בס’ד

Já a um certo tempo temos recebido uma série de dúvidas sobre assuntos da “mística judaica”e achamos por bem iniciar por uma lenda muito antiga, o Golem.

Basicamente, o Golem é uma criatura feita a partir de barro e em uma cerimônia restrita são pronunciados inúmeros Nomes de HKB”H, os 72 para ser mais preciso. A partir de então esta criatura tomaria vida, tornando-se um “humano sem alma” que os cabalistas seriam capazes de fazer..

  “É contada uma história de que o Gaon de Vilna estava no processo de fazer um Golem. Um anjo de Deus veio e disse ao Gaon de Vilna que não deveria continuar, e que ele deveria parar de fazer o Golem. Por quê? Porque o Gaon de Vilna ainda não era Bar Mitzvah!
Entretanto, ele já tinha 15 anos de idade  e já era um adulto de plano direito

É possivel levantar um sem número de argumentos que desqualificariam a ação de “criar um Golem” caso fosse possível.

Como pode o Homem fazer algo que H”S não instruiu?
Se é uma boa criação, porque HKB”H não o criou ele mesmo ou definiu como fazer?
Que propósito teria um ser Humano sem alma?
E logo, se ele não tem nenhuma alma, não teria nenhuma percepção de seu Criador, como os Rishonim explicam, que todos os membros do corpo humano foram criados unicamente para louvar a H”S. Assim, esta prática está em desacordo com as opiniões dos Rishonim. Por conseguinte a criação do Golem remove a noção de HKB”H como único Criador, e concede esta honra ao homem de igual maneira.

Qualquer que seja o argumento para a criação de uma criatura destas, não passam de ridículas, já que os próprios Rishonim concordam que o homem não tem qualquer poder sobre a Criação (Leia Saadia Gaon em seu livro Emunot v’Daot). Ele mostra racionalmente que o homem é um ser criado, e como tal não tem poder sequer sobre sua própria vida. Como então poderia ter sobre a vida de outra pessoa ou ser ao ponto de poder conceder vida a um Golem? Seria um absurdo e contrário às noções básicas do judaísmo. Não devemos simplesmente acreditar em histórias repetidas pelas massas ignorantes, só por serem bonitas. Devemos usar nossas mentes para raciocinar o que é justo e o que é verdade sem dar crédito à estas modinhas místicas de contos de fadas judaicos na internet.

Não se deixe enganar ao ponto de acreditar de que tudo que está impresso e publicado é verdade. Sim, muitas histórias de Golem foram publicadas, mas definitivamente nunca ocorreram. Histórias por si só não se comprovam em absoluto como verdadeiras. Ainda que todos os livros do mundo dissessem que 2+2=5 seria errado aceitá-lo. Aqui também é o mesmo caso.

Todos os Rishonim concordam que a prova física e visível é necessária para se crer em algo. A prova é uma exigência básica no judaísmo em todas as áreas. É um erro gravíssimo interpretar os Midrashim de forma literal, algo que os Rishonim foram categóricos em afirmar o contrário.  O Próprio filho de Rambam o Rabino Avraham Ben haRambam declarou na introdução do seu livro Eyin Yaakov, que as histórias fantasiosas do Talmud não devem ser tomadas literalmente. O Seu conteúdo é completamente verdadeiro, mas não devemos tomar alegorias como realidade.

Ao ir contra a opinião de grandes Rabinos como os citados, o resultado será um apego às coisas místicas,  quando você perceber as mentiras que são carregadas com elas, já que não poderão provar o que alegam como verdade, pois estão desprovidos destes “milagres”, seu caminho será abandonar o Judaísmo, já que sua visão de judaísmo estava completamente deturpada, buscando a verdade em mentiras e em fábulas criadas meramente para impressionar as pessoas.

Devemos, ao contrário,nos treinar a usar o raciocínio, e ver através destas fábulas, abandonar totalmente o mundo da fantasia, desenvolver um pensamento crítico e uma análise racional que nos beneficiará não somente em nosso caminho na Torah, mas em nossas vidas diárias.

O Mundo funciona de forma racional EXATAMENTE como foi projetado pelo Criador. A Torá nos instiga a usar nossas mentes, abandonar as falsidades e as mentiras que se enraizam na religião, mesmo na judaica.

Veja um exemplo de um caso explicado por um Rishonim:

Ibn Ezra (sobre Ex. 20: 1): “se encontrarmos em qualquer uma delas (mitzvot) algo que contradiz o senso comum, não é apropriado que devemos entendê-lo como explanado. Mas devemos consultar os livros dos Sábios de Abençoada Memória, para determinar se tal comando é uma metáfora. E se não encontrarmos nada escrito (por eles) é necessários buscar com toda a nossa capacidade, talvez possamos corrigi-la (determiná-la). Se não pudermos, em seguida, abandonamos o entendimento de que a mitzvah é como ela é [explanada na Torá], e devemos admitir que somos ignorantes sobre ela “.

Os inúmeros “judeus cabalistas” deveriam ensinar Judaísmo como os Rishonim o fizeram. Sem temas mágicos falsos, embebidos em superstição e promovedores de ignorância em seus ouvintes.

Devemos, contrário disso, nos ater às palavras dos nossos Sábios do Talmud e Rishonim, abandonar a crença em histórias ridiculas como esta. Eventualmente em questões Haláchicas, Chaza’l nos ensinaram que “esta e esta são palavras corretas”, mas não é assim neste caso, você deve usar seu intelecto para decidir o que é verdadeiro e correto.
Assim também devemos estar educados a identificar a verdade em todas as coisas quando às ouvimos, fugindo das mentiras quando depararmos com ela.

Quando profeta ou sonhador de sonhos se levantar no meio de ti, e te der um sinal ou prodígio,
E suceder o tal sinal ou prodígio, de que te houver falado, dizendo: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los;
Não ouvirás as palavras daquele profeta ou sonhador de sonhos; porquanto o Senhor vosso Deus vos prova, para saber se amais o Senhor vosso Deus com todo o vosso coração, e com toda a vossa alma.
Após o Senhor vosso Deus andareis, e a ele temereis, e os seus mandamentos guardareis, e a sua voz ouvireis, e a ele servireis, e a ele vos achegareis.
Deuteronômio 13:1-4

 

Continua:

Quando te incitar teu irmão, filho da tua mãe, ou teu filho, ou tua filha, ou a mulher do teu seio, ou teu amigo, que te é como a tua alma, dizendo-te em segredo: Vamos, e sirvamos a outros deuses que não conheceste, nem tu nem teus pais;
Dentre os deuses dos povos que estão em redor de vós, perto ou longe de ti, desde uma extremidade da terra até à outra extremidade;
Não consentirás com ele, nem o ouvirás; nem o teu olho o poupará, nem terás piedade dele, nem o esconderás;
Deuteronômio 13:6-8

Rav Y. Lopes

Baseado no original “Golem Another Mistake” do site www.mesora.org do Rav Moshé Ben Chaim.