recolherá” (Yeshayahu 60:20), e o que disse (Yirmeyahu 31:40): “não será arrancada nem demolida para sempre” — tudo isso é sob condição: só se o serviço do povo se completar. Disseram que isto é semelhante ao que Moshé disse a Israel (Devarim 11:21): “para que se multipliquem os vossos dias e os dias dos vossos filhos” etc.; e que, quando pecaram, acabaram-se os seus dias e foi-se o seu reino — e que, assim, parte destes tempos marcados ocorreram no segundo Templo e depois se foram, e parte nem sequer ocorreram, por terem pecado.

ואחר הפרושים האלה אדבר על מי שהגיעני, כי יש אנשים שנקראים יהודים, חושבים כי אלה המועדים כלם ואלה הנחמות היו כלם בבית שני ועברו, ולא נשאר מהם דבר. והוא ששמו שרשי' מופסדי' ובנו עליהם דבריהם, והם שאמרו שזאת ההפלגה שאנחנו רואים לישוע', כמו לא יבא עוד שמשך וירחך לא יאסף (ישעיה ס' כ') ואמר (ירמיה ל"ח מ') לא ינתש ולא יהרס לעולם, הכל הוא בתנאי אם תשלם עבודת העם, אמרו זה דומה למה שאמר משה לישראל (דברים י"א כ"א) למען ירבו ימיכם וימי בניכם וגו', וכאשר חטאו נגמרו ימיהם וסרה מלכותם, כן היו קצת המועדים האלה בבית שני וסרו, וקצתם לא היו, בעבור שחטאו.
Nota — a tese que Saadiá enfrenta: “tudo já se cumpriu” Saadiá volta-se contra uma leitura corrente no seu tempo: a de que as profecias da redenção se esgotaram no segundo Templo e nada resta a esperar — uma espécie de “escatologia realizada”. O argumento dos adversários é hábil: as grandes promessas (Yeshayahu 60:20; Yirmeyahu 31:40) seriam condicionais, como as bênçãos de Moshé (“para que se multipliquem os vossos dias”, Devarim 11:21); tendo Israel pecado, a condição falhou e a promessa caducou. Para Saadiá, isto assenta em “raízes corrompidas” — e o resto do capítulo é a sua refutação metódica.
2

E tomei — que D'us te conduza — o âmago das palavras destas pessoas, que é a tese da condição, e submeti-o ao ofício da análise gramatical rigorosa, e achei-o corrompido e nulo por vários ângulos. Um deles: que os tempos marcados de Moshé a Escritura declarou-os expressamente como sob condição, pois ele diz (ali 11:22): “pois, se guardardes diligentemente todo este mandamento… então o Senhor desapossará todas estas nações”; e disse (Shemot 23:22): “pois, se ouvirdes atentamente a sua voz… serei inimigo dos teus inimigos”; e disse “e será, em consequência de ouvirdes” (Devarim 7:12), e o semelhante a isto. Mas estas consolações da redenção não têm nada desta condição — antes, são tempos marcados simples (incondicionais).

ולקחתי (יישירך האלהים) מכונת דברי האנשים האלה אשר היא התנאי, והבאתיה במלאכת הדקדוק, ומצאתיה מופסדת בטלה מכמה צדדין. אחד מהם שמועדי משה פרש בם שהם על תנאי, שהוא אומר (שם כ"ב) כי אם שמור תשמרון את כל המצוה הזאת והוריש יי' את כל הגוים האלה. ואמר (שמות כ"ג כ"ב) כי אם שמוע תשמעו בקולו, ואיבתי את אויביך. והיה עקב תשמעון (דברים ז' י"ב), והדומה לזה. ואלה הנחמות אין בהם מהתנאי הזה מאומה, אבל הם מועדים פשוטים.
Nota — o método: distinguir o condicional do incondicional A resposta de Saadiá é caracteristicamente gramatical e exegética: ele submete a tese “ao ofício da análise rigorosa” (diqduq). O ponto decisivo é uma distinção de forma: as promessas de Moshé vêm marcadas, no próprio texto, por partículas condicionais — “se guardardes” (Devarim 11:22), “se ouvirdes” (Shemot 23:22). As consolações da redenção, ao contrário, são enunciadas sem qualquer condição — “tempos marcados simples”. A diferença não é teológica antes de ser linguística: o texto promete de modos diferentes, e tratá-los como iguais é o erro de leitura.
3

E ainda: que a Moshé não lhe bastou ter condicionado as promessas ao seu povo com “se guardardes” e “se ouvirdes”, e devolver-lhes o contrário disto ao seu entendimento — a saber, que, se não as cumprirem, Ele não lhas cumprirá —, a ponto de inverter-lhes o assunto, como disse (ali 8:19): “e será que, se de todo te esqueceres do Senhor teu D'us” etc., “como as nações que o Senhor faz perecer diante de vós, assim perecereis”; e disse ainda (ali 4:25-26): “quando gerares filhos… eu hoje tomo por testemunha contra vós o céu e a terra”. Mas, nestas consolações, Ele não condicionou em coisa alguma — quanto menos as inverteria.

ועוד כי משה לא די לו שהתנה על עמו באם שמור ואם שמוע, ושישיבם בהפך זה אל שכלם, ושאם לא יקיימו לא יקים להם, עד שהפך להם הענין, כמו שאמר (שם ח' י"ט ') והיה אם שכח תשכח את יי' אלהיך וגו', כגוים אשר יי' מאביד מפניכם כן תאבדון. ואמר עוד (שם ד' כ"ה כ"ו) כי תוליד בנים, העידותי בכם היום ובאלה הנחמות לא התנה בדבר כל שכן שיהפכם.
4

E outro deles: que Ele pôs estes tempos marcados como pôs o dilúvio de Nóach; e disse, por assim dizer: “assim como, se as criaturas pecarem, não trarei mais sobre elas o dilúvio — porque jurei a respeito dele que não haveria mais —, mas as castigaria por outro meio; assim também a vós não removerei o vosso reino, porque jurei sobre isto”. E é o seu dizer (Yeshayahu 54:9): “pois isto é para mim como as águas de Nóach: assim como jurei que as águas de Nóach não mais passariam sobre a terra…”. E, se Israel viesse a pecar, Ele os castigaria com aquilo que quisesse, mas não com a remoção do seu reino.

ומהם ששם אלה המועדים כמו מבול נח, ואמר כמו שאם יחטאו הברואים לא אביא עליהם עוד המבול, בעבור שנשבעתי עליו שלא יהיה עוד, אבל הייתי עונש אותו בזולתו, כן אתם לא אסיר מלכותכם, בעבור שנשבעתי על זה. והוא אמרו (ישעיה נ"ד ט') כי מי נח זאת לי אשר נשבעתי מעבור מי נח עוד. ואלו היו חוטאים היה עונש אותם במה שירצה לא בהסרת מלכותם.
5

E outro deles: que Ele já deu a conhecer que o povo escolherá o Seu serviço, não a Sua rebeldia, conforme explicámos; e Ele sabe tudo o que há de ser, como já antepusemos, e está descartado que haja ali algum pecado ou iniquidade que Ele não conheça. E, uma vez que não haverá pecado, ainda que houvesse condição esta não os prejudicaria — quanto mais que ali não há condição alguma. E ainda: que, na Torá, Ele o pôs como as coisas novas que nela decretou — conforme explicámos no sexto tratado —, quando jurou e decretou, dizendo (Devarim 32:40-43): “pois levanto a minha mão aos céus e digo: vivo eu para sempre… se eu afiar o relâmpago da minha espada… embriagarei as minhas flechas de sangue… exultai, ó nações, com o seu povo”. E, com todos estes esclarecimentos, anula-se o que lhes pareceu verdade e o alarme com que se assustaram, tirado do lado da condição.

ומהם שכבר הודיע כי העם יבחרו בעבודתו לא בהמרותו, כאשר פרשנו. והוא יודע כל מה שיהיה כאשר הקדמנו, ובטל שיהיה שם חטא או עון שלא ידעהו. וכאשר לא יהיה חטא, אפילו אם היה תנאי לא היה מזיק להם, כל שכן שאין שם תנאי. ועוד שבתורה שמהו כמו החדשות אשר גזר בהם, כאשר בארנו במאמר הששי, כאשר נשבע וגזר ואמר, (דברים ל"ג מ-מג) כי אשא אל שמים ידי, אם שנותי ברק חרבי, אשכיר חצי מדם, הרנינו גוים עמו. ועם כל אלה הבאורים, יבוטל מה שנדמה להם ומה שהבהילו בו משער התנאי:
Nota — o juramento e a presciência divina Os dois últimos argumentos são os mais fortes. (1) O juramento: D'us equipara a permanência de Israel ao pacto do dilúvio (Yeshayahu 54:9) — assim como jurou nunca mais trazer o dilúvio (e, se preciso, castigaria por outro meio), jurou não remover o reino de Israel; logo, mesmo o pecado seria punido “de outro modo”, não pela anulação da promessa. (2) A presciência: Ele já revelou que, na era redimida, o povo escolherá servi-Lo (cap. 6), e conhece de antemão todo o futuro — não há pecado oculto que pudesse acionar uma condição. Onde não haverá falta, nem uma cláusula condicional faria diferença — quanto mais não havendo cláusula alguma.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Uma objeção a desarmar

O tratado podia fechar no esplendor do cap. 6; mas Saadiá sabe que há uma objeção capaz de esvaziar tudo: a tese de que as promessas já se realizaram e expiraram. Se a esperança que ele acabou de erguer pudesse ser lida como passado consumado, todo o edifício ruiria. Por isso dedica um capítulo inteiro a refutá-la — sinal de que a tomava a sério como adversária intelectual, não como mero deslize.

A gramática como teologia

A chave da resposta é uma distinção de forma. As bênçãos mosaicas trazem, no texto, partículas condicionais (“se guardardes”, “se ouvirdes”) e até a sua inversão explícita (“se esqueceres… perecereis”). As consolações proféticas da redenção são enunciadas sem qualquer condição. Para Saadiá, ler ambas como iguais é um erro de leitura, não de fé: o próprio modo gramatical do texto distingue o que é promessa pura do que é pacto condicionado.

Juramento e presciência

Aos argumentos textuais somam-se dois teológicos. O juramento: a permanência de Israel é jurada como o pacto do arco-íris (Yeshayahu 54:9) — inviolável; um eventual pecado seria punido “de outro modo”, nunca pela anulação da promessa. E a presciência: D'us já revelou que, no fim, o povo O escolherá (cap. 6) e conhece todo o futuro — não há falta oculta que possa acionar condição alguma. O capítulo blinda, assim, a esperança contra a leitura que a daria por encerrada.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VIII (A redenção messiânica), cap. 7, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Yeshayahu 60:20; 54:9; Yirmeyahu 31:40; Devarim 11:21-22; 7:12; 8:19; 4:25-26; 32:40-43; Shemot 23:22. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VIII · A redenção messiânica · cap. 8

Quinze Provas de que a Redenção ainda não Veio

חֲמִשָּׁה עָשָׂר שְׁעָרִים — שֶׁהַנֶּחָמוֹת עֲדַיִן לֹא נִתְקַיְּמוּ

Refutado o princípio dos adversários, Saadiá demonstra positivamente que as profecias da redenção não se cumpriram no segundo Templo, com quinze argumentos em três grupos de cinco: pela Escritura (a realidade modesta do retorno em Esdras-Neemias), pela tradição (as grandes imagens escatológicas que não ocorreram) e pela observação (ainda há guerra, tributo, feras — e o mar de Sodoma segue salgado).

1

E, uma vez que arranquei o alicerce do seu edifício, refutá-los-ei em seguida por meio de quinze portões (argumentos): cinco deles por prova da Escritura, cinco da tradição (aggadá), e cinco daquilo que se alcança pela vista (observação). E os cinco que provêm da Escritura — o primeiro deles está nestas consolações: que todo Israel será reunido ao Templo, e não restará nenhum deles na peregrinação do exílio, como está escrito (Yechezkel 34:13): “e os reunirei das terras e os trarei à sua terra”; e contudo não voltaram deles, no segundo Templo, senão quarenta e dois mil trezentos e sessenta, como disse (Nechemyá 7:66): “toda a congregação, reunida como um só, era de quarenta e dois mil trezentos e sessenta”. E o segundo: que serão reunidos das ilhas do mar, como disse (Yeshayahu 11:11): “de Chamat e das ilhas do mar”; e contudo, no primeiro exílio, não foram a lugar algum das ilhas — quanto menos voltariam delas. E o terceiro: que os povos edificarão as muralhas do Templo, como disse (ali 60:10): “e os filhos do estrangeiro edificarão as tuas muralhas”; e contudo, não bastasse não terem edificado nada para nós no segundo Templo, ainda nos impediram de edificar, e estávamos em guerra contínua durante a construção, como está escrito (Nechemyá 4:11): “os que edificavam no muro… com uma das suas mãos faziam a obra, e a outra segurava a arma”.

וכיון שעקרתי יסוד בנינם, אשיב עליהם אח"כ בחמשה עשר שער. חמשה מהם בראיה מן הכתוב, וחמשה מן ההגדה, וחמשה ממה שיושג בראות. והחמשה אשר מן הכתוב, תחלתם בנחמות האלה, שישראל יקובצו כלם אל בית המקדש, ולא ישאר מהם אחד בגרות, כמ"ש (יחזקאל ל"ד י"ג) וקבצתים מן הארצות והביאותים אל אדמתם, ולא שב מהם בבית שני כי אם שנים וארבעים אלף ושלש מאות וששים, כמו שאמר (נחמיה ז' ס"ו) כל הקהל כאחד ארבע רבוא אלפים שלש מאות וששים. והשני שיקובצו מאיי הים, כמו שאמר (ישעיה י"א י"א) מחמת ומאיי הים, ולא הלכו בגלות הראשונה אל מקום מן האיים, כל שכן שישובו מהם. והשלישי שהעמים יבנו חומות בית המקדש, כמו שאמר (שם ס' י') ובנו בני נכר חומותיך, ולא די שלא בנו לנו מאומה בבית שני, אלא שמנעו אותנו לבנות והיינו במלחמה תדירא בבנין, כמ"ש (נחמיה ד' י"א) הבונים בחומה באחת ידו עושה במלאכה ואחת מחזקת השלח.
Nota — quinze provas em três grupos Tendo derrubado o princípio dos adversários no capítulo anterior (a tese da condição), Saadiá passa agora à demonstração positiva, com uma estrutura de disputa rigorosa: quinze argumentos de que as profecias não se cumpriram no segundo Templo, repartidos em três grupos de cinco — pela Escritura, pela tradição e pela observação. Os cinco escriturísticos contrapõem, a cada promessa profética, um versículo de Esdras-Neemias que descreve a realidade modesta do retorno: poucos voltaram (42.360), as muralhas foram erguidas sob ataque, os portões fechavam-se de medo, e Israel continuava súdito.
2

E o quarto: que os portões da cidade estarão abertos noite e dia, pela segurança dos que entram e dos que saem, como está escrito (Yeshayahu 60:11): “e os teus portões estarão abertos continuamente, de dia e de noite não se fecharão”; e contudo achei-os, no segundo Templo, fechando-os antes de o sol se pôr, e não os abriam senão ao meio-dia, como está escrito (Nechemyá 7:3): “e disse-lhes: não se abram os portões de Yerushalayim até o sol aquecer” etc. E o quinto: que não restará nação que não esteja sob o seu serviço (sob Israel), como Ele disse (Yeshayahu 60:12): “pois a nação e o reino que não te servirem perecerão”; e o que não tem dúvida é que eles e os seus campos estavam subjugados aos reis no segundo Templo, como está escrito (Nechemyá 9:36): “eis que hoje somos servos — e a terra que deste aos nossos pais…”. E estes são os cinco esclarecimentos que provêm da Escritura.

והרביעי ששערי המדינה יהיו פתוחים לילה ויומם מהבטחת הנכנסים והיוצאים כמ"ש (ישעיה ס' י"א) ופתחו שעריך תמיד יומם ולילה לא יסגרו ומצאתים בבית שני סוגרים אותם קודם בא השמש, ולא היו פותחים אותם עד חצי היום כמ"ש (נחמיה ז' ג') ואומר להם לא יפתחו שערי ירושלים וגו'. והחמישי שלא תשאר אומה שלא יהיו תחת עבודתם כאמרו (ישעיה ס' י"ב) כי הגוי והממלכה אשר לא יעבדוך יאבדו, ומה שאין בו ספק שהם ושדותיהם היו משועבדים למלכים בבית שני כמ"ש (נחמיה ט' ל"ו) הנה אנחנו היום עבדים והארץ אשר נתת לאבותינו. ואלה החמשה באורים אשר מן הכתוב.
3

E os cinco que provêm do lado da tradição (aggadá): o primeiro deles, que o povo acenderá fogo da madeira que houver nos artefatos de guerra de Gog por sete anos, como está escrito (Yechezkel 39:9): “e sairão os habitantes das cidades de Israel, e acenderão e queimarão as armas — o escudo e o pavês, o arco e as flechas, o bastão de mão e a lança —, e com elas acenderão fogo por sete anos”. E o segundo: que o Nilo do Egito secará num só lugar, e o rio Eufrates em sete lugares, como está escrito (Yeshayahu 11:15): “e o Senhor destruirá com herem a língua do mar do Egito” etc. E o terceiro: que o monte das Oliveiras se fenderá pelo seu meio, para o oriente e para o ocidente, até partir-se, e ficará metade dele para o norte e metade para o sul, e haverá entre as metades um vale grande, como está escrito (Zecharyá 14:4): “e fender-se-á o monte das Oliveiras” etc.

והחמשה אשר מצד ההגדה, תחלתם שהעם יבערו אש מן העצים אשר יהיו בכלי מלחמת גוג שבע שנים כמ"ש (יחזקאל ל"ט ט'), ויצאו יושבי ערי ישראל ובערו והשיקו בנשק בקשת וחצים ובמקל יד וברמח ובערו בהם אש שבע שנים. והשני שיאור מצרים יחרב במקום אחד, ונהר פרת בשבעה מקומות, כמ"ש (ישעיה י"א ט"ו) והחרים יי' את לשון ים מצרים וגו'. והשלישי שהר הזתים יבקע מחציו מזרחה וימה עד שיחלק, ויהיה חציו אל הצפון וחציו אל הנגב, ויהיה ביניהם גיא גדולה, כמ"ש (זכריה י"ד ד') ונבקע הר הזתים וגו'.
4

E o quarto: a construção do Templo, conforme está escrito na “forma da Casa”, do seu princípio até o seu fim (Yechezkel 40-48). E o quinto: que sairá uma fonte do Templo, e depois se alargará até se tornar um rio grande, que homem algum não poderá atravessar, como disse (Yechezkel 47:1): “e eis águas que saíam de debaixo do limiar da Casa”, até o fim da parashá; e, sobre as duas margens do rio, toda árvore de comer, cujo fruto é perpétuo e cuja folha é permanente — dela vem alimento e dela vem remédio —, como está escrito (ali 47:12): “e junto ao ribeiro subirá, sobre a sua margem, de um lado e do outro, toda árvore de comer” etc. E não nos foi relatado que houvesse ocorrido coisa alguma destas cinco — antes, a tradição obriga a concluir que nada delas se deu, de modo algum.

והרביעי בנין בית המקדש, ככתוב בצורת הבית מתחלתה ועד סופה (יחזקאל מ-מח). והחמישי שיצא מעין מבית המקדש, ואחר כן ירחב עד שיהיה נהר גדול שלא יוכל אדם לעבור בו, כמו שאמר (יחזקאל מ"ז א') והנה מים מתחת מפתן הבית עד סוף הפרשה. ועל שתי שפתות הנהר, כל עץ מאכל שפריו מתמיד ועלהו קים, ממנו מזון וממנו רפואה, כמ"ש (שם י"ב) ועל נחל יעלה על שפתו מזה ומזה וגו'. ולא הגד לנו שהיה מאומה מאלה החמשה, אבל ההגדה מחיבת שלא היה מהם דבר בשום פנים.
Nota — as provas da tradição: imagens escatológicas O segundo grupo reúne sinais da literatura profética e tradicional que descrevem o fim em registo grandioso e cósmico: o fogo das armas de Gog ardendo sete anos (Yechezkel 39:9), o Nilo e o Eufrates secando, o monte das Oliveiras fendendo-se ao meio (Zecharyá 14:4), o Templo da “forma da Casa” (Yechezkel 40-48), e o rio que brota do santuário com árvores de fruto perpétuo e folha que cura (Yechezkel 47). São imagens de transformação total da natureza e do lugar — e o argumento de Saadiá é simples: nada disto se relatou ter acontecido. A tradição que descreve o fim é a mesma que atesta que ele ainda não veio.
5

E os outros cinco, que se alcançam pela vista: o primeiro deles, que todas as criaturas crerão e confessarão que o Criador é Um, como está escrito (Zecharyá 14:9): “naquele dia o Senhor será Um e o seu Nome Um”; e eis que nós as vemos no seu erro e na sua descrença. E o segundo: a guarda dos filhos de Israel — que não darão mais tributo, nem haverá quem lhes tome dinheiro ou colheita para outrem —, como está escrito (Yeshayahu 62:8): “jurou o Senhor pela sua mão direita e pelo braço da sua força: não darei mais o teu trigo por alimento aos teus inimigos” etc.; e nós vemos cada nação dando tributo, servindo e obedecendo à nação sob cuja mão está. E o terceiro: que as guerras cessarão, a ponto de homem algum não mais portar arma de guerra, como está escrito (ali 2:4): “e forjarão das suas espadas relhas de arado… não levantará nação contra nação a espada”; e o que nós vemos é o contrário disto.

והחמשה האחרים אשר ישיגם הראות, תחלתם שהברואים כלם יאמינו ויודו כי הבורא אחד, כמ"ש (זכריה י"ד ט') ביום ההוא יהיה יי' אחד, והנה אנחנו רואים אותם בתעותם וכפירתם, והשני שמירת בני ישראל שלא יתנו עוד מס ולא נושאים ממון ולא תבואה לזולתם, כמ"ש (ישעיה ס"ב ח') נשבע יי' בימינו ובזרוע עזו אם אתן את דגנך עוד מאכל לאויביך וגו', ואנחנו רואים כל אומה נותנת מס ועובדת ושומעת לאומה אשר היא תחת ידה. והשלישי תסתלקנה המלחמות עד שלא ישא אדם כלי מלחמה, כמ"ש (שם ב' ד') וכתתו חרבותם לאתים. לא ישא גוי אל גוי חרב, ואשר אנחנו רואין הפך זה.
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E o quarto: que os seres vivos farão paz uns com os outros, a ponto de o lobo pastar com o cordeiro, e o leão comer a palha, e o lactente brincar com a víbora e com a áspide, como está escrito (ali 11:6): “e habitará o lobo com o cordeiro” etc.; e nós os vemos ainda na sua natureza e na sua ferocidade, sem que nada deles se haja mudado. E, se ainda assim opinar alguém e disser que a profecia só quer dizer que os homens maus farão paz com os bons e não os prejudicarão — não é assim, senão o contrário: eles estão hoje mais entregues do que antigamente à violência e à injustiça, do forte para com o fraco.

E o quinto: que Sodoma voltará ao seu estado anterior, como está escrito (Yechezkel 16:55): “e farei voltar o seu cativeiro” etc., “e a tua irmã Sodoma e as suas filhas voltarão ao seu estado anterior”. E a Torá já relatou que o mar de Sodoma era doce, e dele regavam a pé a terra, como Ela disse (Bereshit 13:10): “e levantou Lot os seus olhos e viu toda a planície do Jordão, que era toda bem irrigada”; e disse (ali): “como o jardim do Senhor, como a terra do Egito” — “como o jardim do Senhor”, conforme está escrito (ali 2:10): “e um rio saía do Éden para regar o jardim”; e disse “como a terra do Egito”, conforme está escrito (Devarim 11:10): “onde semeias a tua semente e a regas com o teu pé, como a uma horta”. E ela Sodoma está hoje arruinada, fonte de sal, e o seu mar é salgado como sempre é. E todos estes assuntos demonstram, com prova cabal, que estas consolações ainda não se deram.

והרביעי שבעלי חיים ישלימו קצתם את קצתם, עד שירעה הזאב והכבש, ויאכל האריה התבן, וישחק היונק בפתן ובאפעה, כמ"ש (שם י"א ו') וגר זאב עם כבש וגו', ואנחנו רואין אותן שהם על טבעם ורעתם, לא נשתנה מהם דבר. ואם יסבור עוד סובר ויאמר איננו רוצה אלא שישלימו האנשים הרעים עם הטובים ולא יזיקום, אין הדבר כי אם בהפך, והם היום יותר ממה שהיו מקדם מן החמס והעול מהחזק לחלש. והחמישי ישוב סדום לקדמותה, כמ"ש (יחזקאל ט"ז נ"ה) ושבתי את שבותיהן וגו', ואחותיך סדום ובנותיה תשבן לקדמתן. וכבר ספרה התורה שימה של סדום היתה מתוקה והיו משקין ממנה ברגל, כאמרו (בראשית י"ג י') וישא לוט את עיניו וירא את כל ככר הירדן כי כלה משקה, ואמר (שם) כגן יי' כארץ מצרים, כמ"ש (שם ב' י') ונהר יוצא מעדן להשקות את הגן, ואמרה כארץ מצרים כמ"ש (דברים י"א י') אשר תזרע את זרעך והשקית ברגלך כגן הירק, והיא היום חרבה מוצא מלח, וימה מלוח כאשר היא. ואלה הענינים כלם מורים ראיה גמורה, על שהנחמות האלה לא היו עדין:
Nota — a prova pela observação: uma esperança falsificável O grupo mais notável é o terceiro, fundado na vista. Saadiá aposta na constatação empírica: se a redenção tivesse vindo, veríamos todos confessando o Deus Único (Zecharyá 14:9), Israel livre de tributo (Yeshayahu 62:8), as guerras cessadas (Yeshayahu 2:4), os animais em paz (Yeshayahu 11:6) e Sodoma reflorida. Vemos o oposto — guerra, sujeição, feras, e o mar de Sodoma ainda salgado. É um raciocínio quase científico: a profecia faz afirmações verificáveis sobre o mundo, e o mundo, observado, mostra que ela ainda não se realizou. Para Saadiá, a esperança não teme o exame dos olhos — apoia-se nele.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Da refutação à demonstração

O cap. 7 desarmou o argumento adversário (a condição); este constrói a prova oposta. A forma é a de uma disputa escolástica madura: quinze “portões” ordenados em três vias de conhecimento — texto, tradição e experiência. Cada prova escriturística opõe, com método, a promessa profética ao seu desmentido histórico em Esdras-Neemias: poucos voltaram, as muralhas ergueram-se sob ataque, os portões fechavam-se de medo, Israel seguia súdito.

Quando a própria tradição testemunha o adiamento

O segundo grupo é engenhoso: invoca os grandes sinais escatológicos — o fogo de sete anos, os rios secos, o monte fendido, o Templo da visão, o rio que cura — não para os descrever, mas para notar que nenhum deles se relatou ter acontecido. A mesma tradição que pinta o fim em cores cósmicas é a que atesta que o fim ainda não chegou.

A esperança que enfrenta os olhos

O grupo mais marcante apela à pura observação. A redenção faz afirmações verificáveis sobre o mundo — unidade reconhecida, fim do tributo, fim da guerra, paz entre as feras, Sodoma reflorida —, e o mundo, observado, mostra o contrário. É um raciocínio quase científico, e revela a confiança de Saadiá: a verdadeira esperança não se refugia do exame empírico; assenta nele, e por isso sabe distinguir o que já veio do que ainda se aguarda.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VIII (A redenção messiânica), cap. 8, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Yechezkel 34:13; 39:9; 47:1; 47:12; 16:55; 40-48; Nechemyá 7:66; 4:11; 7:3; 9:36; Yeshayahu 11:11; 11:15; 11:6; 60:10-12; 60:11; 62:8; 2:4; Zecharyá 14:4; 14:9; Bereshit 13:10; 2:10; Devarim 11:10. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado VIII · A redenção messiânica · cap. 9 · conclusão

As “Setenta Semanas” de Daniel — Conclusão do Tratado VIII

שָׁבֻעִים שִׁבְעִים — פֵּרוּשׁ נְבוּאַת דָּנִיֵּאל וּסְגִירַת הַמַּאֲמָר הַשְּׁמִינִי

O capítulo que encerra o Tratado VIII volta-se para a profecia das “setenta semanas” de Daniel 9 — um dos textos mais disputados entre exegetas medievais. Saadiá expõe a leitura judaica do período (490 anos, do exílio à reconstrução do segundo Templo), defende o sentido filológico de “ungido” e “extirpado”, e apresenta o seu cálculo dos reis persas, num registo técnico e sóbrio.

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E tudo aquilo com que respondemos a estes argumentos é também resposta aos cristãos — exceto o que mencionámos quanto à construção do segundo Templo; pois eles não dizem que os tempos marcados começaram a partir daquela época, mas colocam-nos cento e trinta e oito anos antes da destruição do segundo Templo. E estes cristãos singularizam-se ainda por outra alegação: a respeito do que o profeta mencionou na passagem das “setenta semanas” (Daniel 9:24) — cuja interpretação, segundo nós, é que são quatrocentos e noventa anos, desde o tempo em que o povo foi exilado até começarem a construir o segundo Templo, como está escrito (ali 9:25): “sabe, pois, e entende: desde a saída da palavra para restaurar e edificar Yerushalayim…”.

וכל אשר השיבונו בו על אלה, היא תשובה על הנוצרים, חוץ ממה שזכרנו מבנין בית שני, כי הם אינם אומרים שהמועדים החלו מן העת היא, אבל ישימום קודם חרבן בית שני קל"ח שנה, ויתיחדו הנוצרים האלה בתשובה אחרת, והיא מה שזכר הנביא בפרשת שבועים שבעים (דניאל ט' כ"ד), והוא שפרושה אצלנו שהם ארבע מאות ותשעים שנה מעת שגלו העם עד שהחלו בבנין הבית השני, כמ"ש (שם כ"ה) ותדע ותשכיל מן מוצא דבר.
Nota — as “setenta semanas” de Daniel, um texto disputado A profecia das “setenta semanas” (Daniel 9:24-27) foi, ao longo da Idade Média, um dos textos mais debatidos entre exegetas judeus e cristãos, por causa da expressão “será extirpado um ungido” (yikaret mashiach, 9:26). Saadiá expõe aqui a leitura judaica do período — 490 anos contados do exílio à reconstrução do segundo Templo — em resposta a uma interpretação cristã que situava as semanas de outro modo. O capítulo pertence ao gênero da disputa escriturística da época: é desacordo sobre o sentido do texto e sobre cronologia, e Saadiá conduz a discussão no registo técnico, gramatical e histórico, próprio do seu método.
2

E, deles, quatrocentos e trinta e quatro anos são o tempo da construção da Casa, que se deu com alguma cessação, interrupção e atraso da obra, como está escrito (ali): “e por sessenta e duas semanas tornará a edificar-se, com praças e fossos, mas em tempos angustiosos” — e é o que mencionámos na passagem (Ezrá 4:24): “então cessou a obra da casa de D'us”. E a última semana: parte dela foi paz entre a nação e alguns dos reis, e parte dela foi guerra com eles e quebra de aliança, como está escrito (Daniel 9:27): “e ele firmará aliança com muitos por uma semana”. E a terra ficará desolada e perecerão muitos dos seus habitantes, como está escrito (ali): “e sobre a asa do Templo virá a abominação desoladora, até que a destruição decretada se derrame sobre o desolador”.

ומהם ארבע מאות ול"ד שנה זמן בנין הבית, יהיה בקצת בטול והפסק ועכוב הבנין, כמ"ש (שם) ושבועים ששים ושנים תשוב ונבנתה רחוב וחרוץ ובצוק העתים, והוא מה שזכרנו בפרשת (עזרא ד' כ"ד) באדין בטלת עבידת בית אלהא. והשבוע האחרון קצתו שלום בין האומה ובין קצת המלכים, וקצתו מלחמה עמם והפרת ברית, כמ"ש (דניאל ט' כ"ז) והגביר ברית לרבים שבוע אחד. ותשם הארץ ויאבדו רבים מאנשיה, כמ"ש (שם) ועל כנף שקוצים משומם ועד כלה ונחרצה.
3

E este conjunto — as setenta semanas — reúne tanto o bem e a melhoria da situação quanto a remoção do reino, do sacerdócio e dos profetas; pois disse, no seu início (ali 9:24): “para fazer cessar a transgressão, e dar fim aos pecados, e expiar a iniquidade” etc. E isto é como o dito de quem diz: “estive sob o dossel nupcial, e na doença, e no comércio, por três dias” — reunindo numa só frase o bem e o mal, e depois os detalha um a um.

וזה הכלל הוא שבועים שבעים מקבצים טוב והטבת ענין, והסרת המלכות והכהונה והנביאים; כי אמר בתחלתם לכלא הפשע ולהתם חטאות ולכפר עון וגו'. וזה כמאמר האומר עמדתי בחופה ובחולי ובסחורה ג' יום מקבצים טוב ורע, ואח"כ יפרוט אותם.
4

E a Escritura anunciou que, no fim delas das semanas, todo sacerdote ungido será extirpado e não se achará mais, como está escrito (ali 9:26): “e, depois das sessenta e duas semanas, será extirpado um ungido”. E ela não quer dizer, nesta frase, um único homem em particular, mas quer dizer todo sacerdote ungido, como está escrito na Torá (Vayicrá 4:3,16): “se for o sacerdote ungido que pecar”, “e o sacerdote ungido trará” a oferta, e o semelhante a isto. E foi extirpado do povo o sumo sacerdote depois desta época, conforme a Escritura nos deu a conhecer. E este povo os cristãos pensou que, ao dizer “será extirpado um ungido”, a Escritura quer dizer um único homem conhecido específico; e isto é falho por vários ângulos: dentre eles, que a palavra “ungido” (mashiach) não designa um homem determinado, mas recai sobre todo sacerdote e todo rei; e ainda, que a palavra “extirpar” (yikaret), quando significa matar, só se diz daquele que é morto por sentença judicial, como está escrito (ali 17:14): “todo o que o comer será extirpado”; e ainda, porque este acontecimento coincide com a destruição do Templo, conforme a Escritura o vinculou a ele (Daniel 9:26): “e a cidade e o santuário destruirá o povo de um príncipe que há de vir”.

והגיד שבסופם יכרת כל כהן משיח ולא ימצא, כמ"ש (שם כ"ו) ואחרי השבועים ששים ושנים יכרת משיח. ואיננו רוצה במאמר הזה איש אחד בעצמו, אבל הוא רוצה כל כהן משיח, כמ"ש בתורה, (ויקרא ד' ג' ט"ז) אם הכהן המשיח, והביא הכהן המשיח, והדומה לזה. ונכרת מן העם כהן גדול אחר הזמן הזה, כמו שהודיענו. וחשבו העם הזה שאמרו יכרת משיח, הוא רוצה איש אחד ידוע, וזה מופסד מכמה פנים, מהם שמלת משיח אין מתיחד בה איש ידוע, אבל היא נופלת על כל כהן ומלך, ועוד שמלת יכרת כשהיא הריגה איננה נאמרת כי אם על מי שיהרג בדין, כמ"ש (שם י"ז י"ד) כל אכליו יכרת. ועוד כי זה המאורע, עם חרבן הבית, כאשר סמך אליו (דניאל ט' כ"ו) והעיר והקדש ישחית עם נגיד הבא.
Nota — o cerne filológico: “ungido” e “extirpado” A objeção de Saadiá é, de novo, linguística antes de teológica, e assenta em três pontos de gramática e uso bíblico. Primeiro: “mashiach” (ungido) não é nome próprio de um indivíduo — na própria Torá designa qualquer “sacerdote ungido” (Vayicrá 4:3,16) e também o rei. Segundo: “yikaret” (extirpar), no sentido de morte, refere-se na Escritura a quem é executado por sentença judicial (cf. Vayicrá 17:14). Terceiro: o versículo liga o acontecimento à destruição da cidade e do santuário (Daniel 9:26). Para Saadiá, lido nestes termos, o verso descreve o fim da instituição do sumo-sacerdócio em torno da queda do segundo Templo, não um indivíduo específico.
5

E algo ainda mais claro do que tudo isto: que, desde o tempo em que a profecia foi dita a Daniel até a época que eles alegam, não há senão duzentos e quarenta e cinco anos; mas o total das setenta semanas é de quatrocentos e noventa anos — dos quais setenta antes do segundo Templo, e dos quais quatrocentos e vinte decorrem dali em diante. E achei que este povo não tinha outro artifício senão alegar um acréscimo no número: disseram que o reino da Pérsia se estendeu sobre Israel, antes da Grécia, cerca de trezentos anos, e que o número dos seus reis nesses dias foi de dezessete reis. E eu calculei contra eles, a partir do que está escrito no livro de Daniel, que não é possível que houvesse, entre o reino de Babilônia e o reino da Grécia, mais de quatro reis da Pérsia na terra de Israel — porque o anjo disse a Daniel: “e eu, no primeiro ano de Dario, o medo, levantei-me para o sustentar e fortalecer. E agora vou dizer-te a verdade: eis que ainda três reis se levantarão para a Pérsia” (ali 11:1-2). Dario e mais três = quatro. Estas são as respostas a eles — além do que há contra eles no tratado sobre a anulação da pretensa ab-rogação da Torá, e além do que há contra eles no portão da Divina Unidade —, afora outras coisas que não seria conveniente trazer neste livro.

ויותר מבואר מזה כלו, שמעת שנאמרה לדניאל, עד העת אשר אמרו, איננו כי אם רמ"ה שנה, והכלל הוא ארבע מאות שנה, מהם ע' קודם בית שני, ומהם ארבע מאות ועשרים ישובו. ומצאתי העם הזה לא היתה להם תחבולה, אלא שטענו תוספת במספר, ואמרו שמלכות פרס משכה על ישראל קודם יון כשלש מאות שנה, ושמספר מלכיהם בימים האלה היו שבעה עשר מלך, וחשבותי עליהם מהכתוב בספר דניאל, שלא יתכן שיהיה בין מלכות בבל ומלכות יון ממלכי פרס בארץ ישראל יותר מארבעה, מפני שאמר המלאך לדניאל, ואני בשנת אחת לדריוש המדי עמדי למחזיק ולמעוז לו. ועתה אמת אגיד לך הנה עוד שלשה מלכים עומדים לפרס (שם י"א א' ב'). אלה התשובות עליהם, מלבד מה שיש עליהם בבטול התורה, ומלבד מה שיש עליהם בשער היחוד, חוץ מהדברים האחרים אשר לא היו ראוים להביאם בספר הזה:
Nota — a aritmética dos reis persas, e o encerramento do tratado O argumento final é cronológico: Saadiá sustenta que só pode ter havido quatro reis persas entre a Babilônia e a Grécia — Dario, o medo, “e mais três” (Daniel 11:1-2) —, contra os dezessete (e ~300 anos a mais) que atribui aos seus interlocutores; é o conhecido “erro dos 165 anos” da cronologia persa antiga, que ressurge em muitas disputas medievais sobre Daniel. Note-se, no fecho, a contenção do autor: ele remete o tratamento mais completo a outros lugares da obra (a unidade divina; a permanência da Torá) e diz haver “outras coisas que não conviria trazer neste livro” — o que encerra o Tratado VIII sem polêmica desnecessária.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Um diálogo exegético

Este capítulo final dirige-se especificamente a interlocutores cristãos a respeito de Daniel 9 — pertencendo ao gênero da disputa escriturística que floresceu na época de Saadiá. Importa lê-lo pelo que é: um desacordo sobre o sentido de um texto e sobre cronologia, conduzido com os instrumentos habituais do autor — a gramática, o uso bíblico das palavras e o cômputo dos anos —, sem invectiva.

A palavra antes da doutrina

O núcleo da resposta é, mais uma vez, linguístico. “Ungido” (mashiach) é, na Escritura, um termo de função — qualquer sacerdote ou rei ungido —, não um nome próprio; “extirpar” (yikaret), no sentido de morte, designa execução por sentença; e o verso prende o evento à destruição da cidade e do santuário. Lido assim, descreve, para Saadiá, o fim da instituição sacerdotal em torno da queda do segundo Templo. É o método de todo o livro: deixar a forma do texto decidir o seu sentido.

O encerramento do tratado

Ao argumento gramatical soma-se o cronológico — os quatro reis persas de Daniel 11, contra a contagem inflada dos adversários. E o tratado fecha-se com notável contenção: Saadiá remete o tratamento mais amplo a outras partes da obra e recusa-se a trazer “coisas que não conviria” a este livro. Conclui-se assim o Tratado VIII — a grande exposição da esperança da redenção: a sua certeza, os seus tempos, as suas dores, o seu esplendor e a sua defesa contra quem a daria por vencida.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado VIII (A redenção messiânica), cap. 9 e conclusão, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Daniel 9:24; 9:25; 9:26; 9:27; 11:1-2; Vayicrá 4:3,16; 17:14; Ezrá 4:24. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado IX · O mundo vindouro · cap. 1

O Mundo Vindouro — as Provas Racionais

הָעוֹלָם הַבָּא — רְאָיוֹת הַשֵּׂכֶל לְקִיּוּמוֹ

Abre-se o Tratado IX, sobre a recompensa e o mundo vindouro (olam haba). Saadiá demonstrará a sua necessidade pelas três vias — razão, Escritura e tradição — e dedica este capítulo às provas racionais: o bem deste mundo é sempre misturado de mal; a alma nunca repousa nele; o sofrimento da virtude pede galardão; e a justiça de D'us exige uma morada de contas exatas.

1

Tratado IX — Sobre a recompensa e o castigo. Disse Yehudá ben Shaul (o tradutor): disse o autor. Deu-nos a conhecer o nosso D'us, bendito e exaltado seja, que já fixou um tempo para recompensar os justos, e nele os distinguirá deles e dos descrentes, como disse (Malachi 3:17-18): “e eles serão para mim, disse o Senhor dos Exércitos, no dia em que eu fizer o meu tesouro especial” etc.; “e tornareis a ver a diferença entre o justo e o ímpio, entre o que serve a D'us e o que não o serve” etc. E os profetas estabeleceram para nós os sinais e os prodígios, e nós o recebemos. E é preciso que comecemos por mencionar o que torna necessário este tempo chamado “o mundo vindouro”, a partir das provas racionais, escriturísticas e tradicionais.

E digo, primeiramente, que — conforme se confirmou no terceiro, no quarto e no sexto tratados — os céus e a terra e o que há entre eles não foram criados senão por causa do homem; e por isso D'us o pôs no meio, com todas as coisas o circundando; e por isso deu à alma a vantagem da preeminência em entendimento e em sabedoria; e por isso a obrigou em mandamentos e advertências, e preparou-a por meio deles para a vida perdurável; e confirmou-se que esta vida virá quando se completarem os indivíduos dos seres dotados de fala que a Sua sabedoria determinou criar — e então D'us a fará habitar noutro mundo e nele a recompensará. E aduzi, sobre estes assuntos, das provas racionais, escriturísticas e tradicionais ali nos tratados anteriores, aquilo que serve de introdução e preâmbulo a este tratado — o que já é suficiente. E achei por bem juntar-lhe o que o reforce e lhe acrescente esclarecimento, a partir das três vias de conhecimento mencionadas.

בגמול ועונש: אמר יהודה בן שאול. אמר המחבר, הודיענו אלהינו יתברך ויתעלה, כי כבר קבע זמן לגמול הצדיקים, ובו יבדיל ביניהם ובין הכופרים, כמו שאמר (מלכי ג' י"ז י"ח) והיו לי אמר יי' צבאות ליום אשר אני עושה סגלה וגו'. ושבתם וראיתם בין צדיק לרשע בין עובד אלהים וגו'. והעמידו לנו הנביאים האותות והמופתים וקבלנוהו, וצריך שנקדים שנזכור מחייבות הזמן הזה הנקרא העולם הבא, מן הראיות המושכלות, והכתובות, והמקובלות. ואומר תחלה, כי כאשר התאמת במאמר השלישי והרביעי והששי, כי השמים והארץ ומה שיש ביניהם, לא נבראו כלם כי אם בעבור האדם, ועל כן שמהו באמצע וכל הדברים מקיפים, ועל כן נתן לנפש יתרון מעלה בשכל ובחכמה, ועל כן חייבה במצות ובאזהרות, הכינה בם לחיים התמידים, ושהחיים האלה, כאשר ישלמו אישי המדברים אשר חייבה חכמתו לברו' אותם, וישכיננה עולם אחר ויגמלנה בו.והבאתי על הענינים האלה, מן הראיות המושכלות, והכתובות והמקובלות שם, מה שהוא הקדמה והצעה למאמר הזה מה שיש בו די. וראיתי לחבר אליו מה שיעזרהו ויוסיף לו באור מהג' משכים הנזכרים:
Nota — abre o Tratado IX: as três vias para o mundo vindouro Começa o nono tratado, sobre a recompensa e o mundo vindouro (olam haba). Saadiá anuncia o seu método de sempre: demonstrar a sua necessidade pelas três vias do conhecimento — a razão, a Escritura e a tradição. Este primeiro capítulo é quase todo racional, e apoia-se no que já se estabeleceu antes: que o mundo foi criado por causa do homem, que a alma tem preeminência e foi obrigada em mandamentos, e que isto tudo a prepara “para a vida perdurável”. O mundo vindouro não é um acréscimo à doutrina — é o seu destino lógico.
2

E digo, dentre o que o intelecto ainda torna necessário: que o Criador, exaltado seja — segundo o que de Si nos aparece, da Sua sabedoria, do Seu poder e do Seu bem-fazer às Suas criaturas —, não é possível que a medida do bem que Ele destinou a esta alma seja apenas o que ela encontra neste mundo dos Seus bens e dos Seus prazeres. Pois todo bem que há no mundo tem consigo um mal, e junto a todo êxito há fadiga, e a todo prazer há dor, e a toda alegria há luto; e todas as suas partes se equivalem — e o peso até pende para os assuntos que entristecem mais do que para os que alegram. E, sendo isto claro e sem dúvida, seria vão que o Sábio (D'us) pusesse, como fim do proveito desta alma, estes assuntos transitórios e contraditórios. Antes, convém que Ele lhe tenha preparado uma morada em que haja a vida plena e o êxito singular que lhe sejam proporcionados.

ואומר ממה שמחייב אותו השכל עוד, שהבורא ית' כפי מה שנראה לנו מחכמתו ויכלתו והטבתו אל ברואיו, לא יתכן להיות שיעור הטובה אשר כיון בה לנפש הזאת, הוא מה שהיא מוצאה בעולם הזה מטובותיו והנאותיו. שכל טובה שיש בעולם יש עמה רעה, ועם כל הצלחה עמל, ועם כל הנאה צער, ועם כל שמחה אבל. וכל חלקיו שוים, וההכרעה לענינים המעציבים על המשמחים. וכיון שזה מבואר ואין בו ספק, מן השוא שיהיה החכם משים תכלית תועלת הנפש הזאת, הענינים האלה הנהפכים. אבל ראוי שיהיה מזמן לה מדור שיש בו החיים הגמורים וההצלחה המיוחדת ימציאוה אותה.
Nota — o bem deste mundo é sempre uma mistura A primeira prova racional é uma das mais belas do livro. O bem terreno nunca é puro: “a todo êxito há fadiga, a todo prazer há dor, a toda alegria há luto” — e, pesados os dois pratos, o que entristece supera o que alegra. Ora, seria absurdo que o Sábio destinasse a alma a um fim tão alloiado e instável. Logo, deve existir “uma morada de vida plena” onde o bem não venha misturado. É o argumento eudemonista clássico: a aspiração humana à felicidade completa só faz sentido se houver onde ela se realize.
3

E ainda: que eu acho que todas as almas que conheci não estão em repouso neste mundo, nem se sentem seguras — ainda que tenham chegado ao maior dos reinos e ao mais alto dos seus graus. E isto não provém da sua natureza, mas sim do seu saber interior de que há uma morada mais nobre do que todos os bens desta morada — e a alma anseia por ela, e os seus olhos estão voltados para ela; e, se não fosse isto, a alma estaria em repouso e sossegada.

ועוד כי אני מוצא כל הנפשות אשר ידעתים, אינן נחות בעולם הזה ולא בוטחות, אפי' אם הגיעו אל הגדול שבמלכיות, ואל העליונה שבמעלותם. ואין זה בטבעה, כי אם בעבור ידיעתה, כי יש מדור יותר נכבד מכל טובות המדור, והיא נכספת לו ועיניה צופיות אליו, ולולי זה היתה נחה ושוקטת.
4

E outra prova disto: que D'us tornou repugnante ao entendimento do homem coisas que a sua natureza deseja — como a fornicação, o furto, a insolência, a vingança e o semelhante a isto. E, quando o homem se guarda disto, sobrevêm-lhe tristeza, dor e inquietação, e ele sofre e o seu coração dói; e D'us não lhe faria passar tudo isto, se não fosse para o recompensar com bem por causa disso. E, do mesmo modo, D'us aformoseou ao seu entendimento a justiça e a retidão, e o ordenar o bem e o guardar-se do mal; e quando o homem cumpre tudo isto, alcança-o o ódio dos homens — quando faz justiça punindo a alguns deles, e quando os comanda e os adverte a separar-se entre eles e o seu desejo; e é possível que o injuriem e o espanquem, e é possível que o matem. E D'us não o conduziria a tudo isto por meio daquilo que aformoseou ao seu entendimento, se não fosse porque está destinado a recompensá-lo, por isso, com grande recompensa.

ומזה שהוא גנה לשכל האדם דברים שטבעו מתאוה להם, מהזנות והגנבה, והעזות והנקמה, והדומה לזה. וכאשר ישמר מזה, ימצאנו עצב וצער ודאגה, ויצטער ויכאב לבו, ולא היה עושה בו כל זה, לולי שהוא גומל אותו עליו טובה. וכן שייפה לשכלו הצדק והיושר, ולצוות בטוב ולהזהר מן הרע, וקיים את כל אלה, ותשיגהו שנאת בני אדם כשיפרע לקצתם, וכאשר יצוום ויזהירם להבדיל בינם ובין תאותם, ואפשר שיגדפוהו ויכוהו, ואפשר שימיתוהו. ולא היה מביא אותו אל כל אלה במה שייפה לשכלו, לולא שהוא עתיד לגמלו עליו גמול גדול.
5

E ainda disto: o que vemos da violência que alguns homens praticam contra outros — ficando o opressor e o oprimido em estado de bem ou de mal —, e depois morrem; e, sendo Ele, exaltado seja, chamado Juiz justo, é de boa justiça que Ele lhes prepare uma segunda morada, na qual julgue entre ambos com retidão, e restitua a este o oprimido a sua recompensa, conforme o sofrimento da opressão que o atingiu, e traga sobre aquele o opressor do castigo, conforme o prazer que ele achou na sua violência e na sua extorsão. E ainda disto: que nós vemos descrentes vivendo em delícias neste mundo, e crentes vivendo em sofrimento nele; e não é possível que não haja, para uns e para outros, um outro mundo, no qual a justiça e o juízo os recompensem.

ומזה עוד מה שאנו רואים מחמוס קצת בני אדם את קצתם, ויהיה החומס והחמוס בטוב או ברע, ואחר כן ימותו, וכיון שהוא ית' שמו שופט צדק, מן הדין שיהיה מכין להם מדור שני, ידין בו בין שניהם בצדק, וישיב לזה גמולו כפי מה שהגיע אליו מצער החומס, ויביא על זה מן הענש, כפי מה שמצא מן הערבות בחמסו ועשקו. ומזה עוד, כי אנחנו רואים כופרים בנעימים בעולם הזה, ומאמינים בצער בו, ואי אפשר שאין לאלו ולאלו עולם אחר, שגומלים אותן בו הצדק והמשפט.
6

E ainda disto: que encontramos que quem matou uma só pessoa e quem matou dez pessoas igualmente são mortos; e, do mesmo modo, quem adulterou uma só vez e quem adulterou vinte vezes igualmente são mortos; e assim com todo aquele que segue esta conduta — a pena terrena não distingue os graus. E, se disser alguém: “mas não seria devido que o Criador houvesse criado este homem já no outro mundo desde o início, e removesse de sobre ele todos estes sofrimentos?” — responder-lhe-emos com algo semelhante ao que já expusemos no terceiro tratado.

ומזה עוד, שאנחנו מוצאים מי הרג נפש אחת, ומי שהרג עשרה נפשות יומת, וכן מי שנאף פעם אחת, ומי שנאף עשרים פעם יומת, וכן כל מי שנוהג המנהג הזה. ואם יאמר אומר והלא היה חוב שיברא הבורא את האדם הזה בעולם האחר מתחלה, ויסיר מעליו כל אלה הצערים? נשיב אותו בכמו מה שהקדמנו ביאורו במאמר השלישי:
Nota — a exigência da justiça: um lugar de contas exatas O bloco final reúne as provas morais, e são as mais incisivas. Vemos opressores e oprimidos morrerem sem acerto; descrentes na fartura e crentes no sofrimento; e a pena terrena que iguala quem matou um e quem matou dez. Se D'us é “Juiz justo”, nada disto pode ser a palavra final: tem de haver “uma segunda morada” onde se julgue com exatidão, grau por grau. À objeção óbvia — por que não criar o homem já nesse mundo perfeito? — Saadiá remete ao terceiro tratado: porque a recompensa merecida pelo esforço vale mais do que o bem dado de graça.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O destino lógico da alma

Tendo tratado, no oitavo tratado, da redenção histórica de Israel, Saadiá volta-se agora para o destino último da alma. O mundo vindouro não entra como dogma isolado: é deduzido do que já se estabeleceu — o mundo criado por causa do homem, a alma dotada de razão e responsabilidade. Se tudo isso é verdade, há de haver onde a alma colha o que mereceu.

Felicidade plena e justiça plena

Duas grandes intuições sustentam o capítulo. A primeira é eudemonista: como todo bem terreno vem misturado de dor, a felicidade completa que a alma anseia — e que, inquieta, nunca acha aqui — só pode realizar-se noutra morada. A segunda é moral: as contas deste mundo não fecham (o ímpio próspero, o justo aflito, penas que igualam crimes desiguais), e um Juiz justo não pode deixá-las assim. O olam haba é, ao mesmo tempo, a pátria da felicidade e o tribunal da justiça.

Por que não começar pelo paraíso?

Saadiá antecipa a objeção mais natural: se o outro mundo é melhor, por que não criar o homem já nele? A resposta, remetida ao terceiro tratado, é um princípio caro a toda a obra: o bem conquistado pelo esforço e pela escolha livre é superior ao bem recebido sem mérito. A travessia deste mundo — com a sua mistura e as suas provas — é o que dá valor ao que vem depois.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IX (O mundo vindouro), cap. 1, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Malachi 3:17-18; cf. Tratados III, IV e VI. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado IX · O mundo vindouro · cap. 2

As Provas Escriturísticas — do Martírio ao Galardão

רְאָיוֹת הַכָּתוּב — מִן הָעֲקֵדָה וְהַמַּרְטִירְיוֹן לְגְמוּל הָעוֹלָם הַבָּא

Saadiá passa às provas escriturísticas do mundo vindouro: o martírio de Yitzchak, dos três jovens e de Daniel só faz sentido se há galardão além da morte. Em seguida responde à objeção de que a Torá só promete bens terrenos — por dois motivos: o seu silêncio confiante na razão e o costume da profecia de detalhar o próximo. E remata com a prova de Moshé, o maior dos justos, que morreu sem prêmio neste mundo.

1

E mencionarei aqui o lugar das provas escriturísticas — treze assuntos. O primeiro deles, o caso de Yitzchak: vês que ele entregou a si mesmo ao abate e ao sacrifício, para cumprir o mandamento do seu Criador; ora, se estivesse para ele que a recompensa não existe senão neste mundo somente, que coisa esperaria ele que fosse a sua recompensa depois da sua morte? E mais: o Criador nem sequer lho teria ordenado, já que não haveria para ele recompensa por isso. E achei ainda que Chananyá, Mishael e Azaryá entregaram as suas almas ao fogo, para não servirem a estátua; e, se soubessem que a recompensa não existe senão neste mundo, que coisa lhes restaria, depois de o fogo os queimar, que pudessem esperar? E achei, quanto a Daniel, que entregou a si mesmo aos leões, por causa da oração que orava ao seu Criador; e, se soubesse que a recompensa não existe senão neste mundo, que coisa lhe restaria a esperar, depois de os leões o devorarem? Estas coisas — que D'us se compadeça de ti — demonstram que os próprios criados concordam em que a recompensa não está neste mundo.

ואזכור מקום הכתובים במקום הזה י"ג ענין, תחלתם ענין יצחק, ראית אותו שמסר עצמו לשחיטה ולקרבן לעשות מצות בוראו, ואלו היה אצלו שהגמול איננו כי אם בעולם הזה בלבד, איזה דבר היה מקוה שיהיה גמולו אחרי מותו? גם הבורא עוד לא היה מצוהו בזה, כיון שלא יהיה לו עליו גמול. ומצאתי עוד, חנניה מישאל ועזרי' מסרו נפשותם לאש שלא יעבדו הצלם, ואלו היו יודעין שהגמול איננו כי אם בעולם הזה אי זה דבר היה נשאר להם אחר שתשרפם האש שיקוו אותו? ומצאתי בדניאל שמסר עצמו לאריות, בעבור התפלה שהיה מתפלל לבוראו, ואם היה יודע שהגמול איננו כ"א בעולם הזה מה היה נשאר לו לקוות אחר שיאכלוהו האריות? אלה הדברים (ירחמך האלהים) מורים, כי הנבראים מסכימים, כי הגמול איננו בעולם הזה.
Nota — o martírio como prova: morrer por D'us pressupõe o além A primeira via escriturística é um argumento de grande força moral. Saadiá invoca três atos de entrega da própria vida: Yitzchak na akedá, os três jovens (Chananyá, Mishael, Azaryá) no forno, e Daniel na cova dos leões. Em cada caso, a lógica é a mesma: se a recompensa fosse só neste mundo, o ato seria absurdo — que poderia esperar quem morre? O próprio D'us, observa ele, não teria ordenado a akedá se a morte encerrasse tudo. A disposição do justo a morrer pela verdade é, ela mesma, testemunho de que há vida e galardão para além da morte.
2

E, se disser alguém: “mas não se acha o que se menciona na Torá quanto à recompensa senão neste mundo somente” — isto é, o que está escrito na parashá “se andardes nos meus estatutos” (Im bechukotai) e na parashá “e será, se ouvirdes atentamente” —, diremos que o Criador não os deixou sem a recompensa do mundo vindouro, conforme havemos de explicar; e o que nela na Torá foi explicitado quanto ao êxito deste mundo e à sua adversidade deu-se apenas por duas razões. Uma delas: que a recompensa do mundo vindouro, por não se chegar a ela senão pelo intelecto — como explicámos —, a Torá não a mencionou senão brevemente, como fez em “e o Senhor D'us ordenou ao homem, dizendo” (Bereshit 2:16) — e não disse “Eu sou o Senhor teu D'us, não matarás, não adulterarás, não furtarás”, porque o intelecto indica por si todas estas coisas; mas declarou “e da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás”, porque o intelecto não a indica por si. E, do mesmo modo, a Torá não mencionou a outra recompensa a do mundo vindouro, porquanto se apoiou no intelecto, confiando que este a indicaria.

ואם יאמר אומר, הן לא נמצא מה שנזכר בתורה מן הגמול, כי אם בעולם הזה בלבד? והוא מה שכתוב בפרשת אם בחקותי, ובפרשת והיה אם שמוע תשמעו. נאמר כי הבורא לא עזבם מבלתי גמול העולם הבא, כאשר אנו עתידים לבאר, ולא היה המפורש בה בהצלחת העולם הזה ורעתו, כי אם לשתי סבות. אחת מהנה, שגמול העולם הבא מפני שאין עומדין עליו כי אם בשכל כאשר בארנו, לא זכרתהו התורה כי אם בקצרה, כאשר עשתה בויצו יי' אלהים על האדם לאמר, ולא אמרה, אנכי יי' אלהיך לא תרצח לא תנאף לא תגנוב, כי השכל מורה על כל אלה, אבל הראתה ומעץ הדעת טוב ורע לא תאכל, מפני שאין השכל מורה עליו. וכן לא הזכירה הגמול האחר, בעבור שסמכה על השכל שיורה עליו.
Nota — por que a Torá fala de recompensa terrena: o silêncio confiante na razão Eis a resposta de Saadiá à objeção clássica: “a Torá só promete bens deste mundo (Levítico 26; Deuteronômio 11) — onde está o mundo vindouro?”. Primeira razão: a Torá cala sobre o que a razão já estabelece. Assim como não precisou dizer “não matarás, não roubarás” na criação — pois o intelecto o sabe —, e só proibiu o fruto da árvore (que a razão não deduziria), também confiou à razão a verdade do galardão futuro. O argumento revela o coração do racionalismo de Saadiá: a Escritura e a razão repartem tarefas; o que uma demonstra, a outra não precisa repetir.
3

E a segunda razão: que é costume da profecia estender-se nas coisas que a necessidade traz por perto, e ser breve nas coisas distantes. E, como a necessidade do povo, ao tempo em que lhes foi dada a Torá, era o conhecimento do assunto da terra de Canaã, à qual estavam entrando, a Torá estendeu-se para eles na sua explicação e no que nela há do fruto do seu serviço a D'us ou da sua rebeldia; e por isso começou pela chuva e pelo conteúdo da parashá “pois a terra à qual entras, para a possuir, não é como a terra do Egito” (Devarim 11:10), até o seu fim — e apenas aludiu ao que é distante numa frase breve, não numa explicação ampla.

והשנית כי הנבואה ממנהגה להרחיב בדברים שהצורך מביא אליהם בקרוב, ותקצר בדברים הרחוקים, וכאשר היה צורך העם בעת שנתנה להם התורה, לידיעת ענין ארץ כנען אשר הם באים אליה, הרחיבה להם בפרושו ובמה שיש בו מפרי עבודתם והמרותם, ועל כן התחילה במטר ובמה שבפרשת כי הארץ אשר אתה בא שמה לרשתה לא כארץ מצרים היא (דברים י"א י'), עד סופה, ורמזה אל הרחוק במאמר קצר, לא בפרוש רחב.
4

E a prova maior nisto: achamos que Moshé, nosso mestre, o maior dos justos e dos servos de D'us, não teve coisa alguma dos assuntos da recompensa deste mundo — como “e darei as vossas chuvas no seu tempo”, “e a debulha vos alcançará”, “e darei paz”, “e me voltarei para vós”, “e comereis o grão velho” —, por não ter entrado na terra de Canaã. Ora, se os justos não tivessem senão o que se acha em “se andardes nos meus estatutos”, então seria forçoso que a maior parte disso coubesse a Moshé e a mais ninguém; e, como não foi assim, isto demonstra que a maior parte da recompensa está no mundo vindouro. E estas coisas estão conforme confirmadas pelos sinais e prodígios, como expliquei antes disto.

והטענה הגדולה בזה, מצאנו משה רבינו הגדול שבצדיקים ובעובדים, לא היה לו מעניני גמול העולם הזה דבר, כמו ונתתי גשמיכם בעתם, והשיג לכם דיש, ונתתי שלום, ופניתי אליכם, ואכלתם ישן, מפני שלא בא אל ארץ כנען; ואלו לא היה לצדיקים כי אם מה שיש באם בחקותי, היה מתחייב שיהיה רובו למשה ואין עוד, זה מורה שרוב הגמול בעולם הבא. אך הדברים האלה כפי האותות והמופתים, כאשר בארתי קודם זה.
Nota — a prova de Moshé: o maior dos justos sem prêmio terreno O argumento mais engenhoso do capítulo. As bênçãos de “Im bechukotai” (chuva no tempo certo, paz, fartura) dependem todas de habitar a Terra — e Moshé, “o maior dos justos”, morreu sem nela entrar, sem receber nenhuma delas. Se a recompensa do justo fosse apenas essa, o maior dos justos teria ficado praticamente sem prêmio — o que é absurdo. Logo, a parte maior da recompensa tem de estar no mundo vindouro, onde Moshé a recebe. O caso-limite prova a regra: o galardão essencial não é deste mundo.
5

E também disto: o que nos foi relatado — que Eliyahu ora para que o Criador abençoe, com aumento de farinha e de azeite, a outrem, pela sua oração, ao mesmo tempo em que ele próprio pede um bolo de pão e não o alcança. E que Elishá, já estando morto, por seu mérito o Criador reviveu, por causa dele, o homem que lançaram à sua sepultura. Ora, se a recompensa fosse deste mundo somente, não seria possível que aquele que já não está em condição de alcançá-la por si fizesse outrem alcançar coisa alguma dela.

ומזה מה שהוגד לנו, כי אליהו מתפלל שיברך הבורא בקמח ובשמן לזולתו בתפלתו, והוא מבקש חלת לחם ולא יגיע אליה. ושאלישע והוא מת החיה הבורא בעבורו האדם אשר השליכו אל קברו, ואלו היה הגמול העולם הזה בלבד, לא היה יכול מי שאינו ראוי להגיע אליו, להגיע זולתו אל מאומה ממנו.
6

E também disto: o que nos relatou sobre os homens de Sodoma — que, quando se avultaram no mal e no pecado, o Criador transtornou a sua terra e fez chover sobre ela fogo e enxofre. Ora, se não houvesse castigo senão neste mundo, desceria fogo e enxofre sobre todo aquele que se avultasse no fazer o mal — sobre o grande tanto quanto sobre o pequeno, tudo conforme o seu pecado —; e não vemos que seja assim. E também disto: que os filhos de Israel, quando serviram a outro que não D'us, Ele fez dominar sobre eles outros, dentre as nações, e estes os capturaram e os exilaram. E eis que nós vemos muitos povos servindo a outro que não D'us e contudo não são capturados nem exilados; ora, se o castigo fosse neste mundo, ele alcançá-los-ia igualmente.

ומזה מה שספר לנו על אנשי סדום, שמעת שהגדילו ברעה ובחטא, הפך הבורא את ארצם, והמטיר עליה אש וגפרית, ואלו לא היה עונש כי אם בעולם הזה, היה יורד על מי שהגדיל להרע אש וגפרית בין רב למעט, הכל לפי חטאתו, ואין אנחנו רואים כן. ומזה שבני ישראל כשעבדו זולתו, השליט עליהם זולתם מן האומות ושבו אותם והגלום. והנה אנחנו רואים עמים רבים עובדים זולתו ואינם נשבים ולא גולים, ואלו היה העונש בעולם הזה, היה מגיע אליהם כמהו.
7

E também disto: que Ele é justo mesmo quando ordenou matar as crianças de Midian, e quando fez perecer as crianças do Dilúvio. E já que vemos que Ele aflige as crianças e as faz morrer, é forçoso que haja, depois da morte, algo em que elas alcancem a compensação por aquilo em que foram afligidas, como explicámos.

ומזה עוד שהוא צדיק כאשר צוה בהרוג טף מדין, והמית טף המבול, והנה אנחנו רואים שהוא מצער בטף וממיתם, מתחייב שיהיה אחר המות ענין, שיגיעו בו אל תמורת מה שנצטערו בו, כאשר בארנו:

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Quem morre pela verdade aposta no além

Depois das provas racionais (cap. 1), Saadiá traz as escriturísticas, e abre com as mais comoventes: a entrega da própria vida. Yitzchak, os três jovens no forno, Daniel entre os leões — cada um aceitou a morte por fidelidade a D'us. Se nada houvesse depois, o gesto seria vão. O martírio do justo é argumento de ato, não de palavra: testemunha, com a própria vida, a certeza de um galardão que a morte não alcança.

O que a razão sabe, a Torá não repete

A objeção “a Torá só fala de prêmios terrenos” recebe a resposta mais típica do livro. Primeiro: a Torá omite o que a razão já estabelece — não precisou ditar “não matarás” na criação, pois o intelecto o sabe; do mesmo modo confiou à razão a verdade do mundo vindouro. Segundo: a profecia detalha o próximo (a Terra que Israel ia herdar) e apenas alude ao distante. O silêncio da Torá sobre o além não é negação — é confiança na razão, que Saadiá vê como parceira da revelação.

Moshé, a prova pelo caso-limite

O argumento decisivo é Moshé. Todas as bênçãos de “Im bechukotai” supõem habitar a Terra — e ele, o maior dos justos, morreu sem nela entrar e sem recebê-las. Se o prêmio do justo fosse apenas terreno, o maior teria ficado quase sem prêmio: absurdo. Logo, a parte essencial da recompensa está no mundo vindouro. Aos quais Saadiá soma sinais de mérito que ultrapassa a vida (Eliyahu, Elishá) e a justiça que as contas deste mundo não fecham (Sodoma, o exílio, o sofrimento das crianças) — tudo a apontar para o tribunal e o galardão do além.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IX (O mundo vindouro), cap. 2, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Bereshit 2:16; Devarim 11:10; Vayicrá 26 (Im bechukotai); Devarim 11 (Vehaya im shamoa); cf. a akedá (Bereshit 22), Daniel 3 e 6, Eliyahu e Elishá (Melachim). Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado IX · O mundo vindouro · cap. 3

As Sete Raízes Escriturísticas do Mundo Vindouro

שֶׁבַע רָאשֵׁי רְאָיוֹת מִן הַכָּתוּב — חַיִּים, סְפָרִים, מִשְׁפָּט וְיוֹם הַגְּמוּל

Saadiá reúne sete raízes escriturísticas do mundo vindouro, cada uma com alusão na Torá e desenvolvimento nos Profetas: a “vida” e a “morte” que não podem ser deste mundo, o bem reservado aos justos, os livros de D'us, o “momento de comparecimento”, o Juiz justo, o dia da retribuição e o “bem” negado ao ímpio — fechando com o princípio de que a razão arbitra a leitura correta do texto.

1

E, já que mencionei estes seis assuntos, é preciso que lhes acrescente os outros sete que provêm da Escritura. E digo que são sete assuntos, tendo cada assunto uma alusão e uma prova na Torá, e tendo nos demais livros dos profetas explicação e esclarecimento. A primeira raiz: o chamar “vida” àquilo que a sabedoria e a Torá concedem ao homem, como a Escritura diz (Yechezkel 20:21): “que, fazendo-os o homem, viverá por eles”; e o chamar “morte” àquilo a que chegam os tolos, naquilo que a sua insensatez lhes traz, como diz (ali 18:20): “a alma que peca, essa morrerá”; e ainda (Mishlei 8:35-36): “pois quem me acha, achou a vida”, “mas quem peca contra mim faz violência à sua própria alma; todos os que me odeiam amam a morte”; e ainda (ali 15:24): “o caminho da vida vai para cima, para o sábio, a fim de se desviar do Sheol em baixo”; e ainda (ali 7:27): “caminhos do Sheol é a sua casa”; e ainda (Tehillim 27:13): “pereceria, se não cresse que iria ver a bondade do Senhor na terra dos viventes”; e ainda (ali 16:10-11): “pois não abandonarás a minha alma ao Sheol… far-me-ás conhecer a vereda da vida”. E, já que não era possível que estas “vidas” aludissem à vida deste mundo — porque o justo e o ímpio são iguais nela —, é forçoso concluir que aludem à vida do mundo vindouro. E, sob cada versículo, há palavras (comentários) extensas.

וכיון שזכרתי אלה הששה ענינים, צריך שאסמוך להם השבעה האחרים אשר מן הכתוב. ואומר כי הם שבעה ענינים, לכל ענין רמז מן התורה וראיה, ובשאר ספרי הנביאים פירוש וביאור. השרש הראשון, קריאת מה שמקנה אותו החכמה והתורה חיים, כאמרו (יחזקאל כ' כ"א) אשר יעשה אותם האדם וחי בהם, וקריאת מה שמגיעים אליו הכסילים, ממה שמקנה אותם סכלותם מות, כאמרו (שם י"ח כ') הנפש החוטאת היא תמות, ועוד (משלי ח' ל"ה ל"ו) כי מוצאי מצא חיים, וחוטאי חומס נפשו כל משנאי אהבו מות, ועוד (שם ט"ו כ"ד) ארח חיים למעלה למשכיל למען סור משאול מטה, ועוד (שם ז' ל"ז) דרכי שאול ביתה, ועוד (תהלים כ"ז י"ג) לולא האמנתי לראות בטוב יי' בארץ חיים, ועוד (שם ט"ז י' י"א) כי לא תעזוב נפשי לשאול, תודיעני אורח חיים; וכיון שלא היה אפשר לרמוז בחיים האלה אל חיי העולם הזה, מפני שהצדיק והרשע שוים בו, התחייב לרמוז בהם אל חיי העולם הבא. ותחת כל פסוק דברים ארוכים.
Nota — quando “vida” não pode significar só esta vida Saadiá enumera sete “raízes” escriturísticas, cada uma com uma alusão na Torá e desenvolvimento nos Profetas e Escritos. A primeira é a mais aguda metodologicamente: a Escritura chama “vida” ao que a Torá concede e “morte” ao destino do tolo (Yechezkel 18; Mishlei 8; Tehillim 16). Mas estas “vidas” não podem referir-se à vida terrena — “porque o justo e o ímpio são iguais nela” (ambos vivem e morrem igual). Logo, é forçoso que apontem para a vida do mundo vindouro. O argumento é exegético-lógico: o sentido literal imediato falha, então o texto fala de outra coisa.
2

A segunda raiz: o reconhecimento de que há um bem reservado e permanente diante de D'us para os justos, e um mal reservado para os ímpios. Disse sobre isto (Mishlei 10:7): “a memória do justo é para bênção, mas o nome dos ímpios apodrecerá”; e disse Nechemyá (5:19): “lembra-te de mim, ó meu D'us, para o bem”. E, sobre os ímpios, disse (ali 6:14): “lembra-te, ó meu D'us, de Toviyá e de Sanvalat, conforme estas suas obras”. E isto vem depois do que a Torá disse (Devarim 6:25): “e isto nos será contado por justiça merecimento”, e “e para ti será justiça merecimento diante do Senhor teu D'us” (ali 24:13); e ainda (Yeshayahu 58:8): “e a tua justiça irá adiante de ti”. E, sob cada versículo, há muitas explicações.

והשרש השני ההודאה כי טובה צפונה קיימת לפני האלהים לצדיקים, ורעה צפונה לרשעים. אמר בזה (משלי י' ז') זכר צדיק לברכה ושם רשעים ירקב, ואמר נחמיה זכרה לי אלהי לטובה (נחמיה ה' י"ט). וברשעים אמר, (שם ו' י"ד) זכרה אלהי לטוביה ולסנבלט כמעשיהם אלה, וזה אחר מה שאמר בתורה, (דברים ו' כ"ה) וצדקה תהיה לנו, ולך תהיה צדקה לפני יי' אלהיך (שם כ"ד י"ג), ועוד (ישעיה נ"ח ח') והלך לפניך צדקך. ותחת כל פסוק פרושים רבים.
3

A terceira raiz: dar a conhecer que D'us tem livros guardados, nos quais estão as obras dos justos e dos ímpios, como disse Moshé (Shemot 32:32): “apaga-me, pois, do teu livro que escreveste”; e disse (Tehillim 69:29): “sejam apagados do livro dos viventes”; e ainda (Malachi 3:16): “e escreveu-se um livro de memória diante dele, para os que temem o Senhor e para os que pensam no seu Nome”; e disse (Yeshayahu 65:6): “eis que está escrito diante de mim”. E cada frase abrange muitas explicações.

והשרש השלישי הודעה שלאלהים ספרים שמורים יש בהם מעשה הצדיקים והרשעים, כמו שאמר משה (שמות ל"ב ל"ב) מחני נא מספרך אשר כתבת, ואמר (תהלים ס"ט כ"ט) ימחו מספר חיים, ועוד (מלאכי ג' ט"ז) ויכתב ספר זכרון לפניו ליראי יי' ולחושב שמו, ואמר (ישעיה ס"ה יו') הנה כתובה לפני. וכל מאמר כולל פרושים רבים.
4

A quarta raiz: o aviso de que o Criador tem um “momento de comparecimento” (ma'amad), no qual recompensará por toda obra, seja boa ou má, como diz (Bereshit 4:7): “não é assim que, se fizeres o bem, haverá elevação? mas, se não fizeres o bem, à porta jaz o pecado”; e ainda “pois há um tempo para todo propósito, e sobre toda obra há um juízo ali” (Kohélet 3:17); e ainda “ali tremeram de pavor” (Tehillim 14:5); e ainda “ali caíram os que praticam a iniquidade” (ali 36:13); e ainda “ali clamam, mas Ele não responde” (Iyov 35:12). E cada frase disto abrange muitas explicações.

והשרש הרביעי ההתראה שיש לבורא מעמד, יגמול בו על כל מעשה אם טוב ואם רע, כאמרו (בראשית ד' ז') הלא אם תיטיב שאת ואם לא תיטיב לפתח חטאת רובץ, ועוד כי עת לכל חפץ ועל כל המעשה שם (קהלת ג' י"ז), ועוד שם פחדו פחד (תהלים י"ד ה'), ועוד שם נפלו פועלי און (שם ל"ו י"ג), ועוד שם יצעקו ולא יענה (איוב ל״ה:י״ב י"ב), וכולל כל מאמר מזה פרושים רבים.
5

A quinta raiz: ainda, a amplitude dos livros escriturísticos em mostrar que o Criador é Juiz justo que retribuirá a cada homem conforme a sua obra, e é o seu dizer (Devarim 32:4): “a Rocha, perfeita é a sua obra, pois todos os seus caminhos são juízo; D'us de fidelidade e sem iniquidade” etc.; e ainda (Tehillim 145:17): “justo é o Senhor em todos os seus caminhos”; e ainda (ali 9:8-9): “mas o Senhor está entronizado para sempre; estabeleceu o seu trono para o juízo, e ele julgará o mundo com justiça”; “pelos teus juízos todas as coisas permanecem hoje” (ali 119:91); e ainda “Ele lhe dá segurança, e nela se apoia, e os seus olhos estão sobre os caminhos deles” (Iyov 24:23); “pois os seus olhos estão sobre os caminhos do homem” (ali 34:21); “pois os caminhos do homem estão diante dos olhos do Senhor” (Mishlei 5:21); “pois D'us trará a juízo toda obra” (Kohélet 12:14). E cada versículo abrange uma grande explicação.

והשרש החמישי עוד הרחבת הספרים שהבורא שופט צדק ישלם לכל איש כמעשהו, והוא אמרו (דברים ל"ב, ד') הצור תמים פעלו כי כל דרכיו משפט אל אמונה ואין עול וגו', ועוד (תהלים קמ"ה י"ז) צדיק יי' בכל דרכיו, ועוד (שם ט', ח' ט') ויי' לעולם ישב כונן למשפט כסאו, והוא ישפוט תבל בצדק. למשפטיך עמדו היום (שם קי"ט צ"א), ועוד יתן לו לבטח וישען ועניהו על דרכיהם (איוב כ"ד כ"ג), כי עיניו על דרכי איש (שם ל"ד כ"א), כי נכח עיני יי' דרכי איש (משני ה' כ"א), כי את כל מעשה האלהים יביא במשפט (קהלת י"ב י"ד). וכל פסוק כולל פירוש גדול.
Nota — o retrato cumulativo do juízo As raízes centrais desenham, peça a peça, um quadro de prestação de contas: D'us guarda “livros” com as obras de cada um (Shemot 32:32; Malachi 3:16); tem um “momento de comparecimento” que retribui todo ato (Bereshit 4:7; Kohélet 3:17); é o Juiz justo cujos olhos veem “os caminhos do homem” e que “trará a juízo toda obra” (Devarim 32:4; Kohélet 12:14); e tem um “dia preparado” para a retribuição (Tzefanyá 1). Nenhum versículo isolado prova o mundo vindouro; juntos, porém, compõem a imagem coerente de um acerto final que este mundo não realiza.
6

A sexta raiz: a menção de que o Criador tem um dia preparado para a retribuição. Disse sobre isto (Tzefanyá 1:14-2:1): “pois perto está o grande dia do Senhor — perto, e apressando-se muito”; “dia de ira é aquele dia”; “e trarei angústia aos homens, e andarão como cegos”; “nem a sua prata nem o seu ouro os poderá livrar”; “ajuntai-vos e congregai-vos, antes que se cumpra o decreto marcado”. E cada versículo destes tem explicações que não as recordo aqui, para que o relato não se alongue.

והשרש הששי זכרון שיש לבורא יום מוכן לגמול, אמר בו (צפניה א' י"ד-ב' א') כי קרוב יום יי' הגדל קרוב ומהר מאד, יום עברה היום ההוא, והצרותי לאד והלכו כעזרי', גם כספם גם זהבם. התקוששו וקושו בטרם לדת חק ולכל פסוק מאלה פירושי' אינני זוכרם הנה שלא יארך הספור.
7

A sétima raiz: o chamar “bem” à recompensa, e o dizer que a retêm dos ímpios, como diz (Devarim 5:29): “para que haja bem para eles e para os seus filhos, para sempre”; e ainda (Tehillim 31:20): “quão grande é a tua bondade, que reservaste para os que te temem”; e ainda (Kohélet 8:12-13): “pois também sei eu que haverá bem para os que temem a D'us… mas bem não haverá para o ímpio”. E cada versículo destes tem explicações. E, se opinar alguém que estes versículos comportam outras interpretações que anulam a prova que neles há do mundo vindouro, esclareceremos que a coisa não é como ele opinou — pois o intelecto exige a recompensa noutro mundo, e toda interpretação que concorda com o que há no intelecto é a verdade, e tudo o que conduz ao que diverge do intelecto é o vão (nulo). E estas são provas da Escritura, por vias breves.

והשרש השביעי קריאת הגמול טוב, ושמונעים אותו מן הרשעים, כאמרו (דברי ה' כ"ט) למען ייטב להם ולבניהם לעולם, ועוד (תהלים ל"א כ') מה רב טובך אשר צפנת ליריאיך, ועוד (קהלת ח' י"ב י"ג) כי גם יודע אני אשר יהיה טוב ליראי האלהים וטוב לא יהיה לרשע. ולכל פסוק מאלה פרושים. ואם יסבור סובר שאלה הפסוקים סובלים סברות אחרות מפסידים הטענה בהם לעולם הבא, נבאר שהדבר איננו כמו שסבר, כי השכל חייב הגמול בעולם אחר וכל פרוש מסכים למה שיש בשכל הוא האמת, וכל מה שמביא אל מה שהוא חולק בשכל, הוא הבטל. ואלה ראיות מן הכתוב בדרכים קצרים:
Nota — a razão como árbitro da interpretação O fecho enuncia um dos princípios hermenêuticos mais importantes de Saadiá — e de todo o racionalismo judaico medieval. À objeção “esses versículos podem ter outras leituras”, ele responde com um critério: já que o intelecto exige a recompensa noutro mundo, “toda interpretação que concorda com o que há no intelecto é a verdade, e tudo o que conduz ao que diverge do intelecto é nulo”. A razão demonstrada torna-se a baliza que decide entre leituras possíveis de um texto. Não é a razão contra a Escritura, mas a razão como chave para ler a Escritura corretamente.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Sete fios, um só tecido

Cada raiz tem o mesmo formato: uma palavra-chave (vida, bem reservado, livros, momento, juízo, dia, galardão) ancorada numa alusão da Torá e desdobrada nos Profetas e Escritos. Isoladamente, nenhuma “prova” o mundo vindouro de modo coercivo; tomadas em conjunto, tecem a imagem firme de uma vida e de um acerto de contas que transcendem o presente. A primeira raiz dá o tom lógico: se “vida” não pode designar a vida terrena (onde justo e ímpio se igualam), há de designar a vida futura.

O acerto que este mundo não faz

As raízes centrais convergem para a justiça: D'us guarda livros das obras, marca um momento e um dia de retribuição, e julga cada um “conforme a sua obra”. É a tradução escriturística do argumento moral do cap. 1 — as contas não fecham aqui; logo, fecham noutro lugar. A esperança do galardão e o temor do juízo apoiam-se, para Saadiá, na mesma certeza: a de que D'us é Juiz justo.

A razão decide entre leituras

O fecho enuncia um princípio decisivo: como o intelecto já demonstra a recompensa no além, toda interpretação compatível com a razão é verdadeira, e a que a contraria é nula. Não é a razão contra o texto, mas a razão como critério para escolher, entre as leituras possíveis de um versículo, a correta. É a assinatura do método de Saadiá — e o alicerce de toda a exegese filosófica judaica que o seguiu.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IX (O mundo vindouro), cap. 3, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Yechezkel 20:21; 18:20; Mishlei 8:35-36; 15:24; 7:27; 5:21; 10:7; Tehillim 27:13; 16:10-11; 69:29; 14:5; 36:13; 145:17; 9:8-9; 119:91; 31:20; Nechemyá 5:19; 6:14; Devarim 6:25; 24:13; 32:4; 5:29; Yeshayahu 58:8; 65:6; Shemot 32:32; Malachi 3:16; Bereshit 4:7; Kohélet 3:17; 12:14; 8:12-13; Iyov 35:12; 24:23; 34:21; Tzefanyá 1:14-2:1. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado IX · O mundo vindouro · cap. 4

As Provas da Tradição — o Vestíbulo e o Esplendor da Shechiná

רְאָיוֹת הַקַּבָּלָה — הָעוֹלָם הַזֶּה כִּפְרוֹזְדּוֹר וְזִיו הַשְּׁכִינָה

A terceira via — a tradição rabínica — completa o argumento. Saadiá recolhe máximas dos sábios: este mundo como vestíbulo do vindouro (Avot 4:16), o valor de uma só hora de teshuvá, a natureza espiritual do olam haba (sem comida nem bebida, mas “deleite no esplendor da Shechiná”), quem perde a sua porção, e o testemunho do próprio Targum sobre a ressurreição.

1

Quanto à tradição, porém, as coisas nela são mais amplas do que o homem as poderia escrever todas. Mas mencionarei alguns dos pontos principais do que nela veio, e digo: receberam os nossos antigos, dos profetas, que este mundo é, diante do mundo vindouro, como um vestíbulo diante do palácio dos reis — no qual o homem precisa preparar-se com aquilo que convém ser preparado, antes de entrar no palácio, diante do rei. E isto está expresso nas suas palavras: “este mundo é semelhante a um vestíbulo diante do mundo vindouro; prepara-te no vestíbulo para que possas entrar no salão” (Avot 4:16).

אבל הקבלה הדברים בה יותר רחבים משיוכל אדם לכתבם כלם. אך אזכור ממה שבאו בה ראשי דברים, ואומר, קבלו קדמוננו מן הנביאים, כי העולם הזה דומה לפני העולם הבא כפרוזדור לפני ארמון המלכים, אשר צריך שיתקן אדם עצמו בו, במה שהוא ראוי להתקן קודם שיכנס אל הארמון לפני המלך. וזה מבואר בדבריהם, העולם הזה דומה לפרזדור לפני העולם הבא, התקן עצמך בפרזדור כדי שתכנס לטרקלין.
Nota — o vestíbulo e o palácio A terceira via — a tradição (kabalá, aqui no sentido de transmissão rabínica) — abre com uma das imagens mais conhecidas da ética judaica: “este mundo é como um vestíbulo diante do mundo vindouro; prepara-te no vestíbulo para entrares no salão” (Pirkei Avot 4:16). Ela resume toda a doutrina de Saadiá sobre os dois mundos: o presente não vale por si, mas pelo que nele se prepara — e o seu sentido inteiro está em ser ante-sala de algo maior. A vida é tempo de aprontar-se para comparecer “diante do Rei”.
2

E disseram ainda que uma hora em teshuvá neste mundo é mais proveitosa do que toda a vida do mundo vindouro — no qual já não há teshuvá, conforme explicámos que aquilo que se escreve sobre a alma neste mundo, de manchas de escuridão e negrume, já não é possível limpar lá; e que uma hora de descanso no mundo vindouro é melhor do que toda a vida deste mundo, pois as almas não cessam de estar voltadas para ele e de o aguardar, conforme explicámos. E é o seu dizer: “melhor é uma hora de teshuvá e boas obras neste mundo do que toda a vida do mundo vindouro; e melhor é uma hora de contentamento de espírito no mundo vindouro do que toda a vida deste mundo” (Avot 4:17).

ואמרו עוד ששעה בתשובה בעולם הזה יותר מועילה מכל חיי העלם הבא, שאין בו תשובה, כאשר בארנו שמה שנכתב על הנפש בעולם הזה מקדרות ושחרות אי אפשר להנקות; וששעה מנוחה בעולם הבא, טוב מכל חיי העולם הזה, כי הנפשות אליו לא סרו נשקפות עדיו ומצפות אליו, כאשר בארנו. והוא אמרם, יפה שעה אחת בתשובה ומעשים טובים בעולם הזה, מכל חיי העולם הבא, ויפה שעה אחת של קורת רוח בעולם הבא, מכל חיי העולם הזה.
3

E receberam ainda que no mundo vindouro a vida nele é como a luz, e não há ali comida, nem bebida, nem fecundidade e multiplicação procriação, nem compra e venda, nem coisa alguma das coisas deste mundo — mas a recompensa dos justos provém da glória do Criador. É o seu dizer: “o mundo vindouro não tem nele nem comida, nem bebida, nem procriação, nem negócio; mas os justos estão sentados, com as suas coroas nas suas cabeças, e se deleitam com o esplendor da Shechiná” (Berachot 17a). E eu hei de voltar a explicar a qualidade da recompensa dos justos, com maior explicitação e esclarecimento.

וקבלו עוד שהעולם הבא החיים בו כאור, ואין שם מאכל ולא משתה ולא פריה ורביה ולא ממכר ולא דבר מדברי העולם הזה, אבל גמול הצדיקים מכבוד הבורא. הוא אמרם, העולם הבא אין בו לא אכילה ולא שתיה ולא פריה ורביה ולא משא ומתן, אלא צדיקים יושבים ועטרותיהם בראשיהם, והם נהנים מזיו השכינה. ואני עתיד לשוב לבאר איכות גמול הצדיקים בפרוש ובבאור.
Nota — a recompensa é espiritual: o esplendor da Shechiná Saadiá adota a concepção rabínica clássica (Berachot 17a) de um mundo vindouro puramente espiritual: “sem comida, bebida, procriação ou negócio” — sem nenhuma das necessidades do corpo. A vida ali é “como luz”, e o galardão dos justos não é prazer material, mas “deleitar-se com o esplendor da Shechiná”, a partir “da glória do Criador”. É uma das afirmações mais elevadas do livro: a felicidade última do homem é intelectual e contemplativa — estar na presença luminosa de D'us —, não a satisfação dos sentidos. (Saadiá promete detalhar a natureza desse galardão adiante.)
4

E, tamanha foi a força com que se apegaram a este assunto honrado, que receberam por tradição que todo aquele que não crê na recompensa do mundo vindouro, e na outorga da Torá, e não crê na tradição recebida, não tem porção no mundo vindouro — ainda que as suas obras sejam boas. E é o seu dizer: “estes são os que não têm porção no mundo vindouro: aquele que diz que não há ressurreição dos mortos, e que não há Torá vinda dos céus, e o epicurista (apikoros)” (Sanhedrin 90a).

ומרב החזיקם בענין הזה הנכבד, קבלו שכל מי שאינו מאמין בגמול העולם הבא, ובמתן תורה, ואיננו מאמין בקבלה, אין לו חלק לעולם הבא, ואפילו אם מעשיו טובים. והוא אמרו, אלו שאין להם חלק לעולם הבא, האומר אין תחית המתים, ואין תורה מן השמים, ואפיקורוס.
5

E enumeraram sete que, conforme se estabeleceu entre eles, não têm porção no mundo vindouro, por terem feito pecar outros homens e os terem afastado do serviço do Criador, sem que estes pudessem reparar o que aqueles estragaram. E é o seu dizer: “três reis e quatro plebeus não têm porção no mundo vindouro: três reis — Yerav'am, Achav e Menashé; e quatro plebeus — Bilam, Doeg, Achitofel e Geichazi” (Sanhedrin 10:2).

ומנו שבעה שהתקים אצלם שאין להם חלק לעולם הבא, מפני שהחטיאו בה בני אדם, והוציאום מעבודת הבורא, ולא יכלו לתקן מה שהפסידו. והוא אמרם, שלשה מלכים וארבעה הדיוטות, אין להם חלק לעולם הבא. שלשה מלכים, ירבעם אחאב ומנשה, וארבעה הדיוטות, בלעם דואג ואחיתופל וגיחזי.
6

E ainda: quando nos traduziram a Torá o Targum, em nome dos profetas, a tradução mencionou a ressurreição de Moshé, nosso mestre, a paz esteja com ele — quando traduziram “e viu a primeira parte para si” (Devarim 33:21): “e receberá a sua primeira parte no porvir, pois ali, na sua herança…” etc. E mencionaram ainda a vida do mundo eterno na tradução de “viva Reuven e não morra” (ali 33:6): disseram “viva Reuven na vida do mundo vindouro, e não morra a segunda morte”. E, na tradução dos Profetas, há tanto do galardão, nas interpretações referentes ao mundo vindouro, que o homem não o poderia enumerar. E, depois de ter explicado o que se mencionou nas três vias — a racional, a escriturística e a tradicional — sobre a recompensa e o castigo do mundo vindouro, digo que os do nosso povo concordam todos sobre ele, com base numa sabedoria recebida por tradição — alguns dos textos em palavras claras, que não comportam outra interpretação nem alteração, bem explicadas, conforme eu disse no tratado sobre a anulação da pretensa ab-rogação da Torá.

ועוד כשתרגמו לנו התורה משם הנביאים זכר בתרגומה תחית משה רבינו עליו השלום, כשתרגמו וירא ראשית לו (דברים ל"ג כ"א) ויתקבל בקדמיתא דיליה ארי תמן באחסנתיה וגו'. וזכרו עוד חיי העולם בתרגום יחי ראובן ואל ימות (שם ו'), אמרו יחי ראובן חיי עלמא ומותא תנינא לא ימות ובתרגום נביאים יש מה שלא יוכל אדם לספו' גמול מפרושי העולם הבא. ואחר שפרשתי מה שנזכר בשלשה המשכים, המושכל והכתוב והמקובל, מהגמול והענש העום הבא, אומר, שעמנו מסכימים כלם עליו מחכמה מקובלת, מהם בדברים מבוארים שלא יסבלו סברא ולא שנוי, מפורשים היטב כאשר אמרתי בבטול התורה:
Nota — quando a própria tradução testemunha O capítulo fecha com um tipo curioso de prova: o Targum (a tradução aramaica autorizada). Ao verter “e viu a primeira parte para si” (Devarim 33:21), o Targum lê uma alusão à ressurreição de Moshé; e “viva Reuven e não morra” (33:6) torna-se “viva na vida do mundo vindouro e não morra a segunda morte”. Para Saadiá, isto mostra que a doutrina não foi inventada tardiamente: já estava embutida na transmissão e na tradução do texto. Encerrada a exposição pelas três vias — razão, Escritura, tradição —, conclui que todo o povo concorda nela, parte em textos “que não comportam outra interpretação”.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Preparar-se na ante-sala

A imagem do vestíbulo (Avot 4:16) dá a chave de toda a doutrina dos dois mundos: o presente vale pelo que nele se prepara para o que vem. Daí a tensão das máximas seguintes — uma hora de teshuvá aqui supera toda a vida do além (pois lá já não há correção), mas uma hora de paz supera toda a vida daqui. Cada mundo tem aquilo que o outro não tem: este, a oportunidade de agir; aquele, o repouso do galardão.

Uma felicidade sem corpo

A descrição do mundo vindouro (Berachot 17a) é decididamente espiritual: nenhuma das funções do corpo subsiste — nem comida, nem procriação, nem comércio. O que resta é a luz: os justos “deleitam-se com o esplendor da Shechiná”. Para Saadiá, isto confirma que a felicidade última do homem é da ordem do conhecimento e da presença de D'us, não dos sentidos — e ele promete (cumprindo nos capítulos seguintes) detalhar a natureza desse galardão.

A tradição também guarda quem se exclui

A mesma transmissão que descreve o galardão nomeia quem dele se priva: os que negam a ressurreição, a Torá do Céu e a tradição (Sanhedrin 90a), e os sete que “fizeram outros pecar” (os três reis e os quatro plebeus). E, num toque erudito, Saadiá mostra que até o Targum — a tradução autorizada — já lia a ressurreição e a vida eterna no texto. Fecha-se assim a tríplice prova: razão, Escritura e tradição convergem, e o povo todo, conclui ele, concorda na doutrina do mundo vindouro.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IX (O mundo vindouro), cap. 4, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Pirkei Avot 4:16; 4:17; Berachot 17a; Sanhedrin 90a; 10:2 (Mishná); Devarim 33:21; 33:6 (com o Targum). Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado IX · O mundo vindouro · cap. 5

A Essência da Recompensa e do Castigo

מַהוּת הַגְּמוּל וְהָעֹנֶשׁ — עֶצֶם אֶחָד הַמֵּאִיר וְהַשּׂוֹרֵף

Provada a existência do mundo vindouro, Saadiá expõe agora a sua essência: recompensa e castigo são uma só substância sutil — como o fogo, que ilumina e queima, ou o sol, que dá luz e calor — e a mesma fonte ilumina os justos e abrasa os ímpios. Daí a Escritura chamar “luz” ao galardão e “fogo” à pena; Moshé, vivendo de luz sem alimento, é o sinal; e os nomes “Éden” e “Gehinnom” são metáforas de lugares reais.

1

E, já que expliquei bem estas raízes e as estabeleci, digo em seguida: que já expliquei e expus que a recompensa e o castigo são para o corpo e a alma juntos, por serem eles uma só ação conjunta; e, do mesmo modo, como o Criador reviverá os mortos e unirá a alma com o seu corpo — isto expliquei-o e expu-lo. E respondi às perguntas dependentes do assunto, e revelei as dúvidas que talvez nele recaíssem, e as removi. E é preciso que falemos agora, aqui, na explicação da essência mahut da recompensa e da essência do castigo; e na descrição do lugar que haverá então; e na descrição do tempo que eles terão — tempo que implica perdurança eterna para os recompensados e para os castigados. E perguntar: se a sua recompensa e o seu castigo são iguais em natureza; e se há entre eles diferença quanto ao grau devido e perdurável; e se os recompensados e os castigados se reúnem uns com os outros; e se recai sobre eles algum serviço ao Criador; e se é possível que ainda escolham a Sua rebeldia; e, caso o sirvam, qual será a sua recompensa. E, quando eu explicar estes dez assuntos, completar-se-á tudo o que é necessário neste tratado.

וכיון שבארתי השרשים האלה היטב ותקנתים, אומר אחר כן, כי כבר בארתי ופרשתי שהגמול והענש לגוף ולנפש יחד, מפני שהם פעל אחד; וכן איך יחיה הבורא המתים, ויחבר הנפש עם גופה, בארתיו ופרשתיו. והשיבותי על השאלות התלויות בענין, וגליתי הספקות אשר אולי יפלו בה והסירותים. וצריך שנדבר עתה הנה בפירוש מהות הגמול ומהות הענש, ובספור המקום אשר יהיה אז, ובספור הזמן אשר יהיה להם, שמחייב התמדה נצחית לגמולים ולענושים. ואם גמולם וענשם שוים בענין, ואם יש ביניהם הפרש (ובין) הראוי התמידי? ואם יתקבצו הגמולים והענושים זה עם זה? ואם יש עליהם עבודה לבורא? ואם יתכן שיבחרו בהמרותו? ואם יעבדוהו מה יהיה גמולם? וכאשר אפרש אלה העשר ענינים, ישלם כל מה שצריך אליו במאמר הזה:
2

E começarei, primeiro, pela exposição da essência da recompensa e do castigo — e já mencionei antes algo deles, mas acrescentarei aqui esclarecimento. E digo que a recompensa e o castigo são duas coisas sutis, que o nosso D'us criará no tempo da consumação, e que delas chegará a cada homem conforme o que lhe é devido. E ambas são de uma só substância, semelhante à força do fogo, que queima e ilumina — e ela ilumina os justos e não os ímpios, e queima os ímpios e não os justos. E sobre isto disse a Escritura (Malachi 3:19-20): “pois eis que vem o dia, ardendo como um forno… mas para vós, os que temeis o meu Nome, raiará o sol da justiça, e cura haverá nas suas asas”. E quão boa é a comparação que a Escritura faz deles com os dois efeitos do sol — pelo qual se dá o calor do dia, e pelo qual se dá a luz clara.

ואחל בתחלה הודעת מהות הגמול והענש, וכבר זכרתי לפנים מהם קצת, אך אוסיף בהם הנה באור, ואומר שהגמול והענש שני ענינים דקים, יבראם אלהינו בעת השלם, ויגיע מהם אל כל אדם כפי הראוי לו, והם שניהם מעצם אחד, דומה לכח האש שורפת מאירה, והיא מאירה לצדיקים ולא לרשעים, ושורפת הרשעים ולא הצדיקים. ובזה אמר הכתוב (מלאכי ג' י"ט כ') כי הנה היום בא בוער כתנור, וזרחה לכם יראי שמי שמש צדקה ומרפא בכנפיה. ומה טוב דמותו אותם בשני מעשי השמש, אשר בה יהיה חום היום, ובה יהיה האור הבהיר.
Nota — uma só substância: a luz que ilumina e o fogo que queima Eis a tese metafísica mais original do tratado. Recompensa e castigo não são dois mundos opostos, mas uma só substância sutil criada por D'us — comparada à força do fogo, que ao mesmo tempo ilumina e queima, ou ao sol, que dá luz e calor. A mesma realidade ilumina os justos e abrasa os ímpios (Malachi 3:19-20: o dia que “arde como forno” é também o “sol da justiça” que raia com cura). A diferença em relação ao sol é que, no além, luz e calor não vêm misturados: D'us reúne a luz para uns e o calor para outros — provavelmente “por circunstância”, como separou luz e treva no Egito. Cada um colhe da mesma fonte aquilo que merece.
3

E o seu dizer “o dia ardente” e “o sol da justiça” é sobre uma só coisa. Não vês que a língua alude ao sol pela palavra “dia”, quando diz (Shoftim 19:11): “e o dia já tinha descido muito”, e diz ainda (ali 19:9): “eis que o dia já afrouxou para chegar a tarde”? E a raiz desta coisa que o Criador renovará é semelhante ao sol, exceto que há entre ela e o sol uma diferença: pois, no sol, o seu calor e a sua luz misturam-se e se associam, e não prevalece um deles sobre o outro; mas esta substância, estando no poder do Criador, terá a sua luz reunida para os justos e o seu calor reunido para os ímpios — quer por uma propriedade essencial que Ele lhe atribua, quer por acidente (circunstância), pelo qual Ele guarde estes os justos do calor e aos ímpios esconda dela a luz. E a segunda opinião é mais provável; e já vimos que Ele fez assim no Egito, quando reuniu a luz para Israel e a treva para os egípcios, por meio circunstancial, conforme o seu mandar.

ואמרו היום בוער ושמש צדקה הוא מדבר אחד, הלא תראה כי הלשון רומזת אל השמש במלת יום, באמרה (שופטים י"ט י"א) והיום רד מאד, ואמרה עוד (שם ט') הנה נא רפה היום לערוב. ושרש זאת אשר יחדשנה הבורא מדומה לשמש, אלא שיש בינה ובין השמש הפרש; כי השמש חומה ואורה מתערבים ומשתתפים, לא יגבר אחד מהם מן האחר; והעצם הזה ביכולת הבורא, יתקבץ אורה לצדיקים, ויתקבץ חומה לרשעים, אם בכח שמיחד אותה בו, אם במקרה, שישמור בו אלה מן החום, ויסתיר בו האור מלאה. והסברא השנית יותר קרובה, וכבר ראינו שעשה כן במצרים שקבץ האור לישראל, והחשך למצרים במקרה כמצותו.
4

E, já que estabeleci esta raiz, digo agora que, por causa disto, os livros escriturísticos chamam “luz” a toda recompensa dos justos, e “fogo” a todo castigo dos ímpios. Como dizem a respeito da recompensa (Tehillim 36:10): “pois contigo está a fonte da vida; na tua luz veremos a luz”; e ainda “luz está semeada para o justo” (ali 97:11); “a luz dos justos se alegra” (Mishlei 13:9); “para fazer voltar a sua alma da cova, para que se ilumine com a luz dos viventes” (Iyov 33:30). E como dizem a respeito da alma do ímpio (Yeshayahu 1:31): “e o forte se tornará em estopa, e a sua obra em faísca, e arderão ambos” etc.; e ainda (ali 30:33): “pois há muito está preparado o Tofteh”; e ainda (Iyov 15:34): “pois a congregação dos ímpios é estéril, e o fogo consome as tendas do suborno”; e ainda (Iyov 22:20): “certamente se destruiu o nosso adversário, e o fogo consumiu o seu resto”; e ainda (Iyov 20:26): “toda treva está escondida para os seus tesouros; consumi-lo-á um fogo não assoprado”; e ainda “concebeis palha, dareis à luz restolho; o vosso espírito é um fogo que vos consumirá” (Yeshayahu 33:11); e ainda (ali 26:11): “sim, o fogo reservado para os teus adversários os consumirá”; e ainda “fará chover sobre os ímpios laços brasas, fogo e enxofre” (Tehillim 11:6); “caiam sobre eles brasas; Ele os faça cair no fogo” (ali 140:11), e o semelhante a isto.

וכיון ששמתי זה השרש, אומר עתה כי בעבור זה קוראים הספרים כל גמול הצדיקים אור, וכל ענש הרשעים אש, כמו שהם אומרים בגמול (תהלים ל"ו י') כי עמך מקור חיים באורך נראה אור, ועוד אור זרוע לצדיק (שם צ"ז י"א), אור צדיקים ישמח (משלי י"ג ט'), להשיב נפשו מני שחת לאור באור החיים (איוב ל"ג ל'). וכמו שאומרים בנפש הרשע (ישעי' א' ל"א), והיה החסון לנעורת ופועלו לניצוץ ובערו שניהם וגו', ועוד (שם ל' ל"ב) כי ערוך מאתמול תפתה, ועוד (איוב ט"ו ל"ד) כי ערת חנף גלמוד ואש אכלה אהלי שחד, ועוד (איוב כ"ב כ') אם לא נכחד קימנו ויתרם אכל אש, ועוד (איוב כ' כ"ו) כל חשך טמון לצפוני תאכלהו אש לא נפח, ועוד תהרו חשש תלדו קש רוחכם אש תאכלכם (ישעי' ל"ג י"א). ועוד (שם כ"ו י"א) אף אש צריך תאכלם, ועוד ימטר על רשעים פחים אש וגפרית (תהלים י"א ו'), ימוטו עליהם גחלים באש יפילם (שם ק"מ י"א) והדומה לזה.
5

E, se inquirir alguém, pedindo que se lhe ilustre como pode haver um corpo sem comida e sem bebida para sempre, ilustrá-lo-emos por Moshé, nosso mestre, a paz esteja com ele — a quem o Criador manteve vivo quarenta dias, três vezes, sem comida e sem bebida, como está escrito (Shemot 34:28): “e esteve ali com o Senhor quarenta dias” etc. Antes, viveu pela luz que Ele criou para ele e pôs sobre o seu rosto, como está escrito (ali 34:29): “e Moshé não sabia que a pele do seu rosto resplandecia”. Ele pôs isto como sinal e aproximação ao nosso entendimento, para que apreendamos como os justos vivem pela luz, não pelo alimento. E assim lhe disse (ali 34:10): “diante de todo o teu povo farei maravilhas” etc. E isto é como o que se diz dos justos: “desde sempre não se ouviu nem se deu ouvidos; olho não viu, ó D'us, além de ti, o que ele fará para quem o espera” (Yeshayahu 64:3).

ואם ידרוש דורש להמשיל לו איך יהיה גוף בלי מאכל ובלי משתה תמיד? נמשיל לו במשה רבינו עליו השלום, אשר החיהו הבורא ארבעים יום שלש פעמים בלא מאכל ובלא משתה, כמ"ש (שמות ל"ד כ"ח) ויהי שם עם י"י ארבעים יום וגו'. אך חיה באור אשר בראו לו ונתנו על פניו, כמ"ש (שם כ"ט) ומשה לא ידע כי קרן עור פניו. שם זה אות והקרבה אל שכלנו, שנעמוד על חיות הצדיקים באור לא במזון, וכן אמר לו (שם י') נגד כל עמך אעשה נפלאות וגו'. וזה כאמרו לצדיקים, ומעולם לא שמעו ולא האזינו. עין לא ראתה אלהים זולתך יעשה למחכה לו (ישעי' ס"ד ג').
Nota — Moshé, prova de que se vive de luz À pergunta “como pode um corpo viver para sempre sem comer nem beber?”, Saadiá responde com um precedente concreto: Moshé permaneceu no Sinai três vezes quarenta dias sem alimento (Shemot 34:28), sustentado pela luz que lhe foi posta no rosto — “a pele do seu rosto resplandecia” (34:29). Esse rosto luminoso é, para Saadiá, um sinal dado “para aproximar ao nosso entendimento” a vida futura: os justos viverão da luz divina, não do alimento. O milagre histórico funciona como amostra antecipada do mundo vindouro — “olho não viu, ó D'us, além de ti, o que ele fará para quem o espera” (Yeshayahu 64:3).
6

Mas como manterá o Criador vivo, para sempre, o castigado que está eternamente de pé no fogo? Não achamos, no que nos precedeu, alguém a quem tal sucedesse, e pelo qual o ilustrássemos; e, já que tal precedente não se acha, a Escritura o mencionou expressamente, e disse (Yeshayahu 66:24): “pois o seu verme não morrerá, e o seu fogo não se apagará”. E esta frase implica que as suas almas estarão preservadas no seu corpo, de um modo sutil, à parte do calor doloroso — de sorte que o calor doloroso seja castigo para eles, e que o suportem. E é justo, ainda, que Ele preserve as almas dos justos de tal modo que a luz que lhes chega das alturas seja constante, à parte do estado em que eles permanecem. Mas a necessidade de crer neste modo sutil que preserva é mais necessária no capítulo dos castigados do que o é no capítulo dos recompensados. Não vês que os reis, quando querem castigar um homem por longo tempo, dão-lhe de comer e de beber antes de neles se completar o seu intento de castigo? — pois eles fazem isto estando sob a natureza; mas o Criador faz estando acima da natureza: sustém e preserva sem precisar de comida.

אבל איך יחיה הבורא הענוש תמיד העומד נצח באש? לא מצאנו במה שקדם מי שאירע לו כה שנמשיל בו, וכאשר לא נמצא, זכרו הכתוב בפירוש ואמר (ישעי' ס"ו כ"ד) כי תולעתם לא תמות ואשם לא תכבה. וזה המאמר מחייב שיהיו נפשותם שמורות בגופם בענין דק חוץ מן החום המכאיב, עד שיהיה החום המכאיב ענש להם ויסבלוהו. ויישר עוד שישמור נפשות הצדיקים בענין, עד שתהיה האורה המגעת אליהם מערבות מתמדת, חוץ מהענין אשר בו יעמדו. אלא שהצרך להאמין בזה הענין הדק השומר, הוא בשער הענושים יותר צריך, ממה שצריך בשער הגמולים. הלא תראה שהמלכים כשהם רוצים לענוש האדם זמן ארוך נותנים לו לאכול ולשתות קודם שישלם בו חפצם מן הענש, כי הם עושים זה מתחת הטבע. אבל הבורא עושה ממעל לטבע, יעמיד וישמור בלא מאכל.
7

E a Escritura chama à recompensa “Gan Éden” (o Jardim do Éden), porque não se achou no mundo coisa mais nobre do que o jardim — e foi nele que D'us fez habitar o homem. E chama ao castigo “Gehinnom”, porque a Escritura o chamou “Tofteh” — e este é nome de um lugar próximo ao Templo; a Escritura diz ainda “o Tofteh e o vale de Ben-Hinom” (Yirmeyahu 7:32), e esse lugar é também chamado, no livro de Yehoshua, “Guei-Hinom” (o vale de Hinom) (Yehoshua 15:8). E sobre o jardim em que habitou o homem aplicam eles a metáfora nobre, no versículo “como o Jardim do Éden é a terra diante dele” (Yoel 2:3); e sobre o lugar do Tofteh aplicam a metáfora vil, como está escrito (Yirmeyahu 19:13): “e as casas de Yerushalayim e as casas dos reis de Yehudá serão como o lugar do Tofteh, os impuros”.

ונקרא הגמול גן עדן, בעבור שלא נמצא בעולם יותר נכבד מן הגן והוא אשר השכין בו האדם. ונקרא הענש גיהנם, מפני שהכתוב קראו תפתה. והוא שם מקום קרוב לבית המקדש, יאמר עוד התפת וגיא בן הנם (ירמיהו ז׳:ל״ב ל"ב), ונאמר לו בספר יהושע גיא הנם (יהושע ט"ו ח'). ועל גן ששכן בו אדם נושאים המשל הנכבד, באמרו כגן עדן הארץ לפניו (יואל ב' ג'), ועל מקום התפת נושאים המשל הפחות, כמ"ש (ירמיהו י״ט:י״ג י"ג) והיו בתי ירושלים ובתי מלכי יהודה כמקום התפת הטמאים:
Nota — “Jardim do Éden” e “Gehinnom”: nomes tomados de lugares reais Num gesto tipicamente racionalista, Saadiá explica os nomes do paraíso e do inferno como metáforas tiradas de lugares deste mundo. A recompensa chama-se “Gan Éden” porque o jardim foi o lugar mais nobre que houve, onde D'us pôs o homem. O castigo chama-se “Gehinnom” porque a Escritura usou “Tofteh” — e Guei-Hinom (vale de Hinom) era um lugar real perto de Yerushalayim, associado à imundície e ao culto pagão (Yirmeyahu 7; 19; Yehoshua 15). Os nomes não descrevem uma geografia do além: são imagens — a mais nobre e a mais vil deste mundo — emprestadas para falar de realidades que o ultrapassam.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Uma agenda de dez perguntas

O capítulo abre listando os dez pontos que faltam ao tratado: a essência da recompensa e do castigo, o seu lugar e o seu tempo, a sua perpetuidade, se há graus, se recompensados e castigados se encontram, se ainda há serviço a D'us, se ainda é possível pecar, e qual o galardão desse serviço. É a estrutura do restante do Tratado IX — e mostra o cuidado sistemático de Saadiá em não deixar pergunta sem resposta.

A mesma luz, a mesma chama

A resposta à primeira pergunta é a sua intuição mais profunda: o além não é feito de dois lugares opostos, mas de uma só substância criada que age como o fogo ou o sol — ilumina e aquece simultaneamente. O justo recebe dela luz; o ímpio, calor abrasador. Como no Egito, onde a mesma noite foi treva para uns e luz para outros, a separação dá-se “por circunstância”, pela vontade de D'us. Por isso a Escritura nomeia constantemente o galardão como “luz” e a pena como “fogo”.

Viver de luz, e os nomes do além

Como conceber um corpo eterno sem alimento? Pelo precedente de Moshé, sustentado quarenta dias pela luz que lhe brilhava no rosto — amostra de que os justos “vivem da luz, não do alimento”. Para o castigado, não há precedente, e por isso a Escritura o afirma diretamente (“o seu verme não morrerá”). E os próprios nomes — “Jardim do Éden”, “Gehinnom” — Saadiá os lê como metáforas tomadas de lugares deste mundo: o mais belo e o mais vil, emprestados para falar do que os ultrapassa. Demitização sóbria, fiel ao seu racionalismo.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IX (O mundo vindouro), cap. 5, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Malachi 3:19-20; Shoftim 19:9,11; Tehillim 36:10; 97:11; 11:6; 140:11; Mishlei 13:9; Iyov 33:30; 15:34; 22:20; 20:26; Yeshayahu 1:31; 30:33; 33:11; 26:11; 64:3; 66:24; Shemot 34:10,28,29; Yirmeyahu 7:32; 19:13; Yehoshua 15:8; Yoel 2:3. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado IX · O mundo vindouro · cap. 6

O Lugar e o Tempo do Mundo Vindouro

מְקוֹם הַגְּמוּל וּזְמַנּוֹ — שָׁמַיִם חֲדָשִׁים וְזְמַן כֻּלּוֹ אוֹר

Saadiá responde à terceira e à quarta perguntas: o lugar e o tempo do galardão. Por que “novos céus e nova terra”? Porque a geografia deste mundo só serve ao corpo, do qual o além não precisa. Distingue, com fino senso de contexto, Isaías 65 (metáfora da redenção) de Isaías 66 (o mundo vindouro real); explica que o próprio ar será outro; e descreve um tempo todo luz, sem dia nem noite.

1

E, já que expliquei estas duas medidas a luz e o calor, é preciso responder à terceira pergunta — que é o tratar do lugar destes recompensados e castigados: já que são seres humanos, corpos e almas, e não é possível estarem sem um lugar em que repousem e sem algo envolvente que os envolva, o Criador o criará para eles e os fará habitar nele. E a esta afirmação conduz a necessidade dos criados; e, além disso, os livros sagrados a mencionaram — mas chamaram-no “céus e terra”, para o aproximar do entendimento, porque não vemos senão céus e terra; e é o seu dizer (Yeshayahu 66:22): “pois, assim como os novos céus e a nova terra que eu faço…”.

וכיון שבארתי שתי המדות האלה צריך (להשיב) על השאלה השלישית, והוא המאמר במקום אלה הגמולים והענושים, כיון שהם אדם גופים ונפשות, ואי אפשר להם בלי מקום ינוחו בו, ומקיף שיקיפם, יברא להם הבורא וישכנם בם. והמאמר הזה מביא אליו צרך הנבראים, ועם זה שספרי הקדש זכרו אותה, אך קראוהו שמים וארץ להקריב אל הבנתו, מפני שאין אנו רואים כי אם שמים וארץ; והוא אמרו (ישעי' ס"ו כ"ב) כי כאשר השמים החדשים והארץ החדשה אשר אני עושה.
2

E digo, no capítulo da menção do lugar: qual é a razão da sabedoria divina em haver “novos céus e nova terra”, e por que D'us não os recompensou neste lugar já conhecido? Esclarecerei, e digo: porque a terra não foi preparada senão para as necessidades do alimento; e por isso há nela campos para semear, e jardins, e rios e correntes para regar as árvores e os animais, e o mar e os ribeiros para a chuva e a inundação, e desertos para a pastagem dos animais, e caminhos para os que andam. E precisámos, nesta morada, de todos estes acréscimos, por causa da nossa necessidade de alimento e de aquisição. Mas a morada do mundo vindouro não tem nela nem alimento, nem aquisição, e não há necessidade de campos, nem de vegetação, nem de rios, nem de montes, nem de ribeiros, nem de coisa alguma semelhante a isto; e os homens não precisarão, naquele tempo, senão de um suporte base e de um meio envolvente apenas — que D'us criará para eles conforme quiser, e esse é o assento e o que os envolve.

ואומר בשער זכרון המקום, מה אפני החכמה בשמים חדשים וארץ חדשה, ולמה לא גמלם במקום הזה הידוע? ואבאר ואומר, מפני שהארץ לא הוכנה כי אם לצרכי המזון, ועל כן יש בה שדות לזרוע וגנות, ונהרים ואפיקים להשקות האילנות והבהמות, והים והנחלים למטר ולשטף, ומדברות למרעה החיות, ודרכים להולכים. והצרכנו למדור הזה לכל אלה המותרים כלם, בעבור צרכנו למזון ולקנין, אבל מדוד העוה"ב אין בו לא מזון ולא קנין, ואין צרך לשדות ולא לצמח, ולא לנהרות ולא להרים ולא לנחלים, ולא לכל מה שדומה לזה, ואין צריך לבני אדם בעת ההיא, כי אם מתקע ומקיף בלבד, יבראהו להם כפי אשר ירצה, והוא המושב והמקיף אותו.
Nota — por que um “mundo novo”: a geografia serve ao corpo Por que recompensar os justos num “novo céu e nova terra”, e não aqui? A resposta de Saadiá é luminosamente funcional: toda a geografia deste mundo — campos, jardins, rios, mares, desertos, estradas — existe para servir às necessidades do corpo: alimento, água, pasto, deslocamento. Mas o mundo vindouro não tem fome, nem comércio, nem viagem; logo, não precisa de nada disso. Aos seus habitantes basta “um suporte e um meio envolvente” — um chão e um entorno. O “mundo novo” não é um duplicado embelezado da Terra; é algo de outra ordem, despojado de tudo o que só o corpo exigia.
3

E não é semelhante a interpretação de “pois, assim como os céus novos…” (ali 66:22) e a interpretação do versículo em que disse (ali 65:17): “pois eis que crio novos céus e nova terra”. Pois todo aquele versículo é no tempo da salvação a redenção, e é como se D'us lhes renovasse o mundo por via de metáfora — tanto mais que disse a seguir (ali 65:18): “pois eis que crio Yerushalayim para alegria, e o seu povo para júbilo”. E ali não quer dizer que renove a criação de Yerushalayim, mas que lhe renova a alegria — pois a Sua consumação dela é “alegria, e o seu povo para júbilo”, é como se Ele os houvesse criado em alegria.

ואין דומה פרוש כי כאשר השמים (שם) ופרוש אמרו (שם ס"ה י"ז) כי הנני בורא שמים חדשים וארץ חדשה; כל הפסוק ההוא בעת הישועה, וכאלו חדש להם עולם על דרך המשל, כל שכן שאמר אחריו (שם י"ח) כי הנני בורא את ירושלים גילה ועמה משוש, ואיננו רוצה שיחדש בריאת ירושלים, אבל יחדש לה השמחה, כי השלמתו גילה ועמה משוש, וכאלו בראם בשמחה;
Nota — ler o contexto: Isaías 65 não é Isaías 66 Saadiá dá aqui uma aula de leitura contextual. Dois versículos de Isaías falam de “novos céus e nova terra”, mas dizem coisas diferentes. Yeshayahu 65:17 está numa passagem sobre a redenção, e é metafórico — prova-o o versículo seguinte, “crio Yerushalayim para alegria” (65:18), que obviamente não significa recriar a cidade, mas renovar-lhe a alegria. Já Yeshayahu 66:22, situado no contexto do mundo vindouro, fala de um lugar real. A mesma expressão recebe sentidos distintos conforme o contexto — princípio que impede tanto materializar a metáfora quanto evaporar o que é literal.
4

Mas “pois, assim como os novos céus” — já que este versículo, 66:22, é referente ao mundo vindouro — trata-se de um lugar e um envolvente verdadeiros, que D'us criará para os homens; e apagará este suporte presente e este envolvente presente, e os reduzirá ao nada, como a Escritura explicou ali (Tehillim 102:26-29): “outrora fundaste a terra, e os céus são obra das tuas mãos; eles perecerão, mas tu permanecerás… e tu és o mesmo, e os teus anos não terão fim; os filhos dos teus servos habitarão”. E o seu dizer “habitarão”, vindo depois do apagar-se dos céus e da terra, implica a criação de um outro lugar em que eles habitem.

כי כאשר השמים החדשים, כיון שהוא בעולם הבא, הוא מקום ומקיף באמת, יבראם לבני אדם, וימחה המתקע הזה והמקיף הזה, וישימם לאין, כאר פירש שם (תהלים ק"ב כ"ו-כ"ט) לפנים הארץ יסדת ומעשה ידיך שמים, המה יאבדו ואתה תעמוד, ואתה הוא ושנותיך לא יתמו, בני עבדיך ישכונו. ואמרו ישכונו, אחרי המחות השמים והארץ, מחייב בריאת מקום אחר ישכנו בו. -
5

E ainda, quanto ao ar que está entre estas duas extremidades céus e terra: já se nos esclareceu que ele consome desgasta os nossos corpos — o que nos fez necessitar de uma reposição em seu lugar, vinda do alimento. E, já que os homens, no mundo vindouro, não precisam de alimento, é forçoso que o ar seja para eles diferente da natureza deste ar, de modo que não precisem do alimento; e, já que as duas extremidades serão de uma natureza tal como esta, também o ar mediano entre elas não será este ar nem da sua natureza.

ועוד בעבור האויר אשר בין שתי קצוות האלה, כבר התברר לנו שהוא מושך גופותינו, מה שהצריכנו אל תמורה תחתיו מהמזון; ומפני שהיו בני אדם בעולם הבא אינם צריכים מזון, התחייב שיהיה האויר להם שלא כטבע האויר הזה, עד שלא יצטרכו אל המזון, וכאשר יהיו שתי הקצוות בטבע האלה כזה, שהאויר הממוצע ביניהם איננו זה האויר ולא בטבעו:
6

Mas como será o tempo — o que é a resposta à quarta pergunta? Digo que será um tempo todo luz, sem treva — quero dizer, que não haverá dois turnos, um após o outro, noite e dia. Pois a noite e o dia foram razões de sabedoria para quando D'us faz o homem habitar na terra, num lugar onde as coisas estão sujeitas ao percurso do sol e ao seu movimento — para que o dia sirva de tempo em que o homem se ocupe com o seu sustento e os seus caminhos, e a noite, para o descanso, o sossego, a relação conjugal, o recolher-se em deliberações e o semelhante a isto. Mas o mundo vindouro não tem nada de tudo isto, e não precisa deles da noite e do dia, sem dúvida; e tampouco de contar os meses e os anos — pois isto não existe no mundo senão para o cálculo, para o aluguel de prazos, para a vegetação da terra e o semelhante a isto. Exceto que a uma parte do tempo haverá um sinal, e sobre eles haverá nela uma forma de serviço a D'us, conforme eu hei de explicar.

אך איך יהיה הזמן אשר הוא תשובת השאלה הרביעית? אומר כי זמן כלו אור בלי חשך, ר"ל שלא יהיו שתי משמרות זו אחר זו לילה ויום, כי הלילה והיום אפני החכמה כשהשכינה בני אדם בארץ, במקום שיהיו במסע השמש ותנועתה, להיות היום להתעסק בו במחיתם ודרכיהם, והלילה למנוחה ולהשקט ולמשגל ולהתבודד בעצות והדומה לזה, אבל העולם הבא, אין בו מכל זה מאומה, ואיננו צריך אליהם בלי ספק ללילה ויום, וכן למנות החדשים והשנים, כי זה איננו בעולם כי אם לחשבון ולשכירות ולצמח הארץ והדומה לזה, אלא שחלק מה מהזמן יהיה לו אות, יהיה עליהם בו עבודה כאשר אני עתיד לבאר:
Nota — um tempo “todo luz”: por que não há mais dia e noite A quarta pergunta — o tempo do além — recebe resposta coerente com tudo o anterior: será “todo luz, sem treva”, sem a alternância de dia e noite. Pois dia e noite, explica Saadiá, só fazem sentido na vida terrena, governada pelo sol: o dia para o trabalho do sustento, a noite para o descanso, o sono, a vida conjugal, a reflexão. Onde não há corpo a alimentar nem trabalho a fazer, não há para que medir o tempo — nem dia, nem mês, nem ano (que servem só ao cálculo, ao contrato, à lavoura). Resta, porém, um enigma que ele promete resolver: uma “parte do tempo” terá um “sinal”, ligada a uma forma de serviço a D'us.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Um lugar despojado do que só o corpo pedia

A pergunta pelo “lugar” do além recebe resposta funcional e elegante: a Terra tem campos, rios, mares e estradas porque o corpo precisa comer, beber, pastorear e deslocar-se. Onde não há essas necessidades, nada disso é preciso — basta “um suporte e um envolvente”. O “mundo novo” não é uma Terra aperfeiçoada, mas algo de outra ordem. A Escritura chama-o “céus e terra” apenas “para aproximar do entendimento”, já que é só isso que conhecemos.

O contexto decide o sentido

Brilha aqui o exegeta: dois versos falam de “novos céus e nova terra”, mas Isaías 65 está na seção da redenção e é metafórico — como “crio Yerushalayim alegria” (65:18) não significa recriar a cidade, mas renovar-lhe a alegria —, ao passo que Isaías 66:22 fala do mundo vindouro literal. O mesmo molde verbal, lido no contexto, diz coisas distintas. E o Salmo 102 (“eles perecerão, mas tu permanecerás… os filhos dos teus servos habitarão”) confirma: depois de findos estes céus e terra, há de haver outro lugar onde habitar.

Tempo sem relógio

Quanto ao tempo, será “todo luz, sem treva”. Dia e noite, meses e anos só servem à vida do corpo — trabalho, descanso, contratos, colheitas; onde nada disso existe, não há o que medir. É uma visão notavelmente desmaterializada da eternidade: não um tempo infinito de dias e noites, mas um presente luminoso. Resta um fio que Saadiá deixa em aberto — “uma parte do tempo” terá um “sinal” ligado a uma forma de serviço a D'us —, e que ele promete desatar adiante.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IX (O mundo vindouro), cap. 6, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Yeshayahu 66:22; 65:17; 65:18; Tehillim 102:26-29. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado IX · O mundo vindouro · cap. 7

A Eternidade da Recompensa e do Castigo

נֶצַח הַגְּמוּל וְהָעֹנֶשׁ — וְהַהֶבְדֵּל בֵּין בּוֹרֵא לְנִבְרָא

Por que o galardão e a pena são eternos? Saadiá responde pela razão: só uma recompensa infinita tira todo pretexto ao que se recusa a servir, e só um temor infinito dissuade ao máximo. Enfrenta de frente a objeção de que o castigo sem fim seria cruel, traz as provas escriturísticas da perpetuidade, e distingue a eternidade futura (possível) da passada (impossível) — marcando a diferença essencial entre Criador e criatura.

1

Quanto às duas perguntas, a quinta e a sexta — que são sobre o multiplicar da menção da recompensa dos justos e do castigo dos ímpios —, falarei sobre isto pela via da razão. E digo que, quando o Criador obrigou o homem ao Seu serviço, era cabível despertar-lhe o desejo dele do serviço pela maior das coisas que despertam o desejo; pois, se Ele atraísse o seu desejo por coisas pequenas, e o homem não O servisse, poderia o objetor dizer: “talvez, se Ele lhe houvesse prometido mais, o homem o serviria”. Mas, quando Ele lhe promete tudo, não lhe resta mais alegação. E o esclarecimento disto: se o tempo da recompensa dos justos fosse posto em mil anos, seria possível dizer que alguns homens não a desejaram por causa da escassez dos anos; e assim com dois mil e três mil, e com tudo o que é limitado, achar-se-á na razão sempre outra medida acima dele. Mas, quando Ele põe a sua recompensa sem fim e sem cessação, e os seus bens não fenecem, não resta lugar para que o objetor alegue.

אבל השתי שאלות החמישית והששית, אשר המה הרבות זכר גמול הצדיקים וענש הרשעים, אדבר בזה מדרך המושכל. ואומר כי כאשר חייב הבורא את האדם בעבודתו, היה ראוי לעורר חפצו עליה בגדול שבדברים המעוררים את החפץ, כי אם היה מושך חפצו בדברים מעטים, ולא היה עובד אותי, היה יכול האומר לומר, אולי אם היה מיחלו ביותר שיחל היה עובדו; וכאשר יחל אותו בכל, לא תשאר לו טענה. ובאור זה, אם הושם זמן גמול הצדיקים אלף שנה, היה אפשר לומר, כי לא חפצו בה קצת בני אדם, בעבור מעוט השנים, וכן שני אלפים ושלשת אלפים, וכל מה שהוא קצוב, ימצא בשכל שיעור אחר למעלה ממנו; וכאשר ישים גמולם בלי תכלית ובלי הפסק, וטובותם לא תמוטנה, לא נשאר מקום לטוען לטעון.
Nota — por que a recompensa é infinita: tirar todo pretexto Por que a Escritura insiste tanto, e por que o galardão é sem fim? Saadiá responde com um argumento de incentivo: para obrigar o homem ao serviço, D'us deve oferecer o maior motivo possível. Qualquer recompensa finita deixaria sempre uma brecha — “se fossem mil anos talvez eu não me esforçasse; e se dois mil? e três mil?” —, pois a razão sempre concebe uma medida maior. Só o infinito fecha toda objeção: oferecido “tudo”, ninguém pode alegar que serviria por mais. A eternidade do prêmio não é exagero retórico, mas exigência lógica da justiça do convite.
2

E talvez diga alguém que este assunto, tratando-se da recompensa, é mais aceitável, pois ela é bem, êxito e graça; mas, quanto aos tormentos e à perduração no fogo, vejo que isto é abandono da misericórdia e crueldade, e algo que não se assemelha aos atributos dEle, bendito seja. E digo, sobre isto, ainda outra coisa pertinente: que, assim como foi forçoso prometer-lhes aos justos uma esperança tal que não há maior do que ela, também foi forçoso atemorizá-los aos ímpios com o temor tal que não há maior do que ele. Pois, se Ele os atemorizasse com tormentos de mil anos, poderia o objetor dizer: “se Ele os pusesse em dois mil, eles temeriam mais”; e, se os pusesse em dois mil, poderia dizer: “se os pusesse em uma miríade, temeriam mais”. Por isso pôs os tormentos sem fim, para atemorizar com o maior dos temores, de modo que não reste com Ele pretexto para homem algum.

ואלי יאמר אומר כי הענין הזה בגמול יותר נכון, כי היא טובה והצלחה וחסד, אבל ביסורים וההתמדה באש, רואה אני שזה עזיבת הרחמים ואכזריות, ומה שאיננו דומה למדותיו יתברך; ואומר בזה עוד דבר מגיע, כי כאשר התחייב ליחל אותם יחול שאין גדול ממנו, כן התחייב להפחידם הפחד שאין גדול ממנו; כי אם היה מפחידם ביסורי אלף שנה, היה יכול האומר לומר, אלו היה משים אותם אלפים היו מפחדים יותר, ואם היה משים אותם אלפים היה יכול לומר, אלו היה משים אותם רבבה היו מפחדים יותר, על כן שם היסורין באין תכלית, שיהיה מפחיד בגדול שבהפחד, שלא תשאר עמו תואנה לשום אדם.
3

E, quando Ele os atemoriza com o temor completo e eles não obedecem, não seria correto trocar aquilo com que os atemorizou e assim desmentir a Sua palavra; antes, para confirmar a Sua palavra e o Seu dito, é cabível que continue sobre eles os tormentos — e a sua violência recai sobre a sua própria alma, pois rebelaram-se e negaram; e d'Ele ainda é a graça, em Ele ter magnificado sobre eles o temor dos tormentos, para corrigi-los para o serviço d'Ele. E este assunto é semelhante às demais coisas que Ele criou com sabedoria, e que se tornam danosas, sendo atribuídas ao pecado do homem — como aquele que sai de noite e cai num poço, e como aquele que come o alimento fora do seu tempo, e como aquele que se cura com aquilo que lhe faz mal, e o semelhante a isto.

וכאשר ייראם ביראה הגמורה ולא ישמעו, לא היה נכון להמיר מה שהפחדים ויכזיב מאמרו, אך בעבור הצדיק מאמרו ודברו, ראוי שיתמיד עליהם היסורין, וחמסם על נפשם, כי מרו וכחשו, ולו החסד בשהגדיל עליהם בפחד היסורין לתקנם לעבודה. וזה הענין דומה לשאר הדברים אשר בראם הוא בחכמה, והם שבים לשער בחטא האדם, כמי שיצא בלילה וירד לבור, ויאכל המאכל בלא עתו, ושיתרפא במה שמזיק והדומה לזה. ואח"כ
Nota — o castigo eterno: a resposta racional de Saadiá Aqui Saadiá enfrenta de frente a objeção mais difícil: tormento sem fim não seria crueldade, contrária à misericórdia divina? A sua resposta tem três peças. (1) Simetria: assim como a esperança devia ser a maior possível, o temor também — qualquer pena finita permitiria dizer “se fosse maior, eu temeria mais”; só a infinita dissuade ao máximo. (2) Veracidade: tendo D'us advertido, retratar-se desmentiria a Sua palavra; quem não ouviu “traz a violência sobre a própria alma”. (3) A própria ameaça é graça, pois visa “corrigi-los para o serviço”. É a teodiceia racionalista de Saadiá — e vale registar que pensadores judeus posteriores divergiram, muitos defendendo que a punição é temporária ou purificadora, não eterna.
4

E depois digo, no capítulo das provas da Escritura de que o galardão perdura para sempre. Primeiro: “estes para a vida eterna, e estes para o opróbrio, para o desprezo eterno” (Daniel 12:2); e diz ainda (Tehillim 16:11): “delícias há à tua mão direita para sempre”; e disse ainda (ali 49:20): “até a eternidade não verão a luz”. E, logo depois de ter dito (ali 102:28): “mas tu és o mesmo, e os teus anos não terão fim”, disse a seguir (ali 102:29): “os filhos dos teus servos habitarão, e a sua semente será estabelecida diante de ti”. E a Escritura determinou, com esta frase, que — assim como Ele, bendito seja, é permanente para sempre, sem cessação — assim também a permanência dos justos é perdurável, sem cessação.

אומר בשער מן הכתוב שהוא מתמיד לעד. תחלה אלה לחיי עולם ואלה לחרפות לדראון עולם (דניאל י"ב ב'), ואומר עוד (תהלים ט"ז י"א) נעימות בימינך נצח, ואמר עוד (שם מ"ט כ') עד נצח לא יראו אור. וכאשר אמר (שם ק"ב כ"ח) ואתה הוא ושנותיך לא יתמו, אמר אחריו (שם כ"ט בני עבדיך ישכונו וזרעם לפניך יכון. וחייב במאמר הזה, שכמו שהוא ית' קיים לעד לבלי הפסק, כן עמידת הצדיקים מתמדת בלי הפסק.
5

E, se objetar alguém e disser: “uma vez que admitiste a permanência dos criados com Ele no fim do tempo, sem fim futuro, admite-se igualmente que os criados tenham estado com Ele no início do tempo, sem fim (desde sempre)?” — eu esclareço a diferença que há entre as duas coisas. E digo que é absurdo que o criado tivesse estado perpetuamente com o seu Criador, sem começo, pois todo aquele que faz algo necessariamente existe antes da sua obra. Mas, uma vez que Ele o precede e o faz, então, em cada dia em que vemos, pelo nosso intelecto, que Ele pode mantê-lo na existência, vemo-Lo igualmente capaz de mantê-lo noutro dia; e, quando lhe promete fazê-lo, assim Ele o concede a esse criado a cada dia, e a cada momento — e o intelecto não rejeita disto coisa alguma, antes o admite como cabível.

ואם יטעון טוען ויאמר, כאשר הכשרת עמידת הברואים עמו באחרית הזמן באין תכלית, יכשר גם כן שיהיו הברואים עמו בתחלת הזמן באין תכלית? אני מבאר ההפרש אשר יש בין שני הדברים. ואומר, כי היא מן השוא שיהיה הנברא לא סר עם בוראו בלא תכלית, כי כל עושה בהכרח הדברים קודם למעשהו; אבל כשהוא מקדים ועושה אותו, בכל יום שאנחנו רואים אותו בשכלנו יכול לקיימו בו, נראה אותו גם כן יכול לקימו יום אחר; וכאשר יבטיחהו שיעשה לו, כן הוא מגיע לו כל יום ביום וכל עת בעת, לא ירחיק השכל מזה מאומה אבל מכשיר אותו.
Nota — eterno para a frente, não para trás Uma objeção filosófica fina: se a alma pode durar sem fim no futuro, por que não admitir que existisse sem começo no passado (eternidade do mundo)? Saadiá distingue com precisão. Um começo eterno é impossível: todo agente precede necessariamente a sua obra, logo o criado não pode ser tão antigo quanto o Criador. Mas um futuro sem fim é coerente: a cada instante D'us sustenta o que criou, e nada na razão impede que continue a fazê-lo para sempre. A imortalidade da alma não é, portanto, uma propriedade intrínseca dela — é uma dádiva renovada momento a momento. E aí está a diferença insuperável entre Criador e criatura: um basta-se a si; o outro “tem os olhos e a alma pendentes” do que Ele lhe renova.
6

E, se disser alguém: “que vantagem haverá, naquele tempo, para o Criador sobre o criado se ambos são eternos?” — diremos que esta afirmação não precisa de resposta. E como se poderia assemelhar o corpo e o espírito — que precisam de tempo e de lugar; que são o que goza, o que é comandado e o que é advertido; e que precisa de uma sustentação que o sustenha — Àquele que se elevou acima de todos estes assuntos e de tudo o que lhes é semelhante? Antes, o criado está diante d'Ele como quem tem os seus olhos e a sua alma pendentes daquilo que Ele lhe renova a cada instante, como se disse (ali 102:29): “e a sua semente será estabelecida diante de ti”.

ואם יאמר מה יתרון בעת ההיא לבורא על הנברא? נאמר, זה המאמר אין צריך תשובה. ואיך ידמה הגוף והרוח הצריך אל זמן ואל מקום, הנהנה, המצווה, והמוזהר, הצריך אל עמידה שיעמידהו, למי שהתעלה מכל הענינים האלה והדומה להם. אבל הוא לפניו כמי שעיניו ונפשו תלויות למה שיחדשהו לו, כמו שנאמר (שם) וזרעם לפניך יכון:

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O infinito como necessidade lógica

A quinta e a sexta perguntas — por que a Escritura insiste tanto, e por que o destino é eterno — recebem uma resposta de incentivo. Qualquer prêmio ou pena finitos deixariam sempre uma brecha: “se fosse mais, eu me esforçaria/temeria mais”. A razão concebe sempre uma medida maior. Só o infinito encerra toda objeção. A eternidade não é, aqui, ênfase poética, mas exigência da justiça do convite divino: oferecido tudo, ninguém pode dizer que faltou estímulo.

O nó do castigo sem fim

Saadiá não foge da objeção mais grave — pena eterna não seria crueldade? Responde com simetria (o temor há de ser o maior possível), veracidade (D'us não pode desdizer a Sua advertência) e até graça (a ameaça visa corrigir). E compara o tormento às coisas boas que se tornam danosas pelo mau uso — quem cai no poço por sair de noite. É a sua teodiceia racionalista; convém notar, com honestidade histórica, que parte da tradição judaica posterior preferiu ver a punição como limitada ou purificadora, não perpétua.

Imortalidade como dádiva, não posse

O fecho é filosoficamente belo. Por que a alma pode ser eterna para a frente, mas não para trás? Porque todo agente precede a sua obra — logo nenhum criado é tão antigo quanto o Criador —, mas nada impede que D'us o sustente para sempre. A imortalidade não é propriedade da alma: é dádiva renovada a cada instante. E nisso está a diferença que jamais se apaga entre o Criador e o imortal que Ele sustenta — um basta-se a si, o outro tem “os olhos e a alma pendentes” d'Ele.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IX (O mundo vindouro), cap. 7, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Daniel 12:2; Tehillim 16:11; 49:20; 102:28-29. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado IX · O mundo vindouro · cap. 8

Os Graus da Recompensa e do Castigo

מַעֲלוֹת בַּגְּמוּל וּבָעֹנֶשׁ — שֶׁבַע מַדְרֵגוֹת אוֹר וְשֶׁבַע מַדְרֵגוֹת אֵשׁ

Recompensa e castigo são eternos em duração, mas graduados conforme as obras. Saadiá descreve sete graus de luz para os justos — do raiar do sol à sua plena substância — e sete graus de fogo para os ímpios; e responde, por fim, quem merece estes tormentos: uma classe estreita de negadores, idólatras e grandes pecadores não arrependidos — enquanto as faltas leves são perdoadas e saldadas ainda neste mundo.

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Quanto à resposta da pergunta: se a sua recompensa e o seu castigo são iguais em natureza? Digo: assim como não se esgota a recompensa de mil méritos, também não se esgota a recompensa de um só mérito; e assim como a de mil culpas não se esgota o seu castigo, também a de uma só culpa não se esgota o seu castigo. Exceto que a recompensa e o castigo, ainda que sejam eternos tanto para uma só obra quanto para mil obras, a intensidade da situação de cada um será conforme a sua obra. E quem faz um mérito, ou dez, ou cem, ou mil, a sua situação na recompensa será conforme o que fez — exceto que ela é eterna. Como vemos neste mundo: há pessoas cujo máximo do seu bem é apenas o descanso; e pessoas que, com o descanso, comem e bebem; e outras que, com tudo isto, vestem as roupas formosas; e outras que, com tudo isto, têm grandes posições. Assim, no mundo vindouro, há pessoas de cujo êxito se diz “também a minha carne habitará em segurança” (Tehillim 16:9); e outras, “à sombra das tuas asas se refugiam” (ali 36:8); e outras, “saciar-se-ão da fartura da tua casa” (ali 36:9); e outras, “e vestir-te-ei de vestes festivas” (Zecharyá 3:4); e outras, “e dar-te-ei livre trânsito entre estes que aqui estão” (ali 3:7) — aludindo com isto aos anjos, dos quais se diz (Yeshayahu 6:2): “serafim de pé acima dele”.

אבל תשובת השאלה, אם גמולם וענשם שוים בענין? אומר, כמו שלא יכלה גמול אלף זכות, כן לא יכלה גמול זכות אחת, וכמו שאלף חובה לא יכלה ענשה, כן חובה אחת לא יכלה ענשה, אלא שהגמול והענש אעפ"י שהם לנצח למעשה אחד ולאלף מעשה, ענין כל אחד יהיה כפי מעשהו. ומי שעושה זכות אחת או עשר או מאה או אלף, יהיה ענינו בגמול כפי מה שעשה, אלא שהוא לנצח, כאשר אנו רואים בעולם הזה אנשים, תכלית טובתם המנוחה בלבד, ואנשים שהם עם המנוחה אוכלים ושותים, ואנשים אחרים, שהם עם כל זה לובשים הבגדים החמודות, ואחרים עם כל זה יש להם מעלות גדולות, כן בעולם הבא אנשים, נאמר בהצלחתם אף בשרי ישכון לבטח (תהלים י"ו ט'), ואחרים, בצל כנפיך יחסיון (שם ל"ו ח'), ואחרים, ירויון מדשן ביתך (שם ט'). ואחרים, והלבש אותך מחלצות (זכרי' ג' ד'). ואחרים, ונתתי לך מהלכים בין העומדים האלה (שם ז'), רמז בו אל המלאכים אשר נאמר (ישעי' ו' ב') שרפים עומדים ממעל לו.
Nota — eternos em duração, graduados em grau A resposta a uma das perguntas mais finas: recompensa e castigo são iguais em duração (ambos eternos, seja por uma obra ou por mil), mas desiguais em intensidade (cada um conforme o que fez). Saadiá ilustra com a vida presente: entre os bem-aventurados, uns têm só descanso, outros descanso e fartura, outros ainda honra e posição; e o mesmo, invertido, entre os punidos. A eternidade não nivela: o céu e o seu oposto têm patamares, e cada alma ocupa o seu, à altura exata dos seus atos.
2

E, do mesmo modo, quem comete uma transgressão, ou dez, ou cem, ou mil, a sua situação no castigo será conforme o que fez — exceto que ela é perpétua, para sempre. Como vemos neste mundo: há pessoas cujo castigo é serem postas sob guarda prisão; e outras que, além disso, são arrastadas com cordas; e outras que, com tudo isto, estão atadas e amarradas; e outras que, com tudo isto, estão presas em grilhões e correntes; e outras que, com tudo isto, são espancadas com aquilo que as faz doer. Assim, no mundo vindouro, há pessoas de cujos tormentos se diz “e serão ajuntados como se ajunta o prisioneiro numa cova, e serão encerrados num cárcere” (Yeshayahu 24:22); e outras, “as suas iniquidades o prenderão, ao ímpio, e pelas cordas do seu pecado ele será retido” (Mishlei 5:22); e outras, “e, se estiverem presos em grilhões” (Iyov 36:8); e outras, “e a tempestade que se desencadeia sobre a cabeça dos ímpios cairá” (Yirmeyahu 30:23).

וכן מי שעובר עבירה אחת או עשרה או מאה או אלף, יהיה ענינו בענש כפי מה שעשה, אלא שהוא מותמד לנצח, כאשר אנחנו רואים בעולם הזה אנשים שענשם שיושמו במשמר, ואחרים שגוררים עם זה בחבלים, ואחרים עם כל זה קשורים וכפותים, ואחרים עם כל זה אסורים בזיקים וכבלים, ואחרים עם כל זה מכים אותם במה שמכאיבם; כן בעולם הבא, אנשים שנאמר ביסוריהם, ואספו אספרה אסיר על בור וסגרו על מסגר (ישעיה כ "ד כ"ב), ואחרים, עונותיו ילכדונו את הרשע ובחבלי חטאתו יתמך (משלי ה' כ"ד) ואחרים, ואם אסורים בזיקים (איוב ל"ו ח'), ואחרים, וסער מתגורר על ראש רשעים יחול (ירמיהו ל׳:כ״ג כ"ג):
3

Mas a pergunta (a oitava): há, na situação dos justos, superioridade de um sobre o outro? E, do mesmo modo, na situação dos ímpios? A raiz da sua resposta já entrou no que precede neste tratado. Mas julgo bem enraizá-la a partir da raiz, a saber, que eles têm superioridade em sete ramos; e digo que, dentre o que demonstra que os justos têm graus na sua recompensa — sendo cada um superior ao outro —, vem primeiro o que a razão exige, e depois o que achámos nos livros: sete graus, um acima do outro. O primeiro: que alguns terão luz como o raiar da luz do sol, como disse a Escritura (Malachi 3:20): “e raiará para vós, os que temeis o meu Nome, o sol da justiça”; e alguns terão, com aquela doçura, os seus raios, como disse (ali): “e cura nas suas asas”; e a alguns a luz lhes perdurará como uma coisa plantada, como está escrito (Tehillim 97:11): “luz está semeada para o justo”; e a alguns a luz lhes aumentará, como está escrito (Mishlei 13:9): “a luz dos justos se alegra”; e alguns terão a sua luz como a luz da esfera celeste, como disse (Daniel 12:3): “e os sábios resplandecerão como o resplendor do firmamento”; e alguns terão a sua luz como a luz das estrelas, exceto a do sol, como disse deles (ali): “e os que justificam os muitos serão como as estrelas, para todo o sempre”; e alguns terão a sua luz igual à luz da própria substância do sol, e deles disse (Shoftim 5:31): “e os que o amam serão como o sair do sol na sua força”.

אבל השאלה (השמינית) היש בענין הצדיקים יתרון זה על זה? וכן בענין הרשעים, כבר נכנס שרש תשובתה במאמר הזה הקודם. אבל רואה אני להשריש משרש, אשר להם יתרון שבעה סעיפים ואומר, כי ממה שמורה שיש לצדיקים מעלות בגמולם, שכל אחת יתרה על חברתה, תחלה מה שמחייב אותו השכל, ואחר כן שמצאנו בספרים שבע מעלות זו למעלה מזו. הראשונה שקצתם יהיה לו אור כזריחת אור השמש, אמר בו (מלאכי ג' כ') וזרחה לכם יראי שמי שמש צדקה, וקצתם יהיה לו עם ערבות בניצוציה, כמו שאמר (שם) ומרפא בכנפיה, וקצת' יתקיים לו האור כדבר הנטוע, כמ"ש (תהלים צ"ז י"א) אור זרוע לצדיק, וקצתם יוסיף לו האור. כמ"ש (משלי י"ג ט') אור צדיקים ישמח, וקצתם יהיה אורו כאור הגלגל, אמר בו, (דניאל י"ב ג') והמשכילים יזהירו בזהר הרקיע, וקצתם יהיה אורו כאור הכוכבים, חוץ מן השמש, אמר בם (שם) ומצדיקי הרבים ככוכבים לעולם ועד, וקצתם יהיה אורו לו כאור עצם השמש, ובם אמר (שופטים ה' ל"א) ואהביו כצאת השמש בגבורתו.
Nota — os sete graus de luz dos justos Eis uma das passagens mais belas do tratado: uma escala luminosa de sete degraus para o galardão dos justos, toda lida em versículos. Do mais tênue ao mais intenso: (1) a luz do nascer do sol (Malachi 3:20); (2) com a doçura dos seus raios; (3) a luz que perdura, “semeada” (Tehillim 97:11); (4) a luz que cresce (Mishlei 13:9); (5) o brilho da esfera celeste (Daniel 12:3); (6) a luz das estrelas; (7) a própria substância do sol (Shoftim 5:31). E confirma a gradação com um caso histórico: o rosto de Moshé brilhava mais que o de Yehoshua, e o deste mais que o dos anciãos. A glória do além tem cores e intensidades — uma hierarquia de luz.
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E isto é como sabemos que Moshé, nosso mestre, a paz esteja com ele, tinha o rosto cheio de esplendor; e o rosto de Yehoshua era de esplendor menor do que o dele, porque a Escritura disse a respeito dele (Bemidbar 27:20): “e porás do teu esplendor sobre ele” — e não disse “todo o teu esplendor”; e o rosto dos setenta anciãos era menor do que o dele de Yehoshua, porquanto a Escritura disse (11:25): “e Ele reteve parte do espírito que estava sobre ele e o pôs sobre os setenta homens, os anciãos”. E, já que a finalidade de “do teu esplendor sobre ele” foi “para que ouça obedeça toda a congregação dos filhos de Israel” Bemidbar 27:20, os anciãos estão no conjunto do povo e, portanto, abaixo.

וכמו שידענו שמרע"ה היו פניו מלאים הוד, ופני יהושע פחות ממנו, מפני שאמר בו (במדבר כ"ז כ') ונתת מהודך עליו, ולא אמר כל הודך, ופני שבעים זקנים פחות מהם, בעבור שאמר (י"א כ"ה) ויאצל מן רוח אשר עליו ויתן על שבעים איש הזקנים, וכאשר תהיה עלת מהודך עלליו, למען ישמעו כל עדת בני ישראל, הזקנים בכלל העם.
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E quanto ao que demonstra que os castigados, também eles, têm graus de um sobre o outro: achámos nos livros, registrada para eles, a menção de sete graus na chama do fogo. Dentre eles, aquele a quem o fogo inflama o rosto, até que avermelhe — e a respeito de gente como eles disse (Yeshayahu 13:8): “rostos de chamas serão os seus rostos”; e dentre eles, aquele cujo rosto se enegrece como o negrume da panela — e a respeito de gente como eles disse (Yoel 2:6): “todos os rostos recolheram um tom de fuligem”; e dentre eles, aquele a quem o fogo chega como um assar e cozer — e a respeito deles diz (Malachi 3:19): “eis que vem o dia, ardendo como um forno”; e dentre eles, aquele a quem chega como a quem o fogo consome — e a respeito deles diz (Iyov 20:26): “consumi-lo-á um fogo não assoprado”; e dentre eles, aquele a quem chega como um fogo que consome a lenha — e a respeito deles diz (Yeshayahu 30:33): “a sua fogueira é fogo e lenha”; e dentre eles, aquele a quem chega como um fogo que consome o pó e as pedras — e a respeito de gente como eles diz (Devarim 32:22): “e consumiu a terra e o seu produto”; e dentre eles, aquele a quem chega como um fogo que consome até as profundezas da terra, como o fazem os terremotos — e a respeito deles diz (Iyov 31:12): “pois é um fogo que consome até o Abaddon”.

ומה שיורה על כי הענושים גם כן יש להם מעלות זה על זה, מצאנו בספרים להם זכרון שבע מעלות בלהב האש. מהם מי שהאש מלהבת פניו עד שיאדימו, ובכמוהם אמר (ישעי' י"ג ח') פני להבים פניהם; ומהם מי שישחירו פניו כשחרות הקדרה, ובכמוהם אמר, (יואל ב' ו') כל פנים קבצו פארור; ומהם מי שיגיעהו ממנו כמו צליה ובשול, ובהם הוא אומר, (מלאכי ג' י"ט) הנה היום בא בוער כתנור; ומהם מי שיגיעהו כמי שתאכלהו האש, ובהם הוא אומר (איוב כ' כ"ז) תאכלהו אש לא נפח; ומהם מי שיגיעהו כאש אוכלת בעצים, ובהם הוא אומר (ישעי' ל' ל"ג) מדורתה אש ועצים; ומהם מי שיגיעהו כאש אוכלת העפר והאבנים, ובכמוהם הוא אומר, (דברים ל"ב כ"ב) ותאכל ארץ ויבולה; ומהם מי שיגיעהו כאש אוכלת עד מעמקי ארץ, כמו שעושים הזועות, ובהם הוא אומר, (איוב ל"א י"ב) כי אש היא עד אבדון תאכל,
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Assim como sabemos que a praga do Egito foi geral, e contudo alcançava cada um conforme a sua medida, como disse (Tehillim 78:50): “Ele nivelou pesou uma vereda para a sua ira”. E o sentido de “yefalês” é “pesá-la-ia na balança”, como disse (Mishlei 16:11): “balança e pratos de juízo são do Senhor”.

כאשר ידענו כי מכת מצרים היתה כוללת ומגיע לכל אחד כפי מדתו, כמו שאמר (תהלים ע"ח נ') יפלה נתיב לאפו. ופרוש יפלס ישקלהו במשקל, כמו שאמר (משלי י"ו י"א) פלס ואזני משפט ליי. -
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Mas a resposta da pergunta (a nona): quem são os que são merecedores destes tormentos? Dizemos: os descrentes negadores, os associadores que associam outros a D'us e os portadores de transgressões graves que não fizeram teshuvá. Ora, os descrentes e os associadores são aqueles de quem a Escritura disse (Yeshayahu 66:24): “e sairão e olharão os cadáveres dos homens que se rebelaram contra mim”; e os portadores de transgressões graves são aqueles para os quais se escreveu a pena de karet extirpação ou as mortes decretadas por tribunal. Pois, quando estes forem extirpados deste mundo, também serão expelidos para a extirpação, no mundo vindouro, para fora do meio dos justos — porque não fizeram teshuvá. E, se D'us não o extirpar, mas se ele completar os seus dias, para que Ele lhe prolongue o prazo, e, com tudo isto, ele não fizer teshuvá, o seu castigo será mais duro, e a sua extirpação do meio dos justos será mais merecida — porque Ele lhe prolongou o tempo e ele não retornou. E, se não houver nele, de tudo o que relatámos, coisa alguma, aquilo que tiver além disso são pecados leves, e lhe serão perdoados.

אבל תשובת השאלה (התשיעית) מי אשר ם ראויים ליסורים האלה? נאמר, הכופרים והמשתפים ובעלי העברות החמורות אר לא עשו תשובה. אך הכופרים והמשתפים הוא אשר אמר בהם (ישעיהו ס״ו:כ״ד כ"ד) ויצאו וראו בפגרי האנשים הפושעים בי ובעלי העברות החמורות, הם אשר נכתב בהם כרת או מיתות בית דין. כי כאשר יכרתו מהעולם הזה, יוציאו' אל הכרת בעולם הבא מבין הצדיקים גם כן, מפני שלא עשו תשובה. ואם לא יכריתנו, אבל השלים ימיו כדי שיאריך לו, ועם כל זה לא עשה תשובה, יהיה ענשו יותר קשה, והכרתו מבין הצדיקים יותר ראוי, מפני שהאריך לו ולא שב. ואם לא יהיה מכל אשר ספרנו מאומה, מה שהוא זולתם הם קלות ויכופרו לו. -
Nota — quem, afinal, é punido para sempre Capítulo decisivo, e mais misericordioso do que parece. Saadiá restringe o castigo eterno a uma classe estreita: os que negam D'us, os que Lhe associam outros idólatras e os culpados de transgressões graves (as que a Torá pune com karet ou pena capital) — e, mesmo esses, apenas se não fizeram teshuvá. Quem tem apenas faltas leves não entra ali: “são leves, e ser-lhe-ão perdoadas”. E como, sem arrependimento? Porque quem só tem faltas leves guardou o essencial — creu, não idolatrou, não matou, não roubou, viveu com justiça —, e essas poucas faltas são saldadas ainda neste mundo, de modo que “sai limpo” (cf. o quinto tratado). A condenação perpétua é, para Saadiá, exceção rara, não a regra.
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E, se disser alguém: “por meio de quê lhe serão perdoados esses pecados leves sem teshuvá?” — dizemos: não antepusemos já a afirmação de que tais pessoas não têm senão pecados leves? E dissemos que isto implica que elas já se guardaram dos pecados graves — e que não se guardaram deles senão por terem cumprido o que está em oposição a eles: não negaram, mas creram; não associaram, mas unificaram a D'us; não mataram, nem furtaram, nem adulteraram, mas agiram com justiça e com retidão. E aquele que está no caminho em que a maioria das suas obras são méritos, e aquelas poucas transgressões estão em contrapeso a eles, Ele lhe paga por elas neste mundo, e ele sai limpo, conforme expliquei no quinto tratado.

ואם יאמר אומר באי זה דבר יכופרו לו מבלי תשובה? נאמר, הלא הקדמנו המאמר שאין להם כי אם קלות, ואמרנו שזה מחייב שכבר נזהרו מן החמורות, ולא נזהרו מהם עד שקיימו שבנגדם, ולא כפרו אבל האמינו, ולא שתפו אבל יחדו, ולא רצחו ולא גנבו ולא נאפו, אבל עשו בצדק ובמשפט. ומי שהוא על הדרך רוב מעשיו זכיות, והעבירות המעטות ההם כנגד אל, ישלמו לו עליהם בעולם הזה ויצא נקי, כאשר בארתי במאמר החמשי:

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A eternidade tem patamares

A intuição central é uma distinção entre duração e grau: tanto o galardão de uma única boa ação quanto o de mil são eternos, mas a sua intensidade varia com o que cada um fez. Como nesta vida há quem só tenha repouso e quem tenha repouso, fartura, vestes e honra, assim no além — e o mesmo, invertido, para a pena. A justiça divina não achata as diferenças: cada alma ocupa o degrau exato dos seus atos.

Sete luzes, sete fogos

Saadiá lê na Escritura duas escalas de sete. A dos justos é uma progressão de luz — do nascer do sol às estrelas e à própria substância solar (Malachi 3, Daniel 12, Juízes 5) —, confirmada pela história: o rosto de Moshé brilhava mais que o de Yehoshua, e o deste mais que o dos anciãos. A dos ímpios é uma progressão de fogo, do rubor do rosto à chama que devora até as profundezas. Mesmo a praga do Egito, geral, “pesava na balança” a medida de cada um — pois “balança e pratos de juízo são do Senhor”.

Quem é, de fato, condenado para sempre

O fecho é mais clemente do que a fama do “inferno” sugere. A punição eterna fica reservada a uma classe estreita: negadores, idólatras e culpados de faltas graves (puníveis com karet ou morte) que não se arrependeram. Quem só tem faltas leves não entra ali — porque já guardou o essencial (creu, não idolatrou, não matou, não roubou, viveu com justiça), e essas poucas faltas são saldadas ainda neste mundo, de modo que “sai limpo”. Para Saadiá, a condenação perpétua é exceção rara, não destino comum.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IX (O mundo vindouro), cap. 8, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Tehillim 16:9; 36:8-9; 97:11; 78:50; Zecharyá 3:4,7; Yeshayahu 6:2; 24:22; 13:8; 30:33; 66:24; Mishlei 5:22; 13:9; 16:11; Iyov 36:8; 20:26; 31:12; Yirmeyahu 30:23; Malachi 3:19-20; Daniel 12:3; Shoftim 5:31; Yoel 2:6; Devarim 32:22; Bemidbar 27:20; 11:25. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado IX · O mundo vindouro · cap. 9

Recompensados e Castigados — Encontram-se?

הֲיִפָּגְשׁוּ זֶה אֶת זֶה — רְאִיָּה בִּלְבַד וְקֻרְבַת מַעֲלָה

A décima pergunta da série: os habitantes do galardão e os do castigo encontram-se? Saadiá responde que se veem “pela visão apenas” — os justos rendem graças por terem escapado, os ímpios gemem pela recompensa perdida (a imagem do banquete e da fome). E, dentro de cada grupo, o encontro depende da proximidade de grau.

1

Mas a pergunta (a décima): reúnem-se uns aos outros (encontram-se)? Digo, conforme observei e achei, que os justos e os ímpios veem uns aos outros, mas pela mera visão apenas — como a Escritura disse acerca dos justos (Yeshayahu, ali 66:24): “e sairão e virão a ver os cadáveres dos homens que se rebelaram contra mim”. E, à medida que se lhes torna claro o tormento dos ímpios, dirão: “louvado seja Aquele que nos livrou destes tormentos”, e se alegrarão e se regozijarão na sua própria condição. E como a Escritura disse acerca dos ímpios (ali 33:14): “temeram em Tzión os pecadores, um tremor se apoderou dos hipócritas” — eles se assombram com os justos, de como passam pelo fogo ardente e este não os prejudica, e gemem por aquilo que perderam da recompensa.

אבל השאלה (העשירית) היא היתקבץ קצתם על קצתם? אומר, כפי אשר הסתכלתי ומצאתי, כי הצדיקים והרשעים רואים קצתם את קצתם בראות בלבד, כמו שאמר בצדיקים (ישעיה שם) ויצאו ובאו בפגרי האנשים הפושעים בי. וכל אשר יתברר להם יסורם, יאמרו ישתבח מי שהצילנו מן היסורין האלה, וישמחו ויגילו בענינם. וכמו שאמר על הרשעים (שם ל"ג י"ד) פחדו בציון חטאים אחזה רעדה חנפים, יתמהו על הצדיקים איך יעברו על האש היוקדת ולא תזיקם, ויאנחו על מה שאבד מהם מהגמול.
Nota — ver, sem se misturar A décima e última pergunta da série: os habitantes do galardão e os do castigo encontram-se? A resposta de Saadiá é matizada — veem-se “pela mera visão apenas”, não convivem. E essa visão tem função moral: os justos, ao contemplarem o tormento de que escaparam, rendem graças — “louvado seja Aquele que nos livrou” — e a sua felicidade aprofunda-se; os ímpios, ao verem os justos atravessarem o fogo ilesos (Yeshayahu 33:14), assombram-se e “gemem por aquilo que perderam”. O contraste não é vingança, mas a percepção lúcida, de parte a parte, do valor das escolhas feitas.
2

E a Escritura comparou-os ali a duas categorias de pessoas: umas que foram chamadas a comer num banquete, e outras que foram destinadas aos tormentos — e estas veem aquelas e gemem; é o seu dizer (ali 65:13): “portanto, assim disse o Senhor: eis que os meus servos comerão, mas vós tereis fome” etc.

וכאשר דמה אותם שמה כאנשים, נקראו לאכול לסעודה, ואחרים שזמנו ליסורים, והם רואים אותם ונאנחים, הוא אמרו (שם ס"ה י"ג) לכן כה אמר יי' הנה עבדי יאכלו ואתם תרעבו וגו'.
3

Mas os justos entre si: aquele cujo grau é próximo do grau de outro há de encontrá-lo; e, se o grau for distante, não o encontrará. E subiu ao meu pensamento a ideia de que os castigados — quaisquer dois deles cujos graus sejam próximos um do outro — também não se encontram, porque os tormentos se interpõem entre eles, e a sua preocupação com eles os impede.

אבל הצדיקים קצתם עם קצתם, מי שמעלתו מהם קרובה למעלת אחר יפגענו, ואם תהיה רחוקה לא יפגענו. ועלה בדעתי, הענושים כל שנים מהם שתהיה מעלותם קרובות זו לזו אינם נפגשים, מפני שהיסורים פוסקין ביניהם וטרדתם בהם:
Nota — a geometria dos encontros, e a cautela do autor Dentro de cada grupo, o encontro depende da proximidade de grau: dois justos de níveis vizinhos convivem; se os níveis distam muito, não. É a contrapartida social da escala de sete degraus do capítulo anterior — a hierarquia luminosa traduz-se em quem está perto de quem. Quanto aos punidos, Saadiá conjetura (note-se a fórmula honesta “subiu ao meu pensamento”) que nem os de graus próximos se encontram, pois o próprio tormento e a aflição os isolam. O detalhe é menos importante que o método: mesmo ao descrever o além, o autor distingue o que afirma com certeza do que apenas lhe parece provável.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Uma visão que ensina

Encerrando as dez perguntas, Saadiá trata do “encontro” entre os dois destinos. Não há convívio — há visão, e essa visão tem peso moral. Os justos, ao verem o tormento de que se livraram, agradecem e a sua alegria cresce; os ímpios, ao verem os justos passarem ilesos pelo fogo, assombram-se e lamentam o que perderam. A imagem do banquete e da fome (Yeshayahu 65:13) condensa tudo: “os meus servos comerão, mas vós tereis fome”. O contraste é pedagógico, não cruel — cada lado enxerga, afinal, o sentido do que escolheu.

Perto convive com perto

Dentro de cada grupo vale uma “geometria” dos graus: justos de níveis próximos convivem; muito distantes, não — a contrapartida social da escala de sete degraus. Quanto aos punidos, Saadiá apenas conjetura que nem os próximos se encontram, isolados pelo próprio sofrimento. Vale notar a honestidade da fórmula “subiu ao meu pensamento”: mesmo ao descrever o mundo vindouro, o autor separa o que demonstra do que lhe parece apenas plausível — fiel, até o fim, ao seu método.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IX (O mundo vindouro), cap. 9, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Yeshayahu 66:24; 33:14; 65:13. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado IX · O mundo vindouro · cap. 10

Há Serviço a D'us no Mundo Vindouro?

עֲבוֹדַת הָאֵל בָּעוֹלָם הַבָּא — שִׂכְלִית וּשְׁמָעִית

O galardão não é ócio: Saadiá afirma que também no mundo vindouro há serviço a D'us. Distingue obrigações racionais (crer na Sua divindade, não O blasfemar) de um serviço revelado — a reunião periódica que é o “Shabat e a Lua Nova” do além (Isaías 66:23) —, lembra que “os sábios não têm descanso” nem lá, e ancora a recompensa do serviço no livre-arbítrio que D'us previu.

1

Mas a pergunta: tem D'us algum serviço a exigir sobre eles no mundo vindouro? Digo que sim — pois não é cabível que Ele proceda, nesta matéria, a ponto de deixar um intelecto perfeito sem um comando e uma advertência; e, se fosse correto fazê-lo (deixá-los sem serviço) no mundo vindouro, Ele o faria já neste mundo. Antes, Ele tem sobre eles, como obrigação, o que creiam na Sua divindade, e o que não O amaldiçoem, e o que não relatem sobre Ele os atributos vis, e o que é semelhante a isto. Estas obrigações são da via das coisas puramente racionais, e isto é coisa de que não se pode prescindir.

אבל השאלה היש לאלהים עליהם עבודה? אומר כן, שלא יתכן שיעשה בדבר הזה שיעזוב שכל שלם בלי צוי והזהרה, ואלו היה נכון לעשותו בעולם הבא היה עושהו בעולם הזה, אך יש לו בו חבה עליהם שיאמינו באלהותו, ושלא יקללוהו, ולא יספרו עליו המדות המגונות, ומה שדומה לזה. אלו מדרך השכליות הגמורים, וזה דבר שאי אפשר זולתה,
Nota — o paraíso não é ócio: também ali há serviço a D'us Resposta a uma pergunta surpreendente: haverá serviço (avodá) a D'us no mundo vindouro? Saadiá responde que sim, com um argumento elegante: seria impróprio deixar “um intelecto perfeito sem comando e advertência” — pois, se a ausência de obrigação fosse boa, já o seria nesta vida. O galardão não é, portanto, repouso ocioso: persistem obrigações racionais (crer na divindade de D'us, não O blasfemar, não Lhe atribuir nada indigno). A felicidade última é uma relação continuada com D'us, não a mera cessação de deveres.
2

E os livros da Escritura mencionaram ainda outro serviço, este revelado (não deduzível pela razão): que D'us lhes designará um lugar a partir da sua terra, e os obrigará a vir a ele a cada vez — e ele será para eles como o dia de Shabat e a Lua Nova Rosh Chódesh são para nós agora —, e ali O servirão com aquilo que Ele lhes ordenar, de sorte que não os deixe sem serviço, como está escrito (ali 66:23): “e será que, de mês em mês, e de sábado em sábado, virá toda carne a prostrar-se diante de mim, disse o Senhor”. E, quando concluírem, sairão e verão os castigados, como está escrito (ali 66:24): “e sairão e verão os cadáveres dos homens” — porquanto a Escritura disse “virá toda carne”. E disseram os nossos antigos que os justos não permanecem sem serviço no mundo vindouro, assim como não estão sem ele neste mundo; disseram: “os discípulos dos sábios não têm descanso, nem neste mundo nem no mundo vindouro”.

וזכרו הספרים עבודה אחרת שמעית, והוא שיכוין להם מקום מארצם, יחייבם בו שיבואו אליו בכל פעם, הוא להם כיום השבת וראש חדש אצלנו עתה, ויעבדוהו שם במה שיצוה אותם, עד שלא יעזבם בלי עבודה כמ"ש (שם ס"ו כ"ג) והיה מדי חדש בחדשו ומדי שבת בשבתו יבא כל בשר להשתחות לפני אמר יי'; וכאשר ישלימו, יצאו ויראו הענושים, כמ"ש (שם כ"ד) ויצאו וראו בפגרי האנשים, מפני שאמר יבא כל בשר. ואמרו קדמוננו שהצדיקים אין עומדים בלי עבודה בעולם הבא, כאשר הם בעולם הזה, אמרו, תלמידי חכמים אין להם מנוחה לא בעולם הזה ולא בעולם הבא.
Nota — o “Shabat e Rosh Chódesh” do mundo vindouro Ao lado das obrigações racionais, há um serviço revelado: um lugar de reunião ao qual os justos comparecerão periodicamente — assim como hoje guardamos o Shabat e a Lua Nova —, ali servindo a D'us conforme Ele ordene (Yeshayahu 66:23, “de mês em mês, de sábado em sábado, virá toda carne a prostrar-se”). Saadiá enxerta nisso o dito rabínico “os discípulos dos sábios não têm descanso, nem neste mundo nem no vindouro” (Berachot 64a): longe de fim do esforço, o além é ascensão sem fim. E, ao sair desse comparecimento, os justos “veem” o estado dos punidos — pois o versículo diz “toda carne”.
3

Mas os castigados — não é cabível que sejam comandados em algum serviço, por causa dos tormentos, e porque tal serviço os afastaria (desviaria) do seu estado contínuo de sofrimento, conforme antepusemos.

אבל הענושים לא יתכן שיצוו בעבודה בעבור היסורין ובעבור שהיתה מעתיקה אותם מענינם המתמיד כאשר הקדמנו.
4

Mas a resposta das duas últimas perguntas — uma delas, a saber: se Ele os destinou ao serviço, qual será a sua recompensa? e a outra: se eles não servirem, qual será o seu estado? — já as respondi no fim do oitavo tratado; e disse que Ele não lhes tornou aprazível a recompensa eterna senão porque sabia que eles escolheriam o Seu serviço, e não a Sua rebeldia; e que, quando a escolherem, Ele lhes acrescentará no excedente do bem, conforme explicámos. E, já que estas duas saíram resolvidas, com a primeira cuja explicação precedeu, restaram dez apenas.

אבל תשובת השתי שאלות האחרונות, אשר אחת מהנה אם יעדו מה יהיה גמולם? והאחרת, אם הם לא יעבדו, מה יהיה מענינם? כבר השיבותי עליהם בסוף המאמר השמיני, ואמרתי שלא ערב להם הגמול הנצחי, כי אם בעבור שידע שהם יבחרו בעבודתו ולא בהמרותו, וכי כאשר יבחרו בה, יוסיף להם ביתרון הטובה כאשר בארנו. וכיון שיצאו שתי אלה עם הראשונה אשר קדם באורה, נשארו עשר בלבד:
Nota — a recompensa é dada porque a escolha foi prevista As duas últimas das dez perguntas — qual o galardão do serviço, e o que sucede a quem não serve — Saadiá remete ao fim do oitavo tratado, reafirmando o eixo de toda a obra: D'us concede a recompensa eterna porque previu que os justos escolheriam servi-Lo livremente, e a essa escolha acrescenta “o excedente do bem”. Mesmo na glória, o galardão repousa sobre o livre-arbítrio. (A frase final — “restaram dez apenas” — fecha de modo enigmático a contagem das questões; o texto recebido é, aqui, lacônico.)

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Servir, mesmo na glória

Contra a imagem de um paraíso de puro repouso, Saadiá sustenta que o intelecto perfeito não pode ficar “sem comando e advertência” — pois, se a ausência de dever fosse o ideal, já valeria nesta vida. Persistem, no além, obrigações racionais: crer em D'us, não O blasfemar, não Lhe atribuir nada indigno. A bem-aventurança é uma relação viva e ativa com o Criador, não a suspensão de toda tarefa.

O comparecimento e o descanso que não há

A esse mínimo racional soma-se um serviço revelado: um lugar de reunião a que os justos acorrem periodicamente — o “Shabat e Rosh Chódesh” do mundo vindouro (Yeshayahu 66:23) —, e o dito rabínico de que “os discípulos dos sábios não têm descanso, nem neste mundo nem no vindouro” (Berachot 64a): o além é ascensão sem termo. Aos punidos, ao contrário, não se impõe serviço — o próprio tormento os absorve por inteiro.

Galardão sobre a escolha prevista

As duas perguntas finais — a recompensa de quem serve e a sorte de quem não serve — Saadiá já as resolvera no oitavo tratado: a recompensa eterna foi concedida porque D'us previu que os justos escolheriam servi-Lo, e a essa escolha acrescenta “o excedente do bem”. Até no cume, o livre-arbítrio é a chave. Assim se fecham as dez questões que estruturaram o tratado — restando ao autor apenas o arremate.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IX (O mundo vindouro), cap. 10, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Yeshayahu 66:23; 66:24; cf. Berachot 64a; e o fim do Tratado VIII. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado IX · O mundo vindouro · cap. 11 · conclusão

O Segredo do Galardão e o Dever de Ensinar

חֲתִימַת הַמַּאֲמָר — סוֹד הַגְּמוּל, נְבוּאָה לַכֹּל וְחוֹבַת הַלִּמּוּד

O capítulo que encerra o Tratado IX explica por que a recompensa exata de cada mandamento fica oculta — entre outras razões, para que não sirvamos a D'us por cálculo —, espera a sua revelação no porvir, anuncia a profecia universal de Yoel (“sobre toda carne”) e termina convocando os sábios a ensinar os outros — ponte natural para o Tratado X, sobre a conduta moral.

1

E convém que eu acrescente a este tratado o que agora digo. Mas o assunto da recompensa por cada mandamento, preceito religioso e esforço — qual é exatamente? E, do mesmo modo, o assunto do castigo por cada mandamento, preceito e esforço? — pois isto não foi transmitido neste mundo em detalhe, por vários aspectos de sabedoria. Um deles: que a raiz do mérito ou da falta, aquilo em que se baseiam a recompensa e o castigo, nós não a vimos plenamente, mas ela chegou-nos por via de aproximação e de compreensão; e como poderíamos apreender os seus ramos, que são ainda mais sutis? E ainda: para que as palavras não se alonguem, nem os discursos se alarguem, nem o trabalho se multiplique. E ainda: para que não escolhêssemos apenas aquilo que mais nos agrada dentre os serviços, caso soubéssemos a recompensa de cada um deles. E ainda: porque a grande preocupação dos nossos corações é a coisa que nos está próxima no seu mandamento — a saber, o assunto da salvação a redenção; e por isso os livros se estenderam nela e a esclareceram.

וראוי שאחבר אל המאמר הזה מה שאומר. אבל ענין הגמול על כל מצוה ודת והשתדלות מה הוא? וכן ענין הענש על כל מצוה ודת והשתדלות; - כי לא עבר זה בעלם הזה, לכמה פנים מן החכמה. אחד מהם כי שרש העון אשר בו הגמול והענש לא ראינוהו, אבל הגיענו בדרך הקירוב וההבנה, ואיך נעמוד על סעיפיהם אשר הם יותר דקים? ועוד שלא יארכו הדברים וירחבו המאמרים וירבה הטרח; ועוד שלא נבחר מה שנרצה מן העבודות, כשנדע גמול כל אחד מהם; ועוד כי הטרדה הגדולה בלבותינו, הוא הדבר הקרוב אלינו בצווי לאמר ענין הישועה, ועל כן הרחיבו בו הספרים ובארו.
Nota — por que não sabemos o “preço” de cada mandamento Saadiá fecha o tratado com uma pergunta delicada: por que a Escritura não nos diz a recompensa exata de cada mandamento? Entre as razões, uma é moralmente profunda: se soubéssemos o galardão preciso de cada preceito, escolheríamos só os mais “rentáveis” — e o serviço deixaria de ser puro. O desconhecimento protege a integridade da intenção (o que a tradição chama servir lishmá, por amor e não por cálculo). Soma-se a isso que a raiz última do mérito nos escapa, e que a Escritura preferiu detalhar o que nos é mais urgente — a redenção.
2

Mas eu espero que nos sejam explicados — tanto o dia da recompensa por cada serviço quanto as regras das vias do castigo por cada transgressão — no tempo da salvação, quando este assunto se revelar, e os corações se voltarem a buscar a sabedoria, e as naturezas se purificarem para receber o entendimento; pois a sabedoria está próxima e disposta a sair adiante, para o mundo vindouro.

אבל אני מקוה שיפורשו לנו מיום הגמול לכל עבודה, ומדיני דרכי הענש על כל עבירה בזמן הישועה בשיגלה הענין הזה, ויפנו הלבבות לבקש חכמה, ויזדככו הטבעים לקבל התבונה, כי קרובה היא ומזומנת לצאת אל העולם הבא.
3

E digo que, por isso, a Escritura disse que a profecia naquele tempo abrangerá a todos, no seu dizer (Yoel 3:1): “e será que, depois disto, derramarei o meu espírito sobre toda carne”; pois os profetas não profetizam senão sobre aquilo que já existe, e aquilo que estará por vir naquele tempo é a recompensa do mundo vindouro e o seu castigo. E, quando Ele lhes der a conhecer isto, dar-lhes-á sobre ele sinais e prodígios, como está escrito a seguir (ali 3:3): “e darei prodígios nos céus e na terra”. E depois disse, a seguir, que estas coisas se darão antes da ressurreição dos mortos, quando disse (ali 3:4): “o sol se converterá em treva, e a lua em sangue”.

ואומר שעל כן אמר שהנבואה תהיה כוללת הכל, באמרו (יואל ג׳:א׳ א') והיה אחרי כן אשפוך רוחי על כל בשר, כי לא יתנבאו כי אם במה שהוא, ואשר יהיה עתיד בעת ההיא, הוא גמול העולם הבא וענשו. וכאשר יודיעם זה, יתן להם עליו אותות ומופתים, כמ"ש אחריו (שם ג') ונתתי מופתים בשמים ובארץ. ואחר כן אמר אחריו, כי הדברים האלה יהיו קודם תחיית המתים, כשאמר (שם ד') השמש יהפך לחשך והירח לדם,
Nota — quando a profecia for de todos Ao explicar por que estes detalhes só se revelarão no porvir, Saadiá invoca a grande promessa de Yoel: “derramarei o meu espírito sobre toda carne” (Yoel 3:1) — a democratização da profecia, quando o conhecimento do mundo vindouro, hoje velado, se abrirá a todos, com sinais nos céus e na terra (3:3), antes da ressurreição (3:4, “o sol em treva, a lua em sangue”). Como nos capítulos messiânicos do Tratado VIII, convém ler estas imagens como o quadro escatológico tradicional; o ponto de Saadiá é menos a cronologia do que a confiança de que o que agora se conhece “por aproximação” será, então, plenamente entendido.
4

E quem souber dar sabedoria à sua própria alma (aprimorar-se) será dos “sábios” (maskilim); e quem corrige os homens para o serviço de D'us e os ensina aquilo pelo qual eles hão de chegar a ele ao serviço será dos “que justificam os muitos” (matzdikei harabim), como está escrito (Daniel 12:3): “e os sábios resplandecerão como o resplendor do firmamento, e os que justificam os muitos serão como as estrelas, para todo o sempre”. E por causa disto, todo sábio é instado a exercer a solicitude pelos outros, e a ensinar os homens, e a ensinar-lhes as vias retas.

ומי שהשכיל לנפשו יהיה מן המשכילים ומי שמתקן בני אדם לעבודת אלהים וילמדם מה שיגיעו בו אליה, יהיה ממצדיקי הרבים, כמ"ש (דניאל י"ב ג') והמשכילים יזהירו כזהר הרקיע ומצדיקי הרבים ככוכבים לעולם ועד. ובעבור זה יצוה כל חכם על ההשגחה ובלמוד בני אדם והישרים:
Nota — o fecho ético: ensinar é brilhar como as estrelas O Tratado IX encerra não em contemplação solitária, mas em responsabilidade pelo outro. Lendo Daniel 12:3, Saadiá distingue dois tipos de excelência: o maskil, que aprimora a própria alma, e o matzdik harabim, que “corrige os homens para o serviço de D'us e os ensina” — e a este a Escritura reserva o brilho das estrelas “para todo o sempre”. Daí a conclusão: “todo sábio é instado a cuidar dos outros e a ensinar”. É a ponte perfeita para o Tratado X, sobre a conduta moral: o saber sobre o além desemboca num dever de elevar o próximo aqui.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O ocultamento que purifica

Por que a Torá não tarifa cada mandamento com a sua recompensa precisa? Saadiá dá razões de prudência (não alongar o discurso, focar no que é urgente) e uma de fundo moral, notável: saber o “preço” de cada preceito nos faria escolher só os mais vantajosos, corrompendo a intenção. O véu protege o serviço desinteressado. Some-se a isso que a própria raiz do mérito nos chega só “por aproximação” — quanto mais os seus ramos finos.

Saber adiado, prometido a todos

O que hoje se ignora será revelado quando “os corações se voltarem a buscar sabedoria”. E Saadiá ancora essa esperança na promessa de Yoel — a profecia derramada “sobre toda carne” (Yoel 3:1), com sinais cósmicos antes da ressurreição. Como nas seções messiânicas anteriores, o essencial não é a cronologia, mas a confiança de que o conhecimento parcial de agora há de tornar-se pleno.

Da contemplação à responsabilidade

O tratado sobre o destino último não termina no indivíduo, mas no próximo. Daniel 12:3 distingue o que aperfeiçoa a própria alma (maskil) do que conduz e ensina os outros ao serviço de D'us (matzdik harabim) — e a este promete o brilho perpétuo das estrelas. “Todo sábio é instado a cuidar dos demais e a ensinar.” É o arremate ideal: o saber sobre o mundo vindouro converte-se em dever de elevar o outro neste — exatamente o tema do Tratado X, que vem a seguir.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado IX (O mundo vindouro), cap. 11 e conclusão, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Yoel 3:1; 3:3; 3:4; Daniel 12:3. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · Introdução

Introdução ao Tratado da Conduta — o Um e os Muitos

פְּתִיחַת מַאֲמַר הַמִּדּוֹת — הַבּוֹרֵא אֶחָד וּמַעֲשָׂיו רַבִּים

Abre-se o décimo e último tratado, sobre a conduta moral. Saadiá começa por um princípio: porque o Criador é Um, as suas obras são muitas — e tudo o que parece “um”, sob exame, revela-se múltiplo. A diversidade é a assinatura da sabedoria divina; e é também o alicerce da ética que virá — a do equilíbrio entre as muitas forças da alma.

1

Disse Yehudá ben Shaul (o tradutor): disse o autor. Como introdução a este tratado — assunto sobre o qual muitos homens falaram, e foram poucos os que nele chegaram ao conselho louvável —, digo, na abertura das minhas palavras, que o Criador de tudo, exaltado seja, por ser Ele Um na Sua essência, fez com que necessariamente os criados fossem muitos, conforme expliquei antes.

אמר יהודה בן שאול. אמר המחבר, הקדמת המאמר הזה אשר דברו בו אנשים רבים, ומעט מי שהגיע בו אל העצה המשובחת, אומר בפתח דברי כי בורא הכל ית', מפני שהיה אחד בעצמו, התחייב שיהיו הברואי' רבים כאשר בארתי.
Nota — abre o Tratado X: a conduta moral, e o princípio do Um e dos muitos Começa o décimo e último tratado, sobre a conduta moral — assunto, observa Saadiá, sobre o qual “muitos falaram, mas poucos chegaram ao conselho louvável”. A sua abertura é, à primeira vista, metafísica: porque o Criador é Um na essência, a criação é necessariamente múltipla. Não é digressão: é o alicerce da ética que virá. Assim como o mundo é feito de muitas forças que se equilibram, também a alma humana reúne muitas inclinações — e a vida boa, defenderá Saadiá, não está em exaltar uma só, mas em harmonizá-las (a doutrina do justo meio).
2

E digo aqui que o “um” que se vê — qualquer “um” que seja — não é um senão por via do número; mas, quando o examinador o examina por via da análise rigorosa, acha-o composto de muitos elementos. E algo ainda mais simples (evidente) do que esta regra: é que, em todos os existentes, quando se examina cada corpo dentre eles, acha-se nele calor, frio, umidade e secura; e, quando se examina o corpo da árvore, acham-se nele, com isto, ramos, folhas, fruto e o que se associa a isto; e, quando se examina o corpo do homem, acham-se nele, com tudo isto, carne, ossos, tendões, veias, ligamentos e o que se associa a isto. E isto é coisa cujo conhecimento está fora de dúvida, e que não se pode rejeitar na sua existência.

ואומר הנה כי האחד הנראה, אי זה אחד שיהיה, איננו אחד כי אם בדרך המספר, אבל כאשר יבחנהו הבוחן על דרך הדקדוק, ימצאנו ענינים רבים. ויותר פשוט מהכלל הזה, שהנמצאות כלן כשיבחן כל גוף מהם, ימצא בו חום וקור ולחות ויובש, וכאשר יבחן גוף האילן, ימצא בו עם זה סעיפים ועלים ופרי ומה שנלוה אל זה, וכאשר יבחן גוף האדם, ימצא בו עמהם בשר ועצמו' וגידים ועורקים ומיתרים ומה שנלו' אל זה; וזה מה שאין ספק בידיעתו, ולא נדחה במציאתו.
3

E, já que está nas leis da criação que o Criador é um e as suas obras são muitas — e como disseram os livros (Tehillim 104:24): “quão numerosas são as tuas obras, ó Senhor; todas as fizeste com sabedoria” etc. —, até os céus têm neles partes diferentes umas das outras, e medidas, e formas, e cores, e movimentos tantos que não os poderíamos enumerar. E assim são eles, como disse (Iyov 9:9): “Aquele que faz a Ursa, Órion, as Plêiades e as câmaras do sul”.

אבל אם היה בחקי הבריא' כי הבורא אחד ומעשיו רבים, וכמו שאמרו הספרים מה רבו מעשיך יי' כלם בחכמה עשית וגו' (תהלים ק"ד כ"ד), אפי' השמם יש בהם מן החלקים השונים זה מזה, והשיעורים והצורות והמראים והתנועות מה של נוכל לספור. וכן הם כמו שאמר (איוב ט' ט') עושה עש כסיל וכימה וחדרי תימן:
Nota — a multiplicidade como assinatura da sabedoria O que parece “um” é, sob exame, muitos: todo corpo tem calor, frio, umidade e secura; a árvore tem ramos, folhas e fruto; o homem, carne, ossos, tendões e veias. E até os céus encerram partes, medidas, formas e movimentos “que não poderíamos enumerar” (Tehillim 104:24; Iyov 9:9). Para Saadiá, essa diversidade não é defeito, mas a marca da sabedoria do Criador Um. Daí a lição moral implícita em toda a treatise: a riqueza do humano está nas suas muitas tendências — e a virtude consiste em compô-las com medida, não em suprimir todas menos uma.

Sobre esta introdução · עִיּוּן

Por que começar pela metafísica

O tema do tratado é prático — como viver bem —, mas Saadiá ancora-o num princípio cosmológico: a unidade de D'us implica a multiplicidade do criado. Não é rodeio erudito. Se cada existente é, na verdade, um feixe de qualidades (calor e frio, ramos e folhas, ossos e veias), então também a alma humana é um feixe de inclinações. A ética não poderá, portanto, consistir em obedecer a um único impulso, mas em ordenar os muitos.

A diversidade como sabedoria

“Quão numerosas são as tuas obras… todas com sabedoria as fizeste” (Tehillim 104:24). Para Saadiá, a pluralidade do mundo — partes, medidas, cores e movimentos “que não poderíamos enumerar” — não é desordem, mas a própria marca do Criador sábio. Daí a tese que o tratado desenvolverá: o erro moral é tomar uma tendência (o prazer, a riqueza, o amor, a ascese…) como o todo da vida; o acerto é a medida que harmoniza todas. Esta breve introdução planta a semente do “justo meio” de Saadiá.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), Introdução, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Tehillim 104:24; Iyov 9:9. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 1

Nenhuma Vida se Faz de uma Só Disposição

לֹא בְּמִדָּה אַחַת — אִזּוּן הַמִּדּוֹת כְּמִשְׁקָל וְכַבִּנְיָן

O capítulo de abertura do tratado fixa a tese da ética de Saadiá: assim como nenhum corpo vive de um só elemento, nem o céu de uma só estrela, nenhuma vida deve ser governada por uma só disposição. A conduta correta é a combinação equilibrada — pesada como numa balança, construída como uma casa de muitos materiais. Contra os que exaltam um único traço, Saadiá vê aí “o cúmulo do erro”.

1

E, já que antepus a introdução deste tratado, digo agora que assim se passa com as afeições — amor por certas coisas e ódio por outras coisas —, como disse (Mishlei 19:21): “muitos são os pensamentos no coração do homem, mas o conselho do Senhor é o que prevalece”. E, assim como os corpos não subsistem com um só elemento dentre os quatro elementos, e o corpo das árvores não subsiste com uma só parte do que mencionámos, e o homem não vive só de carne ou só de ossos, e assim como também os céus não se iluminam com uma só estrela — assim também o homem não deve conduzir-se, todos os seus dias, por uma só disposição midá. Antes, assim como da reunião do que mencionámos, em cada capítulo — muito de uma coisa e pouco de outra —, se completa todo o conjunto referido, assim também da reunião da essência do homem, feita de amor e de ódio, em muito e em pouco, se completa para ele a correção dos seus assuntos. E será como se ele os trouxesse diante do juiz, e este os julgasse — como disse (Tehillim 112:5): “bom é o homem que se compadece e empresta; conduzirá os seus assuntos com juízo” etc. —, ou como se ele os pesasse na sua balança e os repartisse em devidas porções, como disse (Mishlei 4:26): “pesa (nivela) a vereda do teu pé”. E, quando fizer assim, todos os seus assuntos serão equilibrados e corretos.

וכאשר הקדמתי המאמר הזה, אומר עתה, כי כן באהבות, אהבה לדברים, ושנאה לדברים, כמו שאמר (משלי י"ט כ"א) רבות מחשבות בלב איש ועצת יי' היא תקום. וכאשר הגופים אינם קיימים ביסוד אחד לבד מד' היסודות, וגוף האילנות אינו קיים בחלק אחד ממה שזכרנו, והאדם אינו חי בבשר או בעצמות בלבד, גם השמים אינם מאירים בכוכב אחד, כן האדם לא יתנהג כל ימיו במדה א'; אבל מהתקבצות מה שזכרנו בכל שער על רוב מדבר אחד ומעט מאחר, ישלם כל הנזכר, כן מהתקבצות מהות האדם באהבה ובשנאה על רב ומעט, ישלם כל הנזכר, כן המתקבצות מהות האדם באהבה ובשנאה על רב ומעט, ישלם לו תקון עניניו, ויהיה כאלו הביאם לפני הדיין ודן עליהם, כמ"ש (תהלים קי"ב ה') טוב איש חונן ומלוה יכלכל וגו', או כאלו שקלם במשקלו וחלק אותם חלקים, וכמו שאמר (משלי ד' כ"ו) פלס מעגל רגלך. וכאשר יעשה כן יהיו כל עניניו שוים ומתוקנים.
Nota — a tese central: nenhuma vida se faz de uma só virtude Aqui está o coração da ética de Saadiá. Da introdução (o Um e os muitos) ele extrai a regra prática: assim como nenhum corpo vive de um só elemento, nem a árvore de uma só parte, nem o céu de uma só estrela, nenhuma vida humana deve ser governada por uma só disposição (midá). A conduta correta é uma composição — muito de uma inclinação, pouco de outra —, “pesada na balança” (Mishlei 4:26) como um juiz que apura cada caso. É a versão judaica do “justo meio”: a virtude não é um ponto fixo, mas o equilíbrio sábio entre as muitas forças da alma.
2

E o que me levou a pôr este capítulo no início deste tratado foi que vi pessoas que pensam e creem que é obrigação que o homem se conduza por uma só disposição todos os seus dias — fazendo prevalecer o amor por uma coisa sobre todas as demais coisas amadas, e o ódio por uma coisa sobre todos os demais objetos odiados. E examinei este conselho, e eis que ele é o cúmulo do erro, por vários ângulos.

ואשר חייב שאשים השער הזה התחלת המאמר הזה, הוא שראיתי אנשים חושבים ומאמיני', כי חובה שיתנהג האדם במדה אחת כל ימיו, יגביר אהבת דבר על שאר האהובים, ושנאת דבר על שאר השנואים; והסתכלתי בעצה הזאת, והנה היא מתכלית הטעות מכמה פנים.
Nota — contra a obsessão por um único traço Saadiá explica por que abriu o tratado com este tema: havia quem ensinasse que se deve viver por uma disposição a vida inteira — exaltando um amor (ou um ódio) acima de tudo. É a tentação do monotema: fazer do prazer, ou da riqueza, ou mesmo da ascese, a chave única da existência. Para ele, isto é “o cúmulo do erro”. O argumento de fundo é teológico: se um só traço bastasse, D'us não teria plantado em nós o amor por tantas coisas — poderia ter-nos feito “de um só elemento, por um só decreto”. A nossa multiplicidade interior é intencional, e pede harmonização, não amputação.
3

Um deles: que o ódio por uma só coisa e a sua exaltação (concentrar-se nela), se fosse a conduta mais correta, o Criador não teria plantado nas disposições do homem o amor por tantas outras coisas. E, se a coisa fosse assim (se um só traço bastasse), Ele poderia tê-lo criado de um só elemento, e criá-lo por um só decreto; e criaria assim também todos os demais existentes, e estes estariam feitos deste modo único.

אחד מהם כי שנאת דבר אחד והגברתו, אלו היה יותר תקון, לא היה נוטע הבורא במדות האדם אהבת שאר דברים; ואלו היה הדבר כן, היה אפשר לבראו מיסוד אחד, ושיבראנו גזרה אחת, יהיה בורא כן שאר כל הנמצאות ויהיו על הענין הזה.
4

Não vês que nas partes das ações (das atividades) não é cabível servir-se de uma só coisa sozinha — quanto mais nos seus conjuntos? E disto um exemplo: se um construtor edificasse uma casa só de pedras, ou só de madeiras, ou só de esteiras, ou só de pregos, não haveria aí a boa feitura que haveria se a edificasse com estes materiais reunidos. E coisa semelhante a isto se diz quanto ao cozido, e à comida, e à bebida, e à vestimenta, e ao uso dos utensílios, e às demais coisas necessárias.

הלא תראה שחלקי הפעלים לא יכשר בהם השתמש דבר אחד לבדו, כל שכן כלליהם. ומזה אלו בנה בונה בית מאבנים בלבד או מעצים בלבד או ממחצלאות בלבד או ממסמרים בלבד, לא יהיה תקון כמו שיהיה, אם היה בונה מאלה מקובצים; ודומה לזה יאמר בתבשיל ובמאכל ובמשתה ובמלבוש ובשמוש ושאר החפצים.
Nota — a casa bem construída, imagem da alma equilibrada A ilustração é doméstica e exata: uma casa feita só de pedras, ou só de madeira, ou só de pregos, não presta — uma boa casa combina todos os materiais na medida certa. O mesmo vale para a comida, a bebida, a roupa, os utensílios: nada de útil se faz de um único ingrediente. Ora — conclui Saadiá —, se isto é óbvio nas coisas externas, “preparadas para servir” o homem, quanto mais nas disposições da sua alma. A vida boa constrói-se como uma casa: integrando, com proporção, muitos elementos — não absolutizando um só.
5

E como não abre o homem os seus olhos, quando vê que todas estas partes não se formam de uma só coisa — e que elas foram preparadas para ele, para o servir e para o seu benefício —, quanto mais deveria abri-los para os assuntos da sua alma e as suas disposições?

ואיך לא יפתח האדם עיניו כשהוא רואה כל אלה החלקים אינם הווים מדבר אחד, והם הוכנו לו לשמשו ולתקנתו, כל שכן עניני נפשו ומדותיה?

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O justo meio, à maneira de Saadiá

Da metafísica da introdução nasce a ética: a unidade de D'us produziu um mundo (e um homem) de muitas forças, e a sabedoria está em compô-las. Nenhuma disposição — amor, ódio, e as muitas que o tratado examinará — deve reinar sozinha a vida inteira. A conduta justa pesa cada uma “na balança” e dá a cada qual a sua medida, como um juiz. É a doutrina do equilíbrio, séculos antes de o Rambam a sistematizar no caminho do meio.

Por que o exagero de um só traço falha

Saadiá nomeia o alvo: os que pregam viver por uma única inclinação. Contra eles, um argumento de criação: se um só traço bastasse, D'us não teria plantado em nós o amor por tantas coisas — nem precisaria ter feito o mundo plural. A nossa complexidade interior é querida pelo Criador, e exige administração, não supressão. Absolutizar um impulso é trair o desenho com que fomos feitos.

Construir a alma como se constrói uma casa

A imagem final é memorável: ninguém ergue boa casa só de pedras, ou só de pregos; nem prepara refeição, roupa ou utensílio de um único ingrediente. Se isso é evidente nas coisas externas, que existem “para servir” o homem, tanto mais o é nas disposições da alma. Viver bem é uma obra de integração proporcional — a alma equilibrada é uma casa bem construída.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 1, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Mishlei 19:21; 4:26; Tehillim 112:5. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 2

As Três Potências da Alma e o Domínio da Razão

שָׁלֹשׁ כֹּחוֹת הַנֶּפֶשׁ — תַּאֲוָה, כַּעַס וְהַכָּרָה

Saadiá mostra o preço do desequilíbrio — loucura, doença, autodestruição —, define o homem como senhor das suas disposições (soltar ou conter cada uma na hora e na medida certas), e expõe a base psicológica da sua ética: a alma tem três potências — desejo, ira e discernimento —, devendo a razão reger as paixões. Esse autogoverno é a verdadeira “disciplina dos sábios”.

1

E preciso esclarecer que as consequências desta escolha de um só traço não são de pequena monta, mas são grandes, como eu as represento e digo: dentre as pessoas, há quem escolheu vagar pelos montes, e isso o levou à loucura; e há quem escolheu o muito comer, e isso o levou às hemorroidas; e há quem escolheu a vingança, e acabou por vingar-se de si mesmo; e coisas semelhantes a estes casos — do que hei de esclarecer no meio deste tratado, com a ajuda de D'us. Mas adianto aqui e digo que, por isso, os homens precisam da sabedoria na condução do homem e nos seus caminhos, sempre — como disse (Mishlei 6:22): “quando andares, ela te guiará”.

וצריך שאבאר כי חדושי הבחירה הזאת אין דעתה מעטה, אך היא גדולה כמו שאני מדמה ואומר; מהם מי שבחר לשוט בהרים, והוציאו זה השגעון; ומהם מי שבחר הרבות האכילה, והוציאתו אל הטחורים; ומהם מי שבחר הנקמה, ונקם מעצמו, ומה שדומה לענינים האלה, ממה שאני עתיד לבארו באמצע המאמר זה בעזרת האל: אבל אקדם הנה ואומר, כי על כן צריכים לחכמה בהנהגת האדם ומהלכיו תמיד, כמו שאמר (משלי ו׳:כ״ב כ"ב) בהתהלכך תנחה אותך.
Nota — o preço do desequilíbrio Antes de expor o método, Saadiá mostra o que está em jogo com exemplos concretos e quase clínicos: quem se entrega só a vagar pelos montes acaba na loucura; quem se entrega só ao comer, adoece; quem se entrega só à vingança, fere a si mesmo. Levar uma única inclinação ao extremo não é virtude rara — é autodestruição. Daí a necessidade da sabedoria como guia permanente da conduta (Mishlei 6:22, “quando andares, ela te guiará”): o equilíbrio não é luxo filosófico, mas condição de saúde da alma e do corpo.
2

E a raiz neste capítulo é que o homem seja senhor das suas disposições, e domine aquilo que ama e o que odeia; pois cada uma das coisas que ama e odeia tem um lugar próprio em que é cabível usá-la. E, quando vir o lugar em que é cabível usar aquela disposição, há de enviá-la na medida exata que complete aquela ação; e, quando vir o lugar em que é cabível conter aquela disposição, há de contê-la até que passe de sobre ele aquele ímpeto. E tudo isto com serenidade e com a capacidade de soltar a disposição no momento que quiser, e de retê-la no momento que quiser, como está escrito (ali 16:32): “melhor é o longânimo do que o valente, e o que domina o seu espírito do que o que conquista uma cidade”.

והשרש בשער הזה, שיהיה האדם מושל במדותיו, ושולט במה שיאהבהו וישנאהו; כי לכל אחד ממה שהוא אוהב ושונא, מקום ראוי שישתמש בו, וכאשר יראה המקום אשר ראוי להשתמש בו במדה ההי' ישלחנה בשיעור ע שישלי' המעשה ההיא, וכאשר יראה המקום אשר ראוי לעצור המדה ההיא, יעצרנה עד שיעבור מעליו הרוח ההיא. אכל זה בישוב ויכולת לפשוט בעת שירצה, ולתפוש בעת שירצה, וכמ"ש (שם ט"ז ל"ב) טוב ארך אפים מגבור ומושל ברוחו מלוכד עיר.
3

E já antepus, antes disto, que a alma tem três potências: o desejo (taavá), a ira (káas) e o discernimento (hacará). E a potência do desejo é a que leva o homem a ansiar por comida, por bebida e pela relação sexual, e a que lhe tornem agradáveis aos olhos as visões formosas, o bom cheiro e os toques macios. E a potência da ira é a que leva o homem ao predomínio e ao mando, e ao socorro de outros, e à vingança, à soberba e à insolência, e ao que é semelhante a isto.

וכבר הקדמתי קודם זה כי לנפש שלשה כחות, התאוה והכעס וההכרה. וכח התאוה הוא אשר יביא האדם לכסוף למאכל ולמשתה ולמשגל, ושייטבו בעיניו המראים הנאים, והריח הטוב, והמשושים הרכים. וכח הכעס, הוא אשר יביא האדם אל התגברות והשררה, והעזר לאחרים, והנקמה והגאוה והעזות, והדומה לזה.
Nota — as três potências da alma Eis a base psicológica de toda a ética de Saadiá, próxima da tripartição clássica da alma. São três as potências: o desejo (taavá) — que busca comida, bebida, sexo, e os prazeres dos sentidos; a ira (káas) — que impele ao domínio, ao mando, à defesa dos outros, mas também à vingança, à soberba e à insolência; e o discernimento (hacará) — a razão. As duas primeiras são forças cegas, capazes de bem e de mal conforme a medida; a terceira é a que pondera. Note-se que Saadiá não condena o desejo nem a ira: são partes legítimas da alma — o problema é deixá-las sem governo.
4

Mas a potência do discernimento é a que julga sobre as outras potências. E qualquer que seja a inclinação que o homem cogite seguir, ou qualquer ramo dos seus ramos, ele então emprega a potência do discernimento para refletir sobre elas e prová-las; e, se vir que o seu desfecho e o seu fim estão a salvo de dano, então aconselha segui-la — tanto mais se o seu desfecho for louvável; e, se vir, em algum dos seus aspectos, algum dano dentre os danos, aconselha o seu abandono.

אבל כח ההכרה הוא אשר ידין על הכחות האחרים. ואי זה מהם ידמה האדם או ענף מענפיהם, אז יתעסק בכח ההכרה להתבונן בהם ולבחנם, ואם יראה אחריתו וסופו נצולים מפגע, אז ייעץ בו, כ"ש שתהיה אחריתו משובחת; ואם יראה בצד מצדדיו פגע מן הפגעים, ייעץ בעזיבתו.
5

E todo homem que cumprir a regra deste capítulo, e fizer o seu discernimento dominar sobre o seu desejo e a sua ira, estará na disciplina (musar) dos sábios, como está escrito (ali 15:33): “o temor do Senhor é a disciplina da sabedoria”. E todo homem que fizer o seu desejo e a sua ira dominarem o seu discernimento não será homem de disciplina; e, se o seu estado for chamado “disciplina” indevidamente, trata-se da disciplina dos tolos, como disse (ali 1:7): “mas os tolos desprezam a disciplina”; e disse ainda: “e como a um grilhão que conduz à disciplina do tolo” (ali 7:22).

וכל אדם שיקים השער הזה, וימשיל הכרתו על תאותו וכעסו, יהיה במוסר החכמים, כמ"ש (שם ט"ו ל"ג) יראת יי' מוסר חכמה. וכל אדם ימשיל תאותו וכעסו בהכרתו, לא יהיה איש מוסר. ואם יקרא ענינו זה מוסר שלא כדין, הוא מוסר אוילים, כאשר אמר (שם א' ז') ומוסר אוילים בזו, ואמר עוד וכעכס אל מוסר אויל (שם ז' כ"ב):
Nota — a razão no trono: o verdadeiro “musar” A conclusão hierarquiza a alma: o discernimento deve julgar e reger o desejo e a ira, examinando o desfecho de cada impulso — se é seguro e louvável, segue-se; se traz dano, abandona-se. Quem assim governa a si mesmo está na “disciplina dos sábios” (musar chakhamim, Mishlei 15:33); quem deixa o desejo e a ira mandarem na razão pratica, no máximo, a “disciplina dos tolos”. Toda a grandeza do homem, para Saadiá, está nessa soberania interior — “melhor o que domina o seu espírito do que o que conquista uma cidade” (16:32). É a liberdade entendida como autogoverno racional.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O equilíbrio é questão de saúde

Os exemplos de Saadiá são deliberadamente concretos — loucura, doença, dano a si mesmo. Levar uma só inclinação ao extremo não rende santidade, mas ruína. Por isso a sabedoria precisa acompanhar a conduta a cada passo, e o homem precisa ser “senhor das suas disposições”: capaz de soltar um impulso quando convém e de retê-lo quando convém, “com serenidade”, na medida exata. Dominar-se vale mais que “conquistar uma cidade” (Mishlei 16:32).

Anatomia da alma

O capítulo oferece a psicologia que sustenta toda a treatise: três potências. O desejo busca os prazeres do corpo; a ira move ao domínio e à defesa (e aos seus excessos — vingança, soberba); o discernimento é a razão. As duas primeiras não são más em si — são energias que pedem direção. Saadiá não prega extinguir o desejo ou a ira, e sim ordená-los.

Quem governa quem

A virtude define-se pela hierarquia interior: quando o discernimento julga os impulsos — pesando o desfecho de cada um e aconselhando seguir o que é seguro e louvável, abandonar o que é nocivo —, o homem alcança a “disciplina dos sábios”. Quando o desejo e a ira mandam na razão, o que se tem é, quando muito, a “disciplina dos tolos”. A liberdade moral, em Saadiá, é exatamente este autogoverno racional.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 2, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Mishlei 6:22; 16:32; 15:33; 1:7; 7:22. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 3

Kohélet e os Três Caminhos que, Sozinhos, são Vaidade

קֹהֶלֶת כְּעֵד — שְׁלֹשָׁה שְׁעָרִים שֶׁכָּל אֶחָד לְבַדּוֹ הֶבֶל

Saadiá convoca Kohélet (Eclesiastes) como testemunha. “Tudo é vaidade” não condena a criação — condena buscar qualquer coisa isoladamente. Shlomó testou e reprovou três caminhos monotemáticos — a sabedoria sozinha, o prazer sozinho, o construir sozinho —, cada um declarado “hével”; e apontou a saída: não renunciar ao mundo, mas dosá-lo com sabedoria.

1

E, já que antepus a tese deste tratado — a saber, que a necessidade nos leva a recorrer a um sábio, para que nos ordene as afeições e as aversões, ensinando como nos conduzir a respeito delas —, digo que achei que o sábio Shlomó ben David se ocupou disto, para nos dar a conhecer o que é o bem; e disse (Kohélet 1:14): “vi todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo é vaidade e correr atrás do vento”. Ele não quer dizer, ao dizer “tudo é vaidade e correr atrás do vento”, que o conjunto das obras e a sua combinação sejam vaidade — pois o Criador as trouxe à existência, e nenhum sábio diz coisa como esta sobre aquilo que o seu Criador fez existir, que “tudo é vaidade”; mas quis dizer com isto que toda obra que os homens tomem sozinha — quero dizer, que cada uma das obras do homem, se a fizer separada das demais — será vaidade e correr atrás do vento.

וכיון שהקדמתי המאמר הזה, שהצורך מביא אל חכם, שיסדר לנו האהבות והשנאות איך נתנהג בענינם, אומר, שמצאתי החכם שלמה בן דוד שהתעסק בזה, להודיענו מה הוא הטוב, ואמר (קהלת א' י"ד) ראיתי את כל המעשים אשר נעשו תחת השמש והנה הכל הבל ורעות רוח. אינו רוצה באמרו הכל הבל ורעות רוח, קבוץ המעשים והתחברותם כי הבורא המציאם, ואין חכם אומר כזה על מה המציאו בוראו הכל הבל; אבל רצה בזה, כי כל מעשה שיקחוהו בני אדם לבדו, כלומר כי כל אחד מן מעשי הדם כאש יעשהו נפרד, יהיה הבל ורעות רוח.
Nota — relendo “tudo é vaidade”: contra o mal-entendido pessimista Saadiá toma o Kohélet (Eclesiastes) como aliado e faz uma leitura corretiva célebre. Quando Shlomó diz “tudo é vaidade e correr atrás do vento” (1:14), não está condenando a criação — “nenhum sábio diria isso do que o Criador fez existir”. O que é “vaidade” é cada busca tomada isoladamente. O versículo, longe de ser um lamento niilista, é a prova bíblica da tese do tratado: o erro não está nas coisas do mundo, mas em absolutizar uma delas. Saadiá converte o livro mais cético da Bíblia em manifesto do equilíbrio.
2

E, quanto ao tomá-las separadamente, disse ainda (ali 1:15): “o que é torto não se pode endireitar” — e cada obra isolada é torta demais para se endireitar, e insuficiente demais para se completar; mas, na sua combinação, não haverá falta, senão perfeição e inteireza. E o que reforça ser esta interpretação a correta é que Shlomó mostrou três “portões” dentre os amores do mundo e decretou sobre cada um que é “hével” (vaidade) — cujo sentido é “engano que ilude”, como no versículo (Yirmeyahu 23:16): “iludem-vos, fazem-vos desvairar”; e como disseram (Tehillim 62:11): “e na rapina não ponhais vã esperança”.

ובהפרד אמר עוד (שם ט"ו) מעוות לא יוכל לתקון, וכל אחד מעוות מהתקן, מקצר מהשלם; אבל בהתחברותם לא יהיה חסרון כי אם שלמות ותמימות. ומחזק הפרוש הזה שהוא כן, שהראה שלשה שערים מאהבות העולם, וגזר על כל אחד שהוא הבל, ופירושו השאה, כאמרו (ירמי' כ"ג ט"ז) מהבילים המה אתכם, משיאים אתכם, ואמרו (תהלים ס"ב י"א) ובגזל אל תהבלו.
3

O primeiro deles: dedicar-se à sabedoria sozinha e abandonar os demais amores. Disse sobre isto (Kohélet 1:17): “e apliquei o meu coração a conhecer a sabedoria”. E mencionou a razão disso: que todo homem, conforme aumenta a sua sabedoria, aumenta a sua dor — pois se lhe revelam, dos defeitos das coisas, aquilo a respeito de que ele estava em sossego antes de lhe serem revelados; e é o que diz (ali 1:18): “e quem acrescenta conhecimento, acrescenta dor”.

ותחלתם שיתיחד בחכמה לבדה ויעזוב שאר האהבות, אמר בזה (קהלת א' י"ז) ואתנה לבי לדעת חכמה. וזכר העלה בו, כי כל אדם כפי שתרבה חכמתו ירבה מכאובו כאשר יגלו לו ממומי הדברים מה שהיה במנוחה קודם הגלותם לו, והוא מה שאומר (שם י"ח) ויוסיף דעת יוסיף מכאוב.
Nota — os três “portões” que Kohélet testou e reprovou Para demonstrar a sua leitura, Saadiá segue Shlomó por três “portões” — três modos de vida monotemáticos, cada um declarado hével (palavra que, lembra ele, significa “ilusão que desvia”, não “nada”): (1) a sabedoria sozinha, que traz dor, pois “quem acrescenta conhecimento acrescenta sofrimento” (1:18); (2) o prazer e o riso sozinhos, que rebaixam o homem “às disposições dos animais” (2:1-2); (3) o construir e possuir, vão porque tudo se deixa a quem vem depois (2:4-18). Cada caminho, sozinho, fracassa — exatamente como uma casa feita de um só material.
4

E depois repetiu a análise quanto à alegria e ao riso sozinhos, e disse que, se o homem puser o seu intento em voltar-se para a alegria e em ocupar-se dela, isto lhe será também vaidade, como está escrito (ali 2:1): “disse eu no meu coração: vem agora, eu te provarei com a alegria; goza, pois, o bem”; e mencionou qual é a razão disso: que o homem, naquele momento — no momento do riso e da alegria sem freio —, sente em si mesmo baixeza e vileza, e já entrou nas disposições dos animais; e é o seu dizer (ali 2:2): “do riso disse: é loucura; e da alegria vã…”.

ואחר כן שנה בשמחה ובשחוק בלבד, ואמר אם ישים האדם דעתו לפנות אליה ולהשגיח עליה, יהיה לו זה גם כן הבל, כמ"ש (שם ב' א') אמרתי אני בלבי לכה נא אנסכה בשמחה וראה בטוב; וזכר העלה בו מה היא, כי האדם בעת ההיא מרגיש מעצמו בעת השחוק והשמחה פחיתות וגנות, וכבר נכנס במדות הבהמות, והוא אמרו (שם ב') לשחוק אמרתי מחולל ולשמחה.
5

E depois, como terceiro, tratou do povoamento do mundo a construção, e deu a conhecer que a ocupação com ele é também vaidade, como no versículo (ali 2:4): “engrandeci as minhas obras, edifiquei para mim casas, plantei para mim vinhas, fiz para mim hortas e pomares” — e o restante do que relatou das suas obras, até o fim da passagem; e mencionou a razão de Shlomó odiar tudo isto: que o deixaria a um homem que viesse depois dele, e a sua fadiga seria em vão, como está escrito (ali 2:18): “e odiei eu todo o meu trabalho, com que me afadigo debaixo do sol, pois é o que deixarei ao homem que virá depois de mim”.

ואחר כן שלש בישוב העולם, והודיע כי העסק בו גם כן הבל, כאמרו (שם ד') הגדלתי מעשי בניתי לי בתים נטעתי לי כרמים עשיתי לי גנות ופרדסים, ושאר מה שספר ממעשיו עד סוף הפרשה; וזכר העלה בשנאתו את כל זה, שיניחנו לאדם שיהיה אחריו, ותהיה יגיעתו לריק, כמ"ש (שם י"ח) ושנאתי אני את כל עמלי שאני עמל תחת השמש שאניחנו לאדם שיהיה אחרי.
6

E, depois que relatou estes três “portões”, Shlomó cessou de mencionar os demais amores do mundo, para que isto não o impedisse daquilo que precisava dizer e ordenar; mas aludiu, dentro da análise destes três portões, à necessidade de equilibrar entre estes três — a saber, que nos ocupemos apenas de um pouco da sabedoria e do prazer, e não deixemos de considerar o que é o bem, como disse (ali 2:3): “busquei no meu coração atrair com vinho a minha carne enquanto o meu coração me conduzia com sabedoria”.

וכאשר ספר אלה השלשה שערים, פסק לזכור שאר אהבות העולם, שלא ימנעהו זה ממה שהוא צריך לדבר ולצוות; אך רמז בתוך השערים האלה, להשוות בין אלה השלשה, והוא שנתעסק במעט מן החכמה ומן התענוג, ולא נניח לעיין במה שהוא הטוב, כמו שאמר (שם ג') תרתי אני בלבי למשוך ביין את בשרי:
Nota — a solução não é renunciar, mas dosar O desfecho é a chave anti-ascética de Saadiá. Shlomó interrompe a lista (não precisa esgotar todos os amores) e aponta a saída: não abandonar o mundo, mas dosá-lo — “um pouco da sabedoria e um pouco do prazer”, sem nunca deixar de “considerar o que é o bem” (2:3). A resposta ao vazio de cada busca isolada não é a fuga do mundo, e sim a composição sábia de várias — guiada pela razão. É o “justo meio” lido dentro do próprio Eclesiastes: a vida plena combina, com medida, o que isoladamente seria vaidade.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Eclesiastes não é niilismo

A leitura de Saadiá desarma o pessimismo aparente de Kohélet. “Vaidade” (hével) não quer dizer que o mundo nada vale — significa “ilusão que desvia”. O alvo não são as coisas criadas (obra de D'us), mas a pretensão de que uma só delas baste. Assim, o livro mais cético da Bíblia torna-se, nas mãos de Saadiá, a prova escriturística da ética do equilíbrio.

Três vidas que fracassam sozinhas

Shlomó é apresentado como quem experimentou e concluiu: a sabedoria sozinha traz dor (mais saber, mais sofrimento); o prazer sozinho rebaixa o homem ao nível dos animais; o construir e acumular é vão, pois fica para outro. Três caminhos, três becos sem saída — a confirmação experimental de que nenhuma inclinação isolada sustenta uma vida.

Dosar, não fugir

O essencial está no fecho: a resposta de Kohélet não é a renúncia, mas a medida — “um pouco da sabedoria e um pouco do prazer”, sem jamais deixar de buscar o bem (2:3). Saadiá, fiel ao seu racionalismo otimista, recusa tanto o hedonismo quanto o ascetismo: a vida boa compõe, com proporção e sob a guia da razão, aquilo que sozinho seria vaidade. É o coração prático do tratado.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 3, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Kohélet 1:14; 1:15; 1:17; 1:18; 2:1; 2:2; 2:3; 2:4; 2:18; Yirmeyahu 23:16; Tehillim 62:11. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 4

As Treze Disposições — e a Abstinência no seu Lugar

שְׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה הַמִּדּוֹת — וְשַׁעַר הַפְּרִישׁוּת בִּמְקוֹמָהּ

Saadiá anuncia o plano do tratado — examinar treze disposições humanas, uma a uma — e abre pela primeira: a abstinência (perishut). Expõe com força o libelo dos ascetas contra o mundo traiçoeiro, reconhece que “a maior parte é verdade”, mas rejeita a fuga da vida (que destruiria a espécie, a Torá e a própria saúde) e fixa o lugar próprio da abstinência: o autodomínio que afasta do proibido.

1

E subiu ao meu pensamento — que D'us te conduza — reunir, dentre as raízes destes amores (disposições), treze; e mencionar o que soube daquilo que levou cada grupo a escolher ocupar-se com cada uma delas, sozinha, todos os seus dias; e depois esclarecer que coisa eles puseram de lado e abandonaram daquele assunto; e mencionar, em cada uma delas, o lugar em que é cabível usá-la — aquele para o qual foi criada e posta —; e reunir um conjunto do que resultar de eu pôr cada inclinação no seu devido lugar, em cada capítulo: e essa reunião formará um livro completo da reta disciplina de si. E enumerá-las-ei, primeiro, e digo que, dentre as raízes dos amores, são treze: a abstinência (perishut), a comida, a relação sexual, o desejo apaixonado (cheshek), os filhos, o povoamento a construção, a longa vida, o dinheiro, o mando poder, a vingança, o serviço a D'us, a sabedoria e o repouso. E depois apresentarei à razão cada uma, uma a uma, e mencionar-lhe-ei os modos do seu desejo, e escreverei o que é cabível de abstinência quanto a ela, e onde está o seu lugar próprio.

ועלה בדעתי (יישירך האלהים) לקבץ משרשי אלה האהבות שלשה עשר; ואזכור מה שידעתי ממה שהביא כל עם לבחור העסק בכל אחד מהם לבדה כל ימיהם; ואחר כן אבאר אי זה דבר הניחו ועזבו מהענין ההוא; ואזכור בכל אחד מהם המקום אשר ראוי להשתמש בה אשר לו נברא והושם, ואקבץ כלל ממה שאניח כל חפץ בכל שער, יהיה הקבוץ ספר פרישות שלם. ואספרם מתחלה ואומר, כי משרשי האהבות שלשה עשר; הפרישות, והאכילה, והמשגל, והחשק, והבנים, והיישוב, והחיים, והממון, והשררה, והנקמה, והעבודה, והחכמה, והמנוחה. ואחר כן אראה לשכל אחד אחד, ואזכיר לו אפני החפץ בו, ואכתוב מה שראוי מן הפרישות בו, ואיה מקומו הראוי לו.
Nota — o mapa do tratado: treze disposições Aqui Saadiá apresenta o plano de toda a segunda metade do tratado: examinar treze “raízes dos amores” (disposições humanas) — abstinência, comida, sexo, desejo apaixonado, filhos, povoamento/construção, longevidade, dinheiro, poder, vingança, serviço a D'us, sabedoria e repouso. De cada uma perguntará três coisas: por que alguns a tomam como a chave da vida, o que essa obsessão sacrifica, e qual é o seu lugar próprio. O resultado, diz ele, será “um livro completo da disciplina de si”. É um dos primeiros tratados sistemáticos de ética das virtudes na tradição judaica.
2

E digo, quanto ao primeiro: o capítulo da abstinência (perishut). Viram certos homens que aquilo com que o homem deve conduzir-se neste mundo é a abstinência, e o andar pelos montes, e chorar, e lamentar, e enlutar-se por causa deste mundo. E disseram: “obrigou-nos a isto o fato de este ser um mundo de destruição, que se revira contra os seus próprios habitantes, e não é permanente. Enquanto o homem se alegra nele com alegria, em sossego e em paz, o mundo revira-se contra ele, e a sua alegria torna-se luto, e a sua grandeza, baixeza, e o seu êxito, fadiga” — como está escrito (Iyov 27:19-22): “o rico se deita, mas não será recolhido; abre os seus olhos, e já não existe; alcançam-no, como águas, os terrores; arrebata-o o vento oriental, e ele se vai”.

ואומר בראשון: שער הפרישות. ראו אנשים כי אשר ראוי להתנהג בו האדם בעולם הזה, הפרישות וההליכה על ההרים ולבכות ולספוד ולהתאבל על העולם הזה. ואמרו חיבנו זה מפני שהוא עולם כליה, מתהפכת באנשיה, איננה קיימת. בעוד שיהיה האדם שמח בו שמחה בהשקט ובשלוה, תתהפך עליו ותהיה שמחתו אבל, וגדלותו שפלותו, והצלחתו עמל, כמ"ש (איוב כ"ז י"ט-כ"ב) עשיר ישכב ולא יאסף עיניו פקח ואיננו. תשיגהו כמים בלהות. ישאהו קדים וילך.
Nota — a disposição da abstinência (perishut), e o libelo dos ascetas A primeira disposição é a perishut — a renúncia ascética. Saadiá expõe o caso dos seus defensores com força e simpatia: o mundo é traiçoeiro e efêmero, transforma a alegria em luto e a grandeza em baixeza (Iyov 27); o esforço humano frustra-se; ninguém conhece o amanhã (Mishlei 27:1); quem se apega ao mundo apoia-se numa “casa de aranha” (Iyov 8). Por isso pregam fugir de tudo — não construir, não casar, não gerar —, isolar-se nos montes e viver no pranto. Saadiá leva a sério o argumento antes de respondê-lo: é o seu método de honestidade intelectual.
3

Disseram ainda: “E, ainda que o homem se esforçasse com toda a sua força por tornar-se sábio, a sua insensatez o venceria; ou por purificar-se, a sua imundície o venceria; ou por estar são, o seu temperamento se adoeceria; ou por ter bom senso, a sua própria língua o faria tropeçar” — como está escrito (ali 9:20): “se eu pretender ter razão, a minha boca me condenará; ainda que íntegro, ela me declarará perverso”. E não há homem que saiba o que lhe sobrevirá de doença, de infortúnio, de luto, de inquietação, de privação e dos demais males — como está escrito (Mishlei 27:1): “não te glories do dia de amanhã, pois não sabes o que o dia dará à luz”. E, tanto mais o homem se apega a este mundo, tanto mais se rompe a sua confiança, como está escrito (Iyov 8:14-15): “cuja confiança se corta, e cuja segurança é uma casa de aranha; ele se apoia na sua casa, mas ela não se mantém; agarra-se a ela, mas ela não se firma”. E a sua situação nele não é senão em falsificação, mentira e engano, todos os seus dias, como está escrito (Tehillim 90:10): “e o seu orgulho é fadiga e iniquidade”. E a quantos valentes o mundo abaixou e humilhou — como disse (ali 76:6): “despojados foram os de coração forte”; e a quantos grandes subjugou e profanou, como está escrito (Yeshayahu 23:9): “para profanar a soberba de toda glória, e para aviltar todos os honrados da terra”; e a quantos que esperavam o seu bem o mundo o trocou por mal, e que abriram os olhos para ver na sua luz, e ela se escureceu diante deles, como está escrito (Iyov 30:26): “pois esperei o bem, e veio o mal”.

ואלו היה האדם משתדל בכל כחו להתחכם תנצחהו אולתו, או להנקות ינצחהו טנופו, או להיות בריא יחלחו מזגו, או להלבב יכשילהו לשונו, כמ"ש (שם ט' כ') אם אצדק פי ירשיעני תם אני ויעקשני. ואין בן אדם שידע מה שיתחדש עליו מחולי ופגע ושכול ודאגה וחסרון ושאר הפגעים, וכמ"ש (משלי כ"ז א') אל תתהלל ביום מחר כי לא תדע מה ילד יום. וכל אשר יוסיף להחזיק בו ינתק מבטחו, כמ"ש (איוב ח' י"ד ט"ו) אשר יקוט כסלו ובית עכביש מבטחו, ישען על ביתו ולא יעמוד יחזיק בו ולא יקום. ואין ענינו בו כי אם בזיוף ושקר וכזב כל ימיו, וכמ"ש (תהלים צ' י') ורהבם עמל ואון. וכמה גבורים השח השפיל, וכמו שאמר (שם ע"ו ו') אשתוללו אבירי לב. וכמה גדולים הכניע וחלל, כמ"ש (ישעי' כ"ג ט') לחלל גאון כל צבי להקל כל נכבדי ארץ. וכמה מיחל טובו המירה לו ברע, ופתח עיניו לראות באורה והחשיכה בפניו כמ"ש (איוב ל' כ"ו) כי טוב קויתי ויבא רע.
4

E disseram: “E o mundo faz pesar as suas inquietações sobre este homem, e lança sobre ele a sua fraqueza” — e como está escrito (Tehillim 88:8): “sobre mim pesou o teu furor”. E onde ficam as iniquidades, e os pecados, e o ajuste de contas, e os tormentos, e a separação entre o homem e o seu D'us? — a ponto de o mundo tornar-se para ele como uma fera que despedaça na sua ira, e como um cruel depois de ter mostrado misericórdia, como está escrito (Iyov 10:16): “como um leão me caças, e tornas a fazer maravilhas terríveis contra mim”; e disse ainda (Yeshayahu 13:9): “eis que o dia do Senhor vem, cruel, com ira e ardor de cólera”.

ונשען דאגותיו על האדם הזה, והשליך עליו חולשתו, וכמ"ש (תהלים פ"ח ח') עלי סמכה חמתך. ואנה העונות והחטאים והחשבון והיסורין וההבדל בינו ובין אלהיו? עד שישוב לו כטורף באפו, וכאכזרי אחרי הרחמים, כמ"ש (איוב י' ט"ז) כשחל בצודני ותשוב תתפלא בי, ואמר עוד (ישעי' י"ג ט') הנה יום יי' בא אכזרי ועברה וחרון אף.
5

E disseram que é preciso desprezar este mundo: e que o homem não edifique casa, nem plante, nem tome esposa, nem gere filhos, e não habite com quem escolhe estas ações mundanas, para que não o habituem a elas e para que não se lhe apegue algo das disposições deles; antes, que se isole nos montes, e coma o que achar das plantas, até que morra em inquietação e em luto.

ואמרו צריך למאוס בעולם הזה ולא יבנה בית ולא יטע, ולא יקח אשה ולא יוליד, ואל ישכון עם מי שבוחר המעשים האלה, שלא ירגילו אותו ותדבק בו ממדותם; אבל יתבודד בהרים, ויאכל מה שימצא מהצמח, עד שימות בדאגה ובאבל:
6

E examinei o que disse este povo (estes ascetas), e achei que a maior parte disso é verdade; mas erraram no abandono do povoamento da vida em sociedade e dos homens. Pois deixaram de lado a consideração daquilo sem o qual o homem não se pode manter — a saber, o alimento, a vestimenta e o abrigo; e também puseram de lado a consideração da perpetuação da sua própria espécie, pois abandonaram o casar-se; e o cortar a perpetuação da semente (o celibato), se fosse bom, então todos os homens se conduziriam por ele, e cessaria a espécie dos seres dotados de fala — e, com a sua cessação, cessariam a sabedoria, a Torá, o Dia do Juízo, e o sentido dos céus e da terra; e as almas ficariam em perigo entre os animais, os leões, as serpentes, o calor, o frio e os demais males. E onde fica o remédio para a grosseria da sua natureza, e a loucura, e o desvario da mente pela falta do bom alimento e da água fresca, e pela corrupção do sangue, e pela inflamação da bílis negra a melancolia? — a ponto de eles precisarem dos homens do povoamento para curá-los com o que lhes seja útil — e ainda assim é possível que não lhes seja útil. E os homens se assombrariam deles, a ponto de pensarem em matá-los; e há quem os odiaria por serem tidos, entre eles, por maus e pecadores, a ponto de permitirem a si mesmos o derramamento do seu sangue. E há quem reverteria às disposições dos animais e sairia da condição humana, como está escrito (Eichá 4:3): “até a filha do meu povo se tornou cruel, como os avestruzes no deserto”; e disse (Iyov 30:6-7): “forçados a habitar nas fendas dos vales, nos buracos da terra e nas rochas; entre os arbustos eles zurram” — e arruinariam a sua alma por completo.

והסתכלתי במה שאמרו העם הזה ומצאתיו רובו אמת, אך טעו בעזיבת הישוב ובני אדם; כי עזבו זכרון מה שלא יוכל אדם לעמוד בלעדיו מן המזון והכסות והמחסה; וגם הניחו זכרון נפשם כי עזבו לישא נשים, וכרות הזרע אלו היה טוב, היו מתנהגים בו בני אדם כלם ובטל מין המדברים, ובבטולו תבטל החכמה והתורה ויום הדין והשמים והארץ; ותהיינה הנפשות בסכנה בין החיות והאריות והנחשים והחום והקור והפגעים. ואיה עבי הטבע והשגעון וטרוף הדעת בהעדר המאכל הטוב, והמים הקרים, והפסד הדם, והמית המרה השחורה? עד שיצטרכו אל אנשי הישוב לרפוא אותם שיועיל להם, ואפשר שלא יועיל. והיו משתוממים האנשים מבני אדם עד שיחשבו שיהרגו אותם, ויש שישנאום על היותם מוחזקים אצלם לרעים וחטאים עד שיתירו לעצמ' שפיכת דמם. ויש שישובו כמדות הבהמות ויצאו מן האנושות, כמ"ש (איכה ד' ג') בת עמי לאכזר כיענים במדבר, ואמר (איוב ל' ו' ז') בערוץ נחלים לשכון חורי עפר וכפים, בין שיחים ינהקו, ויפסידו נפשם לגמרי.
7

Mas a abstinência é boa para o homem quando ele a pratica no seu devido lugar — a saber, quando se lhe apresentam a comida e a bebida proibidas, e a relação sexual proibida, e o dinheiro proibido: então solta esta disposição de abstinência, até que ela o afaste de tudo isto, como disse (Kohélet 2:22-23): “pois que proveito tem o homem de todo o seu trabalho e do afã do seu coração, com que se afadiga debaixo do sol? pois todos os seus dias são dores, e os seus afazeres, pura vexação”.

אבל הפרישות טובה לאדם כשיתנהג בה במקומה, והוא כשיזדמן לו המאכל והמשתה האסור והמשגל האסור והממון האסור, ישלח המדה הזאת עד שתרחיקהו מכל זה, כמו שאמר (קהלת ב' כ"ב כ"ג) כי מה הוה לאדם בכל עמלו. כי כל ימיו מכאובים וכעס עניניו:
Nota — “a maior parte é verdade”, mas a fuga do mundo é um erro O veredito de Saadiá é exemplar de equilíbrio. Concede que a maior parte da crítica ascética ao mundo é verdadeira — e mesmo assim rejeita a conclusão. Abandonar a sociedade e a procriação seria desastroso: ninguém sobrevive sem alimento, roupa e abrigo; e se o celibato fosse o ideal, a espécie humana cessaria — e “com ela a sabedoria, a Torá, o Dia do Juízo”. O eremita, mal nutrido e isolado, adoece de corpo e de mente, e pode até “sair da condição humana”. A resposta correta não é fugir da vida, mas a abstinência no seu lugar: o autodomínio que afasta do proibido (comida, sexo, dinheiro ilícitos) — não a recusa do mundo, e sim a recusa do erro. É a assinatura vital e anti-ascética da ética de Saadiá.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Um catálogo das forças da alma

Começa aqui a parte mais original do tratado: o exame, uma a uma, de treze inclinações humanas. De cada uma, três perguntas — por que alguns a absolutizam, o que sacrificam ao fazê-lo, e qual o seu lugar legítimo. É ética prática e psicológica, ancorada na convicção de que nenhuma força da alma é má em si: todas têm a sua hora e a sua medida.

O argumento ascético, levado a sério

Saadiá não caricatura os que pregam a renúncia: dá-lhes a melhor versão. O mundo de fato engana, transforma alegria em luto, frustra o esforço, esconde o amanhã. Quem deposita nele a sua confiança apoia-se numa teia de aranha. A força do capítulo está em conceder tudo isso — e ainda assim recusar a conclusão dos ascetas.

Viver é melhor que fugir

O veredito é profundamente vital. Fugir do mundo destruiria o indispensável (comida, abrigo) e, no celibato universal, extinguiria a humanidade — “e com ela a sabedoria, a Torá, o Dia do Juízo”; o eremita adoece de corpo e mente e pode “sair da condição humana”. A resposta certa é a abstinência no lugar certo: o freio que nos guarda do proibido, não a recusa da vida. Saadiá opõe ao ascetismo uma santidade do equilíbrio — recusar o pecado, não o mundo.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 4, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Iyov 27:19-22; 9:20; 8:14-15; 30:26; 10:16; 30:6-7; Mishlei 27:1; Tehillim 90:10; 76:6; 88:8; Yeshayahu 23:9; 13:9; Eichá 4:3; Kohélet 2:22-23. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 5

A Comida, a Bebida e a Medida Justa

שַׁעַר הָאֲכִילָה וְהַשְּׁתִיָּה — הַזּוֹלְלוּת מוּל הַמִּדָּה

A segunda disposição: a comida e a bebida. Saadiá expõe o caso de quem a toma por centro da vida — o alimento sustenta o corpo e a alma, o mundo gira em torno dele, o vinho alegra o coração — e depois mede-a: a gula adoece e embrutece o homem (os cães vorazes, o fogo, o Sheol, a sanguessuga), o vinho que encanta vira veneno e porta dos vícios, e o acerto está em comer o que sustenta o corpo.

1

A segunda disposição: o capítulo da comida e da bebida. Viram alguns homens que aquilo com que o homem deve conduzir-se é o capítulo da comida e da bebida. E disseram que é pelo alimento que subsistem os corpos e as almas; e, com isto, há nele um grande deleite, e ele é a causa do crescimento dos corpos, da sua multiplicação e da manutenção da semente da procriação. E eis que vês que, se o homem jejua um só dia, enfraquecem-se a luz dos seus olhos, e a sua audição, e o seu pensamento, e a sua memória, e o seu raciocínio; e, quando come, voltam todas as suas forças como eram no princípio. E há um momento em que o homem tem fome e chega a negar o seu D'us, e não entende o que Lhe suplica em oração.

השני שער האכילה והשתיה. ראו קצת בני אדם כי הראוי שיתנהג בו האדם שער האכילה והשתיה. ואמרו כי המזון בו קיימת הגופים והנפשות, ועם זה יש בו ערבות גדולה והוא סבת גידול הגופים ורבוים והעמדת הזרע. והנה אתה רואה האדם יצום יום אחד יחלש אור עיניו ושמעו ומחשבתו וזכרונו ורעיונו, וכאשר יאכל ישובו כל כחותיו כבתחלה, ויש עת שירעב ויכפור באלהיו, ולא יבין מה שיתפלל אליו.
Nota — a disposição da comida e da bebida A segunda disposição é o apetite por comida e bebida. Saadiá expõe a defesa dos que a tomam por centro da vida, e é uma defesa robusta: sem alimento não há corpo nem alma; um só dia de jejum embota a vista, a audição, a memória — a fome chega a fazer o homem “negar o seu D'us”. Mais: toda a economia gira em torno do alimento, a própria Escritura promete “pão e água” ao justo (Shemot 23:25), nenhuma celebração se faz sem comida, e o vinho “alegra o coração do homem” (Tehillim 104:15). Como sempre, Saadiá dá ao apetite a sua melhor causa antes de o medir.
2

E eis que vês que todo o povoamento da terra não se situa senão no lugar dos rios — por causa da semeadura e do beber das águas; e assim também o tributo dos reis e os pagamentos das tropas. E a eles se aplica o dito de que todo homem diz “este é o meu pão”. E vês que os livros da Escritura prometem por eles (pela comida) aos justos, como no seu dizer (Shemot 23:25): “e servireis ao Senhor vosso D'us, e Ele abençoará o teu pão e a tua água”; e assim (Vayicrá 25:19): “e a terra dará o seu fruto, e comereis até à saciedade”, e há muito versículo semelhante a isto; e disseram que todo noivado, e casamento, e nascimento, e circuncisão, e aliança (berit), e festa, e inauguração não se completa em nada deles senão por ele (pela comida); e assim também o convívio e a amizade entre os que se amam. E disseram que o vinho — a sua aparência é agradável, e o seu cheiro é bom, e o seu sabor é doce — torna alegre o aflito, generoso o avarento, e valente o de coração mole tímido. E já o versículo reuniu esses efeitos em louvor, no seu dizer (Tehillim 104:15): “e o vinho, que alegra o coração do homem, e o azeite para fazer reluzir o rosto” etc.

והנה אתה רואה ישוב הארץ כלו איננו מושם כי אם במקום הנהרות בעבור הזרע ושתות המים, וכן מס המלכים וכן מתנות החילים; ואליהם יגיע המשל באמור כל אדם זה לחמי. ותראה מבטיחים הספרים בהם הצדיקים כאמרם (שמות כ"ג כ"ה) ועבדתם את יי אלהיכם וברך את לחמך ואת מימיך, וכן (ויקרא כ"ה י"ט) ונתנה הארץ פרי ואכלתם לשבע, והדומ' לזה הרבה; ושכל אירוסין וחתונ' ולידה ומילה וברית ומועד וחנוך לא ישלם דבר מהם כי אם בו, וכן החברה והרעות בין האוהבים; ואמרו היין מראהו נחמד וריחו טוב וטעמו ערב, ישים הדואג שמח, והכילי נדיב, ורך הלבב גבור. וכבר קבצם הפסוק בשבח, באמרו (תהלים ק"ד ט"ו) ויין ישמח לבב אנוש להצהיל פנים משמן וגו'.
3

E refleti sobre este dito deles, e achei que a maior parte é erro; e ainda mais: que eles olharam para os seus bens da comida e não olharam para os seus males. E eis que o excesso de comida causa náusea, e torna pesados os membros, e enche a cabeça e os olhos, e leva à morte quando é em demasia; e torna o coração precipitado, e altera as disposições do homem, e o inclina ao apetite da comida e ao acumular dinheiro, até que já não se lembre da saciedade, e se assemelhe às disposições dos animais e dos cães — como está escrito (Yeshayahu 56:11): “e os cães são de alma voraz, que não conhecem a saciedade”. O glutão também se torna como o fogo, ao qual o que se lhe traz ele o consome sem deixar resto, como disse (ali 9:18): “e o povo se tornou como pasto do fogo”. Também se torna como a morte, que recolhe a si todas as criaturas e não diz “basta”, como disse (Chavakuk 2:5): “que alargou como o Sheol a sua alma, e é como a morte, e não se sacia”. Também se torna como as quatro causas da falta — a saber, o fogo e a água que sempre exigem mais, a morte e a esterilidade —, como disse (Mishlei 30:15-16): “a sanguessuga tem duas filhas: ‹dá, dá!›; há três que não se saciam, quatro que nunca dizem ‹basta›: o Sheol, e a madre estéril, a terra que não se farta de água, e o fogo que não diz ‹basta›”. E chega a ponto de o seu olho ser mau invejoso para com quem coma dele um só bolo de pão — ainda que ele próprio seja rico —; e, se o mostrar a este com aparência de generosidade, será sem coração (falso), como disse (Mishlei 23:7): “pois, como quem calcula consigo mesmo, assim é ele; ‹come e bebe›, ele te diz, mas o seu coração não está contigo”.

והתבוננתי במאמרם זה ומצאתי רובו טעות, ועוד כי הם הביטו אל טובותיו ולא הביטו אל רעותיו. והוא שרוב המאכל גורם הקבסה ומכביד האיברים, וממלא הראש והעינים, ומביא לידי גויעה בהרבותו, וישיב הלב נמהר, וישנה מדות האדם, ויטה אל תאות המאכל ולהרבות הממון, עד שלא יזכור השבע, וידמה למדות הבהמות והכלבים, וכמ"ש (ישעיה כ"ו י"ב) והכלבים עזי נפש לא ידעו שבעה. גם ישוב כמו האש אשר מה שיובא אליה תאכלנו מבלי הרש כמו שאמר (שם ' י"ח) ויהי העם כמאכולת אש. גם ישוב כמות אשר יאסוף אליו כל הבריות ולא יאמר די, כמו שאמר (חבקוק ב' ה') אשר הרחיב כשאול נפשו והוא כמות ולא ישבע. גם ישוב כארבע סבות החסרון והם האש והמים והמות והעקר, כמו שאמר (משלי ל' ט"ו) לעלוקה שתי בנות הב הב שאול ועוצר רחם ארץ לא שבעה מים ואש לא אמרה הון, עד שתהיה עינו רעה במי שיאכל ממנו חלת לחם אפילו אם יהיה עשיר, ואם יראה לו זה יהיה בלי לב, וכמו שאמר (משלי כ"ג ז') כי כמו שער בנפשו כן הוא אכול ושתה יאמר לך ולבו בל עמך.
Nota — o retrato da gula A refutação é uma pequena galeria de imagens bíblicas sobre o excesso. O glutão adoece (náusea, peso, até morte), embrutece-se “como os cães de alma voraz” (Yeshayahu 56:11), torna-se insaciável “como o fogo” (9:18), “como a morte” que nunca diz basta (Chavakuk 2:5), como “as filhas da sanguessuga” (Mishlei 30:15-16). E — detalhe psicológico fino — a obsessão com a comida o faz avarento, de “olho mau” até para um pedaço de pão (23:7). Saadiá mostra que absolutizar o apetite não engrandece a vida: degrada-a ao nível animal e corrói até o caráter.
4

E, quando se vir isto das suas disposições (que alguém é glutão), desprezam-no os reis e os grandes dos homens e os seus sábios, e não se sentam com ele; pois, quando come, ele se apressa, e, se vê um pedaço bom, salta sobre ele, e é o primeiro a estender a mão para comer e o último a retirá-la, e o seu olho está fixo no que há de vir da comida, tão grande é o seu apego a ela — como disse (Mishlei 23:1-2): “quando te sentares para comer com um governante, considera bem o que está diante de ti, e põe uma faca à tua garganta se fores homem de apetite”. E, ainda, porque o glutão procura evacuar para poder comer uma segunda vez do que cobiça — sendo como um funil que derrama por cima e escorre por baixo —, como está escrito (Yeshayahu 28:8): “pois todas as mesas estão cheias de vômito e imundície, sem lugar limpo”; e, ainda, porque vem a vomitar do excesso de comida, quando o estômago não a comporta, como está escrito (Mishlei 23:8): “o bocado que comeste, tu o vomitarás”. E onde fica a grosseria do coração, a ponto de o glutão abandonar a sua Torá e esquecer o seu D'us? — como disse (Hoshea 13:6): “conforme o seu pasto, assim se fartaram; fartaram-se, e exaltou-se o seu coração; por isso se esqueceram de mim”.

וכאשר יראה זה ממדותיו, ימאסוהו המלכים וגדולי בני אדם ומשכילהם, ולא ישבו עמו; כי כאשר יאכל ימהר, ואם יראה חתיכה טובה יקפוץ עליה, והוא ראשית מי שישלח ידו לאכול ואחרית מי שישאנה, ועינו אל מה שיבא מן המאכל, מאשר לבו אליו, וכמו שאמר (שם א' ב') כי תשב ללחום את מושל בין תבין את אשר לפניך. ושמת שכין בלועיך; ועוד כי יכוין להפנות עד שיוכל לאכול שנית מהתאוות לו, וכאלו הוא משפך שופך מלמעלה ויורד מלמטה וכמ"ש (ישעי' כ"ח ח') כי כל שולחנות מלטו קיא צואה בלי מקום; ועוד כי בא להקיא מרוב המאכל כאשר לא תכילנו האצטומכא כמ"ש (משלי כ"ג ח') אכלת תקיאנה. ואיה עבי הלב עד שיעזוב תורתו וישבה אלהיו? כמו שאמר (הושע י"ג ו') כמרעית' וישבעו שבעו וירם לבם על כן שכחוני.
5

E esqueceram-se, dentre os efeitos do vinho, do ressecar do cérebro, se o beberem puro, e do excessivo umedecê-lo, se o beberem misturado com água. E onde fica o seu predomínio sobre o intelecto e a sua corrupção da sabedoria? — como disse (Mishlei 20:1): “escarnecedor é o vinho, e alvoroçada é a bebida forte; e todo o que por ela se desvia não se torna sábio”. E onde fica o seu afrouxar dos tendões, e a agitação, e o aquecer do sangue, e a febre do sangue, e os abscessos, e as obstruções, e o embotamento da parede do estômago, e o golpear do fígado, e as cólicas e o ronco dos intestinos, e as grandes dores? — como disse (ali 23:29): “para quem há ai? para quem há dor?… para os que se demoram junto ao vinho”.

ושכחו ממעשה היין נגוב המוח אם ישתהו חי, והרטבתו אם ישתהו מזוג. ואיה התגברותו על השכל והפסדו את החכמה? וכמו שאמר (משלי כ' א') לץ היין הומה שכר כל שוגה בו לא יחכם. ואיה הרפותו את הגידים והרעישה והמית הדם וקדחת הדם והמורסות והסמטות, וכהות שטח האצטומכא והכשת הכבד וגריד' שריקת המעים והמכאובים הגדולים? וכמו שאמר (שם כ"ג כ"ט) למי אוי למי אבוי למאחרים על היין.
6

E onde ficam as transgressões e as abominações — o aformosear de tudo o que é vergonhoso e o permitir de tudo o que é proibido —, enquanto o vinho caminha no corpo do homem pouco a pouco? — como disse (ali 23:32-33): “e o seu fim é como a mordida da serpente, que morde, e como a víbora que injeta veneno; os teus olhos verão coisas estranhas”. E onde ficam o matar de pessoas, e os golpes, e a prisão, e o grilhão, e o castigo? — não estão nele no vinho? E onde ficam todos os caminhos da fraude, e dos ardis, e da perdição? — não é senão nele? E quem habituou a si mesmo a apoiar-se na comida e na bebida permitidas, e depois não as alcança licitamente, toma-as de onde as achar (ilicitamente), como disse (ali 4:17): “pois comem o pão da maldade, e bebem o vinho das violências”.

ואיה העברות והתועבות, ליפות כל גנות והתר כל איסור, והוא מתהלך בגוף האדם מעט מעט, וכמו שאמר (שם ל"ב) ואחריתו כנחש ישך וכצפעוני יפריש עיניך יראו זרות. ואיה הריגת הנפש והמכות והמאסר והכבל והענש, הלא בו? ואיה כל דרכי האונאה והתחבולות והאבדן, כי אם בו? ומי שהרגיל את עצמו לסמוך על המאכל והמשתה מהתירם ולא יגיע אליהם, יקחם מאשר ימצא, כמו שאמר (שם ד' י"ז) כי לחמו לחם רשע ויין חמסים ישתו.
Nota — o vinho: prazer que vira veneno Saadiá dedica ao vinho uma análise à parte, quase médica. Reconhecido o seu encanto (cap. anterior), enumera agora o reverso: seca o cérebro, “escarnece” da razão e arruína a sabedoria (Mishlei 20:1); afrouxa os nervos, inflama o sangue, gera febres, abscessos e dores (23:29); e, sobretudo, “aformoseia tudo o que é vergonhoso e permite tudo o que é proibido”, deslizando “pouco a pouco” pelo corpo até morder “como a serpente” (23:32-33) — desembocando em crime, prisão e fraude. É a anatomia da embriaguez como porta dos outros vícios. E, no fecho, a regra de ouro: comida e bebida são bons na medida que sustenta o corpo — soltar o apetite quando convém, contê-lo uma vez saciado.
7

Mas eles a comida e a bebida são bons para o homem, no tomar deles um pouco, conforme o que sustente o seu corpo, como está escrito (Mishlei 13:25): “o justo come para a satisfação da sua alma”; e, quando o homem vir, no seu intelecto, haver lugar para isso, há de soltar o apetite da comida e da bebida; e, quando tiver o seu sustento, há de contê-lo.

אבל הם טובים לאדם לקחת מהם מעט כפי מה שיעמיד גופו, כמ"ש (משלי י"ג כ"ה) צדיק אוכל לשובע נפשו, וכאשר יראה בשכלו מקום לזה, ישלח תאות המאכל והמשתה, וכאשר יהיה לו מזונו יעצרנה:

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O apetite, na sua melhor defesa

Fiel ao método, Saadiá começa pelos argumentos dos que fazem do comer e beber o eixo da existência — e são fortes: a vida depende do alimento, a fome embota a mente e a alma, a Escritura promete pão e água ao justo, e “o vinho alegra o coração do homem”. Reconhecer a verdade parcial de cada paixão é o que dá peso à crítica que vem depois.

Quando a mesa vira armadilha

A galeria de imagens é memorável: o glutão como cão voraz, como fogo, como a morte insaciável, como a sanguessuga. O excesso adoece o corpo, embrutece o caráter e — observação aguda — torna o homem avarento, de olho mau até para um pedaço de pão. Quanto ao vinho, Saadiá faz quase um tratado médico-moral: seca o cérebro, escarnece da razão, gera doenças e, deslizando “pouco a pouco”, “aformoseia o vergonhoso” e abre a porta ao crime — “no fim, morde como a serpente”.

Comer para viver

A conclusão é sóbria e libertadora: nem o jejum perpétuo dos ascetas (cap. 4), nem a glutonaria — mas “comer para a satisfação da alma” (Mishlei 13:25), o bastante para sustentar o corpo. A razão decide a hora de soltar o apetite e a hora de contê-lo. O prazer da mesa não é condenado; é posto no seu lugar — a serviço da vida, não como senhor dela.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 5, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Shemot 23:25; Vayicrá 25:19; Tehillim 104:15; Yeshayahu 56:11; 9:18; 28:8; Chavakuk 2:5; Mishlei 30:15-16; 23:7; 23:1-2; 23:8; 20:1; 23:29; 23:32-33; 4:17; 13:25; Hoshea 13:6. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 6

O Desejo Conjugal e a sua Medida

שַׁעַר הַמִּשְׁגָּל — הַתַּאֲוָה וּמְקוֹמָהּ בְּקִיּוּם הַזֶּרַע

A terceira disposição: o desejo conjugal. Saadiá expõe, sem falso pudor, o caso de quem o exalta — prazer insubstituível, saúde, e a causa da própria continuidade da vida, que a Escritura não trata como vergonha — e depois mede-o: a crítica realista ao excesso (danos ao corpo e ao juízo, a escravidão de um fogo que nunca se sacia, a desonra) e o seu lugar próprio — a procriação, com juízo.

1

A terceira disposição: o capítulo da relação conjugal. Viram certos homens que a relação conjugal deveria ser preferida a todos os amores do mundo, e que tem um deleite maior do que todo deleite que há no mundo; pois, para as demais coisas, há algo que as substitua, mas para esta não há nada que a substitua; e disseram que ela acrescenta à alegria da alma e a fortalece, e alivia a plenitude dos humores, sobretudo da cabeça e do cérebro; e aplaca a ira do homem e afasta dele as inquietações, e é útil contra a doença da bílis negra, chamada melancolia; e — o maior dos seus aspectos — que ela é a causa de existir o homem racional e sábio, e não há causa para a união social dos homens e a sua amizade senão por ela; e disseram que, se fosse coisa vil, o Criador a teria vedado aos Seus profetas e mensageiros — não vês que um deles disse “dá-me a minha mulher” (Bereshit 29:21), sem nenhuma vergonha, e um outro disse “e cheguei-me à profetisa” (Yeshayahu 8:3), sem nenhum constrangimento?

השלישי שער המשגל. ראו אנשים כי המשגל ראוי שיהיה נבחר על כל אהבות העולם, וכי יש לו ערבות יותר גדול מכל ערבות שבעולם; כי לכל יש דבר שיעמוד במקומו, וזה אין דבר שיעמוד במקומו; והוא מוסיף בשמחת הנפש ויחזקנה, ומקל מלאות כל שכן מן הראש ומן המוח; והוא מניח כעס האדם ומעביר מעליו דאגות, ומועיל מחלי המרה השחורה הנקרא מלאנכוליא; והגדול שבדברים שהוא סבת היות האדם המדבר החכם, ואין סבת התחברות בני האדם ורעותם כי אם בו; ואלו היה דבר מגונה, היה הבורא מונע ממנו נביאיו ושלוחיו, הלא תראה כי קצתם אמר הבה את אשתי (בראשית כ"ט כ"א) מאין בשת, ואחר אמר ואקרב אל הנביאה (ישעי' ח' ג') מאין הכלם.
Nota — a disposição da união conjugal, sem falso pudor A terceira disposição é o desejo sexual (mishgal). Saadiá expõe, com franqueza notável para a época, o caso dos que a exaltam: é o prazer mais intenso e “insubstituível”, alegra a alma, alivia humores e melancolia, é a causa da própria continuidade da espécie e do laço social — e, decisivamente, não é coisa vergonhosa, pois a Escritura mostra profetas que a ela se referem sem pudor (Yaakov, “dá-me a minha mulher”, Bereshit 29:21; Yeshayahu, “cheguei-me à profetisa”, 8:3). Como nas outras paixões, Saadiá afirma a legitimidade do impulso antes de o medir — recusando de saída qualquer condenação do corpo.
2

E investiguei estas palavras, e achei nelas erro; e ainda mais: que deixaram de lado os seus danos e a sua vileza. Pois o excesso prejudica os olhos, e remove o apetite da comida e da bebida, e abate a força, e muitas vezes traz a tísica consumpção, a dor dos lombos e os males do ventre, e arruína o corpo e o consome depressa, e apressa a velhice; e a esse respeito se disse (Mishlei 31:3): “não dês o teu vigor às mulheres”. E onde ficam a perturbação do coração, e a confusão da mente, e o turvar dos olhos, e a como que morte da alma, senão com ele o excesso? — como está escrito (Hoshea 4:11): “a prostituição, o vinho e o mosto tomam o juízo”.

וחקרתי דברי אלה, ומצאתי בהם טעות; ועוד כי הניחו נזקיו וגנותו מהם, כי הוא מזיק לעינים, ומסיר תאות המאכל והמשתה, ומפיל הכח, והרבה פעמים מביא השחפת וכאב החלצים וחלל הבטן, והורס הגוף ומכלהו מהרה וימהר הזקנה, ובו נאמר (משלי ל"א ג') אל תתן לנשים חילך. ואיה טרדת הלב ובלבול הדעת ועמימות העינים והמית הנפש כי אם עמו, וכמ"ש (הושע ד' י"א) זנות יין ותירוש יקח לב.
Nota — o preço do excesso: corpo e juízo A crítica de Saadiá é realista e quase clínica. O excesso sexual prejudica a visão, tira o apetite, abate a força, e “muitas vezes traz a tísica, a dor dos lombos, os males do ventre”, arruína o corpo e “apressa a velhice” — daí “não dês o teu vigor às mulheres” (Mishlei 31:3). E não só o corpo: perturba o coração, confunde a mente, “toma o juízo” (Hoshea 4:11). Pior, é uma escravidão sem saciedade — o fogo, mal satisfeito, “arde de novo como no início” (Hoshea 7:4). A obsessão sexual promete prazer e entrega dependência, doença e degradação.
3

E aquele cujo coração está preso nela (na luxúria) não encontra descanso da chama do seu fogo senão no próprio momento em que alcança o seu desejo; e, logo que satisfaz o seu desejo, arde o seu fogo de novo como no início, como está escrito (Hoshea 7:4): “todos eles são adúlteros, como um forno aceso pelo padeiro”. E onde ficam a imundície e a sujeira — a tal ponto que, assim que o homem tome consciência e tenha um pouco de juízo, as suas próprias vestes o abominam, ainda que ele se lavasse todos os seus dias —, como disse aquele Iyov (Iyov 9:30-31): “ainda que eu me lavasse com água de neve” etc., “então me mergulharias na imundície, e as minhas próprias vestes me abominariam”?

ומי שלבו עליו לא ינוח להב אשו כי אם בעת הגעתו אל חפצו בלבד, וכאשר יעשה חפצו תבער אשו כבתחלה, כמ"ש (הושע ז' ד') כלם מנאפים כמו תנור בוערה מאופה. ואיה הטנוף והלכלוך, עד אם ירגיש ויהיה לו מעט דעת, יהיו שלמותיו מתעבים אותו, אפילו אם התרחץ כל ימיו, כמי שאמר (איוב ט' ל' ל"א) אם התרחצתי במי שלג וגו' אז בשחת תטבלני ותעבוני שלמותי.
4

E onde ficam a vergonha, o desprezo e a chaga — e o fato de que a sua memória infame permanecerá até o fim dos dias e o término dos tempos —, como disse (Mishlei 6:32-33): “o que adultera com uma mulher é falto de juízo… chaga e ignomínia achará, e a sua afronta não se apagará”? E onde fica a ilusão de ele considerar todos os homens cegos e surdos, a ponto de praticar toda torpeza à vista de todos, imaginando que eles não sabem — como disse (Yirmeyahu 13:27): “os teus adultérios e os teus relinchos, a infâmia da tua prostituição”?

ואיה החרפה והבוז והנגע, ומה שישאר זכרו עד אחרית הימים וסוף הזמנים, וכמו שאמר (משלי ו׳:ל״ג ל"ב ל"ג) נואף אשה חסר לב וגו' נגע וקלון ימצא וחרפתו לא תמחה. ואיה שיחשוב כל בני אדם עורים וחרשים עד שיחשוב כל גנות בגלות, ויחשוב שאינם יודעים, וכמו שאמר (ירמי' י"ג כ"ז) נאופיך ומצהלותיך זמת זנותך.
5

E onde fica o fato de que tal homem faz da sua casa um covil para todo escarnecedor, e todo adúltero, e todo salteador e destruidor, e já não é mais guardião dela — como disse (ali 5:7): “e embora eu os tivesse fartado, eles adulteraram, e em casa de meretriz se ajuntavam em tropel”? — e com isso causa, a si e aos seus filhos, o não ter um filho íntegro legítimo, assim como ele próprio causou isto mesmo a outrem — pois é medida por medida, como disse (Iyov 31:9-10): “se o meu coração se deixou seduzir por outra mulher… que a minha mulher sirva a outro, e sobre ela se curvem outros”.

ואיה שישים ביתו מעון לכל לץ ולכל נואף ולכל לסטם ומשחית ואיננו שוער, וכמו שאמר (שם ה' ז') ואשביע אותם וינאפו ובית זונה יתגודדו, וגורם לעצמו ולבניו שלא יהיה לו בן כשר, כמו שגרם הוא לזולתו מעצמו כזה, שהוא מדה כנגד מדה, וכמו שאמר (איוב ל"ט א' י') אם נפתה לבי על אשה, תטחן לאחר אשתי ועליה יכרעון אחרין.
6

E este desejo não é bom para o homem senão para erguer por ele a descendência a procriação, como disse (Bereshit 9:7): “e vós, frutificai e multiplicai-vos”; e há de soltá-lo com juízo, no momento em que é cabível, e contê-lo para não o multiplicar em excesso.

ואין התאוה הזאת טובה לאדם כי אם להקים בה זרע, וכמו שאמר (בראשית ט' ז') ואתם פרו ורבו, וישלחנה בדעת בעת שהיא ראויה, ויעצרנה מהרבות:
Nota — o lugar próprio: a procriação, com medida Depois do retrato severo do excesso (incluindo a desonra que “não se apaga”, a casa que vira covil, e o princípio medida por medida de Iyov 31), vem a regra positiva, e ela é sóbria, não ascética: o desejo “é bom para o homem” — tem o seu valor —, ordenado sobretudo à procriação, “frutificai e multiplicai-vos” (Bereshit 9:7). A razão decide a hora própria de soltá-lo e o dever de contê-lo do excesso. Coerente com todo o tratado, Saadiá nem demoniza o sexo nem o idolatra: dá-lhe o seu lugar legítimo dentro de uma vida equilibrada.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Nem vergonha, nem ídolo

O capítulo é notável pela franqueza. Saadiá recusa de saída a ideia de que o desejo conjugal seja algo “vil”: os próprios profetas a ele se referem sem pudor (Bereshit 29:21; Yeshayahu 8:3). Reconhece os seus bens reais — prazer, saúde, alívio da melancolia, e sobretudo a continuidade da espécie e do laço humano. Esta afirmação do corpo distingue a ética de Saadiá de qualquer puritanismo.

A escravidão de um fogo que não se apaga

Mas a paixão tomada como fim em si destrói. Saadiá descreve, com realismo médico, os danos do excesso ao corpo (vigor, visão, doenças, velhice precoce) e ao juízo — “tomam o entendimento” (Hoshea 4:11). E nomeia a sua pior face: a dependência. Mal saciado, “o fogo arde de novo como no início” (Hoshea 7:4). A promessa de prazer entrega, na verdade, inquietação sem fim, imundície e desonra “que não se apaga”.

Procriar, com juízo

A regra final é, de novo, equilíbrio e não renúncia: o desejo “é bom para o homem”, ordenado sobretudo a “frutificai e multiplicai-vos” (Bereshit 9:7); a razão decide a hora própria de o exercer e o dever de o conter. E ressoa, no aviso contra o adultério, o princípio medida por medida (Iyov 31): quem profana o lar alheio compromete o próprio. Mais uma vez, a virtude está em dar à força da alma o seu lugar — nem reprimi-la, nem servi-la.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 6, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Bereshit 29:21; 9:7; Yeshayahu 8:3; Mishlei 31:3; 6:32-33; Hoshea 4:11; 7:4; Iyov 9:30-31; 31:9-10; Yirmeyahu 13:27; 5:7. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 7

A Paixão, e o Amor no seu Lugar

שַׁעַר הַחֵשֶׁק — הַתְּשׁוּקָה הַמְשַׁעְבֶּדֶת וּמְקוֹמָהּ בָּאַהֲבָה

A quarta disposição: o amor apaixonado (cheshek). Saadiá cataloga e refuta as teorias que o exaltam — a natureza, os astros, o mito das “almas-gêmeas”, a prova divina —, traça o retrato clínico da paixão obsessiva que escraviza, adoece e até mata, e fixa o seu lugar próprio: o amor mútuo entre marido e mulher, vivido com juízo.

1

A quarta disposição: o capítulo do amor apaixonado (cheshek, a paixão). Este capítulo, ainda que seja vergonhoso de mencionar, não é mais vil do que as opiniões dos negadores de D'us; e, assim como, mesmo assim, nós as mencionámos para refutá-las — e para que a dúvida se afastasse do coração —, também mencionaremos este assunto, igualmente, para refutá-lo, e para que a dúvida se afaste do coração. Há homens que veem no amor apaixonado algo melhor do que tudo com que o homem se conduz, e pensam que ele purifica o espírito e o temperamento, a ponto de a alma tornar-se pura, a flutuar acima do corpo pela sua pureza; e pensam que é coisa sutil em extremo. E alguns o atribuem à ação da natureza, e dizem que ele é um fluxo vertido ao coração: o seu início é o olhar, e depois a esperança, e depois a fixação, e depois vêm ajudá-lo outros influxos, e ele se consolida. E outros subiram disto a um nível acima, a ponto de o atribuírem à ação dos astros, e disseram que, quando os signos zodiacais das pessoas se equivalem, e se relacionam um ao outro em ângulo de um terço ou de um sexto, então domina sobre as duas porções dos seus amores um único astro, que determina entre eles o amor e a convivência. E outros subiram disto até dizerem que ele é obra do Criador, bendito seja, e alegaram que Ele criou os espíritos dos criados como esferas redondas, e os dividiu em dois, e põe cada metade num homem; e, por causa disto, quando cada metade encontra a sua outra metade, ela se apega a ela. E outros subiram disto até o porem como se fosse uma obrigação, e disseram que os homens são postos à prova neste capítulo, para que conheçam a submissão do amor, e para que se submetam a ele e o sirvam.

הרביעי שער החשק. השער הזה ואם הוא גנאי לזכור, איננו יותר מגונה מדעות הכופרים, אעפי"כ זכרנום להשיב עליהם, ויסור הספק מן הלב, כן נזכור את זה גם כן להשיב עליו, ויסור ספק מן הלב. יש אנשים שרואים שהחשק טוב מכל מה שיתנהג בו האדם, וחושבים כי הוא מזכך הרוח והמזג, עד שתשוב הנפש זכה צפה על הגוף מזכותה, ושהוא ענין דק עד מאד, ומשיבים אותו לפעולת הטבע, ואומרים כי הוא משך נצוק אל הלב, תחלתו ההבטה, ואחר כן תוחלת, ואחר כן קביעות, ואחר כן יעזרוהו משכים אחרים ויתקיים. ועלו מזה למעלה, עד שהשיבו אותו לפעולת הכוכבים, ואמרו כשיהיו מזלות בני אדם שוים, מביאים זה אל זה משליש או משתות, וימשול על שני חלקי אהבותם כוכב אחד מחייב ביניהם האהבה והחברה. גם עלו מזה עד שאמרו שהוא פעל הבורא יתברך, וטענו שהוא ברא רוחות הנבראים ככדורים עגולים, וחלק אותם לשנים, ומשים כל חלק באדם אחד, ובעבור זה כשימצא כל חלק את חלקו הוא נתלה בו. גם עלו מזה עד ששמוהו כמו חובה ואמרו כי נסו בני אדם בשער הזה, כדי שידעו כניעת האהבה ויכנעו לו ויעבדוהו.
Nota — a disposição do amor apaixonado (cheshek), e as suas teorias A quarta disposição é a paixão (cheshek) — o enamoramento obsessivo. Saadiá cataloga, para refutar, as teorias que a exaltam: que ela purifica a alma; que é mera natureza (olhar → esperança → fixação); que é astral (almas de signos “alinhados” atraem-se); que é obra de D'us, que teria criado as almas como esferas partidas em duas, cada qual buscando a sua metade — o célebre mito da “alma gêmea”, eco do discurso de Aristófanes no Banquete de Platão; e até que seria uma prova imposta para ensinar a submissão do amor. Saadiá registra estas “filosofias do amor” com precisão, justamente para desmontá-las uma a uma.
2

Este povo, em tudo o que mencionou, são simplórios em quem não há juízo. E achei por bem refutá-los, neste capítulo, primeiro com uma resposta manifesta quanto àquilo em que mentiram, e depois mostrar-lhes-ei o contrário daquilo a que se apegaram. E digo que, quanto ao que disseram sobre o Criador, não é cabível que Ele ponha o homem à prova com aquilo de que Ele próprio advertiu — como está escrito (Iyov 24:12): “mas D'us não imputa a Si o absurdo”, e ainda: “pois tu não és um D'us que se compraz na maldade” (Tehillim 5:5). E quanto ao assunto da divisão das esferas, a que se apegaram: já que nós refutámos quem afirmou a pré-existência dos seres espirituais, e esclarecemos que a alma de cada homem é criada com a consumação da sua forma corpórea, fica este argumento anulado e quebrado.

העם הזה בכל מה שזכרו, פתאים אין בהם דעת. וראיתי להשיב עליהם בשער הזה בתחלה תשובה נראית במה שכזבו, ואחר כן אראה להם הפך מה שנתלו בו. ואומר כי מה שאמרו על הבורא, לא יתכן שינסה האדם במה שהזהיר ממנו, וכמ"ש (איוב כ"ד י"ב) ואלוה לא ישים תפלה, ועוד כי לא אל חפץ רשע אתה (תהלים ה' ה'). אבל ענין חלוק הכדורים אשר נתלו בו, כיון שהשיבונו על מי שאמר בקדמות הרוחניים, ובארנו כי נפש כל אדם היא נבראת עם השלמת צורתו, בטל השער הזה ושבור.
3

E quanto ao que alegaram do lado dos astros — a partir do alinhamento dos dois signos e das duas porções —, se fosse como disseram, não se acharia um Reuven que ama Shimon sem que Shimon o ame de volta, por serem astralmente iguais; e contudo nós não achamos a coisa assim (o amor não correspondido existe). E quanto ao que mencionaram, a saber, que o início é o olhar, e após ele o cair da esperança no coração, digo que é por isso mesmo que o nosso Criador nos ordenou dirigir ao Seu serviço o olho e o coração juntos — como disse (Mishlei 23:26): “dá-me, filho meu, o teu coração, e que os teus olhos guardem os meus caminhos” —, e nos advertiu de não os dirigir à Sua rebeldia, dizendo (Bemidbar 15:39): “e não andeis após o vosso coração e após os vossos olhos”.

ומה שטענו מצד הכוכבים מהפקת שני המזלות ושני החלקים, אלו היה כמו שאמרו, לא היה נמצא ראובן שאוהב את שמעון, שלא יהיה שמעון אוהב אותו מפני שהם שוים, ואין אנחנו מוצאים הדבר כן. ומה שזכרוהו כי ההתחלה הבטה ואחריה נפילת התוחלת בלב, אומר כי על כן צונו בוראנו שנשיב לעבודתו העין והלב יחד, וכמו שאמר (משלי כ"ג כ"ו) תנה בני לבך לי ועיניך דרכי תצורנה, והזהירנו מהשיבם להמרותו, באמרו (במדבר ט"ו ל"ט) ולא תתורו אחרי לבבכם ואחרי עיניכם
4

E isto não se dá senão quando este assunto a paixão se fixa no coração, e o apanha, e o domina; e aquele homem passa a privar-se da sua comida, da sua bebida e de todos os seus cuidados, até que a sua carne se consome, e o seu corpo se debilita, e nele predominam as doenças agudas. E onde ficam a chama, e o desfalecimento, e a tristeza, e a agitação, e o tremor do coração, e os desmaios, e a alternância de ardor e de frio, senão aí? — como está escrito (Hoshea 7:6): “pois o seu coração arde como um forno na sua emboscada”. E há casos em que isto sobe ao cérebro, e enfraquece a visão, e o pensamento, e a memória; e há casos em que chega a anular a sensação e o movimento; e é possível que o apaixonado veja de súbito o objeto da sua paixão e desfaleça, e que o seu espírito se oculte no seu corpo por vinte e quatro horas, e quiçá o tenham por morto e o sepultem; e é possível que aludam a ela a pessoa amada ou que ele ouça a sua menção, e então suspire um suspiro com o qual de fato morra. E assim o provérbio se prova verdadeiro, como está escrito (Mishlei 7:26): “pois a muitos feridos ela derrubou, e numerosos são todos os seus mortos; os seus pés descem para a morte”.

ואין זה כי אם עד שיקבע הענין הזה בלב ויתפשהו וימשול בו, ומקצר האדם ההוא ממאכלו וממשתהו ומכל תקנותיו, עד שימק בשרו וידל גופו וישלטו בו החליים החדים. ואיה הלהב והגויעה והיגון וההמיה, ונדנוד הלב וההתעלפות והקיצה והאסטנינות, וכמ"ש (הושע ז' ו') כי קרבו כתנור לבם בארבם. ויש שיעלה זה אל המוח ומחליש הראות והמחשבה והזכרון, ויש שמבטל ההרגשה והתנועה, ואפשר שיראה חשוקו פתאום ויגוע ותתעלם רוחו בגופו ארבעה ועשרים שעות, ושמא יחשבוהו למת ויקברוהו, ואפשר שיבינו אליו או שישמעו זכרו ויתאנח אנחה שימות בה באמת, ויהיה המשל אמת כמ"ש (משלי ז' כ"ו) כי רבים חללים הפילה ועצומים כל הרוגיה רגליה יורדות מות.
Nota — a anatomia da paixão obsessiva Eis um dos retratos psicológicos mais impressionantes da literatura medieval. Quando a paixão “se fixa no coração e o domina”, o apaixonado abandona comida, bebida e cuidados, definha, e cai em “doenças agudas”: chama interior, desfalecimento, palpitação, desmaios, alternância de febre e frio — um quadro clínico de lovesickness. Pode perder visão, memória, sensação; desmaiar por “vinte e quatro horas” a ponto de ser tido por morto; ou morrer literalmente de um suspiro. É escravidão total — “prisioneiro, ele e o seu juízo” —, que cega o homem para D'us, para o propósito e para os dois mundos. Saadiá descreve a obsessão amorosa não como nobreza, mas como doença que dissolve a razão.
5

E como pode aceitar o homem ser prisioneiro — ele e o seu juízo —, a ponto de não reconhecer, para si mesmo, nem um D'us, nem um propósito, nem este mundo, nem outro mundo vindouro? — como está escrito (Iyov 36:13): “e os de coração ímpio acumulam sobre si ira”. E onde ficam a submissão e a servidão a ela à pessoa amada e a todos os que lhe são chegados, e o sentar-se às suas portas, e a vigília assídua junto a toda a sua morada? — como disse (Yirmeyahu 3:2): “levanta os teus olhos para os altos desnudos e vê: onde foi que não te deitaste? junto aos caminhos te sentaste à espera deles”. E onde ficam o andar de noite e o postar-se ao amanhecer, e o esconder-se de todo ser vivo — para que este não o encontre, pois ele morre muitas mortes (morre de vergonha) a cada humilhação? — como disse (Iyov 24:15): “e o olho do adúltero guarda o crepúsculo, dizendo: ‹nenhum olho me divisará›”.

ואיך יהיה האדם אסיר הוא ודעתו, עד שלא ידע לעצמו אלוה ולא ענין ולא עולם זה ולא עולם בא זולתו. וכמ"ש (איוב ל"ו י"ג) וחנפי לב ישימו אף. ואיה הכניעה והעבודה לו ולכל הנלוים אליו, והישיבה על הפתחים והשקידה על כל נוה, וכמו שאמר (ירמי' ג' ס') שאי עיניך על שפיים וראי איפה לא שכבת על דרכים ישבת להם. ואיה ההליכה בלילה והעמידה בשחרית, וההסתרות מכל חי, פן יפגעהו וימות מיתות רבות בכל כלימה וכלימה, וכמו שאמר (איוב כ"ד ט"ו) ועין נואף שמרה נשף לאמר לא תשורני עין.
6

E onde fica o matar do amante, ou do ser amado, ou de um dos grupos a eles chegados — ou deles mesmos e dos que lhes são chegados —, e quiçá com eles muitos outros homens? — como disse o provérbio (Yechezkel 23:45): “pois adúlteras são elas, e há sangue nas suas mãos”. E, se chegar um dia, dentre os dias, àquilo que ele buscou, e alcançar o resultado por causa do qual a sua alma se sujeitou a todo aquele sofrimento, a alma torna-se arrependida, abominando e desprezando aquele a quem amava — mais do que fora o seu amor por ele —, como disse (Shemuel II 13:15): “e Amnon a odiou com ódio mui grande” Amnon e Tamar. E então o homem reconhece que vendeu a sua alma, e a sua Torá, e todos os seus sentidos, e o seu intelecto — depois de cair a flecha que não tem já remédio, como disse (Mishlei 7:22-23): “ele vai após ela de repente” etc., “até que uma flecha lhe traspasse o fígado”.

ואיה הריגת החושק או החשוק או אחת מן הכתות הנלוות אליהם, או אותם ואת הנלוים אליהם, ושמא רבים מבני אדם עמם, וכמו שאמר המשל (יחזקאל כ"ג מ"ה) כי נואפות הנה ודם בידיהם. ואם יגיע יום מן הימים אל מה שבקש, ויגיע לתולדת מה שבעבורו חייבה נפשו כל הצער ההוא, תשוב מתחרטת מתעבת מואסת למי שהיתה אוהבת, יותר מאהבתה אותו, וכמו שאמר (ש"ב י"ג ט"ו) וישנאה אמנון שנאה גדולה מאד. ויכיר האדם כי מכר נפשו ותורתו וכל הרגשותיו ושכלו, אחר נפול החץ אשר אין לו חשבון, כמו שאמר (משלי ז' כ"ב כ"ג) הולך אחריה פתאום וגו', עד יפלח חץ כבדו.
7

E este assunto = a paixão não é bom senão dirigido à própria esposa do homem — aquela que ele ame e que o ame, para a perpetuação do mundo —, como disse (Mishlei 5:19): “seja ela como uma corça de amores e uma gazela graciosa; que os seus seios te saciem em todo tempo, e pelo seu amor te enleves continuamente”. E o homem há de manifestá-lo à sua esposa com juízo e com decoro, conforme o quanto lhes seja agradável a sua convivência; e há de contê-lo de tudo o que é fora disso, com firmeza e com domínio.

ואין הענן הזה טוב כי אם באשתו של אדם שיאהבה ותאהבהו ליישוב העולם, כמו שאמר (משלי ה' י"ט) אילת אהבים ויעלת חן דדיה ירווך בכל עת באהבתה תשגה תמיד, ויראהו האדם לאשתו בשכל ובכשרות, כפי אשר תנעם חברתם בה, ויעצרנה מזולת זה בגבורה ויכולת:
Nota — o amor no seu lugar: a esposa Como em todo o tratado, a refutação não termina em negação, mas em reorientação. A própria força que, descontrolada, destrói — e cujo desfecho é muitas vezes a repulsa pós-conquista (o exemplo de Amnon e Tamar, Shemuel II 13:15) — é boa quando dirigida ao seu lugar: o amor mútuo entre marido e mulher, “para a perpetuação do mundo” (Mishlei 5:19, a corça graciosa cujo amor enleva “em todo tempo”). O mesmo desejo que, idolatrado, faz o homem “vender a alma e a Torá”, santifica-se no laço conjugal vivido “com juízo e decoro”. Não se mata a paixão: dá-se-lhe a sua morada legítima e contém-se o resto “com firmeza”.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

As filosofias do amor, e a sua queda

Saadiá faz algo raro: cataloga as teorias românticas da sua época para examiná-las à luz da razão. A paixão seria pureza? natureza? destino dos astros? reencontro de almas partidas — o mito da “metade que nos falta”, eco de Platão? ou prova enviada por D'us? A todas responde: D'us não testa ninguém com o que proíbe (Iyov 24:12); a alma não preexiste, é criada com o corpo; e a existência do amor não correspondido já desmente a astrologia. O olhar e o coração, donde nasce a paixão, foram-nos dados para servir a D'us (Mishlei 23:26), não para nos perder (Bemidbar 15:39).

O retrato da obsessão

Segue-se uma das mais agudas descrições de lovesickness da literatura medieval: o apaixonado definha, é tomado de febre, palpitação e desmaios, perde memória e sentidos, pode desmaiar por um dia inteiro e ser tido por morto, ou morrer de um suspiro. É “prisioneiro, ele e o seu juízo”, cego para D'us e para os dois mundos. Saadiá vê a obsessão amorosa não como sublimidade, mas como enfermidade que dissolve a razão — e cujo fim, alcançado o objeto, é com frequência a repulsa (Amnon e Tamar).

Da doença ao laço

E, de novo, o equilíbrio: a mesma força que, idolatrada, faz “vender a alma e a Torá”, é boa no seu lugar — o amor entre marido e mulher, “para a perpetuação do mundo” (Mishlei 5:19). Vivido com juízo e decoro, o desejo deixa de ser tirano e torna-se vínculo. Saadiá não prega a frieza; prega a direção certa do calor — recusar a obsessão, abraçar o amor.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 7, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Iyov 24:12; 36:13; 24:15; Tehillim 5:5; Mishlei 23:26; 7:26; 7:22-23; 5:19; Bemidbar 15:39; Hoshea 7:6; Yirmeyahu 3:2; Yechezkel 23:45; Shemuel II 13:15. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 8

A Riqueza, a Ganância e a Guarda Justa

שַׁעַר קִבּוּץ הַמָּמוֹן — הַבְּצַע מוּל הַשְּׁמִירָה הַנְּכוֹנָה

A quinta disposição: o amor ao dinheiro. Saadiá expõe o seu poder real — tudo se compra com ele, reis e exércitos dependem dele, até a honra e a caridade — e depois mede-o: a ganância é insaciável “como o Sheol”, rouba o sono, gera rapina, endurece o coração ao clamor dos oprimidos e leva a “esquecer D'us”. O seu lugar próprio é guardar o que o Criador concede — pois “a bênção do Senhor enriquece, e não acrescenta dor”.

1

A quinta disposição: o capítulo do ajuntar dinheiro. Viram certos homens que o bem com que o homem deve conduzir-se neste mundo é o afã em ajuntar dinheiro e em prover todas as coisas. Dentre os seus argumentos, o que disseram: que a comida, a bebida e a união conjugal — nas quais está o bem-estar do corpo — não se alcançam senão por ele o dinheiro; e assim também por ele se fazem a compra, e a venda, e os casamentos; e todo negócio que haja entre os homens, por ele se realiza; a ponto de que os reis só reinam por ele, e não se reúnem as tropas nem se conquistam as fortalezas senão por causa dele, e os que acham tesouros não os escavam senão para deles o extrair; e não há o ir às casas dos ricos e o suplicar-lhes a face senão por causa dele, e não há dádivas, nem honra, nem caridade, nem agradecimentos senão por eles os ricos — como está escrito (Mishlei 19:6): “muitos suplicam a face do generoso”; e “e dominarás sobre muitas nações” (Devarim 15:6) — e este domínio é pelo dinheiro, como se diz (Mishlei 22:7): “o rico domina sobre os pobres”.

החמישי שער קבוץ הממון. ראו אנשים כי הטוב שיתנהג בו האדם בעולם הזה, הטורח בקבוץ הממון, והשלמת הדברים. מהם מה שאמרו כי המאכל והמשתה והמשגל אשר בהם תקנת הגוף לא יושגו כי אם בו, וכן בו יהיה המקח והממכר והנישואין, וכל עסק שיהיה בין בני אדם בו יהיה, עד שהמלכים לא ימליכום כי אם בו, ואין מקבצים החילים וכובשים המבצרים כי אם בעבורו, ולא יחפרו המוצאים המטמונים, כי אם להוציא אותו מהם, ואין ההליכה אל בתי העשירים וחלות פניהם כי אם בעבורו, ואין הנדבות והכבוד והצדקה וההודות כי אם להם, וכמ"ש (משלי י"ט ו') רבים יחלו פני נדיב, ומשלת בגוים רבים (דברים ט"ו ו'), וזאת הממשלה בממון, וכמו שנאמר (משלי כ״ב:ז׳ ז') עשיר ברשים ימשול.
Nota — a disposição da riqueza A quinta disposição é o amor ao dinheiro. Saadiá expõe, com realismo, o seu poder: tudo se compra com ele — comida, casamento, comércio —, reis reinam e exércitos marcham por ele, e até a honra e a própria caridade dependem de quem o tem. “O rico domina sobre os pobres” (Mishlei 22:7). É a paixão de aparência mais “racional” de todas — afinal, o dinheiro é meio para quase tudo. Justamente por isso Saadiá precisa mostrar por que torná-lo fim é um erro.
2

E observei as suas palavras e vi que o que há de bom nele no dinheiro é o que vem ao homem sem afã e sem fadiga; ao passo que, para quem se esforça em buscá-lo, ele vem com canseira, e com preocupação, e com aperto de espírito, e com insônias de noite e fadiga de dia — a ponto de que, se ele alcançar o que dele quer, o seu sono não se assenta, muitas vezes, como disse (Kohélet 5:11): “doce é o sono do trabalhador, quer coma pouco quer muito; mas a fartura do rico não o deixa dormir”. E, quando o homem o faz o seu alvo, o dinheiro domina sobre ele e ele o cobiça — como mencionei no capítulo da comida e da bebida —, de modo que se torna como o fogo, e como a morte, e como a madre estéril, e até mais do que eles, como disse a esse respeito (Mishlei 27:20): “o Sheol e o Abaddon não se saciam, e tampouco os olhos do homem se saciam”.

והסתכלתי בדבריהם וראיתי, שהטוב ממנו הוא מה שיבא לאדם מבלי טרח ועמל, אל מי שישתדל לדרשו, הוא ביגיעה ובמחשבה ובקוצר הרוח ובנדודים בלילה והיגיעה ביום, עד שאם יגיע למה שירצה ממנו, לא תתישב שנתו לעתים רבות, וכמו שאמר (קהלת ה' י"א) מתוקה שנת העובד אם מעט ואם הרבה יאכל והשבע לעשיר איננו מניח לו לישון. וכאשר ישימהו האדם כונתו ימשול בו ויתאוהו, כאשר זכרתי בשער האכילה והשתיה, שיהיה כאש וכמות וכעוצר רחם, גם יותר מהם, כמו שאמר בזה (משלי כ"ז כ') שאול ואבדון לא תשבענה ועיני האדם לא תשבענה.
3

E onde ficam a contenda, e a rixa, e o ódio, e a guerra — como fazem os lobos e os leõezinhos, só para arrebatarem presa? — como está escrito (Nachum 2:13): “o leão despedaçava presa em quantidade para os seus filhotes, e estrangulava para as suas leoas” etc. E onde fica o ignorar o clamor dos órfãos, e das viúvas, e dos pobres, e dos demais oprimidos — sem se voltar para eles —, senão naquele que ama o ajuntar dinheiro? — como está escrito (Kohélet 4:1): “e eis as lágrimas dos oprimidos, e não havia para eles quem consolasse”.

ואיה המריבה והתגרה והשנאה והמלחמה, כאשר יעשו הזאבים והכפירים עד שיטרפו טרף, וכמ"ש (נחום ב' י"ג) אריה טורף בדי גרותיו ומחנק ללבאתיו וגו'. ואיה סבל צעקת היתומים והאלמנות והעניים ושאר העשוקים, ואיננו פונה אליהם, כי אם מי שיאהב קבוץ הממון, וכמ"ש (קהלת ד' א') והנה דמעת העשוקים ואין להם מנחם.
4

E onde ficam o tomar indevido do dinheiro alheio, e a perda da honra, e a ruína da confiança, e o expor-se de todo segredo? — e a esse respeito disse (Hoshea 7:1): “e se revelou a iniquidade de Efráyim, e as maldades de Shomron, pois praticaram a falsidade; e o ladrão entra, e a horda de salteadores despoja por fora”. E onde ficam a violação dos prazos acordados e os juramentos falsos, até que a justiça se perca por completo? — como disse (Yirmeyahu 7:28): “pereceu a fidelidade, e foi cortada da sua boca”. E, quando o dinheiro lhe vem conforme o seu desejo, ele confia nele, e esquece o seu D'us, e nega Aquele que o agraciou com o dinheiro, como disse (Devarim 8:13-14): “e quando a prata e o ouro se multiplicarem para ti” etc., “e se exaltar o teu coração, e tu te esqueceres do Senhor teu D'us”.

ואיה לקיחת הממון והפסד הכבוד ואבוד האמונה וגלות כל מסתור, ובו אמר (הושע ז' א') ונגלה עון אפרים ורעות שומרון כי פעלו שקר וגנב יבא פשט גדוד בחוץ. ואיה העברת המועדים ושבועות השקר עד שיעדר הצדק לגמרי, כמו שאמר (ירמי' ז' כ"ח) אבדה האמונה ונכרתה מפיהם. וכאשר יבא לו הממון כחפצו, בוטח בו ושוכח אלהיו וכופר במי שחננו הממון, כמו שאמר (דברים ח' י"ג י"ד) וכסף וזהב ירבה לך וגו' ורם לבבך ושכחת את יי' אלהיך.
Nota — o que a ganância custa: paz, justiça e fé A crítica de Saadiá é tão social quanto espiritual. A obsessão pelo dinheiro é insaciável — “o Sheol e o Abaddon não se saciam, e nem os olhos do homem” (Mishlei 27:20) — e rouba o sono ao próprio rico (Kohélet 5:11). Mas o seu preço maior recai sobre os outros: gera contenda e rapina “como lobos”, e endurece o coração ao “clamor dos órfãos, das viúvas e dos oprimidos” (Kohélet 4:1). E corrói a alma: leva ao roubo, ao juramento falso, à ruína da confiança “até que a justiça se perca” (Yirmeyahu 7:28), e por fim a confiar no dinheiro e “esquecer o seu D'us” (Devarim 8). A avareza não é só vício privado — é injustiça e idolatria.
5

E há muitas vezes em que o dinheiro é a causa do seu próprio morrer e perder-se — quer por salteadores, quer pelo poder governante e coisas semelhantes a isto —, e então ficam, ele e os seus filhos, faltos de tudo, como disse (Kohélet 5:12-15): “há riqueza guardada pelo seu dono para o seu próprio mal”; “como saiu do ventre da sua mãe assim voltará”; “também isto é um mal doentio”. E, se a riqueza permanecer na sua mão até o tempo da sua morte, o pai levará consigo a iniquidade do mal dinheiro para a sepultura, e suportará a sua culpa, como está escrito (Yechezkel 18:18): “o seu pai, porque praticou opressão” etc.; e a deixará a um filho indigno, a quem não haverá bênção, como está escrito (Mishlei 20:21): “herança adquirida às pressas no princípio — mas o seu fim não será abençoado”.

ויש פעמים רבות שיהיה הממון סבת הריגתו ואבדו, אם בלסטים או בשלטון והדומה לזה, וישאר הוא ובניו חסרי כל, וכמו שאמר (קהלת ה' י"ב-ט"ו) עושר שמור לבעליו לרעתו, כאשר יצא מבטן אמו, גם זו רעה חולה; ואם ישאר בידו עד עת מותו, ישא האב עון הממון עמו אל הקבר, ויסבול אשמתו, כמ"ש (יחזקאל י"ח י"ח) אביו כי עשק עושק וגו', ויניח לבן פחות אשר לא יהיה לו ברכה, כמ"ש (משלי כ' כ"א) נחלה מבוחלת [מבוהלת] בראשונה ואחריתה לא תבורך.
6

Mas o homem foi posto a amar o dinheiro a fim de guardar o que o Criador o agraciou, e não o perder para outrem, como disse (Mishlei 10:22): “a bênção do Senhor é a que enriquece, e Ele não acrescenta dor com ela”.

אבל הושם האדם לאהוב הממון לשמור מה שחננו הבורא ולא יאבדהו לזולתו, כמו שאמר (משלי ו' כ"ב) ברכת יי' היא תעשיר ולא יוסיף עצב עמה:
Nota — o lugar do dinheiro: guardar o que D'us concede Depois de mostrar que a riqueza mal-amada mata o seu dono, arruína os herdeiros e segue o pai “até a sepultura” como culpa, Saadiá dá a regra positiva, breve e luminosa: o homem foi feito para amar o dinheiro apenas como guarda do que o Criador lhe deu — não para acumulá-lo sem fim nem para perdê-lo. E o critério decisivo é a origem: “a bênção do Senhor é a que enriquece, e não acrescenta dor com ela” (Mishlei 10:22). A riqueza honesta e moderada é dádiva sem amargura; a buscada com avidez vem sempre acompanhada de “dor”. O dinheiro é bom servo e péssimo senhor.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A paixão de aparência mais razoável

De todas as inclinações, o amor ao dinheiro parece o mais defensável — afinal, ele é meio para quase tudo: alimento, casamento, comércio, poder, e até a caridade. Saadiá concede esse poder sem rodeios. Mas é justamente por o dinheiro ser um meio universal que a tentação de fazê-lo fim é tão perigosa: confunde-se o instrumento com o objetivo da vida.

O custo da avareza: o eu, o próximo e D'us

A crítica corre em três frentes. Contra o próprio: a cobiça é insaciável como o Sheol (Mishlei 27:20) e tira o sono ao rico (Kohélet 5:11). Contra o próximo: gera rapina “como lobos” e surdez ao “clamor dos órfãos e oprimidos” (Kohélet 4:1) — Saadiá insere aqui uma forte denúncia social. Contra D'us: leva ao roubo, ao perjúrio, ao colapso da justiça e, por fim, a confiar no ouro e “esquecer o Senhor” (Devarim 8). E ainda destrói o seu dono — pelo medo, pelos ladrões, pela herança maldita deixada a um filho indigno.

O dinheiro como guarda, não como deus

A regra final é sóbria e equilibrada: amar o dinheiro o bastante para guardar o que D'us deu — não acumulá-lo sem fim, não dilapidá-lo. O critério é a origem e a paz que o acompanha: “a bênção do Senhor é que enriquece, e não acrescenta dor com ela” (Mishlei 10:22). A riqueza honesta vem sem amargura; a buscada com avidez traz sempre a sua “dor”. Bom servo, péssimo senhor.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 8, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Mishlei 19:6; 22:7; 27:20; 20:21; 10:22; Devarim 15:6; 8:13-14; Kohélet 5:11; 5:12-15; 4:1; Nachum 2:13; Hoshea 7:1; Yirmeyahu 7:28; Yechezkel 18:18. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 9

Os Filhos, a sua Criação e a Herança do Senhor

שַׁעַר הַבָּנִים — הָאַהֲבָה, הַגִּדּוּל וְנַחֲלַת יְיָ

A sexta disposição: o desejo de filhos. Saadiá expõe a sua bela defesa — alegria, continuidade do mundo, amparo na velhice, e o fato de que até os maiores profetas os imploraram — e depois acrescenta a nota educativa: ter filhos não basta sem meios e formação. Sem esquecer a face amarga (as dores do parto, o luto, os filhos desviados), conclui que o pai foi posto a amá-los e criá-los como herança do Senhor.

1

A sexta disposição: o capítulo dos filhos. Viram outros homens ser conveniente esforçar-se em buscar ter filhos, e disseram que há nisto alegria para a alma, e deleite para o olho, e regozijo e júbilo; e que, não fossem os filhos, não haveria seres humanos, nem subsistiria o mundo; e que eles são o tesouro do homem para o tempo da velhice, e os que o recordam para o bem depois da sua morte; e que a benevolência e a misericórdia não são senão para eles, e a honra e o apreço, também para eles. E basta como argumento que todo homem honrado dentre os profetas os pediu — como achas Abraão dizendo (Bereshit 15:3): “eis que a mim não me deste descendência”; e disse a Torá: “e Yitzchak suplicou ao Senhor em favor da sua mulher, pois ela era estéril” (ali 25:21); e disse Rachel: “dá-me filhos; e, se não, estou morta eu” (ali 30:1). E, por vezes, o pai lhes ensina a Torá de D'us, bendito e exaltado seja, e os Seus estatutos e os Seus mandamentos, e adquire por eles (por meio deles) recompensa, como disse (Yeshayahu 38:19): “o pai aos filhos dará a conhecer a tua verdade”.

הששי שער הבנים. ראו אנשים אחרים שישתדלו בקשת הבנים, ואמרו שיש בזה שמחה לנפש ומחמד לעין וששון וגילה, ולולי הבנים לא היו בני אדם, ולא יתקים העולם, והם הסגלה לאדם לעת הזקנה, והזוכרים אותו בטוב אחר מותו; ושהחנינה והרחמים אינם כי אם להם, והכבוד והיקר להם. ודי כי כל נכבד מן הנביאים שואל אותם, כאשר תמצא אברהם אומר (בראשית ט"ו ג') הן לי לא נתת זרע, ואמרה התורה ויעתר יצחק ליי' לנוכח אשתו כי עקרה היא (שם כ"ה כ"א), ואמרה רחל הבה לי בנים ואם אין מתה אנכי (שם ל' א'); ופעמים מלמדו האב תורת האלהים יתברך ויתעלה וחקיו ומצותיו, יקנה בם שכר, כאשר אמר (ישעי' ל"ח י"ט) אב לבנים יודיע אל אמתך.
Nota — a disposição dos filhos A sexta disposição é o desejo de ter filhos. Saadiá expõe-lhe a defesa, e ela é terna e poderosa: alegria da alma, deleite dos olhos, a continuidade da própria humanidade, o amparo na velhice e a boa memória após a morte. E o argumento de autoridade é forte: os maiores profetas imploraram por filhos — Abraão (“não me deste descendência”, Bereshit 15:3), Yitzchak e Rivká, e o grito de Rachel “dá-me filhos, ou morro” (30:1). Acrescente-se a recompensa de ensinar-lhes a Torá (Yeshayahu 38:19). Poucas paixões parecem tão santas — e por isso Saadiá precisa de cuidado ao medi-la.
2

E observei o que disseram, e vi que é correto quanto aos filhos que o Criador os agracia para O servir conforme a Sua vontade; e o ponto do erro destes que os exaltam como tudo é que impõem o propósito só deste capítulo, sem as demais coisas. E digo: que proveito há neles, se não tiverem alimento, e vestimenta, e abrigo? E que bem há em os criar, se não tiverem sabedoria e conhecimento? E que vale a benevolência para com eles e a compaixão por eles, na falta destas coisas? — não são senão acréscimo à dor dos pais. E onde está o seu apreço e a sua honra — o esperar-se deles alguma coisa —, quando não tiverem fundamentos (boa formação)?

והשתכלתי במה שאמרו, וראיתיו נכון בבנים שיחנם הבורא לעבדו כרצונו; ומקום טעות אלה, שמחייבים כונת זה השער לבדו, מבלי שאר הדברים. ואומר מה תועלת יש בהם אם לא יהיה להם מזון וכסות ומחסה, ומה טוב יש בגדולם אם לא יהיה להם חכמה ומדע? ומה היא חנינתם והחמלה עם העדר אלה הדברים? רק תוספת בצער האבות; ואנה הוא יקרם וכבודם, שיקוה מהם דבר, כשלא יהיה להם הקדמות?
Nota — ter filhos não basta; é preciso formá-los A ressalva de Saadiá é profundamente educativa. Ele concorda que os filhos são um bem — “quando o Criador os agracia para O servir”. O erro é fazer do mero ter filhos o fim de tudo, esquecendo o resto. Pois “que proveito há neles, se não tiverem alimento, vestimenta e abrigo? que bem há em criá-los, se não tiverem sabedoria e conhecimento?”. Filhos sem sustento e sem formação não são bênção, mas “acréscimo à dor dos pais”. O valor não está em gerar, e sim em criar bem — dar-lhes meios e, sobretudo, saber e caráter.
3

E onde ficam a dor da gravidez, e as dores (contrações) do parto, e o que ocorre da sua doença da parturiente? — como disse (Bereshit 3:16): “com dor darás à luz filhos”. E quiçá a mãe morra no tempo do seu parto, e a alegria se torne em luto, como disse (Bereshit 35:18): “e sucedeu, ao sair-lhe a alma, pois morreu” Rachel. E onde ficam a canseira do pai, e a sua fadiga, e o seu entrar em todo tipo de perigo, senão por causa do alimento dos seus filhos? — como disse (Iyov 39:30): “e os seus filhotes sorvem sangue”. E onde ficam a aflição de os criar, e o cuidar da sua doença, e o preparar dos remédios, e o guardar da água de cevada, e o aprontar das beberagens, senão com eles, na maior parte do tempo?

ואיה צער ההריון וחבלי הלידה ומה שיקרה מן חליה, וכמו שאמר (בראשית ג' ט"ו) בעצב תלדי בנים. ושמא תמות בעת לדתה ותשוב השמחה לאבל, כמו שאמר (בראשית ל"ה י"ח) ויהי בצאת נפשה כי מתה. ואיה יגיעת האב ועמלו והכנסתו בכל סכנה כי אם על מזון בניו, כמו שאמר (איוב ל"ט ל') ואפרוחיו יעלעו דם. ואיה צער הגדול והנהגת החלי ותקון הרפואות ושמירת מי השעורים והכנת המשקים, כי אם עמהם ברוב.
4

Tanto mais grave é que o fim do assunto pode ser a morte e o luto perder um filho — e este é o “ai” e o “ai de mim” —, como disse (Hoshea 9:12): “pois, ainda que ali criem os seus filhos, eu os privarei deles, até não restar homem”. E, se os filhos viverem, o temor do que os varões dentre eles venham a fazer não o deixa dormir, como está escrito (Mishlei 19:26): “o que despoja o pai e faz fugir a mãe é um filho que envergonha e desonra”; e o temor do que possa suceder às fêmeas dentre eles é vergonha perpétua e afronta do rosto, como disseram os nossos mestres (Sanhedrin 100b): “do seu medo por ela, o pai não dorme de noite”. E, em suma, se forem rebeldes, perde-se a esperança — quanto mais se forem malvados; e sobre eles disse (ali 30:11): “há uma geração que amaldiçoa o seu pai e não bendiz a sua mãe”.

כל שכן שאחרית הענין למות ולשכול, והוא האוי והאבוי, כמו שאמר (הושע ט' י"ב) כי שם יגדלו את בניהם ושכלתים מאדם. ואם יחיו, הפחד ממה שיחדשוהו הזכרים מהם איננו מניח לו לישון, וכמ"ש (משלי י"ט כ"ו) משדד אב יבריח אם בן מביש ומחפיר; ופחד ממה שיתחדש על הנקבות מהם הוא כלימת עולם וחרפת פנים, כמו שאמרו רבותינו (סנהדרין ק' ב') מפחדה לא יישן בלילה. והכלל אם יהיו ממרים תאבד התוחלת, כל שכן אם יהיו מרעים, ועליהם אמר (שם ל' י"א) דור אביו יקלל ואת אמו לא יברך.
5

Mas o pai foi posto a amar os filhos a fim de se apegar ao bem que o seu Criador o agraciou neles, e a fim de não se enfadar deles, como disse (Tehillim 127:3): “eis que herança do Senhor são os filhos, e recompensa é o fruto do ventre”.

אבל שם האב לאהוב את הבנים להחזיק במה שחננו בוראו בהם ולא יקוץ בהם, כמו שאמר (תהלים קכ"ז ג') הנה נחלת יי' בנים שכר פרי הבטן:
Nota — a herança do Senhor, e a coragem de amar Antes da regra final, Saadiá não poupa o leitor da face amarga da paternidade: as dores e os perigos do parto (que podem custar a vida da mãe — Rachel), o trabalho exaustivo de criar, o medo do luto, e a angústia que “não deixa o pai dormir” por um filho que envergonha ou por uma filha em risco (Sanhedrin 100b). Visto a frio, o cálculo assustaria. E, no entanto, a conclusão é de confiança serena: o pai “foi posto a amar os filhos” como dádiva do Criador, sem deles se enfadar — “eis que herança do Senhor são os filhos, e recompensa é o fruto do ventre” (Tehillim 127:3). Amar e criar filhos, com todos os seus riscos, é receber e guardar um bem confiado por D'us.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A mais santa das paixões

De todas as disposições, o desejo de filhos é a que vem com a defesa mais comovente — e mais autorizada: os patriarcas e Rachel imploraram por filhos. Saadiá não a contesta; reconhece nela alegria, continuidade e a oportunidade de transmitir a Torá. Mas, fiel ao método, mostra que mesmo a mais nobre inclinação, tornada o único fim, desequilibra a vida.

Gerar não é o bastante

A correção de Saadiá é sobretudo pedagógica: o bem não está em ter filhos, mas em criá-los bem. Filhos sem alimento, abrigo e — sobretudo — “sabedoria e conhecimento” não são bênção, mas “acréscimo à dor dos pais”. O valor da paternidade mede-se pela formação que oferece, não pelo número. É uma das passagens mais atuais do tratado: responsabilidade, não apenas fecundidade.

Amar apesar do risco

Saadiá olha de frente a face dura da paternidade — o perigo do parto, o trabalho sem fim, o medo do luto, a angústia que “não deixa o pai dormir” por filhos que podem envergonhar. O cálculo frio recuaria. E, no entanto, a conclusão é de confiança: amar e criar os filhos, com todos os seus riscos, é guardar um bem que o Criador confiou — “herança do Senhor são os filhos” (Tehillim 127:3). A coragem de amar é, aqui, a forma da fé.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 9, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Bereshit 15:3; 25:21; 30:1; 3:16; 35:18; Yeshayahu 38:19; Iyov 39:30; Hoshea 9:12; Mishlei 19:26; 30:11; Tehillim 127:3; cf. Sanhedrin 100b. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 10

Construir e Cultivar, na sua Medida

שַׁעַר יִשּׁוּב הָעוֹלָם — בִּנְיָן וְשָׂדֶה בְּמִדָּתָם

A sétima disposição: o povoamento do mundo — construir casas e cultivar campos. Saadiá reconhece o seu valor (abrigo, alimento, alegria, a glória dos reis, a promessa aos fiéis) e depois mede-o: a obsessão de construir traz canseira, dívida e a obra que desagrada ou é tomada; a lavoura fica refém do tempo e do fisco; e a posse pode degenerar em ganância sobre os pobres. O lugar próprio: povoar para suprir a própria necessidade.

1

A sétima disposição: o capítulo do povoamento do mundo o assentar-se: construir e cultivar. Viram outros homens que o assentamento é bom em tudo aquilo com que o homem se ocupa, e disseram que o assentar da casa é coisa necessária, pois, não fosse ele, não teria o homem um lugar que lhe servisse de abrigo do calor e do frio, e onde se reunissem a ele todos os que lhe são chegados; e que o assentar dos campos — a sua necessidade é para o alimento, sem o qual não se pode subsistir; e que todos eles renovam para o homem a alegria, e a largueza do coração, e a diligência, e o regozijo — como disse (Kohélet 5:8): “e o proveito da terra está em tudo; até o rei se serve do campo”. E disseram que com o assentamento e as construções se gloriam os reis e os príncipes, como disse (Iyov 3:14): “com os reis e conselheiros da terra, que edificam para si monumentos hoje em ruínas”; e com coisa como esta se prometeu aos crentes, como disse (Devarim 6:11): “e casas cheias de todo bem, que tu não encheste”.

השביעי שער ישוב העולם. ראו אנשים אחרים, כי ישוב טוב בכל מה שיתעסק בו האדם, ואמרו כי ישוב הבית הוא דבר שצריך, כי לולא הוא לא היה לאדם מקום יהיה לו מחסה מן החום והקור, ויתקבצו אליו כל הנלוים אליו; אך ישוב השדות צרכם למזון, שאי אפשר לעמוד בלעדיו, וכלם מחדשים לאדם השמחה, ורחב הלב והחריצות והגילה, וכמו שאמר (קהלת ה' ח') ויתרון ארץ בכל הוא מלך לשדה נעבד; ובישוב ובנינים מתפארים המלכים והשרים, כמו שאמר (איוב ג' י"ד) עם מלכים ויועצי ארץ הבונים חרבות למו; ובכמו זה יעד המאמינים, כמו שאמר (דברים ו' י"א) ובתים מלאים כל טוב אשר לא מלאת.
Nota — a disposição de construir e cultivar A sétima disposição é o povoamento (yishuv) — edificar casas e cultivar a terra. O caso a favor é sólido e prático: a casa é abrigo necessário (do calor, do frio, e ponto de reunião da família), e o campo é a fonte indispensável do alimento; ambos trazem “alegria, largueza de coração e diligência”. “O proveito da terra está em tudo; até o rei se serve do campo” (Kohélet 5:8); reis e príncipes gloriam-se nas suas construções, e a própria Torá promete aos fiéis “casas cheias de todo bem” (Devarim 6:11). Construir e plantar é das ocupações mais legítimas — e, por isso mesmo, das mais fáceis de transformar em obsessão.
2

E ponderei o seu conselho, e achei que erraram, ao imporem o abandono de todas as outras coisas para se ocupar só deste capítulo. E como pode o homem assentar coisa alguma de tudo isto, senão com sabedoria, e moderação, e com o conhecimento das disposições e dos seus capítulos? E, se não houver, no meio (como base), um conhecimento amplo, não se alcançará nada deste bem buscado. E, se o homem se sobrecarregar no capítulo do povoamento, cairá em canseira, e em fadiga, e em inquietação, e em tristeza, e no gastar do dinheiro — do seu próprio e do de outros —, movido pela sua ânsia de completar o que começou, como está escrito (Yirmeyahu 22:13): “ai daquele que edifica a sua casa sem justiça, e os seus aposentos sem retidão; que se serve do seu próximo de graça (sem lhe pagar)”.

והתבוננתי בעצתם ומצאתים שטעו, כאשר חייבו עזיבת כל הדברים התעסק בשער הזה, ואיך יוכל אדם לישב מאומה מכל זה, כי אם בחכמה ועצר ובידיעת המדות והשערים. ואם לא יהיה באמצע מדע רחב לא יגיע דבר מהמבוקש הזה, ואם יטריח אדם עצמו בשער היישוב, יפול ביגיעה ובעמל והדאגה והתוגה והוצאת הממון משלו ומשל אחרים, מתאותו להשלים מה שהחל ממנו, וכמ"ש (ירמי' כ"ב י"א) הוי בונה ביתו בלא צדק ועליותיו בלא משפט ברעהו יעבוד חנם.
3

E, se completar o que começou, e vir nele alguma coisa que não seja reta aos seus olhos, não valerá, aos seus olhos, coisa alguma tudo o que se afadigou, e será o seu trabalho e a sua canseira em vão — como está escrito (Melachim I 9:12): “e Chirám saiu de Tzor Tiro para ver as cidades que Shlomó lhe dera, e não foram retas (não agradaram) aos seus olhos”. E onde ficam a tristeza contínua e o aperto de espírito, senão com ele o que se entrega ao construir? E onde ficam a inveja dos homens, e a ira dos reis, e o sobrevir das calamidades, senão com ele? — como está escrito (Amós 5:11): “edificastes casas de pedra lavrada, mas não habitareis nelas”.

ואם ישלים מה שהחל, ויראה בו דבר שלא יישר בעיניו, לא ישוה כל מה שטרח בעיניו מאומה, ויהיה עמלו ויגיעתו לריק, וכמ"ש (מלכים א' ט' י"ב) ויצא חירם מצור לראות את עדים אשר נתן לו שלמה ולא ישרו בעיניו. ואיה היגון המתמיד וקוצר רוח כי אם עמו. ואיה קנאת בני אדם וכעס המלכים והבאת הפגעים כי אם עמו, וכמ"ש (עמוס ה' י"א) בתי גזית בניתם ולא תשבו בם.
4

E, se o assentamento for de campos, as suas plantações não brotarão conforme a vontade do homem, mas brotam conforme a vontade do seu Criador — e a inquietação por isto é contínua. E, se ele as arrancar e puser outras em seu lugar, dobra-se a sua inquietação, e é maior a tristeza pela retenção da chuva; e assim também pela seca, e pelos espinhos, e pela ferrugem praga, e pelo gafanhoto, e pela enxurrada — como está escrito (Melachim I 8:37): “se houver fome na terra, se houver peste, crestamento, ferrugem, gafanhoto…”. E há ainda a injustiça dos reis e a violência dos seus servos, a ponto de que o que os campos produzem seja para eles, e não chegue deles à mão dos seus donos coisa alguma, como está escrito (Kohélet 5:10): “ao multiplicar-se o bem, multiplicam-se os que o comem; e que proveito há para o seu dono, senão o ver dos seus próprios olhos?”.

ואם יהיה הישוב שדות, לא יצמחו נטעיהם כרצון האדם, אך הם צומחים כרצון בוראם, והדאגה על זה מתמדת. ואם יעקרם ויעמיד אחרים תחתם תכפל דאגתו והתוגה על העצר המטר יותר גדולה, וכן בצמאון ובקוצים ובירקון והארבה והשטף, וכמ"ש (מ"א ח' ל"ז) רעב כי יהיה בארץ דבר כי יהיה שדפון ירקון ארבה. ועול המלכים וחמס עבדיהם, עד שיהיה מה שיעשו השדות להם, ולא יגיע מהם ליד בעליהם מאומה, וכמ"ש (קהלת ה' י') ברבות הטובה רבו אוכליה ואין יתרון לבעליה כי אם ראות עיניו.
Nota — o construtor e o lavrador, reféns da sua obra Saadiá retrata o reverso de quem faz do construir/cultivar o seu tudo. O construtor afunda em canseira, dívida (a sua e a alheia) e ânsia de terminar; e, terminada, a obra pode desagradar (o caso de Chirám e as cidades de Salomão), atrair inveja e “a ira dos reis” — “edificastes casas de pedra, mas não habitareis nelas” (Amós 5:11). O lavrador é ainda mais refém: a colheita “brota conforme a vontade do Criador”, não a sua, exposta à seca, à praga, ao gafanhoto; e, quando vem, a opressão e o fisco a tomam — restando ao dono “apenas o ver dos seus olhos” (Kohélet 5:10). A posse, idolatrada, vira fonte perpétua de angústia.
5

E, se crescer o que semeou e ele ajuntar a sua colheita, passa a ser o seu intento e o seu desejo a carestia dos preços e a aflição dos tempos (as épocas difíceis) — a ponto de tomar o que há na mão dos pobres e dos necessitados, como está escrito (Amós 8:6): “para comprar os pobres por prata, e o necessitado por um par de sandálias, e para vender o refugo do trigo”.

ואם יגדל מה שזרע ויאסוף את תבואתו, תהיה כונתו וחפצו ביוקר השערים וצוק העתים, עד שיקח מה שיש ביד העניים והדלים, כמ"ש (עמוס ח' ו') לקנות בכסף דלים ואביון בעבור נעלים ומפל בר נשביר.
6

E o amor ao povoamento não foi posto no coração do homem senão para prover por ele a sua necessidade apenas, como disse (Tehillim 107:36-37): “e ali fez habitar os famintos, e eles estabeleceram uma cidade de morada, e semearam campos, e plantaram vinhas, e produziram fruto (colheita)”.

ולא נתנה אהבת היישוב בלב האדם כי אם לתקן בו צרכו בלבד, כמו שאמר (תהלים קו לו) ויושב שם רעבים ויכוננו עיר מושב ויזרעו שדות ויטעו כרמים ויעשו פרי תבואה:
Nota — povoar para suprir, não para devorar Entre os males que Saadiá denuncia, há um de nítido teor social: o agricultor que, tendo colheita, passa a torcer pela carestia e pelos “tempos difíceis”, lucrando à custa da fome alheia — “comprar os pobres por prata… vender o refugo do trigo” (Amós 8:6). Contra isso, a regra positiva, simples e humana: “o amor ao povoamento não foi posto no coração do homem senão para suprir a sua necessidade” (Tehillim 107:36-37: famintos que se assentam, semeiam e colhem). Construir e plantar são bênçãos quando servem à vida — a própria e a comum —, não quando se tornam instrumentos de acumulação e de opressão.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A mais útil das ocupações

Construir e cultivar estão entre as atividades mais legítimas: dão abrigo e alimento, sustentam a família, e a Escritura as celebra — “até o rei se serve do campo” (Kohélet 5:8). Justamente por serem tão úteis, são fáceis de tornar fim em si. Saadiá reconhece o bem antes de apontar o exagero — e lembra que nem isto se faz bem “senão com sabedoria e moderação”.

Quando a obra escraviza o dono

O retrato do excesso é vívido: o construtor endivida-se e aflige-se para terminar — e a obra pronta pode desagradar (Chirám e as cidades de Salomão), atrair inveja e a ira dos poderosos. O lavrador depende de uma colheita que “brota conforme a vontade do Criador”, ameaçada por seca, praga e gafanhoto, e muitas vezes arrebatada pela opressão — restando-lhe “só o ver dos seus olhos”. A posse idolatrada não dá descanso; dá angústia perpétua.

Suprir, não devorar

Saadiá fecha com uma advertência de forte sentido social e uma regra clara. O agricultor que torce pela carestia para lucrar com a fome — “comprar os pobres por prata” (Amós 8:6) — perverte o sentido do trabalho. Pois “o amor ao povoamento foi posto no coração do homem apenas para suprir a sua necessidade” (Tehillim 107). Construir e plantar são bênçãos a serviço da vida — a própria e a comum —, não meios de acumulação às custas do próximo.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 10, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Kohélet 5:8; 5:10; Iyov 3:14; Devarim 6:11; Yirmeyahu 22:13; Melachim I 9:12; 8:37; Amós 5:11; 8:6; Tehillim 107:36-37. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 11

A Longevidade e o seu Sentido

שַׁעַר הַחַיִּים — אֹרֶךְ יָמִים כְּמַדְרֵגָה לָעוֹלָם הַבָּא

A oitava disposição: o desejo de longa vida. Saadiá expõe o seu apelo (vivendo muito, alcança-se tudo; e a Escritura a promete) e as supostas “causas” da longevidade — e responde, com base na observação, que a duração da vida não está nas nossas mãos. Faz o balanço das idades do homem (Kohélet 12) e fixa o sentido verdadeiro: amar a vida como degrau para o mundo vindouro, e como guarda contra o desespero.

1

A oitava disposição: o capítulo da vida a longevidade. Viram outros que o bem que o homem deve buscar neste mundo é a obtenção da longa duração dos dias da sua vida; e disseram que, com a longa vida, o homem alcança tudo o que deseja — tanto das coisas da Torá quanto das coisas do mundo —, e que, se o homem não se esforçar por isto, que coisa mais guardará? E disseram que os livros da Escritura a prometeram, no seu dizer: “para que se prolonguem os teus dias” (Shemot 20:12), “para que vivais muitos dias” (Yirmeyahu 35:7). E as causas da vida, segundo estes, são: a regularidade no comer e no beber, e o não multiplicar a relação sexual, e o esforçar-se por alegrar a sua alma, e o abster-se de entrar em perigos e em pavores — em todas as coisas da Torá e do mundo.

השמיני שער החיים. ראו אחרים כי הטוב שידרוש האדם בעולם הזה, ההשגה על אריכות ימי חייו, ואמרו כי ארך החיים, בו יגיע האדם אל כל אשר יחפוץ, מעניני התורה ועניני העולם, ואם לא ישתדל האדם על זה אי זה דבר ישמור, ובה יעדו הספרים באמרם למען יאריכון ימיך (שמות כ' י"ב), למען תחיו ימים רבים (ירמי' ל"ה ז'). וסבות החיים אצל אלה התמדת האכילה והשתיה, ושלא ירבה במשגל, ושישתדל לשמח את נפשו, ושימנע מהכנס בסכנות ובפחדים, כל עניני התורה ועניני העולם.
Nota — a disposição da longa vida A oitava disposição é o desejo de longevidade. A defesa é intuitiva: vivendo muito, o homem alcança tudo o que quer — na Torá e no mundo —, e a própria Escritura promete “que se prolonguem os teus dias” (Shemot 20:12). Os seus defensores até apontam “causas” da vida longa: comer e beber com regularidade, moderar o sexo, alegrar a alma, evitar perigos. Querer viver, e viver bem, parece o mais natural dos anseios — e Saadiá vai mostrar tanto o seu limite quanto o seu verdadeiro sentido.
2

E verdade é que estas coisas beneficiam o corpo; mas não são as causas da vida — pois achamos muitos dos homens que estão segundo esta conduta e são, contudo, de vida curta, e outros que estão no oposto desta conduta e cuja vida é longa. E vês corpos cuja constituição é forte, e que contudo se arruínam depressa, e outros cuja constituição é fraca, e que perduram muitos dias. E, se a coisa fosse como disseram, os reis prolongariam os seus dias mais do que todo homem, por terem eles poder sobre os alimentos e o deleite — o que não se verifica.

ואמת הוא כי הענינים האלה מתקנים הגוף, אבל אינם סבות החיים, כי אנחנו מוצאים הרבה מבני אדם הם על הענין הזה, והם קצרי חיים, ואחרים בהפך הענין הזה, וחייהם ארוכים. ותראה גופים שבנינם חזק, יהרסו מהרה, ואחרים בנינם חלוש, יעמדו ימים רבים. ואם היה הענין כאשר אמרו, היו המלכים מאריכים ימים יותר מכל אדם, בעבור שהם יכלתם על המזונות והתענוג.
Nota — a duração da vida não está nas nossas mãos A primeira resposta de Saadiá é empírica e sóbria: hábitos saudáveis beneficiam o corpo, mas não determinam a duração da vida. A prova é a observação: há quem viva regradamente e morra cedo, e quem faça o oposto e viva muito; corpos robustos que ruem depressa, frágeis que perduram. E o argumento decisivo: se a longevidade dependesse de meios e prazeres, os reis — que os têm de sobra — viveriam mais que todos, o que não acontece. A extensão dos dias é dádiva de D'us, não conquista da técnica humana; podemos cuidar do corpo, não comprar anos.
3

E ainda mencionarei tudo o que deixaram de lado neste capítulo: que o homem, tanto mais se prolongam os seus dias, tanto mais se multiplicam as suas tristezas, e as suas inquietações, e as suas aflições — como disse (Tehillim 25:17): “as angústias do meu coração se alargaram”; e tanto mais se multiplicam sobre ele as iniquidades e os pecados, e se alonga a sua conta e o seu número, sendo como se eles se renovassem a cada dia, como está escrito (Tzefanyá 3:7): “mas, deveras, madrugaram a corromper todos os seus atos”.

ועוד אזכור כל מה שהניחו בשער הזה, כי האדם כל אשר יאריכו ימיו, ירבו יגוניו ודאגותיו וצרותיו, וכמו שאמר (תהלים כ"ה י"ז) צרות לבבי הרחיבו; וירבו עליו העונות והחטאים, ויאריך חשבונם ומנינם, וכאלו הם מתחדשים בכל יום, כמ"ש (צפניה ג' ז') אכן השכימו השחיתו כל עלילותם;
4

E, enquanto o homem está na fase da infância, é tolo, e não sabe coisa alguma, como disse (Mishlei 22:15): “a insensatez está atada ao coração do menino”; e, quando chega aos dias da adolescência, transfere-se para a perdição e para o desregramento, como disse (ali 29:15): “o jovem entregue a si mesmo envergonha a sua mãe”; e, quando chega à juventude madura, entra em labor e em fadiga, como está escrito (ali 16:26): “a alma do que trabalha, trabalha para si, pois a sua própria boca o constrange”; e, quando chega à velhice, afasta-se tudo o que ele desejava, e a sua vida se lhe torna um fardo, como disse (Kohélet 12:1): “antes que venham os dias maus, e cheguem os anos dos quais dirás: ‹não tenho neles prazer›”; e lhe minguam o seu esplendor, e o seu viço, e a sua sensibilidade, e as suas forças, e ele torna-se como uma nuvem da qual a chuva se escoou, e resta a sua fumaça seca, que não tem proveito, como disse a seguir (Kohélet 12:2): “antes que se escureçam o sol, e a luz, e a lua, e as estrelas, e tornem as nuvens depois da chuva” — e o restante da passagem, até o seu fim.

ובעוד שהוא בענין הילדות הוא סכל לא ידע מאומה, כמו שאמר (משלי כ"ב ט"ו) אולת קשורה בלב נער; וכאשר יגיע אל ימי הנערות יעתק אל ההפסד ואל ההפקר, כמו שאמר (שם כ"ט) נער משולח מביש אמו; וכאשר יגיע אל הבחרות, יכנס בעמל וביגיעה, וכמ"ש (שם י"ו כ"ו) נפש עמל עמלה לו כי אכף עליו פיהו; וכאשר יגיע אל הזקנה יסור כל מה שהתאוה ויהיו חייו עליו לטרח, כמו שאמר (קהלת י"ב י"א) עד אשר לא יבאו ימי הרעה והגיעו ימים אשר תאמר אין לי בהם חפץ, ויחסר זיוו ולחו והרגשתו וכחותיו, וישוב כעב אשר נמס ממנו המטר, ונשאר עשנו היבש אשר אין בו תועלת, כמ"ש אחריו (קהלת י"ב ב') עד אשר לא תחשך השמש והאור והירח והכוכבים ושבו העבים אחרי הגשם, ושאר הפרשה עד סופה.
5

E o homem justo não ama a vida deste mundo senão por ela ser um degrau pelo qual ele passa, e a partir do qual sobe ao mundo vindouro — não por ela mesma. E o amor a ela não foi posto no coração do homem senão para que ele não mate a si mesmo quando lhe sobrevenha alguma aflição, como está escrito (Bereshit 9:5): “e, deveras, o vosso sangue, o das vossas próprias almas, eu o demandarei”.

והאדם הצדיק לא יאהב חיי העולם הזה, כי אם בעבור שהיא מדרגה יגיע בה ויעלה ממנה אל העולם הבא, לא בעבור עצמה. ולא נתנה אהבתה בלב האדם כי אם שלא ימית את עצמו כשתבא עליו צרה, כמ"ש (בראשית ט' ה') ואך את דמכם לנפשותיכם אדרוש:
Nota — a vida como degrau, e o sentido de amá-la Antes da conclusão, Saadiá faz um balanço quase melancólico dos dias do homem: infância tola, juventude desregrada, maturidade exaustiva, velhice em que “tudo o que se desejava se afasta” e a vida vira fardo (a célebre passagem de Kohélet 12). Visto só por si, viver muito acumula mais sofrimento e mais pecado. Por isso o justo não ama a vida por ela mesma, mas como degrau para o mundo vindouro. E o apego natural à vida tem, ele próprio, um propósito modesto e sábio: impedir que o homem se mate ao sobrevir a aflição — “o vosso sangue… eu o demandarei” (Bereshit 9:5). Amar a vida é guardá-la; o seu valor pleno está no que ela prepara.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Querer viver — e os seus limites

O desejo de longa vida é dos mais naturais, e a própria Torá o sanciona (“para que se prolonguem os teus dias”). Saadiá não o nega; questiona a ilusão de controlá-lo. Hábitos saudáveis cuidam do corpo, mas não compram anos: vê-se gente regrada morrer cedo e desregrada viver muito, e os reis, com todos os meios, não vivem mais que os outros. A extensão dos dias é dádiva divina, não técnica humana — convite à humildade.

O peso dos anos

Saadiá faz ainda um balanço sóbrio do que a longevidade traz: mais dias, mais tristezas e mais pecados acumulados; e as idades sucessivas — a tolice da infância, o desregramento da juventude, o labor da maturidade, e a velhice em que “tudo o que se desejava se afasta” (a grande elegia de Kohélet 12). Visto só por si, viver muito não é puro ganho.

Degrau, não destino

Daí a chave: o justo “não ama a vida por ela mesma”, mas como degrau de onde se sobe ao mundo vindouro. E o apego instintivo à vida tem um propósito preciso e humano — impedir que o homem atente contra si quando a aflição o atinge: “o vosso sangue… eu o demandarei” (Bereshit 9:5). Não é desprezo pela vida nem culto à sua duração: é situá-la no seu lugar — preciosa como caminho, plena no que prepara.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 11, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Shemot 20:12; Yirmeyahu 35:7; Tehillim 25:17; Tzefanyá 3:7; Mishlei 22:15; 29:15; 16:26; Kohélet 12:1; 12:2; Bereshit 9:5. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 12

O Poder, a Soberba e a Ordem pela Sabedoria

שַׁעַר אַהֲבַת הַשְּׂרָרָה — סֵדֶר בַּחָכְמָה, לֹא בַּגַּאֲוָה

A nona disposição: o amor ao poder. Saadiá concede que o mundo precisa de autoridade — reis, juízes, oficiais —, mas faz a distinção decisiva: a ordem vem da sabedoria, não do poder em si. Traça a escada da soberba, que do desprezo a todo conselho sobe até negar o conhecimento de D'us; expõe os perigos do mando; e redireciona o anseio de grandeza para a única realeza que vale — a do mundo vindouro.

1

A nona disposição: está no amor ao mando poder. Viram outros que o maior bem dentre aqueles com que o homem se ocupa neste mundo é a soberba, a grandeza e o mando; e disseram que a alma se inclina atrás da grandeza, e vês que lhe é difícil a humilhação diante de outro homem e o reconhecê-lo como superior; e que o mando a fortalece, e a eleva, e lhe acrescenta diligência e expansão; e que, do mesmo modo, o comandar e o advertir proibir lhe são agradáveis; e que, não fosse o mando, o mundo não seria ordenado, nem se completariam os seus arranjos: os reis dirigem as guerras e a guarda, e os juízes julgam entre os homens recatados, e os oficiais corrigem os insolentes dentre eles; e com ele o mando alguns dos justos abençoaram outros, como está escrito (Bereshit 27:29): “que os povos te sirvam”.

התשיעי באהבת השררה. ראו אחרים הגדול שבמה שמתעסק בו האדם בעולם הזה הגאוה והגדולה והשררה, ואמרו שהנפש תטה אחרי הגדולה, ותראה שקשה עליה השפלות אל אדם אחד ולהתודות לו, ותמצא השררה מחזקת אותה ומרוממתה ותוסיף לה חריצות והתפשטות; וכן הצווי והאזהרה יערבו לה; ולולא השררה לא היה העולם מסודר, ולא נשלמו תקנותיו; המלכים מנהיגים המלחמות והשמירה, והשופטים ישפטו בין הצנועים מבני אדם, והשוטרים מתקנים העזים שבהם; ובה ברך קצת הצדיקים את קצתם כמ"ש (בראשית כ"ז כ"ט) יעבדוך עמים.
2

Mas o que mencionaram acerca da ordenação do mundo pela guarda, e pelo juízo, e pela nomeação de autoridades não é rejeitado — antes, é a nossa própria afirmação e o nosso intento; só que eles o formularam de modo enviesado, valendo-se dele para sustentar a sua opinião. Pois a ordenação do mundo não se dá senão pela sabedoria; e eles abateram a posição da sabedoria e puseram em seu lugar o mando por si mesmo.

אבל מה שזכרוהו מסדור העולם בשמירה ובמשפט ובמנוי איננו נדחה, אבל הוא מאמרנו וכונתנו, אך הם שאלוה שאלה נעזרו בו על דעתם; כי סדור העולם לא יהיה כי אם בחכמה, והם הפילו מעלת החכמה ושמוה לשררה לעצמה.
Nota — a ordem do mundo vem da sabedoria, não do poder A nona disposição é o amor ao poder (serará). O argumento a favor é forte: a alma anseia por grandeza, e o mundo de fato precisa de autoridade — reis, juízes, oficiais — para não cair no caos. Saadiá faz aqui uma distinção crucial: ele concorda que o mundo precisa de ordem (é “a nossa própria afirmação”), mas nega que a ordem venha do poder em si. A ordem nasce da sabedoria; o erro dos que idolatram o mando é “abater a posição da sabedoria e pôr o poder por si mesmo” no lugar dela. Autoridade legítima é a sabedoria a serviço do bem comum — não a dominação como fim.
3

E é preciso que eu mencione o que esqueceram dos danos da soberba e do mando. Dentre eles: que o homem, quando se ensoberbece e a sua alma se engrandece aos seus próprios olhos, sai do seu reto método, e se ensoberbece contra os próximos e os distantes, e se vê como se fosse o único singular na sua geração, e despreza o conselho de todo homem, e se obstina, e rejeita todo dito, como está escrito (Mishlei 18:1): “movido pelo seu desejo, busca isolar-se o que se aparta; contra toda sã sabedoria se insurge”. E disputa com os anciãos naquilo que a experiência os provou ensinou na longura dos seus dias, e que os preparou pela sua prática, e não escuta o seu conselho nem o seu preceito, como está escrito (Mishlei 12:15): “o caminho do tolo é reto aos seus próprios olhos”. E assim se lhe arruínam os assuntos do seu mundo; e aquilo que ainda lhe der certo deles, ele o atribui à sua própria força, e capacidade, e condução, e discernimento, como disse (Yeshayahu 10:12-13): “visitarei (punirei) o fruto da soberba do coração do rei da Assíria, e a arrogante glória da altivez dos seus olhos, pois disse: ‹pela força da minha mão o fiz›” etc.

וצריך שאזכור מה ששכחו אותו מנזקי הגאוה והשררה, מהם כי האדם כשיתגאה ותגדל נפשו בעיניו, יצא משטתו, ויתגאה על הקרובים והרחוקים, ויראה עצמו כאלו הוא יחיד בדורו, ויבוז לעצת כל אדם, ויתעקש וידחה כל מאמר, וכמ"ש (משלי י"ח א') לתאוה יבקש נפרד בכל תושיה יתגלע, וחולק על הזקנים במה שנסוהו בארך ימיהם, והכינו אותו ברגילותם, ולא ישמע לעצתם ולמצותם, וכמ"ש (משלי י"ב ט"ו) דרך אויל ישר בעיניו, ויפסדו לו עניני עולמו, ומה שיתקנו לו מהם, ייחסם אל כחו ויכלתו והנהגתו והכרתו, וכמו שאמר (ישעי' י' י"ב) אפקוד על פרי גודל לבב מלך אשור ועל תפארת רום עיניו כי אמר בכח ידי עשיתי וגו';
4

E o soberbo sobe disto a disputar com os artesãos na sua arte — e estes o têm por simplório e zombam dele —, e a disputar com os sábios nas suas artes científicas, e esforça-se por desfazê-los; e, contudo, o tolo que se cala tem mais esperança do que ele, como está escrito (Mishlei 26:12): “viste um homem sábio aos seus próprios olhos? há mais esperança para um tolo do que para ele”. E ele vem disto a falar mal dos reis e dos príncipes, e o conselho deles não lhe parece bom aos seus olhos, e a sua condução não lhe parece reta — e a esse respeito se disse (Mishlei 26:16): “o preguiçoso é mais sábio aos seus próprios olhos do que sete homens que respondem com bom senso”. E ele exagera nisto, até falar contra as sabedorias do Criador, exaltado seja, e o Seu conhecimento, e nega a maior parte delas e as vitupera, como disse (Tehillim 73:11): “e disseram: ‹como sabe D'us? e acaso há conhecimento no Altíssimo?›”. E isto o conduz a entrar em todo labor, e perigo, e pavor — confiando na sua presunção de que o seu conselho o salvará; e foi justamente ele que o fez tropeçar, como disse (Iyov 5:12): “Ele, que frustra os planos dos astutos, de modo que as suas mãos não realizam coisa de proveito”.

ועולה מזה לחלוק עם האומנים באומנותם, ויחשבו אותו לפתי וילעגו לו, ולחלוק על החכמים במלאכותם המדעיות, ישתדל לשבור אותם, והכסיל השותק יש לו תקוה ממנו, וכמ"ש (משלי כ"ו י"ב) ראית איש חכם בעיניו תקוה לכסיל ממנו; ויבא מזה לדבר במלכים ובשרים ולא תבשר בעיניו עצתם, ולא תישר אצלו הנהגתם, ובו נאמר (משלי כ"ו ט"ז) חכם עצל בעיניו משבעה משיבי טעם; ויפליג בזה עד שידבר בחכמות הבורא ית' וידיעתו, וירחיק הרוב בהם ויגנהו, וכמו שאמר (תהלים ע"ג י"א) ואמרו איכה ידע אל ויש דעה בעליון; ויביאהו זה לבא בכל עמל וסכנה ופחד, מבטחונו כי עצתו תצילהו, והיא הכשילתהו, וכמו שאמר (איוב ה' י"ב) מפר מחשבות ערומים ולא תעשינה ידיהם תושיה.
Nota — a escada da soberba: do desprezo ao conselho à negação de D'us Saadiá traça uma progressão psicológica notável do orgulho. O soberbo primeiro “sai do seu método” e despreza todo conselho, julgando-se único na sua geração (Mishlei 18:1); depois desdenha os anciãos e a sua experiência; disputa com artesãos e sábios na arte deles — “o tolo calado tem mais esperança do que ele” (26:12); critica reis e governantes; e, no topo da escalada, chega a falar contra a sabedoria e o conhecimento do próprio D'us — “como sabe D'us?” (Tehillim 73:11). A soberba não é um vício isolado: é uma ladeira que, levada ao fim, desemboca na negação do Criador. E o seu castigo é interno — o que confiou só no próprio juízo é por ele traído (Iyov 5:12).
5

E, se o mando e o reino não se lhe completarem, então surgem os seus invejosos e brotam os seus inimigos — ainda que ele não lhes tenha feito senão um começo de mal —, como disse (Tehillim 59:5): “sem haver iniquidade da minha parte, eles correm contra mim” etc. Mas, à primeira vez em que veem que ele reina sobre eles, desejam matá-lo, como disse (Bereshit 37:20): “e agora, vinde, e matemo-lo” os irmãos de Yosef. E o que detém o poder não come nunca senão alimento selado, nem bebe senão bebida guardada, sendo como quem está sentado sob o fio da espada, e como quem tem a sua vida pendente de um fio de cabelo, como está escrito (Shemuel I 20:3): “pois há apenas um passo entre mim e a morte”. E os seus próprios homens o separam da verdadeira justiça, e o trazem às suspeitas e às incertezas, e reforçam contra ele as palavras intrigas dos homens; e se torna dura sobre ele a cobrança do Criador, como disse (Hoshea 5:1): “e vós, casa do rei, escutai, pois para vós é o juízo”.

ואם לא תשלם לו השררה והמלכות, אז יראו מקנאיו ויצמחו משנאיו, אעפ"י שלא ידע להם כי אם התחלה, כמו שאמר (תהלים נ"ט ה') בלי עון ירוצון וגו'. אבל בתחלת ראותם שמולך עליהם, חפצים להרגו, וכמו שאמר (בראשית ל"ז כ') ועתה לכו ונהרגהו, והוא תמיד לא יאכל כי אם חתום, ולא ישתה כי אם שמור, וכאלו יושב תחת חודו של חרב, וכאלו חייו תלוים בשערה, כמ"ש (ש"א כ' ג') כי כפשע ביני ובין המות, ויבדילו אנשיו בינו ובין הדין באמת, ויביאוהו אל החשדים ואל הספקות, ויחזקו עליו דברי בני אדם, ותקשה עליו תביעת הבורא אותו, כמו שאמר (הושע ה' א') ובית המלך האזינו כי לכם המשפט.
6

E o Criador, exaltado seja, não plantou na alma do homem o amor ao mando e à soberba senão para que a alma anseie, por meio deles, pela recompensa do mundo vindouro, como disse (Iyov 36:7): “não retira do justo os seus olhos; e com reis no trono os assenta para sempre, e eles são exaltados”.

ולא נטע הבורא ית' בנפש האדם אהבת השררה והגאוה, כי אם בעבור שתכסף בהם לגמול העולם הבא, כמו שאמר (איוב ל"ו ז') לא יגרע מצדיק עינו ואת מלכים לכסא ויושיבם לנצח ויגבהו:
Nota — a coroa de espinhos do poder, e o trono verdadeiro O fecho desmistifica o poder mostrando o seu avesso: quem governa vive cercado de invejosos e de quem deseja matá-lo (como os irmãos de Yosef), “come só o que está selado, bebe só o que está guardado”, com a vida “pendente de um fio de cabelo” (Shemuel I 20:3); é isolado da justiça pelos próprios cortesãos, e responde a uma cobrança divina mais dura — “casa do rei, escutai, pois para vós é o juízo” (Hoshea 5:1). E, como nas outras disposições, o anseio é redirecionado: D'us plantou no homem o desejo de grandeza para que ele aspire à verdadeira realeza — a do mundo vindouro, onde aos justos “com reis no trono os assenta para sempre” (Iyov 36:7). O poder terreno é fardo perigoso; a glória que vale a pena buscar é a eterna.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Autoridade sim, idolatria do poder não

Saadiá não é anarquista: reconhece, como tese sua, que o mundo precisa de governo, justiça e ordem. O que recusa é fazer do poder um fim. A ordem boa procede da sabedoria — o governante legítimo é o sábio a serviço do bem comum. Quem “abate a sabedoria e exalta o mando por si” inverte a hierarquia e abre a porta à tirania.

A soberba que termina contra o Céu

O capítulo oferece uma anatomia da arrogância em degraus: o soberbo despreza todo conselho, julga-se único, desdenha os anciãos, disputa com artesãos e sábios, critica os reis — e, no cume, ousa questionar “como sabe D'us?”. A soberba não é vício pequeno: levada às últimas, desemboca na negação do Criador. E pune-se a si mesma — quem só confia no próprio juízo é por ele traído (Iyov 5:12).

O trono que não tira o sono

Contra o brilho do poder, Saadiá mostra o seu preço: inveja, conspiração, medo de veneno, vida “por um fio de cabelo”, isolamento da verdade pelos cortesãos, e uma prestação de contas a D'us mais severa (“para vós é o juízo”). E conclui redirecionando o desejo: o anseio de grandeza foi posto em nós para aspirarmos à realeza eterna — pois aos justos D'us “com reis no trono assenta para sempre” (Iyov 36:7). A glória terrena é fardo; a do mundo vindouro, coroa verdadeira.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 12, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Bereshit 27:29; 37:20; Mishlei 18:1; 12:15; 26:12; 26:16; Yeshayahu 10:12-13; Tehillim 73:11; 59:5; Iyov 5:12; 36:7; Shemuel I 20:3; Hoshea 5:1. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 13

A Vingança, e a sua Transformação em Justiça

שַׁעַר הַנְּקָמָה — מִנְּקַם הַיָּחִיד אֶל מִשְׁפַּט הַבּוֹרֵא

A décima disposição: a vingança. Saadiá leva a sério o seu apelo (alívio, satisfação, dissuasão), mas mostra como a vingança pessoal consome quem a busca — o “mar negro” de esquemas, a obsessão que sacrifica amigos, fortuna e a própria alma — e como, mesmo vitoriosa, atrai um castigo do qual só o perdão da vítima livra. O seu lugar próprio: transformar o impulso em justiça contra os malfeitores.

1

A décima disposição: o capítulo da vingança. Viram outros que o bem maior dentre aquilo a que o homem se dirige neste mundo é vingar-se dos seus inimigos. E disseram que a vingança remove a inquietação da alma, e que se lhe afasta a tristeza em que estava, e que ela acha deleite naquilo que vê no seu inimigo castigado, e se aplaca da ira, e remove o mau pensamento, e impede que outro inimigo faça o que fez o primeiro. Não vês que o bem foi o que se disse aos crentes (Yeshayahu 41:11): “eis que se envergonharão e se confundirão todos os que se inflamam contra ti; buscá-los-ás e não os acharás, os homens da tua contenda”?

העשירי שער הנקמה. ראו אחרים כי הטוב במה שמכוין האדם בעולם הזה, שינקם מאויביו. ואמרו שהנקמה מסירה הדאגה מהנפש, ויסתלק מעליה היגון אשר היתה בו, ותמצא ערבות במה שהיא רואה באויבה, ותניח מן הכעס ותסיר המחשבה הרעה, ותמנע אויב אחר מעשות מה שעשה הראשון. הלא תראה כי הטוב מה שנאמר למאמינים (ישעי' מ"א י"א) הן יבושו ויכלמו כל הנחרים בך תבקשם ולא תמצאם אנשי מצותך.
Nota — a disposição da vingança A décima disposição é a vingança (nekamá). Os seus defensores apresentam-na como remédio: alivia a alma da inquietação e da tristeza, dá satisfação ao ver o inimigo punido, aplaca a ira e dissuade futuros agressores. Até a Escritura, dizem, promete aos fiéis a queda dos seus inimigos (Yeshayahu 41:11). Saadiá tomará a sério o apelo emocional — o desejo de ver a injustiça reparada é real — antes de mostrar como a vingança pessoal destrói quem a busca.
2

E ponderei tudo o que mencionaram, e eis que eles, nisto, falam vaidades. Pois tudo o que mencionaram não o produziu na alma este ato da vingança: veio-lhe por si, por ter chegado a ela de si mesmo — e ela não fez nisso coisa alguma. Mas, quando a alma cai em deliberação e maquinação contra o inimigo, cai num mar negro, e a cada dia se lhe renova esquema após esquema — conforme o que disse (Tehillim 140:3): “os que maquinam males no coração”. E o homem enche o seu coração da decisão de não poupar ninguém, nem se compadecer, nem conceder graça, nem aceitar súplica, como disse (Mishlei 21:10): “a alma do ímpio deseja o mal; o seu próximo não acha graça aos seus olhos”; e decide-se a gastar todo o seu dinheiro e toda a sua riqueza naquela vingança, como está escrito (Yeshayahu 13:17): “eis que eu suscito contra eles os medos, que não dão valor à prata, nem se comprazem no ouro”.

והתבוננתי כל מה שזכרו, והנה הם בו מהבילים, כי כל אשר זכרו לא עשה בנפש המעשה הזה, אלא בעבור שבא לה מאליו, לא עשתה היא בו כלום; אבל כשהיא נופלת בעצה ומחשבה על האויב, היא נופלת בים השחור, ובכל יום תתחדש לה עצה אחרי עצה, וכו' שאמר (תהלים ק"מ ג') אשר חשבו רעות בלב, וימלא האדם לבו שלא יפגע אדם ולא יחמול ולא יחון ולא יקבל תחנה, וכמו שאמר (משלי כ"א י') נפש רשע אותה רע לא יוחן בעיניו רעהו, ועל הוצאת כל ממונו וכל הונו בנקמה ההיא, וכמ"ש (ישעי' י"ג י"ז) הנני מעיר עליהם את מדי אשר כסף לא יחשובו וזהב לא יחפצו בו. ואעפ"י
Nota — o “mar negro”: como a vingança consome o vingador Eis a chave psicológica do capítulo. O alívio que os defensores atribuem à vingança, observa Saadiá, vem à alma passivamente (quando o mal do inimigo simplesmente acontece) — não do ato de vingar-se. O ato ativo é outra coisa: quem planeja vingança “cai num mar negro”, com “esquema após esquema” renovados a cada dia (Tehillim 140:3); endurece o coração até não poupar ninguém (Mishlei 21:10); e dilapida toda a sua fortuna na obsessão (Yeshayahu 13:17). A vingança não cura a ferida — abre um abismo que devora o próprio vingador.
3

E, ainda que ele não consiga matar aquele inimigo senão ao custo de matar mil amigos, ou de matar a si mesmo, não se importa com isto, como disse (Shoftim 16:30): “morra a minha alma com os filisteus” Shimshon. E, ainda que ele não chegue a isto senão ao custo de abandonar o seu D'us e o serviço d'Ele, não o leva em conta, como está escrito (Tehillim 86:14): “e uma turba de violentos buscou a minha alma, e não te puseram a ti diante de si”.

שלא יגיע להרוג האויב ההוא כי אם בהרוג אלף אוהב או בהרוג עצמו, לא ירגיש לזה, וכמו שאמר (שופטים י"ו ל') תמות נפשי עם פלשתים; ואעפ"י שלא יגיע אל זה כי אם בעזיבת אלהיו ועבודתו, לא יחשוב בזה, וכמ"ש (תהלים פ"ו י"ד) ועדת עריצים בקשו נפשי ולא שמוך לנגדם.
4

E, mesmo depois de suportar todos estes transtornos, é possível que ele não alcance com eles o que busca, como disse (Melachim II 3:26): “tentaram irromper na direção do rei de Edom, e não puderam”. E é possível que o assunto se vire contra ele e ele próprio pereça, como está escrito (Mishlei 26:27): “o que cava uma cova, nela cai” etc. E, se ele escapar e se lhe cumprir o que buscou, já terá lançado a sua alma no castigo severo vindo do Criador — do qual homem algum o livrará, senão pelo perdão daquele a quem ele fez o mal —, como disse (ali 28:17): “o homem carregado da culpa de sangue de uma vida foge até a cova; que não o sustentem (não o socorram)”.

וכאשר יסבול כל אלה הענינים, אפשר שלא יגיע עמם אל מה שהוא מבקש, וכמו שאמר (מ"ב ג' כ"ו) להבקיע אל מלך אדום ולא יכולו, ואפשר שיהפך עליו הענין ויאבד הוא, וכמ"ש (משלי כ"ו כ"ז) כורה שחת בה יפול וגו'; ואם ינצל וישלם לו מה שבקש, כבר הפיל נפשו בענש החזק מאת הבורא, אשר לא יצילנו אדם ממנו אלא במחילת מי שהרע אליו, וכמו שאמר (שם כ"ח י"ז) אדם עשוק בדם נפש עד בור ינוס אל יתמכו בו.
5

E onde está a esperança de resistir ao Tempo, segundo a opinião dos seus adeptos; e a esperança de resistir aos signos astrais, segundo as palavras dos seus defensores; e a expectativa enganosa de resistir ao Criador dos céus e da terra, segundo as nossas próprias palavras, nós, os homens da verdade? E contudo eles pensam que estão fora da Sua condução governo, como disse (Tehillim 64:6): “reforçam-se a si numa coisa má”. E onde ficam o ódio dos homens e a inimizade dos criados, e o fato de que a alma acumula no coração aquilo por que outros a invejem pelo seu bem e se alegrem com a sua desgraça — como disse (ali 64:9): “e fizeram a sua própria língua tropeçar contra eles mesmos”? E ele não acha quem se aflija com a sua aflição, nem quem sofra com a sua queda; antes, todos se alegram com a sua ruína, como disse (Nachum 3:19): “não há alívio para a tua fratura; dolorosa é a tua ferida; todos os que ouvem a tua fama batem palmas sobre ti” etc. E é possível que a raiz deste ódio seja da violência deste próprio vingativo, ao fim de tudo, como disse (Tehillim 25:19): “e com ódio de violência me odiaram”; “não tenhas piedade de nenhum dos pérfidos que praticam a iniquidade, selá” (ali 59:6).

ואיה התקוה לעמוד כנגד הזמן על דעת אנשיו, והתקוה לעמוד כנגד המזלות כדברי בעליהם, והתוחלת הנכזבה לעמוד כנגד בורא השמים והארץ כדברינו אנחנו אנשי האמת? והם חושבים כי הם חוץ להנהגתו, וכמו שאמר (תהלים ס"ד ו') יחזקו למו דבר רע. ואיה שנאת בני אדם ואיבת הברואים, ושיפקוד בלב מה שיקנאו בו על הטובה וישמחו לאידו, וכמו שאמר (שם ט') ויכשילוהו עלימו לשונם, ולא ימצא דואג לדאגתו ולא כואב למפלתו אלא הכל שמחים לשברו, כמו שאמר (נחום ג' י"ט) אין כהה לשברך נחלה מכתך כל שומעי שמעך וגו', ואפשר שיהיה שרש השנאה הזאת מחמס זה המתנקם באחרונה, כמו שאמר (תהלים כ"ה י"ט) ושנאת חמס שנאוני, אל תחון כל בוגדי און סלה (שם נ"ט ו').
6

Mas o amor à vingança foi plantado na alma para servir a exercer a justiça do Criador contra os que destroem nas terras (os malfeitores), a fim de que os homens se corrijam, como se disse (ali 101:8): “de manhã em manhã exterminarei todos os ímpios da terra, para cortar da cidade do Senhor todos os que praticam a iniquidade”.

אבל נטעה בנפש אהבת הנקמה, לקחת דין הבורא מן המשחיתים בארצות, כדי שיתקנו בני אדם, כמו שנאמר (שם ק"א ח') לבקרים אצמית כל רשעי ארץ להכרית מעיר יי' כל פועלי און:
Nota — da vingança à justiça O fecho realiza a transformação típica do tratado, e aqui é especialmente profunda. Antes, Saadiá expõe a ruína do vingativo: a obsessão que sacrifica amigos, a si mesmo e até D'us (o caso de Shimshon, “morra a minha alma com os filisteus”); o esforço que pode falhar ou voltar-se contra ele (“quem cava uma cova nela cai”); e — ponto notável — que, mesmo bem-sucedido, ele se lança num castigo divino do qual “só o perdão daquele a quem fez o mal” o pode livrar (a lógica da teshuvá entre pessoas). E então a regra: o impulso de vingança foi posto na alma não para a desforra privada, mas para servir à justiça — punir os malfeitores “para que os homens se corrijam” (Tehillim 101:8). O que destrói, como rancor pessoal, edifica, como justiça reta.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O alívio que não cura

Saadiá distingue com finura o sentimento do ato. O sossego que a vingança parece trazer chega à alma de fora — quando o mal do inimigo simplesmente sucede —, e não do ato de vingar-se. Este, ao contrário, lança a alma num “mar negro”: maquinações que se renovam a cada dia, endurecimento até não poupar ninguém, e a ruína da própria fortuna na obsessão. A vingança promete fechar a ferida e, em vez disso, abre um abismo.

O vingador, primeira vítima

O retrato é implacável: a obsessão pode levar o homem a sacrificar mil amigos, a si mesmo (Shimshon) e até o seu D'us; o esforço pode fracassar ou voltar-se contra ele — “quem cava uma cova, nela cai”; e, mesmo bem-sucedido, ele se entrega a um castigo divino do qual só o perdão daquele a quem fez o mal o pode livrar. Note-se aqui a lógica da teshuvá entre pessoas: o dano ao próximo só se resolve com a reconciliação com o próximo. E, ao fim, o vingativo colhe ódio universal — “todos se alegram com a sua ruína”.

De rancor a justiça

Como em cada disposição, o impulso não é extirpado, mas reorientado. O desejo de ver o mal punido foi posto na alma não para a desforra privada, mas para servir à justiça de D'us — castigar os malfeitores “para que os homens se corrijam” (Tehillim 101:8). A mesma energia que, como vingança, devora o vingador, edifica a sociedade quando se torna juízo reto. É a sublimação do ressentimento em responsabilidade.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 13, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Yeshayahu 41:11; 13:17; Tehillim 140:3; 86:14; 64:6; 64:9; 25:19; 59:6; 101:8; Mishlei 21:10; 26:27; 28:17; Shoftim 16:30; Melachim II 3:26; Nachum 3:19. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 14

A Sabedoria, e o Equilíbrio que até Ela Exige

שַׁעַר הַחָכְמָה — אַף הַדַּעַת צְרִיכָה סַעַד הָעוֹלָם

A décima primeira disposição: a sabedoria — a mais nobre das buscas, louvada como conhecimento do Criador, deleite e cura da alma. E, no entanto, Saadiá mostra que até ela não pode ser a única ocupação: sem meios materiais, dignidade e o refinamento do corpo, a própria sabedoria “se anula”. O maná e os levitas o ilustram; e a perfeição da sociedade está na harmonia das vocações.

1

A décima primeira disposição: o capítulo da sabedoria. Dentre os discípulos dos sábios, houve quem disse que não convém ao homem ocupar-se neste mundo com coisa alguma fora da busca da sabedoria; e disseram que, por ela, o homem chega ao conhecimento do que há na terra — das naturezas e das matérias —, e ao conhecimento do Criador a partir do que há nos céus — dos astros e das esferas; e que ela tem deleite e prazer para a alma, como disse (Mishlei 2:10): “e o conhecimento será aprazível à tua alma”; e é um remédio que a cura da insensatez, como disse (ali 3:8): “será saúde para o teu corpo”; e que ela é, por assim dizer, o seu deleite como o alimento, como disse (ali): “e bebida refrescante para os teus ossos”; e que o olho se compraz nela como no cristal e como nas pérolas sobre os reis, como está escrito (Mishlei 1:9): “pois são um adorno de graça para a tua cabeça, e colares para o teu pescoço”; e quem não se dirige a ela nem a compreende, é como se não fosse dos filhos dos homens, como disse (Tehillim 28:5): “pois não entendem as obras do Senhor, nem a obra das suas mãos”.

האחד עשר שער החכמה. מתלמידי החכמים מי שאמר, כי אין ראוי לאדם להתעסק בעולם הזה בדבר חוץ מן בקשת החכמה; ואמרו כי בה יגיע אל ידיעת מה שיש בארץ מהטבעים והמגזים, ואל ידיעת הבורא ממה שבשמים מהכוכבים והגלגלים, ויש לה ערבות ותענוג לנפש, כמו שאמר (משלי ב' י') ודעת לנפשך ינעם, ורפואה שתרפא אותה מהסכלות, כמו שאמר (שם ג' ח') רפאות תהי לשרך, וכאלו היא הנאתו כמזון, כמו שאמר (שם) ושקוי לעצמותיך, ועינו בה כבדולח וכפנינים על המלכים, כמ"ש (משלי א' ט') כי לוית חן הם לראשך וענקים לגרגרותיך; ומי שאיננו מכוין אליה ולא מבינה, כאלו איננו מבני אדם, וכמו שאמר (תהלים כ"ח ה') כי לא יבינו אל פעלות יי' ואל מעשה ידיו.
Nota — a disposição da sabedoria A décima primeira disposição é a sabedoria (chochmá) — e o seu defensor não é o vulgo, mas “os discípulos dos sábios”: há quem sustente que nada merece ocupar o homem senão a busca do saber. E os elogios são altíssimos: a sabedoria conhece a natureza e, por ela, o próprio Criador; é deleite da alma, cura da insensatez, alimento, adorno “como pérolas sobre os reis” (Mishlei 1-3); e “quem não a busca é como se não fosse humano” (Tehillim 28:5). É o ponto mais delicado do tratado: até a mais nobre das paixões — o amor ao conhecimento — será submetida à regra do equilíbrio.
2

E achei que tudo o que disseram é verdade; mas o lugar do erro nisto é o que disseram, a saber, que não se ocupem com coisa alguma fora dela. Pois, se eles não se ocuparem, junto com ela, do alimento, e do abrigo, e da habitação, a sabedoria se anulará — pois não há subsistência sem eles; e, se o homem lançar a responsabilidade pelas suas necessidades sobre outras pessoas, será desprezado, e não se firmam nele (não confiam nele), nem aceitam as suas palavras, como está escrito (Kohélet 9:16): “mas a sabedoria do pobre é desprezada, e as suas palavras não são ouvidas”; e, se ele se contentar com o alimento grosseiro e seco, e se conduzir por ele, e assim engrossar a sua natureza e se enfear, anular-se-á a pureza da sabedoria e a sua subtileza, como está escrito (Mishlei 25:11): “maçãs de ouro em engastes de prata é a palavra dita no seu devido modo”.

ומצאתי כל מה שאמרו אמת, אבל מקום הטעות בו, הוא מה שאמרו שלא יתעסקו בדבר זולתה; ואם לא יתעסקו עמה במזון ובמחסה ובמסתור תבטל, כי אין עמידה זולתם; ואם ישליך את עצמו בצרכיו אלה על אנשים אחרים, היה נבזה ואין סומכין עליו ולא מקבלים דבריו, וכמ"ש (קהלת ט' ט"ז) וחכמת המסכן בזויה, ודבריו אינם נשמעים; ואם יספיק לו המזון העב היבש, וינהיג עצמו בו ויעבה טבעו ויכער, תבטל זכות החכמה ודקותה, וכמ"ש (משלי כ"ה י"א) תפוחי זהב במשכיות כסף דבר דבור על אפניו.
Nota — até o sábio precisa de pão e de dignidade Aqui o equilíbrio de Saadiá mostra toda a sua coragem: ele concorda que tudo o que se disse da sabedoria é verdade — e, ainda assim, recusa que ela seja a única ocupação. O argumento é realista e quase moderno: sem cuidar de alimento, abrigo e sustento, a própria sabedoria “se anula”, pois não há vida sem eles; quem depende dos outros para viver é desprezado e “as suas palavras não são ouvidas” (Kohélet 9:16); e quem se descuida do corpo, comendo mal, “engrossa a sua natureza” e perde a finura mental — pois a sabedoria é “maçã de ouro” que pede o seu engaste (Mishlei 25:11). A vida do espírito precisa de um corpo são e de uma base material e social digna.
3

Não vês que, quanto aos filhos de Israel no deserto, o Criador os alimentou com um alimento fino — quero dizer, o maná —, para que aprendessem a sabedoria, como disse (Shemot 16:4): “e o povo sairá e recolherá a porção de cada dia no seu dia, para que eu o prove, para ver se anda na minha Torá ou não”? E vê, ainda, os filhos de Levi, cuja porção era uma de treze partes da colheita — por serem eles uma tribo de entre treze tribos —, e a quem Ele designou o dízimo, para que tornassem o seu alimento fino refinado.

הלא תראה בני ישראל במדבר זנם הבורא במזון דק רוצה לומר המן, כדי שילמדו החכמה, כמו שאמר (שמות ט"ז ד') ויצא העם ולקטו דבר יום ביומו למען אנסנו הילך בתורתי אם לא; וראה עוד בני לוי שהיה חלקם אחד משלש עשרה מן התבואה, מפני שהם שבט משלש עשר שבטים, ושם להם המעשר, כדי שישימו מזונם דק.
4

E, se os homens concordassem todos com o que estes dizem, anular-se-ia a sabedoria da geração (a perpetuação da espécie), pelo cortar da semente e pelo abandono dos casamentos; e, se todos estivessem ocupados com a sabedoria da geração a procriação sozinha, anular-se-ia a sabedoria da Torá. E D'us não plantou no seu coração o amor ao mundo senão para ser um auxílio a esta sabedoria, e para que sejam agradáveis juntos um ao outro, como disse (Mishlei 22:21): “para te dar a conhecer a certeza das palavras de verdade, a fim de que respondas com palavras de verdade aos que te enviam”.

ואלו היו מסכימים בני אדם על מה שאומרים אלה, בטלה חכמת היצירה בהכרת הזרע ובעזיבת הנשואין, ואלוהיו מתעסקין בחכמת היצירה לבדה, בטלה חכמת התורה. ולא נטע בלבם אהבת העולם אלא להיות עזר לזאת וינעמו יחד, וכמו שאמר (משלי כ"ב כ"א) להודיעך קשט אמרי אמת להשיב אמרים אמת לשולחך:
Nota — a harmonia das vocações O fecho eleva o princípio do equilíbrio do indivíduo para a sociedade. Se todos se dedicassem só à sabedoria, ninguém casaria nem geraria, e a espécie acabaria; se todos só à procriação e ao mundo, a sabedoria da Torá pereceria. A perfeição não está em todos fazerem a mesma coisa, mas na complementaridade das ocupações humanas. Por isso D'us pôs em nós o amor ao mundo — não como rival da sabedoria, mas como seu auxílio, para que “sejam agradáveis juntos”. Mesmo o saber floresce sobre o solo do trabalho e da vida comum: é a versão social do justo meio que rege todo o tratado.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O teste mais difícil do equilíbrio

Saadiá guardou para perto do fim o caso-limite: a sabedoria, que ele mesmo tem por o valor supremo. Os seus defensores são “os discípulos dos sábios”, e os seus elogios são impecáveis — pelo saber se conhece o mundo e o Criador, e quem dele se priva “é como se não fosse humano”. Se há uma paixão que mereceria ser absoluta, seria esta. E é justamente por isso que o capítulo é tão revelador.

A sabedoria também precisa de chão

Pois mesmo aqui Saadiá não cede: tudo o que se disse é verdade, mas nem a sabedoria pode ser a única ocupação. Sem sustento, ela se anula; o sábio que vive às custas alheias é desprezado e desouvido (Kohélet 9:16); e quem descura do corpo perde a própria finura do pensamento — a sabedoria é “maçã de ouro” que pede o seu engaste de prata. Até Israel recebeu o maná, alimento “fino”, para poder aprender; e os levitas, o dízimo, para que comessem com refinamento. O espírito floresce sobre um corpo cuidado e uma vida digna.

Cada um o seu ofício

E o princípio sobe do indivíduo à sociedade: se todos fossem só sábios, a humanidade extinguir-se-ia; se todos só lavradores e pais, a Torá morreria. A perfeição é a complementaridade — por isso o amor ao mundo foi posto em nós como auxílio da sabedoria, “para que sejam agradáveis juntos”. É o coroamento da ética do tratado: não só cada alma equilibra as suas forças, como cada vocação encontra o seu lugar no conjunto humano.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 14, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Mishlei 2:10; 3:8; 1:9; 25:11; 22:21; Tehillim 28:5; Kohélet 9:16; Shemot 16:4. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 15

O Serviço a D'us está em Todos os Mandamentos

שַׁעַר הָעֲבוֹדָה — שֶׁהָעֲבוֹדָה בְּכָל הַמִּצְווֹת

A décima segunda disposição: o serviço a D'us (avodá). Saadiá responde aos que querem só orar e jejuar, abandonando o mundo. Reconhece o deleite e a recompensa do culto — mas mostra que o verdadeiro serviço se cumpre em todos os mandamentos (pesos justos, juízo reto, kashrut, lavoura, dízimo, caridade), que exigem viver no mundo; e que confiar em D'us não dispensa os meios naturais que Ele mesmo instituiu.

1

A décima segunda disposição: o capítulo do serviço a D'us, o culto. Acham-se muitos homens que dizem que o bem dentre aquilo com que o homem se ocupa neste mundo é o serviço do seu D'us apenas — a saber, que ele jejue de dia, e se levante de noite para louvar e agradecer, e largue todos os afazeres do mundo, todos —, pois o seu D'us lhe encherá o seu provimento de alimento, e de cura saúde, e das demais necessidades suas. E eis que de fato achamos no serviço um grande deleite, como disse (Tehillim 147:1): “pois é agradável, e convém o louvor”; e regozijo e alegria, como disse (ali 100:2): “servi ao Senhor com alegria”; e há um bem reservado junto ao Criador para o tempo da retribuição, como disse (Malachi 3:17): “e deles me apiedarei, como se apieda um homem do seu filho que o serve”.

השנים עשר שער העבודה. ימצאו אנשים רבים שאומרים, כי הטוב במה שיתעסק בו האדם בעולם הזה, עבודת אלהיו בלבד והוא שיצום ביום, ויקום בלילה לשבח ולהודות, ויניח כל עסקי העולם כלם, כי אלהיו ימלא לו ספוקו ממזון ורפואה ושאר צרכיו. והנה אנחנו מוצאים בעבודה תענוג גדול כמו שאמר (תהלים קמ"ז א') כי נעים נאוה תהלה, וששון ושמחה, כמו שאמר (שם ק' ב') עבדו את יי' בשמחה. ומצפון אצל הבורא לעת הגמול, כמו שאמר (מלאכי ג' י"ז) וחמלתי עליהם כאשר יחמול איש על בנו העובד אותו.
Nota — a disposição do serviço a D'us A décima segunda disposição é o serviço (avodá) — a devoção religiosa. Os seus defensores são os piedosos extremos: nada deve ocupar o homem senão servir a D'us — jejuar de dia, orar de noite, abandonar todos os afazeres do mundo, confiando que D'us proverá o alimento e a saúde. E os seus louvores são verdadeiros: o serviço tem “grande deleite” (Tehillim 147:1), alegria (100:2), e recompensa guardada junto ao Criador (Malachi 3:17). É, talvez, a objeção mais difícil de todas — pois quem ousaria dizer que servir a D'us pode ser “em excesso”?
2

Estes — que D'us se compadeça de ti —, tudo o que relataram acerca do serviço do nosso Criador é verdade e claro, e nenhum dos atributos O alcança, como está escrito (Tehillim 145:3): “grande é o Senhor, e mui louvado; e a sua grandeza é insondável”. Mas o lugar do seu erro é o isolar-se nele no culto sozinho, e o seu dizer de que o homem não se ocupe com coisa fora dele. Pois, se o homem não se ocupar do alimento, o corpo não se manterá; e, se não se ocupar da procriação, não haverá serviço algum, de modo nenhum. Pois, se todas as pessoas de uma geração, dentre as gerações, concordassem com isto, e morressem depois, o serviço morreria com elas; mas o serviço é para os pais, e para os filhos, e para os filhos dos filhos, como está escrito (Devarim 6:2): “para que temas ao Senhor teu D'us, a fim de guardar todos os seus estatutos e os seus mandamentos — tu, e o teu filho, e o filho do teu filho — todos os dias da tua vida”.

אלה (ירחמך האלהים) כל מה שספרו בעבודת בוראנו אמת וברור, וכל המדות לא יגיעוהו, כמ"ש (תהלים קמ"ה ג') גדול יי' ומהולל מאד ולגדולתו אין חקר, אך מקום טעותם הוא ההתבודדות בה לבדה, ואמרם כי לא יתעסק האדם בזולתה. ואם לא יתעסק במזון לא יתקיים הגוף, ואם לא יתעסק בפריה, לא תהיה העבודה כל עיקר. כי אם היו מסכימים על זה אנשי דור מן הדורות כלם, וימותו אחר כן, היתה העבודה מתה עמהם; אבל העבודה לאבות ולבנים ולבני בנים, כמ"ש (דברים ו' ב') למען תירא את יי' אלהיך לשמור את כל חקותיו ומצותיו אתה ובנך ובן בנך כל ימי חייך.
3

E depois se lhes revelou o que lhes estava oculto: que o serviço a D'us está em todos os mandamentos, os racionais e os revelados ouvidos, como está escrito (Devarim 10:12): “e agora, Israel, que é que o Senhor teu D'us pede de ti, senão que temas ao Senhor teu D'us… e guardes os mandamentos do Senhor?”. E que coisa cumpriria o recluso dos mandamentos das medidas e dos pesos, como está escrito (Vayicrá 19:36): “balanças justas, pesos justos” etc.? E que coisa cumpriria dos mandamentos dos juízos — feitos com verdade e com justiça —, como se disse: “não torcerás o juízo, não farás acepção de pessoas” (Devarim 16:19)? E que coisa cumpriria no tocante ao proibido e ao permitido — como o comer da carne e o semelhante a isto —, como se disse (Vayicrá 11:47): “para distinguir entre o impuro e o puro”; e ainda “para ensinar no dia do impuro e no dia do puro” (Vayicrá 14:57)? E assim também no tocante à semeadura, e ao dízimo, e às caridades, e ao semelhante a eles.

ואחר כן נגלה להם מה שנעלם מהם, כי העבודה היא בכל המצות השכליות והשמעיות, כמ"ש (דברים י' י"ב) ועתה ישראל מה יי' אלהיך שואל מעמך כי אם ליראה את יי' אלהיך לשמור את מצות יי'. ואי זה דבר יקיים המתבודד ממצות המדות והשקלים כמ"ש (ויקרא י"ט ל"ו) מאזני צדק אבני צדק וגו'? ואי זה דבר יקיים ממצות הדינין באמת ובמשפט, כאמרו לא תטה משפט לא תכיר פנים (דברים ט"ז י"ט)? ואי זה דבר יקיים באסור והתר כאכילת הבשר והדומה לזה, כאמרו (דברים ט"ז מ"ז) להבדיל בין הטמא ובין הטהור, ועוד להורות ביום הטמא וביום הטהור (דברים י"ד נ"ו)? וכן בענין הזריעה והמעשר והצדקות והדומה להם.
Nota — servir a D'us é cumprir todos os mandamentos, não só orar Eis a resposta genial de Saadiá, e uma das ideias centrais do judaísmo. O erro do recluso não é servir demais, mas servir de menos — porque concebe o serviço como só oração e jejum. Na verdade, “o serviço está em todos os mandamentos” (Devarim 10:12): nos pesos honestos (Vayicrá 19:36), no juízo reto e imparcial (Devarim 16:19), nas leis do permitido e proibido, na lavoura, no dízimo, na caridade. Ora, quase todos esses só se cumprem no meio do mundo — comerciando, julgando, plantando, partilhando. O eremita que só reza foge, sem perceber, da maior parte da avodá. Servir a D'us é santificar a vida inteira, não fugir dela.
4

E, se disseres que ele aprenderá tudo isto e o ensinará a outras pessoas, e estas o farão — então, se é assim, são eles, eles mesmos, os que servem, e não ele; pois neles é que se completou o serviço do Criador, e não nele.

ואם תאמר ילמד כל זה ויורה בו לאנשים אחרים ויעשוהו אם כן הם הם העובדים לא הוא, כי בהם נשלמה עבודת הבורא לא בו.
5

Mas o que mencionaram acerca da confiança no Criador quanto ao prover do corpo e ao prover do alimento, é como disseram; só que lhes restou por considerar uma coisa: que Ele, exaltado seja, pôs para cada coisa uma causa e um curso natural, que é preciso buscar a partir desses meios. E, se eles dizem com verdade que a confiança é abrangente, que confiem nele no Criador também no capítulo do serviço — esperando que Ele os faça chegar à Sua recompensa sem serviço! E, se isto não for cabível — porque Ele pôs o serviço como causa da recompensa —, então tampouco será possível a recompensa do corpo sem a aquisição, e os casamentos, e os cuidados as providências, que Ele pôs como causa do bem-estar dos homens. Exceto que, por vezes, o Criador faz uma parte destas coisas por via de sinal e prodígio, sem o trabalho do homem; mas normalmente fê-lo um curso natural, que não muda a natureza que Ele estabeleceu.

אבל מה שזכרו מהבטחון על הבורא בתקון הגוף ותקון המזון, הוא כמו שאמרו, אך נשאר להם דבר; והוא ששמו ית' שם לכל דבר סבה ומנהג צריך שיבוקש מהפנים ההם. ואם הם אומרים אמת שהבטחון כולל, יבטחו עליו בשער העבודה גם כן, שיגיעם אל גמולו בלא עבודה; ואם לא יכשר זה, מפני ששם העבודה סבה לגמול, לא יהיה אפשר מבלי הקנין והנשואין וההשגחות, אשר שמם סבה לתקון בני אדם. אלא שפעמים עושה הבורא קצת מאלה על דרך האות והמופת בלא עסק אדם; אבל ישימהו מנהג שישנה הטבע אשר הטביע:
Nota — a confiança (bitachon) não dispensa os meios O fecho desmonta o argumento da “confiança total”. Sim, deve-se confiar em D'us para o sustento — mas Ele “pôs para cada coisa uma causa e um curso natural” que se devem buscar. E Saadiá vira o argumento contra si mesmo com elegância: se a confiança dispensasse o esforço, que confiem em receber a recompensa sem fazer o serviço! Como isto é absurdo — pois o serviço é a causa da recompensa —, também o sustento exige os seus meios (trabalho, família, providência), que D'us estabeleceu como causa do bem-estar humano. Os milagres existem, mas são exceção: a regra é a ordem natural que o próprio Criador instituiu — e respeitá-la é parte da sabedoria, não falta de fé.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Pode-se servir a D'us “em excesso”?

É a objeção mais delicada do tratado: como dizer que a devoção pode ser desmedida? Saadiá concede tudo aos piedosos — o serviço é deleite, alegria e fonte de recompensa, e D'us está acima de todo louvor. Não nega o valor do culto; nega que ele seja a única ocupação legítima. E a sua resposta reformula o próprio conceito de “servir”.

A grande inversão: o recluso serve de menos

O argumento decisivo: o serviço de D'us não se reduz à oração — “está em todos os mandamentos” (Devarim 10:12). E a maioria deles só se cumpre dentro da vida ativa: pesar com honestidade, julgar com retidão, observar o permitido e o proibido, plantar, dizimar, dar caridade. Logo, o eremita que só reza, longe de servir mais, cumpre menos da vontade de D'us. E se ensinar outros a praticá-los? Então “são eles os que servem, não ele”. Servir é santificar a vida inteira, não evadir-se dela.

Confiar sem cruzar os braços

Por fim, a teologia da bitachon: confiar em D'us para o sustento é certo, mas Ele “pôs para cada coisa uma causa” que se deve buscar. Saadiá vira o argumento contra si mesmo — se a confiança dispensasse o esforço, esperem então a recompensa sem o serviço! Como isso é absurdo, também o pão exige o seu trabalho. Os milagres existem, mas são exceção; a regra é a ordem natural que o Criador estabeleceu, e honrá-la é sabedoria, não falta de fé. Eis a síntese vital de Saadiá: a vida no mundo, vivida com retidão, é o serviço de D'us.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 15, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Tehillim 147:1; 100:2; 145:3; Malachi 3:17; Devarim 6:2; 10:12; 16:19; Vayicrá 19:36; 11:47; 14:57. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 16

O Repouso, o Trabalho e a Paz do Mundo Vindouro

שַׁעַר הַמְּנוּחָה — מְנוּחָה לְאַחַר עָמָל וּמְנוּחַת הָעוֹלָם הַבָּא

A décima terceira e última disposição: o repouso (menuchá). Saadiá reconhece o seu apelo — o descanso cura, é o alvo de todo esforço, a própria Torá é “descanso para a alma” — mas mostra que o “repouso” buscado antes do trabalho é só preguiça, que arruína corpo, alma e até a devoção. O lugar próprio: descansar depois do labor; e o anseio por sossego é memória da paz do mundo vindouro.

1

A décima terceira disposição: o capítulo do repouso descanso. Disseram certas pessoas que o repouso é melhor do que tudo com que o homem se conduz neste mundo; pois ele é causa da cura da alma, serve para refazer e suavizar o seu corpo e para preservar os seus sentidos; e que tudo aquilo em que o homem se afadiga — os seus olhos estão voltados para o repouso, e ele é o seu verdadeiro alvo. Não vês que os reis estão em repouso mais do que todo homem? — e, não fosse esta coisa um bem, não a escolheriam. E onde ficam o descanso do corpo, e o largar do despertar forçado, e da pressa, e da tristeza, e da inquietação? — a ponto de que, quando escolhem a Torá da verdade, a representam por ele pelo descanso, como se disse (Yirmeyahu 6:16): “e achareis descanso para a vossa alma”. E Ele ordenou o repouso nos shabatot e nas festas.

השלשה עשר שער המנוחה. אמרו אנשים, כי המנוחה טוב מכל מה שיתנהג בו האדם בעולם הזה; כי היא סבת לרפואת הנפש, להעביר ולעדן גופה ולשמור חושיה, וכל אשר ייגע האדם עיניו תלוית אל המנוחה, והיא מבוקשו. הלא תראה שהמלכים הם במנוחה יותר מכל אדם, ולולי שהענין הזה הוא טוב לא היו בוחרים בו. ואיה נוח הגוף ועזיבת הקיצה והמהירות והיגון והדאגה, עד שתורת האמת כשבוחרים בה מדמים אותה בה, כאמרו (ירמי' ו' ט"ז) ומצאו מרגוע לנפשכם. וצוה במנוחה בשבתות ובמועדים.
Nota — a disposição do repouso, a última das treze A décima terceira e última disposição é o repouso (menuchá). O caso a favor é sedutor: o descanso cura a alma e o corpo, é o alvo secreto de todo esforço, o privilégio dos reis; até a Torá é descrita como “descanso para a alma” (Yirmeyahu 6:16), e D'us ordenou o repouso do Shabat e das festas. Quem não anseia por sossego? Com esta disposição, Saadiá completa o catálogo das treze forças da alma — e, como veremos, prepara a síntese de toda a sua ética.
2

E olhei para o conselho destes, e achei-os os mais insensatos de todos os homens, pois disseram o que não sabiam. Pois o repouso não se completa para o homem senão depois da grande diligência, e do prover das suas necessidades, e do preparo de todos os seus assuntos — e só depois disto é que ele descansa e se aquieta, como está escrito (Mishlei 24:27): “prepara fora a tua obra, e apronta-a para ti no campo; depois, edifica a tua casa”. Mas o repouso sozinho, sem nada de todas estas coisas, não é senão repouso só de nome — e o que dele resulta é a preguiça.

והשקפתי על עצת אלה, ומצאתים סכלים מכל אדם, ואמרו מה שלא ידעו; כי המנוחה לא תשלם לאדם אלא אחר ההשגחה הגדולה ותקון צרכיו והכנת כל אודותיו, ואח"כ ינוח וישקוט, כמ"ש (משלי כ"ד כ"ז) הכן בחוץ מלאכתך ועתדה בשדה לך אחר ובנית ביתך, אבל המנוחה לבדה מבלתי דבר מאלה, איננה כי אם מנוחה בשם, והעולה מענינה הוא העצלה.
3

E não perguntes sequer o que é a preguiça! Pois o homem, quando se enlanguesce e se faz preguiçoso, vem-lhe a pobreza e lhe falta todo bem, como está escrito (Mishlei 6:10-11): “um pouco de sono, um pouco de cochilo, um pouco de cruzar as mãos para deitar — e eis que vem, como viandante, a tua pobreza, e a tua necessidade como um homem armado”. E, quando se faz preguiçoso e não prepara para si alimento, nem vestimenta, nem abrigo, há de estar em tristeza todos os seus dias, até que o matem os seus próprios desejos e os anseios do seu coração, como disse (Mishlei 21:25): “o desejo do preguiçoso o mata, pois as suas mãos recusam trabalhar” — a ponto de ele largar a oração, e o jejum, e o estar de pé diante de D'us, e o esforço ativo nos mandamentos, e em todo proveito.

ואל תשאל על העצלה מה היא? כי האדם כשיתעלף ויתעצל יבואהו הריש ויחסר כל טוב, כמ"ש (משלי ו׳:י׳-י״א י') מעט שנות מעט תנומות מעט חבוק ידים לשכב ובא במהלך רישך ומחסורך כאיש מגן, וכאשר יתעצל ולא יכין לו מזון ולא כסות ולא מחסה, יהיה ביגון כל ימיו, עד שימיתוהו תאוותיו ומשאלות לבו, כמו שאמר (משלי כ"א כ"ה) תאות עצל תמיתנו כי מאנו ידיו לעשות, עד שהוא מניח התפלה והצום והעמידה והתנועה במצות ובכל תועלת.
Nota — o “repouso” que é só preguiça A crítica de Saadiá é incisiva. O repouso é bom — mas no seu lugar, que é depois do trabalho feito: “prepara fora a tua obra… depois edifica a tua casa” (Mishlei 24:27). Buscado por si, antes do esforço, é “repouso só de nome” — na verdade, preguiça. E a preguiça arruína: traz pobreza “como um homem armado” (6:10-11), enche a vida de tristeza, mata pelo desejo não realizado (21:25), gera doenças do corpo, e — paradoxo agudo — leva o ocioso a abandonar até a oração e os mandamentos. O falso devoto do descanso acaba negligente em tudo, inclusive na religião que dizia servir.
4

E por isso a Escritura virou o assunto com justiça: pois o tema da preguiça se estende ainda à maldade, e disse (Mishlei 21:26): “o dia todo ele cobiça avidamente; mas o justo dá e não retém”. E onde ficam a frouxidão, e o peso, e o inchaço, e a debilidade, e a tísica, e a dor das partes inferiores, e a podagra gota, e o mal do nervo ciático, e os males dos rins, e a elefantíase, e muitos dos achaques — senão por causa da ociosidade? E até mesmo aquele cujo provimento está sobre outros (é sustentado por outros) não lhe convém ficar ocioso, como está escrito (Mishlei 31:27): “ela vigia os caminhos da sua casa, e não come o pão da preguiça”.

ועל כן הפך הענין בצדק, כי ענין העצלות עוד נופל על הרשעות, ואמר (משלי כ"א כ"ו) כל היום התאוה תאוה וצדיק יתן ולא יחשוך. ואיה הרפיון והכובד והנפח והחלישות והשדפון וכאב התחתית והפודגרא וגיד הנשה והכליות וחלי הפיל והרבה מן הנגעים, כי אם על הבטלה? ואפילו מי שספקו על אחרים אין ראוי לו להתבטל, וכמ"ש (משלי ל"א ל"ז) צופיה הליכות ביתה ולחם עצלות לא תאכל.
5

Mas nós achamos que a alma se inclina ao repouso — e isto porque o seu Criador lhe estabeleceu como conduta própria o sossego e a segurança que há no mundo vindouro, e a fez herdá-los nele —, como disse (Yeshayahu 32:17-18): “e a obra da justiça será paz, e o lavor da justiça será sossego e segurança para sempre; e o meu povo habitará em morada de paz”.

אבל אנחנו מוצאים הנפש נוטה אל המנוחה, ושבוראה שמה לה הנהגה השקט ובבטחה אשר בעולם הבא והנחילה בה, כמו שאמר (ישעי' ל"ב י"ז) והיה מעשה הצדקה שלום ועבודת הצדקה השקט ובטח עד עולם וישב עמי בנוה שלום:
Nota — o verdadeiro repouso é o do mundo vindouro O fecho redime o anseio: a inclinação da alma ao repouso não é vício — é uma memória do seu destino. D'us pôs na alma o gosto pelo sossego porque a destinou ao descanso pleno do mundo vindouro, “sossego e segurança para sempre… morada de paz” (Yeshayahu 32:17-18). Mas esse repouso conquista-se: “a obra da justiça será paz”. O descanso verdadeiro não é a fuga do esforço aqui, e sim o seu fruto lá. Assim Saadiá fecha as treze disposições no mesmo tom de todo o tratado — cada anseio humano é legítimo, e encontra a sua plenitude quando posto no seu devido lugar e tempo.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O descanso, no seu devido tempo

Saadiá encerra o catálogo das treze disposições com o repouso — e a sua regra é de bom senso luminoso: o descanso é legítimo e até santo (o Shabat!), mas depois do trabalho cumprido, não em lugar dele. “Prepara a tua obra… depois edifica a tua casa” (Mishlei 24:27). O repouso buscado por si, antes do esforço, não é descanso — é preguiça disfarçada.

A ruína da ociosidade

E a preguiça, longe de ser doce, é destrutiva: traz pobreza “como um homem armado”, enche a vida de tristeza, mata pelo desejo que nunca se realiza, adoece o corpo (Saadiá enfileira uma lista de males), e — golpe final — leva o ocioso a abandonar até a oração e os mandamentos. O falso amante do descanso acaba negligente em tudo. Nem quem é sustentado por outros tem licença para a ociosidade: “não come o pão da preguiça” (Mishlei 31:27).

A paz que se conquista

Mas o anseio por repouso não é condenado — é compreendido. D'us pôs na alma o gosto pelo sossego como sinal do seu destino: a paz plena do mundo vindouro, “sossego e segurança para sempre, morada de paz” (Yeshayahu 32:17-18). Só que essa paz é fruto: “a obra da justiça será paz”. O descanso verdadeiro não está em fugir do esforço aqui, mas em colhê-lo lá. Com isso, encerram-se as treze disposições — cada uma legítima, cada uma plena apenas no seu lugar.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 16, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Yirmeyahu 6:16; Mishlei 24:27; 6:10-11; 21:25; 21:26; 31:27; Yeshayahu 32:17-18. Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 17

A Síntese do Justo Meio — a Alma como Remédio Composto

הַסִּינְתֵּזָה — מִזּוּג שְׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה הַמִּדּוֹת כְּמִרְקַחַת

O clímax da ética do tratado: nenhuma das treze disposições deve reger sozinha — a vida reta combina todas, não em partes iguais, mas cada uma na medida própria que a sabedoria e a Torá exigem. Saadiá traça o retrato da vida equilibrada e sela tudo com a imagem da alma como um remédio composto, em que cada ingrediente entra num peso diferente e calculado.

1

E já se esclareceu, a partir do que expus e expliquei, para quem lê o livro, que todo aquele que quer conduzir-se por só um destes treze assuntos — terá o seu conselho por vão e não acertado; porque ele obriga-se a conduzir-se por ele sozinho, e deixou de associar a ele os outros, e assim desviou-se do seu próprio propósito e ficou aquém de alcançar o que amava — conforme antepus, a partir do dito de Shlomó, de que toda coisa isolada é torta e falha; mas, quando se combinam todos estes assuntos, isto é a retidão completa. E também não convém que se tome de cada um deles uma parte de treze partes, por igual; mas que se tome de cada espécie deles a medida que é cabível tomar, conforme o que a sabedoria e a Torá o exigirem.

וכבר התבאר ממה שהצעתיו ובארתיו למי שקורא הספר, שכל מי שרוצה להתנהג בענין מן השלשה עשר ענינים האלה, תהיה בטלה עצתו ולא נכונה; מפני שהוא מחייב להתנהג בו לבדו, והניח לשתף עמו זולתו, והתעות לו מחפצו, וקצר להגיע אל מה שאהב, כאשר הקדמתי ממאמר שלמה, כי כל דבר מעוות וחסרון, אבל כשיקובצו הענינים האלה כלם, הוא הנכון הגמור: ואין ראוי גם כן שיוקח מכל אחד מהם חלק משלשה עשר בשוה, אך יקח מכל מין מהם השיעור אשר הוא ראוי לקחת כפי מה שתחייבהו החכמה והתורה.
Nota — o coração do livro: a síntese do justo meio Eis o clímax de toda a ética de Saadiá, para o qual os dezesseis capítulos anteriores convergiram. Examinadas uma a uma as treze disposições, a conclusão é inequívoca: quem se entrega a uma só erra — e, paradoxalmente, falha até em obtê-la, pois “toda coisa isolada é torta e falha” (Kohélet). A vida reta está na combinação de todas. E — detalhe decisivo — não em partes iguais (“um treze avos de cada”), mas tomando de cada uma a medida própria, conforme “a sabedoria e a Torá” o exijam. A virtude não é uma fórmula fixa, mas um juízo afinado caso a caso.
2

E, quando se combinarem as porções dispersas destes treze assuntos, a essência “a nata do sumo” que o homem há de obter da comida, da bebida e da união conjugal será aquilo com que sustente o seu corpo e a sua descendência. E, quando achar isto de modo permitido, há de soltar nele o seu desejo, a ponto de tomar dele o que é permitido; e, se o desejo quiser aumentar a medida, ou tomar de algo fora do que lhe é permitido, há de refreá-lo e impedi-lo; e, se o desejo não quiser conter-se conforme a vontade do homem, este há de soltar nele as disposições da abstinência, até que o desejo se enfastie de todo o assunto.

וכאשר יקובצו פזורי אלה השלשה עשר ענין, תהיה חמאת המיץ שיגיע האדם מן המאכל והמשתה והמשגל, מה שיעמיד בו גופו וזרעו; וכאשר ימצא זה מהתרו, ישלח בו תאותו עד שתקח ממנו בהתר, ואם תרצה להרבות או לקחת מזולת התירו, יחסמנה וימנענה, ואם לא תרצה להמנע כחפצו, ישלח בה מדות הפרישות, עד שתמאס בכל ענין.
3

E há de guardar o que o Criador o agraciou — de dinheiro e de filhos — conforme o seu amor por eles; e há de trabalhar a terra conforme as suas necessidades; e, se o desejo o dominar, de modo a levá-lo ao que é proibido, há de soltar nele a abstinência, até que se abstenha disso. E há de amar a vida deste mundo por causa do outro mundo — pois ele este mundo é o seu vestíbulo salão de entrada —, e não por ela mesma. E que não deseje coisa alguma do mando poder e da vingança; e, se isto lhe vier de si mesmo, que o aceite a fim de cumprir por ele os juízos da Torá, e endireitar os homens. E que não se conduza em coisa alguma da preguiça, de modo nenhum; e o que lhe restar dos seus tempos livres, depois de prover os seus alimentos, que volte a sua atenção, neles, para o serviço a D'us e a sabedoria.

וישמור מה שחננו הבורא מממון ובנים כפי אהבתו בהם, ויעבוד האדמ' כפי צרכיו, ואם תמשול בו התאוה שתביאהו באיסור, ישלח בה הפרישות עד שימנע מזה. ויאהב חיי העולם הזה, בעבור העולם האחר, כי הוא הטרקלין שלו, לא בעבור עצמו. ואל יחפוץ במאומה מן השררה והנקמה, ואם יבא לו זה מאליו, יקבלנו לקיים בו משפטי התורה, ויישיר בני אדם. ולא יתנהג במאומה מן העצלה כלל, ומה שישארו לו מעתותיו אחר זמון מזונותיו, ישיב השגחתו בם אל העבודה והחכמה.
Nota — o retrato da vida equilibrada Aqui Saadiá desenha, em poucas linhas, o homem íntegro — uma verdadeira regra de vida que costura as treze disposições. Come, bebe e gera o suficiente para sustentar corpo e descendência, sempre no permitido (e aplica a abstinência quando o desejo quer ultrapassá-lo); guarda com amor o dinheiro e os filhos que recebeu; trabalha a terra conforme a necessidade; ama esta vida como vestíbulo da vindoura, não por si; não cobiça poder nem vingança, mas aceita-os, se vierem, para fazer justiça e endireitar os homens; foge de toda preguiça; e dedica o tempo livre, depois do sustento, ao serviço de D'us e à sabedoria. É a tradução prática do equilíbrio — cada força no seu lugar, a serviço de uma vida inteira e santa.
4

E, quando o homem reunir todos estes atos na medida que mencionámos, será louvado nos dois mundos, como disse (Mishlei 4:23): “sobre tudo o que se guarda, guarda o teu coração, pois dele vêm as fontes da vida”. E os atos bem combinados tornar-se-ão semelhantes aos corpos compostos das quatro naturezas humores — sendo cada corpo feito de raízes elementos combinados —, e semelhantes aos remédios, nos quais o costume é tomar a soma deles num peso de três zuzim: e haja nele o peso de um zuz de uma substância, e de outra quatro gerot, e de outra meio zuz, e de outra dois gerot, e de outra um gerá e meio, e de outra um issar — e não é possível que se os tome em partes iguais. Assim é o assunto com estas disposições que mencionei.

וכאשר יקבץ אל אלה המעשים כאשר זכרנו, יהיה משובח בשני העולמים, וכמו שאמר (משלי ד' כ"ג) מכל משמר נצור לבך כי ממנו תוצאות חיים, וישובו המעשים דומים לגופים המורכבים מארבעה טבעים, ולכל גוף שהוא שרשים מחוברים, וכרפואות אשר המנהג בהם שיקח מאחד מהם משקל שלשה זוזים, ויהיה בו משקל זוז מדבר אחד, ומדבר אחר ד' גרות, ומאחר חצי זוז, ומאחר ב' גרות, ומאחר גרה וחצי, ומאחר איסר, ולא יתכן שיקחו אותם חלקים שוים, כן הענין באלה המדות אשר זכרתי:
Nota — a alma como remédio composto A imagem final é uma das mais belas do livro, e fecha o círculo aberto na introdução (“o Criador é Um, as suas obras são muitas”). A vida virtuosa é como um corpo, composto dos quatro humores em proporção, ou como um remédio composto: o boticário toma de um ingrediente um zuz, de outro quatro gerot, de outro meio zuz… — pesos diferentes, calculados, jamais iguais. Assim é a alma sã: uma dosagem precisa das treze inclinações. Saúde do corpo e saúde moral obedecem à mesma lei — a da medida certa. Quem assim vive “é louvado nos dois mundos”, pois do coração bem guardado “vêm as fontes da vida” (Mishlei 4:23).

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Tudo converge para a medida

Depois de percorrer as treze inclinações — da abstinência ao repouso —, Saadiá recolhe a sua tese num só ponto: viver por uma só delas é errar, e errar duplamente, pois quem absolutiza um anseio nem sequer o satisfaz. A vida boa é composição; e a sua arte não está em repartir igualmente, mas em dar a cada força a dose certa, segundo o caso, a sabedoria e a Torá. É a definição madura do justo meio: não um ponto médio mecânico, mas o juízo afinado que sabe quanto de cada coisa.

Um homem inteiro

O capítulo oferece o retrato concreto desse equilíbrio — uma regra de vida em miniatura. O homem íntegro come e gera o necessário, sempre no lícito; guarda com amor o que recebeu; trabalha conforme precisa; ama este mundo como antessala do vindouro; não busca poder nem vingança, mas os aceita para fazer justiça; foge da preguiça; e consagra o tempo livre ao saber e ao serviço de D'us. Não é o asceta nem o mundano: é o homem completo, com cada força no seu lugar.

A receita da alma

E a imagem final fecha o arco aberto na introdução (o Um e os muitos): a alma sã é como um corpo de quatro humores, ou como o remédio que o boticário compõe — tantos grãos de um, meio peso de outro, uma pitada de um terceiro —, sempre em proporções desiguais e exatas. Saúde do corpo e saúde moral seguem a mesma lei: a da dosagem certa. Quem assim vive “é louvado nos dois mundos” — pois do coração bem guardado “vêm as fontes da vida” (Mishlei 4:23).

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 17, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais.

Citações: Mishlei 4:23; cf. Kohélet 1 e 7 (toda coisa isolada). Notas e seção de estudo são originais.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 18 · apêndice

A Harmonia dos Sentidos e os Oito Modos Musicais

מִזּוּג הַמּוּחָשִׁים — מַרְאוֹת, שְׁמוֹנֶה נְגִינוֹת וְרֵיחוֹת

Um apêndice fascinante encerra o tratado: como os sentidos afetam a alma. Saadiá analisa as cores (ligadas aos quatro humores), os oito modos musicais — uma das primeiras teorias da música no judaísmo — e os aromas, mostrando que a harmonia nasce sempre da mistura proporcional, nunca de um único elemento puro. E conclui, com elegância: se isso vale para os sentidos, quanto mais para o equilíbrio das disposições da alma.

1

E achei por bem oferecer como acréscimo, ao fim deste tratado, a menção das misturas dos objetos sensíveis uns com os outros, para que seja um acréscimo, em ordem e em exame, ao que antepusemos acerca da mistura das disposições. E digo: é sabido que os objetos sensíveis são cinco — os que se saboreiam o paladar, e os que se veem, e os que se ouvem, e os que se cheiram, e os que se tocam. E ponho de lado dois deles: os que se tocam o tato, pois não trazem ao deleite senão por um único modo — a saber, o macio; e, em seguida, os do paladar, pois a sua composição já é conhecida — como o eletuário composto, feito do extrato, e do açúcar, e do açafrão e de outros, e assim também todos os pratos saborosos, dentre os alimentos e os cozidos. E dirigirei as minhas palavras aos outros três objetos sensíveis.

וראיתי להתנדב בסוף המאמר הזה בזכר מזגי המוחשים קצתם עם קצתם, להיותו תוספת בסדר ובבחינה למה שהקדמנו ממזג המדות. ואומר, הידוע כי המוחשים חמשה, נטעמים, ונראים ונשמעים, ומורחים, וממוששים. ואניח השנים מהם, והם הממוששים, כי אינם מביאים לידי ערבות כי אם בדרך אחד והוא הרך, ואחר כן הטעמים, כי הרכבתם ידועה, כמו ההרובה הפאלודג מהנשא והסוכר והכרכום וזולתם, וכן כל המטעמים מן המזונות והתבשילים. ואכוין בדברי אל שלשת המוחשים האחרים,
Nota — um apêndice científico: a harmonia dos sentidos Saadiá conclui o tratado com um acréscimo notável: uma análise de como os sentidos afetam a alma — não para mudar a doutrina, mas para confirmá-la “em ordem e em exame”. Põe de lado o tato (de um só prazer) e o paladar (cuja arte já é conhecida) e concentra-se em três: visão, audição e olfato. O quadro de fundo é a teoria humoral antiga (os quatro humores: sangue, bílis vermelha, fleuma branca, bílis negra), que liga estados do corpo a estados da alma. A tese é que uma só sensação intensa cansa ou desequilibra; a mistura proporcional é que deleita e harmoniza — exatamente como nas disposições morais.
2

E digo que a cor isolada — seja de branco, ou vermelho, ou verde, ou negro — costuma enfraquecer o sentido quando se olha para ela: como a vista se embaça ao olhar para a neve, e como o vermelho prejudica o olho, e a força da vista se debilita ao olhar para o negrume, e o semelhante a isto; e ela a cor isolada, com isto, não traz a deleite algum nem a grande alegria. Mas, quando se misturam umas com as outras, renovam-se delas modos de deleite e um grande estímulo às potências da alma. E digo que o vermelho misturado com o verde move a bílis vermelha a cólera e as suas disposições, e se mostra da alma a força do vigor; e o verde misturado com o negro move a potência da fleuma branca, e se mostra da alma a força da baixeza humildade; mas, se se reunirem o negrume, e o branco, e o verde, e o vermelho, movem a potência do sangue, e se mostra da alma a força da realeza e do domínio; e, quando se conjugar o verde com o esverdeado, movem a potência da bílis negra, e se mostra da alma a força da timidez e do luto; e, do mesmo modo, se se aumentar ou diminuir nela a mistura das cores, renova-se para a alma, das suas potências, conforme as proporções.

ואומר, כי המראה הנפרד מלובן או אודם או ירוק או שחור, מנהגו להחליש החוש כשיביט אליו, כאשר יכהה הראות מן ההבטה אל השלג, וכאשר יזיק האודם לעין, ויחלש כח הראות מן השחרות, והדומה לזה, והוא עם זה אינם מביאים לידי ערבות ושמחה רבה, אבל כשימזגו קצתם עם קצתם, יתחדש מהם אפני הערבות ותנועה רבה לכחות הנפש. ואומר, כי האודם המתערב עם הירוק, יניע המרה האדומה ומדותיה, ויראה מהנפש חוזק העוז; והירוק המתערב עם השחור, יניע כח הלחה הלבנה, ותראה הנפש כח השפלות; אך אם יתקבץ השחרות והלובן והירוק והאודם, יניעו כח הדם, ויראה מן הנפש כח המלכות והממשלה; וכאשר יתחבר הירוק עם הירקרק, יניעו כח המרה השחורה, ויראה מן הנפש כח המורך והאבל; וכן אם יוסיף או יחסר בה מזג המראים, יתחדש לנפש מכחותם כפיהם.
3

E, do mesmo modo, o som isolado, e a nota isolada, e a melodia simples não movem das disposições da alma senão uma só coisa, e por vezes a prejudicam; mas a sua mistura equilibra o que se mostra das suas disposições e potências — e convém-te conhecer os seus efeitos isolados, até que se dê conforme as proporções. E dizemos que as melodias os modos são oito, tendo cada uma delas a sua medida de notas. O primeiro deles, cuja medida é três notas — duas contíguas e uma móvel; e o segundo, três notas — uma em repouso e uma móvel; e estes dois modos movem a potência do vigor do homem e a potência da realeza e do domínio.

וכן הקול הנפרד והנעימה הנפרדת והנגינה, לא יניעו ממדות הנפש כי אם דבר אחד בלבד, ופעמים יזיקוה, אבל המזגם ישוה מה שיראה ממדותיה וכחותיה, וראוי לך לדעת מעשיהם נפרדים עד שיהיה כפיהם. ונאמר, כי הנגינות שמנה, לכל אחת מהם שיעור מהנעימות. הראשון מהם שעוד השלש נעימות, שתים סמוכות, ואחת נעה; והשניה שלש נעימות, אחת נחה ואחת נעה, ואלה השתי נגינות, מניעים כח האדם וכח המלכות והממשלה;
Nota — os oito modos musicais: uma das primeiras teorias da música no judaísmo Esta é uma das passagens mais preciosas do livro para a história da cultura: Saadiá descreve oito “melodias” (nigunot) — modos ou ritmos definidos por padrões de notas (contíguas, móveis, em repouso) e por intervalos de tempo —, e atribui a cada um um efeito sobre a alma e os humores: uns despertam o vigor e o senso de realeza, outros a coragem, outros a humildade e a timidez, outros a bílis negra (ora alegria, ora tristeza). É um ethos da música, aparentado à teoria grega e árabe dos modos, e um dos mais antigos tratamentos do tema na literatura judaica. O ponto moral: “é costume dos reis misturar os modos até que se equilibrem”, para que a música conduza a alma à justa medida — nem ao excesso de compaixão ou crueldade, nem de coragem ou timidez.
4

E o terceiro, cuja medida é duas notas contíguas — não havendo entre elas um tempo de uma nota — e uma em repouso, e entre cada grave, e o agudo, e o grave há um tempo de uma nota; e este modo, sozinho, desperta a bílis vermelha, e a coragem, e a força do coração, e o que é semelhante a eles; e o quarto, cuja medida é três notas contíguas — não havendo entre elas um tempo de uma nota —, e assim também, a cada três e três, um tempo de uma nota; e este, sozinho, move a fleuma branca, e se mostra da alma a força da baixeza, e da submissão, e da timidez, e o semelhante a isto.

והשלישית שעורה שתי נעימות סמוכות אין ביניהם זמן נעימה, ואחת נחה, ובין כל השפל והגבה והשפל זמן נעימה, וזאת לבדה מעירה המרה האדומה והגבורה וחוזק הלב ומה שדומה להם; והרביעית שעורה שלשה נעימות סמוכות, לא יהיה ביניהם זמן נעימה, וכן כל שלש ושלש זמן נעימה, וזאת לבדה מניעה הלחה הלבנה, ותראה מהנפש כח השפלות והכניעה והמורך והדומה לזה;
5

E o quinto, cuja medida é uma nota isolada, e duas diferentes uma da outra — não havendo entre elas um tempo de uma nota —, e entre o agudo e o grave um tempo de uma nota; e o sexto, cuja medida é três notas em movimento; e o sétimo, cuja medida é duas notas contíguas — não havendo entre elas um tempo de uma nota —, e, entre cada duas e duas, um tempo de uma nota; e o oitavo, cuja medida é duas notas contíguas — não havendo entre elas um tempo de uma nota —, e, entre cada duas e duas, um tempo de duas notas. E estes quatro, todos, movem a bílis negra, e mostram da alma disposições divididas — umas vezes para a alegria, e outras vezes para a inquietação. E é costume dos reis misturar os modos uns com os outros, até que se equilibrem; e que o que as melodias movam das disposições de quem as ouve seja conforme o que mais aprouver às suas almas, para a condução do reino — e que não as conduza ao excesso, nem na compaixão nem na crueldade, nem na coragem nem na timidez, nem no acréscimo nem na falta da alegria.

והחמישים שעורה נעימה נפרדת, ושתים שונות זו מזו אין ביניהם זמן נעימה, ובין הגבה והשפל זמן נעימה; והששית שעורה שלש נעימות מתנועעות; והשביעית שעורה שתי נעימות סמוכות, אין ביניהם זמן נעימה, ובין כל שתים ושתים זמן נעימה; והשמינית שעורה שתי נעימות סמוכות, אין ביניהם זמן נעימה, ובין כל שתים ושתים זמן שתי נעימות; ואלה הארבע כלם, מניעים המרה השחורה, ומראות מן הנפש מדות נחלקות, פעם אל השמחה, ופעם אל הדאגה. וממנהג המלכים, למזוג קצתם עם קצתם, עד שתשתוינה, ויהיה מה שתניענה ממדות שמעה אותם, כפי מה שייטיב נפשותם להנהגת המלכות, ולא יוציאם אל הרבוי ברחמים או באכזריות, ולא בגבורה ולא במרך, ולא בתוספת ובחסרון בשמחה.
6

E sobre este mesmo princípio se dá o assunto do cheiro isolado: cada um dos aromas que se cheiram tem a sua potência; e, quando se misturam uns com os outros, a mistura adquire um efeito conforme a maior ou menor proporção da combinação. E disto: que a mirra é quente e seca, e a cânfora é fria e sutil, e o açafrão é quente e seco, e o aloés é frio e úmido, e o âmbar é quente e mediano, e a água de rosas é fria e sutil. E, quando se mistura cada um deles com um outro, se combinam as suas potências e se ajustam para os proveitos dos homens. E, já que a equalização o equilíbrio em todos os objetos sensíveis é mais proveitosa para o homem, quanto mais será a equalização das suas disposições e dos seus amores — que lhe será ainda mais proveitosa!

ועל זה יהיה ענין הריח הנפרד, לכל מריח מהם כח, וכאשר ימזגו קצתם בקצתם, יקנה ענין כפי רוב המזג ומעוטו. ומזה שהמר דרור הם יבש, והכפור קר דק, והזעפרן חם יבש, והאהלות קרים ולחים, והענבר חם ממוצע, ומימי הורדים קרים ודקים. וכאשר יעורב כל א' מהם באחר, ימזגו כחותיו ויתקנו לתועלות בני אדם. וכיון שההשויה בכל המוחשים יותר מועילה לאדם, כ"ש השוית מדותיו ואהבותיו שתהיה מועילה לו יותר:
Nota — do equilíbrio dos sentidos ao equilíbrio da alma O fecho do apêndice — e do tratado — é um argumento a fortiori de rara elegância. Tendo mostrado que, em tudo o que percebemos (cores, sons, aromas), a saúde e o prazer vêm da mistura proporcional, e nunca de um único elemento puro, Saadiá conclui: se o equilíbrio é assim benéfico até nos sentidos, quanto mais o será na composição das disposições e amores da alma! A harmonia, que se vê na física dos perfumes e na arte da música, é a mesma lei que rege a vida moral. Assim a ética do justo meio recebe a sua confirmação na própria ordem sensível do mundo — e o décimo tratado culmina onde a introdução começara: na sabedoria do Um que se exprime na justa medida dos muitos.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

A ética confirmada pela “física” da harmonia

Saadiá fecha o décimo tratado com um acréscimo de naturalista: examina os sentidos para confirmar, no plano sensível, a lei do equilíbrio. Cores, sons e aromas — todos seguem o mesmo princípio: isolados e intensos, cansam ou desequilibram; combinados em proporção, deleitam e movem a alma harmoniosamente. O pano de fundo é a teoria dos quatro humores, que enlaça corpo e alma — uma psicofisiologia medieval posta a serviço da moral.

Oito melodias para a alma

A jóia do capítulo é a descrição dos oito modos musicais, definidos por padrões de notas e tempos, cada um movendo um humor e uma disposição: vigor e realeza, coragem, humildade, ou a bílis negra (alegria e tristeza). É um dos mais antigos tratados de ethos musical na tradição judaica, irmão das teorias grega e árabe. E o seu sentido é prático: “os reis misturam os modos até que se equilibrem”, para que a música conduza a alma à medida certa, sem excesso de paixão nem de frieza.

Do perfume à virtude

O argumento final é um a fortiori perfeito: se a saúde e o prazer dos sentidos — até no perfume composto — vêm da dosagem proporcional, quanto mais a felicidade da alma virá da justa medida das suas inclinações. A ética do meio-termo não é regra arbitrária: é a mesma harmonia que rege as cores, os sons e os aromas. Assim o tratado termina onde a sua introdução começara — na sabedoria do D'us Uno que se manifesta na proporção dos muitos.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 18 (apêndice), na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais. Os termos técnicos da música e da teoria humoral são vertidos com aproximação, dada a sua antiguidade.

Emunot veDeot · Tratado X · A conduta moral · cap. 19 · conclusão da obra

A Conclusão de Toda a Obra — a Pureza do Coração

חֲתִימַת הַסֵּפֶר — זַכּוּת הַלֵּב, וְכָל דָּבָר בְּעִתּוֹ

O capítulo que encerra todo o Emunot veDeot. Saadiá condensa a vida equilibrada numa leitura de Eclesiastes — comer e beber no lícito, atender à sabedoria, ao serviço e ao bom nome, cada coisa no seu tempo —, conta as “onze chaves” de Kohélet, e revela enfim o propósito do livro inteiro: a pureza do coração. Fecha com a prece final e a antiga doxologia: “Está consumado o Livro das Crenças”.

1

E o que se conclui deste conjunto é que o homem há de adquirir neste mundo conforme a sua necessidade, e comer e beber de modo permitido conforme a sua precisão, e firmar a sua atenção na sabedoria, e no serviço a D'us, e no bom nome; e que tome de cada uma das afeições mencionadas conforme o que ordenámos — cada coisa no seu tempo. E esta é a escolha louvável — e ela é a essência “a nata” do que Shlomó mencionou no seu livro em três lugares. Um deles (Kohélet 2:24): “não há coisa boa no homem senão que coma e beba, e faça a sua alma ver o bem no seu trabalho; também isto vi eu, que vem da mão de D'us”. E o seu dizer “que coma e beba” é o capítulo do alimento; e o seu dizer “no seu trabalho” é o capítulo da aquisição; e o seu dizer “da mão de D'us” quer dizer do que é permitido, daquilo que o seu Criador o agraciou — não daquilo que se toma por violência e rapina. E o que disse “e faça a sua alma ver o bem” são os sete assuntos que ele enumera no seu livro como sendo “bem”.

והעולה מן הכלל הזה, שיהיה האדם קונה בעולם הזה כפי תקונו, ויאכל וישתה בהתר כפי צרכו, ויציב השגחתו על החכמה והעבודה והשם הטוב, ויקח מכל אחד מהאהבות הנזכרות כפי מה שסדרנו, כל דבר בעתו. וזאת היא הבחירה המשובחת, והיא חמאת מה שזכרו שלמה בספרו בג' מקומות; אחד מהם (קהלת ב' כ"ד) אין טוב באדם שיאכל ושתה והראה את נפשו טוב בעמלו וגם זה ראיתי אני כי מיד האלהים היא. ואמרו שיאכל ושתה, שער המזון, ואמרו בעמלו, שער הקנין, ואמרו מיד האלהים, רוצה בו מהתרו ממה שחננו בוראו, לא ממה שהוא חומס וגוזל. ואמר והראה את נפשו טוב, הם שבעה ענינים מספר עליהם בספרו שהם טוב;
Nota — Eclesiastes como manual da vida equilibrada O capítulo final recolhe toda a ética do tratado numa fórmula: adquirir, comer e beber no lícito e na medida da necessidade, e firmar a atenção “na sabedoria, no serviço de D'us e no bom nome” — cada coisa no seu tempo. E Saadiá ancora essa síntese em três versículos de Kohélet (2:24; 3:13; 5:17), que ele lê como um código: “comer e beber” = o sustento; “no seu trabalho” = a aquisição honesta; “da mão de D'us” = o permitido; “ver o bem” = as virtudes. O livro mais cético da Bíblia torna-se, em sua leitura, o resumo da vida boa.
2

E o segundo (Kohélet 3:13): “e também quanto a todo homem que coma e beba e veja o bem em todo o seu trabalho — isto é dádiva de D'us”; e este versículo, ainda, abrange quatro assuntos: o alimento, no seu dizer “que coma e beba”; e a aquisição, no seu dizer “em todo o seu trabalho”; e o que é permitido, no seu dizer “é dádiva de D'us”; e alude aos sete assuntos no seu dizer “e veja o bem”. E o terceiro (Kohélet 5:17): “eis o que eu vi ser bom: que é formoso comer e beber e ver o bem em todo o trabalho” — há nele os quatro assuntos que mencionámos, e acrescentou-lhes “que é formoso”, aludindo com isto a que cada uma das disposições e das afeições seja no tempo próprio a ela, e não noutro tempo, como se disse expressamente neste livro Eclesiastes (Kohélet 3:11): “a tudo fez formoso no seu tempo”.

והשני (קהלת ג' י"ג) וגם כל האדם שיאכל וישתה וראה טוב בכל עמלו מתת אלהים הוא, וזה עוד כולל ארבעה ענינים, המזון, מאמרו שיאכל ושתה, והקנין, מאמרו בכל עמלו, ומן ההתר, באמרו מתת אלהים הוא, ורומז אל השבעה ענינים, באמרו וראה טוב; והשלישי (קהלת ה' י"ז) הנה אשר ראיתי אני טוב אשר יפה לאכול ולשתות, יש בו הארבעה ענינים אשר זכרנו, והוסיף עליהם אשר יפה, ורומז בזה שתהיה כל אחת מהמדות והאהבות בעת הראויה לה לא בזולתה, כמו שאמר מפורש בספר הזה (קהלת ג' י"א), את הכל עשה יפה בעתו.
3

E o tema do “bem” mencionado neste versículo a sabedoria tem nele três faces, conforme estão explicadas neste livro. E Shlomó disse: “melhor é a sabedoria do que armas de guerra” (Kohélet 9:18); “melhor é a sabedoria do que a força” (Kohélet 9:16); “boa é a sabedoria com uma herança” (Kohélet 7:11). E cada um destes versículos tem uma disposição própria. Ora, “boa é a sabedoria com uma herança” é específico da sabedoria das naturezas a ciência natural e da formação do mundo, porque o seu fim é “e é vantagem para os que veem o sol” (ali); e o seu dizer “melhor é a sabedoria do que a força” é específico da condução do reino, pois a precede a parábola: “e veio contra ela a cidade um grande rei, e a cercou” (Kohélet 9:14); e o seu dizer “melhor é a sabedoria do que armas de guerra” é específico do serviço a D'us e do temor, porque o seu fim é “mas um só pecador faz perecer muito bem”.

וענין טובה הזכורה בפסוק הזה יש בו שלשה פנים מן החכמה כאשר פרושם בספר הזה. ואמר טובה חכמה מכלי קרב (קהלת ט' י"ח) טובה חכמה מגבורה (קהלת ט' ט"ז), טובה חכמה עם נחלה (קהלת ז' י"א). ולכל פסוק מהם מדה מיוחדת. אך טובה חכמה עם נחלה, הוא מיוחד בחכמת הטבעים ויצירת העולם, מפני שסופו ויותר לרואי השמש (שם); ואמרו טובה חכמה מגבורה, הוא מיוחד בהנהגת המלכות, כי הגדתה ובא אליה מלך גדול וסבב אותה (קהלת ט' י"ד); ואמרו טובה חכמה מכלי קרב, הוא מיוחד בעבודה וביראה, מפני שסופו וחוטא אחד יאבד טובה הרבה.
4

Mas quanto às explicações dos sete assuntos de “bem” que mencionámos serem do livro Eclesiastes: dentre eles, o bom nome e a boa memória — disse a esse respeito (Kohélet 7:1): “melhor é um bom nome do que o bom óleo perfume”; e, dentre eles, a lembrança da morte no tempo dos reveses, que não se esqueça — disse a esse respeito (Kohélet 7:2): “melhor é ir à casa do luto do que ir à casa do banquete”; e, dentre eles, a ira pela honra do Criador — disse a esse respeito (Kohélet 7:3): “melhor é a tristeza séria do que o riso”; e, dentre eles, o ver o desfecho das coisas — disse a esse respeito (Kohélet 7:8): “melhor é o fim de uma coisa do que o seu princípio”; e, dentre eles, a paciência e a ponderação — disse a esse respeito (ali): “melhor é o longânimo do que o altivo de espírito”; e, dentre eles, a companhia dos sábios e dos justos — disse a esse respeito (Kohélet 7:5): “melhor é ouvir a repreensão do sábio”; e, dentre eles, o que o homem creia que não se livra do pecado — a fim de que, por isso, se humilhe diante do seu D'us — disse a esse respeito (ali 7:18): “é bom que te apegues a isto, e que também daquilo não retires a tua mão”.

אבל פרושי השבע עניני טוב אשר זכרנו שהם מן הספר, מהם השם הטוב והזכר הטוב, אמר בו (קהלת ז' א') טוב שם משמן טוב; ומהם זכרון המות בעת המקרים ולא ישכח, אמר בו (קהלת ז' ב') טוב ללכת אל בית אבל מלכת אל בית משתה; ומהם הכעס לכבוד הבורא, אמר בו (קהלת ז' ג') טוב כעס משחוק: ומהם ראות אחרית הדברים, אמר בו (קהלת ז' ח') טוב אחרית דבר מראשיתו; ומהם הסבל והמתון, אמר בו (שם) טוב ארך אפים מגבה רוח; ומהם חברת החכמים והצדיקים, אמר בו (קהלת ז' ה') טוב לשמוע גערת חכם; ומהם שיאמין האדם שאיננו נמלט מחטא, כדי שיכנע בעבור זה לפני אלהיו, אמר בו (שם י"ח) טוב אשר תאחוז בזה וגם מזה אל תנח ידך.
5

E já se esclareceu que o sábio Shlomó, ao investigar os assuntos do mundo, aludiu a estas onze coisas: a sete chamou “bem” (tov), a três chamou “boa é a sabedoria” (tová), e a uma chamou “formoso” (yafé) — a saber, o fazer cada coisa, amada ou rejeitada, no seu devido tempo. E estas onze coisas, na verdade, só se fazem após se tomar o alimento da aquisição permitida, e no lugar para o qual cada coisa foi criada, conforme explicámos.

וכבר התבאר כי החכם בעת שחקר עניני העולם, רמז אל אלה הי"א דברים, שבעה קראם טוב, ושלשה קראם טובה, והאחד קראו יפה, והוא עשות כל דבר אהוב ונמאס בעתו. ואלה האחד עשר אמנם יעשו אחר לקיחת המזון מהקנין המותר, ובמקום אשר נברא לו כאשר בארנו.
Nota — as onze chaves: “tudo no seu tempo” Saadiá coroa a sua exegese de Eclesiastes contando onze bens que Shlomó ali apontou: sete chamados “bem” (o bom nome, a lembrança da morte, a indignação pela honra de D'us, o olhar para o desfecho, a paciência, a companhia dos sábios, e a humildade de quem se sabe pecador), três em que “a sabedoria é boa” (a ciência da natureza, a arte de governar, e o serviço a D'us), e um chamado “formoso” — a chave-mestra: “a tudo fez formoso no seu tempo” (3:11). Fazer cada coisa na hora certa é o nome último do justo meio. E todas essas onze só se realizam “após tomar o alimento da aquisição permitida”: a virtude assenta sobre o pão honesto.
6

E, depois de ter aproximado ao entendimento este capítulo com tudo o que pude das vias da aproximação, digo que todo o livro não é proveitoso senão para a pureza do coração e a intenção de corrigi-lo, como disse (Iyov 11:13): “se tu dispuseres (preparares) o teu coração para Ele”. E disse o sábio: “de todo o meu coração te busquei; no meu coração guardei a tua palavra” (Tehillim 119). E convém que os corações se purifiquem e se submetam ao Nome do nosso D'us, bendito seja, como disse (Melachim II 22:19): “porquanto o teu coração se enterneceu, e te humilhaste diante do Senhor, ao ouvires o que falei sobre este lugar” etc. Não vês que o que se come, e se bebe, e se vê, e se ouve faz, com a intenção do coração, mais do que faz sem ela? E peço a D'us, bendito seja, que nos ponha entre os crentes, e não entre os que erram; e que ponha no nosso coração o Seu amor e o Seu temor, a fim de que mereçamos a vida deste mundo e a vida do mundo vindouro. Está consumado e completo o Livro das Crenças Sefer haEmunot — louvado seja D'us, que revela as coisas ocultas.

ואחרי שקרבתי השער הזה ככל מה שיכולתי מדרכי הקירוב אומר, כי כל הספר איננו מועיל כי אם לזכות הלב וכונת תקונו, כמו שאמר (איוב י"א י"ג) אם אתה הכינות לך. ואמר החכם: בכל לבי דרשתיך בלבי צפנתי אמרתך (תהלים קי"ט). וראוי שיזככו הלבבות ויכנעו לשם אלהינו יתברך, וכמו שאמר (מ"ב כ"ב י"ט) יען רך לבבך ותכנע מפני יי' בשמעך אשר דברתי על המקום הזה וגו'. הלא תראה כי הנאכל והנשתה והנראה והנשמע עושים עם כונת הלב יותר ממה שעושים בלעדיה: ואשאל מהאל יתברך ישימנו מן המאמינים, ולא מן התועים. וישים בלבנו אהבתו ויראתו, כדי שנזכה לחיי העולם הזה ולחיי העולם הבא: תם ונשלם ספר האמונות, ת"ל מגלה צפונות
Nota — o fecho da obra: do credo ao coração Assim se encerra o Emunot veDeot inteiro — e o seu último parágrafo revela o que move toda a obra. “Todo o livro não é proveitoso senão para a pureza do coração e a intenção de corrigi-lo.” Depois de dez tratados de provas sobre a criação, a unidade de D'us, a alma, a justiça, a redenção e o mundo vindouro, Saadiá conclui que o saber só vale quando transforma o coração: “o que se come, se bebe, se vê e se ouve faz, com a intenção do coração, mais do que sem ela”. O racionalismo culmina em devoção. E a obra fecha numa prece — que D'us nos ponha “entre os crentes, e não entre os que erram”, e nos dê “o Seu amor e o Seu temor”, para merecermos “a vida deste mundo e a do mundo vindouro” — selada pela fórmula antiga: “Está consumado e completo o Livro das Crenças; louvado seja D'us, que revela o oculto”.
תַּם וְנִשְׁלַם סֵפֶר הָאֱמוּנוֹת — תְּהִלָּה לָאֵל מְגַלֶּה צְפוּנוֹת Está consumado e completo o Livro das Crenças e das Opiniões — louvado seja D'us, que revela o oculto.

Sobre o encerramento do livro · עִיּוּן

Eclesiastes, decifrado

Saadiá fecha a ética relendo o livro mais desencantado da Bíblia como um manual da vida boa. Os três versículos do “comer e beber… ver o bem no trabalho… da mão de D'us” (Kohélet 2; 3; 5) tornam-se a fórmula do equilíbrio: sustento, trabalho honesto, o lícito, e as virtudes. E o verbo-chave é “formoso no seu tempo” (3:11) — fazer cada coisa na hora certa, que é o nome último do justo meio.

Onze chaves, um só pão honesto

A leitura culmina nas onze marcas da sabedoria que Saadiá colhe em Kohélet — sete “bens” (do bom nome à humildade do pecador consciente), três modos em que “a sabedoria é boa” (ciência, governo, devoção), e o “formoso” de tudo a seu tempo. E uma observação que resume toda a sua ética anti-ascética: essas onze virtudes “só se fazem depois de tomar o alimento da aquisição permitida”. A vida do espírito assenta sobre o pão ganho com retidão.

Do credo ao coração — o fim da jornada

E então o arremate de toda a obra. Depois de dez tratados — da prova da criação à unidade de D'us, da alma à justiça, da redenção ao mundo vindouro, da conduta moral —, Saadiá declara que “todo o livro não é proveitoso senão para a pureza do coração”. O imenso edifício racional existe para uma só coisa: transformar quem o lê. “O que se come, se bebe, se vê e se ouve faz, com a intenção do coração, mais do que sem ela.” O racionalismo de Saadiá desemboca, no fim, em amor e temor de D'us — e em uma prece para que mereçamos “a vida deste mundo e a do mundo vindouro”. Aqui se encerra a primeira grande obra sistemática da filosofia judaica, agora vertida por inteiro ao português.

Sobre esta tradução

Obra: Saadia Gaon (882–942), Sefer haEmunot vehaDeot, Tratado X (A conduta moral; pensamento e crença), cap. 19 e conclusão geral, na versão hebraica de Rav Yehudá Ibn Tibbon, de domínio público (ed. Leipzig, 1864; Sefaria). A redação em português é original; não se reproduz nenhuma tradução moderna protegida por direitos autorais. Com este capítulo conclui-se a tradução integral da obra — Introdução e dez Tratados.

Citações: Kohélet 2:24; 3:11; 3:13; 5:17; 7:1; 7:2; 7:3; 7:5; 7:8; 7:11; 7:18; 9:14; 9:16; 9:18; Iyov 11:13; Tehillim 119:10; Melachim II 22:19. Notas e seção de estudo são originais.