APOLOGÉTICA · הֲגָנָה

Samaritanos: A Nova Mentira

Uma corrente crescente nas redes sociais afirma que os samaritanos são "os israelitas originais" e que sua tradição precede o judaísmo rabínico. Esta afirmação é histórica e halachicamente falsa — e este artigo demonstra por quê.

Rav Y. Lopes 26 de julho de 2016

Nas redes sociais, especialmente em fóruns dedicados à "israelologia" e a movimentos de retorno às raízes hebraicas, prolifera nos últimos anos uma afirmação que soa erudita: os samaritanos seriam os verdadeiros descendentes das tribos do norte de Israel, guardiões de uma tradição mais antiga e pura do que o judaísmo rabínico. O argumento, em suas versões mais elaboradas, sugere que os judeus — descendentes da tribo de Yehudá — corromperam a fé original de Moshé com "invenções rabínicas", ao passo que os samaritanos teriam preservado a Torá em sua forma genuína.

Esta narrativa é duplamente falsa: tanto do ponto de vista histórico quanto do ponto de vista halachico. O judaísmo possui fontes primárias extensas e precisas sobre o assunto — o Tanach, o Talmud e os posekim (decisores halachicos) trataram da questão dos Kutim (כּוּתִים, o nome hebraico dos samaritanos) com rigor considerável. O que emerge dessas fontes destrói a premissa do argumento.

Contexto histórico: a divisão do reino e a queda do norte

Para compreender quem são os samaritanos, é necessário recuar ao ano 930 AEC aproximadamente, quando, após a morte do Rei Shlomó (Salomão), o Reino de Israel se dividiu em dois: o Reino de Yehudá ao sul (composto principalmente pelas tribos de Yehudá e Binyamin, com Jerusalém como capital) e o Reino de Israel ao norte (as chamadas "Dez Tribos", com capital em Shomron — Samaria).

O Reino do Norte mergulhou rapidamente na idolatria. Seus primeiros reis — especialmente Yerovam — erigiram bezerros de ouro em Beit El e Dan para impedir o povo de peregrinar ao Templo em Jerusalém. Os profetas Eliyahu, Elisha, Hoshea e Amós pregaram incansavelmente contra essa apostasia, mas o reino continuou em seu caminho.

Em 722 AEC, o rei assírio Sargão II completou a conquista do Reino do Norte, deportando a maior parte da população israelita para a Mesopotâmia e outras regiões do Império Assírio — o evento conhecido como o exílio das Dez Tribos:

וַיָּבֵא מֶלֶךְ-אַשּׁוּר מִבָּבֶל וּמִכּוּתָה וּמֵעַוָּא וּמֵחֲמָת וּסְפַרְוַיִם וַיֹּשֶׁב בְּעָרֵי שֹׁמְרוֹן תַּחַת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל "E o rei da Assíria trouxe gente de Babel, de Cuta, de Ava, de Hamat e de Sefarvaim e os assentou nas cidades de Samaria, em lugar dos filhos de Israel" — 2 Melachim (Reis) 17:24

O texto bíblico é inequívoco: a terra foi repopulada com povos de cinco regiões diferentes do Império Assírio — todos estrangeiros, sem nenhuma relação genealógica com Israel. A afirmação de que os samaritanos são descendentes das tribos do norte não tem base nas fontes primárias; ao contrário, o próprio Tanach registra a substituição populacional.

A religião sincrética dos colonos assírios

Esses colonos trouxeram consigo seus próprios deuses e práticas religiosas. Quando feras selvagens começaram a atacá-los — interpretado como castigo divino pela falta de culto ao D'us local — o rei da Assíria enviou um sacerdote israelita deportado para ensinar-lhes "o culto do D'us da terra". O resultado foi um sincretismo explicitamente documentado pelo Tanach:

אֶת-ה' הָיוּ יְרֵאִים וְאֶת-אֱלֹהֵיהֶם הָיוּ עֹבְדִים "Eles temiam o Eterno mas serviam aos seus próprios deuses" — 2 Melachim (Reis) 17:33

Esta é a origem precisa da religião samaritana: não a preservação fiel de uma tradição israelita, mas um culto híbrido no qual elementos da prática hebraica local foram enxertados sobre as religiões pagãs que os colonos trouxeram de Babilônia, Cuta e demais regiões. A palavra hebraica para "samaritano" — Kuti (כּוּתִי) — é, reveladoramente, derivada do nome de uma dessas cidades de origem, Cuta.

A decisão talmúdica sobre os Kutim

O Talmud Bavli registra um debate detalhado sobre o status halachico dos samaritanos — debate este que em si mesmo demonstra a seriedade com que os sábios trataram a questão. Inicialmente, alguns Tanaim (sábios do período da Mishná) sustentavam que os samaritanos deveriam ser tratados como convertidos genuínos (gerei emet), na medida em que observavam certos preceitos da Torá com rigor que rivalizava com o de muitos judeus.

O Rabi Meir, por exemplo, era famoso por sua posição positiva em relação à observância samaritana em determinadas áreas. Outros sábios eram mais cautelosos. O debate girava em torno de uma questão central: a conversão dos samaritanos ao culto do D'us de Israel foi genuína, ou foi motivada pelo medo de leões?

A passagem de 2 Melachim 17:25–26 relata que D'us enviou leões que matavam os colonos assírios que não cumpriam "o culto do D'us da terra". Eles passaram a observar certas práticas não por amor a D'us, mas por temor de consequências físicas imediatas. Esta distinção é halachicamente crucial: uma conversão válida requer aceitação do jugo dos mandamentos (kabbalat ol mitzvot) por convicção, não por coerção ou interesse próprio.

Talmud Bavli · Chullin 6a

A Guemara estabelece o princípio definitivo: סְתָם כּוּתִי כְּגוֹי — "Um samaritano ordinário é como um não-judeu." Esta conclusão emergiu quando ficou estabelecido que os samaritanos haviam esculpido uma imagem do pombo no cume do Monte Gerizim e adoravam-na — evidência de que sua conversão nunca havia sido genuína e que o sincretismo original persistia. A partir desta constatação, a posição permissiva dos sábios anteriores foi revogada.

O mesmo debate é desenvolvido em Kiddushin 75b, onde a questão da origem genealógica dos Kutim é examinada com cuidado. A conclusão é consistente: os samaritanos não são parte de Am Yisrael halachicamente definido.

Rambam · Hilchot Issurei Bi'ah

O Rambam (Rav Moshé ben Maimon, 1138–1204) codifica a decisão definitiva: os samaritanos (Kutim) não são judeus. Sua "conversão" foi motivada pelo medo de leões, não por amor ao Criador — e uma conversão nascida do interesse próprio não é válida segundo a Halachá. Além disso, a mistura com povos não-israelitas ao longo dos séculos tornou impossível estabelecer qualquer linhagem israelita verificável entre eles.

O que os samaritanos creem e praticam

Para além da questão genealógica, o exame das crenças e práticas samaritanas deixa ainda mais claro por que não podem ser considerados parte do povo judeu:

  • Cânon restrito: Os samaritanos aceitam apenas os Chamisha Chumshei Torah — os cinco livros de Moshé — rejeitando inteiramente os Nevi'im (Profetas), os Ketuvim (Escritos) e toda a Torá Oral. Isaías, Jeremias, Ezequiel, os Salmos, Daniel — nada disso faz parte de seu cânon.
  • Texto diferente: O rolo da Torá samaritano usa o antigo script paleo-hebraico (כְּתָב עִבְרִי) e contém milhares de variantes textuais em relação ao texto massorético (o texto hebraico preservado pela tradição judaica). Muitas dessas variantes parecem ser alterações deliberadas para legitimar suas posições teológicas — especialmente as relativas ao Monte Gerizim.
  • Monte Gerizim, não Jerusalém: Para os samaritanos, o local escolhido por D'us para Seu Templo não é Jerusalém, mas o Monte Gerizim, próximo a Shechem (a atual Nablus). Eles até alteraram o Décimo Mandamento em seu Pentateuco para incluir a obrigação de construir um altar em Gerizim. Esta é uma diferença teológica fundamental, não um detalhe periférico.
  • Calendário próprio: Os samaritanos utilizam um calendário distinto, calculado de maneira diferente da tradição judaica, o que resulta em festas observadas em datas diferentes.
  • Rejeição da autoridade rabínica: Os samaritanos rejeitam completamente o desenvolvimento halachico do judaísmo rabínico — não reconhecem o Talmud, os Rishonim, os Acharonim, nem qualquer poseik.

Por que rejeitar a Torá Oral inviabiliza qualquer pretensão de autenticidade

Os defensores da "autenticidade samaritana" frequentemente apresentam a rejeição da Torá Oral como uma virtude — como se os samaritanos seguissem a Torá "em sua forma pura", sem "acréscimos rabínicos". Este argumento revela uma incompreensão fundamental da natureza da Torá.

A Torá Escrita e a Torá Oral foram transmitidas simultaneamente em Sinai. A Torá Escrita é, por sua natureza, incompleta sem a Oral: ela ordena "e atarás como sinal sobre tua mão" — mas em nenhum lugar especifica o que atar, onde atar, com que material ou de que forma. Ela proíbe trabalho no Shabat — mas em nenhum lugar define o que constitui "trabalho". Ela prescreve as leis da shechitá (abate ritual) — mas não contém uma única instrução sobre como realizar o abate. Ela menciona frangipani em determinadas festas sem explicar o que é.

Quem diz "aceito a Torá Escrita mas rejeito a Torá Oral" está, na prática, seguindo suas próprias interpretações inventadas da Torá Escrita — não a Torá em si. Os samaritanos não são uma alternativa mais "original" ao judaísmo rabínico; são uma versão que rompeu com a cadeia de transmissão (mesorah) e substituiu a tradição recebida por suas próprias inovações.

Este ponto é especialmente significativo porque o argumento da "autenticidade samaritana" costuma ser invocado precisamente por pessoas que querem deslegitimar a Torá Oral rabínica. Mas se a crítica ao rabinismo é que ele "acrescentou" à Torá, o mesmo vale para os samaritanos — exceto que eles fizeram isso sem nenhuma das garantias de continuidade e transmissão que caracterizam a tradição judaica.

A afirmação de "israelitas originais": por que é duplamente falsa

A tese de que os samaritanos são "os israelitas originais" falha em dois níveis distintos:

1
No plano genealógico Como demonstrado acima, a maioria dos samaritanos descende dos colonos assírios trazidos para a região após 722 AEC — não dos israelitas deportados. O Tanach é explícito: a terra foi esvaziada de israelitas e repopulada com estrangeiros. Não há base textual ou arqueológica sólida para a afirmação de continuidade genealógica com as tribos do norte.
2
No plano da continuidade halachica Mesmo que alguns indivíduos com ancestralidade israelita parcial tivessem se misturado à população samaritana ao longo dos séculos — o que é possível — isso não bastaria para conferir status de Am Yisrael. A identidade judaica é definida pela halachá, não apenas pela biologia. A linha válida de Am Yisrael manteve-se através das comunidades que preservaram a Torá escrita e oral, a cadeia de transmissão e a observância halachica — e esta linha passou pela tribo de Yehudá e pelas comunidades do exílio babilônico que retornaram com Ezra e Nechemyah.

É significativo que quando Ezra e Nechemyah lideraram o retorno do exílio babilônico para a Terra de Israel (século V AEC), os samaritanos tentaram se envolver na reconstrução do Templo — e foram explicitamente rejeitados pelos líderes judeus. O Livro de Ezra (4:1–3) registra esta rejeição: "Não há parte para vós conosco em edificar a Casa ao nosso D'us." Os próprios líderes da época, profeticamente inspirados, já faziam esta distinção.

Contexto contemporâneo

Hoje existem aproximadamente 800 samaritanos no mundo, divididos em duas comunidades: uma em Kiryat Luza, no Monte Gerizim (próximo a Nablus, nos territórios administrados pela Autoridade Palestina), e outra em Holon, Israel. É uma das menores comunidades religiosas do mundo, às beiras da extinção demográfica — um destino trágico para qualquer grupo humano.

Sua existência é de grande interesse histórico, arqueológico e etnográfico. Os estudiosos da Bíblia Hebraica utilizam o Pentateuco Samaritano como uma das versões textuais para fins de crítica textual. Os samaritanos preservam práticas antigas que podem lançar luz sobre usos do período do Segundo Templo. Tudo isso tem valor acadêmico legítimo.

O que não tem base — nem histórica, nem halachica — é a afirmação de que representam uma alternativa legítima ao judaísmo, ou que seu exemplo deveria ser invocado para questionar a autoridade da Torá Oral. Essas afirmações, populares em certos círculos da internet, confundem interesse arqueológico com legitimidade religiosa.

Conclusão

O caso dos samaritanos é, de certa forma, o caso mais bem documentado de sincretismo religioso na história bíblica. O próprio Tanach descreve sua origem, sua motivação e sua natureza híbrida. O Talmud debateu exaustivamente seu status e chegou a uma conclusão clara. Os grandes posekim — o Rambam à frente — codificaram essa conclusão.

A narrativa de que os samaritanos são "israelitas originais" que preservam uma fé mais pura que o judaísmo rabínico é uma inversão da história: ela confunde os colonos com os colonizados, o sincretismo com a tradição, e a ruptura com a continuidade. Serve, em última instância, para minar a autoridade da Torá Oral — que é exatamente o objetivo de quem propaga essa narrativa.

Para quem se interessa genuinamente pelas origens do povo judeu e da Torá, o caminho é o estudo das fontes primárias em sua língua original: o Tanach, o Talmud, e os grandes comentaristas da tradição. Essas fontes falam com clareza sobre quem é Am Yisrael — e os samaritanos, por sua própria história e por suas próprias escolhas, não fazem parte dessa definição.


Fontes principais

  • Tanach — 2 Melachim (Reis) 17:6–41
  • Tanach — Ezra 4:1–3
  • Talmud Bavli — Chullin 6a (status halachico dos Kutim)
  • Talmud Bavli — Kiddushin 75b (genealogia dos Kutim)
  • Rambam, Mishneh Torah — Hilchot Issurei Bi'ah (sobre a linhagem samaritana)
  • Rambam, Mishneh Torah — Hilchot Melachim 8:10
  • Moshe Tzvi Segal, The Samaritan Book of the Pentateuch and the Hebrew Bible
  • James D. Purvis, The Samaritan Pentateuch and the Origin of the Samaritan Sect