BS’D

O Som de D’us no Jardim

… E viu a mulher que a árvore era boa para comer, desejável para os olhos e cobiçável a árvore para entender o bem e o mal, e tomou do seu fruto e comeu, e deu também a seu marido, que estava com ela, e ele comeu.  E os olhos de ambos foram abertos e souberam que estavam nus; e coseram folhas de figueira e fizeram para si cintos.  Então ouviram a voz do Eterno Deus, que passeava no jardim, no soprar do dia, e o homem e sua mulher se esconderam da presença do Eterno Deus entre as árvores do jardim.  E o Eterno Deus chamou ao homem e lhe disse: “Onde estás?” – e ele respondeu: Ouvi a Tua voz no jardim e tive medo, por estar nu, e me escondi. E disse: “Quem te disse que estás nu? Por acaso comeste da árvore da qual te ordenei não comer?” – e o homem disse: A mulher que deste para mim, ela me deu da árvore e comi. E o Eterno Deus disse à mulher: “Que fizeste?” – e a mulher respondeu: A serpente me enganou e comi. (Bereshit 3: 6-13).”

D’us, por fim, pune a cobra, em seguida, a mulher, e então o homem. No entanto, o foco está nos versos acima, o que ocorreu antes das punições. Depois de comer o fruto proibido, Adam e Eva “Então ouviram a voz do Eterno D’us, que passeava no jardim” … e eles ouviram isto “na direção do pôr do Sol (Bereshit 3: 8).” Há muitas perguntas:
l) Será que eles realmente ouviram uma voz? Se assim for, o que D’us estava dizendo? O versículo não ensina de quaisquer palavras ou frases.
2) Qual é o significado de ouvir D’us no “soprar do dia”?
3) Por que repetir que D’us estava no jardim, e acrescentar “no meio das árvores”?
4) Por que é que a voz de D’us só aparece “depois” da transgressão?
5) Deus questiona Eva depois de Adam culpa-la, e D’us então pune a cobra depois que Eva a culpa. Por que D’us parece aceitar a culpa de Adam a princípio, e em seguida, não aceita Eva culpar a serpente?
6) Por que eles transferiram anto a culpa?
7) D’us alertou Cain sobre o seu dilema interior, que ele poderia dominá-lo. Por que Deus não alertou Adam e Eva antes da sua transgressão?

Começamos a aprender que, após a transgressão, o homem e a mulher receberam novos conhecimentos, demonstrado pelas palavras “seus olhos foram abertos”. Desde o início desta parte da Torah, esta metáfora é empregada, “olhos abertos” certamente se refere ao conhecimento, e não literalmente ao abrir de pálpebras (acordar). Assim, outros metáfora podem ser identificadas . O “soprar do dia” é literal, referindo-se ao escurecimento da luz do dia, ao entardecer, quando o sol se põe. Mas aqui é há uma lição … Durante a transição da luz do dia para a escuridão, um contraste se apresenta ao homem. Este homem é levado para distinguir os períodos, e refletir sobre ambas as partes do dia. Ele, então, revisa suas ações; o homem refletiu sobre sua desobediência.   Ibn Ezra diz que isso significa que eles se arrependeram. D’us estava para cumprir a Sua Palavra de puni-los. O homem percebendo que D’us vinha em “sua direção” no jardim; sentiu remorso e este remorso foi seguido pelo senso de nudez. O remorso faz parte do corpo recém-nascido da moralidade, que passou a fazer parte do homem uma vez que ele pecou. Essa moralidade tem a intenção de oferecer ao homem um sistema secundário de abstenção do pecado. Se a razão por si só não iria parar o homem do pecado, seria esperado que um senso de sentimento envolvendo o certo e errado o auxiliasse. Após transgredirem, o homem e a mulher receberam uma nova consciência, uma consciência que não possuíam anteriormente. Isso explica por que eles passaram a ter vergonha de sua nudez.

Como o dia acalmou, o homem refletiu, e com a sua nova consciência, então ele percebeu seu erro que nos foi transmitido pela expressão no sentido de “ouvir uma voz.” Voz não se refere apenas a palavras, mas também para “compreensão”. Da mesma forma no Sinai, Rambam ensina que os judeus não ouviram palavra alguma, apenas uma voz ou um som, com base no verso “voz de assuntos vocês ouviram קול דברים אתם שמעים  (Devarim. 4:12).” Não vemos no relato do Jardim, “D’us falando e passeando” . Nem Deus pode ser localizado em qualquer lugar; nem no céu, na terra, nem “dentro” do jardim. Ouvir uma voz no jardim significa que o homem entendeu que ele violou as recomendações de D’us, que conhece todas as ações do homem, como se Ele estivesse “no jardim”, e agora seria aplicado o castigo cabível à sua transgressão.

Transgressão e a negação de D’us

“e o homem e sua mulher se esconderam da presença do Eterno D’us entre as árvores do jardim”

Observe na segunda metade desse versículo, Deus é visto como entre as “árvores” do jardim, e não simplesmente “no jardim”, como na primeira metade do verso. “entre as árvores do jardim” transmite que D’us está ciente de suas árvores, incluindo a árvore proibida, que agora está faltando alguns dos seus frutos.

Isto ensina uma lição fundamental: até que eles viessem a transgredir, o homem e a mulher não se lembravam que eles estavam diante de D’us em todos os momentos. D’us não estava “no jardim”, enquanto eles pecaram. Sim para ocorrer a transgressão é necessario que haja uma negação de D’us e de que Ele está nos assistindo. Não se pode pecar se sente que está diante de D’us. Isso explica por que o homem só contemplou D’us “depois” do pecado.

O Rei Shlomo ensina ” Que sejam sempre alvas as tuas vestes (Kohelet 9: 8).” O rei ensina que deve abster-se do pecado (vestes manchadas) em todos os momentos. E assim também encontramos na Mishnah, que para afastar-nos da transgressão devemos ter em mente que D’us registra tudo. Mas o homem e a mulher foram capazes de negar a presença de D’us, justamente como fazemos hoje quando nos encaminhamos para o erro.

O mais surpreendente de tudo isso é o método de transmitir o raciocínio do homem posterior ao seu erro. Ele é descrita como “D’us passeava no jardim” – um fenômeno externo ao homem. Da mesma forma, homem e mulher culpam um ao outro quando D’us pergunta sobre seu pecado. E mesmo D’us inicialmente segue o fluxo da culpa, parecendo aceitar inicialmente a sua transferência dela, buscando uma resposta da parte acusada: o homem culpa a mulher, e D’us se vira para ela e pergunta a ela. A mulher culpa a serpente, e D’us a aborda. Homem e mulher são punidos após isso, mas a princípio, D’us havia aceitado a transferência de sua culpa. Estes atos de transferência de culpa são significativos o suficiente para que D’us os registrasse em Sua Torá, e, novamente,também é registrado o sentimento do homem posterior ao pecado, como ouvir “D’us passeando no Jardim”, um fenômeno natural, em vez de descrever o remorso do homem. Esta situação é confirmada por D’us estar “no meio das árvores do jardim.” Que lição é essa?

Mas, mesmo com o remorso, o homem não se arrepende até que D’us chama-o: “Onde você está?” Deus permite ao homem acreditar que ele tem escondeu-se com sucesso, assim como D’us perguntou a Cain”onde está Abel”, e perguntou a Bilam “Quem são esses homens?”
Os Rabinos nos ensinam que D’us não acusa o homem constantemente (o que seria muito estressante). E mesmo quando Adam responde, ele não confessa seu pecado de imediato, mas diz que ele estava escondido devido a sua nudez. É só depois de D’us perguntar se ele comeu do fruto proibido, que o homem confessou o ato, e, mesmo assim, ele transferiu a culpa à mulher. Em contraste com o homem e mulher que D’us não avisou-os antes de pecar, encontramos que D’us em outra ocasião alertou Cain antes de ele matar seu irmão. Além disso, Deus informa a Cain que ele pode governar sobre seu desejo de pecado. Aqui, há uma identificação de partes do homem alheias aos seus desejos de transgressão, separada do próprio homem. Cain – e não seus pais – foi advertido, devido à sua pouca idade, ou devido à maior auto-consciência de seu mundo interno (instintos), ou era, talvez, a sua concepção humana diferente da que os seus pais tinham?

As respostas a todas estas perguntas podem ser encontradas na diferença de concepção entre o primeiro homem e a primeira mulher, e todas as pessoas subsequentes.

Antes eles pecassem, o impulso instintivo não era uma parte interna de sua composição. Antes do pecado, só quando o homem via sua esposa, ficava estava sexualmente atraído. Caso contrário, ele estava muito envolvido em sabedoria, e sua imaginação não fluía naturalmente para seus instintos, sem os estímulos externos os seus instintos não fluíam como os nossos instintos comportam-se hoje. Hoje, a nossa imaginação é forte, e está ligado aos nossos instintos de juventude, como D’us diz: “pois o impulso do coração do homem é mau desde sua mocidade (Bereshit 8:21).” Isso significa que houve uma mudança em comparação com Adam e Eva, a todos os seus descendentes. Adam e Eva não possuíam um impulso instintivo internalizado. Isto é difícil para nós imaginarmos, uma vez que todos sempre tivemos esta consciência; Nossos sentimentos sempre foram parte de nós. É difícil entender como seriamos se nós não tivéssemos estes impulsos internos e uma forte imaginação. No entanto, este foi o estado do homem antes do pecado.

Isso explicaria por que depois do pecado, o homem passou a observar o “mundo externo” como diferente, como “D’us se movendo no jardim”, e não a si mesmo com uma ótica diferente (reflexão interna da culpa). Adam ainda não conhecia esta nova parte, interna de sua natureza. Isso explica por que ele culpou a mulher, e por que ela culpou a serpente, e por que D’us aceitou sua culpa. Eles ainda não tinham compreendido a mudança em sua composição psicológica. Portanto, eles só reconheciam o mundo externo, e era  justificável transferir a culpa à algo mais além do seu próprio pecado. Isso é muito significativo, então D’us registra o fluxo da culpa. Deus também momentaneamente aceitou a transferência da culpa pois era como compreendiam até o momento, não estavam pronto para apreciar a sua nova consciência. No entanto, Cainnasceu com os instintos, e poderia entender a advertência de D’us e controlar seus impulsos internos. É por isso que Deus adverte Cain, mas não o seus
pais.
Qualquer que seja a explicação que você aceita, devemos apreciar a inclusão nos detalhes desta história, as muitas perguntas, e o significado de D’us registrar o fato de que o homem sentiu “D’us estava passeando no jardim.” O fato de a Torá não compartilhar todas as palavras da “voz de Deus”, adiciona pistas para o que não houve, de fato, nenhuma voz, mas que está transmitindo uma ideia diferente, como dissemos.

Shabat Shalom

Rav Y. Lopes

DO ORIGINAL EM INGLÊS: THE SECRETS OF THE BIBLE, RAV MOSHÉ BEN CHAYIM