A abertura do Bechinat Olam é escrita em prosa rimada (melitzá), em que quase cada locução é um mosaico de versículos bíblicos. A tradução abaixo procura seguir o hebraico frase a frase; as referências bíblicas vão indicadas no comentário ao final.
1 Os céus para a altura, e a terra para a profundidade, e a largura do coração do entendido — não há como sondar.
2 Aquele que ama rastrear as raízes da pedreira de sua humanidade —
3 não há sondagem para o seu discernimento; muitas são as buscas do coração que estão com ele.
4 Muitos são os pensamentos no coração — e o justo ama os atos de justiça.
5 Em seu íntimo santifica o Santo de Israel, e com seus lábios honra o D'us da glória.
6 Não há sabedoria, nem conselho, nem discernimento que não tenham um pastor.
7 Quem, dentre os baixos, exceto o íntegro, os renegaria a ele?
8 Poderá o coração conter os céus? Conterá o coração dos mares a sondagem? Muros de coração o circunscreveram?
9 Acaso cobrirão as asas do vento o espírito da sabedoria, que paira sobre as águas de repouso e os ribeiros do Éden?
10 Acaso as extensões da terra abarcariam um pensamento cuja morada é um pequeno aposento de parede, do tamanho da palma de um homem?
11 Vê: esta é a porção do homem da parte de D'us, e a porção que de Deus lhe cabe do seu mundo.
12 D'us está nos céus, e este, sozinho sobre a terra, anda em sua retidão.
13 Indaga os registros na escritura da verdade; grandes são os seus feitos em lei e em juízo.
14 E não fossem os pavores do seu tempo a aterrorizá-lo, e o espírito da sua época a apavorá-lo, nada o deteria de cavalgar os céus, de abraçar os braços do mundo, até tornar-se como D'us no conhecer o bem.
Bechinat Olam pertence ao gênero da melitzá — prosa rimada saturada de shibbutz (incrustação de citações bíblicas). Quase toda frase do capítulo é, na verdade, um versículo do Tanakh deslocado para um novo sentido. Por isso uma tradução literal soa, por vezes, elíptica: ela preserva a economia alusiva do original em vez de explicá-la.
v.1 reescreve Mishlei 25:3, "Os céus para a altura, e a terra para a profundidade, e o coração dos reis é insondável" — substituindo "coração dos reis" por "largura do coração do entendido". v.3 ecoa Shoftim 5:15-16, "chikrei lev" (as buscas do coração). v.4 funde Mishlei 19:21 ("muitos pensamentos no coração do homem") e Tehillim 11:7 ("tzaddik tzedakot ahev"). v.5 ecoa Yeshayahu 29:23 ("santificarão o Santo de Yaacov"). v.6 inverte Mishlei 21:30 ("não há sabedoria, nem discernimento, nem conselho diante do Eterno"). v.8 ecoa Melachim I 8:27 ("os céus e os céus dos céus não te podem conter"). v.9 alude a Bereshit 1:2 ("o espírito de D'us pairava sobre as águas") e Tehillim 23:2 ("águas de repouso"). v.10 evoca o "pequeno aposento de parede" de Melachim II 4:10 e a nuvem "como a palma de um homem" de Melachim I 18:44.
A tese da abertura é o paradoxo do intelecto humano: o coração, fisicamente um espaço minúsculo "do tamanho da palma de um homem" (v.10), abarca em pensamento os céus, os mares e o Éden. Essa desproporção entre o continente material e o conteúdo intelectual é "a porção do homem da parte de D'us" (v.11, ecoando Iyov 31:2). O capítulo conclui (v.14) que só os "pavores do tempo" — a angústia da mortalidade e da instabilidade, tema dos capítulos seguintes — impedem o ser humano de exercer plenamente essa capacidade quase divina de "conhecer o bem" (ecoando, com ironia teológica, Bereshit 3:5).
O segundo capítulo descreve o alcance cósmico do intelecto humano: o homem como um dos exércitos celestes, cujo pensamento, treinado pelo hábito, percorre os céus e os abismos e abarca as naturezas de toda a criação.
1 Por isto se assombra todo piedoso, e se apavora — pois a força se foi.
2 Pois quando vejo violência e contenda na cidade, desprezo a minha própria imagem.
3 Pois quando observo as mudanças nas províncias, odeio a mim mesmo.
4 Eu disse: eis que este homem, na terra, era como um dentre o exército do alto, nas alturas.
5 Seu coração, mais vasto que o mar; transbordavam as suas margens.
6 Estende as suas asas para o sul; o que está selado em suas câmaras, ele o revela.
7 Eis que avança para o oriente e compreende os arcanos da sabedoria.
8 Sobe aos céus — ali estão as carruagens de sua especulação; estende o seu leito no Sheol — eis que ergue aposentos nos abismos.
9 Eleva-se da baixeza de sua condição ao alto dos seus céus; desce das alturas dos seus céus sobre a sua terra, até que se desobstruam diante dele as veredas do seu mundo.
10 Num ir e vir, até que — pela facilidade do hábito — conduz e traz, eleva e abaixa o seu intelecto e o espírito do seu discernimento pelos confins da criação.
11 Até recolher em seus punhos as regiões da terra, e na sua força e na sua elevação, e na sua majestade, os altos céus.
12 Até que o seu saber abarque as naturezas das criaturas e a sua constituição, e o seu escrutínio reúna a verdade dos seres criados segundo as suas espécies.
13 E sobre o D'us dos deuses profere maravilhas, e dirige palavras ao Altíssimo.
v.1 ecoa Devarim 32:36, "ki azlat yad" (porque a força se foi). v.2 retoma Tehillim 55:10, "violência e contenda na cidade". v.4 alude a Yeshayahu 24:21, "o exército do alto, nas alturas" (tzeva hamarom bamarom). v.5 funde Iyov 11:9 ("mais largo que o mar") e Yehoshua 3:15 ("transbordando todas as suas margens"). v.6 cita Iyov 39:26, "estende as asas para o sul". v.7 combina Iyov 23:8 ("eis que avanço para o oriente") e Iyov 11:6 ("os arcanos da sabedoria"). v.8 reescreve Tehillim 139:8, "se subo aos céus, ali estás; se faço o meu leito no Sheol, eis-te". v.9 evoca Yeshayahu 62:10, "desimpedi de pedras" (saklu me'even). v.10 retoma o "ir e voltar" (ratzo vashov) das criaturas viventes de Yechezkel 1:14. v.11 ecoa Mishlei 30:4, "quem recolheu o vento em seus punhos?". v.13 é tecido a partir de Daniel 11:36 ("e contra o D'us dos deuses falará maravilhas") e Daniel 7:25 ("e proferirá palavras contra o Altíssimo").
O fecho do capítulo (v.13) é um exemplo agudo da técnica de shibbutz. As duas locuções vêm do livro de Daniel, onde descrevem o rei ímpio que blasfema contra D'us. Yedaiah desloca as mesmas palavras para o sentido oposto: o intelecto humano, tendo percorrido a criação, fala maravilhas a respeito de D'us e dirige-Lhe palavras de louvor. A mesma frase que na fonte é arrogância impía torna-se, no novo contexto, o ápice da contemplação. Esse jogo deliberado de recontextualização é parte do prazer literário que o autor espera do leitor que reconhece as fontes.
Do desânimo diante da corrupção do mundo (vv. 1–3) o autor passa à lembrança da origem celeste do homem (v. 4) e, daí, a uma descrição ascendente do alcance do intelecto: o coração mais vasto que o mar (v. 5), o pensamento que sobe aos céus e desce ao Sheol (v. 8), e que afinal "abarca as naturezas das criaturas segundo as suas espécies" (v. 12) — um percurso que culmina não na ciência por si mesma, mas no discurso sobre D'us (v. 13).
Do retrato exaltado do homem (cap. 2) nasce a perplexidade do cap. 3: como pode uma criatura de safira, talhada por compasso divino, estar sujeita ao acaso, ao opróbrio e à morte? O capítulo é uma sequência de perguntas indignadas que culmina na constatação de que a única falha da criatura humana é a mortalidade.
1 Para o homem a quem pertencem estas coisas — eu concebi labuta e desgosto.
2 Será bom que uma forma de safira como esta fique exposta ao acaso e ao acidente, como alvo para a flecha?
3 Será justo que se predisponha ao escárnio e à vergonha, como um dos homens vãos?
4 Será conveniente que carregue jugo e opróbrio na sua mocidade e na sua velhice?
5 Como aquele que se assenta no assento da sabedoria há de sentar-se solitário e calar-se — ele, que é semelhante a um filho dos deuses?
6 O que apascenta a fé — como há de apascentar-se de vento? O que difunde sabedoria e disciplina — como há de jazer prostrado sob a sua carga?
7 Apoiado em seu discernimento para escapar — como não lhe resistiu a sua sabedoria? Aferrado à sua integridade — como hão de afrouxar-se-lhe as mãos?
8 Ou, se sob as voltas do destino ele se transtorna — por que então o homem expira, e onde fica? Como os animais do campo e as feras da mata?
9 Por que as pedras sagradas hão de colar-se entre torrões e derramar-se sob os lotos?
10 Como a um corpo delineado por compasso divino — do qual o Eterno disse que nele habitaria na névoa espessa?
11 Mau me parece este feito, e não há consolador — que a obra do Eterno, ao tornar ao pó, seja desprezada e se dissolva.
12 Que sobre cedros plantados pelo dedo de D'us venha a subir o lenhador!
13 Busquei entender o homem, examinei a sua formação, e não encontrei nela falha alguma — exceto esta morte.
v.1 ecoa Bemidbar 11:12 ("acaso fui eu que concebi este povo?") e a "labuta e desgosto" (amal vacha'as) de Tehillim. v.2 retoma "a forma de safira" de Eichah 4:7 e o "alvo para a flecha" de Iyov 16:12. v.3 cita "um dos homens vãos" de Shmuel II 6:20. v.4 ecoa "que carregue o jugo na sua mocidade" de Eichah 3:27. v.5 tece três fontes: "o que se assenta no assento" de Shmuel II 23:8, "sentar-se solitário e calar-se" de Eichah 3:28, e "semelhante a um filho dos deuses" de Daniel 3:25. v.6 combina "apascentar-se de vento" de Hoshea 12:2 e "prostrado sob a sua carga" de Shemot 23:5. v.7 ecoa "não te apoies no teu discernimento" de Mishlei 3:5 e "aferrado à sua integridade" de Iyov 2:3. v.8 cita "o homem expira, e onde fica?" de Iyov 14:10. v.9 reescreve Eichah 4:1, "derramam-se as pedras sagradas nas esquinas". v.10 funde "delineia com o compasso" de Yeshayahu 44:13 e "o Eterno disse que habitaria na névoa espessa" de Melachim I 8:12. v.11 ecoa "mau me parece o feito" de Kohelet 2:17. v.12 alude ao "dedo de D'us" de Shemot 8:15 e ao "lenhador" de Yeshayahu 14:8.
O capítulo conclui com uma das frases mais citadas de Yedaiah: examinando a constituição do homem, o autor declara não achar nela "falha alguma — exceto esta morte". A formulação é deliberadamente paradoxal: a criatura é perfeita em sua estrutura intelectual e moral, e contudo carrega uma única, decisiva imperfeição — a mortalidade. Esse será o nó que os capítulos seguintes procuram desatar: não negando a morte do corpo, mas mostrando que a parte intelectual do homem, sua verdadeira "porção da parte de D'us" (cap. 1, v. 11), não está sujeita a ela.
A imagem do versículo 9 — "as pedras sagradas" derramadas "entre torrões" e "sob os lotos" — vem de Eichah (Lamentações), onde descreve os jovens nobres de Jerusalém aviltados na destruição. Yedaiah transpõe o luto nacional para um luto metafísico: a alma humana, pedra preciosa do santuário, jaz misturada à matéria perecível, como gema atirada ao barro. A força da tradução literal está justamente em preservar essa colisão de registros — o vocabulário do Templo aplicado à condição existencial do indivíduo.
Resposta ao luto do capítulo anterior: a alma é uma fonte de vida que sobrevive à morte do corpo, e esse é o consolo. Os deleites do mundo, por contraste, são uma emboscada — desenvolvidos numa série de trocadilhos (vv. 8–11) — e o capítulo fecha com a imagem do jovem que aperta um raio de sol e, ao abrir a mão, a encontra vazia.
1 Uma fonte de vida nos preparou a natureza, pela sabedoria do seu Criador; deixou-nos uma bênção, fazendo que as nossas almas permaneçam depois dela.
2 Nela podemos consolar-nos da obra da vaidade e do pesar das privações.
3 Salvação eterna temos na casa do Rei; e por que te queixas, ó filho da terra, por haveres cavado aqui para ti um sepulcro?
4 O trono de D'us esperas habitar, tranquilo e seguro; e por que te afliges, aqui, por seres munido de armas de guerra?
5 Imaginaste-te entre os filhos das alturas; e em que te empobrecerá deixar o que é baixo e decadente?
6 Ainda mais que os deleites do mundo que buscas são, para nós, espinhos e abrolhos.
7 Desde o dia em que o Eterno incumbiu a terra de encerrar em seus torrões este espírito de vida, e ele se fez homem — eis que esses deleites emboscaram o seu sangue e foram os seus perdedores.
8 Os desejos, trevas; e os apetrechos de guerra, sacos.
9 As pérolas, espinhos; e os lírios, urtigas.
10 Os faustos, labaredas; e os ouros, moscas.
11 E os prazeres dos filhos do homem — shidá veshidatin, demônios e demônias.
12 E tu buscas para ti abominações tão grandes como estas? Não as busques!
13 E que há a fazer senão lidar com o tempo como se lida com um companheiro perverso e tortuoso?
14 Ama-o, porém conforme as suas medidas; repreende-o, porém conforme as suas disposições.
15 Alegra-te com o pouco que se obtém dos seus proveitos e da sua posse; e os olhos do escrutínio fecharás, para não ver aquilo em que ele falha em ser útil, ou em que prejudica.
16 Só que a convivência com o tempo é, como as sombras da tarde, veloz em declinar.
17 Como um jovem que recolhe na sua mão um raio de sol, a mão cheia, e, ao abri-la, fica tremendo — pois não vê coisa alguma na sua mão.
Os versículos 8 a 10 são um tour de force de paronomásia (tzimud): cada par hebraico rima e quase se espelha, esvaziando a coisa elevada na sua versão vil. Ha-chashakim macha-shakim (os desejos / trevas); kelei ha-neshakim sakim (as armas / sacos); ha-peninim tzeninim (as pérolas / espinhos); ha-shoshanim kimshonim (os lírios / urtigas); ha-rehavim lehavim (os faustos / labaredas); ha-zehuvim zevuvim (os ouros / moscas). O efeito sonoro é intraduzível: em português conserva-se apenas o contraste de sentido, perdendo-se a rima. O leitor de hebraico percebe que o vício está, por assim dizer, embutido na própria palavra que nomeia o objeto desejado. O v. 11 fecha a série com shidá veshidatin, expressão de Kohelet 2:8 que o Talmud (Gittin 68a) lê como "demônios e demônias" — os prazeres como espíritos malignos.
v.1 funde "fonte de vida" (Mishlei 14:27) e "deixa atrás de si uma bênção" (Yoel 2:14). v.3 combina "salvação eterna" (Yeshayahu 45:17) e "cavar para si um sepulcro no alto" (Yeshayahu 22:16). v.4 ecoa "tranquilo e confiante" (Shoftim 18:7). v.5 usa "os filhos das alturas" (benei aliyah, expressão talmúdica, Sucá 45b). v.6 ecoa "espinhos e abrolhos" de Yechezkel 2:6. v.12 reescreve Yirmiyahu 45:5, "e tu buscas grandezas para ti? Não as busques!", trocando "grandezas" por "abominações". v.13 retoma "perverso e tortuoso" de Devarim 32:5. v.15 ecoa "fecha os olhos para não ver o mal" de Yeshayahu 33:15. v.16 alude a "as sombras da tarde se inclinam" de Yirmiyahu 6:4. v.17 usa "a mão cheia" (melo kumtzo) do rito da oferta de Vayikra 2:2.
A imagem que encerra o capítulo é uma das mais delicadas do livro: o jovem fecha a mão sobre um raio de sol, sentindo havê-lo capturado, e quando a abre, treme ao encontrá-la vazia. É a parábola exata do prazer mundano — luminoso enquanto se aproxima, inexistente quando se tenta retê-lo. A tradução procura preservar o gesto exato do original (recolher, fechar, abrir, tremer) sem antecipar a interpretação, que o leitor extrai por si.
O capítulo expõe o "mal doentio" do sábio que gasta sua força em fins sem proveito e acumula bens que abandonará na morte. Ao exaltar as faculdades inferiores da alma, escraviza a parte livre — a importante. A imagem central é Esaú vendendo a primogenitura por um prato de lentilhas, e o capítulo fecha com o sonho de poder que se desfaz ao despertar.
1 Vê este mal doentio, que não foi espremido nem enfaixado: o intensificar-se o anseio do sábio por fins sem proveito.
2 Ao multiplicar conselhos veementes e cogitações cambiantes, para acrescentar o dote e ampliar a dádiva — largados sobre a terra ao passar ele, abandonados depois que ele cai.
3 Pois qual é a sua porção, em sua casa, de toda a labuta com que se afadiga, para o seu corpo e o seu solo, além da ração diária e do preparo da sua mesa?
4 E o resto de seus tesouros, e as casas do erário e do bálsamo, pelos quais lançou laços à sua própria alma com os encantos deles — que proveito tira deles, senão a visão dos seus olhos?
5 Mais ainda: eles lhe servirão de armadilha, quando ele exalta as partes servis da sua alma e põe a servir a parte livre dentre elas — a que é digna.
6 Tudo o que pedir a companhia das suas potências inferiores lhe será concedido; e em tudo o que cobiçarem, tomarão a sua parte.
7 E como um cão, a sua alma — a única — dorme nos fundos; única ela é, e ela se faz estranha a si mesma.
8 Se buscarem entendimentos da sua boca, frustra-se o seu conselho; fica mudo.
9 Romperam-se os seus anseios como se rompe o fio de estopa ao tocar o fogo, com temor e tremor.
10 É este o ato de um sábio? Acaso será doce um cozido de lentilhas pelo qual se vende a primogenitura?
11 Ou será preferível uma mão cheia de sossego, ainda que debilmente alcançado, a dois punhados cheios de mil fadigas dolorosas?
12 Será bom que se alegrem as entranhas do meu ventre enquanto a minha alma se enluta — que o meu solo, o osso, se enrubesça, e a minha alma fique desolada?
13 E que proveito tem aquele que reina numa visão noturna e que, na sua pujança e na altivez do seu coração, desperta — e eis que era um sonho?
14 Ou que, numa visão, se faz conhecido e sábio, e a ele se ajuntam rebanhos de mestres das assembleias — e desperta, e a sua alma está vazia.
15 Ai dele, homem de braço forte, que cai e o seu braço se quebra!
16 Ai dele, homem de braço: a terra o herdará — pois não será sua a semente que há de herdar a terra.
v.1 funde "um mal doentio" (Kohelet 5:12) e "não foi espremida nem enfaixada" (Yeshayahu 1:6, descrição das chagas não tratadas). v.2 usa "dote e dádiva" (mohar umatan, Bereshit 34:12). v.3 ecoa "ração contínua" (aruchat tamid) de Yirmiyahu 52:34. v.4 reúne as "casas do tesouro e do bálsamo" de Yeshayahu 39:2 e o "proveito... senão a visão dos olhos" de Kohelet 5:10. v.7 chama a alma de "a única" (yechidah), como em Tehillim 22:21. v.8 ecoa "frustra o conselho" de Shmuel II 15:31. v.9 cita Shoftim 16:9 — Sansão, e o "fio de estopa que se rompe ao tocar o fogo". v.10 remete a Bereshit 25:29-34, Esaú e o guisado de lentilhas. v.11 reescreve Kohelet 4:6, "melhor uma mão cheia com sossego". v.13 combina "visão noturna" (Iyov 20:8) e "despertou, e eis que era sonho" (Bereshit 41:7). v.14 tece "numa visão me dou a conhecer" (Bemidbar 12:6), "mestres das assembleias" (Kohelet 12:11) e "desperta, e a sua alma está vazia" (Yeshayahu 29:8). v.15 ecoa "o homem de braço possui a terra" (Iyov 22:8) e "os braços dos ímpios serão quebrados" (Tehillim 37:17).
O coração do capítulo (v. 10) é a venda da primogenitura por Esaú: o sábio que cede sua herança eterna (a parte intelectual da alma) por um prazer momentâneo repete o erro de Esaú, que "desprezou a primogenitura" (Bereshit 25:34). Os dois versículos finais jogam com a raiz zera: ish zeroa (o homem de braço, o poderoso) acaba herdado pela terra (eretz tinchalehu — ela o engole), enquanto a zera (semente, posteridade) que "herdará a terra" — eco do refrão de Tehillim 37, "os humildes herdarão a terra" — não será sua. A força reverte-se em pó; quem possuía a terra é por ela possuído.
Um mal pior que os anteriores: o homem comum que anseia pela chegada das estações para alcançar seus desejos deseja, sem perceber, a própria morte — pois cada porção de tempo que ele quer ver passar é uma porção da sua própria vida. As festas, os anos, os anos sabáticos e os jubileus são lidos numa cadeia de trocadilhos.
1 E pior ainda do que isto: a intensidade do anseio do homem comum por que cheguem os ciclos dos dias para alcançar os seus desejos — e talvez, com isso, ver a sua própria ruína.
2 Consome-se a sua alma por que se acabe o ano e se revelem as suas maldições.
3 E como há de vigiar o "que vai da noite" aquele que numa só noite se desfaz?
4 Ou dirá: "quem dera fosse tarde" — a tarde em que ele murcha e seca.
5 Como há de anelar pela sombra aquele cujo vigor foge com a fuga das sombras, e cuja força o sedento sorve?
6 Ou confiará na convivência da sua alma com o seu corpo — que é como o entardecer, o tempo marcado da sua partida?
7 Espera o dia em que será arrebatado; aguarda o fim dos dias em que despertará entre pavores.
8 Para as festas, vacilam-lhe os pés; para os anos, alteram-se as suas ordens; para os anos sabáticos, é desligado; para os jubileus, se enluta.
9 Anseia a sua alma por que empalideça a sua face; farta-se de vergonha; espera ser ferida sem piedade.
10 Acaso sobre isto não atentaste — ao desejares saltar, com rapidez, num piscar de olhos, do princípio do ano até o fim do ano?
11 E se amaste lavrar o solo como quem serve a D'us, por amor — como anseias pelo dia em que o deixarás em pousio e o abandonarás? Isto não é senão maldade de coração.
O capítulo identifica uma forma sutil de autodestruição: o desejo de que o tempo passe. Quem anseia pelo fim do dia, do ano, ou pela chegada de uma data esperada, está — sem perceber — desejando a própria morte, pois cada parcela de tempo que ele quer ver consumida é uma parcela da sua vida. O homem persegue uma sombra (v. 5), mas é ele mesmo uma sombra que foge. O fecho (vv. 10–11) acusa a contradição: amar o trabalho do solo "como quem serve a D'us" e ao mesmo tempo desejar o dia de abandoná-lo é "maldade de coração".
v.1 ecoa "ver na sua ruína" (Ovadyah 1:13). v.2 retoma "consome-se a minha alma" de Tehillim 84:3, com o trocadilho kaltah / tichleh (anela / acabe). v.3 funde "guarda, que vai da noite?" (Yeshayahu 21:11) e a aboboreira de Yonah 4:10, "que numa noite surgiu e numa noite pereceu". v.4 tece "quem dera fosse tarde" (Devarim 28:67) e "à tarde murcha e seca" (Tehillim 90:6). v.5 combina "como o servo anseia pela sombra" (Iyov 7:2), "a fuga das sombras" (Shir HaShirim 2:17) e "o sedento sorve a sua riqueza" (Iyov 5:5). v.6 alude ao pôr do sol de Bereshit 15:12. v.9 ecoa "farta-se de opróbrio" de Eichah 3:30. v.10 cita "do princípio do ano até o fim do ano" de Devarim 11:12. v.11 reúne "deixá-la em pousio e abandoná-la" (Shemot 23:11, lei da shemitá) e "isto não é senão tristeza/maldade de coração" (Nechemyah 2:2).
O versículo 8 alinha as quatro unidades do calendário sagrado, cada uma colada a um verbo de queda que rima com ela: mo'adim / yima'adu (festas / vacilam), shanim / yishtanu (anos / mudam), shemitot / yishamet (anos sabáticos / é desligado), yovlim / yit'abel (jubileus / se enluta). O tempo litúrgico, que deveria marcar a santificação dos dias, torna-se, para quem só deseja vê-lo passar, uma sucessão de tropeços e lutos. A tradução conserva o sentido de cada par, perdendo inevitavelmente a rima do original.
O capítulo dramatiza o homem como um enviado que se atrasa em sua missão e, depois, o paradoxo de quem precisa julgar a própria escolha: escolho o bem sem saber o que é o bem; meu caminho é doce aos meus olhos — mas será bom aos olhos do Eterno? O eu torna-se réu, juiz e oráculo de si mesmo.
1 Se a minha alma colheu sequer um vestígio de caminhos como estes — para que me serve a vida?
2 Se curta é a minha jornada e o meu trajeto até o porto desejado — que me aproveita, nos vaus da travessia, prolongarem-se ali os meus dias?
3 Se para alcançar um fim distante fui criado, mas vou-me arrastando devagar, indolente, a mão metida no prato, exausto demais para devolver resposta a quem me enviou —
4 de que me serve uma velhice ditosa? E anos de vida que me acrescentem — que acrescentam, que dão?
5 Se para fazer a minha obra fui enviado para cá, e eis-me frouxo de mãos, ferido de vadiagem, golpeado pela ociosidade —
6 de que vale, para bem ou para mal, eu ficar em casa, pouco ou muito tempo?
7 E se vejo os males e o bem, e escolho o bem sem saber o que é o bem — como hei de saber e como hei de discernir?
8 E quando digo: "Quão doce ao meu paladar é o meu caminho! Quão bons, aos meus olhos, são todos os meus pensamentos!" —
9 acaso se comprovará a minha escolha? Acaso se confirmará a minha palavra — de que será bom para a minha alma um caminho que eu escolha? Será ele bom aos olhos do Eterno?
10 Ou será reto o meu caminho, a ponto de eu pisar sobre os altos da minha soberba, só porque ela é reta aos meus olhos?
11 Hei de me ensoberbecer por haver entronizado o meu próprio rei? Há de me agradar, se no pátio do meu rei é falsa a minha libação?
12 Ou hei de venerar o meu conselho néscio? Será ele venerado no secreto dos santos? Há de causar pavor a minha turba?
13 Ou hei de exaltar o meu dito, se amargo ele será no fim?
O capítulo formula um problema que atravessa toda a ética: como pode o homem julgar a retidão das próprias escolhas, se o critério de julgamento é o seu próprio coração — parte interessada na causa? "Escolho o bem sem saber o que é o bem" (v. 7); "quão bons aos meus olhos são os meus pensamentos" (v. 8). O eixo é a distinção entre o que é "bom aos meus olhos" e o que é "bom aos olhos do Eterno" (v. 9) — eco do refrão sombrio do livro de Shoftim, "cada um fazia o que era reto aos seus próprios olhos" (Shoftim 17:6; 21:25). Os versículos finais levam a ironia ao extremo: o homem que entroniza a si mesmo como rei e reverencia o próprio conselho néscio como se fosse oráculo no "conselho dos santos".
v.1 funde "um sussurro disso" (Iyov 4:12) e "para que me serve a vida?" (Bereshit 27:46, palavras de Rivká). v.2 usa "o porto desejado" (Tehillim 107:30) e os "vaus" (Bereshit 32:23). v.3 tece "vou-me conduzindo devagar" (Bereshit 33:14, Yaacov a Esaú), "o preguiçoso esconde a mão no prato" (Mishlei 26:15) e "devolver resposta a quem te envia" (Mishlei 22:21). v.4 combina "boa velhice" (Bereshit 15:15) e "que te dá e que te acrescenta?" (Tehillim 120:3). v.5 ecoa "D'us me enviou" (Bereshit 45:5). v.8 alude a "quão boas são as tuas tendas" (Bemidbar 24:5, Bilam). v.10 reúne "pisar sobre os altos" (Devarim 33:29) e "reto aos seus olhos" (Shoftim 17:6). v.11 usa "eu instalei o meu rei" (Tehillim 2:6). v.12 ecoa "D'us temível no conselho dos santos" (Tehillim 89:8). v.13 cita "amargo será no fim" (Shmuel II 2:26).
A força acusatória dos versículos 11–13 está na série de imagens em que o homem usurpa funções sagradas para com a sua própria vontade: entroniza o seu rei (mas a libação que lhe oferece é falsa), venera o próprio conselho (como se fosse "conselho dos santos"), exalta a própria palavra (que será amarga no fim). É a idolatria de si — adorar a própria opinião como se fosse revelação. O capítulo não resolve o paradoxo do juízo parcial; deixa-o em aberto, como pergunta que o leitor deve levar adiante.
O capítulo mais célebre do livro: o mundo é um mar revolto, e o tempo, uma ponte frágil construída sobre ele — de um côvado de largura, sem parapeitos. O homem a atravessa à força desde o nascimento. A passagem inspirou a tradição posterior; sua forma mais conhecida (atribuída a Rabi Nachman de Breslov) — "todo o mundo é uma ponte estreita" — tem aqui a sua fonte literária.
1 O mundo é um mar revolto, de grande profundeza, largo de extensão.
2 E o tempo, uma ponte frágil construída sobre ele.
3 O seu início preso às cordas da inexistência que antecede o seu surgimento.
4 E o seu término, contemplar a delícia perpétua, resplandecer na luz do rosto do Rei.
5 A largura da ponte é um côvado de homem, e ainda por cima faltam-lhe os parapeitos.
6 E tu, ó filho do homem, contra a tua vontade estás vivo, atravessando-a sem cessar desde o dia em que te fizeste homem.
7 Ao veres a estreiteza da senda, sem caminho para desviar à direita ou à esquerda — hás de gloriar-te de monumento e nome?
8 Ao espreitares — eis que o Abadom e a morte te são muralha à direita e à esquerda — resistirá o teu coração, ficarão firmes as tuas mãos?
9 E se te ufanas de uma posse cobiçada e de muitos haveres, que ajuntaste com o braço desnudado, que caçaste com o teu arco e desceste a apoderar-te dela com a tua rede —
10 que farás à fúria do mar e à sua turba, quando se enfurecer, inundar e passar — e a tua própria pousada estiver a ponto de despedaçar-se?
11 Este mar grande, em cujo seio te encontras — vangloria-te sobre ele, assenhoreia-te também dos seus cavaleiros e da sua carruagem; sai agora e peleja contra ele!
12 Ainda que cambaleies e osciles — do vinho das ilusões da tua soberba, que te iludem; do mosto das romãs das tuas exaltações, que te enganaram —
13 por um nada, por um nada que te desvies para cá e para lá, perecerás num instante em abismos pavorosos, e o teu sangue, da mão deles, ninguém reclamará.
14 Irás de abismo em abismo, perdido nos recessos do mar, e não há quem diga: "devolve!"
15 Hei de confiar na mentira? Hei de escorar-me num bordão de cana quebrada?
16 Tomar uma estalagem de viandantes como esta por fortaleza, por baluarte e por santuário de rei?
17 A asa de uma pulga, a ponta de diamante, teias de aranha, corais e cristal.
18 E quando vires os dias amenos, e o tempo a saltar e a dançar, e o instante a vir acalmar-te, e a hora a folgar e a brincar diante de ti pelo mundo — e desprezares no teu coração o porvir dos dias —
19 é na mentira que confias; a sombra da aboboreira vês como um monte alto e escarpado.
20 Por causa destas coisas lançaste a alma para trás das costas, voltaste os teus caminhos para os tristes deleites da carne?
21 E sempre que a vires — a alma — amando o seu D'us, lembrada do seu fim, abastecendo-se para a jornada — com a labuta das tuas mãos a perturbas.
22 Cada vez que ela sobe à casa do Eterno, assim a provocas.
23 Por vaidades de delícias imaginárias hás de abandonar a preciosidade eterna, o deleite perene?
24 E sucederá que, quando o teu coração te perguntar amanhã — ao despontarem os filhos do dia — "quem me gerou estes?" —
25 também tu lhe responde: a obstinação do teu coração e o seu conselho mau.
26 Há de o servo estragar a obra que lhe foi prescrita, e o ânimo do soberano não o rejeitará?
27 Andará um homem com o seu senhor sem atenção, alegando que não o odeia?
A imagem central — o mundo como mar e o tempo como ponte de "um côvado de largura, sem parapeitos" (v. 5) — é a fonte literária da máxima posterior "todo o mundo inteiro é uma ponte muito estreita". Note-se a precisão filosófica do desenho: a ponte tem um início preso à inexistência anterior ao nascimento (v. 3) e um fim que é a contemplação da "luz do rosto do Rei" (v. 4, de Mishlei 16:15). A travessia é involuntária — "à tua revelia estás vivo" (v. 6) — e sem retorno.
v.7 usa "monumento e nome" (yad vashem, Yeshayahu 56:5). v.8 evoca o mar do Êxodo, "muralha à direita e à esquerda" (Shemot 14:22), e "resistirá o teu coração, ficarão firmes as tuas mãos?" (Yechezkel 22:14). v.11 retoma "este mar grande" (Tehillim 104:25) e os "cavaleiros e a carruagem" de Faraó (Shemot 14). v.12 alude a "cambaleiam como o bêbado" (Tehillim 107:27). v.14 usa "os recessos do mar" (Iyov 38:16) e "não há quem diga: devolve" (Yeshayahu 42:22). v.15 cita "o bordão de cana quebrada" (Yeshayahu 36:6). v.19 remete à aboboreira de Yonah 4:6. v.22 ecoa "cada vez que ela subia à casa do Eterno" (Shmuel I 1:7, sobre Hanná). v.24 reescreve "quando teu filho te perguntar amanhã" (Shemot 13:14). v.27 aplica a fórmula do homicida involuntário "que não o odiava" (Devarim 19:4) à negligência para com D'us.
O versículo 17 é uma enumeração deliberadamente heteróclita: "a asa de uma pulga, a ponta de diamante, teias de aranha, corais e cristal". Cada termo é colhido de um versículo: a "ponta de diamante" (tziporen shamir) de Yirmiyahu 17:1 — o estilete com que se grava o pecado; as "teias de aranha" de Yeshayahu 59:5; os "corais e o cristal" (ramot vegavish) de Iyov 28:18. A lista mistura o frágil (asa de pulga, teia) e o duro e precioso (diamante, coral, cristal), concentrando numa só linha a tese do livro: tudo o que o mundo oferece — o efêmero e o valioso por igual — não passa de matéria do mar sobre o qual se estende a ponte. A frase é elíptica no original (sem verbo), e a tradução a preserva como inventário, deixando ao leitor a função que o autor lhe atribui.
Apóstrofe ao "herói" que se entrega aos prazeres — comendo, bebendo, ostentando — ignorando que os seus atos têm registro, que há um olho que vê e um ouvido que ouve, e que as vicissitudes do tempo são mensageiras da Providência. O capítulo encerra (vv. 28–37) numa cascata de trocadilhos sobre a futilidade da força e da longevidade, terminando em Sodoma e Gomorra.
1 E de que te glorias, ó valente, em pastar nas verdes pastagens, atrás dos rapazes, à luz do sol?
2 Ao assentares com antimônio as tuas pedras, ao meio-dia, junto aos rebanhos dos teus companheiros —
3 os que dizem à sua alma: "come e bebe" — mas o seu coração não está com eles;
4 os que nada têm diante de si senão o seu corpo, e a altura ilusória da sua exaltação — nuvens e vento, mas chuva nenhuma.
5 Acaso não sabes que os teus atos têm um registro, e que há, acima de ti, um olho que vê e um ouvido que ouve todo o teu sossego e toda a tua agitação?
6 E agora, em quem confiaste para derrubar as cercas que ergueram os poderosos entre os pastores?
7 Será por não haver D'us sobre ti, que conheça a tua saída e a tua entrada?
8 Será por não haver sepulturas debaixo de ti, onde se faça justiça contra os inimigos do Eterno?
9 E como não atentaste em teu coração que as vicissitudes que chegam — mensageiras da Providência — não se desviam, em seu trajeto, de recompensar e punir os indivíduos humanos e os seus grupos?
10 E que da boca do Altíssimo procede o abatimento do nobre e a elevação do vil?
11 No dia em que o homem vil galga os degraus — do Eterno veio o desígnio; e no dia em que o homem de D'us desce dos céus — o Rei decretou: "desce!"
12 E como, diante destas coisas, não abriste os olhos?
13 Acaso te incitaram e até prevaleceram sobre ti pensamentos arrogantes e cogitações indolentes?
14 De dia te aconselharam os rins que se consomem; e de noite te castigaram com açoites.
15 Adoçaram ao teu paladar os torrões do tropeço, com manteiga de áspides, temperada com veneno de serpentes.
16 E com maquinações corromperam, profanaram e fizeram doer-te toda porção boa e toda salvação — com a lisura de palavras mais brandas que o azeite.
17 Que tens, ó adormecido? Por que te iludiram, fazendo-te herdeiro de dez terras como estas por todos os dias do mundo — sendo tu apenas um emprestado, nos fundos da tua casa, pela medida de breves dias?
18 Malditos são eles, pois te baniram de unir-te à herança dos santos — da rocha de onde foste talhado — de partilhares o conselho das criaturas viventes que te animaram; e covis de leões se te tornaram morada.
19 E se, por tesouros de ouro fino e pelo tesouro das províncias que acumulaste, acrescentaste soberba ao corpo — rebaixando diante deles um espírito nobre —
20 vê: foste golpeado com a vara da insensatez e com as pragas da cegueira.
21 Acaso por tesouros de treva ataste e odiaste a alma atada no feixe da vida?
22 Acaso por barras de prata oprimiste e esmagaste o anseio verdadeiro e o desejo digno?
23 Só que a glória das riquezas não há de perdurar.
24 Dentro em pouco sairá um espírito mau da parte de D'us para dispersar os teus bens.
25 E serão como se nunca tivessem existido os cinquenta mil de ouro, por cuja posse vendeste a tua alma.
26 Reverter-se-á o tempo num breve instante, para arrancar graça e glória de sobre a tua cabeça.
27 E descerá o fogo de D'us dos céus e te devorará, a ti e aos teus cinquenta.
28 E por que cobiçaria a terra — como Admá — e a multidão — como Tzevoim?
29 Reservada está a sua fúria na sua convivência; firme é o seu nó na sua trama.
30 A sua doçura e o seu favo, como palha no turbilhão; o seu fim e o seu termo, como cana e junco; ignomínia perene e opróbrio incessante.
31 Ou de que se deleitaria a minha carne ao saber-se de muitos anos, se da derrocada da morte não há fuga?
32 Que vale empenhar-se em feitos de poder, se transgressões e sepulturas são o seu termo?
33 Ou há de engordar até os oitenta, com lugares ermos a seu lado?
34 Ou há de cobrar ânimo até os noventa, sem salvação alguma em seus confins?
35 Hão de exaltar-se para reinar formigas que definham e murcham, e répteis que se derretem como água?
36 E se um dia ou dois subsistirem, acaso para sempre não os consumirá a espada?
37 E como hão de prosperar os campos de Sodoma e as gavelas de Gomorra?
O versículo 5 transpõe quase literalmente a máxima de Avot 2:1: "Sabe o que está acima de ti — um olho que vê, um ouvido que ouve, e todos os teus atos são escritos no livro." O capítulo aplica essa consciência da vigilância divina ao "herói" hedonista (v. 1, eco de Tehillim 52:3, "por que te glorias na maldade, ó valente?"), que "diz à sua alma: come e bebe" (v. 3, de Mishlei 23:7) mas cujo coração está vazio.
O núcleo doutrinário (vv. 9–11) é a tese de que as temurot — as mudanças e reviravoltas da fortuna — não são acaso: são "mensageiras da Providência" (shluchei ha-hashgachah) que, em seu curso, "não se desviam" de recompensar e punir. A formulação "não se desviam em seu trajeto" ecoa as criaturas viventes de Yechezkel 1:9-12, que "não se voltavam quando iam". O versículo 10 cita Eichah 3:38, "da boca do Altíssimo não procede o mal e o bem?" — e o v. 11 lê a ascensão do vil e a queda do nobre como decreto régio.
O fecho do capítulo é uma série virtuosística de paronomásias, em que cada afirmação rima consigo mesma. Adamah ke-Admah, tzava ki-Tzvoyim (terra como Admá, exército como Tzevoim — as cidades destruídas de Hoshea 11:8); evratah be-chevratah (sua fúria na sua convivência); yishman li-shmonim ashmanim (engordar até os oitenta, com ermos ao lado — de Yeshayahu 59:10); yit'ashet le-tishim... teshuah (cobrar ânimo até os noventa, sem salvação). A tradução conserva o sentido de cada cláusula, perdendo a rima; o fecho em "os campos de Sodoma e as gavelas de Gomorra" (v. 37) vem de Devarim 32:32, selando a meditação sobre a esterilidade última de toda força e riqueza.
Versões abreviadas em circulação trazem este capítulo com apenas dezessete versículos. O texto-base do Sefaria (edição de Vilna) traz os trinta e sete versículos aqui traduzidos; a longa coda de trocadilhos (vv. 28–37), frequentemente omitida, é parte integrante do capítulo.
O capítulo é uma apóstrofe direta: o mundo (tevel) é personificado como mulher corrupta — construída sobre a podridão, que inverte os valores e trai seus amantes — e o orador a confronta, expõe a sua natureza e a demite. A última palavra é um epitáfio retomado de Jeú sobre Jezabel: "sepultai-a".
1 Ó mundo, fonte da decadência e da ruína — das tuas vaidades haveríamos de aguardar herança, para que nos deixes um futuro e uma esperança?
2 Manancial das privações — de ti esperaríamos encontrar nome e sobrevivência?
3 Pois quando me ponho a investigar a tua raiz e a tua procedência — donde vieste e como foste formada — para saber se és capaz de fazer o bem, se prestas para reinar —
4 descobri que os teus construtores foram os teus perturbadores, e os teus artífices, os teus demolidores.
5 As mãos dos que te moldaram são as que te afligem; os que te erigem são os que te arruínam.
6 Deitaram-te sobre a traça, alicerçaram-te na podridão.
7 Produziram o teu nada; dissolvida está a tua têmpera, desfeita a tua composição.
8 Mas, depois de eu me deter sobre os teus defeitos e expor a tua vergonha a todos os que te encontram — hei de ir atrás de ti? Hei de honrar-me com a tua convivência?
9 Tornarei ainda a desejar a tua formosura, visível aos meus olhos, depois de a haver desprezado no meu coração?
10 E como me embruteceria e desfilharia a minha alma, esperando que do cacho de amarguras das tuas amarguras e do absinto das tuas uvas se produzisse fruto e messe?
11 Acaso do antro do fedor das úlceras, do veneno dos dragões, tirarei doçura?
12 E do corpo do leão e do urso colherei mel?
13 Ainda mais que, ao contemplar os teus amantes — gente sem nome — vejo que os homens de renome, esses são os teus odiados.
14 Vi-te a catar as cascas e a jogar fora o âmago.
15 Ajuntas a turba, achegas o vazio e o que é pleno afastas.
16 Com isto atestas a tua raiz, ó vendedora ambulante de tropeços, mercadora de defeitos.
17 Com isto proclamas a tua vileza, ó mulher de tochas.
18 Ao empenhar-te o dia inteiro, em tua muita perversidade, em destituir os reis, cada um do seu posto, e pôr em lugar deles os mais baixos entre as servas e os desprezíveis entre as famílias —
19 ao enlouqueceres o dia inteiro para traçar nas portas das casas dos nobres o sinal da destruição e da queda, enquanto as casas dos vis edificas com pedra lavrada e pedra preciosa —
20 e o fogo da tua ira, no jardim de D'us, nas árvores do Líbano se acende — mas a sarça não é consumida.
21 Os cedros decepas, e aos sicômoros renovas o vigor.
22 Tornas trevas, ó desvairada, os louvores de Heilel, filho da Aurora; enegreces a brancura das suas safiras; lavas com nitro a imundície dos maculados de iniquidade, para falsear os que são manifestos, mantendo no meio deles a sua cilada.
23 E que tenho eu contigo, ó senhora das vilezas?
24 Falas suavidades aos de coração mole — e depois lhes quebras os ossos.
25 Enfeitas a tua cabeça, espreitas como a alva pelas tuas janelas — e depois lhes foge o olhar, e tu já não és.
26 Cintila a tua glória ao redor das suas tendas por um instante — e depois se some.
27 As orlas dos seus mantos, sobre os altos do seu tempo, arrastas por um breve instante — depois os conduzes como os trapos dos marinheiros: arrasta e lança.
28 Derramas, por um breve instante, a tua benevolência sobre as suas cabeças — uma grinalda de graça e esplendor; e dali a pouco se solta a tua ira: fisgas o Leviatã com o anzol — golpe de espada e perdição.
29 Foste aos meus olhos como mulher estranha, néscia, glutona: todos os que continuam a comer do seu pão e a deitar-se no seu seio, e se lhe fazem filho — a esse ela trai naquele tempo; e irmão, ou filho da aborrecida, não reconhece.
30 Ouvi-me, meus irmãos e meu povo: esta, que despedaça os seus próprios filhinhos com a maldade dos seus atos — eis o meu conselho a respeito dela:
31 Afastai-vos das suas portas — que são fendas abertas — e de diante dos vossos olhos removei-a.
32 Não cuideis desta maldita — e sepultai-a.
A figura feminina do capítulo sobrepõe várias fontes. A mais clara é a "mulher estranha" (ishah zarah) de Mishlei 7, a sedutora que leva à morte; o v. 29 chama-a explicitamente assim. O v. 8 ecoa Yechezkel 16, onde a infidelidade é exposta diante dos amantes. O v. 17 chama-a, com ironia mordaz, "eshet lapidot" — a expressão que em Shoftim 4:4 designa a profetisa Devorá ("mulher de Lapidot"), aqui relida como "mulher de tochas/chamas", isto é, incendiária.
O coração do capítulo descreve a função perversa do mundo: destronar os reis e entronizar os vis (v. 18, eco de marcar com o sinal tav de Yechezkel 9:4), decepar os cedros e fortalecer os sicômoros (v. 21, vocabulário de Yeshayahu 9:9). O v. 20 introduz a única exceção: "o fogo da tua ira... nas árvores do Líbano se acende, mas a sarça não é consumida" — a sarça ardente de Shemot 3:2 como imagem do que resiste ao fogo do mundo. O v. 22 invoca "Heilel, filho da Aurora" (Yeshayahu 14:12, a estrela da manhã caída) e o nitro que não lava a mancha da iniquidade (Yirmiyahu 2:22).
O fecho é um dos exemplos mais agudos de shibbutz do livro. O versículo final reescreve as palavras de Jeú sobre Jezabel, em Melachim II 9:34: "pikdu na et ha'arurah hazot vekivruha" — "atendei agora a esta maldita e sepultai-a". Yedaiah inverte o primeiro verbo — "al tifkedu", "não cuideis dela" — mas conserva o "vekivruha", "e sepultai-a". O mundo é Jezabel: a rainha sedutora e idólatra cujo fim é ser deixada aos cães. Para quem alcançou a compreensão, o mundo já é, por assim dizer, um cadáver à espera de sepultamento — e a tarefa não é fugir dele em terror, mas enterrá-lo depois de o haver olhado de frente.
O capítulo retoma o tema do tempo (zeman): não apenas fugaz, mas ativamente instável — colunas que vacilam, montanhas penduradas num fio. Diante das suas reviravoltas incessantes, o orador fica como ovelha muda, aflito pelo passado, pelo presente e pelo futuro. E ainda assim os homens se abraçam ao tempo, como os genros de Lot que não creram no aviso da destruição.
1 Como confiarei no tempo, cujas colunas oscilam?
2 As suas montanhas pendem de um cabelo — de uma tormenta que gira, sem freio para o seu vento.
3 Altera-se em cada fração dos seus momentos, ao subir e ao descer, em mudanças sem conta.
4 Ao contemplar à minha volta o seu fausto, reconheço a vaidade e o opróbrio presos ao flanco do seu fundamento.
5 E ao olhar para os tesouros do seu ouro, sobressalto-me: a serpente de bronze está enroscada no seu calcanhar.
6 E quanto mais ele se mostra benévolo, digo aos meus pensamentos: sabei agora e vede que este busca o mal.
7 E eu, como ovelha emudecida, atônito e em silêncio —
8 aflito pelo passado, espantado pelo presente, temeroso do futuro;
9 arrastando-me devagar, carregando o jugo da sua carga, suportando-o à força até esgotar-se a minha força e fugir-me o vigor.
10 Uma multidão de reviravoltas em tempo curto, e um exército de afrontas — dez mil revezes por mês.
11 Agora afirmo que tinha razão a sentença do sábio — aquele que julgávamos ter perdido o entendimento — quando disse: "o tempo é uma questão divina, cuja verdade não se pode apreender."
12 Ai dos olhos que assim veem as legiões de ruínas dos seus tumultos — e todavia continuam a aninhar-se no seu seio;
13 sem cessar a obra do tatear, enquanto ele continua a escarnecer deles.
14 Os que se rejubilam até a exultação, ao verem que ele torna cobiçável o seu apogeu e ergue as suas abominações diante dos seus próprios olhos;
15 e não o apedrejam, quando ele despeja fardos de repreensões esmagadoras e impropérios contundentes à esquina de todas as ruas.
16 E os seus olhos veem, e não percebem — como se ele lhes sorrisse.
17 E não creem — não creram no seu anúncio. Os que espreitam as danças, os que amam as bodas; os que cobiçam as gazelas, os que beijam as corças; os que buscam os seus deleites, os que traficam os seus cânticos — tiveram-no por trocista, e ele foi como quem graceja aos olhos dos seus genros.
A abertura ecoa Iyov 26:11, "as colunas dos céus tremem". O tempo é desenhado como uma estrutura sem firmeza: colunas que oscilam (v. 1), montanhas penduradas num cabelo (v. 2), mudança incessante (v. 3). Mesmo o seu "ouro" esconde a serpente de bronze (v. 5, eco de Bemidbar 21:9) enroscada no calcanhar — a ameaça oculta no que parece valioso. A conclusão do orador é a sabedoria do verso 6: quanto mais o tempo favorece, mais se deve desconfiar.
O versículo 11 cita um "sábio" segundo o qual o tempo é "questão divina, cuja verdade não se pode apreender". O autor confessa que antes julgara essa afirmação um desvario, e agora a subscreve: a incompreensibilidade do tempo não é fraqueza do intelecto, mas natureza do objeto. A formulação tem paralelo célebre em Agostinho (Confissões XI): "Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicar a quem pergunta, não sei."
v.7 tece "como ovelha muda diante dos tosquiadores" (Yeshayahu 53:7) e "atônito, em silêncio" (Bereshit 24:21). v.14 usa "os que se alegram até a exultação" (Iyov 3:22). v.15 ecoa "à esquina de todas as ruas" (Eichah 2:19). v.17 conclui com dupla alusão: "não creram no seu anúncio" (de Yeshayahu 53:1, "quem creu no que ouvimos?") e, sobretudo, "como quem graceja aos olhos dos seus genros" — Bereshit 19:14, sobre Lot, que avisou os genros da destruição de Sodoma e foi tido por brincalhão. A imagem fecha o capítulo: os amantes do tempo são como os genros de Lot — incapazes de crer no aviso da ruína enquanto a cidade ainda lhes parece firme. A incredulidade não é falta de inteligência, mas excesso de imersão no presente.
O orador ergue o olhar das vicissitudes do tempo para as esferas celestes (galgalim). Diante da vastidão dos orbes, a terra é uma caverna baixa, e o homem, uma mosca de asas cortadas numa gaiola. Mas as esferas foram criadas com sabedoria, para servir a D'us — não às criaturas inferiores a elas.
1 E ao revistar os alforjes dos meus tempos, buscando se acharei taças de esplendor e hastes de candelabro —
2 poderá o meu tempo honrar-me, ainda que esteja entre os meus valedores?
3 Voltei-me e vi-o curto de mão para salvar, incapaz de dominar os que me afligem e de removê-los de sobre mim.
4 A vara do seu terror não pesa sobre eles, e para deter os meus destruidores não retém força.
5 Pois ainda que me escolhesse dentre os meus vizinhos, para abrigar-me numa tenda contra as conspirações dos tumultos fortuitos e contra os alvoroços das desgraças deliberadas,
6 e ainda que o Altíssimo me erguesse acima dos meus irmãos, livre da malha das perplexidades que advêm do livre-arbítrio —
7 teria ele força na sua mão para me livrar de tantos golpes naturais e forçosos, e da multidão de tribulações que dos céus guerreiam contra mim?
8 Pois vejo esferas preciosas dispostas ao meu redor — como uma bola me enrolam num novelo — e elas me ultrapassam, pelas maravilhas dos seus atos e do seu poder.
9 Perde-se toda sabedoria, e todo discernimento se esconde, ao tentar medir com exatidão a grandeza das suas distâncias e a amplidão dos seus confins.
10 A terra foi posta no centro delas — uma caverna baixa, para a qual escorrem todos os resíduos naturais e as suas podridões.
11 E ao erguer os olhos e considerar a sua altura — maravilhosa demais para mim — e as miríades dos seus exércitos que me coroam em derredor, a mim e aos meus, que habitam na orla da caverna, na ponta de um pontinho minúsculo, o mais ínfimo dos lugares —
12 depois de dividida em climas, províncias, cidades e casas, o meu lugar é do tamanho de um mosquito — na medida da minha estatura e da sombra da minha pequena viga — menor que uma das casas de uma pequena cidade.
13 Há de gloriar-se um fraco como eu sobre esses gigantes, que cavam a minha sepultura antes mesmo de eu existir?
14 E por todos os dias em que vivo sobre a terra — firmar-me-ei eu e o meu reino, ao passo que eles me inclinam para tudo o que lhes apraz?
15 Como há de assenhorear-se o menor das moscas, de asas cortadas, afundado no cárcere, esmagado numa gaiola, enquanto todo o exército dos céus se posta sobre ele, à sua direita e à sua esquerda?
16 Poderá o meu tempo livrar-me do pavor de uma só das pequenas covas que, do alto, abriram para os meus pés — covas que, desde o tempo da criação, se comprometeram a levar-me até elas?
17 Esses corpos terríveis, o seu Criador os fez servos perpétuos, para se deleitarem em narrar a sua glória — sem língua, sem que haja fadiga ou labor na sua postura em fileiras.
18 Ali proclamam atos de justiça, e não foram entregues a aflições; servem ao Todo-Poderoso, e não conhecem a ruína.
19 E ainda mais: com o seu poder o seu Criador os cunhou; na sua forma preciosa, dispô-los em alternância de posições e de cursos opostos —
20 que produzem efeitos nos seres inferiores — movendo corpos que jazem inertes e conferindo disposições para receber as formas — para revestir de novo o que se envergonha da sua nudez.
21 Não que para isso tenham sido criados — para servir criaturas perecíveis, sendo eles mais nobres e mais elevados do que elas.
22 Longe esteja do seu Criador submeter o precioso ao vil, e o duradouro ao perecível.
23 E não se terá por sábio o artífice que prepare instrumentos de dez mil talentos de prata de peso para fabricar uma única agulha de ferro.
24 Mas criou-os com discernimento, segundo uma ordem que só ele conhece, cuja rota de giro e de marcha cumpre a sua obra.
25 Foi-lhes outorgada do bem uma medida ampla, conforme a boa mão do seu D'us, que assim a fundou; e fartaram-se e sobejaram, segundo a palavra do Eterno.
O modelo cosmológico de Yedaiah é o de Ptolomeu transmitido pela filosofia árabe e judaica: esferas concêntricas (galgalim) girando em torno da terra imóvel, no centro. Para o autor, a grandeza dos orbes não ameaça o monoteísmo — demonstra-o: D'us criou seres tão sublimes que existem apenas para "narrar a sua glória" (v. 17, eco de Tehillim 19:2, "os céus contam a glória de D'us"). O versículo 8 retoma a imagem de Yeshayahu 22:18 — "como bola te enrolará num novelo".
O argumento central é que a contemplação da vastidão do cosmos deve calibrar o lugar do homem: diante das esferas, a terra é "uma caverna baixa" para onde escorrem os resíduos (v. 10), e o homem é "o menor das moscas, de asas cortadas, esmagado numa gaiola" (v. 15) — imagem talvez modelada na visão de Michaiahu, "todo o exército dos céus de pé à direita e à esquerda" (Melachim I 22:19). Mas a conclusão não é niilista: as esferas servem "sem língua" (v. 17), ao passo que o homem pode servir a D'us com a fala e a razão.
O versículo 18 contém um dos melhores trocadilhos do livro: hemmah ya'avdun Shaddai velo yede'un shaddun — "servem ao Todo-Poderoso (Shaddai) e não conhecem a destruição (shaddun)". As esferas não pecam, logo não sofrem a ruína que é consequência do pecado. Os versículos finais (21–23) rematam o argumento com a parábola do artífice: assim como nenhum sábio fabricaria instrumentos de dez mil talentos de prata para produzir uma só agulha de ferro, também D'us não criaria os orbes sublimes apenas para servir às criaturas perecíveis abaixo deles. O eco final "fartaram-se e sobejaram, segundo a palavra do Eterno" (v. 25) vem do milagre de Elisha em Melachim II 4:44.
O texto-base do Sefaria apresenta, a partir deste capítulo, repetições de versículos provavelmente decorrentes da transmissão da edição. A tradução acima segue os vinte e cinco versículos coerentes do capítulo; eventuais duplicações posteriores no aparato digital não foram reproduzidas.
O ponto de virada do livro: das lamentações sobre o tempo e o mundo, o autor volta-se em oração direta a D'us. O capítulo é um hino à onisciência divina — D'us conhece o homem, os seus segredos, os opostos e os futuros, num único conhecimento — e termina na confissão da teologia negativa: o ápice do que sabemos de D'us é que não o conhecemos.
1 O agravo que sofro recai sobre os meus atos e sobre a obra das minhas mãos — e que mais hei de gritar e clamar?
2 E que te pedirei, ó Eterno D'us — vida e mercê — se o meu próprio coração quer dar-me a morte?
3 Se eu não cuido de mim mesmo, quem estará comigo?
4 Que proveito há naquela afeição extra que revelas à minha alma, se sou eu mesmo que a odeio?
5 Se as minhas mãos me afligiram e me agastaram com as suas vaidades — como me alegrarás, ó Eterno, com a tua obra?
6 E se as minhas cogitações roubam a minha honra, ainda quando a sua lâmpada brilha — que me outorgarás de honra e grandeza?
7 E se sou eu mesmo quem retém de mim o bem, por mais que abunde a tua bondade — ó Eterno meu D'us, que me darás?
8 Ó Eterno D'us, tu conheces o homem e a sua palavra; sondaste, entendeste de longe o seu pensamento; delineias todas as suas fronteiras.
9 As câmaras do seu ser e os seus recônditos tu esquadrinhas, pois apalpaste todos os seus vasos.
10 Os altos aposentos do que lhe sobe ao espírito são espaçosos; as aberturas da sua intenção estão escancaradas, transparentes, ante a face do teu saber.
11 Tu fixaste os laços da tua ira; eles o prendem na sua própria astúcia; tu dominas a sua soberba.
12 Fazes girar os seus distritos e os seus príncipes, os que lhe racionam o sustento, os que dão o seu pão, o seu linho, o seu óleo e as suas bebidas.
13 Tu firmaste os seus caminhos, as suas ordenanças, os seus criados, os nascidos na sua casa.
14 As asas das suas alvas tu sustentas; os seus dias e as suas noites fundaste, e o número dos seus instantes declaras.
15 Ergues os humildes, do poço das profundezas, às alturas; e os que estavam acima deles, afundas no abismo.
16 Precipitas do céu à terra os nobres da terra, com a vara da tua ira; e ao que abraça os monturos elevas a cavaleiro dos céus, com o teu socorro.
17 Tu reforçaste os ferrolhos das portas dos que guardam a Torá e zelam pelo direito; e quebraste as cabeças do povo da terra.
18 Tu vês os rins e o coração, e discernes todas as suas obras.
19 O teu escabelo — altura do mundo — sobre os cimos das mais altas criaturas erguem-se os seus píncaros, para tornar admirável a tua glória, para proclamar único o teu domínio.
20 Ali está o velado do teu poder, ali as carruagens da tua glória, a proclamar: "Eu, e mais ninguém."
21 Ali ocultaste os teus amores — a grandeza e o poderio — e o que se eleva a dizer: "Eu reinarei."
22 És mais alto que tudo o que há, exaltado acima de tudo o que existe; e os olhos da tua vontade percorrem a baixeza da nossa condição, desde o princípio dos nossos anos neles até o seu fim.
23 És imensamente grande, acima das vaidades dos nossos feitos — e, contudo, as vaidades dos nossos feitos tu perscrutas.
24 Terrivelmente maravilhoso és, acima de todas as obras, e a lembrança de todas as obras chega à tua presença.
25 Acaso se fará, ó Eterno D'us, coisa alguma sem que o seu segredo te seja revelado antes de ser feita?
26 Subirá ao meu espírito, nas câmaras do meu leito, coisa grande ou pequena, sem que tu, meu Senhor, ó Rei, a saibas?
27 O teu intelecto altíssimo — diante de cujo valor as maiores alturas dos céus se rebaixam — conhece tudo o que se faz no vale da nossa profundeza, que é o mais ínfimo fundo de todo abismo.
28 E não nos compete admirar como e de que modo tu, e só tu, conheces;
29 e como conheces os contrários e os gêneros diversos num só conhecimento, idêntico por todos os lados;
30 e os particulares que se renovam e se alteram, infinitos em número, num só saber permanente que a todos abarca;
31 e as coisas futuras, que ainda não vieram à existência, tu conheces num conhecimento verdadeiro, sem que ele dependa da sua inexistência;
32 e qual dos dois extremos do possível se realizará no futuro — por uma resolução singular e admirável que ainda assim preserva a natureza contingente deles.
33 Quem conhece todas estas coisas, exceto tu?
34 E os nossos conhecimentos, gastos e remendados, ficaram curtos demais para apreender como tu nos conheces — dada a distância da relação entre nós, do teu lado e do nosso.
35 Contudo, tudo o que veio à existência, tu o formaste; e tudo o que vês é teu — tanto o que para nós é oculto como o que é manifesto.
36 E que coração sábio se admiraria de que ages maravilhosamente na obra das tuas mãos?
37 Seria coisa demasiado difícil para o oleiro algo da obra do barro e da sua feitura?
38 Tu trouxeste à existência tudo o que a sabedoria julgou bom produzir, e puseste na natureza do nosso entendimento estes véus e estes obstáculos.
39 E o segredo deles deixaste inscrito, selado na escritura da tua verdade.
40 A verdade és tu, ó Eterno nosso D'us, e a verdade és tu mesmo.
41 Hás de te dar a conhecer à roda dos escarnecedores? Hás de te revelar diante dos filhos da iniquidade?
42 Eis que nem os anjos alcançaram o segredo da tua escritura verdadeira, gravada nas suas tábuas — e como o alcançaríamos nós, de quem se diz "não há homem que consiga ler a escritura"?
43 Eis que até nos teus santos, que para sempre creem em ti, não plenamente confias — e como então cevarias, com a tua abundância, o que escoiceia o seu rei e o seu D'us?
44 Ou como um mosquito desesperado acharia graça aos teus olhos e chegaria a conhecer-te?
45 O máximo do que de ti sabemos é que não te conhecemos.
46 Contudo, sabemos que existes — esta é a nossa porção de todo o labor da contemplação e do esforço da especulação.
47 Apenas pela apreensão de alguns atributos negativos é que se reveste de justiça quem visita os teus templos; e é compreendendo o quanto estás além que o homem se aproxima para prostrar-se diante de ti.
48 E como ficaria oculta a tua existência, sendo tão notórias as maravilhas das tuas obras e tão manifestas?
49 E se o excesso do seu fulgor nos resulta em ocultamento, por causa da nossa pequenez — nem por isso deixaremos de reconhecer a tua grandeza.
50 Pois a intensidade do seu ocultamento dá testemunho dele aos de visão curta, tal como a intensidade do seu fulgor o revela aos que o alcançam.
51 Como o morcego, cujo olho não viu a luz preciosa, pela fraqueza da sua força e do seu sentido, e que, mesmo assim, forçosamente concebe a intensidade do raio do sol — depois de fugir dele;
52 assim como a águia o concebe numa imagem verdadeira, pela sua muita aproximação dele, para se deleitar no seu fulgor.
53 Ainda que entre os dois modos de representação não haja semelhança.
54 Tu conheces mais que todo conhecedor, e as tuas obras comprovam que és mais sábio que todo sábio.
55 E realizaste, segundo a tua sabedoria, obras incomparáveis.
56 Maravilhas que não se podem medir, prodígios que não se podem comparar, produziste na forma da minha criação; feitos que não se costumam fazer, fizeste comigo.
Depois de doze capítulos de lamento sobre a vaidade do mundo e a instabilidade do tempo, o capítulo 13 inverte o tom: torna-se uma oração endereçada diretamente a D'us. A queixa inicial reconhece que o mal sofrido pelo autor vem dos seus próprios atos (vv. 1–7); o verso 3 reescreve a máxima de Hillel, "se eu não sou para mim, quem será por mim?" (Avot 1:14). A partir do v. 8, o capítulo desdobra a onisciência divina sobre o ser humano — eco constante do Tehillim 139 ("sondaste de longe o meu pensamento").
O núcleo filosófico (vv. 29–32) enfrenta o problema clássico da ciência divina: como pode D'us conhecer, num único e imutável conhecimento, os opostos, os particulares infinitos e mutáveis, e os contingentes futuros — sem que isso anule a contingência deles? O versículo 32 é preciso: D'us conhece qual dos "dois extremos do possível" se realizará, "preservando a natureza da sua possibilidade" — isto é, sem que o conhecimento divino transforme o possível em necessário. É a mesma questão que ocupa Maimônides (Guia III:20) e que reaparece nas Derashot HaRan e no Sefer HaIkkarim.
O ápice do capítulo é a confissão da via negativa: "o máximo do que de ti sabemos é que não te conhecemos" (v. 45). Conhecemos D'us apenas por "atributos negativos" (sholeliyot, v. 47) — dizendo o que ele não é — exatamente como ensina Maimônides (Guia I:58). Segue-se a célebre parábola, de origem aristotélica, transmitida pela filosofia judaica medieval: o morcego, cujos olhos fracos não suportam a luz, e a águia, que se aproxima do sol para deleitar-se no seu brilho (vv. 51–52). Ambos "concebem" o sol — mas de modos sem nenhuma semelhança entre si (v. 53). Assim o sábio e o ignorante "conhecem" D'us: a própria força do ocultamento é, para os de vista curta, um testemunho (v. 50). O verso final ecoa as palavras de Avimélec a Avraham, "fizeste comigo coisas que não se fazem" (Bereshit 20:9), aqui voltadas em louvor: as maravilhas da própria criação do autor.
O mais longo capítulo do livro (114 versículos) é uma extensa meditação sobre a alma como "filha do Rei", furtada dos palácios celestes e exilada num corpo de barro. Desenvolve a contenda entre alma e corpo — marido e mulher numa casa em discórdia, Esaú e Yaacov — e a resolução da alma de servir a D'us e dar vida ao corpo, até regressar à casa do Pai.
1 Tu montaste o homem desde o princípio: a partir de um corpo baixo, néscio, desolado, que mergulha em abismos de vinganças e maldições;
2 e de um espírito precioso, que conhece, entre nós, o que é bom — emanado da glória, que sobe ao alto e se faz luzeiro.
3 Ó Eterno meu D'us, na sabedoria da obra e da estrutura da forma do meu ser, és muito grande; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma bem o sabe.
4 Tu fizeste para nós esta alma, furtada dos palácios do Rei, que habita em tendas;
5 suprema, peregrina numa descida — rosa dos vales.
6 Destinaste à sua morada um leito curto, na minha tolice, mais escuro que o negro o seu aspecto;
7 esvaziaste a casa, preparaste-lhe um trono — morada de trevas na minha costela;
8 e fizeste-lhe torrões e podridão, repartidos a cordel, com uma moldura de um palmo ao redor;
9 e cobriste-a de imundície e negrume, revestidos sobre o caco; e a betumaste com barro e piche.
10 Esta — gloriosa filha do Rei, no seu interior — recorda a preciosidade da sua família e a casa de seu pai, e não soube quem a trouxe para cá.
11 Ao afiar o seu pensamento, pela força do seu segredo, e na elevação do seu pensamento na sua origem, não a aterrorizarão a privação e o fim; e como noiva se enfeitará com joia preciosa.
12 E ao pôr no coração que foi enviada do repouso, para ira e fúria, a lavrar o solo;
13 e que foi expulsa do átrio da realeza, para respigar no campo e buscar o seu sustento com o suor do seu rosto;
14 a abraçar o monturo — as estrelas do seu crepúsculo — e a fartar-se de opróbrio nos dias da sua mocidade;
15 entristece-se em aflição, pois o seu pai a humilhou; cobre-se com o véu da sua viuvez e desfalece.
16 Que foi isto que D'us lhe fez — transferir a sua tenda da sua morada, para peregrinar entre estranhos que não conhecia?
17 Enviar a Azazel a corça das distâncias, que não experimentara pôr a planta do seu pé sobre a terra?
18 Se a sua Rocha a vendeu, e o seu Fazedor a irritou, e lhe pôs por pão o pó e lhe fez provar torrões — para fazê-la protestar — não se envergonhará e emudecerá?
19 E se o seu pai cuspiu-lhe no rosto, não ficará envergonhada?
20 E entre isto e aquilo, a sua vergonha a aterroriza, e o reconhecimento da sua impureza segura nas suas orlas, a dizer:
21 "Se de fato fui furtada de um lugar de perfeição e glória, e também aqui nada fiz para suprir a minha falta — não me seria melhor manter ainda a fidelidade com aquele que ainda não existia?"
22 Com toda a minha força servirei o meu D'us; subirei à casa de meu pai, entre colunas de fumaça do incenso, cujo aroma se unta às minhas narinas.
23 Com toda a minha capacidade me assemelharei ao Altíssimo; agarrar-me-ei aos ramos da condução que desce das estrelas dos seus firmamentos.
24 Sei que para dar vida me enviou D'us aos habitantes da terra, pois todos eles são cadáveres mortos.
25 Não que a sabedoria pretendesse matar-me, mas dar-lhes vida;
26 nem rebaixar a minha glória, mas multiplicar a honra deles.
27 E se me carregou o espírito de D'us e me lançou num dos vales, ainda me coroará de favor depois do meu envio, conforme a minha força; pois a minha força é, agora, para estar de pé no seu templo.
28 Eis que ainda é grande o dia; ao afundar-se o meu esplendor no lodo do abismo, gotejará como orvalho ao redor dos meus acampamentos a glória de D'us, iluminando os olhos da minha escuridão.
29 E ainda que me tenham posto na cova, é uma abundância o que vejo — fluxo de pleno favor enchendo todas as minhas margens — que basta, na largura da sua medida, para servir, de mim a outrem, das forças vizinhas a mim;
30 até habituar o meu corpo, também ele, o que está próximo da minha casa no número das almas, a não usar das suas percepções nem fazer obra alguma, a não ser a que o intelecto deseje, para ser ajudado com êxito.
31 A todos reparti da minha glória, a cada um conforme o seu comer; e no nardo do meu esplendor se perfumaram, e até o puseram nos seus vasos.
32 E no dia em que afrouxam de esforçar-se em meu auxílio, porque os seduzem amores deslumbrantes, e em círculos de prazeres andam para folgar nos ídolos das ervas dos deleites,
33 para fartar a alma com o seu apetite e apascentar o seu espírito que paira sobre a chama do seu desejo —
34 alisar-lhes-ei palavras de verdade, para que não andem atrás dos meus demolidores nem voltem a seguir os meus destruidores, que escolheram, dizendo:
35 "Que tendes, meus amigos, em buscar a vossa própria desgraça e em ir atrás dos vossos inimigos, que vos repelem?
36 Deixai o cristal e os corais para o tolo. Não sabeis que temos sabedorias elevadas?"
37 E nós nos calamos de dominar no que é a sua cobiça, e por isso nos sobreveio a culpa.
38 Eis que estou no meio de vós como um velo de lã pousado em terra sedenta: ao descer a camada de orvalho — em verdade, sobre o velo haverá orvalho, mas sobre a terra haverá seca.
39 Depois, ao sacudir as suas gotas sobre o lugar do seu assento, umedecer-se-á também ele um pouco, pela permanência contínua da sua habitação.
40 Mas, havendo seca sobre o velo — com a sua frouxidão e esponjosidade — como haverá orvalho sobre a terra cansada?
41 E assim, sempre que o meu caminho se endireitar e eu correr para ligar-me à abundância, eu disse: à sua sombra viverei;
42 e também a vós vos irá bem por minha causa, e vivereis por meu intermédio,
43 pois a bênção do Eterno esteve em tudo o que é meu, e ele vos abençoará por causa dos meus passos.
44 Porém, ao desviardes de mim para vos cobrirdes com o pó da glória dos tempos, para vos revolverdes na cinza de Ofir, para vos empoeirardes com pós de ouro,
45 e vos tornardes em perseguidor, e me fordes por inimigos —
46 quão fácil vos será cortar o fio da bondade estendido sobre mim, pois rapidamente se romperá, pela sua fragilidade.
47 E achar-me-ão ainda os impedimentos forçosos que se assentam à minha frente, e os tropeços do tempo que rondam a cidade, que me cercam para tomar as minhas coisas amadas.
48 E será que toda a delícia dos meus olhos eles porão na sua mão, e a tomarão.
49 E perecereis depressa, vós primeiro, os afundados na corrupção; e a vossa companhia me será por laço, para destruir-me também a mim convosco.
50 E quando se converter o vosso coração e me chamardes por salvação — de onde vos salvarei?
51 Acaso das eiras das inteligências que tornei tolas, ou dos lagares das minhas forças que desfiz?
52 Pois, se não recebermos o bem da parte de D'us, nem a mim nem a vós haverá.
53 Meu Rei e meu D'us, estas são as palavras da tua serva — a minha alma falante, que formaste para brincar diante de ti em todo tempo, na condução dos seus assuntos e na repreensão dos seus vizinhos;
54 que puseste comigo para fazer o seu serviço e guardar a sua guarda.
55 Quão boas são as suas tendas, ao escolher o comércio do serviço e do conhecimento, ao amar o ouro do recolhimento e da especulação!
56 Ambos são degraus para a escada da sua subida à sua morada, e canteiros da sua plantação para regar o jardim do seu deleite; depois do seu envelhecer, para renovar o seu vigor; e dentre eles, para a salvação, vem uma boa-nova que se acha — e no meio deles está o Eterno.
57 Esta é a obra e este o seu fruto: levantá-la do seu pó até subir em paz — uma subida sem nunca mais descer depois dela — e volta à casa de seu pai como na sua mocidade.
58 E todos os dias em que se uniu a filha do Rei a este corpo golpeado, quão agitados ficaram os seus pensamentos, quão grande a sua dor, pois forte foi a falta de acordo entre eles!
59 Contendem ambos e murmuram nas suas tendas, e não há quem os salve.
60 Ai da casa que carrega o jugo da contenda entre o homem e a sua mulher!
61 Todos os seus dias se enfurecem um contra o outro — raízes de giestas amargas e desgraças;
62 afligem-se um ao outro — espinhos que ferem e abrolhos que oprimem;
63 e o relato das suas palavras é como o ruído de espinhos que crepitam, importunando, e cordas que destroem;
64 e o ver dos seus rostos é como ver espinho e sarça no lugar do belo fruto da oliveira, ou fogo que devora nos cantos da casa.
65 Assim é a contenda do espírito e do corpo, todos os dias do seu estar juntos na armadilha:
66 este ama a caça, e aquela habita em tendas.
67 Esta apega-se ao Eterno, santificando-se da impureza do mundo que ele o corpo lhe pôs no coração;
68 e este se consagra à vergonha do caminho das vinhas, apartado da sua Rocha desde que saiu do ventre — pois nazireu de D'us será desde o ventre.
69 E ele, em ostentações, se ufana; faz para si pavimento de pórfiro e mármore, e na sua mão uma brasa, para lançar a sua faísca, para queimar o que há de santo na casa.
70 E ela, de espírito aflito, sai para tirar águas puras do santuário, para apagar o incêndio,
71 até que a força do seu labor na sua obra e a bondade do seu intelecto na sua investigação paguem por inteiro extingam o incêndio.
72 E não a impedirá a chuva de regar com chuva de dádivas as suas murtas no abismo.
73 E não a perturbarão preocupações, rugidos e a multidão de tristezas, de meditar o seu coração inteligências.
74 Espreitará pelas frestas das angústias do seu mundo, observará pelas janelas das ignomínias do seu tempo; fará uma clarabóia para o seu corpo.
75 Pela treliça olhou como a aurora, para conhecer o seu valor entre as criaturas — se boa ou má aos olhos do seu Senhor, que faz a paz nas suas alturas.
76 Despertará do seu sono, aguçará as suas pupilas, das frestas dos buracos de pó; e rochas a cercaram.
77 Lançará os seus olhos da sua investigação para os buracos onde se esconderam.
78 E será o seu salário a sua recompensa, e o seu valor a sua fonte, conforme o seu preço; e o seu galardão, conforme a sua obra:
79 uma vez, como preço de cão — as delícias do seu mundo, o seu prazer e a sua juventude, a sua eternidade — paga de prostituta rebelde;
80 e outra vez, o seu comércio e a sua paga serão santidade ao Eterno.
81 Uma vez, sobre asas de serafins de grande poder — pelo D'us dos hebreus — ao repouso e à herança será levada;
82 e outra vez, aquilo que Quemós, deus dos cegos, lhe der por herança, isso herdará.
83 Tu fundaste na tua morada câmaras superiores e bases bem dispostas, prontas para a sua desgraça e para a sua glória.
84 Na sua retidão, a trarás ao conselho dos santos que estão de pé no alto; na sua perversidade, a consumirás de cima.
85 Designaste sobre ela, na sua tolice, um anjo cruel; ordenará destruidores que a fazem despencar — ao subir ela ao cume dos montes, às profundezas a fazem correr — e dirá: "arrastai-a!" e a arrastarão.
86 E como farei à minha alma falsidade, entregando-a na mão de cruéis que não terão compaixão?
87 E se na minha mão confiaste o teu espírito, para habitar à minha sombra, para estar junto a mim — no meu braço será levada e no meu seio repousará, e me será por esposa da mocidade —
88 hei de trair o amor das bodas? Hei de esquecer a minha mão direita, removendo-a do posto de senhora, para enviá-la às afrontas?
89 Eis quão bom e quão agradável elevar a sua preciosidade aos céus dos céus, para ali sustentá-la, em vez de rebaixar a sua glória ao vale de Acor, para confundi-la e destruí-la.
90 Quão certo é fazer voltar as suas coisas amadas, chamadas ao alto, em vez de pô-las nas tolices dos odiados e repreendidos.
91 Melhor dá-la a ti do que dá-la a injúrias.
92 Tu olharás para o coração, e os olhos não te enganarão — nem o poderoso de muitas forças, o herói na terra, nem o que lavra o seu solo e deixou de queimar perfumes de renome e óleo bom para a obra dos céus.
93 Não te enganarão os de alta estatura, chamados ao Sheol, de espírito curto, expulsos do Éden por trabalho duro.
94 Tu examinarás os pensamentos no coração do homem; para o mal e para o bem julgarás os seus segredos, e do seu manifesto não te ocultarás.
95 Verás, sim, na aflição, os teus servos oprimidos nos seus corações, ainda que a retidão do seu coração não se torne pública.
96 Reconhecerás as mentiras do escarnecedor que esmaga, que abandona os pobres e contudo se aflige com jejum e choro.
97 Amaldiçoarás o que corrompe o seu pensamento enquanto sustenta bem as suas palavras.
98 Não estabelecerás paz para lábios que se movem com o coração distante.
99 Odiarás o que pratica injustiça e violência, ainda que multiplique oração.
100 Examinarás o homem: vazios, esmagados, finos e mirrados são os seus conselhos; quebradas e partidas as suas cogitações.
101 Os seus passos partidos, e afastados do prudente, estendidos; e no supérfluo, dissolutos; e as suas armadilhas estendidas; e as suas palmas estendidas aos céus.
102 Os caminhos do seu conselho cercarás, para destruí-los, e as veredas do seu retorno torcerás.
103 Voltarás os seus corações para trás, e não serão salvos.
104 Os olhos daqueles homens furarás, e não subirão.
105 Quem subirá por nós, primeiro, ao monte do Eterno, ao lugar onde falou o Rei,
106 onde se assentará o seu trono para o juízo, onde os segredos estão revelados e tudo é previsto?
107 Quem dentre nós seguirá o rei de Israel, e rodeou a Mitzpá e subiu a Bet-El?
108 Aquele puro de pensamentos, limpo de desejos, com cachos de aptidão sobre os rebentos dos seus feitos;
109 alegre em face das desolações vindas da sua amargura amarga, e que sustenta os ramos das suas palavras;
110 que se confedera contra o seu tempo, serve o seu D'us em todos os ramos dos seus pensamentos.
111 Este virá à sua casa para servi-lo no seu recinto, para fazer o seu serviço.
112 As suas mãos colheram do fruto da árvore do conhecimento conforme o seu comer, e estendeu a sua mão também à árvore da vida, com coração quebrantado e humilhado, e comeu e viveu para sempre.
113 Também eu aguçarei os meus rins e removerei o reboco solto dos meus revestimentos;
114 e palavras de repreensão comporei, eu, antes de acabar de falar ao meu coração.
O capítulo desenvolve a alegoria platônico-judaica da alma racional como princesa exilada. A alma é "furtada dos palácios do Rei" (v. 4) e implantada num corpo de barro descrito com o vocabulário do cesto de Moisés — "betumada com barro e piche" (v. 9, de Shemot 2:3). A expressão "toda gloriosa é a filha do Rei, no interior" (v. 10) vem de Tehillim 45:14. A queda da alma ecoa a expulsão do Éden, "para lavrar o solo" (v. 12) "com o suor do seu rosto" (v. 13, de Bereshit 3).
A imagem central da relação entre alma e corpo é o velo de lã de Gideon (Shoftim 6:37-40): primeiro o orvalho cai sobre o velo e a terra fica seca; depois sobre a terra e o velo seco. A alma diz: sou como o velo que recebe o orvalho da abundância divina e o transmite ao corpo (a terra) por contiguidade — mas se o velo secar (a alma se corromper), de onde virá orvalho à terra? A providência desce primeiro à alma e só por ela ao corpo.
A contenda entre corpo e alma é figurada pelo par bíblico Esaú/Yaacov (v. 66, de Bereshit 25:27): "este ama a caça" (o corpo, como Esaú) "e aquela habita em tendas" (a alma, como Yaacov). O corpo é o falso nazireu — consagrado "à vergonha do caminho das vinhas" (v. 68), invertendo o voto de Sansão, "nazireu de D'us desde o ventre" (Shoftim 13:5). Enquanto o corpo quer "queimar o que há de santo na casa" (v. 69), a alma "tira águas puras do santuário para apagar o incêndio" (v. 70).
A longa seção sobre o discernimento divino retoma o princípio de Shmuel I 16:7, "o homem vê o que está diante dos olhos, mas o Eterno vê o coração" (v. 92). D'us não se deixa enganar pelo hipócrita que "se aflige com jejum e choro" mas "abandona os pobres" (v. 96), nem dá paz a "lábios que se movem com o coração distante" (v. 98, de Yeshayahu 29:13), nem aceita a oração do que pratica violência (v. 99, de Yeshayahu 1:15). O versículo 101 é uma cadeia de paronomásias em torno da raiz p-r-s (partido / estendido / dissoluto), impossível de reproduzir na rima.
O clímax do capítulo retoma o Gan Eden: o homem virtuoso colhe "do fruto da árvore do conhecimento conforme o seu comer" — isto é, com medida — e então "estende a mão também à árvore da vida... e comeu e viveu para sempre" (v. 112, invertendo Bereshit 3:22, onde o acesso à árvore da vida é vedado). A diferença está no "coração quebrantado e humilhado" (Tehillim 51:19): a humildade é o que transforma o acesso proibido em vida eterna. O capítulo fecha (vv. 113-114) com o autor aplicando a si mesmo a lição — "antes de acabar de falar ao meu coração" (Bereshit 24:45).
Apóstrofe do autor ao próprio coração: a Torá e o homem, unidos, são a lâmpada de D'us na terra — o corpo é o pavio, a alma o azeite puro, a Torá a chama. Segue uma exortação urgente a agir enquanto jovem e a não adiar o arrependimento para um amanhã que talvez não chegue.
1 Meu coração, meu coração! A Torá e o homem — a sua união é a lâmpada de D'us na terra.
2 A Torá é uma chama que se desprende da centelha daquele que habita nos céus.
3 E o homem, nas suas duas partes, é a tocha que sorve a sua luz.
4 O seu corpo, o pavio torcido; a sua alma, azeite de oliva puro.
5 Com o seu acordo e a sua união, encher-se-á a casa toda de luz.
6 Revelar-se-ão aos teus olhos os tesouros da condução universal, e brotarão para ti os segredos dos atos pelos quais te gloriarás ao permaneceres na subsistência;
7 e o domínio sobre as coisas amadas dos tempos, em tudo o que a tua alma desejar.
8 E ao abandonar-se a guarda da preciosidade da escritura da Lei, restarás com o tempo como um errante solitário num deserto terrível e numa vereda tortuosa, em noite escura, vento de tempestade e chuva torrencial, sem amparo nem sustento.
9 Seja o seu caminho treva e escorregadios, e o anjo do Eterno a persegui-lo — e com que será salvo, e onde?
10 E sabe agora e vê que a sua união são as bondades do Eterno sobre as suas criaturas, e a sua separação é obra das mãos do homem: eis que as tuas mãos te formaram e te firmaram.
11 Meu coração, lembra do teu Criador: confiou na tua mão um espírito nobre,
12 como peregrina na terra, recolhida à tua casa; como hóspede que no teu seio se inclinou para pernoitar.
13 Sempre que está na tua prisão, em casa de trevas, levanta os seus olhos ao alto, de onde foi tomada,
14 pensando, da sua baixeza, na altura das suas companheiras, que estão postas no lugar principal, em lugar santo — enquanto ela se enluta.
15 Tem compaixão dela e fala ao seu coração, pois não há senão tu para a redimir.
16 E ela está contigo como um pássaro capturado, atado nas mãos de uma criança que brinca com ele.
17 Olha: uma multidão de pássaros voa; à sua direita e à sua esquerda voejam para os seus ninhos — enquanto a fraqueza deste pequeno a retém, e o seu coração dentro dela inteiramente se derrete.
18 E se quiseste não estender a mão sobre o depósito confiado, honra-te e fica em tua casa, para servi-la e guardá-la.
19 E por que provocarias o mal das confusões — a confusão de muitos cálculos — para aumentar as tribulações das obras e a fadiga das mãos?
20 E tu vês que a obra das casas desta alma é longa e larga, e os dias dos nossos anos são curtos demais para alcançá-la,
21 ainda que vivêssemos mil anos duas vezes, pela distância do que se busca;
22 e quanto mais agora, sendo os dias dos anos da nossa peregrinação poucos e maus, e não alcançaram da coisa pequena à coisa grande.
23 Ouvi-me, meus ouvidos — ensinar-vos-ei a tirar proveito. Vê, meu coração, e vê também que o tempo é tolo, ajuntamento de ídolos: deixa-o.
24 Contenta-te com o que veem os teus olhos, na medida necessária à manutenção do vivente, aquilo que o homem não pode largar e continuar a viver.
25 Levanta-te, escolhe para ti, do produto da terra, um pouco de bálsamo para a guarda da saúde, um pouco de mel para tomar prazer; e o resto, proíbe-o a ti mesmo.
26 E que sirva de alimento ao animal do campo e aos filhos do homem que se assemelham a ele.
27 E que tens com o comércio da podridão e o tesouro da traça? Acabou-se o seu tumulto e o seu estrondo — um único sonho é.
28 A sua interpretação: a subida do corpo fora do seu tempo, e a descida do espírito como o espírito do animal, após a morte.
29 Meu coração, o sonho seja para os que te odeiam, e a sua interpretação para os teus adversários.
30 Meu coração, este é o meu conselho, se quiseres ouvir, enquanto a tua copa está viçosa e não há nuvem a cobrir o teu sol;
31 e enquanto tu és jovem e bom, e há força em ti para correr à fileira, ligeiro como uma das gazelas, para alcançar e para livrar;
32 e enquanto muitos dos que dormem o sono eterno e os adormecidos do tempo despertarão pelo teu bom aroma e pela luz da tua lua.
33 E tu, por que jazerás e dormirás? Por que serás indolente em arrebatar o seu ornamento como sombra, e em livrar-te da culpa da preguiça e da tolice?
34 Levanta-te, chama as inteligências e elas virão, antes que venham os dias maus;
35 antes que saiam tropas armadas de velhice,
36 que trocam grande força por debilidade aflita e permutam o vigor por covardia.
37 E o tempo, cuja companhia te seduziu, postar-se-á à distância, como quem zomba de ti,
38 ao murchares, ao perderem-se as tuas obras, ao gastarem-se as tuas sandálias, no pó dos teus passos,
39 e ao ser derramado o teu veneno do cálice dos que te dominam, e ao gastar-se o teu manto, sob o peso do teu jugo;
40 e o tempo te renegará, depois de ter estado em fidelidade contigo.
41 E os ramos dos pensamentos que te odiaram, ao se venderem desde a minha mocidade para vendê-los aos seus inimigos — e não há, dentre eles, quem se doa da minha doença — também eles, o seu coração se converterá.
42 Reconhecerão o mal que fizeram e olharão para o que traspassaram, dizendo:
43 "Que foi isto que fizemos, que despedimos do nosso serviço os dias primeiros, sendo eles melhores que estes para sair, entrar e fazer proezas?"
44 E se pensas que a duração dos dias da tua juventude será como os dias dos céus, em quantidade,
45 e que há tempo e tempos para fazer o mal e fazer o bem,
46 e amas, por causa disso, a esperança de pecar hoje e amanhã arrepender-te,
47 e pensas que há contigo o domínio de abandonar, também hoje, a rebeldia da tua fala e a perversão da tua obra —
48 mentira é o que dizes, pois vãos são os teus dias sobre a terra.
49 E tudo o que negligenciares do bem em fazê-lo, adiando-o para o dia seguinte, acrescentarás revolta.
50 E tudo o que disseres "quando me desocupar, hei de repeti-lo" — repetirás na tolice.
51 Pois quem sabe se o teu amanhã o alcançarás, e se restará ao tolo coisa alguma até a luz da manhã?
52 E achar-te-ás esforçando-te e confiando num mundo que não é teu.
53 Vê: a esperança do proveito e a salvação te serão enganosas para sempre, se não livrares a tua alma esta noite.
A imagem que abre o capítulo desdobra o versículo de Mishlei 20:27, "a lâmpada do Eterno é a alma do homem" (ner Hashem nishmat adam). Yedaiah arma a metáfora com precisão de um candelabro: a Torá é a chama que desce da fonte celeste (v. 2); o corpo é o pavio (v. 4); a alma é o azeite de oliva puro (v. 4, de Shemot 27:20). Só quando os três se unem "a casa toda se enche de luz" (v. 5). A separação dos três é "obra das mãos do homem" (v. 10) — o autoabandono.
A alma confiada ao corpo é "um pássaro capturado, atado nas mãos de uma criança" (v. 16): a criança é o corpo imaturo que, por mera fraqueza e inadvertência, prende a ave enquanto os outros pássaros (as almas livres) voam de volta aos seus ninhos (v. 17). A responsabilidade de "servir e guardar" essa alma (v. 18) ecoa o mandato dado a Adão no jardim, "para o lavrar e o guardar" (Bereshit 2:15).
Os bens materiais são "um único sonho" (v. 27) cuja interpretação é funesta (v. 28). O versículo 29 cita, em aramaico, as palavras de Daniel a Nabucodonosor, "o sonho seja para os que te odeiam, e a sua interpretação para os teus adversários" (Daniel 4:16) — a fórmula de cortesia com que o intérprete entrega uma sentença sombria. Aqui o autor a dirige ao próprio coração: que esse sonho-armadilha caiba aos inimigos, não a ti.
A coda do capítulo é uma das mais vigorosas advertências contra a procrastinação moral. A ilusão de que "há tempo para pecar hoje e arrepender-se amanhã" (v. 46) é refutada com a sabedoria de Avot 2:4, "não digas: quando me desocupar estudarei, pois talvez não te desocupes" (v. 50) — e com Mishlei 27:1, "não sabes o que o dia trará". O versículo final reescreve as palavras de Michal a David quando Saul mandou matá-lo: "se não salvares a tua vida esta noite, amanhã serás morto" (Shmuel I 19:11). A salvação da alma tem a urgência de uma fuga noturna: não há a garantia do amanhã.
Contra a comodidade do fatalismo: o autor adverte o coração de que a passividade — escudada na crença de que "tudo está decretado" — é a verdadeira causa da ruína. Diligência e bom conselho, unidos, são o "espírito de conselho e poder"; a culpa não é do tempo nem do decreto divino, mas das próprias mãos.
1 Mas, na verdade, depois de eu te ver, meu coração, com a força do desejo e do anseio pela perfeição das almas, a sonhar, deitado no seio do tempo, a pernoitar entre os seios dos seus amantes,
2 e vendo que também tu não podes segurar isto e também aquilo —
3 chega-te a mim, e eu te ensinarei coisas grandes e inacessíveis, para alcançar também estes teus desejos.
4 O princípio das minhas palavras e a abertura do meu discurso: que te seja mau e amargo este ato —
5 deixar-te seduzir pelo sussurro da serpente que adivinha, cuja perversidade conheceste desde o dia em que existiu;
6 e despertar do zurro da tua jumenta, cuja tolice provaste, ao andar fora apoiado no seu bordão;
7 a clamar pelos prazeres dos dias, sedento das águas das suas delícias,
8 como toda a multidão dos teus amigos que enchem a terra,
9 a chamar marinheiros e timoneiros que mergulham fundo, agarrando mastro e cordames,
10 a fazer correr centenas de navios no mar, carregando ouro e toda riqueza antiga,
11 e a pôr feitores e cobradores de impostos sobre sessenta cidades em terra firme.
12 Pois que proveito há na multidão de coisas amadas e de prazeres? Vaidade são, obra de enganos.
13 Mas, depois que — para achar o que se quer, alcançar vigor e acrescentar elevação e altivez de cabeça — não te poupaste de pôr no meu alimento o veneno da negligência, com que assim me embriagaste, e as amarguras das invejas, com que assim me fartaste — vem, ouve a minha voz, eu te aconselharei:
14 Redobra a diligência sobre o estudo e sobre a busca do proveito, e apressa-te em tudo aquilo sobre cuja aquisição a tua mão dominar com justiça;
15 e mesmo após fadiga suportável, tudo o que a tua mão achar para fazer, com a tua força faze; não to impeça fraqueza de pensamento nem preguiça de mãos.
16 E abre os teus olhos, pois mais numerosos são os mortos do desespero e da preguiça de mãos — que a inação derrubou — do que os mortos do decreto gravado, o qual é o consolo dos tolos.
17 Confia, meu coração — depois do auge da confiança no teu Criador — no auxílio da diligência e na salvação do bom conselho, pois por elas é abençoado o homem.
18 E quando D'us abençoa o homem, envia o seu auxílio na sua obra, e tudo o que ele faz o Eterno faz prosperar. Poder-se-ia pensar que mesmo sentado e ocioso? — diz a Escritura: "em tudo o que fizeres".
19 E não te iluda a frouxidão e a preguiça com a ideia de que o tempo tem decretos fixados, tais que todo esforço diante deles é vão;
20 pois este é o conselho dos de coração tortuoso, que não o reconhecem nas suas almas.
21 Devolve-lhes bom senso e conhecimento, para iluminar diante deles a face dos esconderijos das trevas do seu tempo, e desimpedir diante dos seus olhos as veredas do seu mundo;
22 mas eles permanecem na escuridão dos acasos e das vicissitudes que sobrevêm,
23 como o cego que apalpa em frente ao sol, golpeados pela cegueira da tolice;
24 cansados de achar as portas do arrependimento, postas diante deles — e contudo, para eles ela está muito, muito longe de um homem como eles.
25 E agora, quando lhes aperta e veem o fim da destruição e da perdição, queixam-se do seu tempo e contra os seus superiores agitam a mão, para justificar o seu conselho insensato, dizendo:
26 "Inocentes somos — que havia a fazer? D'us decretou.
27 Que mais havia a fazer com força, poder e o conselho do intelecto, que não tenhamos feito?
28 Ora, mentira é a vanglória do herói no dia mau, e vã a salvação do homem no dia da ira.
29 Da boca do Altíssimo saem os males" — mas é para a mentira que esse versículo guardamos.
30 "O predeterminado é forçoso, e não há poder na nossa mão para afastá-lo; o decreto é verdade, e nós somos mentirosos."
31 Esta, com certeza, é a turma pobre da qual não convém ter compaixão, pela sua muita tolice — pois os espinhos estão aos seus lados e os abrolhos nos seus olhos, e ela não sabe o quê.
32 De que se queixa o homem — vivo, dotado de fala, ser animado que pode aproximar-se das coisas em seu proveito e guardar-se das que o prejudicam; e dotado de intelecto, para multiplicar engenhos e estratagemas, ajustando e afastando o útil e o nocivo dentre elas —
33 quanto aos golpes que o atingem pela obra das suas próprias mãos, de modo que a obra não seja aceita e a sua tarefa seja posta em interdito e não prospere,
34 depois que, com a sua própria intenção, roubou o tesouro da sua vitalidade e sobrecarregou, com o peso da preguiça, a leveza do seu movimento,
35 e depois que, com a sua própria mente, arruinou a sua mente, e com a sua própria vontade entorpeceu as suas mãos — para atrair sobre si, com as suas duas mãos, o mal?
36 Por isso, meu coração, não te bastará entregar as obras ao tempo, sem a correção do teu planejamento.
37 E a bondade do conselho, também ela é vaidade, sem a força da diligência na execução da obra.
38 E a união de ambos, nos escritos da profecia, chama-se "espírito de conselho e poder".
39 E eis que o intelecto do preguiçoso é como as asas da formiga e como a tocha na mão do cego: ambos só acrescentam carga aos seus donos — não para ajuda nem para proveito.
40 E sabe agora e vê que, sendo tu filho do homem, D'us te pôs supremo sobre todos os eventos sujeitos à escolha.
41 E quando vires que os teus céus são mais altos que tu, e olhares as estrelas sublimes, que se elevaram — não imagines nem penses que a tua vontade está sob os juízos delas, que os antigos demarcaram.
42 A ti, somente a ti, foi dada a terra, e eles não têm nela domínio; e a necessidade, em tudo o que possui, depende inteiramente da escolha.
43 Pois escolhes e aproximas caminhos comparados e trilhas pesadas — em número, em peso, para tudo.
44 Não reservaste para ti bênçãos, pela conta dos teus planejadores e a bondade do seu equilíbrio?
45 Pois para os teus atos há lembrança, e da parte de D'us soubeste coisas contadas.
46 E se vindimas as vinhas dos teus desígnios e levas a cabo os teus feitos como homem atordoado, e como quem age ao acaso — sem exame, sem entendimento —
47 e aquilo que o acaso puser na tua boca, isso falas, e a ele te apegas:
48 vê: hoje envergonhaste a minha face — a face dos que vão à batalha para tomar despojo, para encher câmaras — e a precipitação da pressa devolveu-me de mãos vazias.
49 Pois escolhes os que me punem, para a tua vergonha e também para o meu opróbrio;
50 e os meus demolidores e os meus destruidores saíram de ti e de mim.
51 E que pensarei eu, então, ser o decreto dos vigias sobre o ressecar do lírio do meu Sharon,
52 quando, no sono profundo da minha preguiça, sonhei um sonho — e já que não há para D'us interpretações que nos isentem: sobre nós recaem as nossas queixas, não sobre o Eterno.
Depois de quinze capítulos que poderiam sugerir resignação diante de um mundo e de um tempo incontroláveis, o capítulo 16 corrige o curso: a passividade fatalista é, ela mesma, um pecado. O verso 16 é a tese central — "mais numerosos são os mortos do desespero e da preguiça do que os mortos do decreto gravado, o qual é o consolo dos tolos". A crença de que "tudo está decretado" não é piedade, mas álibi para a inação.
O capítulo distingue duas faculdades e mostra que nenhuma basta sozinha: o bom conselho sem a diligência é vaidade (v. 37), e a diligência sem conselho é cega. A sua união é o que a profecia chama "espírito de conselho e poder" (ruach etzah ugevurah, v. 38, de Yeshayahu 11:2, atributo do messias). O versículo 39 ilustra o conselho sem ação com dois provérbios: "as asas da formiga" (que, segundo o dito talmúdico, lhe nascem para a sua perdição) e "a tocha na mão do cego" — instrumentos que só pesam, sem servir.
O versículo 18 emprega a forma de uma derashá talmúdica: poder-se-ia pensar que a bênção divina vem mesmo a quem fica "sentado e ocioso"? "Diz a Escritura: em tudo o que fizeres" (Devarim 15:18, "e o Eterno te abençoará em tudo o que fizeres"). A bênção é prometida à ação, não à passividade — princípio que a tradição resume em "não se deve confiar no milagre".
O núcleo filosófico (vv. 40–42) afirma a liberdade humana contra o determinismo astrológico: "a ti, somente a ti, foi dada a terra, e os astros não têm nela domínio" (v. 42). O homem foi posto "supremo sobre todos os eventos sujeitos à escolha" (v. 40). Ainda que os corpos celestes sejam mais altos, a vontade humana não está submetida aos seus "juízos" — ein mazal le-Yisrael, na formulação talmúdica (Shabat 156a). O fecho (v. 52) reescreve, invertendo-as, duas falas bíblicas: a de José, "não pertencem a D'us as interpretações?" (Bereshit 40:8), e a de Moisés, "não são contra nós as vossas murmurações, mas contra o Eterno" (Shemot 16:8) — aqui voltada do avesso: sobre nós recaem as nossas queixas, não sobre o Eterno. A responsabilidade é do homem.
O capítulo final fecha o livro com um chamado a buscar os sábios e, em seguida, um credo conciso — a existência, a unidade e a incorporeidade de D'us; os anjos e o intelecto agente; a eleição de Israel e a Torá; o exílio, a redenção e a ressurreição. A obra termina alinhando-se explicitamente a Maimônides e com as palavras "ao Eterno teu D'us temerás".
1 Meu coração, meu coração: vai aos sábios e deseja as suas iguarias.
2 Sê quem ajunta as suas veredas como um dique, e como quem enfeixa carregarás os seus nomes.
3 Isto faze, faze: mama das suas delícias amadas e dos seus segredos.
4 A sua benevolência te irritará, para que invejes a sua força; e a sua ira te agradará, para servires o seu serviço.
5 Recebe, pois, bênção sobre a sua repreensão, e alegra-te, meu coração, como por toda riqueza, na sua reprimenda.
6 Pois jorros de salvação se difundirão para ti das suas fontes, e sobre as raízes da verdade firmar-se-á o teu coração, a partir das mais leves das suas conversas.
7 Meu coração, como o princípio de todos os teus caminhos, crê que há, sobre todo ser, quem é a sua causa; e o fim de todas as causas é uma só, que não se altera — é o Existente cuja perfeição não tem limite, e cuja menor parte o conhecimento de nenhum ser inteligente abarca.
8 E crê que ele não é corpo, nem força das nossas forças, misturada ou não misturada com a matéria.
9 E que ele é Um — não a unidade do número, mas tal que a multiplicidade e a divisão lhe são impossíveis por todos os lados.
10 E que os atributos de afirmação lhe são vedados, de modo a serem acréscimos a ele ou partes diversas dele.
11 E que ele tem conhecimento dos nossos particulares, para recompensar e repreender com juízo e com bondade, que são as duas partes da condução do Sábio.
12 E que ele é o Eterno, que nunca deixou de existir.
13 E que só a ele convém o serviço e a oração, e que tudo o que não é ele é criado e formado de novo, e indigno de ser servido.
14 E que existem anjos do Altíssimo, altos acima do alto, e santos desde o princípio do seu caminho, e nada têm com nuvem e névoa escura.
15 São eles os que o Eterno chama a habitar atrás dele, primeiros no reino; transmitem a subsistência aos primeiros dos corpos e aos seus mais nobres.
16 E que há entre eles um anjo intercessor, na mais baixa das suas hierarquias, que o seu Criador pôs por dispensador do nosso intelecto, debaixo dos céus do Eterno — dispensador da existência, da perfeição e da permanência da alma.
17 E que a criação humana é a escolhida de todos os seres que mudam por sua essência; mas todo ser eterno no seu indivíduo é mais nobre que ela.
18 E que a semente de Israel, a congregação do Eterno, o rebanho do seu pasto, é a escolha do humano e o tesouro do homem.
19 Foi, por causa disto, a condução e a atenção sobre os seus atos mais forte e singular.
20 E, pela compaixão do Eterno sobre eles e pelo amor dos seus pais, foram distinguidos com a sua Torá santa, que não se altera —
21 Lei dada pelo Poderoso dos pastores, que é o Senhor de todos os profetas que jamais existiram;
22 ainda numa terra escolhida, espaçosa, fonte de toda perfeição — verdadeira e imaginada;
23 ainda em sabedorias verdadeiras e conceitos puros, por causa dos quais foram chamados, no princípio, "povo entendido e sábio".
24 E que, depois disto, ao separar a espessura das nuvens dos seus pecados entre a luz divina e eles, quase se apagou sobre eles um pouco da claridade da providência, vindo a ser entregues aos acasos amargos e amaldiçoantes;
25 e a sua terra tornou-se desolação e opróbrio, e enfraqueceu neles o conhecimento da verdade da Torá e dos seus segredos, e ocultou-se a sua sabedoria e o seu entendimento;
26 e fortaleceu-se sobre eles o castigo, até que se tornaram desprezados e odiados, dispersos nas terras das nações para onde foram transferidos.
27 E que, depois disto, no que há de vir do tempo, voltarão todos os tesouros as qualidades especiais à sua essência primeira:
28 voltará o reino, brotará a sabedoria, fortalecer-se-á a providência, e iluminar-se-ão os olhos dos corações nas câmaras dos segredos da Torá, quando o Eterno fizer voltar o cativeiro do seu povo — e os nossos olhos verão.
29 E o auge de todos os bens temporais será a vida dos mortos de Israel, nos seus corpos e nas suas almas primeiras, para mostrar neles a obra do Eterno, pois terrível ele é.
30 Em suma: quer te voltes à esquerda, meu coração, quer à direita, crê em tudo aquilo em que creu o último dos Geonim no tempo mas o primeiro em importância — o grande Rav, o Guia maior, nosso mestre Moshe, filho do grande Rav nosso mestre Maimon, de abençoada memória, a quem não há comparável entre todos os sábios de Israel após o selamento do Talmud.
31 Nisto eu confio: que, em todas as câmaras da sabedoria e da Torá, "ao Eterno teu D'us temerás".
O capítulo final condensa, em forma de profissão de fé dirigida ao próprio coração, os princípios fundamentais da teologia judaica medieval — em estreito paralelo com os Treze Princípios de Maimônides. Os versículos 7–13 enunciam: a existência de D'us como Causa Primeira não causada (v. 7); a sua incorporeidade (v. 8); a sua unidade absoluta, não numérica (v. 9); a impossibilidade de atributos positivos — a teologia negativa (v. 10); a sua ciência dos particulares, base da recompensa e do castigo (v. 11); a sua eternidade (v. 12); e que só a ele se dirigem o serviço e a oração (v. 13).
O versículo 16 descreve, em linguagem velada, o intelecto agente (sekhel ha-poel) da filosofia aristotélico-árabe: "um anjo intercessor, na mais baixa das hierarquias", que dispensa ao intelecto humano "a existência, a perfeição e a permanência". É a décima das inteligências separadas, que para Maimônides corresponde ao anjo que medeia entre o mundo celeste e o humano e torna possível o conhecimento. A imortalidade da alma (ha-hisha'er) depende dessa conjunção com o intelecto agente.
A segunda metade do credo trata da história sagrada: a eleição de Israel (v. 18), a Torá imutável dada por Moisés, "o Senhor de todos os profetas" (v. 21), a Terra de Israel (v. 22). Segue o exílio como obscurecimento — não cessação — da providência, causado pelos próprios pecados que se interpõem "como nuvens espessas" entre a luz divina e o povo (v. 24). E a restauração futura (vv. 27–28), culminando na ressurreição dos mortos "nos seus corpos e nas suas almas primeiras" (v. 29) — coerente com o décimo terceiro princípio de Maimônides. O verso 28 cita Tehillim 126, "quando o Eterno fizer voltar o cativeiro do seu povo".
A obra encerra-se com uma das mais célebres declarações de lealdade filosófica da literatura judaica: o autor professa crer em tudo o que creu "o último dos Geonim no tempo, mas o primeiro em importância" — Maimônides (o Rambam), "a quem não há comparável... após o selamento do Talmud" (v. 30). E o derradeiro versículo do livro dá a chave de toda a obra: não há contradição entre a investigação filosófica e a piedade, pois "em todas as câmaras da sabedoria e da Torá — ao Eterno teu D'us temerás" (v. 31, de Devarim 6:13). A bechinat olam — o exame do mundo — não conduz ao ceticismo, mas ao temor reverente: é toda ela um caminho para essa palavra final.